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Contos: Uma escala

Enviada por marucia.lima em Thursday, March 31 @ 21:24:43 BRT

Literatura
Uma escala
Marúcia Lima


O que lhe acontecia naquele momento era difícil de expressar. Ficara subitamente sem palavras. Também, palavras pra quê? Dizer o quê, a quem? Bem...talvez...talvez pudesse comunicar a si própria qualquer coisa...nova...mas...- que coisa!Tentou acender um cigarro, o último, e a chuva o apagou no primeiro trago. Teria sido mais prudente esperar entrar no táxi que a aguardava em frente ao consulado. "Quem está na chuva é pra se molhar" - pensou. Agora não tinha mais cigarro, nem tempo. Tudo água, como no jogo de batalha naval. Fogo era não haver chance de adiamento, isso era mesmo fogo.
A mão apanhou o maço vazio no bolso esquerdo da blusa, na altura do coração, e o amassou de uma só vez até largá-lo sobre o banco do carro. O movimento ia acompanhado de uma longa expiração, misto de impaciência e consolo. Ah! Precisava voltar àquelas aulas de ioga que lhe tinham feito tanto bem! Naqueles tempos - fora logo que o pai morreu - treinava respirar lentamente, conferindo o efeito do ar no corpo, expandindo e depois contraindo o diafragma: um, dois, três...contava em silêncio. Sempre o mais difícil era chegar até o final - dez. O fôlego teimava em acabar bem antes, lá pelo sete: a barriga murcha, esvaziada. Justo ela, habituada ao canto!Mas andava tão melancólica, então! Saía da aula, no entanto, com uma enorme vontade de abraçar a todos e a tudo, abraçar o mundo!...Isso também durava pouco, é verdade...
A verdade é que sempre fora assim: esse ser em desacerto com o tempo, o trânsito, o ir-e-vir das escolhas. E sentiu gelar a cabeça: era preciso decidir. O avião partia no dia seguinte pela manhã com destino a Praga. Pegar ou largar. Ela sabia que largaria, porque não lhe restava saída: o que não tem remédio, remediado...não está? Como poderia descer de um avião numa cidade completamente desconhecida, tomar um táxi, ir a um hotel? Isso sem falar a língua! Não teria meios de enfrentar uma solidão tamanha. E sem contar... Levou novamente a mão ao bolso esquerdo, vazio, em seguida ao direito – como quem se benze – até se dar conta outra vez de que não tinha mais cigarros. A mão deslizando pelo corpo sentiu o mamilo do seio arrepiar-se à sua passagem. Era tão sozinha! Se ao menos houvesse alguém para acompanhá-la!
Ao dobrar a esquina da rua, outra vez lhe ocorreu que seu pai não estaria mais lá, quando chegasse em casa. "Sem pai, nem mãe no mundo..."- disse baixinho a si mesma. E essa tia morta - louca - de quem lhe vinha agora uma inesperada herança, como seria sua história? A carta do consulado não fazia alusão à causa mortis... Certamente já era velha. Pelo que lhe dissera uma vez seu pai, devia estar há uns trinta anos recolhida ao asilo, desde os tempos da Tchecoslováquia. Como alguém pode durar tanto em reclusão? E na insanidade? Repetiu para si que, além de tudo, não alimentava a menor curiosidade sobre Praga - esse lugar onde nascera e de onde viera com os pais ainda criança. Pelo contrário, sentia-se aflita diante do abandono com que a cidade lhe acenava: a certeza de se reconhecer inapelavelmente só, no último ramo solitário de uma genealogia familiar. E, ainda, sentia medo do que a esperava, do que lhe poderia trazer uma herança que desconhecia e que nada fizera para merecer.
O motorista teria dito alguma coisa?! Ah! Tinham chegado! O rosto colado à janela voltou-se para o interior do carro, olhos no taxímetro, mão na bolsa. – "Boa tarde", disse, estendendo ao homem o dinheiro e já saindo do automóvel. Pela calçada, até o portão do velho bangalô, protestava para si mesma: "boa tarde, o que é isso, senão mais uma cordialidade hipócrita!" Formalidades. Se ousasse dirigir, por certo estaria livre dessas convenções, entregue a um silêncio indivisível, intocável...Entretanto, não valia a pena considerar novamente essa questão: não tinha fleuma para o trânsito, sabia-o bem. Sinal vermelho, amarelo, controle de embreagem...decididamente...não! Teria ganas de matar, à primeira buzina ouvida, ou simplesmente se deixaria bater e até morrer, distraída, boquiaberta, parada em algum cruzamento, procurando estrelas sobre os arranha-céus da cidade!
Os respingos de chuva na cambraia bege da blusa tinham deixado manchas num tom mais escuro, próximo do tom da calça de linho cinza. O cinza molhado, porém, parecia preto. Bege...cinza...duas neutralidades, pensou, e se riu da fantasia: logo ela, tão intensa, nem um pouco dada a branduras...Estava mais para o vermelho e o negro!
Chegar em casa tinha ficado esquisito, ultimamente - depois que passou a viver sozinha. Havia cheiro de naftalina no ar, impregnando os cômodos. Pudera! Ninguém mais para abrir portas e janelas durante sua ausência. Deteve-se diante da foto do pai sobre a cômoda: observou o jeito concentrado, lápis atrás da orelha, cortando a madeira no atelier de marcenaria. Ria pouco, ele. Tinha uma tenacidade de árvore. – "Pai, pai...papai..."- repetiu em voz baixa, em tom ligeiramente crescente, como quem ensaia um ritual de magia, numa aposta de que as palavras pudessem carregar o ambiente com a presença daquele homem. Ao contrário, porém, o silêncio se expandiu. Respirou fundo e soltou o ar de uma só vez, anunciando às paredes, aos próprios ouvidos, o tédio de sua orfandade. Como seria se sua mãe estivesse viva? Talvez não se suportassem, disputassem...melhor assim - não a ter conhecido era como nem sentir sua falta ! Escapou da guerra na Europa para vir morrer aqui, de febre tifóide, bem na chegada. Que destino! E o pai nunca mais se casara: criou a filha sozinho.
