UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA
CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA
Profa. Orientadora: Dra. Eugênia Correia Krutzen
PROJETO DE PESQUISA: “Oficinas terapêuticas junto a pacientes psicossomáticos da Clínica do curso de Psicologia”
A crescente complexidade da sociedade contemporânea engendra novos sintomas, que exigem abordagens terapêuticas que lhes sejam compatíveis. Pretende-se, neste projeto, contribuir para o desenvolvimento do campo de saber teórico-prático mas sobretudo ético, relativo a uma modalidade específica de adoecer humano: a psicossomática.
Não nos deteremos nas complexas discussões sobre a definição deste tipo de doença, restringindo nosso alcance à questão da formação – ética-teórico-prática – de equipes multidisciplinares com estudantes a partir da realização de Oficinas Terapêticas inspiradas na teoria psicanalítica e na teoria da arte.
Desde 1996, tenho formado equipes, com estudantes de gradução em Psicologia, em diferentes tipos de instituições, tendo sido a primeira delas o tema da tese de doutorado, Correia 1999, defendida na Universidade de Brasília. Em seguida, foram realizadas oficinas semelhantes em instituições de cuidado a pacientes oncológicos e gerontológicos. Comparando as experiências, algumas coincidências marcantes têm nos encorajado a procurar desenvolver prática e teoricamente as oficinas, independentemente do tipo de instituição ou do tipo de adoecer. Agrupando, então a “doença social” e a “doença físicia”, esperamos contribuir para evidenciar o que têm em comum, configurando a multidisciplinaridade recomendada nas diretrizes político-pedagógicas da UFPB.
As oficinas terapêuticas fundamentadas em torno das artes surgiram, inicialmente, junto a pacientes psicóticos, sendo famoso o trabalho de Nise da Silveira, fundadora do Museu do Inconsciente no Rio de Janeiro. Mais recentemente, o desenvolvimento da Psicossomática como campo distinto das outras especializações tem favorecido o reconhecimento da importância desse tipo de prática terapêutica, compondo as chamadas NPS (No-pharmacological strategies) – Estratégias não farmacológicas de tratamento. O próprio sucesso das oficinas com pacientes denominados “doentes mentais” parece afastar a pertinência desse recurso frente a outras modalidades de sintoma. Quem estaria a salvo do receio de aproximar-se da doença mental, perdendo o estatuto “fisiológico” da doença somática? Daí a pertinência da construção teórica e sua divulgação acompanhar a realização do trabalho, na tentativa de consolidar o caráter interligado da área da saúde e das humanidades.
A formação psicológica, em sua dimensão clínica, estrutura-se, antes de tudo na consolidação de uma ética, tal como discutido em Kehl (1998), referindo-se, portanto, ao discurso filosófico como anteparo privilegiado, na mesma direção que pretendemos seguir. Embora estejamos nos referindo constantemente a uma “técnica” de trabalho terapêutico, optamos pela conotação de cuidado, onde um saber fazer é indissociável de um posicionamento dignificante frente ao paciente e ao adoecer, tal como proposto em Silva Neto (1988), por sua vez inspirado nos trabalhos de M.Mauss e Heidegger.
Trata-se, então, de uma interface com reflexões de caráter antropológico e filosófico, diminuídas em nossos dias, onde as razões de mercado pretendem justificar e exaurir os fundamentos da clínica. É neste sentido que o sintoma psicossomático é acolhido na Oficina: como um enigma a ser bem formulado, ao invés de um mal a ser apressadamente substituído por outro.
E há enigmas que nos acompanham a todos, como o fato observado por Freud do quanto o ser humano tem uma tendência a destruir seu entorno e seu próprio corpo, fazendo parte de nossa “natureza” mais genuína um elemento sempre “desligado” da sistematização e da ordem, denominado em 1920 de “pulsão de morte”. Reconhecer e dar um lugar a esse elemento “disforme” por definição, não deve equivaler a restaurar uma ordem supostamente perdida, mesmo que seja na forma da “saúde”. A oficina não deve oferecer traduções para o sintoma, como se o terapeuta já trouxesse consigo tais respostas. Trata-se sim de constituir momentos em que uma queixa, um não-saber do paciente possa ser configurado em uma formulação que lhe seja menos estranha. Essa busca surpreende tanto o paciente quanto terapeuta e tem respaldo em Freud (1914 p. 199)
“(...) Sua enfermidade em si não deve parecer-lhe desprezível, mas sim tornar-se um inimigo digno de sua têmpera, um fragmento de sua personalidade, que possui sólido fundamento para existir e da qual coisas de valor para sua vida futura têm de ser inferidas.”
