ESCRITA PSICANALÍTICA
Notícia publicada em: Thursday, April 01 @ 11:43:28 BRT
Tópico: Trabalhos


Em contraste, para Lacan, a escrita de Freud "permitiu que se falasse sobre o discurso inconsciente enquanto emergência de uma certa função significante. Simultaneamente esta mesma escrita impediu a verdade deste discurso de se apresentar, ao prendê-la às suas regras, em vez de possibilitar-lhe o funcionamento a partir dos seus limites". Por este motivo, "o discurso do inconsciente tem como obstáculo aquela lógica que se sustenta pela escrita"[3]. Outro analista francês, André Green, concorda com esta conclusão, de que "a escrita psicanalítica, por melhor que seja, sempre é não apenas enganadora para este que pratica a psicanálise, mas mutilada e mutilante para seu autor".

ESCRITA PSICANALÍTICA
Jansy Berndt de Souza Mello
2001[1]
                  
 
Na hora de escolher o título para este debate hesitei entre dois: a escrita em psicanálise e a escrita psicanalítica.  Falar sobre a escrita em psicanálise nos limitaria ao campo abrangido por aquilo que os próprios psicanalistas escrevem (ao relatarem suas observações clínicas, discussões teóricas e nas considerações sobre métodos e técnicas), partindo da hipótese limitadora de que só psicanalistas podem praticar este tipo de escrita. Falar sobre a escrita psicanalítica pareceu mais abrangente porque podemos nesta incluir escritores, filósofos, cientistas e poetas sem nos distanciarmos do nosso objetivo. No entanto, resta a dúvida: haverá uma escrita psicanalítica, distinta das outras escritas?
Quase todos conhecem os cartuns sobre psicanalistas, nos quais se vê um analisando deitado no divã e por trás dele, numa poltrona, um homem de terno e gravata,  óculos redondos e barba escura, anotando furiosamente em um bloco de notas.  O que está sendo escrito naquele bloquinho não pode deixar de ser uma...escrita psicanalítica!  Mas, claro, trata-se de uma caricatura do psicanalista e da escrita psicanalítica, pois esta não é simplesmente o registro de um discurso vivo.
O analista inglês Wilfred Bion considerava as palavras como instrumentos muito imprecisos na comunicação entre as pessoas e as via, também, como veículos insatisfatórios para a expressão dos pensamentos. Não apenas para este analista, como para boa parte da psicanálise anglo-saxã, principalmente os kleinianos, as palavras são um tipo de ferramenta que se tira de uma caixa[2].  Dentro deste enfoque, a escrita em psicanálise será como outra qualquer, com algumas expressões próprias a mais, para uso técnico.  O próprio Bion montou um sistema de notação peculiar para registrar o que se passa durante uma sessão de análise, inspirado na tabela periódica de Mendelejeff , na qual os diferentes níveis de evolução do pensamento devem ser plotados em dois eixos cartesianos formando uma grade. Ele faz parte dos que acreditam que a psicanálise é uma ciência, embora seu objeto seja inobservável fora da sessão, pois não pode ser apreendido sensorialmente. 
Em contraste,  para Lacan, a escrita de Freud "permitiu que se falasse sobre o discurso inconsciente enquanto emergência de uma certa função significante. Simultaneamente esta mesma escrita impediu a verdade deste discurso de se apresentar, ao prendê-la às suas regras, em vez de possibilitar-lhe o funcionamento a partir dos seus limites". Por este motivo, "o discurso do inconsciente tem como obstáculo aquela lógica que se sustenta pela escrita"[3]. Outro analista francês, André Green, concorda com esta conclusão, de que "a escrita psicanalítica, por melhor que seja, sempre é não apenas enganadora para este que pratica a psicanálise, mas mutilada e mutilante para seu autor".
Somos seres imersos na linguagem: nós utilizamos e produzimos linguagens. Uma cultura sem palavras não pode sequer ser imaginada. Supor que, em algum futuro remoto, seremos capazes de prescindir da linguagem para nos comunicarmos diretamente e de modo imediato é algo mais do que estranho, é assustador. No entanto, estou partindo da hipótese de que a escrita psicanalítica surge menos como uma maneira de comunicação entre duas ou mais pessoas do que como uma forma direta de expressão dos eventos, múltiplos e infindáveis, no mundo psíquico em sua conexão ao assim chamado "mundo exterior" . Estou trazendo também a hipótese, relacionada à primeira, de que lidamos com uma linguagem ainda não totalmente reconhecida ou explorada. 
