
"ALICE E MARTIN": O SEGREDO DOS ARQUITETOS
Luiz Fernando Gallego
Apesar
de contar com atrizes famosas como Juliette Binoche e Carmen Maura, o
filme "ALICE E MARTIN" (França, 1998) foi
exibido no Rio em apenas duas sessões diárias, de
quinta a Domingo no Centro Cultural Banco do Brasil. E só
durante duas semanas em maio deste ano 2000. Posteriormente, foi
laçado em vhs No
entanto, é uma obra que poderia interessar, pelo menos, ao
público do circuito Estação que já exibiu
outros filmes do diretor André Téchiné ("Os
Ladrões"), o qual, desta vez, parece fazer uma releitura
do tema da culpa e da responsabilidade, muito explorado pelo cineasta
recentemente falecido, Robert Bresson, com ecos dostoievskianos,
especialmente de "Crime e Castigo" e de "Irmãos
Karamazov".
"ALICE E MARTIN": O SEGREDO DOS
Mas
não vi "ALICE E MARTIN" como um filme sombrio
e desesperado, por mais que sua história envolva uma grave
tragédia familiar a qual, aliás, é
minimizada através de mentira e dissimulação
pela maioria dos personagens - excetuando-se o casal
principal do título.
Pelo
contrário, o filme deixou-me uma vivência de ser quase
sempre luminoso e solar, tendo, inclusive o seu epicentro em um dia
brilhante de verão, na grandiosa construção
moura de Granada, La Alhambra, sobre cujos azulejos
alicatados desfilam os créditos iniciais.
O
prólogo, passado no interior da França, nos expõe
em poucas cenas e muitas elipses - elipses que marcarão
toda a narrativa - a separação entre o garoto Martin e
sua mãe. Ela, espanhola, revela-se ansiosa para que o
filho, já com dez anos, passe a residir com o pai, um
comerciante de posses, casado com outra mulher com a qual já
tem três filhos mais velhos que Martin.
Infeliz
com o afastamento de sua mãe, o menino finge estar doente e,
após ser descoberta a simulação, tenta adoecer
de fato (ou morrer?), expondo-se, nu, ao frio que entra pela janela
aberta de seu quarto através da qual vemos, como se fosse uma
constelação em movimento, grossos flocos de neve caindo
contra o fundo negro da noite – a primeira de muitas cenas de
imediata beleza que o filme reserva, capaz de lembrar a situação-base
de "Cidadão Kane", a mais famosa separação
(cinematográfica) de um menino incentivada pela própria
mãe em busca de conforto material para o filho.
Também
em Cidadão Kane a separação se passa
sob um ambiente gélido, onde apenas um botão de rosa
(sob a forma de trenó: o famoso enigma "Rosebud")
aparece sobre a espessa camada de neve como representante de uma
calidez que arrefece, experiência de calidez esta, que neste
filme, Martin parece não trazer dentro de si, vindo a sofrer
uma espécie de queimadura psíquica por superexposição
ao sol do Alhambra no sul da Espanha-natal de sua mãe
- e mais ainda por ficar superexposto à verdade do amor
insistente de Alice: por ele e pelo filho que conceberam e que ela
carrega (a ambos) com obstinada determinação.
Mas
retornando um pouco ao início do filme, após a cena de
neve na janela, temos uma breve cena sem palavras que mostra Martin
saindo da casa paterna como um garoto indo para a escola, sugerindo
estabelecimento de uma nova rotina, cotidianeidade (aceitação,
conformação). Um salto no tempo anunciado por um
letreiro que diz "Dez anos depois..." traz o
mesmo Martin atravessando o mesmo espaço, só que desta
vez em fuga desesperada da mesma casa de seu pai. Ao longo do filme
veremos Martin correndo muitas vezes: ele parece estar
permanentemente em fuga, até a cena próxima ao final
quando finalmente corre até a delegacia, para assumir seus
atos como prova de lucidez e não doença mental
alienante, tomando as rédeas do seu destino pela
conscientização e evitação da alienação
mental.
