comentários sobre S.P. Rouanet "Os Dez amigos de Freud".
Jansy Berndt de Souza Mello, junho 2003.
Quando Luciano Lírio me convidou a participar como comentadora da conferência de Sergio Paulo Rouanet sobre o livro que ele está lançando, Os Dez Amigos de Freud, avisei-lhe que eu não conhecia quase nada de filosofia e menos ainda era familiarizada com os trabalhos do Iluminismo. Luciano Lírio me tranqüilizou porque achava que não seria preciso eu me estender além do tema da conferência de hoje da qual eu receberia uma cópia com antecedência. Como gosto da psicanálise, de literatura e de discutir idéias em grupo, acabei aceitando.
O texto da conferência não me alcançou, mas pude comprar o livro. Foi quando tive meu primeiro susto porque se tratavam de dois volumes, cada um com mais ou menos quatrocentas páginas. Vi logo que não conseguiria ler tudo no tempo necessário.
Felizmente lê-se o livro de Sergio Paulo Rouanet como se fossem as histórias das Mil e Uma Noites pela leveza da apresentação de idéias complexas, pelo talento do narrador, pelo interesse dos temas se abrindo em sucessivas histórias dentro das histórias. A vasta erudição ganha seu testemunho neste material, colecionado e investigado com rigor durante mais de dez anos, e que não alcança o leitor com o peso da sisudez enciclopédica, mas com pequenos brindes de humor e de surpresa entremeados à parte mais teórica ou informativa da sua obra.
Rouanet não apenas se detém nos dez livros indicados por Freud, mas descreve a vida do autor de cada um e, mais, faz conosco a leitura das suas obras principais além daquela que havia sido recomendada em 1906 para compor a lista do editor vienense Hugo Heller. Os exemplares da biblioteca freudiana foram examinados com as frases neles sublinhadas, os arquivos da sociedade de psicanálise são trazidos para o leitor, junto aos trechos da correspondência entre Freud e seus seguidores, mais vinhetas dos jornais da época e informações sobre Viena no início do século. O entrelaçamento das informações quando, por exemplo, uma nota de rodapé em Freud é retomada e praticamente transformada em um texto autônomo, fazem parte do prazer que foi, para mim, ler Rouanet. Sua obra é delicada, mas abrangente e o deleite ressurge diante de cada pequeno detalhe que traz conexões com um mundo de informações que se desdobram criando sutilezas nos seus padrões sobre-determinados.
O que não quer dizer que eu tivesse conseguido sentir que eu era amiga dos Dez Amigos de Freud. Aconteceu-me algo que me deixou perplexa ainda mais quando descobri que eu provavelmente não teria sido amiga de Freud, deste Freud, " filólogo da alma" ( pag 194) apresentado por Rouanet...
Mas, para detalhar melhor este ponto, precisamos começar definindo o que para Freud seriam estes Dez Amigos.
No primeiro parágrafo da carta de Freud a Hugo Heller encontramos:
" O sr. deseja que eu lhe indique "dez bons livros", e recusa-se a acrescentar uma palavra de explicações (...) A meu ver, seu texto põe um acento especial na palavra bons, e com esse predicado o sr. quer caracterizar os livros com que nos relacionamos do mesmo modo que com bons amigos, aos quais devemos algo do nosso conhecimento da vida e da nossa concepção do mundo, cujo contato nos proporcionou prazer, e que elogiamos diante de outros, sem que essa relação suscite um temor reverencial" (...) E, segundo Rouanet ( pág. 355) " a metáfora central de Freud em sua carta a Hugo Heller, a de que os bons livros eram semelhantes aos bons amigos" foi sugerida por Macauley, para quem um homem culto deve tudo aos grandes espíritos do passado.
Sem dúvida alguma Freud não é para mim um espírito do passado quando reencontro na clínica, pela força da transferência que ele me ensinou a conhecer, os mesmos eventos que ele demarcou com a sua teoria. Por isso mesmo fiquei curiosa sobre qual poderia ser a importância para mim desta lista de bons livros considerando que ela foi composta nos primórdios da Psicanálise. Num segundo momento, me questionei ainda sobre qual teria sido o projeto de S. Paulo Rouanet e por quais vias ele disto se desimcumbiu1).
