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O primeiro livro Virtual Aeternus
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Filme Solaris e a Força da Ilusão
| Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo: Jansy Mello:
Comentários de Luiz Fernando Gallego ao filme Solaris Luiz Fernando Gallego:
Viver: Verbo Transitório Davy Bogomoletz:
comentários ao SOLARIS/ Verbo Transitório jansy mello:
comentário ao comentário/ Solaris Peter Mello:
Texto Soláris - Sessão Biblioteca jansy et alii:
diálogos e poemas sobre Solaris Gustavo Costa:
Poetar - verbo intransitivo Davy Bogomoletz:
Poetar é preciso, Viver não é preciso... jansy:
o belo e a realidade Gustavo Costa:
Poetar é preciso.... redigir é uma exigência... Gustavo Costa (Guto):
O belo e a realidade II jansy:
Arguto... Gustavo Costa:
Gostei do "arguto". helena daltro pontual:
solaris helena daltro pontual:
correção Luiz Fernando Gallego:
Si non è vera... helena daltro pontual:
Cena do Solaris Gustavo Costa:
"morrerás por idades imensas". jansy@aetern.us:
como se falar sobre poesia? Jansy:
precária e veloz felicidade... Gustavo Costa (Guto):
Domingos Carvalho da Silva, in memoriam. Eugênia C. Kruzen:
Poema Guto:
Poema Conde Drácula:
C I N E M A Conde Drácula:
Escultura Conde Drácula:
RE:Escultura Conde Drácula:
Solaris erótico??? Marcos:
RE:Solaris erótico??? / de rabos e universos jansy mello:
RE:RE:Solaris erótico? Marcos:
RE: as especulações sobre Solaris e o erótico jansy mello:
RE:RE: as especulações sobre Solaris e o erótico Marcos:
RE: as especulações sobre Solaris e o erótico jansy mello:
RE:RE: as especulações sobre Solaris e o erótico Guto:
Oi para todos ! Guto:
RE:Oi para todos ! jansy mello:
RE:Oi para todos ! jansy mello:
RE:RE:Oi para todos ! LFGallego:
RE:Geoffrey Rush e Peter Sellers / Oi para todos ! Guto:
RE:RE:Geoffrey Rush e Peter Sellers / Oi para todos ! Guto:
RE:RE:Geoffrey Rush e Sade jansy mello:
RE:RE:RE:Geoffrey Rush e Sade Marcos:
RE:Geoffrey Rush Conde Drácula:
RE:RE:Solaris erótico??? / de rabos e universos Conde Drácula:
RE:RE:RE: as especulações sobre Solaris e o erótico: Porto Seguro Visitante:
Foi tudo um sonho... Omar:
RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:Foi tudo um sonho... Marcos Florião:
RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
Foi apenas um sonho e Branca de Neve Visitante:
RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE:RE:Foi tudo um sonho... Omar:
RE:RE:Foi tudo um sonho... Visitante:
RE:RE:RE:Foi tudo um sonho... Jansy Berndt de Souza Mello:
O rosto na Boston Tea-Party e Carlitos Patrícia:
RE:O rosto na Boston Tea-Party e Carlitos Visitante:
RE:Viver: Verbo Transitório Jansy Berndt de Souza Mello:
RE:RE:Viver: Verbo Transitório Visitante:
RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Jansy Berndt de Souza Mello:
RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Marcos Florião:
RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Visitante:
RE:Amor também é Verbo Transitório? --> andorinhas Visitante:
Por falar em passarinhos, enviado por Katia Visitante:
RE:Por falar em passarinhos, enviado por Katia Visitante:
RE:Por falar em passarinhos, enviado por Katia Omar:
RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Visitante:
RE:RE:Amor também é Verbo Transitório? --> andorinhas Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
[Aeternus:167] Mensagem do Grupo11 -Jansy Mello(2003-04-22) - Comentários de Luiz Fernando Gallego ao filme Solaris
Estou abrindo o segundo forum de discussão sobre cinema, incluindo os comentários iniciais do psicanalista Luiz F.Gallego sobre a nova versão do filme Solaris. |
Voltar ao topo [Aeternus:168] Mensagem do Grupo11 -Luiz Fernando Gallego(2003-04-23) - Viver: Verbo Transitório
VIVER: VERBO TRANSITÓRIO
Amar o perdido deixa confundido este coração(...)
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão
(Carlos Drumond de Andrade)
Não é raro que, em sonhos, encontremos, com vida, pessoas que sabemos mortas: a dificuldade em lidar com as perdas se expressa na realização ilusória do desejo de que permanecessem vivas. O filme Solaris, de Steven Soderbergh, é uma nova versão de um livro cuja matéria-prima é a dor pelas perdas significativas. A forma de ficção científica é apenas álibi para a premissa de um planeta com poder de materializar imagens de nosso mundo interno, como que “ressuscitando” os que a morte levou.
Há um texto em que Freud defende o valor da transitoriedade da vida como corolário do valor da escassez do tempo: no verão de 1913, em um passeio pelo campo, o poeta Rainer Maria Rilke revelou seu desalento frente à certeza de que o inverno destruiria o esplendor da natureza naquele momento. Dois anos depois, em plena Primeira Guerra, Freud escreveu “Sobre a Transitoriedade”, denunciando a dificuldade de se aproveitar a vida quando há revolta contra o luto pelas perdas inevitáveis das quais temos consciência antecipada.
“SOLARIS” é, em resumo, o reencontro de um homem com a esposa que se suicidara - ou com alguma forma de vida que a mimetiza. É ela mesma? Sua aparente ressurreição é a milagrosa segunda chance a ser usufruída? Ou apenas um simulacro assustador pela estranheza que provoca - e ao qual se deve renunciar para viver a dolorida certeza da falta de alguém que se amou um dia? A insólita vivência de ser um “estranho que é familiar” se manifesta na própria criatura que é - e não é – a mulher que havia se suicidado.
Na lembrança que me ficou da versão filmada pelo falecido cineasta russo Andrei Tarkovski há trinta anos, a esposa reencontrada novamente se matava e de novo reaparecia para, outra vez, repetir o suicídio: torturantes “eternos retornos”, monstruosos em sua, afinal, coerente fatalidade de uma nova “Eurídice” devolvida ao inconformado “Orfeu” para ser, mais uma vez, perdida.
Nesta refilmagem Soderbergh parece pretender reproduzir o ritmo lento de Tarkovski, produzindo um cacoete estiloso. Desde “Onze Homens e um Segredo”, parece estar se condenando a reviver ou mimetizar outros filmes. Ou cineastas, como em “Full Frontal”, lamentável sub-Altman. Em “Solaris” consegue ser solene, mas não tolera a frustração das faltas, matéria a partir das quais os grandes réquiens são criados. Não apreendeu o que Tarkovski já demonstrara nem compreenderia o que Cecília Meireles enunciou, ao dar voz à beleza fugaz das rosas (“...é por perder-me que me vão lembrando, / por desfolhar-me é que não tenho fim” ).
Seu filme resiste ao que Freud propõe: por mais doloroso que seja, o luto pode chegar a um fim, substituindo o perdido pelo novo. É de se esperar, diz ele, que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela guerra de então. “Quando o luto houver terminado, constataremos que, mesmo com a descoberta da fragilidade do alto patamar em que colocávamos as riquezas da Civilização, elas não se perderam: reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, talvez de modo mais firme e duradouro do que antes.”
Podemos, quase um século de guerras depois, compartilhar dessa esperança? Ou só nos restará sonhar com o planeta Solaris?
Luiz Fernando Gallego
(Texto encomendado e publicado originalmente na seção “O Filme em Questão” do JB de 04/04/2003 com outro título, dado à revelia do autor. O atual título foi sugerido por Davy Bogomoletz de quem recebemos o comentário que se segue)
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Voltar ao topo [Aeternus:169] Mensagem do Grupo11 -Davy Bogomoletz(2003-04-23) - comentários ao SOLARIS/ Verbo Transitório
Gallego, em teu comentário a "Solaris" vi, mais uma vez, (você não é o primeiro, lógico, mas é sempre reavivante ver de novo) como o ser humano é rico de possibilidades. Se Freud é o autor original da idéia, você a levou a um patamar poético (e viva a poesia!) quase sublime. Com Cecília, de quebra, e toda a sabedoria de ser capaz de ver filmes e tratá-los como se deve: como obras de ARTE, iguais em status à literatura e à poesia propriamente dita: obras desse espaço transicional entre a vida e a morte, entre a fantasia e o "real", entre o ser e o nada.
É nesse espaço que vivemos, disse Winnicott, e foi por falta deste saber que Freud não foi até o fim. O paradigma dualista de Freud atribuía à "realidade" uma qualidade corpórea e tangível, por mais que ele tenha tentado borrar as fronteiras. Mas não conseguiu, porque ele é o "pai" de Winnicott, e não poderia ter inventado antes o que só o "filho" foi capaz de perceber - inclusive porque viveu DEPOIS de Freud, e Freud não teve ninguém antes para abrir caminho...
Pois nesse espaço transicional está "Solaris", um planeta (um "mundo", um "universo") onde é possível a um Winnicott dizer: "Eu não disse?", porque não só borra as fronteiras como, ainda por cima, põe o de dentro para fora e o torna "real".
Eu diria que, por falta da noção de espaço transicional, Rilke lamentava-se pela finitude da fantasia e pela esterilidade do "real" (que, aparentemente, nada gera, apenas devora... mas só aparentemente, como lhe respondeu Freud.) Essa noção é, na verdade, o remédio para muitos males, males criados pela Razão tornada Deus por Descartes. Se a Razão é Deus, tudo o que produzimos internamente deveria ter um valor absoluto -mas a vida se encarrega de desmenti-lo, diz Rilke. A onipotência é de fato o nosso motor - mas não basta o motor para levar o carro aonde queremos. O motor é cego, se não fosse o volante, não chegaríamos a lugar nenhum. E o volante nos limita, não é mesmo? Pois nos revela a toda hora que chegar a um lugar significa não chegar a outro, e assim por diante.
Meu amigo, se alguma vez consegui entender alguma coisa de crítica cinematográfica, acho que o que você escreveu merecia ser visto como um paradigma: É assim que se deve procurar um olhar de ver os filmes!
Davy Bogomoletz |
Voltar ao topo [Aeternus:172] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2003-04-24) - comentário ao comentário/ Solaris
Gallego, você escreveu um texto curto mas bastante denso e poético, que levantou as principais questões provocadas pelo filme como quem também suscita e ressuscita aquilo que todos já vivemos nas sucessões das perdas que compõem nossa vida.
Você reapresentou dois poetas e dois poemas sobre a presença do que não mais existe "do lado de fora", mas insiste internamente e ali ganha vida: Drummond e Cecília Meirelles. Há um poema de Keats que sugere um tema semelhante quando ele descreve uma urna grega para concluir que o amor que não se alcança permanece e que as melodias que não se ouve são mais doces que as que nos chegam aos ouvidos. Por mais atraentes que estas idéias pareçam, e dolorosas também, não me vejo aderindo a elas. Em outras palavras, temo que meus mortos não poderiam ser recriados por Solaris porque lhes faltaria a indispensável consistência mnêmica para lhes dar corpo e sintomas ( como o da esposa que insiste com seu suicidio). O passado recordado tem uma qualidade de "juízo final" porque dele brotam as marcas que fazem com que surja o traçado de uma vida e garantem o sentido dos atos "conseqüentes" ( ou seja, dos atos que vem em seguida, em seqüencia ). Mas me distanciei do filme porque você tratou tão bem dele que tornou quase desnecessário acrescentar-lhe novos comentários. Ás vezes os vivos são sombras convincentes como as produções de Solaris e sua vida não nos chega tanto através da sua presença física ( o mundo virtual está diante de nós para ser explorado, sem os excessos daquele outro filme com Al Pacino,"Simone" ), nem do que deles recordamos, mas pela potencialidade das surpresas que podem provocar em nós e que eles próprios podem experimentar. Acho que foi isto que me assustou no Solaris, a idéia de ficarmos enclausurados na repetição do que já foi vivo em nós algum dia a ponto de perdermos a abertura para o acaso, o imprevisto, para o futuro. p |
Voltar ao topo [Aeternus:173] Mensagem do Grupo11 -Peter Mello(2003-04-25) - Texto Soláris - Sessão Biblioteca
Senhores,
Aproveito para informar que o texto que deu origem a este fórum está na sua íntegra e em formato PDF na sessão BIBLIOTECA do site.
Outras contribuições podem ser enviadas a biblioteca@aetern.us e gradativamente estaremos disponibilizando em nosso site.
Peter |
Voltar ao topo [Aeternus:174] Mensagem do Grupo11 -jansy et alii(2003-04-25) - diálogos e poemas sobre Solaris
Escreveu Graça Ramos comentando a resenha de LF Gallego:
Ainda vou assistir à película, mas gostei de sua resenha. Mais do que do filme, ela trata do que é fundamental e muita gente (parece ser o caso do diretor) não vê:
"Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No
desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno."
Comentou Jansy Mello:
A frase que me agrada mais neste poema é " Morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer". O resto é pensamento ordenado, no entanto estes dois versos são um poema sozinhos.
Me instiga a idéia de estar imensamente no tempo e no espaço como quem morre por estar vivo, nessa experiência de expansão em que dor e gozo se aproximam.
Quanto ao Solaris, quando você criticou o Sorderbergh por imitar Altman, mais outros diretores e estilos, você caracterizou uma repetição, um eterno retorno que faria eco ao tema do filme Solaris. Esse detalhe quase passa desapercebido na sua crítica, mas me pareceu um achado da sua parte.
Observou Gallego:
"Morrerás por idades imensas" é realmente uma frase POÉTICA que lembra a Cecilia d'O Romanceiro da Inconfidência
("E vieram tantos cavalos/ Tantos na noite imensa..." Acho que é assim.
E você captou bem minha intenção de dar exemplos da "coerência" do Soderbergh com o ideário que a versão que ele filmou de "Solaris" transmite. Só não quis ser muito óbvio nem explícito, cofiando na capacidade de percepção/interação dos eventuais leitores do meu texto. Parece que fiz bem.
Observou Ruy Penalva:
Os poemas de Cecília são tão delicados que a gente não os retem, é como se os não tivesse lido.
Observou Jansy Mello:
Ruy Penalva deu um exemplo no qual a poesia desapareceu de um universo para ser criada em outro, bastando a lira de Orfeu aparecer para devolvê-la à luz, mas com a mesma leveza.
Foi isto ainda que achei interessante, no comentário ao Solaris do Gallego, quando ele traçou um paralelo entre as repetidas mortes da mulher, no filme, e o mito de Orfeu e Eurídice.
Os mortos não se transformam em assombrações dos os vivos, na mitologia grega. É como se permanecessem vivos enquanto excluídos do tempo e do espaço e, seus Avernos e Acherontas em nada se assemelham ao inferno cristão com sua promessa linear de perdão e salvação.
