 O RAIO DO DECOTE
Eugênia Correia Krutzen
Quem quer que você seja, caro leitor ou leitora, vou ter que supor que já passou pela experiência de fazer parte de um fenômeno meteorológico. Não, não me refiro a terremotos, secas, essas coisas já catalogadas. Falo de um tipo de experiência limite, que aproximo à sensação de tocar, com a pele mesmo, um pedaço de luz em movimento.
Sim, a luz tem a famosa velocidade que torna poeira qualquer tentativa de narrar um fato bem humano ...
O RAIO DO DECOTE
Eugênia Tereza Correia Krutzen
Quem quer que você seja, caro leitor ou leitora, vou ter que supor que já passou pela experiência de fazer parte de um fenômeno meteorológico. Não, não me refiro a terremotos, secas, essas coisas já catalogadas. Falo de um tipo de experiência limite, que aproximo à sensação de tocar, com a pele mesmo, um pedaço de luz em movimento.
Sim, a luz tem a famosa velocidade que torna poeira qualquer tentativa de narrar um fato bem humano como o que pretendo lhe contar. Mas é urgente fazer a tentativa, por menor que seja o grãozinho alcançado, que só poderá existir caso você, que no momento passa os olhos por essas letras, não classifique no gênero fantástico o que vem a seguir.
Se considero o fato trivial, é em honra à memória da minha amiga Clara, que assim de carne e osso como você e eu, sumiu desde a semana passada. Ninguém sabe se foi para uma cidade grande, ou outra menor, não se tem notícias dela e no momento me pergunto se esta homenagem é minha forma de admitir meu grande alívio com sua partida.
Escrevo no ano de 2003, num bairro sossegado perto do mar. A ditadura militar já passou há trinta anos, deixando memórias de passeatas estudantis, onde conheci essa amiga, com quem compartilhava os mesmos heróis e anti-heróis no movimento estudantil, além de horrendas notícias de torturas e boatos pré-fabricados.
A guerra do Iraque terminou e não temos grandes conflitos urbanos nessa parte do Brasil; Clara não parecia ter nenhum motivo para fugir; não se drogava, não tinha amigos barra-pesada. Era uma enfermeira de meia-idade, com sua rotina tranqüila onde estava nossa amizade. É na esperança de que ela também conheça esta versão dos acontecimentos que peço ao leitor, transmita-lhe esta mensagem. Talvez ela esteja por aí, mudando só o endereço...
Peço também que me perdoe algum eventual excesso, pois afinal devo ter alguma responsabilidade no acontecimento daquela noite. Sim, alguma parte devo assumir, mesmo que tenha sido, como já disse, um fenômeno meteorológico, astronômico, sei lá...
O fato é que suponho que Clarinha se foi por causa de um olhar. Um olhar que reconheço meu mas que não começou por trás deste par de óculos que tanto me protege. Se tenho que começar por algum ponto, o mais exato seria esse olhar, misturado a um sorriso de benevolente e mortífera compreensão, irônico, cruel, e encharcado de compaixão. Não sei o que tal mistura provocou em Clara, pois eu mesma nunca imaginei ser capaz de tamanha sutileza.
Ficaram para trás seu gato, seu apartamento, os acessórios de seu look perolado, seu emprego de enfermeira-chefe.
Está bem, vou começar do princípio. No começo éramos três: meu marido Valentim, eu e nossa amiga Clara. Desde aí inicia-se o principal, se o leitor me permite a expressão, que é ligado ao fato de Valentim ter princípios. É, ele não é desses homens vulgares que mentem e se aproveitam das mulheres para subir ou descer na vida. Nós nos amamos, à nossa maneira, e minha amiga Clara fez parte da nossa história desde o início. A diferença entre o princípio e a segunda fase deste relato é a intensidade com que Clara começou a abraçar Valentim pelos pretextos mais corriqueiros. Ela é dessas pessoas que dão aqueles abraços looooongos, sensuais, como se estivéssemos nos anos setenta, acreditando em amor livre, terapias corporais, aquela história de passar uma energia de maneira deliberada, sabe como é?
