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Repetição e memória: oficina terapêutica junto à terceira idade

Enviada por echk em Thursday, June 10 @ 17:00:00 BRT

Trabalhos
                     Repetição e memória:
              oficina terapêutica junto à terceira idade
 
                                        Eugênia Correia Krutzen
 
 
Resumo:
 
A partir do final do século XX tem aumentado a média na sobrevida da população na maior parte dos países. Este fato tem ocasionado o desenvolvimento de uma área de saber, a psicogerontologia, tratando-se, neste texto, de uma das possibilidades no cuidado com pessoas idosas, uma modalidade de arte-terapia,  em instituições asilares públicas. A perspectiva psicanalítica é apresentada como eixo principal orientando Oficinas de Histórias desenvolvidas com a participação de estudantes do curso de Psicologia.
 
Autora: Eugênia T.C.B.Correia Krutzen é psicóloga; doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela UnB; mestre em Filosofia da Educação - UNICAMP.
Endereço para correspondência: Rua Prof. Paulo P. Galvão 2979, Capim Macio, 59.078-430 – Natal, RN. echk@digizap.com.br.


Palavras-chave: psicogerontologia, psicanálise do social, psicanálise em instituição, arte-terapia.
 
Abstract:
 
From the end of the twentieth century XX, the average in the survivorship of the population in most countries has increased. This fact has caused the development of a knowledge area, psychogerontology, treated, in this text, as one of the possibilities to the care for the elderly, an art-therapy modality, in public shelter institutions. The psychoanalytic perspective is presented as a main axis guiding History Workshops developed with the participation of students from the Psychology course.
 
Keywords: psychogerontology; psychoanalysis of the social, psychoanalysis in institution, art-therapy.
                    
Repetição e memória:
  oficina terapêutica junto à terceira idade
 
 
                                        Eugênia Correia Krutzen
 
“A velhice ao fim da vida não é inelutável. Podemos morrer sem termos atravessado esta etapa.J.Messy
 
  O campo psicanalítico tem experimentado mudanças intensas nas últimas décadas, uma delas sendo o deslocamento da ênfase aos consultórios particulares em direção a atividades em instituições. Uma das invariantes que permitem fixar os limites do campo freudiano é a referência aos princípios éticos estabelecidos a cada atendimento, onde quer que se realize. Kehl (2002 p.10) é generosa a este respeito, pontuando que embora a dimensão individual pareça restrita no “um a um” de nossa escuta, a busca por um sentido para a vida orienta nosso ato para além do registro individual: esta busca “é uma tarefa coletiva, uma tarefa da cultura, da qual cada sujeito participa com seu grão de invenção. É uma tarefa simbólica, que se dá por meio da produção de discursos e narrativas sobre “o que a vida é “ ou “o que a vida deve ser””.
  Ética, neste sentido, não se refere apenas ao conjunto de normas que regem uma profissão, nem tão pouco a um Bem universalmente estabelecido, mas denomina um espaço de busca pela configuração possível à condição humana.
  É impossível tratar de idosos sem levar em conta tais questões, que afinal, permeiam qualquer idade: o amor, o trabalho, a morte, o sentido para a vida. Qual seria, então, a justificativa de intitular nosso atendimento pela referência à faixa etária? Esperamos sugerir uma resposta com este artigo, trazendo para o campo psicanalítico questões mais próximas da medicina e o serviço social.
Uma jovem paciente do consultório me relata seu sintoma de lembrar demais do passado; a invasão cotidiana de flasches intempestivos da infância. Era este seu sofrimento cotidiano: lembrar demais dos primeiros anos de vida. Filmes contemporâneos como Blade Runner, Inteligência Artificial e Amnésia evocam a questão da história de vida como característica do enigma humano: ninguém escapa de privilegiar trechos, esquecer outros irrecuperavelmente, negociando consigo mesmo as queimas de arquivo.
Questão ignorada quando se aproxima “memória” da capacidade de evocação, apagando a tradição freudiana que define o esquecimento como formação do inconsciente, indicador precioso do que permanece lembrado pelo avesso.
  Encontrei D.Laura em uma das sessões da Oficina no IJB, contando de modo suave, como se descrevesse um por do sol, estar perdendo a memória de palavras e fatos vividos. Era este o fato que se repetia: a ausência da repetição do vocabulário habitual. Do excesso à ausência, a memória sustenta-se na repetição, (ou a repetição sustenta-se na memória?) articulação imprescindível para que relato vire história.
 

A instituição

 
   A beleza dos jardins, a gentileza das pessoas que nos recebem com atenção são características do Instituto Juvino Barreto, instituição voltada para o asilo a pessoas idosas, fundado no início do século XX em Natal, RN. Mais detalhes sobre as características do IJB estão em Cardoso (2001).
   Nosso trabalho nessa instituição começou em outubro/2001, com um período de preparação, os atendimentos tendo inicio em março/2002.
  Figueiredo (1997) é uma das autoras brasileiras que analisam atendimentos em instituições públicas e em seu livro “Vastas confusões e atendimentos imperfeitos” apresenta um histórico da entrada das oficinas psicoterapêuticas no espaço criado pelas novas legislações anti-manicomiais. A pesquisa aqui discutida não acontece em hospital ou ambulatório psiquiátrico, mas muitos idosos ali abrigados parecem próximos (uns mais outros menos) de uma demência senil.
  Frente a esta situação, observamos duas tendências principais: a medicalização e as orientações de caráter social. A pertinência dessas medidas, entretanto, não deveria diminuir a busca pelos fatores inconscientes, capazes de proporcionar efeitos tanto na qualidade de vida no interior das instituições quanto na inserção dos idosos nos circuitos culturais da cidade, inclusive o mercado de trabalho. É nesse contexto que foi iniciado este projeto de pesquisa e extensão do curso de Psicologia da Universidade Potiguar, procurando contribuir para a formação ética e científica dos estudantes envolvidos e promover o intercâmbio com outros pesquisadores.
 