Hoje tambem entendi algo sobre Sísifo que colocou este outro mito sobre repetição e a circularidade do tempo numa perspectiva nova. Até então me parecia tratar-se de uma história na qual Sísifo era condenado pelos deuses a empurrar uma pedra morro acima até que, chegando com ela ao topo, assistia sua queda e novamente se via tendo que empurrá-la para o alto. Percebi agora que Sísifo não era um herói distinto daqueles que leem sua história e o imaginam empenhado na repetida função de rolar pedras, como se o vissem à distância às voltas com seu castigo, infeliz ou então feliz como propunha Camus. É que não há um cenário uma vez que Sísifo seria todos nós e sua pedra seria o mundo que não podemos"empurrar com a barriga", como se o pudéssemos apreender. Não há como isolar Sísifo, pedra, mundo e vida do nosso deslizamento no tempo...
Responde LF Gallego:
O "deslizamento do tempo" faz rima com a imagem de delizamento das pedras ladeira abaixo. Foi intencional?
O poema citado pela Graça é mesmo de Cecilia Meireles, complementando tua observação sobre o eco (sem voz própria) em Soderbergh.
observa Jansy:
Solaris teve como efeito nos lançar no mundo do mito. Gallego pensou na triste ninfa Eco que, de tanto amor por Narciso, foi se apagando até restar apenas como voz. O mito de Narciso ganha sentido com a inclusão de Eco, porque a figura desta ninfa expressa algo que, de Freud, nem sempre está muito aparente. É preciso que haja um movimento para dentro e para fora como na respiração, uma alternancia entre a projeção e a introjeção, um jogo de investimentos e de retirada dos investimentos em tudo que fazemos. No luto, como bem apresentado pelo Gallego ao retomar o artigo de Freud sobre " o transitório" , há uma retirada das catexias e um fechamento ao mundo externo até quando o prazo normal do luto se esgotar e o mundo externo puder ser investido de amor mais uma vez. Eco e Narciso representam, entre outras coisas, os dois excessos no amor que se perde em si ou no outro, repetição tão fortemente recriada em Solaris que corremos o risco de cair em sua rede fechada de tempo cíclico...
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Voltar ao topo [Aeternus:176] Mensagem do Grupo11 -Gustavo Costa(2003-04-29) - Poetar - verbo intransitivo
Agradam-me os comentários sobre "As Horas" e "Solaris", suas nuances captadas por olhos e ouvidos argutos, mas confesso que mais me agrada o tom poético impresso nas observações. E me leva cada vez mais à certeza de que poesia é modo de apreensão do mundo, sistema orgânico e mágico, muito mais do que mero gênero literário. Isso vem depois, bem depois, através do fenômeno poético. E me leva a pensar no por que nunca existiu o Realismo em poesia (esta pode ser concreta, crua, cruenta, mas nunca realista). E mesmo na prosa, questiono sua fragilidade conceitual. Entre nós, Machado sabia disso. Por que seu personagem masculino mais famoso era um morto ? E o feminino, Capitu, uma quase esfinge, cujo comportamento sexual, suposto moto da trama, nos foi sábia e requintadamente sonegado pelo autor ? Para os incautos: "- Chega dos excessos românticos!". Mas extirpou-se uma função mental imperdoável. E as asas de cera do Realismo, com suas cores mais e mais berrantes, sua arrogância metálica e frenéticos excessos nos trouxe de volta a "imensidão", o mundo abismal do Expressionismo (alhures) e entre nós o Simbolismo. Ou, tirando os rótulos acadêmicos, o sonho, o transbordamento, o reino sobranceiro da poesia. Ao encantamento. Gustavo Costa |
Voltar ao topo [Aeternus:177] Mensagem do Grupo11 -Davy Bogomoletz(2003-04-29) - Poetar é preciso, Viver não é preciso...
Gustavo, um abraço. Você disse algo que me é muito caro. O poético é a língua do eu-mesmo, o prosáico é a língua da mente (e como mente!...).
Ou você é winnicottiano, ou você é winnicottiano e não sabia. Sustento sempre que vivemos nesse meio do caminho entre a fantasia e a "realidade", e só fingimos que somos "realistas" (para que nos achem "reais") porque essa é a tra(d)ição da sociedade em que vivemos. No fundo, quando ninguém está olhando, ninguém é "real", somos todos fantásticos. Portanto poéticos.
Valeu.
Davy.
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Voltar ao topo [Aeternus:179] Mensagem do Grupo11 -jansy(2003-04-29) - o belo e a realidade
Escrevo sem o tempo de que precisava, com medo de deixar passar os dois comentários do Guto e do Davy.Ontem alguém me perguntou se eu associava alguma cor ao nome "aetern.us" e de imediato vieram duas, vermelho e amarelo. Percebi que havia substituído a imagem de Freud com a qual começamos o site pela estampa de um por de sol em Salvador nestes tons "aeternus", mas nada disso foi premeditado. Até o amarelo e laranja da moldura deste texto não foi criado por mim, mas pelo Webmaster, sr."peternus" ...
Vai ver que poesia se faz assim, não sei. Gostei muito das apreciações do Gustavo, da ligação com os mortos do Machado até a questão dos "Romanticos", ressurgidos no simbolismo, por exemplo. Muitos psicanalistas academicos, e W.R Bion apontam para a filiação da psicanálise ao Romantismo pela via dada à voz do inconsciente e a poesia. No entanto, releituras atuais à Virgínia Woolf começam a me ensinar, junto com Lacan, a respeito dos excessos do gozo e da beleza.
Davy, aprecio o modo pelo qual você introduz a riqueza do " espaço transicional" de Winnicott para nós e como você sugere ser possível entendermos a realidade. Mas não temos controle sobre o Real, só este lembrete... |
Voltar ao topo [Aeternus:182] Mensagem do Grupo11 -Gustavo Costa(2003-04-29) - Poetar é preciso.... redigir é uma exigência...
Caro Davy, retribuo seu abraço. A identificação com Winnicott é acidental. Recomenda algo específico para que eu possa estudá-lo ? Acho que a grande competência consiste em transitar entre o território sagrado do sonho e o real (?) sem tédio ou desespero, ser flagrado com lágrimas ou suores e dar uma bela desculpa sem culpa. Ou não. |
Voltar ao topo [Aeternus:183] Mensagem do Grupo11 -Gustavo Costa (Guto)(2003-04-29) - O belo e a realidade II
Cara Jansy, fico feliz com suas observações. Penso que a expressão "literatura realista" é intrinsecamente contraditória. Quanto ao excesso, à desmesura, conquanto punível, traz possibilidades infinitas, até mesmo, quem sabe, o duro aprendizado da justa medida - se Darwin permitir que sobrevivamos, é claro. Mas não será a "justa medida" coisa de alfaiate ? Confesso que, na mensagem de ontem, ao escrever "poesia é modo de apreensão da realidade...", digitei "poesia é MEDO ....", ou seja, estaca zero! Beijos e um bom feriado para todos |
Voltar ao topo [Aeternus:184] Mensagem do Grupo11 -jansy(2003-04-29) - Arguto...
Para o arguto que saiu revelando seu apelido logo na primeira mensagem, você nos brinda com o lapso que fez da poesia " um medo", em vez de um "modo"...
Por trás da minha primeira resposta havia silenciosamente operante um verso de Rilke " o anjo é um degrau antes do terrível" que insistia com a forma de "o belo é um degrau antes do horror".
Se você pegar o comecinho do delírio de Septimus no "Mrs. Dalloway" de Virgínia Woolf, encontrará a desmesura diante do embevecimento com o mundo que deveria advir em V.W. da sua própria experiência de enlouquecer pela fruição estética. Lacan recomendou a regulação do "princípio do prazer" para o excesso do gozo e também trabalhou sobre a referência fálica necessária para que a experiência gozoza não se esborrache no real inefável.
Minha observação não tinha o intuito de recortar o mundo segundo uma áurea medida de haute-couture, como nova arte ou novo capricho. Ela tratava da nossa impotência diante da enormidade de certas experiências possíveis.
É um prazer trocar idéias com você que, se me recordo, foi admirador de Hermann Hesse até que se especializou na poesia da Justiça e do Direito. Não sei o livro do Winnicott que o Davy recomendará, mas " O Brincar e a Realidade" é fundamental na minha opinião. Para pais novinhos, " A Criança e Seu Mundo" pode ser interessante...
Um abraço, Jansy |
Voltar ao topo [Aeternus:185] Mensagem do Grupo11 -Gustavo Costa(2003-04-30) - Gostei do "arguto".
Minha cara, o prazer de trocar idéias é recíproco. Vc falou de anjos prenunciando o horror, e eu lembrei de Fausto, aliás, já havia me lembrado desde o debate de ontem: "Agora posso compreender. O homem jamais gozará da perfeição. Assim é que me sinto transportado: do desejo ao prazer, e em pleno prazer, anseio pelo desejo". Há uns dois anos reli Demian, um romance tido para jovens iniciantes na boa literatura - já que falaste de Hesse -e, com imensa delícia, percebi que não envelheci, ou que Hesse jamais envelhecerá, ou ainda que ambos, envelhecidos diversamente, temos porém alguma musicalidade que nos irmana. Todos nós. Um abraço. |
Voltar ao topo [Aeternus:186] Mensagem do Grupo11 -helena daltro pontual(2003-05-06) - solaris
Gostei de tudo o aue foi falado até então sobre o filme Solaris, com destaque para o artigo de Gallego. Gostei muito do filme, mas me pareceu que o anterior, original, era mais assustador. Não sei se é engano meu ou se realmente existiu naquele filme um astronauta que fechava a porta de sua cabine porque seu sonho que estava materializado era algo monstruoso. E aquilo ficava escondido dos demais e do telespectador. Acho que falou essa parte no filme da segunda versão. Gostaria que vocês me elucidassem se é isso mesmo. |
Voltar ao topo [Aeternus:187] Mensagem do Grupo11 -helena daltro pontual(2003-05-06) - correção
Em vez de "falou" é "faltou" essa parte do filme na segunda versão. |
Voltar ao topo [Aeternus:189] Mensagem do Grupo11 -Luiz Fernando Gallego(2003-05-06) - Si non è vera...
Prezada Helena:
Se vc não me implantou uma falsa memória sobre um filme que assisti há quase 30 anos, acho que a cena mencionada existia, sim, na versão original do Andrey Tarkovsky. Mas Solaris, o planeta, não (nos) mente jamais. Mais dos que as cartas das ciganas: ele materializa o que existe em nós. Portanto, a cena deve existir: em Helena, e/ou no Gallego e/ou no filme russo. Que tal conferirmos no livro que foi republicado? Ou em antigas lojas cult de fitas de video que tenham o vhs? Se a cena mencionada (ou devo dizer sugerida?) não existia, deveria existir (si non é vera é benne trovatta). Obrigado por ter se manifestado quanto ao meu artigo. Gostou e disse! Obrigado."
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Voltar ao topo [Aeternus:191] Mensagem do Grupo11 -helena daltro pontual(2003-05-08) - Cena do Solaris
Sim Gallego, de nada. Pensei a mesma coisa que você. Se não é verdadeira essa imagem é provável que seja. E se não estiver mesmo no filme deveria estar. Mas tenho quase certeza de que está. É bom mesmo conferirmos. |
Voltar ao topo [Aeternus:192] Mensagem do Grupo11 -Gustavo Costa(2003-05-14) - "morrerás por idades imensas".
Um comentário da Jansy sobre um poema de Graça Ramos (ou transcrito por) me chamou a atenção há vários dias, mas creio ser proveitoso reacender a discussão, sem qualquer pretensão acadêmica e sem pretender pintar o mármore.
"Morrerás por idades imensas/Até não teres medo de morrer".
A beleza intrínseca dos versos (sobretudo o primeiro) também foi comentada, salvo engano, pelo Gallego. É difícil arriscar a razão, mesmo porque, conforme opinião já exposta, razão e poesia são elementos químicos de diversas valências, com propriedades diversas. Mas a Jansy deu uma pista: "o resto é pensamento ordenado, no entanto estes dois versos são um poema sozinhos". Ora, o pensamento ordenado - já foi dito por alguém - é essencialmente prosaico e tende a se afastar (não colocaria como regra) do chamado "fenômeno poético" que é, em última análise, inexplicável. Não sou maniqueísta, há grandes poemas em prosa, intelectivos (F.Pessoa nos comprova isso)e não é qualquer arroubo lírico que me agrada os ouvidos. Mas acredito que a boa poesia permite, além da emoção - e até mais do que ela - uma fluência da imaginação não verbal. Sei lá o que se quis dizer com "idades imensas", e pensei nuns cinco conceitos, mas a expressão possui densidade extramusical própria. Às vezes as metáforas transversais, como em Pablo Neruda, nos quebra não só racionalmente, mas no plano da emoção fácil, nos inserindo no belo da poesia autêntica. Mas poema é bonito no seu conjunto, e é bom que tenha um ápice, como um refrão, um epílogo, uma apoteose, uma erupção, um transbordamento...(acho que descobri por que não curto bossa-nova). Se o tema "poesia" não for insistente, gostaria de ouvir os amigos. Guto |
Voltar ao topo [Aeternus:193] Mensagem do Grupo11 -jansy@aetern.us(2003-05-14) - como se falar sobre poesia?
Boa idéia, Guto, retomar o debate sob a perspectiva do fenomeno poético no efeito que produz no leitor, ou como brota em um determinado poema, ou quanto à forma de engendrá-lo pelas sonoridades, pelas metáforas... Tenho mais uma contribuição de Graça Ramos via Gallego de Cecília Meirelles, ainda no clima de " As Horas" que acrescentarei na próxima mensagem. Poemas próprios também serão bem-vindos. |
Voltar ao topo [Aeternus:194] Mensagem do Grupo11 -Jansy(2003-05-14) - precária e veloz felicidade...
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
Cecília Meirelles, 1939 |
Voltar ao topo [Aeternus:195] Mensagem do Grupo11 -Gustavo Costa (Guto)(2003-05-26) - Domingos Carvalho da Silva, in memoriam.
Gostaria de homenagear um antigo professor meu da UnB, Domingos Carvalho da Silva, recentemente falecido em SP, com um de seus poemas. Era membro da Academia Paulista de Letras, e também tradutor.
APOCALIPSE
Porque a lua é branca e a noite
é simples anúncio da aurora;
e porque o mar é o mar apenas
e a fonte não canta nem chora;
e porque o sal se decompõe
e são de água e cristal as rosas;
e a luz é simples vibração
que excita células nervosas;
e porque o som fere os ouvidos
e o vento canta na harpa eólia;
e porque a terra gera os áspides
entre a papoula e magnólia;
e porque o trem já vai partir
e o corvo noz diz never more;
e porque devemos sorrir
antes que o crepúsculo descore;
e porque ontem já não existe
e o que há de vir não mais virá,
e porque estamos num balé
sobre o estopim da Bomba H:
não marcharemos contra o muro
das lamentações, prantear
a frustração de tudo o que
sonhamos ousar, sem ousar.
