Nossa intenção não é a de discutir um livro em sua totalidade, enredo, desenvolvimento, mas apenas fragmentos particularmente interessantes em uma leitura voltada para a realidade psíquica do ser humano.
Nossa intenção não é a de discutir um livro em sua totalidade, enredo, desenvolvimento, mas apenas fragmentos particularmente interessantes em uma leitura voltada para a realidade psíquica do ser humano.
"AS HORAS", de Michael Cunninghan, publicado pela Companhia das Letras em tradução de Beth Vieira, é o terceiro romance do autor lançado no Brasil, sendo os anteriores "Uma Casa no Fim do Mundo" e "Laços de Sangue", os quais trabalharam mais explicitamente o tema das novas estruturas familiares pós-nucleares (ou estruturas familiares não-tradicionais). Pela nova obra Cunningham recebeu prêmios tão importantes como o Pulitzer de 1999, reconhecimento mais do que merecido para aquele que é provavelmente um dos mais sensíveis escritores contemporâneos.
O que vai nos interessar aqui é exatamente esta sensibilidade do autor - através do seu talento em usar as palavras - compor frases que conseguem transmitir os estados psíquicos de seus personagens de ficção com uma verossimilhança tal que permite ao leitor identificar-se com muitas daquelas vivências afetivas – ou pelo menos, reconhecer vivências que já pôde apreender em pessoas reais.
É verdade que pelo menos uma das personagens principais com quem ele trabalha em "As Horas" existiu na realidade antes desta re-elaboração ficcional: a escritora Virginia Woolf, cujo suicídio, de fato ocorrido, abre o livro como um "tema" musical que vai sofrer variações nos diferentes instrumentos - os outros personagens que o romance vai expor. (O livro de Cunningham já é em si mesmo uma "variação" de uma das obras-primas de Woolf, "Mrs. Dalloway", que inicialmente ia se chamar "The Hours".)
Mas é óbvio que a "Virginia Woolf" de Cunningham é uma recriação não necessariamente idêntica à Virginia Woolf que existiu na realidade, embora seja plausível como uma Virginia real, tão verossímel como outras pessoas (nós todos), a ponto de podermos identificar (ou nos identificarmos com) as experiências psíquicas pelas quais a personagem passa. Por exemplo, a incomodada admiração que a instável Virginia sente em relação à sua cozinheira, Nelly:
Nelly é ela mesma, sempre ela mesma; sempre grande e corada, majestosa, indignada, como se tivesse vivido a vida toda numa era de glórias e moderação que terminou para todo o sempre uns dez minutos antes de você entrar no aposento [onde Nelly se encontra] (...) Como é que se lembra de ser, como é que consegue, todos os dias e todas as horas, ser tão exatamente a mesma?
O psicanalista que já tenha atendido pessoas com uma vivência de si-mesmas (self) frágil, certamente já terá acompanhado como tais pessoas podem aspirar ser como outros selves que parecem tão seguros e imutavelmente sólidos (mesmo que tais características muitas vezes não passem de manifestações de uma rigidez bruta e cristalizada). A capacidade do autor em colocar verbalmente vivências tão sutis é admirável, embora ele considere (através da personagem "Virginia Woolf") que o livro que se tem na cabeça é sempre melhor do que aquele que se consegue por no papel. (Talvez como muitas vezes nos seja difícil transformar em palavras certos sentimentos próprios, e às vezes mais difícil ainda, aqueles afetos que supomos ter captado em nossos analisandos dentro da intersubjetividade da rela
ção).
Há outro trecho em que "Virginia" fala de quando realiza (e em seguida de quando falha) o talento do escritor em captar estados etéreos e verbalizá-los:
...Sente dentro de si um segundo eu quase indescritível, ou, melhor dizendo, um eu paralelo, mais puro. Se tivesse religião, chamaria isso de alma. É mais do que a soma de seu intelecto e de suas emoções, é mais do que a soma de suas experiências, embora corra pelos três(...) É uma faculdade interior que reconhece os mistérios animados do mundo porque feita da mesma substância, e, quando está com sorte, Virginia consegue escrever diretamente, fazendo uso dessa faculdade. (...) Um dia pode apanhar a caneta e segui-la com a mão que se move pelo papel; num outro, pode pegar a caneta e descobrir que é apenas ela mesma, uma mulher segurando uma caneta, com medo e incerta, sem a mínima idéia de onde começar ou do que escrever.
Nosso primeiro grifo busca chamar atenção daquilo que se pode conceituar como um momento em que conseguimos ser empáticos com "aquilo que é inerentemente estranho ao próprio self" (Freud, 1921), enquanto o segundo grifo pontua como, em ensimesmamento, tal faculdade não se realiza.
