Instituir a Instituição
Jansy Berndt de Souza Mello
[1]
" Eu não odeio a humanidade. É gente que eu não suporto! "
( " I don´t hate mankind, it´s people I can´t stand" ).
Snoopy ( Charles Schulz ).
Analistas instalados no consultório, refugiados na torre de marfim, podem hesitar muito na hora de tomarem seus lugares numa sociedade, mas entendo que eles talvez não tenham alternativa. Este isolamento pode ser decorrência de um sintoma que marca alguns dos profissionais que escolheram a psicanálise em vez das ciências políticas, da neurobiologia ou, uma carreira universitária. Interrogo-me se o psicanalista em seu consultório não fica como quem, ao contrário do Snoopy, "não odeia gente, mas não suporta a humanidade".
A psicanálise é uma profissão na qual é impossível ser indiferente, ou não experimentar algum tipo de paixão que, na maior parte do tempo, precisa ficar contida a serviço da clínica para só ganhar expressão no convívio social. Penso que será por isso que fica tão difícil encontrarmos grandes agrupamentos de psicanalistas colaborando uns com os outros numa instituição, sem que se subdividam em grupos menores prontos para entrarem em choque uns com os outros.
Se fosse possível descrever com justeza uma única característica comum àqueles que escolheram a psicanálise, eu diria que psicanalistas são os que "sofrem de transferências" de modo quase irremediável. Isto porque até para os histéricos, assombrados pelas reminiscências, há uma perspectiva de cura enquanto que, para analistas trata-se de saber viver o interminável da análise.
A palavra "transferência", como transporte, sugere um movimento de passagem de um espaço para outro, sem que muitas vezes este transitar possa dirigir-se para o futuro, aprisionado que está a sua origem e às fascinações do passado. Uma análise bem sucedida desfaz a insistência desta repetição, deixando nossas respostas emocionais disponíveis para o que acontece no presente. No entanto, em toda instituição de psicanálise surge algo que, na minha opinião, deforma este processo libertador através do qual o ego do analista ( irremediavelmente narcísico em todos nós) conseguiria sair do centro da cena. Isto acontece quando o contexto não é mais o do setting de uma sessão, mas o que envolve encontros nos quais vários outros egos lutam para tomar sua palavra.
Não podemos também nos esquecer que a clínica requer não apenas a constituição, como ainda a permanência daquele especial grupo de dois que repete a dupla original do bebê com sua mãe (Klein). A transição desta escala para aquela, muito mais complexa, das relações entre pessoas livres, cheias de iniciativas inusitadas e de opiniões inesperadas não se faz com facilidade.
A principal dificuldade para o sucesso desta passagem do espaço do consultório para o da comunidade pode prender-se a uma deformação profissional ainda pouco estudada. Se os psicanalistas, na clínica, precisam permanecer expostos a esta repetição que recria uma dupla imaginária (bebê/mãe), com todas as dores e nostalgias pessoais que isto comporta, ainda por cima eles tem que dar interpretações do lugar de um terceiro, sempre como "voyeurs" de uma cena primária.
W.R.Bion entende que o indivíduo tenta realizar-se através do grupo mas que ele, ao mesmo tempo, se sente sob ameaça porque teme ser invadido pelas expressões mais primitivas das organizações grupais nas quais predominam os objetos parciais da posição esquizo-paranóide. As lideranças, para Bion, expressam um fenômeno muito complexo porque existem líderes cuja dominação se faz no clima dos grupos de suposto-básico, em vez de operarem na organização dos grupos de trabalho. Entendo que o simples fato de sermos psicanalistas não nos protege de cairmos sob o efeito de más lideranças.
Partir do "grupo de pressuposto básico", como se dá nos grupos de acasalamento que predominam na clínica (W.R.Bion), às voltas com as modalidades mais arcaicas de amor e de ódio, para operar no "grupo de trabalho" requer, antes de tudo que a transmissão da psicanálise possa se dar fora do círculo vicioso das identificações inconscientes ao analista-didata porque sabemos com Bion que, com freqüência, serão suas falhas mais do que suas virtudes que serão herdadas. No entanto, não há como evitar que para algumas escolas de psicanálise que pertencem a uma das sociedades de psicanálise filiadas à IPA, a identificação ao analista seja algo a ser cultivado, como desejável e que, portanto, tenham seus seguidores em São Paulo também.