Mas
ainda no início, em longas cenas silenciosas acompanharemos
sua trajetória errante por amplos espaços ermos onde o
vemos novamente despido de costas tentando matar-se afogando-se em um
lago. Não podendo evitar a necessidade de respirar, o suicídio
se frustra. Não podendo evitar a fome, revira lixo, se
alimenta de frutos das árvores ou de ovos crus furtados de uma
granja. Além da necessidade de alimentar-se, só o
vemos deter-se para observar uma carniça animal sendo devorada
por aves de rapina. Atração pela morte física já
procurada, pela morte psíquica que se expressará mais
adiante no quadro catatoniforme ou pela inevitável lembrança
de alguém morto que já deve estar como aquele animal?
Preso
pelos roubos à granja, tem sua fiança paga, à
distância, pela viúva de seu pai, e acaba chegando a
Paris, ao apartamento do mais jovem de seus meio-irmãos, o
qual divide o aluguel com uma violinista que é a Alice do
título. O espectador fica sabendo que "acompanhara"
Martin por três semanas, período em que seu paradeiro
esteve desconhecido pelos familiares, desde a morte de seu pai,
ocorrida imediatamente antes de sua fuga desabalada.
O
encantamento que Alice desperta nele fará com que o filme
evolua para um clima mais leve, paralelo ao romance entre os dois em
fase de enamoramento quando, quase como duas crianças, Martin
e Alice chegam a fugir um do outro ou a correr um atrás do
outro. Ele declara que, apesar de todas as suas dificuldades de se
expressar, está "lutando por" Alice (e ela
retribuirá esta disposição por "um bom
combate" de forma tocante no terço final do filme).
Após
alguma resistência inicial, ela finalmente aceita aceitá-lo
e o procura, momento em que se entregam a uma precipitada relação
sexual (que não esgota o desejo dele), apressadamente. A
pressa em possui-la, ele justifica depois, dizendo temer que ela
pudesse "mudar de idéia" novamente.
Numa
viagem ao sul da Espanha-natal da mãe de Martin, no cenário
radioso de La Alhambra (termo que significa "a chama"),
Alice comunica a ele que está grávida. Martin, súbita
e imediatamente, cai num estado torporoso - semelhante a um coma
físico ou mesmo a um estupor psicótico -
diagnosticado, após exames, como de origem emocional e que
coincide com a inversão do clima afetivo que vinha se
estabelecendo até então. Esta cena divide o filme em
duas partes, tendo sido a enorme dificuldade em aceitar a paternidade
capaz de precipitar o jovem em severa crise psíquica que lhe
esgota até o desejo sexual.
O
desejo por Alice fôra satisfeito anteriormente, e daí
ele passa ao questionamento do amor: "Por que você me
ama?" pergunta a ela, como se isso pudesse ser exatamente
respondido por quem ama.
Da
impossibilidade de se acreditar amado chega ao ódio e ao
impulso de matá-la. A perseverança que ela demonstra ao
seu lado propicia uma narrativa em flash-back onde ele a
informa (e ao espectador) dos dramas ocultos da família
paterna. O que não é tornado óbvio, mas fica
evidente ao olhar minimamente atento, é que ódios,
ressentimentos, disputas, segredos, mentiras, auto-enganos e
dissimulações dominantes no ambiente familiar foram o
terreno de onde se alimentou sua instabilidade psíquica.
Quem
leu "Irmãos Karamazov" não pode deixar de
associar as situações deste núcleo familiar com
as do atormentado grupo criado pelo gênio de Dostoievski.
Assim como na famosa piada de que os "três mosqueteiros"
eram quatro (de fato não eram, passaram a ser), em "Alice
e Martin" e em "Irmãos Karamazov" temos
três irmãos que são quatro - já que há
um filho bastardo. Um parricídio e um suicídio
por enforcamento de um dos irmãos acentuam as coincidências
a ponto de só se poder pensar em plágio ou em
paráfrase. No filme, entretanto estas ações
estão deslocadas para personagens diferentes dos que poderiam
ser equivalentes no livro. Por exemplo, no romance o filho que
se enforca é o parricida, enquanto no filme, este suicídio
se dá antes mesmo da morte do pai.
