 MORUS MORES Abdellah Bouazza O rego musgoso, tão lento e preguiçoso quanto o próprio dia, separava o menino da amoreira. Para sua surpresa, sob a folhagem luxuriante e a sombra poeirenta ele entreviu um cãozinho que observava seus movimentos com uma curiosidade de olho de boneca. A cena ( menos sombria, talvez ) recordava a fábula do cordeiro e do lobo. Em vez de tomar a cômica presença do cachorrinho como uma advertência, o garoto a considerou um convite. Retrocedeu alguns passos para dar uma corridinha e saltar sobre a vala refletida em verde-negro. Assim que suas mãos tocaram a terra estival e ele olhou para cima, percebeu que o cãozinho havia sumido e em seu lugar encontravam-se as folhas largas da ramada de uma figueira. Isto o desapontou um pouco, mas a amoreira prometia-lhe uma frondosa e verde bem-aventurança. Apressadamente colheu, provou e guardou amoras nos bolsos; o gosto das frutinhas e o prazer proibido cegaram-no e enfraqueceram-lhe os sentidos a tal ponto que o pomar ( damasco, limão e ainda framboesa), que dificilmente se podia avistar de fora, ficou registrado no seu agora estreitado campo visual como um mero fundo vegetal variado.
Súbitamente uma figura se ergueu. O menino recuperou parcialmente a presença de espírito e detectou naquela aparição, assemelhada ao deus Pã, uma entidade humana e até recordou-se do nome e de seu endereço. O sujeito ( suas roupas não eram empoeiradas como delas se lembrava, erroneamente, o menino) armara-se com um ramo da figueira; antes mesmo que o garoto pudesse assegurar-se de que aquele galho não vinha carregado de figos e já tinha caído ao chão e berrava, respondendo à sova cega e dura imposta ao seu corpo largado. A árvore e suas frutinhas eram vislumbradas no céu e o local se transformara num campo de golpes, poeira, fúria, contorções, gritos, pontapés e, sim, aroma de figos. Curiosamente seus gritos não eram de dor, mas de incompreensão e terror; e embora o bruto satânico tivesse que prosseguir com força redobrada servindo-se de um galho quebrado, ele não sentia a menor dor e a expressão, “levar porrada”, que um parente dele havia usado e que, até então, ele não tivera oportunidade de empregar, cruzou-lhe a mente. Nesse mesmo instante a brilhante idéia de escapar dali o alcançou. Fugiu como uma criatura de tres pernas que arbustos e ervas espinhosas tentavam deter. Ousou olhar para trás e não viu ninguém: a amoreira estava tão imóvel e indiferente como antes, o galho da figueira despido e… o pequeno cachorro, que olhava para a vala sacudindo o rabo – por quê estaria ele sacudindo o rabo? Porque via seu reflexo? Era surpreendente que ele não sentisse dor alguma, que a árvore cúmplice nem mesmo farfalhasse a folhagem para dar sinal de vida, de emoção. Quando alcançou uma distância suficiente para que a fazenda lhe parecesse mais um capricho cênico do que um bosque de vegetação extravagante, abaixou as calças para inspecionar seus ferimentos. Uma marca lívida atravessava-lhe a coxa direita; a risca de um filhote de tigre albino. Um frio desdém pelo sujeito diabólico reacendeu nele; o mesmo desdém que se sente por alguém que quebrou as regras não escritas da vida livre dos adolescentes. O menino caçoou daquela agressão agreste. “Que lhe sirva de lição!”. Repetia essas palavras obedientemente, como se não estivesse seguro do seu significado, e sua cara, apesar do esforço, tinha permanecido tão pálida quanto uma folha de pergaminho. O menino se perguntava se o patife selvagem e enraivecido não o teria reconhecido, afinal quantas vezes antes não haviam trocado palavras e se cumprimentado? Seu ódio atingiu a mesma intensidade que a descarga de raiva daquele cara – de quem ele não queria pronunciar o nome – só que sua raiva não era cega não; pelo contrário, a clareza pela qual examinava a situação atual era digna de nota. Cachorrinho estúpido, amoras sem graça – aquelas que ele havia guardado nos