 O OLHAR NOS FILMES
Luiz Fernando Gallego, Jansy
B. Souza Mello e Marcos Florião
Se uma imagem vale mais do
que mil palavras, tentem dizer isto sem palavras.
MillorFernandes
O OLHAR NOS FILMES
INTRODUÇÃO
Na
verdade, as imagens nos provocam, chamam nossa voz, nos convidam a
falar sobre elas: representação de coisa, visual;
representação de palavra, verbal – linguagens
complementares.
Como
lembra Marcelo Backes, o cinema abriu novos modos de percepção
e novas estratégias de visualização dos quais os
textos literários também passaram a se utilizar. Textos
escritos e filmes não entram em competição, mas,
sim, convergem, tornando a intermidialidade um marco da
contemporaneidade.
Diferentemente
da pintura e da fotografia - que são estáticas – o
filme é imagem em movimento e com isto seu senso estético
foi, a priori, deslocado mais para o âmbito da percepção
imediata do que para a reconstrução reflexiva da
narrativa.
Kafka
chegou a dizer que o Cinema disturbava o ato de ver: “a
velocidade dos movimentos e a mudança rápida das
imagens nos obrigam a um constante DEIXAR DE VER, a um constante NÃO
VER, já que no cinema não é o olhar que se
apropria das imagens, mas são as imagens que se apropriam do
olhar”.
Se
o cinema primitivo – como, por exemplo, o dos Irmãos Lumière
- usava o registro em película como instrumento de observação
dos processos de movimento, Sergei Eisenstein vai colocar o filme na
tradição dos princípios estéticos da
pintura; e o cinema expressionista alemão, mais do que um
cinema do MOSTRAR era um cinema do NARRAR, com ênfase
na criação da ilusão.
A
fusão do MOSTRAR com o NARRAR se cristalizou na
linguagem fílmica que se baseia na suspensão da
descrença, na abolição do tempo e espaço
reais e refaz mecanismos psíquicos como a ASSOCIAÇÃO
(através da montagem), a MEMÓRIA
(através dos flash-backs) e a fixação
da atenção (através da focalização).
I.
Esta focalização da atenção visual é
o que aproxima o ato de ver filmes do prazer escopofílico ou
voyeurista, que, além do aspecto sexual, pode estar associado
ao impulso epistemofílico - que, por sua vez pode agregar
possíveis fantasias de dominação pelo olhar - e
pelo poder de um suposto saber advindo do ato de ver – ato que
freqüentemente associamos à propriedade de “conhecer”.
Muitos
filmes já refletiram sobre o voyeurismo do espectador como
perversão sexual ou como ato de incorporação
através do olhar que tudo quer ver/saber - e possuir como
saber (que permitiria dominar). O tema é recorrente em
clássicos como “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, e em
filmes cultuados mas menos acessíveis como “Peeping Tom”
(títulos em português encontrados: “A Tortura do Medo”
aka “Mórbida Curiosidade”), de Michael Powell - que
mereceu um pioneiro estudo psicanalítico no Brasil por Maria
Manhães. Filmes de terror trash como “Terror na
Ópera”, de Dario Argento, ou irônicos como “Os Olhos
da Cidade são Meus”, de Bigas Luna, já puniram os
voyeurs. Pasolini os execrou ao destacar o componente sádico -
que pode estar associado ao voyeurismo - em “Saló ou 120
dias de Sodoma”, em cuja cena final o espectador vê um dos
sádicos assistir às torturas e assassinatos das vítimas
através de uma janela, com binóculos, agredindo, assim,
o público que havia tomado sua “trilogia da vida”
(“Decameron”, “Cantebury Tales” e “Flores das 1.001
Noites”) como filmes pornográficos feitos para excitação
masturbatória.
Certamente
dezenas - ou centenas - de outros filmes podem ser lembrados, não
podendo deixar de ser mencionado o sublime “Não Amarás”
de Kieslowski, parte da série “O Decálogo”, onde a
cada um dos dez mandamentos correspondia uma história
livremente desenvolvida a partir de episódios levados à
justiça polonesa e recolhidos por um advogado que era
co-roteirista de Kielslowski. Neste filme, um jovem espiona a
distância uma mulher mais velha.