Vale
a pena rever o que Freud escreveu sobre esta obra máxima da
literatura em seu famoso ensaio intitulado justamente "Dostoievski
e o Parricídio" de 1928 (ESB, vol.: XXI, Imago):
"Dificilmente se deve ao acaso que três das maiores
obras literárias de todos os tempos (Édipo Rei de
Sófocles, Hamlet de Shakespeare e
Irmãos Karamazov de Dostoievski) tratem do
mesmo assunto: o parricídio. (...) A mais explícita
é certamente a representação da tragédia
grega onde o próprio herói comete o crime (...)
Na peça inglesa, a apresentação é
indireta: o herói não comete o crime, ele próprio;
o assassinato é executado por outra pessoa (...) [mas o
herói] conhece o efeito causado nele pelo crime de outro:
deveria vingar esse crime, mas de modo bastante estranho, descobre-se
incapaz de fazê-lo. (...) é seu sentimento de culpa que
o paraliza (...) [a ponto de dizer] 'Dê a cada
homem o que merece, e quem escapará do açoite?'
O
romance russo vai na mesma direção. Aí também
o homicídio é cometido por um outro. Esse outro,
contudo, está, para com o assassinado, na mesma relação
filial que o herói, Dimitri; (...) trata-se de um irmão
do herói (...) Depois, no discurso de defesa do julgamento,
ocorre uma famosa zombaria da psicologia como sendo uma faca de dois
gumes - um disfarce esplêndido, pois basta invertê-lo
para descobrir o significado mais profundo da visão que
Dostoievski tinha das coisas. Não é a psicologia
que merece a zombaria, mas o processo judicial: é indiferente
saber quem cometeu o crime; a psicologia se interessa em saber quem o
desejou emocionalmente e quem o recebeu com alegria quando foi
cometido. E por esse motivo todos os irmãos são
culpados: o sensual impulsivo [e acusado Dimitri], o cínico
cético [Ivan] e o criminoso epiléptico, [o
bastardo Smerdiakov] - excetuando-se a figura contrastada de
Alioscha..." - que Otto Maria Carpaux (1946, na
Introdução à edição brasileira
publicada em 1967 pela José Olimpio Ed.) define como um
anjo de Deus (...)tal como os anjos que Deus envia para visitarem os
homens que deles precisam . (grifo nosso)
Proponho
que neste filme, André Téchiné ousou fundir o
bastardo assassino Smerdiakov de "Irmãos Karamazov"
com o anjo Martin-Alioscha de quem os homens precisam: anjo
exterminador que num poster de propaganda para o qual
posou anuncia (uma produto de nome) o Paraíso . Explico
minha hipótese retornando ao texto freudiano: "Para
Dostoievski, um criminoso é quase um Redentor que tomou para
si próprio a culpa que deveria ser carregada pelos outros: não
há mais necessidade de que alguém mate, visto que ele
já matou - e há que ser-lhe grato; não fosse
isso e poderíamos nos ver obrigados a matar."
E
Otto Maria Carpaux parece seguir em um caminho tangencial ao de Freud
quando diz que como romancista Dostoievski criou com igual
realismo o criminoso e o santo [exemplificando o criminoso
com Ivan Karamazov, que inventou as teorias que dirigiram a mão
do assassino - algo como o responsável intelectual do
crime, o maior criminoso - e com o caçula
Alioscha]. Como pensador, diz Carpaux, sua
meta era a síntese, a transformação do criminoso
em santo.
Podemos
considerar que dramas burgueses da família paterna deste filme
estão a anos-luz da tragicidade dos personagens de romances de
Dostoievski; que a mãe que prioriza o bem-estar financeiro do
filho é infinitamente mais prosaica que a mãe de
semblante carregado do "Cidadão Kane"; assim
como o calvário redentor que Alice empreenderá não
é agravado pela aridez espinhosa dos filmes de Bresson. Mas é
através desta espécie de "apequenamento" das
obras épicas que Téchiné mostra a possibilidade
das tragédias grandiosas se reproduzirem na classe média
contemporânea, nas pessoas comuns, em qualquer um de nós.