A esta desafiante proposta acrescentamos a discussão sobre a produção artística. Uma certa “escultura” dos órgãos internos ou das funções fisiológicas na forma de uma queixa psicossomática pode encontrar formulação análoga em outro suporte, igualmente capaz de aliviar o paciente por conservar a mesma pulsação, mas estando localizado no espaço público, nas galerias e salas de exposição socialmente reservada para as produções artísticas. Daí a pertinência do termo “sóciopsicossomática”, proposto por José Fernandes Pontes, citado em Melo Filho (1992, p.19), observando a tendência atual onde a multidisciplinaridade confirma a diversidade de fatores que incidem na formação da queixa psicossomática e, por conseqüência, exigem ser considerados no seu tratamento.
Essa proposta encontra respaldo teórico na obra de Winnicott, textos de Gilberto Safra, e tem nos livros “Arte-terapia: ligações perigosas?” e “Identificação” de Jean Florence (Universidade de Louvain, Bélgica), nossa sustentação mais fundamental.
Dentre os autores que relatam pesquisas semelhantes, destacamos Fritza 1990) em Hospital alemão, na cidade de Ulm, em seu estudo com as cores e Trauger-Querry e Haghighi (1999) em Hospital canadense com pacientes que sofrem de dores crônicas. Além dessas equipes, o cuidado específico com distúrbios psicossomáticos é relatado por Medeiros (2004) e Palacios (1995).
Embora distintos dos nossos, esses estudos nos são de grande valia pelo contraste que confirma a importância de serem bem estabelecidos os parâmetros propriamente psicanalíticos da nossa prática e a originalidade com que nossa leitura se arrisca quando, propondo a formação de uma equipe multidisciplinar, almeja constituir um estudo piloto para a formação continuada, em campo, de estudantes de psicologia e medicina interessados na área da psicossomática.
Freud afirmava que o campo fundado por ele não se restringia à terapia, constituindo também uma teoria do psiquismo e um método de pesquisa. Pretendemos também estudar essa dimensão metodológica ao propor um tipo de estudo de caso, enfatizando o aspecto transferencial das oficinas, e levantando a possibilidade de ser feita uma análise de discurso nos próprios estudos de caso, na direção esboçada por Marlene Guirado. (1995)
Hipóteses iniciais:
- As oficinas terapêuticas realizadas anteriormente por Correia Krutzen indicaram ganhos expressivos na formação clínica da equipe envolvida. Entendemos que o ganho junto ao paciente deve ser secundário, não no sentido de considerá-los cobaias, mas partindo da relação transferencial, considerando as observações de Freud sobre a resistência que “sempre é do analista”. Será que mantendo este princípio, antes de tudo ético, a equipe se formará e conservará seu campo de atuação durante o período aqui previsto?
- Após o tempo previsto, construiremos “Estudos de caso”. Será suficiente este tempo? Excessivo? Será o “estudo de caso” elucidativo como método? Os marcadores para elaboração do estudo de caso contemplarão as diretrizes de Guirado (1995) sobre “Análise de discurso”, pretendendo em projetos futuros, articular a proposta lacaniana do RSI. Conseguiremos elucidar as categorias levantadas? E sem perder a chance de formular nossa própria leitura da experiência das oficinas?
OBJETIVOS:
- Contribuir para a formação ética-teórico-prática dos estudantes do curso de Psicologia, Medicina e Artes da UFPB;
- Contribuir para o desenvolvimento do campo de estudo das doenças psicossomáticas, trazendo uma modalidade de trabalho artístico-ludoterapêutico inspirado na teoria psicanalítica, especificamente referente ao estudo dos discursos.
METODOLOGIA:
O “Estudo de caso” será construído a partir de uma leitura nossa da “análise de discurso”, tal como esboçada em Guirado (2000), privilegiando as condições em que um movimento na posição discursiva foi realizado. Entendemos “discurso” como o espaço onde são estabelecidos lugares sociais, ultrapassando, portanto, a conotação propriamente lingüística. Parece então razoável propor que o estudo de caso possa ser construído em função de uma análise de discurso, mantendo a dimensão transferencial constantemente elucidada.