II.
Mas vou me centrar e me limitar de agora em diante em um filme
bem recente e que tem o sugestivo título original de “CLOSER”
(Mais Perto) e o questionado, porém sugestivo título
brasileiro “Perto Demais” i
(ver sinopse no apêndice, no final) – um filme de voyeurs
para voyeurs: numa definição irreverente, o primeiro
“filme de sacanagem” sem uma cena de cama – exceto quando nos
mostra o casal do médico dermatologista adormecido com a
esposa, a fotógrafa, acordada e com volumosa barriga de
grávida sob as cobertas.
E
neste ponto retomamos a queixa de Kafka: quantas pessoas perceberam
que a personagem interpretada por Julia Roberts está grávida
em sua última aparição no filme? E mais: quantos
se deram conta que a autodenominada Alice atravessa a rua com o sinal
de pedestre fechado na derradeira imagem do filme? Perguntei a vários
conhecidos e a grande maioria NÃO VIU, DEIXOU DE VER estes
componentes da imagem enquanto escutava a reiterada frase da canção
que abre e fecha o filme, “I can’t take my eyes off you”. Houve
também quem não percebesse o nome de Alice no
passaporte: era mesmo Jane Jones como ela respondera ao médico
na cena da suíte do club de strippers.
Vemos
menos do que supomos. O manifesto veicula tanto quanto vela o latente
que só se deixa apreender em espasmos fragmentários. A
narrativa é elíptica, com dez cenas se sucedendo de
forma tal que, entre uma e outra, podem ter se passado um ano, quatro
meses ou um dia; em 100 minutos de sessão de cinema (o tempo
de duas sessões analíticas clássicas) os
personagens atravessam quatro anos de suas vidas impulsionadas - ou
travadas - por perguntas sobre o que sucedeu “de verdade” aos
outros... Verdade que tentam desvelar a qualquer preço sob as
mais variadas desculpas: seria o que nos distingue dos animais (?); é
“o que combinamos”; é pelo que agradecemos; “é
porque eu te amo”; “você deve confiar em mim”, etc. ..
Em
nome deste conhecimento que desnuda o outro mais do que um
strip-tease de nightclub, fazem “mil perguntas que em vidas que
andam juntas ninguém faz” como adverte Chico Buarque na
canção “Mil Perdões”; mas se a personagem da
música perdoa o outro por traí-lo, Alice não
perdoa Dan (o jornalista obituarista e escritor mal-sucedido) quando
ele faz este tipo de pergunta em nome da verdade. Já a
fotógrafa Anna geme o tempo todo do interrogatório a
que é submetida pelo seu então marido, o dermatologista
Larry, dizendo que ele não devia perguntar aquele tipo de
coisa, perguntando por que ele quer saber aquilo... enquanto responde
diligentemente aos detalhes... trazendo uma promiscuidade de
informações verbais mais intensa do que no adultério
em si mesmo.
Ela
fotografa e “toma emprestado” rostos de estranhos para sua
exposição cujo tema é exatamente “Strangers”.
(All this lonely people, where do they all come
from? All this lonely people, where do they all belong?) Belong=
pertencimento que faz existir.
Alice
critica sarcasticamente o embelezamento estético da dor alheia
- incluindo suas próprias lágrimas fotografadas por
Anna; tal embelezamento da solidão não passaria de uma
mentira estetizada da qual o público gosta.
Por
outro lado, a condição de estranho amoroso excita
enquanto o caráter de novidade for mantido. A primeira frase
ouvida neste filme é “Hello, Stranger!”, dita por Alice,
recém-atropelada, no chão, onde Dan a socorre e a quem
Alice dá a mão... enquanto Dan se apropria dela (o
motorista do táxi no qual ele a leva ao hospital pergunta se
ela é dele e ele responde “Yes, she’s mine!”). Larry e
Anna repetem a saudação “Hello, Stranger!” no
vernissage dela - talvez estivesse no romance que Dan escreveu sobre
a vida de Alice. Dan só conseguiu escrever este livro como
transcrição do que Alice lhe contou sobre sua vida e
profissão de “stripper”. Mas quando Larry, no mesmo
vernissage pergunta a Alice o que é que ficou de fora do
livro, Alice responde: “A verdade”.
