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O OLHAR NOS FILMES

Enviada por lfgallego em Monday, April 18 @ 20:30:11 BRT

Trabalhos

O OLHAR NOS FILMES 1

Luiz Fernando Gallego, Jansy B. Souza Mello e Marcos Florião


Se uma imagem vale mais do que mil palavras, tentem dizer isto sem palavras.

MillorFernandes



O OLHAR NOS FILMES

INTRODUÇÃO

Na verdade, as imagens nos provocam, chamam nossa voz, nos convidam a falar sobre elas: representação de coisa, visual; representação de palavra, verbal – linguagens complementares.

Como lembra Marcelo Backes, o cinema abriu novos modos de percepção e novas estratégias de visualização dos quais os textos literários também passaram a se utilizar. Textos escritos e filmes não entram em competição, mas, sim, convergem, tornando a intermidialidade um marco da contemporaneidade.

Diferentemente da pintura e da fotografia - que são estáticas – o filme é imagem em movimento e com isto seu senso estético foi, a priori, deslocado mais para o âmbito da percepção imediata do que para a reconstrução reflexiva da narrativa.

Kafka chegou a dizer que o Cinema disturbava o ato de ver: “a velocidade dos movimentos e a mudança rápida das imagens nos obrigam a um constante DEIXAR DE VER, a um constante NÃO VER, já que no cinema não é o olhar que se apropria das imagens, mas são as imagens que se apropriam do olhar”.2

Se o cinema primitivo – como, por exemplo, o dos Irmãos Lumière - usava o registro em película como instrumento de observação dos processos de movimento, Sergei Eisenstein vai colocar o filme na tradição dos princípios estéticos da pintura; e o cinema expressionista alemão, mais do que um cinema do MOSTRAR era um cinema do NARRAR, com ênfase na criação da ilusão.

A fusão do MOSTRAR com o NARRAR se cristalizou na linguagem fílmica que se baseia na suspensão da descrença, na abolição do tempo e espaço reais e refaz mecanismos psíquicos como a ASSOCIAÇÃO (através da montagem), a MEMÓRIA (através dos flash-backs) e a fixação da atenção (através da focalização).

I. Esta focalização da atenção visual é o que aproxima o ato de ver filmes do prazer escopofílico ou voyeurista, que, além do aspecto sexual, pode estar associado ao impulso epistemofílico - que, por sua vez pode agregar possíveis fantasias de dominação pelo olhar - e pelo poder de um suposto saber advindo do ato de ver – ato que freqüentemente associamos à propriedade de “conhecer”.

Muitos filmes já refletiram sobre o voyeurismo do espectador como perversão sexual ou como ato de incorporação através do olhar que tudo quer ver/saber - e possuir como saber (que permitiria dominar). O tema é recorrente em clássicos como “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, e em filmes cultuados mas menos acessíveis como “Peeping Tom” (títulos em português encontrados: “A Tortura do Medo” aka “Mórbida Curiosidade”), de Michael Powell - que mereceu um pioneiro estudo psicanalítico no Brasil por Maria Manhães. Filmes de terror trash como “Terror na Ópera”, de Dario Argento, ou irônicos como “Os Olhos da Cidade são Meus”, de Bigas Luna, já puniram os voyeurs. Pasolini os execrou ao destacar o componente sádico - que pode estar associado ao voyeurismo - em “Saló ou 120 dias de Sodoma”, em cuja cena final o espectador vê um dos sádicos assistir às torturas e assassinatos das vítimas através de uma janela, com binóculos, agredindo, assim, o público que havia tomado sua “trilogia da vida” (“Decameron”, “Cantebury Tales” e “Flores das 1.001 Noites”) como filmes pornográficos feitos para excitação masturbatória.

Certamente dezenas - ou centenas - de outros filmes podem ser lembrados, não podendo deixar de ser mencionado o sublime “Não Amarás” de Kieslowski, parte da série “O Decálogo”, onde a cada um dos dez mandamentos correspondia uma história livremente desenvolvida a partir de episódios levados à justiça polonesa e recolhidos por um advogado que era co-roteirista de Kielslowski. Neste filme, um jovem espiona a distância uma mulher mais velha.

