 Batalha naval (ou F de faca, 1,2 e 3)
Miguel Calmon Du Pin e Almeida
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3 -“ D, de dado; E, de elefante; e F, de faca, 4.”
-“Uma parte de um cruzador.”
Ele dirige novamente a 130 por hora; a eficiência no preparo do barco; a mulher, bonita e jovem; ele, forte e experiente. Ele o convida para o passeio. O rapaz já o previra. O quase atropelamento reaproximara o adulto do espanto clivado. Exibir-se para o rapaz espantaria o espanto. Nas competições
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Batalha naval (ou F de faca, 1,2 e 3)
Miguel Calmon Du Pin e Almeida
“E então havia este romance em sua vida: um homem morrera por ela. Quase já não o magoava pensar no pouco que ele, marido, representara em sua vida. Observava-a enquanto dormia, como se nunca houvessem vivido juntos. (...) Pensou como aquela mulher, adormecida a seu lado, ocultara por tantos anos a imagem do seu amado a afirmar-lhe que não queria viver. Um pranto generoso invadiu-lhe os olhos. Nunca se sentira assim por uma mulher, mas sabia que isto era amor.(...) Sim os jornais estavam certos: a neve cobria toda a Irlanda. Caía em todas as partes da sombria planície central, nas montanhas sem arvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e , mais para o oeste, nas ondas escuras do cemitério abandonado onde jazia Michael Furey.” (Joyce .J , Os mortos, in Dublinenses).
1- “B, de bola , 12 e 14; e C, cavalo,13.”
“Afundou um hidroavião.”
Ele sabe de tudo . É inútil tentar se esconder, ele sabe onde você está. Ele troca com ela na direção do carro. Não há lugar para hesitação, vacilações ou espanto. Ele sabe e por isso não há mais lugar para o espanto. Não há tolerância com os outros, mulheres, jovens e crianças, que, por não deterem este saber sobre as coisas, hesitam e se espantam. Porque um adulto sabido ainda se espantaria ?
2- -“L, de leite; M, de Maria; e N, de Nair, 8.”
-“ Afundou um destroyer em M e N, 8.”
Ele corre a cento e trinta quilômetros por hora. Um rapaz atravessa o caminho do carro e permanece parado. Ele freia , o carro derrapa. Ele se irrita. Não fosse sua perícia o rapaz teria sido atropelado. Recompõe–se do susto retomando a soberania. De súbito , quase o espanto. A surpresa de não imaginar um sujeito ali. De súbito a revelação que se transformará em convite, em jogo. Urge apagar os traços onde se desenhou , mesmo que de longe, a possibilidade do espanto. Ele provará isto. Nos adultos, o espanto está clivado.
3 -“ D, de dado; E, de elefante; e F, de faca, 4.”
-“Uma parte de um cruzador.”
Ele dirige novamente a 130 por hora; a eficiência no preparo do barco; a mulher, bonita e jovem; ele, forte e experiente. Ele o convida para o passeio. O rapaz já o previra. O quase atropelamento reaproximara o adulto do espanto clivado. Exibir-se para o rapaz espantaria o espanto. Nas competições , nas rivalidades , o espanto retorna quase que com hora marcada, quase sem espanto, em um movimento já esperado por ele. Cada parceiro deve estar lá onde o outro espera, como em um dialogo especular que trata de confirmar para os sujeitos o que eles pensam que são , ao mesmo tempo em que apaga as marcas do novo , do susto, da surpresa , do inusitado, do necessário outro, por intermédio de quem eu me constituo. “Eu te observo e nada em você me é estranho. Posso antecipar cada um dos seus movimentos”. Definem-se os papéis: ao rapaz cabe surpreende-lo, estar onde ele não poderia supor, onde ele não o espera.Tudo no seu lugar, tudo parece simples, fácil. Rapaz pega o leme e descobre as dificuldades do timão. Eles riem. O rapaz sobe no mastro. A mulher ri. O rapaz exibe sua destreza no uso da faca. Ele o observa atento. Ele o imita com a faca. Contra as expectativas, ele não se corta.
4 -“D, de dado, 1, 2 e 3.”
-“ Uma parte de um couraçado.”
A refeição. O mergulho. Os risos na água. A tranqüilidade da espera da tempestade. O barco à deriva tendo ao timão, o rapaz. A corrida atrás do barco que teima em lhe escapar. Estaria o rapaz gozando? . Mergulha a cabeça no mar e nada o mais rápido que pode. Cada uma das vezes que ele levanta a cabeça para lhe adivinhar o rumo, o barco lhe escapou, está onde ele não está. A corrida dá ao barco o estatuto de invisibilidade. Ele alcança o barco. Ele quase mergulhou no espanto. O refúgio. A faca fincada na parede. Precisa. Desafiadora. Como um aviso para o rapaz de que não tente nada pois a resposta será pronta e firme. Ele não repara que errou o alvo e cravou a faca na parede do próprio barco.
5 -“F, de faca, 1, 2 e 3.
-“ Água.”
O ciúme. A opressão de tudo saber identifica o rapaz e a mulher. A faca no bolso. A discussão. A faca na água. Um furo no ser.
Erra o mastro, erra o rapaz. Nem o mastro nem o rapaz. Nem a destreza nem a maldade. Nem mau ele é. Ele é apenas alguém que se diverte espantando pardais. O soco. O rapaz na água. “Onde você se escondeu? Onde você está que não o encontro?” O espanto é sempre sentido como se fosse a primeira vez. Não se trata de um ato de rememoração, mas o espanto é o estado que testemunha o momento da fundação, testemunha de nossa dívida com o outro. “Ah, quem dera aos adultos poder brincar com a mesma seriedade com que as crianças brincam!”, dizia Nietzsche. A criança quando brinca não o faz por pura diversão. Em cada um de seus movimentos, ela põe em jogo um desejo que tem a capacidade de engendrar o real. Desse modo constrói o real e a si mesma, em um jogo sem descansos. Sua intenção não é espantar o tédio dos seus cotidianos, uma vez que para ela, o cotidiano é fonte permanente de espanto. O rapaz se esconde. Está onde não se suspeita. A mulher mergulha. Ele mergulha e não volta para o barco. O rapaz volta. O rapaz e a mulher juntos consagram a deposição do macho com uma trepada.O rapaz vai embora. A mulher ao timão do barco segue de volta ao seu encontro. Em sua “morte”, o rapaz espantou-o de sua própria condição. Ele novamente espantado diante da questão ‘quem sou eu?”. Mais uma vez dono de uma dívida. Impagável. A mulher é testemunha.
Miguel Calmon du Pin e Almeida
junho de 1999
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