Títeres mudados em gnomos,
enfrentemos o Apocalipse
como pilotos da tormenta
entre o terremoto e o eclipse.
Vamos dançar sobre o convés
enquanto o barco não aderna;
vamos saudar o sol que morre
e a noite que vem fria e eterna.
Vamos zombar deste universo
em nossos olhos refletido;
quando os fecharmos, será como
se nunca houvesse existido.
Vamos crepitar entre as chamas
nosso último arrebatamento;
porque amanhã seremos só
um pouco de cinza no vento. |
Voltar ao topo [Aeternus:196] Mensagem do Grupo11 -Eugênia C. Kruzen(2003-05-27) - Poema
o luto exige
tule e tela
lábil jangada
cálida efígie
o luto erige
pele em vela
Eugênia Correia Kruzen
|
Voltar ao topo [Aeternus:197] Mensagem do Grupo11 -Guto(2003-05-27) - Poema
Belo, Eugênia! A par da perfeição formal, resgatou-me algo que sempre observei nos cadáveres: uma certa mineralização, algo que os enfeia tremendamente. Sem a pretensão de manter o nível dos últimos poemas transcritos, ouso:
Enfim, você.
Pelo espelho de seus olhos
vejo os pedaços de mim
ao longo da estrada.
Sobre seus ombros, a mesma cena:
restos caídos na noite soturna.
E atrás dos montes, o Gênio da Ilusão
com seu riso sangrento e pálido da vitória
cruenta, noturna.
Mas me abrace.
Aperte meu corpo contra o seu
e deixemos que o sol do meio-dia,
absurdo e cálido,
derreta as sobras do que fomos.
E o amálgama de nós,
endurecido pelos ventos da tarde
soprados num cântico demente,
possa ter, mesmo que por um instante,
ou menos ainda,
a eternidade dos sonhos,
da chama que arde
e se extingue, docemente.
|
Voltar ao topo [Aeternus:5505] Mensagem do Grupo11 -Conde Drácula(2005-11-28) - C I N E M A
 Minhas recomendações são três, nesta ordem: STALKER SOLARIS O SACRIFÍCIO Mas sem Stalker nenhum outro vale a pena. Stalker é TUDO. E é ÚNICO. É um filme que pode mudar a vida de alguém pela RAIZ. Pra dizer o mínimo. O CINEMA (com todas as letras maiúsculas) encontra em Stalker sua razão de existir, o filme faz do CINEMA algo NECESSÁRIO. Para ser visto com todos os olhos. Mas não com os analíticos. Seria muito monoscópico demais. Tarkovski é a multidimensionalidade. Dá um certo trabalho a gente reagrupar as moléculas ao final da projeção... Será que os filmes dele só funcionam no cinema? O Stalker eu revi em vídeo e funcionou, me desintegrei tudo de novo. Mas aí não vale, porque eu já tinha visto no cinema. Aqueles três eu vi no cinema. O Solaris foi na adolescência. Não entendi patavina naquela primeira vez, fiquei no ar. Anos mais tarde, quando vi o Stalker, quase precisei sair carregado do cinema pelos amigos. Eu escutava de longe eles falando "não entendi nada, que filme esquisito" e eu catatônico, imóvel. Mas aí o Solaris passou a me fazer sentido. Quando revi, parecia outro filme, então sob os efeitos de Stalker. Maravilhoso. Mas eu não aguento não falar da cena que me arremessa à galáxia de Andrômeda: lá pela metade da jornada, o Stalker tá dormindo sobre uma poça d’água, tá passando um cachorro, aí corta pra um travelling vertical, com a câmera também em posição vertical apontada para o chão cheio d'água, mostrando um piso em ruínas, tudo quebrado, profundidades diferentes e vagas se alternando com fragmentos mais nítidos, tudo misturado com o reflexo do que está fora da água... peloamordedeus!!!!!!!!!!!!!!!!!!! O Kubrick (que é outro que eu ajoelho quando falo...), deve ter morrido de inveja... |
Voltar ao topo [Aeternus:8157] Mensagem do Grupo11 -Conde Drácula(2006-10-12) - Escultura
 "Esculpir o tempo" de Andrei Tarkovski tá arrumado na seção "Escultura" da FNAC da Paulista. A delicadeza inconsciente do gesto comove-me. E o erro não podia estar mais certo, né? |
Voltar ao topo [Aeternus:8158] Mensagem do Grupo11 -Conde Drácula(2006-10-12) - RE:Escultura
 E isso me faz lembrar que eu gostaria de digitalizar uma foto do Stalker que tem lá (acho que tem, deve ter, não tem?), aquela em que o Stalker está dormindo sobre uma poça d'água em meio às ruinas e um cachorro passa ao fundo. E vocês se lembram daquele travelling vertical mostrando a poça d'água, o ladrilho carcomido, a terra esboroada, tudo se misturando a diversas imagens refletidas na água? Aquilo me conduz a uma "viagem" mais delirante do que a passagem interdimensional de 2001! |
Voltar ao topo [Aeternus:8313] Mensagem do Grupo11 -Conde Drácula(2006-11-20) - Solaris erótico???
 (o artigo que serviu de pretexto presse meu texto, copiei-o abaixo)
Bom, de duas uma: ou eu sou pervertido e NÃO vi nenhum erotismo em Solaris, ou é o Slavoj Zizek quem é pervertido. Deixeu contar então umas coisinhas sobre a historinha que serve de pretexto pro Tarkovski teologizar sua revolucionária cosmogonia: Solaris é um planeta, mas é, acima de tudo, um ser, um ser vivo que, para desgraça de todos os que se aproximam dele, CONCRETIZA os desejos mais profundos (não necessariamente conscientes).
Ocorre que o protagonista ainda pranteava a viuvez, e o Solaris resolve por bem materializar a muié do cara de novo pra ele. Mas sempre falta a linha d'água nas falsificações, e a criatura tem umas esquisitices. A pior delas é a mania de ressuscitar depois de levar pancadas mortais. É uma cena pra lá de asquerosa, porque não é uma aparição, não é uma fantasmice, é uma ressuscitação espasmódica, um (des)estrebuchar muito orgânico (irch), muito corporal, muito material.
Então, se tem alguém que, ao ver o filme, tenha suposto que o astronauta lá pulou de alegria por ver a muié dele bonita e inteiraça de novo, então eu diria que o cara é um... pervertido.
A perversão, por definição, é a erotização daquilo que, em princípio, não é erótico, né?. Isso me faz lembrar daquela obra-prima com a Isabelle Huppert, "A professora de piano"...
Se não tiver esse filme na listinha do Zizek, então não vale... Mas até que fiquei curioso pra saber O QUÊ ele viu de erótico em Solaris. Vou até procurar no meu DVD (comprei o DVD de Solaris, mas não vi ainda, não consigo sair do Stalker, que considero mais... digamos... lisérgico?) se tem alguma trepada.... se bem que esses caras gostam de viajar na maionese (o Zizek, por exemplo, uma vez fez uma análise de Matrix 1 e 2, antes de lançarem o 3, e ele fez um link entre a "Revolution" que se esboçava na série de HQ cinematográfica com a idéia esquerdista de revolução... maór bola fora, fala verdade... aliás, muitas bolas fora em um só chute).
Enfim, sempre que falam em Zizek, eu fico meio com o pé atrás...
Mas voltemos ao Solaris, que é um fascínio: Tarkovski (sim, não preciso dizer aqui que aquela versão feita pelo Soderbleargh com o intolerável George Clooney meio que não existe pra mim, certo?)... Tarkovski, como eu dizia, brinca com a idéia do que SEJA um SER. Afinal, a materialização da muié era material mas não era de carne e osso, era apalpável, mas, por dentro, não tinha essas coisas que a gente aprendeu na escola que tem dentro da gente: os órgãos, o sangue, nada disso. Ela era uma espécie de... geléia viva com o FORMATO da muié do cara...
E no fim o cara meio que encontra seu... digamos... pra recorrer a um termo cidadãokaneano... ele encontra seu ROSEBUD!!!!
E com o repensar do SER e da materialização, Tarkovski teologiza um universo que vê através de nossos olhos, tirando-nos da condição de adversários de Deus (como fomos acostumados a experimentar essa relação) para nos elevar à condição de co-criadores do Cosmos.
Não é lindo?
(ah, por falar em Guia... vocês já assistiram ao delicioso trash-de-luxo "O Guia dos Mochileiros das Galáxias"? eu recomendo)
http://olhaso.nominimo.com.br/
Publicado por Ricardo Calil - 18/11/06 12:01 AM
O guia dos pervertidos para o cinema
O que torna um filme erótico? Essa é uma das perguntas que “O Guia dos pervertidos para o cinema”, documentário britânico em três partes, tenta responder.
Para a tarefa, a diretora Sophie Fiennes convoca o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, considerado uma estrela em suas duas áreas de atuação.
Não espere respostas óbvias de Zizek, como mulheres bonitas e sexo explícito. Como explica um artigo do jornal “The Independent” [http://enjoyment.independent.co.uk/film/features/article1962796.ece], o filósofo está mais interessado em investigar as relações entre desejo e fantasia nos filmes.
“O cinema é a mais perversa das artes. Ele não lhe dá o que você deseja - mas diz como desejar. Os filmes despertam nosso desejo, ao mesmo tempo em que o mantém a uma distância segura, domesticando-o e tornando-o palatável”, ele diz no filme.
Tampouco pense que ele fala de filmes eróticos batidos, como “9 semanas e meia de amor” ou “Instinto selvagem”. As obras analisadas no documentário vão de “Um corpo que cai” a “Dogville”, passando por “Solaris” e “Matrix”.
Segundo Zizek, o desejo feminino costuma ser uma ameaça à identidade masculina no cinema. Para provar, ele cita o protagonista de “Um corpo que cai”: “Dentro da lógica da libido do macho, a única boa mulher é a mulher morta. Scottie (James Steward) não quer uma parceira sexual de carne e osso, preferindo recriar uma mulher ficcional. E a única maneira de Judy (Kim Novak) ter sexo com ele é submeter-se a sua fantasia.”
“O guia dos pervertidos para o cinema” será lançado em DVD na Grã-Bretanha na semana que vem e não tem data para chegar ao Brasil. Mas no site oficial [http://www.thepervertsguide.com/] do documentário é possível ver sua abertura. |
Voltar ao topo [Aeternus:8314] Mensagem do Grupo11 -Marcos(2006-11-20) - RE:Solaris erótico??? / de rabos e universos
 O que é 'erótico' varia tremendamente em cada um de nós. O cinema americano, em geral, não consegue 'ser erótico' porquê os realizadores pasteurizam suas possibilidades, misturam-nas como num processo industrial de larga escala. Partem de um mundo pronto e de pressupostos. É preciso ressaltar, no entanto, a(s) exceção(ões). A adúltera de Diane Lane em "Unfaithful" tem alguma alma, descabela-se e descompõe-se, ao menos. Outro dia vi cenas eróticas, por exemplo, em "Sideways". Méritos ou deméritos à parte no filme, há alma nos personagens, ainda que eu não esteja falando em nada especialmente majestoso. Tome-se o cidadão comum, por exemplo : uma garçonete gorducha atrai o personagem-galinha da road-adventure, que aceita aventurar-se na casa dela pouco antes da chegada ao lar do cônjuge. Surge nu poucos kms. dali, ofegante e com os pés machucados na correria : 'o marido dela chegou antes da hora prevista, bem na hora que eu estava engatado no rabo dela'. Volta ao 'local do crime' com o parceiro de viagem, pois na pressa deixara a carteira e todos os docs. e cartões na mesma sobre a cômoda da moça. O amigo-comportado reluta em ajudá-lo, dizendo 'você quer que eu bata lá, diga 'boa noite ! Meu amigo estava aqui comendo sua esposa, deixou os docs., e....'. Decide entrar sorrateiramente pelos fundos, como um ladrão, e diante da casa vazia e revirada chega ao quarto dos fundos, onde ouve troca de sussurros. O casal trepa sofregamente, o marido chamando a mulher de vadia pra lá, corroborando a sedução, e ela reafirmando a putaria toda. Ainda a propósito do erotismo nesse filme, há uma modulação interessante na diferença entre o exercer erótico de cada personagem. É exatamente isto que mais falta no cinema americano : há uma espécie de 'saber geral' que deserotiza as possibilidades com potencial erótico. Aquelas festinhas de despedida de solteiro, onde já se sabe início/meio/fim, e as conversas entre mulheres e uma noiva americana são mais previsíveis e broxantes do que "A Hora do Brasil". Conde Drácula lê uma meia-gravidez em "Solaris" : nem Deus-só criando o Universo, nem o Homem só, Deus inexistente-morto, mas uma co-autoria. Curioso. Ontem, conversando com um amigo-Zen do Pós no Jockey, abordei o sublime e o trágico em Schiller e Nietzsche, e ele divagou sobre o prejuízo causado( involuntário...) da Mitologia Grega ao pensamento ocidental. Falou em centralização do pensamento criativo no Homem, na tal morte de Deus decretada pelo Zarathoustra. "Tentam sempre botar na bunda de Nietzsche, mas Nietzsche acaba botando na bunda de todos !" - disse ele. "Só Hölderlin conseguiu algo, porquê quando foi à Mitologia Grega já faz uma releitura dela desvinculando o Homem de Deus." ( durma-se com um barulho desses ) |
Voltar ao topo [Aeternus:8315] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2006-11-20) - RE:RE:Solaris erótico?
Florião, nada sei quanto aos efeitos deletérios dos deuses gregos na nossa cultura. Mas não creio que fossem deletérios ( ou algo neste sentido, como vi na sua mensagem). Já que você está nessa de Nietzsche e Schiller, porque não vai atrás do que Heine tinha a dizer sobre o romantismo alemão e dos motivos pelos quais foi exilado para Paris? Tema semelhante, monoteismo versus politeismo ( ou animismo ou..?), animou algumas páginas de George Steiner em "Language and Silence" . A questão é simples: gregos e nórdicos, muitos indianos e africanos apreendiam o mundo como estando iluminado ou povoado por vários deuses. A nostalgia desta pluralidade deve ser o que hoje norteia o Brasil, por exemplo, com gregos e goianos opinando pra todo lado enquanto o Lula sorri e não enxerga nada. Já a cultura judaico-cristã é monoteísta. Com momentos nostálgicos cheios de santinhos e nossa-senhora, mas sempre referida a um unico deus ( que é tres, mas isso é outra matemática e não tem nada a ver com o tres grego de Freud).
Quanto a Solaris, não entendi nada do que você escreveu. Pensei que o filme tratasse da ligação entre desejo e a compulsão à repetição.