1 - Descrição inicial de pontos relevantes
 
A partir da supervisão à equipe de quatro estudantes do quarto ano de Psicologia - Rosângela Cardoso, Lílian Regis, Joana Flor e Katiuce Gurgel -; dos atendimentos aos idosos e conversas com as equipes de cuidadores do Instituto, chama atenção:
 
a) A desocupação
 
Diversos idosos parecem típicos de quadros depressivos, um  abandono de si, um suicídio sem morte. Aposentados, consideram esta situação um “merecido descanso”, referindo-se ao trabalho como um peso do qual ficaram livres. É difícil, com tal pressuposto, envolvê-los em atividades que possam, além de incidir na questão econômica, possibilitar laços sociais fecundos. Há uma oficina de costura, atualmente pouco frequentada.
 
b) Tempo psicológico e doenças crônicas e/ou degenerativas
 
A quase totalidade das conversas orientou-se sobre o tempo passado e os males do corpo. Acreditamos que a desocupação observada possa contribuir para esta dificuldade em engendrar projetos, enrijecendo o presente em torno de uma falta de sentido para a vida.
 
c) Na equipe técnica do Instituto, descrita em Cardoso (2002) não há psicólogos nem atividades psicoterapêuticas sistematicamente oferecidas, nem reconhecimento explícito da dimensão psicológica da situação asilar, ou supervisão sistemática – neste  âmbito – das práticas dos cuidadores.   

 

2 - Nossa proposta:

 
a) questão de método
 
 Para nós tem sido difícil encontrar um método capaz de articular nosso trabalho ao de outros pesquisadores da área de ciências da saúde, onde está situado o curso de Psicologia da UnP. O texto Correia (2002) “Métodos qualitativos de pesquisa e o que a Psicanálise tem a ver com isso” discute essa dificuldade. Nossa proposta parece aproximar-se da “pesquisa qualitativa” de Rizzini et alli (2000).
A característica que nos interessa realçar na pesquisa qualitativa é a importância concedida à subjetividade do pesquisador, diferenciando-o do aplicador de técnica e contribuindo para as condições propícias à consideração da subjetividade do próprio idoso a ser atendido. E, de fato, a questão da subjetividade na terceira idade não é facilmente “enquadrada” nas pesquisas encontradas até aqui, onde predominam os enfoques médicos ou sociais.
É interesse nosso contribuir, com o “grão de areia” deste projeto para manter na ordem do dia a relação da psicanálise com as instituições responsáveis pela legitimidade do conhecimento, na mesma direção de Birman (1998) quando observa a proximidade da psicanálise contemporânea das instituições de pesquisa.
 Concordamos com Pádua (1996) na defesa do requisito “harmonia” como característica básica de um bom método. Não se trata de apenas aplicar procedimentos fixos já testados em outras situações, um método adequado é, antes de tudo, aquele que consegue coerência entre os pressupostos epistemológicos, éticos e os limites do campo a ser pesquisado. Daí a importância de refletir sobre a diretriz psicanalítica de nossa escuta ser ou não compatível com a pesquisa qualitativa, tal como definida por Rizzini et alli ()
Apoiamo-nos na hipótese freudiana de que processos inconscientes podem estar na base de comprometimentos orgânicos, acreditando que oficinas como a nossa possam ter efeitos na qualidade de vida, na saúde dos idosos e na capacidade que possam desenvolver para continuar a amar e trabalhar.
Nesta mesma direção Aguiar (2001), Mom y Baranger (1987), Jahoda (1982) e Jerusalinsky (2000) são unânimes em indicar os graves efeitos subjetivos da inatividade e do desemprego.
Supomos então que estejam inter-relacionados os pontos observados desde o início: a predominância do enfoque médico ou social ao atendimento oferece um aporte identificatório que o leva adaptar-se – em um ciclo vicioso – às características largamente aceitas para a senilidade, aumentando a tendência a deixar de envolver-se afetivamente e trabalhar.
Em outra direção, Dourado (2000), Messy (1999) indicam a pertinência de intervenções psicoterapêuticas em instituições análogas ao IJB, deslocando os procedimentos tanto do eixo médico quanto da perspectiva propriamente “social”.
 
b) A Oficina de Histórias
 
Resume-se aqui a forma padrão da Oficina, iniciada em 1999 em Brasília, (Correia, 1999):
- as sessões acontecem em torno do relato (com ou sem livro) e comentário de histórias preferencialmente de gênero fantástico, mítico, folclórico, contos de fada. (No início usávamos Grimm, Perrault, As mil e uma noites, e ultimamente estamos encantadas com as coletâneas de Câmara Cascudo). Em seguida o participante é convidado a criar e comentar suas histórias sobre incidentes vividos ou imaginados. Anunciamos a possibilidade de reproduzir, na forma de um pequeno volume, (talvez cordel) as histórias porventura organizadas até o final de 2002. Procuramos formar um tipo de acervo com o material produzido, supondo que a própria arrumação em uma estante, do material da oficina, ao lado dos textos clássicos, produza um efeito de “pertinência”, dignificando a autoria.
Partindo do que ocorre nas sessões procuramos identificar junto ao idoso algum outro tipo de suporte que possa interessá-lo, como por exemplo, a arte culinária, bricolagem com sucata ou jardinagem ornamental.
Cada idoso então, personaliza sua histórias com uma marca própria do domínio que lhe é familiar, podendo então, seu “produto” ser acompanhado de objetos ou procedimentos, como exemplificados a seguir.
 