Há uma frase popular na qual se diz que os inimigos dos meus amigos são meus inimigos e que os amigos dos meus amigos são também meus amigos. Contudo, de uma coisa estou certa: mesmo que eu não seja amiga dos amigos de Freud, eu sou amiga da psicanálise e daquilo que Freud produziu. Como resolver esta questão?
Primeiramente, apontando que depois de Freud a psicanálise continuou se desenvolvendo e que, portanto, não me seria mais possível deixar de fazer uma releitura com a mentalidade de hoje para encontrar o que havia sido escrito um século atrás, em alemão, por um cientista europeu. Em seguida indicaria que, mesmo entre os contemporâneos de Freud, a psicanálise não era um corpo uniforme e sem ambigüidades ou sem oferecer leituras discrepantes.
Nem quando se iniciou, e hoje menos ainda, podemos pensar que a psicanálise seja uma só. Arrisco-me a dizer que deve haver tantas psicanálises quantos sejam os psicanalistas, ou pior , que estas tantas psicanálises se modificam em cada encontro psicanalítico ou com o amadurecimento de cada analista.
O viés da minha leitura provém principalmente do fato de que parto da prática clínica da psicanálise e quase nada das suas ramificações filosóficas ou históricas, ou seja, porque minha especialização não alcança nem de longe a erudição do autor Rouanet. É que para ser psicanalista não é preciso ter-se um conhecimento extenso da história ou da literatura mundial, nem mesmo ter-se lido a obra completa de Freud !
O Freud que fazia análises detalhistas da vida e obra dos escritores e dos artistas em geral, que perseguia cada pequeno desdobramento da fala das suas histéricas e que encontrou amigos em Multatuli, Kipling, Anatole France, Émile Zola, hoje, causa-me uma espécie de claustrofobia porque intervém principalmente quanto ao conteúdo e significado dos objetos e palavras, ou quanto ao simbolismo do que classifica como "típico do ser humano em geral", em vez de estudar a dinâmica e a estrutura, que garantem estes mesmos conteúdos e significados, e que operam a partir das diferenças na constituição de um sujeito único2).
Não creio que seja só Freud quem tenha o direito de observar que, às vezes, um charuto seja apenas um charuto...
Retomando. Qual a importância da lista dos dez amigos de Freud para a psicanálise atual?
Esta foi uma das perguntas que pensei, inicialmente, ter motivado Rouanet a embarcar neste empreendimento tão rico e completo. Eu havia partido da hipótese de que ele estaria buscando investigar as motivações e inspirações que possibilitaram Freud a construir o edifício da psicanálise, ou seja, que sua disciplina era a de se debruçar retrospectivamente ao longo da história da psicanálise e das idéias para encontrar os mestres e guias de Freud entre seus amigos, mais alguns dados sobre o desejo que moveu Freud e o conduziu até seu último trabalho sobre Moisés e o Monoteísmo.
Quando Rouanet comparou Freud e Gomperz ele observou que
" Freud via seus escritores favoritos "como precursores da Psicanálise, como descobridores intuitivos de erdades psíquicas desconhecidas pela ciência oficial (...) Tratava-os como aliados" ( pág.53).
Gomperz, que como iluminista acreditava no progresso linear do saber, usava a ciência moderna para legitimar a filosofia antiga (...) ao passo que Freud usava os gregos para rebater as críticas feitas à psicanálise" ( pág.356).
Talvez Rouanet esteja procurando situar Freud entre os iluministas e enquanto um "defensor da idéia do progresso linear do saber" e justificaria os parâmetros que sobre ele aplicou quando, como bom geômetra, fez deduções a partir das triangulações edipianas e empregou a original régua linear freudiana sobre a evolução dos sistemas de pensamento animista para o religioso até o científico, ou sobre as etapas da evolução da libido. No entanto, o conceito freudiano de "Ao-Depois" ( Nachträglich) quando lido de modo equivocado pode sugerir que se possa recorrer mquiavelicamente aos antigos como forma de se rebater críticas feitas no presente.