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Voltar ao topo [Aeternus:8316] Mensagem do Grupo11 -Marcos(2006-11-20) - RE: as especulações sobre Solaris e o erótico
 O especialista em "Solaris" e autor da especulação é o Conde Drácula. Eu só me estendi ao erótico e ao ângulo de co-criação do cosmos Deus/Homem. Não sou especialmente interessado em teoria ou ontogênese, embora goste sempre quando leio algo interessante e saber a respeito. O que apaixona cada um de nós é intangível. Acaso ou não, ontem assisti, a convite de amigos, a peça "A Alma Imoral", do rabino Nilton Bonder. Aborda transgressão/certo/errado, basicamente, e trata-se de uma ousada adaptação da Clarice Niskier, misturando talento, simpatia e uma enxurrada conceitual em cena. Ela se intitula judia-budista... |
Voltar ao topo [Aeternus:8317] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2006-11-20) - RE:RE: as especulações sobre Solaris e o erótico
Pensei que pudesse conversar com você, sem ter que ligar o tal do CD ao "Solaris" ou ao Tarkovski, ou a você.( Aos meus olhos ele extrapolou e não quero mais vê-lo nem pintado.) Não entendi sua resposta, que história é essa de teoria ou ontogênese. Você escreve de teoria. E, volteando em torno de Nietzsche e Schiller, esquece de lidar com pontos de vista menos centrados na destruição uni-onipotente. Mas então, deixa pra lá.
Queria apenas registrar aqui minha estranheza com algo que vem se passando nos bastidores brasileiros, que desconheço, mas não pude deixar de entrever uma portinha aberta e... Ontem estava prontinha para embarcar pela TAM ( trinta e tres vôos não sairam, segundo informa o site do Terra) e o piloto estava dando sopa na entrada e conversando conosco. Nunca tinha visto isto acontecer. Depois, da cabine, ele se dirigiu várias vezes aos viajantes. Avisou que iniciara procedimentos para pouso autorizados naquele instante. Antes tinha previsto um atraso e, agora, garantia que chegaríamos no horário correto. Cinco minutos depois ele contactou novamente os passageiros para dizer que haveria um atraso porque não podia descer na pista 21 e havia sido redirecionado para a pista 5. E toca descer... Outros minutos mais, o piloto volta a falar com os passageiros para avisar que não ia mais pousar na direção QI 17 para Núcleo Bandeirante, mas pegaria a pista 9 (não recordo quais numeros ele falou, coloquei ao acaso).. Baixa trem de pouso. Volta a anunciar outra mudança. Ficamos meia hora circulando a cidade. Quando desci do avião e passei pelas salas de embarque ouvi avisos dos alto-falantes para os que ainda iam viajar. Algo mais ou menos assim: Comunicamos aos passageiros que o vôo tal, que sairia do portão 2, agora decolará do portão 9 devido ao reposicionamento das aeronaves. Pedimos aos passageiros aguardando no portão 11 que se encaminhem para o portão 13. Pedimos aos passageiros que estão no portão 5 que façam fila no portão 7. Samba do crioulo doido? Então me lembrei que, no início de outubro, já passara por algo parecido quando viajei pro Rio. Me mandaram pro portão 12, disseram que a aeronave precisava de consertos e que iriamos ser acomodados no vôo seguinte, que sairia do portão 10 e, finalmente, entramos por outro portão que nem foi anunciado no alto-falante. Uma moça que ia para Miami e estava em vôo de conexão, perdeu a viagem e chorava desconsoladamente. |
Voltar ao topo [Aeternus:8318] Mensagem do Grupo11 -Marcos(2006-11-20) - RE: as especulações sobre Solaris e o erótico
 Não tenho muito cacife para conversar nessa área. Fico mais como ouvinte e aluno. Me contentam os rasgos de Beleza e brilhantes considerações de vocês. Sobre o balizamento, apenas me descontraí de compromissos teóricos necessariamente mais sólidos, ou posicionamento definido precisamente, daí ter citado 'teoria' e 'ontogenia'. Talvez inflenciado pela Clarice de ontem, que logo de saída pede aos expectadores para 'deixarem o que for dito chegar sem bloqueios, sem uma crítica imediata', para num movimento posterior, aí sim, refletirem se assim desejarem ou forem instigados. Ao menos ela consegue definir-se 'judia-budista'. Eu nem saberia como me definir...minha religião sou eu comigo mesmo e com Deus. |
Voltar ao topo [Aeternus:8319] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2006-11-20) - RE:RE: as especulações sobre Solaris e o erótico
Gallego achou uma reportagem sobre uma moça judia e budista, outra sobre Lacan e o budismo e só não colocou aqui porque o Aeternus continua dando defeito e não deu para incluir. Vamos ver se, dentro de uma ou duas horas, as coisas se normalizam como os vôos do PT no Brasil.
Ele me informou também que estão avisando que a Direct-TV vai acabar com o canal Film & Arts. Me deu um desanimo enorme, acho que poderia me ver como parte de uma minoria com direitos de minoria, não? Se os fisicamente incapacitados, mentalmente incapacitados e outros grupos tem voz de minoria, porque não eu que sou "mass-culture incapacitated"? Quero voto. Já fiquei quieta quando entre os quarenta canais de música havia apenas dois dos quais tinham opera ou música clássica, sendo que em seguida ainda sofreram outra redução e ficaram misturados num só. Ficar sem o Lipton "Inside the Actor's Studio", sem as entrevistas diferentes e atualizadoras e tais... é cair no ilhamento da ignorancia ideologica. |
Voltar ao topo [Aeternus:8320] Mensagem do Grupo11 -Guto(2006-11-21) - Oi para todos !
 Andei sumido e quando apareci, sumiu o aeternus. Pena essa estória do Film & Arts. Também protesto e assino embaixo. Somos tão poucos que não merecemos nem o rótulo de minoria. Vamos nos associar a outra minoria maiorzinha. "Mass culture incapacitated" + afrodescendentes brasileiros = Afromass culture descendentes incapacitated brasileiros. Unidos, jamais seremos vencidos. ps: vcs assistiram a "Vida de Peter Sellers" (ou algo semelhante) com o Geoffrey Rush. Gente, esse cara é doente de tão competente. Pode até ser um filme feito para ele brilhar mesmo. E ele...... brilha, ué. |
Voltar ao topo [Aeternus:8321] Mensagem do Grupo11 -Guto(2006-11-21) - RE:Oi para todos !
 Jansy, Li com atraso a chamada na página sobre a noite de autógrafos do livro "Tancredo e Clorinda" do Dr. Humberto. Foi um sucesso ? O livro está nas melhores casas do ramo ? Grande abraço. |
Voltar ao topo [Aeternus:8322] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2006-11-21) - RE:Oi para todos !
Oi, oi... adorei o afrodescendentes porque, numa primeira olhada, quase li afrodiscentes, afrodisíacos, afrodisioascendentes... |
Voltar ao topo [Aeternus:8323] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2006-11-21) - RE:RE:Oi para todos !
Puxa, não deixei o convite na casa da sua mãe como pretendia, confiando no Aeternus... Erro meu. Lembrei muito de você porque Humberto fez um espetáculo, com som e poesia, no mesmo teatro no qual você se apresentou com a Carla. Conversei sobre você com a dona do espaço cultural, ouvi sobre os sonhos dela de viabilizar no planalto um lugar como aquele para pessoas criativas e talentosas como você... Não sei se o livro está a venda nas melhores casas do ramo, mas reservarei um exemplar para você. Um abraço
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Voltar ao topo [Aeternus:8324] Mensagem do Grupo11 -LFGallego(2006-11-21) - RE:Geoffrey Rush e Peter Sellers / Oi para todos !
De fato, Guto, o que é aquele ator que atende pelo nome de Geoffrey Rush???!!! O Geoffrey Rush faz o papel de Peter Sellers num enredo onde está sendo feito um filme sobre a vida do Peter Sellers, sendo que durante o tal filme o "Peter Sellers" aparece fazendo o papel de pessoas importantes em sua vida, homens e mulheres. Ou seja: vemos o Geoffrey Rush fazendo o papel de Peter Sellers que faz - dentre outros - o papel de Blake Edwards (diretor da série do Inspetor Clouseau, conhecida como série da "Pantera cor-de-Rosa"). Claro que há atores específicos para os papéis de Blake Edwards, Britt Ekland e outros, mas sempre há uma aparição de Sellers como outra pessoa importante de sua vida. Detalhando mais: quem faz o papel de Blake Edwards é John Lithgow. Então: em uma cena Geoffrey Rush faz o papel de Peter Sellers fazendo o papel de Blake Edwrds tal como interpretado por John Lithgow. Dá prá entender? Geoffrey Rush como Ptere Sellers como John Lithgow como Blake Edwards! UFA! Há dez anos o Rush vem se superando, provando que "Shine" não foi uma criação isolada. Em "Elizabeth" sobre a filha de Henrique VIII, em "Skakespeare Apaixonado", em "Alfaiate do Panamá" (um show), e mesmo com poucas cenas de "Munique" ele mostra a que veio. Feioso, sem chance de ser galã, o cara se impõe pelo talento. E mostra que não é show-off em um filme como "Lantana" onde tem um papel menor de um personagem em tom menor: ele sabe fazer o que é preciso: se é prá ser discreto, ele fica low-profile. Se é para se exibir, ele faz como neste Peter Sellers ou num filme que achei fracote sobre o Marquês de Sade onde Hollywood mostra o que entende como sadismo, perversão, essas coisas. Em tempo: "Peter Sellers" e "Lantana" só sairam em DVD no Brasil, não passaram nos cinemas. O primeiro porque foi feito para a TV e o segundo, não dá prá entender porque. Na Austrália, em 2001 recebeu todos os prêmios de filme, diretor, roteiro adaptado, atore e atriz principais, ator e atriz coadjuvantes.
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Voltar ao topo [Aeternus:8325] Mensagem do Grupo11 -Guto(2006-11-21) - RE:RE:Geoffrey Rush e Peter Sellers / Oi para todos !
 Jansy, merci beaucoup. Vc falou na Casa d'Italia (onde foi o lançamento do livro). Gostei de lá. O teatro em si possui algumas deficienciazinhas técnicas, e o "faz-tudo" de lá (como em quase todos os teatros) deixou um pouco a desejar. Mas o espaço é bom, o astral é bom, tem um público da escola de italiano, que lê o jornalzinho interno de lá, se inteira das peças e freqüenta o teatro, bem como o restaurante (dizem que muito bom). É quase um clube fechado, sem ser fechado. Falta, realmente, um espaço teatral "não alternativo-experimental-oba-oba-vale-tudo-uau" em Brasília, e que também não seja uma mega-sala, pública, ou caríssima, para as grandes produções cênico-globais. GAllego, Engraçado: quanto ao Peter Sellers, não percebi uma biografia "dentro" do filme. Entendi o filme em si, logicamente biográfico, como passagens de sua vida incluindo, claro, seu trabalho como ator nos sets, e os personagens "reais" (diretor, pai, mãe, esposa etc) me pareceram como algo meio delirante, metaforizando a (suposta) pulverização de sua personalidade e sua falta de um núcleo peterselleriano-pessoa física. Essa era a tese do diretor (do filme-filme mesmo. Eta confusão!). Ao menos entendi assim. Vou checar novamente, até porque perdi o comecinho na HBO. Abraços. |
Voltar ao topo [Aeternus:8326] Mensagem do Grupo11 -Guto(2006-11-21) - RE:RE:Geoffrey Rush e Sade
 Em tempo: "Marquês de Sade" deixa muito a desejar como roteiro e concepção, mas percebi que ele, Geoffrey, estava muito além da filmagem quadrada e "roliudiana" escolhida. Tipo "vou fingir que obedeço o diretor, mas é o Marquês que me dirige". Num dia bom, em que não pisamos numa poça, não levamos uma fechada no trânsito, não levamos um calote e não escutamos uma metáfora do presidente, se conseguirmos nos concentrar no protagonista, dá para sentir um arrepio desconfortável quando Rush abre a boca, uma certa aberração que vai se tornando estranhamente familiar e que torcemos para que se expresse. |
Voltar ao topo [Aeternus:8327] Mensagem do Grupo11 -jansy mello(2006-11-21) - RE:RE:RE:Geoffrey Rush e Sade
O restaurante de lá, na Casa d" Italia é simpático. Antes ficava perto da nossa casa, a caminho do CEL. Os garçons usam uma batina porque o clima é de "O Mosteiro". O jardim externo é convidativo com caramanchão de bougainvilleas e outras plantas viçosamente coloridas. Tem adega moderna e louça antiga. A comida é meio besta, mas não é ruim. Da sala de teatro apreciei principalmente a qualidade dos alto-falantes. Foi uma beleza ouvir o CD ( que eu acreditava ouvir bem aqui em casa) no som do teatro.
Safar-se de pisar numa poça e de ouvir metáforas do presidente? Gostei da piada. Se as coisas continuarem como estão ou mudarem ainda mais pro clima destas mefátoras, podemos dizer babau para a civilização como a conhecemos. Não deixa de ser interessante esperar o que virá, sem lenço, com documento, com documento, com documento ( mas valendo feito o lenço), sem pai, sem mãe, sem lei senão ao modo americano, "proibição imaginária" da voz popular.
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Voltar ao topo [Aeternus:8328] Mensagem do Grupo11 -Marcos(2006-11-21) - RE:Geoffrey Rush
 Em "Quills", como Sade, o Rush consegue deixar sempre aberta uma (pequeníssima !) fresta por onde alguém ainda poderia atingir a 'bondade'. Quanto à Beleza...aí a coisa fica mais discutível. Escrever com sangue e cocô é bonito (e/ou?)maldito ? Como vosmicês sabem, adoro o vilão dele em "Pirates of the Caribbean". Com o miquinho-zumbi esperto no ombro, seu conselheiro e secretário. ( sem ser o mico das conexões Tigre ) |
Voltar ao topo [Aeternus:8331] Mensagem do Grupo11 -Conde Drácula(2006-11-22) - RE:RE:Solaris erótico??? / de rabos e universos
 [de rabos:] ADOREI a historinha do "ricardão" que esqueceu a carteira... está em Sideways? Preciso ver isso.
[de universos:] na verdade acho que essa cosmogonia que vejo em Tarkovski não é exatamente DELE, pois que já vem latente em vários pensadores, inclusive em muitos dos que ficaram com fama de terem matado Deus de novo... (será o benedito que a intelectualidádji só consegue entender por "Deus" o deus-católico????)... e talvez até ANTES de Nietzsche, Espinosa e Kant...?
Mas outro dia eu estava lembrando de uma coisa que um conhecido sempre dizia ao contrapor revelação (religiosa) e conhecimento (ou, como ele gostava de dizer, reproduzindo um livro de Leo Strauss, 'a tensão entre Jerusalém e Atenas'): "'natureza' é uma idéia grega, que não existe na Bíblia".
Mas depois eu fiquei pensando: acho que existe sim "natureza" na Bíblia, só que não tem esse nome. Lá ela se chama "providência divina", será que não é isso? |
Voltar ao topo [Aeternus:8334] Mensagem do Grupo11 -Conde Drácula(2006-11-22) - RE:RE:RE: as especulações sobre Solaris e o erótico: Porto Seguro
 A velocidade do pós-moderno...