3 - Uma amostra dos atendimentos: D. Alice, D. Laura e Sr. Alfredo.
 
a) Ingredientes, preparação e efeitos.
 
       Dona Alice não era indiferente ao convite de ouvir e contar histórias, mas sempre demonstrava preferência por falar de seu desalento frente à dificuldade de voltar a trabalhar. Tinha sido cozinheira, admirada e reconhecida nas várias casas onde trabalhara, e ela mesmo intercalava o relato das passagens de sua vida às receitas que preferia. Foi assim que surgiu a idéia de fazer um livro com suas receitas, seguidas dos trechos das histórias de vida.
       Na sessão passada, por exemplo, em junho/2002 foram discriminados os ingredientes e a maneira de preparar a seu modo o  “bolo de fubá”. Continuando a conversa,  “associando livremente”, passamos a procurar a “medida” para um susto experimentado aos dez anos. Prosseguindo então a mesma forma das receitas, listamos os ingredientes para “um susto aos dez anos”: - 10 minutos de olhos fechados; - uma estradinha de mata fechada; - 3 quilos de aviso da avó sobre a caipora; - 2 quilos de vontade de ir. O modo de preparar conclui com um final feliz: “fui”.
       A receita de “peixe com banana de vez”, enfatiza a situação da banana dos peixes que não devem ficar nem muito cozidos nem muito crus, preparados ao lado da descrição de uma certa disputa doméstica com toques de violência, destacando-se os componentes, o modo de preparar, e o efeito que foi alguma coisa  “passar do ponto” naquele dia.
 
b) O Mal de Alzheimer é uma ficção?
    
        A impressão inicial que se tem nas primeiras conversas com D.Laura, uma bela senhora de 73 anos é de estarmos diante de alguém em plena senilidade. Observamos como é fácil “cairmos” nesta forma de entender o que lhe acontece quando perde – ela afirma que literalmente perde – as palavras durante a conversa.
       No entanto, para surpresa nossa, a história que vem criando nos deixa atônitas: D. Laura repete, sem perder nenhuma palavra, os trechos já construídos, aproximando-se, curiosamente, da mesma queixa de Gabriela (a paciente do consultório citada no início, “lembra?”)
       Embora hesitante quando chego, ela recupera a proposta da oficina na leitura das primeiras palavras que me foram ditadas na semana anterior. Em seguida repete tudo, em uma demonstração evidente de que há muito o que ser pesquisado e feito em relação às disfunções da memória. E mais ainda, entre memória e escrita.
 
c) A piografia
 
     “- Vem, dona Ana, chegou a moça das histórias. Venha contar sua biografia!”
     “- Só se for minha piografia, pois comigo só aconteceu o que tem de pior”.
       Katiuce Gurgel estabeleceu claramente os objetivos de sua intervenção embora no momento esteja vivendo um tipo de jogo de esconder com esta idosa que ao mesmo tempo sinaliza grande interesse, mas não vem aos encontros, reclamando em seguida que a pesquisadora não estava disponível. Tais momentos compõem supervisões muito interessantes, quando a teoria é sempre redescoberta, levando-nos a desenvolver uma sensibilidade clínica no trato com pacientes cujo envolvimento não inclui uma demanda de terapia, sendo nossa a insistência e a aposta.
O atendimento ao Sr. Álvaro, outro exemplo, incluiu, certa vez, a descrição minuciosa de uma árvore genealógica de pessoas queridas. A atenção a este tema absolutamente fora de qualquer planejamento, o desenho dos vínculos de parentesco parecem trazer uma nova orientação a seu presente, e ele espera a hora da oficina com interesse.
       Os atendimentos de Rosângela Cardoso têm sido tão bem aceitos que uma idosa veio espontaneamente procurá-la, invertendo o movimento inicial de sermos nós a convidá-los. Esta pesquisadora efetua também sua monografia de final de curso a partir da Oficina.
 
     d) Plantas ornamentais, bricolagem com sucata: possibilidades futuras?
 
       Em um dos momentos em que conversávamos na porta da instituição, o Sr. Alfredo se aproxima trazendo um jarrinho e nos pergunta qual era aquele tipo de planta. Deu boas risadas então, ao ver nosso interesse pela folha que, de fato, era artificial. A partir de momentos assim, em que fica evidente a disponibilidade deles para “fazer alguma coisa” prática, visível, que ocupe um lugar no espaço, é que surgiu a idéia da modalidade sucata. Começaremos com a orientação de Lílian Regis, pesquisadora da equipe que tem contribuído com sua experiência. Pretende-se manter as histórias como elemento articulador das produções construídas, procurando escapar das oficinas tradicionais que visam, exclusivamente, a construção dos objetos.
  Um exemplo de proposta: latas de achocolatados podem ser revestidas com figuras recortadas de tecido ou de papel impermeabilizadas com cola. Essas figuras dispostas em torno da lata recontam um trecho de história criada pelo participante da oficina. Em seguida coloca-se na lata, previamente furada no fundo uma muda de planta, formando várias “coleções”: aromáticas para culinária, chás medicinais ou flores e folhas ornamentais.
  Outra possibilidade: as bonecas de pano, que já são confeccionadas podem ser acompanhadas de alguma história e acondicionadas em embalagem feita com material reciclado. Por exemplo, uma caixa para a boneca tendo sua história colada no fundo com ilustrações.
A “ponte” para o mercado de trabalho passou a ser discutida com maior facilidade. Vamos ver o que acontecerá depois...
 