Larry,
dermatologista – especialidade que depende muito do olhar
experiente do profissional – se julga um observador clínico
do circo humano.
Alguém
teria que atender a tantos desejos fundados no olhar – do médico,
da fotógrafa, do escritor/obituarista – e Alice se oferece
como objeto de desejo a ser admirado e desprezado, principalmente por
Dan depois que ela teria servido de modelo “um por um” para o
livro; mas também por Anna quando a fotografa, garantindo que
não é ladra de homens; e não menos ainda por
Larry quando a cobre de libras para despir-se fisicamente e
nominalmente no nightclub.
Mas
Alice é um paradoxo ambulante: a exibicionista que não
declina seu nome real na vida fora do “aquário” que é
o club. E lá diz o seu verdadeiro nome quando (sabe que) não
se acreditará nela. Seu nome-para-Dan foi roubado de um
memorial, num relance de olhar: a stripper chamada Alice nunca
existiu, é uma ficção de Dan ou feita por
ela-para-Dan. Alice não morará mais ali. Nunca morou.
E há outras falsas identidades: Dan também não
era Dan na internet, mas se apresentava como "Anna"; e a
"Anna" que o médico ia encontrar não era a
fotógrafa Anna... mas acabou sendo. Na trilha musical
também se escuta, na cena do diálogo pela internet, a
abertura da ópera de Rossini “La Cenerentola”, versão
menos fantástica da “Cinderela” – que de certa forma
também aborda uma simulação da moça
serviçal indo ao baile como uma dama.
III.O
obituarista Dan espiona a vida dos mortos quando ainda estão
vivos. A fotógrafa olha aquários cujas paredes de vidro
permitem a transparência da visão ao mesmo tempo em que
isolam um ambiente aquático do nosso meio oxigenado. Alice
dança em “aquários” onde paredes invisíveis
evitam o toque físico.
A
excessiva exposição de uns e de outros os deixa “perto
demais”; e de muito perto não se vê nada direito, tal
como Bergman já sugerira muitos anos antes em seu filme “A
Hora do Lobo”.
Dan quer se apropriar de Alice enquanto quer que Anna o olhe além
do diafragma da maquina de retrato que fotografa seu primeiro beijo.
Anna sucumbe ao assédio visual dele que fica espionando a
janela do estúdio onde ela trabalha e vê quando ela
procura o olhar dele nas horas em que ele se esconde e se coloca
dissimuladamente fora do alcance do olhar dela.
Versão
de um texto teatral, o filme se constrói a partir de grandes
tomadas em close dos rostos dos atores, fazendo-nos ver manchinhas na
pele de Julia Roberts, seqüelas de acne no rosto de Clive Owen,
poros no rosto de Jude Law... Ao mesmo tempo, mal se deixam ver: o
filme exige que o espectador seja um voyeur voraz e atento, que veja
até mesmo o que não se passa em cena, que atente para
os diálogos rápidos e cortantes, cheios de alusões
ao olhar. Bem no início, enquanto limpa os óculos de
Dan, Alice lhe responde a profissão, “stripper” – e ao
perceber a surpresa dele, comenta: “olhe esse olhar”; ao que ele
responde “não posso ver meu olhar”. Falta-lhe um espelho
ou uma máquina de retratos. Perto do final, Larry tripudia
sobre Dan, dizendo o que Anna lhe conta sobre a intimidade que
tiveram: Dan, à noite, acorda em pesadelos chamando “mamãe”...
e faz sexo de olhos bem fechados...