Tom Jobim já era: a única saída não é + o aeroporto. A única saída é pelo porto, Jansyta.
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Voltar ao topo [Aeternus:10966] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-02) - Foi tudo um sonho...
 Andei pensando sobre este filme do Sam Mendes, livro de esqueci quem (não li). O problema todo surgiu com a história da April pretender bancar o sonho do marido e vender tudo para irem a Paris. Ela desfez o álibi dele ( um artista incompreendido, um homem infeliz no trabalho rotineiro, um sonhador que realizará grandes coisa) que servia para ele continuar fora da realidade e colocar a culpa nela e no establishment. Ninguém pode fazer isso impunemente ( a velha história de "vem que tem...") A nossa vida de fantasia tem uma dimensão perfeitamente aceita de elementos potentes, mas, "irrealizáveis" ( o sonho edípico das meninas e dos meninos, por exemplo, que não podem ser tratados como desejos comuns e atendidos, mas que vão derivando numa direção e em outra durante anos e estimulando novos investimentos e entusiasmos). Vai ver que ela sem querer fez isto por vingança ou projeção inocente, pois a cena vem logo depois do insucesso dela como atriz. O sonho dela falhou, era blefe a história de ser uma grande atriz. Então vamos pro sonho do outro... Aliás, acho que o primeiro momento do filme, descozido do resto, em que o casal se conhece já é um flash back. Interessante porque vem antes de ter algo para retornar... |
Voltar ao topo [Aeternus:10967] Mensagem do Grupo11 -Omar(2009-02-02) - RE:Foi tudo um sonho...
 Vejo muitos casais por aí vivendo "o sonho americânu". Com o advento dos condomínios fechados, estão todos lá, em suas casas com cozinha planejada, home theater, 3 ou 4 carros na garagem. Acho que a clásse média alta brasileira é a "cara" do sonho americânu. E pra mim os casais QUASE sempre vivem a vida em 3 movimentos: a paixão e o "casamento ideal", com padrinhos, presentes e festa; a frustração depois de alguns anos porque não basta "comprar" o sonho e, quase sempre, a reconciliação depois das crises, o que me cheira bem mais a comodismo do que harmonia de fato. Tenho várias amigas casadas vivendo assim. Uma, que já não tem em comum quase nada com o maridão, não se separa para não dividir os bens: "casa, poupança, os carros". Claro que também existe o receio de dar um passo em falso, o medo da solidão e outros componentes que vão nos deixando com cara de "a vida é assim mesmo". Enfim, Escolhas que todos temos que fazer. De qualquer modo, acho legal que o cinema trate destes temas delicados... os filmes repercutem por algum tempo na cabeça das pessoas (pelo menos até a entrega do Oscar! rss...), embora outras tantas coisas repercutam e, assim mesmo, a iniciativa para fazer mudanças seja pequena, porque pesam muito os aspectos de "segurança" emocional&financeira. Hoje, acho que mais do que nunca, a grana conta muito na vida dos casais e o "terrorismo" da crise tende a fragilizar ainda mais as pessoas. Os casais preferem driblar a infelicidade e soprar as feridas com uma viagenzinha à praia no fim do ano, sem os custos de um divórcio... A fórmula se repete ao longo dos anos, para todos... Indefectivelmente agora, nas férias de fim/início de ano, os álbuns estão repletos de fotos de "casais felizes em férias". Embora nas imagens a gente adivinhe o "vapor do tédio"... Maridos "tomando todas" e mulheres tristes, mas de óculos Armani... o retrato da sociedade feliz. Mas é melhor não julgar ninguém... na vida basta que a gente cuide da própria vida. E não dá pra esquecer que cada um tem seu TEMPO pra transformar-se. Rebeldia como pregava Raulzito ("Eu devia estar contente por ser um dito cidadão respeitado e ganhar 4 mil cruzeiros por mês")... está fora de moda. Consagra-se cada vez mais a acomodação pelo bem da sagrada família e do santo bolso...
E ainda não vi o filme. |
Voltar ao topo [Aeternus:10968] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-02) - RE:Foi tudo um sonho...
Aqui é o Gallego. Suponho que tenha sido Jansy quem comentou que a abertura do filme do casalzinho de "Foi Apenas um Sonho" em paquera numa festa alguns anos antes já seria um flashback. Bem, eu tb não li o, livro nem pretendo (cruel demais), mas folheei na livraria e me parece que começa mesmo com o diálogo na festa em que ele responde que trabalha como "estivador" (piadinha?) e logo vem a cena da peça mesmo (eu acho). O livro teve suceso de estima entre nomes já sacramentados da Literatura com "L" maiúsculo, mas nunca foi suceso de vendas (talvez o seja agora) nem chegou a ser premiado além de indicações, o que deixou o autor muito frustrado. Parece que ele tinha noção de que escrevera algo acima da média, com o que concordaram outros escritores. Mas passou o resto da vida escrevendo e bebendo sem poder comprar de novo os direitos autorais que vendera para Hollywood por 15 mil dólares (que na época talvez não fosse tão pouco, mas certamente não era tanto assim). A idéia de atacar o sonho do marido depois que o sonho dela não funcionou é bem perspicaz. Pode ser. Pode não ser. Mas é uma boa hipótese sobre movimentos inconscientes da personagem, afinal usando sonhos para não chegar a lugar nenhum. No filme, salvo engano, há só mais um outro flashback sobre a aquisição da casa que explica como ficaram ligados com a corretora (?) interpretada por Kathy Bates. O filho dela no filme me soou excessivo para deixar bem clara a "maluquice" inconsistente do casal em confronto com a maluquice diplomada do personagem que estava em hospital psiquiátrico. Não sei como é no livro, ma stemo que haja algo parecido mesmo porque até o nome do livro (nome da rua onde els moram), "Revolutionary Road" é de um ironia óbvia. Temo que o livro também seja dado a explicações óbvias. O mais acurado do filme seriam, talvez, as brigas homéricas entre eles com diálogos monstruosos e depois..."restituição à normalidade" (ou seja: farsa, falsidade, auto-engano, heteroengano, enganos, enganos, enganos - equívocos de "falha trágica" dos gregos, a hybris da desmesura: querer ser atriz, nãoq uerer ser um vendedor como o pai). E o melhor do comentário anterior (da Jansy?) diz respeito ao estatuto do sonho, da fantasia, do daydreaming que não é para ser passado ao ato na realidade. Tenho estudado Buñuel e ele dizia que o "fantasma da liberdade" é o que importa: a fantasia de liberdade total, impossível de ser atingida; na fantasia tudo é possível, mas quase nada deve ser atuado. Isto seria o que de melhor o surrealismo aproveitou e reaplicou da psicanálise ao modo deles, surrealistas.
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Voltar ao topo [Aeternus:10969] Mensagem do Grupo11 -Marcos Florião(2009-02-02) - RE:Foi tudo um sonho...
O corner Paris que vocês ressaltam me fez associar a cena com as situações de vida que exigem tanto de nós que induzem à falha.Tanto a velha hybris citada pelo Gallego quanto a 'invasão' do sonho do outro, nosso escândalo, podem ser assustadores. O desejo excessivo sobre um objeto pode ser cruel quando satisfeito, caindo naquela do Wilde, que citei semana passada : a tragédia da consumação...
Ainda não assisti o filme, mas parece que a proposta da April derrete o frágil equilíbrio do marido, né ?
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Voltar ao topo [Aeternus:10970] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-02) - RE:RE:Foi tudo um sonho...
 Gallego, os comentários foram meus. Esqueci do alô alô (Jansy) Que maldade, você não me disse novamente o nome do escritor que é bem considerado pela crítica mas não obteve o sucesso editorial ou premios que esperava. Seja como for, não tenho muito animo para ler seu livro, o filme foi suficiente... Que bom que você trouxe o mestre ( Buñuel ...dizia que o "fantasma da liberdade" é o que importa: a fantasia de liberdade total, impossível de ser atingida; na fantasia tudo é possível, mas quase nada deve ser atuado. Isto seria o que de melhor o surrealismo aproveitou e reaplicou da psicanálise ao modo deles, surrealistas.) para compararmos com o outro, Freud. E com o que experimentamos todo tempo, o perigo do todo sonho maior ter que se transformar em uma realização. No domingo estava eu com Humberto almoçando num restaurante baiano que tem mesinhas perto do lago. Havia barcos a vela, lanchas, coqueiros, brisa. Criança soltando pipa, barraquinhas com toldos coloridos, flores. Podia imaginar-me em Miami ou em Cannes com o mesmo conforto e comida internacional competente. Suspirando contentinha pensei: " Puxa, só notamos que viajamos e estamos em terras distantes quando as coisas dão errado. A felicidade confortável torna todo mundo igual." E, depois de uma caipirinha gelada e temperadinha, olhando em torno às motos ( agora tem umas que parecem carros com duas rodas, ou veículos com cadeirinha de bebê na parte de trás), carros de luxo com capota rebaixada e tudo luzindo ao sol de 38 graus planaltinos (imaginei as bundinhas sendo queimadas, ou perninhas, mãozinhas...), desportistas colocando na cabeça o resto do automóvel de duas rodas, mocinhas de óculos agitadíssimas, as com namorado e as sem companheiro falando em voz alta e rindo... nossa, me senti tão bem comigo mesma que falei alto: "Adoro ser eu mesma" ( pelo menos, pela amostragem em volta naquela hora, me parecia a melhor opção). Humberto me olhou de banda, quase assustado com a falta narcísica de pudor, prolongou o olhar agora de frente, pensou, pensou e respondeu: "Você tem razão. Mas podia ser menos chata." Quarenta anos de casamento dá nisso ( a gente tolera melhor os despudores e as fantasias canhestras um do outro). Não é que goste de ser velha ( dizia Turgeniev "o ideal é a energia da juventude e a sabedoria da velhice...mas no primeiro amor jogamos nos desperdiçamos por inteiro e, afinal, um dia descobrimos que não era preciso mesmo ser avaro" - e mudei tudo, mas não lembro da frase suscinta dele, muito mais poética) ...não é que goste de ser velha mas, olhem só, acho bom ter lampejos de bom-senso bem humorado que só o tempo passando ensina a alcançar ... Que digressão. Pois é, o casal do filme e a moça pedindo ao marido do blefe pra mostrar as cartas... ap |
Voltar ao topo [Aeternus:10971] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-02) - RE:RE:RE:Foi tudo um sonho...
Gallego escreve: O nome do escritor de "Revolutionary Road" está na minha resenha para o criticos.com.br, mas não me recordo: é só ver aqui no aetern.us onde colcoquei também o mesmo texto. Muito bom este post seu, Jansy. Lembrei de uma frase ameaçadora sobre fantasias que NÃO DEVEM deixar de ser apenas fantasias (porque já basta): "CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA PORQUE PODE SE REALIZAR!!!".
Quando eu era molequinho e escutava as canções do disco da história da Cinderela eu achava que isto poderia ser bom. As canções diziam :
"O sonho é um desejo d'alma N'alma a adormecer Em sonhos a vida é calma É só desejar para ter Tem fé no teu sonho e um dia Teu lindo dia há de chegar. Que importa o mal que te atormenta? Se o sonho te contenta E pode se realizar"
Em outra versão ela era mais assertiva:
"Em sonhos a vida passa Ao céu o sonho nos conduz A dor é nuvem que esvoaça Em dia sereno de luz Por isso hei de viver sonhando, sonhando sempre sem parar Porque eu bem sei que um belo dia de sol e de alegria Meu sonho irá se realizar" Mas quem adora ser quem é nem precisa disso tudo que é coisa para gata borralheira.
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Voltar ao topo [Aeternus:10972] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-03) - RE:RE:RE:RE:Foi tudo um sonho...
 Alô...Jansy falando...ou melhor, a Branca de Neve no poço ( nesta cena, inesquecível, o sonho se realiza, mas dentro do sonho dos contos de fadas... e há algo melhor? ): Eu quero, eu quero Que o meu amor Me encontre, me encontre Enfim, enfim Eu sonho, eu sonho Que ele há de chegar Cantando, cantando Pra mim, pra mim
Príncipe: Esta canção que eu canto Fala só de você Fala do seu sorriso, do seu encanto Sabe porquê? O amor veio cantando Esta linda canção Veio e fez morada No fundo do coração.
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Voltar ao topo [Aeternus:10973] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-03) - Foi apenas um sonho e Branca de Neve
 Quando rememorei a cena do filme de Walt Disney e li a letra da canção notei que quando criança o sentido do canto não era importante. Predominava o sentimento da moça sonhadora querendo um principe e seu canto atraindo um rapaz que também, vagamente, esperava encontrar um rosto e um sorriso que correspondesse aos sonhos dele. Talvez, em criança, me atraisse o conforto de uma "predestinação" e a marca de uma pertencença ( como n'A Flauta Mágica, reconhecer num rosto sinais de que se trata de alguém da minha turma). Seja como for, a Branca de Neve e o Príncipe se encontram, carimbam um selinho de cartório sem muito se olharem (exceto no espelho do poço) e se despedem. A mocinha nem sente saudade ou lamenta sua sorte: é abandonada numa mata escura, cuida de sete anões felizinha e sem nostalgia. Um dia o príncipe viria, parece que pensava assim. Não era preciso fazer outra coisa senão esperar. No filme "Revolutionary Road" achei que a crise no casamento só apareceu com clareza depois do insucesso de April como atriz. Ela se queixou pela primeira vez da falta de hombridade do marido (claramente testemunhada antes, na cena do camarim, quando ele fazia concessões ao grupo e ela pedia que a protegesse dos assédios de amigos e levasse em silencio para casa) ainda no carro quando ele não parava de falar fingindo consolá-la mas, claro, usando este subterfúgio para triunfar e retomar seu papel de patriarca faroleiro e maricas. O show precisa continuar e ela não queria papéis na vida, só no palco. Então se deu mal nos dois. Para a rua inteira e para a agente de imóveis, eles formavam o casal real do bairro, modelos de beleza e felicidade: se desapontassem o sonho da comunidade seriam vitimados pelo ódio ou pela vitória da inveja até ali escondida. O consolo, caso recebessem, seria como o do marido na saída do teatro: formas de retomar o narcisismo próprio ferido e triunfar sobre quem está caído. No filme são todos covardes. Abro exceção ( sem muita certeza) pra Winnie, que sabia que o marido feioso gostava da vizinha e, ainda assim, se esforçava pra ser feliz e superar o choro ( ela chorava! ela se deixava sofrer!) e curtir os filhos da outra. O filme é sobre narcisismo. Aquele que pode ser saudável porque tampa o vazio ou a falta de sentido da existência na maioria dos casos, mas nem sempre. O controle social é o lado ruim do aspecto competitivo que cria valor nas coisas: ter um carro e amá-lo porque se gosta de carros, de amar e de impressionar os outros, por exemplo. Ou ter uma Brastemp ou uma bolsa Vuitton. Ir atrás destes pequenos estímulos mais o alto esforço dispendido em obte-los reativa o narcisismo, alimenta o euzinho em depleção ( palavra do Gallego para certo tipo de depressão) e movimenta o mundo. Arrumar a casa ao seu modo mas sem discrepar demais das convenções é uma forma de conversa com os vizinhos que chegam de visita, é ter companhia. E a Branca de Neve? Ih. Complicado isso, ficar com sete anõezinhos... |
Voltar ao topo [Aeternus:10974] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-03) - RE:RE:Foi tudo um sonho...