As oficinas serão realizadas semanalmente, assim como as supervisões, sendo indicadas leituras e entrevistas com outros profissionais em caso de necessidade.
Um outro elemento original a nosso respeito, é a participação de professores interlocutores, que em outras áreas e Universidades têm demonstrado interesse em acompanhar a realização deste trabalho. Trata-se dos Profs. Drs. João Alberto Carvalho, psicanalista, psiquiatra, professor de Psiconeurologia na Universidade Federal de Pernambuco; Prof. Dr. Alípio Souza Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e Prof.Dr. Jean Florence, da Universidade Católica de Louvain, Bélgica.
CRONOGRAMA:
Após o período de preparação, os alunos selecionados realizarão as oficinas orientadas pela professora, para em seguida iniciarem sozinhos a efetivação de outros atendimentos, em grupo ou individualmente.
O Anexo dois descreve as Oficinas terapêuticas, modalidade de trabalho desenvolvido por Eugênia Correia Krutzen desde 1996, tema da tese de doutorado defendida na Unb em 1999.
O projeto vai durar um ano, de maio/ 2004 até maio/ 2005 e está dividido nas seguintes fases:
1 – Realização de Seminário de Atualização em Oficinas Terapêuticas; - junho/04.
2 – Seleção dos estudantes a comporem a equipe inicial; - junho/04.
3 – Seleção dos pacientes a serem atendidos; - junho/04.
4 – Início dos atendimentos, ao lado da professora; final de julho/04.
5 – Realização semanal de supervisões; de agosto/04 a maio/ 05.
6 – Início dos atendimentos em grupos organizados pelos estudantes: agosto/ 04
7 - Discussão no grupo do material / Redação de texto sobre o projeto: março/ 05
8 - Apresentação e discussão dos relatórios, em evento com professores.
Convidados, do material produzido pelo projeto: abril/05.
9 - Apresentação e discussão dos relatórios em eventos em outras cidades; - a partir de final de abril/05.
10 - Avaliação do projeto – abril /05
11 - Elaboração de texto sobre a experiência e elaboração de novo projeto – maio/05
12 – Publicação dos relatórios em periódico especializado. – a partir de maio/ 05
CUSTOS:
- Serão pleiteadas bolsas para os estudantes envolvidos por meio do projeto PIBIC
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- Bock, Ana Maria – Uma introdução ao estudo da Psicologia. S.Paulo, Saraiva, 1999
- Correia Krutzen, Eugênia – “Do risco à escritura: oficina de histórias junto a crianças e adolescentes em situação de risco social”. Tese de doutorado. Universidade de Brasília. Brasília, 1999.
- Fritza, Sabine – “Therapeutisches Malen als ergänzende Schmerzbehandlungstherapie” 3 1990). New York.
- Trauger-Querry, Barbara and Haghighi, Katherine R. - “Balancing the focus: art and music therapy for pain control and sympton management in hospice care”. The Hospice Journal, vol. 14 1) 1999
- Guirado, Marlene – Psicanálise e análise de discurso. S.Paulo: Summus, 1995.
- Khel, Maria Rita – Sobre ética e psicanálise – S.Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- Medeiros, Rita de Cássia – “Assédio moral e suas conseqüências psicossomáticas” – Trabalho apresentado na reunião do Núcleo de Estudos Psicossomáticos – RN, 2004.
- Melo Filho, Júlio de (Org.) – Psicossomática hoje – Porto Alegre: Artes
Médicas Sul, 1992.
- Orlandi, Eni – Análise de Discurso – Campinas: Pontes, 2002.
- Rizzini, I.; Castro, M.;Bartol, C. – Pesquisando: Guia de Metodologias de Pesquisa para Programas Sociais. Rio de Janeiro: Editora Universitária – Universidade Santa Ursula, 1999.
- Safra, Gilberto – “A vassoura e o divã” – Caderno 52 – SPP – João Pessoa, 2004.
- Silva Neto, Norberto Abreu – Fragmentos da metamorfose: cuidado materno e cuidado psicoterapêutico. S.Paulo: EDUSP, 1988
- Gomes, Purificación Barcia – O método terapéutico de Scheerazade. S.Paulo: Iluminuras, 2000.
- Winnicott, D. – A criança e seu mundo, Rio de Janeiro: Zahar, 1979