A necessidade de encontrarmos empatia por parte das pessoas que nos cercam aparece mais explicitamente em outra personagem, quando está refletindo sobre alguém com quem tem dificuldades: ...dá vontade de convidá-la a entrar dentro de sua cabeça uns dias para sentir suas preocupações, dores, o medo sem nome... enquanto os efeitos da falta de empatia em alguém carente de um espelho que refletisse (reconhecesse) suas possibilidades adequadamente, encontra-se em outra passagem, quando um enorme esforço artesanal de uma terceira personagem é comentado como "uma gracinha": Ela produziu algo que ficou uma gracinha, quando esperava (é constrangedor, mas verdadeiro) produzir alguma coisa bela.
Chamo a atenção para a perspicácia do autor em colocar, entre parênteses, a vergonha constrangida da personagem frente ao seu self grandioso (que aspira à realização do belo), tal como Heinz Kohut (1971) discute no diagrama 3 de "Análise do Self" a "barreira de recalcamento" das necessidades narcísicas arcaicas não satisfeitas (e recalcadas num splitting horizontal), relacionadas à vivência de rejeição, pela mãe, do narcisismo independente da criança. (Enquanto o splitting vertical do self dá vazão a que a grandiosidade infantil seja exibida abertamente, porque relacionada ao uso narcísico que a mãe terá feito do desempenho de seu filho. )
Quanto à necessidade de "objetos capazes de funcionar a serviço de necessidades do self" (minha tradução conceitual para o termo selfobject cunhado por Kohut), esta é radicalizada em outro momento do livro, tal como o próprio Kohut fez, ao dizer que o ser humano precisa dos outros desde que nasce (física e psíquicamente incompleto) até a hora em que, ao morre, precisa segurar a mão de alguém: ...será que é você que um dia vai segurar minha mão e presenciar literalmente meu último suspiro, enquanto todos os demais ensaiam, secretamente os discursos que farão no serviço religioso? (Kohut [1977] mesmo já buscara na literatura de Eugene O'Neill uma formulação brutalmente verdadeira: "O homem nasce quebrado; ele vive com remendos; a graça de Deus é a cola".)
Esta "cola" advém muitas vezes de outras pessoas que funcionam como selfobjetos propiciadores de que possamos expressar potenciais que tenhamos mas que estejam ainda apenas virtuais. Em "As Horas", pode-se ler sobre a mesma personagem que almejava o belo e realizou "uma gracinha":
Com o marido presente, fica mais nervosa mas com menos medo. Sabe como agir. Sozinha com [o filho] sente-se às vezes sem que nada a prenda – ele é tão ele mesmo. Quer porque quer com ta-
manha avidez isso ou aquilo. Chora por motivos misteriosos, tem exigências indecifráveis, lhe faz a corte, implora coisas, ignora sua existência. Parece, quase sempre, estar esperando para ver o que ela fará em seguida. Ela sabe, ou pelo menos suspeita, que outras mães de crianças pequenas devem possuir um mesmo conjunto de regras e, mais a propósito, um constante lado mãe para guiá-las ao longo dos dias passados a sós com uma criança. Quando o marido está, consegue controlar melhor as coisas. Ela vê que ele a vê e sabe, quase por instinto, como tratar o menino com firmeza e bondade, com um descuido maternal e afetuoso que parece fácil. Sozinha com o filho, entretanto, perde o senso de direção. Nem sempre se lembra de como uma mãe deve agir.
É evidente que esta mãe não consegue ser suficientemente boa na relação dual com seu filho (frase final do trecho acima), embora possa se estruturar, ganhar forma, em função do olhar continente do marido (primeiro grifo).
Os desencontros entre esta mãe e este filho redundam numa fragilização do menino expressa numa comovente cena em que ela pede sua "ajuda" para fazerem, juntos, um bolo: Ele compreende que deve despejar a farinha na tigela, mas pode ser que tenha entendido mal as instruções e estrague tudo; pode ser que ao deixar cair a farinha cause alguma catástrofe maior, desestabilize algum equilíbrio precário. Quer olhar para o rosto da mãe, mas não consegue tirar os olhos do medidor [onde está a farinha] "Vire a caneca", ela diz. Ele vira, com um movimento apressado, temeroso. A farinha hesita por uma fração de segundo, depois cai.. Cai solidamente, num monte que repete, de longe, a forma do medidor. Uma nuvem maior se ergue, quase lhe toca o rosto, depois some. (...) "Opa", diz a mãe. Ele olha aterrorizado para ela. Os olhos se enchem de lágrimas. Ela suspira. Por que ele é assim tão delicado(...)? Por que ela tem que ser tão cuidadosa com ele? (...) "Não, não", diz ela, ...você fez certinho" Ele sorri entre lágrimas, de repente orgulhoso de si, quase insanamente aliviado. Tudo certo, então; não foi preciso mais nada além de um punhado de palavras suaves, um pouco de incentivo. Ela suspira. Com delicadeza, toca no cabelo do filho.
