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Divulgação
Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus

  

Trovinhas bem trovadas


Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo:
  • Jansy Mello:
    resposta ao Ton que radiografa uma falácia

  • guto:
    Eia que é poesia de novo !

  • Jansy Mello:
    Poesia não é...

  • Eugênia Correia :
    fancy

  • Jansy Mello:
    Cosmicomico

  • Maria Stela G.Moreira:
    O humor entre o caos e a ordem

  • Jansy Mello:
    ainda o cosmicomico

  • Luiz Fernando Gallego:
    A capacidade de rir de si mesmo

  • guto:
    comitragédia

  • Luiz Fernando Gallego:
    Não se trata de plágio do Chico

  • Jansy Mello:
    meti um PS e aí vai outro...

  • de Ton a J.:
    primeiras trovas

  • Jansy:
    Ton corrige de excovada aa crase mal trovada

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    giro da ampulhenta

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Tonfontaine a Jansopo

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Cópia, cola , clone e distopia.

  • Ruy Penalva:
    clone e dispareunia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    enviando em nome de Ruy Penalva

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    um passeio curioso

  • sergio porto/ jansy mello:
    RE:um passeio curioso

  • Guto:
    matou a trova e mostrou o pau

  • Jansy Mello:
    RE:matou a trova e mostrou o pau

  • Visitante:
    RE:RE:matou a trova e mostrou o pau

  • Guto:
    RE:RE:RE:matou a trova e mostrou o pau

  • Jansy Mello :
    RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

  • Guto:
    Hai Kai balão, aqui na minha mão...

  • helena:
    RE:Hai Kai balão, aqui na minha mão...

  • Jansy Mello:
    RE Hai Kai balão,kaiu

  • Luiz Fernando Gallego:
    Hai Kai da Cecilia Meirelles

  • Jansy Mello:
    exemplo típico

  • Jansy Mello:
    Google informa

  • LFGallego:
    Jansy & Millor

  • LFGallego:
    Pássaros nas vidraças

  • :
    RE:Pássaros em vidraças e micos no site

  • Jansy Mello:
    imbatível humor seco do millor

  • Guto:
    RE:imbatível humor seco do millor

  • jansy mello:
    RE:imbatível humor seco do millor

  • Jansy Mello:
    RE:Pássaros nas vidraças,sapos e Magnólia

  • Jansy Lenore Raven :
    RE:Pássaros nas vidraças e assaros nas vadriçs

  • Marcos:
    RE:RE:Pássaros nas vidraças,sapos e Magnólia

  • Helena:
    RE:Jansy & Millor

  • Helena:
    RE:imbatível humor seco do millor

  • jansy mello:
    RE:imbatível humor do millor

  • Guto:
    Raulzito

  • Jansy Mello:
    RE:Raulzito/ cadê a sua arenga pra continuar a história?

  • Groo - vulgo Fô:
    RE:Raulzito - win 98 sem problema na Lista

  • Jansy Mello:
    Funcionando no windows 98! Viva a borbolenta...

  • Khayáam:
    Nem tanto a Omar, nem tanto aterra

  • Visitante Borges:
    El Aleph

  • Helena:
    Borboleta

  • Helena:
    RE:Borboleta

  • LFGallego:
    RE:Nem tanto a Omar, nem tanto aterra

  • Helena:
    RE:RE:Borboleta

  • Jansy Mello:
    RE:As tres borboletas da Helena

  • Jansy Mello:
    RE:RE:Nem tanto a Omar, nem tanto aterra

  • Helena:
    RE:RE:Não, não tenha síncope

  • Jansy Mello:
    RE:Não, não tenha síncope

  • Helena:
    RE:RE:Firmamento

  • Sergio Porto:
    Os tres "B"

  • Jansy Mello:
    RE:Borboleta, correção

  • Helena:
    RE:Sobre as vacas

  • Guto:
    Voyeur

  • Jansy Mello:
    RE:Voyeur

  • Visitante de A Saltante:
    Omar Kaiu

  • Davy:
    RE:RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

  • Visitante:
    RE:Omar

  • Marcos:
    RE:RE:RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

  • Marcos:
    RE:RE:RE:RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

  • Jansy Mello:
    RE6: arrematou a obra

  • Marcos:
    RE:RE6: arrematou a obra

  • Jansy Mello:
    Um tipo de haikai eletronico...

  • Jansy Mello:
    rarefeitas

  • Guto:
    RE:rarefeitas

  • Jansy Mello:
    Garçons e Mordomos

  • Guto:
    Tentei...

  • Guto:
    RE:Continuo tentando...

  • Jansy Mello:
    RE:Tentei... e tentou e alcançou...

  • Guto:
    Assim eu me empolgo...

  • Jansy Mello:
    RE:Assim eu me empolgo...

  • Marcos:
    aos amigos menestréis

  • Guto:
    3a. Pessoa

  • Marcos:
    RE:3a. Pessoa

  • helena:
    A cueca

  • jansy mello:
    RE:A cueca

  • helena:
    A Verdade

  • Jansy Mello:
    RE:A Verdade

  • Helena:
    Rio de Janeiro

  • jansy mello:
    RE:Rio de Janeiro, no embalo...

  • Helena:
    Onde anda

  • Catulo da Paixão Pouso-Altina:
    Payton Place

  • jansy mello:
    RE:Payton Place/Brasilia Hilton

  • Helena:
    A Nau

  • jansy mello:
    mudando o tom

  • Em. Pessoa:
    invocado, compareço !

  • Visitante:
    RE:invocado, compareço !

  • Guto:
    Nouveau Helena

  • Jansy Mello:
    RE:Nouveau Helena, Belle Poire

  • Helena:
    RE:Nouveau Helena

  • jansy mello:
    RE:Nouvelle Helene...

  • jansy mello:
    Babilonia

  • Nero Sem Fogo:
    RE:Babilonia e Roma Antiga

  • Victoria Regia:
    RE:RE:Babilonia e Roma Antiga

  • Nero Sem Taras:
    RE:RE:RE:Babilonia e dia-à-dia

  • jansy mello:
    RE:Babilonia e dia-à-dia

  • Nero Sem Caras:
    RE:RE:Babilonia e dia-à-dia

  • Lolita Pille:
    RE:Babilonia e dia-à-dia

  • Nero Sem Garras:
    RE:RE:Babilonia e dia-à-dia

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:Babilonia, dia-à-dia di nero sin bianca

  • Nero Sem Iaras:
    RE:RE:RE:RE:Babilonia, dia-à-dia di nero sin bianca

  • Metusalém visitada:
    RE:, dia-à-dia di nero sin bianca

  • Nero às Claras:
    RE:RE:, dia-à-dia di nero sin bianca

  • Xantipe:
    RE:RE:RE:, dia-à-dia di nero sin bianca

  • jansy mello:
    João César Monteiro na segunda-feira

  • LFGallego:
    RE:João César Monteiro na segunda-feira

  • jansy mello:
    RE:RE:João César Monteiro na segunda-feira

  • Guto:
    Trovinhas bem comidas

  • jansy mello:
    RE:Trovinhas bem comidas

  • LFGallego:
    trovas de uma mestra

  • jansy mello:
    RE:trovas de uma mestra/ e outras, amestradas...

  • jansy mello:
    Trovas das Garças

  • Marcia Adorno:
    Ave Rara

  • jansy mello:
    RE:Trovas das Garças/Maiakovski

  • Jansy Mello:
    RE:Ave Rara

  • Jansy Mello:
    As rosas da Julieta...

  • Jansy Mello:
    Sub Rosa

  • LFGallego:
    O Nome da Rosa

  • Visitante:
    O Nome da Rosa - 2

  • jansy mello:
    RE:O Nome da Rosa - 2

  • LFGallego:
    Quem não tem cegonha, caça com garça

  • jansy mello:
    De Rosa, Graça, Garça e Cisnes...

  • LFGallego:
    quem sabe latim?

  • jansy mello:
    RE:quem sabe latim? Umberto Eco sabe e explica

  • jansy mello:
    RE:RE:quem sabe latim? Umberto Eco sabe e explica

  • jansy mello:
    psicanalista já cantou essa pedra pro LFGallego...

  • jansy mello:
    RE: Madagascar

  • LFGallego:
    RE:RE:RE:latindo no latim

  • LFGallego:
    RE:e mais alguém além da psicanalista J. já cantou essa pedra pro LFGallego...

  • jansy mello:
    Rosa rosae

  • Marcia Adorno:
    Correção de vôo

  • Guto:
    Pequena homenagem à Cecília

  • jansy mello:
    RE:Pequena homenagem à Cecília

  • LFGallego:
    RE:RE: de Cecilia a Brecht

  • jansy mello:
    RE:RE:Trovas das Garças- Day After

  • Guto:
    Nossa Cecília

  • Visitante:
    RE:Nossa Cecília

  • Conde Drácula:

  • Elsie Lance:
    RE: estrovinha

  • Lewis Carroll:
    RE: estrovinha

  • Mamãe Ganso :
    RE: estrovinha

  • LFGallego:
    promessa

  • jansy mello:
    RE:promessa ou mais...

  • jansy mello:
    RE:promessa ou mais...

  • Conde Drácula:
    RE:RE:promessa ou mais...

  • jansy mello:
    fragmentos de Alberto Manguel e do Ondaatje

  • Guto:
    Obsenóia parafrênica

  • Visitante:
    RE:Obsenóia parafrênica

  • Conde Drácula:
    37

  • jansy mello:
    RE:37 & Happy Birthday to you

  • Marcos:
    RE:RE:37 & Happy Birthday to you

  • LFGallego:
    Hai-Kais (promessa é dívida)

  • Conde Drácula:
    25/10/2005

  • Conde Drácula:

  • Visitante:
    RE:25/10/2005

  • Conde Drácula:
    Cão

  • jansy mello:
    noites brancas de um exílio

  • Guto:
    Dorme com ela ! (Almodrácula)

  • LFCético:
    sem trovas

  • LFCético:
    ERRATA:sem trovas

  • jansy mello:
    RE:Dorme com ela ! (Almodrácula)

  • jansy mello:
    RE:sem trovas para Johut & Jor-el

  • Conde Drácula:
    RE:RE:Dorme com ela! (Almodrácula) & o RENOVADO ACÚMULO

  • Guto:
    RE:RE:RE:Dorme com ela! (Almodrácula) & o RENOVADO ACÚMULO

  • jansy mello:
    RE:Dorme com ela! (Almodrácula) & o RENOVADO ACÚMULO 2

  • LFGallego:
    A casa vazia

  • LFGallego:
    RE: "A virtude é sua própria recompensa"

  • jansy mello:
    RE:ERRATA:sem trovas

  • jansy mello:
    RE: a virtude do ego ou do altero

  • LFGallego:
    RE: voto nulo

  • jansy mello:
    RE:RE: voto nulo

  • Conde Drácula:
    Achados & perdidos

  • Conde Drácula:
    Bachelard

  • Conde Drácula:
    R$15,65

  • Marcos:
    RE:R$15,65 : de caixas compenetradas

  • jansy mello:
    RE:RE:R$15,65 : de caixas compenetradas

  • jansy mello:
    " a mão"

  • Conde Drácula:
    RE:

  • Conde Drácula:

  • jansy mello:
    RE: não sei se merece burilo, mas aí vai emenda para que não é soneto.

  • jansy mello:
    RE:tirando do album

  • Conde Drácula:
    DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

  • jansy mello:
    RE:DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

  • Conde Drácula:
    Ísis

  • jansy mello:
    RE:Ísis

  • jansy mello:
    depois de jogar tétris

  • :
    RE:depois de jogar tétris

  • Conde Drácula:
    A vida?!

  • jansy mello:
    RE:A vida?!

  • jansy mello:
    Drakul

  • jansy mello:
    beckett rendell king

  • Marcia Adorno:
    A dor do Conde

  • jansy mello:
    RE:beckett rendell king, ps sobre limites rompidos...

  • Conde Drácula:
    RE:RE:DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

  • LFGallego:
    Dogville e Cidade dos Sonhos Blearghhhhhhh

  • Encantador de Serpentes:

  • Guto:
    Ê mundão..

  • jansy mello:
    RE:Ê mundão..

  • jansy mello:
    que não fique vazio...

  • jansy mello:
    RE:que não fique vazio... nem abandonado?

  • Guto:
    Catedral/bule/cogumelo atômico

  • jansy mello:
    RE:Catedral/bule/cogumelo atômico

  • Olavo Bilac:
    Delírio

  • LFGallego:
    RE:Delírio

  • Visitante:
    poème en bleu

  • Luiz |Fernando Gudes Gallego.:
    RE:poème en bleu

  • LFGallego:
    RE:Delírio

  • Conde Drácula:
    RE:RE: Investidas linguísticas

  • jansy mello:
    RE:RE:RE: Investidas linguísticas

  • Conde Drácula:
    RE:RE:RE:RE: Investidas linguísticas

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:RE:RE: Investidas linguísticas

  • Visitante:
    Mar Absoluto

  • LFGallego:
    RE:Mar Absoluto

  • Guto:
    ê marujada

  • jansy mello:
    RE:ê marujada

  • Guto:
    RE:RE:ê marujada

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:ê marujada

  • LFGallego:
    letra de Herminio Bello de Carvalho

  • jansy mello:
    RE:letra de Herminio Bello de Carvalho

  • LFGallego:
    RE:RE:Paulinho da Viola com Herminio Bello de Carvalho

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:Paulinho da Viola com Herminio Bello de Carvalho

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE: cds de Herminio Bello de Carvalho

  • jansy mello:
    RE: aniversários de Shakespeare e Cervantes e nabokov

  • LFGallego:
    lembrando Drummond

  • jansy mello:
    RE:lembrando Drummond

  • LFGallego:
    RE:RE:lembrando Drummond

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:lembrando Drummond

  • jWolfgang von Gathe:
    sem pompa

  • anonimo:
    aquecimento, primeiro rascunho

  • Visitante:
    REMOVER LISTA

  • Guto:
    RE:REMOVER LISTA

  • jansy mello:
    remover, deletar e a lista do Guto

  • LFGallego:
    Shakespeare em português

  • Visitante:
    RE:Shakespeare em português

  • LFGallego:
    recebi uma paródia

  • jansy mello:
    RE:recebi uma paródia

  • Menico de Jaçanan:
    RE:RE:recebi uma paródia

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:recebi uma paródia

  • estamira:

  • Visitante:
    C O R P O

  • Herr Doktor Qüinn:
    todo açougueiro prefere a lâmina à própria carne

  • jansy mello:
    RE:todo açougueiro prefere a lâmina à própria carne

  • Herr Doktor Qüinn:
    RE:RE:todo açougueiro prefere a lâmina à própria carne

  • jansy mello:
    RE:todo açougueiro prefere a lâmina à própria carne

  • jansy mello:
    RE:RE:todo açougueiro prefere a lâmina à própria carne

  • jansy mello:
    O lugar do ego

  • Omar:
    Onça Preta

  • Omar:
    Adelaide do Julinho (I)

  • Omar:
    CV

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Poesia pungente de Helena Daltro Pontual

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    o sonho real da Helena

  • gustavo alcides da costa:
    RE:Poesia pungente de Helena Daltro Pontual

  • Omar:
    RE:RE:Poesia pungente de Helena Daltro Pontual --> inequação

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Poesia pungente de Helena Daltro Pontual --> inequação

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    O perigo cometido pela Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    já que vamos das trovas às molduras...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Borges

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Fernando Monteiro em 2001 comemora borboletas

  • gustavo alcides da costa:
    Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Clarice

  • Omar:
    RE:RE:Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    texto desvirgulado

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Muitas vidas numa só e o artista e sua obra

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    AVISO AOS NAVEGANTES; participação livre, sem cadastro e senha

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:RE:RE:Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Clarice

  • Visitante:
    Achou! Quem procura...

  • Visitante:
    RE:O perigo cometido pela Clarice

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:Clarice

  • Visitante:
    RE:texto desvirgulado

  • cely bertolucci:
    RE:RE:O perigo cometido pela Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Ainda Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    do Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Clarice

  • Visitante:
    RE:Ainda Clarice

  • Visitante:
    Konstantinos Kafávis

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Ainda Clarice

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Pelo Gallego, outro do Kafavis

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Ainda Clarice ---> Woody Allen

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Ainda Clarice ---> Woody Allen...plágio

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Ainda Clarice

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:RE:RE:Ainda Clarice

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:Ainda Clarice - Felicidade Clandestina

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Ainda Clarice - Felicidade Clandestina

  • Visitante:
    white lady bullshit

  • Visitante:
    tacando pedras... da Tekka

  • Visitante:
    RE:white lady bullshit

  • Visitante:
    ao Guto

  • Visitante:
    RE:ao Guto

  • Visitante:
    poema legal

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:poema legal

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Historinha do cotidiano de uma avó

  • Visitante:
    RE:poema legal

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    enviado por e-mail

  • Visitante:
    Um bom final de semana para todos nós

  • Visitante:
    cinzas

  • Visitante:
    RE:cinzas

  • Visitante:
    RE:RE:cinzas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Um bom final de semana para todos nós

  • Visitante:
    catira

  • Visitante:
    cecília meireles e rilke

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    varias críticas ao Original de Laura do Nabokov

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:catira

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    vivendo e aprendendo...

  • Visitante:
    Aracy (uma ROSA) em Brasília / Ana Miranda

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Aracy (uma ROSA) em Brasília / Ana Miranda

  • Visitante:
    RE:cecília, rosas e filmes-catástrofes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    quem me ajuda com a Cecília?

  • Visitante:
    RE:quem me ajuda com a Cecília?

  • Visitante:
    Amar: o amor ou o amado ?

  • Visitante:
    Angelo Silesius

  • Visitante:
    RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Visitante:
    Emily Dickinson, The White Rose

  • Visitante:
    RE:RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Visitante:
    Emily Dickinson, The White Rose

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Emily Dickinson, The White Rose

  • Visitante:
    RE:RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Amar: o amor ou o amado ?

  • Visitante:
    RE:RE:Emily Dickinson, The White Rose

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Emily Dickinson, The White Rose

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Emily Dickinson, The White Rose

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Emily Dickinson, The White Rose

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Heinrich Heine

  • Visitante:
    rosas; CDA e Marly de Oliveira

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:rosas; CDA e Marly de Oliveira

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    mal traçadas linhas

  • Visitante:
    rosas para Jansy

  • Visitante:
    RE: Mário Faustino

  • Visitante:
    RE:mal traçadas linhas

  • Visitante:
    RE:RE:rosas; CDA e Marly de Oliveira

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE: Mário Faustino

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE: Mário Faustino

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    ranzinzando

  • Visitante:
    Marly

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Marly

  • Visitante:
    Cecília

  • Visitante:
    RE:Cecília

  • Visitante:
    RE:RE:Cecília

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Cecília

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Vinicius de Morais

  • Visitante:
    RE:Vinicius de Morais

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    a linda rosa juvenil

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Vinicius de Morais

  • Visitante:
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    [Aeternus:452] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2004-04-30)


    - resposta ao Ton que radiografa uma falácia

     

     

     Radiografia de uma falácia

     raios de contato que não há !
     no ato a dois
     contrato sempre há
     no toque do se prestar:
     tudo é sexo,
     nem sempre explícito,
     nem necessariamente óbvio,
     mas tudo é eco
     do tatear
     (a visão é o tato a distância,
     já dizia o bion... ou não ?)

     não é a imagem do lambe-lambe
     que surge do breu de sua geringonça,
     e sim o outro
     em pose de dessemelhança
     que no escuro com aquele está

     (no entanto, as arestas
     bem bisotadas
     ecoaram
     no seu devido lugar:
     rádio a captar
     egografia
    - sursum acordada !)

     mas uma composição falaciosa
     talvez nesse terreiro dê samba,
     que psicanálise, não sendo ciência nem filosofia,
     não é escrava da razão
     e, como cantou einstein,
     mais importante que o conhecimento
     é a imaginação.

     dáblio dê a jansyrádio

    de jansyante ao wáblio ton:


     Visão é tato à distancia,
     contato é pra se ver longe...
     enxergar além do umbiguo,
     sem o raio do X
     da eco de Eco e 
    do Narciso  da egografia.
    Xô!  
    Não há eros em erro
    e me lixo pro sexo de Lacan
    mais realista que o Che
    visando o impossível.
    Porque eu quero tudo,
     a começar pelo que
     posso dura de roer.
     
    Mais forte que a neve é o muro
    que tapa o sol,
    mais forte que o muro é o rato
    de marcha-ré,
    mais forte que o rato é o gato
    no muro do quintal,
    e a imaginação, mais forte que a fé
    cruzando a pé  a ponte sem pilastra...
    ( será mesmo que é?)
     


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    [Aeternus:454] Mensagem do Grupo24
    -guto(2004-04-30)


    - Eia que é poesia de novo !

    Adorei, Jansy.

    Por falar nisso, e suas cartas ? Não as de hoje, mas aquelas, precursoras do imêiou. Encade(r)nando a Heloísa, lembras-te ?


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    [Aeternus:455] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2004-05-01)


    - Poesia não é...

    Guto, me encantei com sua resposta hipermnêmica, cobrando-me um projeto que esbocei há uns vinte anos... Contudo, estas trovas não chegam a constituir o que considero poesia.  Ontem mesmo, assistindo ao filme " Alguém tem que ceder" com Jack Nicholson e Diane Keaton, uma frase me chamou atenção. Ele, como dono de uma gravadora hip hop de rap, critiou a companheira: " já vi que você não considera que rap é poesia...".  

    O que vem acontecendo comigo é diferente daquilo que move o poeta. Não só há um ritmo dos significantes que toma conta de modo  independente do sentido claro que eles poderiam ganhar numa ordenação lógica, como ainda instigo nos que me lêem uma resposta no mesmo tom e, isto, vem sem querer.  Talvez seja uma expressão em paralelo de um vício profissional de psicanalista!  Ou, apenas, uma regressão ( daqui a pouco digo porque acho que é regressão, mestre Borges aponta para isto com clareza ).  Quer ver por onde minha auto-censura opera?  Escrevi como título desta mensagem " poesia não é"  e, internamente, me surpreendi cantarolando um trecho dos Saltimbancos do Chico Buarque ( com Beethoven e irmãos Grimm ao fundo, porque ele se inspirou neles também sem o reconhecer explícitamente ):

    Jumento não é, jumento não é... o grande malando da praça...

    Quanto ao Borges, no seu  " Curso de Literatura Inglesa" ( editora Martins Fontes ):

    "A poesia é, em todo caso, anterior à prosa.  Parece que o homem canta antes de falar.  Mas há outras razões muito importantes. Um verso, uma vez composto, age como modelo.  Repete-se outra vez, e chagamos ao poema.  Já a prosa é muito mais complicada, requer um esforço maior.  Além disso, não devemos esquecer a virtude mnemônica do verso.  Assim, na Índia, os códigos são em verso.  Suponho que devem ter algum valor poético, mas não estão escritos em verso por isso, mas simplesmente porque nessa forma é mais fácil recordá-los".

    Eu poderia parar neste ponto, mas não resisto e copio outro parágrafo:

    "Devemos ver bem o que significa "verso".  Essa palavra tem um sentido muito elástico.  Não é a mesma concepção em todos os povos nem em todas as épocas.  Por exemplo, nós pensamos em verso isossilábico e rimado; os gregos pensavam em verso entoado, caracterizado pelo paralelismo, frases que se balanceiam.  Mas o verso germânico não é nada disso.  Foi difícil encontrar a lei de construção desses versos, porque nos códigos eles não estão escritos - como nós os fazemos - um debaixo do outro, mas em forma corrida.  Além do mais, não há sinais de poontuação.  Mas, de todas as maneiras, acabou-se descobrindo que em cada verso há tres palavras, cuja primeira sílaba é tônica, e que  estavam aliteradas.  Encontraram-se rimas, mas são casuais: quem escutasse essa poesia seguramente não as ouviria (...) No que concerne ao verso aliterado, um germanista diz que ele tem a vantagem de configurar uma unidade. Mas devemos acrescentar sua desvantagem, a de que não permite estrofe (...) A rima, ao contrário, permite o agrupamento em estrofes.  Um recurso que os poetas germânicos descobriram tardiamente e utilizaram pouco foi o estribilho.  Mas a poesia tinha desenvolvido outro instrumento poético de hierarquia: ele será representado pelas kennings, metáfora descritivas, cristalizadas" .

    Temo que, no meu caso, não o daqueles que me respondem com versos, meu impulso originário seja o de cantar ( o que não consigo ) em vez de... pensar. Por isso, me situo neste nível mais primário e regressivo apontado pelo Borges.

    Recentemente tive um pega com um autor e tradutor tido como importante, talvez por causa do nome do pai, Vladimir Nabokov.  Seu filho Dmitri, incomodado com minhas intervenções numa lista de estudo sobre a obra do Vladimir, porque eu me opunha ao uso que ele fazia de elementos da vida particular de um interlocutor para agredi-lo pelas opiniões que lhe desagradavam, me respondeu com versinhos.  E eu, ataquei de volta.  Vou colar aqui... Rima serve pra tudo.  

    DMITRI NABOKOV POEM FOR JANSY
     
    There is an Enforcer named Jansy
    who can't comprehend fun or fancy.
    She won't fail to protest
     the most innocent jest
     if its theme makes her feel antsy-pantsy.
     
     DN
    -----------------------------------------------------------
    JANSY REPLIES:
     
    Here is my answer to Dmitri´s animadverses
     
     Handy Pandy, Jack-a-dandy
     antsy-pantsy in sugar candy
     when we pluck a pen off fancy
     to strike S from cosmic pie
     it still splatters in our platters
     it still risks giving offency
     when we´re dealing aye to I.
     
    Jansy 
     
    Explico em português. Dmitri rimou meu nome com "fancy" ( tudo bem, "fantasia" ou "capricho" ) e com "antsy-pantsy" ( "ter formigas nas calcinhas",  aliás, é uma experiencia, concreta, que tive quando pequena... ).
    As duas primeiras linhas do meu versinho vêm do livro de rimas inglês " Mother-Goose". A imagem de "pen" ( caneta de pena, no caso ) cortando a letra "s" faz referência a uma brincadeira verbal do Nabokov pai que dizia que entre o comico e o cósmico há apenas um "s" a mais ).
    Escrevi "offency" como neologismo com o som de "ofensa de falta de fantasia" ; "Aye to I" é outra forçação de barra.  Olho por olho ( dente por dente, ou em enfrentamentos do tipo olhos nos olhos ) seria Eye to Eye. Mas o som serve também para dizer do assentimento covarde ( "Aye" é "sim" no ingles do tempo de Shakespeare) e " I" é "eu". 
     
    Então... jumento não sou, poesia não é, mas jumento sou quando a "poesia" acontece e me carrega.

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    [Aeternus:456] Mensagem do Grupo24
    -Eugênia Correia (2004-05-01)


    - fancy


    uau!!!!!
    apalusos calorosos e carinhosos para sua poesia, Jansy!
    Adorei sua construção.
    Junto-me àqueles que gostariam de ler seus outros poemas.
     
    Muito saborosa sua construção em inglês. Lembrei de uma passagem de Otávio Paz, "Signos em rotação", p. 17 onde ele sublinha a especificidade da poesia inglesa, que seria mais próxima da dança, da canção, produzindo "expressões estranhas e cheias de surpresa verbal". É ainda no mesmo parágrafo que ele faz referência a um poeta - que conheci por uma intervenção sua, Pope - que tinha como recurso poético o "heroic couplet". Dryden, um comentador, adianta que este recurso de Pope - o heroic couplet - "bounds and circunscribes the fancy". "A rima regula a fantasia, é um dique contra a enchente verbal, uma canalização do ritmo."
     
    Ainda estou matutando na aproximação de Nabokov entre cômico e cósmico. Aida Ungier diz que "Tal como o humor, a experiência psicanalítica é trágica. Ao escolher seu caminho, o sujeito admite que o mal está dentro dele mesmo. Não há mais nenhuma Providência a ser clamada ."
    "A proposta do humor não é fazer rir, isso é consequência. Eis a razão pela qual aproximo o humor do nascimento da tragédia, o que me permite defini-lo como uma forma de arte."
    O que ligaria cômico a cósmico seria o trágico aberto a nossos pés ?
     
    Eugênia

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    [Aeternus:457] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2004-05-01)


    - Cosmicomico

    Eugenia ofereceu elementos importantes sobre a utilização do heroic couplet por Alexander Pope:   "a rima regula a fantasia, é um dique contra a enchente verbal, uma canalização do ritmo.No entanto, não vejo como opera este papel regulador da rima se o estendermos ao homem comum porque,  em muitos momentos é a rima, exatamente ela, que se presta aos automatismos da fala sem sentido e sem imaginação, seja em alguns tipos de discursos psicóticos, seja nas rimas para crianças.  Com os poetas o processo é diferente porque para eles, rima, ritmo, pausas e sonoridade emergem como sua matéria prima para construir o poema. 

    ( A frase "dique contra a enchente verbal" me intriga! )

    Eugenia prosseguiu " matutando na aproximação de Nabokov entre cômico e cósmico". Letras faltando ou sobressalentes quando se aproximam palavras como estas, ou como em outra montagem nabokoviana com  "world e word",  revelam sua ousadia nos jogos poéticos que tanto abrem caminho para a apreensão do milagre da linguagem ( Nabokov me causa deslumbramentos constantes! ) como, ao mesmo tempo, criam um sentido filosófico ou místico onde, talvez, ele não exista. 

    A simples aproximação de  word e world, de palavra e de mundo, é um achado. A inquietante ligação entre o comico e o cosmico também. Por isso mesmo que a colaboração da Eugênia ficou especialmente rica com seu próprio achado de trazer o contrapeso das idéias de Aida Ungier, que associa o humor e o trágico: " ao escolher seu caminho, o sujeito admite que o mal está dentro dele mesmo. Não há mais nenhuma Providência a ser clamada ." (...) "A proposta do humor não é fazer rir, isso é consequência".

    Cá estou agora matutando junto com Eugênia. Desconcertada, talvez, porque não sei se concordo com Ungier neste contexto onde se supõe  a liberdade para escolher um caminho e que esta escolha implique na admissão de que trazemos o "mal" em nós.

    Será que todo humor nasce de uma proposta consciente?


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    [Aeternus:458] Mensagem do Grupo24
    -Maria Stela G.Moreira(2004-05-01)


    - O humor entre o caos e a ordem

     

    Achei bastante inteligente a ampliação do tema que Eugênia trouxe.

    O humor é freqüentemente confundido com o chiste, o cômico ou com  a ironia, porém ele é mais amplo do que estes. O humor promove um  triunfo do princípio do
     prazer sobre as adversidades das circunstãncias reais. Veja o caso do humor judaico nas piores situações, indicando uma alta tolerância à frustração.

    Não existe uma conexão clara entre o riso e a "surpresa" do humor. Ele estabelece  uma relação entre o caos e a ordem quando  possibilita o aparecimento de uma nova conjectura ao apresentar as descontinuidades que surgem na evolução de um pensamento.  A aproximação do humor ao nascimento da tragédia, a ligação de "cômico  e cósmico" são exemplos deste vértice artístico e literário. 

    Stela
     


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    [Aeternus:459] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2004-05-01)


    - ainda o cosmicomico

    Creio que Stela expressou algo próximo daquilo que, de modo bem mais prolixo, tentei dizer,  quando ela situou a aproximação do "comico e cosmico" como sendo um exemplo de "criação artística e literária", assim reduzindo o peso de ser uma  revelação científica.

     


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    [Aeternus:460] Mensagem do Grupo24
    -Luiz Fernando Gallego(2004-05-01)


    - A capacidade de rir de si mesmo

    Para Heinz Kohut o narcisismo arcaico, primitivo, se não se transforma através dos processos de maturação do self, é fonte do que seria equivalente ao "narcisismo de morte" e descrições equivalentes de outros teóricos do narcisismo destrutivo. Mas se há transformação do narcisismo, ele é fonte da empatia pelo outro, da criatividade, da sabedoria, da aceitação da finitude e do desenvolvimento do senso de humor - no qual ele destaca a caracterísitca fundamental de poder rir de si mesmo (pensem bem: algo bem pouco "narcisista" no senso comum manifesto do termo: poder rir de suas patetices, de sua pretensa "seriedade"). O compositor Verdi, sábio no final de sua longa carreira, se inspirou em Shakespeare para, depois de tantos dramalhões, deixar como "testamento" o final de "Falstaff", sua última obra-prima: "Tutto é burla nel mondo!". Nada mais cósmico-cômico.

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    [Aeternus:461] Mensagem do Grupo24
    -guto(2004-05-02)


    - comitragédia

    Há teorias teatrais que apontam a tragédia como a impotência do Homem em face de Deus(es), do Destino, do Imponderável, e até de vícios de personalidade, como a intriga e o ciúme, p. ex. (Otelo). Seria desafiar a ira das divindades pela arrogância, ganância, coragem exacerbada, ou mera felicidade alvissareira. A desmesura.

    A comédia seria, ao contrário, o expectador num plano superior, rindo-se da desgraça (não há comédia sem desgraça, assim como no trágico) sempre do Outro.  Seria a não-identificação (ou talvez, melhor, desidentificação), ao contrário da tragédia, onde o Herói é imolado por um deus (ou vilão) sacana, mas mora na fantasia do público.

    Nesse sentido, a ilusão de Poder produzida na comédia pode ter, sim, um efeito cósmico. Estou sendo livresco ou faz algum sentido ?

    Bom domingo.


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    [Aeternus:462] Mensagem do Grupo24
    -Luiz Fernando Gallego(2004-05-02)


    - Não se trata de plágio do Chico

    Jansy, você escreveu que o Chico Buarque não credita trecho de Beethoven n´ "Os Saltimbancos" e quero fazer dois reparos: o primeiro, que a música não é dele. Originalmente  trata-se de um musical  italiano composto por Luís Baclov (ou Bacalov, não lembro bem o nome), músico  que compõe tb para cinema, inclusive para alguns dos últimos filmes de Fellini depois que o Nino Rota morreu.

    Como acontece com a  maioria dos compositores de músicas para filmes, ele tem sólida formação clássica e transita nas duas áreas: cinemas e salas de concerto  (mas geralmente são conhecidos apenas pelo que fizeram para filmes. Mesmo Rota é pouco conhecido por suas composições "eruditas" que o Riccardo Mutti está tentando divulgar em gravações).

    O Chico Buarque só fez a adaptação/versão para o português. Na época do lançamento, foi fartamente falado que havia trechos de Beethoven, Mozart e de outros em frase musicais inteiras, paráfrases, palíndromos ou variações crípticas. Legalmente não há o que declarar: quase toda a música "clássica" até o início do século XX caiu em domínio público (Puccini parece que ainda recolhe direitos autorais para seus herdeiros o que dificulta as gravações e a execução das suas obras ) .

    Até mesmo a divulgação da música erudita contemporânea, independentemente de ser uma música palatável ou não aos ouvidos sofre com as regras atuais dos direitos autorais.  Os "compositores de cinema" são, em geral, mais "conservadores" e raramente compõem usando o  modo aleatório, música atonal e  dodecafônica e isto faz com que sejam bastante esnobados pelos críticos de música erudita e, mais, pelos compositores contemporâneos - a despeito dos mini-movimentos de "neo-clasicismo", "neobarroquismo" e similares, inaugurados por Stravinski que realizou, a rigor, música pós-moderna com citações e com a revisão dos estilos anteriores. Em Stravinski, tudo parece Stravinski mesmo, mas se a gente presta atenção (orientada por dicas), reconhece inspirações, principalmente bachianas em algumas obras do russo).

    Na Flauta Mágica, um conhecido meu que tem excelente ouvido e toca violão popular razoavelmente  encontrou trechos do Saltimbanco. Sem dúvidas há trechos de Beethoven (uma obra meio estranha para piano, coro, etc). Acho que de um pedacinho de Bodas de Fígaro.

     

    Resposta em PS anexado:

    Gallego, tiro o chapéu para seus vastos conhecimentos no campo da música, do cinema, da literatura sem prejuízo para seu domínio teórico e clínico da psicanálise. Ah... e não seria esse o ideal de quase todos psicanalistas que, ao contrário de você, acabam opinando sobre tudo a que são chamados a opinar, mesmo sem saberem  de modo tão aprofundado e técnico quanto você.   Já vou avisando: estou mais para a turma dos que só ouviram o galo cantar...

    Então me enganei achando que Os Saltimbancos tinha sido oferecido aos brasileiros como uma parceria do Chico e um italiano que desconhecia quem era . Mas, quanto ao Beethoven ( como você observou, é uma peça estranha, uma peça para coro e orquestra pouco divulgada ) o empréstimo não foi pequeno.  Todo o importante tema de " Todos juntos somos fortes, taratatatatá, somos flecha e somos arco,  não há nada a perder. Ao seu lado há um amigo que é preciso proteger...etc" é inteiramente pescado da parte coral do Beethoven. Não foi só uma citação, uma pequena oculta alusão. 

     A "Opera do Malandro" apresentada pelo Chico, que traz retalhos da antiquíssima Beggar´s Opera de John Gay  ( o primeiro musical de que se tem notícia, aliás...), da Opera dos Tres Vinténs do Brecht ( não sei ao certo como isto se produziu ), Mac The Knife e sei lá mais o quê, faz uma extensíssima lista de reconhecimento aos compositores utilizados.

    Este negócio dos direitos autorais é complicado.  Nas festas juninas de Brasília quase não se pode tocar forró porque tudo foi dominado pela turma da Xuxa e das várias gravadoras que cobram preços altíssimos, proibitivos.  Nossas crianças brincando em vários clubes importantes daqui tiveram São João com axé music e a dança da garrafa...  Pode uma coisa destas? 

    Ainda bem que se deve poder tocar a tal peça para Coro e Orquesta de Beethoven sem precisar pagar direitos autorais ao Chico ou ao italiano... Ou não?

     

     


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    [Aeternus:463] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2004-05-02)


    - meti um PS e aí vai outro...

     Gallego observou, da teoria de Kohut, "  a caracterísitca fundamental de poder rir de si mesmo (pensem bem: algo bem pouco "narcisista" no senso comum manifesto do termo: poder rir de suas patetices, de sua pretensa "seriedade") ". Em seguida, ele  mostrou como " Verdi, sábio no final de sua longa carreira, se inspirou em Shakespeare para, depois de tantos dramalhões, deixar como "testamento" o final de "Falstaff", sua última obra-prima: "Tutto é burla nel mondo!".  Nada mais cósmico-cômico." ...

    Concordo e, nisso,  acompanhada pelo que circula da teoria de Lacan como representando uma das saídas da análise , ou seja,   a do  " riso ou melancolia" porque neste ponto se realiza intensamente que "tutto e burla nel mondo"... 

    Acho que, como muitas crianças, sofro do mal do " está bem, mas..." ( Manoni? Dolto? ).

    Explico.  É possível rir de si próprio movido pela insegurança e pela "identificação com o agressor" ( nivel psicológico ), mantendo intacto este imaginário do narcisismo.  Ainda ( e agora estou pensando nas observações pertinentes do Guto) temos que considerar o masoquismo como descrito por Freud.

    Há momentos em que o indivíduo, como o gregamente indivisível átomo, sofre pelo que Freud apontou pelas partições topográficas em id, ego e superego.   Quando um cara ri de si mesmo pode ocorrer que, ali,  seu severíssimo superego está a rir-se do próprio ego... Nenhuma sabedoria, pois.

    Et quand-même... mas, contudo, entretanto, todavia... É que também não partilho desta chacrinha entre a alegria e a melancolia, ou de que tudo no mundo é burla. Ou de que a vida é o caminho para a morte e de que somos apenas pó  que irá voltar ao pó.

    Há  magníficos budas risonhos e mestres Zen zenalmente ridículos na junção do cosmicomico,  explorada pela Eugênia.  Um distanciamento adastral das coisas do "eu", uma libertação extática das comissuras comicas  cotidianas ( será que as borboletas dão risada? ).  Treinamento e sabedoria!   E tem o Zen da empatia, do se permanecer no mundo da dor e alegria humanas.

    Há o balão sorridente do Chesterton em " O Homem que Era Quinta-Feira".

    Tem até a Mary Poppins.

     

     


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    [Aeternus:469] Mensagem do Grupo24
    -de Ton a J.(2004-05-04)


    - primeiras trovas

     

     ----- Original  Message -----

     From: "Ton”

     To: <J.>

     Sent: Monday,  September 22, 2003 10:02 AM

     Subject:  obrigado pela foto…

     

    entre a delicadeza  das flores

    e a dureza dos  motores

    a  menina do olho

    fixa o instante

    que se  foi

     

    no olho da menina,

    o coração da memória.

     

     

    From: "J”

    To:  "ton “

    Subject:  obrigado pela foto…

    Date: Mon, 22 Sep 2003 13:08:34 -0300

     

    E obrigada pelo poema sobre o olho da menina  do olho.

    Fazer do lembrado  presente é tarefa dos freudianos.

    Trazer o bem lembrado para  a vida é tarefa  de todas estas meninas

    em  nós...