II. Mas vou me centrar e me limitar de agora em diante em um filme bem recente e que tem o sugestivo título original de “CLOSER” (Mais Perto) e o questionado, porém sugestivo título brasileiro “Perto Demais” i (ver sinopse no apêndice, no final) – um filme de voyeurs para voyeurs: numa definição irreverente, o primeiro “filme de sacanagem” sem uma cena de cama – exceto quando nos mostra o casal do médico dermatologista adormecido com a esposa, a fotógrafa, acordada e com volumosa barriga de grávida sob as cobertas.

E neste ponto retomamos a queixa de Kafka: quantas pessoas perceberam que a personagem interpretada por Julia Roberts está grávida em sua última aparição no filme? E mais: quantos se deram conta que a autodenominada Alice atravessa a rua com o sinal de pedestre fechado na derradeira imagem do filme? Perguntei a vários conhecidos e a grande maioria NÃO VIU, DEIXOU DE VER estes componentes da imagem enquanto escutava a reiterada frase da canção que abre e fecha o filme, “I can’t take my eyes off you”. Houve também quem não percebesse o nome de Alice no passaporte: era mesmo Jane Jones como ela respondera ao médico na cena da suíte do club de strippers.

Vemos menos do que supomos. O manifesto veicula tanto quanto vela o latente que só se deixa apreender em espasmos fragmentários. A narrativa é elíptica, com dez cenas se sucedendo de forma tal que, entre uma e outra, podem ter se passado um ano, quatro meses ou um dia; em 100 minutos de sessão de cinema (o tempo de duas sessões analíticas clássicas) os personagens atravessam quatro anos de suas vidas impulsionadas - ou travadas - por perguntas sobre o que sucedeu “de verdade” aos outros... Verdade que tentam desvelar a qualquer preço sob as mais variadas desculpas: seria o que nos distingue dos animais (?); é “o que combinamos”; é pelo que agradecemos; “é porque eu te amo”; “você deve confiar em mim”, etc. ..

Em nome deste conhecimento que desnuda o outro mais do que um strip-tease de nightclub, fazem “mil perguntas que em vidas que andam juntas ninguém faz” como adverte Chico Buarque na canção “Mil Perdões”; mas se a personagem da música perdoa o outro por traí-lo, Alice não perdoa Dan (o jornalista obituarista e escritor mal-sucedido) quando ele faz este tipo de pergunta em nome da verdade. Já a fotógrafa Anna geme o tempo todo do interrogatório a que é submetida pelo seu então marido, o dermatologista Larry, dizendo que ele não devia perguntar aquele tipo de coisa, perguntando por que ele quer saber aquilo... enquanto responde diligentemente aos detalhes... trazendo uma promiscuidade de informações verbais mais intensa do que no adultério em si mesmo.

Ela fotografa e “toma emprestado” rostos de estranhos para sua exposição cujo tema é exatamente “Strangers”. (All this lonely people, where do they all come from? All this lonely people, where do they all belong?) Belong= pertencimento que faz existir.

Alice critica sarcasticamente o embelezamento estético da dor alheia - incluindo suas próprias lágrimas fotografadas por Anna; tal embelezamento da solidão não passaria de uma mentira estetizada da qual o público gosta.

Por outro lado, a condição de estranho amoroso excita enquanto o caráter de novidade for mantido. A primeira frase ouvida neste filme é “Hello, Stranger!”, dita por Alice, recém-atropelada, no chão, onde Dan a socorre e a quem Alice dá a mão... enquanto Dan se apropria dela (o motorista do táxi no qual ele a leva ao hospital pergunta se ela é dele e ele responde “Yes, she’s mine!”). Larry e Anna repetem a saudação “Hello, Stranger!” no vernissage dela - talvez estivesse no romance que Dan escreveu sobre a vida de Alice. Dan só conseguiu escrever este livro como transcrição do que Alice lhe contou sobre sua vida e profissão de “stripper”. Mas quando Larry, no mesmo vernissage pergunta a Alice o que é que ficou de fora do livro, Alice responde: “A verdade”.

Larry, dermatologista – especialidade que depende muito do olhar experiente do profissional – se julga um observador clínico do circo humano.