A
quantidade de informações é enorme para ser
processada em uma única visada do filme e não adianta
não retirar os olhos da tela ou das personagens: Alice, I
can’t take my eyes off you, Jane Jones. Ela tem o atrativo da
beleza jovem e da disponibilidade que pode parecer “zen” mas é
auZENte: sua demanda é ser vista de um modo que possa ser
“descoberta” além do corpo e naquilo que nem ela sabe o
que é. Falta-lhe, talvez, o que Anzieu chama de “eu-pele”,
ou talvez, um “envelope de pele” que o dermatologista será
o primeiro a tentar demarcar: ele percebe que ela não que ser
vista por ele, Larry, mas sim por Dan. E, de certa forma, ele a
devolve, retribuindo o encaminhamento que recebera de Anna a partir
do trote na internet.
Mas
por que Alice deseja tanto o olhar de Dan? Ele seria o selfobjeto
especular que ela elegeu: sem esqueleto sob a pele sem pele, ela se
expressa pela queda/tombo/atropelamentos. Ao encontrar o olhar de Dan
sobre ela, caída no asfalto, com o interesse sexual suspenso
pela ameaça de morte, Dan é tomado como “mamãe
ganso” – aquele objeto primeiro que o patinho toma como se fosse
a mãe apenas por vê-lo passar por perto (close)
primeiro. Ela esperava que ele a enxergasse e a nomeasse, lhe desse
um nome próprio. Ele, cego, ocupado demais em tentar ser
artista-escritor, não lhe dá nada em troca. Quando ela
percebe que seu pedido de socorro real não vai ser atendido
(Isn’t love enough?) o des-ama uma vez por todas. Ele deixou de
existir para ela tal como ela nunca existira de fato para ele, eterno
adolescente (Anna já perguntara se ele ainda está com
12 anos), bonitinho e sedutor que passa de um objeto de desejo para
outro.
IV.A
visão pode se constituir em uma fantasia de “tato à
distância”, mas nunca tocamos, nem com a pele do olho nem com
a pele do corpo: há um mistério nos interstícios
e nos intervalos... Alice só sabia curtir ser vista e supor
que fantasiavam com ela – suposta defesa contra a solidão e
desamparo
que não conseguia preencher por falta de recursos internos.
Muita fantasia erótica que busca parceiro na internet reflete
esse “vazio de fantasia social”, de ideologia, de partilhar uma
causa. A interdição de Alice ao toque físico e
ao nome do passaporte seria o equivalente a: “Fale e olhe, mas não
me toque nem desfaça a ficção porque nós
não existimos, somos marionetes de nossos discursos”.
Diz
Heidegger: “Que um ser seja capaz de enganar como aparência é
condição para sermos enganados, não o inverso”.
Pensando nisto, devemos levar em conta o conceito de simulacro de
Baudrillard ampliado à própria realidade que hoje em
dia não passa de arremedo - embora, tal como o sintoma
psicossomático, faça o máximo para encobrir os
sinais. Banidas da realidade, as verdades só podem encontrar
sua segunda morada exiladas nas obras de arte.
E
que verdades o filme “Closer” pode nos revelar? A mais importante
se refere exatamente ao abuso do conceito moral de “falar a
verdade” que, na verdade, encobre o voyeurismo perverso. Como já
foi dito quando, nas atividades de Psicanálise & Cinema da
SBPRJ, discutimos um filme
sobre uma calúnia infantil que destruía a vida de duas
professoras, não existe apenas o poder destruidor da mentira,
mas também o poder destruidor das verdades que invadem o
terreno da privacidade do outro. Não é possível
chegar “ainda mais perto”, still closer, ir além de
um limite que é o limite do indizível, equivalente ao
ponto cego do globo ocular que não vê tudo, tal como um
periscópio que tudo vê no mar em volta, mas não
enxerga a si próprio saindo das águas. Nós
também só nos vemos através do outro num campo
intersubjetivo que propicie o reconhecimento na alteridade, longe do
olhar narcísico que, tal como no mito, não permite o
auto-conhecimento.
Se
Kafka nos advertiu sobre o “não-visto” na ilusão
fílmica, podemos, analogamente, nos sensibilizarmos para
tentar apreender o não-dito do que é dito, seja nos
textos literários, seja nas cenas dos filmes ou peças
teatrais, seja mesmo nas pausas musicais, e – tentar chegar mais
perto - sem nos diluirmos ficando perto demais - das entrelinhas dos
discursos sociais e dos nossos analisandos. E – por que não?
