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Divulgação
Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus

  

Va Savoir


Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo:
  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    anunciando nova lista, sabe-se lá?

  • Marcos:
    brindando

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Birmania

  • Marcos:
    Buñuel tinha razão...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Curador

  • Marcos:
    prazeres e Arquimedes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    premios de consolação

  • Marcos:
    cinema ou teatro ?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Derradeiro Derrida

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    a notícia anterior veio de...

  • Luiz Fernando Gallego:
    Quem tem medo de V.Woolf...

  • Marcos:
    adendo Nichols

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Hello Dolly?

  • Marcos:
    sorry

  • Eugênia:
    de ride em ride

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    de ruga em ruga

  • LFGallego:
    e-mail recebido da "Formação Freudiana"

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    contribuição preciosa enviada por LF Gallego

  • Guto:
    Va savoir !

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    exobitar?

  • LFGallego:
    sexta "feia"

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    check in

  • LFGallego:
    Depois da Vida

  • Marcos:
    não tenham dúvida

  • Eugênia:
    interno

  • Eugênia:
    passagem

  • Marcos:
    a partir do que a Jansy colocou

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    o que tentei dizer...

  • Marcos:
    fascinante !

  • Marcos:
    adendo

  • LFGallego:
    Respondendo a Eugenia.

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    De bate é com Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    pros distraídos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    as rugas da Eugênia nas marcas da história

  • Marcos:
    quanto mais complicado melhor !

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Beckett e ser infeliz bastante...

  • Marcos:
    todos os apaixonados...

  • Eugênia:
    grata

  • Eugênia:
    minhas?

  • Marcos:
    mas não pensem que eu não acho

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    dormir com os louros

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    me esqueci dos louros ...

  • Marcos:
    a ciascuno il suo

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    como uma luva

  • Marcos:
    o quê Frankenstein prometeu ?

  • Eugênia:
    louro canto

  • Eugênia:
    backtin

  • Eugênia:
    lindos

  • Davy:
    Para Guto

  • Davy:
    Para Eugênia e todos

  • Eugênia:
    para Davy

  • Eugênia:
    ovalhando o oll

  • Eugênia:
    judeidade

  • Marcos:
    Para todos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    mãe só tem uma

  • Marcos:
    passando a agulha da cesura

  • jansy mello:
    com a cabeça de Janus

  • Guto:
    who's afraid ?

  • Marcos:
    zazoeira

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Cine Veneza and The Foxes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Estou sem o e-mail do Guto

  • Marcos:
    ainda Sandy e Sidney Lumet

  • Marcos:
    acertando os parafusos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    apavorantes

  • Davy:
    Para Eugênia

  • Davy:
    Mais para Eugênia

  • Davy:
    Para Eugênia, encore...

  • Davy:
    Para Marcos

  • Davy:
    Para todos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Bogomoletz e Cohen

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Lacan e o amor

  • Marcos:
    de fantasmagorias, amores e heróis

  • LFGallego:
    Sidney Lumet, Marcos e eu

  • Marcos:
    Network

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    falam os peritos e fala a periquita

  • Guto:
    O hóbito faz o monge

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    acho que...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    força do hábito

  • Guto:
    All bee

  • Guto:
    errata

  • Davy:
    Para Marcos

  • Marcos:
    respondo ao Davy

  • Eugênia:
    monge

  • Eugênia:
    para Davy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    o corpo é um corpo é um corpo

  • Eugênia:
    fita

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    quem dá aos pobres empresta a Deus

  • Davy:
    Para Eugênia

  • Davy:
    Para Jansy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    a resposta do Davy e a carta original

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    eu/deus/outro

  • Eugênia:
    índios e marranos

  • Eugênia:
    deus e o gozo

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    aguardando o seu retorno

  • jansy mello:
    no que concerne à liberdade

  • jansy mello:
    Goethe no PS

  • Marcos:
    nesses trâmites infantis

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    contracultura

  • LFGallego:
    20 anso sem Truffaut

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Vinte anos sem Truffaut, parte II

  • Marcos:
    adoráveis !

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Tecnologia e Humanidade

  • Davy:
    Para Florião, Eugênia e Jansy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Crianças envergonhadas...

  • Guto:
    who is afraid of Jack ?

  • LFGallego:
    Canastrões.

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Mellou?

  • Marcos:
    brincando de ser eu mesmo

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    pixando os canastrões

  • LFGallego:
    ainda os canastrões

  • Marcos:
    let the good times roll...

  • LFGallego:
    atores teatrais

  • LFGallego:
    e o De Niro? e a Binoche?

  • LFGallego:
    associação

  • Marcos:
    Spacey e as atrizes perebonas

  • Marcos:
    lista de melhores dá nisso...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Quando voltei do mercado...

  • Marcos:
    Dirk Bogarde e Malkovich

  • LFGallego:
    As 3 mais.

  • Guto:
    Ainda os canastras

  • Marcos:
    tentando o melhor

  • Guto:
    Satanismo

  • LFGallego:
    Dustin e Isabelle

  • Marcos:
    fogueira de vaidades

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    viajando entre Dolto e Va Savoir...

  • Marcos:
    Isabelle Huppert

  • LFGallego:
    A Rendeira e o Índio

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    não dá pra generalisar, mas...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Generalizadas ( z...) chamas da lei

  • Marcos:
    revenge revenge

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Vingança é prato que se come frio?

  • Marcos:
    velados e (re)velados

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    OLL

  • Marcos:
    descompasso

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    tem quem gosta de cellphone e msn

  • Marcos:
    um BIG HURRAH! para minha amiga !

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Hurrah Primal!

  • Conde Drácula:
    Joga pedra na Leni

  • jansy mello:
    RE:Joga pedra na Leni

  • Conde Drácula:
    RE:RE: Joga pedra na Leni

  • jansy mello:
    RE:RE:RE: Joga pedra na Leni

  • Visitante:
    Do lado de cá do divã: o significante insignificante

  • jansy mello:
    mario sergio conti no minimo

  • LFGallego:
    RE:mario sergio conti no minimo

  • jansy mello:
    RE:RE:mario sergio conti no minimo

  • jansy mello:
    uma espécie de cronica cronica

  • Guto:
    RE:uma espécie de cronica cronica - vamos aos flatos

  • Visitante:
    RE:RE:uma espécie de cronica cronica - vamos aos flatos

  • Omar:
    Es regnet

  • Omar:
    Doris Lessing: como receber um Nobel de Literatura

  • Omar:
    RE: como receber um prêmio Nobel - II

  • Marcos Florião:
    RE:RE: como receber um prêmio Nobel - II

  • dora zander:
    RE:RE:RE: como receber um prêmio Nobel - II

  • Marcos Florião:
    saídas(s)

  • Marcos Florião:
    saídas(s)

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE: como receber um prêmio Nobel - II

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Ruth Rendell

  • Omar:
    Help

  • dora zander:
    RE:Help

  • Omar:
    RE:RE:Help

  • dora zander:
    RE:RE:RE:Help

  • dora zander:
    Mike Nichols

  • Marcos Florião:
    RE: Tio Mike...

  • dora zander:
    RE:RE: Tio Mike...

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE: Tio Mike...

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE: Tio Mike...

  • Marcos Florião:
    RE:Gilda

  • dora zander:
    RE:RE:Gilda

  • Marcos Florião:
    Carnal Knowledge

  • dora zander:
    RE:Carnal Knowledge

  • Marcos Florião:
    RE: casado com sua imaginação...

  • dora zander:
    RE:RE: casado com sua imaginação...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • dora zander:
    RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • dora zander:
    Antal Szerb

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

  • Marcos Florião:
    RE: de velh(ac)os

  • dora zander:
    RE:RE: de velh(ac)os

  • Marcos Florião:
    RE: meu escritor pervertido favorito

  • dora zander:
    RE:RE: meu escritor pervertido favorito

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE: meu escritor pervertido favorito

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE: de velh(ac)os

  • Omar:
    RE:RE:RE: de velh(ac)os

  • Omar:
    Cor

  • dora zander:
    RE:Cor

  • Omar:
    RE:RE:Cor²

  • dora zander:
    RE:RE:RE:Cor²

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    excomunhão...

  • Visitante:

  • Visitante:
    RE: sobrevivencia da psicanalise

  • Visitante:
    hobby

  • Visitante:
    Tolentino, Espinheira,Bueno...

  • Visitante:
    Jansy ao alvorecer

  • Marcos Florião:
    RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

  • Visitante:
    RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

  • Visitante:
    RE:Jansy ao alvorecer

  • Visitante:
    baiana arretada e o quase incêndio

  • Visitante:
    RE:baiana arretada e o quase incêndio

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    utilidade publica comprovada

  • Visitante:
    RE:utilidade publica comprovada

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:utilidade publica comprovada

  • Visitante:
    RE:RE:RE:utilidade publica comprovada

  • Visitante:

  • Visitante:
    RE: Lei do Pai

  • Omar:
    Cartoon of the week (The New Yorker)

  • Visitante:
    Jansy posta artigo sobre Freud, de 1952 (excertos)

  • Visitante:
    momentos fatais

  • Visitante:
    RE:momentos fatais

  • Visitante:
    RE:RE:momentos fatais

  • Visitante:
    RE:RE:RE:momentos fatais

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    Duas aproximações da tragédia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Duas aproximações da tragédia

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:Duas aproximações da tragédia

  • Marcos Florião:
    RE:RE:Duas aproximações da tragédia

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:Duas aproximações da tragédia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Claudia Lucia encaminha...

  • cely bertolucci:
    formação em psicanálise à distância

    [Aeternus:1807] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-08)


    - anunciando nova lista, sabe-se lá?

    Senhoras e senhores, nova temporada com a temática do filme "Va Savoir" de Rivette, exibido no festival internacional de cinema do Rio de Janeiro, que se encerrou em outubro 2004. 
    E agora, José?

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    [Aeternus:1808] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-08)


    - brindando

    A impressão é que a coisa saiu de uma mistura tríade : o gostinho da Jansy pelo título do filme, a simpática sugestão do Gallego, e as manhas que descrevi do muso-vovô. E sobretudo o carinho com o Cinema e as Artes, a reforçar os elos entre nós.
    O pessoal do Estação tem trazido todo ano, praticamente, o que ele filma.Este ano veio o "Marie et Julien", sucedendo-se ao "Va Savoir"/2003, inspirado em Pirandello. Deve ser em minha homenagem, já que ele tem público restrito. Este ano houve muita pressão por compra de ingressos antecipada, pois está vindo muita gente de fora para a Mostra. Filmes geralmente fáceis de assistir tornaram-se problemáticos. Se bem que eu insisto no que disse ao Gallego : nos filmes - grande maioria ! - em que não há aquela maquininha de leitura ótica do ingresso, você pode entregar qualquer coisa parecida com um ingresso na mão do porteiro. Ele mete a ronca na furadeira e já aguarda o próximo freguês para furar de novo. Não é nem questão de preguiça, mas da índole humana. Talvez nos dois primeiros da fila ele leia o nome do filme. Depois...você pode comprar um filme da Birmânia e assistir o Almodóvar lotadão, tals.
    Ah ! e esse ano acabei entrevistado pela rapaziada camisa-preta ( nada fascista, ao contrário : são amáveis ! ) da cobertura/apoio da Mostra. Preveni eles que estava completamente rouco, mas insistiram. Me perguntaram sobre a emoção de votar nisto ou naquilo ( mostra de curtas/melhor filme dos estrangeiros ) e eu respondi 'nenhuma especial. Arte não nasce para ser competitiva. É gostoso esse clima de festa, de conspiração coletiva.’ Mais ou menos como conspiramos por aqui, né ?

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    [Aeternus:1809] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-08)


    - Birmania

    Adorei os macetes para assistir filme da Birmania quando se quer ver Almodovar ( Ooops).  E você acha que " a coisa saiu de uma mistura tríade " ? 


    Você tem toda razão em cortar esta mania de "mostra competitiva" na entrevista:
     'Arte não nasce para ser competitiva. É gostoso esse clima de festa, de conspiração coletiva( e você continua rouco, Master Florião?) 

    mas, cá entre nós, qual dos filmes foi o melhor?


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    [Aeternus:1810] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-09)


    - Buñuel tinha razão...

    ...quando disse "graças a Deus continuo ateu". Jansyta parece que vai caminhar para a cura, e cá está de novo com a mania do 'melhor'.
    Deu para sentir, tanto de minha parte quanto do Gallego, o que agradou mais cada um. Naquela de um Sophie's choice não tão barbárie quanto, premido na pele de júri, eu daria os prêmios quase todos ao Leconte. Mas veja só que parcialidade : privilegio assim um cientista da perversão social/sexual, seguindo meu filão predileto. Então...você num festival desses da vida ( Cannes, Berlim, Veneza ) convida uma dúzia de carinhas - digamos até bastante qualificados ! - para julgar. E aí...tome idiosincrasia ! O resultado é mero acaso do conjuntinho de manias daquele grupinho !
    À la Cannes, e com extensões, para satisfazer minha amiga, seria :
    palma de ouro : : "Confessions Trop Intimes", onde também vi magia e pulsação.
    melhor roteiro : "Confessions..." e "O Princípio de Arquimedes", dividindo.
    melhor ator : Fabrice Luchini, também dele.
    melhor atriz : Sandrinne Bonnaire, também.
    melhor fotografia : Eduardo Serra, em "Confessions..."
    revelação masculina : Cesc Gay, diretor de "En la Ciudad"
    revelação feminina : Blanca Oteyza, atriz de "O Princípio de Arquimedes"
    prêmio especial do júri ( composto por mim mesmo ) : "O Princípio de Arquimedes"
    prêmio simpatia é quase amor : "Before Sunset", dedicado ao Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy.
    atriz mais gostosa : Ludivine Sagnier, em "A Pequena Lili"
    atriz mais assanhada : Blanca Oteyza, em "O Princípio de Arquimedes"
    atriz mais blasée : Nicole Garcia, em "A Pequena Lili" e "L'Histoire de Marie et Julien"
    revelações da terceira idade : Michel Duchaussoy ( o psicanalista de "Confessions..." e (?) fico devendo o nome - uma atriz maravilhosa, bem senhora, que faz a secretária do analista tributaire em "Confessions..."

     

     

     

     

     


     

     

     

     


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    [Aeternus:1811] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-09)


    - Curador

    Florião, não entendi ( como de hábito ) seu comentário inicial: colocar você como membro de um  juri seleto é bom ou mal sinal?  Seja o que for, gostei do preambulo que você fez ( das idiossincrasias de uma patatota determinando a objetividade do julgamento) e da forma de estabelecer novas categorias para a premiação.

    Sabia que a tal frase esticando assunto do Princípio de Arquimedes, "dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço simultaneamente" surgiu logo em seguida, num programa sobre o choque do Titanic com um iceberg no Discovery, e na página que lia sobre o dialogismo de Bakthin?
    Foram coincidências tão seguidas que, ontem, dirigi meu carro com cuidado especial. Depois achei era conseqüência de ficar enchendo linguiça sobre filmes que não vi quando, quem os viu, já tem muito a dizer. Só posso dar com a burra n ´água! 


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    [Aeternus:1812] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-09)


    - prazeres e Arquimedes

    Trocar gostos e informações com os amigos é um prazer, ainda mais num clima descontraído ! Ressalto sempre a questão da idiosincrasia por princípio : preciso tentar ser justo com os artistas que tanto prezo e respeito.
    Nas novas categorias, poderia ter entrado também 'atriz mais elegante', e vence a Anne Brochet em "Confessions..." e "Marie et Julien".
    No Arqui há também a questão do empuxo, afundar/flutuar. Tudo a ver com a essência do filme.
    Dirigir com cuidado é sempre bom : o Brasil é campeão mudial de mortes e acidentes de trânsito. Talvez Fittipaldi, Piquet e Senna tenham feito mais mal do que bem a nós. Uma multidão de incautos acha-se talento não reconhecido ao volante, e sai às ruas para provar que podia estar nas pistas.


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    [Aeternus:1813] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-09)


    - premios de consolação

    Fizeram um concurso de fantasia numa festa de aniversário e as carinhas esperançosas das crianças estavam tão comoventes que o organizador acabou por inventar categorias ( a menina mais pequena, a de triangulo vermelho na roupa, a menina do brinco de pérola, o menino de tênis Rainha...). Mas em matéria de competição nada barrou um filme iraniano no qual o menino quer ganhar o segundo lugar para ter como premio um par de sapatos ( o primeiro premio não interessava). Ficou desesperado porque tirou primeiro e ficou sem os sapatos de que precisava... 

    HELP, cinéfilos da turma: Há um mes me telefonaram da FNAC perguntando se eu gostaria de participar de um debate sobre cinema ( "Quem Tem Medo da Virginia Wool" ) e eu disse que sim. 
    Não me ligaram mais e hoje, sem ter algum número para contato com quem fez o convite, fui na FNAC olhar o folder das atividades de outubro. Meu  nome está lá!
    Perdi o primeiro debate com o filme " Gata em Teto de zinco Quente" ( podia ter prestigiado os debatedores, visto como funciona o negócio...), mas não cheguei a faltar ao meu.
    Só que não encontro o filme para alugar, comprar, assistir. Não há livro do Albee para ler. Só me recordo da Liz Taylor e do R.Burton brigando em cena sem parar. Improviso sem mais um tema  é demais! Aceito todo tipo de informação. Agora vou me adrentar no Google.  Antecipadamente, gratíssima.

     


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    [Aeternus:1814] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-09)


    - cinema ou teatro ?

    Pô, só pegaram entrechos dramáticos teatrais ! Os organizadores devem sacar tudo de Tenessee Williams, Albee, O'Neill...
    "Virginia"(1966 ) foi o primeiro longa de Mike Nichols, no cinema, o Maiquito que comentei outro dia como excelente diretor. Meus preferidos dele são "Carnal Knowledge" ( Jack Nicholson, Art Garfunkel, Candice Bergen, Ann Margret ) e "Catch 22" ( Jon Voight, Alan Arkin ).
    Burton e a Taylor brigam em cena como meu pai e minha mãe no Rio Comprido, e depois chegam Sandy Dennis, uma atriz de físico frágil, voz fanhosa de alérgica e talentosa ) e George Segall - a platéia...- e o McGuffin do filme é um filho sobre o qual Burton/Taylor discutem e que...não existe.

     


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    [Aeternus:1815] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-09)


    - Derradeiro Derrida

    Morre o filósofo francês Jacques Derrida
    Paris, 9 out (EFE).- O filósofo francês Jacques Derrida, de 74 anos, morreu nesta madrugada em um hospital de Paris, vítima de um câncer de pâncreas, informaram neste sábado, seus familiares e amigos.

    Nascido em 15 de julho de 1930 em El-Biar (Argélia), Derrida era um dos filósofos franceses com mais projeção internacional.

    Sua teoria da "desconstrução" lhe deu fama mundial, especialmente nos Estados Unidos.

    Autor de muitas obras, Derrida deu aulas em várias universidades americanas, como Havard, Yale e John Hopkins, assim como na Sorbonne, de Paris.

    O filósofo francês foi precursor de uma grande reflexão crítica sobre a instituição da filosofia e sobre o ensino dessa matéria, o que o levou a criar, em 1983, o Colégio Internacional de Filosofia, presidido por ele até 1985.

    Politicamente comprometido, Derrida tornou-se conhecido, entre outras coisas, por seu apoio aos intelectuais tchecos, por sua atividade contra o apartheid sul-africano e por sua preocupação pela situação do povo palestino.

    "A escritura e a diferença", "A disseminação", "Margens da filosofia", "Heidegger e a questão", "Invenções do outro", "Do direito à filosofia", "Espectros de Marx", "Glas", "A verdade em pintura", "Para Paul Célan" e "Do espírito" são alguns dos quase 30 livros que Derrida escreveu ao longo de sua vida.

    Jacques Derrida foi casado e teve um filho com a psicanalista Sylviane Agacinski, atual esposa do ex-primeiro-ministro francês, o socialista Lionel Jospin.


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    [Aeternus:1816] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-09)


    - a notícia anterior veio de...

    Colei rapidinho a notícia anterior quando começou a chover...esqueci dos créditos na pressa de fechar janelas e testar trovões.
    A informação sobre Derrida veio pela UOL.

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    [Aeternus:1817] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Gallego(2004-10-09)


    - Quem tem medo de V.Woolf...

    O filme de Michael Nichols "Quem tem medo de Virginia Woolf?" não escapava da armadilha de "teatro filmado". O artifício de fazer uma cena ou outra fora da sala do casal ou fora da casa é banal e pueril, não quebra a teatralidade do filme.
    Quem dirigiu a peça na Broadway também foi Mike Nichols e este foi seu primeiro filme. O trunfo para se familiarizar com o cinema era a fotografia do grande Haskell Wexler, que depois dirigiu um filme honroso de semi-ficção bem ao gosto da época dos anos 1968/9, "Dias de Fogo". Para muitos este foi o melhor filme político norteamericano da década de 1960.
    Este fotógrafo já era famoso e brilhou depois em "Um estranho no Ninho" e "American Graffittti" (Loucuras de Verão, que inaugurou a onda de filmes-nostalgia dos anos 1950). E "Amargo regresso" com o Jon Voigt vindo do Vietnam, paraplégico, mas trepando (com a língua) com a Jane Fonda en-can-ta-da.
    Fez documentários políticos, inclusive sobre a tortura no Brasil da ditadura. Na verdade Wexler não dirigiu filmes famosos, como Amargo Regresso ou Estranho no Ninho, era  "só" o  fotógrafo.  Como diretor, limitou-se aos documentários políticos de esquerda e seu único, meio ficção, foi Dias de Fogo, sobre rebeldia estudantil nos States anti-guerra do Vietnam. Mas como  muitos fotógrafos são às vezes o braço direito e até mesmo o olho dos diretores, ele está entre aqueles que podem ser considerados como sendo semi-autores dos filmes que fotografam. Isto aconteceu com diretores bons, como  Milos Formkan em Estranho no Ninho, mas com inexperientes como Mike Nichols, na ocasião em que dirigiu Virginia Woolf, ou o George Lucas, em seu segundo filme, antes de Guerra nas Estrelas, "American Graffitti".
     
    Mike Nichols era golden boy da crítica teatral. Era amigo da Lillian Hellmann e de outros monstros sagrados do teatro americano (escritores cujas peças dirigia e tudo dava certo para crítica e público). Seu maior sucesso nas telas veio logo depois de Virginia Woolf com "A Primeira Noite de um Homem" , quando conquistou o público "jovem" e revelou Dustin Hoffmann e Katherine Ross, confirmando o talento da grande Anne Bancroft que deixou de ser a eterna Anna Sullivan dos palcos (onde fôra também dirgida por ele) para virar Mrs. Robinson for ever and ever.
     
    Nichols conseguiu filmar um livro ambicionado por centenas de grandes cineastas: "Catch 22" sobre a loucura da guerra e fez (ao meu ver) seu melhor filme em "Carnal Knowledge" (Ânsia de Amar) com Jack Nicholson, Candice Bergen, Art Garfunkel e Ann Margret: sexo nos anos 1940 pós-guerra, 1950 e final dos 60, com roteiro do Jules Feiffer.
    Nunca pude assistir Ânsia de Amar em video ou dvd: uma pena porque na minha lembrança é um filme excelente. Depois Nichols foi decaindo, com raros sucessos ("Silkwood",  com Meryl Streep e Cher em papel sério sobre perigos nucleares para empregados de usinas). Comédias simpáticas ("Uma Secretária de Futuro") e chanchadas (versão americana de "Gaiola das Loucas") não fazem jus aos primeiros quatro filmes.
    Acho que foi ele quem dirigiu para a TV um filme que Jansy citou outro dia com a Emma Thompson e Christopher Lloyd. Ela morrendo. Não sei porque não vi, mas ele dirigiu um com ela chamado "Uma Lição de Vida" para TV. Será este?
    O escritor Edward Albee é um gay do tipo que odeia a mãe adotiva,  mesmo depois de morta. Sobre ela escreveu seu maior sucesso no Brasil depois de Virginia Woolf, que foi "Três Mulheres Altas". Outras peças dele famosas seriam "Um Equilíbrio delicado" e "Pequena Alice" que não conheço nem de ler nem de ver nos palcos; para muitos sua maior peça ainda é a primeira, "Zoo Story".
    A peça "Virginia Woolf" era em tempo real: a ação começava às 2:00 da manhã e terminava ao amanhecer, às 5. Eram 3 atos de quase uma hora cada, o que dava o tempo da ação coincidindo com o tempo do espetáculo. Os atos tinham nome: não lembro do primeiro (Divertimento ou passatempo, talvez); o segundo era "Walpurgisnacht" e o terceiro, acho que era "exorcismo".
    A epígrafe vem do famoso aforismo sobre porcos-espinhos numa noite de frio, escrito por Schpenhauer, e que Freud cita em algum livro. Numa noite de frio os bichos se aproxdimam para se esquentarem e se espetam; se afastam e sentem frio; se aproximam e se machucam... até encontrarem uma distância-proximidade ótimas.
    O Marcos antecipou o final da história, mas isto não atrapalha a apreciação da história porque o durante é tão, ou mais importante, do que o finalmente (que aliás, pode ter envelhecido). O durante é a demonstração do inferno do casal. Mesmo que nem todos sejam tão infernais assim, o inferno, para Narciso, são os outros , aqueles que cismam de não atender as suas demandas... 

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    [Aeternus:1818] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-10)


    - adendo Nichols

    Gallego fez um impecável relato do Nichols.
    Apesar da óbvia concessão ao drama convencional, forçado e ultraengatilhado, confesso que chorei em "The Day of the Dolfin", com o George C. Scott brincando com os bichinhos, enquanto os homens maus que andam sussurrando e rindo pelas alcovas do Chico Buarque programavam o próximo avanço do Absurdo. Show de maniqueísmo manipulado.
    "Carnal Knowledge" perde em casa pelo problema imediato da profundidade, do Cinemascope ! Mas...que ritmo, que harmonia ! Após um diálogo-digressão entre dois homens, que saberemos ser o Nichols e o Garfunkel, começa com um dolly atrás deste numa festa sossegada ( bons tempos ! ) ao som de "Moonlight Serenade" e em direção à Candice Bergen, pássaro solitário junto a uma janela da Vida.
    E o final é em (des)harmonia ? Ou seria melhor harmonia do caos ?...A patinadora do Nicholson toma o campo todo da tela, rodopiando em seu branco absoluto sobre o branco do gelo. Música de órgão triste/animada, enquanto a Rita Moreno faz um blow job caprichado nele...

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    [Aeternus:1819] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-10)


    - Hello Dolly?

    Florião conversa crípticamente quando discute "especialidades". Fiquei no ar entre golfinhos e patinadoras, com Candice Bergen solitária. 
    "Dolly" designa o quê ? Capsulas de anfetamina ( como no " Valley of the Dolls", "bonecas" ) ?

    Hoje estava incomodada diante da televisão, sempre associando imagem e som e com saudade de ouvir música sem ter que olhar pralguma coisa, ou ver fotos sem ter acompanhamento musical. De repente, das brumas do passado quando assisti Quem Tem Medo de V.Woolf ( fora a sonoridade da rima infantil sobre "quem tem medo do lobo mau, tão bem tratada pelo Gallego em algum ponto dos comentários ), me ocorreu uma dúvida.  Este filme tem trilha musical? Como é? Toca quando? 

     


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    [Aeternus:1820] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-10)


    - sorry

    Dolly é aquele trilho por onde a câmara vai deslizando, acompanhando um ator ou um objeto, ou, mais comumente, 'andando' junto com o personagem pela casa ou fora.
    "O Dia do Golfinho" era um filme de espionagem, ação. Muitos erros, mas não posso falar mal de um filme em que eu e Ana passamos anos a fio conversando como golfinhos...
    A Candice está magnânima e solita na festa que abre "Carnal Knowledge", quando o Garfunkel aproxima-se timidamente e nada fala, fazendo com que ela tome a iniciativa de falar das máscaras que as pessoas usam/tiram. O Nichols está na mesma balda, e diante da hesitação do amigo ameaça atacá-la, do alto de seu machismo inabalável...e a patinadora era a fantasia suprema de desejo deste : toda de branco, deslizando e rodopiando no gêlo. Era esta imagem que mais o erotizava, e ele termina casado com ela, usando o corpo e presença da prostituta como o 'sólido' para dar mecânica à fantasia.

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    [Aeternus:1821] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-10)


    - de ride em ride

    Dentre os autoes que me são mais queridos, está Derrida. Dentre os livros que mais releio e mais cito e não paro de não entender está "A farmácia de Platão" e "A voz e o fenômeno",. que exigem sempre a retomada de outros filósofos para serem degustados, num adiar sem fim da saciedade. A notícia da morte dele me trouxe um susto como se me fosse retirada uma coisa preciosa. Tinha vontade de ter assistido a alguma conferência, de tê-lo visto pessoalmente... quase consegui no ano passado.... era um projeto, embora não muito objetivo, para as próximas férias... Minha tese de doutorado, oficinas terapêuticas com população de rua, tem muito a ver com o conceito de escrita que ele propõe. Bem pertinente, então, na lista que se chama "Va savoir", onde nos encontramos escrevendo nesse suporte efêmero, lembrar que ele considerada "discurso vivo" uma outra modalidade de escritura, diferente daquela que se propõe a combinar caracteres alfabéticos. O discurso vivo equivale a uma inscrião da verdade na alma, refere-se a Sócrates, que propunha que o discurso bem formado " é aquele que, acompanhado de saber, se inscreve na alma do homem que aprende, aquele que é capaz de se defender a si mesmo e que, por outro lado, sabe falar, quanto se calar, diante de quem é preciso." Não gosto muito do verbo "aprender", tão presente em Sócrates, mas me agrada a vinculação do "vivo" a discurso. Atualmente voltada para pacientes portadores de sintomas psicossomáticos, reencontro Derrida, que propunha: "O deus da escritura é pois um deus da medicina. Da "medicina": ao mesmo tempo ciência e droga oculta. Do remédio e do veneno. O deus da escritura é o deus do phármakon. E é a escritura com phármakon que ele apresenta ao rei no Fedro, com uma humildade inquietante como o desafio." (p. 38) Citações de "A farmácia de Platão". O savoir a que remete o título da nossa lista não é, portanto, um remédio inócuo. Nem a filosofia salva de morrer de câncer. Mas de ruga em ruga nossa pele pode desenhar uma textura, passageira, mas capaz de fazer uma marca que, embora se desfça logo em seguida, pode produzir reverberações, como os desconstrutivos escritos sobre a escrita, de Derrida.

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    [Aeternus:1822] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-10)


    - de ruga em ruga

    Florião, obrigada por me ajudar a entender das "dollies"  e um pouco mais da história dos golfinhos. Responderei com vagar depois.
    Eugênia, não imaginava que Derrida fosse tão importante na sua tragetória, sinto muito. Alguém elogiou no necrológio o neologismo que ele criou para a saudade da terra natal ( ele era da Algeria ). "Nostalgeria" 

    Sem chance para me deter agora, só lembrei de uma coisa interessante. Duas, aliás: quando Eugenia falou de "ruga em ruga, nossa pele pode desenhar...", pensei em Lacan  no modo que ele tinha de descrever umas "rugas" que seriam as marcas da sexualidade no corpo. É um texto bonito, vou ver se encontro para trazer para cá.  E a segunda, brincando de carimbos com meus netos, descobri que apareceu uma ruga no meu polegar. Minha digital sai com a letra A bem grandona no meio.  Isso me "Altera", não é?


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    [Aeternus:1823] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-10)


    - e-mail recebido da "Formação Freudiana"

     
    ----- Original Message -----
    From: Freudiana
    Sent: Sunday, October 10, 2004 4:10 PM
    Subject: Morte de Jacques Derrida


    Jacques Derrida era o mais importante filósofo francês contemporâneo. Profundamente interessado na Psicanálise, estabeleceu novas dimensões para o Inconsciente freudiano. Por exemplo, mostrou que o inconsciente emergia de diversos lugares e que a Psicanálise sempre se construiu sobre vários regimes de Memórias. A memória não tem um centro único, uma temporalidade ou um traço unitário, não é Um Mesmo. Ela é uma diferença invisível entre as Bahnungen (trilhamentos, conforme Freud) e se faz à moda de uma escritura, sempre produzida diferencialmente. Com isto, Derrida procurou retirar a Psicanálise do campo particular das representações, dando primado às pulsões (como o fazemos na FF). Descentrou a memória e suas questões da idéia de UM Simbólico e valorizou a multiplicidade do inconsciente, como o fez no Mal de Arquivo.

    Fundada pela repetição e não pela reprodução de UM Simbólico, Derrida privilegiou o conjunto de traços e pensou a diferença longe do ser como presença ou essência. Assim, a vida é criação contínua e não há originário e sim encontro e diferenciação de forças e entre forças. Com isso, Derrida positivou a compulsão à repetição, dando-lhe um estatuto positivo que não merecia nas teorias do Eu ou de O Simbólico. Tal movimento o levou a outra concepção de ética, onde a busca da multiplicidade de vias se faria -de acordo com Freud- através de sua afirmação positiva, das Um-wege, dos des-vios. Pois também os espaçamentos, rupturas e transgressões, vazios e solidões constituem os modos de subjetivação.

    Assim, valorizou e produziu o que desliga e desconstrói, como o mostrou nos I Estados Gerais da Psicanálise, ampliando o conceito de crueldade. Derrida mostrou que a crueldade opera como um Incondicional, se impõe como constituinte necessário e permanente da vida psíquica. Se assim é -e é- a Crueldade seria uma escritura do nosso tempo, o que coloca em questão o papel e o sentido da Soberania.

    Os membros da FF sentiremos muita falta de seus ensinamentos, e também (os que puderam conviver com ele mais de perto) saudades.



     
    Você está recebendo este e-mail porque se cadastrou no site da Formação Freudiana

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    [Aeternus:1824] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-10)


    - contribuição preciosa enviada por LF Gallego

    Albee, sua vida e a história das suas peças. Destaque para  "Quem tem medo de Virgínia Woolf" 
    ( coletanea organizada informalmente por L.F.Gallego, a partir de velhos programas de teatro e mais outras riquezas advindas da sua memória-enciclopédia e redigido no tumulto de uma casa em obras... ) 
     
    Edward Franklin Albee nasceu a 12/3/1928 em Washington, D.C. Filho de pais desconhecidos, foi adotado com duas semanas de vida por Reed Albee, proprietário de uma rede de teatros de vaudeville, casado com Frances, vinte e tres anos mais nova.
    Reed era milionário, baixo, fraco, sem presença. Frances era voluntariosa, mimada e gostava de uma vida luxuosa, passando o inverno em Palm Beach e o resto do ano numa bela casa em Larchmont, NY.
    A convivência de Edward com seus pais adotivos nunca foi boa, tendo maior ligação com a avó materna, Cotta. Em muitas de suas peças, os casais tem problemas de convívio e a mulher é a figura dominadora e insatisfeita, agredindo e humilhando constantemente o marido tímido, frágil e fácilmente manejável.
    Edward foi criado por governantas e preceptores recebendo uma formação aristocrática, mas o lugar de filho "falsificado" e de testemunho de uma união estéril marcou sua vida e obra. Deste modo, encontramos esta questão no filho imaginário de Martha e George em "Quem tem medo?..." , como também em Jerry, poeta solitário, abandonado pelos pais e que busca desesperadamente se comunicar com os outros em Zoo Story.
    Edward era conduzido á escola em um Rolls-Royce, mas recusava-se a assistir as aulas e foi expulso da escola aos doze anos.Introspectivo, só fazia ler. Também não se dedicava aos esportes como manda o figurino nas escolas norte-americanas. Quando seus pais o colocaram numa Escola Militar as dificuldades se agravaram.
    Albee escrevia poesia desde os seis anos. Aos doze escreveu uma peça teatral, uma farsa. Em torno de 1944 começou a escrever poemas, crônicas e discursos adolescentes contra o "monstruoso exército das mulheres dominadoras e autoritárias". 
    Aos 20 anos abandonou a casa dos pais para morar em NY, rompendo com os projetos dos seus pais, que esperavam dele a reafirmação do seu sucesso e fortuna.
    Mesmo depois de romper com o "american way of life", ele continuava  dependente da pensão que recebia da avó materna e os juros da herança que ela lhe deixara ao morrer chegavam a cem mil dólares. Apesar da riqueza, ele trabalhava como office-boy, garçon, vendedor e mensageiro da Western Union, e convivia com os beatniks da Greenwich Village dos anos 1952/3.
    Durante os dez primeiros anos em que viveu em NY Albee não conseguiu êxito nas suas pretensões literárias. Buscou orientação de Auden e de Thorton Wilder. Este sugeriu-lhe que se dedicasse ao teatro. Em meio às crises de angústia pelo insucesso profissional, conseguiu escrever Zoo Story, em 1957 no prazo de tres semanas.
    Uma peça de 1 ato apenas não teria muita chance de ser encenada nos EUA, ainda mais por ser de um autor desconhecido. Através de amigos de  William Flaganan, compositor com quem dividiu seu apartamento entre 52 e 59, sua peça rodou de mão em mão na Europa até ser encenada em Berlim, onde obteve sucesso e isto lhe abriu as portas de um teatro off-Braodway para a montagem da sua peça,  apresentada em conjunto com outra, igualmente curta, de  Samuel Beckett. Deste modo, o teatro de Albee passou a ser associado ao “teatro do absurdo”, como o de Ionesco, Genet e, naturalmente, Beckett. Para uma peça não musical, suas 582 apresentações constituiram um recorde off-Broadway. 
    Zoo Story apresenta o encontro de Peter com Jerry, no Central Park, numa tarde de domingo. Peter era um típico americano de posses e de família estável e bem constituída. Jerry residia em pensões e era um  poeta que vivia entre os marginalizados pelo sistema (negros, homossexuais, porto-riquenhos, fracassados).   Jerry buscou comunicar-se com Peter, que nem se levantou do “seu” banco enquanto lia o jornal dominical, garanatindo seu lugar ao sol – literalmente. Investindo contra as grades protetoras de Peter para vencer seu individualismo, desespero e a solidão, Jerry finalmente é morto por Peter,  o assassinato sendo a única comunicação emocional possível entre ambos.
     Em 59 Albee escreveu The Sand Box, com quatro personagens situados numaa praia: o Rapaz, a Mamãe, o Papai e a Vovó, que morre sob o calor insuportável. Não se sabe se ela foi morta pela desatenção de Mamãe e Papai – ou se ela se deixou matar como algo que não tem mais valor numa sociedade que se desembaraça dos seus velhos doentes e que esconde seus monstros.
     Em 1960, os mesmos personagens reaparecem em The American Dream.  Em um pequeno apartamento Papai e Mamãe querem mandar Vovó para o hospício, como uma velha louca que defende valores que já não fazem o menor sentido no presente. Papai é rico, mas impotente; mamãe, insatisfeita, canaliza seu ódio contra o marido e a sua mãe.  Há um elemento na história: para sanar a esterilidade, há um sistema de assistência que distribui crianças sob medida, através do qual Albee zomba do mito da ideologia ocidental que mantém a idéia de que a criança é a chave do futuro, do sonho e da esperança,  sonho  delimitado pelos padrões vigentes, formado e conformado segundo um modelo apolíneo voltado para a aparência e onde o novo é apenas a embalagem de um produto já conhecido e consumido pelas sociedades de massa.  Esta mesma crítica ressurge na figura do Rapaz, agora no lugar de “Anjo da Morte”,  expressão do falso futuro, falso sonho, falsa esperança.
     Neste mesmo período surge A Morte de Bessie Smith, onde a cantora negra representa a negritude. Em 1937, Bessie está ferida e carecendo atendimento médico urgente, precisando ser admitida no mundo branco e antisséptico de um hospital do Sul dos EUA. Há um enfermeiro negro, amigo dela, que se submete às regras do jogo de discriminação racial para não perder o emprego. Em algum momento ele resolve desobedecer as regra e atende-la junto com um jovem médico branco contra uma enfermeira branca; Bessie já está morta, a solidariedade foi inútil e tardia. O gesto inútil permite ao hospital expulsar os não-conformistas. As vítimas assassinadas são sempre poetas (Jerry), pioneiros (Vovó), cantoras negras- artistas (Bessie) – as forças vivas que a América liquida.
    Em 1962, surge “Quem tem medo de Virginia Woolf?”
    A versão cinematográfica de "Quem tem medo...?" se transformou num dos filmes mais rentáveis realizados em preto-e-branco.
    Mas depois desta peça, começou a haver um divórcio entre suas novas obras e a crítica com o público.
    Em 63 adaptou sem repercussão A Balada do Café Triste de Carson McCullers para o palco; em 64 encenou “Tiny Alice” considerada obscura, desmistificando a Igreja, a Lei e a Verdade através de um Deus feminino e um universo ambíguo como o de Alice in Wonderland, onde o real e o imaginário perdem seus controles.
    Em 66, adapta “Malcolm”, romance de James Purdy que fica apenas 7 dias em cartaz. Por outro lado, recebe o Pultzer Prize com “A Delicate Balance” que reúne novamente dois casais, um espelho do outro, um deles adentrando a casa do outro assaltados por um profundo e inexplicável terror.
    Em 67, “Everything in the Garden” onde respeitáveis senhoras se prostituem para melhorar o nível de vida, mantendo-se as aparências onde tudo vai bem se parece bem. Os maridos são coniventes. Quando tudo vem a público eles se preocupam mais com a fonte de renda auxiliar do que com a moral da sociedade puritana em que vivem. Também é uma adaptação de romance, do inglês Giles Cooper.
    Em 68, um trabalho experimental com música, escultura, dança, linguagem: “Box-Mao-Box”.
    Em 1970, novo fracasso com All Over: uma mulher, os filhos, o melhor amigo e a amante de um homem referem-se constantemente a ele, que não aparece em cena, moribundo em outro cômodo. Uma imagem real ou fictícia deste homem se faz, desfaz e refaz a cada fala dos outros. Em 1975, produz Seascape, um novo fracasso.
    Posteriormente Albee obteve enorme sucesso com Três Mulheres Altas, também encenada no Rio e em SP há alguns anos com Beatriz Segall e Nathalia Thimberg. A peça era em dois atos em que, no primeiro, a Beatriz Segall está velha e chama uma firma de advocacia para um testamento (a representante do escitório é a tal atriz que não lembro o nome, uma jovem). Há uma amiga de idade intermediária entre as duas outras, dois extremos. Discutem as diferenças de projetos e ideais concretamente, decepções, mudanças de plano, etc. A velha passa mal no final do primeiro ato.
    No segundo ato, a velha está em coma (é um boneco) e o filho adotivo que nunca mais a vira, vem visitá-la. Este homem entra e fica em silêncio durante todo segundo ato, ao lado do boneco. As tres mulheres representam a mesma pessoas, em diferentes idades,  discutindo as mesmas coisas, agora num plano abstrato. Elas dialogam como uma mesma mulher dialogaria com sua imagem tripartida em moça jovem, de meia-idade e atual ( a idosa). Pode ser um delírio da velha em coma se apropriando das imagens físicas das outras duas, as últimas que viu em lucidez de consciência, que agora servem como “atrizes” para representá-la em diferentes fases da vida. As esperanças e o idealismo da jovem são ridicularizados pelas mais velhas.
     
