 PSICODRAMA PSICANALÍTICO
Admar HORN
Breves comentários.
Durante muitos anos em Paris , mais precisamente na década de 90, pratiquei o chamado Psicodrama Psicanalítico no Centro de Psicanálise do XIII Arrondissement de Paris, com o Jean Gillibert e Pierre Sullivan. Trata-se de um psicodrama cujas origens são “morenianas” e que foi modificado por alguns psicanalistas franceses, Rene Diatkine, Serge Lebovici, Evelyne Kerstemberg e Didier Anzieu. É uma variante da cura tipo, bastante interessante, com um único paciente e vários terapeutas (cinco a seis), sendo que um dos terapeutas é o diretor do jogo e não representa, apenas dirige o jogo. A prática desta técnica é algo que nos dá muito jogo de cintura com os pacientes, ditos “ neuróticos clássicos,” no divã.
Estamos tentando montar um grupo de psicodrama psicanalítico aqui no Rio de Janeiro e um estudo da teoria do mesmo vem sendo feito há cerca de dois anos com Miguel Calmon e mais alguns colegas. Estamos agora na iminência de começarmos a trabalhar na prática com pacientes que poderão ter os benefícios desta técnica.
A teoria de referência é a metapsicologia freudiana, e o processo é na medida do possível, o mais próximo do tratamento analítico clássico. Trata-se de uma técnica singular, bastante austera e difícil. Ela se aplica a pacientes para os quais o estado atual de suas dificuldades psíquicas não permite a instauração de um tratamento analítico clássico. Contudo podemos esperar que face a este manejo particular virão progressivamente instalar-se um processo e um remanejamento análogos aqueles que podemos esperar de um tratamento analítico.
A técnica do psicodrama psicanalítico individual é concebida para conduzir o paciente a uma tomada de consciência do seu mundo interno, local da emergência dos seus desejos, a partir da expressão de atitudes globais exteriorizadas no jogo.
Não se trata de favorecer nenhuma racionalização secundária das experiências vividas e tampouco a descoberta de uma verdade escondida pela liberação da ação de emoções contidas. O objetivo não é nem o controle, nem o domínio e nem mesmo a descarga catártica. Ao contrário do domínio, o psicodrama tem como objetivo a abertura, a livre associação, o abrandamento das fronteiras entre o consciente e o inconsciente, entre o atual e o passado entre o externo e o interno, ou seja, a progressiva familiarização do indivíduo com as suas produções psíquicas e os conflitos e emoções dos quais elas são portadoras. Em oposição à descarga, o psicodrama se recusa à simples exteriorização dos conflitos e das tensões resultantes de sua expulsão, mas procura a interiorização e integração, não com o objetivo de evacuá-las, mas sim de favorecer a elaboração.
O corpo é parte ativa no jogo psicodramático. Não se procura uma catarse, mas sim a implicação emocional que é deste modo solicitada, sempre limitada pela regra do faz de conta. A mobilização do corpo pelo próprio paciente assim como pelos co-terapeutas fazem dele um interlocutor com todos os direitos e vantagens; ele fala e pode ser falado com um menor risco intrusivo de ferimento narcísico, pois os co-terapeutas estão também ali implicados e o prazer dividido de representar no seio do jogo, sob o olhar do diretor da cena, pode ser um fator de renarcisização.
Jean Gillibert (psicanalista-psicodramatista) nos dizia quando de um seminário o seguinte “: o psicodrama corresponde à essência da análise que responde àquela do funcionamento mental, na perspectiva que ele propõe e dispõe da alteridade.”
No psicodrama não há “representação”, mesmo inconsciente, sem representação de si mesmo. O psicodrama psicanalítico, além de possibilitar a interpretação de vários pápeis, aparece como o último defensor das cenas “privadas” com várias pessoas, pois ele desconstrói os efeitos da
representatividade próprios às identificações narcísicas, vindo daí o seu poder terapêutico, assim como as indicações clínicas.
“On gave le mental de “représentations” comme on gave les oies.” “Alimentamos o mental com representações, assim como alimentamos de um modo forçado os gansos, para que fiquem com os fígados gordurosos ,para que o famoso “foie gras” possa ser feito.”
Portanto Freud tinha desde o início distinguido a “présentation” (darstellung) da re-présentation (vorstellung) ; a primeira, onírica, a outra, secundária, derivada, racional e ilusória, como “conseqüência” de uma primeira percepção.
A “représentation” sempre doutrinal é uma ilusão que força e que obriga a partir do exterior, um olhar passivo, iludindo-o a acreditar que o lugar onde ela se encontra, é “aquele”. O jeu (jogo) tornar-se-á então pulsional objetal, enquanto que ele era apenas um sonho a vários.