O que sustentava a moral desse assédio era a expressão cândida, inocente, bem normal, que acompanhava o abraço que ela dava a qualquer um, como se distribuísse pão aos pobres. A mudança, então, veio do fato de que ela passou a abraçar Valentim de maneira cada vez mais obcena.... fazendo questão de deixar bem claro... que eu estava percebendo, testemunhando, perversamente compartilhando.... bem, se você já passou por isso, caro leitor, sabe a que estou me referindo...
Quanto a ele? Bem, aqui avançamos um passo. Ele não escondia seu embaraço e propunha um sofisma engraçado: dizia que ela fazia aquilo apenas quando estava na minha frente!!! Você vê, então a insustentável posição em que eu me encontrava?
As roupas de Clara, justas, multi-coloridas, eram decotadíssimas, lembrando aquelas dançarinas tailandesas que fazem ginástica com os músculos da vagina e atiram bolas de ping-pong em alvos estrategicamente colocados nas salas de hotéis de luxo. Não, já disse que ela era enfermeira-chefe, jamais faria coisas vulgares de maneira explícita, mas era incrível, realmente acrobática, sua maneira de jogar com os seios, para lá e para cá, hipnotizando o pobre Valentim.
(pobre??? Bem... se era só na minha frente??? Ora, como eu posso saber?)
Aqui começa a terceira parte dessa história em quatro atos. Intitulo “Enjôo” essa passagem para dar conta do efeito de repetição desse bamboleio.
Repetíamos a composição cênica já descrita, que era acompanhada de diálogos assim: - me leve com você / - mas para que? Quando você não está ela não dá em cima daquele jeito / - como se pode saber? / - de qualquer jeito, sou imune, fique sossegada... etc etc. Tudo bem repetidinho, bem exato, inclusive com as variações necessárias para ninguém exagerar...
Quando estávamos os três, meu papel era olhar assombrada para a exatidão do bamboleio, formando um efeito de holofotes com as lentes dos meus óculos. Autônomas, elas, as lentes, iluminavam os abraços em questão e, ao mesmo tempo, me suspendiam pelo ar, depositando o que restava de mim para além dos óculos, num tipo de arquibancada, distanciando a tal cena num efeito de perspectiva espetacular.
Sim, uma arqui-bancada. Atávica e contemporânea, antiga e recente, o raio do óculos ninava meu terror em suspensão.
Esse balanço foi ficando tão enjoado que me saltou pelos olhos, nessa noite de verão, pedaço de crua verdade na forma de um olhar. Aqui receio estar me apoiando em frases mais patéticas do que poéticas, quando o tom do acontecimento não foi assim tão lírico, mas sim físico, real, palpável como um frio de madrugada misturando terror e maravilha.
Era perto de meia-noite. Tínhamos acabado de jantar e estávamos na calçada do restaurante nos despedindo. Fui sentindo aproximar-se a hora do ápice do bamboleio. Mas dessa vez, ao invés de me posicionar na marcação habitual, comecei a notar a sincronia entre as coisas, e me deixei levar pelo ritmo, repetindo o balanço dessa vez com o corpo todo, gingando como um lutador de capoeira, tentando manter os pés no chão, olhando para o chão, cavando a cota que me cabe de força da gravidade para não levantar vôo em direção ao meu arqui-banco de sempre. Clara mostrava seu desagrado por essa novidade, fazia cara feia, buscando apoio de Valentim para atrair meu olhar e atracar seu fosforecente abraço de aranha caranguejeira. Opa! Desculpe, escapou... este não era um momento agressivo, estávamos de fato, nos despedindo cordialmente, amigos se abraçando ao luar, depois do jantar, coisa normal numa calçada de restaurante...
Se evoco aranhas e venenos, é para trazer numa imagem peçonhenta um contraste para a doçura melosa, piegas, agri-doce e ao mesmo tempo, efervescente, incandescente, do que aconteceu a seguir. Estes movimentos e sentimentos todos se misturaram, e a luz daquele instante formou uma teia nos unindo os três ao universo humano, tão humano, que reluziu naquele segundo. Nunca mais fui a mesma: o tal momento foi um primeiro, embora não tenha durado mais que um segundo.