    Na dramaturgia de Albee o duelo é várias vezes a forma de relação psíquica entre os homens. Os duelistas mais violentos são Martha e George de “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”
    A história apresenta George, professor de História numa Faculdade da Nova Inglaterra e Martha, dominadora e insatisfeita, filha do Reitor desta mesma Faculdade num encontro com um casal jovem, composto de Nick – recém-chegado para o departamento de Biologia e sua mulher, “Honey”.
    Os problemas lançados são de vários tipos e níveis, todos retomando os pontos centrais das preocupações de Albee. De um lado, uma mulher insatisfeita e angustiada, incapaz de ver e perceber a realidade, questionando o tempo todo seu marido. Este, o antípoda do self made man,   já está entrando em decadência física e ultrapassando o limite para progredir na hierarquia do Departamento de História e alcançar o posto de Diretor do Departamento  Tal como os pais adotivos de Albee: Reed era fraco e decadente e Francês, mimada e voluntariosa.
    Mas as tensões emocionais do casal em confronto não resumem a densidade e dimensão da peça: a insatisfação e o vazio da vida colocada em cena veiculam a denúncia das dificuldades que a crença no “sonho americano” traz para os relacionamentos interpessoais.
    A não-correspondência entre o concreto vivido e o sonho destrói uma efetiva possibilidade de convivência.
    É da não correspondência entre realidade e projeto que a peça ganha o sonteúdo mais amplo que tb está presente em “Pequenina Alice” e “Um equilíbrio delicado”: a discussão dos limites entre a ilusão e a realidade, da possibilidade de viver o imaginário como fuga ao enfrentamento com o real, não sob o signo da hipocrisia ou loucura, mas sob a égide da dor e do destroçamento do indivíduo.
    Tudo se passa na madrugada de um domingo até o alvorecer, após uma das muitas bebebdeiras que congregam a comunidade acadêmica nas noites de sábado, mas atingindo as proporções de um ritual em que Martha e George, com a platéia de seus convidados, exercitam sua dialética explosiva e tempestuosa cujo final é a destruição do sonho secreto do casal: o filho imaginário - símbolo da fertilidade da relação, do futuro e da ilusão – é finalmente destruído. A destruição do ilusório – tão necessário para o casal – levanta a questão do enfrentamento da vida sem ilusões, o enfrentamento de “Virginia Woolf”/big bad wolf, entidade que oferece o leitmotif da peça: a lucidez externa. Quem tem medo da verdade? Verdade real ou ilusória? É o problema central da obra que sacode a vida dos personagens e dos espectadores.
    A primeira montagem em 1962 na Broadway conquistou quase todos os prêmios da temporada para melhor interpretação feminina (Uta Hagen), masculina (Arthur Hill), melhor direção (Alan Schneider) e melhor produção (Richard Barr e Clinton Wilder).
    No Brasil, a primeira montagem foi em 1966, reunindo Cacilda Becker, Walmor Chagas, Lílian Lemmertz e Fúlvio Stefanini em SP. No Rio, desentendimentos entre o diretor Maurice Vaneau e o casal prinicipal levaram à saída inicial de Cacilda, substituída às pressas por Vanda Lacerda; os desentendimensto prosseguiram com Walmor Chagas, levando à saída do resto do elenco, Paulo Padilha substituiu Walmor, modificando-se totalmente o quarteto de atores para o restante da temporada carioca que mesmo assim teve enorme sucesso e se prorrogou em outro teatro depois do Maison de France. Anos depois, Lílian Lemmertz que havia sido “Honey” na montagem original assumiu o papel de Martha ao lado de Raul Cortez no mesmo teatro da Maison.
    Na França, Madeleine Robinson teria sido uma admirável Martha no Théatre de la Renaissance em 1964.
    No cinema, Elizabeth Taylor e Richard Burton, casal XX do cinema na época, desempenharam os papéis principais ao lado de Sandy Dennis e George Segal.
    Elizabet Taylor ganhou seu segundo Oscar, além de ter tido seu desempenho premiado pelo New York Film Critics, National Board of Review e pelo British Film. Sandy Dennis recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.  O filme recebeu ainda os Oscars de Direção de Arte em preto-e-branco,Desenho de Vestuário em preto-e-branco  e Cinematografia (Fotografia) em preto-e-branco. 
    Richard Burton foi reconhecido na Inglaterra como melhor ator pela  British Academy (1966) que tb premiou Elizabeth Taylor e o filme como os melhores de 1966. 
     

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    [Aeternus:1831] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-11)


    - Va savoir !

    De fato, Eugênia.

    Peguei carona na primeira mensagem obituária e mandei brasa. Nem olhei o título. Algum dia me habituo à informática. Só não quero me obituar.


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    [Aeternus:1833] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-11)


    - exobitar?

    Valeu Guto, vamos ver se agora a gente engata nessa. 

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    [Aeternus:1835] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-12)


    - sexta "feia"

    Na longa mensagem da Jansy sobre Derrida ela escreveu que ele veio a morrer na sexta feiUra, com a interferência de um "U" no meio da "feira". A feiúra dos dias em que morrem certas pessoas significativas para seus sobreviventes é um fato! mesmo que seja em belos dias de sol. Sextas já são marcadas pela morte de Cristo (sexta-feira da Paixão é o nome trágico oficial). Sextas são feias (sem "R") ? Mas antecipam os fins-de-semana que todos esperam ansiosamente como se fossem encontrar a redenção dos dis ditos "úteis". Queremos dias inúteis! Que, entretanto, só se realizam plenamente no fim de todas as semanas, eterno weekend onde estão fazendo check-in Reeves, Derrida, Sabino e outros tantos menos conhecidos.


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    [Aeternus:1837] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-12)


    - check in

    Gallego, você está inspirado! Sua mensagem pela primeira vez me trouxe algo reconfortante sobre a idéia da morte. Seria uma espécie de "check in"! 
    O gostosinho é o "in" que inclui e acolhe todo mundo, em vez de espalhar o pó explodido pelos ares, nesta outra via de entrada no ciclo da vida. 
    Sexta-feiura e sexta da paixão ( mortal) ...Pô,  logo o dia da semana que pertence a Venus? ( não é Freitag, Friday pros nórdicos e Vendredi para os latinos? )

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    [Aeternus:1838] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-12)


    - Depois da Vida

    Já cansei de indicar o dvd do filme japonês "Depois da Vida" onde o que se passa depois é um estágio de uma semana em uma espécie de colégio interno simples (com check-in) para que se escolha UMA lembrança que será eternizada. A eternidade é um momento de felicidade à sua escolha, não mais breve e fugaz, mas um para sempre. O diabo é escolher do que se vai abrir mão. porque o que se quer, é fácil de saber: é apenas... tudo!

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    [Aeternus:1839] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-12)


    - não tenham dúvida

    ...de que nossos queridos ex-defuntos de boa índole já estão vendo filmes, lendo ou jogando biriba e bridge no além. De vez em quando perguntam pela gente. Deus é parecido com esse jap seletivão do Gallego, tem manias irreversíveis, mas também dá colheres de chá aqui e ali.
    A questão Lacan/Bakhtin é insolúvel como a do ovo e da galinha. Depende de referencial, dando ganho a ambos na argumentação. Se você partir do inside, das vísceras, Lacan tem razão. Ao mesmo tempo, se você parte da premissa do discurso como significante dentro do espaço transicional, Bakhtin tem razão. Parecido com aquela discussão do astronauta descrevendo sensações sem 'estar em contato direto com', que a Jansy discutiu na Topologia. Esse discurso teria no mínimo duas instâncias : a subjetivação do astronauta ( que se soma ) à transição deste dentro do 'social' ( e por transição abre-se um leque amplo : afeto, poder, troca, reconhecimento...)

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    [Aeternus:1840] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-12)


    - interno

    É mesmo adorável a imagem do check-in como passagem para o desconhecido/temido/desejado/imaginado terreno de depois da morte. A comparação com o colégio interno me fez lembrar do aconchego que encontrei quando passei um tempo da minha adolescência num pensionato religioso. Fiquei curiosa com o Backtin, vou procurar um livro que tinha dele mas não concordo com a idéia de que o Lacan não se refira a comunicação e significado. Ele dá mesmo uma via diferente da usual mas esse assunto está muito presente principalmente na topologia. O significado, se não me engano, fica do lado do imaginário, registro que ele não parou de desenvolver, e tem uma formulação muito original na topologia.

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    [Aeternus:1841] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-12)


    - passagem

    Será mesmo que para Lacan a história começa nas vísceras, no inside? Há um "gatilho" que depende do outro, que não se faz sozinho, o que remete à dicotomia do ovo e da galinha mesmo... Gallego, será que daria certo você me enviar uma cópia desse filme? Adoro filmes japoneses. Diga a conta e faço a transferência, pode ser? Outra coisa: uma amiga muito querida de Brasília mudou para o Rio e como ela estuda cinema queria recomendar o cine-club que você organiza. Qualquer um pode ir ou é só da área psi? Quais os dias, local, horário? Aqui as locadoras são tão triviais!!!! Será que não haveria um jeito de fazer uma mala postal, uma invenção qualquer que filmes bons chegassem pelo correio e a gente pudesse devolver em seguida sem ter que pagar caríssimo pela reprodução dos dvs?

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    [Aeternus:1842] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-12)


    - a partir do que a Jansy colocou

    ...de que Lacan não valorizava o discurso e o significante, especulei livremente a respeito de origens, ainda que reconhecendo a dinâmica fluida e circunvolutiva de tudo. Parece uma espiral incessante, e onde/como descobrir a pontinha da linha ou 'o' fragmento original ?...

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    [Aeternus:1843] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-12)


    - o que tentei dizer...

    Marcos e Eugênia, novamente me desculpo pela imprecisão do meu comunicado que gerou respostas ( ótimas ) e mal-entendidos ( melhores ainda).
    Para Lacan o significado está no campo do imaginário, como Eugenia apreciou há pouco e isto é algo que seus seguidores, mais do que ele, depreciavam  quando o imaginário ( i.e: o corpo, o mundo, a realidade, as relações sexuais) era tomado fora da sua conexão com real e simbólico. 
    Levar a realidade do momento a sério demais é entrar no "maia" hinduista, é perder o elo entre esta dimensão imaginária e o resto.É se deixar invadir pelos "significados".
    Lacan posicionava a intenção de  "comunicação" entre as pessoas de um modo muito peculiar. No seminário 2 ele  aproxima comunicação, informação e a pulsão de morte... Mas o que queria distinguir quanto ao Bakhtin e ele, no nível superficial no qual me encontro pela falta de leitura suficiente, é que para Bakhtin tudo que existe e acontece se dá no campo da relação "eu/outro", "Self/NãoEu" e as enunciações são convocadas pelo outro e se endereçam de volta a ele. 

    Para Lacan há um mistério que ele figurou com um conto ( esqueci o nome do autor, só penso em Mazzaropi, pura gozação do inconsciente bancando poltergeist ante minha recalcitrante memória ) de onde ele extraiu a expressão "Che Vuoi?" ( a voz do diabo perguntando-nos: " o que você quer?").
    Segundo Lacan estamos no fundo reiteradamente e irrecuperavelmente nos endereçando apenas a nós mesmos.  O circuito é fechado como o arco pulsional.  Foi por isto que contrastei o dialogismo de Bakhtin com tudo que até hoje entendi como se passando, por exemplo, no encontro analítico lacaniano. Me parece que para o russo "o grande outro" ( discurso, simbólico ) de Lacan não está, de nenhum modo, ausente ou sendo negado.
    Mas ele ou é parte de um código da linguagem enquanto distinta da fala, ou talvez um elemento determinante entre milhares de outros nas redes de comunicação que se fazem pela fala.
    Tenho que comer muito feijão com arroz até poder sustentar uma conversa minimamente inteligente com vocês sobre este assunto. No entanto, gostaria que me contassem mais de Bakhtin, estou feito passarinho no ninho esperando minhoca.     

     

     


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    [Aeternus:1844] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-12)


    - fascinante !

    Enquanto eu lia o primeiro lote-paragrafão da Jansy, imaginava o alucinante moto-contínuo eu/eu mesmo//eu/outro, e geograficamente só consigo 'desenhar' essas imagens em espirais incessantes e entrecruzadas...( é um erro ler assim ? ). Estrutura muito complexa e dinâmica, pois, dificultando toda a praxis de origens e destinos !

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    [Aeternus:1845] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-12)


    - adendo

    ...ainda que a Jansy a tenha desenvolvido de forma excelente no segundo paragrafão.

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    [Aeternus:1846] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-12)


    - Respondendo a Eugenia.

    Os encontros de Psicanálise & Cinema ocorrem na quarta sexta-feira de alguns meses na Sociedade Brasileira de Psicanálise do RJ, Rua David Campista, 80, Humaitá, Botafogo; esta rua fica perto da COBAL de Botafogo. O horário é horrível devido ao trânsito caótico e elnto nas proximidades, mas não dá para projetar um filme e debatê-lo, a não ser às 19 horas. O último deste ano será "Tolerância Zero" com um psicanalista e um hitoriador. É o terceiro debate sobre violência e destrutividade humanas em filmes. os anteriores foram "Clube da Luta" (violência urbana) e "Glória feita de Sangue" do Kubrick (guerra). Este é sobre preconceito na sua pior forma: contra si mesmo. No caso, um jovem judeu que vira anti-semita neonazista (o fato é ficção de um episódio acontecido de fato). Dia 22/10. Temos que cobrar 10 reais devido ao aluguel da aparelhagem e cachê para o debatedor convidado (o psicanalista da Sociedade não recebe nada).

    No SESC-Arte da Rua Marquês de Abrantes, 99, Flamengo, aos domingos há sempre filmes projetados de dvds como na Sociedade, só que em auditório maior e mais confortável. E de graça! o que é um problema: os idosos lotam às 15 horas e o filme começa às 17.

    O de bate é no último domingo de cada mês. No dia 31/10, "Os Incompreedidos" de Truffaut.

    E no ´´ultimo domingo de novembro, um western: "O Homem que matou o facínora" com uma psicanalista muito interessante, Marci Dória Passos. Em dezembro não haverá e meu contrato com eles ainda não foi renovado. Eu organizo os debates mas não escolho os filmes, apenas seleciono UM dentre os programados para aquele mês.

    Quanto ao dvd, minha dificuldade é que tenho que entrar no site da www.2001video.com.br e estou usando o computador da minha filha com o caos instalado em casa pelas obras intermináveis. Lá, sai mais barato e eles entregam em qualquer lugar do Brasil. Vale a pena juntar uns 4 dvds para valer a pena o frete que não é caro, mas se vc comprar um de cada vez... some a vantagem de preço. O momento é ruim para eu fazer isso por você, o que em outro momento, faria com o maior prazer. Já fuiz para Jansy e outros colegas, mas estas próximas semanas... nem sei onde vou dormir!


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    [Aeternus:1847] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-12)


    - De bate é com Gallego

    Florião, você é muito engraçado a ler Bakhtin nas entrelinhas como se espiando no vão de alguma blusa mal abotoada. 
    Não sei se é possível usar a figura da espiral para suas idéias pois elas não sofrem da visão teleológica e progressista, e descrevem uma espécie de rede de simultaneidades, atualizadas ou em potencial.

    Ontem fui ver um desenho animado sobre tubarões. Achei as imagens aquáticas e o movimento dos peixes magníficas. A música também. Me diverti com as citações de outros filmes que conheci reconhecer.  Contudo, não era um filme próprio para crianças, a meu ver. Continua naquela linha da indoutrinação americana que anda muito estranha ultimamente, como se tivesse entrado na categoria psicotizante de enviar "dupla mensagem" ( "double-bind" ). Ser grafiteiro é criativo e até bacana, desde que limpe tudo depois.  Tem corrida de cavalo marinho e pagamento para proteção extraída pelos gangsters da máfia ( são os "tubarões" ).  E este é o segundo desenho que vejo com tubarões vegetarianos ( o primeiro foi "Procurando Nemo" ). 

    Gallego, a Eugenia pode pegar dicas dos seus programas no aeternus, naquela parte que tem escrito SBPRJ e acompanhar seus pequenos comentários a cada filme, cada um deles muito bom e conciso ( o que não vem sendo o meu caso porque hoje você e o Florião escreveram sobre  "paragrafão da Jansy" e, pior, de um primeiro, segundo, terceiro! Ora, ora...)

     


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    [Aeternus:1849] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-12)


    - pros distraídos

    vou mandar esta mensagem apenas pra não clicarem outra vez no falecido "Festival"  pensando que estão no Va Savoir...

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    [Aeternus:1850] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-13)


    - as rugas da Eugênia nas marcas da história

    Proponho-me tarefas e ninguém tá dando bola se cumpro ou não, mas tento ir em frente.  Há umas mensagens atrás, Eugenia falou algo sobre rugas e o imaginário, quando me recordei de um texto do Lacan sobre "marcas".  Vou copiar.

    "Coloquei isto há muito tempo, muito suavemente, dizendo que, os sentimentos, isto sempre é recíproco. Era para que isto me retornasse - E então, e então, e o amor, e o amor, ele é sempre recíproco? - Mas é claro, mas é claro!  ´?E mesmo por isso que se inventou o inconsciente - para se perceber que, o desejo do homem, é o desejo do Outro (...)   O Amuro é o que aparece em signos bizarros no corpo. São esses caracteres sexuais que vêm do além, desse local que temos acreditado podermos ocular no micriscópio sob a forma de gérmen - a respeito do qual farei vocês notarem que não se pode dizer que seja a vida, pois aquilo também porta a morte, a morte do corpo, por remeti-lo.(...) É portanto falso dizer que há separação do soma e do gérmen, pois, por alojar esse gérmen, o corpo leva seus traços.  Há traços no amuro.  Muito bem, são traços apenas. O ser do corpo certamente que é sexuado, mas é secundário, como se diz.  E como a experiência o demonstra, não é desses traços que depende o gozo do corpo, no que ele simboliza o Outro. (...) - o amor, será que é fazer um só?  Eros, será ele tensão para o Um? (...) O mesmo acontece com tudo que diz respeito ao amor. O hábito ama o monge, porque é por isso que eles são apenas um.  Dito de outro modo, o que há sob o hábito, e que chamamos de corpo, talvez seja apenas esse resto que chamo de objeto a.  O que faz agüentar-se a imagem, é um resto.  A análise demonstra que o amor, em sua essência, é narcísico, e denuncia que a substância do pretenso objetal - papo furado - é de fato o que, no desejo, é resto, isto é, sua causa, e esteio de sua insatisfação, se não de sua impossibilidade.  O amor é impotente, ainda que seja recíproco, porque ele ignora que é apenas o desejo de ser Um, o que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação dos... A relação dos quem? - dois sexos. Jacques Lacan, O Seminário, livro 20, Mais, ainda.( Encore), 1975 estebelecido por JA Miller, trad.M.M.Dias.

    Viram como era fácil? Aqui está tudo que se precisa saber sobre o amor, das marcas do sexo que chegam do além, da reciprocidade que nos condena ao narcisismo e ao que em dois sexos querem produzir UM.  

    O engraçado é que  Derrida é ainda mais complicado.


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    [Aeternus:1851] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-13)


    - quanto mais complicado melhor !

    Ao mesmo tempo, Lacan carimba, de forma indireta, a grandeza da Busca.
    Como se fôssemos grandes navegadores, cada um à sua moda e meio que rumando às cegas, tateando no escuro ( no caso do amor 'enxergando’ apenas nosso 'ideal erótico’, o pacote que vem embrulhadinho do inconsciente ?...)
    Como repetimos seguida e energeticamente nossa(s) veleidade(s), até que a tal matura/idade nos a.atinja / b. perpetre / c.ilumine / d.esboroe / e.todas as anteriores, cá estamos com Nietzsche no eterno retorno.
    Pois não há como escapar de pensar no por que da insistência e vizietto em Existir ( e não adianta aqui esse papo de 'biológico’ como todo-poderoso agente explicador. Insistência e vizietto causas de briga homérica de Mr. Sartre com Camus. No auge desta, o irritado encouraçado perguntou-lhe, numa mistura de curiosidade com ironia, "diga-me Camus : o que há de tão problemático em renegar a Vida ?"
    ( há resposta para tal pergunta ou só um baiano estaria capacitado a respondê-la ? )

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    [Aeternus:1852] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-13)


    - Beckett e ser infeliz bastante...

    Não sei, Florião...sei não, não sei se há problema em renegar a vida ( esta a famosa frase dos Édipos: "quem dera não ter nascido" ) mas, uma vez estando vivo e continuando vivo, fica esquisito "renegar".
    Feito aquela história que já trouxe aqui, do cego e do paralítico em conversa e tanto se queixava um que o outro inquiriu: " então por que você não se mata logo?"  e o outro, revidou: " é que não sou infeliz o bastante". 

    Qual eterno retorno? o do lamento edípico? De qualquer modo, se você acha que "quanto mais complicado melhor",  vamos deixar ficar assim... a melhorar ?

     


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    [Aeternus:1853] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-13)


    - todos os apaixonados...

    No sentido do elo, a dinâmica do gesto, de viver em si.
    Não precisa nada esfuziante, tipo trio elétrico, desmioladas gênero Daniela Mercury, Elba Ramalho e Ivete Sangallo. Simplesmente paixão e entrega, construtiva.
    Talvez esse joguinho do eu com o eu mesmo ( e junto a outros eus e a todas as complicações que Lacan, Derrida e outros colocam )possa fascinar alguém além do hedonista e do descompromissado descamisado ( sem camisa mesmo ou sem cultura alguma ).
    Mas...há algo transcendental nesse processo, nessas vitórias íntimas 'forjadas' ou não. O filme "1492 - Cristóvão Colombo" teve um roteiro falho, demasiado 'cinematográfico'. Mas a cena em que os insetos começam a aparecer a bordo e uma bruma desfaz-se revelando terra firme, com a câmara dentro do rosto do Depardieu - curtindo sua vitória sozinho instantes antes de compartilhá-la com a tripulação é o o do Bodó.


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    [Aeternus:1854] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-13)


    - grata

    Gallego, muito obrigada pela resposta e a dica do site, assim como a possibilidade que haveria se fosse outro momento. Tomara que as coisas se acalmem logo no seu pedaço... Sobre o debate Jansy / Marcos, no momento também estou correndo mas acho que a discussão Lacan / Backtin daria um excelente pano para manga. O problema é que tenho que preparar aulas e fazer palestras em outros assuntos, fica uma loucura já como está, mas adoraria retomar a leitura deles. Assim de cara, o que me parece é que o Lacan muda de idéia em quatro grandes momentos, tornando a obra dele ainda mais complexa. Pensando no Freud, parece mais comum a gente admitir que ele defendia um ponto de vista e depois propunha outra coisa. É neste sentido que não me parece que o Lacan definisse o objeto como uma coisa fechada, empacotada como me pareceu que está parecendo a vocês. Mas no momento não dá para ir pegar melhor nos textos...

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    [Aeternus:1855] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-13)


    - minhas?

    Gostei muito não... será pelas referências a minhas rugas? Achei esse trecho inutilmente empolado e além disso não concordo com essa excessiva referência ao amor como uma impossibilidade. A "relação sexual" não é o amor, ora. Sempre acho que ele está usando a palavra "amor" em um sentido muito específico.

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    [Aeternus:1856] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-13)


    - mas não pensem que eu não acho

    ...que o Shaw tem razão : quando se consegue o que mais se almeja, o jogo recomeça.
    Que o diga o próprio Colombo com sua América daqueles anos, e nós com a dos nossos anos. Parece que não há como (só) dormir nos louros, ainda que estes mereçam seu lugar relevante.

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    [Aeternus:1857] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-13)


    - dormir com os louros

    Muita teoria leva a um clima persecutório quando a teorização não cai bem e  não encaixa no tema dos filmes sendo discutidos. 
    Mea culpa pelo que aconteceu antes nas citações a Lacan e na resposta abaixo. Pulem o que não interessar pois estou certa de que sua leitura não fará falta adiante...

    Eugenia ficou impaciente com o "empolado no Lacan" e esquecida do comentário que fez sobre as rugas. No entanto, até o título que ela deu para o assunto foi " De ride em ride" ( jogando com variante do nome "Derrida", mas, que eu saiba, em francês "ride" é ruga...).
    Também no final da mensagem ela observou:  "O savoir a que remete o título da nossa lista não é, portanto, um remédio inócuo. Nem a filosofia salva de morrer de câncer. Mas de ruga em ruga nossa pele pode desenhar uma textura, passageira, mas capaz de fazer uma marca que, embora se desfça logo em seguida, pode produzir reverberações, como os desconstrutivos escritos sobre a escrita, de Derrida".

    Daí que, motivada por estas falas, me recordei do Lacan falando da sexuação e suas "marcas do além" ...
    Não sei como vocês entendem o "objeto a" ( Eugenia criticou a idéia de um objeto com contornos, fechado, acabado ).
    Lacan no trecho citado o descreve como um  "resto" e foi sempre assim que Lacan o tomou, como "resto" ( embora apreensível nas dimensões do imaginário, simbólico e real). Resto que sobra da "castração"!

    Em algumas fórmulas, este "resto" ( designado como "objeto do desejo", "objeto pequeno a"  ) aparece ocupando lugares diferentes ante a "Verdade".
    No discurso da psicanálise ele é projetado no psicanalista e é  pro-motor da transferência. É aquilo que n´ " O Banquete",  Platão reporta como sendo o misterioso "agalma" ( tesouro oculto ) que buscam obter ou extrair ou fascinar de Sócrates... 
    Em outras fórmulas, "o objeto a" emerge, depois some e dá lugar a uma "falofania" ( alucinação do falo ) até finalmente ser substituído pelo Sujeito no instante do seu desaparecimento ( donde fui levada a supor que "a", "Falo" e "S" sejam efeitos da mesma ausência ).
    Vá saber!

     


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    [Aeternus:1858] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-13)


    - me esqueci dos louros ...

    Na mensagem anterior ainda ia brincar "com os louros" dos quais Florião escreveu e acabei me esquecendo.
    Florião retomou o momento solitário do gozo de Colombo ( no filme 1942, com Dépardieu ) vislumbrando as índias entre brumas e insetos. Vai ver que Noé também sentiu algo parecido quando a pomba voltou com um galho de ... louro (?) entre  neblina e arco-íris?
    É disso exatamente que Lacan fala quanto ao gozo. É sempre solitário. Como a dor, como morrer. Pode ter o mundo inteiro em volta, mas quem sente, quem morre é  só aquele que bate as botas, abotoa o paletó ou geme aiaiai vendo  espocarem fogos de artifícios ( cf. "Como água para chocolate" e, no melhor deles, Greta Scacchi numa gruta e um tal de Onoffrio num filme que fala de "pele/areia", em pequenos extases cada um com seu cada qual ). 
    E é disso que Bakhtin não fala!  Não há um eu/eumesmo/outro. Isto é com Lacan.  

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    [Aeternus:1859] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-13)


    - a ciascuno il suo

    Mas o Bakh não é analista psi, mas literário ! Só quem consegue discutir desde aerodinâmica de gaiolas de passarinhos até a do Concorde são os cronistas esportivos e os do Manhattan Connection.
    O Onnofrio é Vincent d', bom ator e chegado a rechonchudinho. Para aplacar sua (deles) solidão, a Greta e o Vincent recitam lúgubres e magníficos trechos de Mathew Arnold. O filme era "Salt on Your Skin", de Andrew Birkin. E o poema, em tradução pessoal sem preocupação de métrica, diz :
    ( a primeira parte é a Greta quem recita na gruta à beira mar, antes deles se entregarem de todo à paixão mas já apaixonados )

    "O escurecer ficava suspenso entre o dia e a noite
    Entre o sonho e a realidade.
    O mar está calmo hoje, e a maré cheia.
    A lua brilha sobre os canais.
    Ouve-se o ranger dos seixos, que as ondas levam...
    E arremessam de volta subindo pela praia.
    Começam e cessa...e começam de novo,
    Com uma cadência lenta e trêmula,
    E trazem a noite eterna de tristeza.


    (próximo ao final é a vez do Vincent.Pescador humilde, diz a ela que pesquisou
    numa biblioteca, e que há uma segunda parte no Arnold )

    "Ah ! amor, sejamos sinceros um com o outro
    Pois o mundo que parece deitar-se frente a nós
    Tão variado, tão lindo, tão novo...
    Não tem realmente nem alegria nem amor ou luz
    Nem certeza, paz ou ajuda contra a dor.
    E aqui estamos, em uma planície que escurece,
    Levados por confusos alarmes de luta e vôo,
    Onde ignorantes exércitos chocam-se à noite."

    Adoro esses 'confusos alarmes de luta e vôo’...


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    [Aeternus:1860] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-14)


    - como uma luva

    Florião tascou uma resposta rápida, precisa e completa: o filme dos extases fogosos era  Salt on your skin com poemas de Matthew Arnold, citados pelo MF até com a marcação das duas vozes.
    Puxa, é um prazer receber mensagens assim.

    Bakhtin não era um psicanalista, como Florião observou. No entanto, muitas das suas idéias poderiam caber no campo da "psicanálise aplicada" ( que é terra de todo mundo ) e à teoria da teoria analítica, à sociologia, à linguística. Dizem que foi usado até em arquitetura e uma das suas leitoras mais importantes na Europa foi Julia Kristeva.  

    Passei a tarde assistindo Quem tem medo de Virginia Woolf e no começo fiquei zonza e confusa, como se tivesse bebendo brandy na sala no meio das brigas dos casais.  Ouvi parte do depoimento sobre a fotografia pelo Wexler com historinhas interessantes para cada tomada, descrevendo o uso de "cranes" ( guindastes ) e dos brancos  tecidos refletores para iluminar a cena. Fora o medo do R. Burton de ser Wexler documentarista demais e acabar focalizando as crateras de espinha na sua pele...
    Descobri que todos que comentam o título fazem referencia à música dos tres porquinhos de Disney: " quem tem medo do lobo mau". Só que o Studio não deu permissão que a usassem e Liz Taylor cantarolou outra melodia ( e eu consegui lembrar qual era: "Around the Mulberry Bush" que fornece um calendário com as tarefas diárias da dona de casa, algo que claramente faltava à Martha/ Liz Taylor...). Albee teria se inspirado num rabisco em Greenwich Village que era mais ou menos " quem tem medo de viver sem falsas ilusões",  depois de abandonar o primeiro título " O Exorcista"...
    Que filme desagradável. A rotação da camera com aquela gente cambaleando o tempo todo e gritando foi, na minha opinião, a escolha mais genial de todas da filmagem. Vertiginosa...
    Que filme horrível, apesar de cheio de qualidades.  Me deu a mesma sensação encurralada do atual " The Tape" com a Uma Thurman.  Vou precisar de um bom prazo para me desetilizar e escrever algo sobre ele... 

    Ih, já estou nos paragrafões de novo. Uma observação estranha. Nós estávamos falando do Shaw, do Pigmalião/My Fair Lady e associamos a história do "criador" com Pinóquio e A.I. e esquecemos de outra ligação.  Frankenstein !( e que cabe ótimamente no conto do P. Dick ). Por trás do monstro Frankie, ainda no subtítulo do livro de Mary Shelly, outro elemento, míticamente titanico: temos " Prometeu".

     


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    [Aeternus:1861] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-14)


    - o quê Frankenstein prometeu ?

    (brinco com minha própria ignorância : alô Jansy, quando surgir essa digressão favor ilustrar os símbolos em beabá, pois sou praticamente zero à esquerda em Mitologia Grega ! )
    "Tape" ao menos era com jovens ! Há esperanças ( há ?...) de que eles levantem, sacudam a poeira e dêm a volta por cima. Maiores, eu diria, para o personagem do Robert Sean Leonard, que consegue um importante distanciamento crítico de si mesmo, sem deixar de exercer-se, naquela do Goethe.
    "Virginia Woolf" já cheira a ranço, com um pessoal pra lá de Bagdá. Fica a impressão que atravessaram a encruzilhada errada e chegaram ao point of no return. ( Pior : não é nem o Kafkiano, na citação que tanto admiro 'de um ponto em diante não há mais retorno. Esté é o ponto a ser atingido.' )

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    [Aeternus:1862] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-14)


    - louro canto

    Que legal esse recorte do que havia escrito e agora ao ver assim citado pela Jansy tive a nitida sensação, análoga ao "va savoir": eu, hem? eu que escrevi isso? assim tão legal? Das rugas eu lembrava mas não da relação que Jansy fez tão bem com o texto do Lacan. Agora vou chutar com todo o risco: o objeto a, interessante para discutir filmes e demais narrativas que nos ocorrem, pode ser aproximado à ruga em função do aconchego que, como um estojo, é capaz de proporcionar a uma conformação do mundo. É nesse sentido que entendo a dimensão narcísica do amor: ele se conforma, adquire uma forma, em função do estojo que nosso "astral" (desculpem a deselegância da gíria, mas não dá certo dizer que a ruga em questão se reduz a essa da bochecha caindo). A sucessão dos objetos que caem numa narrativa, portanto, podem nos inpirar a ficar conhecendo nossa própria conformação, nosso baixo-relevo, que ao ser projetado no mundo, se faz objeto? Resta - lá vem o resto - a questão de saber o que ocorre se acompanharmos a sucessão das rugas, tomando-as como escrita. (e vejam a escritas do sumérios e demais caracteres pré-alfabéticos, eles parecem mesmo inscrições como a que a Jansy descreveu no polegar dela, são traços geométricos, tem um site com reproduções, são lindos). A escrita, definida assim como feita pelo encontro entre estojo e objeto, tem que considerar que nenhum objeto vai se aconchegar completamente, pois se ele se repete é por ter saltado de algum canto. Acompanhar o próprio rastro, então, pode trazer efeitos benéficos ou maléficos, depende do canto por onde tenha escapado o objeto a? Será que isso remete aos quatro discursos com seus 4 cantos cardinais? Retomando, então o Derrida, mas somente no livro dele que eu consigo acompanhar com prazer que é "A farmácia de Platão". Ele afirma: "O deus da escritura é pois um deus da medicina. Da "medicina": ao mesmo tempo ciência e droga oculta. Do remédio e do veneno. O deus da escritura é o deus do pharmakon. E é a escritura como pharmakon que ele apresenta ao rei no Fedro, com humildade inquietante como o desafio." (p. 38) Talvez nosso trabalho seja preparar a pessoa para encontrar/suportar sua imagem, seu baixo-relevo, escrito na forma do objeto que resta após um lançamento repetido pela vida afora/adentro... A questão é que se não for a pessoa mesma que faça isso, se for a gente que se meter a apresentar a formulação, sempre vai ser uma violência, uma grosseria. Então o que faço nas oficinas de histórias é ir exercitando esses encontros com os personagens de mitos, lendas, e histórias de trancoso, procurando ver de que canto é que sai aquele louro. Trata-se então, como lembrava o Gallego, não de colocar a teoria do objeto a como superior à produção mítica, mas de tentar aprender com o mito um modo diferente de saber. Para isso é preciso começar de algum canto, algum pé de conversa... Juro que agora vou terminar, só lembrando que nas 1001 noites, cada vez que o narrador vai passar de uma história para outra, ele repete esse mote: "É verdadeiramente maravilhosa minha aventura, e fosse ela gravada com uma agulha, no canto interno dos olhos, seria um aviso para todo aquele que quisesse ser avisado, e matéria de reflexão para odo aquele que quisesse refletir." Opa, desculpem o mailzão...

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    [Aeternus:1863] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-14)


    - backtin

    Que bom Jansy! Ficou bem claro assim...

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    [Aeternus:1864] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-14)


    - lindos

    Curisoso que nos lindos versos que traz o Marcos, o amor sempre apareça em planícies escuras, em meio a ameaças de luta e vôo. Talvez seja esse elemento seja imprescindível para certas conformações de estojo e objeto. Se forem por demais explícitos, perdem a graça? Comigo não acontece desse jeito... ai ai ai, como sou óbvia! quando amo fico planície iluminada, sem sombra, sem nuance, sem sutileza...

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    [Aeternus:1865] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-14)


    - Para Guto

    Hábito: Substantivo presente. Óbito: Particípio passado do substantivo Hábito.

    (Em adendo à sátira gramatical enviada há uns 27 anos pela Jansy...)

    Davy.


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    [Aeternus:1869] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-14)


    - Para Eugênia e todos

    Legal, Eugênia, para quem fala como você fala, até que você vive (ou ao menos ama) de um modo bem gostoso. Às vezes (lá vou eu em nova diatribe..., sempre me repetindo, porque o problema é o mesmo) vocês (todos) me dão a impressão de serem daqueles que acreditam que a Verdade só é visível do Outro Lado da Lua. (OLL, uma sigla importante).
    Ficam buscando a "coisa em si", ou algo que ovalha (verbo que acabei de cunhar...) como um "objeto a" que, aparentemente, ninguém sabe o que é, mas que todos juram que é ele - e só ele - que tem valor, o resto é ilusão idiota...

    Vocês (Marcos, às vezes Jansy, em outros momentos tão terra-a-terra, Eugência, Guto) parecem acreditar que o bom, o certo, o intelectualmente correto, (o paralelo com a expressão congênere foi acidental, eu não tinha a intenção, mas não é casual, pois descobri seu propósito assim que li o que tinha escrito), é algo da ordem da para-noia (algo que está para lá do conhecido, como se o conhecido fosse sempre - como dizia Platão - meras aparências para enganar os trouxas...)
    Pois bem, fico furioso com isso. O platonismo é uma empulhação - é só vocês não descobriram isso ainda. Aí vem a Eugênia, a platônica mor, e diz que "quando amo, viro planície deslumbrante, límpida e resplandescente" (não importa se não foram essas as palavras...)
    Claro, os netos da Jansy e a planície resplandescente é que contam - para que possamos nos intervalos brincar de intelectuais espiando o OLL... Mas isso é brincadeira, é curtição, não se pode levar isso a sério. As sorumbáticas elocubrações de Lacan sobre o "amuro" só podem ser coisa de alguém que nunca amou porra nenhuma (a expressão é proposital!)

    Então, mais uma vez, Davy, o Implacável, desce o tacape nas escolásticas estrambotices do grupo de "intelectuOLLs". Há mensagens nos últimos dias que rangi os dentes mas consegui decifrar, e há outras que simplesmente virei a página porque não quis perder tempo com análises combinatórias e cálculos infinitesimais das circunvoluções nanoscópicas do rituais de acasalamento das ribimbelas da parafuseta (nome científico ribimbae parafusetorum).

    E aqui desligo, pois tenho 300 coisas a fazer (e a certeza de que não farei nem 299).
    Beijos e abraços a todos. Viva a vida. A vida mesmo. Essa da Eugência e dos netos da Jansy. As idéias, quando pretendem assumir o poder, põem tudo a foder...

    Davy.


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    [Aeternus:1872] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-14)


    - para Davy

    Genial sua formatação do hábito/óbito. Gostaria de saber seu sobrenome para citá-la como epígrafe num trabalho que vou apresentar. Posso?

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    [Aeternus:1874] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-14)


    - ovalhando o oll

    Davy, adorei tudo o que você disse. So não entendi o Eujânio, por favor me conte mais. Melhor ir mesmo passando por cima dos mails que não lhe dizem nada, pois da minha parte, esses mails a gente faz justamente por ter 300 coisas pendentes e ao mesmo tempo não ter nada para fazer no oll ou o que ovalha.

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    [Aeternus:1875] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-14)


    - judeidade

    Desculpem a enxurrada de mensagens no mesmo dia, mas olhem só que coincidência! O Davy apareceu logo hoje, que é dia 14 de outubro, o dia em que houve, às 16 horas do ano de 1943, a única revolta bem sucedida em um campo de concentração, em Sobibor. E ainda por cima é o dia em que me casei, há quatro anos atrás, em Bruxelas com um homem a quem amo como planície à luz do sol. Ontem, 13/10, houve uma palestra que não pude comparecer mas consegui uma gravação, "Dos índios aos marranos" e uma amiga comentou que o sobrenome Correia era originalmente Cohen, e precisou ser assim modificado quando os marranos chegaram por essas bandas.

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    [Aeternus:1876] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-14)


    - Para todos

    Título em homenagem ao Grand Davy, que com essa volta retumbante também assume a alcunha de Orlando Furioso.
    Jansy, parabéns e obrigado pela bela exposição : brilhante, criativa ! Confesso amor à primeira vista por Prometheu - gosto desse h que o envelhece alguns séculos a mais - um revolucionário amoroso, apaixonado, incendiário. Insubordinado diante da(s) omissão(ões) divina(s). Prometheu tem uma hmmm afinidade nítida com Sísifo, também castigado pelos deuses ( como Camus era encucado com esse punidos, hein ! talvez por sua mania com o julgamento, obsessão prima dos humanos ).
    Magnífica descrição também de Jocasta "Cher Zaza" ( zaza é a cueca do pós, não é ?, sucessora do samba-canção ) fiando fiando e fiando suas rusgas, rugas e cuecas.