Quando ainda seguindo o universalismo iluminista Freud aspirou a um estágio em que todos os povos teriam livre acesso aos museus e arquivos sem precisarem esbarrar nas barreiras das fronteiras e nacionalidades, será que ele previa a rede www da internet? Será que ele previa a guerra de Bush contra o Iraque, atingindo inclusive os marcos das civilizações antigas em Badgá, em nome de uma "intervenção justa"?
Ao comentar que o continente americano desconhecia que ele levava consigo "a Peste", será que Freud previa que o 43o. Congresso da Associação Psicanalítica Internacional, por ele fundada, a ser realizado em julho de 2003 em Toronto, no Canadá, seria cancelado pela peste da SARS? Na atual onda da ideologia panglossiana que promove as neurociências e os sinais dos "emoticons", qual será o espaço para aquela psicanálise que atinge as aspirações narcísicas do homem ao apresentar-lhe não mais o mundo da razão e do esclarecimento, mas a "peste" do inconsciente e sua deslizante verdade que pode, até mesmo, se externar sob outras formas, estas bem concretas, da Peste ?
(continua)
Para Leandro Konder, Rouanet buscou " examinar psicanaliticamente a relação entre os autores que Freud lia e a sociedade a que eles pertenciam"3). É isso que Rouanet descreve na sua introdução, quando se dispõe a estudar cada uma das dez obras referidas por Freud para, no final, lançar um olhar de conjunto e utilizar as informações obtidas para interpretar o material segundo uma grade psicanalítica ( Introdução, pág.16).
Rouanet tentou "reconstituir", de Freud, "o conteúdo da meditação, intercalada entre a elaboração do rascunho e a redação da carta a Heller"
( pág 381 a 389) e nos ofereceu quatro páginas do seu devaneio até concluir que " assim pensou Freud", antes de observar que " entretanto, em nossa ficção não houve uma verdadeira auto-análise, porque Freud não interpretou sistematicamente os pensamentos que lhe ocorreram a propósito da lista. As idéias permaneceram erráticas, caóticas. O leitor pode preencher essa lacuna, se tiver vontade. Ele agora tem todos os elementos para isso" ( pág.389).
Entendo que as detalhadas informações com as quais Rouanet nos presenteou com sua vasta erudição e senso de humor, podem ser mal empregadas caso o leitor acredite mesmo que ele "tem elementos para preencher a lacuna dos pensamentos de Freud" e que com isto ele estará praticando alguma modalidade de "auto-análise". O oposto pode acontecer quando este leitor for se distanciando si próprio, usando as informações como máscaras para seus sentimentos e assim construindo algo que o eminente analista inglês, W.R. Bion, temia que ocorresse com a psicanálise, ou seja, a psicanálise transformar-se numa vasta paramnésia, numa lembrança encobridora do inconsciente.
Gostaria de supor que a simulação da auto-análise de Freud proposta por Rouanet tenha sido motivada jocosamente como uma crítica ao modo pelo qual a psicanálise ganhou seu reconhecimento junto às massas populares, para quem Freud tudo explica e nada perdoa. Adulterando um pedacinho de uma conhecida máxima acabariamos concluindo que " tout comprendre, c´est tout expliquer", principalmente quando o interlocutor não pode mais reagir ou responder.
Minha dúvida, entre tantas outras, decorre de uma particularidade no estilo de Rouanet que me desafiou em especial. Observei, por exemplo, que havia trechos nos quais eu discordava da leitura proposta para uma dada teoria de Freud, mas bastava-me prosseguir até o parágrafo seguinte, ou até o próximo capítulo e a idéia da qual eu me ressentia aparecia transformada. Certas afirmações mais revolucionárias inicialmente me pareciam advir da pena de Rouanet, mas em seguida eu percebia que ele estava parafraseando outro embora, ao perseguir sua referência mais adiante, encontrava uma nota na qual era informada que havia sido ainda mais outro que estava por trás da idéia que originalmente havia me inquietado.