Assim como há  psicanalistas que incluem sua produção analítica no campo da ciência, outros preferem considerar a psicanálise como sendo uma atividade mais próxima da arte. Conheço pouquíssimos analistas que sejam artistas e bons escritores embora continuem sendo excelentes profissionais. É que para existir e ser eficaz a psicanálise não depende da escrita, ao passo que a escrita psicanalítica pode ser exercida até por aqueles que não se interessam pela psicanálise.
Há quem tenha afirmado que  "se pode dizer tudo num poema", ou que a linguagem "é um vírus".  Não se pode dizer tudo na escrita psicanalítica, nem o que se escreve é livre bastante para ser qualquer. Também sua transmissão não é como a de um contágio  virótico porque ela não é auto-replicadora, mas transformadora.
A escrita automática dos surrealistas, ou a temática onírica de alguns dos seus quadros, por exemplo, pode sugerir uma proximidade ao que venho apresentando como sendo esta escrita.  No entanto, a escrita automática deixa fluir, de modo quase exclusivo, um rio associativo mais próximo do que se dá apenas no processo primário, ao passo que a pintura surrealista recria as imagens de sonho através de uma falsa regressão.  As múltiplas vozes em conflito ou harmonia que agilizam o movimento paralelo dos dois processos, primário e secundário, ao serem disciplinadas para atender a um projeto estético, se afastam do que move a escrita psicanalítica porque, apesar de aberta, seus efeitos vão além do individual enquanto preservam seu compromisso com a verdade inconsciente.  Ela não se prende aos paradigmas da ciência e da arte, apesar de freqüentá-los, principalmente porque ela não está regulada exclusivamente pelo princípio da realidade, nem pelo princípio do prazer ( insisto ainda no vocabulário freudiano[4]) ao tornar explícito o que estava apenas implícito.         
Hoje, ao contrário do que acontecia na época de Freud, achamos natural reconhecer que, quando pensamos não estamos apenas raciocinando ao nível da consciência porque existe este mar de idéias e sentimentos inconscientes deslizando em paralelo ao discurso consciente, algumas vezes pressionando para emergir e ganhar expressão num lapso ou, ainda às escondidas, através de uma metáfora.  Para praticarmos a escrita psicanalítica precisamos levar em conta estas duas correntezas de imagens e de palavras entendendo que uma delas segue por caminhos diferentes daqueles que regem a sintaxe e a lógica convencionais. Dificuldades como estas levaram André Green a concluir que " o inconsciente analisado diz que a linguagem é uma transcrição de origem desconhecida.  Escrever sobre psicanálise é repetir este gesto de transcrição sobre as inscrições de origem desconhecida, mas reduzindo/condensando a experiência do inconsciente ao material da linguagem gráfica".
A escrita psicanalítica não se encontra nos hieróglifos talhados na pedra ou na argila, nem ela se faz no papiro, no pergaminho ou  no papel. Ela começa a tomar forma na mente, porque esta escrita é uma "inscrita", ou seja, ela se produz a partir do registro mnêmico das experiências. No entanto, não é por esta via que chegaremos ao que lhe é peculiar, porque ela envolve outras funções além da memória. Ela provoca efeitos visíveis enquanto que, ao mesmo tempo, permanece em grande parte invisível. Suas sentenças podem atingir o corpo das formas mais inesperadas, ou se manifestarem quando adormecemos e as fronteiras entre  passado,  presente e  futuro foram desfeitas.
Há uma relação estreita entre a escrita psicanalítica e a memória sem qualquer dúvida, principalmente porque toda escrita é uma forma de memória. Aquilo que escrevemos pode ser  esquecido porque mas logo se torna recuperável quando lemos o que deixamos registrado.  No entanto, a operação com a memória que é peculiar ao que venho caracterizando como compondo a escrita psicanalítica, é diferente de uma rememoração desta ordem pois não é tanto a dimensão do reconhecimento, mas da evocação o que ali predomina.