    Davy, estávamos entristecidos e desfalcados com sua ausência : feliz em tê-lo por aqui !
    Mas deixe a Eugênia - não Eugência - amar em paz. Amar sem mentir nem sofrer .../ Existiria a Verdade ! Verdade que ninguém viu.../ Se todos fossem no mundo iguais a você
    Belíssima digressão sobre OLL. Houve o filme canadense na Mostra,com esse título, que só o Gallego assistiu. É do Robert Lepage, la vecchia signora. Diretor, ator e colaborador do Arcand, trabalhou no excelente "Stardom" como fotógrafo peeping-Tom da modelo e personagem central da ousada tessitura. Fiquei deveras curioso, agora, em ver esse filme, depois das tuas considerações sobre OLL.
    Torno a dizer, nesse fuzuê todo de intelectualismos e buscas, que como bom hedonista e intelectual adoro essa viração. Por esmiuçar, xeretar Topografia com Jansy, Vítor e Eugênia, tals, não quer dizer que todos concordem com tudo que se cita ! Apenas adoramos a troca, o exercício em si e sua extensão em nós.
    A respeito das colocações sobre amor, as experiências são tão variadas que alternam-se...em nós mesmos ! Já amei platonicamente ( não que eu não desejasse manipular descaradamente a eleita...) e pela via preferencial, docemente selvagem. A fada platônica me deu um bolo, casou-se com um americano, e um ano e meio depois me fez uma proposta (in)decente (?) de uma farrinha em NYC, que refuguei ( bobão ? inteligentão ? o corte transversal é um cutelo terrível...). Antes de "Pra Não Falar de Todas Essas Mulheres" do Bergman, escolho e entro com "Uma Mulher É Uma Mulher" ( do Goddard, de quem curto apenas um ou outro título ) contrariando Lacan, que nega a existência da mulher, preferindo, segundo a Jansy, falar em 'mulheres’, ou então 'mães' - é assim, Jansyta?
    Das que tive a sorte de conhecer, cada uma foi cada uma, per bene o per male, sem lenços para as lágrimas mas com documento(s) e as devidas máscaras...

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    [Aeternus:1877] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-14)


    - mãe só tem uma

    ...já dizia o Conde Drácula, negando um pedido de Nosferatu desejoso de repetir o delicioso almocinho.  Pra Lacan, A mulher, no singular, é a mãe.  O resto vem no plural. Daí que don Juan, né... Florião?

    Sei lá o que Davy pretendeu transformando a Ginny em eujania, que rima com epifania. Não pode ser como o janio da vassourinha. Vou dar minha tradiduição.
    Se Eugenia tem a ver com pureza geratriz, Eujania tem a dupla face de Janus que mira dezembro e o ano novo e,sem ser vesga, vê em dobro...

    Andei ouvindo "Orlando Furioso" na televisão, via ópera do Vivaldi ( que coincidência a referência do Florião: será que andamos freqüentando os mesmos canais ou mensagens dos satélites ?). Me interessei pelo Ariosto na tela do Ticiano, mera casca do fruto de decorebas sobre " Grandes Nomes da Renascença" feita no ginasial - sem nunca tê-lo lido. Sei que Montaigne achava que seu vôo era como de pavão selvagem, tinha tanto peso que dava para ir apenas de galho em galho ( e não pensem também que li Montaigne, ainda não e tenho esperança com ele... Aprendi isto com o Marcelo Coelho, jornalista da Folha, que encontrei na coletanea  "Barbárie e Civilização", já referida por aqui ). 

    Nenhuma migalha é cultura inútil pra mim, donde o sentido gostoso desta lista onde vou juntando para, quiçá, fazer bife à milanesa. Sem ser da mãe, claro. Quanto aos esvoaçares furiosos... vá saber!

    Citei errado o Cocteau. Faço isso sem querer, quando uma analogia deixa meu inconsciente mordido. Daqui a pouco trago a referência correta. Nem era com o Tirésias/Zazá ( o da cueca, Florião? O Zaza do Cocteau estava mais pra bichona protetora da Julie Andrews, em Victor/Victoria ). Em Cocteau a esfinge se enamora pelo Édipo e quer soprar-lhe a resposta do enigma, evitando que Anúbis percebesse o engodo. No entanto, Édipo nem dá bola pra esfinge e, nos brios de toda mulher, ela jura vingança.

    Eis a fala de Anúbis, segurando na pata a túnica da Esfinge:

    Observe as pregas deste tecido.  Pressione-as umas contra as outras. Agora, se você atravessar esse volume com uma agulha e se depois você retirá-la para alisar o pano até fazer desaparecerem os vestígios das primeiras pregas -  você pensaria  que um camponês qualquer ia acreditar que os incontáveis furos que se repetem, em distâncias regulares, resultaram de um único golpe de uma agulha?(...) 
    O tempo dos homens é uma eternidade em pregas. Para nós, ele não existe.  Desde o nascimento até a morte, a vida de Édipo se desdobra diante de mim, plana, na seqüência de seus episódios.

    Uma construção imagética maravilhosa que me faz pensar naquilo que o psicanalista Bion chamava de "cesura". Para ele ( e mais alguns novos conhecidos )  tempo e  espaço sugeriam cortes, como nas cesuras dos versos que pareciam interromper a seqüência de uma exposição

    Um amigo, mais pra Zazá que pro monge no qual se transformou antes de voltar ao pó, dava aulas de literatura na UnB e, algumas vezes, deitava-se sob a mesa professoral para recitar as rimas da "batatinha".  Gritava, então:
    Batatinha quando nasce ( terminou o verso! Não terminou a frase!)
    Se esparrama pelo chão ( terminou o verso! Não terminou a frase!)
    Mamãezinha quando dorme ( terminou o verso! Não terminou a frase!)
    Põe a mão no coração...

    Como o Prof. Antonio Salles Filho, Bion buscava unificar eventos para mostrar sua continuidade em meio aos demais acontecimentos, todos também aparentemente esparsos, mostrando seu padrão. 
    O exemplo mais famoso é o do enterro do rei de Ur, na Caldéia, acompanhado da sua corte, inebriada ou drogada para não perceber que iam todos morrer com o rei junto as suas riquezas ( terminou o verso, não terminou a frase ) . O cemitério, ao longo dos séculos passou de terra sagrada a depósito de lixo. Até que chegaram ladrões que, afrontando as ameaças inscritas nos portões das tumbas, se arriscaram para chegar ao ouro e desenterrá-lo ( terminou o verso, não terminou a frase ). Até que, nos dias de hoje, os museus ...

    Droga, esqueci o resto do poema histórico. De qualquer modo, o padrão ilustra o que acontece na mente de todos nós quando enterramos tesouros ( "repressão, recalcamento"), que logo se transformam em lixo e em ameaça à saúde pública ( "recalcado" ), que retorna à luz com as escavações dos ladrões ( "retorno do recalcado à consciência" ) até que os antropólogos rotulam e guardam de novo ( Elaboração psíquica, antecedendo o esquecimento saudável ).  E...Não é bem assim que Bion escreve em "Cesura": nunca é demais lembrar que V. não devem confiar nas minhas historinhas tortas, porque pra mim o que vale é a idéia geral, o resto é resto mesmo.  Bion era uma espécie de Anúbis vendo passar o falso desfile dos episódios supostamente desconexos da vida do Édipo...

     


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    [Aeternus:1878] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-14)


    - passando a agulha da cesura

    Garota Jansy está De Lovely, De lightful, De licious, De lust !...
    Falou e disse. Seguindo minha vocação natural de bobo da corte, comento com alguns cortes -transversais e terríveis, pois, hehehe, but inofensivos, reparem. Numerá-los-ei, como petite grimace e reverenciando Torricelli.
    1. Orlando Furioso
    Orlando Furioso tem uma sonoridade sui generis, especial. Há palavras assim, que parecem ter nascido uma para a outra, né ? O Antonio Carlos Jobim adorava flaps down, falando em 'sonoridade, harmonia’. Cole Porter tinha essa capacidade : a harmonia entre letra e música é tal que uma veste a outra, movimentam-se num corpo só !
    2. Bife à milanesa
    Para o bife à milanesa da Jansy, faço questão de ser convidado ! Desmarco qualquer compromisso para chegar a ele. ( Jansy : você usa só sal e alho para temperar a carne ? um pouquinho de pimenta ? )
    3. Zaza
    Cuecas fora, Zaza que eu lembre era um personagem do Bertrand Tavernier no magnífico "Coup de Torchon", que acho seu melhor filme. O Noiret fazia um delegado no norte da África, numa possessão francesa. Parecia omisso e sonolento, mas nos bastidores fulminava bandidos locais impiedosamente. Fulminava de forma firme e desalentada, bem anti-americana. Um fascista deprê, justiceiro desencantado da Humanidade. Quando se apaixona por uma fascinante professora que por lá surge e ela está em vias de envolver-se, ele mesmo destrói o clima e o sonho, redigindo no quadro negro da sala de aula dela 'eu já morri há tantos anos !...’ Em sua casa a Isabelle Huppert o trai descaradamente com o Zaza, personagem meio abicharado, de meia idade pra lá, sempre com uma ridícula camisa de marinheiro e um quépi-boné. O Jean Gabin fazia esse tipo, de grande sucesso popular e em vários filmes, no estilo durão ao invés de aviadado. O Zaza é meio-que-conciente de sua figura ridícula e importante ao mesmo tempo: dá espetadas no Noiret, policial-manso e corno-manso. Quanto mais indiferente o Noiret, mais puta a Isabelle, que não consegue mais irritá-lo.
    Tavernier constrói um painel curioso de colonialismo, servidão e proxenetismo, bem à margem de sua habitual tendência à assepsia, que deixa seus filmes como comida morna, faltando aquela fumacinha que aumenta o apetite. Há uma dolly impressionante no filme, acompanhando o Noiret desde a rua poeirenta até sua casa : sem tremores de imagem, ele passa pelo portal, sobe uma escadaria estreita e chega em casa, quando em delicado movimento a câmara chega-se para o lado e nos deixa com a família fulustreca.
    4. Esse Cocteau é o Jean cineasta ?
    Parece jóia ! O Édipo que faz questão de ser boboca é genial.
    5. As cesuras do Sr.Bion
    Também magníficas. Como eu falei - os impiedosos cortes transversais, que vivem a atrapalhar nossas trajetórias...
    6. As Histórias bem contadas
    Uma história bem contada é como uma mentira bem contada : ganha status de verdade. Fellini referia-se assim a seu mar de telão de plástico semi-transparente, azulado, com canhões de luzes por debaixo e remelexo produzido 'por dois ou três esforçados técnicos’. Mais verdadeiro que o real, secondo diceva elogiando-o.

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    [Aeternus:1879] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2004-10-14)


    - com a cabeça de Janus

    Achei mensagens do Davy na lista dos festivais e na lista do Va savoir. Saravá... 
    Ficou meio atrapalhado porque tinha coisa de cá e de lá como folhas mortas nas respostas perdidas.  Mas não tem muita importancia se toparmos o tal jogo de amarelinha ( feito a proposta do Julio Cortázar ) ou da colcha de retalhos com a cara de Frankenstein.  
    Tenho a vaga impressão de ter visto o filme da Zaza com o Poiret desencantado de que falou o Florião.E tem um outro moderninho: "Zazie no metrô" ?  Mais a novela da Globo com a Fernanda Montenegro em " Cadê Zazá" ( quando pequena ouvi esta música pela primeira vez chorei muito. Devia ter uns tres anos de idade naquele carnaval, fase dos medos de me perder no mundo...) 
    Falando de fascistas fascinantes ( invenção do Florião falando do Poiret ), Gallego escreveu um texto maravilhoso sobre o filme com Denzel Washington, onde ele é guarda-costas de uma garotinha. Espero em breve poder dividi-lo com vocês, ou que vocês o encontrem no JB do próximo domingo.

    Cocteau é o Jean, sim. Pintava, bordava, dansava, escrevia e fazia cinema. Mas seu "Orfeu Testamento"  não me agradou. Na verdade, acho que raramente gosto do conjunto que Cocteau apronta. São boas migalhas, contudo. E Florião, você será convidado para o bife especial ( com pimenta do reino no tempero e vinagrete na hora de servir ).


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    [Aeternus:1880] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-14)


    - who's afraid ?

    Há uns dois meses assisti a uma versão de "Quem tem medo de Virginia Woolf" no teatro, numa versão de Hugo Rodas. Era um trabalho universitário, mas valeu. O casal principal era muito bom. Depois vi que o cara ("George") era bem novo e se saiu muito bem e envelhecido. Martha era uma morena bocuda, jeito (a atriz)de escrachada, caiu muito bem. O outro casalzinho era uma lástima. Gostaria de saber: no filme eles tb são uma lástima, ou é o problema dramatúrgico crônico que no teatro se chama de "escada" ? Aqueles personagens que costuram mas não arrebentam em nenhum sentido. Tem papéis que são presente de grego!

    Na hora do bar, black out, e então, virávamos as cadeiras no sentido oposto e o cenário era outro. Meio UnB, mas foi bom.


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    [Aeternus:1881] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-14)


    - zazoeira

    Tento cercar Jansy e Guto na seqüência...
    "Zazie Dans le Métro" foi um dos primeiros Malle. Jamais o assisti. "Coup de Torchon" assisti no Cinema 1, na Prado Jr...século passado, claro ! Phillipe Noiret é um dos melhores atores, principalmente para esses papéis bochecha-caída, de perplexos. Ou de semi-retardados úteis, como o de "La Grande Bouffe", em que pretende casar-se com a puta do boquete do puta banquete ( Andrea Ferreol ).
    'Poiret’, apesar do Davy certamente não aprovar, é uma corruptela de Poirot com Noiret com porrete ( fascista...).

    Guto situou bem a 'escada’, mas...há escadas e escadas ! Muitas vezes num papelzinho banal um ator ou atriz dá um desbunde ! No filme, o George Segall faz o que sempre fez e faria no Cinema : um simpático inocente útil, burguesíssimamente adaptado ao stablishment. Sandy Fanhosa Dennis, ótima em sua natural fragilidade e jeitinho de ovelha rechaçada compõe a platéia do casal lunie ( Burton/Taylor ).
    Adoro a Sandy Dennis de lésbica em "The Fox" ( 1968 : mesma época do "Les Biches", também com Lesbos na parada, do Chabrol. Modismo ? Coincidência ? ), de Mark Rydell e com a Anne Heywood. Vi no Veneza, reduto de grandes lançamentos, extinto pelos flanelinhas e ladrões de carros.

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    [Aeternus:1882] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-14)


    - Cine Veneza and The Foxes

    Que interessante, foi no cine Veneza que também assisti ao "The Fox". 1968? Sandy Dennis tem dentes feios que dão certa força dramática aos momentos em que dá sorriso amarelo. Não me recordava dela no papel de lésbica, mas acho que também a vi como esposa de um pediatra no filme " The Group", com a Candice Bergen. Época de feminismo brabo, aquela. 
    Caí nessa do Poiret por causa do Maigret, acredita?
    Gostei muito de ver o " Quem tem medo" com o som baixinho, atenta para a fotografia e movimentos dos atores. Com as vozes no tom normal fica demais para mim, ainda mais aquela Liz Taylor alcoolizada, vulgar e barulhenta...é "real" demais pra mim. Não gostaria de ver um filme com caminhão de lixo em cena e começar a sentir seu cheiro.  A Martha ultrapassou a quota artística de "representação". 
    Todos os atores foram indicados para o Oscar, até o bonitinho certinho do professor de biologia. Se bem que apenas a Sandy e a Liz ganharam o premio.E este filme ainda levou outras tantas estatuetas! Apesar da bronca dos conservadores da Nova Inglaterra e da turma Disney.
    Guto, sua mulher está fazendo teatro com Hugo Rodas? Você?  Ele é meio chegado ao teatro do Absurdo, no ano passado vi Ionesco ( Os Rinocerontes) e achei ruim porque todo mundo estava ficando parecido com ele, daquele jeito grandão e pesado...  A idéia da platéia girar para mudar o cenário é divertida.

     

     

     


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    [Aeternus:1883] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - Estou sem o e-mail do Guto

    Guto, vou precisar convidar vocês  para assistirem os debates do Who´s afraid usando o caminho da Lista, porque não acho seu endereço eletronico.
    O evento ficou marcado para o dia 28 – quinta. A exibição do filme vai ser as 17h30 e o debate começa às 19h30.
    Além de mim teremos a atriz Sulian Vieira e a antropóloga visual, Roberta Matsumoto. Tudo  acontece isto no prédio novo da Fnac do Park Shopping, em frente ao Frans.

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    [Aeternus:1884] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-15)


    - ainda Sandy e Sidney Lumet

    A Sandy fez "Up the Down Staircase"(1967) com o Robert Mulligan, do "The Other"(1972), fantasmagórico sobre o parafuso do James que adoro. Acho que era um papel bem do jeito dela : introvertida, solitária, deprê. Ela fazia bastante teatro, como atualmente a Natasha Richardson, filha da Vanessa Redgrave e casada com o Liam Neeson . Natasha é biotipo oposto à Sandy : robusta, fofona gostosa, cabelos lisos e longos de pantera.
    Maigret !...claro que nosso inspetor existencialista está na parada também !
    "The Group" era do Sidney Lumet, um diretor que precisava muito do bom roteiro. Bem funcional no mise-en-scène, fez um mosaico desses que desconcerta no ajuste de gostos de cada um de nós. Veja só : "Doze Homens e uma Sentença", "Panorama Visto da Ponte" ( Raf Valone/Jean Sorel ), "O Homem do Prego", "A Colina dos Homens Perdidos", "Chamada Para um Morto" ( Simone Signoret/James Mason ), "A Gaivota" ( Vanessa R./Mason), "O Encontro" ( O.Sharif/Anouk Aimée),"Serpico" - que adoro - "Assassinato no Orient Express" ( Finney como Poirot, que sei que você não curtiu mas eu sim...), "Um Dia de Cão" ( badaladíssimo que não me agrada ), "Network" - obra prima, pode entrar aí no caderninho de ’melhores’ ( Peter Finch, Faye Dunaway, William Holden ), "Armadilha Mortal" (Michael Caine/Christopher Reeve ), "O Veredito" ( Paul Newman/Mason ), "Daniel" (sobre McCarthismo ), o fraquíssimo "A Manhã Seguinte" ( Jeff Bridges/Jane Fonda ),"Negócios em Família" ( Sean Connery/Dustin Hoffman), "Culpada Como Pecado", com a vampirona Rebecca de Mornay, "Sombras da Lei" (Andy Garcia/R.Dreyfuss ), "O Impaciente" ( James Spader/Anne Bancroft), "Gloria", que não vi, creio que refilmando a trama do John Cassavetes com a Gena Rowlands ( Sharon Stone/Jeremy Northam ).
    Obra extensa, e ainda há muitos que não chegaram ao Brasil ou da fase inicial dele que não citei.

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    [Aeternus:1885] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-15)


    - acertando os parafusos

    O parafuso do James é o do "The Innocents", sobre "The Turn of the Screw", do Henry James. Associo sempre ao "The Other" do Mulligan, que citei, pois estes dois junto com "O Inquilino", do Polanski e "The Shinning", do Kubrick formam um quarteto apavorante.

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    [Aeternus:1886] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - apavorantes

    Florião, você escreve " The Shining" toda vez com dois "n", no que o transforma numa espécie de golpe baixo de chute na canela.

    Os quatro filmes que você destacou são "apavorantes criativos" na falta de um termo melhor, ou seja, bem diferentes dos "apavorantes políticos" ( tipo 09/11 do Michael Moore ou " The Pianist") e dos "apavorantes Kitsch " ( tipo "Sexta-feira 13" ou "Vampiro de Duesseldorf" ).

    A listagem do diretor do " The Group" é bem variada, como você pretendia demonstrar, e com grandes filmes. Vários destes, e que apreciei enormemente da primeira vez, não me animaram a revê-los em outro momento:  O Homem Elefante, O Homem do Prego ( quanto homem!), o que sempre me intrigou.


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    [Aeternus:1888] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-15)


    - Para Eugênia

    Querida Eugênia, em primeiro lugar, o sobrenome é BOGOMOLETZ. É um sobrenome russo (autêntico) e significa, em russo, 'aquele que reza a Deus'. Por mais que eu, na verdade, não seja muito de rezar.
    Em segundo lugar, você vai citar o que? Qual foi a besteira que eu disse:?
    Em terceiro lugar, me sinto muitíssimo honrado. Nunca imaginei essa possibilidade. Intelectualmente, como já deixei claro, me sinto uma espécie de "antípoda" seu - não por 'anti-intelectualismo' idiota, mas porque o "other side of the moon" - o agora já famoso "Outro Lado da Lua", a busca pelo entendimento daquilo que escapa à razão comum, não é o meu forte. Então se você encontrou algo que achou dignode ser citado num trabalho seu, fico realmente muito honrado. E por favor me mande o trabalho, pretendo lê-lo (o que não significa compreendê-lo) nem que seja por ... obviamente ... uma questão de honra.
    Em quarto lugar, a brincadeira que eu fiz com seu nome e que você não entendedu (minha vingança...) - Eujânio - dizia respeito à proverbial vesguice do famoso Jânio Quadros (só que a vesguice dele era ao contrário).
    E em último lugar, peça à Jansy para não aproveitar a deixa e escrever meu sobrenome com os caracteres cirílicos que ela ameaçou usar em outro lugar. Eu não leio cirílico e muito menos falo russo, não vai adiantar nada.

    Beijos e, mais uma vez, você me deixou emocionado com essa citação.

    Davy.


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    [Aeternus:1890] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-15)


    - Mais para Eugênia

    Engênia querida, de novo eu: As datas coincidentes me deixaram meio nervoso. Sempre deixam. Fico brigando contra a tentação de concluir que houve mais que coincidência. Uma das correntes do Judaísmo - por sinal, aquela com que mais me identifico, mas por outros motivos - afirma de pé junto que não existem coincidências - é tudo plano e obra lá de cima. Nós é que enxergamos mal, dizem eles.
    Quanto ao Correia, pois seja muito bem vinda ao clube. Não tinha idéia dessa origem do sobrenome. Outro dia tropecei com o seguinte: Siqueira, Cardoso e mais um que esqueci eram nomes de pequenas aldéias em Portugal cujos habitantes judeus, obrigados a se converter e depois a adotar sobrenomes cristãos, optaram por chamar a si mesmos com o nome da aldeia de onde vinham, de modo que os Cardosos e os Siqueiras que estão por aí são todos descendentes, na verdade, do que aí no Nordeste chamam de "o povo da Nação".
    Descenessário dizer o quanto isto me orgulha e enobrece.
    Beijos.

    Davy.


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    [Aeternus:1891] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-15)


    - Para Eugênia, encore...

    E sim, Eugênia, gostaria de ouvir essa fita também. Sempre morro de curiosidade em relação a esse tema. Sinto sempre que se trata de parentes perdidos, e embora eu não seja muito de viver colado na minha família, ao menos saber quem são é algo importante para mim. De modo que se houver chance de duplicar a fita, ficarei encantado.

    Davy.


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    [Aeternus:1893] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-15)


    - Para Marcos

    Marcos, meu caro, belo texto o que você escreveu. E fico comovido com suas boas vindas tão enfáticas. Sumi, talvez não suma mais, mas estive cavando a saída para fora de uma avalanche de textos que tive que limpar, revisar, formatar, enviar aos autores e revisar de novo o que eles mexeram. Para depois descobrir que o prazo fatal foi adiado por três meses, e aí o meu relógio voltou a funcionar no ritmo normal de todo dia.

    Tudo que você escreveu sobre as mulheres entendi, e compartilho. Até me casar em definitivo (agora, com esta última) fui um nômade no deserto do real, vagando de oásis em oásis, me mudando sempre que acabavam as tâmaras e a fonte secava, sem contar as inúmeras fatas morganas - miragens - com que me deparei no caminhos (e isto não quer dizer que a culpa sempre foi "delas", mas achei que era uma bela maneira de contar a história...)
    Finalmente acho que cheguei a um lugar onde a água é perene e estou construindo minha casa.
    C'est la vie. E eu pergunto aos lacanianos: a idéia de que Lacan nunca amou ninguém é verdadeira ou fui injusto? Porque se foi verdadeira, o que é que ele entendia de amor, a não ser que gosto ele tem quando falta?

    Tudo de bom.
    Davy.


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    [Aeternus:1894] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-15)


    - Para todos

    Já sei. Acabei de descobrir o que se passa aqui - graças à Jansy (mais uma vez):

    ESTAMOS TOCANDO JAZZ.

    Cada um improvisa sobre o verso tocado por outro, e assim, em improvisações sucessivas, em vez de uma ou mais melodias, o que temos é uma polifonia (num sentido diverso daquela do Dostoyevsky). Outro dia tropecei com o título do livro de um teólogo que me deu muita vontade de ler, mas só o título já é uma obra prima: "A Verdade é Sinfônica". Isso, dito por um teólogo católico dos mais respeitados (pelo que depreendi do contexto da citação) é uma glória.

    Só que meus ouvidos que cresceram ouvindo clássicos resistem a excessos de polifonia (que acaba em déficits de harmonia). Por isso chio. Mas daí a me chamar de "Orlando Furioso" vai certa distância. Vai com calma, Marcos.

    Acabei de ler a lista de hoje. Agora só na próxima folga.

    Davy.


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    [Aeternus:1895] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - Bogomoletz e Cohen

    Ufa, estamos outra vez na lista do Va Savoir.

    Caro Davy, não ia escrever o seu nome russo em cirílico, mas o termo "co-existência" do Bakhtin porque ele joga com este adendo "co-" de um modo que aparentemente faz mais sentido em russo.  Achei que V.gostaria de mais elementos sobre esta co-nexão Bakhtin/Buber/Winnicott... Para Bakhtin não existe algo que possa significar isoladamente, ser "respondido" é fundamental. A relação eu/outro é de simultaneidade.

    Escreve Holqyst: " Em russo, "acontecimento" é uma palavra que tem uma raiz e um caule; ela é formada da palavra "ser", "existir" ( bytie) com a adição do prefixo indicador de "partilhamento" ("co-" ) para formar "sobytie". Dito de outro modo, para Bakhtin, o "ser" ( "existir" ) não é apenas um "acontecimento", mas um "evento partilhado". Ser (Being) é simultaneidade, é sempre co-existir ( co-being).

    O sobrenome da minha avó berlinense ( originária de Danzig/Gdansk/Polônia ) era Rosen ( como a "Rosenstrasse" no filme da Eugênia ), mas ela não foi enviada para campos de concentração durante a Segunda Guerra, portanto, suponho que a diferença que permite, a quem estiver interessado, distinguir sobrenomes judaicos e alemães deve estar na letra "s" em vez de "z" ( Rozen ). Pra mim, tanto faz, desde que "a rosa" continue se fazendo presente no nome e no aroma ( é que não concordo com os argumentos do Romeu para a Julieta). Ouvi dizer que Mayer, Meier, Meyer tem origens distintas, mas nunca prestei atenção.  Também ouvi contar que alguns sobrenomes com nomes de árvores identificariam os cristãos-novos ( Oliveira, Pereira, Carvalho... ) 

     


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    [Aeternus:1896] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - Lacan e o amor

    Davy, não sei bem os detalhes da história nem de onde saiu a idéia de que Lacan não sabia o que era amor.

    Ler o seminário III sobre a "Transferência" foi pra mim uma experiência de paixão amorosa e de tremores e temores. Ele distinguia dois movimentos, "erastes" ( amar ) e eromenos ( ser amado ) e enfatizava a importancia de passar-se de eromenos para erastes como a verdadeira experiência do amor, agora não mais preso à dimensão narcísica e imaginária, mas alçado ao sentido "simbólico" de aceitação da alteridade e da diferença do amado.

    Históricamente, soube que ele se casou com a primeira mulher de George Bataille, Judith.  Ela era judia e, durante a guerra, contam que Lacan arriscou sua vida para salvá-la, remando-a num bote numa travessia incrívelmente corajosa. Se è vero... 


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    [Aeternus:1897] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-15)


    - de fantasmagorias, amores e heróis

    Ainda sobre as assombrações cinematográficas, o que distingue a linha que citei da que a Jansy refere é uma nítida tendência introspectiva, intimista, nos que acho superiores, nos que mais me interessam.
    Até aceito e gosto de dramas e argumentos sociais, mas essa fantasmagoria íntima é muito mais importante e forte para mim, naquela de eu/eu mesmo, de tudo que uma criança traz desde seus primeiros anos, na maneira dela lidar com o Medo entidade. Não sei se dá para entender dito assim.
    Ainda sobre Bakhtin, mesmo que se continue preferindo, como eu, crer que há uma 'dialética’ eu/eu mesmo, respeitando as mandingas do inconsciente, isto não invalida o estudo da trialética eu/ eu mesmo/outro. Ao contrário, tento agregá-las !...daí o que chamei outro dia de entalpia frenética, esse frenesi transicional de leituras, respostas e significantes, a determinar todo o leque de sensações, éticas e condutas.
    Registro ainda para o Lacan-héros, remando para salvar sua amada. Gostei.

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    [Aeternus:1898] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-15)


    - Sidney Lumet, Marcos e eu

    Pegando carona nos informes do Florião:
    A Sandy Dennis fez "Subindo por onde se desce” (1967) com o Robert Mulligan, o mesmo diretor de  “Verão de 42” e “O Sol é para todos” (To Kill a Mockingbird, Oscar para Gregory Peck: este filme sobrevive bem em dvd, 44 anos depois de feito, vale a pena)
    A Sandy morreu pouco depois de uma participação em “The Other Woman” (A Outra) do Woody Allen com a excelente Gena Rowlands, viúva do Cassavetes.
     
    "The Group" era do Sidney Lumet, um diretor que precisava muito do bom roteiro. Bem funcional no mise-en-scène, fez um mosaico desses que desconcerta no ajuste de gostos de cada um de nós. CONCORDO INTEIRAMENTE
    Veja só :
     
    "Doze Homens e uma Sentença",
    ÓTIMO, foi refilmado (bem) em Tvfilme com um excelente Jack Lemmon em papel dramático
     
    "Panorama Visto da Ponte" ( Raf Valone/Jean Sorel ), 
    NUNCA CONSEGUI VER NEM ASSISTIR À PEÇA QUE CAUSOU ESCÂNDALO NO RIO POR UM BEIJO ENTRE HOMENS EM 1960!!!
     
    "O Homem do Prego",
    MAGNÍFICA REUTILIZAÇÃO DOS TRUQUES DE ALAIN RESNAIS DO PISCA-PISCA DE LEMBRANÇAS QUE IRROMPEM AOS POUCOS NA CONSCIÊNCIA. MÚSICA EXCELENTE DE QUINCY JONES E O MELHOR PAPEL DO ROD STEIGER QUE ESCORREGAVA NAS CARETAS EM MUITOS FILMES
     
    "A Colina dos Homens Perdidos", EXCELENTE SEAN CONNERY SE LIVRANDO DO OO7 NA ÉPOCA
     
    "Chamada Para um Morto" ( Simone Signoret/James Mason ), POLICIAL COM MÚSICA DE BOSSA NOVA ALGO DO TIPO “FILME MENOR” MAS COM EXCELENTE ELENCO DE JAMES MASON A SIMONE SIGNORET ERA BASEADO NO AUTOR DE “O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO”, JOHN LE CARRÉ
    "A Gaivota" ( Vanessa R./Mason),  NUNCA CHEGOU ÀS TELAS  BRASILEIRAS, FRACASSO COMERCIAL (E ARTÍSTICO?)
    "O Encontro" ( O.Sharif/Anouk Aimée), FEZ SUCESSINHO NO METRO TIJUCA COMO MELODRAMA (em 1970) OUSADO NA ÉPOCA. MAS A CRÍTICA DISSE QUE ERA “USADO” E EU NÃO VI.
    ·"Serpico" - que adoro – E EU NUNCA VI!!!! SAHAME ON ME”!
    "Assassinato no Orient Express" ( Finney como Poirot, que sei que você não curtiu mas eu sim...), DIVERTIDO
    "Um Dia de Cão" ( badaladíssimo que não me agrada ), EU GOSTO BASTANTE
    "Network" - obra prima, pode entrar aí no caderninho de ’melhores’ ( Peter Finch, Faye Dunaway, William Holden ), EU GOSTO MAS ACHO MEIO HISTÉRICO DEMAIS.
    "Armadilha Mortal" (Michael Caine/Christopher Reeve ), FRACOTE
    "O Veredito" ( Paul Newman/Mason ), BOM FILME SUPERVALORIZADO NA ÉPOCA
     
    "Daniel" (sobre McCarthismo ), EXCELENTE FILME SOBRE UM CASO SEMELHANTE AO DAQUELE CASAL ROSENTHAL(?) QUE FOI ELECTROCUTADO POR SUPOSTAMENTE VENDEREM SEGREDOS ATOMICOS DOS EUA À URSS. “DANIEL” SERIA UM FILHO DE PAIS COM AQUELA HISTÓRIA. O LIVRO É DO AUTOR DE “RAGTIME” E OUTRO FAMOSO QUE ME ESCAPA AGORA, que FOI BESTSLLER E ADMIRADO PELA CRÍTICA.
     
    o fraquíssimo "A Manhã Seguinte" ( Jeff Bridges e Jane Fonda ),PASSATEMPINHO, MAL ME LEMBRO, DEVIA SER FRACO MESMO
    "Negócios em Família" ( Sean Connery/Dustin Hoffman), NÃO VI
    "Culpada Como Pecado", com a vampirona Rebecca de Mornay, NÃO VI
    "Sombras da Lei" (Andy Garcia/R.Dreyfuss ), RAZOÁVEL
    "O Impaciente" ( James Spader/Anne Bancroft), NEM SABIA QUE EXISTIA APESAR DA MINHA ESTIMADA ANNE BANCROFT
    "Gloria", que não vi, creio que refilmando a trama do John Cassavetes com a Gena Rowlands ( Sharon Stone/Jeremy Northam ). O FILME DO CASSAVETES JÁ NÃO ERA ESSAS COISAS, MAS VALIA PELA MESMA GENA ROWLANDS DE QUEM FALEIU NO INÍCIO. ESSA REFILMAGEM ERA UM DOS PIUORES FILMES QUE EU JÁ VI: COMO É QUE PODE?
    Obra extensa, e ainda há muitos que não chegaram ao Brasil ou da fase inicial dele que não citei. NÃO CHEGOU A VERSÃO DE “LONGA JORNADA NOITE ADENTRO” COM KATHERINE HEPBURN E JASON ROBARDS JR QUE VI EM VIDEO HÁ TEMPOS; TEATRO FILMADO, MAS MUITO BOM, APESAR DE LOOOOONGO E DEPRIMENTE.
    ELE TB DIRIGIU “EQUUS” – PEÇA ‘PSICANLÍTICA” QUE NÃO VI. COM O RICHARD BURTON EM SUA ENÉSIMA INDICAÇÃO AO OSCAR QUE NUNCA RECEBEU.
    FEZ TB UMA VERSÃO MUSICAL E COM NEGROS DE MÁGICO DE OZ TINHA DIANA ROSS E... miCHAEL JACKSON ANTES DE SER HIPERSTAR COMO O ESPANTALHO.
     
    O PIOR DO LUMET É O LIVRO DELE SOBRE CINEMA. MOSTRA-SE MEIO MEDIOCRÃO, APESAR DE TANTOS ACERTOS (E É VERDADE, TANTOS DESACERTOS MUITO MUITO RUINS).

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    [Aeternus:1899] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-15)


    - Network

    A histeria do Peter Finch contagia sim, em parte, o filme. Mas o Lumet nunca perde o controle do drama. Vai lendo, divertindo ( a ele mesmo e a nós ? ) e analisando.
    Para quem não viu, um apresentador decadente ( Finch )de programa de auditório recebe o ultimato de que vai para a rua, depois de dezenas de anos de mesmice. Entra em deprê, alcooliza-se, e no programa de encerramento de contrato assim apresenta-se a seu público. O diretor de TV ameaça calcar o botãozinho que vai mandá-lo para o espaço, mas em respeito ao pobre diabo que bate as botas e urra em cena, não o faz. O dito cujo descarrila de vez, diz palavrões, diz que cada cidadão devia fazer o mesmo, insurgir-se, tals. O pessoal nos bares e lares surpreende-se com a novidade, e diverte-se com a novidade.
    Aí...o IBOPE local mostra um crescimento espetacular de audiência, afora o burburinho na mídia. A gerente geral de produção ( Faye Dunaway ), uma workaholic de carteirinha - a ponto de trepar com um diretor ( Wiliam Holden ) falando em pontos de audiência e modificações a fazer nos programas, age politicamente na Network e mexe-se de todas as formas para manter o programa. Vence : cenários mais requintados vão sendo instalados, novos canhões de luzes, o histérico entra em franca mania e convoca o povo americano a ir às janelas e gritar sem parar 'I can’t stand it any longer !’, e é obedecido.
    Tudo e todos vão muitíssimo bem, obrigado, até que...o Finch começa a mexer com petróleo e temas políticos. A Network é financiada exatamente por este sistema. Numa cena antológica, um de seus grandes chefes internacionais reúne-se com em particular com o Finch, e ao invés da conversa olho no olho monta uma pequeno teatrinho : apaga as luzes, fala em voz soturna e modulada, aumenta o volume imitando o histérico. Até chegar ao ponto desejado, o porrete do Roosevelt que sai de debaixo da mesa : o peso do dinheiro que movimenta a Rede e dá empregos ali, e por conseguinte não se poder nadar contra a corrente. No metadiscurso : palhaço e bobo-da-corte sim, sempre. Fundamento crítico só o inofensivo.
    Lumet usa as cores e luzes da Histeria, mas acho que modula com precisão - inclusive sem forçar fortíssimos ou um final espetacular. Resulta uma denúncia bem situada, talvez até um corolário do por que eternizam-se a mediocridade e o espetaculoso na TV, em detrimento do senso crítico. Afora os desempenhos magníficos do Finch e da Dunaway.

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    [Aeternus:1900] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - falam os peritos e fala a periquita

    Periquita, no bom sentido, é aquela que gira em torno ( prefixo "peri" ) da quita, ela chia e pia, mas não sai do contorno...Cinema pra mim é pra opinar de periquita...

    Vi "Equus" ( Florião me corrigiu quando chamei o filme de " Hippos"...) e não gostei nada. "A Longa Jornada" com K.Hepburn et alii vi em VHS em fita que ganhei do Sergio Britto que, como bom diretor, admirava enormemente a peça e esta montagem.  Pra mim tão enlouquecedora quanto o filme do Albee, só dá pra curtir reduzindo ou eliminando as vozes, juro que não entendo o prazer que as pessoas tem com estes dois filmes!   


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    [Aeternus:1901] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-15)


    - O hóbito faz o monge

    Davy,

    Há coisas na vida com as quais não podemos nos hobituar. O monge pode habitar, habituar, orbitar e até mesmo obitar. Mas hobituar é mais mortal que morrer.


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    [Aeternus:1902] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - acho que...

    ... este negócio do hábito fazer o monge acrescentou-se aos "obitos" a partir de uma frase de Lacan que coloquei na lista, não foi? 
    O dia está pululando de coincidências e, para cair na real, estou tentando matar algumas delas com um chinelo.

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    [Aeternus:1903] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-15)


    - força do hábito

    O hábito ama o monge, porque é por isso que eles são apenas um.  Dito de outro modo, o que há sob o hábito, e que chamamos de corpo, talvez seja apenas esse resto que chamo de objeto a ( Lacan, "Encore"). 

    Achei...


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    [Aeternus:1904] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-15)


    - All bee

    Jansy,
     
    A Carla trabalho como Hugo numa matéria da faculdade. Encenaram "Muito Barulho por Nada". Ela fez a Beatriz. Adorou trabalhar com o Hugo. Ele é quase tão chato quanto ela. Depois dizem que os opostos é que se atraem... (hehe)
     
    O problema são essas matérias de universidade. Muita gente de História, Administração, Geografia e até de Cênicas apenas querendo 6 créditos.
     
    Conheci o Hugo após um ensaio de domingo. Ele chamou a turma para almoçar na casa dele e a Carla me ligou, dizendo que foi encarregada do macarrão. Comprei um vinho e fui de bicão.
     
    A trajetória dele é uma montanha russa. Faz grandes coisas e coisas esquecíveis. Acho que ele gosta mais de SER o Hugo Rodas do que FAZER o que um Hugo Rodas estaria etica e profissionalmente obrigado.
     
    O problema é que o brasiliense (mesmo um uruguaio radicado) é essencialmente ideológico e metido a vanguarda. Joga cocô na parede e do jeito que escorrer a bosta afirma que é arte.
     
    Qualquer rabisco é uma "instalação" e qualquer "performance" (arghh) é genial, burro e reacionário de quem não gostar ou não entender.
     
    Estou radicalizando, claro, mas isso existe demais por aqui. Uma coisa é apresentar uma peça no Sesc-Garagem e assumir que a grana não foi suficiente prum lugar melhorzinho. Outra coisa é dizer que a "estética foi enriquecida"  , com o público se encafurnando num desses abrigos antiaéreos.
     
    Meus e-mails são cacabarros@uol.com.br, gustavo.costa@fazenda.gov.br, fora os que eu não me lembro mais.
     
    A Roberta Matsumoto foi professora (muito querida) da Cacá semestre passado.
     
    Quanto ao teatro (cinema) gritado, realmente, cansa. Arte é intervalo (na música isso é mais perceptível - tanto o ritmo quanto na melodia), variante, relatividade. O grito, se for necessário, tem que ser uma emanação absolutamente contextualizada e apenas o suficiente. Senão fica "over" e não diz nada. Só cansa, como num texto inaudível. Um monte de abelhas.
     
    Um dos meus grandes sonhos no teatro é assistir um Nélson que não seja gritado.
     
    Grande abraço. 
     

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    [Aeternus:1905] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-15)


    - errata

    Na msg anterior, leia-se "a Carla trabalhou com o Hugo".

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    [Aeternus:1906] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-16)


    - Para Marcos

    Caro Marcos, tenho algo a dizer sobre o que você escreveu:

    "Ainda sobre as assombrações cinematográficas, o que distingue a linha que citei da que a Jansy refere é uma nítida tendência introspectiva, intimista, nos que acho superiores, nos que mais me interessam. Até aceito e gosto de dramas e argumentos sociais, mas essa fantasmagoria íntima é muito mais importante e forte para mim, naquela de eu/eu mesmo, de tudo que uma criança traz desde seus primeiros anos, na maneira dela lidar com o Medo entidade. Não sei se dá para entender dito assim. Ainda sobre Bakhtin, mesmo que se continue preferindo, como eu, crer que há uma 'dialética’ eu/eu mesmo, respeitando as mandingas do inconsciente, isto não invalida o estudo da trialética eu/ eu mesmo/outro. Ao contrário, tento agregá-las !...daí o que chamei outro dia de entalpia frenética, esse frenesi transicional de leituras, respostas e significantes, a determinar todo o leque de sensações, éticas e condutas.
    Registro ainda para o Lacan-héros, remando para salvar sua amada. Gostei."