 Jansy para Florião ( et allii): Parece que estamos todos de acordo quanto aos riscos dos sonhos ( só alguns) se realizarem. Desde o lacaniano "a satisfação do desejo é a morte do desejo." até o wildeano "não vem que tem". Sem querer estragar o filme pra você que ainda não o viu, reafirmo minha proposta de que April derrete o frágil equilíbrio do marido e do casamento e da comunidade em que vivem... Gallego tem uma bronca com o paciente psiquiátrico no filme, que se autoriza a dizer umas verdades ( é doido porque as diz sem crítica, é capaz de perceber porque já foi um grande matemático,etc). Acho que este papel não é muito legal porque é falso, nisso lhe dou razão: há uma falha "psicodinamica" no script. Mas o ator conseguiu passar a loucura assim mesmo, a iminencia de um movimento destrutivo, um fremir de violencia e amor quase incontidos... O sentimento despertado em mim foi o de estar praticamente cara a cara com um "lunático de asilo" |
Voltar ao topo [Aeternus:10975] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-03) - RE:RE:RE:RE:RE:Foi tudo um sonho...
Gallego escreve: "Branca de Neve" também tem boas canções. Além destas duas lembradas por Jansy que são do primeiro encontro rapidinho da Branca com o príncipe, existe a famosa dos anões "Eu vou, eu vou pro meu trabalho eu vou" (de manhã) e "Eu vou, eu vou prá casa agora eu vou" (de noite), excelente "tradução" baseada na fonética do original onde os anões dizem "I Ho, I - Ho" que virou "eu vou, eu vou" e que meus filhos adaptaram para "eu vou, eu vou, prá casa do vovô". Mas a mais apreciada deve ser "Someday my prince will come" que serve de tema para variações de inúmeros bambasde jazz (Mile Davis, Dave Brubeck, etc etc etc) e foi usada até pelo nosso Dick Farney em um bom disco de piano e orquestra. Em português era: "Um dia lindo assim Há de chegar enfim O meu príncipe eu sei que virá E prá sempre comigo estará. Feliz meu coração, as aves cantarão..." (não lembro o restante). Cabe registrar que quem fazia as letras em português das músicas dos clássicos de Disney desde 1937 até os anos 1960 ou 70, não sei mais era o Braguinha (João de Barro) genial letrista que transformou um chôro que era apenas instrumental em Hino Sentimental Brasileiro: "Carinhoso" cuja melodia já existia há vinte anos - antes de ele colocar letra e ganhar a popularidade eterna que ganhou. A melodia é genial, mas sem a letra talvez ainda não fosse tão conhecida. Encaixa tudo, cada sílaba, o clima entre melodia e texto, parece que nasceram juntas, música e letra. Mas não. é coisa de gênio inspirado! Uma marcha-rancho de Noel Rosa passou em branco em um carnaval mas além de estourar no ano seguinte entrou para o repertório eterno da música brasileira quando virou "As Pastorinhas" - com nova letra do Braguinha ("A Estrela D'Alva, no céu desponta/ E a Lua anda tonta com tamanho esplendor / E as pastorinhas, prá consolo da Lua/ vão cantando na rua lindos versos de amor").
Mas ele teve também uma música que, apesar de gravada por Carmen
Miranda não "pegou" em carnaval dos anos 1930 e virou sucesso uns 40
anos depois quando Gal Costa a retirou de um baú esquecido: "Oi
Balancê, Balancê, quero brincar com você"
Fazia geniais marchinhas de carnaval ("Chiquita Bacana", "Nós somos os cantores do rádio", "O Rio amanheceu cantando", "Touradas em Madri","Yes, Nós temos Bananas"), canções românticas ("Copacabana, Princesinha do Mar", "Anda Luzia", "A Saudade mata a gente") e músicas originais para discos infantis com adaptações próprias para antigas histórias, como as canções do Chapeuzinho Vermelho ("Eu sou o Lobo Mau e pego as criancinhas prá fazer mingau" e "Pela estrada a fora eu vou bem sozinha"). Como Caymmi, Braguinha compunha de um modo que parece até que essas canções empre existiram, como se fosse "folclore" ancestral. porque são para ficar para sempre, eu suponho. As versões para as canções dos filmes antigos de Disney são brilhantes, incluindo a premiada com Oscar de melhor música de filme de 194e poucos, "When you wish upon a Star" (do filme Pinóquio).
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Voltar ao topo [Aeternus:10976] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-03) - RE:RE:RE:Foi tudo um sonho...
Gallego concorda com Jansy sobre o ator que faz o 'John', paciente diplomado como maluco no filme é muito bom mesmo, eu já o conhecia de "Bug" (não gosto deste filme, ams ele é magnífico) e de uma ponta no excelente "Antes que o Diabo saiba que você está morto". O papel do 'John' é excessivo, mas o ator faz o que pode dentro do que lhe pediram. Está indicado ao oscar de coadjuvante. não sei se leva, mas é um bom reconhecimento. Ainda acho que o leonardo DiCaprio foi deixado de lado nessa leva de prêmios injustamente. Quanto mais penso no filme, mais acho o papel dele dif´cil, a um passo do ridículo em que ele não cai nem um momento.
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Voltar ao topo [Aeternus:10977] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-03) - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Foi tudo um sonho...
Acrescentando sobre Braguinha: O "Tema de Terry" composta por Charles Chapli para seu filme "Limelight" não era para ter letra, mas Braguinha fez um letra que ajudou a transformar a canção em sucesso popular no brasil: "Luzes da Ribalta" (Luzes que se apagam a sorrir, luzes que se apagam, nada mais). Fez a letra em português para outra do Chaplin: "Smile" ("when your heatr is breaking, smile even though it' aking, when there are clouds in the sky...") E a letra brasileira de "Adeus, amor, eu vou partir"
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Voltar ao topo [Aeternus:10990] Mensagem do Grupo11 -Omar(2009-02-05) - RE:RE:Foi tudo um sonho...
 Gostei da análise do Calliga sob o ponto de vista da covardia que, em geral, nos assola frente aos desejos... E a idéia do "cemitério do amor" a constatei inúmeras vezes nas relações desbotadas, minhas e dos outros... Folha SP, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2009
CONTARDO CALLIGARIS Às vezes, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida. Ele me escutava e, em geral, concluía: "Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem". Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem "apenas um sonho", sem ter a ousadia de tentar vivê-los. É por isso que não achei ruim o título em português que foi escolhido para o novo filme de Sam Mendes e para o grande romance que o inspira, de Richard Yates (de 1961, agora traduzido pela editora Alfaguara): "Foi Apenas um Sonho". O título original de ambos era "Revolutionary Road" (rua da revolução). Não é raro que, nos pacatos subúrbios americanos de classe média, o nome de uma rua lembre a revolução pela qual os EUA se constituíram independentes e republicanos. Por uma ideia e um futuro de liberdade, os revolucionários de 1776 arriscaram tudo, apostaram "sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada". E o título original de Yates perguntava (ironicamente) se algo daquela coragem sobraria num subúrbio dos anos 50, em que quase todos, como Frank e April, o casal do livro e do filme, vivem sorrindo ou fazendo de conta, embora convencidos de que a vida deveria trazer outras aventuras. Poucos anos depois da história de April e Frank, aliás, uma nova geração fez outra revolução - desta vez, em nome dos desejos silenciados. Seu moto, inventado por Jerry Rubin (estranha cumplicidade entre ele e meu pai), foi "Do it!", faça-o, ou seja: "Seja lá o que for, não deixe que fique apenas um sonho". Mas voltemos ao tema central do livro e do filme, ou seja, digamos assim, à suposta covardia do desejo. Para começar, uma curiosidade: eu tinha a sensação de já ter escrito sobre o romance de Yates, mas não sabia quando. Graças ao Google, descobri que, em 1999, na bibliografia de meu livro "Adolescência" (Publifolha), eu citava "Revolutionary Road", de Richard Yates, como "um dos maiores romances americanos do pós-guerra", "em que a monotonia da vida suburbana se torna intolerável por causa da urgência de interromper a rotina adulta para poder "se achar'". Na época, o livro não existia em português, e eu sugeria que quem não pudesse lê-lo em inglês recorresse ao filme "Beleza Americana", de Sam Mendes, cuja "personagem principal é um herdeiro direto do herói de Yates". Palavras proféticas: logo Sam Mendes acabou adaptando o romance de Yates. Agora, a inspiração no romance de Yates torna "Foi Apenas um Sonho" um filme menos caricatural e mais tocante do que "Beleza Americana". De onde vem a infelicidade de Frank e April? Tudo bem, April esperava ser atriz e não é (talvez por falta de talento). Quanto a Frank, ele não tem nenhuma aspiração concreta. Por que razão, então, viver numa casa agradável, trabalhando e criando os filhos, levaria a um "vazio sem esperança"? Sem esperança de quê? Claro, na saída do cinema, parece óbvio o destino de quem habita o estereótipo de um cartão-postal: apenas seria possível escolher entre a insatisfação existencial e o kitsch melado no qual vive "feliz", no filme e no livro, a corretora de imóveis. Mas paira no ar uma pergunta: e se o problema não fosse o sossego da Revolutionary Road, mas o próprio desejo insano de viver outra vida? A insatisfação abstrata que assombra April e Frank é o cemitério do amor. A escolha de DiCaprio e Winslet (excelentes) parece querer nos contar o que teria acontecido se DiCaprio tivesse sobrevivido ao naufrágio do Titanic: a vida do casal se tornaria uma misteriosa prisão, em que o cotidiano imporia renúncias covardes a sonhos e desejos "livres". Mas a qual liberdade eles renunciariam? Nada a ver com a que preocupava os revolucionários de 76: é a liberdade de ir viver em Paris. Sarcasmo: a "loucura" é tão enlatada quanto a realidade. Mais um detalhe. É April que exige de Frank uma coragem sem a qual talvez ela deixe de amá-lo e de reconhecê-lo como (seu) homem. A "trivialidade" das conquistas profissionais não basta; Frank deve inventar outros desejos (que, na verdade, ele mal tem). April se torna assim uma representante feroz daquelas expectativas monstruosas com as quais qualquer homem lida como pode - as expectativas maternas: "Seja extraordinário, meu filho". Tudo bem, serei extraordinário, mas como? Pois é, caro Frank, ser homem não é mole. |
Voltar ao topo [Aeternus:10991] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2009-02-05) - RE:RE:RE:Foi tudo um sonho...
