
ALFREDO SCHECHTMAN
Resumo:
O ensaio aborda aspectos da vida e obra de Qorpo-Santo e remete às interrelações da mesma com a questão da subjetividade do autor e sua manifestação no corpo do texto de suas peças teatrais.
Abstract:
The text shows some aspects of the life and work of Qorpo-Santo and the relationship between his subjectivity and how it is expressed in the body of the text of the plays.
ALFREDO SCHECHTMAN Médico, mestre em Medicina Social, assessor da Área Técnica de Saúde Mental do Ministério da Saúde.
O caso Qorpo-Santo: escrita e loucura
Alfredo Schechtman
Michel Foucault, em sua monumental história da loucura, tem um conhecido enunciado que relaciona a loucura à não obra, à impossibilidade de obra. Esta assertiva tornou-se objeto de abordagem por diversos autores, a partir de distintos prismas teóricos, envolvendo em seu debate, entre outros, filósofos, críticos literários e psicanalistas, e remetendo-nos à questão das raízes profundas da criatividade.
O espaço da criação implica em buscar traduzir conteúdos, percepções e representações internas numa linguagem acessível ao Outro, negociação entre o estritamente subjetivo e sua conversão em símbolo articulado culturalmente.
As vanguardas artísticas, incluindo o Dadaísmo e o Surrealismo, e de certo modo os modernos em geral, tensionaram esta relação entre o estritamente subjetivo, muitas vezes hermético e cifrado simbolicamente, e a circulação nos meios de cultura mais amplos, implicando toda teoria da estética da recepção nesta discussão. No caso da literatura, lembremos como escritores como Kafka e Joyce levaram ao limite esta questão.
Interessa-nos, pois, neste ensaio, seguir abordando a relação entre literatura e loucura. Em texto anterior apresentamos alguns autores brasileiros que passaram pela experiência da internação psiquiátrica, e sobre a mesma refletiram de modo intenso. Todavia, nestes escritos, a loucura, a vivência desta experiência singular, é narrada com um olhar racional, “exterior”, não são escritos “loucos”, cifrados à compreensão do Outro. (1)
Walter Benjamin, em resenha originalmente publicada em 1928, apresenta análise penetrante sobre as memórias de Daniel Paul Schreber, em que nos fala mais amplamente desta literatura da desrazão, da qual tinha ciência e pela qual manifestava vivo e continuado interesse.
“A existência deste tipo de obras tem algo de surpreendente. Estamos habituados, apesar de tudo, a considerar o âmbito da escritura como algo superior e seguro, de tal maneira que a emergência da loucura, que aqui aparece sigilosamente, assusta mais.” (BENJAMIN: 2002, 29-32)
Tais textos foram, em sua maioria, preservados quase anonimamente, graças ao empenho de registro de suas experiências pelos autores, os quais quase sempre custearam integralmente as edições de suas obras, normalmente à margem do sistema editorial regular.
No caso brasileiro, o encontro de tais registros é escasso, não apenas pela nossa escassa familiaridade com o universo da escrita, em uma cultura de viés predominantemente oral, fato este agravado ainda pela precária conservação de nossa memória histórica e cultural.
Assim, é como exceção notável que foi possível resgatar e revalorizar a obra textual de um autor gaúcho do século XIX (1829-1883), José Joaquim de Campos Leão, nome este ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS), redescoberto na década de 1960, quase cem anos depois da publicação inicial de seus textos, editados originalmente pelo próprio autor em gráfica de sua propriedade.
A partir daí, assistimos a uma nova abordagem da vida e da obra de QS, entre autores da crítica literária e teatral brasileira que voltaram suas lentes para sua obra, e que buscam situá-lo entre os precursores de modernas tendências da arte teatral, como o teatro do Absurdo de Alfred Jarry e Ionesco, pretendendo atribuir-lhe uma paternidade anacrônica do mesmo.
É perceptível a ausência de uma reflexão destes ou de outros teóricos sobre a questão da loucura, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, parece-nos, a desrazão se faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto.
Assim, apresentamos a seguir um breve resumo de sua vida e obra, destacando alguns fragmentos de suas peças teatrais que apontam para a presença de conteúdos extremamente pessoais, que parecem como que invadir a cena e o espaço literário, numa freqüência pouco usual nos textos da maioria de seus contemporâneos.
Uma vertente ainda menos conhecida de QS, ao menos até muito recentemente, é o de sua extensa produção poética. Sua poesia, diversamente de seu teatro, não introduz acentuados elementos de caráter biográfico, subjetivo ou hermético, ainda que se destaque por características inovadoras frente ao conjunto da poesia produzida em sua época, com recurso constante ao verso livre, ao humor e à farsa grotesca. (3)
Qorpo-Santo, natural da Vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego naquela capital, acabando por se habilitar ao exercício do magistério público, que passa a exercer a partir de 1851.