    Muito importantes, essas idéias. As aventuras de um Indiana Jones são folguedos infantís quando comparadas às aventuras interiores de "O Homem do Prego", por exemplo. Eu, que vivi minha vida torturado pelo que se me passava dentro, sempre gostei de filmes que me dessem um "recreio" dessa tenebrosa interioridade. Até hoje (já bem mais tranquilo) não hesito em perder tempo com uma boa aventura tipo capa e espada - mesmo que seja do tipo 38 X 45, ou uma boa epopéia guerreira, tipo "A Caçada ao Outubro Vermelho" (aliás, topei outro dia com o livro numa estante de 'ofertas', comprei, e estou me deliciando com o incrível jogo de xadrez que Tom Clancey montou para contar a história. Brilhante e delicioso.)
    Só mais uma coisa: esse eu/eu mesmo certamente existe e é fundamental, em todos os sentidos. No entanto, quando ele se desvencilha do outro e funciona num mundo próprio, é porque algum "outro" falhou miseravelmente em seus momentos críticos de desenvolvimento emocional inicial. Por outro lado, quando o 'eu voltado para o outro' esquece o 'eu voltado para mim', temos um outro tipo de desastre - não mais a falha do outro inicial, mas a sua FALTA. De modo que qualquer exagero na intensidade de uma tendência pode acabar se revelando uma defesa, não um 'modo de ser'. (Percebo uma imprecisão enorme nessa 'receita' que acabei de escrever, mas é só um ponto de vista inicial numa longa reflexão, que não cabe aqui.)
    Então "Eu, Eu mesmo e Irene", se traduzido como "Eu, Eu mesmo e o Outro", funcionaria muito bem. É isso que você quer dizer?
    Agora: O que quer dizer "entalpia"? Nunca vi esse termo antes. Você poderia explicar?
    Abração.

    Davy.


     

     


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    [Aeternus:1907] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-16)


    - respondo ao Davy

    Caro amigo, também compartilho desse gostinho pelo espairecer, o capa-e-espada onde o herói vai derrubar as forças do Mal, lutar com 6 ao mesmo tempo, tals. Há filmes como "Sem Saída", com maniqueismos e inverossimilhanças, mas com pulsação de suspense e essa 'torcida descarada' pelo herói que contagiam ! ( a propósito deste em si, minha mãe ficou furibunda porque o Kevin Costner, vítima pela qual torcemos todo o filme, é...espião russo ! A pobre mulher sentiu-se traída de todo em sua boa fé ( foi ? o artista tem direito a esse tipo de brincadeira ? )
    Adorei tuas considerações sobre as instâncias. Num filme chamado "Magic", de 1978, o Anthony Hopkins faz papel de um ventríloco que esquizofreniza. Desde o início ele trocava confidências com o boneco, e como tinha pouca afinidade com as pessoas e dificuldades de relacionamento, o 'espairecer' dele era...com o boneco ! Claro que isso não podia dar em boa coisa, ainda mais se tratando de filme anglo-saxão.Esta situação delimita bem essa Topografia que ora discutimos, não ?
    Como concordo contigo sobre o primado do que você chama de 'senso comum' ( tenho medo dessa denominação porque Voltaire me visita sempre com aquele engraçadíssimo "quando o povo começa a raciocinar e que está tudo perdido" ) - e prefiro algo que eu poderia chamar 'busca da Inocência', e essa danada dita cuja seria a de um tal de Clyde, citado por Jacques Rivette num documentário em que o cineasta é entrevistado. Clyde diz "para se chegar à Inocência é preciso muitas voltas no Saber." (as maiúsculas são minhas )
    A tríade é bem a que você interpretou e coloca : eu/eu mesmo/quero ver Irene dar sua risada. Entalpia é termo da Física Quântica, relativo à energia interna de um sistema ( entropia ) ou liberada/por liberar ( entalpia ). Entendo que o espaço transicional de Winnicott teria tudo a ver, pois, já que estamos permeados e atravessados sem cessar pelo bombardeio 'energético econômico' das pulsões e dos signos. É assim ?

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    [Aeternus:1908] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-16)


    - monge

    Que legal!!! No texto do Freud "O inconsciente" ele avança bem o terreno para que Lacan em seguida conclua como nessa bela citação que Jansy trouxe. Deixo essa outra que esclarece bem o achado óbito/hábito de Davy desdobrado pelo Guto: "Se á algo que pode definir-se como corpo, não é a vida...a definição mesmo de corpo é que seja uma substância gozante... Ecomo é que ninguém o enunciou? É a única coisa fora de um mito, verdadeiramente sensível à experiência." Ele diz "ninguém" como se esquecesse que Freud já havia anunciado a passagem entre impulsos mentais em inervações somáticas, mostrando assim de que modo o hábito rompido desencadeia processos no corpo do monge, da monja, mas não na barata que a Jansy está achinelando. Meio bobo isso de procurar ancestrais, cobrar dívidas e citações, mas por que não admitir que Freud já tinha dito isso há tanto tempo?

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    [Aeternus:1909] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-16)


    - para Davy

    A citação que vou fazer é sua definição "hábito: substantivo presente. óbito: particípio passado do hábito." Será que está certo assim? Será num texto para uma palestra "A questão do corpo na clínica com oficinas terapêuticas" mas agora já me convidaram para outra e receio ir esquecendo, pois já ficam três textos escorregando...então desculpe aí se nunca terminar. Por falar em desperdício, lhe conto que não encontrei quase ninguém na minha família interessada nessa origem judaica. Nunca tinha ouvido falar nisso antes de chegar aqui em Natal. Nunca entrei numa sinagoga, não tenho a menor idéia de como é a Tora, então é uma ascendência mítica mesmo... Você ouviu falar alguma coisa assim sobre a família Castelo Branco? Conhece algum modo de ter acesso a isso? Num livro do Alberto Dines há referências à judeidade da família Correia mas não tenho nenhum acesso a mais detalhes. Talvez eles preferissem mesmo esquecer e impedir que as gerações seguintes tivessem informações, não é? Mas tem outras coincidências incríveis sobre essa hipótese, confirmando que a transmissão de "alguma coisa" acontece de formas que ainda estamos longe de compreender...

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    [Aeternus:1910] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-16)


    - o corpo é um corpo é um corpo

    Parabéns, Eugênia, vejo que você está indo de vento em popa na sua produção. Creio que, diferente de Lacan, podemos entender alguma dimensão humana do corpo fora do domínio simbólico.
    O filme ' O livro de cabeceira' que foi mencionado há uns tempos, com a escrita de poemas sobre ele ( primeiro, o pai escrevendo nas costas da filha e esta, depois, fazendo o mesmo com seus amantes...)poderia ser útil para a Eugênia e era vendido nas bancas por um preço especial. 

    Aproveito para notificar a todos que tem artigo novo no site. Há o comentário maravilhoso do Gallego, publicado ontem no JB on line e o texto complexo e excelentíssimo do Davy sobre " concern". Vale conferir.


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    [Aeternus:1911] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-16)


    - fita

    Davy, a qual fita você se refere? Ao filme sobre a Marie Bonaparte e o Freud? Se for, vou demorar um pouquinho mas com prazer, lhe envio sim. Por que você se refere a ancestrais? Se, entretanto, você estiver se referindo à data de 14 de outubro, esse filme aí foi projetado em Paris e não tenho. Mas agora que você falou também fiquei curiosa e posso tentar escrever para lá, pedir para mandarem uma cópia. Você ainda tem o mail onde possa haver um endereço do cine-clube? Infelizmente, Jansy também, o filho da minha amiga não faz cópia de dvd mas sim de cd... Então o jeito é fazer a cópia de vhs para dvd o que custa 35,00 cada uma!!! E como são duas, fica 70,00. Caro, não é? E depois tem o correio... Me confirmem se aceitam assim mesmo.

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    [Aeternus:1912] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-16)


    - quem dá aos pobres empresta a Deus

    coloquei como título um provérbio popular, apenas para começar a debater algo do artigo do Davy sobre "concern" ( que se encerra falando do amor do homem por Deus e pelo próximo...) e do que ele comentou com o Florião sobre o eu/eumesmo/outro.

    Mas o que pretendia era apenas dizer para a Eugênia que está ótimo o preço para a cópia em DVD de duas fitas em VHS por setenta reais, fora o sedex. E avisar que provavelmente o filme que ele pediu seria o que foi exibido em Paris e não o da Marie Bonaparte.


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    [Aeternus:1913] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-16)


    - Para Eugênia

    Eugênia, referi-me à fita sobre índios e marranos. Só isso. Fiquei curioso.

    Davy.


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    [Aeternus:1914] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-16)


    - Para Jansy

    Jansy, por favor inclua numa próxima mensagem a resposta que lhe mandei sobre Deus. Gostaria que não ficasse um mal entendido.

    Beijos.

    Davy.


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    [Aeternus:1915] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-16)


    - a resposta do Davy e a carta original

    Caro Davy,
     
    Dei uma lida rápida ( mas seu texto merece exame detido), para incluir logo no site.  Já lá está!  Parabéns. Depois retomarei com cuidado. Também gostaria de discutir sua argumentação com o Florião sobre o eu/eu mesmo/outro...  Preferia pensar na epígrafe que você colocou no final e que se resumiria assim eu/deus/outro...
     
    Resposta: Bem, Jansy, minha esperança era que fosse percebida a minha brincadeira. A frase final do texto é uma 'boutade', com suficientes ressonâncias para provocar pensamentos, mas não que fosse isso 'realmente' que eu quis dizer. Incluir Deus aí de modo "concreto" é justamente tomar ao pé da letra o que eu queria que fosse uma metáfora. Achei que a frase do Buber 'concluía' muito bem a minha reflexão - que, na verdade, não pode e não deve mesmo ser 'concluída' - trata-se de um 'andar', não de um 'chegar a um ponto fixo'. Então tudo e qualquer coisa fica incluído na frase final - Buber era pleno de religiosidade, mas nem um pouco 'religioso', no sentido formal. Fica então excluída a idéia que você propõe - eu/deus/outro, a não ser que esse 'deus' seja tomado por um operador que na verdade vale qualquer outra coisa, menos ele. O texto se conclui pela impossibilidade de concluí-lo - era isso que eu queria dizer, e lancei a incógnita absoluta (Deus) na intenção de que fosse essa a 'conclusão'.
    Obrigado pela inclusão do texto.
    Davy.

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    [Aeternus:1916] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-16)


    - eu/deus/outro

    Davy: ainda não tive tempo bastante para me deter nos seus comentários e no texto do " Concern" . Ainda bem que o confessei antes de destacar sua epígrafe (ao montar o esquema eu/deus/outro)  porque você renegou a referência ao "deus" bem rapidinho e, como você sempre se apresenta como ateu e oposto ao que se sonha sobre o OLL , Outro Lado da Lua, sua bronca procede. 

    Você escreveu para o Florião:" Esse eu/eu mesmo certamente existe e é fundamental, em todos os sentidos. No entanto, quando ele se desvencilha do outro e funciona num mundo próprio, é porque algum "outro" falhou miseravelmente(...) Quando o 'eu voltado para o outro' esquece o 'eu voltado para mim', temos (...) a sua FALTA. (...) "Eu, Eu mesmo e Irene", se traduzido como "Eu, Eu mesmo e o Outro", funcionaria muito bem".
    Florião respondeu: " A tríade é bem a que você interpretou e coloca : eu/eu mesmo/quero ver Irene dar sua risada".

    Estive bastante animada para discutir este ponto, mas faz um calor danado em Brasília, o dia foi muito agitado e, de repente, me vi tomada de preguiça.
    Vem acontecendo ainda a dinamica grupal que Bion destacou como "pairing group" ( eu/ você/zero outro ) e preferia sentir que há mais gente participando para não cairmos no pingue-pongue imaginário ( e não é como as jogadas dos tenistas do filme Blow Up...) e discorrendo sobre o  amor pelos nossos semelhantes...
    O que chamei "deus" poderia ser o mesmo que o que você designou de "falta", só que no seu esquema a "falta" vem no final e não, entre o instante do eu e o instante do outro, como propus.
    Se pensamos ontológicamente em Deus, então ele ou existe ou não existe e   "pronto final" ( como dizem meus netos ).
    Se ele puder surgir como " a falta de Deus" intermediando minha relação com o outro, tudo ficaria diferente porque marcaríamos um lugar, como na notação fundamental do "zero"/"0" .   
    Corrigindo meu indevido uso da sua epígrafe, volto a propor então:
    eu/falta de deus/outro .

    No momento, por exemplo, sinto falta de um espaço para não ficar no eu/eumesma/você...

     


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    [Aeternus:1917] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-17)


    - índios e marranos

    Ah, essa é fácil pois trata-se de uma palestra de um antropólogo francês que está gravada em fita cassete e não em dvd. Posso mandar com prazer e adoraria saber sua opinião. Diga seu endereço. Como vou para jOão Pessoa daqui a pouco, melhor usar o mail etcbck@hotmail.com

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    [Aeternus:1918] Mensagem do Grupo34
    -Eugênia(2004-10-17)


    - deus e o gozo

    Só um instantinho, pois adoraria me meter nesse papo aí... devo viajar daqui a pouco mas amanhã dou notícias. Jansy, o corpo em Lacan não se restringe ao simbólico de jeito nenhum. Até onde entendo - e é bem pouco, iniciante mesmo - a originalidade principal de Lacan é o conceito de "gozo", como alguma coisa que transcende o simbólico, justamente que toca o real, o indizível, e a imagem do corpo. Suponho que uma aproximação com a falta-de-definição para Deus possa ser aproximada aí, e prometo que vou procurar no seminário "Encore".

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    [Aeternus:1919] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-17)


    - aguardando o seu retorno

    Olá, Eugenia, vou aguardar seu retorno para discutirmos esse "corpo não-submetido ao simbólico",  que você localizou em Lacan através do "gozo".   Não entendi muito bem!  E menos ainda o mais ainda.

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    [Aeternus:1920] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2004-10-20)


    - no que concerne à liberdade

    Davy argumentou ao final do seu novo artigo em favor da teoria de Winnicott sobre a importancia da não-interferência no crescimento da criança por parte do adulto.  Lembrei de uma frase popular ( é de pequenino que se torce o pepino) que tem eco na Bíblia: " ensina ao menino o caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele", de modo mais generoso. 
    Os experimentos com escolas libertárias, tipo Summerhill, não funcionaram. Também as crianças tem certos pudores que não são ensinados e que geram conseqüências. Minha neta do meio, com quase dois anos de idade, não tinha vergonha de ficar peladinha ou de dançar na frente dos adultos, só que enribecia toda se perguntássemos: " como é que você se chama", como se esta pergunta fosse "íntima" demais. Outro neto, quando acerta algo e percebe o brilho ou o sorriso do adulto, se encolhe de vergonha pelo "bom",  tanto quanto ao errar, falhar ou cair no chão e isso, desde antes de um ano. E a turma de primos e irmãos caçoam das fraquezas de cada um que identificam facilmente.  Como será deixar uma criança mais sensível à mercê dos seus companheiros ou de si mesma?

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    [Aeternus:1921] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2004-10-20)


    - Goethe no PS

    Goethe escreveu : " Espíritos desamarrados tentam em vão dar vôos mais altos. Quem aspira a grandeza precisa saber se segurar porque é assim que se mostra o mestre: apenas a lei pode nos dar liberdade".
    E, quando Davy corrigiu a "proteção total" dada pelo adulto por "proteção suficiente", ele mostrou que existem limites que caracterizam o que é ou não suficiente ( e  "cernir" não é também demarcar, limitar? "Concernente" e "discernimento" são palavras que sugerem pra mim um sentido de "justa medida"). 
    A criança percebe que o adulto se limita e pode aprender isto dele sem precisar de palavras ou castigos. Não é preciso "torcer o pepino" para influenciar a criança com um bom ou mau exemplo. A identificação se faz inevitávelmente.  Será que entendi mal, outra vez, a proposta final do Davy?

     


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    [Aeternus:1922] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-21)


    - nesses trâmites infantis

    ...o ângulo surpreendente e inesperado nas reações das crianças, junto à atenção maior que se tem dado a sutilezas, antes vistas pela grande maioria como 'frescura’, traz aberturas interessantes.
    Difíceis de deslindar, pois o jogo afetivo/simbólico ligado à formação da pessoa tem elementos suficientes para uma análise combinatória com números e peculiaridades altíssimas.
    Meu filho único, talvez assegurado demais, usa a mim e à mãe como uma espécie de cobaias das experiências que quer empreender e de espectadores de suas pantomimas.Certamente transborda seu ato, precisamos colocar travas no processo. Ele é enrustido, no entanto, com a etiqueta dos cumprimentos e retribuições. Em casa e fora de casa.Quando 'arrisca ser educado’ e faz um agradecimento e nós ( pais ) demonstramos satisfação e sorrimos, ele confessa que não age mais vezes assim porque rimos dele, interpretando a satisfação como escárnio !...
    Dois ângulos a avaliar : de onde teria surgido tal leitura afetiva e por que ela tem esse poder coercitivo.
    Seria o caso de pensar numa auto-castração, na qual a 'vítima’ confere ao 'algoz’ um lugar alto no pedestal, dá-lhe de presente o ’direito de razão e julgamento’. Algo como um ser pairando sobre, O Sapiente.
    Isto se estende de montão na adolescência, com as espetaculares 'descobertas’ , 'rebeldias’ e os modismos naturais na tendência de contracultura. Claro - qualquer avaliação com um mínimo de sensatez desvendará uma enorme boçalidade nisto tudo, que aqui e ali pode até ser engraçadinha, na linha naîve.
    Triste mesmo é quando um adulto elege padrões similares, como tem predominado. Na falta do nonsense e da criatividade, entram em cena o chulo e o preconceituoso.

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    [Aeternus:1923] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-21)


    - contracultura

    Florião observou a respeito do filho que acha o sorriso de aprovação dos pais "sarcástico" : "Dois ângulos a avaliar : de onde teria surgido tal leitura afetiva e por que ela tem esse poder coercitivo. Seria o caso de pensar numa auto-castração, na qual a 'vítima’ confere ao 'algoz’ um lugar alto no pedestal, dá-lhe de presente o ’direito de razão e julgamento’. Algo como um ser pairando sobre, O Sapiente." 
    Pruma mãe que o consultou sobre o filho, Freud apenas respondeu:
    -  "Faça como quiser, vai estar sempre errado".
    Seguramente Winnicott ou até mesmo Klein não concordariam com ele, pelo menos na teoria ( as lições de vida da Sra. Klein se assiste no teatro. As de Winnicott acolhendo delinqüentes não renderam um filme ) .
    Eu também não concordo com a boutade impacientede Freud porque, mesmo que a gente saiba que vai dar tudo errado, tem errados que são mais errados do que outros.
    Quanto ao "algoz" do Florião, sabe-se que quanto mais os pais encontram a "justa medida", sem transbordamentos de perdão ou de castigo, mais a criança  se sentirá protegida dos seus próprios algozes internos ( a voz do superego arcaico).
    Gosto de uma observação do Humberto: os filhos tem a experiência de serem filhos desde o instante em que nascem, os pais só aprendem a ser pais a partir dali. Filhos são profissionais!
    Aprecio também uma fala de Bion: " Podemos cuidar de sermos bons pais. Se nossos filhos serão bons filhos não depende de nós".   Êta!

    Apreci

     


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    [Aeternus:1924] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-21)


    - 20 anso sem Truffaut

    Hoje, 21/10 fazem 20 anos que morreu François Truffaut que eu sempre comparei a "Mozart no cinema": peguei o final de um documentário da TV5 sobre ele com depoimentos emocionantes de Jeanne Moreau, Fanny Ardanty, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Nathalie Baye, - e não sei qual delas não foi namorada, esposa e/ou amante dele) e também de sua primeira esposa, Madleine. E tb de homens (roteiristas, amigos, diretores incluindo Spielberg e Woody Allen).
     
    Além do "homem que amava as mulheres" apareceu o homem que amava as crianças e a infância em geral (vide "L'Argent de poche", "O Menino Selvagem", "Os Incompreendidos", etc.).
     
    O mais emocionante foi no final: Milos Forman, diretor de "Amadeus" foi visitá-lo pouco antes de Truffaut morrer e ele queria muito assitir o filme "Amadeus" que ainda estava em pós-produção. Forman lhe disse que ainda não dava e Truffaut disse: "Então, tá: você me conta o filme plano por plano e eu imagino". Forman, emocionado, disse que ficou "trés bouleversé" (acho que é assim que se escreve, ficou confuso, transtornado, mexido, emocionado - e eu também). Disse ainda Forman: como eu iria chegar à cena da composição do "Réquiem" entre Mozart e Salieri quando Mozart está morerendo?
     
     
     
     
     

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    [Aeternus:1925] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-22)


    - Vinte anos sem Truffaut, parte II

    Jansy: Como foi mesmo  a cena da composição do Réquiem?  Não me recordo. 
    Adorei o" Amadeus" quando vi pela primeira e segunda vezes .Depois, acabou-se porque há cenas muito fortes, desagradáveis de se assistir muitas vezes.
     
    Gallego :  No filme (e na peça original), Salieri lê a pauta do Requiem que Mozart está compondo e começa a escutar a música, em partes separadas (só trombones, só as madeiras, só as cordas),  até "juntar" todas e fica embasbacado.
    Mozart desperta (está pré-agonizante) e lhe pede que escreva suas idéias musicais para o "Requiem".
    É como se Salieri fosse um "taquígrafo", um digitador, um datilógrafo, um copista do original que estava na cabeça de Mozart.
    Mas o que Milos Forman deve ter dito seria que, falar da morte de Mozart para um Truffaut prestes a morrer, seria muito difícil para ele. E enfatizar que ele já estava comovido, transtornado com a proposta de Truffaut de escutar a descrição do filme e assisti-lo dentro de sua cabeça, tal como Mozart que já teria as músicas "prontas", faltando apenas registrar no papel e orquestrar.
     
    Jansy: Ah, sim. Belo trecho este, do Requiem. Será de quem esta bolação, que aparece também naquele momento no qual Salieri lê uma partitura que a Constanza deixou com ele e escutamos a música ao fundo como se entrássemos na mente dele e de Mozart. 
    Esta é uma das experiências mais marcantes e interessantes do filme, notar que quem verdadeiramente amava e compreendia Mozart naquele período era seu maior inimigo ... Porque o Schikaneder (?)   não o amava e  só tirava proveito das fraquezas de Mozart,  uma criança sexualmente abusada desde a mais tenra idade, sem chances de idealizar nem mesmo bispos engalanados ou ao pai...
    Com um roteiro tão incrível, não sei por que Milos Forman não se sentiu capaz de descrever o filme pro Truffaut, que já devia saber que estava para morrer.  Privá-lo deste prazer é como se achar mais invejoso do que Salieri, ou talvez ele não gostasse muito do Truffaut enquanto Truffaut e preferisse se esconder e tirar partido da história? 
     
    Gallego:  A impressão que dava, vendo o Milos Forman falar, é que ele - anos depois - ainda se mostrava comovido com o desaparecimento precoce do Truffaut aos 52 anos de idade e com a possibilidade do francês de tentar "compor" um filme de outrem dentro da sua própria cabeça  para recriar imagens tal como Mozart fazia, com temas musicais alheios, em improvisações e variações análogas aos dos grandes jazzistas do século XX.
    Não me pareceu invejoso mas comovido de acompanhar alguém in extremis, o que por um motivo ou por outro é sempre mobilizante para o sobrevivente. De qualquer forma, era como Salieri ao lado de Mozart morrendo (o que é uma ficção): Forman e Truffaut, uma realidade recordada, mas talvez com a parte da admiração de Salieri sem parte da inveja e do ressentimento.

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    [Aeternus:1926] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-22)


    - adoráveis !

    A rabugice do Freud com a mãe inquieta, a perspicácia do Humberto ao perceber-se numa emboscada cercado por 'profissionais' em Infância, e o laisser-faire carregado de orgulho do Bion.

    Quanto ao adorável-adorado e saudoso François, era um homem assumidamente desajustado. Ao mesmo tempo que encontrou no Cinema sua expressão pessoal de artista - e cinema envolve tecnologia - renegava os progressos galopantes da dita cuja. Detestava TV, telefone ( imaginem que filmaço ele faria no pós, com as pessoas passando a ter três ou quatro orelhas para suportar os aparelhinhos ! ) e os inexoráveis avanços da Informática.
    Centrava o filme no que outrora chamavam 'ser humano', conceito que tornou-se discrepante e volátil.Tal era sua facilidade com andamento e roteiro que, se lesse uma notícia que o interessasse no jornal em pouco tempo tinha em mãos material para rodar o filme que idealizara.
    Tinha muito carinho pelos atores, e assinava 'Mise-en-scéne' nas últimas letrinhas dos créditos, antes de François Truffaut. Deus o tenha.


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    [Aeternus:1927] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-22)


    - Tecnologia e Humanidade

    Revi há uns dias o filme A.I e novamente me choquei com a cena na qual os "humanos" faziam a "feira da carne" destruindo os robôs porque representavam a desumanização. A tecnologia é desconcertante e ameaçadora, mas o que será a desumanização?   Como sou uma avó que não sabe fazer tricô enquanto vigia os brinquedos perigosos dos netos, leio coisas leves, como Isaac Asimov e hoje mesmo me encantei com seus robôs presos às tres leis universais da robótica, e algumas frases espertas sobre humanos serem gregários sem serem socializados e sobre outros povos serem socializados, mas vivendo cada um na sua...

    Até hoje, quando preciso mexer mais longamente em transações pela  internet convoco alguém para se agregar a mim, porque sinto aflição como se fosse apertar um botão e matar um mandarim na China. Imagino uma conversa do Spielberg com o Truffaut, embora não veja a mentalidade básica de ambos muito diferente ( são ainda dois romanticos!).

    Como a turma desta lista também é.  

     

     


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    [Aeternus:1928] Mensagem do Grupo34
    -Davy(2004-10-23)


    - Para Florião, Eugênia e Jansy

    Gente: Tenho que me ter nessa discussão, sob pena de parecer "covarde" (jogou a centelha e fugiu do incêndio...)

    Acho que Winnicott diz algo ao mesmo tempo sensato e inesperado sobre isto. A criança pequena tem uma consciência muito aguda da idéia de dívida. Agradecer significa reconhecer uma dívida. Significa renunciar a mais um naco de onipotência. Daí os constrangimentos (ou seja, os sentimentos desagradáveis) que acompanham o gesto. Para falar a verdade, não tenho certeza de nada disso. É um território ainda um pouco misterioso para mim. O que Winnicott diz me faz sentido, mas isso não significa que entendi de verdade.
    Mas gostei da discussão. E gostei do modo como vocês trataram a questão.

    Eugênia, se a fita está em francês, não adianta. Não "ouço" francês, e mal e porcamente leio. Fica para outra. Mas agradeço assim mesmo. Se por acaso ele falou em português, ou houve tradução consecutiva, aí sim, gostaria muito de ouvir.

    Beijos e abraços a todos.

    E quanto às emocionadas declarações de Gallego sobre Truffaut, me emocionei também. Inclusive pelas observações relativas a Mozart, um dos meus heróis culturais. Ele e Van Gogh sempre me emocionam. E tudo que se diz sobre os dois. O engasgo do Forman me soou profundamente compreensível. Daria quase para fazer um filme sobre essa "cena". Obrigado.

    Davy


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    [Aeternus:1929] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-23)


    - Crianças envergonhadas...

    Davy lembrou que as crianças conseguem  reconhecer "uma dívida", embora reagindo de modos diferentes, dado o abalo à confiança onipotente em si mesmas.
    Pensei na interação da mãe com seu bebê feliz após a mamada: há uma "conversinha" amorosa entre ambos, o que sempre me deu a sensação de que o bebê se sentia como quem retribui  à dádiva dos cuidados maternos por meio dos sinais da sua própria felicidade.
     William Blake, o poeta místico, escreveu que " Gratitude is Heaven itself" e, portanto, se a duplinha mãe/bebê tem tempo para estes intervalos de "namoro", é possível haver maior tolerancia ao sentimento de perda da onipotência.

    Hoje vi um filme surpreendente, com o Jack Nicholson bem jovem, talvez com menos de vinte anos, no papel de um príncipe. Que um péssimo ator! E tinha junto Boris Carloff, Vincent Price e outros nomes de antanho.
    O filme era bem ruinzinho, com cenários pintados e ação caricata. Anunciava seu título como " The Raven", o que vinha seguido de " Edgar Allan Poe", embora não tivesse muito a ver com o poema ou com o gótico escritor,  apesar dos corvos esvoaçantes e das Lenores fantasmas.
    Um dos produtores e, acho, diretor também, chamava-se James Nicholson. Será que foi o pai da careteira figura que desde Easy Rider vem sendo capaz de atuações incríveis ou, pelo menos, expressivas?


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    [Aeternus:1930] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-23)


    - who is afraid of Jack ?

    Jansy,

    Lamentamos muito ter perdido o debate. Não sabia que era na sexta passada e não abri o outlook com seu providencial lembrete.

    Quanto ao Jack, considero-o o canastrão mais brilhante de todos os tempos, mais do que Humphey Bogart e Clark Gable, que eram apenas canastrões (podem me bater os cinéfilos). Não é nada fácil ser um pouco Jack Nicholson em cada papel e não ser repetitivo. "O Estranho no Ninho" talvez seja sua atuação mais primorosa, mais sóbria. Em "O Iluminado" ele dá arrepios. "Melhor Impossível" ele lembra um tio que todos os humanos (e talvez alguns primatas) têm. Oscar merecidíssimo. Nem bonito ele é.

    Não podemos analisar o canastrão com desdém. Não se trata de um mau ator necessariamente. É uma verdadeira instituição cinematográfica (e teatral). Passa pelo conceito dificílimo de "carisma" , um tipo de narcisismo que convence o público o diretor, o produtor, os colegas, e talvez até ele próprio. É ele, o canastra, plasmado na tela "sendo interpretado" pelo personagem, numa absurda e, muitas vezes bem-sucedida inversão. Muitos me agradam bastante.

    Não têm a versatilidade ou o preparo de um Dustin Hoffman, mas ajudaram a construir aquela merda encantadora que é Hollywood.

     


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    [Aeternus:1931] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-23)


    - Canastrões.

    O que o guto diz faz algum sentido mas percebo difernças entre Gable, Bogart e Nicholson. Gable seria o mais canastrão dos três, embora eventualmente conseguisse desempenhos interessantes conforme o personagem pudesse ser um tanto "canastrão" na vida. Acho que Rock Hudson terá sido um exemplo mais típico ainda de canastrão: só tinha estampa e era grandalhão, parecendo viril de acordo com a concepção dos anos 1950. Nunca foi nada parecido com "ator", era apenas uma estampa que se repetia de filme para filme sem qualquer brilho ou inteligência interpretativa. E na vida real era viril-gay. Nada contra mas fica um exemplo de mau desempenho ou como hetero (na  relação tela onde seduzia as Doris Day's - vida real onde seduzia outros gays) ou como homnossexual (na relação vida real - imagem pública onde até um casamento de fachada o estúdio o obrigou).

    Cary Grant também repetia o mesmo papel de Cary Grant mas havia uma aparência de bom humor inteligente. O ator não precisa ser mas tem que parecer o que o personagem (ou persona pública) exige.

    Já o Bogart repetia o mesmo tipo, mas há atores que mudam completamente de papel para papel (Peter Sellers seria o exemplo máximo, incorporando totalmente o personagem diferente de si) e há excelentes atores que "trazem" o personagem para sua personalidade: Fernanda Montenegro, por exemplo. Se a "Dora" de "Central do Brasil fosse a Fernanda Montenegro, tivesse a cara, a voz a entonação da Fernanda, a "Dora" seria extamente como a Fernanda foi. Se a "Zulmira" de "A Falecida" idem idem idem seria exatamente idem idem idem idem.

    Já o Nicholson pode ser canastrão (nos filmes de terror do início de carrira como o lamentável "The Raven" que Jansy assistiu) mas também pode emocionar em alguns papéis e filmes que o solicitam mais. Talvez no estilo da Fernanda, só que nem tão frequentemente bem-sucedido. Ele brinca de ser Jack Nicholson.

    Pior são os canastrões na vida (Collor de Melo: sempre me pareceu um mau, péssimo ator naquele papel enfatiotado)


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    [Aeternus:1932] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-24)


    - Mellou?

    Guto, se a apresentação foi nesta semana, eu também perdi. Deve acontecer ainda no dia 28, quinta-feira.
    Não cheguei a criticar tanto o Jack Nicholson como pareceu, mas insisti nas caretas, não é? Ele se sai melhor como comediante, ou em filmes "extremos" ( como o extremo no ninho  ...) . 

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    [Aeternus:1933] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-24)


    - brincando de ser eu mesmo

    Muito bem colocada a discussão. Ressalto na carreira do Big Jack, entre os não citados, "Carnal Knowledge" - o rôle seria dificílimo para qualquer outro ator, mas ali o Jack fazia papel dele mesmo, chauvinista/egoísta ao extremo ; "Five Easy Pieces", onde ele faz um americano out of establishment, meio à la Antonioni, e não deve ter sido à toa que o dito cujo o convidou para "Profissão : Repórter", onde também está excelente ; e o detetive xeretão-valentão de "Chinatown", com o Polanski.
    O pior da história é que ele sabe que as pessoas querem que ele se desfie Big Jack. Como citei numa carta dessas da vida, aqui no site, numa cerimônia de entrega de Oscars o Billy Cristal interrompeu sua fala, a um sinal da figura sentada de óculos escuros na primeira fileira, e trocaram um diálogo sobre uma observação feita pelo Jack. Ao final, o Billy disse 'se você precisar interromper de novo é só avisar', numa empostação irônico-solícita...
    Senti esse tipo de aura no Daniel Day Lewis - que considero, junto ao Laurence Olivier e Chaplin, os três melhores de todos os tempos - como líder de gangue em NY do Scorsese. Mas numa dimensão diferente, mais refinada : o domínio sobre o papel e sua postura é tamanho, que ele sente-se completamente solto em cena. Se alterar alguma fala ou postura prevista não haverá qualquer problema ! ( ao contrário, a tendência é melhorar ! ). Há uma seqüência horrenda, nauseabunda, onde numa câmara da gangue decide-se o destino trágico de uma vítima. Que rituais de tortura levarão o capturado à morte, que deverá ser lenta, agônica. Como um mestre de cerimônias macabro, ele faz pausas sádicas, ri da insensatez da massa e...da sua mesma, de asqueroso vilão.Incrível.

    Os canastrões escolhidos foram excelentes. Tão ruim quanto Clark Gable só Tom Hanks, a quem ainda por cima convenceram que é ator ( sinto um rasgo de humildade nele, e aqui simpatizo e me solidarizo com sua desgraça interior ). Rock Hudson era tenebroso. Cary Grant e Gregory Peck faziam o mesmo estilo, geralmente o bom moço iludido pelas forças do Mal.Bogart era o mauzão-incompreendido, aquele tipo que 'se tivesse tido mais carinho ou outra chance se redimiria'.
    Houve galãs ridículos, aqueles tipos que Hollywood pinça para agradar mocitas cheias de hormônio, como Troy Donahue - que tinha a grande virtude de saber-se canastrão - mas há tipos como o do Arnoldão Charzenegro, nosso querido gov da California, que aprendeu a brincar de ser ele mesmo, a brincar com o sistema.Ele deve rir no gabinete, em segredo.
    Alguns afortunados conseguem constituir uma carreira sólida, escapando a essa sina da mesmice. Michael Caine conseguiu um certo hibridismo, ainda que tenha repetido várias vezes o titubeante suburba londrino.Mastrioanni foi altamente versátil, escapando da pecha de mero enfant gâté. Nunca entendeu ou não quis entender as discussões mais amplas a respeito : dizia que cinema não era coisa séria. É ?


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    [Aeternus:1934] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-24)


    - pixando os canastrões

    Pronto, depois dos comentários do Florião, acabaram-se os meus heróis. Nem o engraçadinho do Schwarznegger sobrou, mas adoro ele como policial em escola de criança, ficando grávido ou tendo irmão gemeo dos seus restos. O sotaque vienense é uma gracinha. Ele é pura diversão. 
    Tom Hanks não merece tanto desprezo, ele está ótimo em "Big" ( Quero ser grande ) e também saiu-se bastante magrinho, como náufrago que faz amizade com uma bola de volei. Não gostei dele no filme dos Matadores de Velhinhas ( mas o Gallego destacou o momento em que recita à Helena de Poe ) e já vi anúncio de outro no qual ele é um desenho animado dele próprio ( "Expresso Polar", ou algo natalino com trens ). É uma pontuação cinematográfica fazer isto com ele, que anda rígido como boneco em vários instantes.
    Ninguém propôs ao Nicholson algo como fizeram para o Malkovitch ( ótimo no filme Of Mice and Men e em Ligações Perigosas...). Eu não queria ser qualquer um deles.
    Bogart tem uma boca expressiva e sabe ser dramático com pequenos gestos. O mesmo que me surpreendeu em Kevin Spacey.  Assisti sua entrevista com James Lipton no "Inside the Actor´s Studio" e ele ficou quase todo tempo imóvel, contrastando com todos os outros que o antecederam, sem grandes frases, descrevendo como a sua mamãe ficou feliz quando ele ganhou o Oscar e sua vida com cachorros. Era difícil associá-lo ao criminoso em "Seven" e ao pai apaixonado em "Beleza Americana" até que... na hora da conversa com os alunos de teatro um deles propos lerem uns diálogos. Caberia ao Kevin Spacey apenas dizer " vá almoçar" em vários momentos.
    Foi incrível!!!  Tentei imitar sua fala e descobri que era impossível. Sofro de uma enorme falta de ritmo, algo tão grave que me impediu de ser bailarina ou pianista, mas nenhum acrobata conseguiria o feito do Spacey. Ele intervinha para dizer, em vários tons,  oscilando entre stacattos, indo do andante ao molto agitato, na hora mais inesperada da fala do outro.  Quando eu ia tomar folego para dizer "vá almoçar" ele ou já tinha dito o mesmo antes ou dizia logo em seguida. Ele falava no átimo de uma "síncope" do diálogo, nem sei. Chegava a fazer meu coração bater fora do compasso.  Spacey é um músico da voz.
    Daniel Day Lewis é o do "Meu pé direito" ( ou esquerdo?) e A insustentável Leveza...Ele é dançarino onde Spacey é cantor.

    Eugênia conseguiu uma cópia do filme "Marie Bonaparte" para mim, em DVD e com legenda. Ontem assisti à primeira parte. Gostei muito do filme, mas acho muito prejudicial à Psicanálise!  O ator que fez Freud estava ótimo. Catherine Deneuve como princesa maluca, estava legal também ( ela fez aquele tipo de plástica que alisa o rosto e enche os lábios, o que não combina com seus gestos e andar de velha...).  O problema, como o vi, foi o de pegarem Freud no final da vida falando da psicanálise como velho carente e dolorido, bem no estereótipo do velho que não tem agilidade para dizer coisas novas e repete suas próprias frases famosas e se refugia numa receita mágica: " mas isto é ciência". A reviravolta dos costumes promovida pela mania de "dizer sempre a verdade" é coisa de doido. Erotismo doido, mal sublimado, soltando faíscas nos lugares errados.Freud não foi nada daquilo a vida inteira, como é que o filme vai transformá-lo naquela figurinha patética com jeitão de sábio chinês na hora em que agonizava com cancer no maxilar?  Mas, se esquecermos isto, o filme está ótimo. Tem cenas com várias entradas triunfais de Hitler entremeadas no enredo, seu consultório em Viena parece com as fotografias que todos conhecemos. O ambiente pequeno-burguês com as conversinhas histéricas estava perfeito. Cheguei a lembrar de cenários onde vivi meus anos cinqüenta, adultos pegando casquinhas na nostalgia daquela época. Era quando se dava valor aos barbantes e botões, às luvas e chapéuzinhos, formalidades nas refeições familiares, café ou licor em conversas pausadas e em poltronas confortáveis. Meu pai usava diariamente ternos escuros e impecáveis, camisas passadas em casa com colarinho perfeito, abotoaduras de ouro e alfinete de pérola numa gravata especial. Tinha ligas para segurar suas meias pretas de seda!  Havia frivolité na borda dos paninhos espalhados pela casa sombria, cortinas pesadas davam  destaque aos vasos de flores. Os postes de luz da Light eram fracos e globulares como ainda os vi em Paris, o Rio era uma cidade muito escura à noite com a surpresa dos reclames de "Longines" ou "Agua Salutaris" brilhando aqui e ali. Havia padeiro entregando pão nas casas numa cesta coberta com toalha quadriculada e leiteiro com litros de vidro.Cada tomate ou bife eram comemorados. Enlatados, só nos quadros do Andy Warhol ( exceto em dia de festa quando se abriam latas com petit-pois e compota de pêssego, ou serviam suco de tomate americano ) e não havia supermercados. Às vezes, como na propaganda de biscoitos, tinha-se a chance ( para os sortudos possuidores de telefone ) de: " alô, alô...quem fala, é do armazem do seu José? A mamãe mandou pedir para comprar uma lata, uma lata, uma lata de biscoitos Aymoré".
    Viajei na maionese ( feita em casa )!


     

     

     

     


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    [Aeternus:1935] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-24)


    - ainda os canastrões

    O inventário canastrônico do marcos é imbatível, exceto pela implicância idiossincrásica (que nem é tão idio, ele diz que o irmão dele tb pensa assim) com o Tom Hanks que tem vários desempenhos muito bons, inclusive saindo estereótipo "eu queria ser James Stewart" em "Estrada de Perdição" - onde ainda por cima enfrentava um Paul Newman da melhor safra e um Jude Law mais do que competente. Admito que Marcos não o considere um bom ator, mas não o vejo como canastrão que tem uma característica algo indefinível de... falso self, talvez.

    Aliás, como estou sem acesso aos dicionários daqui de casa devido às obras, sugiro que consultem de Caldas Aulette ao Houaiss passando pelo indefectível Aurélio para conferirmos se temos um conceito de canastronice compartilhável ou se é tudo idiossincrásico.

    No cinema, especialmente no americano de sempre e nas cinematografias com "estrelas" é difícil separar o canstrão propriamente dita do "ator característico". James Stewart nunca deixou de ser James Stewart e Gregory Peck tentou sair do estereótipo bom moço como Capítão Ahab em "Moby Dick" do John Huston mas saiu chamuscado, não foi considerado um bom desempenho, apenas esforçado. Mas ele se saiu bem em "To Kill a Mockingbird" (O Sol é para todos) onde era herói mas sem romantismo de parceira apaixonada: vi´´uvo com filhos advogando a favor de um negro num estado americano racista contra brancos psicopatas que acusavam o negro injustamente, um filme que me surpreendeu numa revisão recente: sobrevivia decentemente, quarenta anos ou mais depois de filmado.