Alguém teria que atender a tantos desejos fundados no olhar – do médico, da fotógrafa, do escritor/obituarista – e Alice se oferece como objeto de desejo a ser admirado e desprezado, principalmente por Dan depois que ela teria servido de modelo “um por um” para o livro; mas também por Anna quando a fotografa, garantindo que não é ladra de homens; e não menos ainda por Larry quando a cobre de libras para despir-se fisicamente e nominalmente no nightclub.

Mas Alice é um paradoxo ambulante: a exibicionista que não declina seu nome real na vida fora do “aquário” que é o club. E lá diz o seu verdadeiro nome quando (sabe que) não se acreditará nela. Seu nome-para-Dan foi roubado de um memorial, num relance de olhar: a stripper chamada Alice nunca existiu, é uma ficção de Dan ou feita por ela-para-Dan. Alice não morará mais ali. Nunca morou. E há outras falsas identidades: Dan também não era Dan na internet, mas se apresentava como "Anna"; e a "Anna" que o médico ia encontrar não era a fotógrafa Anna... mas acabou sendo. Na trilha musical também se escuta, na cena do diálogo pela internet, a abertura da ópera de Rossini “La Cenerentola”, versão menos fantástica da “Cinderela” – que de certa forma também aborda uma simulação da moça serviçal indo ao baile como uma dama.

III.O obituarista Dan espiona a vida dos mortos quando ainda estão vivos. A fotógrafa olha aquários cujas paredes de vidro permitem a transparência da visão ao mesmo tempo em que isolam um ambiente aquático do nosso meio oxigenado. Alice dança em “aquários” onde paredes invisíveis evitam o toque físico.

A excessiva exposição de uns e de outros os deixa “perto demais”; e de muito perto não se vê nada direito, tal como Bergman já sugerira muitos anos antes em seu filme “A Hora do Lobo”3. Dan quer se apropriar de Alice enquanto quer que Anna o olhe além do diafragma da maquina de retrato que fotografa seu primeiro beijo. Anna sucumbe ao assédio visual dele que fica espionando a janela do estúdio onde ela trabalha e vê quando ela procura o olhar dele nas horas em que ele se esconde e se coloca dissimuladamente fora do alcance do olhar dela.

Versão de um texto teatral, o filme se constrói a partir de grandes tomadas em close dos rostos dos atores, fazendo-nos ver manchinhas na pele de Julia Roberts, seqüelas de acne no rosto de Clive Owen, poros no rosto de Jude Law... Ao mesmo tempo, mal se deixam ver: o filme exige que o espectador seja um voyeur voraz e atento, que veja até mesmo o que não se passa em cena, que atente para os diálogos rápidos e cortantes, cheios de alusões ao olhar. Bem no início, enquanto limpa os óculos de Dan, Alice lhe responde a profissão, “stripper” – e ao perceber a surpresa dele, comenta: “olhe esse olhar”; ao que ele responde “não posso ver meu olhar”. Falta-lhe um espelho ou uma máquina de retratos. Perto do final, Larry tripudia sobre Dan, dizendo o que Anna lhe conta sobre a intimidade que tiveram: Dan, à noite, acorda em pesadelos chamando “mamãe”... e faz sexo de olhos bem fechados...

A quantidade de informações é enorme para ser processada em uma única visada do filme e não adianta não retirar os olhos da tela ou das personagens: Alice, I can’t take my eyes off you, Jane Jones. Ela tem o atrativo da beleza jovem e da disponibilidade que pode parecer “zen” mas é auZENte: sua demanda é ser vista de um modo que possa ser “descoberta” além do corpo e naquilo que nem ela sabe o que é. Falta-lhe, talvez, o que Anzieu chama de “eu-pele”, ou talvez, um “envelope de pele” que o dermatologista será o primeiro a tentar demarcar: ele percebe que ela não que ser vista por ele, Larry, mas sim por Dan. E, de certa forma, ele a devolve, retribuindo o encaminhamento que recebera de Anna a partir do trote na internet.