As mise-en-abîme como a dos contos das Mil e Uma Noites não apenas permitiram-me fazer uma leitura fluente e agradável, mas elas também me atrapalharam quando eu não conseguia distinguir o autor das paráfrases,citações, observações e referências4). A seguir darei alguns exemplos disto.
Quando Rouanet apresentou Gomperz, ele escreveu:
" Querendo e não querendo enfrentar o mundo real, Bratranek tentou esconder seu conflito recorrendo à ironia e à expressão filosófica da ironia, a dialética. Observando o exemplo de Bratranek, Gomperz diz ter compreendido a função dessa constituição mental entre os românticos, ou seja, deu-se conta da natureza da dialética como mecanismo de defesa, como diria um certo professor Freud, que Gomperz conheceria anos depois".( pág. 188/189) e me deixou com a impressão de que não apenas Gomperz, como ainda Freud, entenderiam a dialética como um mecanismo de defesa, mas não sei se Freud teria partilhado esta opinião com Rouanet.
Ao comparar Freud e Empédocles, Rouanet começou a tratar desta questão como um filósofo e via também Freud enquanto filósofo. Mais adiante ele modificou seu modo de enquadrar Freud na filosofia, mas esta mudança não pareceu ter resultado da progressão dos argumentos, e sim, ter irrompido nos capítulos seguintes.
Escreveu Rouanet:
" Se tivesse relido seu Gomperz, talvez Freud tivesse levado menos a sério a fronteira entre a natureza material e o mundo da vida e da sociedade, e teria falado de modo menos condescendente das "fantasias cósmicas" de Empédocles.
(...) Quem nos garante que Empédocles não teria construído suas "fantasias cósmicas" por analogia com o universo humano, o que daria certa legitimidade retrospectiva ao exercício oposto, o de pensar o mundo da vida e o das relações sociais por analogia com as leis do cosmos?
Entendo que ao raciocinar como filósofo, Rouanet também atribuiu a Freud o mesmo tipo de pensamento e por isso pode recomendar que se procedesse à "legitimação" das teorias da psicanálise através do emprego de analogias5) para tratar do conflito psíquico.
Ora, Freud partiu para a compulsão à repetição, associada às pulsões de vida e de morte, depois de ter constatado a existência de sonhos traumáticos que contradiziam sua teoria inicial sobre o princípio do prazer, ou seja, tentando avaliar o papel do trauma nos sonhos como efeito que operava contra a expressão da realização de um desejo. Esboços deste futuro " Além do Princípio do Prazer" ( de 1920) parecem-me estar mais nítidos do que o prenúncio discutível da matança do pai da horda no fragmento de Anaxágoras, também estudado por Gomperz e Capelle6).
Para o psicanalista inglês Wilfred Bion, a psicanálise deita suas raízes no romantismo alemão, tese esta que Rouanet não parece apoiar com sua sólida visão de iluminista. No entanto, assim como Bion, ele segue os filósofos para os quais a linguagem serve como instrumento para a investigação e conhecimento de um mundo que existiria independente dela, e para os quais a linguagem operaria, com freqüência, mais como um instrumento defeituoso e como um veículo para a mentira e distorção das idéias7). Falta-nos distinguir melhor a diferença entre mascaramento, mentira e exposição. Mesmo quando a dissimulação se faça necessária ( cf. Anatole France e sua epistemologia relativista, citado à pág.105/I), nem sempre ela resulta do recalcamento ou da hipocrisia, porque pode ser um marco da própria subjetividade que não pode, nunca, ser transparente, principalmente porque a transparência deixa apenas passar o discurso vigente ( o discurso do Outro) e expressa uma forma psicótica de buscar o impossível de se dizer "toda a verdade".