4 - Discussão dos primeiros resultados
 
a) O envelhecimento como construção psico-social
 
  Há um ponto inicial que atravessa o trabalho com os idosos, os cuidadores e a instituição: a importância de ser consolidada uma nova concepção de envelhecimento diferente daquela que enfatiza a dependência e a degenerescência. Apesar de usarmos este termo não se trata apenas de uma discussão conceitual, mas sim uma delimitação das possibilidades de intervenção. A própria existência de trabalhos psicoterapêuticos e/ou profissionalizantes têm como condição sine qua non esta superação pois o terapeuta, pesquisador, instrutor ou professor “passa”, antes de mais nada, uma certa fé diante das possibilidades de tratamento e aprendizagem na terceira idade.
  “Aprender para que se já vão morrer em breve?” Este tipo de argumento reaparece em várias formas, estabelecendo os contornos do possível. Incentivando essa discussão junto à instituição, assim como entre nós da equipe, supomos atingir também os idosos. Tal trabalho, entretanto, não pode ser realizado tomando apenas o idoso como “fim”. Os estereótipos em que estamos envoltos constituem pontos de referência que orientam nossa própria lucidez. É difícil “para o senso comum” aceitar que pessoas idosas tenham vida sexual, precisam de apoio e integração como em qualquer outra faixa etária.
Talvez seja preciso, assim como fez Freud com a sexualidade infantil, refazer o circuito significante que nos orienta em relação aos idosos: contribuir para a formação de uma ética, uma estética, uma valorização da terceira idade, traçando novas formas de beleza, sedução e participação social para um segmento social que antes não existia. Não faltam estatísticas demonstrando o aumento da população de terceira idade mas faltam elementos teóricos suficientemente aceitos para que se possa interpretar os gráficos e números em direção a procedimentos rotineiros. O exame da bibliografia a que tivemos acesso sugere duas orientações principais:
 
a)   por um lado o idoso definido em um contexto semântico depreciativo e pessimista, enfatiza os efeitos degenerescentes da passagem do tempo. As ações terão como objetivo os cuidados com o corpo, vitaminas especiais, recursos em fisioterapia e farmacologia.
 
b) por outro lado, uma consideração histórica do desenvolvimento colocando em destaque o fato de que os humanos procuramos nos adaptar às representações estabelecidas a nosso respeito. Esta posição permite supor que variando-se as concepções e as maneiras de tratar e cuidar do idoso, ele próprio “será” de outra maneira.
 
Alguns exemplos das duas abordagens:
 
A inexorável degradação
 
Conforme a pesquisa de Maia et alli (2000 p.5), “o que caracteriza a terceira idade é a perda dos  ideais da juventude, é a dessintonização com a mentalidade de seu tempo, é o humor irritadiço, é a desconfiança no futuro, o desamor ao trabalho, o abandono familiar e social acrescido à carência de recursos materiais e financeiros, entre outros”.
Observa-se que todas as características apresentadas são negativas, embora o projeto de pesquisa conclua com uma interessante proposta de integração dos idosos no Clube da melhor idade Caminhos da Vida.
Nesta mesma direção, Fonseca (1998 p. p.345), em seu livro sobre psicomotricidade enfatiza uma tendência do desenvolvimento humano à degenerescência, estabelecendo uma analogia com as estações do ano:
“(...) A evolução humana contém uma reorganização desde o nascimento à morte, desde a criança ao adulto e desde o adulto ao idoso. Por cada fase, há algo de sazonal idêntico à seqüência das estações: primavera (criança), verão (jovem); outono (adulto); e inverno (idoso)”.
Paradoxalmente, é este mesmo autor quem apresenta o cérebro como um órgão transformável, modificável, adaptando-se às exigências de cada período por que passa a humanidade. O autor demonstra que nem o corpo nem o cérebro são entidades autônomas organizadas de uma vez por todas, seguindo um caminho pré-determinado. Neste sentido, o corpo não é natural, mas eminentemente cultural. No entanto, a conclusão de Fonseca é bem típica da primeira posição que, como dissemos, enfatiza a degradação do envelhecimento. A involução, diz o autor, implica em uma deterioração, peça por peça, seguindo-se uma seqüência inversa da evolução. Não apenas se defende uma tendência inexorável à degenerescência como ainda se indica que existe uma ordem fixa para este processo, degradação da inteligência, da afetividade, da memória, da capacidade de trabalhar.
 