bolsos haviam se transformado, é claro, num primeiro estágio de uma geléia; caminhava com os bolsos voltados para fora. Na morna quietude da tarde vagou por perto dos cactos, imitando a postura do ouriço-cacheiro, seguindo às vezes sob as alfarrobeiras de troncos caiados enquanto os grilos se ocupavam com suas serras. O incidente não parecia nada além de uma idéia pseudocárpica e inócua que havia sido apagada furiosamente por um pensamento póstumo. Ele então imaginou como teria sido o final da história caso tivesse ouvido ou visto o torturador feroz, ou, como se o mal não tivesse adquirido, nele, uma forma. Era estranho constatar que seus gritos não atrairam atenção. Curvou-se para apanhar um pau e alcançou a estrada de asfalto, enquanto o brandia nas mãos. Uma Mercedes de cor bege aproximava-se vinda do leste e o menino azarado decidiu deixar o carro passar primeiro. Em seguida bateu nele com sua vara, o carro rodava em amigável baixa velocidade, para depois atravessar a rua. O automóvel parou e seu motorista saiu aos gritos. O menino havia visto as luzes vermelhas e zangadas da Mercedes, e, agora, buscava o atalho estratégico flanqueado pelas oliveiras. Olhou para trás de si e se surpreendeu quando notou que o motorista o perseguia insitentemente; um rapaz de óculos (filho do motorista), que também o caçava, estava fora do seu campo visual e , deste modo, quando foi agarrado pelo pescoço por este último, e não pelo motorista, o menino já estava cego de terror. Caiu de costas ao encontro da oliveira e não conseguia mais ouvir o que as caretas, óculos e dentes estragados lhe diziam; assim mesmo sentiu o tapa que fez o sol tremer como um gongo e o deixou indisposto com gosto de amora, e de água de fosso musguento, na boca. Passado um tempo tentou vislumbrar os olhos impiedosos daqueles dois através das lágrimas: estrelas invejosas no céu do seu medo... mas havia apenas a ardência dos raios de sol enquanto o silêncio renegava todo o resto. Ele permaneceu na sombra escassa ( o tapa tinha amassado seu cabelo contra sua têmpora esquerda) e com o indicador começou a desenhar figuras abstratas no solo, algo em que qualquer garoto pouco talentoso consegue se superar. As figuras ganharam formas rudimentares de um delta, um bico, uma asa, asas, um rabo, e um pássaro. Um falcão ou uma águia sobrevoava no céu medonho como consciência culpada. Sem pensar duas vezes levantou-se para caminhar até a estrada de asfalto, que atravessou para andar sob as árvores inclinadas, adentrar o mato e, depois de certo tempo, alcançar novamente a vala; saltou por cima desta , encontrou o galho de figueira quebrado e o jogou para o outro lado da vala entre uns arbustos. Nenhum cachorro, ótimo. Devagar colheu e comeu as frutinhas refrescantes e, depois de coletar uma mancheia, sentou-se no chão encostado contra o tronco da árvore e, enquanto comia e degustava, olhava para as árvores na distancia, às montanhas de azul pálido, para o céu: um falcão ou águia sobrevoavam ali. Abandonou o pomar e procurou no mato um outro pau; primeiro encontrou uma cobra e, depois disso, arrancou as folhas e galhos da grossa rama e se armou. Depois de alcançar novamente o asfalto pôs-se à espera. Foi isso tudo oque ele enxergou enquanto circulava nas alturas e as casas pareciam de brinquedo e, as árvores, pirulitos. A águia da imaginação, poderosa águia, voou do pomar até o atalho. Ao contrário da sua paciência enquanto circundava pelo céu, o humor dele era instável e breve. O menino apagou as figuras desenhadas com seu sapato e se levantou; esticou-se ao sol. Ali, no meio dos tocos de mato, pousou um enorme gafanhoto. Rindo, ele começou a persegui-lo. Do mesmo modo, a águia havia também visto uma presa e já saltava sobre ela. Written: 17-4-1988 Published: 01-10-1993 Englished: 6-3-2007 Re-traduzido: 27.7.2007 (versão para o português: Jansy Mello)
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