Mas por que Alice deseja tanto o olhar de Dan? Ele seria o selfobjeto especular que ela elegeu: sem esqueleto sob a pele sem pele, ela se expressa pela queda/tombo/atropelamentos. Ao encontrar o olhar de Dan sobre ela, caída no asfalto, com o interesse sexual suspenso pela ameaça de morte, Dan é tomado como “mamãe ganso” – aquele objeto primeiro que o patinho toma como se fosse a mãe apenas por vê-lo passar por perto (close) primeiro. Ela esperava que ele a enxergasse e a nomeasse, lhe desse um nome próprio. Ele, cego, ocupado demais em tentar ser artista-escritor, não lhe dá nada em troca. Quando ela percebe que seu pedido de socorro real não vai ser atendido (Isn’t love enough?) o des-ama uma vez por todas. Ele deixou de existir para ela tal como ela nunca existira de fato para ele, eterno adolescente (Anna já perguntara se ele ainda está com 12 anos), bonitinho e sedutor que passa de um objeto de desejo para outro.

IV.A visão pode se constituir em uma fantasia de “tato à distância”, mas nunca tocamos, nem com a pele do olho nem com a pele do corpo: há um mistério nos interstícios e nos intervalos... Alice só sabia curtir ser vista e supor que fantasiavam com ela – suposta defesa contra a solidão e desamparo4 que não conseguia preencher por falta de recursos internos. Muita fantasia erótica que busca parceiro na internet reflete esse “vazio de fantasia social”, de ideologia, de partilhar uma causa. A interdição de Alice ao toque físico e ao nome do passaporte seria o equivalente a: “Fale e olhe, mas não me toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, somos marionetes de nossos discursos”.

Diz Heidegger: “Que um ser seja capaz de enganar como aparência é condição para sermos enganados, não o inverso”. Pensando nisto, devemos levar em conta o conceito de simulacro de Baudrillard ampliado à própria realidade que hoje em dia não passa de arremedo - embora, tal como o sintoma psicossomático, faça o máximo para encobrir os sinais. Banidas da realidade, as verdades só podem encontrar sua segunda morada exiladas nas obras de arte.

E que verdades o filme “Closer” pode nos revelar? A mais importante se refere exatamente ao abuso do conceito moral de “falar a verdade” que, na verdade, encobre o voyeurismo perverso. Como já foi dito quando, nas atividades de Psicanálise & Cinema da SBPRJ, discutimos um filme5 sobre uma calúnia infantil que destruía a vida de duas professoras, não existe apenas o poder destruidor da mentira, mas também o poder destruidor das verdades que invadem o terreno da privacidade do outro. Não é possível chegar “ainda mais perto”, still closer, ir além de um limite que é o limite do indizível, equivalente ao ponto cego do globo ocular que não vê tudo, tal como um periscópio que tudo vê no mar em volta, mas não enxerga a si próprio saindo das águas. Nós também só nos vemos através do outro num campo intersubjetivo que propicie o reconhecimento na alteridade, longe do olhar narcísico que, tal como no mito, não permite o auto-conhecimento.

Se Kafka nos advertiu sobre o “não-visto” na ilusão fílmica, podemos, analogamente, nos sensibilizarmos para tentar apreender o não-dito do que é dito, seja nos textos literários, seja nas cenas dos filmes ou peças teatrais, seja mesmo nas pausas musicais, e – tentar chegar mais perto - sem nos diluirmos ficando perto demais - das entrelinhas dos discursos sociais e dos nossos analisandos. E – por que não? - do nosso próprio texto introspectivo que terá que lidar com os pontos cegos, pautas inconscientes e com o incognoscível. Não nos contentarmos com o que é mostrado nem com o que é narrado - e nem mesmo com a mescla destas exposições em seus cortes transversais (o que é mostrado em um momento) e longitudinais (o que é narrado ao longo de um tempo). Mais do que isto, o que importa é o significado que se possa depreender do exposto. E tais significados não advêm apenas do olhar, mas do nexo ideo-afetivo: a palavra conforme o pensamento e o pensamento conforme o sentimento.


1 Apresentado na mesa-redonda de lançamento da Revista TRIEB, número especial dedicado a Psicanálise & Cinema, 12/04/2005. Este texto foi composto (“editado”) por Luiz Fernando Gallego a partir de troca de idéias, principalmente entre os três nomes citadas como autores no site aetern.us. A discussão corresponde a 84 páginas impressas, resumidas em 21 e cuja responsabilidade de redação final em 6 páginas é de L.F.Gallego, embora algumas das melhores contribuições sejam dos co-autores. A introdução, com a citação de Kafka é baseada em idéias de Marcelo Backes nas páginas 16 e 17 da “Nota à Edição” do livro “Escombros e Caprichos – O melhor do conto alemão no século 20”, org. Rolf G. Renner e Marcelo Backes, Editora LPM, Porto Alegre, 2004.