   A velhice como construção social
 
Há tendência no estudo da terceira idade que enfatiza a capacidade humana para se reorganizar a partir, principalmente, de relações sociais construtivas. Certamente as mudanças nas condições físicas são incluídas no processo, como o são as mudanças que ocorrem com todos desde a infância, como por exemplo a insuficiência visual de Monet levá-lo a pintar com crescente independência do modelo, favorecendo o desenvolvimento do impressionismo.
Para os fins da nossa oficina caracterizamos esta segunda vertente enquanto inspirada em duas teorias: o sócio-historicismo e a psicanálise.
No sócio-historicismo, Luria e Vygotsky (1998) situam diferentemente os “processos reflexos” (que não supõem aprendizagem) dos “processos mentais superiores”, aqueles que dependem das relações sociais, por sua vez norteadas pelas representações sociais. A memória, a linguagem, a capacidade para trabalhar e se reorganizar, não são processos naturais, mas essencialmente culturais, cabendo, portanto, uma variação bem significativa que nos cabe explorar e expandir.
Essas variações podem ser aproximadas às práticas sociais concretas, aos procedimentos rotineiros que propiciam identificação ao idoso, promovendo seu estilo de amar, criar e trabalhar.
 Kahana (1980) por sua vez, propõe que a imagem que precisa ser superada culturalmente é de que o velho é um indivíduo fraco e decrépito, incapaz de se autodeterminar. As pesquisas organizadas pelo autor observam que 95% dos sujeitos pesquisados correspondem a esta imagem. Ou seja, apenas 5% das pessoas com mais de 65 anos perde a capacidade de autodeterminação.
As pesquisas de Eizirik et alli citados em Cordioli (1980) observam que a única alteração observada em todos os sujeitos é uma lentificação dos processos perceptivos que, entretanto, não variam de maneira uniforme. Estas variações nas diferentes maneiras de envelhecer decorrem das histórias de vida de cada um, prevalecendo, neste sentido, a vantagem daqueles que conseguem manter-se socialmente ativos.
Michel, em Cyrulnik (1998) estuda alguns centenários que são testemunhas de significativa resiliência, dando mostra de uma capacidade acentuada para se reorganizar física, social e psicologicamente, após experiências traumáticas. Para o autor, a própria experiência de envelhecer, em sociedades urbanas ocidentais contemporâneas, é traumática, por si só. A sobrevida de meio século a mais, conquistada nos últimos anos, é um fenômeno médico, social e econômico que ainda não encontrou sustentação nem no plano social nem no plano filosófico, observa Michel. Quanto mais os avanços da ciência aumentam as chances de mais tempo de vida, mais crescem os problemas referentes ao sentido, à qualidade, no sentido essencial, deste adiamento do encontro com a morte.
Alguns nomes célebres para demonstrar a possibilidade de – sob certas  condições – alguns indivíduos continuarem a produzir, ou mesmo passar a fazê-lo de maneira ainda mais criativa: Freud, Michelangelo, Verdi, Stravinsky, Picasso, Monet, Dostoievsky, Sófocles, entre tantos outros. No Brasil, Brenan, Hermeto Pascoal, Patativa do Assaré, Dercy Gonçalves, Sivuca, são alguns nomes nacionalmente conhecidos que podem exemplificar esta possibilidade testemunhada por vários sujeitos com mais de 70 anos que seguem tão ou mais produtivos, interessantes e sedutores quanto na juventude.
  Einstein dizia ser mais fácil desagregar um átomo que um preconceito e qualquer um de nós, habitantes do eixo ocidental do planeta, forjados pelo capitalismo monopolista reconhecerá, com facilidade, o recuo frente aos signos do envelhecimento. Estamos longe da reverência respeitosa das tradições orientais. Pessoas idosas nos lembram a inevitabilidade da morte, tema cada vez mais afastado pelos avanços da ciência, que promete substituir cada órgão defeituoso, como se faz com peças de  carros, e reduzem as discussões sobre a vida às razões de mercado. A depressão é o mal do nosso tempo, assim como era a histeria no século passado, propõe Kehl (2002 p. 10) observando nosso empobrecimento quando reduzimos a questões de mercado toda a tradição de busca para o que constitui a condição humana: “(...) as razões de mercado se consomem em si mesmas, produzem repetidamente seu próprio esgotamento cada vez que são satisfeitas – pois sua satisfação não remete a nada além da fruição presente do objeto, da mercadoria, do fetiche. (...) e os discursos que organizam as razões de mercado consistem em cadeias metafóricas muito pobres, muito curtas, que vão do objeto ao sujeito (e não ao contrário) e se encerram quando promovem a ilusão de um encontro entre os dois.”
 
