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Batalha naval (ou F de faca, 1,2 e 3)

Enviada por mcalmon.trp em Tuesday, June 01 @ 19:00:00 BRT

Trabalhos

Batalha naval (ou F de faca, 1,2 e 3)                    

Miguel Calmon Du Pin e Almeida

...
3    -“ D, de dado; E, de elefante; e F, de faca, 4.”
      -“Uma parte de um cruzador.”  
 
Ele dirige novamente a 130 por hora; a eficiência no preparo do barco; a mulher, bonita e jovem; ele, forte e experiente. Ele o convida para o passeio. O rapaz já o previra.  O quase atropelamento reaproximara o adulto do espanto clivado. Exibir-se para o rapaz espantaria o espanto. Nas competições
...


Batalha naval  (ou F de faca, 1,2 e 3)                   

                                                   

  Miguel Calmon Du Pin e Almeida

 

“E então havia este romance em
sua vida: um homem morrera por ela.
Quase já não o magoava pensar no
pouco que ele, marido, representara
em sua vida. Observava-a enquanto
dormia, como se nunca houvessem
vivido juntos. (...) Pensou como
aquela mulher, adormecida a seu
lado, ocultara por tantos anos a
imagem do seu amado a afirmar-lhe
que não queria viver.
Um pranto generoso invadiu-lhe os
olhos. Nunca se sentira assim por uma
mulher, mas sabia que isto era
amor.(...)
Sim os jornais estavam certos: a neve
cobria toda a Irlanda. Caía em todas
as partes da sombria planície  central,
nas montanhas sem arvores,
tombando mansa sobre o Bog of Allen
e , mais para o oeste, nas ondas
escuras do cemitério abandonado
onde jazia Michael Furey.”
(Joyce .J , Os mortos, in Dublinenses).

 

1-      “B, de bola , 12 e 14; e C, cavalo,13.”

“Afundou um hidroavião.”

 

Ele sabe de tudo . É inútil tentar se esconder, ele sabe onde você está.  Ele troca com ela na direção do carro. Nãolugar para hesitação, vacilações ou espanto. Ele sabe e por isso nãomais lugar para o espanto. Não há tolerância com os outros, mulheres, jovens e crianças, que, por não deterem este saber sobre as coisas, hesitam e se espantam. Porque um adulto sabido ainda se espantaria ? 

  

  2-     -“L, de leite; M, de Maria; e N, de Nair, 8.”

    -“ Afundou um destroyer em M e N, 8.” 

 

Ele corre a cento e trinta quilômetros por hora. Um rapaz atravessa o caminho do carro e permanece parado. Ele freia , o carro derrapa. Ele se irrita. Não fosse sua perícia o rapaz teria sido atropelado. Recompõe–se do susto  retomando a soberania. De súbito , quase o espanto. A surpresa de não imaginar  um sujeito ali. De súbito a revelação que se transformará em convite, em jogo. Urge apagar os traços onde se desenhou , mesmo que de longe, a possibilidade do espanto.  Ele provará isto. Nos adultos, o espanto está clivado.

   

 3    -“ D, de dado; E, de elefante; e F, de faca, 4.”

                                -“Uma parte de um cruzador.”  

 

Ele dirige novamente a 130 por hora; a eficiência no preparo do barco; a mulher, bonita e jovem; ele, forte e experiente. Ele o convida para o passeio. O rapaz o previra.  O quase atropelamento reaproximara o adulto do espanto clivado. Exibir-se para o rapaz espantaria o espanto. Nas competições , nas rivalidades , o espanto retorna quase que com hora marcada, quase sem espanto, em um movimento esperado por ele. Cada parceiro deve estar onde o outro espera, como em um dialogo especular que trata de confirmar para os sujeitos o que eles pensam que são , ao mesmo tempo em que apaga as marcas do novo , do susto, da surpresa , do inusitado, do necessário outro,  por intermédio de quem eu me constituo. “Eu te observo e nada em você me é estranho. Posso antecipar cada um dos seus movimentos”. Definem-se os papéis: ao rapaz cabe surpreende-lo, estar onde ele não poderia supor, onde ele não o espera.Tudo no seu lugar, tudo parece simples, fácil. Rapaz pega o leme e descobre as dificuldades do timão. Eles riem.  O rapaz sobe no mastro. A mulher ri.   O rapaz exibe sua destreza no uso da faca. Ele o observa atento. Ele o imita com a faca. Contra as expectativas, ele não se corta.

 

                         4 -“D, de dado, 1, 2 e 3.”

                            -“ Uma parte de um couraçado.”

 

A refeição. O mergulho. Os risos na água. A tranqüilidade da espera da tempestade. O barco à deriva tendo ao timão, o rapaz. A corrida atrás do barco que teima em lhe escapar. Estaria o rapaz gozando? .  Mergulha a cabeça no mar e nada o mais rápido que pode. Cada uma das vezes que ele levanta a cabeça para lhe adivinhar o rumo, o barco lhe escapou, está onde ele não está. A corrida dá ao barco o estatuto de invisibilidade. Ele alcança o barco. Ele quase mergulhou no espanto. O refúgio. A faca fincada na parede. Precisa. Desafiadora. Como um aviso para o rapaz de que não tente nada pois a resposta será pronta e firme. Ele não repara que errou o alvo e cravou a faca na parede do próprio barco.

 

                   5 -“F, de faca, 1, 2 e 3.

                      -“ Água.” 

 

O ciúme. A opressão de tudo saber identifica o rapaz e a mulher. A faca no bolso. A discussão. A faca na água.  Um furo no ser.

Erra o mastro, erra o rapaz. Nem o mastro nem o rapaz. Nem a destreza nem a maldade.  Nem mau ele é. Ele é apenas alguém que se diverte espantando pardais. O soco. O rapaz na água. “Onde você se escondeu? Onde você está que não o encontro?” O espanto é sempre sentido como se fosse a primeira vez. Não se trata de um ato de rememoração, mas o espanto é o estado que testemunha o momento da fundação, testemunha de nossa dívida com o outro. “Ah, quem dera aos adultos poder brincar com a mesma seriedade com que as crianças brincam!”, dizia Nietzsche.  A criança quando brinca não o faz por pura diversão. Em cada um de seus movimentos, ela põe em jogo um desejo que tem a capacidade de engendrar o real. Desse modo constrói o real e a si mesma, em um jogo sem descansos. Sua intenção não é espantar o tédio dos seus cotidianos, uma vez que para ela, o cotidiano é fonte permanente de espanto. O rapaz se esconde. Está onde não se suspeita. A mulher mergulha. Ele mergulha e não volta para o barco. O rapaz volta. O rapaz e a mulher juntos consagram a deposição do macho com uma trepada.O rapaz vai embora. A mulher ao timão do barco segue de volta ao seu encontro. Em sua “morte”, o rapaz espantou-o de sua própria condição. Ele novamente espantado diante da questão ‘quem sou eu?”. Mais uma vez dono de uma dívida. Impagável. A mulher é  testemunha.

 

 

                                                                        Miguel Calmon du Pin e Almeida

                                                                                        junho  de 1999


 
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