    Pouco se fala das atrizes canastronas - por que será, cavalheirismo? fascinação com as estrelas fascinantes? deslumbramento? - mas há belas que nunca foram "feras" como atrizes. Liz Taylor podia ser um horror ou funcionar muito bem, dependia da direção talvez, do papel, quem sabe? Ava Gardner entrava com a cara - e precisava mais? Minha querida Audrey não se considerava uma atriz nata (queria mesmo ter sido bailarina) e se cercava de diretores experientes, mas era capaz de surpreender - quem sabe até a si própria em um drama - que tb me surpreendeu como um bom sobrevivente ao tempo - como "Uma Cruz à beira do abismo" (Nun's Story) - apesar do ritmo pausado e mentragem maior do que duas horas e mesmo assim igualmente digno. Talvez o melhor desempenho em papel dramático de Audrey, justamente premiado pela Academia britânica de Cinema, mas apenas indicada ao Oscar. É claro que em papéis leves ela se saía naturalmente bem como nas comédias românticas de "Princesa e o Plebeu" até "Charada", mas sem dúvida cresceu como atriz até chegar à excelência variada de cenas cômicas de "My fair Lady", fossem aquelas mais caricaturais da florista até a ironia das cenas finais com Rex harrisson e aguentando o tranco da cena dramática pós-baile. Esteve muito bem em "Two for the Road" e não dá mais para ler "Guerra e Paz" sem usar sua imagem como Natasha.

    Outra que era cautelosa nos desempenhos era a Catherine Deneuve. Nunca quis fazer teatro pois não se considerava atriz de palco. Na verdade, parece que começou carreira indo na cola da irmã que morreu cedo e tràgicamente - e era considerada mais "viva" que a deneuve, meio mosca-morta em alguns papéis iniciais - embora seu rosto tudo perdoasse. Mas foi outra que se esforçou buscando papéis longe (até certo ponto) de seu estereótipo em "Trsitana", por exemplo. E com o tempo foi ganhando um traquejo onde rende muito bem, melhor do que no princípio.

    Já a Fanny Ardant é indicutível como atriz, vivendo os personagens intensamente. Essa empatia com os personagens e uma dose de inteligência ajuda muito, eu suponho.

    É bem diferente interpretar bem em teatro, onde o ator está do seu tamanho natural e tem que projetar o papel e as emoções em close. A voz tem que ser empostada, há um certo artificialismo que deve ser algo natural sem cair no "naturalismo" de novela de Tv que é uma praga empobrecedora. Aí só me lembro de Galuce Rocha fazendo "Electra" o "Exercício". Aí não tinha prá ninguém.

    Voltando ao Nicholson, mote disso tudo, concordo com o Marcos sobre "Carnal Knowledge" especialmente, mas lembro que ele começou em filmes "B" como "O Corvo" da jansy e "A Pequena Loja dos Horrores" (versão preto-e-branco não musical) filmada em dois dias que ninguém acredita se conseguir assistir: é ruim de doer, tão ruim que fica bom de se admirar: uma planta carnívora chamada... Audrey! Era para rir ou para meter medo? Inpossível saber, mas achoq ue era sério. O que o faz tolerávelmente engraçadinho. mas isso não é uma recomendação, é só para situar o Nicholson como um filhote do estilo "faça de qualquer jeito". Se o cara for esperto, faz até legalzinho.


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    [Aeternus:1936] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-24)


    - let the good times roll...

    Adorei as reminiscências.
    Não pichei o Arnold SchwCharzê, também gosto dele rir de si mesmo. Engraçado mesmo é ser governador da Califórnia.
    Daniel Day Lewis brilhou em "In the Name of the Father", sobre Irlanda X England, atentados, tals. Três com Jim Sheridan dirigindo, então : este, "My Left Foot", e um menos inspirado, "The Boxer", sobre ânsias de triunfo e sadomasoquismo no boxe ( não falha dele, mas antes uma tentativa não bem sucedida do Sheridan ). Antes como coadjuva e gay com Frears em "My Beautiful Laundrette". "Insustentável..." é um desbunde, pra não falar de "Na Idade da Inocência", que considero o melhor Scorsese.

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    [Aeternus:1937] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-24)


    - atores teatrais

    Esqueci de comentar a menção ao Malkovitch que Jansy lembrou em "Of Mice and Men" e - é claro - "Ligações perigosas". Há quem o considere artificioso - e talvez mesmo canastrônico, "overacting" - mas vejo a maioria dos seus desempenhos como "teatrais" com aquele "artificialismo" necessário no palco, ao vivo e acores para transmitir sutilezas. São as famosas "mentiras sinceras" da técnica teatral.

    Não vou com a cara da nossa Glória Pires, implicava com ela dizer que não precisava fazer tearo para ser boa atriz, mas dou a mão à palmatória: acho que ela funciona bem e sempre me surpreende favoravelmente em vários filmes.

    E afinal, a Greta garbo era boa atriz  ou era uma "persona" que funcionava bem? Sua compatriota sueca, Ingrid Bergman era só um rosto privilegiado? Acho que não, mas que o semblante ajudava, ajudava. E as outras suecas, atrizes de bergman que quase sempre decepcionavam em filmes de outros diretores - ainda que em papéis inadequadíssimos como Bibi Andersson em western (exceção para Ingrid Thulin e -nem sempre - Liv Ullmann).

    O Mastroiani era bom ator mesmo? Às vezes parecia ser sempre o mesmo Mastroiani, mas isso sempre nos pareceu ótimo. E o Alain Delon? O Burt Lancaster evoluiu de canastrão em filmes de aventuras e capa-e-espada para composições mais sofisticadas especialmente nos dois filmes que fez com Visconti, especialmente "Violência e paixão" onde também tínhamos a máscara facial sempre impressionante de Silvana Mangano (rosto e expressão perfeitas para aJocasta do Édipo Rei de Pasolini, nem precisava falar, era A mãe sedutora). Ela começou em concurso de miss, coisa comum na Itália dos anos pós-guerra: destes concursos saíram ela, Sophia Loren e Gina Lolobrígida - aliás, esta uma canastrona péssima, cara de pau total, melhor como fotógrafa amadora do que como intérprete) Hoje os rostos bonitos são passaporte para o papel de ator/atriz através da "carreira" de "modelo".

    Rostos ajudam, mesmo que não sejam estereotipadamente "bonitos" como o da Jeanne Moreau, que transmite uma personalidade forte, carismjática e sempre parece uma atriz intensa. Basta aquela cara. Romy Schneider era outra atriz "intensa" que tivera um belo rosto, marcado com o passar dos anos sem deixar de ser bonita, mas quanta angústia exposta!

    O que faz afinal um bom "intérprete" de personalidades alheias. O conceito de Freud de que "empatia" seria a capacidade de captar a maente alheia ou de compreender algo inerentemente estranho ao próprio Eu deve ter algo a ver com este talento - ou exercício (como propõe Kohut) de empatia.

    Geralmente me surpreendo com as entrevistas dos atores americanos naquele programa do "actor's Studio". Eles são mais inteligentes do que parecem ao aceitarem papéis bobos em filmes medícores carreiristas. mas a maioria veio do teatro (amador, universitário que seja). Até o Harrisson Ford (um canstrão simpático que geralmente funciona bem e não irrita)! A Sigourney Weaver diz que pára de fazer cinema por meses e faz teatro experimental! Já a Glenn CFlose é sem dúvida uma grande atriz com 1000 recirsos técnicos mas que pode ser do tipo overacting que chega às raias da canstronice quando os extremos se tocam. E o narcisismo/vaidade dela de se saber "fodona" me pareceu insuportável.


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    [Aeternus:1938] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-24)


    - e o De Niro? e a Binoche?

    Jansy mencionou a entrevista do Kevin Spacey no "Actor's Studio". Vocês já viram entrevista com o DeNiro? é de dar nervoso! Ele não fala nada, responde por monossílabos e grunhidos, parece ter dificuldade de articulação verbal. Esquizóide? Borderline? Assustador!

    E eu esqueci de citar outro rosto "intenso" da minha outra querida, Juliette Binoche que curti ver em uma comédia (achava que ela não saberia fazer rir) bobinha e gostosinha com aquele francês com cara de sono eterno (Jean Renno?). Acho que teve o nome bobo de "Fuso Horário do Amor". mas era bobo mesmo, só que divertidinho graças à inteligência dos atores.


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    [Aeternus:1939] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-24)


    - associação

    Não foi de graça que juntei De Niro e Binoche na mensagem anterior. A entrevista dela no Actor's Studio (made in Paris, prá ver a importância dela) não foi tão esquiva quanto as entrevistas com o de Niro, mas quando aquele apresentador bizarro afrimou algo sobre ela (não lembro o que, uma característica elogiosa que ele atribuiu a ela) ela respondeu quase paranóide: "Você acha isso? por que?" E foi invertendo as coisas, quase não falou dela mesma e quase entrevistou o entrevistador. Foi quase ríspida, mantendo apenas uma certa polidez educada. Parecia um bicho-do-mato algo assustada e acuada.

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    [Aeternus:1940] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-24)


    - Spacey e as atrizes perebonas

    Esqueci de falar do Spacey. Ele tem uma nítida dificuldade, que transforma em facilidade, de expressar sua ambiguidade sexual. Fez aquela declaração de amor à mãe e mandou beijinho em público, no Oscar. Achei legal.
    Meu irmão diz que ele é gayzona, mesmo, mas fica na corda bamba. A apresentadora do Telecine, Renata Boldrini, disse ontem no Cineview que ele gosta de fazer o gênero 'se vocês tem dúvidas venham me converter' junto ao público feminino. ( assisti ontem "A Vida de David Gale", do Alan Parker, com ele e a Kate Winslet. Filme algo cru, nem convencional nem intimista, sobre pena de morte )

    Gallego convocou as atrizes perebas. Vamos lá. A pereba mor do pós-moderno é a tal Sandra Bullock, que parece permanentemente entorpecida. Fez um sucesso espetacular com uma série de filmes que nem assisti : desisti rapidinho dela. Outra mais-pra-legume-fim-de-feira é a Gwyneth Paltrow, mas é esforçada e tem melhorado.
    Das do passado o Gallego já se encarregou, e o fez bem. Um adendo ao desembaraço da Fanny Ardant, tão bela quanto talentosa.
    Honra ao mérito das melhores : Bette Davis, Meryl Streep, Glen Close, Sarah Miles.


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    [Aeternus:1941] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-24)


    - lista de melhores dá nisso...

    Esqueci as Bergmanianas, que têm que figurar em qualquer lista : Liv Ullmann, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Bibi Andersson...

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    [Aeternus:1942] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-24)


    - Quando voltei do mercado...

    ..achei milhares de comentários brilhantes dos especialistas, gracinhas engraçadas, peésses dos peésses com molho vinaigrette. 
    Kevin Spacey não deixa dúvida de que é gay com sonhos de gilete! Já o Peter O´Toole...

    Boa lembrança do Florião, do Day-Lewis no Idade da Inocência...
    Achei interessante Gallego comparar as belezas Greta Garbo e Ingrid Bergman, que não acho bonita porque não esqueço dos seus pés enormes, costas largas e narigão. No entanto, como é o caso da Moreau, os sorrisos são radiantes e o olhar docemente expressivo as transformam em figuras belíssimas.

    Sempre gostei da Romy Schneider, desde o primeiro filme em que tinha uns doze anos e era bailarina e o sucesso como Sissy, até o últimos mais trágicos, fora o descaso do Alain Delon e a morte do filho empalado nas grades da sua mansão. Penso nela sempre com uma pena enorme.

    Ninguém colocou nas listas Sidney Poitier e sua nova face, naquele ator das chamas sem calor da lei ( que achei comovente naquele filme em que combatia um demonio " I´m at your side...") entre outros ( como se chama um gordão vesgo que foi morto no " Traídos pelo Desejo"? ).  

    Sandra Bullock tem um rosto de plástica precoce com sorriso de aparelho. Estranho fazer tanto sucesso. Tem atrizes que são lindas e envelhecem depressa, como a Katherine que trabalhou com Day-Lewis num filme de indio e, com William Hurt traindo Anthony Quinn, chefão da droga colombiana.  E uma outra que fez Em Algum Lugar do Passado.  Envelhecer bem é com as européias!

    Puxa, só falei abobrinhas e preconceito.
    Viva Fernanda Montenegro, que se sai bem dentro e fora das telas ( o que não é o caso da filha ).
    Binoche, às vezes, me desaponta ( Gallego anotou sua performance no Inside the Actor´s Studio e  insisto que gosto mais dela em ingles, com carinha francesa do que francesa mesmo)

    Acho melhor arrumar as compras do mercado. Com  abobrinhas e uma dúzia de bananas.

     


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    [Aeternus:1943] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-24)


    - Dirk Bogarde e Malkovich

    ( antes inclua-se a Binoche na minha lista das melhores ! )

    Há evoluções curiosas na carreira dos atores e atrizes. O Dirk Bogarde fazia comédias românticas no velho estilo, dezenas, e chegou a ser 'o namoradinho do Império Britânico'. Decidiu confessar sua sexualidade homo, e passou a ser conhecido como 'The Little Princess'.
    Sua carreira deslanchou em qualidade, com títulos como "The Servant" e "Accident", com Joseph Losey ; "Darling", creio que Oscar para Julie Christie, do John Schlesinger ; "Our Mother's House", terrorífico, o das instituições de adoção inglesas, que o Gallego citou outro dia ; "The Damned" e "Death in Venice", com o Visconti ; o mórbido "The Night Porter", da Liliana Cavani ; "Providence", com Resnais.

    John Malkovich adora brincar consigo mesmo, enquanto atua, e além disso marca o que faz naquele estilo que a Jansy ressaltou que gosta, passando uma proposital ambiguidade sexual em seus papéis.
    Nesse sentido, o mais 'determinado' seria o de "Liaisons Dangereuses", onde é o/a espada de Dâmocles. Ali, a conquistada é 'lebre abatida', e não sei se exatamente no clássico conceito machista : Valmont orgulha-se mais de todo o refinado jogo sedutor, seu admirável arsenal e desempenho de conquistador e a habilidade com que moveu as pedras, do que propriamente o 'ter comido mais uma'. Quando escreve aquela carta sobre a bunda da Uma Thurman, a quem seduzira malevolamente, está feliz pelo bom termo da sedução e...por haver empoisonné la gamine.


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    [Aeternus:1953] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-25)


    - As 3 mais.

    Voltando às atrizes competentes: não sei quem seriam as outras duas, mas em qualquer seleção peneira fina de atriz atual, a Cate Blachett tem que estar. Se em "Elisabeth" ela já era melhor do que o filme, em "Paraíso" atingiu... o sétimo céu das interpretações perfeitas. E ainda faz rir em divertimentos como aquele em que o Bruce Willis e o Billy Bob Thorton são ladrões gentis.

    Mas - indpendentemente do fator carisma, dos astros ou estrelas - o que faz os atores/atrizes (bons) serem particularmente admirados, mesmo os menos bonitos de acordo com os padrões vigentes? A possibilidade de "viverem" várias vidas? O Truffaut dizia que "viver" dramas nas tela, como espectador, sem pagar o preço (a expressão é minha, ele dizia mais bonito) de viver um drama real era o que fazia o cinema tão atraente. Hitchcock (uma espécie de "Deus-pai" para o Truffaut) dizia que todos gostam de sentir medo (suspense) sem terem que enfrentar um perigo real: bastaria observar crianças em brinquedos que criam sensação de perigo mas que são seguros nos parque de diversões; ou como elas gostam de serem jogadas para o alto e cairem (desde que papai ampare, é claro) -- mas o momento da subida e da queda livre antes de serem amparadas seria um frisson quase - ? - sexual.


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    [Aeternus:1959] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-26)


    - Ainda os canastras

    Resumo da ópera para mim: a canastrice é um defeito grave de interpretação. Mas o burilamento de um "monstro sagrado" requer uma pitada de canastrice em alguns momentos e alguns personagens nesse processo todo.

    Porque acho que a interpretação não pode ser apenas técnica. O ator tem que transitar pelo super e pelo infra, tem que mexer com emoções, e esse domínio, passa por um certo pieguismo. O problema - e felizmente - é que o público não é monolítico, possui diferente senso.

    Discordo dos amigos, que não citaram Dustin Hoffman, talvez o ator vivo mais técnico que exista. Mas não é o que mais me emociona. Assim como - para quem gosta de samba - a Imperatriz Leopoldinense não me diz nada (prefiro o Dustin).

    O Malkovich, citado na lista, para mim é um grande ator, e sua técnica quase teatral, às vezes over, me soa bastante agradável nessa monocordia hollyw-realista. Claro que frente à câmera tudo tem que ser menor, mais contido, mas ninguém fica sentado uma hora e meia apenas para ver e ouvir uma estória. Al Pacino também sabe disso muito bem, se bem que seu carisma quase transborda o grande ator.

    É isso aí.

    Bom dia para todos

     


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    [Aeternus:1960] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-26)


    - tentando o melhor

    Cate Blanchett é nome forte mesmo, nas recentes. É trabalhadora, faz muitos filmes, vários deles aquém de seu talento. "Paraíso" é maravilhoso em tudo, um excelente filme.
    Mesmo em algumas bombas, a Cate tentou dar o melhor de si. Volta aqui a dificuldade do cinema, de toda a sua máquina. A Susan Sarandon diz que de uma época em diante deixou de ser tão seletiva com o que poderia/deveria fazer. É que ela se entusiasmara com um roteiro que foi filmado, só que...as cenas que ela antevira com mais ardor desde a leitura desapareceram na sala de montagem !
    Entram também o diretor e toda a coesão do projeto. Judy Davis, por exemplo, oscila do brilhareco ao desastre, dependendo da direção. Andou maravilhosa em "My Brilliant Career", com a Gillian Arsmtrong; e em "Husbands & Wives", com o Woody Allen - ali tinha o espetacular desempenho do Sidney Pollack a facilitá-la ! - e fez uma George Sand constrangedora num filme que até já esqueci o título, uma pataquada insuportável, folhetinesca e vazia, estabanada em gestos e momices, péssima foto aberta, desleixada.
    Das atrizes que 'estão firmando carreira', chamemos assim, minha preferida é a Sandrinne Bonnaire. Adoro "Mr.Hire" e este "Confessions Trop Intimes", dois Patrice Leconte com ela. Um esdrúxulo chamado "Peau de Vache"; o esforço dela em "A Peste", Camus desafinado pelos equívocos do Luis Puenzo ( creio que "A Peste" é um livro infilmável ! ); a bonne assassina de Chabrol em "La Cérémonie", entre outros.
    Ela não é bonita e já deve estar chegando aos 40, se já não chegou...o cinema é cruel com as atrizes nessa faixa. Mesmo caso da Isabelle Huppert, baixinha, não bela, e muito sardenta. Porém bastante talentosa.

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    [Aeternus:1961] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2004-10-26)


    - Satanismo

    Francamente,

    Penso que, nessas veredas ocidentais, não existe satanismo. Existe, sim, sacanismo. Independentemente do simbólico de Satã e tudo o que representa de nosso mundo psíquico, ele, para nós em termos de tradição religiosa, e para a seita de São Francisco (logo onde !!) é oposição, é contrário, é rebeldia, é não-cristianismo, é defecção social. Se pregarem/praticarem algum crime, devem ser coibidos, claro, mas o (anti)pecado original deles é a oposição, ponto por ponto, a Deus, no qual, portanto, acreditam !!!

    Isso é primário, elementar, não precisa ser Sherlock Holmes. Pode até haver seitas não convencionais, que cultuem honestamente uma figura demoníaca, mas duvido que qualquer religião mande pisotear velhinhas ou retalhar crianças. Isso é tara enrustida, mais cristão/recalcado, impossível !

    Basta dar uma olhada na umbanda e no candomblé, onde não há maniqueísmos religiosos. Ninguém é totalmente "do bem" ou "do mal". O Exu "tranca-rua" concede graças também, é só dar uma pinga, um doce ou um charuto. Mas os outros orixás também querem ser agradados. Não existe almoço grátis, apenas, conforme aprendi bastante na lista ultimamente, a fonte materna com seu design inigualável. Mas isso é uma outra etapa de reconciliação da civilização. Os nossos (meus, pelo menos) ancestrais africanos eram mais realistas naquele momento, e muito mais honestos do que os portugas com sua horripilante cruz de malta.

    Se é assim, viva o satanismo, que aliás (tirando a oposição radical e os "ataques pessoais") tem mandamentos bem razoáveis, se bem dosados, como dosada deve ser a doutrina católica, p. ex., ou qualquer outra. "não dar a outra face", ou o "curtir a vida", porque a felicidade, o gozo, nos aproxima do divino (qualquer que seja ele) não é nenhum absurdo. O problema é o infantilismo incurável.

    Grande abraço.


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    [Aeternus:1964] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-26)


    - Dustin e Isabelle

    Guto: Dustin Hoffman já tinha mostrado que era muito bom em "A Primeira Noite de um Homem", mas se superou em "Midnight Cowboy". Quando ele diz (grunhe) "I'm Afraid" para o Jon Voigt (tb excelente) percebendo hemoptise e desconfiando que vai morrer me comoveu até as lágrimas e até o fim do filme. Às vezes é muito técnico mas é sempre um prazer vê-lo atuar. Como Al Pacino, outro monstro, sagrado e dessacralizado ao mesmo tempo.

    Marcos: A Isabelle Huppert é diferente, não faz chorar: parece fria, distante, cerebral, aceitando os pápéis mais bizarros e vanguardistas. Em Cerimonia sei lá o que do Chabrol, onde ela e a Sandrine Bonnaire matam a família dos patrões (parafraseando as famosas Irmãs Papin  que Lacan citava) ela estava compondo uma personagem surpreendentemente vulgar, mostrando que pode tudo. É um monstro não-sagrado, só blasfema e acachapante. Apesar de pequenina. Pequena Grande Atriz prá ninguém botar defeito. Embora não seja nada simpática, é admirável.


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    [Aeternus:1965] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-26)


    - fogueira de vaidades

    Casos como o citado pelo Gallego, sobre o pavonismo da Glen Close, e o Dustin Hoffman, outro dessa coluna, abrem o curioso questionamento de nossa idiosincrasia diante do défaut do outro.
    Usando o parâmetro futebol, meu pai detestava e torcia contra os argentinos e sua empáfia sem fim.Quando se media quem jogava bem ou não, e se discutia Maradona, o argumento dele era 'Maradona é um cheirador'. Eu respondia 'mas joga bola à bessa !'. E assim ficávamos nos repetindo, ele a tentar anular o inegável talento dentro do campo com o vício atroz e o (mau)exemplo de atleta.
    O Cinema é meio assim, também.Muitos deixam de apreciar um ator/atriz por sua conduta fora do métier. A coisa se complica mais ainda quando 'perdoamos' um excesso de alguém por nós apreciado, numa certa identificação com o dito cujo - dito cujo defeito e/ou apreciado... - como quando eu admiro a Glen por ter elogiado o desempenho de seus seios em "Liaisons Dangereuses", embora meus seios não sejam particularmente encantadores como aqueles ou os da Sandrine Bonnaire.
    Dustin Hoffman é considerado turrão n°1 das filmagens, um João Gilberto das telas.O Gilberto precisa de meses para afinar um violão e/ou descobrir uma acústica à sua altura. Carreira por carreira, ele me emocionou em "The Graduate" e em "Little Big Man", farwest onde me fez também rir como em "Tootsie" ( ele vestido de Margaret Thatcher, com aqueles óculos e o laquê era antológico !...a Jessica Lange não conseguia concentrar-se em cena ! )

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    [Aeternus:1966] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-26)


    - viajando entre Dolto e Va Savoir...

    Nem sei por onde começar aqui e ali, mas as duas listas estão ativas e vale a pena manter a separação que nem faz tanta diferença.

    Gosto muito do Dustin Hoffman em cena, pela mobilidade no corpo, no rosto, nas nuances. Ele é daqueles pequeninos que falam sempre grosso ( lembrei das paixonites que os antigos locutores das rádios provocavam nas queridas ouvintes, Cyranos da voz. Há um conto legal sobre isso do Cortázar, não sei se é Tia Julia e o Escrevinhador ).  Sempre o associo a um filme terrivelmente angustiante do qual mal ouço referencia: Soldier Blue, acho. Será que confundo este com Little Big Man?
    Já Isabelle Rupert ( é a moça sado-masoquista que dá aulas de piano e ama Schubert???) raramente me sai da memória por apenas um trecho como "Madame Bovary". Trata-se do momento no qual ela quer conversar com uma pessoa, procura um padre e ele não a compreende. Para mim, este é o momento maior do melhor desempenho em cinema que já presenciei. Acho que sonho com esta cena há anos, ou melhor, tenho quase pesadelos porque não me sinto sem interlocutores e meu medo é de ficar surda como o padre.
    Há um livro de um francês que inspirou Melanie Klein a escrever sobre Identificação Projetiva, ele se chama Julien Green e o livro é " Se eu fosse você" e ele descreve um dilema semelhante ao deste momento da Mme Bovary, em outro livro acachapante: "Adrienne de Mèsurat". Ambos são leituras recomendadíssimas.


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    [Aeternus:1968] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-10-26)


    - Isabelle Huppert

    Há dois filmes, pelo menos, em que ela foge ao estereótipo 'mázona' : um em que ela surgiu, "The Lacemaker" - alô Gallego, só achei o título em Inglês ! como era em Francês, qual diretor, tals ?, fazendo uma moça chucra, bem sardenta como ela é, e reverenciando o conceito de 'ansiedade depressiva' da Melanie Klein. Ficava o dia todo cabisbaixa em casa, passando roupa e limpando, aguardando o companheiro letrado e culto, que cansa de estimulá-la a sair do casulo. Outro, o que mais gosto dela : também Claude Chabrol, "Une Affaire de Femmes", de uma aborteira em plena II Grande Guerra, trabalhando...na copa de sua própria casa. Sem culpa, alegava 'quero que meus filhos comam boa geléia'.
    Ela era, sim, a S&M professora de piano.

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    [Aeternus:1969] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2004-10-27)


    - A Rendeira e o Índio

    Marcos: Muito bem lembrado: "La Dentelliére" (ou será "dentellière" com o acento em outra direção?) foi a primeira vez que eu vi e me deslumbrei com a sutileza do desempenho da Isabelle Huppert. Filme em tons de cor pastel meio enevoado. "A Rendeira" (acho que este era o título brasileiro, pelo menos coincide com "lacemaker" e "dentelière") embora para os brasileiros possa lembrar "muié rendeira" e nada a ver. Talvez, fosse "A Bordadeira". Enfim, costureirinha pobre se apaixona por moço rico sem ser novela da Rádio Nacional, TV Mexicana nem rede Globo. Pouco me recordo, mas no final ela ficava louca, eu acho: bordando, bordando, bordando sem parar. Havia uma referência à famosíssima (e pequeníssima, que surpresa ao vê-la no Louvre) tela de Vermeer. Não sei quem dirigia nem quem era o ator principal. Era muito triste (desolado), discretamente distre (desalntado) mas muito bonito e com a Isabelle dizendo a que vinha. Saiu o livro de origem no Brasil (acho que era da Imago Editora que  detém direitos da obra de Freud e de vários analistas em português), mas nunca li. Era pequeno mas talvez fosse meio chato ou o fato de ter visto o filme antes tenha tirado a graça, o que às vezes me acontece, embora na maioria dos casos eu curta ler o livro que originou o filme: duas linguagens, o livro sempre com maior capacidade dintrospecção, falar do que se passa na mente dos perosnagens. Mas há filmes que melhoram os livros. Hitchcock dizia que bons livros dificilmente dão bons filmes. E livros fracos com uma ou outra idéia criativa podem dar excelentes filmes. Apenas um "mote", talvez.

    Gostei tb da comparação Dustin Hoffmann e João Gilberto: dois chatos encrenqueiros que podem ser sublimes no que apresentam. Bem lebrados "Tootsie" (overacting que era genial) e "Pequeno Grande Homem" que NÃO É "Soldier Blue". PGH era um westwrn épico-humorístico-dramático desmistificando o que faltava do velho oeste: menino branco criado como índio, perdido entre duas culturas, qual a melhor? (na época, o hippismo em alta dava certa preferência aos índios). Mulher de pastor dando banho no menino branco resgatado dos índios (menino em crescimento, vai daí...) A famosa batalha do general Custer onde batalhão de soldados foi dizimado pelos índios (Batalha de Big Horn, eu acho) e que em filmes dos anos 40/50 era mostrada como sacrifício he´roico dos brancos. O filme mostrava Custer como um perverso maluco que enviou os soldados para morerrem sem apelação (e parece qu esta versão seria a mais verdadeira, a história real não-oficial dos livros de História). E o pobre Dustin, meio-branco, meio-índio sem saber para que lado atirar. Genial. E um detalhe: um índio homossexual que só andava para trás como seria (sic filme) hábito de índios gays, chamdos de "Contrário" em vez de homo, gay, viado ou outros epítetos civilizados (?).


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    [Aeternus:1973] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-10-27)


    - não dá pra generalisar, mas...

    achei ótima sacada do filme, essa do índio gay andar para trás. Na minha rua, que é um beco sem saída, raramente os amigos gays fazem a volta para sair pela frente. É bem característico neles irem de ré até o final.  De algum modo, este comportamento me parece bem menos "psicodinâmico" em sua motivação do que resultado de algum padrão neurofisiológico desconhecido. Por outro lado ( que dizem ser uma expressão erronea, outro lado do quê? ), muito jovem curtidor das suas habilidades automobilísticas e sem ser homossexual também curte explorar todos os recursos do carro e dar uma corridinha em ré, seria uma pena transformar esta peculiaridade em algum "sinal" com significado fixo.

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    [Aeternus:2034] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-11-02)


    - Generalizadas ( z...) chamas da lei

    Acabei vendo hoje o filme comentado com tanta clareza pelo Gallego ( Cf. Chamas sem o Calor da Lei )  e não há como deixar de lhe dar razão pela crítica à "propaganda política americana" : se mexer com tio Sam a guerra que pinta será "uma obra-prima"...

    Distraída como sou, não teria atinado com este sentido sòzinha. Veria ali apenas mais um filme de interpol, violência, corrupção, situado num Mexico pra lá de Rocinha e Barra da Tijuca, com incursões pela Lapa de antigamente e o Morro Azul. No entanto, a pontuação do Gallego não me deixou dúvidas: era uma exaltação do poderio americano e da pobreza medíocre dos latinoamericanos. Um filme muito bem feito na propaganda que mobiliza as simpatias e ódios inconscientes...

    O começo me pareceu adorável e a reação da platéia, encantada com a transa do ursão guarda-costas e a menina com dentes de leite, confirmou o talento de mobilizar o público: há tempos não via uma participação tão intensa de risadas e murmúrios. Ao fundo, a Bíblia ou os santos, tanto faz desde que o cristianismo se afirme do lado dos "bons" ( um guarda-costas assassino - embora americano e voltado para causas justas; um pai ladrão - e mexicano; uma mãe piranha e loura americana das que não tem jeito de perua e uma criancinha enternecedora e valente) e a manutenção da família como referencial máximo.
    ( Só não achei que o Denzel Washington conseguiria se misturar tão bem entre o povo mexicano, como aparece no filme, com pele negríssima e porte imponente). 
    Realmente, Gallego, você acertou na mosca com seu comentário.


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    [Aeternus:2035] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-11-02)


    - revenge revenge

    A 'vingança' que referi foi a do esmero, do requinte alcançado - requinte ao mesmo tempo natural e desafio - ao ser obrigado a trocar seu idioma preferido, da pátria mãe, pelos de onde os caminhos da vida o levaram.

    Sobre os filmes paranóia - Rambo, resgates espetaculares em países espeluncáticos - a estrutura repete-se : os americanos são sempre o baluarte do Bem. Concedem quanto a uma paranóia interna, ao plantarem um personagem mau caráter que vai aliciar outros e subverter provisoriamente o primado do Bem ( este vilão nos é revelado pelo roteiro como um trunfo ).Os super-heróis, então, lutam contra duas frentes : a do Mal sem máscara e a da faceta oculta, aumentando a adesão da platéia.
    Foi assim em vários deles, como no "Basic", um Rashomon extremamente ruidoso, onde o John McTiernan, diretor do "Die Hard", não satisfeito com a porrada que come do início ao fim, ainda acrescentou um furacão desses da América Central, pra ninguém botar defeito, e a trilha sonora do Klaus Badelt, um músico que deve certamente ter ascendência Wagneriana ( se a trilha de "Piratas do Caribe" já era pomposa e retumbante, esta de "Basic" bate recordes em decibéis ). O Rashomon americano desfia historinhas deiversas, como o da cartilha, e ainda termina com o McGuffin da paranóia interna, com direito à uma reunião final de vivos e mortos - aqui outra especialidade desses filmes : os personagens adquiriram as sete vidas dos gatos, morrem diversas vezes e ressuscitam.
    Disse outro dia que aprecio aquele "No Way Out", do Kevin Costner, porque apesar de apelações-clichê em filmes de suspense, e apesar de usar esses truques que comentamos - havia ali um interessante jogo de sedução homo do assessor direto do Gene Hackman, que faz um chefão do FBI, querendo fisgar o 'Yuri' ( apelido genérico dado ao espião russo ). O carinha é então um soberba-perseguidor-gay, cumprindo seu dever...E o 'Yuri' era o Yuri !


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    [Aeternus:2036] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-11-02)


    - Vingança é prato que se come frio?

    Vingança, vengèance, revenge: em inglês tem um "re" pro tema repetido.

    Derrida argumenta que os EEUU representam para o mundo valores que foram perdidos, mesmo que apenas em aparência - isto seria bastante, pelo que ali consta, desde que não venham ficar desmascarando as jogadas, com observações inteligentes!  Esta religiosidade do Bush me impressiona, porque os "Founding Fathers" ( Jefferson, Washington... ) não eram hipócritas nem tolos.
    Daí que vemos como o que começa bom se degrada e vira simulacro de bom, como se o positivo não fosse transmissível, devesse renascer sempre!
    Ainda estou impressionada com a loura, do filme do México em chamas: sua frase mais freqüente era "mata", "mata". Tinha até zebra empalhada na sua sala.

    Aqui em Brasília para se ouvir um bom Rashomon americano, destes que o Florião tão aptamente descreve, tem que saber escolher o cinema. O antipático do CineMark é o mais barulhento com seu Dolby surround e os "Severiano Ribeiro" os mais chinfrins, feito assistir televisão em tela grande.  Qual é o problema com as brigas de galo? ( não estou desculpando nada, apenas perguntando...). Aquele filme na Nigéria com o Bruce Willis, não parece ter emplacado, mas pelo trailer achei que o que havia por lá era assim mesmo: vi restos de linchamentos em Lagos, com corpos dentro de pneus incendiados guardados por uma dupla fortona de Cosme e Damião andando des mãos dadas.

     


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    [Aeternus:2037] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-11-02)


    - velados e (re)velados

    A especulação que você levanta sobre Bush cai naquela clássica do Goëbels, que o Davy bem tachou de hipócrita lendo o avesso do avesso ( ou OLL, carta que ele destrunfa rindo ! ) - 'esse homem é perigoso, parece que acredita no que diz'.
    O Jabor, naquela habitual balada descabelada e apocalíptica dele, diz que esses super-musculosos hiper-heróis, suas engenhocas, metralhadoras de repetição e mísseis portáteis, são uma figuração a atemorizar-nos com a regularidade de um relógio suíço. "Vejam o que faremos com vocês caso não se comportem bem" seria a mensagem sub-reptícia.
    Quem tem medo desse lobo virginiano ?

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    [Aeternus:2038] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-11-02)


    - OLL

    Eu tinha me esquecido do OLL do Davy e da virada: " um cara perigoso que parece acreditar no que diz".

    Será que estarei bordando pelo avesso porque, francamente falando, acredito no que digo até quando não sei exatamente do que falo? Trago em mim ( como quase todos de quem gosto e admiro) um tesouro esquecido que carrega de verdade até aquilo que não queria revelar! É que o perigo anunciado pelo Davy é apenas o dos fanáticos que, por isso mesmo, não tem inconsciente... 

    Ter medo dos Rambos adianta tão pouco que, nem sei, não é o que me afeta mais. Tenho muito mais medo da burocracia e do fisiologismo seja de que avesso for.

     


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    [Aeternus:2040] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-11-02)


    - descompasso

    Existe um descompasso adorável e perigoso no trâmite inconsciente/ ideação/ fala.A entropia pode estar sobrecarregada, por vezes, e gerar uma entalpia inesperada...naquela em que percebemos que transbordamos o copo.
    Mas há o delicioso consolo do oposto disso : o equilíbrio do sistema é tamanho que possibilita um à vontade imenso, uma sensação de levitação e de estar à l'aise du monde.Esses momentos certamente incluem-se entre os mais felizes de nossas vidas.
    No filme do Linklater, por exemplo ( "Before Sunset" ) a Celine e o Jesse estão ao mesmo tempo prensados pelo relógio - ele tem um indefectível avião a aguardá-lo, para devolvê-lo à seu cotidiano ; ela tem duas horas e pouco para por oito anos e algo mais em dia e explicar por que não compareceu ao encontro marcado no final de "Before Sunrise". Ao contrário de qualquer sofreguidão, prevalece de novo a química do 'estar bem juntos', e a partir daí o terreno para o exercerem-se.
    Momentos assim são raríssimos atualmente. Lembro da Jansy a invocar antigos Natais e o direito ao gostoso abandono do devaneio, da época em que era possível duas pessoas conversavam à temps perdu, sem celulares ou enquadres de compromissos.

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    [Aeternus:2041] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-11-02)


    - tem quem gosta de cellphone e msn

    Celulares competem com o MSN enviando fotos, filmando além de permitir que se converse a viva voz.  O MSN deixa haver namoro com visualização e troca de palavras, além do texto escrito também no tempo real.  Imagino que seja ótimo para a juventude de hoje e que eles, um dia, sentirão saudade como eu das cartas manuscritas com envelopes e selos. 
    Não sou contra as tecnologias novas, mas sinto falta de um certo modo de viver a duração e estar no tempo.  As sessões de psicanálise, diante do ritmo atual, quase ficaram estapafurdias, mas vejo que as pessoas sentem necessidade deste tempo que é necessário para uma colagem entre emoção e idéia, devaneio e despertar.
    Não sinto falta do natal em si, mas do jeito de viver este período. Havia mais espera e algo se construía, silencioso, neste espaço. Perdido, alas.
    Há pouco assisti a um filme que quase diria ser muito muuito muuuito ruim, mas havia elementos tão bons que fiquei sem saber como classificar.  É um filme do Julio Bressane, " Dias de Nietzsche em Turim" ( acho que nestes Dias tem uma produtora ou roteirista com este sobrenome...). A seleção musical, na parte consagrada, foi das mais banais ( sonho de amor do Lizst, nona sinfonia de Beethoven, navio fantasma e Tristão do Wagner ) e os atores ao piano iam prum lado e a música pro outro. Também se falava de Wagner e escutava-se Beethoven, muito doido. A mocinha Ximenes tem uns momentos frementes, mas depois ela continuou fremindo, encheu a paciência.
    A fotografia foi muito irregular ( acho que, como na Inglaterra, "too many cooks spoil the broth" ). Aquela bestice da camera tremendo ( como no Pasolini, mas depois ficou até legal ouvir trechos do Édipo em italiano enquanto Nietzsche falava da mãe dele...), montes de chão com mosaico ou folhas mortas ou asfalto. E rosáceas rococós. Fora Turim completamente esmaecida como se fosse cópia de cópia mal feita. No entanto, alguns "stills" ficaram ótimos, principalmente em preto e branco ( uma tomada do Fernando Eiras com o bigodão e roupa preta visto de baixo,com fundo branco e enviesado na diagonal, clássica ).  A câmera firme e girando cento e oitenta graus ficou bem, algumas poucas alternancias com pb e colorido sugerindo a viagem no espaço e tempo. Seios nús e jovens e em seguida, com pouca luz e pouco preparo, o morro dois irmãos: boa idéia de transposição, mas... por quê foto tão ruim das montanhas? Os intelectuais de plantão terão uma explicação, mas pro povinho aqui achei fraco.

    Do que gostei? De ouvir a narração na primeira pessoa, Nietszsche escrevendo, se exaltando e entrando devagar cada vez mais na loucura, com as sacadas geniais de sempre ( " alguns homens, como eu, nascem póstumos", ou algo assim).Da voz da Celine Imbert e da execução das músicas do pp. Nietzsche ( Se entendi direito! Parecia Schubert ) e da filmagem piscando como de antanho focalizando o próprio, reclinado numa cama.  E do momento, com fundo amarelado e Nietzsche nu em pelo ( ou sem ) com iluminação azul, dançando com máscara de Dioniso numa das mãos e bagos de uva ( escrevi bagos de propósito ) na outra. A dança e a voz do ator fazendo um batuque ficou muito bem. Pequenas transições de Turim pro Rio ficaram bem, até com chorinho ao fundo...
    Dez pro roteiro!  O resto... bem... sei lá. No entanto, outra nota dez vai para o uso do "tempo/duração", aquele de que tenho saudade.


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    [Aeternus:2042] Mensagem do Grupo34
    -Marcos(2004-11-02)


    - um BIG HURRAH! para minha amiga !

    Uau ! bela descrição do filme !
    Adianto que adorei de montão a produção, o roteiro que Rosa Dias elaborou para tentar pulsar Nietzsche dentro das limitações naturais da produção.
    Fiquei tão embevecido que pouco liguei para os defeitos especiais, bem citados, dos quais só discordo a respeito dos chiliquinhos discretos da Marianinha gostosésima ao cubo.
    As filmagens duraram 4 anos, e iam saindo à medida em que o $$$ cantava. O Bressane faz o gênero 'guru de plantão', gênio alternativo que gosta de ser 'margina', e reverencia um tipo que tá na cara que mora no Olimpo dele.
    Como Jansy menciona, o Zarathoustra está lá : desde a narrativa em primeira pessoa, passando pelo culto à Natureza, seus corpos e formas, jardins e estátuas, árvores e folhas mortas em eterno retorno, teatros e Música, a deslizar pelas transcendências de Dyonisos e Ditirambos, máscaras e urros primais. Adoro algumas encenações simples, como a citada pela Jansy no escritório, com os velhos papiros, mata-borrões e cadernos em couro de capa dura.
    Nesses autores polêmicos, como Bressane e o Rivette, por exemplo, há todo um convite a repensar o balance ritmo/tempo das vivências e relações.