No artigo O Mal-Estar na Civilização, de 1929, Freud criou uma analogia interessante ao comparar a atividade da  memória com os achados arqueológicos de uma cidade, como Roma. Estarei omitindo algumas frases, para não me estender demais, mas ainda mantendo a ordem as palavras de Freud:  "No domínio da mente, por sua vez, o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado, ao lado da versão transformada que dele surgiu... determinada parte de uma atitude ou de um impulso instintivo permaneceu inalterada, ao passo que outra sofreu um desenvolvimento ulterior.  Esse fato nos conduz ao problema mais geral da preservação na esfera da mente... Na vida mental, nada do que uma vez se formou pode perecer - o de que tudo é, de alguma maneira, preservado e que, em circunstância apropriadas, pode ser trazido de novo à luz... Escolheremos como exemplo a história da Cidade Eterna. Os historiadores nos dizem que a Roma mais antiga foi a Roma Quadrata, sediada sobre o Palatino. Seguiu-se a fase dos Septimontium e depois veio a cidade limitada pelo Muro de Sérvio. Perguntaremos o quanto um visitante ainda pode encontrar, na Roma de hoje, o que restou dessas primeiras etapas.  Seu sítio acha-se hoje tomado por ruínas, pelas restaurações posteriores. Esses remanescentes da Roma antiga estão mesclados com a confusão de uma grande metrópole e não há nada que seja antigo, enterrado no solo da cidade ou sob os edifícios modernos.  Este é o modo como se preserva o passado em sítios históricos como Roma.  Permitam-nos, agora, num  vôo da imaginação, suporque Roma não é uma habitação humana, mas uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e abundante - isto é, uma entidade onde nada do que outrota surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores do desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à última. Isso significaria que, em Roma, os palácios dos césares ainda se estariam erguendo em sua antiga altura sobre o Palatino e que o castelo de Santo Angelo ainda apresentaria em suas ameias as belas estátuas que o adornavam, e assim por diante.  Mais do que isso: no local ocupado pelo Palazzo Caffarelli, mais uma vez se ergueria - sem que o Palazzo tivesse de ser removido - o templo de Júpiter Capitolino. Onde hoje se ergue o Coliseu, poderíamos admirar a desaparecida Casa Dourada, de Nero. E talvez o observador tivesse apenas de mudar a direção do olhar ou a sua posição para invocar uma visão ou outra.  Se quisermos representar a seqüência histórica em termos espaciais, só conseguiremos fazê-lo pela justaposição no espaço: o mesmo espaço não pode ter dois conteúdos diferentes. Nossa tentativa parece ser um jogo ocioso. Ela conta com apenas uma justificativa. Mostra quão longe estamos de dominar as características da vida mental através da sua representação em termos pictóricos.  Só na mente é possível a preservação de todas as etapas anteriores, lado a lado com a forma final".
Em outros trabalhos, e em outro contexto, Freud afirmou que percepção e memória se excluem mutuamente uma vez que, quando percebemos alguma coisa dela não nos estamos recordando e que, quando a relembramos, deixamos de percebê-la. Esta constatação se assemelha a de Fernando Pessoa quando escreveu que "pensar é estar doente dos olhos". Serão apenas as histéricas, ou todos nós que  "sofremos pelo excesso das reminiscências"?  De qualquer maneira,  neste ponto todos concordam com Freud: a memória pode se tornar um impecilho para a análise e para a vida. Para os kleinianos, como também para  Bion, o analista deve cultivar um estado de "reverie", uma modalidade de "pensamento-sonho". Para Freud o analista precisa praticar uma forma de  escuta que se torna possível pela atitude que ele chamou  de " atenção flutuante" na qual as informações não dependem do sentido comum das sentenças ou da  sua coerência lógica . 
Quando um analisando começa a falar ele inicialmente parte da idéia de que ali quem está falando é ele, o fulano de tal. Ele acredita que não apenas se espera dele uma fala coerente, com um começo, um meio e um fim como também entende que o seu discurso pode ser linear e unívoco, como o de quem conta a sua história seguindo a coerência dada pela ordem cronológica. Ou seja, quando o analisando fala de si, de como se vê, do que sente ou recorda, ele pode estar imaginando que o analista, no final, construirá dele uma única imagem para representá-lo, como se lhe oferecesse um espelho. Mais tarde, ele desistirá deste projeto embora passe, em seguida, a esperar que seja o analista aquele quem se incumbirá da tarefa de ajudá-lo a identificar-se como sendo este tal fulano de tal. A história de um indivíduo torna-se uniforme e linear apenas quando ela for narrada de um modo altamente artificial.
Segundo James O´Donnell, no livro " Avatars of the Word", Sócrates e sua época demarcam o limite entre os mundos da palavra falada e da palavra escrita, embora ele desse menos valor à escrita do que ao discurso, porque considerava o texto como sendo algo mudo e que forneceria sempre uma mesma resposta ao ser consultado. A palavra escrita, neste caso, permitiria uma única leitura ou interpretação verdadeira.
Para O´Donnell a escrita mudou o local da verdade, do autor para o texto por ele escrito,  uma vez que o autor de um texto e o que neste está escrito comportam  realidades diferentes. Ele reconhece que as palavras são imprecisas, enganosas e, principalmente, que elas podem ser mentirosas, mas seus argumentos não incluem as mentiras que o sujeito conta para si mesmo e que, por isto mesmo, o revelam em sua verdade misteriosa e é por este motivo que ele aposta nesta distinção entre um autor e a sua escrita.