- do nosso próprio texto introspectivo que terá que
lidar com os pontos cegos, pautas inconscientes e com o
incognoscível. Não nos contentarmos com o que é
mostrado nem com o que é narrado - e nem
mesmo com a mescla destas exposições em seus cortes
transversais (o que é mostrado em um momento) e longitudinais
(o que é narrado ao longo de um tempo). Mais do que isto, o
que importa é o significado que se possa depreender do
exposto. E tais significados não advêm apenas do olhar,
mas do nexo ideo-afetivo: a palavra conforme o pensamento e o
pensamento conforme o sentimento.
SINOPSE: Cena
1. “Hello, Stranger”
Ao
som de “The Blower’s Daughter”, canção de
Damien Rice cujo refrão repete insistentemente “I can’t
take my eyes off you”, vemos uma bela jovem (Natalie Portman)
caminhando entre a multidão de uma rua em Londres. Do outro
lado da calçada, Dan (Jude Law) a olha. Ela parece perceber
estar sendo olhada intensamente. Ao atravessar a rua, ela é
atropelada, o que ficará atribuído à “mão
inglesa” com a qual ela não estaria habituada: é
americana e desembarcou em Londres sem bagagem nem sem ter onde
ficar. Responderá evasivamente para Dan que fugia de “uma
espécie de namorado”. Em outro momento deste diálogo
ela dirá que encerra relacionamentos dizendo “Eu não
te amo mais, adeus”.
Passam
por uma praça com uma espécie de memorial a pessoas
que faleceram salvando outras pessoas. Isto, depois de ele a ter
levado a um hospital. Acompanhamos o conhecimento mútuo
inicial dos dois. Onde ele trabalha: obituarista de um jornal,
muitas vezes escreve sobre pessoas ainda vivas, enquanto tenta ser
escritor, mas diz que não tem “voz” como autor
ficcionista. Parou de fumar. Ela fuma, não come peixe e é
stripper, o que o deixa perplexo. Ela estava limpando os
óculos dele e comenta quando ela diz sua profissão:
“olhe este olhar”. Ele responde: “Não posso ver meu
olhar”.
A
primeira frase que se escutou neste filme foi - quando ela, ainda
caída no asfalto, desperta de um rápido desmaio e o
vê, preocupado, ajoelhado ao lado dela – “Hello,
Stranger.” Quando este segmento do filme se encerra ela já
se apresentou: “Alice Ayres”.
Cena 2 – Vidas roubadas - ou emprestadas?
Dan
está posando para uma fotógrafa profissional, Anna
(Julia Roberts). Fotos para a capa de seu livro, inspirado na vida
de Alice. O som de Anna reproduz o famoso tercetto “Soave sía
il Vento” da ópera “Cosi fan Tutte” (Assim
fazem todas), de Mozart. Ele voltou a fumar, Anna não fuma.
Ela leu provas do livro e gostou – a não ser do título
(que nunca saberemos qual era). Sugere “O Aquário”, o que
o leva a deduzir que ela gostou das passagens do livro “com
sacanagens”. Estabelece-se
um paralelo: ela o acusa de ter “roubado” a vida de Alice para
construir a heroína do livro. Ele diz que não roubou,
tomou emprestado. Ele a acusa da mesma coisa por estar fotografando
rostos de estranhos. Pergunta se é um estranho para ela. Ela
diz que é “um trabalho”.
Anna
fotografa em aquários, acha peixes “terapêuticos”.
Ele
quer beijá-la, ela diz que não beija estranhos, mas se
beijam sensualmente. Ela se afasta quando ele lhe responde que vive
com a moça que retratou em seu romance. Pergunta a ele por
que empata a vida dela (já está claro que ele não
está tão comprometido com Alice). Ele diz que Alice e
“inabandonável”.
Alice
chega e pede para ser fotografada. Enquanto vai ao banheiro Dan
insiste em marcar um encontro com Anna; alega que se beijaram. Ela
ironiza: “Que idade você tem? Doze?”.
Anna
conversa com Alice, perguntando o que faz: “Garçonete”.