2Não sei se Kafka sabia que o cinema se baseia na ilusão de ótica de vermos 24 imagens seqüenciais por segundo, algo acima da capacidade de resolução do olho humano, o que nos dá a ilusão de movimentos contínuos sem interrupção – que ainda se observa em antigos filmes mudos (comentário de L.F. Gallego).

3 A mulher de um pintor que via homens-pássaros canibais e recém-desaparecido se pergunta se estivera distante demais e por isso não pode ajudá-lo; ou se se envolveu tanto com o marido a ponto de acreditar nas alucinações e não pôde protege-lo delas. A personagem diz: “Eu imaginava que estava tão perto dele...” (Ed. Nórdica, 1977, pág. 109: “Gritos e Sussurros, A Hora do Lobo, A Hora do Amor” – roteiros de Ingmar Bergman).

4 Ela usa estes termos ao comentar os fotografados por Anna.

5 “Infâmia”, versão de 1962, de William Wyler baseado em peça Children’s Hour, de Lillian Hellmann.

i APÊNDICE


SINOPSE: Cena 1. “Hello, Stranger”

Ao som de “The Blower’s Daughter”, canção de Damien Rice cujo refrão repete insistentemente “I can’t take my eyes off you”, vemos uma bela jovem (Natalie Portman) caminhando entre a multidão de uma rua em Londres. Do outro lado da calçada, Dan (Jude Law) a olha. Ela parece perceber estar sendo olhada intensamente. Ao atravessar a rua, ela é atropelada, o que ficará atribuído à “mão inglesa” com a qual ela não estaria habituada: é americana e desembarcou em Londres sem bagagem nem sem ter onde ficar. Responderá evasivamente para Dan que fugia de “uma espécie de namorado”. Em outro momento deste diálogo ela dirá que encerra relacionamentos dizendo “Eu não te amo mais, adeus”.

Passam por uma praça com uma espécie de memorial a pessoas que faleceram salvando outras pessoas. Isto, depois de ele a ter levado a um hospital. Acompanhamos o conhecimento mútuo inicial dos dois. Onde ele trabalha: obituarista de um jornal, muitas vezes escreve sobre pessoas ainda vivas, enquanto tenta ser escritor, mas diz que não tem “voz” como autor ficcionista. Parou de fumar. Ela fuma, não come peixe e é stripper, o que o deixa perplexo. Ela estava limpando os óculos dele e comenta quando ela diz sua profissão: “olhe este olhar”. Ele responde: “Não posso ver meu olhar”.

A primeira frase que se escutou neste filme foi - quando ela, ainda caída no asfalto, desperta de um rápido desmaio e o vê, preocupado, ajoelhado ao lado dela – “Hello, Stranger.” Quando este segmento do filme se encerra ela já se apresentou: “Alice Ayres”.

Cena 2 – Vidas roubadas - ou emprestadas?

Dan está posando para uma fotógrafa profissional, Anna (Julia Roberts). Fotos para a capa de seu livro, inspirado na vida de Alice. O som de Anna reproduz o famoso tercetto “Soave sía il Vento” da ópera “Cosi fan Tutte” (Assim fazem todas), de Mozart. Ele voltou a fumar, Anna não fuma. Ela leu provas do livro e gostou – a não ser do título (que nunca saberemos qual era). Sugere “O Aquário”, o que o leva a deduzir que ela gostou das passagens do livro “com sacanagens”.

Estabelece-se um paralelo: ela o acusa de ter “roubado” a vida de Alice para construir a heroína do livro. Ele diz que não roubou, tomou emprestado. Ele a acusa da mesma coisa por estar fotografando rostos de estranhos. Pergunta se é um estranho para ela. Ela diz que é “um trabalho”.

Anna fotografa em aquários, acha peixes “terapêuticos”.