A modificação do que Freud caracterizava como sendo o mundo interno e mundo externo no início da sua invenção e descoberta da Psicanálise, para o que ele veio a defender no final da sua vida, assim como sua posterior forma de trabalhar ( quando abandonou o excessivo ênfase no conteúdo das falas e das imagens dos sonhos para dar importância à sua forma e à estrutura em comum a dos sintomas, chistes, lapsos e sonhos ) está em sintonia com os mais recentes desenvolvimentos da lingüística moderna e com o que Jacques Lacan retomou a partir do conceito do significante de Sausurre, se entendemos que a rede significante garante uma nova forma de se trabalhar com o inconsciente segundo uma estrutura que caracteriza a inserção de
cada um no discurso da cultura e no universal da linguagem.
Ao investigar de que modo as reflexões sobre Sonho e Magia de Theodor Gomperz teriam influenciado Freud, Rouanet observa que ele não fez referência ao livro quando escreveu " A Interpretação dos Sonhos", embora tivesse citado a conferencia de 1866, realizada em Brünn, dela fazendo um resumo no qual, "depois de distinguir entre dois métodos tradicionais de interpretação, o simbólico, pelo qual o conteúdo do sonho é transposto como um todo para outro texto, que constitui a tradução desse conteúdo, e o criptográfico, pelo qual cada elemento do sonho tem um significado próprio, que pode ser "decifrado" por quem possui a chave" Freud teria comentado sobre "uma variante especialmente interessante do segundo método, tal como ilustrada pelo grego Artemidoro de Cálcis (nota 40), quando assinalou que "Artemidoro fazia questão de fundar seu método de interpretação dos sonhos na observação e na experiência, distinguindo-o de outras técnicas, que ele considerava supersticiosas e fraudulentas".
Seguindo o princípio da interpretação pela associação de Artemidoro, entende-se que "um sonho significa tudo aquilo cuja lembrança ele evoca". Nas variantes do método criptográfico de Artemidoro "o sonho não é interpretado como um todo, mas se atribui uma significação específica a cada elemento.Entretanto tem a singularidade de levar em conta as circunstâncias específicas de cada sonhador. O mesmo elemento pode ter um significado diferente para homens e mulheres, pobres e ricos, lavradores e comerciantes" .
A maneira pela qual Artemidoro de Cálcis se deteve na interpretação dos sonhos, não como sendo traduzíveis em bloco de uma lingua para outra, como o que seria realizado através do simbolismo, mas analisados em seus elementos particulares como na forma criptográfica, parece-me bastante próxima do modo pelo qual Freud retomou os sonhos ( como no artigo sobre a Metapsicologia dos Sonhos, ou nas Conferências Introdutórias) e como se depreende quando, por exemplo, Lacan escreve que o Inconsciente se articula como se fosse uma linguagem, sem por isso ser uma linguagem no sentido atual do termo.
Rouanet entendeu que " Artemidoro equivocou-se, como todos oniromantes da Antigüidade, em achar que o sentido dos sonhos estava em dar indicações proféticas quanto a acontecimentos futuros, porque os sonhos só iluminam o passado psíquico dos homens, e não o seu porvir, mas estava certíssimo em achar que os sonhos tinham um sentido e esse grande iluminista que foi Freud podia reconhecê-lo como precursor" ( pág. 216/2).
Como sabemos, todos os sonhos são indecifráveis, embora haja elementos neles que se prestam ao que, quando interpretado, revela um ou mais dos pensamentos oníricos latentes ( inconscientes) do sonhador. Os sonhos são uma forma de "loucura normal", como Freud também afirmava sobre o apaixonamento. Sua importância para a psicanálise decorre de, por serem uma forma simultaneamente normal e louca do funcionamento mental, servirem de amostragem ilustrativa dos mecanismos da loucura.
Quando sonhamos nosso pensamento de vigília sofre uma regressão em que se apresenta sob a forma de imagens em vez de palavras e que tem uma articulação que é própria à forma visual de comunicação. Sua sintaxe não é como a sintaxe das linguagens tradicionais e obedece a uma lógica completamente distinta da que opera no pensamento de vigília.