     

     

     

    De Ton para J

    Subject: a juba de  sansão e a poesia de emily

     

    A JUBA DE SANSÃO

     

    todas estas  meninas em nós 

    que se desatem

    e nos alinhem

    ainda mais 

    ao eixo

    delas

    onde o  oco

    é eco

    de lãs

    ao  corpo

    lasso

     

     

    todas estas meninas em  laços

    na juba de  sansão

    são todas  cachos

     

     p.s. eis o poema de emily dickinson  traduzido pelo manuel bandeira:

     

    BELEZA  E VERDADE

     

    Morri  pela beleza, mas apenas estava

    Aomodada em meu túmulo,

    Alguém  que morrera pela verdade

    Era depositado no carneiro  contíguo.

     

    Perguntou-me baixinho  o  que me matara:

     -  A beleza, respondi.

     - A mim, a verdade - é a mesma  coisa,

     Somos irmãos.

     

    E assim, como parentes que uma noite se encontraram,

    Conversamos  de jazigo a  jazigo,

    Até que o  musgo alcançou os nossos lábios

    E cobriu  os nossos nomes.

     

     

     

    De J para Ton

     

    Todas estas  meninas  em nós

    que  se  enlacem

    e nos  ultrapassem

    no  vórtice

    oco

    do eixo

    sem toco

     

    volúpias e volutas

    cachos

    e  fitas...

     

    Ah, o poema da Emily. Doi de tão  pesado!

    Prefiro tratar  das abelhas no prado...

    Bela idéia de fazer os nomes conversarem...

     

      

    De Ton para J.

     

    abelhas no prado,

    mel no favo,

     flores no vaso:

    voar ao tacho

    onde o  doce amar

    gota a  gota

    se refina

    ao ponto do céu

    à boca

     

    e a  colméia,

    com palavras  docemente transformadas,

    adoçar

    dietÉTICA

     

     

    De J para Ton

     

    Abelhas  em larga praia não  havia

    Apesar do prado,  a flor e este trote

    Que  retira uma abelha da campina.

      nem sei agora qual a sina

    Lançou  idéias no miolo de um pote

    Serão as flores o tal  miolo

    Ou mel no favo,

    Se gota a gota tudo esgota?

    Se adoçar do céu à boca

    Tem travo

    Do agora

    Derretendo sem  consolo?

     

    Se desacordo o que 

    predomina 

    vem na  falta da arte: 

    não  é a careta  da história,

    é o sopro da rima 

    que me leva embora....

     

     

    De Ton para J.

     

    doce molhe

    a pedra  dura do travo

    até que a fure

     

    para se saber do mel

    que não se negue o amargo

    mas  nele não se dure.

     

     

    De J. para Ton:

     

    universais não  portam 

    o ínfimo na flor.

    Insistem

    capengando um verso,

    bolha d´água

    a espocar estrelas

    sem vida...

     

    E, jogando com seu desafio:

    Dura tanto até

    atar em nós

    a  água  brusca

    que medra em

    fonte pura

    ( ufa, acho que usei todas  as letras),

    doce travo que não  dura

    nem no fel

    nem no mel

    da criatura...

     

     

     


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    [Aeternus:476] Mensagem do Grupo24
    -Jansy(2004-05-07)


    - Ton corrige de excovada aa crase mal trovada

    Mensagem Original-----
    De: "ton cavalcanti" 
    Para: <jansy@aetern.us>
    Enviada em: Terça-feira, 4 de Maio de 2004 22:47
    Assunto: seu sítio
     
    Jansy,  desde sexta passada sem computador, só hoje ele
     retorna sarado. Vi as fotos, a radiografia de uma falácia e os  primeiros poemas  correspondidos - tudo abrigado no seu sítio eletrônico.
    grato, Ton.

     
    From: "Jansy Berndt de Souza Mello" <jansy@aetern.us>
    To: "ton cavalcanti"
    Subject: Re: seu sítio
    Date: Tue, 4 May 2004 18:58:43 +0100
     
    Olá, Ton
    eu coloquei uma parte bem pequenas das "trovinhas bem trovadas"  sem dar créditos a mim ou a você, como uma espécie de prévia  usando iniciais. Que tal eu  organizar e enviar para você dar seu aval?
    J.

    De: "ton cavalcanti"
    Para: <jansy@aetern.us>
    Enviada em: Quarta-feira, 5 de Maio de 2004 04:04
    Assunto: ovinhas bem ovadas

     
    bernadete de sou mel,
    agrada-me, sim, a idéia sugerida. organize e envie as  ovinhas bem ovadas, pra ver se dá caviar.
    dantas trovoador
     
    From:  <jansy@aetern.us>
    To: "ton cavalcanti"
    Subject: Re: ovinhas bem ovadas
    Date: Wed, 5 May 2004 19:20:34 +0100
     
    Que bom que você concordou e, em vez de dizer  "uma ova", antecipou algum caviar.  
    Não Sou Mel...
     

    From: "ton cavalcanti"
    To: <jansy@aetern.us>
    Sent: Wednesday, May 05, 2004 8:52 PM
    Subject: Re: ovinhas bem ovadas

    sansã trovençal,
    belungas cáspias te inspirem a gestar um bom digesto, que o gesto já é bom. 
    Tonton (a)provador
     
    uma (tr)ova por troco

    nunca um ene a mais
    jacy deixaria passar,
    assim como uma crase a distância
    não escapa ao tato do meu olhar

    olhos cegos já fiz a ene incertos,
    mas ora uma (tr)ova por troco traço
    enquanto ene outros (a)guardo;
    pois trovador, embora cortês, não pode a guarda baixar 
    que belona vem pegar um ene que pinga penentra
    na chuva do meu bom linguado
    que não cessa de (pr)ovar
     
    well, tonlinguado (...tô ligado !). a jansy
     
    From: <jansy@aetern.us>
    To: "ton cavalcanti" 
    Subject: Re: ovinhas bem ovadas
    Date: Thu, 6 May 2004 13:44:36 -0300
     
    deixa estar que respondo logon logon. J.
     

    From: "ton cavalcanti" 
    To: <jansy@aetern.us>
    Sent: Thursday, May 06, 2004 5:34 PM
    Subject: Re: ovinhas bem ovadas

    loguin, loguin, o acento crasso da crase foi espiar... mas já não dava pra  expiar, né ? ...foi pro ar ! Rambo preso e pendrinha em  telhidro sepre há.
    orton eruditon a nancyra
     
    From:<jansy@aetern.us>
    To: "ton cavalcanti" 
    Subject: Re:covinhas bem covadas
    Date: Thu, 6 May 2004 18:43:51 -0300

    Ton, m´écoute... não vi a crase, o crasso é nosso. Tem jeito de expiar, embora anão por e-mail que vai pro espaço da "Lista" que nela não tem a, mas crase. Crau no rambo prenso pelo dedote vidrolha .
    Sorry até melhorar. J.
    ----- Original Message -----
    From: "ton cavalcanti"
    Sent: Thursday, May 06, 2004 11:25 PM
    Subject: ovinhas bem desovadas.
     
    jansy-do-dedote-vidrolha-sem-crase,
    não viu ? ...mas eu vi ! ...e também  vi que viu que o meu a - orto, não  tinha; mas quis (!) seu a em dobro por resposta a mais... e dobrada ficou   foi a falacieta exposta na radiografia do seu dedilho impresso torto. em   terra de quem não viu, quem vê errei ?!
    sorrya pra melhorar.
    não esqueça: se tem crase, tem a em dobro. logo, na lista A há de estar quem com classe a sabe usar.
    [nunca pensar que há feminino onde não há (com esta regra na ponta da  língua, dificilmente se torna a errar)]

    tonoveiro à excovada reg(r)ando

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    [Aeternus:788] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-06-24)


    - giro da ampulhenta

    então, reatemos o pique
    nique
    da história pondo
    ovo no copo
    a santa clara
    fazendo cruz de farinha
    pra enxotar a chuva
    no molhado

     

    Não faremos pique
    pique no repique
    de um piquenique
    nique nique
    sem violão
    da irmã sorriso
    que domingo dominique
    desistiu um dia
    cisco franco a clara santa.

    Chover no molhado
    é tempestade
    sem raio
    que relampeja
    wellingtonitotrueja
    reduntanto na dizt´ansia,
    cabeça de vento a moer
    as águas do tempo.

     

    chuvas idas olvido
    quando é tempo de estio

    ouvidos moucos ao choro
    no cê-agá desta hora
    que salvador sempre rio

    e a chuva que ouvido molha
    é a da língua no enfio
    e o L que não se esqueça
    se esquecer for preciso
    pois a chuva do quixote
    é de areia no cio
    onde tão sem elle
    o sancho seu saco puxava
    pra acender seu pavio.

     


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    [Aeternus:801] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-06-27)


    - Tonfontaine a Jansopo

    a raposa muito esperta
    não olha nem para as  uvas
    se sabe  que não as toca,
    empina a pluma da cauda
    e passa toda fogosa
    despertando nos da raça
    o desejo de tê-la fruta
    que no embaixo se  traça
    mais  doce que manga rosa
     
     
    É um trote  da raposa
     fabulosa quando esperta
     taxar as uvas de  verdes
     se roxos bagos não via
     ou ser vantes do mais tarde
     do  pancho que não cabia
     porque dantes à  menina
     virgilírica  de guia.
     Pois destarte meu  amigo
     confesso que não sei não
     se eu busco céu ou inferno
     se mala sem alçapão.
     
     frango, frangola,  franguinha,
    raposa  não tem escolha
    quando  tá com  a macaca:
    a  bicha esperta tem  pressa
    - antes que a uva  caia,
    tudo é milho pra  galinha
    fazer da presa  sopinha
    e papar a comidinha
    se lixando se é da laia.
    importa que a fome zere
    antes que o dia raie,
    que à noite todos os gatos são partners
     
     
    Na sopa  e na fontainha
    tem história de  raposa
    que, se não caça  galinha,
    vai se deflorar em  folhas
    pra se debulhar em  bolhas
    por falta do  saca-trolhas
    que dela faça  franguinha.
    E a fabulista maluca
    se pergunta desde agora
    de que lado vai ficar
    quando se flagra por fora
    de  fruta, florada ou jardim.
    Que se  chupe a manga rosa
    até o bagaço  da fruta
    é preciso bela  escolha
    na hora de  assobiar:
    mesmo em rua de mão  dupla
    só prum lado vai  rodar
    quando se passa  assim.
     
    samba, rumba, fox-trote,
    essa história de  mão dupla gera muita  confusão:
    há quem  diga que o sancho
    só ia  atrás do quixote
    garantindo sua pança
    por causa do salsichão
    dulcinéia,  toda prosa,
    na verdade não passava
    de isca pra inspiração
    e  o cervantes,  sublimando,
    deu a flor
    da erudição,
    não dispensando à nobreza
    a lança  tesa das finas
    por força de um peão
    mas se passares à frente
    essa história  irreverente
    não me peças provas, não
    e se puderes omita o autor  dessa  blasfêmia,
    pois  quero, ao fim da lida, o céu de um dante
    conduzido  pelo que, de fêmea,
    não passava de fumaça,
    tão sem corpo e sem tesão.
     
     
     
    Em teto de zinco quente
    não há só pulo do gato
    ali  todo bicho é escaldado
    se não  quiser se queimar,
    tem galinha dando  sopa
    quando a mosca quer nadar,
    tem menina adormecida
    para o vampiro atacar.
    Em quieto de zunco tente
    todalé  odicho esbaldoida
    há  são tópulo gonado
    sei que ser são  enquimar,
    tango sem dalinha dopa
    quando quem na rosca dar
    remo nada em ti dem cima
    opira de ova taraca mira.
     
     
    a elizabete telha
    no  teto de zinco quente
    era a gata  mais faceira
    de quatro
    trincando os dentes
    pra vara do  violino
    que lhe entrava muito rente
    mas depois de muito  bêbada
    elizabete nem sente
    o arco perneta da vida
    em sua  íris violeta
    saindo-lhe  pela culatra
    enquanto lhe tosse  a vaca
    e o porco torce a trombeta
    a beta  até tentou
    uma vida  caminhoneira
    mas os punhos do garanhão
    deixaram-lhe muito zureta
    e nos ombros do maicão
    foi chorar a gata  gasta
    a saudade de um zinco
    que  a deixava vendo estrelas
    pisando nos astros distraída
    a  beta se esqueceu
    que a  cama que o teto deu
    pode ser chão na  saída
    e o buraco mais embaixo
    é o  que a terra comeu
    do quando  lá  nas alturas
    a fama se sucedeu
    pelo aperto da gata
    quando  tinha gineceu
     
     
     
    Se nesta  casa da noca
    ou no lar da mãe-joana
    vamos da telha ao telos
    do bote ao  trote  pinote
    pinacoteca e pincelos
    mais a gososa sacana,.
    taylorando a  costureira
    rematando  o gineceu
    pulando no zinco quente
    da raposa do  andromeu...
    Minha tolice  infinita
    me permite concluir
    que  o verbo é mais volúvel
    quando se pode  sorrir..

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    [Aeternus:920] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-07-08)


    - Cópia, cola , clone e distopia.


    a cópia

     
    ...e João desamou a Maria, como desamara a tantas coisas.
    Mas atentai, severamente, para estas palavras,
    examinai cada um com o sentido do cosmos:
    João, sem outro caminho, desamou Maria.
    Precisamente, isto foi tudo o que aconteceu.
    E as margaridas se coroaram com suas engrenagens brancas ou amarelas,
    surgiram botões e prolongamentos audaciosos;
    os mares, com suas marés, fizeram e desfizeram o ciclo,
    os pássaros migraram, se é que disso precisaram
    segundo suas obedecências biológicas,
    e o universo não ruiu, como era de se esperar;
    não ruiu, como era de se exigir;
    não ruiu, como era de se ruir;
    ou melhor, ruiu - exatamente isso: ruiu.
    E Deus, com medo de se acabar,
    fez depressamente outro universo exatamente igual,
    com margaridas e mares e pássaros! 
    Mas sabei, por amor à verdade e amor ao amor,
    que este universo, o novo, o exatamente igual,
    era outro universo; que precisamente era outro,
    igual, certamente, mas outro; cópia, pois bem,mas cópia;
    um universo tão fabulosamente igual ao primeiro
    que ninguém percebeu, exceto Maria,
    que era outro, onde ela teria o direito e a liberdade
    de cultivar uma absurda saudade de algo que existiu
    e que, não existindo, existe mais profundamente
    porque resta a flor, o mar, o pássaro
    como testemunhas do que se criaria pelo amor
    que um dia João teve a Maria.
    Humberto Haydt, 1967.
     
     
     
    a cola
     
    Universo paralelo,
    foi isso que aconteceu;
    temendo por esta Maria,
    a mãe que seu Filho tinha,
    Deus outro mundo criou.
    Nascido da esperança,
    que sua pouca pujança,
    não replicasse na dor;
    Mas como cópia perfeita
    trouxe de novo a receita,
    do se fazer desamor.
    Ninguém percebe o novo
    quando o novo é o velho
    que de novo se criou.
    Exceção se faz aos tolos,
    para os quais tudo que é bolo,
    é bolo pois vem de bolor.
    Não enganou a Maria,
    nem isto o bom Deus queria,
    pois o novo presumia
    presença do que faltou.
    Ruy,2004
     
    clone e distopia
     
    Nas trincheiras do acaso
    Pirra e Deucaleão
    Espalharam por sementes
    Brancos dentes de um Dragão
    E no espelho da lua
    Miraram as suas artes,
    São Jorge naquelas partes
    Trocando lança pelo enxadão.
    São seres ctonicos 
    De heróis distonicos.
    Yaveh fez a Eva na clonagem
    da imagem por meio
    Da costela do primeiro Adão.
    Inseminou Maria
    De artifício  
    Fez sangrar seu  coração.
    Da trincheira ao precipício
    Á história deu início
    Graças à reprodução.
    J. Mello,2004
     
     

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    [Aeternus:930] Mensagem do Grupo24
    -Ruy Penalva(2004-07-08)


    - clone e dispareunia

    Clone e dispareunia
     
    Perfeita, mas
    na complementaridade,
    devo lembrá-la,
    que esta reprodução
    também pode ser cissiparidade,
    e que mesmo na ontogênese,
    de animais pouco evolvidos,
    existe partenogênese
    onde falta o Santo Espírito,
    e que a famosa vagina,
    fendida que se encontra,
    pois ela cissiparou
    quando assumiu
    pagar a conta.
    Nesta resposta cadmática,
    restou o Humberto de Sempre,
    o Humberto Carismático,
    o Humberto Renitente.
    uma Jansy repentista,
    um Penalva repetente.
    R.Penalva,2004Versos

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    [Aeternus:963] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-07-14)


    - enviando em nome de Ruy Penalva

    Um poema é algo que não se acaba nunca, se desiste de terminá-lo...
    Este nasceu de um momento mágico quando cheguei em casa para almoçar e ele pintou na minha tela e deixei as linhas mestras rabiscadas "inintelegívelmente" num papel.  Mas o poema insistia em ser feitoe foi me tomando em pura liberdade imaginativa e imagética: eu estava com pressa e adiei. Juro que se o tivesse feito em ligeira embriaguês e de chofre teria saído melhor. Trata-se de um Imagema, um poema em cima da imagem, ou um PoeMagem, um poema calcado na imagem.
     
     
    The Begining
     (Ruy Penalva/2004)
     
    Alguma coisa me diz que ela vai me fazer feliz,
    Não sei se é pelo seu nariz ou por algo que me recorda um filme de Hollywood,
    Em que faço o papel de bandido e assalto diligências cheias de ouro,
    Sob tiro cerrado do exército Americano, com farda azul.
     
    Algo me diz que eu vou voltar a ser um Cheyenne montado num cavalo sem sela,
    E vou raptá-la para levá-la por prados floridos,
    Onde Odonatas e Lepidópteras dançam ao som de uma trilha sonora,
    Na qual não faltarão pausas, nem para o suspense nem para pipoca.
     
    E que na hora do nosso beijo vai aparecer um The End,
    E eu vou dizer: Não, não acabou não, continua na próxima sessão”...
    E muitas pessoas irão para casa pensando em nós dois,
    Pensando na cena final do nosso beijo,
    Pensando no quanto a felicidade pode ser congelada na tela.
     
    E vamos viver por muitos e muitos dias nos corações das pessoas.
    Até nós, vamos acreditar que fomos felizes, e fomos mesmo...
    E vamos fazer um pacto de entrar na tela e nos congelarmos para sempre na imagem.
    E quando para além da imagem e da mensagem nós formos de verdade,
    Então seremos felizes por termos sido felizes a trinta quadros por segundo.
     
    The End.

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    [Aeternus:3117] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-14)


    - um passeio curioso

    Recentemente comecei a ler a introdução a um livro do japones Basho, na qual se contava a história do Hai-Kai, Ho-ku e variantes. Há uma escola de Hai-Kais que é aristocrática e outra advém da classe mercantil, mais humorística. Variam nomes e estilos de composição e ao longo de séculos desenvolveram escolas críticas de peso.
    Enquanto eu lia sobre os Haikais tentando avaliar a diferença entre o humor e a finesse aristocrática numa linha de tres palavras sobre uma cerejeira, dando desconto para a tradução em inglês que não seguia os ideogramas e jogos sonoros, comecei a me sentir como o primeiro ministro opinando sobre a roupa nova do Rei ( será que sou totalmente boba que não vejo quase nada, apesar de tão explicadinho? onde está esta roupagem que não enxergo?) 

    A grande novidade foi descobrir que os hai-kais são compostos por várias mãos, como no desbocado desafio de sanfoneiro nordestino. Que retratam um modo de vida e sabedoria Zen eu já suspeitava. Daí ter insistido mais. Foi quando tive uma idéia. Eu ia pegar velhos versinhos meus e colocá-los também em ingles, como na tradução que me deram ( sempre me dão livros do Basho, e não os leio, fugindo talvez a alguma interpretação misteriosa ).
    De repente, tinha como comparar alguma coisa, aguçar algum sentido. 
    Sabe o que descobri? Que é muito mais difícil do que parece, inclusive para ser algo "verdadeiro". Como encadear idéias sem ser por trocadilhos e jogos sonoros, invocar uma paisagem, uma estação do ano, uma visão súbita do mundo e desenhar isto com palavras???

    Meu esforço me deu animo de continuar lendo sem me sentir elogiando alguma veste invisível.

    E vou partilhar os ensaios de ontem com vocês...

    Rolled around the mouth
    a sea of words. Hear!
    Motley fish enmeshed
    Lie lustreless.
     
    Preserved onion in a jar
    Leaf out translucence
    To a darkening palate.
    Shock.
     
    Roaming wind pauses
    On yellow leaves
    Starlings with rumpled wings 
    Shout.
     
    Basket of torn lace
    Embroideries and thread
    Keep a dead hummingbird
    From their flowers.
     
    Rain darkens birdsong
    Flapping wings
    Before the last drop
    glimmers.
     
     

     Já tinha composto tudo isto em português mesmo há uns vinte anos. Afinal, ter alguma inspiração é ainda mais difícil.  Só se compusesse como o Millor, mais atenta ao esquema 3-5-3,etc das linhas.


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    [Aeternus:3118] Mensagem do Grupo24
    -sergio porto/ jansy mello(2005-03-14)


    - RE:um passeio curioso

    Sergio Porto:

    Agora há pouco ouví uma batida surda numa vidraça da varanda. Fui ver o que
    era e deparei com um pássaro agonizante no chão. Tentei reanimá-lo, mas acho
    que quebrou o pescoço. Voou direto e com velocidade para o reflexo no vidro
    da esquadria. Mereceria um Hai-Kai, no chão! Mortinho da Silva! Você se
    habilita? Cor, marron e alarenjado, com olhos debruados em amarelo. Iris
    pretinha até se fechar em definitivo! Pernas cinzas e encrispadas.

    Hai kai, passarinho,
    Cai,cai no chão,
    Quem manda ser
    Tolinho,
    E não prestar atenção!
    Jansy Zinha
    Vai escrever
    Umas linhas,
    Pensando em você,
    Mortinho,
    Coitadinho,
    De pescoço partido
    E sem as batidas
    Do seu coração!


    Jansy Mello: Que tal?

    Eu era o pássaro abatido, sombra
    No falso azul dos vidros da janela;
    E era mancha de pálida penugem
    Voando ainda em céu imaginado.
     
    I was the shadow of the waxwing slain
    By the false azure in the windowpane;
    I was the smudge of ashen fluff - and I
    Lived on, flew on, in the reflected sky. 
    Tradução das quatro primeiras linhas do poema em "Pale Fire" do livro de Nabokov. Tradução de Jório Dauster et col. 
    Sou a sombra da sombra do reflexo  dos outros!....
    Me esborracharei na critica???? Bom, é que observo que a métrica foi mantida, insinuações nabokovinas não.  Em ingles o "eu" é que era a sombra do pássaro, donde não tem ligação com uma falsa "sombra" azul dos vidros. Também há uma sugestão de "continuar vivo e a voar no céu refletido" em vez de esvoaçar num  "céu imaginado". 
    Escolhas difíceis que todo tradutor precisa enfrentar e Jorio Dauster com freqüência acerta. 
    Ousarei?
    Fui a sombra do pássaro abatido  
    Pelo engano azul de uma vidraça
    Eu, borrão cinzento de penas - e eu
    Ainda vivo, esvoaçando no céu refletido.  
    Não deu para trocar borrão por carcaça, que rima com vidraça. Não deu pra encurtar e manter a contagem das sílabas. No entanto, preservei alguma lógica ( o eu como sombra iludida como o visitante da caverna no mito de Platão, o azul como reflexo do céu no  vidro falsamente colorido, duplo engano com o céu e com a janela, e as duas outras linhas complicadas porque recriam uma parada no tempo, antes e depois do acidente, ou sugerindo outra dimensão entre morte e vida já que tudo é imaginado... temos o borrão marcando o choque da ave no vidro e, em reflexo, o pássaro ainda voando. Esqueçamos o pássaro e pensemos agora no poeta que escreveu o poema, personagem chamado John Shade. Shade em inglês é sombra, mas "shade" não é "shadow".
    Assombroso, hem?

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    [Aeternus:3119] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-14)


    - matou a trova e mostrou o pau

    Gostei, Jansy.

    Manda o seu poema em português tb, de preferência junto com a versão em inglês. Sem querer puxar o saco, gostei mais da sua tradução de Nabokov do que a do Jório Dauster. Na ânsia da rima e da métrica ele cometeu o pecado mortal de deturpar vários sentidos. O tradutor tem que vestir as sandálias da humildade. A forma não pode ser uma obsessão, ao ponto de trocar "alce" por "veado", só para rimar com "chiado".

    Ambos são mamíferos, têm chifres e são muito simpáticos, mas se o sujeito escreveu "alce", o tradutor que se vire, that's not my problem. Ter tudo é impossível, na vida e na tradução (principalmente na tradução. É estatístico!).

    Grande abraço.


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    [Aeternus:3120] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-15)


    - RE:matou a trova e mostrou o pau

    Ganhei seu voto, Guto e valeu.
    Gostaria de ver outras tentativas, suas e  dos outros, porque vamos aprendendo a nos chegar à dificil simplicidade que a poesia demanda. 
    Eu não consigo me levar à sério como poeta porque cada vez que leio algo que escrevi sinto coceira de mudar sem saber por que e, em vez de fazer algo novo, só remanipulo o velho, sem respeito algum.
    Gostaria de pensar que pratico uma espécie de "obra poética aberta", mas é só wishful thinking.

    Então, como quem não quer nada copio todas alteradas as poesias de 1984 que inspiraram os versinhos em inglês. A correspondência, como você pode ver, não é nada fiel.


     
    Conserva transluzente
    Cebolinha desfolhada
    Acre-rosa no palato
                   Isto apenas.
     
    Há uma pausa na noite 
    Quando o vento suspira e cala
    A batida do tempo 
    Um sopro precede o nada
    Que a moldura das árvores
                   desfaz amuada.
     
     
    Abafado no mofo do armário
    De roupa branca, entre rendas
    A costurar, um beija-flor      
                      Por dissecar.
     
    Chove
    O canto do pássaro
    anoitece
    até uma nesga azul
    resgatar o encanto
    da revoada.
      
    Conserva transluzente
    Cebolinha desfolhada
    Acre-rosa no palato
                   Isto apenas.
     
    Há uma pausa na noite 
    Quando o vento suspira e cala
    A batida do tempo 
    Um sopro precede o nada
    Que a moldura das árvores
                   desfaz amuada.
     
     
    Abafado no mofo do armário
    De roupa branca, entre rendas
    A costurar, um beija-flor      
                      Por dissecar.
     
    Chove
    O canto do pássaro
    anoitece
    até uma nesga azul
    resgatar o encanto
    da revoada.
      

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    [Aeternus:3121] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-03-15)


    - RE:RE:matou a trova e mostrou o pau

    Jansy,

    Prometo que tentarei traduzir algo que pintar na lista. O problema é que me falta um pouco de vocabulário. Tenho uma visão geral do inglês, mas, de repente, deparo-me com espécies de pássaros e hortaliças, e alguns objetos semi-cotidianos e sinto que tenho que ler mais. Bom, tentarei assim mesmo. Às favas com a vaidade.

    A revisão do que escrevo é para mim fundamental. Se podemos burilar, na forma, os bons fluxos, sem obstaculizá-los, por que não ?  Plantar a cebolinha, tirar o mato em volta, adubar, regar etc... mesmo que ela já tenha nascido cebolinha.


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    [Aeternus:3122] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-15)


    - RE:RE:RE:matou a trova e mostrou o pau

    O visitante sou eu.

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    [Aeternus:3123] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello (2005-03-15)


    - RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

    Guto Visitante ( como temos parentes! Parece até aquela cidade cuja placa  aparece por todo lado nas estradas, em todas as direções...) 

    Será que estamos inaugurando na lista um "work in progress"?

    Vou traduzir um pouco do que escrevem sobre o mistério do Hai Kai:
    "Sabi" é a cor do poema.  Não se refere necessariamente a um poema que descreva uma cena solitária. Se um homem vai para a guerra usando uma armadura pesada, ou a uma festa enfeitado com roupas alegres, e se for um idoso, haverá sempre algo solitário a seu respeito.  "Sabi" é algo nesta linha.  Está no poema, independentemente da cena que descreve - seja ela solitária ou alegre.  No poema abaixo, por exemplo, encontro muito "sabi" ( escreve  Yuasa).

    Sob uma cerejeira
    Os vigias de flores se juntaram
    Para conversar -
    Aproximando suas cabeças brancas.

    Em outras  palavras, "sabi"  é o elemento subjetivo, enterrado profundamente no elemento objetivo do poema, mas lhe dando uma riqueza profunda de significado simbólico. Estas qualidades como no sabi, shiori e hosomi que distinguem o estilo maduro de Basho do dos seus predecessores, ou seu próprio eestilo ainda imaturo.  Quando Basho escreve versos encadeados ao de outros poetas, ele busca o aroma, o eco, o rosto, a cor e o status do poema antecedente.  No "hibiki", por exemplo, é quando você bate em algo, e o barulho retorna em instantes.  Assim, vemos que o segundo poema será um eco perfeito do primeiro.

    Atirei uma taça folheada de prata
    No chão de madeira
    Quebrando-a em pedaços.

    Veja, agora, a curva finíssima
    Da sua espada, quase desembainhada.

    Impossível!  Não capto o espírito. Ou, talvez, sua importancia sublime. Que uma taça de prata ao quebrar-se contra o chão de madeira faça um ruído metálico como se supõe ser o som de uma espada que será usada num confronto, isso dá pra ver.  Mas, e daí?

    Um dos poemas mais conhecidos, que traduzo eu mesma:

    Rompendo o silêncio                   Breaking the silence
    De um velho lago                         Of an anciente pond,
    Um sapo pulou dentro d ´água -   A frog jumped into water -
    Funda ressonacia .                       A deep resonance.

    O comentário foi feito por um dos discípulos de Basho:
    Este poema foi escrito pelo mestre num dia de primavera. Ele estava sentado na sua casa à beira do rio em Edo, inclinando os ouvidos para o suave curucucu de um pombo na chuva silenciosa.  Havia um vento suave no ar, e uma ou duas pétalas de uma cerejeira caiam suavemente. Era um dia típico do final de março - tão perfeito que você quer que dure para sempre.   De vez em quando ouvia-se o som dos sapos pulando na água. O mestre estava profundamente imerso em meditação, mas finalmente compôs o que é a segunda parte do poema ( um sapo pulou dentro d´água - funda ressonancia) . Um dos seus discípulos sentado ao seu lado imediatamente sugeriu a primeira parte do poema ( " entre as flores da roseira amarela") e o mestre pensou mais um pouco, mas escolheu então: "rompendo o silêncio de um velho lado".  A sugestão do discípulo é reconhecidamente pitoresca e bela, mas a escolha do mestre, sendo mais simples, contem maior verdade. Só quem cavou nas profundezas dos mistérios do universo pode escolher uma frase como a dele.

    Certa vez li alguma coisa a respeito das turbulências políticas no Japão e da importancia de se isolar dos traumas externos a partir da poesia.   Não sei como os cariocas resolvem seus traumas cotidianos, tem samba, tem rap, tem batucada.  A escolha japonesa, aos meus olhos ocidentais, recende ao predomínio das senestesias ( ver cores nas palavras, sentir aroma nas letras ou gostos distintos em uma frase ) e das defesas autistas.

    Uma vez no consultório interpretei o que parecia inicialmente como um momento de inveja intensa, como um resquício de autismo ( normal em todos, se aceitamos as teorias de Ogden ). A paciente se ressentia dos filhos do primeiro casamento do marido de um modo peculiar, como se ela vivesse sob a fantasia de que ele só começou a existir a partir do momento em que eles se conheceram. Entendi, portanto que, por trás do que seria inveja, havia algo ainda mais primitivo porque assentado na recusa às mudanças - como se cada dia diferente fosse sempre o mesmo.  Acho que a disciplina do hai-kai pode ensinar um modo diferente de escutarmos na clínica e até de convivermos com nossa impotência enquanto 'terapeutas'.    Não sei...


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    [Aeternus:3124] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-15)


    - Hai Kai balão, aqui na minha mão...

    Que bonito Jansy!,

    Hai Kai é uma escola póetica, filosófica, ou o quê ? Quero saber mais, até para ensinar algumas charadas à minha poesia demasiadamente cheia, ocidental, emocional, herdada do "sturm und drang" romântico. É bacana e esclarecedor saber que nem toda expressão tem que ter um conflito, uma epopéia helênica e seus póspós. Acho legal como o oriental curte o objeto (literalmente falando, coisa, ou bicho, ou até pessoa mas sem páthos).

    Tenho prazos vencendo amanhã, mas depois conversaremos mais.

    Valeu.


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    [Aeternus:3125] Mensagem do Grupo24
    -helena(2005-03-15)


    - RE:Hai Kai balão, aqui na minha mão...

    Finalmente consigo entrar novamente no site. Êba.....
    Jansy, adorei os poeminhas. Mas sem querer baixar o astral e já baixando, por que será que os japoneses, com tantas coisas belas que cultivam tem uma obsessão tão grande pelo suicídio? Li outro dia uma notícia que eles estavam até fazendo pactos de suicídio pela internet.


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    [Aeternus:3126] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-15)


    - RE Hai Kai balão,kaiu

    Que bom que você conseguiu acessar o site. Já eu, que fiquei labutando para falar mais sobre estes kaikais pro Guto, traduzi uns cinco contando sílabas para inteirar 13 e ainda inclui com coloridos diferentes e palavras em japones... perdi tudo.
    Não sei se ultrapassei o tempo que o site permite para mensagem, mas foi tudo pro beleléu.
    Meu balão murchou. Só vou transcrever uma última frase do Basho e, se ainda lembrar, meu ensaio haikaístico de hoje. 

    Basho: " mesmo que seu poema esteja bem escrito, se o sentimento não for natural, se você estiver divorciado do objeto, então seu poema não será verdadeiro, apenas uma imitação pela sua subjetividade"

    Perguntei a uma amiga japonesa sobre estes pactos suicidas e ela respondeu e eu... esqueci o que ela disse! Sei que ela mencionou a severidade dos costumes, a falta de emprego e de espaço físico. Tenho a impressão de que a principal causa, para ela, vinha da falta de esperança no futuro.

    Meu poema esboçado:
    Pungente emissão verde no vapor negro
    Trator corta a grama apressado
    Eriça a face do dia mal escanhoado.

    Quanto ao resto... babau.


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    [Aeternus:3127] Mensagem do Grupo24
    -Luiz Fernando Gallego(2005-03-15)


    - Hai Kai da Cecilia Meirelles

    Não sei fazer Hai-Kais nem como o Millor, mas posso copiar dois poemas chineses traduzidos por Cecilia Meirelles:
     
    "Diálogo na Montanha"
    autor: Li Po
     
    Perguntais por que moro na verde montanha.
    Intimamente sorrio mas não posso responder.
    As flores do pessegueiro são levadas pela água do rio...
    Há outro céu e outra terra para além do mundo dos homens.
     
     
    Poema de Tu Fu a Li Po
    autor: (obviamente) Tu Fu
     
    Três noites seguidas venho sonhando contigo.
    Estavas à minha porta.
    Passavas a mão pelo cabelo branco
    como se uma grande dor te amargurasse a alma...
     
    Depois de dez mil, cem mil outonos,
    não terás outro prêmio que o prêmio inútil
    da imortalidade.
    ...................................
    Outro de Li Po
    Tudo o que desejo é que,
    quando se cante e se beba,
    o luar se reflita sempre
    no fundo da taça de ouro.

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    [Aeternus:3128] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-15)


    - exemplo típico

    O poema do sapo que salta no lago é um típico Haiku ou hokku, e consiste de dezessete sílabas divididas em tres secções de cinco-sete-cinco:
    Furuike ya, kawazu tobikomu, mizu no oto.

    Seu protótipo chamava-se "waka" e tinha 31 sílabas, mais adequadas para expressar emoções e descrever a natureza.
    Mesmo sem ser filósofo ou praticante religioso do Zen, Basho recomendava o abandono do "ego individual" para haver sua fusão com o objeto e a produção de uma metáfora precisa. Ele desprezava as conexões construídas meio de imagens verbais ( ou seja, analogias, como a lua pálida como um abano de gueisha, calombos lunares como um punho fechado...)

    A falsa folha do monitor 
    Lençol de chuva estacionada
    Pede memória RAM e no HD

    Boa noite!  Vou ler com calma os poemas traduzidos pela Cecília que Gallego ofereceu como brinde.

     


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    [Aeternus:3129] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-15)


    - Google informa

    Millôr Fernandes
     

                Hai Kai I

                Na poça da rua
                O vira-lata
                Lambe a Lua.
                 

                Hai Kai II

                A palmeira e sua palma
                Ondulam o ideal
                Da calma.
                 

                Hai Kai III

                O veludo
                Tem um perfume
                Mudo.
                 

                Hai Kai IV

                Meu dinheiro
                Vem todo
                Do meu tinteiro
                 
                 

                Hai Kai V

                Nos dias quotidianos
                É que se passam
                Os anos
                 

                ..........................................................

                Lembrei de um poemeto do Millor:
                Olha, entre um pingo e outro
                A chuva não molha

                com o qual comprei briga:

                Triste chuva que não molha
                Pelos pingos que não caem
                Nos espaços de uma folha
                Nos desvãos de cada escolha
                Por desejos que se esvaem.

                Esta chuva intemporal
                Não repete, não insiste
                Basta um tombo impessoal
                Na miséria colossal
                De um sujeito que desiste.


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    [Aeternus:3131] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-03-16)


    - Jansy & Millor

    Muito bons os Hai-Kais do Millor, não acham? E a "resposta" da Jansy, idem com batatas (french potaoes, é claro). Lembrei de um versinho do Millor que não é Hai-Kai (assim como não o eram os chineses traduzidos por Cecilia Meireles que enviei antes - pois nem japoneses são embora tenham clima semelhante ao enunciado por Jansy na sua pesquisa Google sobre H.-K.s).

    "Tudo o que digo na vida
    teria mais solidez
    se em vez de carioquinha
    eu fôsse um velhinho chinês."

    Outro absolutamente genial do tb chamado "Vão Gôgo" (afinal, não só Pessoa tinha heterônimos) é:

    "Vi meu amigo ao longe!

    Ele também me reconheceu!

    Nos aproximamos alegremente!

    Aí, aconteceu...

    Eu vi que não era ele.

    E ele viu que não era eu..."