Clara abraçou longamente meu marido, como fazia de costume. Meus ossos já sentiam a força da levitação me puxando arquibancada acima quando de repente aconteceu o ponto que tanto anuncio e desejo compartilhar com você, caro leitor. Enquanto eu olhava para o chão, repetindo um tipo de mantra, “grounding, grounding”, começou um jogo de luzes que não sei dizer se meteorológico ou astronômico, ou talvez um “trompe l´oeil” exclusivo do meu terror. Só posso dizer, com toda certeza, que fui tocada, atingida, por um jogo de reflexos luminosos e isso de tal forma que notei bem o ponto em que o raio começou a se formar. Eu estava lá, como já disse, lutando para ficar em pé, no chão comum dos mortais, quando vi se formando um ângulo no raio luminoso refletido em uma protuberância redonda que saia das tiras da sandália dourada de Clara. Seu joanete reluzente refletiu um fio luminoso, que batendo na lente dos meus óculos, me trouxe um susto, um choque, transformando o enjôo em puro asco.
O raio começava lá, no pé, e oscilava para lá e para cá, ricocheteando por onde eu virasse a cabeça. Para não perder o equilíbrio, levantei a cabeça, mantendo a coluna ereta, e a linha luminosa passou a flutuar no decote da moça, para em seguida encontrar um fosco e surpreendente campo de pouso. Foi com enorme compaixão, que notei a largura considerável dos sulcos opacos na linda cabeleira ruiva de Clara. De tanto querer mudar a cor das madeixas... As ondas formadas pelo ralo cabelo movimentando-se na cabeça que minha amiga encurvava no ombro de Valentim, encontraram um fundo musical no rádio de um táxi que passava: “quem é do mar não enjoa...”
E dessa vez o nojo me sustentou. Ao invés de vomitar, notei uma nova cintilação, cada vez mais aguda, vindo agora do meu olhar, refinando, afiando um gume que tanto poderia virar lâmina de arma branca como pêndulo de varinha de condão. Uma cintilação abrindo espaço em meu terror. Fiquei paralisada, sim, mas dessa vez o acaso me foi favorável: uma estrela cadente passou bem naquele instante. Como já disse, a estrela não configura começo para essa história, lembrando, por exemplo, o vaga-lume, que fica sete anos em fase larvar para viver apenas duas horas.
Não pense o leitor que o fenômeno meteorológico ou astronômico em questão foi um pedido para estrela cadente. Não. Embora tendo aquele asqueroso ponto de partida, a luz parecia ter formado um para-raio no meu peito esburacado, acolhendo um feixe da estrela. Na cadência da luz piscando, encarnei o próprio pedido, eu virei um pedido cuja formulação se resumia em “ser” um pedido incandescente de tão intenso: luz própria.
Nunca vou saber (pois não sou boba de perguntar) qual palavra Clara sussurrou no ouvido dele, (modulando o volume justo o suficiente para eu ouvir um sussuro), quando se virou de lado, procurando deixar/não deixar à vista uma leve ereção na calça de Valentim. Talvez ela tenha de fato se curvado ainda mais, fulminada por meu oblíquo olhar de pena, generosa compaixão, solidariedade, ternura, essas coisas humanas, tão humanas. O fato é que ela se curvou como se tivesse sido atingida desde a estratosfera, enquanto eu oscilava em báscula com a cadente estrela.
Mas sei, com certeza, que desde a semana passada ela desapareceu. Sumiu inclusive das conversas com Valentim, a quem jamais mostrarei este relato. Para que então ressussitar, com minha narrativa, tão bizarra constelação?
Se escrevo, é antes de tudo para me certificar de que não foi um delírio, básico, o que nos aconteceu. É para lembrar a sábia frase de Paul Auster: “as histórias só acontecem com quem sabem conta-las.”
Não é?
Natal, 10 de março de 2003.
|