Em 1855, casa-se e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando cargos públicos de delegado de polícia e vereador.
Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua “Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade”. Manifestam-se neste ponto os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, sob o diagnóstico de “monomaníaco”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da família. (4)
QS não aceita pacificamente seu enquadramento psiquiátrico, recorre ao Rio de Janeiro, sendo examinado por médicos da capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial. Todavia, a pecha estava lançada, e nosso autor se vê cada vez mais isolado.
Mas adentremos um pouco no seu universo textual, transcrevendo trechos de “Hoje sou um; amanhã outro”, ilustrativos desta transposição quase literal de traços biográficos do autor para o enredo ficcional, através de nítidas e indisfarçáveis passagens autorreferenciais de nosso escritor-personagem. (5)
“O REI - Mas quem foi no Império do Brasil o autor da descoberta, que tanto ilustra, moraliza e felicita - honrando!?
MINISTRO - Um homem, Senhor, predestinado sem dúvida pelo Onipotente para derramar esta luz divina por todos os habitantes do Globo que habitamos.
O REI - Mas quais os seus princípios, ou os de sua vida?
MINISTRO - É filho de um professor de primeiras letras; seguiu por algum tempo o comércio; estudou depois, e seguiu por alguns anos a profissão de seu Pai, roubadO~lhe pela morte, quando contava apenas de 9 a 10 anos de idade. Durante o tempo do seu magistério, empregou~Se sempre no estudo da História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas as outras ciências e artes que o podiam ilustrar. Estudou tAMbém um pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar também - Latim, conquanto a isso desse começo, por causa de uma enfermidade que em seus princípios o assaltou. Lia constantemente as melhores produções dos Poetas mais célebres de todos os tempos; dos Oradores mais profundos; dos Filósofos mais sábios e dos Retóricos mais brilhantes ou distintos pela escolha de suas belezas, de suas figuras oratórias! Foi esta a sua vida até a idade de trinta anos.
O REI - E nessa idade o que aconteceu? Pelo que dizes reconheço que não é um homem vulgar.
MINISTRO - Nessa idade, informam-me... isto é, deixou o exercício do Magistério para começar a produzir de todos os modos; e a profetizar!
O REI - Então também foi ou é profeta!?
MINISTRO - Sim, Senhor. Tudo quanto disse que havia acontecer, tem acontecido; e se espera que acontecerá!
O REI - Como se chama esse homem!?
MINISTRO - Ainda não vos disse, Senhor, - que esse homem viveu em um retiro por espaço de um ano ou mais, onde produziu numerosos trabalhos sobre todas as ciências, compondo uma obra de mais de 400 páginas em quarto, a que denomina E... ou E... de. .. E aí acrescentam que tomou o titulo de Dr. C... s.... - por não poder usar o nome de que usava - Q... L..., ou J... J... de Q. .. L..., ao interpretar diversos tópicos do Novo Testamento de N. s. Jesus Cristo, que até aos próprios Padres ou sacerdotes pareciam contraditórios!
O REI - Estou espantado de tão importante revelação!
MINISTRO - Ainda não é tudo, Senhor: Esse homem era durante esse tempo de jejum, estudo, e oração - alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de palha! A sua cabeça era como um centro, donde saíam pensamentos, que voavam às dos Reis de que se alimentava, e destes recebia outros. Era como o coração do mundo, espalhando sangue por todas as suas veias, e assim alimentando-o e fortificando-o, e refluindo quando necessário a seu centro! Assim como acontece a respeito do coração humano, e do corpo em que se acha. Assim é que tem podido levar a todo o mundo habitado sem auxílio de tipo - tudo quanto há querido!
O REI - Cada vez fico mais espantado com o que ouço de teus lábios!
MINISTRO - É verdade quanto vos refiro! Não vos minto! E ainda não é tudo: esse homem tem composto, e continua a compor, numerosas obras: Tragédias; Comédias; poesias sobre todo e qualquer assunto; finalmente, bem se pode dizer - que é um desses raros talentos que só se admiram de séculos em séculos!
O REI - Poderíamos obter um retrato desse ente a meu ver tão grande ou maior que o próprio Jesus Cristo!?
MINISTRO - Eu não possuo algum; mas pode se encomendar ao nosso Cônsul na cidade de Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Sul, em que tem habitado, e creio que ainda vive.
O REI - Pois serás já quem fará essa encomenda!
MINISTRO - Aqui mesmo na presença de V . M. o farei. (Chega-se a uma mesa, pega em uma pena e papel, e escreve:)
"Sr. Cônsul de...
De ordem de Nosso Monarca, tenho a determinar a V. Sa. que no primeiro correio envie a esta Corte um retrato do Dr. Q... S..., do maior tamanho, e mais perfeito que houver.