A
propósito, faço outra citação de Carpaux,
a respeito da verossimilhança das obras de ficção:
"Os autores de romances policiais fazem sempre os maiores
esforços para conferir às suas obras a aparência
de verossimilhança: os fatos narrados devem ser os mais
comuns, familiares a todos nós, de modo que fiquemos obrigados
a acreditar no realismo das intenções do autor. Os
romances policiais têm sempre a cor dos noticiários de
jornais, e os autores mais espertos introduzem toda técnica
moderna que nos rodeia na vida cotidiana, as máquinas mais
indispensáveis e seus perigos imprevistos, como que para nos
dizer: 'Vejam só, a vida é realmente assim.' Mas
jamais conseguem esse fim supremo de seus esforços: nunca o
leitor se esquece de que se trata de invenções
engenhosas.
Processo
e efeito em Dostoievski são exatamente contrários.
Não se preocupa absolutamente com a verossimilhança e o
ambiente em que nos coloca não é o familiar de nossas
ruas e casas, mas sim um ambiente exótico em que a todo
momento esperamos... o inesperado. O que entre nós não
acontece. Aquilo de que seríamos incapazes.
Contudo,
o leitor sabe instintivamente que tudo aquilo é
verdade : aquele parricídio não
aconteceu nunca e nós, os leitores, jamais cometeríamos
tal crime. Dostoievski, porém, revela-nos que o crime, ou
antes, que todos os crimes dormem em
nós outros como possibilidades,
e convence-nos de tal maneira que acreditamos também na
possibilidade da redenção que ele inventa para nós
(...)(...), transforma-nos em cidadãos de seu mundo porque
sucumbimos na realidade também aos seus problemas.
[Carpaux não explicita, mas penso que esta realidade é
a realidade psíquica das fantasias conscientes,
pré-conscientes e inconscientes desveladas pela psicanálise
desde Freud, passando por Klein, Lacan, Winnicott, Kohut, entre
tantos outros.] Os Karamazov, esses russos estranhos, são
como pessoas da nossa família; nós os conhecemos e
vivemos os seus destinos. Dostoievski criou, em forma fantástica,
os problemas mais reais, mais nossos. O mundo dos Karamazov é
o nosso próprio mundo." [os grifos são
nossos]
Em
"Alice e Martin" a dinâmica de certas patologias
familiares mais contemporâneas é bem demonstrada através
da distribuição de "papéis" entre os
membros do grupo, onde não estão ausentes "a mãe
submissa" (que acolhe o filho de seu marido com outra mulher), o
filho "eleito" para o sucesso (que é político
provinciano), o "ovelha negra" (ator, homossexual) e assim
por diante.
Mas
proponho que o pacto de silêncio em torno das reais
circunstâncias da morte do pai, mais do que causado pelo
alegado temor ao escândalo, denuncie que os silenciosos eram
cúmplices no desejo da morte daquele pai. Martin, sem
nunca ter sido de fato integrado à família, nem mesmo
através da colocação de suas fotos ao lado das
dos irmãos no álbum de retratos, parece ter sido
incluído naquele grupo familiar para cumprir precisamente este
papel criminoso e redentor a um só tempo, muito mais do que
apenas para acirrar ânimos como propõe o ex-namorado da
mãe de Martin numa cena do flash-back onde também
informa ao rapaz que o pai não queria registrá-lo como
filho e que o teria recebido em casa mais para agredir os outros
filhos do que para acolher Martin genuinamente. A atitude da
mãe de Martin em cedê-lo para morar com o pai também
fica parecendo algo que atende mais a desígnios dela mesma
(feridas narcísicas carentes de alguma forma de cobrança
ou mesmo de vingança) do que atender às necessidades
específicas do menino.
Relembrando
o que Freud propôs: Hamlet não conseguia vingar a
morte de seu pai matando o tio assassino porque este concretizara na
realidade o que o próprio Hamlet também desejava, em
fantasia: matar o rei, seu pai, para deitar-se com a rainha, sua
mãe; poderíamos, analogamente, nos perguntarmos:
como, nesta história, Martin seria denunciado por aqueles que
eram seus "cúmplices" no desejo de morte daquele
pai? E como ele, Martin poderia aceitar a função
paterna se a experiência de filiação fôra
tão prejudicada e tão violentamente encerrada? E
ainda: como se imaginar merecedor de amor por Alice se não
experimentara nenhuma vivência de ser amado de forma mais
sólida e estável?