Além disso, para trabalhar como um grupo de psicanalistas e, ainda por cima, expandir-se na comunidade será preciso mais do que a constante superação das transferencias, pois ainda devemos levar em conta aquela outra dimensão da transferência que se expressa como uma resistência à psicanálise. Ser psicanalista é a melhor maneira que neuróticos e artistas encontraram para se oporem à Psicanálise!
Discutindo sobre as oposições à Psicanálise que ele havia encontrado, Freud levou esta característica em conta quando reconheceu que "
essa conduta da multidão era uma manifestação da mesma resistência contra a qual eu tinha de lutar nos pacientes em particular. Abstive-me de polêmicas e influenciei na mesma direção os meus seguidores, quando estes pouco a pouco surgiram. Este procedimento foi correto".
[2] O problema atual é que nos distanciamos da autoridade de Freud e, até saudavelmente nos livramos da sua "influência". Com isto grande parte das polêmicas que aparecem numa instituição de psicanálise tem origem nesta resistência, sem que esta possibilidade seja levada em consideração ou minimamente reconhecida. É como se, fora dos respectivos consultórios, a maioria dos analistas fossem seres meramente racionais e razoáveis, ou seja, como se acreditassem não ter um inconsciente!
Se, mesmo que apenas em alguns casos, embora não tão raros, ser psicanalista expresse um sintoma de evasão ao jogo político e ao convívio com um grupo, descrever os impasses de uma sociedade de psicanálise será como tentar entender os paradoxos que se configurariam caso se programasse um " congresso de anarquistas". Afinal, qualquer outro grupo que não o de analistas deixaria espaço para o inconsciente, mesmo se por pura ignorância. Será nas instituições de psicanálise onde o retorno desses muitos recalcados se transformarão em opiniões, atitudes e decisões.
Existe aquele chiste de um dos irmãos Marx sobre " não querer ser sócio de um clube que o aceitaria como sócio", onde se raciocina no padrão das auto-referencias, padrão este gerador de paradoxos, como o do cretense que afirma que os cretenses são mentirosos. Dilema semelhante ocorre quando queremos respeitar as diferenças numa sociedade mais ampla, mas sem desvirtuá-la porque nela se encontram formas de pensar a psicanálise hostis à própria psicanálise porque expressões deste recalcado. Se, como Bion entendia, a qualidade principal do psicanalista será a de " ter paixão pela psicanálise", estaremos acolhendo um vasto espectro de "paixões" cujo efeito pode tanto ser o da turbulência criativa, ou o de um caos irremediável.
Tomando emprestadas as palavras de Freud: "
A atividade psicanalítica é árdua e exigente; não pode ser manejada como um par de óculos que se põe para ler e se tira para sair a caminhar. Via de regra, a psicanálise possui um médico inteiramente, ou não o possui em absoluto" [3].
Assim, a psicanálise é uma forma especial de " possessão transferencial", ou seja, um sintoma com força e características próprias, que não será resolvido através de reuniões, debates ou regras para impor uma alteração de um traço mais ou menos indesejável numa instituição. No entanto, na boca de Freud, há um contorno para o que seja a verdadeira atividade psicanalítica, tanto que ele foi capaz de empregá-lo como crivo para excluir antigos discípulos, agora tornados seus dissidentes. Tais limites foram perdidos e a briga pela posse de uma "verdadeira psicanálise" esbarra no pouco que se conhece seja sobre a verdade, seja o que é englobado pelo termo " Psicanálise".
Será que os notórios encontros e desencontros que acontecem nos diferentes grupos de psicanalistas serão então peculiares às instituições de psicanálise, ou eles representam por isso mesmo um campo privilegiado para a investigação dos grupos humanos?
Quando me deparo com o desencanto daqueles que estranham encontrar, nas reuniões científicas e administrativas das várias sociedades de psicanálise, brigas infantis pela posse de um bem ou rivalidades fraternas, entendo que este desencanto aponte para o anseio de se supor que existiria pelo menos um grupo que funcionasse de maneira criativa e racional. A questão que me inquieta vem, agora, de minha experiência com estas reuniões porque, como venho expondo, os grupos de psicanalistas tem uma dinâmica própria que os torna mais vulneráveis, em vez de mais resistentes, às invasões das formas primitivas de atuação.