Há pessoas que se lembram de fatos tão remotos, guardam lembranças tão antigas! Ela, não: completou dois anos na data do desembarque. Sequer conseguia recordar-se do navio que os trouxe, a pequena família. Da infância, as lembranças se reduziam a ser transportada, carregada no colo do pai, por lugares indistintamente vagos . Um chapéu escuro sempre perto de seu rosto, o mundo sacudindo por detrás dos ombros daquele corpo alto e magro. Deu de ombros para esses pensamentos e os olhos se encheram subitamente de uma água quase mineral...Lágrimas de nada, de só haver o vazio. Tudo era tão esmaecido em suas lembranças, seus laços de afeto, quanto aqueles tons do linho seco que a vestia: bege, cinza, cinza, bege.
O avião sairia na manhã seguinte - cedo - às oito e quarenta. Um vôo com escala em Paris. Bastaria preparar a mala. O passaporte pronto, com o visto, que acabara de receber na chancelaria, coubera na medida do bolso interno de seu casaco de chuva. Pôs-se então a reprisar a história que contava a si mesma quase diariamente, há mais de um mês - desde quando ouviu o comunicado oficial: havia uma herança a receber, com o falecimento da única irmã de seu pai, na cidade de Praga, do outro lado do oceano. Não devia ser muita coisa, mas não era propriamente isso que a desanimava. Era medo da cidade, nem falava o idioma. De fato compreendia umas poucas palavras, à força de escutar o pai proferí-las como derradeiro lastro da verdade, em histórias que ele costumava contar nos dias em que – agora ela bem podia compreender – batia-lhe a saudade.
Desta vez, foi mais longe em suas especulações: ruas, prédios, sobrados e avenidas de Praga lhe falariam de um pai que ela não podia imaginar, que a rigor nem conheceu, pois conservavam dele experiências de que não compartilhou – de quando nem sequer era nascida! A cidade guardaria todos esses silêncios e memórias, em todas as esquinas, cafés, metrôs... Estava assim, perdida de si, parada na frente do fogão, esperando apitar a chaleira – o olhar vazio, atraído pelo vulto de uma bicicleta em movimento que divisava através da cortina, do lado de fora, na rua. De repente, atinou para o que se passava: o guarda-noturno, era ele na bicicleta! E correu em direção à porta da sala, com a intenção de chamá-lo e entregar-lhe o pagamento do mês. Não gostava de dever a ninguém!
O tapete em frente ao sofá, porém, deslizou sob a pressão de seu pé em movimento, fazendo uma dobra onde o outro pé veio tropeçar: ei-la ao chão, estatelada, depois de um fracassado ensaio de resistência. Um tombo estrondoso, que terminou em cotovelos apoiados em ângulo, mãos espalmadas, os ombros erguidos, mal protegendo a cabeça de ir ao solo. Assim caída, sentiu as pontas dos dedos ardendo, o peito ofegante do susto e percorreu o ambiente com um rápido movimento de olhos, aferindo o estrago. Apenas o relógio e o abajur da mesinha lateral do sofá tinham caído. A cúpula de vidro do abajur estava estilhaçada. Olhou com mais calma para o corpo, certificando-se de seu estado. O sapato se soltara do pé esquerdo, e fora projetado para debaixo da poltrona. Havia um largo arranhão no antebraço, fruto do esbarrão na velha cristaleira.
A chaleira começou a apitar, a água fervia. Agora o guarda noturno possivelmente já teria alcançado a esquina, o que adiava mais uma vez seu pagamento para...o dia seguinte!? Seria isso mesmo? Estaria ela novamente ali, amanhã, no mesmo horário, a aguardá-lo? Deixou-se deitar lentamente no chão, até sentir o contato frio da cerâmica com todo o seu corpo quente da queda. Experimentava um frisson, uma espécie de volúpia diante do inusitado da situação. Um prazer quase infantil em estar ali, olhar o mundo a partir daquele lugar. Dali, daquele ângulo, tudo parecia paradoxalmente mais próximo, mais real. Olhou o jardim e a chuva pela vidraça da janela, as manchas amareladas do tempo no teto, e, por baixo da mesa, riu-se de ver pregado no tampo - devia fazer anos! - um velho e cinzento chiclete.
Quem? Algum aluno dos sábados, de teoria musical - naturalmente escondido... durante os exercícios de solfejo...Será que a temiam, eles? Os alunos a temiam? Nunca tinha formulado essa questão para si mesma deitada em meio àquela desarrumação, de pernas abertas, com um pé descalço e um braço esfolado, não lhe parecia plausível que alguém a temesse. Risível mulher cinzenta. Risíveis solfejos e chicletes. Medos velhos e cinzentos.
A chaleira não parava de apitar. Como a vida! - pensou. Levantou-se de um salto, e, esquivando-se dos cacos de vidro espalhados no chão, correu descalça até a cozinha para desligar o gás. Subiu em seguida ao quarto. Do alto do armário, em frente à escada, sacou a pequena mala, que atirou sobre a cama. O guarda-noturno iria esperar: havia uma escala em Paris, uma herança em Praga...memórias a viver...

 
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