 Pois é, Omar. Você fica com o Calligaris que eu prefiro o Gallego e até minhas idéias sobre os vários modos de desejar e de sonhar. Do modo pelo qual ele escreve é como se não pudéssemos viver as duas experiências: fantasiar e realizar ("do it"). Como se apenas existissem sonhos de escapismo. Há sonhos, na minha experiência, de contato com as estrelas ( e não quero ir pra nenhuma nem segurar na minha mão como nas histórias de criança), de respirar um azul de cinderella no ar, de caminhar nas nuvens, de ver o pássaro azul. Não são sonhos nem pra realizar nem escapismo simplesmente. São primórdios de intuição de algo mais vasto, são aspirações ao desconhecido que se formula como se pode. Meu filho mais velho, residindo em São Paulo, tinha um sonho de consumo interessante: queria estacionar na vaga 1 do andar da Amora ( ou Melancia, não lembro) do shopping Iguatemi. Dali abria-se um corredor que dava direto nos cinemas. As vezes ele dava sorte, às vezes não e era divertido apostarmos antes pra ver se ia dar certo. Sonhos mais intensos, tipo o do neto que me avisou, mais ou menos aos tres anos, falando fininho no fundo da cadeirinha:"quando crescer não vou ser um homem normal" . Inquirido, continuou:"vou ser corredor de Formula 1". Ter um carro vistoso pode ser objeto de amor narcísico mas funciona como sinalização de cauda de pavão para obter os favores da amada...pura seleção natural, portanto. Sonho tipo Beatle "Imagine all the people" é besteira. Todos sofremos com isso e nem todos aderimos ao movimento hippie totalmente (quem viveu nos anos setenta sempre ficou um pouco mudado e esta foi a mágica que eles conseguiram) Sonho de quero uma casa no campo... tive vários, mas o bom-senso me demoveu. Prefiro visitar a dos amigos. Mas ter uma casinha pequenina, ou maiorzinha, ah... este é básico. Nem chega a ser sonho, portanto, é necessidade. Como oxigenio e alimento e água e espaço. Encontrar um príncipe? A alma gemea? A gente sabe que não existe mas, ainda assim, tem que viver isso todo tempo, ir se iludindo e melhorando a formulação da saudade. Não sei porque Frank and April não eram felizes. Falha na reverie de cada um. Daí que obter o que desejavam só os levava a desejar mais e mais dentro da categoria "sonhos possíveis". E ela, ora, se quisesse mesmo ser atriz podia ou insistir mais ou sublimar e desenhar cenários ou cuidar das luzes e roupas. |
Voltar ao topo [Aeternus:11352] Mensagem do Grupo11 -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-17) - O rosto na Boston Tea-Party e Carlitos
Sexta, 17 de abril de 2009, 07h47 Léxico de decepções Naomi Klein Do The New York Times Há algo de podre na Obamalândia. Não está exatamente claro o que causou a mudança de humor. Talvez seja o cheiro de ranço emanando do último plano de resgate dos bancos do Ministério da Fazenda, ou as notícias de que o conselheiro econômico-chefe do presidente, Larry Summers, ganhou milhões com os mesmos bancos de Wall Street e com os fundos hedge que agora ele está protegendo de uma nova regulamentação. Talvez isso tenha começado antes, com o silêncio de Obama durante o ataque de Israel contra Gaza. Qualquer que tenha sido a última gota, um número crescente de fãs de Obama está começando a vislumbrar a possibilidade de ele não vai, de fato, salvar o mundo somente porque temos firmes esperanças nisso. Isso é uma coisa boa. Se a cultura de superfanatismo que levou Obama ao poder se transformar em um movimento político independente, suficientemente intenso para produzir programas capazes de lidar com as atuais crises, teremos todos que parar de esperar e começar a exigir. O primeiro estágio, no entanto, é compreender totalmente o estranho espaço no qual muitos movimentos progressistas dos EUA se encontram. Para fazer isso, precisamos de uma nova linguagem, uma que seja específica do momento de Obama. Este é um começo. A esperança acabou. Como em uma ressaca, a perda da esperança vem da superindulgência com algo que era bom na época, mas que não era assim tão salutar, o que leva a sentimentos de remorso, e até mesmo de vergonha. É o equivalente político da queda após um pico de energia. Depoimento: "Quando escutei o discurso econômico de Obama, o meu coração disparou. Mas então, quando tentei contar a um amigo sobre seus planos para as milhões de dispensas de funcionários e de execuções de hipotecas, percebi que não estava dizendo nada com nada. E tive uma séria ressaca como em um porre de esperança". Uma montanha-russa de esperança. Como uma montanha-russa, esse sentimento descreve os intensos picos e as grandes depressões emocionais da era Obama, a mudança entre a alegria de ter um presidente que apóia a educação sexual e a decepção de saber que a assistência à saúde para segurados individuais está fora da mesa, justamente quando isso poderia realmente se tornar uma realidade. Depoimento: "Fiquei tão encantado quando Obama disse que iria fechar Guantânamo, mas agora eles brigando como loucos para certificarem-se de que os prisioneiros em Bagram não tenham nenhum direito legal. Pare esta montanha-russa de esperanças - quero descer!!". Saudade da esperança. Como ter saudade de casa, há indivíduos que se sentem intensamente nostálgicos. Eles sentem falta deste sentimento de otimismo da época de campanha e ficam sempre tentando reviver aquele sentimento tão bom de esperança - geralmente por exagerarem na atribuição de significado a atos relativamente secundários ligados à decência de Obama. Depoimentos: "Realmente estava sentindo falta daquele sentimento de esperança depois de saber sobre a escalada da presença no Afeganistão, mas quando assisti a um vídeo no YouTube mostrando o jardim orgânico de Michelle, me senti como se fosse o dia da posse novamente. Algumas horas depois, quando escutei que a administração Obama estava boicotando uma grande conferência sobre racismo na ONU, aquela nostalgia de esperança voltou com força. Então, assisti a alguns slides mostrando Michelle vestindo roupas feitas por designers de moda de várias etnias, e aquilo parece ter me ajudado". Viciado em esperança. Com o retrocesso da esperança, o viciado na esperança, assim como o viciado em drogas, entra em uma grave síndrome de abstinência, querendo fazer de tudo para ter aquele prazer novamente (muito relacionado à saudade da esperança, mas mais grave, pois geralmente afeta homens de meia idade). Depoimento: "O Joe diz que realmente acredita que Obama deliberadamente trouxe Summers para que ele derrube o pacote econômico e Obama tenha a desculpa perfeita para fazer o que realmente quer: nacionalizar os bancos e transformá-los em sindicatos de crédito. Que viciado em esperança!". Quebra da esperança. Como o apaixonado de coração partido, o Obamaíta não está louco, mas profundamente triste. Fantasiou que Obama possuía poderes messiânicos e agora está inconsolável em seu desapontamento. Depoimentos: "Realmente acreditei que Obama finalmente nos forçaria a confrontar o legado de escravidão deste país e daria início a um sério diálogo nacional sobre raças. Mas agora ele parece evitar a menção ao tema racial, e está usando argumento legais distorcidos para impedir que nos confrontemos com os crimes da era Bush. Toda vez que escuto ele dizer: 'Vamos seguir adiante', me decepciono novamente". Rebote da esperança. Como em um efeito chicote, o rebote da esperança é uma reversão de 180 graus de toda a filosofia de Obama. Os sofredores já foram os evangelistas mais fervorosos de Obama. Hoje são seus críticos mais algozes. Depoimento: "Pelo menos com Bush, todos sabiam que ele era um mau-caráter. Atualmente temos as mesmas guerras, as mesmas prisões sem lei, a mesma corrupção em Washington, mas todos estão comemorando como robôs. É hora de rebote total da esperança". Na tentativa de nomear estes males da esperança, me peguei pensando sobre o que o saudoso Studs Terkel diria dessa perda de esperança coletiva. Ele certamente nos aconselharia a não entrar em desespero. Peguei um de seus últimos livros, Hope dies last (A esperança é a última que morre). Não precisei ler muito. O livro começa com as seguintes palavras: "A esperança nunca ruiu. Ela sempre se elevou". E acho que esta declaração diz tudo. A esperança era um ótimo slogan quando torcíamos pelo candidato à presidência improvável. Mas como uma postura em relação ao presidente da nação mais poderosa da Terra, este é um diferencial perigoso. A tarefa neste momento (como Obama gosta de dizer) não é abandonar a esperança, mas dar a ela um novo endereço - nas fábricas, nos subúrbios e nas escolas, onde táticas como protestos, assentamentos e ocupações ilegais estão ressurgindo. O cientista político Sam Gindin escreveu recentemente que o movimento trabalhista pode fazer muito mais do que apenas proteger o status quo. Ele pode exigir, por exemplo, que fábricas de automóveis desativadas sejam convertidas em fábricas ecologicamente corretas, capazes de produzir veículos de massa e tecnologia para o sistema de energia renovável. "Ser realista significa tirar a esperança dos discursos", disse ele, "e colocá-la nas mãos dos trabalhadores". O que nos traz ao final deste léxico. Raízes da esperança. Depoimento: "É hora de parar de esperar que a esperança chegue de mãos beijadas, e começar a colhê-la das raízes da esperança". Naomi Klein, colunista do The Nation e The Guardian em Londres, é autora de The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate. Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine. Terra Magazine |
Voltar ao topo [Aeternus:11373] Mensagem do Grupo11 -Patrícia(2009-04-18) - RE:O rosto na Boston Tea-Party e Carlitos
O problema é que morre junto com essa certa "esperança viciante" a crença na democracia constituída. Se elegemos um sujeito, um partido, mas ele não corresponde ao que esperávamos, deixamos de acreditar apenas nele ou no processo todo? Aquilo de que o "poder corrompe" volta a tona, e aí sim faz sentido pensar que a esperança não pode ser simplesmente depositada em um outro alguém, mas deve estar ligada às lutas dos grupos e pessoas em movimento contínuo. Com o Lula foi assim também. Perdemos a esperança de que apenas um representante, ou um partido, fosse capaz de fazer as modificações que acreditávamos necessárias. A briga pela próxima eleição parece falar sempre mais alto, manter-se no poder é o objetivo final (e único?). Continuo achando que foi um desperdício (milhões de votos de apoio e o medo imperou), ao mesmo tempo sei que para chegar ao poder cederam demais e perderam o rumo. Isso sempre será assim, por que, afinal, faz parte do processo democrático em sociedades capitalistas? Quer dizer, é tudo fachada? Ou existem exemplos divergentes, como o caso da Bolívia? Mais ainda, resta saber, se a democracia capitalista não serve, troca-se o sistema capitalista ou simplesmente começamos a acreditar em ditaduras como saída para o caos? Esse é meu medo, que a descrença na democracia e não no capitalismo acabe por vencer. Sigo apreensiva. Vocês não? |
Voltar ao topo [Aeternus:13521] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-25) - RE:Viver: Verbo Transitório
 Tem também um poema de Ronsard que não me sai da cabeça. Começa assim: "Mignonne, allons voir si la rose...". Fora isso, o texto de Freud sobre a transitoriedade é uma dádiva.
Abraços, Carlos |
Voltar ao topo [Aeternus:13522] Mensagem do Grupo11 -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-05-25) - RE:RE:Viver: Verbo Transitório
 Olá, Carlos. Não conheço este poema de Ronsard. Um dos poemas que Nabokov escreveu, e que ele considera um dos seus favoritos, menciona dois jovenzinhos enamorados. O menino aponta para uma andorinha que está voando perto deles, um tantinho desgarrada do bando. Ele pergunta a moça: "você vai lembrar desta andorinha no futuro? Desta andorinha em especial, não das outras?" E ela, concordando, começa a chorar. Enquamto poema (o original com jogo de rimas e estrutura mais complexa é em russo) não o considero bom com o sentimentalismo exposto e quase cru, mas dá para sentir o começo da formulação que perseguirá o escritor, o temor à perda do detalhe, da coisa individuada, da memória históricamente precisa e as emoções pertinentes a elas, aquela andorinha, aquela rosa... Se a palavra é a "morte da coisa representada" então, a cada poema, perdemos um pouco do específico e do particular para caminharmos para as abstrações. Tenho dúvidas se dá para citar (Hegel?) em isolado do contexto. Porque é possível fazer a coisa representada reviver em nós - e isto se deve à palavra. |
Voltar ao topo [Aeternus:13524] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
 Angeli 
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Voltar ao topo [Aeternus:13525] Mensagem do Grupo11 -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-05-26) - RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
 Que maldade colocar as andorinhas associadas a este cartum... (morri de rir, mas o Veríssimo uma vez fez uma cronica de um casal que estava junto há anos sem perceber que a esposa era do vizinho e errou de casa uma vez e assim ficou...). Venho tentando entender alguma coisa sobre o amor que, para Freud, seria ou de transferencia (ie transitório), somando-se ao transicional ( do Winnicott, ainda mais transitório) até o amor "real" (tanto Freud quanto Bion acreditavam que existisse, não é fantástico?). Como vejo, enfoco aqui o momento passional do encontro, o estado do apaixonamento..., o amor abre uma porta para algo que é maior do que o que se experimenta no contato um com o outro. Dá aquela síndrome cantada pelo Freddie, da My Fair Lady, extase por caminhar na rua em que a amada mora, a brisa, o sol, os passarinhos ganham um significado mágico, tudo parece estar conectado e latejando ( eros é conexão, integração...) Depois que o amor, este estado ferormonico ou demonico, passa e aparecem outras emoções (só paixão física, só companheirismo, só hábito...varia) o portal do encantamento se fecha. A minha questão fica: o que se vislumbra nestes momentos privilegiados é só delírio, ou abre para uma dimensão (quase religiosa) que não aparece no movimento normal da vida? |
Voltar ao topo [Aeternus:13527] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
Incrível esse site que parece ter mesmo algo de "Aeternidade": Carlos retoma um post isolado que Jansy colocou no aetern.us em 2003 (mas acho que escrevi antes, não sei mais, foi quando redigi meu primeiro (acho que foi o primeiro) texto para o Jornal do Brasil, a pedido do crítico de cinema de lá, hoje nO Globo, o Rodrigo Fonseca. Era para escrever do ponto de vista psicanalítico. Hoje em dia escrevo mais como cinéfilo que virou membro da Associação de Criticos de Cinema do RJ, deixando o olhar psicanalítico nas entrelinhas ou ostensivamente quando comento filmes da Sociedade Brasil. de Psicanálise do RJ.
Não lembro que o título que escolhi tenha sido este "Viver: verbo transitório" (muito bom) pode ter sido Jansy mas pode ter sido eu memso porque acho que nenhuma vez meus títulos foram aceitos, foram mudados, ao meu ve, claro, para pior.
Sete anos e um mês depois surgem novas associações sobre o amor, andorinhas etc. Preciso almoçar, talvez comente mais sobre o amor outra hora.
Adorei o post sobre os Jean-cineastas. Enviei para críticos e lembraram de Jean (John) Ford, e fizeram gozação com jean Claude Van Damme, Jean Manzon e "Jean Morreirá Sallês" abraços, Gallego
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Voltar ao topo [Aeternus:13528] Mensagem do Grupo11 -Marcos Florião(2010-05-26) - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
O ilustre Jean Manzon, lembrado por Gallego, nos brindou durante anos com seu interminável "Coisas do Brazil" nº(?)ta - reincidência criminal que caberia melhor na lista que abri...
Era só surgir no telão a insígnia que a antecipava para vaias generalizadas se ouvirem na platéia, até a consagração final com vaias então apoteóticas. O Manzon foi precursor-já-ali-encravado do 'ninguém segura esse país!', marionete da ditadura no ovo da serpente e durante esta.Pior de tudo, pior do que suas 'Coisas do Brazil" foi a Universidade que se desenvolveu a partir do modelito, né ?
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Voltar ao topo [Aeternus:13529] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:Amor também é Verbo Transitório? --> andorinhas
Jansy: eu acho que a paixão, o apaixonamento é da ordem do narcisismo; não é amor pelo objeto. Ou é um anelo por um euobjeto (ou objetoeu) ou selfobject; ou seja o objeto de apaixonamento é investido de libido narcísica e experimentado como parte do Eu (algo meio ainda eu, meio não-eu, misturado). Quando a mistura desanda, ou talvez fosse melhor dizer "anda" na direção de uma certa diferenciação, individualização... pode ser um deus nos acuda para uma das partes que percebeu a contragosto a autonomia relativa do agora objeto que agora surge como diferenciado, com existência própria como centor independente de iniciativas e modos próprios de perceber as coisas. Se ambos os Eu's tolerarem as diferenças (fim da ilusão alterego ou de almasgêmeassiamesas), pode ser que surja o tal amor real (que aí eu concorso pode ser o gosto físico de transarem, o companheirimo, o hábito, cada um desses modos de gostar todos juntos ou separadamente).
Quando Freddy canta o amor pela rua onde Eliza mora não é apenas a graça de Eliza que se espraia pela rua, pelo ar, pela brisa, pelo sol, pelas flores; é o amor pelo amor: Freddy ama amar Eliza ou ama a ideia de amar Eliza; ou ainda: Fred está apaixonado por se perceber encantado por Eliza.