O trabalho como fonte de vida e realização
 
       Estamos convencidos da importância de encorajar aos participantes da Oficina a trabalhar, não apenas pelas razões econômicas suficientemente reconhecidas, mas pelo impacto que tem para a imagem de qualquer pessoa – idosa ou não – poder participar do mercado, consumir, trocar sua produção. Para isto procuramos contribuir discutindo sempre que o assunto aparece,  a concepção de trabalho. A origem deste termo é “tripalho”, tridente com que somos fustigados nós, os expulsos do paraíso, condenando-nos facilmente a perder de vista a infinita vantagem de outra conotação: o desenvolvimento de um talento junto a outras pessoas.
       Não é apenas para ganhar o sustento de cada dia que se trabalha mas também para o sustento simbólico/imaginário de cada um junto aos pares. A tentativa sempre relançada de integração com o outro é uma urgência, que deveria ser reconhecida com a mesma intensidade das necessidades orgânicas. O trabalho não é apenas o conjunto das atividades que permitem comprar a cesta básica, mas é antes de tudo, um acesso a um tipo de satisfação impossível de ser alcançada de outra forma e que, igualmente, é imprescindível para a sobrevivência do que temos de humano. Mesmo quem já tenha garantida sua aposentadoria precisa estar integrado a alguma causa, algum pretexto que possibilite o contato com outros que estejam  concernidos por questões análogas.
       Na rede Psicomundo (www.psicomundo.com) há uma pesquisa instigante sobre citações de Freud a respeito do trabalho. Aqui estão alguns trechos:
 Desde 1898 Freud se preocupa com este tema, e não apenas ao discutir a noção de sublimação, como geralmente se pensa. Desde então Freud afirma sua discordância em relação aos médicos que afirmam ser o excesso de trabalho uma causa de neurose. Para ele, ao contrário, o trabalho que possibilita satisfação protege da neurose, lembrando que os trabalhadores intelectuais mais perseverantes são aqueles que mais permanecem a salvo da neurastenia. Freud esclarece ainda que a sobrecarga de trabalho enfermante, tomada como causa para a neurose não pode ser reconhecida como trabalho intelectual nem pela qualidade nem pela envergadura do trabalho em questão.
Gozar e produzir: é isso que o neurótico não é capaz. Não goza porque sua libido não se dirige a nenhum objeto real nem produz porque ele gasta sua libido defendendo-a por meio da repressão. O trabalho, como se vê está presente nos argumentos freudianos deste sempre.
Quando se trata de pessoas idosas é comum a justificativa de que estariam perdendo “naturalmente” a concentração, a criatividade e a concentração. Mesmo que estes processos de fato aconteçam, em função de doenças degenerativas, não é generalizável, como explicação relativa à população idosa. Tais perdas podem acontecer também em função das mesmas razões – subjetivas, inconscientes – facilmente reconhecidas para pessoas jovens.
Em 1926, em “Inibição, sintoma e angústia” Freud esclarece: “A inibição para o trabalho, que com tanta freqüência se transforma em motivo para o tratamento na qualidade de sintoma isolado, nos mostra: um prazer diminuído, torpeza na execução, manifestações reativas como fadiga (vertigens , vômitos) quando se é obrigado a prosseguir o trabalho. A histeria força a interrupção do trabalho produzindo paralisias dos órgãos e funções, cujas presença é irreconciliável com a execução daquele. A neurose obsessiva o perturba mediante uma distração e perda de tempo que supõem as demoras e repetições interpoladas.”
Estas ponderações referem-se à neurose, independentemente da idade: por que razão alguém idoso escaparia? Ou seja: o fato de ser idoso não outorga nova situação frente à economia libidinal. A pulsão vai continuar lá, fazendo seu circuito, exigindo trabalho.
O próprio Freud escrevendo para sua noiva – em plena juventude, portanto – observa: “(...) sabes que uma de minhas características consiste em ser incapaz de trabalhar se não me sinto alentado por alguma esperança que considere importante.”
Não seria este o caso de grande parte dos idosos? O que lhes faltaria não é a juventude mas sim uma esperança considerada importante.
Em 1930 no “Mal-estar na civilização” afirma peremptoriamente que o trabalho é fonte de saúde e satisfação sendo uma violenta injustiça a interrupção da satisfação pulsional a que são submetidos os desempregados, e nós acrescentaríamos, os aposentados.
  Nosso interesse pelo mercado de trabalho só pode ter sentido no contexto do reconhecimento de uma dívida outra, referente ao preço que pagamos pela condição humana. A linguagem e a vida em sociedade, fatores que nos humanizam, não surgem por si só;  é preciso recriar os vínculos com os semelhantes, vivos ou mortos, como condição para a vida ter sentido. O trabalho, então, volta-se para a busca deste mercado significante, circuitos a serem revitalizados, sendo o lucro principal, a própria agilização desta possibilidade que supõe a troca do gozo pleno e imediato pelo “sacrifício” de uma parte deste gozo por um outro, aquele formado no exercício do laço de trabalho junto ao semelhante. Trata-se, desde aí, de falar sobre a morte, daquilo que o indivíduo perde quando se dá conta do compromisso com o outro.
 