Ele quer beijá-la, ela diz que não beija estranhos, mas se beijam sensualmente. Ela se afasta quando ele lhe responde que vive com a moça que retratou em seu romance. Pergunta a ele por que empata a vida dela (já está claro que ele não está tão comprometido com Alice). Ele diz que Alice e “inabandonável”.

Alice chega e pede para ser fotografada. Enquanto vai ao banheiro Dan insiste em marcar um encontro com Anna; alega que se beijaram. Ela ironiza: “Que idade você tem? Doze?”.

Anna conversa com Alice, perguntando o que faz: “Garçonete”. “É provisório?” “Não”.

Em outro momento: “Não se importa de Dan ter usado sua vida no livro?”. “Isso não lhe diz respeito.”

Alice conta que escutou a conversa com Dan. Anna tenta se desculpar, mas Alice insiste apenas: “Tire as fotos!” – está chorando.

Cena 3 – Sexo virtual

Ao som da abertura da ópera “La Cenerentola” (versão de Rossini para a “Cinderela” – que de certa forma aborda uma simulação da moça serviçal indo ao baile como uma dama), assistimos a um jogo de sedução pela internet de Larry (Clive Owen), médico dermatologista por uma suposta “Anna” que é Dan, escrevendo como se fosse uma mulher interessada num encontro sexual. O diálogo é pornográfico e se encerra com um encontro para o dia seguinte no Aquário. Larry deve ir de jaleco.

Cena 4 – No Aquário

A fotógrafa, a Anna real, está de fato no aquário, sentada, indiferente; e Larry se aproxima dela, dizendo que está de jaleco. O mal-entendido é desfeito. Anna deduz que foi Dan quem armou o trote para Larry (e para ela, de uma certa forma). Repete-se um diálogo sobre peixes: Larry enfatiza a origem humana, aquática – por isso os peixes lhe mereceriam “respeito”. Compra um balão em forma de peixe para Anna.

Cena 5- A exposição

Em casa de Dan, Alice pede que a deixe ir com ele numa viagem, depois da inauguração da exposição de fotos de Anna: “Por que não me deixa te amar?”

Já na vernissage, Larry e Alice conversam em frente à bela foto de Alice chorando. Alice diz que são fotos de pessoas estranhas e tristes belamente fotografadas, o que as faz parecerem belas e o publico “adora uma grande mentira”. Larry comenta que namora Anna há quatro meses, estão “no auge”: “Ela adora todos os meus maus hábitos”. Larry parou de fumar. Larry pergunta se o livro de Dan é sobre a vida dela, Alice. Ela diz que “em parte”. O que ele omitiu? – pergunta Larry. “A verdade”.

Enquanto isso Dan fica sabendo por Anna que Larry é o parceiro de Internet em quem ele passara um trote fingindo-se de uma Anna sexualmente promíscua. Anna diz que eles o chamam de “Cupido” por tê-los aproximado.

Anna e Larry conversam: Larry diz que Dan é “pretty”. Anna nega que tenha contado a Dan o apelido que usam entre eles sobre Dan (“Cupido”). Larry diz que ele parece mais alto do que na foto do livro. Mas que o derrubaria numa briga. O livro de Dan fracassou. Larry comenta que ainda existe justiça neste mundo.

Dan coloca Alice em um táxi e volta para insistir com Anna. Pelo que dialogam entendemos que Dan a espiona e ela vê que ele a espiona. Quando ele não está visível, meio escondido ou mais distante, a vê psocurando o olhar dele na direção dela. Dan a desafia: que diga, olhando para ele que não o ama.Ela diz. Ele diz que ela mente: “Sou o seu ‘estranho’, mergulhe!”

Ao voltar para perto de Larry surge a expressão “Hello, Stranger!”. Anna dissimula para Larry o que conversou com Dan. Larry se diz um observador clínico telescópico do ser humano. Anna diz algo pejorativo e agressivo sobre a pretensão dele e depois se desculpa.

Cena 6 – Separações

Anna espera Larry chegar de um congresso em Nova Iorque. Está tensa.