O´Donnel observou que, se a fixidez da palavra gravada no papel podia servir, até pouco tempo atrás, como uma garantia da autenticidade do texto, agora, no mundo da internet, o diálogo das vozes em conflito passou a dominar o discurso linear e autoritário estabelecido por um autor, como o que acontecia quando os livros impressos predominavam: ao serem modificadas ao longo das conversas, as idéias perdem a ligação a uma determinada pessoa.  Hoje, até certo ponto, mesmo depois de escritas as palavras não mais se deixam fixar. Apesar de serem intermediadas pela escrita muitas conversas, como as que se dão pela internet, prosseguem independentemente do fato de que os interlocutores possam modificado os seus pontos de vista e continuado a escrever/falar como se nada tivesse acontecido.  Além disto, até quando as letras fixam um texto, as leituras que dele se fazem serão sempre diferentes.
Podemos ainda acreditar que uma das vantagens da escrita enquanto registro estável de algum testemunho, reside na possibilidade de nos comunicarmos com autores que viveram em locais e em épocas diferentes dos nossos,  como se através do texto  pudéssemos viver fora dos limites do espaço e do tempo. Ainda assim, porque existem várias interpretações e diferentes leituras, esta forma de contato com o passado será sempre faltosa se ela depender apenas da aposta de que seremos capazes de alcançar o sentido mais pleno, ou único, daquilo que um autor antigo um dia deixou por escrito.
Cada vez que contamos uma história introduzimos nela alterações que podem passar desapercebidas porque não temos um modelo fixo para conferi-las. Também aquilo que registramos em nossa memória sofre modificações porque a memória não nos devolve os acontecimentos exatamente como eles ocorreram: nossas lembranças reinventam experiências e paisagens. Todos nós selecionamos a realidade e as lembranças de acordo com a nossa subjetividade e exatamente por isso, porque nossas lembranças não são nunca objetivas, é que elas abrem o campo para aquilo que interessa ao psicanalista. Também por isto, não é mais o conteúdo do que é lembrado que importa, mas os caminhos pelos quais esta recordação se produziu ou deixou de acontecer. Retomando uma das observações que apresentei acima, a de que a garantia da verdade deixou de estar no autor para ser transposta para o texto, trago uma outra forma de se olhar para esta questão.  Entendo que o autor de uma obra não será necessariamente o indivíduo que a escreveu, embora  este  não  possa ser isolado do seu texto porque é ali  que ele se apresenta, apesar de si mesmo ( e isto apenas concerne a ele mesmo).  É por isto que mantenho que, na escrita psicanalítica, a pessoa que a realiza não tem qualquer importância, já que o que ali importa  é aquilo que através dela emerge com valor de verdade. Por este motivo acredito que esta forma de escrita pode ser produzida por aqueles que nunca  se interessaram pela psicanálise. Se, para haver psicanálise é necessário que se tenha um analista e um analisando, para haver uma escrita psicanalítica  basta que se tenha um analisando que possa atualizar aquilo que nele é único e que nasce do encontro entre sua "inscrita", sua fantasia e sua necessidade de torná-las públicas.
         Pode-se argumentar que haverá tantas psicanálises, e tantas escritas psicanalíticas, quantos forem os analisandos, mas, por maiores que sejam as variações e as diferentes leituras, é necessário que pelo menos um elemento comum exista, que haja uma invariante para dar sentido ao que a palavra 'psicanálise' agrupa. Esta, no entanto, ultrapassa e transborda todos os referenciais que tentam aprisioná-la. Ainda assim, como o sonho, ela é apenas um dos caminhos de acesso ao inconsciente.
        
        


[1] - lido na XX Feira do Livro de Brasília, em 26/08/2001
[2] - lembrei-me dos anagramas de Ferdinand Saussure, guardados numa gaveta, e dos debates sobre a primazia do discurso sobre a palavra e a arbitrariedade do signo.
[3] - Os seminários de Jacques Lacan não constituem uma escrita, mas ele nos legou seu livro, " Écrits"!  Ele empregou uma espécie de álgebra e com ela também organizou os matemas dos quatro discursos e as "fórmulas quânticas" da sexuação.
[4] - A escrita psicanalítica de Freud não emerge do conteúdo dos seus artigos, não nasce do vocabulário que inaugurou para descrever suas observações clínicas, nem brota das suas genuínas teorias psicanalíticas, mas decorre do efeito que exerceu sobre os leitores e a sociedade, e que ainda exerce.  






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