Morte e sexualidade: os temas tabus
 
  As crianças se interessam pelo tema da morte desde a primeira infância e este interesse não diminui com o passar dos anos, afirma Facio-Lince (2002) em um artigo onde são apresentadas as hipóteses freudianas sobre a morte. A autora demonstra que linguagem e morte são categorias que surgem concomitantemente: a simbolização inerente à linguagem traz consigo a possibilidade de ser elaborada uma resignificação da vida. Por conseqüência, parece razoável supor que falando com alguém que deixe circular temas tabus como a morte, o amor, os sofrimentos do coração, é possível ser delineada uma nova perspectiva para a vida. O caráter indecidível dessas questões não se modifica com o passar dos anos, bem ao contrário do que defende o samba-canção de Cartola, “Pobres moços”. O percurso desejante começa nos primeiros meses e segue itinerário próprio, contradizendo as causalidades orgânicas ou sociais.
  Unimo-nos a Zenoni (1991), Néri (2001) e Jerusalinsky (2000) na compreensão do desenvolvimento humano como um processo distinto daquele dos outros seres vivos. Cada um destes autores enfatizará um aspecto determinado desta hipótese. Zenoni, em “O corpo do ser falante” sublinha que a sexualidade em sua concepção freudiana modificará as abordagens tradicionais ao desenvolvimento. Os idosos também amam, gozam e precisam ser situados como seres desejantes.
  Neste sentido, a velhice não corresponde a um retorno à infância pois desta fase nunca saímos completamente. Ou seja: a maturidade suposta no adulto já está presente na criança  quando se admite que diante de um bebê já se está frente a  um ser desejante. Da mesma forma, o sujeito em idade avançada não se torna desprovido de sexualidade. Ao contrário, é justamente a constante exposição a situações em que se vê  despojado de signos de reconhecimento e valorização como homem ou mulher, que o tornam infantilizado e doente. Mesmo quando atingido por doenças neurológicas, a dimensão subjetiva sempre estará latente, como demonstram os avanços conseguidos junto a doenças antes consideradas destrutivas para a subjetividade, como a síndrome de Down ou certas paralisias cerebrais.
Atualmente há estudos sobre o funcionamento da cadeia neuronal demonstrando que frente à falência de determinado circuito, o próprio sistema “cria” novas possibilidades de circulação da energia de vida, compensando as avarias. Esta busca de equilíbrio supõe que haja um eixo, um percurso orientando a própria possibilidade de serem feitas as trocas entre os caminhos. Para nós, este fundamento vem do contato com o outro. Mesmo em casos de extrema debilidade do sistema neuronal, sempre é possível relançar a esperança por meio do poder que tem o eixo principal, aquele que nos faz reconhecer no outro um semelhante.
O registro do desejo, diferente da necessidade, começa com a função do eu, nos dois primeiros anos de vida e não necessariamente é atingido pela passagem do tempo. Recortar os registros é uma atividade artificial, conceitual, que não tem nada de evidente nem automático ou natural pois nós humanos não funcionamos na natureza.
  Mesmo a proximidade da morte – mais provável com o passar dos anos - não autoriza a posse de uma “carteirinha” de velhice abrindo ou fechando certas vias de circulação. Nossa fragilidade é marcante desde os primeiros anos e, como observa poeticamente Gilberto Gil, em “Tempo Rei” “(...)não te iludas, não me iludo, tudo agora mesmo pode estar por um segundo...”
A sexualidade, o amor, não passam a existir apenas a partir da adolescência deixando então de “funcionar” na terceira idade. O registro do desejo varia em função de acontecimentos específicos e esta dimensão existe nas tanatoses, que podem ocorrer mesmo em bebês, assim como a criatividade e o gosto pela vida persiste em idosos que, mesmo centenários, mesmo experimentando degenerescências orgânicas, vivem em contextos que facilitam a dimensão desejante, prosseguindo capazes de amar, criar e trabalhar.
Assim, o sintoma (no sentido psicanalítico deste termo) tem a forma de uma frase, esperando cifragens e decifragens (estranhas à vida animal) em qualquer idade e isto vale também para os sintomas ditos da terceira idade, defende Jack Messy (1999), que é peremptório no próprio título de seu livro: “A pessoa idosa não existe”. Os sintomas da terceira idade, mesmo que diagnosticados como síndromes típicas, deveriam receber tratamento psicológico concomitante.
  É ainda este autor quem apresenta um estudo de caso sobre o mal de Alzheimer propondo que este diagnóstico é um retrocesso na terapia com idosos. Trata-se a seu ver, de uma patologia que só poderia ser comprovada por autópsia, reduzindo a questão da memória a um puro jogo de neurônios e dendritos, em contradição com toda a tradição freudiana, para quem o esquecimento é, antes de tudo, uma questão de economia libidinal, uma tentativa de equilíbrio.
Mas não é apenas a psicanálise que supõe pertinente questionar a consideração da demência como patologia puramente orgânica. Claude Balier (citado em Massy 1999 p. 120) seria um precursor da geriatria propondo no final dos anos setenta:
  “O que faria a especificidade da demência não seria um distúrbio da identidade, mais do que a importância dos deficits?”        Mesmo havendo comprometimentos orgânicos a nível cerebral, este fato não descarta o alcance da  significação concedida a esta perda. Se este poder da terapia é reconhecido para os portadores de necessidades especiais – visuais, auditivas, paralisias cerebrais - por que o envelhecimento outorgaria a desistência de todas as esperanças? E não seria aí, na interrupção de qualquer investimento afetivo, social, simbólico, que o idoso começaria a transformar sua idade em justificativa para vegetar?
  Embora longa a citação de Massy (1999 p. 123) contribui para justificar nosso empenho junto a D.Laura:
  “Em quinze anos de experiência não encontrei ainda a doença travestida com o rótulo de “doença de Alzheimer” com ou sem o adereço “tipo”, cuja história não se encontra num fato existencial que tenha revelado ou causado um estado depressivo. Entre os acontecimentos patológicos encontramos as perdas clássicas: desemprego, aposentadoria, falecimento de uma pessoa próxima, deslocamento do lugar em que se vive, hospitalização, e todo trauma efetivo que abra uma ferida narcísica, precipite o sujeito na velhice, como referi, no começo desta obra, ao falar de “perda insuportável”. Segue-se uma espécie de apagamento psíquico, como se desaparecessem partes do ego. Suceder-se-ia o tempo do espelho quebrado, que revela uma possível fragmentação vindoura, um estádio do espelho-apagamento, como propôs Jean Maisondieu, instante em que o sujeito foge da idéia de sua morte, apagando sua imagem no espelho. São numerosos os pacientes que percebem, no espelho, um parente em lugar da própria imagem.
”Neste momento sai do circuito social, do “logos” e entra no mundo da demência, no campo das “tanatoses”; admitido à ourela da vida na comunidade lingüística, pelo viés de um espelho acolhedor, dele sai quando sua imagem não pode mais aí se inscrever; ao mesmo tempo perde o direito à palavra, recaindo na infância.” J. Maisondieu, evidentemente se refere aqui, ao estádio do espelho de Lacan, que marca para a criança a entrada na linguagem. Mas a imagem se apaga por ser intolerável, ou porque o sujeito não está num bom lugar diante do espelho? Segundo Ferenczi “o processo paralítico destrói, uma a uma, todas as identificações realizadas e bem sucedidas, cuja soma representaria o ideal de ego já então atingido pela doença.” “
 