Enquanto sonhamos estamos sob o processo primário, regido pelo princípio do prazer, que permite a descarga imediata da angústia sob a forma alucinatória da realização de um desejo. Esta descarga se faz por meio da condensação e do deslocamento ( metáfora e metonímia ). Os símbolos peculiares aos "sonhos típicos" ou até aos sonhos "arquetípicos" preservam sua importância como elementos do deciframento, mas eles podem também ser usados para os fins da censura e da resistência do sonhador.
Depois de sonharmos podemos ter acesso a um resto do sonho que se presta a ser transformado em palavras ao ser contado para alguém ou anotado num papel. Já estaremos, assim, fazendo uma "elaboração secundária" do sonhado e esta é muitas vezes tida como sendo a mesma coisa que o sonho. Este é um dos enganos mais comuns, visto o desconforto que todos sentimos quando o que falamos aparentemente obedece à lógica do discurso consciente, mas que permanece ainda vinculado ao funcionamento onírico e, portanto, obediente ao processo primário e movido pelas resistência e pela transferência.
Como sabemos, depois da sua obra fundamental, A Interpretação dos Sonhos ( 1900), Freud continuou pesquisando e para isto demarcou um campo de investigação no qual ele estudaria não mais sonhos em geral, mas aos sonhos em análise, ou seja, aqueles que surgissem como produto da relação transferencial do analisando e seu analista. À regra fundamental da associação livre, Freud acrescentou mais outra, de enorme importância: os sonhos deveriam ser interpretados pelo próprio sonhador, sob a orientação do psicanalista.
Nem todos psicanalistas seguem o rumo lentamente demarcado por Freud ao longo da sua experiência clínica. Entre os kleinianos, por exemplo, a teoria da transferência passou a ser entendida de um modo diverso daquele que fora originalmente proposto por Freud. Com isto, qualquer sonho, dentro ou fora da análise, será interpretável enquanto um sonho que se dirige a alguém ou a um objeto interno ou externo. Sua interpretação segue o esquema da interpretação dos símbolos, como inicialmente proposta por Freud.
A escolha de Rouanet ao deter-se na lista dos amigos de Freud em 1906, favoreceu, obviamente, o entendimento de como seria, nesta época, o processo de análise e a própria forma de se interpretarem os sonhos.
Seguindo esta coerência histórica, Rouanet se concentrou naquele Freud que não tinha vivido os horrores da Primeira Guerra Mundial, daquele Freud que ainda não tivera que abrir mão do patrimônio associado à língua e cultura alemãs devido ao crescente anti-semitismo, que o obrigou a se refugiar na Inglaterra, do Freud que só mais tarde sofreu transformações radicais na sua cosmovisão, perdendo sua esperança no ser humano e até na eficácia da psicanálise.
Segundo Rouanet o homo freudianus vê a alma humana como lugar de um conflito permanente entre forças e impulsos, porque " o homem não é "um livro engenhoso", e sim um feixe de contradições"8). Mas, para ele, Rouanet, ainda "é possível romper com o passado irracional da humanidade" e embarcar " no trajeto que conduziria à autonomia da razão e ao advento da era científica, da qual a psicanálise era um momento decisivo" ( pág. 399/I) .
No entanto, aquele Freud de 1906 com suas convicções cosmopolitas ainda intactas, foi forçado a reconhecer que a experiência da desilusão com a guerra de 1914 e seu confronto com a iminência da morte o transformou, obrigando-o a considerar de outro modo o seu antigo sonho de promover a transformação do mundo instintual em um mundo dominado pela razão (como na famosa frase: Wo Es war soll Ich werden). O Freud do início do século não redigiu para nós outra lista com o nome dos seus dez amigos e acredito que, mesmo permanecendo fiel a alguns dos nomes da primeira lista, surgiriam ainda amigos novos.
De qualquer modo, depois da viagem pelo fascinante livro de Rouanet, pude fazer as pazes com aquele primeiro Freud, apesar dos seus amigos de 1906 e, através do seu texto de 1915, " Pensamentos Sobre a Guerra e a Morte" percorrer com ele a elaboração do luto pela guerra e pela perda dos seus ideais universalistas. E será a este Freud que pretendo deixar com a última palavra...
..............................................................................................