Sendo indiferente o preço.
O Primeiro Ministro DOUTOR SÁ E BRITO"
Corte de..., maio 9 de 1866.”
Da mesma maneira, em “O Parto”, vislumbra-se de imediato esta presença do fator biográfico mesclado ao entrecho textual.
“RUIBARBO - Sim; sim. Vão indo; eu lá irei logo! (Saem.) Estes meus colegas são o diabo em figura de homens, ou de rapazes! Tudo desarrumam! É preciso uma... não: paciência de Jó, ou de algum outro Santo para aturá-los! Enfim, (depois de todo o quarto arrumado) é preciso aturá-los! É melhor que andar com eles aos tombos, puxões ou cabeçadas. (Pega em um livro.) São horas, vou às minhas lições de Retórica! E logo continuarei a escrever a minha encantadora comédia - a Ilustríssima Senhora Dona Anália de Campos Leão Carolina dos Santos Beltrão Josefina Maria Leitão História das Dores Patão, ou Bulhão, etc. etc. Dizem os médicos, e confirmam os lógicos: As cousas que têm de trabalhar, apertadas, não poderão fazer tão bom serviço como - desembaraçadas; e eu o creio pia e firmemente. Exemplifiquemos com os próprios homens e seus órgãos. Suponha-se que estão a trabalhar em uma sala vinte pessoas, e que na mesma não o podem fazer livre ou desembaraçadamente mais que dez ou doze. Pergunto: seu serviço, obra, ou trabalho, sairá tão perfeito, como se trabalhassem aqueles que - bem - só o podiam fazer? É de crer que não. Outro: Temos órgãos - da vista, do ouvido, do olfato, que por certo oprimidos, ninguém dirá que - bem funcionam. Assim pois devem ser os do nosso estômago, intestinos, etc. Apertados, não poderão funcionar, transformar ou digerir os alimentos ou cousas de que nos alimentamos, com aquela facilidade com que o fazem ou devem fazer não opressos ou desembaraçados. Se aperto os meus dedos, não posso escrever, nem com a mão cousa alguma fazer! Se porém esta está desembaraçada, com ela faço o que quero, ou o que posso. Logo - não convém a opressão; se se quer trabalho abundante e perfeito!
RUIBARBO - Eu me explico: Quando escrevo, penso, e procuro conhecer o que é necessário, e o que não é; e assim como, quando me é necessário gastar cinco, por exemplo, não gasto seis, nem duas vezes cinco; assim também quando preciso escrever palavras em que usam letras dobradas, mas em que uma delas é inútil, suprimo uma e digo: diminua-se com esta letra um inimigo do Império do Brasil! Além disso, pergunto: que mulher veste dois vestidos, um por cima do outro!? Que homem, duas calças!? Quem põe dois chapéus para cobrir uma só cabeça!? Quem usará ou que militar trará à cinta duas espadas! Eis por que também muitas vezes eu deixo de escrever certas inutilidades! Bem sei que a razão é - assim se escreve no Grego; no Latim, e em outras línguas de que tais palavras se derivam; mas vocês que querem, se eu penso ser assim mais fácil e cômodo a todos!? Finalmente, fixemos a nossa Língua; e não nos importemos com as origens!”
(Qorpo-Santo: 1980)
Esta amostra, pinçada de algumas de suas peças, parecem suficientes para o que pretendíamos indicar, sendo interessante nomear alguns títulos de seus trabalhos, além dos acima mencionados, que soam bastante destoantes do habitual contemporâneo: “As relações naturais”, “Certa identidade em busca de outra”, “Eu sou a vida, eu não sou a morte”.
A obra enciclopédica de QS alcança nove volumes em sua edição original, impressa em sua gráfica, chamando a atenção o fato de que todo o conjunto de seus textos teatrais foi escrito em apenas seis meses do ano de 1866, período que coincide com o agravamento de seus sintomas psíquicos.
Esta febre de escritura, que corre paralela ao empenho de nosso autor em produzir uma reforma gramatical e ortográfica da língua portuguesa, foi naturalmente classificada como “grafomania” pelos médicos que o tiveram sob observação.
Referências bibliográficas:
2- Benjamin, W. Libros de Enfermos Mentales (de mi colección). In: Tres reseñas de las “Memórias de un Neurópata”, de Daniel Paul Schreber. Clínica y Pensamiento, 2: 27-32, 2002.
3- Espírito Santo, D (Org.). Poemas de Qorpo-Santo. Contracapa, Rio de Janeiro, 2000.
4- Martins, L. M. O moderno teatro de Qorpo-Santo. Editora UFMG/UFOP, Belo Horizonte, 1991.
5- Qorpo-Santo, J.J. C. L. Teatro completo. MEC/SNT/FUNARTE, 1980.
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