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Analistas e Candidatos: A Cesura pela Instituição

Enviada por jansy em Friday, April 02 @ 04:33:04 BRT

TrabalhosQuando Bion observou que numa sessão de análise genuína deveria haver duas pessoas amedrontadas, o  analista e o analisando, ele estava se referindo, provávelmente, às resistências atuantes diante das angústias  que prenunciam uma idéia nova e uma mudança catastrófica.  Proponho pensarmos num outro tipo de medo  que comumente se manifesta desde a primeira entrevista psicanalítica, e que requer, agora sim, um certo tipo de resistência por parte do psicanalista. O analisando que chega com suas dores e expectativas, traz também, do fundo da alma,

                   Analistas e Candidatos: A Cesura pela Instituição
 
                                      Jansy Berndt de Souza Mello[1]
 
         Quando Bion observou que numa sessão de análise genuína deveria haver duas pessoas amedrontadas, o  analista e o analisando, ele estava se referindo, provávelmente, às resistências atuantes diante das angústias  que prenunciam uma idéia nova e uma mudança catastrófica.  Proponho pensarmos num outro tipo de medo  que comumente se manifesta desde a primeira entrevista psicanalítica, e que requer, agora sim, um certo tipo de resistência por parte do psicanalista. O analisando que chega com suas dores e expectativas, traz também, do fundo da alma, as imposições veladas de ser bem sucedido através dos mesmos recursos que, na vida comum, o levaram aos insucesso.  Opor-se a esta demanda  é sempre muito assustador para o analista e esta “resistência” ele precisará saber manter durante todo curso da análise.   E, pensando bem,  parece-me que Bion também estava se referindo a este tipo de medo, quando reconhecia que, na calma aparente dos consultórios, existiam dois animais ferozes em disputa para ver quem irá devorar o outro. 
         A medida em que o tempo passa, estes medos passam para um segundo plano, sem desaparecerem completamente.  No entanto, no momento em que se firma o contrato de uma análise, eles tendem a dominar a cena.  Neste sentido, penso que a severidade das exigências de um Instituto de Psicanálise, longe de oprimir com suas exigências aquele que faz suas primeiras tentativas como psicanalista, serve-lhe mais como um escudo, permitindo que sua voz e sua força se faça sentir por trás do candidato.
         No entanto, embora aprendiz sempre, chega o momento em que o psicanalista precisa se garantir sozinho, tomando como base o conjunto das experiências vividas durante a formação.   Chega a hora em que ele passa a ser apenas um aprendiz daquilo que o inconsciente lhe apresenta...
         A psicanálise pode ter muitas caras, ou melhor, ela de fato tem muitas caras. Mesmo assim, uma Instituição que ofereça aos seus candidatos a oportunidade de se defrontarem com apenas uma delas, estará lhes servindo como escudo invisível, embora provisório, diante das angústias que fazem parte da prática psicanalítica.   
         Se os tempos de hoje em nada se assemelham aos tempos de Freud, eles também não se parecem com a nossa realidade brasileira de uns dez anos atrás.  Em outras palavras, entendo que mesmo se um Instituto de Psicanálise tenha que mostrar uma única cara, ainda assim ela precisa de mudar de vez em quando.
         É natural que se encontrem dois tipos de demanda entre os candidatos. A primeira será a de que a Instituição lhes transmita  segurança através  da familiaridade, ou seja, que ela mantenha sua cara tradicional. A segunda,  a de que as exigências da formação não cobrem deles, ou dos seus analisandos, mais um impossível ( o outro, desde Freud, continua sendo o psicanalisar! ).
         Trago agora como exemplo de um “excesso de zelo” que aconteceu comigo, quando era ainda candidata do Instituto de Psicanálise da SBPSP. 
         Meu paciente vinha três vezes por semana porque ainda não tínhamos espaço na agenda para um o quarto horário, o que começava a me inquietar.  Iniciantes, os dois, estávamos tentando acertar o passo quando ele me trouxe o seguinte sonho:  via-se num jardim deserto no meio do qual crescia uma única árvore.  Ele carregava um vaso de plantas que precisava prender num dos seus ramos,  mas estava muito amedrontado porque achava que os galhos se dividiam tanto que podiam quebrar com o seu peso.         Finalmente ele conseguiu subir quase até o topo, até tres quartos da altura da árvore...  Lembrou-se então que sua mãe o proibia de brincar com os outros meninos da sua idade e “trepar nas árvores” era-lhe estritamente vedado.    