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    [Aeternus:2043] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2004-11-02)


    - Hurrah Primal!

    Que bom que minha confusão não pareceu tão atrapalhada assim aos olhos satiros do Florião. Será que é apenas uma encrenca feminina reclamar das fremições permanentes da Marianinha? Uma ou dez vezes estava bom, até lindo. Mas vinte ou cem, achei demais.Parecia que ela ia voar como o Dumbo, mas só movimentando as narinas. Ela também faz uma cena furtiva remechendo nos papéis do FN, quando devem ter-lhe recomendado ficar curva. E ela ficou mesmo corcunda a cena inteirinha...Acho que ela é meio burrinha, não tem outra explicação. A não ser, coisa de velha invejosa. 
    No DVD dava para acessar o "making off" que era a coisa mais carioca do mundo: eu me senti tomando chá num sarau culturau do CCBB.
    Mas, falando sério, gostei do destaque sintonico que o Florião fez para a sabedoria do Bressane ( e, segundo ele, também do Rivette ) ao lidar com a "duração", com o tempo antigo do olhar e o ritmo da espera na serenidade do estar junto em família.

     


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    [Aeternus:6105] Mensagem do Grupo34
    -Conde Drácula(2006-02-07)


    - Joga pedra na Leni

    "Absurdo. Eu os fotografei belos como eles são. Deveríamos então dizer que Deus é nazista, porque os fez assim". L. Riefenstahl

    Ahhhh, adorei isso. (a matéria tá lá embaixo)

    Mas foi o próprio Coli quem, há algum tempo, insistiu em ver nesse Olímpia a propaganda nazista que virou rótulo fácil da, digamos, "ficha policial" que costuma vir sempre que mencionam essa judas-de-pano em que foi transformada pela imprensa. O Coli falava então como se aquela estética (do corpo) não tivesse sido amplamente inCORPOrada (ops!) pela produção da TV mundial do nosso HOJE - sem falar na indústria da moda e das academias de ginástica, novos instrumentos de tortura e autoimolação, (ou, pra não exagerar:) de sacrifício prometendo prazer... como diria uma amiga, qual prazer, cara pálida?

    Acho um despropósito isso de continuar localizando o nazismo num lugar e num período circunscrito, como se não fizesse parte de uma latência viva e louca pra encontrar uma nova... representação!

    Legal mesmo era o Fassbinder, um cara antenadíssimo nessa sobrevida do nazismo, e no tempo dele ainda não se falava em skinheads, hein! Só que, como ele tava falando de uma coisa latente, era também latente nos filmes dele, e pouca gente entendia... O mais genial nesse sentido (mesmo não sendo o mais genial da obra total dele) é um de que não me lembro o nome, mas era a história de um pai e de uma filha que moravam num casebre nomeiodonada e que abrigavam um forasteiro... 3 personagens: e o modelo de relações de poder era de um nazismo gritante, embora jamais fizessem menção às palavras-chave do nazismo. Será o benedito que eu não vou lembrar o nome do filme??? Vou precisar consultar a filmografia toda do cara, o tal filme não é desses que costumam ser reprisados nas retrospectivas e homenagens... Uma pena.

    Mas, continuando a ler o artigo do Coli, me veio uma pergunta: será que ele começou a se tocar de que o nazismo não está somente num tempo que passou?

    As pedradas que antes ele jogava na Leni mostravam que, apesar de respirar tanto estruturalismo e tanta cultura moderna, o Coli NÃO entendeu uma coisa preciosa: que não há VILÕES, porque o AGENTE (do poder) não é um nem dois indivíduos, mas algo que, digamos, está no ar (e o nazismo não foi o Führer, foi a sociedade alemã inteira)...

    Mas vejamos a relação que Coli estabelece entre Tabu e Monstros. Ambos mostram corpos, mas por que será que Murnau deu a Tabu o nome de Tabu?: talvez porque a corporeidade tenha se tornado tabu em nossa cultura? Mas a corporeidade que foi tornada tabu não é representável por imagens, não é essa corporeidade formal, externa, nem a bonita e nem a feia (de Monstros), mas sim a SENSORIALIDADE, a internalidade que faz a experiência e a construção da subjetividade pelo delinear que os sentidos desenham entre o eu e o outro e entre o eu e o universo, ainda que o eu, tanto quanto o outro, façam parte do universo. Não há essa separação entre o eu ou o subjeto e a realidade: eu sou real. Mas é isso que é o defeito de instalação desse sofware: o corpo é tornado um corpo-estranho sempre prestes a ser expelido do meu eu. No mínimo, é um estranho a que meu eu está preso, e que me expõe a perigos cinéticos ou microscópicos... E é esse o HIATO perverso, o que interrompe a mim a apropriação de meu corpo, de minha presença (vocês sabiam que a mais recente tradução de Ser e Tempo escolheu a palavra pre-sença no lugar de conservar o original dasein? eu achei ao mesmo tempo intrigante e apropriado, mas acho que eu sugeriria presEnte), me jogando para a descorporificação precoce da minha subjetividade, e, com isso, deslocando um narcisismo que pereniza um desejo de Eu mas que o ilude acenando sua satisfação onde ela não está: no Ego, e fazendo do corpo a origem daquilo que vem da descorporificação: a angústia.

    É por isso que o sexo virou o centro da fabricação da noção de si-mesmo e que nem sempre foi assim: porque essas lógicas circulares, esses raciocínios de oroboros nem sempre foram assim. Eles eram sofismas. Hoje, tudo se inverteu, e o sofisma se chama filosofia... E a interrupção passou a ser constitutiva quando passou a ser.

    Mas uma coisa eu sei: eu sou REAL.

    OU NÃO??????

    * * * * * * *

    Humano, demasiado humano

    Jorge Coli

    O mais belo filme do melhor cineasta do mundo." A frase é de Eric Rohmer, sobre "Tabu" [1931] de Murnau. A estupenda beleza das cenas se deve a várias qualidades, em sua maioria destinadas a celebrar o esplendor do corpo. Não são anatomias torturadas, como as que centraram a arte de Michelangelo. São seres harmoniosos, cuja plástica foi moldada pelo mar da Polinésia, inseridos numa natureza paradisíaca.

    "Tabu" estabelece um parentesco com o documentário para melhor negá-lo. O filme não tem atores profissionais. Mostra, ao longo da história dramática, a pesca, as danças, o cotidiano dos maoris. Mas tudo isso em imagens precisamente controladas. Rohmer escreveu também que Murnau é um dos raros diretores cuja concepção fotográfica deve mais à pintura dos museus que à iconografia popular: as imagens de "Tabu" remetem aos nus da Antigüidade clássica e do Renascimento. Nisso, pode ser comparado a um filme que lhe é posterior. "Tabu" data de 1931; "Olympia", de Leni Riefenstahl, de 1938. Riefenstahl filmara a Olimpíada de Berlim, associando, de modo explícito, os atletas contemporâneos às estátuas gregas.

    "Tabu" e "Olympia" banham em neopaganismo. Um é paradisíaco e "natural", outro é esportivo e voluntário. Um tem a nostalgia, o outro a crença confiante num homem ideal. Leni Riefenstahl, mais tarde, faria uma incursão etnográfica na África, da qual resultaram sublimes fotos dos nubas.

    Susan Sontag disse que essas fotos traíam um olhar comprometido com a estética da beleza nazista. Ao que Leni Riefenstahl retrucou: "Absurdo. Eu os fotografei belos como eles são. Deveríamos então dizer que Deus é nazista, porque os fez assim".

    VISOR

    Se as fotografias tiradas por Leni Riefenstahl entre os nubas são ou não nazistas é história para ser discutida. O certo é que Deus tem pouco a ver com isso, pois nenhum fotógrafo oferece uma imagem natural: o que ele produz com sua câmera é sempre construção que recorta, enquadra, valoriza ou diminui aspectos representados do mundo. Leni Riefenstahl e F.W. Murnau tomam belos corpos para lançar um olhar amoroso sobre eles, investindo numa tradição cultural que os faz semideuses da juventude e da beleza.

    Um terceiro filme, da mesma época, contrariou esse endeusamento da perfeição física, que estava na atmosfera daquela modernidade eugênica de 1930. É "Freaks" - ou "Monstros" [1932], no título brasileiro. Como "Tabu", aparenta-se ao documentário: seu diretor, Tod Browning, foi buscar autênticas aberrações de circo para filmar uma história de amor e de vingança como nunca houve outra. Traz para o campo do humano aqueles que foram excluídos por Murnau e Riefenstahl: anões, mongolóides, obesos, esqueléticos, corcundas, homens sem pernas nem braços. Exibidos em circo, atraem a curiosidade mórbida do público pela repugnância ou pelo riso que causam.

    A lente de Tod Browning vai insuflar neles uma estranheza surreal e uma vida e emoções e afetos intensos, revelando, ao mesmo tempo, a feiúra moral que pode existir na alma dos belos. "Tabu" e seu avesso acusador, "Monstros", estão entre as obras mais poderosas e singulares de toda a história do cinema.

    Restos "Monstros" foi massacrado pelos distribuidores, que talharam à vontade a película. Chegaram até nós 60 minutos dos 90 originais. Ainda assim, reduzido, o filme guarda sua força. Saiu em DVD pela Magnus Opus, responsável também por "Tabu". Não são lá muito fáceis de encontrar nas lojas. Tomara que "Monstros" tenha a mesma excelente qualidade que presidiu a edição de "Tabu".

    DENTRO

    Em "Focus on the Horror Films" [Foco nos Filmes de Terror, Prentice Hall, 1972], John Thomas escreve sobre "Monstros": "Ficamos horrorizados, mas ao mesmo tempo envergonhados, por nosso horror, pois nos lembramos de que não são monstros, mas seres semelhantes a nós; descobrimos então que fomos enganados por nossas próprias crenças primárias. Mergulhamos nos abismos de nosso ser doente a fim de compreender a mais terrível inumanidade que podemos conhecer em nós mesmos. Cada um dos monstros somos nós; cada um de nós se encontra entre eles".


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    [Aeternus:6108] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2006-02-07)


    - RE:Joga pedra na Leni

    Gostei do título que você deu, trocando a dinamica narcísica-homolatente da Jeni pela Leni. Quanto à primeira parte dos seus comentários, reservo-me um tempo para escrever porque acabei de ler uma matéria sobre "fotografias de fantasmas" e estou vendo terceiros onde não devo. O terceiro de verdade ( seja ou não fantasmagórico também, mas não seria imaginário) de que você lembrou quando disse:

    " 3 personagens: e o modelo de relações de poder era de um nazismo gritante, embora jamais fizessem menção às palavras-chave do nazismo ( FAssbinder)...
    As pedradas que antes ele jogava na Leni mostravam que, apesar de respirar tanto estruturalismo e tanta cultura moderna, o Coli NÃO entendeu uma coisa preciosa: que não há VILÕES, porque o AGENTE (do poder) não é um nem dois indivíduos, mas algo que, digamos, está no ar (e o nazismo não foi o Führer, foi a sociedade alemã inteira)..."

    Embora ainda o ache misterioso foi este terceiro que invoquei quando respondi ao Davy certa vez usando a história de Caim e Abel, quando observei ambos espevitados por um terceiro pela história da fumaça que subia ou não aos céus. Cheguei a fazer a besteira ( equivalente à que condeno agora na publicação dos cartuns muçulmanos) de designar por Yaweh porque este terceiro é indesignável!

    Seja como for, Leni não era inocente. Nem Speer. Nem Mephisto. Nem as circunstancias... Só que podemos supor que existe perdão, expiação e o clima de vendetta isto contradiz e empurra mais pra frente.

    O pedaço que gostaria de responder seria: " É por isso que o sexo virou o centro da fabricação da noção de si-mesmo e que nem sempre foi assim: porque essas lógicas circulares, esses raciocínios de oroboros nem sempre foram assim. Eles eram sofismas. Hoje, tudo se inverteu, e o sofisma se chama filosofia... E a interrupção passou a ser constitutiva quando passou a ser. Mas uma coisa eu sei: eu sou REAL.    OU NÃO??????"  usando citações do Fernando Pessoa/Bernardo Soares no livro do Desassossego. Cabem como uma luva. E ele elabora sobre esta incrível palavra "circunstancial" ( que aproxima do sincretismo da criança) da forma mais inesperada.  O problema é que não tenho o livro em português ( nunca ouvi falar dele, editado apenas em 1998 em Portugal) e apesar da vontade de copiar/retraduzindo, não estou podendo neste momento. 
    Ele traz definições ótimas: Decadência é não mergulhar na inconsciência. Outra remete ao "circunstancial". Vida é o que é externo a nós... Ele se descreve como o azul de um lago que reflete o azul do céu que reflete o azul do lago...
    Talvez amanhã eu consiga as citações. São muito importantes como estofo de discussão. Fora a poesia incidental: "abriu um sorriso largo como se mostrasse uma multidão batendo palmas" 


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    [Aeternus:6109] Mensagem do Grupo34
    -Conde Drácula(2006-02-07)


    - RE:RE: Joga pedra na Leni

    O Coli, desta vez, tava indo super bem... lá pelo meio tropeçou no papo do amor (porque, apesar de demonstrar apreço às relativizações, não relativizou o "amor" de Anakin) mas logo se recuperou... só que quando chegou no fim... ploft.

    Eu implico com o Coli faz um certo tempo - embora eu deva confessar: nem só de razões justas se sustenta minha implicância.

    Mas uma das implicâncias "justas" foi quando ele resolveu jogar pedra na Leni (Riefenstahl), ele achava que 'ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela faziafilmepraqualquerum, maldita Leni'. Não que eu a defenda, mas também não apedrejo, só que a argumentação do Coli embarcou nesse papo já gasto de criticar a estética do corpo atlético que a Leni supostamente exaltava, fosse em seus olímpicos, fosse nos negróides que ela filmou lá na África, e se esqueceu ele COMPLETAMENTE de que essa estética olímpica NUNCA esteve TÃO presente na sociedade quanto AGORA, e que isso NÃO é CULPA da LENI. Ele estava reproduzindo o papo da CULPA (a culpa sempre se associa ao passado, não tem nada a ver com responsabilidade, que é presEntificante), isolando-a e arquivando-a numa pessoa e numa data, e parecia ter estado fora do planeta Terra desde os anos 40...

    Agora sim, parece que ele começou a prestar atenção ao hoje (e precisou do George Lucas pra isso?). Fora que resolveu lembrar que também então o nazismo NÃO foi uma coisa FORÇADA por um ou dois, mas que foi um fenômeno de MASSA.

    Só que isso não significa que seja humano. Aliás, é capaz que seja uma falsa questão, se é humano, se é desumano, ou se é sobre-humano, o problema é arrotar isso como se fosse uma grande conclusão, que acaba naturalizando o horror que as coisas que ele estudou tanto se esforçam por desnaturalizar... ou seja, ele desemboca no TANTOFAZ.

    * * * * * * *

    O futuro do passado

    Jorge Coli

    Imagem e imaginação são palavras que se unem na etimologia. Juntam-se mais ainda em "Star Wars - Episódio 3: A Vingança dos Sith". De tal modo estão impregnadas uma da outra que, ali, imagem é imaginação e imaginação é imagem. São elas que, simbióticas, montam uma estrutura complexa, tão diferente da linearidade com que as histórias eram contadas nos dois episódios precedentes de "Star Wars". Essa estrutura, porém, não é nem estática nem mental nem abstrata. Ao contrário, move-se num ritmo visual denso e encorpado. Os duelos embriagam-se, dionisíacos, menos pela coreografia dos lutadores (como em "Matrix", "O Tigre e o Dragão", "Herói", e alguns outros), do que pela extraordinária pulsação cinematográfica.

    George Lucas declarou que, antes de iniciar a saga de "Star Wars", queria refilmar os velhos "serials" de Flash Gordon. Os detentores da propriedade autoral, porém, exigiram muito dinheiro. Conta o diretor: "Na realidade não desejavam se separar dos direitos - queriam Fellini para dirigir Flash Gordon" (sic!). "Star Wars" nasce, assim, de uma frustração e de uma nostalgia. Nunca negou suas origens antigas; basta prestar atenção nas transições de uma cena a outra. Elas empregam máscaras em diafragma, em leque etc., como era moda no cinema dos anos de 1920 e 1930. "Star Wars" foi feito com a memória de outros filmes, muitos, e tão diversos. Lucas traz para o presente, num apogeu, duas das configurações mais essenciais que nasceram com o cinema. Uma é a ilusão do maravilhoso graças aos efeitos especiais: nisto, é o descendente fiel de Méliès. A outra, é a suntuosidade desmedida, em escala impossível: nisto, é o herdeiro de Griffith.

    Covil

    "Eu te imploro: permita-me amar minha escravidão." A frase é de Agata Kozak, escritora polonesa. Anakin transmuta-se em Darth Vader, em cena retomada de James Whale e seu Frankenstein. Palpatine não é um cientista, é um político. Como tal, constrói seu monstro com baixezas e traições já que, e isso é bem ensinado no filme, quem está no poder quer, antes de tudo, permanecer nele.

    Super-homens

    A filosofia clássica definia a liberdade como o domínio que o homem pode ter sobre si mesmo. O amor seria, nesse pensamento, ao mesmo tempo uma doença e uma servidão. O jedi, graças ao amor e à cólera, fragiliza-se, deixa-se invadir pelas sombras. Entrega-se, submisso, ao imperador. Que não hesita em sacrificar seus escravos mais fiéis. É possível aqui um paralelo com outro filme, "A Queda", de Oliver Hirschbiegel. Trata-se de galáxia cinematográfica a milhares de anos luz. Mas, em ambos, há um núcleo essencial de poder absoluto e de servidão voluntária. Situa-se em cúpula de dirigentes poderosos e de exércitos. O cerne da carcaça metálica de Darth Vader é um toco humano. A máscara assustadora esconde o frágil e ferido Anakin. Por trás do bigodinho de Hitler há também um homem. À volta dele, obedientes, gravitam outros seres humanos.

    "A Queda" impõe várias questões abomináveis. Eis a pior, mais absurda: como tantos puderam entregar-se, com tal extremo, à autoridade enlouquecida? Todos estão mergulhados na mais transparente, completa e absoluta derrocada. Os gestos heróicos, no entanto, continuam, mecânicos. Palpatine disse que o bem é uma questão de ponto de vista. Em "A Queda", os heroísmos, as condecorações, a luta pela pátria, são desmontados graças a uma ótica de relativismo. Medalhas, bandeiras, pátrias, coragem, suicídios nobres, e mesmo supremas renúncias, como a de aniquilar os próprios filhos para que eles não cresçam num mundo mau, se vistos com simpatia, parecem gestos sublimes. "A Queda" expõe, pelo absurdo, o que há de irrisório, horrendo ou sórdido em tudo isso.

    Considerações intempestivas

    Certas leituras críticas de "A Queda" sentiram o filme como propenso ao nazismo. Ele humanizaria feras. Aquele bando enfiado num bunker suicida tinha sentimentos, emoções, afetos, como cada um de nós. Infelizmente, fera é apenas metáfora. O nazismo nunca esteve para além do humano. Como seria bom se estivesse.


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    [Aeternus:6112] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2006-02-07)


    - RE:RE:RE: Joga pedra na Leni

    completando a referência ao Pessoa, com dados obtidos pelo Google num site português:

    Aprofundar o conhecimento da obra de Fernando Pessoa  em relação as escritas de precursores, e rever estas últimas a partir de contrafacções pós-modernas. 
    Pensar a heteronímia como um sistema coeso centrado em Caeiro e capaz de desenvolver a sua própria crítica interna. Trabalhar o paradoxo, o diferimento, a ironia como modos modernistas de enfrentar o colapso absoluto da linguagem.
    Estratégias de liderança no modernismo. A crise da verdade e a consciência do ilegível. A morte da vanguarda: o tédio.  Soares e o anti-sublime.

     
    Bibliografia Principal

    PESSOA, Fernando
    1912 “A nova poesia portuguesa no seu aspecto psicológico”; ed. ut.: Fernando Pessoa, Crítica. Ensaios, artigos e entrevistas, ed. de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000: 36-67.
    1913 “O Marinheiro. Drama estático em um quadro”; ed. ut.: AA.VV. Orpheu; ed. ut.: ed. fac-similada, Lisboa, Contexto, 1993.
    1966 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, ed. de Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática.
    1988 Fausto. Tragédia Subjectiva (Fragmentos), ed. de Teresa Sobral Cunha, Lisboa, Presença.
    1990 Pessoa por Conhecer. Textos para um novo mapa, II, ed. de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Estampa.
    1993 Pessoa Inédito, coord. de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Livros Horizonte.
    1998 Ficções do Interlúdio. 1914-1935, ed. de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim.
    1999a Correspondência 1905-1922, ed. de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim.
    1999b Correspondência 1923-1935, ed. de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim.
    2000a Heróstrato e a Busca da Imortalidade, ed. de Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim.
    2000b Crítica. Ensaios, artigos e entrevistas, ed. de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000: 36-67.

    PESSOA, Fernando / CAEIRO, Alberto
    2001 Poesia, ed. de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando / CAMPOS, Álvaro de
    1917 “Ultimatum”; ed. ut.: Portugal Futurista, ed. fac-similada, Lisboa, Contexto, 1990: 30-34.
    1924-1925 “Apontamentos para uma estética não-aristotélica”; ed. ut.: Fernando Pessoa, Crítica. Ensaios, artigos e entrevistas, ed. de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000: 236-245.
    1993 Livro de Versos, ed. de Teresa Rita Lopes; ed. ut.: 2ª ed., Lisboa, Estampa, 1994.
    1997 Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, ed. de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Estampa.

    PESSOA, Fernando / REIS, Ricardo
    2000 Poesia; ed. ut.: ed. de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim.
    2003 Prosa, Lisboa, Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando / SOARES, Bernardo
    1982 Livro do Desassossego por Bernardo Soares, recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha, prefácio de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática.
    1998 Livro do Desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, ed. de Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim.

    PESSOA, Fernando / TEIVE, Barão de
    1999 A Educação do Estóico, ed. de Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim.


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    [Aeternus:6917] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2006-04-10)


    - Do lado de cá do divã: o significante insignificante

    Quando se escolhe a psicanálise como profissão, contam que é pra ser um sushiman?

     

    O ESTADO DE S.PAULO

    CADERNO 2

    9 de abril de 2006

    VERISSIMO

    No enterro do sushiman

    No enterro do sushiman ele era o único não-japonês. Explicou que estava ali porque devia sua sanidade, talvez sua vida, ao sushiman. Almoçava no mesmo restaurante japonês todos os dias. Sentava-se no balcão e despejava seus problemas para o sushiman, que apenas sorria, sacudia a cabeça, e dizia sempre a mesma frase. Ele não sabia o que a frase significava. Sabia, pelo modo como o sushiman a dizia, que era uma frase sábia. E sentia-se melhor, ouvindo a frase. Alguém o compreendia. Alguém o consolava. Como era a frase? Ele a repetiu, da melhor maneira possível. Então disseram que a frase significava "Eu não falo português".

    – Sei lá – disse ele. – Mas ajudou, viu?

    O CANDIOTA

    Chamava-se Candiota e, semanas antes do casamento marcado, disse para Laurita que iria abandoná-la.

    – É outra? – perguntou Laurita, soerguendo-se na cama. (Nota pessoal do autor: sempre gostei muito do verbo "soerguer-se" mas tive poucas chances de usá-lo até hoje. Agradeço a oportunidade. Um abraço nos meus familiares. Segue a história.)

    – Não – respondeu Candiota. – É Outro.

    Como não percebeu o "O" maiúsculo, Laurita pensou que o Candiota, logo o Candiota, fosse homossexual. Mas Candiota apressou-se a corrigir o engano. O Outro era o Senhor.

    – Fui chamado pelo Senhor.

    Deus o convocara e Candiota não poderia ter qualquer distração na sua luta contra o Demônio. Muito menos a Laurita, com seus mamilos tipo medalhão.

    Laurita se resignou. Renunciou à missão que se impusera, a de reproduzir tantos Candiotas quanto pudesse para ajudar o Brasil, em favor da missão do Candiota, de combater o Demônio em todas as suas manifestações.

    Anos depois, num baile de carnaval, Laurita julgou identificar o Candiota num grupo de homens fantasiados de legionários romanos que circulavam pelo salão com mulheres seminuas sentadas sobre os ombros. Não pôde ter certeza que era o Candiota porque ele era o único que segurava a mulher ao contrário e tinha a cara enterrada entre as suas coxas.

    Talvez não fosse o Candiota. Talvez fosse o Candiota e ele estivesse numa missão secreta para o Senhor, em território inimigo. Talvez fosse o Candiota e ele tivesse mentido para ela. Talvez fosse o Candiota e... O homem depositou a mulher que tinha sobre os ombros em cima de uma mesa, e Laurita viu que era o Candiota.

    Gritou para ele:

    – Candiota, e a sua luta contra o Demônio?

    E então Candiota virou-se, avistou Laurita, abriu os braços dramaticamente e respondeu:

    – O Demônio venceu!

    CONSELHO

    Rogério bufava.

    – E ainda tem gente que gosta de verão...

    Marina nem estava.

    – Eu adoro.

    – Olha aí, fico todo suado. A pele oleosa. Não adianta banho, não adianta nada. Fico com brotoeja, assadura, até cheiro mal.

    – Rogério, meu querido. Vou te dizer uma coisa.

    – O quê?

    – O problema não é o verão. O problema é você.

    – Ah, é? Aposto que o Alberico não suava.

    Marina só pôde fazer cara de sentida e dizer "Puxa, como você é, Rogério". Sabia que nunca deveria ter contado o que o Alberico gostava de fazer no banheiro. "Dezessete anos e você não esquece."

    O sorriso na cara suada do Rogério era de puro gozo. Marina só estava esperando a Rosilene ficar maiorzinha para lhe dar o único conselho que uma mãe deve dar à filha:

    – Nunca conte nada do seu primeiro marido.

    PRONOMES

    – Carlinhos, me faz um favor?

    – Claro.

    – Quando a gente estiver com a turma...

    – O quê?

    – Não fala certo demais.

    – O quê?

    – É que a turma repara. Os pronomes, por exemplo. Você sempre coloca no lugar certo. Fica esquisito.

    – Os pronomes? Não posso usá-los corretamente?

    – Está vendo? Usar eles. Usar eles!

    O Carlinhos ficou tão confuso que, junto com a turma, não falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram:

    – Ó Carol, teu namorado é mudo?

    Ele ia dizer "Não, é que, falando, fatalmente sentir-me-ia vexado" mas se conteve a tempo. Depois, quando estavam sozinhos, a Carolina agradeceu, com aquela voz que ele gostava.

    – Comigo você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos.

    Aquela voz de cobertura de caramelo.


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    [Aeternus:6921] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2006-04-10)


    - mario sergio conti no minimo

    Ontem encontrei um texto interessante de Mario Sergio Conti, que reproduzo aqui parcialmente pois me pareceu pertinentíssimo. 

    09.04.2006 |  A história é um fluxo, tem dimensão mundial, e está baseada num sistema econômico – eis três afirmações acacianas. Que, no entanto, dificilmente entram nas cogitações dos atores (canastrões) da política nacional. Acredita-se que a demissão de tal ministro (criminoso), que a absolvição de tal parlamentar (ladrão) pelos seus pares (também ladrões) no Parlamento (corrupto), ou que tal ou qual candidato (arrivista e/ou ladrão) está à frente em pesquisas (manipuladas) são fatos importantíssimos, capazes de definir o futuro do país.

    A crise é grave, repetem gravemente os comentaristas. Mas eles não explicam por que, se a gravidade é tamanha, o interesse popular pela crise é tão minguado. O interesse é pequeno justamente porque a crise não tem a importância que lhe é atribuída. A tal crise não diz respeito a nenhuma questão material. Ela se dá num palco que não tem quase nada a ver com a realidade concreta. As questões cruciais são decididas em outros cantos.

    ***

    Na França, por exemplo. É mais lá do que cá que está sendo definido o futuro brasileiro. Em novembro, houve a explosão das periferias. Agora, há o movimento pela anulação da lei que criou o Contrato do Primeiro Emprego. A explosão de novembro evidenciou a existência de um largo contingente de jovens, a maioria descendentes de emigrantes, que estão à margem da vida social e política. As manifestações de agora, que só encontram semelhança, em tamanho e duração, com as de maio de 1968, mostram a dificuldade em se fazer vergar os trabalhadores franceses. A simultaneidade da explosão anárquica com a rebelião organizada é sinal inequívoco da, aí sim, gravidade da crise francesa. Crise, porém, que não começou nem ontem nem na França. Começou nos anos 80. Nos Estados Unidos. E prosseguiu na Inglaterra.(...)  O fracasso da greve dos controladores de vôo marcou, simbolicamente, a decadência do movimento sindical americano. Marcou, também, a desregulamentação progressiva das relações de trabalho e a (argghhh!) flexibilização do emprego. Três anos depois da greve, o tráfego aéreo nos Estados Unidos crescera em 6%; o número de controladores diminuíra em 20%.
    A história continuou na Inglaterra. Em março de 1984, o Sindicato Nacional dos Mineiros decretou uma greve dos trabalhadores em minas de carvão. Eles queriam aumento de salário, adicional maior de insalubridade, e garantia de que as minas continuariam estatais e não seriam fechadas. Começava aquele que, hoje, é considerado o maior conflito trabalhista da Inglaterra do século 20. A primeira-ministra de então, Margaret Thatcher, armou-se para o conflito. Importou carvão às pampas, pela primeira vez desde o fim da II Guerra Mundial, usou a polícia contra os grevistas, infiltrou provocadores do serviço secreto no sindicato dos mineiros, consultou especialistas em movimento sindical da CIA e, avalia-se, gastou mais de dez bilhões de dólares durante a greve (...) A greve durou um ano. Terminou com uma humilhante volta ao trabalho, com os mineiros divididos. Até hoje, as seqüelas perduram: membros de uma mesma família e vizinhos não se falam uns com os outros, em função das atitudes tomadas durante a greve. (Um filme chamado “Billy Elliot” trata do assunto; no Brasil, as resenhas informavam que era um filme sobre dança.) O movimento sindical mudou de figura. Movimento, seja dito, que comportava máfias e corrupção de dimensões quase brasilienses.
    Dez anos depois da greve fracassada, as minas de carvão foram privatizadas e a categoria, dizimada. A greve marcou uma profunda alteração na cultura operária, nos laços de solidariedade e militância, na relações dos trabalhadores com o Labour Party. A flexibilização das leis de contratação de trabalhadores foi levada às últimas conseqüências.

    Enquanto as greves dos controladores e dos mineiros inauguravam uma época de maior exploração da mão-de-obra, os franceses elegiam um presidente do Partido Socialista, François Mitterand, que na sua campanha prometia “Ruptura com o capitalismo”, estatização e incremento da proteção social e aumento dos direitos dos trabalhadores. Não é o caso de descrever o que aconteceu na França nesses vinte anos (...) E todos os governos, fossem de direita, centro ou esquerda, infalivelmente, tentaram reduzir as conquistas trabalhistas; e sempre foram apeados do poder nas eleições seguintes.

    O que ocorre agora na França, pois, é um enfrentamento que tem parentesco com o que houve há mais de vinte anos nos Estados Unidos e na Inglaterra. O que se quer é a flexibilização do emprego, processo que na França é chamado, muito acertadamente, de “precarização”. Trata-se de tornar precária, incerta, a vida dos trabalhadores. Ele será reduzido à categoria disforme, dividida, chamada a realizar pequenas tarefas de tempos em tempos. Tal imposição, que vem do modo de funcionamento do capitalismo, se dá num contexto mais complexo que nos anos 80. O Contrato de Primeiro Emprego é uma emanação direta das normas estabelecidas pela União Européia para os países-membros. A sua aprovação ou retirada poderá marcar a reação dos trabalhadores e estudantes de todo o continente. E certamente terá ressonâncias pelo mundo afora.

    A oposição entre capital e trabalho adquiriu no movimento anti-CPE uma nitidez como há muito não se via. Ela fez o mundo político entrar em crise, abalando as instituições da República, colocando em xeque a democracia representativa. E também trouxe de volta os revoltados de novembro: os jovens da periferia, onde o Estado vem sendo desmantelado, marcam presença em todas as passeatas, atacando tanto os manifestantes como a polícia. A perspectiva da greve geral está colocada, provocando divisões nos sindicatos e nas organizaçãoes estudantis – e a oposição feroz de todos os partidos políticos institucionais. Pode-se até chegar a um acordo de última hora, tal o pavor e a confusão que tomaram conta do governo.

    No Brasil, não houve enfrentamentos como o dos controladores de vôo americanos, o dos mineiros ingleses e o dos trabalhadores e estudantes franceses. A precarização do trabalho foi imposta sem resistência. As expectativas populares caíram tanto, estão num abismo tão profundo, que o frango a um real o quilo e o Bolsa-Família bastam para apaziguar os ânimos.

    Por isso, o que se busca é aprofundar a precarização. Nessa semana mesmo, na quarta-feira, falando a empresários e dirigentes sindicais, o presidente Lula avisou: “É necessário fazer a a reforma da legislação trabalhista, que precisa ser adequada ao século 21, e não ficar com resquícios da metade do século 20”. O seu principal oponente, o tucano Geraldo Alckmin, também disse que, se for eleito, “no primeiro dia de governo”, encaminhará a reforma trabalhista. Eles não podem ser mais claros: querem mais uma reforma contra os trabalhadores.

    O que Lula e Alckmin disseram não tem a mínima repercussão. O que tem razão de ser. É bem mais divertido comentar a dança da deputada no Congresso, as putarias do ex-ministro, o guarda-roupa de madame Alckmin, as babaquices do caipironauta de Bauru.


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    [Aeternus:6932] Mensagem do Grupo34
    -LFGallego(2006-04-11)


    - RE:mario sergio conti no minimo

    Tenho uma crítica pontual - e dispensável - referente ao filme que ele cita: "Billy Elliot" tem a greve dos mineiros ingleses como pano de fundo importante na trama, sim; mas é um filme sobre dança, sim -e principalmente sobre a vocação de um menino para a dança num meio que acha que dança é coisa de gay - e o diretor do filme, o Stephen Daldry (que depois faria "As Horas") é homossexual -e o personagem do menino, quando aparece já adulto no epílogo surge com aura bem homo mesmo. O filme me soou, quando o vi, uma única vez, nas telas de cinema, uma espécie de semi-"Guarda-Chuvas do Amor" (Les Parapluies de Cherbourg), trocando o que era o canto no filme inteiro francês por dança (sem ser no filme inteiro) inglês. Mas acho que a Guerra da Argélia tinha tanto peso no filme francês quanto a greve dos mineiros no filme inglês. Servia como contexto realista para um filme que tinha cenários artificiais exageradamente coloridos e diálogos artificialmente cantados do princípio ao fim como numa ópera. A convocação do rapaz para aguerra em 1957 (quando o filme começava)era um acaso que transformava a vida do casal, separando-os irremediavelmente como ficava provado no final (1962)
    Fim do meu comentário supérfluo.
    No mais, há coisas muito fortes nesse texto, tal como a colocação de nosso lugar: periferia que ecoa o terremoto do epicentro no primeiro mundo. Não fazemos o nosso destino político-social. Somos passivos sem sermos nem "agentes da passiva" (lembram do que era isso nos exercícios de Português?). O que poderia ser nosa "guerra civil" (no sentido político), nossa "revolução" ou rebeldia das massas é canalizado para a base do salve-se quem puder (Cada um por si e Deus CONTRA todos) que leva os miseráveis à camelotagem, bandidagem, marginalidade policial e empregos informais (cujo maior "empregador" é o tráfico de drogas ilícitas).

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    [Aeternus:6934] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2006-04-11)


    - RE:RE:mario sergio conti no minimo

    Gallego sempre com as frases lapidares! Quanto ao Billy Elliot, por exemplo: O filme me soou, quando o vi, uma única vez, nas telas de cinema, uma espécie de semi-"Guarda-Chuvas do Amor" (Les Parapluies de Cherbourg), trocando o que era o canto no filme inteiro francês por dança (sem ser no filme inteiro) inglês. Depois, Gallleguito segue em frente, comparando o papel da guerra da Argélia na trama dos guarda-chuvas ao da greve dos mineiros no filme do dançarino. 

    Também assisti Billy Eliot uma única vez mas concordei, em termos, com o modo pelo qual Conti descreveu o clima de tensão entre as família dos mineiros. Daí que mesmo sendo um filme voltado para a dança, ainda poderia ser visto como um filme sobre a greve, ou seja, no qual ela surgiria mais do que como pano de fundo.  Podia haver até uma ligação entre o preconceito contra gays e os demais ressentimentos entre os membros de uma antiga comunidade coesa, então dividida.  A questão dos mineiros surge em várias novelas do D.H.Lawrence e estas sim, nos filmes que realizaram sobre seus romances, aparecem como pano de fundo menos importante.

    Gosto da desordem brasileira e da candura sentimental do seu povo - mas apenas quando penso na maioria dos países organizados, cujos cidadãos estão sempre  prontos pra dedurar o vizinho. Nenhuma "ilha" nas utopias do Huxley, por exemplo, é um lugar minimamente confortável ou respeitável: no entanto, qualquer rebelião ou iniciativa inteligente só parte dali. O Brasil é um tanto ao quanto gigante pra ser como "A Ilha", mas leva jeito.  Preferia que não fosse assim, mas a alternativa ainda é pior. 


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    [Aeternus:8165] Mensagem do Grupo34
    -jansy mello(2006-10-14)


    - uma espécie de cronica cronica

    Não sei se o início da chuva alterou a qualidade da água em Brasília, mas, várias pessoas vem queixando-se de um excesso de gases e flatulência.  Uma, em particular, baixou ao pronto-socorro para tomar buscopam na veia e ela observou: " Não é como um balão inflado porque este a gente vê esvaziar-se quando o ar escapa...Comigo, ao contrário, há uma fábrica de gases que não para de produzir e não se alivia ao serem expelidos porque só abre espaço para mais".

    Eu estava lendo na ocasião um dos "Texts for Nothing" de Samuel Beckett nos quais ele descreve, incessantemente e impotentemente, o fluxo de palavras que dele escapam.  Tenha sido este Nobel-writer analisando de Klein ou de Bion, como murmuram às vezes, o fato é que dali fui lembrar do que este último conceituou como "elementos beta", pedaços da mente que são expelidos como peidos.
    O fascinante em Beckett é que ( peidos, beta... ou não) a torrente incessante de palavras comove, faz sentido, sonha, desfaz sonhos, se contradiz, conta história sem que, em nenhum momento, deixemos de sentir e saber que são construtos verbais em sucessão sonora ...

    Lembrei do buraco de ozônio ( diziam que era aumentado pela expulsão dos produtos de touros e vacas no campo!), dos dinossauros e do petróleo e visualizei a nossa linda Terra, inocente e azul, interminávelmente produzindo palavras, palavras e palavras... Vi o planeta como um... pum gigante no universo. A vida não mais cessando como pó ( do pó viestes ao pó voltarás, ashes to ashes, dust to dust) mas numa explosão intestinal que contamina o mundo.  Ai. Vai ser apocalíptica assim no paraíso.... 


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    [Aeternus:8166] Mensagem do Grupo34
    -Guto(2006-10-16)


    - RE:uma espécie de cronica cronica - vamos aos flatos

    Tenho ouvido reclamações sobre questão dos flatos em Brasília. Será o universo uma grande fossa ? Teria a ver com a "cagueira governamental" ? Ou teria sido o "Big Bang" uma grande explosão molecular baseada na combustão do metano ?  O peido ativa a criatividade ?

    Sem a pretensão de "esgotar" o tema,

    Guto

    ps: "os silenciosos são sempre os piores" (Leônidas, Buda, Kant e Aristóteles)


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    [Aeternus:8168] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2006-10-16)


    - RE:RE:uma espécie de cronica cronica - vamos aos flatos

    Sim, os silenciosos são sempre os piores ( e que boa companhia o Guto achou para reforçar a citação)

    A "Flatulencia brasiliensis" existia anteriormente de uma única forma, como emissão de palavras vazias na sucessão das barulhentas promessas ( como as do atual governo antes e depois. Não sei se "os silenciosos são sempre os piores", característica de outros governos anteriores. Mas é coisa para se pensar no sentido verdadeiro de "digerir idéias".). Hoje, além dos sintomas anteriores, aparece materializada como dejetos difíceis de digerir e impossíveis de engolir ...


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    [Aeternus:8700] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2007-09-03)


    - Es regnet

    Como canta(va) o Lobão: Chove lá fora... Chove aki em Sampa. Fazia um tempão que não chovia. O tempo tava muito seco. Gosto quando chove, principalmente se eu tô solito escutando blues:
     
     

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    [Aeternus:8812] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2007-10-16)


    - Doris Lessing: como receber um Nobel de Literatura

    Torci pelo Philip Roth...
     

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    [Aeternus:8813] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2007-10-17)


    - RE: como receber um prêmio Nobel - II

    http://www.youtube.com/watch?v=vuBODHFBZ8k


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    [Aeternus:8814] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2007-10-17)


    - RE:RE: como receber um prêmio Nobel - II

    Por essas y otras que um escritor e lexicólogo gaiato inglês - Samuel Johnsos - disse 'ninguém, a não ser um idiota, escreve a não ser por dinheiro.'

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    [Aeternus:8815] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2007-10-17)


    - RE:RE:RE: como receber um prêmio Nobel - II

    Samuel Johnson era um gaiato muitíssimo sério. Ele conseguiu uma coisa invejável: um cara que o seguia, como Platão ao Socrates nos exuberantes Simpósios, e anotava tudo que ele dizia. James Boswell.
    Eu, que não sou tão séria, li pouco dos dois. Acho que é preciso ganhar dinheiro pelo trabalho que fazemos mas, quem escreve, sei não... escreve porque não tem outra saída?


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    [Aeternus:8816] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2007-10-17)


    - saídas(s)

    Vejo isto através de duas lentes : a do prazer puro de escrever / a da 'saída digna'.
    A 1ª é auto-justificável. A 2ª implica avaliar o avesso, seja 'a(s) saída(s) indigna(s)'. E...nada tenho contra estas, preciso registrar. Cada um de nós que encontre suas saídas indignas...