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Não existe uma cisão implacável entre o gesto, a imagem e a palavra, como bem o diz P. Sullivan (psicanalista-psicodramatista). “tudo deve finalmente ser dito”. É o dizer que é o creuset(cadinho) do futuro, assim sendo da terapêutica, e não somente a palavra, ou o gesto, ou a imagem
Se a morte não está “representada” no inconsciente, é porque ela é a “nossa” morte, para sempre, e que jamais chegará ! É então porque ela é sensível, que nós somos sensíveis e não reduzida à algo inteligível: sensível, como alteridade pura, existencialmente sensível antes de ser declarada boa ou má, segundo prazer e desprazer, mas não segundo seu princípio. Se a morte é uma negatividade, assim sendo, uma representação em negativo, não é a este negativo que somos sensíveis (falta de ser, perda de si , perda do mundo objetal), mas à positividade do luto ( do mundo, de si) ao onirismo lúdico do outro que é do outro do mundo...
Jean Gillibert: este autor nos mostra de um belo modo que as tensões entre um interior que se constitui à medida que o exterior se desvaloriza, entre um soi e o mundo entre interiorização e exteriorização são no fundo muito e mais imediatamente sensíveis na prática psicodramática que em outros áreas da psicanálise. Nesta perspectiva o psicodrama estaria no fundamento da psicanálise. Bem mais do que uma aplicação de uma cura clássica, ele seria a essência manifestada da psicanálise como obra da época atual. Com efeito, substituindo o teatro do mundo pelo teatro do psiquismo, onde aparecem sob apresentações diversas o desejo, a pulsão, a psicanálise pela criação deste universo intermediário e sua inclusão numa continuidade até então perfeitamente fechada, é ela mesma o primeiro psicodrama humano, sua primeira colocação em forma elaborada. Houve então, antes mesmo do aperfeiçoamento da técnica psicodramática ela mesma, uma intervenção do exterior no indivíduo humano. Mistura inicial e universal do mesmo modelo pois simultaneamente a realidade torna-se psíquica e os sujeitos iguais diante dela. A causa psíquica ou coisa psíquica, cosa mentale é deste modo muito menos um dado eterno do que a palavra-chave de um drama de época, do qual o psicodrama é apenas algo microscópico.
Para que o processo analítico se desenvolva, é preciso que se instaure o que nós chamamos de “neurose de transferência”. Redefinido de modo conciso, ela não é nada mais do que o agenciamento dos conflitos em torno da pessoa do analista (representante dos “imagos”) vividos na sua conflitualidade, e cujo interessado é o autor , o criador. Ora, esta neurose de transferência é precisamente ao que se recusam, resistem com uma particularidade intensa, os pacientes aos quais nós indicamos o psicodrama..
É desejável que os co-terapeutas evitem ao máximo de se colocarem no realismo, na racionalidade e na adesão ao manifesto. É mais dinâmico que eles se considerem como os representantes do inconsciente e que eles consigam ter um papel definido, claramente perceptível, que eles podem levar até à caricatura, levando em conta como modelo de funcionamento não mais os processos primários, tais quais eles irrompem por exemplo no sonho, nos lapsus, mas também das alucinações e construções delirantes. Cada co- terapeuta torna-se o representante das identificações do paciente, que deste modo será conduzido a escolhê-lo, mostrando deste modo a evolução da sua relação transferencial.
É necessário conquistar a confiança do paciente e o apoio narcísico, sem o qual nenhum tratamento psicoterapeutico pode existir. A utilização pelo paciente da possibilidade que lhe é ofertada de representar um outro papel que não o seu é freqüentemente um momento fecundo da cura, que testemunha da aquisição de uma segurança suficiente e correlativamente de uma possibilidade de distanciamento em relação aos imagos, abrindo a via à uma certa forma de luto e de separação consecutiva à organização dos imagos na sua alteridade, e por conseqüência a uma mobilização das identificações.
Psicodrama e Teatro
Todos os autores que escreveram sobre o psicodrama e provavelmente todos os terapeutas que já o praticaram depararam-se num certo momento de suas reflexões num ponto de intersecção com o teatro e suas metáforas. A forma psicodramática aparentemente se presta a esta comparação e o nome dado à própria técnica conteria uma referência explícita ao teatro e à sua história: o drama, na origem uma ação, tornou-se um componente do acontecimento cênico. Além disso o teatro mantém com a própria psicanálise , desde as suas origens relações estreitas e complicadas pelo viés da teoria catártica. É praticamente uma história de família. Bernheim, o intérprete na cultura germânica da catarse aristotélica em termos de purgação das emoções, pertence à família da mulher do Freud. Diz-se sempre que Freud ao inventar a psicanálise, teve que abandonar o método catártico, fundado muito mais sobre uma interpretação contemporânea de suas primeiras pesquisas do que sobre o texto de Aristóteles. A idéia de Freud e Breuer era de que se a pessoa revivesse por sugestão ou hipnose um acontecimento anterior nefasto e inquietante, esta revivescência induzida provocaria uma descarga liberadora. Trata-se de algum modo de uma homeopatia, segundo o modelo igualmente da medicina grega antiga que sempre acreditou que introduzindo-se no interior do corpo um veneno este tornaria-se remédio pelo efeito da rejeição e da acomodação que ele produziria. Os gregos por sinal utilizam a mesma palavra, “pharmakon” para veneno e remédio. Por outro lado é inegável e apesar de todas as modificações trazidas à sua técnica além dos anos catárticos propriamente ditos, que a ótica de Freud permaneceu fiel à esta direção: a passagem da catarse ao trabalho de elaboração, à análise é muito mais um método do que uma conversão de pensamento. Um refinamento do instrumento mais do que a rejeição da ferramenta ao qual ele freqüentemente faz alusão. Tratar-se-á sempre em toda experiência analítica da reviviscência pelo viés de um outro taticamente medido, o analista, de uma vivência ligada ao passado: desta passagem pelo mesmo ou da reminiscência homeopática introduzida pela conjugação da livre associação e da interpretação é esperada a liberação do psiquismo
Psicodrama e psicanálise podem se reencontrar e permanecer sob o mesmo teto, se eles se alinharem sob uma legislação cujo papel é o de facilitar a cohabitação. Sem tumulto ou evitando-se os transtornos produzidos por uma interpenetração, o psicodrama é psicanalítico se ele tem dois tempos. É a decisão essencial, inicial desta demonstração: distribuir o tempo do psicodrama em dois momentos distintos. Se a argumentação lógica consegue efetivamente garantir o caráter psicanalítico do psicodrama, ele será incontestável. Para isso é preciso decifrar nele mesmo uma forma que seja autenticamente analítica, que seja aquela mesma da prática analítica. Para se fazer isto, convém inicialmente colocar em evidência a potência de atualização dos fantasmas inconscientes e das identificações pelo jogo. É o lado teatral do psicodrama. Contudo é preciso imediatamente reduzir este poder expressivo apenas como meio de uma outra finalidade: a retomada da discussão com o diretor do jogo , dos gestos, atitudes e palavras misturadas que acabaram de se produzir na cena proposta. Este segundo tempo torna-se assim o momento propriamente psicanalítico, aquele que o jogo prepara, aquele que ele convoca e finalmente o determina. Num discurso desta ordem, essencialmente compreensivo, nada esta excluído; os elementos do psicodrama estão aí colocados simplesmente de modo a formar um sistema.
A questão do psicodrama e do teatro vem despertar este debate ou dito de uma outra forma esta metamorfose do pensamento freudiano nos seus primórdios. Não nos parece tão evidente que Freud tenha tentado formalizar assim como os seus discípulos o fizeram a passagem de uma técnica à outra. Teria ele visto um corte de tal dimensões que a sugestão e a abreação passassem da condição de servidores àquela de inimigos dos quais é necessário se proteger, para conservar o seu território ?
Para que possamos dispor de todos os elementos em mão, é preciso sem dúvida nenhuma saber que a catarse aristotélica, pela qual tudo começa, merece duas grandes interpretações, não contraditórias entre elas, e talvez mesmo, sempre solidárias.À purgação dos afetos pela visão da emoção encenada e introduzida no eu espectador, a catarse acrescenta o sentido de uma depuração gradual do conflito trágico durante o curso da tragédia. Segundo esta concepção, todos os participantes da cena teatral, atores e espectadores incluídos, experimentam o drama desta precisão gradual do trágico, extremo e miraculoso na história ocidental, como uma elevação espiritual interna. Esta interpretação da catarse como repartição sublime da dor de ser nascida no coração dos empreendimentos teatrais e porque não analíticos, deixam de levar em conta que nela fermentam todas as lembranças, tanto de umas quanto das outras.
Estas observações sobre a noção de catarse, duplamente interpretada e que sem forçar a barra poderíamos dizer que passando da abreação à interpretação a psicanálise permaneceu sempre catártica, situando talvez melhor a trama talvez desprezível de uma oposição marcada entre psicodrama e teatro. Ora parece que este debate visto do ângulo técnico parece ser vital e que a sua separação seja algo de essencial. Eles procuram mantê-la citando algumas diferenças de forma, que não são realmente diferenças entre teatro e psicodrama: o paciente é ao mesmo tempo sujeito do espetáculo e espectador, mas isto não é o que se observa mais frequentemente no teatro; o “JEU” seria apanágio do psicodrama, o espetáculo aquele do teatro; oposição difícil a ser mantida, vista do exterior; o teatro teria necessidade de uma grande quantidade de espectadores, embora numerosos potentados tenham exigido que se fizesse teatro apenas para eles ; após estas distinções de superfície interviria então esta famosa diferenciação pela catarse: diferença esta fundamental. No teatro então, a catarse como abreação,no psicodrama um movimento que vai no sentido de uma interioridade progressiva. O teatro, porque ele expressa e mostra uma liberação de afeto na presença de um espectador eventualmente emocionado, exterioriza e faz eventualmente exteriorizar;o psicodrama ao contrário fica atento à interiorização
Admar HORN
Psicanalista
Rio de Janeiro, setembro de 2004.
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