Alice espera Dan chegar, dormindo em um sofá na sala. Ele alega que saiu com um tal “Harry” para conversarem. Alice diz: “Harry is in love with you”. Dan consegue contar que vai deixar Alice e viver com Anna. Alega que Anna não precisa dele como Alice depende dele. Diz que sente muito. Alice diz que isso é irrelevante. Está magoada e desesperada, pergunta se pode continuar a vê-lo. Ele nega dizendo que se a ver não conseguirá se afastar dela. Alice diz que está errado, é ela que sempre abandona. Pede um chá e enquanto ele prepara, ela desaparece sem levar nada.

Enquanto isso, Larry pergunta a Anna por que vai deixá-lo por Dan, indagando intimidades sexuais. Anna se lamenta, mas responde. Pergunta por que ele está querendo saber essas coisas, mas responde. Responde cruamente sobre preferências sexuais. Ele agradece “pela verdade”. Diz que pergunta essas coisas porque é “um troglodita”.

Cena 7 – Suíte Paraíso

Num night-club de stippers Larry encontra Alice que diz se chamar Jane. Ele insiste que ela diga seu nome verdadeiro, quer que ela diga que é Alice e ela responde, a cada nota de libras que ele coloca na liga dela: “Obrigado. Meu nome é Jane. Jane Jones”. Ele pede para vê-la nua, e satisfazer seu “prazer voyeurístico”. Mas não pode tocá-la ou ela chamará os seguranças. São vistos por uma câmera colocada no teto desta “suíte” de encontros particulares onde não pode haver contacto físico. Ele pede que ela afaste a minúscula calcinha para o lado, propõe sexo, ela diz que não é prostituta, ele diz que não pagaria a ela. Ele chora a distância de Anna que não quer vê-lo. Assim como não pode tocar nela, ela diz que também não é permitido chorar naquele lugar.

Cena 8 – Cosi fan tutte?

Dan espera Anna que se atrasou muito para uma récita de ópera: “Cosi fan tutte”. Ela foi pegar a assinatura de Larry para o divórcio. Num flashback vemos que Larry propôs irem ao novo consultório dele e transarem na mesa de exame. Só assim assinaria o papel do divórcio.

Dan desconfia e pergunta. Anna confirma que transou com Larry. Dan reclama “por que tem que ser tão sincera sempre? Falar a verdade sempre?” Ela diz que foi porque haviam combinado não mentir.

Cena 9 – Dan no consultório de Larry

Dan pede pateticamente a Larry que deixe Anna. Larry, triunfante, diz que Anna lhe conta até intimidades sobre Dan, como dorme mal, acorda chorando à noite chamando por mamãe e faz sexo de olhos fechados. Agradece tê-los aproximado pelo trote na internet pelo qual, antes, ele, Larry, queria matar Dan. Dan reage: você queria é me comer. Dan alega que Anna não é feliz com Larry. Este diz que ela é depressiva e precisa ser infeliz. Aconselha que Dan procure Alice de quem Dan não tem pistas. Larry dá o endereço do club onde a encontrou. Diz que não transou com ela. Quando Dan já está saindo, nega. Diz que transaram sim.

Cena 10 – Não te amo mais

Alice e Dan vão sair em viagem escolhida por ela, segredo ainda para ele. Comemoram 4 anos que se conheceram. Quando tudo parece bem, Dan começa a perguntar se ela transou com Larry. Ela diz que não vai responder, que não, ele fala como que sabendo, quer que ela diga. Diz que vai sair e quando voltar conversarão e ela lhe contará. Sai, ao se olhar no espelho do elevador, retorna. Ela diz que não pode falar a verdade e que não quer mentir. Conta que transou com Larry. Ele diz que sabia. Ela diz que não o ama mais, adeus. Ele insiste. Ela diz que vai chamar os seguranças como se estivesse no club de strippers. Ele dá um tapa no rosto dela.

Epílogos

Quando desembarca de volta em NY, vemos o passaporte de Alice onde está escrito que seu nome é Jane Jones.

Dan passa pela praça com memorial e descobre o nome de uma tal Alice Ayres que morreu salvando três crianças de um incêndio.

Larry dorme pesadamente ao lado de Anna com barriga de grávida sob as cobertas e expressão infeliz no rosto.

Alice anda por NY, linda e olhada por diversos homens ao som do mesmo refrão do início. Segue em frente enquanto vemos que o sinal está vermelho para pedestres. Fim.



 
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