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    [Aeternus:8817] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2007-10-17)


    - saídas(s)

    Vejo isto através de duas lentes : a do prazer puro de escrever / a da 'saída digna'.
    A 1ª é auto-justificável. A 2ª implica avaliar o avesso, seja 'a(s) saída(s) indigna(s)'. E...nada tenho contra estas, preciso registrar. Cada um de nós que encontre suas saídas indignas...

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    [Aeternus:8822] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2007-10-18)


    - RE:RE:RE:RE: como receber um prêmio Nobel - II

    A Doris é a-do-rá-vel com aquele despojamento em relação ao Nobel. E o filho (acho que é filho), com a alcachofra e os alhos nas mãos é uma cena impagável.
    Acho que quem escreve pra valer não escreve só para ganhar dinheiro... escreve porque não vive sem isso. Se ganhar por isso, melhor... mas muita gente escreveu lindamente e morreu na M.

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    [Aeternus:8826] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2007-10-22)


    - Ruth Rendell

    A escritora Patrícia Highsmith ( dos Rippleys...) conseguiu um status de escritora, independente do rótulo "novelas de detetive" ( ou similar). Não tenho notícia de que o mesmo tenha acontecido com Ruth Rendell, que me povoa os pesadelos, quebra meus estereótipos sobre cultura e família, demanda de mim uma disciplina que não tenho e me horroriza com suas histórias de assassinatos e desaparecimentos. Ela parece se basear nestes noticiários da internet que falam de mães que matam friamente os filhos, amantes que esquartejam e comem namoradas, jovens dando tiros e suicidando-se em seguida, águas que levam mulheres com seus filhos, motoristas de carreta sem freio tolhendo vidas...

    Como tenho pouco tempo leio informações sobre Rendell com alguma surpresa ( ela acabou ganhando reconhecimento, tornou-se uma Baronesa se não me engano...), por exemplo, o livrinho de jornaleiro com o romance " Um assassino entre nós" ( A Judegement in Stone), escrito em 1977 no qual ela é descrita como sucessora de Agatha Christie e subvertendo as regras do gênero policial... Ás vezes o clima negro demais me cansa, refugio-me nas obras dela com pseudônimo Barbara Vine. Em outros momentos, acho genial apenas o primeiro capítulo como quando ela descreve a morte de uma moça que nunca andou de metrô e desmaiou na viagem em que carregava consigo um vestido branco...depois me canso com os fios e mapas de metrô que demandam uma atenção européia demais pra minha experiência tropical.

    Seja como for, estou carente de informações sobre esta escritora especialíssima. Alguém pode ajudar?


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    [Aeternus:8896] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2007-11-30)


    - Help

    Participei de 1 debate sobre Literatura ('Escrever pra quem? Ler por quê?') e durante as falas houve muitas incursões pelo território que coloca a necessidade de escrever como uma espécie de "psicanálise". Já pensei algumas vezes sobre isso, mas gostaria de ter algumas sugestões de textos que abordem o tema que me interessa bastante. Será que vocês podem me ajudar nisso??


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    [Aeternus:8897] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2007-11-30)


    - RE:Help

    Lacan se utiliza de matemas para indicar as diferentes posições do sujeito no discurso, quando encontramos o discurso da análise. Então dá-se que um objeto desejável (pequeno-a, agalma) convoca o sujeito a falar endereçando-se a ele.  
    Dentro desta perspectiva é possível "fazer análise" olhando para uma pintura, uma paisagem, escrevendo, lendo..
    Só que a coisa não é tão simples quanto parece se apresentada desta maneira reducionista. E não consigo falar diferente. Nem você pediu alguma conversa, mas a indicação de uma bibliografia.
    Talvez os colegas tenham algo melhor do que eu pra recomendar.
    No momento ocorre-me apenas um texto nada especializado, nem voltado para a psicanálise, sobre "A Arte do Romance" ( The Art of the Novel) de Milan Kundera, que é muito rico e provavelmente será do seu interesse.


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    [Aeternus:8898] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2007-12-01)


    - RE:RE:Help

    No momento 'tateio' o tema, às escuras, e realmente não tenho referências pra compreender e argumentar. Mas não estaria esta 'fala' próxima daquela que se manifesta no divã só que, no caso da arte, de uma forma estética e cujo feedback(?) vem (ou não vem) do público e de forma não exatamente analítica??

    Vou procurar ler o livro do Kundera que, aliás, tem sempre uma incrível ressonância em mim.


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    [Aeternus:8899] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2007-12-01)


    - RE:RE:RE:Help

    Como estou fora do campo da academia, me surpreendo com coisas que de lá me chegam às vezes.  A birra dos estrangeiros com o Umberto Eco, por exemplo e minha surpresa, lendo este italiano, com a renegação da "Obra Aberta" que vejo nos trabalhos dele mais recentes, fora o desacato à psicanálise e uma tentativa de engolir tanto o modo simbólico do Levi-Strauss, como a idéia do significante de Lacan.  O texto informal do Kundera, assim como a deliciosa coletanea do Barthes ( "O Rumor da Lóingua") foram descobertas minhas recentes que me salvaram de um dilúvio dos críticos literários e linguistas. Cada um reivindicando uma lista de conceitos passados e uma novidade pra si, a ponto de inibir o pensamento original e intervir na própria fala de quem se arrisca a pensar sem o instrumental que eles empurram.

    Acho que já descrevi minha perplexidade recente com um panetone da Nestlé que vinha com o rótulo, garrafal: "um exagero de chocolate". Me senti roubada do gesto risonho de quando eu, ou amigo conviva, dá de ombros pra repetir a sobremesa e exclama: "um exagero de sorvete", sem perversão alguma. Experimentemos, pelo menos em inglês, dizer que "amo tudo isso" ou que o frango está "golden and crispy", delícia crocante ou maravilha cremosa. Estaremos, apenas, repetindo slogans da indústria. A institucionalização do "exagero" oferecido à venda me pegou na cara com sua perversão. E me senti roubada das exclamações corriqueiras que acompanham momentos de subjetividade macia e soltinha como arroz de festa.  A mídia não apenas nos induz a desejarmos algum produto, ela nos rouba do nosso desejo também por nos retirar as palavras espontaneas de prazer e alegria para nos oferecer a mesma coisa ao modo dela. 

    No campo da academia vivi algo parecido lendo uma tal Marina Grishakova. Não havia nome que ela não citasse, idéia que não viesse com trinta corolários com termos técnicos e seus autores. Era impossível pensar ou avançar algum pensamento próprio para escrever ao meu modo ( ela tem um livro sobre o tema do meu artigo  nabokovino que está no site do aeternus, mas não a cito!).

    Por acaso feliz ontem assisti a um programa do canal de ensino do MEC com uma entrevista com Deleuze. Conheci a cara dele ( há uns tempos vi um video com Derrida) e adorei a informalidade com a qual ele foi falando desde a crise do Afganistão ( a gravação era de 1989), os estudantes em 1968 e as várias revoluções, o que é ser "gauche" sem ser Drumond, o que é ser filósofo... Os físicos e matemáticos falam uma língua própria, mas também se traduzem para os não-eleitos, sem fazer Nietzsche chorar ou nos contemplar com um marido feito em chapéu. 

    Boa sorte com o Kundera.  Tem "The Art of Fiction" do David Lodge e este é um cara engraçado também, que escreveu sátiras sobre "intercambio de professores entre os da Inglaterra e dos EEUU" com os vários momentos de choque cultural e piadinhas em geral.  O tema, ainda, é só escrever ( livre escrever é só escrever, diria Millor que acreditou em livre pensar?). Psicanálise???? Kleinianos não podem praticar análise ao escrever, disso estou certa.  Não sei quanto ao Kohut. Winnicottiano e Lacaniano pode sim. Interrogar-se ludambulando no texto, mesmo sem receber cortes.


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    [Aeternus:9567] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-27)


    - Mike Nichols

    Não me lembrava de ter visto o filme "Uma Segunda Chance", de Mike Nichols, com Harrison Ford e Anette Bening. Devagar fui recordando o enredo e desissti de assistir, mas só há pouco, tentando mentalizar uma síntese do roteiro, percebi que não havia completado os ciclos e parado na "segunda chance".

    Um advogado das grandes empresas vence uma causa movida por um paciente que se dizia lesado pelo staff de um hospital. Pouco depois ele leva alguns tiros que o deixam incapacitado, tendo que reaprender a andar, falar, ler, pensar. É quando tem uma nova chance de aproximar-se da mulher e da filha, assim como rever sua participação, até então perseguindo o traçado determinado pelo pai, na firma de advocacia da qual se tornou ainda mais dependente.  Uma historinha previsível. A surpresa vem com a chance de uma terceira tomada que reverteria o progresso tedioso da proposta fisiológica inicial. Foi um fechamento tão breve e inconseqüente, embora da mesma forma fosse causalmente previsível, que acabou esquecido num primeiro momento, sem salvar o filme do lugar comum.  

    Infelizmente, um lugar comum que é comum demais para que se possa levar o filme a sério.


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    [Aeternus:9568] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-27)


    - RE: Tio Mike...

    ...é aquele craque blasé, cancheiro, que quando tem um grande material em mãos - um roteiro bem elaborado/ancorado - é show de bola.Na linha Stephen Frears.
    Em sua 1ª linha tem as obras-primas 'Closer' - amplamente discutido por nós no site e fora dele, imagino...- e 'Carnal Knowledge' (aqui 'Ânsia de Amar'/1971).
    Bate na trave da exceção-desbunde com o grande sucesso comercial/crítica 'The Graduate'(1967), que lançou o garotão Dustin Hoffman, aos seus 30 anos e brincando de 21 (chega aos 70 este ano, e se diz 'ficando velho'...); com 'Catch 22'(1970), terrível drama irônico-amargo-farsesco, sobre o livro de Joseph Heller, que tinha no elenco Alan Arkin e um Jon Voight novato nas telas, ainda curtindo o sucesso inicial que conseguira com 'Midnight Cowboy'(John Schlesinger/1969).
    Enfant gâté da crítica teatral americana, começou no cinema com 'Who's Afraid of Virginia Woolf'(1966), clássico dos palcos, que tinha o casal 20 de então - Burton/Liz Taylor, recém saídos das águas do Nilo numa 'Cleópatra' mais para Hollywood do que para África, e com o careteiro George Segal fazendo o outro par em cena com a talentosa e fanhosa Sandy Dennis, desfilando seu aspecto de asmática porém firmíssimo enquanto atriz.


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    [Aeternus:9569] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-27)


    - RE:RE: Tio Mike...

    Quando comentei o  DVD ontem à noite só os nomes famosos eram familiares, sem maiores associações no caso de Mike Nichols. Ainda bem que não revelei o enredo porque parece que poucos viram este filme. Depois dos comentários do Florião resolvi pesquisar o rol de sua obra.

    Eis aqui: 2007 - Jogos do Poder (Charlie Wilson's War)
    2004 - Perto demais (Closer)
    2003 - Angels in America (Angels in America) (TV)
    2001 - Espírito de Coragem
    2001 - Uma lição de vida (Wit) (TV)
    2000 - De que planeta você veio? (What planet are you from?)
    1998 - Segredos do poder (Primary colors)
    1996 - The Birdcage - A gaiola das loucas (Birdcage, The)
    1994 - Lobo (Wolf)
    1991 - Uma segunda chance (Regarding Harry)
    1990 - Lembranças de Hollywood (Postcards from the edge)
    1988 - Uma secretária de futuro (Working Girl)
    1988 - Metido em encrencas (Biloxi blues)
    1986 - A difícil arte de amar (Heartburn)
    1983 - Silkwood - O retrato de uma coragem (Silkwood)
    1981 - Gin game, The (TV)
    1980 - Gilda live
    1975 - O golpe do baú (Fortune, The)
    1973 - O dia do golfinho (The Day of the Dolphin)
    1971 - Ânsia de amar (Carnal Knowledge)
    1970 - Ardil 22 (Catch-22)
    1967 - A primeira noite de um homem (The Graduate)
    1966 - Quem tem medo de Virginia Woolf? (Who's Afraid of Virginia Woolf?)  

    Aprendi que ele é nascido em Berlim, de onde saiu em 1939 por causa da guerra. Comecei a ficar curiosa, sem ser por ele, agora pelo Wim Wenders porque este constantemente filma a cidade de Berlim e, até o recente quase-documentário sobre os pioneiros do cinema, não havia estranhado aquelas visões deprimentes da cidade derelicta,como um permanente canteiro de obras em feriado chuvoso.

    Gostei tão pouco do filme de ontem, 1991, "Regarding Harry", que revi meus amores pela "Ultima Noite de um Homem" e "Vestígios do Dia", "Closer".  No caso de "Quem tem medo de V.Woolf" achei mais fácil manter o mau-humor porque ao lado da indiscutível qualidade técnica, a crueldade de fundo sempre me incomodou. "Catch22" não consegui ver nunca até o fim ( a vantagem de não ir ao cinema é poder desligar, retomar, desligar, ver mais uma vez...) e também sofri em "A Gaiola das Loucas".

    Na época em que se optava entre VHS e Betamax, tinhamos Betamax e, com isso, perdi uma porção de gravações, uma delas um desenho frances intitulado "Les Maitres du Temps" ( tem outro título alternativo) que me encantou nos idos oitenta. Havia dois bonequinhos que exclamavam, às vezes, "ih, que pensamento fedorento", em reação a algo latente que não ganhava uma forma desagradável aos primeiros olhos.  O que me pega em Nichols é algo nesta linha, um certo maucheiro mental por trás do belo, do esperto, do cínico, do engraçado, do filosoficamente quase pertinente.

    Este é meu handicap de amadora. Não vou adiante quando um odor de idéias podres me atinge. Será que podia ter gostado do surrealismo do The Graduate ou me deixei levar pela graça que faltava a minha volta naqueles anos, foi mais que nostalgia anglófila o que me atraiu em Vestígios do Dia ( escrito por um japonês, no?)

    Não sei, mas fiquei tristinha. Um pouco mais do que antes. Como quando li o breve Conrad "Billy Budd" e pensei na multidão de gente bobazinha que se ferra socialmente porque lhes falta um cinismo a la Mike Nichols.

    Vou ler a história dele, de Wim Wenders e, até, retomar Billy Budd. Só pra entender.


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    [Aeternus:9570] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-27)


    - RE:RE: Tio Mike...

    A filmografia do Mike Nichols é extremamente irregular e provavelmente "Uma Segunda Chance" é um de seus piores filmes ao lado de outros (que nem são tão poucos, sendo incrível que o mesmo cara que dirigiu o louvável esforço de filmar uma peça longa e em ambiente fechado como "Quem tem medo de Virginia Woolf?", "Carnal Knowledge" ("Ânsia de Amar") e "Closer" possa ter embracado (e acreditado em algum momento?) na chorumela que é "UMa Segunda Chance". Acho que quando este filme foi exibido nos cinemas os críticos chegaram a dar a carreira cinematográfica de Nichols por encerrada, aind amais que depois ele embarcou em um terror com alguma invencionice pretensiosa, mas sem muita criatividade ("Lobo") e em uma refilmagem da chanchada francesa "Gaiola das Loucas". Mas ele voltaria a surpreender com "Closer".
    Marcos tem razão quando diz que é um cineasta que precisa de bom roteiro. o incrível é que, sendo considerado um "intelectual novaiorquino" com antecedesntes de passagem por grandes encenações de peças de teatro de alto nível na Boradway, faça film,es tão rasos com alguma freqüência. Causas posíveis: ganhar dinheiro com porcarias supostamente ao gosto do povão, popularidade ou (aposto nessa sem desmerecr as antecedentes) um certo menosprezo pelo Cinema. Ele é originalmente um homem de teatro, encenva peças de qualidade, mas considera cinema uma forma popular de comunicação, onde pode ganhar bem mais grana do que no teatro (e aí as hipóteses se complementam), filmado o que lhe é proposto para angariar prestígio (nos filmes excelentes com roteiros de qualidade acima da média) ou um bom dinheiro e talvez popularidade sem ficar restrito ao que os americanos consideram "filme de arte" (para eles, qualquer coisa que não for filme de ação e que possa dar errado na bilheteria apesar de prêmios em festivais europeus).
    Mas vale a pena prestar atenção no moço, ele sempre pode surpreender, Vejam a filmografia:

    2007 - Jogos do poder (Charlie Wilson's war) interessante embora um pouco "morno"
    2004 - Closer - Perto demais (Closer) excelente peça e filme `a altura
    2003 - Angels in America (Angels in America) (TV) tenho o dvd mas não vi, foi feito para a TV como mini-mini-se´rie e bem elogiado
    2001 - Uma lição de vida (Wit) (TV) Emma Thompson com câncer - dispensei. Há quem aprecie
    2000 - De que planeta você veio? (What planet are you from?) nem sabia que isso existia, deve ser "bomba".
    1998 - Segredos do poder (Primary colors) Não vi, parece que era sátira política como o "Jogos do poder" de 2007
    1996 - The Birdcage - A gaiola das loucas (Birdcage, The) Chanchada que só valia para ver o gente Hackman como "drag queen". Valia?
    1994 - Lobo (Wolf) terror mais para fracote apesar do elenco ter Jack Nicholson
    1991 - Uma segunda chance (Regarding Harry) Lamentável
    1990 - Lembranças de Hollywood (Postcards from the edge) Dormi quando vi, coisa de mãe & filha (na vida real Debie Reynolds e a princesa de "Star Wars", filha dela que screvu o livro para se quixar da mãe;no filme Shirley MacLaine e Meryl Strep.
    1988 - Uma secretária de futuro (Working girl) Simpática comédia com alfinnetadinhas nos yuppies
    1988 - Metido em encrencas (Biloxi blues) Bom episódio das me,mórias de Neil Simon, nesta fase, no exército.
    1986 - A difícil arte de amar (Heartburn) Não vi apesar da Meryl Streep e Jack Nicholkson no elenco: pareceque era ex-esposa falando mal do ex-marido (um jornalista famoso, ele e ela, roteirista de Hollywood na vida real)
    1983 - Silkwood - O retrato de uma coragem (Silkwood) Filme sério de denúncia, mas meio mais ou menos
    1981 - Gin game, The (TV) Não sei do que se trata
    1980 - Gilda live - Idem
    1975 - O golpe do baú (Fortune, The) Primeira mostra de que Nichols podia fazer filmes anódionos
    1973 - O dia do golfinho (Day of the dolphin, The) Só vi pedaços na TV, acho que t inha coisas interessantes mas foi massacrado no lançamento em cinemas
    1971 - Ânsia de amar (Carnal knowledge) Excelente roteiro, e daí excelente filme.
    1970 - Ardil 22 (Catch-22) Boa tentativa de filamr livro "infilmável"
    1967 - A primeira noite de um homem (Graduate, The) Mais famoso que bom, mas mesmo assim um filme bem bom.
    1966 - Quem tem medo de Virginia Woolf? (Who's afraid of Virginia Woolf?) Boa tentativa de filmar peça em ambiente fechado com Richard Burton excelente embora a mulher dele  e a Sandy Dennis é que tenham levado Oscars. elas estão bem, especialmente a Sandy, mas o Burton estava na melhor forma.
     
    Prêmios

    - Recebeu 4 indicações ao Oscar, na categoria de Melhor Diretor, por "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (1966), "A Primeira Noite de um Homem" (1967), "Silkwood - O Retrato de uma Coragem" (1983) e "Uma Secretária de Futuro" (1988). Venceu em 1967.

    - Recebeu 5 indicações ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Diretor, por "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (1966), "A Primeira Noite de um Homem" (1967), "Silkwood - O Retrato de uma Coragem" (1983),"Uma Secretária de Futuro" (1988) e "Perto Demais" (2004). Venceu por "A Primeira Noite de um Homem".

    - Recebeu 3 indicações ao BAFTA, na categoria de Melhor Filme, por "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (1966), "A Primeira Noite de um Homem" (1967) e "Vestígios do Dia" (1993). Venceu em 1966 e 1967.

    - Ganhou o BAFTA de Melhor Diretor, por "A Primeira Noite de um Homem" (1967).

    - Ganhou o Prêmio do Júri, no Festival de Berlim, por "Uma Lição de Vida" (2001).
     
    Curiosidades

    - Deixou Berlim em 1939, juntamente com sua família.

    - É uma das poucas pessoas que já ganhou prêmios nas 4 mais importantes premiações do showbizz americano, o Oscar, Emmy, Grammy e Tony. Apenas Barbra Streisand, Mel Brooks e Rita Moreno também conseguiram esta proeza.

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    [Aeternus:9571] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-27)


    - RE:RE:RE: Tio Mike...

    Observação: eu nem sabia que "Vestígios do Dia" era produção do Mike Nichols (quem dirigiu foi o James Ivory que tb fez "Retorno a Howard's End" e alguns filmes mais ou menos bem sucedidos extraídos de Henry James como "Os Europeus", "The Bostonians" e "The Golden Bowl". Filmes empre muiot elegantes e de cenários e figurinos requintados, mas muitas vezes frios e com pouca vitalidade.
    Sobre o autor do livro que deu origem ao filme, a Wikipedia informa:

    O romancista Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki, Japão, mas imigrou com a família aos seis anos para a Inglaterra. Seus pais planejavam voltar logo a seu país, mas por diversas circunstâncias foram ficando, e Kazuo cresceu entre duas culturas. Estudou nas universidades de Kent e East Anglia, no curso de ´redação criativa´ que o escritor Malcolm Bradbury estabeleceu e no qual era ainda professor. Antes de escrever seus aclamados romances, Ishiguro publicou vários contos e artigos em revistas, na década de 1980.

    Sua obra foi traduzida para mais de 28 países.



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    [Aeternus:9572] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-27)


    - RE:Gilda

    Nada a ver com ( UAU !!! ) Margarita Cansino ( a estonteantemente belíssima Rita Hayworth ) do filme 'Gilda', ícone semi-erótico/semi-fetiche, crônica de servidão.

    Trabalha no filme do Nichols - que não consegui assistir - Gilda Radner, uma comediante sardenta, olhos sparkling e jeito de boneca infantil gênero 'cheguei', provavelmente-toda-certeza judia, casada com o também comediante judeu Gene Wilder, do ciclo Mel Brooks ( 'The Producers'/1967 ; 'Blazing Saddles'/1974; 'Young Frankenstein'/1974 )

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    [Aeternus:9573] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-27)


    - RE:RE:Gilda

    Li há pouco uma crítica enormemente elogiosa ao "Carnal Knowledge" e, como estou até conseguindo ler "Marry Me" de Updike, pode ser que eu acabe apreciando este filme sobre amor e sexo com roteiro de Jules Feiffer. 

    Psicologizar demais o cinema tem um resultado semelhante ao de quando somos expostos a uma batelada de filmes ideológicos. Ou seqüências do National Geographic. Não sei o que tal lista tem em comum, mas sei o que lhe falta: enredo que não seja realista demais ou que tenha um unico plano de ação. Tout comprendre c'est tout pardonner, dizem. Pra mim é diferente.  Quanto mais compreendo, mais me chateio!

    Li na entrevista do Freud ( onde esta frase em frances, citada acima, está escrito errado) que ele achava que Shaw era mais pro ascético, que ele não gostava de sexo e não fazia idéia do que era o amor. Que maravilha. E Shaw detestava Shakespeare, talvez por achá-lo carnal demais. Adoro Shaw e não gosto tanto de Shakespeare quanto esperaria.Quando aprecio Woody Allen é porque ele ficou parecido com Shaw!    


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    [Aeternus:9574] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-27)


    - Carnal Knowledge

    Grand Jansy,
    Não se esqueça, ao rever o show de cinema/andamento/composição de imagem/roteiro/elenco/coluna musical/foto/direção de arte que é 'Carnal Knowledge', que você perde de saída um elemento fundamental : a magia da sala escura e do Cinemascope !

    Afora este ENOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOME pequeno detalhe, o que torna o drama que atravessa décadas mais atual do que nunca é o fato de um dos personagens centrais, feito pelo Jack Nicholson, adotar - (?)conformista / (?)derrotado / (?) coerente / (?)simplesmente cansado - a postura de unir-se amorosamente a seu imaginário...
    ----------------------------------------------------------
    Sim, o fabuloso George Bernard Shaw passa uma impaciência tendendo à 'nóia' a respeito de sexo.Terá suas razões : talvez sexo seja sobrevalorizado em termos de marketing, a nos prometer mundos&fundilhos como os políticos o fazem tão proveitosamente ( para eus umbigos&fundilhos, claro ! )

    E...ah ! está lá, em George/Prof.Higgins e seus embates com Elisa Doolittle a mesma tendência do chauvinista personagem de Jules Feiffer/Nichols, a mesma cambagem vicosa : why can't a woman be more like a man ? / why can't a woman...behave like a man ?

     

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    [Aeternus:9575] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-27)


    - RE:Carnal Knowledge

    você perde de saída um elemento fundamental : a magia da sala escura e do Cinemascope ! Afora este ENOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOME pequeno detalhe...

    Nunca senti isso tão claramente senão ao rever dois filmes recentemente. "Miss Potter", com a dramatização da solidão no cenário do Lake District que inspirou poetas como Wordsworth e Shelley - e  "The Painted Veil", filmado na China.  Até a percepção da passagem do tempo alterou-se no contraste entre a primeira visada no cinema e a reprodução em casa. Uma estranha ressonancia emocional que dava corpo à duração desapareceu e o enredo parecia cheio de cortes. Não sei como, cinema no escurinho com tela grande, oferece uma solução de continuidade distinta e envolvente.

    Não devia ser assim pois nosso olho faz mágicas quando há imagens projetadas.  Como quando nos vemos no espelho. De memória, diríamos que ocupamos todo o espaço do vidro. Se formos conferir, nosso rosto não passa do tamanho de...uns quatro dedos? Ás vezes consigo ler o que está escrito num reflexo que brota de uma minúscula faceta de um cristal, porque a imagem deve  formar-se num lugar diferente, ter seu foco no espaço, lásei-seilá... A gente consegue esquecer as escalas quando se absorve numa imagem. No entanto, ir ao cinema é uma experiência insubstituível.

    Há uma irreverencia em Shaw, um aroma de misoginia, uma vidraça de puerilidade que não é infantil nem verdadeira, apenas engraçadinha com rendas e flores. Ainda assim a gente escuta um mar adulto bramindo no fundo.  Pra mim é interessante porque não marca a questão dos generos: qualquer um(a)  pode ocupar qualquer papel, embora de maneira meio maníaca.

    O que você quis dizer, Florião, com "unir-se amorosamente a seu imaginário"?


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    [Aeternus:9579] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-28)


    - RE: casado com sua imaginação...

    Eu sabia que Jansy pegaria no meu pé...vâmulá...
    Quis mencionar uma certa ( certa em sentido duplo, aqui...)escravização/colonização do imaginário erótico da pessoa por uma figuração totalmente idealizada.

    Modo geral, pensamos que estamos amando - e até estamos mesmo, isso se cristaliza aqui e ali, de uma forma ou de outra...- até o momento em que descobrimos (consciente ou inconscientemente...)que estávamos a idealizar nossa parceira.
    O conquistador Alfie olha para nós, numa das muitas encaradas com que nos brinda, dizendo 'há um momento na relação amorosa onde acontece o 1º 'uh !oh!', o 1º senão em nossa mirada sobre a parceira.A partir desse, outros 'uh!oh!'s inevitáveis se seguirão,até destruir de vez a relação'.

    Coisa parecida a esse herói de 'Carnal Knowledge' acontece com o personagem do Irons em 'The French Lieutenant's Woman', só que ali Harold Pinter carrega nas tintas românticas em seu roteiro ! Antes de desiludido, o vemos perplexo, atônito, (?)pré-agônico.O personagem de Feiffer/Nichols tem uma postura debochada-conformada...
    Após o témino do filme-dentro-do-filme, o personagem do ator se vê preso a seu imaginário erótico, a 'mulher do tenente francês' - e sabemos disso, então, de forma precisa e genial, através da primorosa engenhosidade do Pinter !

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    [Aeternus:9587] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-28)


    - RE:RE: casado com sua imaginação...

    Florião, você sabia que eu ia pegar no seu pé? Hmmm. Calçado de que jeito?

    Quando é que podemos estar com outra pessoa, com todo encantamento possível, sem estarmos sonhando?


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    [Aeternus:9588] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-28)


    - RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    O cerne da questão é o engessamento do inconsciente erótico.
    Tudo é remetido ao mesmo referencial, a cambagem viciosa que anula o outro(outra, ali).

    Sim, acho normalíssimo sonhar 'fora' de nossa parceira, usar sua carcaça e seus melhores esforços&prendas amorosas em proveito próprio, oh ! vilão dos lençóis !
    Mas...não abrir sequer janelas à criatividade&expressão antural da parciera, apagá-la afetivamente transformando-a em mero objeto de estímulo mecânico...Djízas...

    E - last but not least - o conflito evidente que surge daí é o fato de que, ao contratar uma garota de programa, assim fechando o cinturão hetero do ato, esta fatalmente competirá, ainda que passiva no ato e submissa à vontade de seu (?)algoz, com o 'ideal erótico' do contratante...


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    [Aeternus:9589] Mensagem do Grupo34
    -cely bertolucci(2008-05-28)


    - RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    What's the problem?

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    [Aeternus:9590] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-28)


    - RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    Interrompi, com um pouco de impaciência, o filme que assistia, "Janelas da Alma", e encontrei de novo o Florião em conversa comigo sobre visão e imaginação, combinando com o tema do Walter Carvalho e outro entrevistando pessoas cegas e ilustres, ou ilustres e cegas, não sei.

    Ninguém tem como comparar suas visões, mesmo com o livrinho que me mostra como um daltonico não enxerga uma letra, mas outra de cor diferente. O mesmo objeto, para cada um, será distinto. Nem tanto como o Oliver Saks no filme em questão opina, ao falar de uma patologia na qual há uma separação entre um tipo de informação e a resposta emocional: quando uma pessoa nega que o marido, o filho ou a mãe sejam estes figurantes em vez de impostores. Sem recorrer ao Freud falando da "catexe", Saks trata de uma "distancia emocional" que impede à pessoa de reconhecer no ente familiar algo de familiar. Como se os que nos são próximos sempre fossem vistos como ternos, queridos, familiares e, faltando isso, entrássemos numa paranóia neuronal.

    O personagem Humbert Humbert, de Nabokov, inventa uma ninfeta a quem ele chama de Lolita. Ele a enxerga quase sempre em fragmentos: o movimento ao jogar tenis, o sol na sua pele cor de mel com suave penugem, o aroma dos cabelos, seu nome fetichisticamente aureolado pelo de coleguinhas na chamada da escola. É quando ele a chama de "Lolita", em vez de Dolores, e ela re-encarna uma namorada perdida aos doze anos numa praia francesa cor de rosa e a Anabel Lee do Poe.  No entanto, por instantes, Humbert enxerga a garota com vida própria e mesmo assim ele não pára de a amar. Ele chega a ser mais compulsivo do que perverso, com várias compulsões distintas e numa delas, Lolita, Dolores, Lo... existe pra valer...

    O filme de entrevistas tem depoimentos comoventes e interessntes, numa estereotipia musical a la Philip Glass com chorinho. Há constrangimentos, também, como quando um poeta parte do título ( inspirado em Platão, não é? Dos olhos como sendo a janela da alma) e, tomado pelo tema do diretor, não percebe que a frase sugere olhar de fora para dentro de alguém, de que o olhar revela algo recondito no outro. Ele tenta olhar para fora pela janela dos olhos dele e se perde em explicações para dizer que, como as janelas não vêem, tem que ter um olho por trás e este ter outro olho atrás até o infinito. Que chato.  Hermeto Paschoal é engraçado com a vesguice que lhe permite escolher tres meninas ao mesmo tempo quando mira só em uma, mas aponta para os lobos cerebrais de modo quase intuitivo ao falar da visão ( coloca o terceiro olho onde fica o quiasma ótico) e audição ( situa na nuca, no lobo occipital e ilustra como a pessoa, ouvindo algo comovida, não dirige as orelhas para a origem do som e sim abaixa a cabeça expondo a nuca)

    Sonhar "fora" da parceira ainda é sonhar a parceira e, me parece, é ainda ver a parceira. Não dá pra sonhar "fora" com qualquer outra, hem?

    Hoje li também uma frase sensacional no Updike ( com quem habitualmente brigo) sobre como um casal adúltero, no primeiro encontro, ainda traz nos movimentos e gestos o contorno do corpo da esposa. Fazer amor, como exclama com seu Djízas o Florião, é conseguir ir casando fantasia e realidade, dando espaço para a outra pessoa ir surgindo afetivamente com toda novidade. Não é algo que se saiba pra sempre como quando se aprende a andar de bicicleta porque o outro não é sempre igual, nem a ele mesmo...


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    [Aeternus:9591] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-28)


    - RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    O jeito é...delirar junto com o Frrrrnándinho P'sssssóa.
    Deliremos :

    "Tão abstrata é a idéia do teu ser
    Que me vem de te olhar, que, ao entreter
    Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
    E nada fica em meu olhar, e dista
    Teu corpo do meu ver tão longemente,
    E a idéia do teu ser fica tão rente
    Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
    Sabendo que tu és, que, só por ter-me
    Consciente de ti, nem a mim sinto.
    E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
    A ilusão da sensação, e sonho,
    Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
    Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
    Do interior crepúsculo tristonho
    Em que sinto que sonho o que me sinto sendo"
    Fernando Pessoa – ANÁLISE

    ( boa sorte !...)




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    [Aeternus:9592] Mensagem do Grupo34
    -cely bertolucci(2008-05-28)


    - RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    Delirar com o Frrrrrnadinho... Valeu meu caro Florião

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    [Aeternus:9593] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-28)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    Gostou ?...
    O mais legal é a gente iniciar a poesia 'são' e temrinar 'lôko', sem identidade...

    ( e aí...)Me abrigo na idéia de que sou apenas um velh(ac)o sem vergonha.
    ( 'Seu Último Refúgio' ? )

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    [Aeternus:9595] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-28)


    - Antal Szerb

    Consegui terminar de ler " O Viajante e o Mundo da Lua" de Antal Szerb, que percorri em paralelo ao que ainda quase inicio, o "Marry Me" de John Updike. Iniciei o primeiro com esperança e grande interesse, que foi diminuindo com o transcorrer da leitura e, o segundo, comecei com impaciência e agora estou gostando muito.  

    Szerb tem um veio romantico a la Poe passando por "Fanny and Alexander" do Bergmann, um cultivo místico da morte, da histeria e do mistério. No final, filosofa sobre tudo e se mostra bastante pueril. Já Updike não abandonou o cotidiano e não escorregou um centímetro no besteirol, sem ser como sátira e nisso ele pode ser ótimo.  Tenho tanta inveja de quem consegue levar um livro a cabo, ser generoso com o mundo partilhando o que tem de melhor em si, até quando não cola muito.

    Incorrendo no risco de esticar tanto o conceito que ele perde a especificidade, pensei hoje no fetichismo como sendo uma forma de paramnésia para encobrir a alucinação negativa de um objeto. O que Freud diz sobre a paramnésia me encanta.


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    [Aeternus:9596] Mensagem do Grupo34
    -gustavo alcides da costa(2008-05-29)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    Grande, Florião.

    Poema muito bem compartilhado. Psssssoa é Psssssoa... o resto é garapa ou jornalismo (se me permitem um exagero).

    Me lembrou um outro poema (musicado pelos Secos e Molhados no segundo e derradeiro "LP") em que ele consegue essa gaseificação do concreto (ou concretização do gasoso ?!?!):

    Não: não digas nada
    Supor o que dirá
    A tua boca velada 
    É ouvi-lo já
    É ouvi-lo melhor
    Do que o dirias
    O que és não vem à flor
    Das frases e dos dias
    És melhor do que tu
    Não digas nada, sê
    Graça do corpo nu
    Que invisível se vê
    Não: não digas nada
    Não: não digas nada


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    [Aeternus:9597] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-29)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    Grand Guto,
    Só amei assim, nessa do 'não digas nada', uma vez na vida.
    Foi delicioso e...assustador.

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    [Aeternus:9598] Mensagem do Grupo34
    -cely bertolucci(2008-05-29)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: casado com sua imaginação...

    Então somos dois velh (ac) os sem vergonha. Estou achando ótima essa fase de, digamos, loucura ...

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    [Aeternus:9600] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-29)


    - RE: de velh(ac)os

    A ala psicanalítica pode me bater, mas garanto que o cansaço ajuda a redimir perversões (hehehe !!!)
    Per bene o per male...

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    [Aeternus:9601] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-29)


    - RE:RE: de velh(ac)os

    O cansaço resolve um montão de coisas. Hoje mesmo estava pensando se as pessoas bem longevas que, ao contrário do Nabokov que escrevia mais do que praticava suas virtudes, vivem uma sucessão de paixões "unicas, imortais, eternas"  não acabam com uma sensação enorme de falsidade e futilidade.

    Amor bom é como em Romeu e Julieta no qual o happy-end é a morte ( uma forma de escrever "e viveram felizes para sempre", não é?). Se sobrevivermos a um destes "finais", veremos que haverá infinitos outros pela frente...

    Nabokov, aliás, fez sucesso com Lolita depois dos cinqüenta anos e, a partir desta data, escreveu ainda vários longuíssimos romances importantes...todos nesse estilo da palavra como perversão ou atuação pedófila ( muito curioso isso em VN, seu  animismo que quase se materializa no leitor).


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    [Aeternus:9602] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-29)


    - RE: meu escritor pervertido favorito

    ...é Jerzy Kosinski.
    Em curva similar à do VN, apesar de polska recebeu láureas e reconhecimento nos USA.

    Adoro 'Passion Play'( no Brasil 'A Comédia da Paixão' ), sobre um (anti)herói chamado Fabian, jogador de pólo e praticante de saltos em Hípica.
    Fabian abdica da 'vida social', para tornar-se paladino de si mesmo.

    Já 'Pinball' ( aqui 'Uma Voz sem Face' )traz a curiosidade atiçada&xeretada de uma fã sobre Godard - um cantor de hits cujas gravações eram misteriosamente divulgadas à editora, de forma a não revelar sua identidade.

    Embora famoso por 'Being There'( 'O Videota' ) - que gerou o filme de Hal Ashby, já recebera premiação literária por 'O Pássaro Pintado'(1966), na França.
    Outras digressões 'malditas' são 'Steps'(1968), 'The Devil Tree'(1973) e 'Blind Date'('Um Parceiro Desconhecido'/1977), partindo do choque de um mundo em decomposição ideológica, à época da Guerra Fria-esfriando.

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    [Aeternus:9603] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-05-29)


    - RE:RE: meu escritor pervertido favorito

    Só li Being There e Painted Bird  e daí não sei dizer nada sobre ser Jerzy Kosinski um autor perverso ou não...Até ali era apenas um escritor maravilhoso da Europa Central com todas suas superstições e spells ( encantamento não é uma boa tradução, ou passe...)

    Mas ele era amigo de outro romeno ( são romenos, não?) notóriamente perverso, o Roman Polanski... Então, vai ver que não o li com a devida atenção. Quem me surpreendeu no passado foi o Alberto Moravia, mas atualmente não me animo a pegar de novo Desidéria ou os Contos com aquele tipo de erotismo de meia tres- quartos e glabras fendas. Vou fazer a encomenda dos que você comenda e recomenda...


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    [Aeternus:9604] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2008-05-29)


    - RE:RE:RE: meu escritor pervertido favorito

    Espero que você aprecie !
    'Passion Play' traz a essencial empatia do autor com o Fabian, que habita em seu trailer itinerante competições afora.
    O orelha do livro fala numa obsessão de vencer enquanto projeção da 'busca do amor ideal, terno e erótico', mas pessoalmente o sinto antes de tudo alguém obstinadamente lúcido, diante de uma sociedade tão competitiva quanto discutível.

    'Pinball' é muito lúdico - assim achei - e envereda por um aparecer-é-poder às avessas.

    ( a tempo ) Observei há pouco consultando meus antigos exemplares, que Kosinski era jogador de pólo, como seu Fabian...

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    [Aeternus:9605] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-30)


    - RE:RE: de velh(ac)os

    Como disse Santo Agostinho: "Oh, Deus! Dai-me a temeperança da castidade e controle sobre a luxúria!...Mas não por enquanto!"
    Na velhice, até o diabo se transforma em ermitão...

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    [Aeternus:9609] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2008-05-30)


    - RE:RE:RE: de velh(ac)os

    Acho que os amores se sucedem ao longo da vida, mesmo quando a gente jura de pés juntos que "nunca mais vai se apaixonar" depois de sair machucados de alguma relação como gatos românticos que se metem em encrencas...
    No fundo, esta "reincidência" é bem mais saudável do que os traumas ou comedimentos dos que elegem um único amor na vida, seja por falta de oportunidade ou neura mesmo...
     
    E me lembrei de uma canção de Lenine:
     
    malucos e donas de casa / vocês ai na porta do bar / os cães sem dono, os boiadeiros / as putas babalorixás / os gênios, os caminhoneiros / os sem terras e sem teto / atores / diretores / djs / os undergrounds / os megastars / os rolling stones e o rei / ninguém faz idéia de quem vem lá, ninguém faz idéia de quem vem lá...


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    [Aeternus:9982] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2008-08-12)


    - Cor

    NUNCA ESCREVEREI UMA PALAVRA PARA LAMENTAR A VIDA.
    O PRESENTE É INCOMPARAVELMENTE MELHOR DO QUE O PASSADO,
    ASSIM COMO TAMBÉM O É O FUTURO EM RELAÇÃO AO PRESENTE."

    (Cora Coralina) 
     
    Acho impressionante a Força desta mulher, como pessoa e poeta. Ganhava a vida como doceira em Goiás Velho, imagino-a  mexendo grandes tachos de goiabada, pessegada, marmelada com seus dedos tortos. Filho e netos. Lá pelos 70 anos sua poesia foi descoberta, quem a lê se apaixona pela vida... e passa a ter mais fé, hein?

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    [Aeternus:9983] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-08-12)


    - RE:Cor

    Não sei se a Cora Coralina era doceira de mexer grandes tachos de goiabada ou banana  com jeito de avó. Ela era ousada, aventureira e as histórias que ouvi um dia sobre ela  foram fascinantes, nada a ver com rendinhas e babados. Ou talvez, com muitos babados...