O sonho do meu paciente me deixou muito surpresa porque, na véspera, eu havia tentado pendurar um vaso de samambaias numa arvore solitária que crescia no meio do meu jardim.  Forcei-me a desconhecer a “concidência telepática” porque a mensagem do meu analisando parecia-me muito clara: ele achava que só conseguiria dar conta de tres quartos da análise porque temia ser destruido pelas ramificações das suas fantasias.  Ao mesmo tempo, eu estava confiando na sua apreensão telepática como expressão da força da sua transferência analítica e, por isso, continuei interpretando o seu temor à quarta sessão.  Pouco tempo depois o paciente desistiu da análise.  Hoje, em retrospecto, penso que teria agido melhor se tivesse evitado pressioná-lo prematuramente à uma quarta sessão, que representava para ele desafiar a injunção materna e tentar atingir as  ramificações delicadas das suas fantasias homossexuais.
         Graças às peculiaridades da minha formação psicanalítica em Brasília, convivi com várias opções quanto ao ritmo de uma análise: havia aqueles que tinham suas análises concentradas nos finais de semana, de quinta a domingo.  Havia outros, como eu, que tínhamos análises concentradas nas duas primeiras semanas do mes, num total de dezesseis sessões sem intervalos ( iam de segunda a segunda).  Recebia pacientes das cidades vizinhas e, encorajada pela leitura de Winnicott, aceitava trabalhar com eles durante dois dias na semana com sessões de intervalos curtos.  Até a minha segunda supervisão foi concentrada, porque eu me deslocava para São Paulo uma vez por mes e trabalhava durante quatro ou cinco horas seguidas.  Tive a sorte de ter  como supervisor Luiz de Almeida Prado Galvão, poios sua flexibilidade e generosidade nos ajudou a suportar o ritmo pesado dos nossos encontros. Como consequência destas vicissitudes, passei a encarar de modo muito particular e vivido, as exigências do enquadramento de uma análise.  Ainda assim, a  “cara do Instituto” era uma só e, naquela época, parecia-se com a de Virgínia Bicudo, diretora  por mais de oito anos consecutivos. 
         Ouço o que os candidatos e professores do Instituto de Psicanálise tem a dizer há muito tempo, desde quando eu era candidata. De certa forma, o assunto nunca mudou muito, mesmo quando as circunstâncias que cercam a prática da psicanálise tenham provocado alterações importantes em vários sentidos. Uma dessas mudanças  resulta do  lugar que os candidatos vêm ocupando na instituição. Algum tempo atrás foi formada uma associação dos candidatos, com representatividade e  um lugar próprio nos Congressos e  nas reuniões ciéntíficas.  No entanto, este espaço constitui uma cesura institucional que gera a impressão de haver uma grande descontinuidade entre  ser candidato e o  momento em  que ele se  torna psicanalista.
Talvez essa cesura nos impeça de perceber alguns fatos sobre o caminho a ser percorrido até o reconhecimento como psicanalista.   Por falhas no processo de seleção ao longo de cada etapa até sua plena maturidade social, quando o psicanalista passa a integrar os quadros de uma Sociedade de Psicanálise, nem sempre o melhor profissional será o mais graduado.  Algumas vezes aparecem candidatos que tem mais preparo emocional e intelectual do que aqueles que  estariam a sua frente nesta escalada profissional.
Embora a frase popular “o que é bom já nasce pronto” tivesse me passado pela cabeça, aplicá-la aqui seria simplista demais. No entanto, e agora destaco o problema da cesura entre candidato e psicanalista demarcada pela instituição, observei que um número considerável de candidatos já trazia consigo as marcas do “bom psicanalista” e que seu progresso individual se dava à  margem das etapas instituicionais  programadas. Ao mesmo tempo, também acontecia que muitos candidatos iam cumprindo estas etapas  sem que, em algum momento,  eles tivessem se conduzido como se espera de um  psicanalista. Se os cursos do  Instituto, como vem se  processando, promovem o  crescimento do candidato (o que é   um fato inquestionável)  o que demarca a diferença entre estes e os psicanalistas  “oficiais”, não pode ser vislumbrado numa consulta ao espaço reservado a  cada um no  Roster.
A timidez de alguns candidatos me enche de surpresa, quando eles agem como se as suas outras conquistas anteriores, no  campo acadêmico e profissional, tivessem sido apagadas. Quando, mais tarde, estes indivíduos se sentem  fortes, isto pode resultar apenas da autoridade que  eles supõem terem adquirido ao serem “promovidos a psicanalistas”e, neste caso, em vez de abandonarem o escudo da Instituição, continuam a empunhá-lo para evitar as mudanças.