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    [Aeternus:3132] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-03-16)


    - Pássaros nas vidraças

    Eu havia perdido as mensagens que mencionavam pássaros se estabacando em vidraças, que coisa horrível. E vou falar mais sobre isto mais adiante. Antes: Já bateram com a cara em portas de vidro ou blindex absolutamente transparentes? Eu já meti a testa até em vitrines quando pretendi me inclinar mais para ver melhor algo e - tóin! - que vexame. Imagine os pobres pássaros lembrados por Sérgio-primo!
    Já os insetos incômodos que entram em minha sala e ficam se debatendo contra os vidros da janela me irritam, me parecem simplesmente burros, atrapalhados. Às vezes abro uma das janelas para o chato conseguir sair por uma luz que não tenha a dureza de nenhum vidro obstaculizando. Às vezes os mato pura e simplesmente com Baygon, jornal ou mata-moscas. Abelhas me assustam, afinal somos todos alérgicos e já sofremos invasão de umas oito ou nove num domingo, hora do almoço. Entraram pelos fundos, pela área de serviço, agora com tela impeditiva. Por outro lado, quando entram pela frente não tem como serem expulsos pelos fundos. Sueli já foi picada por abelha nas costas e - como dói! Acho que tb já pisou, descalça, sem ver é claro, em abelha semi-morta caída no chão da psicina do clube. Semi-morta mas com o ferrão ainda ativo. Como dói! Exceto pelas asas (e só pelas asas) das borboletas coloridas odeio insetos (porque o corpinho delas não dá para pose na Playboy, certo?). Algumas joaninhas tmbém passam, mas moscas azuis metalizadas me parecem nojentas como sepulcros enfeitados.
    Voltando à vaca fria, ou pássaros gelados: o que qu queria mesmo falar é dessa coisa de pássaros se chocarem contra gelosias envidraçadas de portas de ntrada. Essa cena se repetiu em dois filmes diferentes entre si, exceto por serem de grandes cineastas: Hitchcock e Bergman, ambos tão onitofóbicos confessos como eu sou insetofóbico.
    No filme do Hitch, "Os Pássaros", é claro, a socialite loura Melanie Daniels (Tippi Hedren) em excursão caça-homem na bucólica Bodega Bay está hospedada civilizada e anglo-saxônicamente na casa da ex-namorada do objeto de caça, a moreninha professora local (Susana Pleshette). Conversa vai, conversa vem, fumam um cigarrinho (Camel ou Lucky Strike, nada de Cannabis, seus maldosos) falando mal da mãe do rapaz caçado, aquela mãe do tipo "perder um filho é como achar a morte, perder um filho que já grande e forte podia ampará-la e sustentá-la, mas neste instante uma mulher bonita sorrindo o rouba e velha mãe aflita nem se volta para abençoá-los", ou seja a verdadeira n]mãeJocasta-peste-terror das noras). Estão as moças travando alguma amizade a partir da identificação de suas mazelas contra a mãe do Rod Steiger quando se escuta um som ôco tipo "TCHUM" na porta. Vão ver o que é e encontram, tal como o primo Sérgio, um pássaro morto na soleira da porta. A loura urbana, estrangeira no local presume uma explicação natural, mas a professorinha local comenta em tom soturno antecipatório de "algo estranho está acontecendo noReino da Dinamarca" que não é epoca de  migração daqueles pássaros... O resto todo mundo sabe: os pássaros - habitualmente na deles - estão atacando os humanos num verdadeiro apocalipse ecológico sem tsunamis, substituindo as prgas de gafanhotos ou outrso insetos nojentos por aves, geralmente associadas à paz (julgamento por apar~encias externas, já que soube que pombos são animais super-agressivos, pelo menos entre eles, para não falar dos cocozinhos pairando sobre nossas desrotegidas cabeças). O enredo aparentemente mal-ajambrado da histórinha desenvolvida por Hitchcock (a partir de um conto quase haikáico da Daphne Du maurier que apenas menciona um perigo vindo do céu em forma de aves atacando) chegou a ser um calcanhar de Aquiles para aceitação do filme pelo público. Lembro de adultos (era proibido até 18 anos e eu tinha 13 quando passou no Brasil) reclamando do "final bêsta" porque "aberto" sem deixar claro se aquelas pessoas (loura-rapaz-sogrinha e irmãzinha do rapaz) se salvariam ou não ao sairem de carro em marcha lentíssima num chão coalhado de aves - quietinhas naquele instante pelo menos, mas... e depois do The End? Seria The End da humanidade? Hoje, o filme é tido como o último clássico do Hitchcock que desceu a ladeira em filmes bem mais fracos quando não totalmente indefensáveis. Desculpa-se a historinha como "abstrata" ou mero veículo de filme comercial para mais um exercício de estilo cinematográfico da quintess~encia da sétima arte. O que eu penso é que a história tem um efeito Unheimlich, estranha e inconscientemente familiar com suas questões edípicas-clichê, rivalidades femininas (um homem para três mulheres), desmascaramento da mãe-natureza bondosa e provedora como também capaz de ser mãe-medéia e... sai da frente que lá vem ataque aéreo de lindas gaivotas.
    A cena de "suspense" mais marcante do filme é quando melanie/Tippi hedren está esperando terminar a aula onde está estudando a irmãzinha do rapaz desejado e senta-se num banquinho plácidamente enquanto o espectador vê, atrás dela, que nada vê, um manada/alcatéia/ou qual seja o coletivo de corvos se aboletando numbrinquedo daqueles que chamávamos (sem duplo sentido) de "trepa-trepa". Chegam um por um, nenhum tão hierático como o famosos The Raven de Poe (aliás, o início da mensagem do Sérgio-primo parecia o início do poema de Poe Once upon a midnight dreary... I've herad something tapping at may chamber door etc etc). Ela vai perceber a mancha negra de dezenas de corvos empoleirados atrás dela pelo espelhinho de maquiagem quando, coquete como uma socialite chique dos anos 1960, resolve retocar o rouge das faces. Terror em estado puro. Pouco depois ela e a amiguinha professora tentarão retira as crianças a salvo da escola em corrida desbalada numa das cenas mais ádicas do cinema com gaivotas se agrrando em cabeleiras desgrenhadas de meninas, crianças caindo no chão com óculos se espatifando e para terminar, o corpo da professorinha muitlado, com olhos arrancados e outros horrores. Castigos edípicos é o que não fatavam no filme.
    Bergman, mais cool e distanciado, praticamente repetia a cena do pássaro morrendo depois de bater contra agelosia da porta no filme "Paixão de Ana". Não me recordo dos personagens envolvidos na cena quase-idêntica (se não estou misturando os filmes mais do que mereceriam). Em Bergman, o mal que estaria escondido - ma non troppo - no coração dos seres humanos ia saindo da categoria latente para a extroversão manifesta com Liv Ullmann fazendo merda na direção de automóvel, quase matando o max Von Sydow e a si própria, ela que perdera marido e filhos em acidente anterior (e quem estava dirigindo?) e Erland Josephsson se apropriando demoníacamente dos rostos das pessoas em fotos catalogadas com o esmero de um Eichmann sem cãmar de gás) e ovelhas sendo mortas tão barbaramente como estripadas e.. aves se estabacando nas gelosias.
    Por que será que artistas se mobilizam com esta situação? Não sabia que nabokov aludira a isso no poema-romance Fogo Pálido. E prá encerrar, concordo com Guto; a tradução da jansy é melhor!!!

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    [Aeternus:3133] Mensagem do Grupo24
    -(2005-03-16)


    - RE:Pássaros em vidraças e micos no site

    Antes que vcs se spantem, me desculp pelos inúmeros erros de digitação (devo ter alguma dismetria pois erros as teclas como repiro) que ás vezes acentuam os micos involuntários como ao ter escrito que a chamber door do poema de Poe seria de maio (escrevi "May chamber door" em vez de "my chamber door"). Vale o nonsense! Harará outros muitos no copro do texto. Sorry. Persigam a alma.

    p.s.: Acabo de reparar e deixar como está logo no início desta mensagenzinha outro erro frequente que me ocorre: a última letra de uma palavra é a primeira da que se lhe segue. Resultado digitado: Aparece só uma letra sem se repetir como deveria ser  ("antes que vocês se espantem" saiu " se spantem" - o que será? alzheimer latente - ou já manifesto?)


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    [Aeternus:3134] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-16)


    - imbatível humor seco do millor

    Se em vez de carioquinha
    Você fosse velho chinês
    Não tomava cafézinho
    Não falava português!

    ( da Milloca pro Gallego)

    Tem poesias do Millor que são perfeitas. Vai só uma agora, é que consegui memorizar todinha!

    " A morte é hereditária" (MF)


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    [Aeternus:3135] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-16)


    - RE:imbatível humor seco do millor

    ...Se em vez de carioquinha
    Você fosse velho chinês
    Não tomava cafézinho
    Não falava português!

    ...Nem tampouco soslaiava

    a mulata do patricio

    que sestrosa rebolava

    despertando honesto vicio


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    [Aeternus:3136] Mensagem do Grupo24
    - jansy mello(2005-03-16)


    - RE:imbatível humor seco do millor

    Fiquei sem conseguir escrever do computador do consultório, acho que tem uma incompatibilidade entre o novo programa do aeternus e alguns tipos de "windows" .

    Hoje me recitaram uma linha do Caetano Velloso na sessão. Interessantemente anti-freudiana e foi divertido ver como ela rolava.
    De uma canção do Caetano:
    "Nenhum pensamento morre na praia da boca". 

    Da minha lavra:

    Na ponta da lingua
    Idéia que mingua 
    Memória em colapso:
        calapso!

     Aí, como quem não tem mesmo nada pra fazer, coloco outros insights à japonesa.

    ( jogando com o fato de que, em inglês, todo pingo cai: drop é pingo e é queda!)
    Every drop
      drips
        and
          drops.

    E, intraduzível, segui paspalhando alguns "itens":

    Nem todo i tem um pingo
    Que há no líquido domingo
    De um gesto imponderável.

    E uma pergunta pra lista:

    Quem é você?
    Seu sim vem na premissa
    Ou só se alcança pela conclusão?


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    [Aeternus:3137] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-16)


    - RE:Pássaros nas vidraças,sapos e Magnólia

    Cadê o Florião?

    Gallego, fiquei com problemas de acesso e não li toda sua mensagem ( com ressalva pras joaninhas, ainda bem ), senão de passagem. Mas já quero ir respondendo, mesmo que me arrependa mais tarde.

    No livro das coincidências do Arthur Koestler, há uma listagem de fatos inusitados e um deles descrevia uma notícia, também na China, de uma chuva de sapos.  Depois encontrei nova chuva de batráquios num filme muito bom, embora estranho e longo: Magnólia. Agora nem sei porque gostei, mas lembro dos sapos nojentos caindo do céu.
    Em outro filme, este devia ser do Fellini, há uma cena com um terraço cheio de mariposas que depois de descobre pareciam apenas serem reais, mas eram um efeito da vidraça. No entanto, neste mesmo filme há uma cena de pássaros que cairam mortinhos da silva em pleno vôo sendo varridos de uma praça italiana. Isto aconteceu mesmo. 
    Recentemente li no noticiário sobre um shopping envidraçado nos EEUU no qual pássaros em bandos conseguiram penetrar e depois não achavam a saída e se debatiam contra os vidros. 
    Havia um hotel em Araxá ou Campos do Jordão contra o qual se esborrachavam beija-flores diariamente e minha mãe contou a história de um modo tão sentido que nunca mais me esqueci.

    O vidro transparente é um imponderável de peso...
    Hoje, numa sessão, acompanhei o momento em que um analisando percebeu que há muita coisa na vida que é como rascunho que dá pra apagar e refazer, ou como poema-obra-aberta. É quando se pode ter esperança na Justiça que vem como deusa grega de olhos vendados para ponderar na sua balança nossos pecados e virtudes. E que, no entanto, há muitas outras coisas da ordem do "imponderável" como a justiça judaico-cristã sempre anunciada nos sermões do Pe. Vieira: você pode se salvar ou se danar eternamente no instante mesmo do seu último suspiro... Não dá para acumular milhagem pelos pontos no "smiles".  Errou de céu e se espatifou pra sempre.
    Testemunhei o percurso do moço, mas eu ainda queria uma justiça com a balança greco-romana.Ainda estou voando pra vidraça pensando que sou livre no espaço?



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    [Aeternus:3138] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Lenore Raven (2005-03-16)


    - RE:Pássaros nas vidraças e assaros nas vadriçs

    Gallego, corrigindo um soneto, fez  bela emenda quando observou de modo hilário ( voluntário?):
    "Antes que vcs se spantem, me desculp pelos inúmeros erros de digitação (devo ter alguma dismetria pois erros as teclas como repiro) que ás vezes acentuam os micos involuntários como ao ter escrito que a chamber door do poema de Poe seria de maio (escrevi "May chamber door" em vez de "my chamber door"). Vale o nonsense! Harará outros muitos no copro do texto. Sorry. Persigam a alma.

    Hoje estou flanando ( quarta-feira de tarde é feriado pra mim ) e adorei a idéia de perseguir o vôo de uma alma em vez do "copro" do seu dono.
    ( Aliás, a alma pertence ao corpo ou o corpo pertence à alma? Aristóteles falou da junção hilemórfica, mas será que discutiu pertencenças e prioridades?)  

    Li com o devido e merecido vagar as mensagens todas, finalmente. Então pássaros estabacados os há de montão em Hitch e Bergman. Os que cairam do céu na Italia foi por causa do frio e não tinha nada com vidro ( exceto a janela com as mariposas que o garoto usou para encantar o pai, mas eu lá sei de filme, enredo, diretor? Comigo ficam só os pedaços esborrachados da memória - sem Alzheimer e sem Unheimer pra me expulsarem de casa).

    May chamber door
    Remain 
    Wide open 
    For my chamber-maid
    in jolly may...

    Estas digressões são todas formas de ganhar tempo com algo que perturba. O que há com pássaros e suas ameaças?  Não será a toa que a esfinge vem com asas e aquelas figuras horríveis dos infernos mitológicos, as harpias (?). Fora os vampiros e morcegos, se o problema for o das asas.
    Contra elas, apenas uma pomba. 
    Desculpem, acho melhor flanar de verdade em vez de ficar adejando por aqui.


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    [Aeternus:3139] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-03-16)


    - RE:RE:Pássaros nas vidraças,sapos e Magnólia

    Jansy benetrovata...muito trabalho e ao mesmo tempo, como não me ajeito em linguagem poética, fico na tribuna curtindo vocês. Com o calor aquela veste de cinturão, coroa de louros, ombros e coxas de fora e sandálias-sem-ser-da-humildade cai bem. As que o Fidel Castro veste, com sua fortuna avaliava em 550 milhões de dólares. Mas Cuba está pobrinha, pobrinha...

    Cyraço, prefiro que os 'visitantes' fiquem misteriosamente incógnitos, de vez em quando, para exercitarmos nosso lado Hercule Poirot. Muito login e senha é chato, mesmo. Preciso poupar meus tenros dedos. E já bastam os inevitáveis clique-cliques...


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    [Aeternus:3141] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-16)


    - RE:Jansy & Millor

    Ai que lindo!

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    [Aeternus:3142] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-16)


    - RE:imbatível humor seco do millor

    Se eu conhecesse o Gallego
    Como um velho chinês
    Não seria o Gallego
    Conhecido por nós seis


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    [Aeternus:3143] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-03-16)


    - RE:imbatível humor do millor

    Copiando e acrescentando para compor a "renga" do haikai

    de Jansy pro Gallego
    :...Se em vez de carioquinha
    Você fosse velho chinês
    Não tomava cafézinho
    Não falava português!

    Guto pega na "renga":

    ...Nem tampouco soslaiava
    a mulata do patricio
    que sestrosa rebolava
    despertando honesto vicio

    Jansy prossegue:

    um patrício ou mauricinho
    espiando assim de banda
    redunda num viciosinho
    de binóculo e varanda.

    Helena entra na renga:                                  

    Se eu conhecesse o Gallego
    Como um velho chinês
    Não seria o Gallego
    Conhecido por nós seis

    Jansy na teimosinha:

    Gallego é a borboleta
    que sonha ser um chines
    que sonha ganhar na roleta
    no jogo do bicho, talvez.
     

     


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    [Aeternus:3145] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-16)


    - Raulzito

    A msg da Jansy falando do Gallego me lembrou uma canção do Raul Seixas muito bonita:

    Era uma vez um sábio chinês/que um dia sonho que era uma borboleta..................... até que um dia acordou/e uma dúvida lhe acompanhou/ se ele era um sábio chinês/que sonhou que era uma borboleta/ou se era uma borboleta/sonhando que era um sábio chinês.


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    [Aeternus:3146] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-16)


    - RE:Raulzito/ cadê a sua arenga pra continuar a história?

    Guto, eis o autor do sonho ou da borboleta...

    Chuang Tzu, a contemporary of Mencius, is universally regarded as the greatest Taoist after Lao Tzu. His butterfly dream is probably the most celebrated dream ever to be recorded in the history of Chinese Philosophy,

    Chuang Tzu, contemporaneo de Mencius, é considerado universalmente como o maior dos Taoistas depois de Lao Tse.  Seu sonho da borboleta é provavelmente o sonho mais celebre a ser registrado na história da filosofia chinesa (...)

      

     


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    [Aeternus:3147] Mensagem do Grupo24
    -Groo - vulgo Fô(2005-03-16)


    - RE:Raulzito - win 98 sem problema na Lista

    Eu prefiro ser.... Esta metamorfose ambulante...

    Para mim esta é a marca do maluco beleza!!!

    é, este galego sonhador,
    sonha que é Gallego,
    mas para nós os seis 
    borboleta trovador.

     

     


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    [Aeternus:3148] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-17)


    - Funcionando no windows 98! Viva a borbolenta...

    Gallego é o nosso novo muso
    Até se dar a volta em fosco parafuso
    Ousando ver  Real, sua careta
    Atrás dos sóis com a dupla luneta
    ( Quais sóis? Quem sóis? Estou confuso?)
    Lagarta, casulo, o que é borboleta? 


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    [Aeternus:3149] Mensagem do Grupo24
    -Khayáam(2005-03-17)


    - Nem tanto a Omar, nem tanto aterra

    Se tirarmos os ideogramas da escrita japonesa, o mundo pulula de haikais sem Tao ou Zen, ou mesmo sem Haikai.

    Vejamos na antiga Pérsia:

    Luzes que se apagam, esperanças que se acendem: Dia
    Luzes que se acendem, esperanças que se apagam:Noite

    Pena que não lembro do que vem antes desta frase magnífica do mesmo Omar:
    " a noite é talvez a pálpebra do dia"...

     

     


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    [Aeternus:3150] Mensagem do Grupo24
    -Visitante Borges(2005-03-17)


    - El Aleph

     

    "Lo que vieron mis ojos fue simultáneo: lo que transcribiré, sucesivo, porque el lenguaje lo es. Algo,  sin embargo, recogeré (...) 
    ..vi la circulación de mi oscua sangre, vi el engranaje del amor y la modificación de la muerte, vi el Aleph, desde todos los puntos, vi en el Alep la tierra, y en la tierra otra vez el Aleph y en el Aleph la tierra, vi mi cara y mis vísceras, vi tu cara, y senti vértigo y lloré, porque mis ojos habían visto ese objeto secreeto y conjecturalo, cuyo nombre usurpan los hombres, pero que ningún hombre ha mirado: el inconcebible universo"

     

    Inefável visão
    do alephavel
    simultaneo
    que se repete
    em caos
    historicizável.

     


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    [Aeternus:3151] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-17)


    - Borboleta

    Se eu fosse uma borboleta
    Sairia

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    [Aeternus:3152] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-17)


    - RE:Borboleta

    Se eu fosse uma borboleta
    Sairia livre e solta multicor
    Poderia entre meus vôos
    Pousar em cada computador

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    [Aeternus:3153] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-03-17)


    - RE:Nem tanto a Omar, nem tanto aterra

    Definitivamente, virei muso de verão. É uma honra?

    Quanto às luzes persas que se apagam e se acendem, mencionadas por jansy, me recordaram a letra em português que o João de Barro (Braguinha) escreveu para "Limelight", tema musical composto por Chaplin para o filme "Luzes da Ribalta", o último que ele rodou nos EUA e que, originalmente, não tinha letra em inglês.
    Até porque com a perseguição MacCarthysta, Chaplin saiu dos EUA fugido: pagava o preço de ter filmado "O Grande Ditador" (sùbitamente, os que se manifestaram contra o nazismo precocemente viraram "comunistas" no ideário macCarthysta, fossem, tivessem sido ou não), "Monsieur Verdoux" (versão anti-capitalista para a história de Landru, o barba-azul francês que casava com viúvas ricas só para enviuvar delas e ficar com a herança) e por ter tido casos com mocinhas menores de 18 anos, mesmo que com "quase-maioridade", ainda que no passado e ter se casado com uma delas que engravidara (aliás, quando ele casou com a Oona O'Neill esta futura mãe de uns oito filhos do Carlitos, prole que cresceu até os oitenta anos de Carlitos, orgulho da tribo dos machões, páreo para Picasso [e sem o mesmo sobrenome] a Oona era muito mais jovem que ele, e bem jovem em termos absolutos; coisa complicada quando se mistura mocinhas - nem necessariamente "precoces" - com meninas (crianças) vítimas de pedofilia ou estupro presumido). Enfim, o filme nem foi lançado na costa Oeste até décadas depois quando ganhou um Oscar extemporâneo de trilha sonora. Não sei se também ganhou letra em inglês como "Smile"(composta para "Tempos Modernos": "Smile whwn your heart is breaking, Smile even though there are clouds in the sky, you must try etc etc - e não sei se é bem assim).
    Mas aqui no Brasil, o nosso glorioso Braguinha que já havia colocado letra em "Carinhoso" décadas depois de ser composta como "apenas" um choro instrumental, sapecou letra em Limelight que ficou imortal na voz cálida e contráltica (quase barítona) da Nora Ney:
    "Luzes que se apagam a sorrir,
    luzes que se apagam... nada mais...
    É sonhar, em vão tentar aos outros iludir,
    se o que se foi prá nós não voltará jamais.
    Para que chorar o que passou?
    lamentar perdidas ilusões?
    Se o ideal que sempre nos acalentou
    renascerá em outros corações"


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    [Aeternus:3154] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-17)


    - RE:RE:Borboleta

    Mas como borboleta não sou
    Vôo com asas do pensar
    Com pernas que cansam ao andar
    E fico aqui a imaginar

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    [Aeternus:3155] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-17)


    - RE:As tres borboletas da Helena

    Helena, chegaram tres mensagens suas e a primeira, talvez até por acidente, era muito breve:

    Se eu fosse borboleta
    Sairia

    No entanto, foi essa montagem a que me pegou com um susto de uma síncope. 


    Sairia em borboleta?
    De onde...  pra onde
    assim tão no ar
    a voltejar?

    Voltando?
    Partindo ao se
    Metaformosar?

     


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    [Aeternus:3156] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-17)


    - RE:RE:Nem tanto a Omar, nem tanto aterra

    Eis o Gallego em plena forma. Essência. Ato e potência. Apolíneo pro meu baco ( aquele onde me estabaco como Sêmele querendo ver a grandeza de Zeus e virando pó... pó...ou melhor, voltando ao pó que esta última transformação é a que nosso Omar trabalha pelas mãos do oleiro... mais depois)

    Nora Ney!!!! Luzes da Ribalta e sua história. Lembro bem da música. Está na hora de retomarmos com mais força o que Gallego sempre nos oferece: nossos seresteiros, nossos poetas e todos os precursores que, pelo silêncio português, acabam como naquele "eram muitos cavalos" e os "ante Agamemnon multi"  


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    [Aeternus:3157] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-17)


    - RE:RE:Não, não tenha síncope

    Não, não tenha síncope
    Como diz o Millôr
    Livre pensar...é só pensar
    E, no momento...
    Pensei ser borboleta no ar
    Mas estou firme a trabalhar
    Não se assuste.
    Tenho os pés firmes no firmamento
    E a cabeça no lugar
    É só um taco de tristeza
    Uma gota de lágrima a calar
    Um luto aqui, um sofrimento lá
    Mas fico alegre ao me saber viva
    Nessa vida cheia de gente a versejar

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    [Aeternus:3158] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-17)


    - RE:Não, não tenha síncope

    Querida Helena,
    foi uma "síncope do bem", não se preocupe comigo e continúe,portanto, a transformar lágrimas em suor ( dizem que é mais salgado, mas...) e em sorrisos!


    Mas olha só o que, ainda naqueles anos de oitenta, eu observei sobre o "firmamento"... (lembro que "con/siderar" quer dizer "olhar para as estrelas" )

    "Considero o firmamento
    no que tem de queda, de
    cadência e dança, tombo solitário
    e por medo crio Deus à minha imagem
    mato o tempo pelo tempo
    e prepreto uma exceção ao infinito."   

    Estamos às voltas com temas assustadores como sempre, que iremos digerindo na nossa imagem, como sempre...
    Estou adorando sua arte, agora nossa. Um abraço,
    Jansy


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    [Aeternus:3160] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-17)


    - RE:RE:Firmamento

    Estou no impulso.........Aí vai mais uma
    Beijos
    Helena

    Como tenho pés no firmamento
    E o firmamento é tombo solitário
    Tombo eu, com cadência e dança
    graça e poesia
    Solidão do infinito
    Que divido agora com você em versos
    Em rima e prosa
    Explosão inesperada como as estrelas
    Ergo-me novamente
    Pausa.....................
    É preciso voltar ao lugar de onde vim


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    [Aeternus:3161] Mensagem do Grupo24
    -Sergio Porto(2005-03-17)


    - Os tres "B"

    Indago se ao invez de um passarinho tivesse sido uma vaca!
    Mereceria hai-kais também?
    No pastoreio da vaca,
    ela rumina o tempo.
     
    Fixo olhar no absurdo.
    Respondo:
    Se pro Português temos os famosos músicos da letra "B" : Bach, Beethoven e Bibaldi, então podemos sonhar que a letra "B" de borboleta serviria também para as bacas...
    O pastor que pastoreia
    rumina seu pensamento
    a baca que ali adeja
    rumina prum excremento.
    Excretamos pensamento
    em pós-labirintica Minos?
    Secretamos o revelado
    Com desvelo dos meninos?




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    [Aeternus:3162] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-17)


    - RE:Borboleta, correção

    Primo Sérgio, aproveito o clima aberto para rascunhar uma correção ao poemeu que se seguiu às suas ruminações, porque no empuxo saiu capenga ( agora ficou de salto alto...)
     
    O pastor que pastoreia
    rumina seu pensamento
    a baca que ali adeja
    rumina prum excremento.
    Excretamos pensamento
    no pós-labirinto de Minos?
    Secretamos revelados
    Com desvelo de meninos?

    Helena escreveu também no embalo e agora por cima, o reinvento:

    Como tenho pés no firmamento               (  inaugurando dest´arte uma bela cadência) 
    E o firmamento é tombo solitário
    Tombo eu, com cadência e dança            ( do balé russo ao samba bem moderno )
    graça e poesia   
    Solidão do infinito                                    ( expulsando a decadência )
    Que divido agora com você em versos
    Em rima e prosa                                      ( com arrimo e bem airosa )
    Explosão inesperada como as estrelas           
    Ergo-me novamente                                 ( da cesura do verso )  
    Pausa.....................                                  ( à boa síncope )
    É preciso voltar ao lugar de onde vim       ( da cappo  )




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    [Aeternus:3167] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-03-17)


    - RE:Sobre as vacas

    Lembrei de uma música do Caetano Velosso que diz:
    "Quando vejo você,
    Com seus olhos de vaca
    Com seus grandes olhos de vaca
    Com seus olhos, de vaca triste
    Menina triste
    O meu amor
    Quando vejo você
    Com sua gargalhada, disparada
    Seus cabelos de muito vento, de mau tempo, de mau tempo....."


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    [Aeternus:3185] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-18)


    - Voyeur

    Depois de uma semana atoladíssimo de serviço, só olhando, só observando as msgs, chego vivo ao final de semana. Ufa.

    Viva a poesia

    valorosa do jeito que for

    do peito ou de picardia

    se arde a alma em fero amor

    ou se arde a dita em agonia

    poesia: palavras em flor


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    [Aeternus:3186] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-18)


    - RE:Voyeur

    Voyeur!  Como em Baudelaire, Hypocrite voyeur , - mon semblable, - mon frère! ?
    Faz toda diferença trocar uma letra ou uma palavra ( cosmico/ comico; word/world; lecteur/voyeur) mas, fazendo isso, escapamos do "ennui". Mas o que fazer sem me tornar anjo, para responder a sua picardia? 

    Viva a poesia
    valorosa do jeito que for
    do peito ou de picardia
    se arde a alma em fero amor
    ou se arde a dita em agonia
    poesia: palavras em flor

    Viva a poesia
    valiosa do jeito que for
    de perto ou em nostalgia
    se arde a flama em vero amor
    ou se tarde desdita em agonia
    poesia: palavra da flor  

    ( quase cheguei lá no exercício, mas tem uma rima interna mais danada que a perseguida )




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    [Aeternus:3194] Mensagem do Grupo24
    -Visitante de A Saltante(2005-03-19)


    - Omar Kaiu

    O Omar Kaiu por aí e  ainda não se levantou!
    Dizia ele:
    Somos apenas indefesas pedras deste jogo de xadrez,
    constituído de dias e de noites, onde Ele as move, põe em cheque e elimina, e uma a uma, repõe ao estojo de onde sairam.
    Seria isso mesmo?
    Com a palavra os doutos eternos!
    Um Assaltante.
    ................................................................................................
    But helpless Pieces of the Game He plays
    Upon his Chequer-board of Nights and Days;
    Hither and thither moves, and checks, and slays,
    And one by one back in the Closet lays. 
     ( Edward FitzGerald translates Omar Kháyyam)
    .................................................................................................
    .................................................................................................
    Somos peças indefesas no divino jogo de xadres.
    Ordenados em Seu tabuleiro dos dias e das noites,
    Ele nos move, nos desloca, elimina e mata
    E um a um nos recolhe à caixa do Nada...
    ( novo assaltante se converte)

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    [Aeternus:3196] Mensagem do Grupo24
    -Davy(2005-03-19)


    - RE:RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

    Diz Jansy, sobre uma paciente:
    "Entendi, portanto que, por trás do que seria inveja, havia algo ainda mais primitivo porque assentado na recusa às mudanças - como se cada dia diferente fosse sempre o mesmo."
    Perfeito, Jansy. Eu tradiziria em termos de Winnicott que se trata de uma pessoa cujo desenvolvimento emocional não ultrapassou inteiramente a etapa do repúdio ao não-eu: O que não vem de mim não presta. O marido só existe a partir do momento em que ela o conhece, e tudo o que vem com ele de sua existência anterior é hostil ao eu da moça. Balint chamava isso de "amor objetal primitivo", em que só um dos parceiros tinha o direito de fazer exigências: As exigências do outro seriam ilegítimas. Para dar conta de tal sentimento, é uma ótima idéia recuar, no próprio self, a uma etapa "autista", em que o outro nem sequer existe, e o eu está em contato solitário com o universo. Nesse momento é possível "perdoar" o outro por existir, já que tudo que está no universo se torna automaticamente aceitável.
    E depois:
    "Acho que a disciplina do hai-kai pode ensinar um modo diferente de escutarmos na clínica e até de convivermos com nossa impotência enquanto 'terapeutas'."
    Concordo enfaticamente. O Tao, o Taoísmo (enquanto filosofia, não religião), o Zen, trazem a quem os aceitar uma certa impotência tranquila. Não somos donos de nada, no máximo somos testemunhas. É uma renúncia pacífica à condição de sujeito consciente, e com isso abre-se espaço (quando a lição é bem aprendida) à condição de sujeito inconsciente, o "je" do Lacan, sobre o qual não temos poder, mas que em si tem um poder enorme. Daí o mestre zen, aparentemente um zero à esquerda, ser capaz de quase tudo: É que ele não "quer" as coisas, ele apenas faz o que é necessário. E a partir daí dá para entender pessoas como essa paciente. Que, na verdade, é "impaciente", e precisa aprender justamente a arte da "paciência" - a paciência para com aquilo que não está em nosso poder aceitar ou rejeitar, e que devemos ser capazes de simplesmente admitir, reconhecer. Não "passivamente", mas imperceptivelmente. O mais dificil do mundo, com certeza.
    Por isso concordo também com o modo como você termina a mensagem:
    "Não sei..."

    Eu também não.
    Beijos.
    Davy.


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    [Aeternus:3197] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-03-19)


    - RE:Omar

    Somos os peões deste jogo do xadrez

    que Deus trama. Ele nos move, lança-nos

    uns contra os outros, nos desloca, e depois

    nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada.

    Versão de Alfredo Braga.

     


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    [Aeternus:3198] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-03-19)


    - RE:RE:RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

    Intercedo em vermelho no belo texto do Davy
    Diz Jansy, sobre uma paciente:
    "Entendi, portanto que, por trás do que seria inveja, havia algo ainda mais primitivo porque assentado na recusa às mudanças - como se cada dia diferente fosse sempre o mesmo."
    Perfeito, Jansy. Eu tradiziria em termos de Winnicott que se trata de uma pessoa cujo desenvolvimento emocional não ultrapassou inteiramente a etapa do repúdio ao não-eu: O que não vem de mim não presta. Há muitas e muitas pessoas assim, né ?...tomando aqui um exemplo não-tão-patológico ou não-tão-clínico, ressalto o anti-espectador da Arte, que desta espera uma 'confirmação' de seu self : é incapaz do abandono à proposta do outro ( no caso o discurso artístico ), da vertigem da entrega...O marido só existe a partir do momento em que ela o conhece, e tudo o que vem com ele de sua existência anterior é hostil ao eu da moça. O outro só serve para confirmar sua(s) 'teoria(s)', seu ser-no-mundo.Balint chamava isso de "amor objetal primitivo", em que só um dos parceiros tinha o direito de fazer exigências: As exigências do outro seriam ilegítimas. Remete, de saída, aos grandes déspotas da História. Mas a nível do microcosmo, do doméstico, a terríveis experiências de dor e dominação do 'mortal comum'. Para dar conta de tal sentimento, é uma ótima idéia recuar, no próprio self, a uma etapa "autista", em que o outro nem sequer existe, e o eu está em contato solitário com o universo. Anti-ascese...já sob o som das trompas da psicose. Nesse momento é possível "perdoar" o outro por existir, já que tudo que está no universo se torna automaticamente aceitável. Sim, sem dúvida. Mas aqui importa discutir o 'perdoar' mais simplório, o questionado pela Jansy, decorrente de um narcisismo despótico sobre o outro como 'posse'.
    E depois:
    "Acho que a disciplina do hai-kai pode ensinar um modo diferente de escutarmos na clínica e até de convivermos com nossa impotência enquanto 'terapeutas'."
    Concordo enfaticamente. O Tao, o Taoísmo (enquanto filosofia, não religião), o Zen, trazem a quem os aceitar uma certa impotência tranquila. Não somos donos de nada, no máximo somos testemunhas. Este discurso é do personagem representado por Robert Redford em "Out of Africa", escrito por Isak Dinesen. E, ao que diz o Gallego, idealizado, já que o amante da baronesa seria mais um sacripanta colonizador pela Africa...doce baronesa Von Blixen pois, que já fora sifilizada pelo marido, e de quebra 'perdoa' literariamente seu 'reles' (?) amante transformando-o quase em zenzen !É uma renúncia pacífica à condição de sujeito consciente, e com isso abre-se espaço (quando a lição é bem aprendida) à condição de sujeito inconsciente, o "je" do Lacan, sobre o qual não temos poder, mas que em si tem um poder enorme. Daí o mestre zen, aparentemente um zero à esquerda, ser capaz de quase tudo: É que ele não "quer" as coisas, ele apenas faz o que é necessário. E a partir daí dá para entender pessoas como essa paciente. Que, na verdade, é "impaciente", e precisa aprender justamente a arte da "paciência" - a paciência para com aquilo que não está em nosso poder aceitar ou rejeitar, e que devemos ser capazes de simplesmente admitir, reconhecer. Não "passivamente", mas imperceptivelmente. O mais dificil do mundo, com certeza. É todo esse o sentimento da baronesa, ao final. Ela pergunta-se "o que a Africa pensará de mim ?"...
    Por isso concordo também com o modo como você termina a mensagem:
    "Não sei..." A Africa também não - e a morte é solitária, como quer Bion.
    Eu também não.
    Beijos.Parabéns.
    Davy.


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    [Aeternus:3199] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-03-19)


    - RE:RE:RE:RE3: matou a trova e mostrou o pau pra toda obra

    ( em complemento à ReRe )
    Anos após à sua Africa, já out of it but ressurecta, Isak Dinesen encontra seu hábil cozinheiro...em NYC, trabalhando em seu métier  !!!

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    [Aeternus:3200] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-19)


    - RE6: arrematou a obra

    Nossa !!!Como estamos distantes do restante das mensagens e que bom que foi possível ao Davy retomar o pequeno devaneio clínico que escrevi fazendo observações pessaos refletidas e ricas, mais os dados sobre Balint.


    Florião estendeu este "amor objetal primitivo", em que o objeto é o próprio emsimesmado enquanto indiferenciado do mundo, aos diversos momentos do cotidiano. 
    É inquietante notarmos o quanto estas formas tão arcaicas ainda persistem a nossa volta e em nós mesmos...
    A Sra. Isak Dinesen era uma escritora aventurosa, talentosa e muito muito doida.  Lembro de um conto no qual o personagem masculino apaixona-se por uma moça, que nem era tão linda mas tinha, sob a pele,os ossos da face mais elegantes e bem desenhados que ele jamais vira...( e quem vê?)

    Quanto ao tema do Balint, temos algo em  Freud, quando ele fala do sentimento de "um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo" ( o sentimento oceânico descrito por Romain Rolland) que teria origem nas primeiras experiências do bebê.  Freud considera que " originalmente o ego inclui tudo; posteriormente, separa, de si mesmo, um mundo externo.  Nosso presente sentimento do ego não passa, portanto, de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo - na verdade, totalmente abrangente - que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca" .
    Francamente, acho as sacadas de Freud surpreendentes a cada vez que me deparo com elas. Ele criou praticamente todo o vocabulário e a estrutura daquilo que pensamos em psicanálise até hoje.


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    [Aeternus:3202] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-03-19)


    - RE:RE6: arrematou a obra

    Da mesma forma que Bergman purgou revolta contra 'o silêncio de Deus', Isak Dinesen vivencia o 'eco-Africa' com a Santa Paciência clamada pelo Davy...
    A maneira de sentir dentro do transicional também pode trazer nuances interessantes...

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    [Aeternus:3217] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-22)


    - Um tipo de haikai eletronico...

    Hoje me deram um endereço para " creative thinking" ( me dá arrepio de pensar...) e no qual praticam os haikais encadeados, mas numa novidade dirigida à internet. Vou copiar dois ou tres e encaminhar o endereço para quem estiver interessado neste " Bonto".

    See

    There are specific forms of poetry like Limericks, Haiku and the Malaysian Pantun. Each of these have a very formal structure as to number of lines, meter, syllables etc. The meaning is often also tightly prescribed - especially the Pantun.

    The Bonto is a new formal type of poetry for use on the net.
    There are four lines in each poem.
    Rhyming is aa bb.
    Syllables: as yet undecided (5, 6 or 7)
    Content:

    • First line: sets out some extraordinary behaviour. The more bizarre the better.
    • Second line: gives the explanation for the bizarre behaviour.
    • Third line: gives the result or outcome of the behaviour.
    • Fourth line: provides some "philosophical" reflection on life in general but arising from the situation.

    I put nails on my seats
    To increase writing feats
    Never can fail
    Put a sting in your tale
    ©Steve Smith & Edward de Bono Creative Team 1997

    he was walking on hands, not his feet
    seeing the world upside down was so neat
    they said he was completely perverted
    perspective is novel inverted
    ©Sean Devine & Edward de Bono Creative Team 1997



     

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    [Aeternus:3218] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-03-28)


    - rarefeitas

    Uma freqüentadora esporádica e rarefeita do Aeternus observou: 
    "Achei muito poético que alguém pedisse um hai-kai para se consolar da experiência de ter visto um passarinho morrer de forma violenta".

    O comentário dela me fez lembrar um episódio antigo envolvendo pássaros e que aconteceu na minha casa quando meus filhos eram bem pequenos.  Humberto comprou um "cardeal" com asas cortadas que se podia segurar no dedo.  Deu para o filho de seis anos segurar para tirar uma fotografia.  Feita a foto, que ainda tenho comigo, vê-se o passarinho empoleirado no dedo do menino que se crispava de aflição ao contato daqueles pés leves e geladinhos. E nem foi preciso avisar "olha o passarinho" para meu gato que, em seguida, abocanhou sua presa e fugiu com ela para o jardim.   

    Gato pega passarinho e lagartixa quase todos os dias. No entanto, há uma violência especial quando um bichinho tem a asa cortada e se torna ainda mais indefeso. O constrangimento foi geral.  E, de noitinha, encontrei um bilhete pregado no meu travesseiro, escrito na letrinha de forma dos semi-analfabetos e com jeito tremido feito os pés de um passarinho podado.

    Não foi um hai-kai. Não era exatamente o que se pensa ser 'um poema', mas havia um movimento poético por trás do bilhete na dor contida por meio das palavras.
    O texto era simples como um rol ou relatório de agenda e só sei reproduzir por alto:
    "Colocaram um passarinho na minha mão. Ele tinha um chapéu vermelho de penas. Era para o papai fotografar. O Golgi comeu ele."
     


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    [Aeternus:3219] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-03-28)


    - RE:rarefeitas

    Nossa, braba a estória do passarinho ! Coitado ! E coitada da criança ! Mas literatura (o bilhetinho) é isso: é purgar, é reviver, é redimensionar. Talvez tão funcional quanto a febre e o vômito.

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    [Aeternus:3234] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-04-01)


    - Garçons e Mordomos

    Antes de tudo gostaria de anunciar que há um novo trabalho no site, secção "Contos", escrito pela Marúcia e que recomendo a todos. 

    Não lembro se contei esta história nabokoviana que aconteceu há uma semana comigo. Se contei, vai de novo e talvez saia diferente do que foi na primeira vez. 

    Eu estava investigando a curiosa leitura que Ana C. Cesar fez aos "Lusíadas" quando ela descreve um jogo de inversões no qual o poeta, tão traído pela corte e realeza de Portugal, não estaria cantando a glória dos reis e barões assinalados, mas identificado aos mouros vencidos, ao cantar as aventuras de Vasco da Gama.  Nabokov tem um personagem central no livro "Ada ou os Ardores" que adota o nome Mascodagama e que se especializa em dançar com as mãos calçadas em sapato e enfiando uma máscara com peruca nos pés numa curiosa inversão que pretenderia "deixar as metáforas de ponta-cabeça". A leitura de Ana C., baseada em um antonio português e se servindo do Aleph de Borges, permite uma inversão entre os deuses no Olimpo e os exploradores reais liderados por Gama.   

    Para não utilizar Borges, pensei em extrair um personagem mítico do livro de Nabokov. Havia umas aparições misteriosas do mordomo chamado Bouteillan, misturadas com as do seu filho Bout. Um estudo sobre o filme " Remains of the Day" com Anthony Hopkins no papel de mordomo apontava. a partir de Rolland Barthes ( Mythologies)  como o mordomo no livro de Kazuo Ishiguro representava um personagem mítico, agente da história e sem vida pessoal. Ás vezes um momento de encontro clandestino no livro era interrompido pela presença distante do reflexo de um braço erguendo uma garrafa e se fazendo notar num espelho.  E se Bouteillan/mordomo fosse uma espécie de Baco, o deus do vinho, que se opunha ao Vasco da Gama?

