A4
Notícia publicada em: Friday, April 02 @ 20:22:46 BRT
Tópico: Literatura


A4
S. Olegário de Carvalho Neto
Nasceu A4 e era exatamente igual às outras. ...ou quase: intimamente talvez tivesse lá umas diferenças.
Desde que chegaram ali, todas ...


Nasceu A4 e era exatamente igual às outras. ...ou quase: intimamente talvez tivesse lá umas diferenças.
Desde que chegaram ali, todas no mesmo pacote, sempre observou. No início não compreendeu bem: a primeira da pilha foi levada para a máquina e virou um contrato; a seguinte, uma petição (coisa mais chata!); a outra, uma carta comercial.
Depois ficou claro: cada uma tomava um rumo diferente. A vida era quase um sorteio.
Saber que tinha um destino sem saber exatamente qual, sempre foi seu maior problema. Quando a primeira da pilha era levada, aumentava sua angústia:
- Meu Deus, será que um dia eu vou ser uma petição? Um contrato, dependendo do valor, ainda teria uma certa graça, mas petição?!... Recibo, jamais! Nem com firma reconhecida.
Chegou a ver umas virarem rascunho: - Rascunho! Ora vejam só! Nem vida própria tiveram, coitadas! Além do mais, rascunho cheira a reencarnação. Tinha medo.
Às vezes sonhava em ser uma poesia (era tão romântica...). Carta-de-amor, tinha desistido, viu que tinham saído de moda. Comercial, jamais: “Conforme sua correspondência datada de...”, um horror!
E receita? Já imaginou terminar como receita de bolo? Uma terminou (Pobrezinha!): foi dobrada de qualquer jeito e esquecida num livro de culinária. Com ela - paranóia! - seria pior: em cima de um fogão, aquele calor terrível, respingada de margarina...
Tudo passou pela sua cabeça. Testamento: chique, mas muito fúnebre; abaixo-assinado: muito popular; tese de doutorado: não fazia gênero intelectual; lista-de-compras: de Natal... tudo bem, supermercado... jamais!
As de cima foram sendo levadas. Chegou o seu dia:
- Você vai gostar muito. Pega-se uma folha de papel, dobra-se assim... assim... mais uma vez... e pronto! Já viu avião mais bonito que este? Agora, é só jogar pela janela... e lá foi ela deslumbrada... ...em seu delicioso e insuspeito destino de, por alguns instantes, voar como os pássaros.






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