Houve períodos na história do Instituto de Psicanálise da SBPSP nos quais o clima autoritário, decorrente do momento político  nacional e da idealização ( ou sacralização ) da psicanálise,  produziu  um  discurso que  apenas começou a perder sua potência inibidora há alguns anos, abrindo  caminho para nossas atuais conquistas. No entanto, cicatrizes restaram.
Será que o preço elevado das sessões de psicanálise, tão distanciado da nossa realidade social, não resulta de uma dessas heranças nefastas? Será que a exigência de se praticar,  em todos os casos, quatro sessões semanais para se estar fazendo um trabalho psicanalítico, não é  uma outra herança dessa fase? 
Sabemos que existem aqueles que ignoram as exigências formais da IPA, cuja relutância em admitir as análises concentradas ainda faz parte do  nosso momento.  Muitos, entre estes,  não  revelam suas posições porque isto, afinal, é um direito de cada um, exceto quando se  transforma  no rigor com que  julga os colegas ou  que aplica aos candidatos.     
Recentemente me deparei com uma pergunta: “ a análise didática é diferente de uma análise comum?”  e, ao tentar respondê-la descobri, ao contrário do que eu mesma esperava, que eu achava que uma  análise didática podia sofrer deformações das quais os analisandos comuns eram poupados.  Num primeiro momento, reconheci um agente que designei tentativamente de “um superego institucional”.  Em seguida, percebi que essa designação era muito imprecisa. Falar de um “superego institucional” seria não apenas uma redundancia como, ainda, conduziria a nada.  No  entanto, ainda acredito que o “terceiro institucional”, que permeia com suas exigências o enquadramento da análise didática e que corre em paralelo à formação, pode efetivamente intervir na análise.   Mesmo assim, isto poderia ser apenas  um mal ( ou bem) necessário a ser  elaborado de forma produtiva no curso da análise didática.
Em um dos nossos Forums de Debates pela Internet, R. Cassorla levantou uma questão que considerei pertinente retomar. Ele apontou para a resistência às mudanças catastróficas que qualquer instituição, enquanto “organismo  vivo” apresenta,   e,  suas associações, incluiram os “pontos represados” que eclodem  nas conversas de corredores  e ativam nucleos destruidores. O movimento  incessante das tais conversas que acontecem “fora de um lugar”, a meu ver,  pode se transformar no inconsciente da  Instituição e  produzir uma sintomatologia própria.
A imagem da “conversa nos corredores” me  sugeriu algo mais  complexo  do  que  estar-se  “fora de uma sala de aulas”, ou daquilo que ficou represado pelo recalque. Tudo irá depender de como estas conversas  “fora do lugar” irão penetrar a política de uma dada Instituição ou  de como elas interferirão na criação de mitos ou  de imagens aprisionantes.  Por exemplo: a admissão de que uma dada instituição seja como um monolito ou uma monarquia. E não é assim que raciocinamos quando achamos que a Verdadeira Psicanálise só é alcançavel através de quatro sessões semanais e que, se ousarmos pensar de outro modo, teremos que atuar perversamente ou cairmos na hipocrisia ?
Quando  concordamos com as exigências formais da IPA estamos estabelecendo com ela apenas um contrato, como qualquer outro, e atendendo a uma convenção.  Não estamos diante de uma lei   divina que administra nossa criatividade e  nos guia na apreensão das circunstancias que nos cercam.
Nesse sentido acho precioso o momento atual da SBPSP e do seu Instituto de Psicanálise, quando são criados amplos espaços para arejamento de  questões que ficaram esquecidas ou mal elaboradas.   Isto porque as discussões, como vem sendo feitas, esvaziam a força das “conversas de  corredor”, ao lhes dar acesso a um lugar. Em outras palavras, diminuem o peso do “terceiro institucional” que intervem nas análises didáticas ou candidáticas quando se entende que este “terceiro” não representa apenas o establishment, como ainda encarna as vozes do recalcado que falam sem ter lugar.
 Códigos e regras não são parte da constituição da nossa mente e podem, com  franqueza e respeito, sofrer revisões e  modificações.  O que deveria nos nortear, desde a época em que formos candidatos, será  a  nossa paixão pela psicanálise  e a relação independente que pudermos estabelecer com os desafios do desconhecido, que requerem de nós uma resposta livre de falsas constrições.  
        


[1] - Psicanalista, Analista Didata da SBPSP.

 
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