    Carreguei livros e dicionários para o clube e me instalei numa cadeirinha protegida do sol.  Chamei um garçom para pedir uma água de coco, ou batidinha de lima. Ele se aproximou e avisou: A senhora está sentada na calçada e sou garçom para quem está sentado na grama.  Eu folheei mais uma página do meu dicionário ( e encontrei a palavra " Butler" para mordomo ). O garçom sorriu um pouco e ofereceu:
    - Se a Sra. permitir eu inclino o seu guarda-sol para que se faça sombra na grama. Então poderei atende-la pela sombra".

    Descobri que a palavra Butler em inglês vem do francês, "bouteiller" ( de bouteille, garrafa ), mas referindo-se originalmente ao "cup-bearer" do Faraó, como Ganymedes servia a Zeus.  Quase acreditei que daria para usar esse figurante para falar do Mascodagama. Só que desisti. No entanto, a sensação de um caminho pela sombra se redobrando insistente me causou uma estranheza gostosa.

     


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    [Aeternus:3235] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-04-01)


    - Tentei...

    Atrevo-me a traduzir uma estrofe de um poema de John Donne ("The Sun Rising"):

    "BUSY old fool, unruly Sun, 
    Why dost thou thus,
    Through windows, and through curtains, call on us ?
    Must to thy motions lovers' seasons run ? 
    Saucy pedantic wretch, go chide 
    Late school-boys and sour prentices, 
    Go tell court-huntsmen that the king will ride, 
    Call country ants to harvest offices ;
    Love, all alike, no season knows nor clime,
    Nor
    hours, days, months, which are the rags of time."

    Velho tolo atarefado, indomável Sol / Por que fazes assim? / Pelas janelas e através das cortinas, chamas a todos e a mim? / Quão inexorável é teu giro, que esmaece o tempo dos amores? / com teu pedantismo amargo, censura, miserável! / Os últimos colegiais e aprendizes com suas dores / Dize ao caçador Real que vem lá o Rei com seus pálios / Chama as formigas para ceifar a vindima / O amor, como tudo, nenhuma estação desvenda, ou clima / Ou as horas, ou dias, meses, do tempo, retalhos.


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    [Aeternus:3236] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-04-01)


    - RE:Continuo tentando...

    sou brasileiro e não desisto nunca... vou trocar o termo "vindima" por "hera". Vindima é colheira, ato humano, fora do contexto do poeta, que quis dizer, acho eu, que o sol chama as formigas a cortarem as folhas (espero que as bichinhas gostem da folha da hera, senão tou perdido). Para rimar com hera, troco "clima" por "inverno ou primavera", que não deixam de ser "clima" (fico devendo o verão e o outono). Assim, penso resolver o problema semântico, o da rima, e o da fidelidade ao que quis dizer o escritor (o que prezo obstinadamente em tradução).

    "BUSY old fool, unruly Sun, 
    Why dost thou thus,
    Through windows, and through curtains, call on us ?
    Must to thy motions lovers' seasons run ? 
    Saucy pedantic wretch, go chide 
    Late school-boys and sour prentices, 
    Go tell court-huntsmen that the king will ride, 
    Call country ants to harvest offices ;
    Love, all alike, no season knows nor clime,
    Nor
    hours, days, months, which are the rags of time."

    Velho tolo atarefado, indomável Sol / Por que fazes assim? / Pelas janelas e através das cortinas, chamas a todos e a mim? / Quão inexorável é teu giro, que esmaece o tempo dos amores? / com teu pedantismo amargo, censura, miserável! / Os últimos colegiais e aprendizes com suas dores / Dize ao caçador Real que vem lá o Rei com seus pálios / Chama as formigas para ceifar a hera/ O amor, como tudo, nenhuma estação desvenda, inverno ou primavera / Ou as horas, ou dias, meses, do tempo, retalhos.


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    [Aeternus:3237] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-04-01)


    - RE:Tentei... e tentou e alcançou...

    Guto, o prazer de ler o que você escreveu foi maior que a inveja que quase deu. Você interpretou bem o poema, com fidelidade aliada à sacação, fora a escolha feliz em português. 

    Pena que vindima não coube, e caiu fora o clima para inaugurar a hera.  Quem sabe você ainda não resolve mais adiante, sem hera ou primavera? Algo verdinho, apetitoso como folhas da lima? Não que não esteja magnífico como está, mas depois que você corrigiu pensei... ora... por que deixar de fora o verão e o outono? Fazer formiga coletar hera?  ( tenho dois tipos dessas folhas aqui em casa e nunca vi ataque nelas, que preferem até a grama, se não tiver broto de flor.

    Um deleite. E o primeiro, que  me pegou distraída ( não notei o problema da vindima ), foi direto cantar para a alma com aquela risadinha de banda pela crítica aos ordeiros ou mandões, reis ou trapalhões.Que jeito sofisticado do poeta permanecer na duração de cada amor... 

    Como ando com Nabokov na cabeça, lembrei de uma frase dele que achei adorável por causa deste sol do Donne domado pelo Guto.
    Não vou citar, só dar o clima.
    Há um herói ansioso pela chegada do dia e da sua dama, esperando a alvorada e que se enrosca nas pesadas cortinas do quarto do hotel enquanto reclama que elas são mais difíceis de despir do que às solteironas pudicas. 
    Ih, acho que estraguei tudo, mas uma hora dessas copio direito.


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    [Aeternus:3238] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-04-01)


    - Assim eu me empolgo...

    ... e posso ameaçá-los com outro poema.

    Jansy, obrigado pelo incentivo. Fiquei feliz em traduzir a estrofe, eu que não sou nenhum anglicista e fui feito de gato e sapato pelo(s) dicionário(s).

    Agora noto que errei um tempo verbal "com teu pedantismo amargo, CENSURAS, miserável" (Tu). Mas valeu. Acho que não preciso dizer que aceito sugestões de peito aberto.

    A Hera tem folhas escuras (normalmente mais duras) e não sei se as formigas apreciam. Mas os cítricos (incluindo a lima) também têm. Sei lá, tenho que tirar as dúvidas com um agrônomo ou botânico.

    Grande abraço.


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    [Aeternus:3239] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-04-02)


    - RE:Assim eu me empolgo...

    Guto, continue se empolgando se sua produção continuar assim. Acho que formigas cortam folhas de cítricos, só não sei se é para armazenar ( não há o inverno e outono dos ingleses aqui)


    Achei interessante o contexto da linha que você corrigiu: "com teu pedantismo amargo, CENSURAS, miserável"...


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    [Aeternus:3240] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-04-02)


    - aos amigos menestréis

    O 'tu' tem uma imponência natural, que falta à 'genérica' e 'formal' 3ª pessoa.
    A mim, pessoalmente, em nada incomoda misturar, numa mesma frase ou idéia - e sem desmandos - 2ª e 3ª pessoa. E nunca me toquei se grandes escritores o fazem, ou se são 'corrigidos'...

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    [Aeternus:3241] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-04-02)


    - 3a. Pessoa

    Marcos,

    Também não dou muita importância à pessoa verbal, e acho bastante factível a mistura entre os dois (que é a nossa lingüística natural majoritária, tirante algumas regiões), dependendo do poema. No caso do John Donne, por exemplo, o uso de uma só pessoa (sobretudo a 2a.) facilita na hora de identificar sujeitos e objetos, em face do rebuscamento natural da época e das inversões meio barrocas. Paradoxalmente, é pra simplificar, que corrigi o uso para o "Tu".

    Grande abraço.


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    [Aeternus:3242] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-04-02)


    - RE:3a. Pessoa

    A rigor é bem complexa essa coisa de 2ª e 3ª...a 2ª pode ser empolada, pomposa, e...terna também !
    A 3ª pode ser informal ( como a típica corruptela 'você' ) e usada para um discurso mais 'intimista', mas ao mesmo tempo pode servir de abrigo para o impessoal genérico...

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    [Aeternus:3922] Mensagem do Grupo24
    -helena(2005-07-29)


    - A cueca

    Cueca P M G

    Cueca agora PT

    Com dólares

    Pra caber

    PT: porta-trambique

    Nem R$eal esconde

    O cú nem sabe onde

    Colhões se encolhem

    Se enrolam, se engolem

    Na ceroula famosa

    Da tosca criatura

    Vasta sanha habitual

    Da vergonha nacional

     


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    [Aeternus:3924] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-07-30)


    - RE:A cueca

    Cuhecatombe
    em novo estilo
    helenico

    tamanhos p m g 
    com opção gg e pt
    na ceroula oficial.


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    [Aeternus:3935] Mensagem do Grupo24
    -helena(2005-07-30)


    - A Verdade

    A verdade liberta

    Seja ela qual for

    Se o homem não a agüenta

    É que dela tem temor.

    Verdade irradia luz

    Para a vasta escuridão

    Incinera restos mortais

    Numa era de podridão.

    A verdade muda a vida

    E quem dela tem horror

    É fraco, omisso, covarde

    Quer teatro barato, xucro

    Sem ver a chama que arde

    Na estesia da realidade

    No mundo mágico da cor.

    Se a verdade dói, muitas vezes

    É para medrar, nascer

    Uma vida, outro ser

    Que ame a verdade

    Para dela florescer.


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    [Aeternus:3936] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-07-30)


    - RE:A Verdade

    Tudo pode ser dito num poema e, ao poema, não se deve jamais corrigir. Então, temos a verdade da verdade do poema como este, da Helena, que é inquestionável na poesia.

    Fiquei meio sem-jeito, assim mesmo, porque junto vinha um protesto que poderia servir de carapuça para mim, alguém que tem como profissão a psicanálise, campo em que se busca a verdade.
    Então, vou me apresentar à paisana. 
    A verdade que eu busco é algo que ainda está em construção e que, portanto, não existe antes de ser buscada embora, paradoxalmente, ela só pode ser buscada porque existe.
    Desconfio das verdades axiomáticas, embora possa usá-las provisóriamente como quando se dá um valor ao "x" para explorar uma equação para auferir a validade da relação anunciada pelo sinal  "igual" (=).
    Como aconteceu com Sophie Scholl, muitas convicções que carrego preconceituosamente em nome "da minha consciência" estão verbalmente frouxas, mas podem ir se afiando no confronto até se tornarem uma certeza minha. Certeza minha, quer dizer, sempre privada, absoluta apenas pra mim e isto só enquanto permanecer relativa fora de mim ( dada a minha finitude). 
    O inconsciente freudiano nos confronta com uma verdade que vem de tudo que nos marcou históricamente, ou seja, ela não nos dá acesso à liberdade diante das cobranças do mundo externo - porque é uma "primeira programação" ( o sintoma não tem nada de "soft", mas é "hard" mesmo) . Internamente estamos operando apenas sob a égide do princípio do prazer/desprazer. Nossa verdade interior não é a "zoe", a "alma divina que habita em nós". Ela é o que nós herdamos e que vai se atualizando no ambiente.
    O processo de recalcamento não é uma "falha do aparelho psíquico" ( foi assim que foi descreveu um dia, mas não o sustentou em vários textos e sigo pela brecha que ele deixou ).
    Continuo pensando naquela história da mocinha que sonhou que o pai destelhava a sua casa e lembrou-se que quando era pequena seu pai a aconchegava na cama com uma coberta: o analista percebeu o voto inconsciente de que o pai "a cobrisse", que se tornasse seu amante.  O voto, verdadeiro, não é toda a verdade da moça, nem o édipo quando monta sua equação. 
    É quando entendo melhor o paradoxo como Davy descreve para Winnicott: querer e não querer, verdade e não-verdade, absoluto e relativo...


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    [Aeternus:3940] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-07-30)


    - Rio de Janeiro

    Rio de Janeiro

    Rio de Janeiro

    Onde estás que não respondes

    Que favelas, que becos

    de crimes, tráficos de drogas e meliantes

    Encobrem o que de belo

    Falam de tempos de antes.

    Os dourados anos 50

    Passando pelos 60

    Mas que acabam agora

    Em pura nostalgia

    Desespero do olhar de alquimia

    Dos teus vivos e mortos amantes.

    Rio....oh Rio!

    Não te reconheço

    Pudesse haver na magia do tempo

    Alguém que por ti tivesse apreço 

    E calasse quem criou esse tormento.


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    [Aeternus:3941] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-07-30)


    - RE:Rio de Janeiro, no embalo...

    Mesmo brasileiro, Deus
    esqueceu o carioca, 
    o  Rio é seu cadinho
    de caos urbano,
    caldo pronto a entornar
    no corcovado,
    sua mais bela vista
    se expande ao favelado
    que não se mostra 
    ao dominado.
    Lenta ascenção.
    Se tem mais meliante
    que antes
    é porque há mais gente
    na encosta,
    queijo bichado
    é roquefort pra quem gosta.
    Anos dourados de quem?
    O discurso mudou.
    A festa de fogos anuncia
    um novo carregamento. 
    Que se cuidem todos,
    Porque o Rio, como a vida,
    é para os profissionais...
    Droga.



     






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    [Aeternus:3961] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-08-03)


    - Onde anda

    Êta Limão

    Amargura

    Não deixe que a vida

    Inda que dura

    Estrague sua doçura

    Aonde anda aquela criatura?

    Mulher amada, doce

    Voz bela, envolvente

    Encantando muita gente

    Sábia, like a wisdom

    Onde anda, onde anda

    Lá no fundo, dedo em riste

    Desculpe se insisto em versos

    Mas é a forma de buscar nexos

    Já que estou poeta e triste.


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    [Aeternus:3962] Mensagem do Grupo24
    -Catulo da Paixão Pouso-Altina(2005-08-04)


    - Payton Place

    A voz bela e envolvente
    Se perdeu no turbilhão
    E ao invés de contundente
    Dócil foi ao caldeirão
     
    Neste achava-se estrangeira
    Saio e entro, meiga-faceira
    Meus encantos manterei
    Quem quiser enganarei
     
    Rodando junto lá dentro
    Pimenta, louro, coentro
    Iludida nem mais contei
    O tempo que ali fiquei
     
    Dócil fui ao caldeirão
    Que hoje sei contundente
    E perdi no turbilhão
    A voz bela e envolvente

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    [Aeternus:3963] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-04)


    - RE:Payton Place/Brasilia Hilton

    Pensava que nossa Helena
    Perseguindo a bela voz
    Buscava sim, a si mesma
    No meio de todos nós.

    E eis que bem catulosa
    No Hulk de um caldeirão
    Veio-lhe resposta airosa
    Invocando confusão,

    Cena shakespeareana
    Viola bela e seu Violão
    Assim é se lhe parece
    E, se não for, não era não...

    Noite de Reis e rainhas
    Duodécima estação,
    Terminando na cantiga
    Em pleno luar do sertão?


     


     


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    [Aeternus:3968] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-08-04)


    - A Nau

    Ouço uma bela voz em verso

    Baudrillard, Nietzsche

    Ecos de Pessoa.

    Angústias, confissões, análises,

    Um vai-e-vem de sons ressoa

    Brasília, Rio, São Paulo, Brasil,

    Notícias, risos, pânico, jornal,

    Em minha alma se misturam,

    Gente que vem e vai, entra e sai da nau

    Passageiros ilustres que não cansam

    Lutam com tempestades e ventos e chuvas

    Teimam. Vivem o dia-a-dia atemporal

    E lá se foi o vendaval

    Olha o sol, um navio fluvial

    O dia se foi, a noite chegou

    Pra mais uma jornada na nau capital.


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    [Aeternus:3969] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-05)


    - mudando o tom

    O último raio de sol
    (visível aos meus olhos, obviamente)
    pingou por uma gota e se desfez
    sem que anoitecesse.
    Um poste foi aceso, outros brilham
    porém, deles, que sei eu?
    Minha fatia de mundo cresceu
    com a internet, www, gps e dotecom?
    Expandiu-se a consciência na rede da informação?
    O dia foi posto e bem servido.
    Faiscas de vida ainda piscam nos sonhos
    sem prever o despertar.







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    [Aeternus:3972] Mensagem do Grupo24
    -Em. Pessoa(2005-08-05)


    - invocado, compareço !

    (...)"Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,
            Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
            Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                        Ouvindo o rio correr e vendo-o.

           Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
           No colo, e que seu perfume suavize o momento -
           Esse momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                        Pagãos inocentes da decadência.
    "
       

     


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    [Aeternus:3974] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-08-05)


    - RE:invocado, compareço !

    Cá estamos mais uma vez com rios e flores para os pagãos inocentes da decadência.
    Só não reconheci o E. Pessoa. Pensei que fosse o Arnoldo.

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    [Aeternus:3991] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-08-10)


    - Nouveau Helena

    Bebe

    deste cálice

    filha da Hélade

    Sepulta Adônis

    reto, ereto

    exato.

    Sorve o néctar

    bacante

    à luz dos archotes:

    deus delúbrico Dionísio,

    em delusão deluzida.

    Quanta sapiência

    nas epidermes

    acarinhadas!

    no engulimento vinhal celebrante!

    acordar! dançando

    Musikè de lira

    bandeja de lírios

    e a romã sagrada, helena!


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    [Aeternus:3992] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-08-10)


    - RE:Nouveau Helena, Belle Poire

    Clássica fronte
    Entre louros
    A queimar o óleo
    Na madrugada
    Moderno tino 
    Diz tudo.

    Contudo
    O negócio é arriscado
    Riscado no tempo
    Que mata o exemplo
    Do ócio...

    Ai, que dó óooo
    Ficar sem Helena
    Sem Guto, sem Márcia
    Sem o antigo...quem era?
    Ilustre gaucho,
    Agora quimera?


    Voltem, em breve
    Visitem bastante
    E expliquem na rima
    Quem foi Bustamante... 



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    [Aeternus:4027] Mensagem do Grupo24
    -Helena(2005-08-13)


    - RE:Nouveau Helena

    Só posso dizer que com muita emoção
    Vi versos e trovas do Guto... que gratidão!
    Tanta poesia helênica, sabedoria
    Amizade e até amor, por que não?
    Permita-me ver assim, com o ardor de uma canção.

    Para Jansy, lembro que é bom sentir saudade
    E que logo voltarei com simples palavra ou poesia
    Mesmo com o vento soprando forte no mar
    Com o trovão do tempo a corroer os dias
    Porque mais vale viver pela arte a vida
    Do que viver a vida sem ter guias


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    [Aeternus:4028] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-13)


    - RE:Nouvelle Helene...

    "Mais vale viver pela arte a vida
    Do que viver a vida sem ter guias"


    Vale viver... vivendo ou artistando
    Porque às vezes
    as duas coisas coincidem.
    Prometo, então, artistaremos
    Degrau por grau,
    Um após outro....

     



     


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    [Aeternus:4029] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-14)


    - Babilonia

    Só pode ser devido a uma deficiência da capacidade de simbolização e na representação verbal, mas quase todas minhas experiências precisam ser transformadas em fotografias, a partir das quais as re-examino. Este segundo vislumbre não tem o fito de me fazer recuperar algum prazer perdido ( embora isto possa ocorrer ), trata-se principalmente de redimensionar as coisas da vida, torná-las menos insuportáveis. 
    Ontem fui, mais uma vez, ao restaurante Universal, ambiente completamente GLS. Do lado de fora, cartazes com santinhos como Cosme e Damião, iluminados com neon azul. Na entrada, uma saleta com bichinhos de pelúcia em cada cadeira e todo tipo de penduricalho nas paredes e no teto. O cliente que entra passa por fileiras de garçons e garçonetes sorridentes desejando boa-noite e boas-vindas, escoltado até sua mesa. 
    Ficamos na varandinha, aos fundos. Uma espécie de nicho roubado ao traseiro da quadra comercial e inteiramente disfarçado com jogos de arandelas e arames formando uma cobertura na qual se dependuram cachos de uvas de cera e flores de seda desabrochando de todas as estações do ano. Ao centro uma estátua dourada de uma Venus rechonchuda cercada de velas vermelhas acesas. Em volta, azulejos criando amuradas para mais flores e velas.  Quando o prato principal é servido dois garçons simultaneamente o descobrem cantarolando e anunciando: " Voilá!". A música é quase neutra, daquele tipo que tocava na Parada Gay ( não consigo nunca descobrir o nome, YLCA é o que anuncia, ou algo assim ) e que, aos ouvidos meio surdos do Humberto, ressoava como..
    - Será que tem uma máquina lava-louças ligada aqui do lado?

    Seja o que for, a experiência é maravilhosa e a comida, a melhor do mundo. Não é preciso álcool ou drogas para se sucumbir a um barato estranho e arrepiado que deixa as papilas da língua em pé, fora um formigamento nos braços e nos dedos. Só se aspergem algo no ar, como o pó de pirlimpimpim da fada-sininho,  porque os sentidos ficam realçados e, francamente, não há visualmente ali nada belo, horrível ou expressivo.
    Resumindo: não é um lugar que se possa fotografar.

    Pedi um camarão com curry, e arroz à piemontesa com salpicos da Tailandia, porque tinha abacaxi,cereja ou amora com amendoim frito, hortelã e broto de feijão.Cada saborzinho anonimo ou não era saboreável individualmente. Nada de macedonia ou feijoada conglomerada como um molho uniforme. O filé, seja de carneiro ou boi, vem ao ponto verdadeiramente, com a casca crocante e o miolo em vários tons rosados. Até a manteiga é com ervas.  A sobremesa era também de sabor quase indescritível, uma invenção a partir de um bocadito de brownie recoberto de todo tipo de nhá-benta de maracujá com capa de chocolate branco e preto, creme chantilly que se fundia com uma calda de laranja japonesa ( esta sozinha é uma festa com a casquinha cortada simétricamente e recoberta de granulos de açucar ) e esqueci novamente o nome desta laranja ( "quim-quem"?) que gostaria de recordar para não ter sempre ao fundo aquela transformação do hino nacional ( laranja da china...abacate limão doce e tangerina...).

    O local é quase insuportável pela felicidade idiota que toma conta da gente. Não dá para ir outra vez antes de se passarem pelo menos uns dez meses. Hoje é rotina de lanchonete uma imagem que pela primeira vez encontrei num livro alemão para crianças nos paupérrimos anos cinqüenta da minha infancia: no meio de uma praça deserta calçada de azulejos brancos e amarelos, como no país de Oz, uma fonte com várias canecas penduradas e de onde se podia saborear variados sucos e caldas que fluiam dela sem parar. Por trás dos vitrais ainda se vislumbravam longas mesas com manjares piramidais envolvidos em tiaras de morangos e ameixas ou leitões pururuca com maçã enfiada na boca.  
    Este restaurante de Brasília é como ser levada por Mary Poppins para visitar um cenário daqueles...

    Babilonia, não? O reino dos sentidos primários? O lugar dos pecados e perversões bucais?


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    [Aeternus:4030] Mensagem do Grupo24
    -Nero Sem Fogo(2005-08-14)


    - RE:Babilonia e Roma Antiga

    Jansy confessa-se uma pecadora pós-moderna, falando-se em termos gastronômicos.
    À mesa, ao contrário do hibridismo que ( penso...) me caracteriza, sou uma Margaret Thatcher de laquê e tudo. Nada de penduricalhos, desenhos nas comidas, frutinhas, bolas de gude, pétalas e garçons/garçonetes galácticas. Só food / glorious food ! - com Charles Dickens.
    Sou tão conservador à mesa, que para vocês terem uma idéia, se me fosse concedida outra existência eu escolheria, maioria das vezes quase todas, comer meus mesmos pratos favoritos !
    Filhos queridos, aos quais não se abandona !

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    [Aeternus:4031] Mensagem do Grupo24
    -Victoria Regia(2005-08-14)


    - RE:RE:Babilonia e Roma Antiga

    Me surpreendo com os pendores do Nero sem fogo, que aproximam o romano à Margareth Thatcher com laquê e tudo. Afinal, o que é o laquê? E, se o nome dela não for Tatcher, então fica ainda pior porque os cabelos passam a sugerir aqueles telhados ásperos de palha usados nas casas shakespearianas.  Não é possível comer peixe com molho de tamarindo todos os dias, ou o regionalíssimo pato ao tucupi. Mas uma viagensinha à Babilonia Fake, de vez em quando, não é de se jogar no lixo. Ainda estou esperando uma Babette pra não apenas dar sabor à sopa de todo dia como, ainda, festejar-me um dia com um banquete.
    A lista do Nabokov andou animada recentemente depois que fiz um achado fotográfico de um artista brasiliense, Alessandro Guerra, que se promoveu numa destas revistas de multinacional festiva com uma foto de uma boca entreaberta da qual protuberava uma língua vermelha e úmida com formato de morango. É que há uma cena amorosa entre Van e Ada descrita pelo amero-russo na qual a menina empresta sua língua como "um morango quente e fervido" para que o amado chupasse até o talo. Os opositores à imagem brasiliense reclamaram que a informação literária favorecia mais às informações tácteis do que às visuais ( além do que a língua, como "morango fervido", não seria tão vermelha e viscosa como a da foto ).
    Claro que, se fosse condenada a uma ilha e precisasse escolher um prato para me acompanhar ao longo do resto dos meus dias, ia preferir ovo frito e arroz à qualquer acepipe oriental. Talvez até trocasse o ovo pelas castanhas de cajú.

    Hoje li uma notícia triste de um acidente com um Boeing grego, da companhia Helios, que despencou sobre Atenas e no qual morreram pelo menos oitenta crianças que nele viajavam a passeio.  Houve um problema com a pressurização e regulação da temperatura do avião e todos morreram congelados. Os pilotos não conseguiram aterrizar porque haviam morrido de frio!  Nunca havia suposto que algo semelhante pudesse acontecer. 


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    [Aeternus:4032] Mensagem do Grupo24
    -Nero Sem Taras(2005-08-14)


    - RE:RE:RE:Babilonia e dia-à-dia

    Compreendo perfeitamente a tchurma que procura variantes gastronômicas. Falei apenas de manias muito minhas.

    Nabokov se presta muito a essas paródias pincelísticas. Se eu dominasse a técnica, meu 1º esboço a respeito seria o do personagem de "Somos Todos Arlequins" e a dentadura que seu "estúpido dentista  não compreende" quando ele diz que ela "não acompanha seu sorriso."

    Sobre o vôo macabro, realmente impressionante ! Jansy, que comenta sobre mortes frias, tem assim inaugurado um espécime de 'morte fria coletiva'. Não sei por que, me lembrei de cenas de "O Abominável Dr. Phibes". Imagino o piloto durango kid em sua poltry, braços no leme...e lembrei do Hugh Griffith, após ser morto pelo Phibes num navio, colocado junto a bonecos de cera numa orquestra estilizada. Acho que ele era o baterista.


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    [Aeternus:4033] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-14)


    - RE:Babilonia e dia-à-dia

    Que pena que perdi a chance de entender a maior parte das referencias do Nero Sem Taras. Não sei o que é "O Abominável Dr.Phibes" nem "Somos Todos Arlequins" ( não é a tradução do título de "Look at the Harlequins" do Nabokov, é? ) Estou me sentindo também uma dentadura incompreendida .

    Parece que não eram oitenta, mas oito crianças entre os 121 mortos do avião grego. Ainda me sinto horrorizada com o acidente, ou terremotos na China, enchentes na India, calor na Europa. E, tudo indica, não é pelo aquecimento global e sim alguma rotina do planeta.
    Uma vida longa é um privilégio que, às vezes, não sabemos agradecer direito aos céus. 


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    [Aeternus:4034] Mensagem do Grupo24
    -Nero Sem Caras(2005-08-14)


    - RE:RE:Babilonia e dia-à-dia

    Sim, "Look at the Harlequins !" é "Somos Todos Arlequins".

    Sobre o grief no pós e a valorização da Vida, vários jovens imitam o movimento habitual e consagrado : vivem coimo se imortais fossem, por pensamento mágico. Mais preocupante, porém, é o que acontece com uma parcela pequena mas razoavelmente preocupante deles : desgosto mesmo, negação, delenda. Começa pela perda de identidade com os ecstasys da vidamorte, segue pelos piercings e tatuagens agressivas, e termina de forma bem conservadora, nos velórios, esquifes e missas de 7º dia.


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    [Aeternus:4035] Mensagem do Grupo24
    -Lolita Pille(2005-08-14)


    - RE:Babilonia e dia-à-dia

    Perfeita sua descrição do ciclo vital de alguns jovens: do ecstasy e auto-mutilação ao conservadorismo do caixão. O tipo de paciente atual com o qual mais tenho dificuldade para trabalhar são aqueles presos ao esquema do prazer, que se torna um ideal do eu. Sofrem como possuídos.  Neles faltam os pequenos deslumbramentos cotidianos e gestos de gratidão contrita.


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    [Aeternus:4036] Mensagem do Grupo24
    -Nero Sem Garras(2005-08-14)


    - RE:RE:Babilonia e dia-à-dia

    Pequenos deslumbramentos cotidianos e gestos de gratidão contritos...vão aqui a não-necessidade da pressa permanente, do imediatismo imbecilóide, da hybrys hedônica. Há um encanto em certas expectativas e esperas que muitos jovens perderam com essa velocidade alucinante da mídia. Em nenhum lugar, tão bem quanto aqui, pode-se falar na 'velocidade burra' que o Nélson Rodrigues caracterizou.
    Quanto à gratidão contrita à que Jansy alude, creio que refere-se à delicadeza, à promessa de troca e ao enlevo dos elos criados em nossas relações com os chegados.


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    [Aeternus:4037] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-14)


    - RE:RE:RE:Babilonia, dia-à-dia di nero sin bianca

    Caro Nero, engana-se você sobre a minha gratidão contrita referindo-se aos relacionamentos aos amigos mais queridos, às trocas do delicadizer em geral.  Trata-se simplesmente de um endereço para a alegria/dor de estar viva.


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    [Aeternus:4038] Mensagem do Grupo24
    -Nero Sem Iaras(2005-08-14)


    - RE:RE:RE:RE:Babilonia, dia-à-dia di nero sin bianca

    ...mais belo ainda. Vertigem da presença pura.

    Outro dia, dialogando com uma moça de 19 anos, ela referiu-se a "quando estiver velha, com 28 anos(...)". Vejam só : no esplendor feminino, talvez a idade mais bela da mulher - ao redor dos 30 - ela estará 'velha'.
    Seria o caso de, da mesma forma que no Brasil criamos a meia-gravidez e o meio-ladrão, criar novas categorias nas Instituições e fichas públicas. Respeitando a atomização do tempo, teríamos então os bebês, infantes, mocinhos e mocinhas, adôs, adultas, velhas ( dos 28 aos ? ), encarquilhadas, matusaléns, bolas murchas e detritos humanos. Com faixas etárias a determinar, em cada classe.


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    [Aeternus:4039] Mensagem do Grupo24
    -Metusalém visitada(2005-08-14)


    - RE:, dia-à-dia di nero sin bianca

    Os romanos seus amigos eram muito mais generosos.  A adolescência para eles ia até os cinqüentinha. A sabedoria viria aos sessenta ( daí o "Senado", o deles lá ) e mais umas décadas douradas até a senescência. 
    A ninfeta inspirou você a me colocar... deixa ver...entre metusalém e detrito humano ( tenho que pular a etapa da bola murcha, né?)   

    Então vamos pro texto latino da Abertura do Festival Acadêmico de Brahms:

    Gaudeamus igitur juvenes dum sumus.
    Post jucundem juventutem,
    Ad molestiam senectutem
    Nos habebit humus...nos habebit humus..


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    [Aeternus:4040] Mensagem do Grupo24
    -Nero às Claras(2005-08-14)


    - RE:RE:, dia-à-dia di nero sin bianca

    De Nero charlei
    O mundo conquistei
    Sem eira nem beira
    Por aí a dar rasteira
    Minha fama construí
    Bem maior que tatuí
     
    Em meu Império Romano
    Matei muito carcamano
    Fui chamado de malvado
    Atrevido, esconjurado
    Porém tudo o que fiz
    Foi intuito e o povo quiz
     
     

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    [Aeternus:4041] Mensagem do Grupo24
    -Xantipe(2005-08-14)


    - RE:RE:RE:, dia-à-dia di nero sin bianca

    Porém tudo o que fiz
    Foi intuito e o povo quiz...
    É melhor povo felis
    Que cicuta com aniz
    Ter o Maluf por um triz
    Engolir Lula pelo nariz
    Encontrar FHC em Paris
    Ver mendigo na matriz
    Ter que mudar do meu país
    Tudo porque... o povo quis?
    A gente aprende e o povo aprende
    Sem medo de ser feliz... 


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    [Aeternus:4042] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-15)


    - João César Monteiro na segunda-feira

    Um dos nossos amigos, ginecologosta, raramente ficava conosco até o fim durante jantares ou passeios, pois sempre recebia uma chamada urgente que o obrigava a se afastar.  Um dia, com pena, perguntei se ele não via como evitá-lo, se não se cansava. Ele respondeu que entendia nossa atividade rotineira como um trabalho permanente, uma vez que ficar sentado num restaurante esperando pelo cardápio, gesticulando para o garçom, desembrulhando guardanapos ou submeter-se a manicure ou cabeleireiro seria, para ele, mais atormentador do que se exercer como ginecologista.  Achei muito razoável sua idéia porque também me sinto assim dirigindo feito motorista, cozinhando feito cozinheira, limpando feito faxineira, digitando feito secretária o dia inteiro, mas não sou motorista, cozinheira ou secretária.

    Hoje cedinho, com a primeira pontada de inquietação com o início de uma nova semana, ainda meditando no travesseiro, avancei mais um pouco nas caraminholas. Pois já havia ligado a segunda-feira com o primeiro dia de aula no passado longínquo, quando a criança deixa de ser apenas "filha" e passa a integrar uma sociedade maior, iniciando-se inocentemente naquele lento esforço de socialização "oficial". O peso do trabalho vem da responsabilidad profissional. Não é "ser como cozinheira", mas "ser cozinheira" e ganhar salário, pagar INSS e IR, ter direitos e deveres como cidadã através da culinária, por exemplo. A imagem do trabalho que recebi daquele dedicado amigo não estava correta porque não trazia este primeiro travo dolorido ligado a reinserção num determinado nivel da vida social. Usar pijama e chinelo é cômodo para os apostentados dos cartuns não tanto pelo conforto da indumentária, mas pela sinalização do estado de "indisponibilidade , ou isenção das responsabilidades profissionais" marcadas pelo salário e pelos impostos. É viajar grátis de onibus, pagar meia no cinema como criança...

    Um enorme preâmbulo para comentar o filmes de um diretor que encantou Humberto e que acho doloroso demais assistir, embora se apresente como uma comédia.  Trata-se de um português chamado João César Monteiro. As três fitas que ele mandou vir da Europa são premiadas: Recordações da Casa Amarela, Leão de Prata no Festival de Veneza de 1989, A Comédia de Deus, Grande Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza de 1995; As Bodas de Deus, Seleção Oficial do Festival de Cannes em 1988.  
    Já havia tentado ver As Bodas de Deus, com uma cena em que João manipula uma mulher que nada sobre uma mesa de massagem, tendo Wagner ( a morte de Isolda) ao fundo. Ontem vi partes das Recordações da Casa Amarela.  Estes filmes são, pra mim, manhãs de segunda-feira esticadas ao infinito.  A fotografia é principesca, vemos Lisboa deslizando pelo Tejo em um iate de milionário porque não há o menor tremor no cenário que se amplia e se estende por quilômetros. Na vida a gente sempre está num barquinho a remo ou com motor de popa, sacundindo para tudo que se vê. Ver uma cena passar por nossos olhos inteiramente sem tremores é privilégio dos Reis... A luz é de Fra Angelico. As casas lembram os casarios do bairro das Laranjeiras onde me davam suspiros recémsaídos do forno enquanto escutava os sabiás. Mas a dor... insuportável.  Há uma grosseria portuguesa em algumas alusões. O personagem espera uma moçoila sair do banho e, quando a vê, o bastão do desodorante que ele traz consigo sai da embalagem e se estica pra fora... Francamente.  Mas tem que ter alguma coisa genial, a própria textura e tessitura do filme o garante e eu não dou conta...

     


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    [Aeternus:4043] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-15)


    - RE:João César Monteiro na segunda-feira

    Embora ache que estamos discutindo coisas diversas do que deveriam estar nesta lista de trovinhas trovadas, o comentário de Jansy sobre este cineasta luso me fez lembrar coisas talvez análogas. Nunca assisti nenhum dos filmes de João Cesar Monteiro, mas já escutei falar de sua obra como algo vanguardista, fora do esquemão do cinemão industrial e - naturalmente - com seus fãs, entusiastas, cultuadores, ainda que insuficientes para uma divulgação maior dos filmes e do autor (ainda mais oriundo do cinema português de tradição quase exclusiva no idoso e ainda atuante aos mais de 90 anos Manoel de Oliveira, outro que me parece supervalorizado, ainda que mereça todo respeito e consideração, que mais não fosse pos rua longevidade produtiva e honesta em sua coerência). Os detratores do Monteiro aparecem menos, ainda que existam.
    No Rio, há um ano surgiu um culto a uma diretora argentina de seus 38 anos, Lucrecia Martel que teve seu filme de estréia, "La Ciénega" (Aqui batizado de "O Pântano") incluído em pelo menos uma lista de "dez melhores" de 2004 (embora rodado em 2001 e lançado em Cannes no mesmo ano – rumorosamente, eu acho). Um novo filme dela está em cartaz, "Menina Santa", cujo tema na sinopse até me atraiu: menina assediada sexualmente por um médico, chega à conclusão de que deve ceder para salvar a alma do pecador. Poderia ser uma espécie de nova história de Nelson Rodrigues no limite do sublime, do brega, do ridículo, do grotesco... ou uma porcaria completa. Mas um "dever de ofício" me fez assistir o filme que eu evitara pela fama de “desagradável”, o tal "O Pântano" em dvd (será debetido no SESC por solicitação do programador, entusiasta do filme que me pediu para inclui-lo como debatedor; aceitei sem conhecer o filme, não podia negar o pedido; convidei um crítico de cinema que o comentou no ciclo dos "dez melhores" de 2004) mas.... achei o filme uma coisa injustificável.
    Uma casa de veraneio, fora de Buenos Aires no que parece uma espécie de “Miguel Pereira” (cidadezinha de veraneio da classe média média nos anos 1950, perto do Rio de Janeiro, nem Petrópolis nem São Lourenço, muito mais modesta, sabe-se lá com que atrativo em sua época “áurea”) decadente (talvez a região seja "La Ciénega" do título original, não estou certo) mostrando duas famílias de classe média em seu cotidiano sem rumo (como podem ser dias de férias). Sem rumo, sem roteiro, sem ação dramática, sem interesse, sem ritmo, sem nada que me pareça justificar a existência do filme. Ambiente decadente, ostensivamente sujo, com lama por aqui e por ali, status econômico de classe média bem decadente, crianças gritonas sem educação, adultos alcoolizados all day long, jovens em bailes populares com brigas sangrentas, crianças brincando com espingarda de verdade, comentários de adultérios, tudo muito chão e mesquinho, vidas "inúteis", tempo desperdiçado, um nada absoluto. Náusea existencialista? Retrato de um afundamento psicossocial de uma classe média latinoamericana sem futuro, sem salvação, afundando num pântano como uma pobre vaca mostrada com alguma (pequena) insistência?
    Isso me lembra o estágio atual da música popular dominada pelo rap que quer dizer "ritmo e poesia". Poesia? Sejamos coerentes: prosa e olhe lá. Fala, verborréia. Interessante (às vezes) sociologicamente, mas raramente algo que se possa considerar poesia popular (que nossa música brasileira no terreno do samba tem em centenas de exemplos, seja lá com seus traços meio bregas e ao mesmo tempo sublimes, efetivamente poéticos: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor” ; seja como tiradas de humor, ironia, auto-ironia, deboche, sátira - que afinal, é uma forma de ars poetica cujo exemplo maior na literatura brasileira vem de Gregorio de Matos e Bocage com suas libertinagens. Querem coisa mais maravilhosa do que um samba mais ou menos recente que diz que "vai vadiar, vai vadiar, ela quer é vadiar" no refrão?
    Não estou sendo purista nem elitista nem academicista nem bel-letrista e insisto que gosto também se discute. Não consigo saber que qualidades cinematográficas encontrar no primeiro filme de Lucrecia Martel e acho que vou enfrentar uma saia justa ao coordenar um debate com dois entusiastas de um filme que eu reduziria a subnitrato de pó de merda, sem barulho nem fúria, muito menos significando qualquer coisa.
    Talvez me falte um "código" para poder apreciar certas coisas, é verdade; pode ser que os debatedores me mostrem um caminho para não-iniciados. Mas temo que, por outro lado, haja uma idealização do que não é "cinemão" apenas por não ser cinemão. Ou mesmo uma atração perversa pela lama, lodo, pântano em si mesmo, sem que nem por que. O nosso cinema "underground" ("udigrudi") de Rogerio Sganzerla e Julinho Bressane estaria cheio desses exemplos "sem saída", onde o talento eventual e cultura geral ampla dos cineastas e espasmos de brilho intelectual cintilam aqui e ali. Mas não me convencem no atacado.
    Como na música, onde o ritmo é essencial (Borges chamou a música de "essa misteriosa forma de tempo"), a melodia, as harmonias, as dissonâncias são a alma do corpo ritmico e hoje em dia, menosprezadas seja na repetição monótona do minimalismo, seja na atonalidade absoluta seja no ritmo pelo ritmo que não posso deixar de chamar de arcaico ou primitivo - sem que seja um preconceito: é uma constatação ligada à história e evolução da música. Por que devo admirar tão intensamente um modo musical dos índios do Xingu como se fossem as mesma culminâncias de Bach, Mozart, Brahms, Verdi, Wagner, Stravisnski, Schubert, Mahler, Tom Jobim, Edu Lobo, Gershwin, Ary Barroso, Caymmi, PIazzolla, Cole Porter, etc etc etc etc???
    Posso apreciar o ritmo monótono de manifestações culturais arcaicas (sem pejorativo, modos “diferentes" de expressão musical) de tribos em estágio civilizatório diverso do da nossa cultura, mas não posso compara-los à complexidade e simplicidade unidas magistralmente num allegro de "As 4 Estações" de Vivaldi, para ficar num exemplo de um "clássico" bem popular, usado e abusado pelos deuses das propagandas e reconhecidos pelo transeunte mais distraído que passa na frente de uma loja com TV ligada e um anúncio seja do que for ao som de Vivaldi. Como muita música ruim e fácil de grudarem em nossas mentes, há temas "clássicos" que "grudam" nos nossos ouvidos para sempre e com um grau de sofisticação intrínseca comparável à tecnologia de uma ressonância magnética em oposição ao antigo raio-X. Ainda há muito espaço para exames em Raio X, é claro, mas não se trocará uma ressonância pelo RaioX conforme a indicação. E viva esse avanço da ciência!
    A atração pela lama pantanosa do primeiro filme de Lucrecia Martel tem sua contrapartida em filmes do cinemão também! Fui assisitir ao tal ”A Ilha”, distopia de ficção científica que mistura enredos como os de “THX-1133” (prmeiro filme ainda amador de George Lucas pré- Guerra nas Estrelas), algo de “Inteligência Artificial” (trocando os robôs humanóides por pessoas clonadas e seus direitos), algo de “Minority Report”, etc etc num clima do recente “Guerra dos Mundos”, ou seja, você fica sem respirar, submetido e sujeitado a uma ação vertiginosa contínua, muito além de qualquer verossimilhança mais tolerante mesmo que em total suspensão de descrença – e com muita mas muita violência, cenas catastróficas como poucas, barbaridades e desumanidades como num neonazismo de deixar Mengele como um anjinho nas teorias de eugenia. Parece que depois de 11/9 o terror no cinema tem que suplantar a realidade do jeito que der ou do modo que for. Como em filmes recentes, não produzidos pela indústria pornô, mas com cenas mais ou menos gratuitas onde os atores efetivamente têm relações sexuais sem truques ou efeitos especiais; acho que só falta mesmo a “morte ao vivo” para estimular a adrenalina do espectador.
    O que a superprodução “A Ilha” tem a ver com “O Pântano” que é tão lento, tão chato, tão descosturado? O que pode atrair o espectador que se amarre nesses filmes – além do encantamento com a ação vertiginosa para uns e o deslumbramento com a inação estática e inerte para outros? Temo que seja o fato poderem se comprazer com a lama que nos cerca, física e metaforicamente, sem transformação (Bion) em obra artísitica que mereça essa categorização da forma mais modesta que for.
    Mal comparando, e me expondo a ser criticado como já fui: por que a admiração pelos filmes iranianos de criancinhas sem tênis, sem peixinho, sem caderno, numa linguagem pseudodocuemental se Rossellini, De Sicca e o Visconti inicial já criaram o neo-realismo com mais substância artística-dramática? (E que se esgotou em si mesmo)
    O atual realtivo “boom” dos documentários em detrimento do cinema ficcional algo esgotado, admito, talvez seja uma reação do público às ficções bobocas de décadas de hollywoodianismos, mas temo que esteja se perdendo uma forma rica de ver a realidade e apreende-la através da ficção que permitiu e permite que as pesoas e as sociedades se reconheçam e se compreendam melhor através dos Édipos, Orestes, Quixotes, Don Juans, Carmens, Hamlets, Macbeths, Falstaffs, Carlitos (o personagem), Karamazovs, Josepphs K., Riobaldos, Bentinhos Casmurros, Macunaímas, Peer Gynts e tanto e tantos outros.
    A realidade em si mesma não basta: sua reflexão carece de categorias filosóficas, sociológicas, antropológicas, psicológicas, etc etc. O cinema ilude (mais uma vez) em documentar a realidade nua e crua como se fosse “A” realidade. Para isso, prefiro os telejornais e suas incontáveis falhas. O cinema que eu amo é feito – como nós – da mesma matéria de nossos sonhos, não como sinônimo de escapismo, mas como manifestação e forma de apreensão de nossa realidade interna e externa.

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    [Aeternus:4044] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-15)


    - RE:RE:João César Monteiro na segunda-feira

    Mea Culpa. Estava sem tempo para procurar uma lista adequada e usei a primeira que abriu no computador.  Irei deslocar estas duas mensagens de cinema e João César Monteiro para nova lista.
    Acho que irei batizá-la de "Recanto Sórdido".


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    [Aeternus:4066] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-08-17)


    - Trovinhas bem comidas

    Legal a experiência oro-sinestésica da Jansy ter sido contada nesse fórum. Arte culinária é a mais útil das artes, e não menos elaborada.

    Abraços.

    ps: Helena, que bom que vc gostou do poema. Mande notícias.


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    [Aeternus:4067] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-17)


    - RE:Trovinhas bem comidas

    Oro-sinestesia, essa foi de ouro também...

    Hoje, uma nova dimensão culinária se inaugurou a la Dr. Pepys ( um dos livros da biblioteca do falecido professor no filme As Invasões Bárbaras ) quando os netinhos vieram almoçar conosco. O avô, à cabeceira, impõe moral e eles costumam ficar calados e civilizadíssimos com talheres e guardanapos. Não sei como o assunto "pum" entrou em pauta, com sofisticadas versões para cada traque, como aquele que parece um pneu furando e esvaziando devagar e a meninada se animou.  Humberto, que não ouve bem, ficou desligado sem seus apartes britanicos, até que expliquei o tema para tanta alegria.  Neste momento, solene, Eduardo foi até sua mochila e trouxe um livro, encapado e etiquetado, com a história dos "Dez Amigos do Lago" ( quando cada um mergulha, restam nove, oito, sete...), aberto na página em que nove crianças ficam de perna pra cima e soltam puns para a décima que vai pular.
    Aí está.  Peido com bibliografia.   


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    [Aeternus:4068] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-17)


    - trovas de uma mestra

    Cecilia Meireles, especialmente em seus primeiros livros, versejava trovas de estrutura bem simples. Mas quem é "do ramo" é competente nos grandes formatos ("Romanceiro da Inconfidência", por exemplo) ou nos mais singelos.
    Aqui tem gente "do ramo", o que não é meu caso, então vou fazer citações de Ceilia. Escolhi algumas trovinhas, mais ao acaso de folhear sua obra do que numa seleção, mas certamente me chamaram a atenção por uma espécie de sabedoria simples e forma delicada de dizer tais coisas:

    Na grande noite tristonha
    Meu pensamento parado
    Tem quietudes de cegonha
    Numa beira de telhado
    ...............................................
    E sob olhares em pranto
    De estrelas alucinadas
    Vais - coroa, cetro e manto,
    Ó Rei das minhas baladas

    E eu sonho o meu sonho oculto
    De ave triste - que não voa,
    Detida a ver o teu vulto
    De cetro, manto e coroa
    (1925)

    Trechos de uma sequência enorme chamada "Morena, pena de Amor"(1939):

    Não perguntes nada
    Não perguntes não
    Tenho uma espada
    enferrujada
    atravessada
    no coração
    Como está quebrada
    não se põe a mão

    Finas pestanas
    teus olhos têm.
    Se tu me enganas
    dize-me com quem.

    Quem passou na minha vida?
    Foi o vento furacão.
    Era inteira, está partida,
    era sol - vejo-a no chão.

    Estou sonhando contigo,
    tu estás sonhando com ela,
    e ela com teu amigo,
    e ele comigo ou com ela...

    De dia andei te buscando
    De noite, a buscar-te andei.
    De tanto andar procurando,
    perdi-me e não te encontrei.

    Nessa vida é mesmo assim,
    e assim mesmo é que convém;
    ninguém acredita em mim
    nem eu tampouco em ninguém...


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    [Aeternus:4070] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-17)


    - RE:trovas de uma mestra/ e outras, amestradas...

    Passarinho no beiral
    Mira a água na tijela
    Encontra outro pardal
    Refletido da janela

    Bebe ligeiro e estremecido 
    Não teme algum veneno
    O prazo não está vencido
    É pureza do sereno.

    Quem dera poder, como a ave
    Degustar tudo em um gole 
    Que na imagem se oferece

    Minha sede é bem suave
    Meu miolo inda mais mole
    A crer no quadro que aparece...
      




    Matando todas as sedes
    P


     


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    [Aeternus:4072] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-18)


    - Trovas das Garças

    Quem não mora em Brasília e lê nossa lista talvez não tenha se importado com uma bronca que iniciei há umas semanas quando descobri uma placa sinalizando a ponte mais velha de Brasília, que uso todos os dias, com o nome " Ponte Presidente Médici".  Consegui ajuda de uma "leitora anonima" muito bem articulada e coerente, que escreveu sobre o assunto para o Correio Braziliense.

    Aí vai a notícia, com alguns excertos ( não pedi licença para reproduzi-la, só por isto )

    CORREIO BRAZILIENSE - 18/08/05
    O fantasma da ponte

    Conceição Freitas

    Leitora indignada manda texto e foto dos motivos de sua indignação. A Ponte das Garças recebeu nova placa à entrada de quem vem da L-2 Sul. Ponte Presidente Médici - está escrito em letras brancas sobre fundo azul. A leitora já mandou carta à administradora do Lago Sul, Natanry Osório, manifestando seu desagrado.

    "Muito me surpreendi ao ver a homenagem impertinente ao presidente Médici dando nome a uma das nossas pontes. Vivemos em uma democracia e não há nenhuma justificativa para que se homenageie o general que mais duramente governou este país", escreveu a leitora, a quem não tive oportunidade de pedir autorização para publicar o nome.

    Primeira a ser entregue aos moradores, é mais conhecida na cidade como Ponte das Garças, vamos e venhamos nome muito mais sonoro, poético e digno que o do mais sangrento presidente da ditadura militar.(...) Os moradores fizeram sua escolha e não há portaria, placa, lei, decreto, nada capaz de alterar esse batismo legítimo, como deveriam ser os batismos de tudo quanto há para ser nomeado nas cidades.

    A leitora lembra que, enquanto o Chile manda prender a mulher e a filha do general Augusto Pinochet, nós brasilienses reavivamos a homenagem dada ao presidente Médici na época da ditadura. Algum legalista haverá de argumentar que, se o nome da ponte está legalmente registrado como Médici, assim seja. Ninguém minimamente imbuído de princípios humanitários haveria de defender o nome de Hitler, Generalíssimo Franco, Mussolini ou de qualquer outro dessa turma a um logradouro de seus países. Exceto no tempo em que esses personagens estiveram no poder.

    O site oficial da Administração Regional do Lago Sul registra o nome do presidente-ditador, mas acrescenta entre parênteses (Das Garças). O site da Secretaria de Turismo faz vista grossa ao nome oficial. A ponte é Das Garças.

    Uma ponte com esse nome, Das Garças, é uma bem-aventurada inspiração na capital das letrinhas, das denominações enigmáticas, chatas, frias e confusas. Há quem a chame de Ponte do Gilberto, por desembocar no centro comercial mais antigo e mais conhecido do Lago Sul. Os mais antigos se referem a ela como Ponte Velha. Das Garças, do Gilberto, Ponte Velha, são todos nomes retirados do uso coloquial e, por isso mesmo, legitimados pela cidade.
    (...)
    A ponte que Niemeyer havia projetado, nos anos 60, estava com as obras paralisadas. Os dois pilares de concreto ficaram por muito tempo abandonados no lago. Somente em 1976 foi inaugurada. Tem o nome de Costa e Silva e nenhum outro. Bem poderia se chamar Ponte de Niemeyer ou Das Tilápias ou Da Prainha...

    Há um poema de um brasileiro que é falsamente distribuído como se fosse de Maiakovski no qual se desenvolve uma linha sobre " roubaram uma flor do nosso jardim e não dissemos nada; invadiram nosso jardim e não dissemos nada; entraram em nossa sala e nos calamos... cortaram nossa garganta e agora não podemos falar..." 

    Apesar  do protesto quanto à placa desta ponte ser uma partícula ínfima de tudo contra o que devemos reclamar, do silencio dos passantes perplexos ou não ( a maioria nem nota que surgiu o novo nome para a ponte, que era na verdade até o nome oficial...), fiquei muito contente de que uma amiga, esta "leitora anonima", tenha resolvido ir a luta para defender nossas rosas...

    Cada uma das minhas netas é "dona" de uma ponte porque são tres agora em Brasília. A das Garças é da Gabriela, a Costa e Silva é da Isadora e a ponte JK é da Juliana. Brincadeira de crianças... Quando o carro passa pelo meio de cada uma delas a "dona" da ponte reclama de estar sentindo cócegas no umbigo e todas riem. 

    Melanie Klein, psicanalista mais freudiana que Freud, entende que a geografia do mundo tem uma ligação estreita com o corpo da mãe. A idéia de "terra-mãe" e até os rituais da lavoura antigos sulcando o chão com arado para o plantio, testemunham esta ligação da terra, o feminino, Yin/Yang ou Demeter/Perséfone.  O acaso criou uma proximidade entre as pontes e o corpo das netas e, de algum modo, sinto que entre outras coisas estou defendendo uma representação primitiva que nem entendo bem e que ganhará, em sua evolução, novas expressões sociais de proteção e de luta.  O corpo, hoje em dia, volta a ser objeto ( seja o corpo masculino ou  da mulher) e perde sua vinculação originária com o mundo:  não é nem mais ma forma de moeda para garantir as trocas, como ocorria nos casamentos antigos que eram uma expressão material de algum tratado ou acordo entre famílias ou reinados.  Atravessado com piercings, mutilado ou coberto de tatuagens, anabolizado, sarado, exposto na mídia até virar logotipo de empresa, explodido nas guerras, fuzilado num trem do metrô por uma polícia inglesa tão terrorista quanto os terroristas que acredita combater...

    Estou defendendo nossa rosa, e discordando do mestre Shakespeare porque a rosa é uma rosa e tem aroma porque tem este nome ( Romeu argumenta que poderia ter qualquer outro nome e paga caro por isso no final!) 


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    [Aeternus:4073] Mensagem do Grupo24
    -Marcia Adorno(2005-08-18)


    - Ave Rara

    A propósito da indignação de Jansy diante de tamanha falta de sentido.

    Tênue é a lembrança

    enferrujadas as dores

    e descoloridas das manhãs.

    A esperança

    cançada de adiamentos

    equlibra-se em um pé só

    como garça solitária

    antítese do saci

    de alegria saltitante.

    O povo pensa mas não fala

    vê mas não age

    espera.

    Se uma voz atravessa o caos

    e delata a falta de sentido

    ouve-se o ruído

    de inúmeras  concordâncias

    até o próximo dia

    de esquecimento.

    Brasília

    Ave rara sem paraíso!

    Márcia Adorno


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    [Aeternus:4074] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-18)


    - RE:Trovas das Garças/Maiakovski

    O poema foi publicado no livro No caminho com Maiakóvski, Eduardo Alves da Costa, Editora Círculo do Livro, 1988,


    Na primeira noite eles se aproximam
    e roubam uma flor
    do nosso jardim.
    E não dizemos nada.
    Na segunda noite, já não se escondem;
    pisam as flores,
    matam nosso cão,
    e não dizemos nada.
    Até que um dia,
    o mais frágil deles
    entra sozinho em nossa
    casa,
    rouba-nos a luz, e,
    conhecendo nosso medo,
    arranca-nos a voz da
    garganta.
    E já não podemos dizer nada.

    (de Eduardo Alves da Costa)
    atribuído a Brecht e Maiakovski
    .............................................................................................................................................................................................................

    Muito engraçado isso, não gosto do poema e no entanto, dele não me esqueci. Lembrava até do título da obra onde o encontrei e pude localizá-lo na internet ( "No Caminho com Maiakóvski"). É que Maiakovski é um grande poeta e recomendo o original, nada sentimental como este acima, no pouco que conheci através da tradução de Haroldo de Campos e seu irmão  A edição que conheço tém como título A Poesia Moderna Russa, deve ser da Companhia das Letras e tem prefácio de Bóris Schneiderman .


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    [Aeternus:4075] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-08-18)


    - RE:Ave Rara

    Recolocando com menos espaço nos intervalos para dar uma visão mais ampla, reapresento o poema da Marcia Adorno.  Não consegui ver se era para organizar  três a três ou se devia agrupar todos. Escolhi esta última para que possamos acompanhar a passagem do desanimo da poeta diante dos adiamentos - que só a esperança tolera e da espera - disfarçada de esperança, para um tom ainda mais grave no qual ela fala sobre a transitoriedade da lembrança na memória maleável dos povos que oscilam daqui e dali. A garça da ponte, em um pé só solitário, tem que alçar vôo para recuperar o equilibrio... E, aqui, no cotidiano concreto da velha ponte, temos garças de verdade! 

    Tênue é a lembrança
    enferrujadas as dores
    e descoloridas das manhãs.
    A esperança
    cansada de adiamentos
    equilibra-se em um pé só
    como garça solitária
    antítese do saci
    de alegria saltitante.
    O povo pensa mas não fala
    vê mas não age
    espera.
    Se uma voz atravessa o caos
    e delata a falta de sentido
    ouve-se o ruído
    de inúmeras  concordâncias
    até o próximo dia
    de esquecimento.
    Brasília
    Ave rara sem paraíso!

                        Marcia Adorno

    Quanto ao poema do Eduardo A. da Costa, tão expressivo que permaneceu na lembrança apesar de insistentemente citado no passado até o cansaço que apaga o espírito, a referência não se faz à "rosa", mas a uma flor. Seja flor sem ser rosa. É flor e a generalidade do seu nome, apenas aparentemente vago, permite que ela se abra em qualquer estação...O nome importa, Seu Romeu.


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    [Aeternus:4076] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-08-18)


    - As rosas da Julieta...

    "What's in a name? That which we call a rose
    By any other word would smell as sweet."

    "O que há em um nome? Aquilo que chamamos de rosa
    Teria a mesma doce fragrancia com qualquer outro nome"

    --From Romeo and Juliet (II, ii, 1-2)

    No contexto da peça, é da Julieta a fala sobre o nome da rosa ( nenhuma relação com a imagem do Umberto Eco pois o título do seu romance, se me recordo, tem ligação com a expressão latina sub rosam. Ou errei de novo?). Culpei por ela o Romeu, que foi apenas cúmplice nesta estranha operação do amor.

    Juliet.
    O Romeo, Romeo! wherefore art thou Romeo
    Deny thy father and refuse thy name;
    Or, if thou wilt not, be but sworn my love,
    And I'll no longer be a Capulet.

    Romeo.
    [Aside.] Shall I hear more, or shall I speak at this?

    Juliet.
    'Tis but thy name that is my enemy;--
    Thou art thyself, though not a Montague.
    What's Montague? It is nor hand, nor foot,
    Nor arm, nor face, nor any other part
    Belonging to a man. O, be some other name!
    What's in a name? that which we call a rose
    By any other name would smell as sweet;

    So Romeo would, were he not Romeo call'd,
    Retain that dear perfection which he owes
    Without that title:--Romeo, doff thy name;
    And for that name, which is no part of thee,
    Take all myself.

    Romeo.
    I take thee at thy word:
    Call me but love, and I'll be new baptiz'd;
    Henceforth I never will be Romeo.

    Juliet.
    What man art thou that, thus bescreen'd in night,
    So stumblest on my counsel?

    Romeo.
    By a name
    I know not how to tell thee who I am:
    My name, dear saint, is hateful to myself,
    Because it is an enemy to thee.
    Had I it written, I would tear the word.

    Juliet.
    My ears have yet not drunk a hundred words
    Of that tongue's utterance, yet I know the sound;
    Art thou not Romeo, and a Montague?

    Romeo.
    Neither, fair saint, if either thee dislike.

    É pois a figura feminina, em Shakespeare, que convida ao despojamento do nome de família, que busca uma essência independente do tempo na história, apenas encoberta pela palavra...


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    [Aeternus:4077] Mensagem do Grupo24
    -Jansy Mello(2005-08-18)


    - Sub Rosa

    Sub rosa deriva-se do latim e, no sentido literal, significa "sob a rosa".
    É uma expressão criada pela antiga associação existente entre a rosa e o segredo. Alguns estudiosos atribuem sua origem aos traços de uma história segundo a qual Cupido a presenteara a Harpocrates,  Deus do Silêncio, para convidá-lo a não trair a confiança da deusa Venus. 
    No teto dos salões de banquetes romanos predominava uma decoração com rosas, que ali serviriam como lembrete para os convivas de que o que ali dissessem  sub vino ( sob o efeito do vinho) permaneceria, também,  sub rosa.  Em Off...


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    [Aeternus:4078] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-19)


    - O Nome da Rosa

    Eu achava que a expressão "O Nome da Rosa" se referia ao fato de que a existência da flor é fugaz mas ela "sobrevive"  na linguagem, no que se fala dela mesmo depois de ter fenecido (expressão vetusta essa!).
    Achava que isto ficava explicitado no finalzinho do livro do Eco e nos cinco "Motivos da Rosa", poemas da Cecilia Meireles dos quais sei de cor o "quarto" ("Não te aflijas com a pétala que voa...") mas um outro é que alude a essa permanência na palavra, na memória, na representação de coisa (ou de palavra), no verso, no poema0. Mas posso estar enganado. Amanhã tento enviar o "motivo" da Ccilia que sugere esta minha (in?)compreensão. É que agora está muuuuuuito tarde.

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    [Aeternus:4079] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-08-19)


    - O Nome da Rosa - 2

    Conforme prometido, transcrevo aqui o "Primeiro Motivo da Rosa" de Cecilia Meirelles que - ao meu ver - ecoa a idéia que ficou em mim sobre a expressão "Nome da Rosa" se entendida como a permanência do fugaz ao ser inscrito na linguagem, na memória, na representação de palavra que ameniza a falta do objeto real e concreto não mais pasível de ser percebido sensorialmente mas "eternizado" pelos processos de introjeção, incorporação, internalização e transformação na letra. Mas volto a dizer que não sei se assim é. Si non é vero - pelo menos - é benne trovatto?

    Vejo-te em seda e nácar
    e tão de orvalho trêmula,
    que penso ver, efêmera,
    toda a Beleza em lágrimas
    por ser bela e frágil.

    Meus olhos te ofereço:
    espelho para a face
    que terás, no meu verso,
    quando, depois que passes,
    jamais ninguém te esqueça.

    Então, de seda e nácar,
    toda de orvalho têmula,
    serás eterna. E efêmero
    o rosto meu, nas lágrimas
    do teu orvalho... E frágil,


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    [Aeternus:4080] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - RE:O Nome da Rosa - 2

    Acho que o Luiz Fernando está implicando comigo ao introduzir a Rosa e a Cecília para falar do poder da palavra sobre a transitoriedade das coisas. A visão dos poetas, eternizando a amada pela escrita...
    Digo isto porque minha última apresentação num congresso de psicanálise teve como tema "A Rosa" e ele, Gallego, colaborou intensamente ao fornecer-me a dica dos poemas da Cecília.  Vou ver se ressucito aqui o que escrevi para aquele congresso...
    Não sei de onde suspeitei que O Nome da Rosa em Umberto Eco ( ele não é nominalista, não é mesmo?)  não se referisse a esta dimensão eternizante da palavra, fosse mais algo ligado ao sub rosa dos segredos. Peguei meu exemplar do romance e vou ver se encontro nas orelhas e no prefácio alguma dica sobre a intenção de Eco. Acho que ele depois escreveu um outro livro teórico explicando as idéias transpostas para o romance. Talvez eu tenha este livro também.  Tentarei encontrar.
    Acho que podemos acolher as duas linhas, não? A da Cecília Meireles e esta outra, sobre a importancia de poder expressar coisas em OFF.

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    [Aeternus:4081] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-19)


    - Quem não tem cegonha, caça com garça

    Uma amiga escreveu-ma a partir das trovas de Cecilia Meireles, especialmente a das cegonhas nos telhados:

    Pelo visto quem é poeta já nasce assim, desde o início.
    E a gente fica que nem cegonha em beira de telhado, assistindo-a passar, majestade de poetas.

    E eu respondi:
                                Também achei fantástica a imagem do "pensamento parado" comparado à cegonhas paradinhas, quietinhas, sobre telhados - ainda que europeus.
    Aqui por perto de casa (para os leitores do Aeternus menos familiarizados com o Rio: Rio de Janeiro, Tijuca, início da Zona Norte) há um casal de garças que - acho eu - vêm do Jardim Zoológico da Quinta da Boa Vista (a rigor fica perto em quilometragem numa linha reta impossível para quem não voa devido às ruas tortuosas, ao trânsito e à linha do trem separando o lado de cá do Maracanã do lado de la´, já chamado de bairro de São Cristóvão).
    As garças voam até aqui em frente do prédio onde moro, onde passa um - digamos, rio (embora seja de fato um canal).
    Às vezes eu também vejo, quando passo de carro em frente ao Estádio do Maracanã, pousadas dentro do - diagmos, rio que fica mais poético do que "canal" - equilibradas numa perninha só bem vertical, paradas como se fossem estátuas. Esperando peixes? Não creio que haja peixes, mas elas ficam lá.
    Aqui em frente de casa, mais do que ficarem no rio, pousam em galhos de árvores mais altas da Avenida Maracanã ou de uma pracinha em frente (bem maltratada e feiosa, cercada de trânsito por todos os lados, uma pena, chamada de Praça Lamartine Babo: pobre compositor, merecia homenagem melhor).
    No final da tarde elas voam juntas numa direção - que  me faz supor que seja - de volta ao Jardim Zoológico.
    Venham de onde venham, fazem um belo efeito de uma manchinha branca de encontro ao verde-escuro da folhagem das árvores - e mais ainda quando eventualmente algumas dessas árvores estejam floridas (há um flamboyant que quando está atacado é vermelho-vivo do tipo "cheguei!" e fica bem legal como pano de fundo para as garças brancas de neve.
    E ao fundo, as montanhinhas do Alto da Boa Vista, Floresta da Tijuca.
    Enfeiando (não é enfeiTando, é enfeiando mesmo) o que poderia ser uma vista privilegiada, vejo os fundos do quartel da PM da Barão de Mesquita onde muita gente foi torturada e morta nos anos de chumbo, mas em cujo terreno se encontra o tal flamboyan. Pior: carros sem parar all day long com barulho, buzinas e poluição, passando dos dois lados do rio (canal) que há uns 20 anos atrás ainda recebia menor fluxo de automóveis e pareceria até algo equivalente à nobre Av. Visconde de Albuquerque da Zona Sul na Zona Norte (embora o canal de aqui seja bem menos sujo, pantanoso e quase nunca fedorento como com frequência observo no Leblon: há rigor, aqui não há descarga de esgoto, embora receba água dos bueiros; já no Leblon... não sei não; às vezes esse rio enche quando chove forte nas cabeceiras do Alto da Boa Vista, mas aqui em frente de casa nunca transbordou, embora as ruas próximas já tenham virado rios algumas vezes pelos bueiros entupidos ou quando o nível do rio chega à altura do desaguadoro dos bueiros). Não se pode ter tudo...


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    [Aeternus:4082] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - De Rosa, Graça, Garça e Cisnes...

    O livro " O Nome da Rosa" encerra-se com: " Deixo este manuscrito, não sei para quem; não sei mais do que ele trata: stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemos".

    E Maiakovski: De Rua em Rua

    ru-
    as.
    As
    Ru-
    gas dos
    dogues
    dos
    anos
    sona-
    dos.
    Nos cavalos de ferro
    das janelas das casas que correm
    saltaram os primeiros cubos.
    Cisnes de pescoços-campanários,
    torcei-vos nos fios do telégrafo!

    No céu se grava o guache das dirafas,
    desaviva a ferrugem dos penachos.

    ...............( estou trocando as flores e os bichos. Quando retive na memória o início do poema do Maiakovski era capaz de jutar que o animal de pescoço campanário eram cegonhas, isto porque me encantei na Europa vendo como faziam seus ninhos nos campanários das igrejas e me assustei com a informação de que estavam morrendo porque se emaranavam nos fios do telégrafo... E, copiando aqui, vi que o animal não era nem garça nem cegonha, mas cisne... que nunca vi ficar num pé só...)

    Desculpem pelo descozido dos temas, mas não tenho tempo para comentar agora e queria copiar o material dos livros para não ter que carregar tudo na bolsa. Depois retomo.

     

     

     


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    [Aeternus:4083] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-19)


    - quem sabe latim?

    E quem é que vai explicar o que quer dizer "stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemos"?
    Ainda caho que soube um dia que seria algo como a idéia de que a rosa permanece em seu nome primeiro, mantida (abrigada, encantada) nua (?) no que a designa: a palavra, o nome. Mas pode ser que eu tire maiz um zero em latim.

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    [Aeternus:4084] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - RE:quem sabe latim? Umberto Eco sabe e explica

    Mesmo sem saber latim, você acertou com a idéia da transitoriedade.  E o nominalismo, entra sim, em questão.

    Eis o que escreveu Eco  em seu " Pós-escrito a O Nome da Rosa" (1984,Nova Fronteira):

    epígrafe: 

    Rosa que al prado, encarnada,
    te


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    [Aeternus:4085] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - RE:RE:quem sabe latim? Umberto Eco sabe e explica

    Se a pressa é inimiga da perfeição, a gente supõe que, sem pressa eu conseguiria ser perfeita? 

    Desculpem-me a remessa incompleta.  Lá vai a epígrafe do livro pós do Eco, nas palavras de Juana Inés de La Cruz.

    Rosa que al prado, encarnada,
    te ostentas presuntuosa
    de grana y carmín bañada:
    campa lozana y gustosa;
    pero no, que siendo hermosa
    también serás desdichada.

    "O título e o sentido: Desde que escrevi O nome da rosa, chegam-me muitas cartas de leitoras perguntando o que significa o hexâmetro latino final, e porque este hexâmetro deu origem ao título.  Respondo que se trata de um verso de De contemptu mundi de Barnardo Morliacense, um beneditino do século XII, que constitui uma variação sobre o tema do ubi sunt ( como, posteriormente, o verso de Villon: mais où sont les neiges d´antan ) com a diferença que, ao tópos corrente ( os grandes de outrora, as cidades famosas, as belas princesas, tudo se esvai no nada), Bernardo acrescenta a idéia de que de todas essas coisas desaparecidas só nos restam puros nomes.  Recordo que Abelardo usava o exemplo do enunciado nulla rosa est para mostrar como a linguagem pode falar tanto das coisas desaparecidas quanto das inexistentes. Dito isso, deixo que o leitor tire suas próprias conclusões." 


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    [Aeternus:4086] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - psicanalista já cantou essa pedra pro LFGallego...

    O juiz Alexandre Morais da Rosa, da Vara da Infância e da Juventude de Joinville, Santa Catarina, proibiu a entrada de menores de 18 anos nas salas de cinema da cidade que exibem o desenho Madagascar, segundo o site jurídico Espaço Vital. O filme conta a história de animais do zoológico do Central Park, em Nova York, que acabam indo parar na ilha africana de Madagascar por engano. Segundo a petição do advogado George Alexandre Rohrbacher, que entrou com ação contra a distribuidora do filme, United Internacional Pictures, o desenho mostra, em diversos momentos e de maneira subliminar, mensagens de estímulo ao consumo de drogas, especificamente o ecstasy.

    O juiz reconheceu, após assistir ao filme, que "há trechos que apresentam mensagens subliminares e o conteúdo manifesto esconde no latente algo que não aparece, mas influencia e condiciona".  Na liminar consta que "a protagonista, ao chegar a uma festa, lamenta a ausência da 'balinha' (...) Relembre-se aos mais incautos que 'balinha' é sinônimo de ecstasy." 
      Redação Terra 


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    [Aeternus:4087] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - RE: Madagascar

    Andei  acompanhando os rumores criticando a referência ao "ectasy" na festa "rave" dos lemures em Madagascar quando a Zebra se anima toda, mas lamenta ter deixado para trás a "balinha". Criança não entende este tipo de referência, pensou eu. Na verdade, eu também como adulta não tinha sacado essa específica da "balinha" quando levei os netinhos ao filme ( que eles tinham visto antes). As coisas que fazem mal são às vezes muito mais sutís.  Hoje cedinho encontrei um exemplo de algo que, a meu ver, é pior do que falar de "balinha".

    Estava vendo o livro para crianças editado pelo The Metropolitan Museum of Art e apresentado no Brasil pela Cosac&Naify intitulado " O que faz de um Bruegel um Bruegel".  A palavra problemática, aos meus olhos, é "Contudo" ( e, nem, mais, porém, todavia, contudo, no entanto... xi... são advérbios?)   
    Leiam: O artista tinha uma simpatia particular por camponeses, os infatigáveis trabalhadores do campo que aravam a terra. Dizem que ele se vestia como um deles para poder freqüentar suas feiras e casamentos sem ser notado. Bruegel mostrou essas alegres festividades em algumas de suas pinturas mais famosas, porém outras imagens feitas por ele indicam que fome, doenças incuráveis e probreza constantemente afetavam a populaçãoContudo, os camponeses permaneceram seu tema preferido, e ele os pintava com honestidade e compaixão".

    Dá pra conviver com o tom superior e complacente do artista que "se fantasia de camponês" para encontrar temas para suas telas. Dá pra suportar a idéia de que ele gostava das festas do povo e que também acompanhava as doenças e a miséria.  O que não dá para entender é o tal "contudo" que faz com que, apesar das coisas ruins, Brughel continuasse preferindo o tema dos camponeses. 

    C´est le ton qui fait la musique, como não disse Borges.

    Hoje estou que nem sei pra que lado corro. Coisas demais acontecendo.  Um conhecido meu,comedido e de voz branda, defendia a idéia de que o ser humano está em evolução permanente e, como exemplo, acrescentou:
    - Hoje as entidades internacionais não permitem o genocídio...( não,não,não ele faz com o dedo ). Vão lá e... ( gesto de jogar lenço de cambraia no chão ) jogam uma bomba nos criminosos.

    Meninos, eu vi. Vi Deus mandando o dilúvio. Vi Jeovah destruindo Babel, como não cantou o Raul.
    Enquanto eu... virei uma estátua de sal que Lot, correndo, deixou pra trás. Sem memória e sem desejo.


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    [Aeternus:4088] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-19)


    - RE:RE:RE:latindo no latim

    Ah! Então é isso! Memórias mal guardadas: eu li, um dia, esse livro "Pòs-escrito ao Nome da Rosa" onde ele conta o "segredo" do título. Esqueci. O livro sumiu (eles se escondem, I'm sure!)
    Um dia, relendo o Primeiro Motivo da Rosa da C.Meireles, associei com a explicação do Eco sobre a permanência das coisas findas nas palavaras que as designam e que deve ser conhecida entre eruditos como a Cecilia era (ela escreveu esse poema entre 1942 e 1945, já que foi publicado no livro "Mar Absoluto" em 1945 e o anterior dela ,"Vaga Música", é de 1942). Guardei essa idéia meio vaga, sem saber qual seria a tradução exata da frase latina (que o Eco também não nos oferece). Se não tirei mais um zero em latim, tieri maiZ um Zero em portugueZ. (Foi minha dismetria frequente no teclado).
    E como também disse o Drummond: "...mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão"

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    [Aeternus:4089] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-19)


    - RE:e mais alguém além da psicanalista J. já cantou essa pedra pro LFGallego...

    Não lembro quem foi, mas teve a Jansy e -lembrei! - a Simone Wenkert, jovem analista de minha sociedade e mãe de filhote com quem ela empatiza, vendo os filmes com os olhos da criança. Eu, vi com olhos descompromissados e ri bastante (no início... depois de algum tempo os desenhos animados passaram a me cansar - embora continue vidrado nos de minha infância como o primeiro Peter Pan, Cinderella, Pinóquio, etc etc)

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    [Aeternus:4090] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - Rosa rosae

    I wonder shall a birthday rose
    Be better brought in verse  or prose
    Or better still, in living flower
    Full honored by her perfumed power.
    How real is real when real dies
    And benedictions glittering
    In the flowers heart become as wan
    With the theft of passing hours 
    As does the rose herself?
     
    See then, I bring you both
    The rose´s box of beauty soon to close
    And by her side some lines of verse
    To carry her and be her hearse,
    To be her crystal coffine where
    The crowd may stare and see how fair
    She was some little time ago.
    I caught your birthday but I know
    Unless I use the living juice of rhyme
    I can´t preserve your memory´s
    Petals shaking loose
     
    Gerard Galloway, poema entregue no dia do aniversário, acompanhado de uma dúzia de rosas.
     
    Pergunto se, de aniversário, a rosa
    Deve ser levada em verso ou prosa
    Talvez melhor à flor trazer apenas
    Honrada na pele da cor e de fragrância amena.
    Quão real é o real depois que o real dissolve
    E nossa benção cintilando na rosa não resolve 
    Desbotada e pálida, o passar das horas
    Que afasta o afeto e derrota as rosas?
     
    Trago-lhe as duas então
    Prestes a se fechar cada botão
    Mais os versos do poema
    Que às rosas envolverão 
    Como transparente caixão
    Permitindo à turba testemunhar
    a beleza que passou.
    Cheguei à tempo da festa,mas reconheço
    Que sem a seiva poética, não há preço
    Que proteja as pétalas da memória
    De se desfazerem na história.
     
    Este poema foi um dos meus vislumbres do sic transit gloria mundi, do ubi sunt e da crença na força do nome da rosa.
    Não tenho chance de citar corretamente as trocas entre Freud e o poeta Rilke, que lamentava o desaparecimento da beleza mortal das campinas que juntos visitavam.
    Freud o descreveu nos artigos de 1914 sobre A guerra e a morte e o título deste ensaio é "On Transience" ( Acerca da Transitoriedade), no qual ele recrimina o poeta porque entende que este sucumbiu a um luto patológico, sem aceitar as perdas e a renovação da vida. 

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    [Aeternus:4091] Mensagem do Grupo24
    -Marcia Adorno(2005-08-19)


    - Correção de vôo

    Agradeço à Jansy a apresentação do meu poema, tanto no que se refere ao tema quanto à sua estética. Peço desculpas pela forma mal acabada com que o enviei, inclusive com erros, eliminados pelo olhar atento de Jansy. Nesse sentido, feitas as devidas correções, acrescento mais uma: quando me refiro a "descoloridas das manhãs", leia-se "descoloridas as manhãs".

    Roses are roses. A esse propósito, a rosa é também um elemento simbólico da genitália feminina. Uma metáfora que tem gerado uma metonímia no inconsciente masculino de que "todas as mulheres são iguais." Temos também a rosa de Hiroshima, tão devastadora e indicativa da perversidade humana.

    Há, ainda a referência ao sagrado simbolizado pela rosa que, entre outros autores, foi mencionada no Código DaVinci.

    Como se vê e já foi dito, é preciso indicar "o nome da rosa". Tu és divina e graciosa...a Rosa ...o meu projeto de vida, bandida...

    Até amanhã.

    Márcia Adorno


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    [Aeternus:4092] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-08-19)


    - Pequena homenagem à Cecília

    Amanheci com suave dor no peito

    E uma brisa leve, avarandada

    Ressequindo a réstia de ardor que enjeito

    Quando relembro tua quadra

     

    Que reviver não é o que magoa

    Porém saber-se brisa

    Como um teu verso apregoa

    Qual fosse telegrama que avisa

     

    E o punho forte da juventude o amassa

    Sobranceiro e falaz

    Não crendo que deveras o tempo passa

    E torna a breve jornada campanário onde tudo jaz

     

    Os homens, o papel, os meninos

    Até mesmo a tinta amarfanhada

    Os sonho, imensos ou pequeninos

    Só restando a brisa. “Mais nada”.


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    [Aeternus:4095] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-19)


    - RE:Pequena homenagem à Cecília

    Lindo o lamento escrito pelo Guto.

    E uma brisa leve, avarandada ...
    reviver não é o que magoa, porém saber-se brisa ...
    Os sonhos, imensos ou pequeninos só restando a brisa. “Mais nada”.

    Quando eu era pequena meu pai costumava dizer, diante de um sonho absurdo: " brisas..."  Talvez fosse uma expressão comum naquela época.
    O poema do Guto quase recriou o grito do "mais nada" do pó voltando ao pó  se não tivesse a brisa no avarandado ( fiz a cama na varanda e esqueci do cobertor, deu o vento na roseira, me cobriu todo de flor? ) que demonstra que não precisamos viver no frio. Escrevemos, sentimos, vivemos e algo fora de nós pode ser generoso como o vento na roseira.

    Quando eu era pequena meu pai costumava dizer, diante de um sonho absurdo: " brisas..."  Talvez fosse uma expressão comum naquela época.
    O poema do Guto quase recriou o grito do "mais nada" do pó voltando ao pó  se não tivesse a brisa no avarandado ( fiz a cama na varanda e esqueci do cobertor, deu o vento na roseira, me cobriu todo de flor? ) que demonstra que não precisamos viver no frio. Escrevemos, sentimos, vivemos e algo fora de nós pode ser generoso como o vento na roseira.


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    [Aeternus:4097] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-08-19)


    - RE:RE: de Cecilia a Brecht

    Os amigos gostaram, pelo visto, das colagens que fiz de versos da C. Meireles e estão homenageando-a como epígonos exemplares que são.
    Como quem não tem colírio usa óculos escuros, quem não sabe versejar, copia como eu faço.
    Sobre o amplo tema das rosas, lembro um patético-mórbido da MPB (muito antes dos Secos e Molhados musicarem um poema do Vinicius sobre Hiroshima): é uma canção do Luiz Carlos Sá que ficou conhecido mesmo depois do trio Sá, Rodrix e Guarabira (ou na dupla Sá & Guarabira).
    Quando ainda compunha sòzinho fez uma "Menina de Hiroshima" gravada pela Nara Leão com arranjo sugestivo de instrumentos de percussão (delicada) orientais:
    "Quem que ouvir a história da menina de Hiroshima? (bis)
    A menina que ficou
    com os olhos cor sem cor
    com o olhar sem olhar
    com o falar sem falar
    com o amor sem amor...
    A menina de Hiroshima
    na paz de um lugar qualquer
    está bela e está viva
    (não pode é mais ser mulher)
    A menina de Hiroshima
    está bela, está viva:
    como rosa radiante
    como rosa radioativa"
    (acho que não lembrei direito, mas é mais ou menos assim)

    Mais bem-sucedida foi a versão de Augusto Boal para o "Poema da Rosa" de Bertold Brecht, musicado belamente pelo Macalé como uma modinha e gravado também pela Nara, pena que eu não possa acrescentar a melodia:

    "Há uma rosa linda
    no meio do meu jardim...
    Dessa rosa cuido eu!
    - quem cuidará de mim?

    De manhã desabrochou,
    à tarde foi escolhida
    prá de noite ser levada
    de presente à minha amiga.

    Feliz de quem possui uma rosa em seu jardim:
    a minha amiga, com certeza, pensa agora só em mim.
    Quando sopra o vento frio
    e o inverno gela o jardim
    eu ternho calor em casa
    e fico quietinho assim.

    Feliz de quem tem o seu teto
    prá ajudar a sua amiga
    a fugir do vento ruim
    que deixa gelado o jardim."


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    [Aeternus:4099] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-08-20)


    - RE:RE:Trovas das Garças- Day After

    De Ditadores e Corruptos
    Conceição Freitas, Correio Braziliense,19/8/2005.
    (excertos)

    Lucio Costa entendia das vaidades humanas e das politicagens dos governantes. Por isso, inventou uma cidade onde ruas, pontes, praças, viadutos, estádios, colégios e congêneres não seriam batizados com nome de gente. Não seria fácil, como de fato não foi. Logo depois da inauguração de Brasília, apareceu quem quisesse trocar o nome do Eixo Monumental para Eixo Juscelino Kubitschek. A idéia ganhou força até que Lucio Costa se manifestou, com a firmeza dos grandes homens: os topônimos brasilienses não ficariam sujeitos à maré dos governos. Abrir uma primeira exceção significaria ceder aos desejos incontidos que os políticos têm de virar nome de rua (se pudessem, nome de cidade, de país, de planeta, de galáxia). 

    (...) O economista e funcionário público Flávio Cruvinel Brandão lembra que houve um concurso público para a escolha do nome da terceira ponte. Ganhou quem sugeriu Ponte do Mosteiro. Flávio Brandão e outros quatro que sugeriram o mesmo nome foram premiados com R$ 2 mil, dinheiro dividido em cinco partes iguais. O concurso foi feito ainda no governo Cristovam. Mas o governo Roriz desprezou a escolha do concurso e preferiu dar à ponte o nome de Juscelino. Tanto Cristovam quanto Roriz desprezaram a vontade de Lucio Costa.

    O nome oficial da Ponte das Garças, motivo de crônica publicada ontem, moveu uma enxurrada de e-mails de leitores indignados com a homenagem ao mais algoz dos presidentes militares. Apenas um protestou contra o que ele considerou uma injustiça para com Emílio Garrastazu, o presidente do período mais cruel da ditadura militar, das torturas nos Doi-Codi e do desaparecimento de presos políticos.

    (...)

    ...........................................

    Em Brasília sempre sabemos se estamos indo pro norte, sul, leste ou oeste. No Plano Piloto, não há quase como errar o endereço, mas é muito sem graça esse negócio de SHIS QI 2, SIA trecho 5, 507 (W3) ou  SQS 210 bloco A. 
    Lembrei agora da Laurie Anderson dando instruções para um passante:
    Siga reto até onde construirão um shopping, depois dobre a direita onde será um posto de gasolina e continue até a futura escola da quadra. Dali, circunde a praça que será implantada daqui a um ano e pare na esquina de onde será montada uma lanchonete...


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    [Aeternus:4137] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-08-22)


    - Nossa Cecília

    Voltando da chácara (sem telefone ou internet)...

    Que bom que a nossa querida Cecília Meireles rendeu bom assunto. Tentei mandar um msg mais cedo e não consegui, acho que por algum problema técnico. Tentarei reescrevê-la mais tarde (perder msg é dureza!). Grande abraço


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    [Aeternus:4145] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-08-22)


    - RE:Nossa Cecília

    Mais cedo eu dizia, em relação às transcrições feitas pela Jansy sobre a homenagem à nossa poetinha (ou poetona), que a expressão entre aspas "mais nada", referia-se a um verso dela, num poema musicado pelo Fagner (nos bons tempos, que, aliás, gosta tanto dela que já teve processo por plágio na música "Canteiros", movido pela sobrinha da Cecília, a atriz Maria Fernanda). Ele dizia mais ou menos:

    Eu canto/ porque o instante existe/ e a minha está completa/ não sou alegre nem sou triste/ sou poeta/ irmão das coisas fugidias/ não sinto gozo nem tormento/ atravesso noites e dias/ no vento/ se desmorono ou se edifico/ se permaneço ou me desfaço/ não sei se fico, ou passo/ eu sei que canto e a canção é tudo/ tem sangue eterno e a asa ritmada/ e um dia eu sei que estarei mudo/ mais nada.

    Gallego, traga-nos mais!


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    [Aeternus:4845] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-10)


    -

    no

    fundo da taça

    dela

    fica o resto de vinho tinto

    no

    fundo

    no

    fundo

    eu


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    [Aeternus:4846] Mensagem do Grupo24
    -Elsie Lance(2005-10-10)


    - RE: estrovinha

    Reflete-se tinto
    além da transparencia
    In vino veritas
    Habitas
    Rosto ou voz?







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    [Aeternus:4869] Mensagem do Grupo24
    -Lewis Carroll(2005-10-12)


    - RE: estrovinha

    JABBERWOCKY

    Lewis Carroll

    (from Through the Looking-Glass and What Alice Found There, 1872)

    `Twas brillig, and the slithy toves
      Did gyre and gimble in the wabe:
    All mimsy were the borogoves,
      And the mome raths outgrabe.


    "Beware the Jabberwock, my son!
      The jaws that bite, the claws that catch!
    Beware the Jubjub bird, and shun
      The frumious Bandersnatch!"

    He took his vorpal sword in hand:
      Long time the manxome foe he sought --
    So rested he by the Tumtum tree,
      And stood awhile in thought.

    And, as in uffish thought he stood,
      The Jabberwock, with eyes of flame,
    Came whiffling through the tulgey wood,
      And burbled as it came!

    One, two! One, two! And through and through
      The vorpal blade went snicker-snack!
    He left it dead, and with its head
      He went galumphing back.

    "And, has thou slain the Jabberwock?
      Come to my arms, my beamish boy!
    O frabjous day! Callooh! Callay!'
      He chortled in his joy.


    `Twas brillig, and the slithy toves
      Did gyre and gimble in the wabe;
    All mimsy were the borogoves,
      And the mome raths outgrabe.



    "Beware the Jabberwock, my son!
      The jaws that bite, the claws that catch!
    Beware the Jubjub bird, and shun
      The frumious Bandersnatch!"

    He took his vorpal sword in hand:
      Long time the manxome foe he sought --
    So rested he by the Tumtum tree,
      And stood awhile in thought.

    And, as in uffish thought he stood,
      The Jabberwock, with eyes of flame,
    Came whiffling through the tulgey wood,
      And burbled as it came!

    One, two! One, two! And through and through
      The vorpal blade went snicker-snack!
    He left it dead, and with its head
      He went galumphing back.

    "And, has thou slain the Jabberwock?
      Come to my arms, my beamish boy!
    O frabjous day! Callooh! Callay!'
      He chortled in his joy.


    `Twas brillig, and the slithy toves
      Did gyre and gimble in the wabe;
    All mimsy were the borogoves,
      And the mome raths outgrabe.



    dshaw@jabberwocky.com

    dshaw@jabberwocky.com

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    [Aeternus:4870] Mensagem do Grupo24
    -Mamãe Ganso (2005-10-12)


    - RE: estrovinha

    Achei a coleção de rimas da "Mother Goose" e algumas são encantadoras ( tem até uns versinhos extraídos do Noite de Reis de Shakespeare). Outras nem tanto... 
    Diddle, diddle, dumpling,
    my son, John,
    Went to bed
    with his trousers on,
    One shoe off
    and one shoe on!
    Diddle, diddle, dumpling,
    my son, John!

    Hush-a-bye, baby,
    in the tree top.
    When the wind blows,
    the cradle will rock.
    When the bough breaks,
    the cradle will fall,
    And down will come baby,
    cradle and all.

    Sippity sup, sippity sup,
    Bread and milk from a china cup.
    Bread and milk from a bright silver spoon
    Made of a piece of the bright silver moon.
    Sippity sup, sippity sup,
    Sippity, sippity sup.
    Winken, Blinken, and Nod one night
    Sailed off in a wooden shoe --
    Sailed off on a river of crystal light,
    Into a sea of dew.
    "Where are you going, and what do you wish?"
    The old moon asked the three.
    "We have come to fish for the herring fish
    That live in the beautiful sea;
    Nets of silver and gold have we!"
    Said Winken,Blinken,And Nod.

    Georgie Porgie, puddin' and pie,
    Kissed the girls and made them cry.
    When the boys came out to play,
    Georgie Porgie ran away.

    Ice cream, a penney a lump!
    The more you eat, the more you jump.

    Eeper, Weeper, Chimney sweeper,
    Married a wife and could not keep her.
    Married another,Did not love her,
    Up the chimney he did shove her!

    Simple Simon met a pieman,

    Going to the fair.
    Said Simple Simon to the pieman,
    "Let me taste your ware."
    Said the pieman unto Simon,
    "Show me first your penny."
    Said Simple Simon to the pieman,
    "Indeed I have not any."
    This old man, he played one,
    He played knick knack with his thumb,
    With a knick, knack, paddy whack,
    Give the dog a bone;
    This old man came rolling home.

    London Bridge is falling down,

    Falling down,
    Falling down.
    London Bridge is falling down,
    My fair lady.
    Take a key and lock her up,
    Lock her up,
    Lock her up.
    Take a key and lock her up,
    My fair lady.

    Mary, Mary, quite contrary,
    How does your garden grow?
    With silver bells and cockleshells,
    And pretty maids all in a row.

    One little, two little, three little Indians
    Four little, five little, six little Indians
    Seven little, eight little, nine little Indians
    Ten little Indian boys.
    Ten little, nine little, eight little Indians
    Seven little, six little, five little Indians
    Four little, three little, two little Indians
    One little Indian boy.

    Three blind mice,
    See how they run!
    They all ran after a farmer's wife,
    Who cut off their tails with a carving knife.
    Did you ever see such a sight in your life,
    As three blind mice?

    What are little boys made of?
    Snips and snails,
    And puppy dog tails,
    That's what little boys are made of.

    There was a crooked man
    Who walked a crooked mile.
    He found a crooked sixpence
    Against a crooked stile.
    He bought a crooked cat
    Which caught a crooked mouse,
    And they all lived together
    In a crooked little house.

    Esta abaixo é delicada, entre várias do genero: 
    I see the moon,
    And the moon sees me;
    God bless the moon,
    And God bless me!


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    [Aeternus:4873] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-10-12)


    - promessa

    Ótima idéia de divulgar Mamãe Ganso e Carrol por aqui, dona Jansy! Vale as comparações - se é que dá para referenciar um em relação a outro.
    Consegui ler uns 5 ou 6 hai-kais lendo um ensaio sobre Ozu que prometo colocar aqui em breve. É que o livro ficou no consultório.
    Assisti "Flor do Equinócio" desse cineasta (vejam mais sobre ele na lista do festival de filmes 2005) que Jansy adoraria (I presume) nem pelo enredo, estranho ao ocidental de 2005 (ou mesmo de 1958 quando o filme foi feito e era novidade no Japão casamentos não-arranjados pelos pais!!!) mas pela fotografia do filme, projetado em película com cópia em excelente estado.
    O filme utilizado é Agfacolor  -sensível ás cores como naqueles hollywoodianos de tecnicolor vibrante dos anos 1950 que sobrevivem sem desbotar - melhor do Eastmancolor e outros (os filmes da Fox tendem a ficar todos cor-de-rosa com o tempo, o que é nauseante).
    Mas as cores são usadas sem o exagero brutal de caderno de criança usando toda a caixa de lápis de cor como nos filmes norteamericanos da época. Ozu usa muitos "pontos vermelhos" como que "quebrando" o fundo de cores em tons pastéis, em tomadas de cãmera parada (como fotografias de cenários interiores ainda sem os personagens durante alguns segundos antes dos atores aparecerem em cena: chaleiras vermelhas de chá num canto da tela, flores sobre a mesa, roupas quarando ao sol, quimonos estampados, um rádio de galalite, etc  - li que ele demarcava 3 cm para cá de um objeto, 5 cm para lá de outro antes de filmar). As "manchas vermelhas" aqui e ali durante o filme equivaleriam, mal comparando, aos borrõezinhos vermelhos que são papoulas no famoso quadro impressionista de Monet que Bion utilizou para dar exemplo de "transformação" (das flores da realidade em manchas coloridas de tinta).
    Cores como de verdadeiros quadros pintados só que na fotografia de película, neste que foi o primeiro colorido de Ozu, de quem, a cores, eu só assistira o último dele (de 1962) mas em projeção de vhs... não dava para ver tudo de forte nas cores que ele conseguiu ao trocar o preto-e-branco (que já era fantástico - se a cópia estiver boa) pelas cores. Custou a usar ocinema falado (só parou de filmar mudo em 1936, como Chaplin) e custou a usar as cores, mas cada virada dessas era poesia em cena. Por isso essa mensagem vai aqui no "torvas bem trovadas" - como aperiitvo para os futuros hai-kais (com explicação sobre os diferentes estilos conforme a estação do ano - estações que aparecem muito nos títulos dos filme de Ozu - mas isso se eu tiver paciência de copiar parágrafos didáticos interessantes).


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    [Aeternus:4875] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-12)


    - RE:promessa ou mais...

    Gostei da promessa dos hai-kais, assim como a explicação sobre as cores Agfacolor, Eastmancolor e os problemas cor de rosa da Fox.

    Ninguém comentou a frase "Et in Arcadia Ego" ( a morte também está presente no paraíso), frase que conheci pela primeira vez observando uma lápide numa tela de Nicolas Poussin .

    poussinorig.jpg (76212 bytes)

    Há tantos recursos hoje na internet que me espanto de explorar tão pouco o que nos oferecem...

    Mas, resolvi prometer algo de volta. Vou fazer algum tipo de invenção/tradução de alguns dos poemas do Mother Goose.


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    [Aeternus:4877] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-12)


    - RE:promessa ou mais...

    Promessa mais, promessa menos...só um pouco de "Mamãe Ganso" pra turma ver como é.

    Bilu bilu bolota
    Joãozinho, tão boboca
    Se deitou de calças
    Pendurado pelas alças
    Pé na meia e pé no chão
    Bilu bilu bolota
    Meu filhotinho, João.   

     Eias sus, socega  bebê
     No alto da árvore, mal se vê 
     Seu berço, como balança 
    O vento embala você  
    Quebrando-se o galho, 
    Que tombo o espera
    Cai o berço  com você ...

    Nheco-nheco e mordidinha
              Pão e leite na xicrinha
              Pão e leite de colher
              De prata brilhante da lua
              Nheco-nheco e mordidinha,
              Nheco-nheco e mordidinha. 
    Certo dia, Pestana, Piscada e Aceno 
    Enfrentaram o mar num tamanco
    À vela. Se foram pelo rio de cristal,
    Rumo ao sal do azul orvalhado.
    "Onde vão e o que esperam?"
    A velha lua aos três perguntou.
    "Viemos pescar o arenque espantado
    No encanto do mar  sereno;
    Redes de ouro e de prata trouxemos!"
    Pestana, Piscada e Aceno então responderam. .

    Jorginho Porre, torta e pudim
    Beija as moças e as faz chorar 
    Quando os garotos vão brincar.
    Jorginho Porre tenta escapar.

    Sorvete, sorvete por um tostão!
    Quanto mais se come, mais pulos do chão.

    Jujubinha chorosinha limpador de chaminé
    Se casou com mulherzinha que tão logo deu no pé.
    Se casou com uma outra, não a amava, sacumé
    Entalou-a rapidinho empurrou na chaminé.

    Enfrentaram o mar num tamanco
    À vela. Se foram pelo rio de cristal,
    Rumo ao sal do azul orvalhado.
    "Onde vão e o que esperam?"
    A velha lua aos três perguntou.
    "Viemos pescar o arenque espantado
    No encanto do mar  sereno;
    Redes de ouro e de prata trouxemos!"
    Pestana, Piscada e Aceno então responderam. .

    Jorginho Porre, torta e pudim
    Beija as moças e as faz chorar 
    Quando os garotos vão brincar.
    Jorginho Porre tenta escapar.

    Sorvete, sorvete por um tostão!
    Quanto mais se come, mais pulos do chão.

    Jujubinha chorosinha limpador de chaminé
    Se casou com mulherzinha que tão logo deu no pé.
    Se casou com uma outra, não a amava, sacumé
    Entalou-a rapidinho empurrou na chaminé.


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    [Aeternus:4902] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-14)


    - RE:RE:promessa ou mais...

    A noite

    no escuro

    Dou topadas

    em palavras

    Jogadas

    no chão

    do quarto

    Caídas do céu

    da boca

    Geradas no

    fígado

    Destroçadas

    na bílis

    E costuradas

    na alma

     

    Algumas dessas costuras me machucam. Mas será que são a única coisa que me faz inteiro e não despedaçado?!?


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    [Aeternus:4923] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-17)


    - fragmentos de Alberto Manguel e do Ondaatje

    Há algum tempo descrevi a qualidade fragmentária da nossa percepção do mundo e levantei a hipótese de que praticamos, de modo quase normal, algum tipo de "alucinação negativa" que apaga os contornos ou contextos de algumas das nossas experiências, assim como o lençol cirurgico que se abre apenas no espaço da incisão protege o médico de se relacionar com o corpo inteiro de quem irá operar.

    Menos especialmente, troquei o Ondaatje de quem havia apreciado tanto as longas elaborações d " O paciente inglês" e um outro, sobre sua terra natal Sri Lanka ( antigo Ceilão), pelo pequeno volume de "poesias".  Apesar de muito elogiadas, li algumas poucas que me pareceram apenas mórbidas e com alusões incompreensíveis. Era como se, para Ondaatje, escrever versos fosse um modo de praticar alucinação negativa sobre o processo da escrita.

    No sábado deram-me de presente "O Amante Detalhista" de Alberto Manguel ( trad. Jorio Dauster, Ed. Companhia das letras,2005) e fiquei encantada com o livro.  O tema é a visão fragmentária, agora centrada no corpo, talvez como uma espécie de prática fetichista ou como exercício de extração de "objetos pequeno-a" de um mundo arcaico e estilhaçado no qual cada sensação luta pela primazia na consciência.

    Citarei um trecho:

    "Sem buscar conscientemente maior variedade em sua arte, as fotografias revelam a ocorrência de mudanças graduais.  De detalhes precisos e anônimos da anatomia, ele evoluiu para uma inspeção mais ampla ( ou mais estreita) do corpo humano.  O sexo não importava mporque a totalidade do ser humano tornou-se a seus olhos um somatório de incontáveis atrações sexuais, um mosaico de desejos, uma colméia de possibilidade eróticas que se transmudavam e recombinavam com a volubilidade de um caleidoscópio(...)

    Entrada no diário de Anatole Vasanpeine (1925)

    Ah, a textura de uma cascata de cabelos entrevista esta manhã! Os cabelos eram avermelhados com flocos dourados, qual carne recém-comprada, e se agitavam sem cessar como se fossem um ser vivo.  Os fios individuais não significam nada para mim, mas aqueles feixas, aqueles matagais, aquelas madeixas penteadas pelos cinco dedos da mão ossuda, como me incendeiam de desejo!  Contento-me em calcular o comprimento deles a partir da parte que me foi dado apreciar.  Não gostaria de ver mais.  A totalidade não deixa espaço para o desejo.,,

    A leitura do livro é rápida e engraçada. Ele é apresentado como se fosse uma espécie de trabalho acadêmico, cheia de notas de rodapé e bibliografias requintadas ( e provavelmente inexistentes). Recomendo. Muda o modo de encararmos alguns momentos históricos, as estatísticas do IBGE e do FMI, assim como complica ler   Haikais...

    Não resissto. Transcrevo outro pedacinho, agora do diário anotado no caderno 1-A ( são mais de oitenta...)

    "Pude observar com todo o cuidado a sra. Clément.  Ela estava de luto fechado, usando até luvas pretas rendadas e um véu preto sobre o rosto.  No entanto, quando falava, sua respiração fazia com que a ponta do véu se levantasse, deixando à mostra o queixo.  Era um queixo pequeno, muito liso e branco, com uma covinha no meio - e descobri que não conseguia despregar os olhos dele, esperando por cada "b" e "p" com uma excitação crescente.  Toda vez que ela exclamava "Mon bon Paul, mon pauvre petit epoux!", o véu esvoaçava como se numa dança, exibindo a beleza redonda que tremia como se com medo do lábio invisível que a fazia se mover."

    Um relato perfeito de uma perversão nascente ( Vasenpeine tinha então 16 anos) Mais adiante ele descreve uma figurinha redonda como um ovo que passa os dedos pela leve depressão de um pêssego: "derrières" e "vaginas" parecem intercambiáveis e desprovidas de protuberancias ou cavidades...

     


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    [Aeternus:4959] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-10-20)


    - Obsenóia parafrênica

    TOC TOC,

    há alguém aí ?

    ajuizado, anestesiado,

    transtornado ?

    - Pega, pega, pára aquela metade ali,

    voando no vento

    Que é a boa, a cumeeira

    de Sísifo,

    e se rolar a pedra morro abaixo,

    babau.

    Na cava depressiva

    encruzilho o rei e seu séquito

    - Sai do meu caminho, ô meu.

    que houve?

    que sangue é esse nas mãos?

    ou a tinta da tia Nise.

    Enquanto isso, o mundo

    Gira, gira, gira.

    Giiiiiiiiiiiiiiiira.


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    [Aeternus:4963] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-10-20)


    - RE:Obsenóia parafrênica

    Belas, ou melhor, pungentes trocas sobre a loucura, a dor e a indiferença do mundo. Gostei, Guto.

    Nas minhas andanças livrescas encontrei um livro em promoção chamado "Escritores e espiões" ( a vida secreta dos grandes nomes da literatura mundial) de Fernando Martínez Laínez ( Relume Dumará).

    Não fazia idéia de que havia tantos escritores/guerreiros/espiões de qualidade. Francisco de Quevedo, Christopher Marlowe, John le Carré, Beaumarchais, Cervantes, Graham Greene, Rabelais, Aphra Ben... Na introdução escreve Laínez, ecoando Pessoa: "A ficção permite a fantasia.  Os escritores costumam ser mestres na falsificação das emoções que não sentem.  O ficcionista é um mágico que ilude a realidade, um criador de sonhos, ainda que estes tenham raízes na materialidade que o rodeia.  O escritor não é um mentiroso, é um fingidor".

    O autor argumenta que a ficção e o exagero são melhores instrumentos para mostrarem a "realidade" do que a sinceridade ou o realismo. Quando chegar no capítulo sobre John Le Carré comentarei alguma coisa ( ainda estou lendo Quevedo: fidalgo de versos e de sombras...).  A idéia é de que todos estes eram pessoas de inteligencia excepcional, talentos verbais e de observação do mundo e que conviviam com a duplicidade sem, no entanto, abandonarem a fidelidade a um ideal.

    Quando traduzia os seminários clínicos de Bion me encontrei num apuro quando precisava traduzir para ele uma desavença entre dois analistas brasileiros. Queria ser neutra e transpor todas as imprecaçõeso que voavam de um lado ao outro, mas não conseguia.  Assim, me fiz de desentendida e só coloquei em ingles o que considerei "justo", como se a briga fosse intraduzível. Ao final do seminário Bion me chamou de lado e disse: " Você deve ler o livro que conta a história de Sorge". Fiz pesquisas até encontrar dois textos ( um deles, "An Instance of Treason", me foi cedido por Frank Philips, um analista ingles em São Paulo ) e aprender que  Richard Sorge tinha sido um famoso espião, só que não escreveu romances nem sobreviveu. Foi executado no Japão.  Li sua história muito perplexa com a indicação de tal bibliografia para uma candidata a psicanalista...Sorge não parecia ter amigos particulares, toda sua vida era dedicada a causa comunista e em nome desta ele enganava todos.  Achei que Bion estava me indicando um caminho peculiar de, em nome da verdade psicanalítica, expor meus colegas brigões.  Aí é que está o problema: ainda não entendo como alguém pode apostar tudo na "verdade" pois, pra mim, ela tem muitas caras.

    Peguem a visão que o CD oferece de Antonioni e a contrastem com a do LGallego. Não combinam! E, no entanto, tenho a impressão de que posso entender os dois lados. Adorei a idéia daqueles livros em que a gente entorta a visão para perceber em 3D da descrição do CD...A seriedade zangada do Gallego, cortando as firulas, também tem seu lugar... E agora? 

    Há alguns dias pretendi escrever sobre a frase popular " é de pequenino que se torce o pepino", com a base bíblica onde se afirma que " ensina o menino no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele". Hoje ouvi uma outra frase, dita originalmente por um Jesuíta: " Deixe a criança comigo durante cinco anos e ela será minha".    Acho fantástico supor que há pessoas tão cheias de fé que se sacrificam por ela e a erigem como marco de identidade e conseguem até mesmo passar a marca adiante, como

     

     Eis a contribuição do Gallego:
    QUOTE
    The European Commission has just announced an agreement whereby English
    will be the official language of the European Union rather than German, which was the other possibility.
    As part of the negotiations, the British Government conceded that
    English spelling had some room for improvement and has accepted a 5- year
    phase-in plan that would become known as "Euro-English."
    In the first year, "s" will replace the soft "c." Sertainly, this will make the sivil servants jump with joy.
    The hard "c" will be dropped in favour of "k". This should klear up
    konfusion, and keyboards kan have one less letter.
    There will be growing publik enthusiasm in the sekond year when the
    troublesome "ph" will be replaced with "f". This will make words like fotograf 20% shorter.
    In the 3rd year, publik akseptanse of the new spelling kan be expekted
    to reach the stage where more komplikated changes are possible.
    Governments will enkourage the removal of double letters which have
    always ben a deterent to akurate speling. 
    Also, al wil agre that the horibl mes of the silent "e" in the languag
    is disgrasful and it should go away. 
    By the 4th yer people wil be reseptiv to steps such as replasing "th"
    with "z" and "w" with "v".
    During ze fifz yer, ze unesesary "o" kan be dropd from vords kontaining
    "ou" and after ziz fifz yer, ve vil hav a reil sensibl riten styl.
    Zer vil be no mor trubl or difikultis and evrivun vil find it ezi tu understand ech oza. Ze drem of a united urop vil finali kumtru.
    Und efter ze fifz yer, ve vil al be speking German like zey vunted in ze
    forst plas.
    UNQUOTE
    um novo DNA.

    Ainda não vi qualquer texto lacaniano entre os que tomam emprestadas as palavras "Einziger Zug" usada por Freud , para tratar do significante mestre, S1, a partir do "traço unário" - conectando este termo "Zug" ( traço, risco, marca ) com outra palavra alemã: " Bezug" ( "referência" ).
    Gallego hoje nos enviou um texto primoroso sobre reforma da linguagem e vou copiá-lo aqui ( que se danem as permissões, não sei a quem pedir...)  Em alemão se fala de "bahnungen", como "facilitações" e Bahn, como Eisenbahn ( linha de trem, Zug em alemão também! Mero trem do pensamento...) ou Autobahn: vias abertas por mateiros ou guardas de escolta... Lembrei de um trocadilho enquanto viajava no trem chupando suco com canudinho: " Zug um Zug gut" porque significava tanto "chupadinha por chupadinha...é gostoso" e " de um trem pra outro, é bom".  Ai, esses trem todos...


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    [Aeternus:4992] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-21)


    - 37

    Hoje, caminhando pela manhã.

    O sol matinal na cara.

    Bem acordado.

    E disposto.

    Senti os trinta e sete anos.

    E agradeci por tudo!


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    [Aeternus:4994] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-21)


    - RE:37 & Happy Birthday to you

    "Gratitude is heaven itself", William Blake - donde já veio tudo dado no poema que nos convida a celebrarmos juntos com o CD . Que cada dia seja melhor que o anterior, Alteza ( qual é o termo para nos endereçarmos aos condes?).
    Jansy

    PS: acho linda esta palavra, "celebração", solene e risonha ao mesmo tempo... 


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    [Aeternus:4999] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-10-21)


    - RE:RE:37 & Happy Birthday to you

    Bela idade.
    Muita pujança ainda pela frente, Saberes a acumular...
    Desejo saúde, lucidez, força, e que esse seu fôlego afetivo-cultural continue junto a nós.
    Grande abraço !

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    [Aeternus:5009] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-10-22)


    - Hai-Kais (promessa é dívida)

    Resumido de um capítulo do livro "Ozu", de vários autores.
    Capítulo "A arte Zen de Yasuhiro Ozu, o poeta sereno do cinema japonês" de Marvin Zeman, 1972.
    Ele discute os filmes de Ozu com nomes como "Dias de Outono", "Fim de Verão", "Começo de Primavera", etc etc. Só selecionei e resumi trechos referente às poesias Haiku:

    Ao ler a poesia Haiku, nota-se que quase sempre há uma palavra indicando a estação do ano. Até recentemente, na verdade, era a poesia das estações. A palavra correspondente a uma determinada estação do ano num poema Haiku indica todo um mundo de emoções, cores, sons, aromas.
     
    As estações correspondem às emoções normalmente associadas ás fases da vida, sendo a primavera o tempo do otimismo, da juventude, período que permite antecipar o resto do ano; o verão corresponde à meia-idade, um período de indolência; o outono é a época da melancolia; e, breve, estaremos frente a frente com o inverno que é a morte.
     
    As estações se associam, por sua vez, aos estados de espírito básicos do furyu – estados de espírito da atmosfera geral do “gosto” Zen em suas percepções dos momentos cambiantes da vida. Esses momentos são a base de toda a arte Zen. Estes estados são sabi, wabi, mono-no-aware e yugen.
     
    O estado de espírito da solidão e da quietude é o sabi associado ao verão.
     
    O verão no mundo
    Flutuando nas ondas
    Do lago
                                                                                                       (Bashô)
     
    O wabi caracteriza o sentimento de depressão ou tristeza que se apodera de uma pessoa e revela semelhanças incríveis com coisas bem comuns.
     
    Ante o crisântemo branco
    A tesoura hesita
    Um momento

     

    O outono está para chegar: os poetas Haiku criavam sob o wabi. Como dizia Hasumi: “Do wabi surgiram a harmonia, o respeito, a pureza e a pobreza – harmonia de cores, forma, luz, toque, movimento; respeito para com o visitante, para consigo próprio, para com a natureza”.
     
    A luz na sala vizinha também
    Se apaga
    A noite é fria
                                                                                                               (Shiki)
     
    O mono-no-ware evoca uma tristeza mais intensa e mais duradoura que o wabi. É um estado de espírito melancólico e nostálgico, muito ligado ao outono e a seus significados implícitos.
     
    O vento do outono
    Atravessa até os ossos
    Do espantalho
                                                                                                      (Choi)
     
    Quando alguém percebe a presença de algo desconhecido que jamais será descoberto, o inverno já está presente, e o estado de espírito é chamado yugen.
     
    Estremeça, oh, sepulcro!
    Meu lamento
    É o vento de outono
                                                   (Bashô)

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    [Aeternus:5038] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-25)


    - 25/10/2005

    Hoje

    Nós corremos

    Na chuva

    Eu ela

    + a chuva

    + o tempo

    Ocorreu

    Bem devagar


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    [Aeternus:5039] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-25)


    -

    noraio x

    dos meus pulmões

    v e j o

    r i t o s

    madrugadas

    tesão

    c e l e b r a ç õ e s

    beijos

    b o s s a n o v a

    e um cheiro

    absurdamente

    i n c r í v e l

    das coxasdela


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    [Aeternus:5046] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2005-10-25)


    - RE:25/10/2005

    Poema de CD: 

    Hoje
    Nós corremos
    Na chuva
    Eu ela
    + a chuva
    + o tempo
    Ocorreu
    Bem devagar

    CD, no poema, destacou duas medidas: o tempo físico do casal que corria na chuva e o tempo da experiência, em camera lenta, quase absoluto...

    Associação em outra dimensão:
    Escreveu Millor Fernandes:  "Olha, entre um pingo e outro a chuva não molha".

    John Malkovich discorrendo como um general no filme que comentei ontem ("O Preço da Traição")  observou como os atomos são compostos de pequenas partículas que circulam no "nada" e que só não atravessamos o chão porque estas diminutas partículas se movimentam muito rapidamente. Ele não falou que, num dado ritmo como o da marcha de um batalhão, em vez de " um suporte" as partículas apresentam "um buraco"... Uma idéia interessante, alternativa tudo ou nada!

    Na época em que li o poema do Millor esbocei um em resposta: 

    Triste chuva que não molha
    pelos pingos que não caem
    nos espaços de uma folha
    nos desvãos de cada escolha
    por desejos que se esvaem

    ....

    Esta chuva intemporal
    não repete, não insiste
    basta um tombo impessoal
    na miséria colossal
    de um sujeito que desiste.

    Resumindo, a la Hamlet: Ser ou Não Ser, eis a questão. 

      


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    [Aeternus:5053] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-26)


    - Cão

    Para mim, adormecer é um privilégio. Claro que perco a consciência durante algumas horas: chega um momento em que meus olhos se fecham e meu corpo, massacrado, relaxa como uma mosca esmagada. Mas não posso dizer que adormeço. Apenas sou destruído.

    As pessoas dizem que pegaram no sono. Eu nunca peguei. Deve ser algo macio, para se acariciar descuidadamente, porque se sabe que está lá, ao lado, sem que se perceba - como alguém de quem se gosta após muitos anos de casado. Uma mulher: só pode ser feminino seu caráter diáfano.

    Não por acaso, o melhor sono é aquele que pertence à infância, essa outra menina.

    Essa pretensão poética quando me refiro ao sono vem de observar a sonolência alheia como um voyeur. Exercitei essa indiscrição durante as noites de insônia nas quais contei com a generosa companhia de mulheres. Por mais dedicadas que fossem, nenhuma esperou comigo a chegada das primeiras luzes do dia.

    É frágil a pessoa adormecida. Como se nela houvesse uma ausência ou um intervalo. Essa paz humana, que me vem sendo negada como um castigo, tornou-se para mim algo sagrado, um ritual que preservei em outros corpos. Zelei pelo sono de minhas meninas como um cão, uma sentinela do paraíso. Foi nessas horas que eu mais as amei. Elas não sabem, mas também foi quando me senti mais amado.

    Nenhuma entrega, mesmo as que nos surpreendem pelo despudor, me pareceu tão irrestrita quanto se deixar ver dormir, a alma translúcida, o sexo aplacado, os lábios emoldurando uma felicidade tranquila, escandalosamente possível.

    Não é à toa que os amantes dizem que dormiram juntos. "Dormi com ela", propaga o namorado indiscreto.

    Conquistar alguém é arrastá-lo para a companhia mais íntima, quando o que se compartilha de mais profundo é, não o corpo em movimento, mas a entrega inanimada. Seduzir alguém é poder acordar ao seu lado.

    Aos meus anjos venerados, hoje sei, lhes emprestei minhas noites e madrugadas. Não dormimos juntos, lamento. Mas, de bom grado, lhes daria novamente todas as horas em que fiquei acordado.


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    [Aeternus:5054] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-26)


    - noites brancas de um exílio

    Cada vez que respondo na lista das trovinhas bem trovadas e não me limito a elogiar o que foi escrito pelo Guto,  CD, Márcia... me sinto invasiva e inadequada.  Tagarelar não é preciso!

    Quando o CD descreve seu modo de velar, de partilhar  ao seu modo,o sono das amadas, ele produz um texto que se sustenta por si só, completo, indiscutível. Muito  bom!  Uma experiência dolorida, mas prazerosa, de exílio?

    Seja como for, o texto do CD - entre outros estimulos acumulados -  me ajudou a descobrir há pouco qual é o meu maior medo ( juro que não sabia antes). O que temo mais, do que mais tenho horror é à solidão.
    Não é ficar sozinha, não... Trata-se daquele isolamento que dá origem a um estado de loucura "amok" ( acho que foi esta palavra que Stephan Zweig empregou para um afastamento tal do mundo humano que a pessoa só sabe sair des-embestada). 

    A coisa na verdade começou a partir de uma frase de Arendt ( As Origens do Totalitarismo, 1951):
    " O totalitarismo não tende a submeter os homens às suas regras despóticas, mas à um sistema no qual os homens são supérfluos". 


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    [Aeternus:5056] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-10-26)


    - Dorme com ela ! (Almodrácula)

    Conde,

    Belo poema em prosa sobre o dormir junto e a confiança que subjaz a esse ato. Dormir, simplesmente, numa lassidão despreocupada, com ou sem sexo, com ou sem broxada, e acordar em renovado acúmulo.


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    [Aeternus:5058] Mensagem do Grupo24
    -LFCético(2005-10-26)


    - sem trovas

    Jansy questionou em outra lista o egoísmo que estaria implícito no altruísmo de alguém como a personagem Tess do filme "O Jardineiro Fiel". "Alguém como tu, asim como tu eu preciso encontrar..." Quero destacar que tal egoísmo não seria defeito, seria apenas. E como o "narcisismo transformado" de Johut pode redundar em empatia pela alteridade, além de criatividade, sabedoria, joie de vivre e humor (de até rir de si mesmo) e aceitação da finitude (essa é foda!) - o egoísmo que não tolera não ter a auto-imagem altruísta sofre se altruísta não for. Ceticismo?
    Também tem falado em um filme que pasou bem desapercebido nos cinemas e foi descontar sua falta de repercussão nas TVs e vhs's e etc. Corri prá ver nos cinemas, pressentindo que fazia minha cabeça: estiloso como policial "noir" com algo de "Chinatown" em questões mais amplas do que a corrupção pela água na Los Angeles dos anos 1930. O período do início dos anos 1950 é fetiche para mim, lembra meu Eldorado infantil, finals dos 1940 e iníciozinho dos 5o dos quais nem posso ter memórias objetivas. Mas o clima me seduz. E o mal que (não) se oculta nos corações humanos revelados numa trama rocambolesca que envolve até a bomba atômica e suas sucedâneas. Jansy destaca spectos pontuais muito interessantes do filme que gostaria de rever.
    Afinal, a poesia em "Macbeth" é intensa, mal-atenuando o horror da peça. Na arte até o mal fica admirável. Na vida real, é o bicho!

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    [Aeternus:5059] Mensagem do Grupo24
    -LFCético(2005-10-26)


    - ERRATA:sem trovas

    Onde saiu digitado "Johut" leia-se Kohut (de Heinz Kohut)

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    [Aeternus:5060] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-26)


    - RE:Dorme com ela ! (Almodrácula)

    Eis que o Guto intervém como Almodrácula de bolso numa concisão em forma de gota.

    Já conhecia ( de ouvir contar ) as táticas tantricas de contenção espermática e até encontrei na secção de cartas dos leitores da Playboy uma explicação sobre quais músculos tensionar para cultivá-la.  A minha falta de imaginação é tamanha que nem assim imaginei que vocês, depois da lassidão despreocupada, acordam em...renovado acúmulo. Caramba.


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    [Aeternus:5061] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-26)


    - RE:sem trovas para Johut & Jor-el

    Já vi o PS, mas não resisti o gostinho do seu lapso com Johut...
    Não pensei que tivesse criticado a Tess em algum momento, pelo contrário. Aproximei-a da posição do Mestre, que não está capturado pelos objetinhos de amor do mundo, mas os produz para os outros correrem atrás. Não vejo sentido em investigar que tipo de auto-imagem ela se faz ( i.e, enquanto algo "dela"), embora possa conjeturar  sobre o tipo de auto-imgem que ela faz de si  (i.e, enquanto algo "meu"). Acredito que haja pessoas como ela, que sejam capazes de gestos altruistas gratuitos, como na frase de Sta.Tereza: " A virtude é sua própria recompensa", e, ainda, como  "ars gratia artis".

    Ontem fiquei felicíssima quando parei num sinal e vi uma faixa: "ACHEI YORKSHIRE" e imaginei um apreciador de cães com pena do bichinho e dos donos, dando-se ao trabalho de fazer o anúncio.  Me contaram que no Rio está passando um filme japones chamado "A Casa" que conta a história de um mendigo que invade as casas fechadas porque os donos estão em viagem. Ele se instala e vive nelas, consertando janelas, trincos, instalação elétrica ou hidráulica. Quando os donos chegam, ele foge e procura outra casa para reformar...Duvido que isto sirva para desculpá-lo da delinqüência, nem que ele conserte as coisas por algum tipo de reparação ou pagamento: deve fazer porque gosta. Como quem mija e quebra tudo em volta, só que ao contrário. Gratuitamente.   Dersu Uzala ( outro filme importante) era generoso de outra forma, mais civilizada ainda. E gente assim existe. Já vi.

    Se bem que imaginei logo algo para estragar a bela idéia do mendigo de "A Casa". Seria ter ele um mau-gosto danado, ou ser péssimo eletricista e, sem querer, estragar as coisas ainda mais. Desmanchar uma sementeira de plantas raras para cultivar uma horta com couves...  


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    [Aeternus:5063] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-26)


    - RE:RE:Dorme com ela! (Almodrácula) & o RENOVADO ACÚMULO

    Nós, homens, somos muito simples. O que queremos poderia ser resumido em: colo macio; boa conversa; compromisso; descompromisso; calma; vitalidade; fraquezas; hormônios; passadas de mão, beliscões, mordidas e marcas indecentes em geral; conselhos decentes; conselhos malucos; imperfeições; desafios; esquisitices; cócegas; bocas e unhas pintadas; brincos, pulseiras e colares; língua e mãos espevitadas; abraços esmagantes; gestos suaves; arrepios; generosidade; curiosidade; "jogo de cintura"; risadas; gargalhadas; lágrimas; surpresas; interesse pelas coisas desse mundo; uma certa falta de vergonha; uma certa timidez; gentilezas; perfumes e fluidos afrodisíacos; presentes; futuro; personalidade; honestidade; independência; telefonemas "sem razão"; clareza; curvas; suspiros; gritos; pedidos; olhares; amor próprio; ciúmes sem escândalos; bilhetes no travesseiro; desprendimento; inconformismo; imaginação; cuidados; dúvidas; salto alto; estresse baixo; algumas frescuras; longas tardes passadas a vídeo, coroadas por uma pizza entre lençóis; privilégios; palhaçadas; desfiles de roupas recém-compradas; desfiles de maquiagem (só de maquiagem!); chocolate quente no inverno; água de coco no verão; pratos de comida especialmente preparados; a poesia de calcinhas penduradas em banheiros e sutiãs ondulando no varal; diversidade nas roupas de baixo; bom gosto nas roupas de cima; cabelos, pêlos, peitos; pernas, braços, ventre, bunda; coxas, panturrilhas, calcanhares; carne e espírito... gente que tenha ao menos a vontade de brilhar e não a de morrer de fome.

    Mais ou menos isso...

    Energia, minha gente!

    Gosto de pensar que as pessoas são simples e que esse monstro chamado felicidade passa por pequenos gestos, mais do que por sacadas monumentais e bandeirosas. Tem a ver com ligar-se àqueles desejos e prazeres alheios que aperfeiçoam os nossos, cultivá-los, instigá-los, aumentá-los.

    No caso, é satisfação garantida: beijos prolongados; mãos cuidadosas; línguas diligentes (isso é, nossa dedicação às preliminares será sempre amplamente recompensada); elogios verdadeiros; passeios sem sentido; desrespeitar horários de trabalho; respeitar horários de lazer; erguer a tampa da privada ao fazer xixi, evitar fazer xixi fora da privada (se fizer, por favor, passe lá um papel higiênico na mesma hora!); vinhos; chocolates; saladas; nudez; perfumes; luz de velas; escurinhos; presentes; lembrancinhas; surpresas; postais, telegramas; telefonemas; e-mails; lembrar datas; esquecer problemas, depois enfrentá-los; um pouco de vaidade; um pouco de desleixo; melar-se com picolés; lamber os melados dos picolés; nudez; não ter vergonha de experimentar; não ter medo da intimidade; ter vergonha do isolamento; não ter assuntos proibidos; manter privacidade (nem todos os nossos odores e pensamentos esquisitos precisam ser partilhados); cuidar; deixar-se cuidar; preservar a capacidade de indignar-se; rir das coisas e dos outros; rir de si próprio; mais nudez; cuidar da saúde e manter a forma; comer pizza vendo televisão; ver televisão no quarto; não ver televisão no quarto; usar música, teatro, cinema, livros; sair; ficar; ver fotografias; tirar fotografias; nudez de novo; ter posição sobre as coisas do mundo e a capacidade de mudá-la quando a realidade, algo ou alguém se mostrar diferente e melhor. Distrair-se. Dar atenção. Não ter receio de pedi-la...

    Em suma, até aquele bambi do Pequeno Príncipe sabe que somos responsáveis pelo que cativamos. Cativem, meus chapas... o resto é gozo.

    Abraço apertado!

    E.T: adorei "Almodrácula", foi na veia...


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    [Aeternus:5064] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-10-26)


    - RE:RE:RE:Dorme com ela! (Almodrácula) & o RENOVADO ACÚMULO

    Almodrácula,

    Ótima memória! Nunca li tantos substantivos da vida em comum (acompanhados de seus parceiros gramaticais), e tenho certeza de que cada um de nós desfiaria mais uma listinha... mas confesso que tenho que pensar um pouco.

    Jansy,

    Quando disse "renovado acúmulo" não estava pensando exatamente "naquilo", mas pode perfeitamente se encaixar (ops...)


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    [Aeternus:5065] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-26)


    - RE:Dorme com ela! (Almodrácula) & o RENOVADO ACÚMULO 2

    Você não pensou naquilo??? Então de qual acumulo você estava falando? Valor de troca ou de uso, valor comercial, patrimonio totalmente capitalizado?  

    Depois da listagem do Almodrácula fiquei totalmente incapaz de enumerar o que quer que seja numa listagem, nem mesmo pincel para pintar camelos. Também me senti velha e preguiçosa, embora enternecida com os jovens entusiastas que preferem alcovas ao campo aberto, accessórios inventivos ao cotidiano natural, pizza ao feijão com arroz convencional.  Viva a juventude com suas energias livres.


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    [Aeternus:5082] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-10-28)


    - A casa vazia

    O filme a que Jansy se refer como "A Casa" foi realizado pelo mesmo diretor do bonito (mas supervalorizado, ao meu ver) "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (- Ô título! lembra o mítico "O filho que era a mãe dele" na calúnia aos lusitanos que teriam dado este título a "Psicose" do Hitchcock).
    Acho que deve ter decepcionado os entusiastas do anterior (que mais facilmente chamarei de "Estações que vão e voltam"), mas teve seus exegetas pro aqui também. Não me incluo entre estes. Como já vi há mais de 50 filmes atrás, antes do festival-furacão, e não me agradou tanto, já nem sei porque não achei essas coisas. Mas penso que um dos motivos foi a pretensão: a idéia que Jansy descreve como sionopse era ótima, mas o desenvolvimento (como no anterior das estações que vão e voltam) deixou muito a desejar, incluindo uma morte - ou ferimento grave - já nem lembro, consequente à invasão de uma das casas, flagrada pelos moradores. Acho que acabava redundando num atropelamento fatal, já não recordo direito. Nas tragédias, desde os gregos até Shakespeare, a "falha" trágica do herói não é pecado no sentido católico ou judaico-cristão: é uma falha humana, seja ela a da hybris (desmesura, descomendimento, uma talvez aproximável arrogância) em Édipo ou no seu sucessor Creonte (em "Antígona" - e apesar do direito dela, nela mesma), seja a puerilidade de Lear em querer ser Rei sem ser Rei ou de Otelo em querer saber tudo do pensamento de outrem que lhe mente (Iago). A responsabilidade do herói trágico por sua falha (e pelas conseqüências catastróficas do equívoco) é fatalmente reconhecidas pelo herói (ou ele não seria o herói) que faz alguma espécie de auto-crítica ou tentativa de reparação que implica na ética da obra estética. Até o sangrento Macbeth tem direito a sua reflexão nihilista de que sua vida não passou de uma história cheia de som (estereofônico) e de fúria não significando nada (apenas umas centenas de mortes, o que é uma forma de designificar a vida, reduzindo-a ao nada da morte do qual sempre está tão próxima).
    Voltando à "Casa Vazia" (não sei como são os títulos dos filmes deste cineasta em coreano, mas acho que o equívoco de Jansy em chamá-lo de "A Casa" não é uma falha trágica, seria mais interessante mesmo chamá-lo de "Casas" apenas. Nem sempre totalmente vazias, ás vezes re-ocupadas por seus proprietários e trazendo conseqüências - EM RELAÇÃO ÀS QUAIS O PROTAGONISTA NÃO PARECE TER O MENOR "CONCERN"! O filme alemão "Edukators", uma das melhores coisas dos últimos anos, um dos melhores da mostra carioca de 2004, era muito mais bem desenvolvido e conseqüente na sua reflexão sobre propriedade, direitos, esquerda no pós-queda do muro, falhas humanas, com personagens mais próximos da verosimilhança psíquica do que os estereótipos coreanos: mendigo (não exatamente, mas talvez sem-teto), mulher insatisfeita com marido chegado a um sadismozinho, este maridão dominador antipático e mesquinho e outros tipos secundários como astro de esporte de luta e outros que esqueci.
    O desfecho me deixou em dúvida se o cineasta não sabia como terminar o filme ou se tem mesmo uma opção pelo fantástico/místico. ATENÇÃO, SE AINDA PREFERIR IR ASSISTIR O FILME NÃO LEIA DAQUI PRÁ FRENTE. ATENÇÃO, PARE DE LER SE QUISER IR VER O FILME SEM SABER O DESFECHO. VOU FALAR PORQUE ESTOU NA VERDADE DANDO MINHA OPINIÃO DE NÃO RECOMENDAR O FILME QUE ACHEI PERDA DE TEMPO PRETENSIOSA, MAS PÃOS OU PÃES É QUESTÃO DE OPINIÃES. SE QUISER IR VER PARE POR AQUI A LEITURA. MAS VAMOS LÁ, JÁ AVISEI:O carinha, preso, "some" dentro da cela, os guardas não o vêem, entram, ele está lá: no teto, nas paredes, enfim, parece "O Tigre e o Dragão" com aquelas pessoas meio que voando: há brigas, esqueci o resto, mas achei muito "fácil" este "desfecho" com cara de "inteligente". Se havia uma "moral" de fábula ou algo similar, eu não captei. Acho que foi mesmo um paso maior do que as pernas...é a velha hybris...não crucifico o diretor por este filme (que foi aplaudidíssimo em festivais e que tais), mas me chateou um pouco perder meu tempo com o desperdício de uma ótima idéia, se não de todo original (Edukators tem traços de contacto embora as invasões tivessem outro propósito), certamente insólita, de difícil desenvolvimento como o diretor-roteirista demosntrou. Viva "Edukators"! Abaixo "Casa Vazia"!

     

     

    Contra toda a opinião "bem-pensante", anulei meu voto por ser CONTRA este tipo de referendo caríssimo para a nação, que tentou desviar o foco do problema que se dizia pretender esclarecer. O foco? A incompetência de sucesivos governos na tentativa de minimizar os problemas sociais que, se não são a causa primária da violência destrutiva, são o caldo de cultura que estimula e incrementa a "saída" dos menos favorecidos pela via da bandidagem (nem cobro "resultados, acho que tentativas sérias já seriam benvindas, mas nem isso vemos). Penso que a liberdade democrática implica no voto nulo (sou contra a abstenção ou anular o voto, tem que ir lá e votar dizendo "não quero nada disso, me ofereçam outra coisa"). O outro câncer é a bandidagem dos que nem têm o álibi da exclusão sócio-econômica e que subtráem nosso dinheiro em tenebrosas transações. Quando (raramente) são presos, algum senror meritríssimo juis do "supremo" manda soltar porque "é doloroso ber um pai e um filho juntos numa cela de prisão". Parem o mundo que eu quero saltar!


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    [Aeternus:5083] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-10-28)


    - RE: "A virtude é sua própria recompensa"

    Se a virtude já é sua própria recompensa, algo do ego-ísmo (sem conotação pejorativa alguma) está sendo atendida pelos virtuosos. o que eu quero dizer é que "se todos os egoísta fossem iguais a voc|ê e a Tess, que maravilha viver!" Os ego´sitas em busca de sua satisfação através do altruísmo construiriam o melhor dos mundos. Lá, sou amigo do Rei. José, para onde? Para Pasárgada, é claro!

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    [Aeternus:5086] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-28)


    - RE:ERRATA:sem trovas

    Sem trovas sem ovas
    Sem provas sem covas
    Errata não rata
    Não ata, é batata.
    Pelo sim ou pelo não,
    É Brasil no coração... (Apendi trovas ridículas só pra jogar peteca com rima e implicar com Gallego acima).  

    Adorei a dica do LFG de anular o voto e, em tempo, foi o que fiz. Depois estranhei as estatísticas que computavam a soma completa em cem por cento entre os dois percentuais para Sim e do Não.  Daí que me explicaram que, quem vota nulo, não está realmente protestando contra o referendo, mas dando seu voto para o da maioria.  Não pretendia isto, nem mesmo se meu projeto original era a favor do Não.  A estas alturas do campeonato...


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    [Aeternus:5087] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-28)


    - RE: a virtude do ego ou do altero

    Fico enrolada com Sim e Não, ou com alternativa ( que só existe uma, pois "alter" é nativa de "ou"  como há na  "outra"... claro que é nonsense puro, como as rimas anteriores).

    Tentando ficar mais séria. Não entendo porque temos que ficar presos na alternativa "ego/alter", "dentro/fora", "em cima/em baixo". Maniqueísmo não é só coisa de persa ou iraquiano, do bom e do mau. É todo o molde de enquadrar o pensamento aqui ou ali.  Pena que não aparece mais o Davy para introduzir em vez da alternativa, o paradoxo. Porque quase tudo é sim e não e muito antes o contrário, quer a gente queira ou não.

    Não entendo medir a Tess pelo egoísmo ou pelo altruísmo, um mero crivo ordenador.  A postura mais difícil do mundo é a do "olhar os lírios nos campos, como eles crescem, não trabalham nem fiam e nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como qualquer um deles". A promessa implícita não está implicita ( dados os vícios da categoria im/ex para as plicitações ) vem mais adiante, quando o evangelista anota que Deus cuidará dos passarinhos e dos fios dos nossos cabelos.

    E... olha aí um Rilke genial, Guto, sem ser o poeta, o que escreveu "As Histórias do Bom Deus".
    Nesta série de contos, há Deus e um anjo que voa em volta dele cantando louvores solfejando "Deus que tudo vês".E tem uma distração de Deus que permite que uma estrela caia sobre um cachorrinho levado, assiim tornando mentira o canto do anjo que fica condenado a perder a voz. Solfeja, sem som a fala antiga:"Louvor a Deus que tudo vê" como a Marília Pera sem voz. E Rilke encerra a historinha: " Se em vez de afirmar que Deus vê tudo, o anjo tivesse cantado "Ó Deus ominisciente", não teria sido castigado... Ainda mais que quem tudo sabe pode saber tudo antes ou depois, como jornalista ou leitor.

     


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    [Aeternus:5094] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-10-28)


    - RE: voto nulo

    Jansy diz que "explicaram que, quem vota nulo, não está realmente protestando contra o referendo, mas dando seu voto para o da maioria". O pessoal votou não e foi entendido como contra o referendo em si. OK, mas acho que o voto nulo seria e será mais significativo nas próximas eleições se atingir altos índices. Se voto nulo contasse como voto para maioria não viria separado na contagem que saiu nos jornais. O que antigamente contava p/ a maioria era voto em branco. Os votos do sim e do não eram os "votos válidos". Portanto, acho que hoje, em branco e nulos não são "válidos" e não contabilizam para nenhum lado. Daí minha idéia que seria um protesto CONTRA A OPÇÃO DADA.

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    [Aeternus:5097] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-10-28)


    - RE:RE: voto nulo

    Você disse que "nos jornais" houve contagem dos votos nulos?  Nos que li não encontrei nada disso, nem na internet.  Havia algo como 39%SIM e 61% Não.  Foi por isso que comentei, estranhando a omissão dos percentuais do "NULO" que não encontrei... 


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    [Aeternus:5121] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-10-31)


    - Achados & perdidos

    desci

    as escadas rolantes

    procurando a seção de

    achados & perdidos

    no balcão

    o funcionário careca

    perguntou

    "perdeu alguma coisa?"

    e respondi

    "sim"

    olhei

    as chaves

    os guarda-chuvas

    as bolsas

    e pensei no dono

    daquela dentadura

    sem boca

    os olhos do careca

    ainda perguntando

    "e aí?"

    ex-votos sem milagres

    os casacos sem abraços

    a vida suspensa sem você

    divagando

    como andaria o coxo

    sem aquela bengala?

    "esse cara é que deve estar perdido"

    talvez

    ele tenha

    razão


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    [Aeternus:5136] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-01)


    - Bachelard

    No espelho de Psiquê

    floração de águas-vivas

    palavra que queima; ciência

    em estado de alma


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    [Aeternus:5139] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-01)


    - R$15,65

    14:25... Estou na fila do supermercado. A caixa tem um semblante fechado. Diria fechadíssimo. Deve ter 1.60 de altura e origem nordestina. Tá na cara que está de mal humor. Trabalhando num domingo à tarde. Na minha frente um morador de rua. Talvez 1.80 de altura. Branco. Amarrotado e sujo. Descabelado. Cara inchada pela bebida. Nariz vermelho. Compra um pouco de mortadela e uma garrafa de pinga. De litro. Ele, o morador de rua, não tira o olho da caixa. Está bêbado e balança, por causa da embriaguez. Ela não percebe o olhar dele. Vai passando as compras do outro cliente. Mas ele a olha com insistência. Chega a vez dele. Ela passa a mortadela e a pinga. Ele sorri para ela. Ela não nota. Ela diz: "Deu 4,85" Ele conta e entrega as moedas e diz: "Eu te amo" Ela finge não ouvir. Coloca as compras dele na sacola. Ele insiste: "Eu te amo" Ela entrega a sacola para ele. Ele: "Você ouviu? Eu te amo" Ela começa a passar as minhas compras. Ele vai saindo, olhando para trás, para ela: "Eu te amo. Eu te amo!" Já na porta de saída, grita: "EU TE AMO!" Ela, sem tirar os olhos das compras, para mim: "Deu 15,65"

    Estou na fila do supermercado. A caixa tem um semblante fechado. Diria fechadíssimo. Deve ter 1.60 de altura e origem nordestina. Tá na cara que está de mal humor. Trabalhando num domingo à tarde. Na minha frente um morador de rua. Talvez 1.80 de altura. Branco. Amarrotado e sujo. Descabelado. Cara inchada pela bebida. Nariz vermelho. Compra um pouco de mortadela e uma garrafa de pinga. De litro. Ele, o morador de rua, não tira o olho da caixa. Está bêbado e balança, por causa da embriaguez. Ela não percebe o olhar dele. Vai passando as compras do outro cliente. Mas ele a olha com insistência. Chega a vez dele. Ela passa a mortadela e a pinga. Ele sorri para ela. Ela não nota. Ela diz: "Deu 4,85" Ele conta e entrega as moedas e diz: "Eu te amo" Ela finge não ouvir. Coloca as compras dele na sacola. Ele insiste: "Eu te amo" Ela entrega a sacola para ele. Ele: "Você ouviu? Eu te amo" Ela começa a passar as minhas compras. Ele vai saindo, olhando para trás, para ela: "Eu te amo. Eu te amo!" Já na porta de saída, grita: "EU TE AMO!" Ela, sem tirar os olhos das compras, para mim: "Deu 15,65"

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    [Aeternus:5140] Mensagem do Grupo24
    -Marcos(2005-11-01)


    - RE:R$15,65 : de caixas compenetradas

    Taí, gostei dessa caixa.
    Ela recusa-se a enxergar o que não quer ver, a ouvir o que não quer escutar.
    Da mesma forma que bêbados chatos e inconvenientes, mendigos agressivos ou ostensivamente 'empregatícios', como alguns aqui da rua, que 'moram' e 'trabalham' no local de mendicância.
    No local onde o muro do Jockey Club fica devassado, tornando-se apenas grade, com visão para o interior, 'mora' uma família de indigentes imundos. Eles riem, comem, urinam, defecam, xingam-se e tem lazer ali.

    O Jabor diz que esses super-excluídos são 'os que não deveriam estar ali'. Brincar de remoção até as crianças sabem que é tapar o sol com a peneira. O mesmo que a morte desses chefes do narcotráfico : sai Bem-te-Vi entra Tié-Sangue, sai Gambazinho entra Tatu-a-Pé.

    A coisa chegou ao ponto do padreco de "Cuore Sacro" e da gravidade denunciada em "Jardineiro..." : pedir milagre aqui é pedir pouco...

     


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    [Aeternus:5144] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-01)


    - RE:RE:R$15,65 : de caixas compenetradas

    Também gostei desta caixa de mercado. Profissional.
    Concordo com este endosso do Florião para alguém que "recusa-se a enxergar o que não quer ver, a ouvir o que não quer escutar. Da mesma forma que bêbado chatos e inconvenientes, mendigos agressivos..".( entendi, mas será que não faltou o resto da frase?)

    A primeira leitura da cronica do Almodrácula sugere que a caixa do mercado tem uma dureza insensível que se fecha ao poético e ao respeito pelo próximo. Depois é que se alcança o que Florião de cara denunciou. A invasão da nossa mente e do nosso coração pelos bêbados e mendigos inconvenientes  não tem nada a ver com o respeito que se possa ter pelos que sofrem de alcoolismo ou foram vítimas ou excluídas "do social".


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    [Aeternus:5188] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-04)


    - " a mão"

    Na tule brocada
    Rosa padrão
    Tinindo no frio
    em cetim
    Flor do campo carmim
    Rosa brocada
    Ilusão
    Tesoura saleta
    ajudante perneta
    Pele oculta
    Penugem pelagem
    Falta força à sugestão.

    Qual o pano e desenho
    Contorno de fruição
    Onde se agita mais intima
    Suave, enorme ou a rude mão?

    Cada um a experimenta
    Ao seu modo
    Pinta como pode
    Borda recorta
    Pouco importa...




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    [Aeternus:5191] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-04)


    - RE:

    o corpo

    no ato

    delito

    da pele

    esfinge

    que trama

    poses

    de lena


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    [Aeternus:5192] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-04)


    -

    tolero o que de mim

    não se espraia

    eu verso contraventos

    descamando a pele

    em palavras


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    [Aeternus:5194] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-04)


    - RE: não sei se merece burilo, mas aí vai emenda para que não é soneto.

    Tule brocada
    Rosa carmim
    Tinindo em frio
    cetim
    Flor do campo 
    padronizada
    Ilusão
    Tesoura  saleta
    ajudante perneta
    Pele pelagem
    Falta força à sugestão.
    Qual o pano seu desenho
    Contorno de fruição
    Onde se agita mais intima
    Suave ou a rude mão?
    Cada um a experimenta
    Pinta como pode
    Borda ou recorta
    (Pouco importa) 
    Sua consolidão




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    [Aeternus:5195] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-04)


    - RE:tirando do album

    Tenho ciúme
    do corpo
    da letra 
    que me fascina
    te exorbita
    e me afasta
    de ti, sem remédio.


    Porco delito
    estampado na orela 
    porta em silêncio 
    a marca encarnada
    do assédio.Esse
    barrado. Esse um.

     




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    [Aeternus:5198] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-04)


    - DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

    Xico Sá

    Da agonia da phoda, dos pés que não batem direito lá embaixo, do pau e da buceta que parecem dois inimigos clássicos, dos membros inferiores e superiores desajeitados, dos corações que batem mas não tocam de ouvido, das almas que podem até se entenderem lá nas nuvens, dos corpos que tilintam fogo mas não interagem, da dramaturgia da cama como fim de um grande e interessantíssimo prefácio.


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    [Aeternus:5200] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-04)


    - RE:DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

    Dogville, outro filme com fantasmas interagindo com objetos e traçados inexistentes ( e até hoje me recordo de um reflexo na vidraça do vizinho em frente que informava as horas, ou oferecia os últimos raios do sol numa inclinação própria `a estação do ano, ou nada disso, ou tudo isso ) e de corações que "não tocam de ouvido" e onde as coisas não batem direito...
    Contudo, quando existe dança e graça porque os corpos se harmonizam, nem sempre há corações em sintonia ou almas se entendendo nas nuvens. Até quando tudo isto acontece ( donde existe), a visita ao paraíso será rápida e, às vezes, é quando se dá o desencontro final. Erro de fantasma.
    Nenhum livro vivo requer prefácio porque não é escrito com palavras. Estas só servem para os desencontros da agonia.
    Não sei não. Aquela transa do alfaiate com a roupa de Gong Li não parece mais plena que apenas o que ocorre numa masturbação extática? Aquele vestido produzido por causa de um estupro no qual a mão da Traviatta ( nos dizeres do Gallego) pegou das tripas o coração e virou o rapaz pelo avesso já era uma cópula de corpo, sem alma. Sua reprodução foi como deslizar a mão na luva para fecundar a alma. Existe mais?

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    [Aeternus:5201] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-04)


    - Ísis

    na teia dos cílios

    ábacos contavam

    os segundos

    pausas

    entre a fala

    e o movimento da íris


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    [Aeternus:5202] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-04)


    - RE:Ísis

    Vinde Isis & Osires
    Evidenticos
    Adamantes
    Flores de lisis
    Nos aurizontes
    Da aurosa.
    Metaformosa.

    ( poema antigo)

    Pergunta:
    Conta-gotas
    pesam lágrimas
    nas pestanas
    do seu ábaco?




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    [Aeternus:5203] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-05)


    - depois de jogar tétris

    Quando quero contar dias e anos verifico a média de pontos que obtenho no joguinho de "Tétris" no qual pingam quadradinhos de


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    [Aeternus:5205] Mensagem do Grupo24
    -(2005-11-05)


    - RE:depois de jogar tétris

    como ia dizendo...jogando tétris quando despencam quadrados coloridos arranjados no formato de L, --- ou  I e que precisam ser encaixados. Não alcanço mais a performance de cinco anos atrás, mas tenho progredido num patamar mais humilde. Depois da minha partida de hoje, abri a ultima mail com meu poemeto em resposta ao ábaco do Almodrácula, contaminada pelos encaixes tétricos do jogo anterior.

    Almodrácula propos:

    na teia dos cílios
    ábacos contavam
    os segundos
    pausas
    entre a fala
    e o movimento da íris

    E lhe perguntei:

    Conta-gotas
    pesam lágrimas
    nas pestanas
    do seu ábaco?

    pois associei a ele lágrimas, contas e pérolas, com um arco-iris olhando a paisagem suspensa pelo silêncio. Tentei aquela resposta, mas vi que podia tetrizá-la:

    Contas-gotas                 Contas contas
    de pérolas                      em seu ábaco                   
    supercílio chora              buraco negro
    no seu ábaco                  da pupila               

    Gotas contam                  Pupila oscila
    lágrimas                           repousa na pausa
    na pausa                          borboleta do gesto
    entre os cílios                   sorriso imprensado
    de um  ábaco             
    irisado

    Cantam gotas                
    nas pérolas                      
    cílios
    do ábaco
    contábil 
    do silêncio   
                        

    Gotas contam cantam concha exaspérola  sobrancelha arco da velha em luto. 



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    [Aeternus:5233] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-07)


    - A vida?!

    - A vida

    idiota querido, é uma rameira!

    apaixona por brincadeira

    depois joga na sarjeta o amante ferido

    Todos serão traídos por ela

    Todos cairão de boca na deliciosa boceta

    como moscas nas teias

    não resistindo aos prazeres do sangue

    correndo nas veias!

    Mas espera, inocente imbecil

    logo a promessa transcendente se reduz ao crime vil

    No auge da paixão sublime o infeliz compreende

    que a amada entregou-se apenas por instantes:

    a vida é uma meretriz!

    O preço da hora não diz, amanhã ou agora

    depende do freguês

    mas cada um gozará somente uma vez!

    Depois - é a Despedida

    Saciada a fome da vida ela se irá

    nenhum valor que um homem possa ter aquinhoado

    nenhum nome que possa ser gritado

    fará com que ela olhe para trás...

    outro amante espera, ansioso, para viver o instante delicioso

    Olhem, confesso

    que mesmo eu, um gênio do Mal

    não imaginei nunca nada igual

    maldade tão absoluta!

    Querido, pobre, miserável

    a vida é uma puta!


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    [Aeternus:5234] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-07)


    - RE:A vida?!

    Já recontei aqui um velho cartum da revista The New Yorker no qual há uma tela do Douanier Rousseau representando uma mata viçosa, um beduíno adormecido sendo mirado por um tigre: diante da tela, uma menina pergunta à mãe: " E o que aconteceu depois?". Não sei porque o poema magistral do Almodrácula me fez pensar neste cartum.
    Ali, pelo olho do homem ( mas falando misturado à perspectiva da vida), trata-a  como rameira usando os corpos ao modo dos vírus. Ele cria uma visão densa, impactante e poética do sofrimento causado por este nosso privilégio de viver ( me fez pensar também naquele berço do Nabokov pendendo no abismo).  "Life Urge" é o que Freud descreveu no Além do principio do prazer, citando outro que não recordo quem foi.
    Parabéns, Almodrácula. De mestre.

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    [Aeternus:5235] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-07)


    - Drakul

    Humberto ontem quase conseguiu soltar fogo pelas ventas enquanto assistia um programa anunciado no Animal Planet durante toda a semana. Era uma reportagem sobre dragões...
    Sentei para assistir com ele porque o programa estava  atraente e bem feito, com imagens dos dragões aztecas, chineses, medievais, e de vitrais com São Jorge desembocando na encenação digitalizada de como seriam na época dos dinossauros, um tipo de saurio menorzinho e com grandes asas. Dali a história foi progredindo como relato científico de arqueólogos dos museus em Montana e o da História Natural em Londres, até um convite para investigarem o que poderia serem restos de um ser assemelhado ao dragão encontrado no fundo de uma gruta no meio do frio dos altos Alpes. O fóssil ainda tinha pele, escamas, garras e vísceras. Apresentava asas mais elegantes que as dos pterodáctilos e os ossos eram porosos como os das aves. Os estudiosos foram investigando as características e descobriram que no interior havia uma espécie de bolsa que parecia ter contido gases ( metano e hidrogenio, resultantes do processo digestivo). Tudo quase verossímil, embora de cara houvesse um elemento disparatado: encontraram o fóssil do suposto dragão nos Cárpatos, na Romenia... ou seja, na terra do famoso Conde Drácula, ao qual não fizeram referencia alguma. O mundo digital, a filmagem nos museus... tudo colaborava para uma atmosfera de pesquisa séria. Até que... cansou. Humberto, enquanto se esbaforia sentindo o engodo, fumegava de indignação...

    Enquanto isto, Gallego me deixou na dúvida se o nome do Rosa era Guimarães ou Guimarãos...


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    [Aeternus:5237] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-07)


    - beckett rendell king

    Rendell, quase no final do livro The Keys of the Street , fez uma referencia a Stephen King como quem não quer nada, perguntando-se porque ele não descreveu mangues como aqueles escuros de Londres, infestados de mosquitos e, prosseguindo no mesmo folego, concluiu que talvez sim, talvez ele tivesse escrito sobre os canais ingleses com seus mendigos. Ela não mencionou Beckett. E olhem só, passei dela para ele no "Primeiro Amor" ( promoção Cosaknaify,tradução de Celia Euvaldo).

    "Foi naquele estábulo cheio de bostas secas e ocas, que sucumbiam com um suspiro ao serem beliscadas, que pela primeira vez na minha vida, eu diria com prazer a última se tivesse morfina à mão, tive que me defender de um sentimento que se arrogava pouco a pouco, em meu espírito glacial, o horrendo nome de amor (...)
    Não vejo nenhuma ligação entre estas observações. Mas que existe uma ligação, e até várias, não há duvida, para mim. Mas quais? Sim, eu a amava, é o nome que eu dava, que ainda dou, ai de mim, ao que eu fazia, naquela época (...)
    Portanto eu era capaz, apesar de tudo, de dar um nome ao que eu fazia, quando me via de repente escrevendo a palavra Lulu numa bosta velha de novilha, ou quando, deitado na lama ao luar, eu tentava arrancar urtigas sem quebrar o talo.
    Quanto a saber se seu rosto era bonito, ou se tinha sido bonito, ou se tinha chances de ficar bonito, confesso que eu era incapaz.  Vi rostos em fotos que eu poderia talvez ter chamado de bonitos, se tivesse alguns dados sobre a beleza.  E o rosto do meu pai, em seu leito de morte, tinha me feito entrever a possibilidade de uma estética do humano.  Mas os rostos dos vivos, sempre fazendo trejeitos, com o sangue a flor da pele, podem ser descritos como objetos? Eu admirava, apesar da escuridão, apesar do meu incômodo, o modo  como a água pardada, ou que corre lentamente, se ergue, como que sedenta, em direção à que cai.

    No último número da revista Istoé havia uma reportagem sobre "instalações" com a foto de uma na qual uma pilha de móveis surgia a partir de uma porta aberta numa parede lisa e enorme. Eis que o vagabundo de Beckett se empenhou nisso antes do artista moderno:
    "Olhei para o quarto com horror. Uma tal densidade de móveis ultrapassa qualquer imaginação. Quer dizer que o vi realmente em algum lugar, aquele quarto(...) Comecei a tirar os móveis pela porta que dava para o corredor. Ela ficou olhando. Estava triste, pelo menos é o que suponho, pois no fundo não sei de nada. Perguntou o que eu estava fazendo, mas sem esperar uma resposta, creio.  Tirei-os um a um, e até dois ao mesmo tempo e os empilhei no corredor, junto à parede no fundo.  Havia centenas deles, grande e pequenos. No final, chegam até a frente da porta, de modo que não se podia mais sair do quarto, nem,com maior razão, entrar por ali."

    "Sabe onde fica o banheiro?, disse ela. Tinha razão, eu tinha me esquecido disso.  Aliviar-se na cama dá prazer no momento, mas depois fica desconfortável.  Me dê um vaso noturno, eu disse. Gostei muito, enfim bastante, durante bastante tempo, das palavras vaso noturno, elas me faziam pensar em Racine, ou em Baudelaire, não sei mais qual deles, nos dois talvez, sim, sinto muito, eu era uma pessoa lida, e por meio deles eu chegava lá onde o verbo pára, até parece Dante."

    Li o livro, que é bem curto, com papel asperozinho e poroso mas agradável ao tato, algo prestes a romper-se pelo perfurado das margens.  Que espanto gostar tanto de Beckett. Não o lia há mais de quinze anos, foi surpreendente mergulhar nos canais daquela fala interminável,  joyceana, como se pudéssemos nos tornar vagabundos levados pelo fluir das letras. Descrevem-no como nihilista ( já teorizei mais concisamente sobre isto algures), mas não é não. A vida pulsa nele todo tempo, a morte como pano de fundo e a falta, mas tudo se move, se experimenta e se revira. É tão pouco nihilista como Shakespeare quando descreve que a morte não existe, apenas se substitui um cadáver pelo fervilhar dos vermes que vem devorá-lo ( acho que foi no Hamlet ) .


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    [Aeternus:5238] Mensagem do Grupo24
    -Marcia Adorno(2005-11-07)


    - A dor do Conde

    Bem, acabo de mandar uma mensagem que tentei mandar há alguns dias e não consegui. Por isso ela já foi com sabor de antiga.

    Leio agora o poemador do Conde e vejo que a felicidade mais uma vez durou a eternidade de um instante. Para ninar um coração dolorido, encaminho uma trovinha:

    O que dói tanto?

    Sua ausência ou meu desencanto?

    Espelho partido

    Multiplicando lágrimas

    Desvãos da vida

    Abismos que nos acolhe

    No útero da realidade.


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    [Aeternus:5240] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-11-07)


    - RE:beckett rendell king, ps sobre limites rompidos...

    A reportagem da Istoé (número 1882) traz, como título, "Limites Rompidos" e descreve o 29  panorama da ARte Brasileira para "retomar a reflexão sobre a visualidade nacional".  A instalação Beckettiana chama-se "A Casa" e o artista é o carioca José Bechara. Em sua obra  "o mobiliário doméstico é expelido de um cômodo" e, segundo o artigo, seu intuito é de "estar a serviço da inversão e da descontextualização de hábitos cotidianos".

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    [Aeternus:5269] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2005-11-09)


    - RE:RE:DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

    Só ontem à noite assisti a Dogville. "Vi" (claro, entre aspas) mil coisas ali, mas nada que eu consiga associar ao que diz o Xico Sá... a não ser quanto ao fato de que abstrações também (ou principalmente) podem ser intransponíveis, muito mais do que corpos (que, no plural, segundo diz a Física, não ocupam o mesmo lugar no espaço). Mas em Dogville essa intransponibilidade do imaginado (melhor não chamar de imaginário, porque, nessa nomenclatura lacanina - !! - a Vilinha-do-Cão se parece mais com o simbólico) não é final, é só vetorial. É só linguagem, é preciso ver o que é que o cineasta diz com as "palavras", "acentos", "pontos" e "vírgulas" que usa. Será que presta, esse discurso?

    Das leituras que alcancei diante de Dogville, nenhuma me deu certeza de que o filme seja bom. Aliás, eu não vi muitas diferenças entre Dogville e Mullholand Drive... Dogville é uma cidade de sonho e a outra ganhou, no Brasil, o nome de Cidade dos Sonhos. "Pesadelo" seria uma palavra melhor para ambos os filmes.

    Mas me pareceu que o Von Trier pretende que, se Shakespeare foi moderníssimo quando a modernidade só estava engatinhando, ele, Von Trier, também pode ser pós-moderníssimo quando o cadáver da modernidade ainda tá quente.

    É muito moderno, por exemplo, sugerir, como ele sugere, que a moralidade é invenção/ilusão dos homens. É verdade. Mas é pós-moderno materializar esse microcosmo metalinguístico - não só porque Dogville é alegoria para, no mínimo, um país inteiro, mas porque o filme se pretende "engatado" (aqui também é melhor "engatado" do que "engajado") a uma MEN talidade, por sua vez muito característica de um momento (pós)histórico - em que o "discurso" não é entendido como individual, mas como um DNA, em que a singularidade não passa de uma "posição", como no funcionamento de uma célula-tronco que se torna aquilo em que se aloja. Algozes e vítimas têm o mesmo "DNA" MEN-tal. E tudo é relativo. Muito "pós", isso tudo. Aliás, pós-tudo: pós-moderno, pós-histórico, pós-filosófico, pós-moral...

    É "pós" inclusive na habilidade (ou pretensão) de fazer parecer uma novidade uma idéia que na verdade não é nada original - como esse retorno ao teatro que na verdade é vetor para um retorno à literatura, um retorno feito... cinematograficamente? É interessante como Ben Gazarra é o cego aficcionado pela óptica, e como o filme nos deixa tão cegos quanto o personagem ao NÃO mostrar a "belíssima" paisagem que se descortina atrás das cortinas... Não sei se dá pra chamar isso de uma sofisticação da meta-linguagem (porque o próprio filme não é apenas um filme, é também um livro, o próprio livro não escrito pelo Tom Edison - óia o nome do gajo!), mas então chamemos desta vez não de curto-circuito, mas de circuito-fechado (porque, se é uma "meta-linguagem", ela o é epicinematograficamente).

    Assim como o mendigo (o excluído) de Mullholand Drive é a imagem cuspida e escarrada (há quem diga que essa expressão popular é derivação de outra, "esculpida em Carrara") da fusão entre Cristo e o demônio ("parente" também de O Arquiteto de Matrix 2), todos nós, espectadores, adoramos quando A GRAÇA muda de idéia e resolve "apocalipsizar" o vilarejo todo, como um anjo/soldado que segue as recomendações do pai/Pai/Gangster/Deus trazido ali pelos próprios pobres-diabos vítimas-algozes... E o espectador é levado a lembrar-se das vezes em que, diante da iniquidade deste mundo, orou a Deus pedindo o apocalipse sem perceber que ele (o apocalipse) já esteva na Terra na forma de Hitler...

    Seria ótimo se houvesse um tom crítico, mas me parece apenas nihilista, não consegue sair do... circuito-fechado. Se a lição fenomenológica nos ensina que a verdadeira inovação (estrutural) viria de se quebrar a dialética, não encontrei nenhum "ponto de fuga" que nos ajudasse a mudar a perspectiva autofágica, sui-hetero-cida.

    E é interessante notar como Von Trier se enrosca (ou, pra ser otimista, digamos: é interessante notar como os PERSONAGENS de Von Trier se enroscam) nas questões morais... (ou melhor seria dizer moralistas?) tanto quanto os sociopatas. Desde sua Bjork drowning in the sea of guilt que a gente percebe o quanto o diretor se fascina com a angústia da culpa, com o desejo de redenção/gozo pela privação, depois pela dor, culminando na morte. (IRCH! Odiei tanto, mas tanto, mas taaannnnnnnnto o filme Dançando no Escuro... e ói o "escuro" aí de novo, no Ben Gazarra).

    O filme termina com o narrador sugerindo que tudo aquilo remeteria a uma questão ao mesmo tempo óbvia e evitada por todos, inclusive pelo próprio "pudor" do filme, ou seja: ele não ENUNCIA a questão, mas deixa à coragem do espectador formulá-la ou não.

    Vocês conseguiram deduzir e formular a tal questão? Ou ela é essa, de que todos ligamos pro gângster cada vez que oramos a Deus?

    Abração!

    D.


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    [Aeternus:5271] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2005-11-09)


    - Dogville e Cidade dos Sonhos Blearghhhhhhh

    Não entendi como se começou a falar de "Dogville" na lista de Trovinhas, mas vá lá: Bem  associados, Dogville e Cidade dos Sonhos, dois produtos de esforço intelectualóide de má-fé sartreana de "artistas" afetados/desafetivados do pós-pós-modernismos. Se já acertaram antes, Von Trier em "Ondas do destino" e Lynch em "Homem Elefante", ou memso em parte no "Veludo Azul", são exemplo de filhos da coruja cuja mamaãe coruja os acha os mais belos da floresta e asim os designa ao pedir para que o compadre gavião não os devore. Claro que são devorados pois eram os filhotes mais feios que o compadre encontrou. Só a mamãe os cahava lindinhos. Muita gente acha esses dois excrescentes como "o máximo!", iludidos com sua pós-pós mudernidade narcísica, reciclando Buñuel (mal) no caso do Lynch e Brecht/Durenmatt (mal) no caso do VonTrier. Enganam com sua persuasão de mudernidade, mas não mje convencem nem um puco com suas charadinhas que parecem aquelas ostras difíceis de abrir, mas sem pérolas. Cansaço, cansaço, cansaço... e cinismo na defesa de um nihilismo fascista (Von Trier) ou na exploração de um inconsciente de freud de botequim (Lynch) com "saídas" dramáticas fáceis de "deus ex machina" (o papai mafioso de Dogville ou a exploração das fantasias pós-mortem da personagem (prefiro Nelson rodrigues no terceiro ato de "Vestido de Noiva", criticado na época porque "Alaíde", a personagem morria e suas vivências ou a peça prosseguia. Mas Nelson não propunha um nonsense que se "explicasse" com o recurso "morreu e nem sabia". Tô fora! é muito mau hálito intelectual com creme dental crest sem conseguir disfarçar.

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    [Aeternus:5321] Mensagem do Grupo24
    -Encantador de Serpentes(2005-11-10)


    -

    Encanta, Senhor, encanta;
    Os corações magoados,
    ressentidos e mal-amados
    Que não querem mais cantar.

    Transmuta em vacina, o veneno;
    Chacina o pecado supremo
    Que foi, um dia, desencanto.

    Reencanta, Senhor, reencanta
    Os sonhos felizes de dias alegres,
    Encantos ainda por realizar...


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    [Aeternus:5716] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-12-25)


    - Ê mundão..

    the bells joyfully ring

    the echoes of a lost Russia

    sadly beat.

    clitoris anima mundi

    o sobre que sobre o sub

    se funde

    em algum lugar

    que sei que existe


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    [Aeternus:5717] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-12-25)


    - RE:Ê mundão..

    ê mundinho, Ê Mundão
    vai na escala do botão
    Cantoria, cantochão...

    Não existe moto perpétuo,
    Sistema ecológico
    em equilíbrio perfeito da espécie.
    Por mais que tudo mude
    A mesma coisa permanece
    (incluindo-se o que vale a pena).
    Por mais que nada mude,
    Se passa a diferença
    ( incluindo-se o que vale a pena).
    Resta então o que é antigo:
    Caridade, Esperança
    Fé e bemquerença
    Messianica




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    [Aeternus:5718] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-12-25)


    - que não fique vazio...


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    [Aeternus:5721] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-12-25)


    - RE:que não fique vazio... nem abandonado?


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    [Aeternus:5722] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2005-12-25)


    - Catedral/bule/cogumelo atômico

    Gostei da foto da catedral. As nuvens parecem fumaça saindo de algum objeto de combustão. Bela sacada.

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    [Aeternus:5723] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2005-12-25)


    - RE:Catedral/bule/cogumelo atômico

    A fotografia foi tirada pela neta Juliana.  Percebi a peculiaridade das nuvens no topo da curvatura dos arcos da catedral sugerindo incêndio ou explosão. Ela gostará de saber do seu elogio!
    Algumas vezes (bastante freqüentemente, aliás) a Catedral fica fechada aos turistas ou fiéis por estar sendo decorada para algum casamento.
    Nesta noite de Natal não parecia haver qualquer movimento ou iluminação na categral, mas o tapete vermelho e alguns vasos com flores é indício da atividade das firmas que atualmente dominam tiranicamente o mercado das festas na corte...

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    [Aeternus:6328] Mensagem do Grupo24
    -Olavo Bilac(2006-02-22)


    - Delírio

    Nua, mas para o amor não cabe o pejo

    Na minha a sua boca eu comprimia.

    E, em frêmitos carnais, ela dizia:

    – Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

    Na inconsciência bruta do meu desejo

    Fremente, a minha boca obedecia,

    E os seus seios, tão rígidos mordia,

    Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

    Em suspiros de gozos infinitos

    Disse-me ela, ainda quase em grito:

    – Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

    No seu ventre pousei a minha boca,

    – Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,

    Moralistas, perdoai! Obedeci...


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    [Aeternus:6330] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-02-22)


    - RE:Delírio

    Por que pedir perdão, logo aos "moralistas"?
    Só faltou a recíproca para a perfeição...

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    [Aeternus:6331] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2006-02-22)


    - poème en bleu

    Parabéns, G,. você conseguiu não enumerar as sessenta e nove, ou mais, razões para o poema en bleu atingir a perfeição... 

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    [Aeternus:6332] Mensagem do Grupo24
    -Luiz |Fernando Gudes Gallego.(2006-02-22)


    - RE:poème en bleu

    Pronto! Com Guedes e Gallego no sobrenome agora o Visitante já me promoveu a G. Mais um pouco e viro .G ?

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    [Aeternus:6363] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-02-24)


    - RE:Delírio

    O soneto do Bilac ainda me espanta: li em voz alta e entre risos deduzi que;
    1) os parnasianos - apesar dos circunlóquios - também trepavam ainda que retentivamente
    2) e que numa trepada parnasiana, podia haver o boquete circunloquial  (igualmente parnasiano).
    3) até os barrocos, como o "Boca de Inferno" eram mais diretos em seus objetivos, termos chulos e sucessos, indo aos finalmente sem tantos entretantos

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    [Aeternus:6364] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2006-02-24)


    - RE:RE: Investidas linguísticas

    Esse órgão melado, é, talvez, o mais divertido brinquedo erótico de todos!

    E uma orelhinha, hein?... Ah! Hum! Aquela carninha delicada, dando voltas e mais voltas sobre si mesma, aquele orifício nos levando direto ao cérebro das mulheres... puxa!

    PS: Acho impossível que as fêmeas não se comovam com um assédio do gênero! Alguma coisa tem de estar errada!


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    [Aeternus:6366] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-02-24)


    - RE:RE:RE: Investidas linguísticas

    Boquete circunloquial? Hmmm. E ninguém nunca me explicou, já que estamos no campo das investidas linguísticas, porque no Brasil se fala de "chupada" quando, em inglês, o projeto é mais eólico na curtição da "soprada" ( "a blow job"). Se bem que é lá também que tem delatores da garganta profunda.

    Alisar os caracóis dos cabelos, vá la! Contudo, circunvoluções aurais me dão aflição nesta hora de formiguinha, temo os tamanduás apreciadores de palmiers...


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    [Aeternus:6367] Mensagem do Grupo24
    -Conde Drácula(2006-02-24)


    - RE:RE:RE:RE: Investidas linguísticas

    Pô, Jansyta!

    Sua mensagem me deixou bastante triste!

    Imagine se todas as fêmeas começam a reclamar das nossas "investidas linguísticas"! O mundo vai ficar muito sem graça!

    Não nos tire esse prazer!

    Claro, reconheço que muita gente pode estar sendo... digamos... "pincelada" em excesso. Pode acontecer. Nem todos os machos têm noção do quanto babam por suas fêmeas. Mas você não concorda que, justamente por isso, a orelhinha deve ser muito especial, deixando o macho "úmido" daquele jeito?!

    Pense nisso!

    Olha, asseguro que atrás de uma língua inocente sempre vem uma criança afim de brincar, com o melhor espírito esportivo! Considere a singeleza de minhas palavras! Antes de se atemorizar com a brincadeira, sugira ao macho à disposição que a faça diferente, de forma mais calma, explorando com mais delicadeza o adorável aparelho auditivo.

    Não o reprima! Não o traumatize! Vai que ele pára de usar a língua de vez e, aí, eu juro, quem vai sentir falta do instrumento é o mulherio.

    Orientação. Guiar a moçada pelo bom caminho das curvas. Inclusive porque o que não é bom para a orelha pode ser ótimo noutras paragens, é ou não é?!

    Mulherada: não nos deixem sós e de língua de fora!


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    [Aeternus:6368] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-02-24)


    - RE:RE:RE:RE:RE: Investidas linguísticas

    Não fique triste, há muitas orelhinhas em oferta.

    Bem sei que atrás de uma lingua inocente vem sempre uma criança e que elas se divirtam bastante, Condesito. 
    Prefiro ficar só prestando ouvidos e sei que não farei falta no jogo geral.


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    [Aeternus:6608] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2006-03-15)


    - Mar Absoluto

    Mar Absoluto
    Cecília Meirelles

    Foi desde sempre o mar,
    E multidões passadas me empurravam
    como o barco esquecido.

    Agora recordo que falavam
    da revolta dos ventos,
    de linhos, de cordas, de ferros,
    de sereias dadas à costa.

    E o rosto de meus avós estava caído
    pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
    e pelos mares do Norte, duros de gelo.

    Então, é comigo que falam,
    sou eu que devo ir.
    Porque não há ninguém,
    tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

    E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
    Tenho de levar-lhes redes de rezas,
    campos convertidos em velas,
    barcas sobrenaturais
    com peixes mensageiros
    e cantos náuticos.

    E fico tonta.
    acordada de repente nas praias tumultuosas.
    E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
    "Para adiante! Pelo mar largo!
    Livrando o corpo da lição da areia!
    Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
    Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
    A solidez da terra, monótona,
    parece-mos fraca ilusão.
    Queremos a ilusão grande do mar,
    multiplicada em suas malhas de perigo.

    Queremos a sua solidão robusta,
    uma solidão para todos os lados,
    uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
    e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

    O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
    que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

    O mar é só mar, desprovido de apegos,
    matando-se e recuperando-se,
    correndo como um touro azul por sua própria sombra,
    e arremetendo com bravura contra ninguém,
    e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
    por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

    Não precisa do destino fixo da terra,
    ele que, ao mesmo tempo,
    é o dançarino e a sua dança.

    Tem um reino de metamorfose, para experiência:
    seu corpo é o seu próprio jogo,
    e sua eternidade lúdica
    não apenas gratuita: mas perfeita.

    Baralha seus altos contrastes:
    cavalo, épico, anêmona suave,
    entrega-se a todos, despreza ritmo
    jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
    cego, nu, dono apenas de si,
    da sua terminante grandeza despojada.

    Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
    água de todas as possibilidades,
    mas sem fraqueza nenhuma.

    E assim como água fala-me.
    Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
    e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

    Não me chama para que siga por cima dele,
    nem por dentro de si:
    mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
    Não me quer arrastar como meus tios outrora,
    nem lentamente conduzida.
    como meus avós, de serenos olhos certeiros.

    Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
    plástica, fluida, disponível,
    igual a ele, em constante solilóquio,
    sem exigências de princípio e fim,
    desprendida de terra e céu.

    E eu, que viera cautelosa,
    por procurar gente passada,
    suspeito que me enganei,
    que há outras ordens, que não foram ouvidas;
    que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
    e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

    Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
    mas outro, que se parece com ele
    como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
    E entre água e estrela estudo a solidão.

    E recordo minha herança de cordas e âncoras,
    e encontro tudo sobre-humano.
    E este mar visível levanta para mim
    uma face espantosa.

    E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
    E é logo uma pequena concha fervilhante,
    nódoa líquida e instável,
    célula azul sumindo-se
    no reino de um outro mar:
    ah! do Mar Absoluto.

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    [Aeternus:6611] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-03-16)


    - RE:Mar Absoluto

    Cecilia nunca é demais, embora este poema não esteja entre os meus preferidíssimos dentre tanta coisa maravilhosa que se encontra meio escondida e subestimada na obra dela. O tom épico que ela conseguiu nO Romanceiro da Inconfidência ainda me parece titubeante entre o intimismo e a grandiloqüência neste poema, com passagens maravilhosas, sem dúvida; mas não me parece de todo bem resolvido poética e estilisticamente. Mas quem sou eu que nem sei versejar nem trovar para reclamar da grande poeta que Cecília é? Aliás, minha favorita na língua portuguesa do século XX, com todo respeito ao Drummond e João Cabral. Mas prefiro Cecilia que me lembra Lorca, por exemplo. Mas está acima de comparações.

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    [Aeternus:6922] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2006-04-10)


    - ê marujada

    Eia, volteia o barco

    puxa no nó do cordel

    golpeia a buja

    prum lado ou o outro

    vam'arujar

    que já pulo desse píer

    e vou junto

    e pandegar na calmaria

    eia espuma de sal!

    joga a bóia velhacada

    que a bonita me belisca

    nos aquiles.

    Pulo dentro, cambada

    que o duro do convés é o porto


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    [Aeternus:6928] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-04-10)


    - RE:ê marujada

    Guto dixit:

    Pulo dentro, cambada
    que o duro do convés é o porto


    Tira a vela do caminho
    Camba, orça e se desfaz 
    Larga o horto,
    Enfrenta o mar?

    O duro do convés é o porto?
    Vale naufragar na onda
    Evitar o choque 
    Da brincadeira profonda.





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    [Aeternus:6929] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2006-04-10)


    - RE:RE:ê marujada

    Cambio a serpente traiçoeira

    pela visguenta moréia

    e a orca imprevisível

    pega o copo,

    abre a pipa e baixa o nível

    da bagaceira carvalhada

    pra garganta e pra lanhada

    que a aragem é calmaria

    naufragar, pois,

    não sem antes

    sufragar o porto

    que porto, pra quem escolhe,

    até mesmo o fundo do mar


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    [Aeternus:6931] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-04-10)


    - RE:RE:RE:ê marujada

    O marujo dito cujo
    naufragou de amor por El Rey
    ao pé da letra da ley

    O marujo jogo sujo
    navega de amor ao mar
    a vida é pra navegar 
    pra dançar, baixar o nível
    todo programa crível
    que sua vela encorpa
    acesa sem iluminar
    espouca que nem sabujo



       


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    [Aeternus:7065] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-04-22)


    - letra de Herminio Bello de Carvalho

    Estrada do Sertão
                                  (sobre melodia de Joaão Pernambuco)

    Coisa que não arrenego
    nem tão pouco desaspega
    é ter gostado de você.
    Foi gostar desenxavido,
    encruado, recolhido,
    de ninguém se aperceber.
    Matutando vou na estrada,
    nos meus óio a passarada
    faz um ninho prá você.
    Juriti me espreita triste
    e a jandaia não resiste,
    chora junto por você

    Nos teus óio faz clarão,
    é um verde, um azulão,
    tiê-sangue, furta-cor
    que me dá desassossego,
    me suga que nem morcego
    mangando que é beija-flor.
    Não me encrespe a vida assim,
    já me basta o que de mim
    essa vida caçoou.
    Não me faz essa graçola
    de me abrir essa gaiola
    prá depois não me prender.

    Canta firme, juriti,
    vê se entoa uma canção.
    Sabiá me roça aqui
    bem de junto ao coração.
    Canta aqui, meu colibri,
    vê se tem pena di eu.
    Quero ser seu bacuri,,
    quero ser de vosmecê.
    Quanto mais cê me desfeita e me despreza,
    mas me arrasto prá você.


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    [Aeternus:7067] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-04-22)


    - RE:letra de Herminio Bello de Carvalho


    Nossa, não ouvia falar do Herminio Bello de Carvalho desde os tempos da vizinha com o Paulo da Violinha. Uma reviravolta de gerações e, no meu caso apenas as penas trazem uma gerinavolta com direito a, na ida, a uma gaivolta. Desde que ocês vão devagar com andorinhor. 

    Que passaraio do rouxinol bem roxo, ao curió curioso, da milonga da araponga a uma rosa airosa!!!

    ( deu pra notar que estou sem assunto, e adorei a lembrança do HBC? E que estou meio aposentada só viajando pelas letras? :)

    No site do Nabokov todos citam as voyeles da iris de Rimbaud para estudar a senestesia (synesthaesia) do escritor russo-americano que amanhã faz aniversário. Vão de palavra a palavra, letra a letra. Então perguntei pros linguistas de plantão que citam de Saussure a Platão, sonhando com a sombra das palavras: The attention given to "word" (and not to "sentences") made me wonder if, beside vowels, we might literaly distinguish hues in a paragraph... a purple aroma in a Nabokovian comma, a whiff of seasand in a semanteme?  Depois eu conto o que responderam. Um participante, que nunca me viu mais magra, disse que sonhou que entrou numa livraria e achou meu nome (  "a mellifluous Jansymello" ) na capa de todos os livros. Que tal como um esboço de possessão digital?  

    Descobri um escritor de contos policiais, inglês também, da geração dos Beatles e dos modernos estertores do iluminismo. Estou lendo "Perto de Casa" de Peter Robinson, da coleção Negra da ed. Record. Parece bom.


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    [Aeternus:7071] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-04-22)


    - RE:RE:Paulinho da Viola com Herminio Bello de Carvalho

    Herminio deu muito trabalho para o Paulinho da Viola ao colocar uma letra exaltando a Mangueira num samba do Paulinho, sabidamente portelense desde a concepção.
    O samba é um clásico na voz enluarada da Elizete Cardoso: "Vista asim do alto /  mais parece um céu no chão / ... Sei lá... / Em Mangueira a poesia, / feito o mar, se alastrou / e a beleza do lugar / prá se entender / tem que se achar / que a vida não é só isso que se vê, / é um pouco mais... / que os olhos não conseguem perceber / e as mãos não ousam tocar / e os pés recusam pisar / Sei lá, não sei... / Sei lá não sei.../ Não sei se toda a beleza / De que lhes falo/ Sai tão somente do meu coração (...) "

    Ainda bem que por causa disso o Paulinho teve que ajustar contas com a Portela e compôs, sozinho, "Foi um Rio que passou em minha vida" aludindo à cor azul (e branco) da Portela.
     " (...) Era dia de carnaval / Eu carregava uma tristeza /Não pensava em novo amor / Quando alguém que não me lembro anunciou / Portela, Portela / O samba trazendo alvorada / Meu coração conquistou // Ah, minha Portela / Quando vi você passar / Senti meu coração apressado / Todo o /meu corpo tomado/ Minha alegria a voltar /Não posso definir aquele azul/ Não era do céu / Nem era do mar/ Foi um rio que passou em minha vida/ E meu coração se deixou levar"

    Mas a obra-prima dos dois, Herminio e Paulinho talvez seja "Timoneiro"


    Não sou eu quem me navega
    Quem me navega é o mar
    Não sou eu quem me navega
    Quem me navega é o mar
    É ele quem me navega
    Como nem fosse levar
    É ele quem me navega
    Como nem fosse levar

    E quanto mais remo mais rezo
    Pra nunca mais se acabar
    Essa viagem que faz
    O mar em torno do mar
    Meu velho um dia falou
    Com seu jeito de avisar:
    - Olha, o mar não tem cabelos
    Que a gente possa agarrar

    Não sou eu quem me navega, etc

    Timoneiro nunca fui
    Que eu não sou de velejar
    O leme da minha vida
    Deus é quem faz governar
    E quando alguém me pergunta
    Como se faz pra nadar
    Explico que eu não navego
    Quem me navega é o mar

    Não sou eu quem me navega
    Quem me navega é o mar
    É ele quem me navega
    Como nem fosse levar

    A rede do meu destino
    Parece a de um pescador
    Quando retorna vazia
    Vem carregada de dor
    Vivo num redemoinho
    Deus bem sabe o que ele faz
    A onda que me carrega
    Ela mesma é quem me traz

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    [Aeternus:7072] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-04-22)


    - RE:RE:RE:Paulinho da Viola com Herminio Bello de Carvalho

    Hoje tive uma surpresa como de infancia.  Tinha que comprar um CD para presentear um amigo estrangeiro e, embarcando no mar do Gallego, pensei em escolher algo do Herminio B.C.  Chegando na Livraria Cultura fiquei na dúvida. Havia um "Timoneiro" ( do próprio) e outros, d´"As Damas do Hermínio".
    Sem conseguir desistir da Clementina de Jesus, acabei comprando todos, mais um do Alceu Valença que falava de ubu cajá e do olhar noturno da jabuticaba pronunciado de boca suculenta. 
    O preço tava salgado e nem tinha toda grana comigo: pedi à filha que emprestasse. Ela deu o cartãozinho dela e... sinos!!!! apitos!!!
    Fomos premiados com um f12. Nunca tinha ouvido falar daquilo: os objetos escolhidos sairam totalmente grátis.
    Deve ser assim quem coloca uma moeda na máquina e chovem todas em cima.  
    Ou aqueles Oóo e Aaaaah ridículos que escapam quando vemos fogos de artifício.


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    [Aeternus:7077] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2006-04-23)


    - RE:RE:RE:RE: cds de Herminio Bello de Carvalho

    Que beleza! Comprar e receber bônus de ter tudo de graça!!! Tudo de gracinha!!! Também quero!!! Vale os "ÓOOOs" e "Áaaaaaas" de bestificados com a sorte que raramente dá uma surpresinha dessas!
    Pena que vc não tenha se referido ao CD que eu havia comprado anteontem e que me fez colcoar a letra de "Estrada do Sertão" como mensagem para vocês curtirem ainda que sem a a melodia belíssima do Joaão Pernambuco.
    Este CD do Herminio, "Lira do Povo" que comprei é - infelizmente apenas - um resumo de uma antigo LP duplo que eu nunca tinha ouvido falar, imaginem! com vários intérpretes para músicas que o Herminio letrou. Meu point of no return para adquirir este CD foi ver que uma faixa tinha como cantante minha musa (e da Bossa Nova), a Nara Leão, numa música que igualmente eu desconhecia, mas o benefíco foi além disto.
    A Nara canta um sincopadíssimo chorinho moderno com letra irreverente na linha "mulher de malandro" que ela sempre gostou de gravar, incluindo o pedido feito a Chico Buarque de algo nesta linha que redundou na fantástica "Com açucar, com afeto" (fiz seu doce predileto prá você parar em casa... qual o que...), além das clássicas antigonas já na épóca e que ela regravou:
    "Meu moreno fez bobagem, /maltratou meu pobre coração, /aproveitou a minha ausência / e botou muloher sambando no meu barracão..." do Assis Valente,
    "Quem é que muda os botõezinhos da camisa, /quem é que dá um adeuzinho no portão, /quem é que nunca faz barulho quando pisa /e quando pedes qualquer coisa não diz "não"? /Quem é que  sempre dá o laço na gravata, /quem é que arruma teus papéis na escrivaninha, /quem é que faz o seu bifinho com batatas / e estraga tanto as lindas mãos lá na cozinha? E no entretanto é só você que não me liga / e ainda descobre sempre em mim tanto defeito / mas é talvez por que sou muito tua amiga / que nunca estás por isso mesmo satisfeito..." do Custódio Mesquita
    "Encontrei o meu pedaço na avenida de camisa amarela / cantando a Florisbela, ôi, a Florisbela / Convidei-o a voltar prá casa em minha companhia / Exibiu-me um sorriso de ironia / e desapareceu no turbilhão da Galeria (...)/ Voltou às 7 horas da manhã, mas só na Quarta-Feira / Cantando a Jardineira, ôi, a Jardineira / Inda zonzo me pediu um copo d'água com bicarbonato / O meu pedaço estava ruim de fato / pois caiu na cama e não tirou nem o sapato / Roncou uma semana, despertou mal-humorado, quis brigar comigo / que perigo, mas não ligo / O meu pedaço me domina, me fascina ele é o tal, por isso não levo a mal..." do Ary Barroso
    No CD do Heminio a coisa é mais braba ainda, saindo do bom-mocismo e do bom gosto tradicional: Primeiro disse que eu fui
    a sua grande cartada
    e que sem mim sua fama
    andaria enxovalhada
    Que gostava de me ver
    de seu suor encharcada
    e feito morcego soprou
    a mordida arroxeada
    depois me desfeiteou
    e me cobriu de porrada.

    Um dia desses voltou
    com ares de arrependido
    e tantas fez e aprontou
    que me arranquei o vestido
    e o adulei sem pudor
    e dividi seu veneno
    aí pintou e bordou
    e perdi todos os brios
    e me fez rilhar dentes
    que nem cachorra no cio

    Logo depois me largou
    na tal rua da amrgura
    não sem antes me jogar
    muita água na fervura
    fechou depois seu enredo
    com uma chave de ouro
    dizendo ter a certeza
    que eu lhe trouxe mau agouro
    Ai, meu Deus, nunca pensei
    ouvir um tal desaforo!

    Além da Nara, há a voz rascante da Nora Ney, a elegância afinadíssima da Zezé Gonzaga, uma Elizete Cardoso mais grave, uma boa interpretação mas nem tanta afinação (ela semitona) da Nana Caymmi na letra feita em cima do Prelúdio no. 3 para Violão do Villa-Lobos (onde o Ney Matogrosso dá um show de afinação e extensão vocal - ainda que a interpretação soe entre fria e afetada - numa outra gravação), Ademilde Fonseca já quase sem voz mas ainda dando seus breves agudinhos e com boa velocidade em "Noites Cariocas" (a gravação da Gal é pefeita em outro disco), Zé Renato, Alaíde Costa, breve participação sempre surpreendente da Cleemntina de Jesus e os agudíssimos da Tetê Espíndola num CD cujos altos e baixos rendem uma média acima da média e letras sempre criativas e "diferentes" do esperado por parte do heminio.
    Acho que Jansy se referiu a uma série de Cds chamada "Timoneiro" que reeditou em CDs alguns LPs onde a tônica eram músicas de co-autoria do Herminio ou LPs que ele produziu, sempre com enorme bom-gosto.
    A Elizete, sem um bom produtor era capaz de gravar repertórios indigentes, aquém de sua beleza vocal, mas com Herminio gravou seus melhores discos, lementavelmente não reeditados em CDs, exceto pelo "Elizete sobe o Morro" que saiu ensta série. Mas ficam faltando o "Muito Elizete" e o "A Enluarada" onde ela gravou, melhor do que ninguém a "Melodia Sentimental" do Villa-Lobos, além de "Carinhoso" com Pixinguinha no sax, um antologia de sambas prá Mangueira com Clementina e Cartola, "Demais" do Tom à capella, etc etc. Como é que pode isso tudo estar encerrado em LPs velhos e cheios de chiado de tanto que foram "lixados" nas agulhas das antigas "eletrolas"?

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    [Aeternus:7078] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-04-23)


    - RE: aniversários de Shakespeare e Cervantes e nabokov

    Hoje é um dia cheio de gente importante aniversariando!  E amanhã também haverá, com a Elena, minha sétima neta que nascerá no mesmo dia que minha mãe!

    Responderam a minha gracinha sobre sinestesia de modo bem engraçado

    :In a recent posting about Nabokov's synaesthesia, Jansy Mello speculated
    about the possibility of detecting "a purple aroma in a Nabokovian
    comma."  For my own birthday last month, a witty and ingenious friend
    sent me a vial of "Lolita" perfume oil, a love potion manufactured by
    the Black Phoenix Alchemy Lab.  Their website describes the scent as
    follows: "Bright, sweet and youthful, but swelling with a poisonous
    sexuality.  Glittering heliotrope, honeysuckle, orange blossom and lemon
    verbena."  I would add that it has a distinct hint of lollipop (from the
    honeysuckle and orange blossom, perhaps?).  At least my friend didn't
    find it fitting to send me "Jail Bait," which evokes "Innocence defiled.
     Sticky pink bubblegum and the thick, sweet scent of orange and cherry
    lollipops smeared over a breath of heady womanly perfume."

    Perusal of the site didn't turn up other fragrances linked to VN,
    although there are "Dream Formulas" for inducing sleep, illustrations
    from Aubrey Beardsley, allusions to legendary and literary lore, and
    whole categories of scents devoted entirely to Shakespeare, to Lewis
    Caroll, and to Poe (a little "Ligeia," anyone?).  Not all of the
    perfumes are meant to smell nice (my friend, who knows well my
    fascination for variants of the Bluebeard folktale--don't ask!--also
    sent a concoction meant to convey that ogre's jealousy and murderous
    rage).

    If you're curious, you can order samples.  Here's a link to Black
    Phoenix:
    http://www.blackphoenixalchemylab.com/welcome.html

    Susan Elizabeth Sweeney


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    [Aeternus:7275] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-05-15)


    - lembrando Drummond

    É sempre no passado aquele orgasmo,
    é sempre no presente aquele duplo,
    é sempre no futuro aquele pânico.

    É sempre no meu peito aquela garra.
    É sempre no meu tédio aquele aceno.
    É sempre no meu sono aquela guerra.

    É sempre no meu trato o amplo distrato.
    Sempre na minha firma aquela fúria.
    Sempre no mesmo engano outro retrato.

    É sempre nos meus pulos o limite.
    É sempre nos meus lábios a estampilha.
    É sempre no meu não aquele trauma.

    Sempre no meu amor a noite rompe.
    Sempre dentro de mim meu inimigo.
    E sempre no meu sempre a mesma ausência.
                                                                       (chama-se "O Enterrado Vivo", de Cralos Drummond de Andrade)

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    [Aeternus:7276] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-05-15)


    - RE:lembrando Drummond

    Sem presente somos servos do passado;
    Sem presente, o futuro nos persegue.
    Sem presente nos assume o velho fado,
    Sem presente é o relógio o que nos segue.

    Sem pressentir-se o amor o tempo pára,
    Sem pressentir os vazios nós tropeçamos 
    Sem pressentirmos a vida que nos encara,
    Sem pressentirmos a morte não mais amamos.

    Sempre é demais pra se habitar, mesmo ao esteta
    Eternidade é o momento, a chance do poeta.


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    [Aeternus:7279] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-05-15)


    - RE:RE:lembrando Drummond

    Que bela paráfrase! Coisa de poeta mesmo. Porque "poetisa" era ofensa para a Cecilia Meireles. Poeta é poeta, independente do gênero.

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    [Aeternus:7280] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-05-15)


    - RE:RE:RE:lembrando Drummond

    Sem pretexto ao texto me confio
    Num caminho trilhado por milhões
    Tal vez será a vez da cera e do pavio
    É terna a luz nas caudas dos pavões.

    Sempre, nunca, talvez ou eterna besteira?
    Ampulheta arenosa vazando na beira?
    Tô de altas, amigo, foi só brincadeira...


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    [Aeternus:7353] Mensagem do Grupo24
    -jWolfgang von Gathe(2006-05-23)


    - sem pompa

    A lira delira destinos de ouro
    Na roda da sorte a transformar
    Num manequim que nela gira
    A bola do destino a tagarelar.
    Por meio dela até a ave vaticina
    E as flores sabichonas à beira da piscina 
    A revirar em órbita o fulvo desconsolo 
    Da renda rococó em seu flácido miolo.
    Estrelas que se miram nos rios,
    Nas fontes de anos luz
    Sem horizontes
    Em vez de espada, obuz
    Em vez do touro, avestruz
    Pairando sobre a destruição 
    Das velhas pontes.

    Que palavrório danado
    De empolado
    Leva do fado ao enfado...

     



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    [Aeternus:7372] Mensagem do Grupo24
    -anonimo(2006-05-26)


    - aquecimento, primeiro rascunho

    É a manhã na cidade
    Colorida em sol maior
    Traz o arco iris na poça de petróleo
    Viscoso, barrado
    De pixe e de borracha.
    Cada vidraça projeta luz
    Nos dois sentidos
    Como indeciso espelho.
    Buzinas e espoco ferem  moucos
    Ouvidos, entre o vozerio e as freadas.
    De furta-cor ao vermelho
    Alerta, em toda parte o azul
    Do céu na praia aberta
    Espuma nem tão branca, cinzas
    E poeiras,
    Lotação esgotada, colegiais faceiras
    E, entre elas, meu fantasma
    De olhos feito tetas como as janelas,
    Só que sem calma
    Reflete a pressa e a beleza
    Nas faces paralelas.



     


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    [Aeternus:7466] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2006-06-12)


    - REMOVER LISTA


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    [Aeternus:7468] Mensagem do Grupo24
    -Guto(2006-06-12)


    - RE:REMOVER LISTA

    Jansy,

    Quando se remove uma lista, as msgs ficam em algum arquivo ou tb somem ?  Onde escreveremos nossas trovinhas bem (ou mal) trovadas ?


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    [Aeternus:7469] Mensagem do Grupo24
    -jansy mello(2006-06-12)


    - remover, deletar e a lista do Guto

    Guto, não entendi qual foi sua dúvida.
    Quando se clica no botão "Remover Lista", nada some do Aetern.us, o repouso ali é perpétuo. O clique apenas lhe permite sair da Lista enviada diáriamente para a caixa de mails de quem nelas se inscreveu.

    Para sair da lista é preciso dar seu nome, se não apenas aparece "visitante" e o pedido se extravia.


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    [Aeternus:7501] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-06-15)


    - Shakespeare em português


    No Soneto XXXIX de William Shakespear, nos dois primeiros quartetos, parece que o poeta fala de um apaixonado que se deu conta da mescla ilusória (ou seja, no âmbito do Imaginário) do eu com o tu (ver primeiro quarteto) e que aceita a "castração" da separação no segundo quarteto.

     O! how thy worth with manners may I sing,
     When thou art all the better part of me?

     What can mine own praise to mine own self bring?
     And what is't but mine own when I praise thee?
     Even for this, let us divided live,
     And our dear love lose name of single one,
     That by this separation I may give
     That due to thee which thou deserv'st alone.
     O absence! what a torment wouldst thou prove,
     Were it not thy sour leisure gave sweet leave,
     To entertain the time with thoughts of love,
     Which time and thoughts so sweetly doth deceive,
     And that thou teachest how to make one twain,
     By praising him here who doth hence remain.

     

    Agora, uma tentativa de tradução feita a partir de uma tradução em espanhol e outra em português do Oscar Mendes, sem rimas, mas com  o excelente quarto verso, devidamente pirateado) ( O cacófato do quinto verso foi acidental mas ficou ótimo ao criar ambigüidade entre separar o tu-do eu ou separar o "tudo eu")

    Como, com modéstia, eu cantar o

    teu valor, se és o melhor que há em mim?

    E que valor teria eu ao me louvar?

    E quem, louvando a ti, louvei, senão a mim?

     

    Por isso separei o tu do eu

    e aceito amar sem a aura de um só ser.

    E assim, sem ser tu, verei que é teu

    o que apenas de ti se possa ver.

     

    De tua ausência o tempo seria tormento

    se tal lazer amargo não deixasse

    tua falta plena de ternos pensamentos 

     

    que o pensar e o tempo enganassem,

              ensinando, ao fazer dois de um somente,

              a aqui louvar quem daqui está ausente.

     

    Tradução do O. Mendes para o segundo quarteto:

    Que isso nos leve a viver separados;

    Que nosso caro amor perca seu nome de amor único
    e que por este distanciamento eu possa dar-te

    apenas aquilo que, a ti, te cabe.

     

    Tradução espanhola:

    ¿Cómo puedo elogiarte con modéstia
    cuando tú eres de mí la mejor parte?
    ¿Qué me puede otorgar mi propio elogio
    y qué hago con tu elogio sino el mío?

    Vivamos separados, y que pierda
    su nombre de indiviso nuestro amor,
    para que pueda darte, al separarnos,
    lo que mereces tú, tú solamente.

    ¡Oh ausencia, cuál sería tu suplicio,
    si tu amarga quietud no nos dejara
    burlar al tiempo en el amor pensando,
    engaño dulce del pensar y el tiempo,

    y no enseñaras a hacer dos con uno,
    aquí elogiando a quien está distante.


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    [Aeternus:7504] Mensagem do Grupo24
    -Visitante(2006-06-15)


    - RE:Shakespeare em português

    Como, com modéstia, cantar o
    teu valor, se és o melhor que há em mim?
    E que valor teria eu ao me louvar?
    E quem, louvando a ti, louvei, senão a mim?
     
    Por isso separei o tu do eu
    e aceito amar sem a aura de um só ser.
    E assim, sem ser tu, verei o que é teu
    apenas o que de ti se possa ver.
     
    De tua ausência o tempo seria tormento
    se tal lazer amargo não deixasse
    tua falta plena de ternos pensamentos 
     
    que o pensar e o tempo enganassem,
    ensinando, ao fazer dois de um somente,
    a aqui louvar quem daqui está ausente.
     
    Repeti a bela tradução resultante dos esforços do Gallego sobre várias diferentes tentativas de transformar e recriar o soneto de Shakespeare, apenas para lhe dar o devido destaque...E, meti o bedelho em dois lugares ( apaguei um "eu" e troquei a posição da palavra "o que" ), deixando de me qualificar como novo Pierre Ménard...
     

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    [Aeternus:7579] Mensagem do Grupo24
    -LFGallego(2006-07-01)


    - recebi uma paródia

    Recebi uma paródia tragicômica do samba "Trem das Onze" com explicaçõe sprévias.
    Original Message
    From: To: Undisclosed-Recipient:; Sent: Friday, June 30, 2006 10:37 PM
    É duro ouvir o presidente Lula dizer que pobre é fácil de governar, já que pobre não reclama.
    E por mais justos que sejam os direitos trabalhistas para todos os trabalhadores, incluindo as domésticas, está indo cada vez mais longe o sistema pseudo-"Robin Hood" dos governos FHC e PT -  que não taxam as grandes fortunas porque financiam as campanhas eleitorais (em troca de "nada", é claro) - mas fazem a classe média pagar a conta que dá esmolinhas governamentais para calar a boca dos mais pobres com feijão. Quando a classe média entrar de vez no rol da pobreza, quem vai financiar tanta "bolsa-família"??? Por isso, apostamos que o sucesso da temporada será a seguinte musiquinha:
    CANTE COM A MELODIA DE "TREM DAS ONZE" DO ADONIRAM BARBOSA, LEMBRA? (a letra original está lá no final)
    NÃO POSSO PAGAR
    ÉFE-GÊ-TÊ-ÉSSE PRÁ EMPREGADA
    COMO É DURA A VIDA:
    'CÊ TÁ DESPEDIDA!
     
    MEU SALÁRIOESTACIONOU,
    TUDO AUMENTA POR HORA,
    É TANTO IMPOSTO ARRASADOR!
    EU VOU TE MANDAREMBORA!
     
    E ALÉM DISSO, MARIA,
    TEM OUTROS GASTOS!
    MEU GANHO NÃO CHEGA ATÉ O FIM DO MÊS!
    SOU CLASSE MÉDIA,
    MAS VOU FICAR POBRE DE UMA VEZ,
     
    FÁCIL DE GOVERNAR:
    A GENTE ACOSTUMA, / NÃO RECLAMA NUNCA / AO SE ARREBENTAR
     
    LÁ, LULA, LULA LÁ
    O LULA É QUE GOSTA / QUE EU FIQUE NA BOSTA / E SEM RECLAMAR
                                       (breque): NÃO POSSO PAGAR!
     
    Não posso ficar
    Nem mais um segundo com você
    Sinto muito amor, mas não pode ser
     
    Moro em Braçanã,
    se eu perder esse trem
    que sai agora às onze horas 
    Só amanhã de manhã.
     
    E além disso, mulher 
    Tem outra coisa:
    Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar,
    Sou filho único
    tenho minha casa prá morar 
     
    Lá Lá Láiá laiá
    Faz cadingudum,  faz cadingundum, faz cadingundum
     
    La LáLá iála iá
    Faz cadingundum, faz cadingundum, faz cadingundum