Escreve Freud: "Basta pensarem nos poderosos fatores emocionais que tornam difícil a muitas pessoas adaptar-se ou subordinar-se a outras, e na dificuldade ainda maior na qual justamente insiste o ditado " Quot capita tot sensus" ("Tantas são as opiniões quantos são os homens" ). Quando as diferenças de opinião foram além de certo ponto, a coisa mais sensata consistiu em partir, e, daí em diante, prosseguir por vias diferentes - especialmente quando a divergência teórica envolvia uma modificação no procedimento prático. Se lhes parece que secessões deste tipo já são atualmente mais numerosas na história da psicanálise do que em outros movimentos intelectuais, não tenho certeza de que deva concordar. Se é este o caso, a responsabilidade de estar nas relações íntimas, existente na psicanálise, entre os pontos de vista teóricos e o procedimento terapêutico (...) Ali onde o trabalho científico está de algum modo distanciado da atividade prática, as inevitáveis diferenças de opinião assumem, por certo, um tom menos extremado" .
( Infelizmente até hoje se lê Freud do mesmo modo que se lia há vinte anos. Não devemos considerar Freud como alguns o crêem, uma peça de museu, apenas porque não sabemos lê-lo com olhos diferentes dos do início do século! Temos que evoluir para encontrar novas questões nos velhos textos que formam a base do nosso projeto como psicanalistas. Se estamos livres da sua influência direta, não devemos com isso rejeitar aquilo que herdamos quando adotamos todo o prestígio da designação "psicanalista" e grande parte do vocabulário que ele inaugurou ).
Prossegue Freud: "Há um ditado corrente segundo o qual nós deveríamos aprender com os nossos inimigos. Confesso que nunca consegui fazer isso; mas pensei que, de qualquer modo, seria instrutivo se eu empreendesse um estudo de todas as acusações e objeções que os adversários da psicanálise levantaram contra ela (...) mas, " depois de pensar bem", disse a mim mesmo que absolutamente não seria interessante, antes, tornar-se-ia tedioso e desagradável, e seria justamente o que eu estivera evitando cuidadosamente todos esses anos".
Retomando aos nossos desencontros na instituição de psicanálise e ao que, por tedioso, nos afasta muitas vezes de tentarmos um aprofundamento nas questões que mais nos dizem respeito, como nas discussões sobre reforma administrativa ou conhecimento dos regulamentos e estatutos. Um grupo muito grande de profissionais dificilmente terá seus membros aderindo de modo uniforme a um mesmo procedimento prático ou método e teoria. Na minha opinião, ou os regulamentos de uma instituição são mais abrangentes e genéricos, garantindo às diferenças um espaço de expressão, ou então, será mais vantajoso deixar que ela se fragmente.
Quando este grupo muito grande se articula e se controla apenas pela força das exigências estatutárias , o aumento da burocratização cria um fenômeno curioso. No que a maioria, simplesmente por existir, está garantindo o status quo, aquele que o questiona fica com freqüência no lugar do louco inconveniente. O mais interessante é que este questionador, que poderia funcionar como veículo de renovação do grupo, não apenas fica marginalizado como, ainda, ganha associados indesejáveis entre aqueles que se identificam com ele, não por suas idéias, mas por sua suposta loucura.
Se a sabedoria popular reconhece que " em casa de ferreiro o espeto é de pau" , para darmos certo como sociedade temos que tratar esta "nossa" sociedade como estranha a nós, como não familiar ( " Unheimlich "!) ou seja, como se não fosse mesmo a nossa casa.
Resumo: Considerando que os analistas, em contraste com os histéricos, "sofrem de transferências" que podem servir tantos aos artistas quanto aos neuróticos como modo de resistência à psicanálise e avaliando o contraste entre a atividade no consultório e o momento de convívio na instituição, a partir dos achados de Bion sobre o funcionamento dos grupos, a autora conclui que, ao contrário do que esperava, os grupos de psicanalistas vem se mostrando mais vulneráveis do que outros às primitivas formas de atuação próprias aos grupos de suposto-básico.
Abstract:( Instituting the institution) Considering psychoanalysts as those who, in contrast to hysterics, "suffer from transferences" and that this peculiaarity can be used by both artists and neurotics as a forma of resistance to psychoanalysis, and evaluating the contrast between clinical practice in the quiet of na office and the challenges of institutional life, following Bion´s work on groups the author concludes that, contrary to her expectations, psychoanalysts seem to be more vulnerable than other professionals to primitive forms of herd behavior.
[1] Analista Didata e membro da SBPSP
[2] - SE vol. XXII, pg. 169.
[3] - citações extraídas da conferência XXXIV, de S. Freud ( SE brasileira, XXII, págs.167 a 191).