Sobre esta personagem, a mãe, o leitor já fôra informado anteriormente que ela tem dificuldade em sair da cama pela manhã, enfrentar a rotina caseira, perpassada por uma sensação meio onírica, como se estivesse nos bastidores, próxima da hora de entrar em cena e atuar numa peça para a qual não está adequadamente vestida e para a qual não ensaiou como devia. O autor ajuda o leitor a compreender que ela gosta de imaginar (é um dos seus segredos mais cuidadosamente guardados) que ela também possui algum brilho, só um tiquinho, embora saiba que com certeza a maioria das pessoas anda pela vida com semelhantes suspeitas esperançosas crispadas como pequenos punhos, lá no íntimo, sem jamais divulgá-las. (Mais um possível exemplo de manifestação de um self grandioso recalcado e carente de espelhamento que o valide, e por consegüinte, não o deixe envergonhado de possuir - ou desejar possuir - "algum brilho".)
Tais vivências de incompletude subjetiva, carentes de "cola", muitas vezes tomam outros caminhos, como no caso de um outro personagem do livro que parece tentar se colocar, ele mesmo no papel de "cola", para si e para os outros, vivendo um sistema ilusório do self onde o self grandioso arcaico permanece na adultidade e investe de libido narcísica aqueles com quem convive:
...as pessoas se sentem enaltecidas, crescidas, em sua presença. Ele nào é um daqueles egotistas que miniaturizam os outros. É o tipo oposto, impelido pela grandiosidade, e se insiste numa versão sua mais engraçada e estranha, mais excêntrica e profunda do que você imagina, fica quase impossível não acreditar, pelo menos na presença dele, que ele é o único que enxerga a verdadeira essência, que pesa as verdadeiras qualidades e que aprecia você de uma forma muito mais completa do que qualquer outra pessoa jamais o fez. É só depois de conhecê-lo melhor que se começa a perceber que
para ele, você é uma personagem essencialmente fictícia, alguém por ele investido de capacidades quase ilimitadas, não porque essa seja sua verdadeira natureza, mas sim porque ele precisa viver num mundo povoado por figuras extremas e poderosas. Algumas pessoas romperam relações com ele para não ter de continuar como figurantes do poema épico que ele não pára de compor na cabeça; outros, no entanto, sentem prazer no sentido de hipérbole que ele traz para suas vidas, acabam dependendo dela, da mesma forma como dependem de café para acordá-las de manhã e de um ou dois drinques para adormecer à noite. (O negrito se refere à necessidade de selfobjetos idealizados.)
Outros personagens, no entanto, buscam a "cola" na construção do que talvez possa ser compreendido como falso self, até intuído pelo próprio self em alguns momentos, mas tão difícil de ser enfrentado e abdicado: ...toda a sua dor e solidão, todo o andaime precário no qual elas se sustentam é fruto pura e simplesmente de fingir... se for embora será feliz, ou melhor que feliz. Será ela mesma. Sente-se por alguns instantes magnificamente só, com tudo pela frente. Depois a sensação continua seu caminho, como um trem que pára numa pequena estação do interior, deixa-se ficar alguns momentos, depois segue adiante some de vista.
Em outro trecho, há uma outra alusão a esta construção psíquica, com um certo alívio pelo fato de ser uma vivência compartilhável: São ambas mulheres atormentadas e abençoadas, cheias de segredos partilhados, empenhando-se sempre. Uma e outra fazendo-se passar por alguém. Estão extenuadas e cercadas; assumiram uma tarefa tão imensa...
Esta vivência de poder compartilhar algo lembra outro sistema ilusório do self descrito por Kohut, referente às vivências alter-ego, tão necessárias à transformação a) de um narcisismo arcaico em um narcisismo maduro, e b) de uma vivência de solidão extrema - equivalente ao sentimento de sermos eternos estrangeiros - em seres sociáveis e capazes de funcionarmos também como selfobjetos empáticos para com os selves daqueles com quem convivemos. No livro que estamos citando, há, como nos outros do autor (especialmente em "Uma Casa no Fim do Mundo", que ainda é o meu preferido), momentos de grande emoção ligados à revelação, a uma descoberta epifânica sobre a felicidade compartilhada, e é com este grande momento de "AS HORAS" que termino:
Talvez não haja nada, nunca, que se possa equiparar à lembrança de ter sido jovem junto com alguém.(grifo meu)(...) Tinha parecido o começo da felicidade, e Clarissa ainda se choca, trinta anos depois, quando percebe que era a felicidade: que a experiência toda repousa num beijo e num passeio, na expectativa de um jantar e de um livro. O jantar já foi esquecido; Lessing [a autora do livro] foi há muito suplantada por outros escritores; e até mesmo o sexo foi ardente mas canhestro, insatisfatório, mais gentil que passional. O que continua iluminado na mente de Clarissa, mais de três décadas depois, é um beijo ao entardecer, num trecho de grama seca, e um passeio em volta do lago, com mosquitos zumbindo no ar que escurecia aos poucos. Permanece intacta aquela perfeição singular, perfeita em parte porque parecia, tão claramente na época, prometer mais. Agora sabe: aquele foi o momento, bem ali. Não houve outro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, S. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol.XVIII
KOHUT, H. (1971) Análise do Self Rio de Janeiro: Imago, 1988.
________ (1977) A Restauração do Self. Rio de Janeiro, Imago, 1988.
[1] Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro