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TATUAGEM

Enviada por stelagodoy em Monday, December 20 @ 21:00:00 BRST

Trabalhos

TATUAGEM

                                                                       Maria Stela de Godoy Moreira (PhD)
 
            A apresentação de um caso clínico ilustra  as conseqüências de um desastre interno, onde a  fissura entre o ego e a realidade propicia um escoamento dos conteúdos mentais, através da identificação projetiva patológica. Frente o perigo  de esvaziamento, de uma hemorragia narcísica, a organização psicótica é então convocada para colmatar essa fenda, e omnipotentemente “reparar o ego”  num processo de reconstrução, fazendo com que o paciente se sinta mais inteiro com menos perigo de desintegração. Esta organização patológica então, mantém um equilíbrio e  apesar do alto custo protege o paciente dos terrores da fragmentação psicótica. Uma das maiores ameaças à hegemonia da organização psicótica advém da parte saudável do paciente que é muitas vezes projetada e vem a ser representada pelo analista e seu trabalho analítico. Eventualmente a sanidade do paciente e a valorização da análise podem coexistir sobrevindo os ataques psicóticos, mas é ai que os mecanismos perversos tendem a tornar-se operativos.


Membro Efetivo e Psicanalista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise
            Pretendi,  neste artigo, estabelecer uma ligação entre os conceitos de “continente -contido” de Bion (1963) e a  teoria do claustrum de Meltzer (      1992), onde ele  amplia o modelo de mente de Melanie Klein, a fim de explorar a fenomenologia da identificação projetiva intrusiva, operando no nível da fantasia inconsciente, no caso específico de perversos e adictos. Tentei mostrar através de material clínico o aspecto projetivo de ataques intrusivos de um paciente que se tatua, feitos não apenas sobre a pele (figurabilidade), mas sobre o self (operatividade) e sobre o pensamento (generatividade), sustentando-me na hipótese de uma conexão entre estes três “continentes”, como sugere Anzieu (1994),  quando afirma:         
                         “la peau enveloppe le  corps; par analogie, le moi enveloppe le                 psychisme; par analogie, le penser enveloppe les pensée.”
 
           
            A apresentação de um caso clínico ilustra  as conseqüências de um desastre interno, onde a  fissura entre o ego e a realidade propicia um escoamento dos conteúdos mentais, através da identificação projetiva patológica. Frente o perigo  de esvaziamento, de uma hemorragia narcísica, a organização psicótica é então convocada para colmatar essa fenda, e omnipotentemente “reparar o ego”  num processo de reconstrução, fazendo com que o paciente se sinta mais inteiro com menos perigo de desintegração. Esta organização patológica então, mantém um equilíbrio e  apesar do alto custo protege o paciente dos terrores da fragmentação psicótica. Uma das maiores ameaças à hegemonia da organização psicótica advém da parte saudável do paciente que é muitas vezes projetada e vem a ser representada pelo analista e seu trabalho analítico. Eventualmente a sanidade do paciente e a valorização da análise podem coexistir sobrevindo os ataques psicóticos, mas é ai que os mecanismos perversos tendem a tornar-se operativos.
            Meltzer (1992), investigando o estado psicótico confusional em adolescentes, sugere a possibilidade de subdividir-se o claustrum materno  em, pelo menos, três áreas distintas, cada uma com suas próprias qualidades e conseqüências: frente-inferior (genital), trás-inferior (rectum), superior (dentro do seio, peito, cabeça).        No caso clínico vou me restringir às qualidades estruturais do claustrum relativas à parte superior, (seio), onde a qualidade primária é a riqueza, diversificada em suas nuances: as características de generosidade, receptividade, reciprocidade, compreenção e conhecimento, o lugar da formação dos símbolos e portanto da arte, poesia e imaginação.  Vistas a partir do  interior, influenciada pelos motivos da intrusão, a generosidade  se torna quid pro quo, a receptividade se torna sedução, a reciprocidade transforma-se em conluio, a compreenção torna-se invasão da intimidade dos segredos do outro, o conhecimento se torna informação, a formação de símbolos se torna metonímia, a arte, se torna “moda”. A grandiosidade da identificação intrusiva é reconhecida pela  característica descrita por Meltzer como de superficialidade (“shallowness”), que reconheço em meu paciente. Uma vida secreta, perseguido pelo senso de fraudulência,  irresponsabilidade, indolência, um split limitando a linguagem, o instinto epistemofílico que se traduz por “um acúmulo de conhecimentos inúteis”, e uma “diáspora afetiva”.
           
            O motivo pelo qual fui procurada pelos pais de Tattoo foi  a preocupação que um terapeuta anterior tinha suscitado na família quando afirmou que ele “apresentava um comportamento auto-destrutivo e impulsivo que poderia conduzir a um final trágico”. Queixa-se a mãe: "Ele não é uma pessoa feliz. Faz chantagens desde criança para obter o que quer". Confirma o pai: "Gasta compulsivamente. Tenho que cobrir seus cheques pois ele sempre traficou em negativo".Tattoo, atualmente com 28 anos, passou a tatuar-se há 4 anos, mas freqüenta o mestre tatuador, semanalmente, há dez anos.Não utiliza drogas e não apresenta alterações eletroencefalográficas ou problemas de saúde em geral.
            Tattoo veste um colete à prova de balas. Anda armado, mesmo fora do horário de seu  trabalho como  voluntário na guarnição motorizada da polícia militar. É propenso a atos de violência:  bate nas namoradas, quebra objetos da casa e dispara  tiros para o ar depois de uma discussão. Elas se queixam, segundo contam os pais, da brusca mudança que nele ocorre,  transformando-o em um personagem frio, agressivo e aterrorizante. Esta transformação  se dá principalmente no contato com as pessoas “mais íntimas”.
            Acreditando nos riscos à  vida que este paciente representava, para si e para os que lhe eram próximos, busquei apoio medicamentoso de um  colega psiquiatra.
            O colete a prova de balas foi emocionalmente desinvestido e Tattoo não precisa mais de usá-lo.  A perda dessa armadura antiga resulta, inicialmente, não em uma visão clara de uma nova estrutura contensora, a das palavras, mas na busca concreta das paredes de um  poço, um  refúgio, um lugar para “voltar a dormir dentro da mãe”. Uma  sessão de segunda-feira ilustra esta  metáfora. Observamos falhas  na capacidade figurativa, refletindo na incapacidade  para metaforizar.
1- FIGURABILIDADE
            Com relação à figurabilidade, salientamos uma substituição  da pele  pelas roupas, pelas pedras que revestem as paredes do poço, ou pelo envoltório pictórico da tatuagem, invertendo o prazer da sensibilidade erótica por uma excitação dolorosa. Existe uma correspondência entre a profundidade da falha  narcísica e a profundidade da lesão epidérmica.
.           Vamos à sessão : A fala é ininterrupta, porém articulada e coerente.
T: Nesse fim de semana atordoei e caí  de novo na rua,  um homem me ajudou, levou para o hospital onde fiz vários exames.... procurei  um médico neurologista, que me examinou e mandou para um cardiologista.... porque tive dois episódios de “desmaio”. Fiz inúmeros exames e não foram detectadas causas orgânicas para estes desmaios. Quando  estou nervoso eu gosto de passar a noite no sítio, dentro de um poço, semi-submerso na água geladinha. É um poço antigo, todo de pedras grandes, que está desativado. Tem uns ganchos  na parede por onde eu  desço até quase o fundo, depois eu pulo. Na  água dá para ficar sentado e ela chega até o pescoço. Encosto na parede e durmo. Passo a noite lá.  Dá  para ver a lua, lá longe,  pelo buraco do poço.
 S: Você me conta como precisa "esfriar" a cabeça numa água geladinha, quando se  sente fervendo por dentro. Diz que quando fica nervoso, como nesse fim de semana, tenta   recriar  sozinho  a sensação de acolhimento da sala de análise, um magnífico lugar de sonho, do qual você acha que foi desalojado. Busca então  a sensação  muito agradável de "dormir em uma cavidade como um poço", pois ali  se  sente resguardado  num envoltório  líquido  e  de onde você pode olhar a lua.
T: É uma coisa que eu gosto. Vou sempre nesse poço, mas, de manhãzinha, quando vou subindo pelos ganchos para  sair de lá,   não olho mais para baixo, pois tenho horror de altura.
Penso em alguém vivendo numa masmorra secreta; “down the black hole of an oubliette”, expulso, isolado, preso. Digo: É o jeito que arranjou para dizer como precisa ficar dentro de algo bem resistente como as paredes de um poço, para segurá-lo fisicamente, uma vez que você sente falta de um apoio para suas emoções.     
Minhas palavras parecem ecoar "no fundo do poço" e depois de uma silêncio continuo: Quando sai do  poço  fica horrorizado ao pensar como desceu " tão fundo" e sobe pelos ganchos, sem olhar para baixo...com medo de ser chupado para dentro de novo...     
            Tattoo expressa a ausência de um objeto continente dentro de si, precisando uma "camisa de força" concreta, feita com grandes pedras antigas, pois não introjetou um objeto que o contenha. Faltando-lhe um "bassin d'attraction" dentro de si,  teme ser atraído pela imantação deste objeto-poço, fora de seu corpo.           
2- OPERATIVIDADE
            Com relação à operatividade, observamos ataques contra o self. Ao lado da identificação projetiva, a identificação adesiva (Bick 1968) reconhecida através da simulação, frivolidade de um comportamento mimético e caricatural, indicativo da  superficialidade da vida emocional ("shallowness"). Isto, teoricamente seria compatível com o conceito de identificação narcísica desenvolvida por Meltzer (1975), na qual observamos mecanismos de  identificação ADESIVA bem como de identificação PROJETIVA
Veremos na clínica como se dão os :
            - Ataques contra o sefl através de: identificação projetiva
            Tatoo trabalha nos fins de semana como instrutor de mergulho. No início da sessão queixa-se de ter desmaiado em um de seus mergulhos, quando antes de perder os sentidos dentro da água,  segurou-se numa pedra,  tática indicada para estas eventualidades.
Conta : Na baleia cachalote,  a cabeça é um terço de seu tamanho e é cheia de um líquido oleoso que, quando esfria, se condensa, tornando a cabeça  mais pesada. Isto faz com que  ela possa descer até as profundezas do mar. Lá ela caça peixes que vivem a 1500 metros de profundidade e nesse exercício os líquidos da cabeça dela voltam a se aquecer tornando-a mais leve, e assim  a impelem  para a superfície. Nessa subida os peixes que ela tem na boca, ainda lutando pela vida, explodem devido à descompensação repentina..
S: Você me conta de um  movimento centrípeto, dos peixinhos para dentro da boca da baleia, uma implosão, e  de um movimento centrífugo, espalhando os detritos dos peixinhos mar a fora. Um medo  de  explodir, desintegrar, como os os peixinhos dentro da boca da baleia .
            Tattoo me ouve muito atentamente e retoma os pontos centrais como que para entender melhor:
T: Isto seria um jeito de falar das minhas explosões ?
S: Você se indaga até que ponto existe um controle para “esfriar a cuca” quando a descarga se torna imperiosa,  como as baleias cachalote... Assusta-se diante de uma explosão incontrolável na presença das pessoas mais “íntimas”... e receia que isso aconteça entre nós...
            Existe um caráter produtivo, nas metáforas de Tattoo. A maneira que ele usa para comunicar as características  do seu mundo interno causam-me impacto pois as  suas metáforas não são simples constatações, que aludem à analogia, entre o que ele vive e os personagens que descreve: a baleia ou o peixinho. Suas metáforas desfazem os símbolos familiares para com eles produzir novos sentidos de estilhaçamento e de  pulverização, estranho resultado de um verdadeiro trabalho de construção no âmago da psicose.  
            Nessas imagens figuradas como explosão surgem medos associados à posição esquizoparanóide: explodir e dispersar. Esses episódios de "desmaio" sugerem que ele  sente-se privado de um centro  imantado que atue como um pólo de atração, um ‘bassin d’attraction’ a fim de reunir os fragmentos de um violento splitting desagregador.
            Ao mesmo tempo que falta um centro imantado, falta-lhe um envelope envolvente, que proteja e  registre. Para  reconhecer-se  como tendo  uma identidade, foi a pele o lugar criado para sua atividade representativa.
            . Veremos  então como se dão os :
-Ataques contra o self através da Identificação adesiva onde  a relação de objeto é bidimensional.   
            Tattoo chega, como sempre, muito bem vestido, aprumado e perfumado. Sistematicamente ele mimetiza as cores de meu consultório. Terno impecável, meias  e gravata com estampa delicada em amarelo, combinando com  a camisa onde aparecem os punhos das abotoaduras douradas. Deixa em cima da mesa  as chaves do carro e, nesse gesto, noto o anel brazonado e a jóia incrustrada no chaveiro. Levanta a manga da camisa e mostra, com certo orgulho, as tatuagens. Conta que  o  tatuador  “também é um terapeuta” que interpreta.  Ao fazer as duas figurasele salienta o problema  do bem e do mal, das lutas internas entre esses dois inimigos, agora tatuados  em seu  braço. Não percebe entretanto o quão concreto é o pedido  para  colocar uma figura na face anterior e outra no posterior do braço, para "evitar que elas se olhem" e conseguir que elas  “não se encontrem”. Descuida também do sentido mais premente da luta: a  vida e  a  morte.       
T: Vou fazer  mais uma tatuagem . Já escolhi o desenho; é a figura de um guerreiro da idade média, segurando um escudo no peito. De pé numa colina olhando para baixo... suas terras ... Ele está  só, com umas peles em torno do corpo. Pele de animal. Um chifre  na cabeça... Quero deixar isso marcado para me lembrar como era antes de eu vir aqui...e nunca mais esquecer tudo que passei...
S:Parece que  é SÓ assim que  você vai ser  capaz de falar dessas coisas do passado... Precisa de uma representação  tatuada como uma  testemunha gravada na pele, para você não se esquecer como era antes de vir aqui...
T: Hesitei em fazer ...porque elas vão ficar para sempre...
 S: Essa  idéia de manter um registro gravado, indelével,  para a lembrança  não esvair -se parece ser a necessidade de  um certificado de  garantia que esses estados não voltarão  mais.
T: Quero olhar para o braço  lembrar.  Quero mostrar para os outros... Assim, quando eu estiver no barco, não preciso falar... Eu tenho  tendência a falar demais  ...Daí as pessoas vêm e vão me perguntar...
S: Ao usar  a pele como um diário, onde você escreve, pretende se apossar dos acontecimentos de seu passado  para poder lembrar e falar dele, assegurando  um sentido de continuidade no tempo.
A: Espero econtrar meu supervisor dos mergulhos  na sala do tatuador, no sábado. Ficarei lá das dez  da manhã até  cinco  da tarde. Contei para minha mãe e ela quer ir lá também,  para  falar com o mestre. Ele vai gostar dela. Ela é tolerante e acha graça nessas coisas.
            Ressalto nesta vinheta o contraste entre o revestimento externo das roupas, o mimetismo das cores, a "superficialidade" dos adornos que precisam ser exibidos e a falta de um correlato mental desses envoltórios. Shallowness, como fala Meltzer.
            As minhas palavras resvalam pela superfície e não penetram. Ele está fora do alcance, mais longe ainda do que o fundo do poço.
            Nesta sessão em que Tattoo conta que para “celebrar” sua melhora devido à análise, vai fazer mais uma tatuagem...certamente estamos diante de uma situação que denomino perversa, onde as “partes saudáveis” do paciente foram seduzidas e convidadas a um conluio com a organização psicótica, agora sob um disfarce benevolente, que provê soluções rápidas para o problema da falta de memória. Se ele vai inscrever em sua pele um certificado de saúde, certamente pretende com isso ficar imune a qualquer retorno ao estado patológico anterior, não seria esta uma falsa promessa que a organização patológica da personalidade deste paciente faz seduzindo uma outra parte mais dependente?      
3- GENERATIVIDADE: ataques ao aparelho mental
            Com relação à  generatividade: ataques ao aparelho mental  (Bion 1959) com prejuízo do pensamento abstrato e da memória.
            Fragmentos de duas  sessões consecutivas mostram que a intrusão no claustrum   pode modificar as emoções, desaparecendo o amor (L), o ódio (H), e o conhecimento (K), que são substituídas pela anti-emoção, pela excitação anuviada, pelo terror sem nome. E  se a punição é necessária para o perdão,  salienta Meltzer (1992), florece todo um sistema delirante do perverso de orientação masoquista que, como vítima, permite ser brutalizado periodicamente, para aplacar a fúria dos objetos internos,  aumentando  as possibilidades de  desordens de pensamento.
Primeira vinheta
T: No fim de semana tive um problema no mergulho. Eu tinha o ar suficiente, mas faltou para dois amigos que são iniciantes e não mergulham muito e que,  portanto, gastam mais oxigênio. Quando o cara tem mais experiência ele fica mais relaxado e  poupa mais o ar.  Primeiro faltou ar para o X. Emprestei do meu, depois faltou para o Y., daí tivemos que subir e deu todo um problema com o instrutor, que me repreendeu duramente. Eu merecia. Ele confia no meu trabalho, mas vi que ele ficou bravo porque isso NÃO podia acontecer. Como é que ele vai entregar alunos que não sabem nada nas minhas mãos?
            Paira no ar um sentido iminente de catástrofe. 
            Sinto no impacto dessa comunicação o  resvalar com a morte, uma sensação de algo malígno. Estaria ele  infringindo a morte "ao outro", algo que ele teme fazer a si próprio ... uma tentativa de  assenhorar-se e dominar algo temido? Ao separar, num splitting do self e do objeto, os aspectos daninhos que prejudicam e são prejudicados, para se servir  de outros objetos para experimentar, o que for muito perigoso de experimentar,  é uma forma de submeter-se à identificação projetiva. Esta área merecia ser melhor explorada pois a "situação de alerta" não está dentro dele, só foi recuperada a posteriori, quando expressada e atuada na transferência. Diante da preocupação do instrutor com a possibilidade de Tattoo pôr em perigo outras vidas sob sua responsabilidade, registra apenas  que ele "ficou bravo” e não vai mais deixá-lo monitorar outros eventos.  O estado de alarme que senti em  resposta ao acting in do paciente, provocou uma interpretação contratransferencial superegóica, dando voz a uma culpa que não estava presente: Você está muito culpado de não ter cuidado adequadamente desses amigos...  Nesta passagem observamos  o split da capacidade de julgamento e  a projeção dessa função na analista  numa tentetiva de manipulação e controle  para que eu  o  pressionasse a agir. Não existe a culpa pelos danos causados ao objeto, mas o medo de perder os benefícios advindos dele. Estou trafegando em  nível esquizo-paranóide  e não o depressivo.
Depois, sintonizando  mais o nível da interpretação, continuei: Você está com medo desse instrutor,  que ficou  bravo com você...  e aventa a possibilidade de ser mandado embora...O medo é de retaliação.
Tattoo continua: Mas ele confia em mim. Quando sei que são novatos eles obedecem o que eu falo. Com outras pessoas que mergulham mais assiduamente não preciso ficar atento. Eles percebem  os movimentos e não precisa nem fazer sinal. Mas por X  e  Y  serem meus amigos  fico sem graça de dar-lhes ordens e tratá-los  feito instrutor. Eles são meus amigos,  mas não gosto de mergulhar com eles...
S: Tem então esses dois tipos de amigos: os de dentro d’água, que não precisa  nem falar... onde  existe uma perfeita sincronia, como gêmeos dentro da cavidade uterina  que compartilham  tudo da mesma mãe.  E outros amigos  de fora d’água aos quais  você tem que  ficar atento,  tem que  cuidar...e que dão trabalho...  (Estou me referindo à necessidades narsísicas fusionais de ser compreendido sem precisar falar.)
T:  concorda e conta episódios exemplificando os dois tipos de amigos.
S: Consigo finalmente "englobá-lo" na interpretação transferencial: Aqui muitas vezes você sente que existe  uma relação de muita intimidade e interdependência como os gêmeos de dentro d'água, mas quando "acaba o ar", voltamos a ser do grupo dos amigos de fora d'água, com os quais precisa falar para ser compreendido. Mas você prefere ser compreendido sem  precisar falar...      
            O tipo de relação objetal que podemos inferir dessa sessão é de negligência e displicência com sua partes mais frágeis, ainda em época de aprendizagem. Tattoo não  acata autoridade do princípio da realidade, com risco de vida e perdas profundas. Falta  na sessão seguinte, sem avisar.
                        Segunda vinheta
            Inicia contando que não é capaz de julgar como os outros se sentem:
 T: Não percebo sutilezas do relacionamento com pessoas. É a segunda amiga minha cuja mãe tem que interferir,  pedindo para eu não ligar mais para ela. O que será que elas pensam?. Que eu quero namorar?. É só amizade. Às vezes acho que está se repetindo a mesma história....A se parece com B. Tem o mesmo jeito de se aproveitar das pessoas. Meu instrutor também mentiu. Eu liguei para combinarmos alguma coisa com ele e outro amigo...depois soube que  saíram juntos sem me incluir. Dizendo que iam  dormir, foram  jantar sem mim. Estão me evitando.      
S: Você diz que “não percebe sutilezas do relacionamento com pessoas” : as "duas mães"  proibindo-o de sair com as filhas... Os amigos que o  evitam...sente-se  alvo de injustiças... Vejo aqui um clima de desconfiança... ressentimento e amargura por não ter o que sente que merece.
T: Sim, é verdade. Presto atenção nos detalhes, depois junto os dados. Faz uma ligeira pausa: Faltei ontem na análise. Passei o dia inteiro na cama . No fim de semana saí para mergulhar com dois amigos. Houve uma descompensação de ar no mergulho, eu estava sem o equipamento. Desci sozinho  para pegar vieiras a quinze metros. É gostoso comer vieiras no mar. Senti dor no maxilar. Hiperventilação. Fiz os exercícios de abrir e fechar a boca.. São indicados para tirar o ar que fica parado no seio-maxilar. Eu tive que escolher entre morrer, pois a pele poderia explodir se o ar não fosse eliminado, ou subir rapidamente com risco de descompensação.
            Diante desta vivência arcaica e da  agonia de se ver preso no claustrum materno, onde reina o  temor de ser absorvido pelo objeto e “ficar parado no seio” materno ou explodir em mínimos detritos “se o ar não fosse eliminado”, consegui visualizar por segundos, este lugar hiperventilado, mas mortífero. Ele continua:
Estouraram pequenas artérias que irrigam o cérebro . Fiquei com um hematoma no seio facial.   Tive que ir para o hospital. Dois amigos se ofereceram  para ir comigo, mas eu disse que não era preciso. Fizeram raio X duas vezes. Um, quando cheguei e outro, depois, para ver se já tinha expelido o ar. Voltei para casa e fiquei em observação. O médico disse que foi conseqüência de  um resfriado mal curado. Foi um BARO-TRAUMA. Não existe um termo que indique gradação, como, por exemplo, na epilepsia onde se  tem grande mal,  pequeno mal e, quando é leve, disritmia. Agora barotrauma  é o mesmo nome, desde o mínimo até o máximo com descompensação súbita, explosão dos vasos cerebrais e morte. Tenho que colocar rinossoro. Um tubo inteiro com penicilina.  Assoei no lenço e expeli sangue,  com o ar.      
S: Aqui você me diz que está sujeito à descompensação se fugir rapidamente, ou se permanecer, ficará exposto à  explosões do revestimento externo da pele , ... e dos vasos capilares do  cérebro.  Está me sentindo incapaz de modular essas pressões internas e externas, para não haver um TRAUMA, como o do baro-trauma. Mas a verdade é que você conseguiu sair dessa situação tão perigosa...
            Que “pressão traumática” sofreram esses seios que devolvem a agressão com explosão dos vasos cerebrais e morte?. Por que precisa destruí-los dentro de si com  tanta  hostilidade?. Ao infligir uma auto-punição, uma parte do self  está  ativamente empenhada em atividades sádicas relacionadas a outras partes, que estariam mais disponíveis a serem ajudadas, se não estivessem masoquisticamente enleadas nessa relação perversa. A natureza perversa dessas relações entre os elementos do self, mostra como o sofrimento do paciente pode ser usado como triunfo  sobre  a parte mais mais frágil, capaz de desenvolvimento, evitando que ela tenha acesso ao bom objeto. Penso nas atividades sádicas onde a parte destrutiva o seduz com “vieiras”.
S: No episódio dos "gêmeos dentro d'água", o ar é indispensável à vida,  o ar é bom. Você tem de sobra e até reparte com os outros... No caso da descompensação, você tem que expelir o ar. O ar é ruim. Isto pode estar conectado com nossas sessões, que você sente como uma relação boa, idealizada onde mesmo sem falar você é entendido; outras vezes sente  como ruim,  fica desconfiado,  e eu  passo a ser mais uma pessoa que evita sua companhia , então você falta,  fica de cama e não vem  ao nosso encontro. Faço uma pausa, ele permanece  em silêncio, atento. Parece que alguma coisa fez sentido para ele.
            Podemos observar a divisão interna onde uma parte é má companhia para a outra, como assinalaram as “duas mães”. Por outro lado, temos a questão da auto-punição.  (Riesenberg-Malcolm 1981).
No dia seguinte Tattoo volta ao assunto do barotrauma:                     
T: Me preocupa pois não faço de propósito. Eu posso cuidar muito de mim e ao mesmo tempo não cuidar nada. Machuco a mão praticamente todas semanas. Estou sempre com um dedo amassado, uma unha...Mexo com equipamento pesado
O nome correto do que eu tive é barotrauma retrógado dos seios maxilares. Passei a tarde inteira em casa, nem fui trabalhar.
            Esta associação entre cuidar e não cuidar de si próprio, o baratrauma e  machucar a mão em objetos “pesados”produziram um sonho em mim  essa noite.
Converso com um amigo psicanalista sobre a Tailândia e conto que eles ampliaram as terras, mas, diferentemente da Holanda, ampliaram-na às custas de colmatar  águas,   ricas em detritos minerais e orgânicos, para planícies baixas e pantanosas, aumentando assim a fertilidade. Digo-lhes que fizeram uma barragem, mas tinham deixado os rios nessas frestas e não sei se eram de água salgada ou não”.
            Ao acordar, percebo que o mapa da Tailândia se assemelha a um’a mão e me lembro de Tattoo.
            Penso em dique, escoamento, pseudo-solidez  gerando um novo território. Sinais de um processo de reconstrução impetrado pela organização narcísica?
            O´Shaughnessy (1981)  apresenta uma descrição detalhada da função defensiva da organização patológica da personalidade. O ponto mais significativo nesse trabalho deriva de sua descrição do destino da organização patológica quando ocorre o desenvolvimento. Ela não cessa de existir, mas permanece cindida, ou seja uma parte onipotente do paciente continua atuando  através de identificação projetiva com objetos poderosamente destrutivos, que obstruem de maneira contumaz os esforços realísticos para o desenvolvimento.
            Tatoo faltou no dia seguinte, último dia antes dos feriados de Natal, mas telefonou avisando que “está levantando fundos” para pagar o que deve.
            Lembro-me de Fabien, (Klein, 1955) no final do percurso quando suas partes clivadas submergiram nos objetos e perderam as recordações e características  pertencentes ao Fabien original.
            Tattoo retoma  a análise  no dia marcado, doze dias depois,  já passados os feriados de Natal.
           
            COMENTÁRIOS FINAIS
            Penso que nos mecanismos perversos de pensamento de meu paciente Tattoo ainda permanece um estado mental indiferenciado e não estruturado e conjecturo sobre a pré-história da  sua história, onde o caminho da perversão pode ser trilhado desde muito cedo, com ajuda de um splitting  dinâmico do  “seio” sentido como o espaço dentro do objeto-mãe, que  se apresenta em  fantasias claustrofóbicas e claustrofílicas, ora como um refúgio seguro, um Nirvana alcançado, um ‘Paraiso Perdido, ora como um claustrum  sufocante, uma “oubliette”reavivando o surgimento de angústias arcaicas de estilhaçamento. 
            Para poder compreender a atmosfera social, dentro do claustrum materno foi necessário captar a qualidade do funcionamento psíquico de Tatoo através da contra-transferência . Assim pude observar  a contínua transgressão de regras, não apenas dificuldades em “regrar os gastos”, mas dificuldades em obedecer  as regras do princípio de  sobrevivência; a manipulação afetiva  para fins de controle no meio externo e interno;
No desvelo pela segurança pública, perseguindo os traficantes “fora da lei”; ou, como um zeloso instrutor de mergulho, sempre vigilante, “cuidando” de todos, deixa entrever um splitting severo, onde uma parte da personalidade é deformada, deixando-se  submeter à invasão de outra parte onde os componentes suicida e omicida da pulsão de morte se apresentavam de maneira dissimulada, disfarçando a gravidade da situação; onde há sedução e conluio entre a parte diligente, responsável e outra onde reina o masoquismo-perverso, com o perigo de deixar -se morrer sob pretexto de uma falsa-reparação de possíveis danos causados a terceiros. Estou me referindo à situação em que ele mergulha, sem o equipamento necessário e sofre um baro-trauma, depois de um episódio de mergulho recreativo, onde põe em perigo a vida de dois amigos e a sua.
  A transposição dos sintomas de Tattoo na forma de um sonho contra-tranferencial  meu, com a operação de colmatar, pode ser elucidativo.     Colmatar é definido como preencher vazios, lacunas ou brechas; Fazer colmatagem em terreno significa aterrar, entulhar. Um deposito ou sobreposição de terras. Por outro lado colmatar significa também  a operação de guiar águas ricas em detritos minerais e orgânicos para bacias ou planícies baixas e pantanosas, aumentando-lhes assim a fertilidade. Seria auspicioso pensar que  os “rios”colmatados nessa terra pantanosa, poderiam aumentar a fertilidade do solo psíquico.  
                        Abstracts
In this paper I tried to establish a link between  Bion’s (1963) concept of container-contained and Meltzer’s (1992) theory of the Claustrum , where he extends Melanie Klein’s model of the mind to explore the phenomenology of intrusive identification, operating at the level of unconscious phantasies, in a specific application to the perversions and addictions. Through clinical vignettes from a patient who tattoos himself,  I will try to show the projective intrusive attacks not only to his skin (figurability), but to his self (operativity) and to his thoughts (generativity). 
 
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