Neste
filme, até pelo amplo recurso a elipses que já
mencionei acima, quase nada do que é mostrado de início
corresponde, mais adiante, ao de que fato é. O
espectador deve estar atento ao jogo das aparências que enganam
porque cenas subsequentes vão desfazer impressões
deixadas pelas anteriores: Alice não é amante do
meio-irmão de Martin como pode ficar sugerido na primeira vez
em que aparece; seu pai, apesar de tê-lo recebido no seio de
sua família já estabelecida, nem queria perfilhá-lo
anteriormente; a família não esconde seus esqueletos no
armário apenas por medo do escândalo; a "mulher
submissa" que aceita o filho do marido vai se revelar bem menos
bidimensional nos contatos com Alice; a mãe preocupada em
priorizar o futuro econômico do filho pode estar colaborando
para destruir esse futuro, etc.
É
preciso assisti-lo tal como se admira os azulejos e outros arabescos
decorativos de La Alhambra: uma mesma figura que se repete
ad infinitum aparenta outra configuração ao lado
de outra que também se repete e todas juntas criam uma nova
imagem. O jogo das aparências é igualmente
denunciado pela profissão que Martin exerce por algum tempo,
modelo fotográfico – que ele não quer ser. O mais
verdadeiro é o mais fragilizado dos personagens, o que fica
evidente na bela e triste cena em que, no jardim de um hospício,
sob a chuva, sentado num banco, Martin encara a visão do
menino de dez anos que ele foi, tendo às suas costas e virado
de costas para ele, o fantasma de seu pai. Tudo presentificado numa
emergência do Inconsciente atemporal.
Não
se trata de um trama policial com um grande mistério a
ser revelado (pelo menos não é mais "policial"
do que "Édipo Rei" onde o "detetive"
descobre que ele próprio é o assassino); nem se
trata de um filme simplesmente romântico sobre "a força
do amor"; nem tem um final arrasador nem um "final
feliz" tradicional - ainda que apontando para uma redenção
- e mais do que para um recomeço, um novo e verdadeiro início:
"Alice e Martin" discute de forma sutil temas que
clássicos do cinema e da literatura sempre abordaram e que
vêm, coincidentemente, reaparecendo com insistência em
outros filmes mais ou menos recentes, como em algumas das muitas
histórias que se cruzavam em "Magnólia"
(envolvendo freqüentes desencontros entre filhos e pais) e
também em "Tudo sobre Minha Mãe":
afinal, qual é a história de minha filiação?
Como
propõe Kohut sobre os primórdios da constituição
do nosso self (vivência de si), nossa história
psíquica - e social - talvez comece antes mesmo de nascermos:
na mente de nossos pais e no desejo que nos deu origem. Se,
entretanto, houver rechaço ou desconsideração
pelas peculiaridades da criança, podem ocorrer graves
distúrbios na estrutura emocional deste novo ser - mesmo que
não haja os prejuízos evidentes do abandono material
que se constata na infância desvalida.
Como
Alice comenta durante a visita a La Alhambra antes de
comunicar a gravidez a Martin e da eclosão da crise: os guias
turísticos narram fatos sobre a construção do
palácio, mas não a essência da construção
- que é a ciência e o segredo dos arquitetos. E
nós nos perguntamos: qual é a essência da
construção de um ser humano ? Qual o segredo dos
seus "arquitetos"?
Rio
de Janeiro, 22 de maio-24 de novembro de 2000.
lfgallego@openlink.com.br
Nota: O psicanalista Luiz Fernando Gallego esteve em Brasília em abril de 2002, a convite do Instituto de Psicanálise da Sociedade de Psicanálise de Brasilia para apresentar seu trabalho" Alice e Martin: O Segredo dos Arquitetos" após assistirmos ao filme "Alice e Martin", de André Techiné, em vhs. Na ocasião, ele leu seu trabalho que não pôde constar no site Aetern.us porque estava sendo divulgado na "Gradiva". Agora temos a oportunidade de apresentá-lo aqui.
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