Já Eliza está amando o seu quase algoz, o Professor Higgins que (ela acha) viu nela uma Lady encoberta pela florista rude e sem-educação. Doce ilusão... Pois Higgins está apaixonado por si mesmo all the time e diz isso: "Why can't a woman be like ME?" Ele se ama tanto que se julga capaz de trasnformar a pedra bruta em diamante como o escultor Pigmaleão (título original da genial peça de Shaw) percebeu a bela Galatéia ainda "dentro" (envolvida) pela pedra enorme de mármore antes de esculpi-la per via di levare. Ele acha que ele fez o serviço sozinho quando Eliza engana a alta sociedade e aristocracia londrima ao ser tomada como uma Lady em um baile em uma embaixada (da Transilvânia, mas sem Dráculas). E é contra isso que ela protesta na volta do baile onde enganou todo mundo como se fosse de fato uma lady (só um sujeito achou que ela não seria uma lady britânica: alguma coisa na bela pronúncia de inglês da moça teria denunciado a esse pretensioso foneticista que ela seria, na verdade... uma Princesa Húngara ! daí um accent delicioso em seus "How do you do?" pronunciados lentamente)
Eliza só conseguiu suplanatra a barreira de seu terrível sotaque "cokney" por ter se apaixonado por Higgins com quem ela could heve danced all night, achando que ele a amava e que ele percebera nela algo mais além da florista tosca e rude. Uma espécie de transferência da falta; falta daquilo que ela esperava (e não recebia) do pai dela, um promíscuo tranquilão que explorava a filha pedindo-lhe dinheiro (para beber) e só trabalhar o mínimo para viver - e que quando a vê residindo com Higgins imagina o óbvio (mas que não está acontecendo: sexo) e vai pedir a parte dele como um cafetão que quer parte dos ganhos. "Vende" a filha por 5 libras (10, não, é muito! -diz ele). Gallego
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Voltar ao topo [Aeternus:13537] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - Por falar em passarinhos, enviado por Katia
 Heliete é presidente do Conselho da Asa Sul. Ela encaminhou essas fotos, denúncia do verdadeiro crime cometido contra passarinhos (a maioria Saia-Azul) que está sendo perpetrado na CLS105. O mesmo acontece em outros lugares do DF e do Brasil c/ essa síndrome de Nova York que é ter vidros espelhados nos prédios. Katia Aguiar |
Voltar ao topo [Aeternus:13538] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:Por falar em passarinhos, enviado por Katia
Voltar ao topo [Aeternus:13539] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:Por falar em passarinhos, enviado por Katia
 Desculpem, a pressa me atrapalhou. A imagem com texto ficou grande demais, a segunda, em bom tamanho, ficou sem o texto. A campanha é para proteger os passarinhos contra o engano das vidraças. O poema que traduzi é o do Nabokov (já coloquei antes na Lista) que começa assim: Sou a sombra do pássaro abatido pelo falso reflexo de uma janela de vidro... I was the shadow of the waxwing slain by the false azure of a windowpane. Pale Fire, Nabokov. Katia acrescentou: Vou passar sua tradução para a Margi Moss (margi@brasildasaguas.com.br) da Associação dos Moradores do Lago Sul (QI 23) e dos http://www.brasildasaguas.com.br / http://www.riosvoadores.com.br. Acho que ficará perfeita num cartaz c/ as imagens colhidas pela Heliete. No dia 5/6, dia do Meio Ambiente ela vai abrir uma exposição de fotos de aves no Parque Olhos d’Água, q ficará em exibição durante dois meses, c/ o fim de incentivar a observação do comportamento delas visando sua preservação e a de seus habitats. Estamos pensando em uma campanha nacional. Uma boa maneira que vc tem, ainda, de colaborar é sensibilizando os assinantes do aetern.us, por exemplo, p/ que divulguem as fotos e escrevam para o iabdf@iabdf.org.br; iab@iab.org.br e para preside.sede@ibama.gov.br; linhaverde@ibama.gov.br e maria.rossi@ibama.gov.br pedindo providências. Um grande abraço. Obrigada. |
Voltar ao topo [Aeternus:13540] Mensagem do Grupo11 -Omar(2010-05-26) - RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
 Ah, Jansyta, não é só delírio, não. Pode ser que o Encantamento seja um delírio, mas um "delírio real". É uma... epifania!? É algo essencial que se transforma no alicerce de quem somos pro resto da vida, sem sermos rígidos. Ao contrário: quem não passa por isso é que se torna rígido por fora, quebradiço portanto. Difícil saber porque o portal se abre ou se fecha, ou para onde vai o danado do Encantamento... Como todo mundo, me encantei e desencantei taaaantas vezes. Não consigo encontrar aqui em casa, sei que tenho, procuro mas não encontro: um texto do Sartre descrevendo um momento mágico desses (mesmo não associado à experiência amorosa, mas acho que dá pra chegar a isso através dela), em que ele "ouve" cada folha da árvore farfalhando ao vento, vê a cor dos sons, essas coisas que a gente acha que é bobeira e alucinação de quem toma chá de cogumelo, mas às vezes é uma ampliação de percepção e que, no caso dele, a experiência existencial básica. Noutros termos, é o que vejo de revolucionário no amor: a individuação. É essa experiência que transborda que nos dá conta de onde vem e pra onde vai essa coisa chamada... VIDA: brota de um dentro que não existe pra um fora que pode ser infinito... tudo abstração, mas o abstrato também é real.
Hoje cedo me veio à mente a idéia de que não tem essa de espírito de um lado e de matéria pro outro: desde que um cara da humanidade conhecido como EinStein (Mono Lito) disse que matéria e energia são estados de uma mesma coisa, o "espírito" não pode supor que o corpo seja algo feito de outra coisa diferente de si mesmo, que lhe seja estranho, como uma roupa do Homem de Ferro. Da mesma forma, se for pra pensar o Universo, não se pode achar que seja morto, porque não é. Se as pessoas não conseguem imaginar o Universo sinonimizado com a idéia de Deus SEM abdicar do determinismo, eu não tenho culpa. Essa é uma das matrizes de pensamento idiota: associar Deus a determinismo. Quando a gente conseguir conciliar Deus (não antropomórfico) e sua Criação AO ACASO, então estaremos mais abertos a saber que nada sabemos, e isso é 1/2 caminho andado pra gente VIVER isso que é a VIDA... Eu, pessoalmente, não tenho uma idéia antropomórfica de Deus... Então acho estranho as pessoas que não conseguem ser agnósticas, que precisam ser atéias pra se sentirem mais livres... eu não vejo nenhuma dificuldade de conciliar Deus e Liberdade, porque Deus é a Vida do Universo. Se o Universo é Corpo, Deus é seu Espírito. E como não tem diferença entre Corpo e Espírito, então tudo é tudo. E essa doideira só me foi possível acolher na cabeça porque uma vez tive de encarar: É O AMOOO-O-OOOOOR! |
Voltar ao topo [Aeternus:13541] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
 de Jansy em resposta dialogal ao Omar: Então estamos de acordo que, mesmo sem amor (é possivel isso, se sempre existe o narcisismo pressionando?), alcançamos uma epifania. Ouvir a cor da cor e a cor do som, perceber o farfalhar das folhas com a nitidez de um encantamento, sentir a união das coisas (como no seu panteísmo final). Tem os epifanicos não religiosos, como James Joyce e o Manuel Bandeira, tem os mais místicos como Nabokov. Ampliação da percepção com exacerbação do engajamento emocional no que se percebe, pois não? Por outro lado, não acompanho o resto da sua argumentação a partir da equação matéria e energia. Alma, pra mim, não é energia/matéria - mas não sei o que é (embora partilhe da sua conclusão sobre a ligação entre alma e corpo). Sermos seres que pensam no cosmos me parece algo muito especial, totalmente diferente do que anima o resto dos seres.Haja ou não vida inteligente em algum outro lugar do cosmos, ainda assim somos especiais. E isto porque nomeamos as coisas, conversamos, enxergamos o outro, temos as palavras. É um outro tipo de vida, como entendo. Também aceito um tipo de determinismo. Se me imagino como quem enxerga o mundo de fora, sem espaço-tempo, posso ver tudo simultaneamente:presente, passado e futuro. Logo, neste aspecto, as coisas estão determinadas porque acontecentes. Pra quem está inserido no tempo e não tenha essa visão extratemporal, existem escolhas e liberdade mas, ao mesmo tempo, são escolhas que já foram feitas antes de nos darmos conta disso. Também não creio no acaso, ou melhor, não exatamente. Para mim há uma teia de eventos, como os que promovem as coincidencias (ilusão de coincidencia, claro, mas ainda assim acontecendo o tempo todo...) Não estou com tempo pra pensar...correndo... mas não pude deixar de retomar a conversa. De vez em quando a gente enxerga algo que nos escapa no cotidiano e o amor facilita isso e o que se vê é encantador e verdadeiro numa dimensão especial que nos escapa sempre, escorrega sempre, só dá pra sentir e apostar nisso. Enfim, vai e vem, no básico concordo com você... |
Voltar ao topo [Aeternus:13542] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-26) - RE:RE:Amor também é Verbo Transitório? --> andorinhas
 "Quando Freddy canta o amor pela rua onde Eliza mora não é apenas a graça de Eliza que se espraia pela rua, pelo ar, pela brisa, pelo sol, pelas flores; é o amor pelo amor: Freddy ama amar Eliza ou ama a ideia de amar Eliza; ou ainda: Fred está apaixonado por se perceber encantado por Eliza."
Pois é: lembro da imagem do Freddy cantando, lembro do teor da canção... mas não lembro da música... Tem uma descrição que Freud faz do amor que li na juventude e agora não me lembro em que livro está. Mas a idéia que ele passa é que, longe de ser esse "produto" de uma multiplicação que começa na percepção da beleza e passa pelos perfumes, maciez de pele, textura de cabelos, aura de sorrisos e olhares, o amor vem de alguma outra coisa e que, uma vez "pegos", aí é que passamos a "amar" AQUELES cabelos, AQUELA pele, AQUELE sorriso e passamos a chamar de beleza AQUELA beleza... é o trajeto inverso ao do que estamos acostumados hoje... E SIM, Freud acreditava no amor... mas só até um certo tempo. Ou melhor dizendo, ele até continuou acreditando, mas não conseguia mais ilustrar essa crença, que passou a ser apenas... uma crença. De minha parte, não concordo que ele precisasse transformar numa crença, ou seja, acho que dava sim pra ele DEMONSTRAR através daquilo que ele acreditava ser sua "ciência" essa "realidade" do amor... mas acho que ele fez as sintaxes erradas... por causa dos tempos em que seu intelecto respirava... eram tempos... intoxicantes... E desemboca que Freud é usado hoje também nos discursos ANTI-amorosos... hã?
Bánoite! Agora vou conversar com os deuses. Omar |
Voltar ao topo [Aeternus:13544] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-27) - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
 Lendo o determinismo da Jansyta me lembrei de 2 filmes: um, que não foi feito, era um roteiro pra curtíssima-metragem. Iria chamar-se INSTANTE. Ia mostrar um disco de vinil rodando sob uma agulha de toca-discos. Mas o som não ia se casar com a imagem: justamente quando o personagem-ouvinte se levantava pra virar o disco (a gente hoje mal se lembra de que os vinis tocavam dos dois lados, né?) a câmera "grudava" no disco, que ficava fixo na imagem e todo o restante é que virava aos olhos do espectador, e então se fazia a música. A primeira parte, da agulha no disco, era pra sugerir algo como o que a Jansy disse: o momento presente como ilusão, pois que é feito de instantes, tão abstratos para o tempo quanto o ponto para o espaço. E o disco já está "sulcado", a música está toda lá, mas não a ouvimos sem a "agulha do presente". A defasagem do som era pra apontar o seu oposto: a sincronicidade... essas alças nas teias dos acontecimentos... Preciso perguntar como é que terminava, porque não me lembro. Acho que era isso, de ficar tudo de ponta cabeça, e o braço da vitrola sem encostar no disco enquanto se escutava uma música com chiado característico de disco de vinil... Também lembro que era pra ter uns cortes no tempo, uns "saltos" na ação sem mudar de objeto... O segundo filme é aquele "Quem Somos Nós?", que tem um trecho que mostra a moça tendo um distanciamento como o que a Jansy imaginou, pra fora do tempo/espaço, mas ela se vê em múltiplos "desdobramentos", representando suas várias possibilidades de escolha. Então não é UMA escolha-já-escolhida, mas pelos menos um certo número delas, o que faz do momento presente uma coisa mágica e realmente... ÚNICA. Mas não predeterminada... O PRES-ENTE é uma coisa que o corpo dá pra vida (tanto como somos uma vida "diferente" das outras, porque consciente), mesmo que esse presente seja um instante, e que o instante seja uma abstração tanto quanto o ponto o é para o espaço, como os átomos são vazios em relação à materia, preenchidos apenas por forças que resultam nessa aparente solidez, por sua vez sujeita à percepção proporcionado pelo relativo ponto de vista de nossas dimensões... E agora , escrevendo, lembrei de um 3º filme: A Fraternidade é Vermelha, que, no final, fala dessas alças sincrônicas... não me lembro exatamente O QUÊ, no filme, remete a elas, mas estou seguro de que elas estão lá... E, pra finalizar, claro, um 4º e um 5º filmes que pra mim são como um, minha Bíblia pessoal, minha cosmologia predileta: Stalker/Solaris, que sugere que esse presente, que esse Ser é co-autor do universo ou, de outro ponto de vista, o universo crescendo interdimensionalmente... porque afinal de contas, esses seres especiais que somos são também portais interdimensionais. Cada um de nós é uma bolinha de pinball espelhada, refletindo o cosmo infinito. E esse reflexo é, pra dentro, tão infinito quanto o de fora. Assim é o nosso VER. Bem, já que falei de Pinball, preciso dizer que parece mas não é: Tommy. Não, Tommy está em outra lista. Não nesta. |
Voltar ao topo [Aeternus:13551] Mensagem do Grupo11 -Visitante(2010-05-27) - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Viver: Verbo Transitório --> andorinhas
 Jansy para Omar: o curta intitulado "Instante" ( com uma agulha suspensa sobre um disco de vinil e um som defasado) é um roteiro da sua autoria? Muito interessante... Acho que agora consigo uns vinte minutos, pelo menos, para continuar aquelas imaginações sobre os distanciamentos cósmicos. Veja só, Omar, o problema dos que se afirmam "ateus" refere-se mais aos que rejeitam a doutrina bíblica, ao Javé, criador que fica fora do mundo criado por ele (transcendente e imanente). Quando se evita pensar em um Deus fora do Cosmos, para se pensar apenas no universo como nos vem sendo descortinado em constante ampliação ou contração, não há problema em chamar esta criação de "deus" ou de qualquer outra coisa ("panta-rea"? arquétipo?). O duro mesmo é o Deus transcendente que, ao contrário da crença dos gnósticos, se interessa pelo criado e pelo homem em particular. A imagem que fiz, daquela coisada do distanciamento cósmico, requer um olhar "metafísico". Não sei se serve a analogia com uma frase da teoria da Gestalt de que me recordo ainda: "o todo é maior que a soma das suas partes," mas, para mim, ela indica que só vemos as partes de quase tudo que encontramos ao passo que este todo nos escapa, principalmente porque sua apreensão não é um dado objetivo, material, sempre pois requer uma "externalidade". Então. Se a gente sabe que vemos o sol com seis minutos de atraso ( ou seja, vemos o passado) e que os novos telescópios conseguem chegar a uma luz que vem de tão longe, tão longe que o que lhe deu origem pode já nem existir mais há milhares de anos (tipo ver o começo da criação do mundo físico nesta visão do arquipassado), dá para supor que, se pudéssemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo, ou seja (estou esquecida do que pensei...não sei se vou recuperar pra escrever agora...) existir no presente sabendo que ele é o futuro do passado, ao mesmo tempo em que nos víssemos naquele passado (este é o problema!), teríamos uma idéia de como tudo está determinado porque se podemos habitar esta perspectiva é porque o que enxergamos no começo está marcado para acontecer de modo tal que nos permita olhar até lá. Um "Deus" bíblico ( que seria, por definição, transcendente, ou existiria antes, ou independentemente, do criado) poderia ter este tipo de visão. Dentro dela, nós, embora façamos escolhas livremente, já temos nossa trajetória escritinha e o que importa seria o percurso da nossa percepção, a consciência que vamos tendo do nosso passado, presente e os projetos para o futuro. Nossa consciência é que se move, decide, aposta...ela é que tem uma liberdade paradoxal. Pronto, enguicei. |
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