O artigo de 1915, da SEXIV, intitulado " Pensamentos sobre a Guerra e a Morte" nos oferece uma idéia da mentalidade de Freud na epoca em que escreveu seu artigo seminal sobre Luto e Melancolia e sobre um caso de Paranoia, alem dos principais trabalhos sobre o que veio a ser situado entre os textos Metapsicologicos de Freud.
Freud destaca dois fatores responsáveis pela aflição mental vivida no correr da primeira guerra mundial. O primeiro foi a desilusão e o segundo, uma mudança de atitude diante da morte. Ele sentia-se preparado " para verificar que as guerras entre os povos primitivos e civilizados (...) ocupariam a humanidade ainda por algum tempo", mas acrescentou, " nos permitimos ter outras esperanças. Esperávamos que as grandes nações de raça branca, dominadoras do mundo, às quais cabe a liderança da espécie humana, que sabíamos possuírem como preocupação interesses de âmbito mundial, a cujos poderes criadores se deviam não só nossos progressos técnicos no sentido do controle da natureza, como também os padrões artísticos e científicos da civilização — esperávamos que esses povos conseguissem descobrir outra maneira de solucionar incompreensões e conflitos de interesse".
Ele acreditava "que as próprias grandes nações adquiriam tanta compreensão do que possuíam em comum, e tanta tolerância quanto a suas divergências, que ‘estrangeiro’ e ‘inimigo’ já não podiam fundir-se, tal como na Antiguidade clássica, num conceito único" .
Confessando seu sonho universalista enquanto hesitava em se defrontar com a desilusão, Freud prosseguiu anotando que, por confiarem "nessa unidade entre os povos civilizados, inúmeros homens e mulheres trocaram sua terra natal por uma estrangeira, e fizeram com que sua experiência dependesse das intercomunicações entre nações amigas. Além disso, qualquer um que não estivesse, por força das circunstâncias, confinado a um único ponto, poderia criar para si mesmo, a partir de todas as vantagens e atrações desses países civilizados, uma pátria nova e mais ampla, na qual poderia movimentar-se sem entraves ou suspeitas (...) Para ele, essa nova pátria era também um museu, repleto de todos os tesouros que os artistas da humanidade civilizada haviam criado durante séculos sucessivos e deixado atrás de si.(...) Tampouco devemos esquecer que cada um desses cidadãos do mundo civilizado criou para si mesmo o seu próprio ‘Parnaso’ e a sua própria ‘Escola de Atenas’. Nenhum desses grandes homens lhe pareceu estrangeiro por falar outra língua (...) e jamais teve razões para repreender a si próprio por ser um renegado para com sua própria nação e sua amada língua materna".
Depois de descrever esta situação idílica, Freud admitiu que havia encontrado "vozes de advertência, que declararam que antigas divergências tradicionais tornavam as guerras inevitáveis, inclusive entre os membros de uma comunidade como essa", mas recusou-se a crer nisto até que "então, a guerra na qual nos recusávamos a acreditar irrompeu, e trouxe desilusão".
Para Freud, em 1915, ainda parecia incrível supor que "as nações civilizadas se conhecem e se compreendem tão pouco, que uma pode voltar-se contra a outra com ódio e asco"(...)
Se " acolhemos as ilusões porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfações" (...) " não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçarem contra ela. De fato, como é que imaginamos o processo pelo qual um indivíduo se alça a um plano comparativamente alto de moralidade?"
Graças aos seus estudos e investigações Freud está em condições de saber que " na realidade, não existe essa ‘erradicação’ do mal(...) ao contrário, a essência mais profunda da natureza humana consiste em impulsos instintuais de natureza elementar, semelhantes em todos os homens e que visam à satisfação de certas necessidades primevas. Em si mesmos, esses impulsos não são nem bons e nem maus. Classificamos esses impulsos, bem como suas expressões, dessa maneira, segundo sua relação com as necessidades e as exigências da comunidade humana".
Ele sabe que o progresso humano sofre várias vicissitudes e que "formações de reação contra certos instintos assumem a forma enganadora de uma mudança