“É provisório?” “Não”.
Em
outro momento: “Não se importa de Dan ter usado sua vida no
livro?”. “Isso não lhe diz respeito.”
Alice
conta que escutou a conversa com Dan. Anna tenta se desculpar, mas
Alice insiste apenas: “Tire as fotos!” – está chorando.
Cena 3 – Sexo virtual
Ao
som da abertura da ópera “La Cenerentola” (versão
de Rossini para a “Cinderela” – que de certa forma aborda uma
simulação da moça serviçal indo ao baile
como uma dama), assistimos a um jogo de sedução pela
internet de Larry (Clive Owen), médico dermatologista por uma
suposta “Anna” que é Dan, escrevendo como se fosse uma
mulher interessada num encontro sexual. O diálogo é
pornográfico e se encerra com um encontro para o dia seguinte
no Aquário. Larry deve ir de jaleco.
Cena 4 – No Aquário
A
fotógrafa, a Anna real, está de fato no aquário,
sentada, indiferente; e Larry se aproxima dela, dizendo que está
de jaleco. O mal-entendido é desfeito. Anna deduz que foi Dan
quem armou o trote para Larry (e para ela, de uma certa forma).
Repete-se um diálogo sobre peixes: Larry enfatiza a origem
humana, aquática – por isso os peixes lhe mereceriam
“respeito”. Compra um balão em forma de peixe para Anna.
Cena 5- A exposição
Em
casa de Dan, Alice pede que a deixe ir com ele numa viagem, depois
da inauguração da exposição de fotos de
Anna: “Por que não me deixa te amar?”
Já
na vernissage, Larry e Alice conversam em frente à bela foto
de Alice chorando. Alice diz que são fotos de pessoas
estranhas e tristes belamente fotografadas, o que as faz parecerem
belas e o publico “adora uma grande mentira”. Larry comenta que
namora Anna há quatro meses, estão “no auge”: “Ela
adora todos os meus maus hábitos”. Larry parou de fumar.
Larry pergunta se o livro de Dan é sobre a vida dela, Alice.
Ela diz que “em parte”. O que ele omitiu? – pergunta Larry. “A
verdade”.
Enquanto
isso Dan fica sabendo por Anna que Larry é o parceiro de
Internet em quem ele passara um trote fingindo-se de uma Anna
sexualmente promíscua. Anna diz que eles o chamam de “Cupido”
por tê-los aproximado.
Anna
e Larry conversam: Larry diz que Dan é “pretty”. Anna
nega que tenha contado a Dan o apelido que usam entre eles sobre Dan
(“Cupido”). Larry diz que ele parece mais alto do que na foto do
livro. Mas que o derrubaria numa briga. O livro de Dan fracassou.
Larry comenta que ainda existe justiça neste mundo.
Dan
coloca Alice em um táxi e volta para insistir com Anna. Pelo
que dialogam entendemos que Dan a espiona e ela vê que ele a
espiona. Quando ele não está visível, meio
escondido ou mais distante, a vê psocurando o olhar dele na
direção dela. Dan a desafia: que diga, olhando para
ele que não o ama.Ela diz. Ele diz que ela mente: “Sou o
seu ‘estranho’, mergulhe!”
Ao
voltar para perto de Larry surge a expressão “Hello,
Stranger!”. Anna dissimula para Larry o que conversou com Dan.
Larry se diz um observador clínico telescópico do ser
humano. Anna diz algo pejorativo e agressivo sobre a pretensão
dele e depois se desculpa.
Cena 6 – Separações
Anna
espera Larry chegar de um congresso em Nova Iorque. Está
tensa.
Alice
espera Dan chegar, dormindo em um sofá na sala. Ele alega que
saiu com um tal “Harry” para conversarem. Alice
diz: “Harry is in love with you”. Dan consegue contar que
vai deixar Alice e viver com Anna. Alega que Anna não precisa
dele como Alice depende dele. Diz que sente muito. Alice diz que
isso é irrelevante. Está magoada e desesperada,
pergunta se pode continuar a vê-lo. Ele nega dizendo que se a
ver não conseguirá se afastar dela. Alice diz que está
errado, é ela que sempre abandona. Pede um chá e
enquanto ele prepara, ela desaparece sem levar nada.