Memória e repetição
 
 Birman (1997)igualmente propõe que a perda progressiva da memória da existência presente, constatada há muito pela tradição neuropsiquiátrica, pode ser interpretada em função do lugar impossível que é concedido para o idoso na contemporaneidade ocidental. Sem condições de representar um futuro para si, o idoso se volta e se perde no passado, ponto de partida para perturbações neuropsiquiátricas. Ao invés de compreendê-las como inelutáveis conseqüências da pura passagem do tempo a perspectiva que norteia nossas Oficinas propõe que seja oferecido ao idoso referenciais identificatórios que o levem a elaborar psiquicamente tantas mudanças, como por exemplo a perda da força física no homem ou o climatério nas mulheres.
“(...) a ausência de um lugar simbólico para a velhice, com sua contrapartida necessária de desnarcisação, é uma construção social produzida pela modernidade ocidental. Nas sociedades tradicionais, o idoso tem uma aura simbólica que o envolve, sendo o representante da sabedoria e da experiência vivida bens preciosos a serem transmitidos para as novas gerações. Portanto, a velhice representa o lugar da memória coletiva, dos valores da ancestralidade, sendo um dos elementos onde se agencia o registro simbólico.” Birman (1997 p. 204).
A memória a que se refere o autor não equivale ao acúmulo de informações – que poderiam ser acessíveis por meio de bibliotecas, computadores e vídeos – mas sim à memória em sua dimensão evocativa, desejante de transmissão dos valores da ancestralidade. O trabalho psicanalítico com idosos, portanto, não apenas é possível, como pode trazer desdobramentos culturais importantes suscitando uma crítica da própria cultura. Supomos, assim, que o inconsciente e suas leis não se mostra menos vulnerável após os cinqüenta anos, tal como supôs Freud  (1978 p.274).
Tanto Freud mudou de idéia quanto os neo-freudianos admitem que a clínica psicanalítica não varia – em seus fundamentos – em relação à idade do analisando. Birman (1997) indica a pertinência do modelo freudiano edípico como instrumento teórico suficientemente desenvolvido para contribuir para uma nova situação do idoso, valorizando-se seu papel como transmissor das cadeias simbólicas. Desta forma, contribui-se para superar a imagem do idoso como evocação constante da morte e da degenerescência, situando-o na cadeia significante, como qualquer outro sujeito.
  Em nossa oficina se conta, comenta, escreve e ilustra histórias, podendo ser constituido um espaço transferencial favorável a um movimento possível das identificações. O fato mesmo de conversar sobre as narrativas – de tomar um enredo, um modo de contar como um “objeto” – o valor aos vários modos de comentar os incidentes, relacionando-os, classificando-os, nos parece facilitar a saída da solidão em que tão freqüentemente se encontram, favorecendo a construção de novas versões para experiências traumáticas, recentes ou antigas, inclusive as novas formas da imagem de si.
 
A validade das Oficinas de Histórias
 
Identificando-se com alguns personagens, é possível ao participante da oficina discutir certos incidentes análogos aos que tenha vivido ou imaginado. Da mesma forma, contando histórias – fictícias ou biográficas – a restauração da capacidade de narrar, encadear eventos dentro de uma certa lógica, pode trazer benefícios surpreendentes. Supomos, como Freud defendeu, que a recordação é melhor definida como “souvenir-écran”, podendo ser recortada, montada, como se faz com um filme de cinema. A memória é como um filme, não tem nada de  natural mas o efeito que nos causa é de significativo envolvimento porque o “eu” é um dos seus efeitos. Os comentários sobre os “fotogramas” selecionados em cada história trazem a possibilidade de brincar, jogar com incidentes e personagens abrindo a chance de também fazê-lo em relação a acontecimentos da “realidade”.
Aqui é importante sublinhar as variações sobre cada idoso. Uma senhora deixou de ir às sessões logo depois que observei – cedo demais – a coincidência entre a história fictícia comentada e a outra, “de verdade” que acabara de contar. Uma outra idosa, ao contrário, estabeleceu sozinha uma semelhança deste tipo, enquanto uma terceira pediu à pesquisadora que lhe contasse uma história parecida com aquela que havia vivido.
  Enfim, estamos começando e tão pouco sabemos como vai continuar essa história...
    
 
Referências bibliográficas:
 
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Correia, Eugênia T.C.B. –“Do risco à escritura”: uma Oficina de Histórias junto a crianças em situação social de risco “.Tese de doutorado. Instituto de Psicologia. UnB. Brasília. 1999.
 
Birman, Joel. Estilo e modernidade em psicanálise. S.Paulo. Ed.34. 1997.
 
Cyrulnik, Boris. Ces enfants qui tiennent le coup. Paris. Hommes & Perspectives. 1988.
 
Da Matta, Roberto. A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio. Rocco. 2000.
 
Eizirik, Cláudio L.; et alli “Psicoterapia na velhice” em Cordioli, A.V., Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre. Artes Médicas. 1998.
 
Facio-Lince, Victoria Eugenia Diaz. “El lenguage y la muerte” Revista Acheronta n.14. Psicomundo. Arquivo baixado em junho/2002.
 
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Kehl, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. S. Paulo: Companhia das Letras, 2002.
 
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-                                                                                         
Michel, Bernard-François. “Um modele de rèsilience: les centenaires” em Cyrulnik, B. B. Ces enfants qui tiennent le coup. Paris. Hommes et Perspectives. 1998.
 
Néri, Anita Liberalesso (Org.) – Maturidade e Velhice: trajetórias individuais e socioculturais. Campinas. Papirus.2001
 
Vigotskii, Luria, Leontiev. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. S.Paulo. Ícone (Edusp). 1998.
 
Zenoni, Alfredo. Le corps de l´être parlant: de l´evolutionnisme à la psychanalyse. Bruxelles. De Boeck. 1991.
 
 
 

 
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