Enquanto
isso, Larry pergunta a Anna por que vai deixá-lo por Dan,
indagando intimidades sexuais. Anna se lamenta, mas responde.
Pergunta por que ele está querendo saber essas coisas, mas
responde. Responde cruamente sobre preferências sexuais. Ele
agradece “pela verdade”. Diz que pergunta essas coisas porque é
“um troglodita”.
Cena 7 – Suíte Paraíso
Num
night-club de stippers Larry encontra Alice que diz se chamar Jane.
Ele insiste que ela diga seu nome verdadeiro, quer que ela diga que
é Alice e ela responde, a cada nota de libras que ele coloca
na liga dela: “Obrigado. Meu nome é Jane. Jane Jones”.
Ele pede para vê-la nua, e satisfazer seu “prazer
voyeurístico”. Mas não pode tocá-la ou ela
chamará os seguranças. São vistos por uma
câmera colocada no teto desta “suíte” de encontros
particulares onde não pode haver contacto físico. Ele
pede que ela afaste a minúscula calcinha para o lado, propõe
sexo, ela diz que não é prostituta, ele diz que não
pagaria a ela. Ele chora a distância de Anna que não
quer vê-lo. Assim como não pode tocar nela, ela diz que
também não é permitido chorar naquele lugar.
Cena 8 – Cosi fan tutte?
Dan
espera Anna que se atrasou muito para uma récita de ópera:
“Cosi fan tutte”. Ela foi pegar a assinatura de Larry
para o divórcio. Num flashback vemos que Larry propôs
irem ao novo consultório dele e transarem na mesa de exame.
Só assim assinaria o papel do divórcio.
Dan
desconfia e pergunta. Anna confirma que transou com Larry. Dan
reclama “por que tem que ser tão sincera sempre? Falar a
verdade sempre?” Ela diz que foi porque haviam combinado não
mentir.
Cena 9 – Dan no consultório
de Larry
Dan
pede pateticamente a Larry que deixe Anna. Larry, triunfante, diz
que Anna lhe conta até intimidades sobre Dan, como dorme mal,
acorda chorando à noite chamando por mamãe e faz sexo
de olhos fechados. Agradece tê-los aproximado pelo trote na
internet pelo qual, antes, ele, Larry, queria matar Dan. Dan reage:
você queria é me comer. Dan alega que Anna não é
feliz com Larry. Este diz que ela é depressiva e precisa ser
infeliz. Aconselha que Dan procure Alice de quem Dan não tem
pistas. Larry dá o endereço do club onde a encontrou.
Diz que não transou com ela. Quando Dan já está
saindo, nega. Diz que transaram sim.
Cena 10 – Não te amo mais
Alice
e Dan vão sair em viagem escolhida por ela, segredo ainda
para ele. Comemoram 4 anos que se conheceram. Quando tudo parece
bem, Dan começa a perguntar se ela transou com Larry. Ela diz
que não vai responder, que não, ele fala como que
sabendo, quer que ela diga. Diz que vai sair e quando voltar
conversarão e ela lhe contará. Sai, ao se olhar no
espelho do elevador, retorna. Ela diz que não pode falar a
verdade e que não quer mentir. Conta que transou com Larry.
Ele diz que sabia. Ela diz que não o ama mais, adeus. Ele
insiste. Ela diz que vai chamar os seguranças como se
estivesse no club de strippers. Ele dá um tapa no rosto dela.
Epílogos
Quando
desembarca de volta em NY, vemos o passaporte de Alice onde está
escrito que seu nome é Jane Jones.
Dan
passa pela praça com memorial e descobre o nome de uma tal
Alice Ayres que morreu salvando três crianças de um
incêndio.
Larry
dorme pesadamente ao lado de Anna com barriga de grávida sob
as cobertas e expressão infeliz no rosto.
Alice
anda por NY, linda e olhada por diversos homens ao som do mesmo
refrão do início. Segue em frente enquanto vemos que o
sinal está vermelho para pedestres. Fim.
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