     Visitei a casa dela, em Goiás Velho, me esqueci de muita lenda e muita verdade. Vale retomar e, pra quem    começa a explorar esta poeta goiana, vale conhecer. Até agora recomendo dois livros mas, como de hábito, não me recordo dos títulos corretamente. Um deles, contos dos becos de Goiás. 


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    [Aeternus:9984] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2008-08-13)


    - RE:RE:Cor²

    Ela era aventureira sim e criativa. Mas até onde sei mexia tachos de goiabada. Durante um período ganhou a vida como doceira e com o $$ até pagou uma dívida da casa de Goiás Velho, que era um bem de família, mas foi a leilão... 
     
    E acho que tenho este livro aí (Contos dos Becos de Goiás), só não sei em que beco o enfiei...


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    [Aeternus:9985] Mensagem do Grupo34
    -dora zander(2008-08-13)


    - RE:RE:RE:Cor²

    Ah, assim fica melhor porque eu também mecho tachos de doce de jabuticaba, perco livros nos becos, mas estranharia muito se mencionassem bolos e compotas no meu necrológio

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    [Aeternus:10357] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-31)


    - excomunhão...

    Brinquei daqui e dali, mas estou sem notícias do Galleguinho desde ontem , desde que sua madrasta de noventa e muitos anos morreu ( o enterro foi ontem ao meio dia!).  Acho que fiquei tomada pelo clima das obras póstumas e obituários que, por acaso, surgiram como tema ao mesmo tempo ( o livro da S.Sontag e dois necrológios, um pro Wallace e outro pro Robbe Grillet)

    No jornaleiro comprei uma oferta com dois filmes, um deles de um livro da M.Duras, "O Amante", que quis rever no clima do r.Grillet.  O outro, de brinde na mesma caixa de nove e noventa, "Black Out", uma versão moderna da Naná, de E.Zolá com Dennis Hopper, Claudia Schiffer e outro ator de que gosto. Filme durão, inquietante.  Minha mãe na infancia me proibia de ler os quadrinhos do Mickey Mouse e outros animais Disney. Na adolescência, me impediu de ler Nana de E.Zola.  Agora, vendo este filme com cenas pornô, drogas e cabarés, começo a entender melhor a preocupação dela...É uma decadência que se prolonga, que sobrevive, que destrói sem desaparecer. Estou enfrentando o filme, apreciando o pique, mas... está duro.


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    [Aeternus:10944] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-01-26)


    -

    Questão que me fizeram e que repasso a todos vocês.
    Por que, diante dos recentes avanços da neurociência - plasticidade neuronal induzida por aprendizado, descoberta dos mecanismos moleculares de formação da memória,  mapeamento do metabolismo cerebral durante a execução de tarefas motoras ou, mais incrível ainda, por simplesmente imaginar-se executando determinada tarefa - a psicanálise sobrevive mais forte que nunca?

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    [Aeternus:10945] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-01-26)


    - RE: sobrevivencia da psicanalise

    A psicanálise sobrevive como nome, e pouco como uma prática específica, assim como os grupos religiosos e chat-groups da internet, porque nós humanos somos tagarelas e alguns entre nós precisam de, não apenas, sentir disciplina no amor, como garantia de privacidade nas conversações e conversinhas.

    Ninguém quer se curar das próprias defesas, obviamente. Muitos gostam de falar dos sofrimentos e das doenças. Alguns acham que só psicanalista vai aguentar ouvi-los, ou não querem padres.  O que um dia foi a psicanálise acontece ainda, mas em espaços ou momentos privilegiados, riquíssimos, raros.


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    [Aeternus:10946] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-01-26)


    - hobby

    De Jansy:

    Acho uma pena que nunca tivesse tido chance de estudar letras ou para ser tradutora. Na realidade, não me considerava talentosa o suficiente para sobreviver deste aprendizado e me condenei ao espaço amador.
    Curtindo uns poetas brasileiros que desconhecia ( raramente compro livros de poetas e as antologias que me chegam às mãos são todas concreto-modernosas) decidi exercer a tradução como forma de questionar mais fundo o texto. Aceito sugestões!

    Alexei Bueno:
    Veste tudo, bebe tudo, sorve tudo,
    Olha a areia lá embaixo, da enorme ampulheta do céu, que
                                         adquire e transforma.
    Caminhas aqui na noite, mas estás lá, lá no grande
                                          quadrilátero de Quéops,
    Esperando a aurora, que é em ti que nasce o mundo,
    Enquanto o cosmo explode e retrai-se em matéria,
                                           amealhando o espírito
    Que somos - nós - no pulsar do coração divino
    !

    Dress, drink, suck in everything,
    Look at the sand below, from heaven's giant hourglass, which
                                           obtains and transforms everything.
    Here you walk on night, but you are there, there, in the big
                                            square of Cheops,
    Waiting for dawn, because the world is born in you,
    While the cosmos explodes and shrinks into matter,
                                            carrying the spirit along
    Which we are - we - in the pulse of the divine heart!

    Outro, Bruno Tolentino, mais arcaico com rima e cadencia classica, ficou quase impossível de traduzir sem estragar umas vagas alusões que, vertidas, se espalhavam vazias.
    Não sou o que te quer; sou o que desce
    a ti, veia por veia, e se derrama
    à cata de si mesmo e do que é chama
    e em cinza se reúne e se arrefece.
    Anoitece contigo. E me anoitece
    o lume do que é findo e me reclama.
    Abro as mãos no escuro. Toco a trama
    que lacuna a lacuna amor se tece.
    Repousa em ti o espanto que em mim dói,
    noturno. E te revolvo. E estás pousada,
    pomba de pura sombra que me rói.
    E mordo teu silêncio corrosivo,
    chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
    e sou teu salto em mim, suspenso em nada
    .

    I'm not that which desires you. I'm what descends
    onto you, vein by vein, and overflows
    in search for itself and of what in flames
    and ashes gathers itself and dissolves.
    Twilight arrives with you. And I twilight
    by the faint light of what is past and invoques me.
    I open my hands in darkness. I touch the weft
    which emptiness on emptiness weaves love.
    From you comes the surprise that pains me,
    nocturnal. And I rummage in you, perched
    as a dove of pure shadows that corrode me.
    And I bite your abrasive silence,
    Absorb what flows, my love, I know I'm alive
    and I am your leap in me, suspended over nothing.


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    [Aeternus:10947] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-01-26)


    - Tolentino, Espinheira,Bueno...

    Há correções que já consigo fazer. Trocar um "everything" por "all" e, talvez, o verbo anoitecer ( que inventei como "to twilight") ser lido como "gloam".

    Seja como for, esta é só uma notinha para comentar como estes autores, agora Álvaro Mendes, conjugam o que é impessoal como se o Outro os engolisse. E, independentes, assim mesmo escrevem sobre morder, roer, noite e cosmos. E cometem o "morder o nada em tua fenda que me perplexa, fragmenta e desvenda" 

    Nem tanto ao céu, nem tanto à terra penso. A maioria das vezes do que se escreve acabo preferindo a oralidade das letras de samba, Caetano e Chico.


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    [Aeternus:10983] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-02-05)


    - Jansy ao alvorecer

    ...na verdade, não é bem alvorada. O dia já começou faz tempo. Mas tinha que arrumar um título e colocar meu nome de cara porque o Gallego se queixou que eu estava muito calada!  Calada, eu?
    Vai ver que meu nome sumiu neste anonimato (provisório, aguardo o webmaster para a próxima semana) dos visitantes.

    Hoje tive um instantinho de felicidade acompanhado de profundo desanimo. Tudo ao mesmo tempo. Depois voltei à neutralidade. 
    É que deixei de ser cidadã do primeiro mundo, sozinha para cuidar da casa, esfregar chão e lavar roupa porque... consegui uma empregada baiana. Voltei à posição feudal costumeira. 
    A mocinha, de uns vinte anos, parece uma camponesa dos bordados em linha azul, com holandesas segurando cangas com leite. Só que é morena, de sorriso largo e voz cantada, sem tranças ou touca branca.
    Veio para Brasília de um emprego num barzinho em Salvador no qual ganhava duzentos e vinte reais para carregar engradados de bebida e faxinar até as quatro da manhã. Tem a maior boa vontade e, ainda por cima, é alfabetizada, sabe ver horas, cozinha o básico. Não é perfeita? Pois é. Mas, temo, não vai dar certo.
    Ela interrompe tudo que se faz para conversar. Pegou o Humberto na televisão e pediu para sentar do lado porque estava se sentindo solitária na cozinha (tem televisão no quarto dela).
    Fica, arregalada, me rondando com espanador e vassoura e já me perguntou: " A Sra. é psicóloga? Trauma de infancia atrapalha a gente na vida adulta?"
    Hoje quase explodi com o fogão pois ela deixou um bico de gás aberto a noite inteira, sem querer...Quando fui acender - porque ela perdeu a hora e dormia ainda- foi um fogaréu na minha cara e só por milagre não me tosou os cabelos.
    É a doçura sorridente dela que me pega, como gatinha arteira que senta ronronando no colo da gente ou sobre os livros ou entre o teclado e o computador. O que fizermos vai ofender... E não dá pra fazer nada!!! Nunca passei por um problema parecido. Ela interrompe minhas instruções, adivinhando (errado) o que vou dizer, de modo que, velhota que sou, perco o fio e não lembro mais do que pretendia falar. 

    Gente, será que um arranjo tão ideal e bonitinho será desfeito antes mesmo do final de semana? Mas, pelo menos, tive um instante feliz enquanto dava um gole no café (frio, na chicara descasada do pires) ouvindo os bentevis cantando.


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    [Aeternus:10984] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2009-02-05)


    - RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

     Djízas Djansy...não deu para sentir o cheiro de gás antes de acender ?...CARAMBA !!!
    Outro dia acendi o óleo para fritar pastéis, resolvi outras coisas no quarto, e ao retornar o óleo pegava fogo.Tentei abafar, foi meio difícil, e no pequeno vão destampado, ao jogar água, a labareda subiu pelo teto da cozinha, apagando-se a seguir mas deixando tudo lambuzado e negro.
    Nada sofri, mas precisei limpar os ladrilhos, o teto, e pintá-lo depois.

    No buffet da Ana há funcionários estupendos, mas um ou outro são assim pra-lá-de-falantes.Enfim...ninguém é perfeito, né ?

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    [Aeternus:10985] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-02-05)


    - RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

    Não deu pra sentir o cheiro porque a cozinha é ventiladíssima, talvez por isso é que o acidente não foi mais grave. Tudo pegou fogo subitamente, em toda extensão, mas senti apenas o calor no rosto e estorriquei uns fios de cabelo. Então apagou, talvez pelo próprio sopro intenso com que se acendeu. 

    A baiana é, antes de tudo, uma pessoinha. Como é que a gente terá espaço pra mais uma no meio de tanto filho e neto? E do tipo basquete: joga a bola na sexta que cai no sábado. Vou tentar, minha preocupação é ignorá-la além da conta ( como é que às sete e meia da manhã, tomando o café (frio, como já disse) e ouvindo bem-tevis em fugaz felicidade, posso atender ao pedido que vem por trás da pergunta sobre se sou psicóloga?)

    Coitado de você com o incendio no óleo e o fumaceiro, teto preto, limpeza e pintura. Quando vi Kramer x Kramer do que mais me lembro era da cozinha suja que eles próprios tinham que limpar. Eu sou meio sistemática ( no colégio Bennett tinhamos aulas práticas de cozinha e economia doméstica, acreditam?) e vou usando e lavando. Quando a comida está pronta está praticamente tudo limpinho. A louça suja é empilhada por tamanho e os copos ficam de fora da pia...( as "secretárias" colocam tudo junto, deixam cair facas sobre os copos, engorduram o que não tem nada a ver e lavam,lavam,lavam sem parar o que nem estava tão sujo no início)

    Estou desmiolada, o aeternus é lá um lugar de se desabafar?  Pra disfarçar, dou uma dica: tem um livro ótimo sobre o princípio das coisas (o que é fermento, bicarbonato, porque bolos não sobem direito em altitudes elevadas, porque não colocar antes do alho a cebola, etc) Acho que é "A cozinha de Einstein".  Vou comprar pra baianinha.  Uma vez quis aproveitar o vapor de um macarrão que cozinhava e esquentar os legumes. A panela encaixou e criou pressão. De repente tudo voou pelos ares, inclusive o macarrão ( fantástico) que me cobriu toda, bem quente. Fiquei com as queimaduras mais engraçadas do mundo: eram todas tirinhas bem recortadas, com arestas e quadradinhos.


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    [Aeternus:10986] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2009-02-05)


    - RE:RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

    (se serve de consolo...)
    Ana detesta ouvir vozes ou intervenções pela manhã, ao acordar.Adora o café da manhã tranqüilo, sem intervenções.
    Uma vez solteirinho, fui desenvolvendo também minhas manias.Mantenho a cozinha toda limpa, mas tudo o que uso repetidamente deixo à mão ! Adoro essa praticidade, ainda mais sem precisar dar satisfações a ninguém - ser solteiro tem suas vantagens, sabem?

    Não pude deixar de rir aqui com a cena do macarrão.Pastelão à la Chaplin...

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    [Aeternus:10987] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-02-05)


    - RE:RE:RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

    A explosão macarronica era de videocassetada, tem razão. Mas nunca tinha visto queimadura quadradinha.

    As coisas aqui em casa são meio expostas por natureza (digo, natureza humana ou humbertiana): quase tudo fica pendurado em ganchos individualizados. O problema atual é a baianinha ser toda mignonzinha. Não consegue pegar as panelas penduradas sem subir nas cadeiras, escumadeiras e conchas de feijão.  Fotos de aniversário em que, da sala se pega um angulo da cozinha tem Barbies e brigadeiros com balões na frente e uma coleção de facas ao fundo...


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    [Aeternus:10988] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2009-02-05)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Jansy ao alvorecer / incêndio é fogo...

    A cozinha que me dá inveja á aquela de filme francês campesino, o casarão com uma mesa enorme de madeira sólida ao centro, onde se usa o que será preparado na ocasião.
    Facas penduradas, sim, panelas também.

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    [Aeternus:10989] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-02-05)


    - RE:Jansy ao alvorecer

    Jansy, que delícia seu relato ... Apenas o relato, não a situação, me entenda, por favor.

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    [Aeternus:10992] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-02-07)


    - baiana arretada e o quase incêndio

    Que estória sensacional ! Me agrada demais o talento romanesco da Jansy.

    Eu sonhava ser romancista, mas acho que não tenho (ou ainda não adquiri) a paciência necessária para as filigranas dos "causos".

    Bom fim de semana.

    Guto


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    [Aeternus:10993] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-02-08)


    - RE:baiana arretada e o quase incêndio

    Quem dera, Guto, existisse talento romanesco. São filigranas de "causos" e, no máximo, a habilitação permite se pensar em "cronicas".

    Hoje assisti novamente um filminho antigo "You Got Mail" ( Tom Hanks e Meg Ryan). Relembrei o barulhinho das conexões sendo feitas e a sensação de uma estranha intimidade à distancia. Gostei da pequena livraria se enfeitando para o natal e do passeio pelas estações do ano, terminando na primavera em Central Park. Ouvi com o mesmo prazer o comentário sobre as várias opções para um capuccino dando a ilusão de liberdade e de "self". Mas o resto ficou passado. O empresário que, no fundo no fundo, seria um homem comum e até bonzinho, por exemplo enquanto que a velha conhecida, tão amável, era amante do generalíssimo Franco... Das historias quase enternecedoras sobre infidelidades que, de fato, não tem a menor graça nem são inocentes. No filme havia um jornalista ( cronista com laivos pedantes de filosofia heideggeriana e cerejas a la Foucault) apaixonado pelas antigas máquinas de escrever e que, em suas cronicas, contava histórias sobre estas. Já pensou se eu inaugurasse capítulos sobre a baianinha ( que, infelizmente, não é nada parecida a uma máquina)? Porque nosso convívio é uma grande aventura ( ela já se queimou no forno, no fogão, com a panela e até com a tampa do arroz sendo que, a cada vez, era um pedaço diferente do corpo a área atingida: dedos, braço, cotovelo...) e já tive que levar "alivium" para suas dores de cabeça, disponibilizar arnica para as queimaduras... E, tadinha, ainda não tem para onde ir e fica aqui em casa, sem saber nem mesmo se locomover pela cidade ou ter uma imagem de onde está.

    Tive outra baiana mais interessante. Ela era uma fazendeira arruinada vinda de Jequié ( uma pronuncia única porque não tinha dentes).  Seus "causos" sobre a seca, a perda esturricada do pasto, o gado sentindo o cheiro de água que a prefeitura enviava em caminhões pipa e mugindo a noite inteira de sede com o focinho levantado para as caixas d' água, mais as súbitas enchentes e, novamente, o gado morrendo, agora de disenteria, quando se precipitavam para a água, defecavam nela e bebiam a mistura... De cortar o coração. A história das crianças que morreram... tão terríveis que apaguei. Ela contava tudo serenamente e eu ficava uma pilha. Mas era ela quem lidava com a coisa e eu, agitada, não fazia coisa alguma...  


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    [Aeternus:11519] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-09)


    - utilidade publica comprovada

    Hà uns tempos recebi uma email com recomendações dos bombeiros a respeito de incendios. Pude comprovar a veracidade de uma das dicas agora há pouco.

    Faço café usando coador melitta que deixo esperando, com filtro e pó, num banho-maria enquanto ao lado fervo água numa chaleira. Deixei tudo ligado e fui atender o telefone, tendo demorado um pouco além do que devia. Cheguei na cozinha e havia uma fogueira em cima do fogão.  O coador de "plástico" revelou-se como sendo algum combustível em forma sólida e, com o calor, derreteu ao longo da jarra e no fundo da panela ( já sem a água do banho-maria) formando uma coluna de fogo constante e luminoso. Corri para desligar o gás e, lembrando da dica dos bombeiros, me contive e não joguei água por cima. Fiquei olhando as chamas que não pareciam diminuir em nada, sem coragem de abafaá-lo, com um pano de prato úmido, porque estava forte demais.

    Um visitante, ceptico (ou cético?), resolveu jogar um copo d' água, apesar da minha advertência. Puxa. Quase houve uma tragédia. O fogo cresceu até o teto e se alargou, quase lhe queimando o rosto.   Confirmei, pois, a dica: em caso de incendio com oleo ou outros produtos, no fogão, desligue o gás e, em hipótese alguma, jogue água. Quando possível, abafe com uma toalha umida.

    O meu espanto também se deve ao material de que são feitos os coadores Melitta. Não sobrou nada, o que restou de cinzas foi apenas o pó do café que, na verdade, esparramou para outro lado e nem queimou direito.  O coador, como cera de vela, escorreu em torno da jarra e serviu de agente para flambagem. Imagino que a fumaça (não vi fumaça escura nem nada, como também esperava encontrar) deva ser tóxica. Ligamos o exaustor... 

    Que susto. E se eu tivesse demorado mais, sem desligar o gás, a coisa podia ter sido bem pior.  

    Quando pegava fogo no terreno ao lado da minha casa (não havia quase nada construído em volta quando me mudei para ela, só mato que ficava esturricado na época da seca) eu sabia apagar usando balde de água, sem ser para jogar água... A gente molha a vassoura ali dentro e vai sovando os focos, mergulhando de novo a vassoura, sovando mais... Eu sabia que só o ar que se desloca quando se lança a água (que nunca é suficiente, num balde) aumenta o fogo.  

    Mas o tal do filtro de plástico ser um combustível tão eficaz ainda me deixa de boca aberta: consumiu-se todinho.


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    [Aeternus:11535] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-05-12)


    - RE:utilidade publica comprovada

    Jansy, não é a primeira vez que ocorre incidente dessa natureza em sua casa. Lembro-me de um relato recente em que o fogo por pouco não atinge a sua face. Valeu a recomendação do Corpo de Bombeiros. Não olvidarei.

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    [Aeternus:11536] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-12)


    - RE:RE:utilidade publica comprovada

    Coloquei os dois incendios nessa mesma lista, "Va Savoir"! O primeiro, com a baianinha desastrada (ela voltou para Salvador depois de tentar seduzir, de mau jeito, a dois dos seus patrões, numa dinamica curiosa em que operava o denegrimento da patroa, inclusive da cunhada que a acolheu inicialmente). O segundo, foi todo "mea culpa". Serve de aviso para evitar problemas maiores uma vez que a seca em Brasília, neste ano, será ainda mais brava do que o de sempre.

    Um outro quase incendio que aconteceu há uns cinco anos também foi surpreendente. Dei de presente para minha filha uma bola de cristal, como eram vendidas nas lojinhas de pedras semi-preciosas por aqui. Ela a colocou como peça decorativa em uma prateleira de madeira na sala de visitas, simpáticamente visitada pelo sol que lançava seus raios mais intensos por volta das dez da manhã.  E não é que a tal bola operou como uma lente e dirigiu os raios para a madeira da estante que começou a pegar fogo? Se tivessemos saído de casa, deixado as cortinas abertas e demorado a retornar, talvez o estrago fosse grande. Como vimos uma fumacinha e entendemos o que acontecia, retiramos a bola de cristal e molhamos a madeira, marcada com um pequeno círculo escuro desde então...   


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    [Aeternus:11538] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-05-12)


    - RE:RE:RE:utilidade publica comprovada

    ... e eu que pensei que a seca em Brasilia este ano seria mais amena ...

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    [Aeternus:11781] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-06-06)


    -

    JASMINE - Mãe Substituta - Exemplo de Amor Incondicional

    EM 2003, a policia de Warwckshire, Inglaterra, abriu um galpão de um jardim e encontrou ali um cão choroso e encolhido. Ele havia sido trancado e abandonado no galpão. Estava sujo, desnutrido e claramente maltratado. Num ato de bondade, a policia levou o cão para um abrigo próximo, o Nuneaton Warwickshire Wildlife Sanctuary, dirigido por um homem chamado Geoff Grewcock. Lugar este conhecido como um paraiso para animais abandonados, orfãos ou com outra qualquer necessidade. Geoff e a equipe do Santuário trabalharam com dois objetivos: restaurar a completa saude do animal, e ganhar sua confiança. Levou várias semanas, mas finalmente os dois objetivos foram alcançados. Deram a ela o nome de Jasmine, e começaram a pensar em encontrar para ela um lar adotivo, mas Jasmine tinha outras ideias. Ninguém se lembra como começou, mas ela passou a dar as boas vindas a todos animais que chegavam ao Santuário. Não importava se era um cachorrinho, um filhote de raposa, um coelho ou qualquer outro animal perdido ou ferido. Jasmine se esgueirava para dentro da caixa ou gaiola e os recebia com uma lambida de boas vindas. Geoff conta um dos primeiros incidentes: " Nós tinhamos dois cachorrinhos que foram abandonados numa linha de trem próxima. Um era um mestiço de Lakeland Terrier e o outro um mestiço de Jack Russel
    Doberman. Eles eram bem pequenos quando chegaram ao centro e Jasmine aproximou-se e abocanhou um pelo cangote e colocou-o em uma almofada. Aí ela trouxe o outro e aconchegou-se a eles, acarinhando- os, mas ela é assim com todos os nossos animais, até com os coelhos. Ela os acalma e desestressa e isto os ajuda, não só a ficarem mais próximos a ela mas também a se adaptarem ao novo ambiente". " Ela fez o mesmo com filhotes de raposa e de texugos: ela lambe os coelhos e os porcos da Guiné e ainda deixa os pássaros empoleirarem-se em seu nariz"
    Jasmine, a tímida, maltratada, pária abandonada, tornou-se a mãe substituta dos animais do Santuário, um papel para o qual ela nasceu. A lista de jovens animais dos quais ela cuidou inclui cinco filhotes de raposa, quatro filhotes de texugo, quinze galinhas, oito porcos da Guiné, dois cachorrinhos e quinze coelhos. E um cervo montês. O pequeno Bramble, com 11 semanas de idade, foi encontrado semi-consciente em um campo. Na chegada ao Santuário, Jasmine aconchegou-se a ele para mantê-lo aquecido e assumiu inteiramente o papel de mãe substituta. Jasmine cumula Bramble de afeição e não deixa que nada lhe falte. " Eles são inseparáveis", diz Geoff. " Bramble anda entre suas pernas e eles ficam se beijando...Eles passeiam juntos pelo Santuário. É um prazer vê-los". Jasmine continuará cuidando de Bramble até que ele possa voltar a viver na floresta. Quando isto acontecer, Jasmine não estará sozinha. Ela estará muito ocupada distribuindo amor e carinho ao próximo orfão ou à próxima vítima de abusos e maltratos.
    ________________________________________

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    [Aeternus:11782] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2009-06-06)


    - RE: Lei do Pai

    O vídeo é de arrepiar.

    Um vídeo descoberto por policiais da divisão antisequestro da Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais) mostra um homem suspeito de liderar uma quadrilha envolvida em um sequestro em Santa Catarina ensinando ao filho e a uma sobrinha "técnicas" de como realizar um assalto.No vídeo, encontrado na casa da camareira, o suspeito "treina" o filho, de quatro anos, e a sobrinha, de menos de três, para o crime, com uma arma de brinquedo. Eles são obrigados a exigir dinheiro de uma boneca, que é feita de "vítima". Borba ainda incentiva ameaças e ensina a agredir a boneca com coronhadas.


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    [Aeternus:12018] Mensagem do Grupo34
    -Omar(2009-07-28)


    - Cartoon of the week (The New Yorker)

    To be AND not to be, that's the fucking question!??

    Cartoon of the Week


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    [Aeternus:15575] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2010-12-22)


    - Jansy posta artigo sobre Freud, de 1952 (excertos)

    Sigmund Freud  W.H. Auden  October 6, 1952 


    Today, thanks to Freud, the man-on-the-street knows (to quote by an inaccurate memory from Punch) that, when he thinks a thing, the thing he thinks is not the thing he thinks he thinks, but only the thing he thinks he thinks he thinks... It always comes as a shock to me to remember that, when Freud was born, The Origin of Species had not yet appeared, and that he was in his fortieth year before he published his first “Freudian” papers...The great dramatic interest of the second half of the nineteenth century lies in the fact that, at the very time when the scientific advances which were being made in the natural sciences like chemistry and biology seemed to suggest that all reality might ultimately be explicable in terms of quantity and necessity, the development of society was making the notion of any relation of the good and the beautiful to matter peculiarly repugnant. One cannot read either the scientists or the naturalistic novelists of the period without feeling, in the very passion with which they assert that man is only an animal...the same horror as was exhibited by their Episcopal opponents. Freud ...the very man who has done most to free us from a Manichaean horror of sex quotes more than once, with an unmistakable shudder of distaste, the Church Father who pointed out that we are born inter urinas et faeces...But Freud is a clear and beautiful example of a revolutionary thinker--it probably holds good for them all--who is much more revolutionary and in quite another way than he himself realizes. Had one asked a doctor in the 1880s and 1890s to forecast the future of psychology, he would almost certainly have replied somewhat as follows: It seems probable that we shall soon be able to describe all mental events in terms of physical events in the brain, but even if we cannot, we may safely assume:
    Like the human body, the human mind has a constant nature, typical for the species; individual variations are either pathological or insignificant...Mental development is like physical growth, i.e., the mind passes from a younger or earlier phase into an older or later one. This process can be arrested or become morbid, but two phases cannot exist simultaneously any more than an oak can be an acorn at the same time. The neuroses and psychoses must be typical diagnostic entities, identical in every patient. To discover a cure for one means to discover the procedure which is effective independently of the individual doctor or the individual patient. One has only to read a few lines of Freud to realize that one is moving in a very different world, one in which there are decisive battles, defeats, victories, decisions, doubts, where things happen that need not have happened and even things which ought not to have happened, a world where novelties exist side by side with ancient monuments, a world of guilt and responsibility, a world, heaven help us, that has to be described with analogical metaphors... In fact, if every one of his theories should turn out to be false, Freud would still tower up as the genius who perceived that psychological events are not natural events but historical and that, therefore, psychology, as distinct from neurology, must be based on the pre-suppositions and methodology, not of the biologist but of the historian. As a child of his age who was consciously in a polemic with the “idealists,” he may officially subscribe to the “realist” dogma that human nature and animal nature are the same, but the moment he gets down to work, every thing he says denies it. In his theories of infantile sexuality, repression, etc., he pushes back the beginnings of free will and responsibility earlier than even most theologians had previously dared; his therapeutic technique of making the patient re-live his past and discover the truth for himself with a minimum of prompting and interference from the analyst..., the importance of transference to the outcome of the therapy, imply that every patient is a unique historical person and not a typical case. Freud is not always aware of what he is doing and some of the difficulties he gets into arise from his trying to retain biological notions of development when he is actually thinking historically. For example, he sometimes talks as if civilization were a morbid growth caused by sexual inhibition; at other times he attacks conventional morality on the grounds that the conformists exhaust in repression the energies which should be available for cultural tasks: similarly, he sometimes speaks of dream symbolism as if it were pure allegory, whereas the actual descriptions he gives of the dreaming mind at work demonstrate that, in addition to its need to disguise truth, it has an even greater need to create truth, to make historical sense of its experience by discovering analogies, an activity in which it shows the most extraordinary skill and humor. In a biological organism...change is cyclical...; a normal condition is one that regularly re-occurs in the cycle, a morbid one is an exception. But history is the realm of unique and novel events and of monuments--the historical past is present in the present and the norm of health or pathology cannot be based on regularity.
    Freud certainly expected opposition and obloquy from the conventional moralists and the man-in-the-street for his theories about human sexuality; in actual fact, the general public took him to their bosoms... while the real opposition came and still comes from the behaviorists, the neurologists, and all the schools of psychiatry that regard their subject as a natural science and are therefore outraged by the whole approach of the psychoanalysts...In the long run, however, the welcome given to psychoanalysis by the public is based on a sound intuition that it stands for treating everyone as a unique and morally responsible person, not as a keyboard--it speaks of the narcissism of the Ego, but it believes in the existence of that Ego and its capacity to recognize its own limitations--and that in these days is a great deal. The behaviorists are certainly right in one thing; the human mind does have nature which can be tampered with; with a few drugs and a little regular torture every human mind can be reduced to a condition in which it is no longer a subject for psychology.Psychoanalysts and their patients may sometimes seem funny little people, but the fact that they exist is evidence that society is still partly human.



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    [Aeternus:16274] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2011-03-13)


    - momentos fatais

    Preparando-me para a viagem à Ásia, fico perplexa diante de tragédia qua assola o Japão. Uma cena que não me sai da mente: um carro com pessoas em desespero, pressentindo a morte iminente, sendo tragado pela onda assassina. Um verdadeiro horror! Mil pensamentos angustiados ... no words... cely

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    [Aeternus:16276] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2011-03-14)


    - RE:momentos fatais

    Apocalipse Now!

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    [Aeternus:16278] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2011-03-14)


    - RE:RE:momentos fatais

    (Jansy)  Há diferença entre o que as guerras promovem, como a filmada em "Apocalipse Now" e a tragédia asiática que agora engolfa o Japão, mas envia vapores para o norte da Europa e se associa a uma mudança no eixo de rotação do planeta. As previsões de São João (espero que  sua festa com bombinhas, balões e estrelinhas dos fogos aconteça por causa disso! Será outro João?) na ilha de Patmos (solo recem formado, sujeito as mesmas divisões que vemos no Japão hoje, talvez em outras partes do planeta craquelé amanhã...) seguem uma ordem. Não fui conferir se há coincidencias. É uma idéia tão cruelmente religiosa!

    E as tragédias se multiplicam em cada recantinho do mundo. Não há lugar seguro porque há gente pra todo lado, e os humanos são, apesar de tudo, uma ameaça permanente a somar-se ao geóide.


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    [Aeternus:16280] Mensagem do Grupo34
    -Visitante(2011-03-14)


    - RE:RE:RE:momentos fatais

    Tanta coisa de que Galeano nos fala, aos da geração "baby boomers" pelo menos, que vem dita com graça e precisã, com um toque histérico no jeito que ele conta, um exagero magoado.   No entanto, até isso faz parte porque duvido que outra pessoa, crescendo naquela era dos garrafeiros e meia-solas, com fraldas de pano e sacolas de feira listradas carregadas no braço com sulcos onde as alças se intrometem, não tenha ganas parecidas.Estou me segurando aqui...

    Até gosto das fraldas descartáveis. Fiz uma viagem de fusca, do Rio a Brasilia com meu filho mais velho, então com um ano. Ele teve diarréia e não havia estoque suficiente de fraldas limpas e, na estrada, nenhum lugar para lavar e secar as que carregavamos, cheirosíssimas. Num trecho menos ermo da estrada daquela época, uma casinha pareceu acolhedora. Com boa vontade foram buscar água no corrego para a lavação das fraldas. E eu, mais atrapalhada e envergonhada do que nunca: não havia água corrente, como dar conta de lavar fraldas numa bacia que, a duras penas, foi enchida com água? No final, deu-se um jeito e pendurei tudo do lado de fora para secar. Uma hora depois, fraldas duras como em gesso vermelho, não mais desfraldadas, esperavam que as sacudissemos e espancássemos para livrá-las da poeira e poder usar novamente. Mas, olha só, uma coisa assim não era cotidiana. Acabou sendo uma aventura e uma lição. O resto do tempo, era até bonito ver o varal cheio, recolher, passar uma a uma e colocar numa cestinha de vime. As mamadeiras eram outro problema, de vidro, pesavam muito e não podiam ser seguradas pela criança ou apoiadas num travesseiros: era preciso empunhá-las e apoiar o bebê gostosinho no colo...

    Até gosto de isqueiro Bic, que não tem cheiro de querosene nem dá trabalho. Canetas, idem. Sem aquela rotina, que tinha seus encantos porque pertencia a um tempo da serenidade e das delicadezas, de mata-borrão e tinteiro, mãos com manchas, lenços azulados. Da cola cascolar que não derretia com água e dava para fazer desenhos sobre as réguas, que endureciam e ficavam transparentes... Ou do cheiro da goma-arábica quando colava figurinhas nos albuns,. das conversas com os jornaleiros, padeiros, quitandeiros, sapateiros. Mas perder tudo isso não me incomoda.  Hoje o que me amola muito é não ter mais uma "vitrola" mas  "um conjuinto de som" que vem com botões, caixas separadas, recursos ao infinito, um quebra-cabeças de montar e haja fio que gato come, vassoura arranca, caixa que pifa. Só que essa maçada é para idosos como eu, jovens se dão muito bem mais os acoplamentos com TV e Ipad e Ipod e gravadoras que ainda servem para telefonar ou acessar a internet. Não...não me queixo disso, mas ainda bem que não preciso ficar atualizada e até aguento ir desistindo de ouvir musica (só no carro que me realizo! Poucos botões...)

    A reclamação pertinente, mais do que todas, é do abuso do plástico e da quantidade de lixo que se produz mesmo tentando evitar embalagens predatórias. Tudo vem com isopor ou PVC, em várias camadas. Não há como escapar do lixo. Os livros vem dentro de plásticos, as revistas, os jornais. O presunto, a carne, a fruta.  É irresponsabilidade demais. Fora ter que conviver com o artezanato com garrafas pet que permitem joias de criatividade natalina das mais deprimentes, ou macetinhos espertos que a gente passa adiante porque são chatinhos de aplicar.   E o negócio da troca dos carros que faz com que estejamos praticamente pagando aluguel para viver, em estado permanente de endividamento: se não trocar, perde dinheiro porque a coisa desvaloriza demais. Se trocar, haja financiamento para um aparente upgrade.

    Xi, estou reclamando igual. O mundo me ultrapassou, mas não quero saltar fora ainda não. Hoje mesmo fui num armarinho e encontrei botões de todos os tamanhos e cores, bordadinhos que se prende nas roupas com o ferro de passar e miudezas de costureira. Tinha agulha e linha, lã e tecidinhos para bordar em cruz. A gente vai achando os cantinhos esquecidos e talvez, frequentando, eles durem um pouco mais. Ainda dá para ir ao banco, conversar com o caixa e o gerente! 

    Agora viajar...ai. Tiquetes eletronicos, check in automático, todos sabidinhos entendendo os avisos e eu me sentindo uma imigrante grega numa terra desconhecida, tropegazinha e cega...Já viram os novos quartos de aeroporto, caixas com senhas que você aluga para dormir e que tem de tudo que demanda automatização e botões? Uau. Terei que dormir nos bancos e, se der sorte, consigo destampar a água mineral. Ainda bem que não temo o ridículo e vou enfrentando as fobias (pois é). 


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    [Aeternus:16433] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2011-04-10)


    - Duas aproximações da tragédia

    RENATO MEZAN, PSICANALISTA,  PROFESSOR TITULAR DA PUC-SP.
    AUTOR DE "FREUD - A TRAMA DOS CONCEITOS" (Ed. PERSPECTIVA)
    e
    Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ



    Renato Mezan - O Estado de S.Paulo

    O que se passa na mente de um desequilibrado como Wellington Menezes de Oliveira, que ganhou seus 15 minutos de fama assassinando crianças na escola em que estudou? Não se pode saber com certeza, porque nessa esfera de questões não existe prova irrefutável. Contudo, baseando-nos em fatos conhecidos e em declarações do sujeito, é possível chegar a algumas hipóteses pelo menos plausíveis.

    No caso que consterna o País, as informações disponíveis até o momento permitem supor que o rapaz carregava no íntimo uma imensa angústia, com a qual procurou lidar criando um sistema delirante que funcionou por algum tempo, mas acabou por se esboroar sob a pressão de fantasias extremamente ameaçadoras, das quais dão alguma ideia a carta que deixou.

    Ela está redigida em longas frases, pontuadas só por vírgulas. As ideias se sucedem como em jorros, e é visível um desespero crescente, manifestado na extensão igualmente crescente dos parágrafos.

    Não se trata, é óbvio, de erro de redação: o pensamento tentou se focar, porém a angústia era tão avassaladora que acabou se sobrepondo ao esforço intelectual para a dominar. A repetição dos temas, e um certo grau de incoerência na escrita, dão testemunho desse fracasso.

    Do que Wellington tinha tanto pavor? Nada deixa pensar que fosse de extraterrestres, do Juízo Final ou de outras coisas frequentes em delírios paranoicos. A abertura falando das "mãos impuras dos adúlteros", o pedido para ser lavado (das suas próprias impurezas?) e envolvido num lençol branco, as referências à castidade, sugerem que era a sexualidade que ele temia, e em primeiro lugar, como assinalou Barbara Gancia na Folha de S. Paulo, da sua própria. Sexualidade que, a julgar pela menção enfática a sua virgindade, não chegou a ser exercida com outrem.

    A solicitação para ser enterrado ao lado da mãe nos dá uma pista sobre qual poderia ser o objeto dela. Tudo indica a existência de poderosas fantasias incestuosas, das quais talvez o rapaz tivesse algum vislumbre consciente. Que não se trata de piedade nem de amor filial comum, como poderia ser o caso em outras circunstâncias, pode ser deduzido da convocação ao "fiel seguidor de Deus", no masculino, cuja prece ao lado das duas sepulturas (pois uma ficaria junto à outra) teria o condão de o fazer ser perdoado "pelo que fez". A meu ver, isso não alude ao crime que pretendia praticar, mas aos desejos incestuosos, e o "seguidor de Deus" seria o pai de Wellington - ou, como este já falecera, um representante dele.

    A menção aos animais ressalta que são "desprezados" e "não podem trabalhar para se sustentar". A escolha dessas características inusuais faz pensar que os bichos são uma personificação do próprio Wellington, que possivelmente se desprezaria e odiaria por seus sentimentos "pecaminosos", e se demitira do emprego meses atrás. O apelo à generosidade das instituições parece dirigir-se a esses pais, cuja vontade ele quer cumprir: teriam a intenção de lhe deixar a casa de Sepetiba, e os familiares deveriam acatar tal intento. Ou seja, ele pede a estes que o ajudem a cumprir o desejo dos pais: ao ceder a casa a uma dessas instituições, estariam reconhecendo que pertencia a Wellington, com o que se realizaria a (suposta) vontade deles de que ele a herdasse.

    A referência aos pais e à obediência filial aponta para o medo do superego, que na psique é o representante da autoridade parental. Como Wellington era um paranoico, o receio que todos temos da punição por nossos desejos edipianos tomou nele um matiz muito mais feroz que nas pessoas comuns. Sua timidez, o recolhimento em que vivia, a docilidade do seu caráter - era pacato e obedecia sem dificuldade aos superiores, lê-se na imprensa - podem ter sido tentativas de aplacar esse censor interno, mas, como acabou se revelando, nada disso foi suficiente.

    O embate entre impulsos impossíveis de serem reconhecidos e elaborados e uma instância mental que os condenava sem apelação foi se avolumando até se tornar insuportável. O "mau" que o rapaz julgava abrigar em si não podia mais permanecer dentro dele: precisou ser expulso, literalmente projetado sobre alguém como ele - daí, possivelmente, a escolha dos alunos da escola em que estudara. É provável que tenha sido na puberdade que o conflito edipiano tenha se acentuado na mente de Wellington: se assim for, compreende-se que o tenha deslocado para adolescentes, nos quais procurou eliminar o que não conseguia mais suportar em si mesmo.

    Ao mesmo tempo, a "gravidade" dos seus "pecados" os tornava imperdoáveis: era preciso punir-se por eles, como os pais o teriam feito se estivessem vivos - e, paradoxalmente, no lugar deles (identificação) e antes deles (triunfo). O suicídio se apresenta então como a única via para tal fim: com o sacrifício da vida, talvez esperasse aplacar a ira dos pais e - mais uma vez paradoxalmente - unir-se a eles numa espécie de cena primitiva macabra (o pai rezando ao lado da cova/leito que partilharia com a mãe).

    Essa reconstrução dos processos psíquicos que podem ter levado Wellington a um crime tão hediondo é, repito, apenas conjetural. Ela não pode, é claro, trazer de volta as vítimas da sua loucura; pode no máximo ajudar-nos a compreender por que ele o praticou. Mas o horror que nos assaltou ao tomarmos conhecimento do que ele estava fazendo mostra mais do que compaixão pelas vítimas: penso que se deve ao receio de, por termos sido na infância pequenos Édipos, um dia nos vermos atirando em inocentes depositários das nossas angústias. Embora (se formos "neuróticos normais") não precisemos recorrer às mesmas defesas psicóticas que esse moço teve de mobilizar, no fundo somos tão humanos quanto ele - e o desfecho trágico da sua loucura deve nos fazer pensar na nossa própria violência, que por se exercer por meios mais sutis não deixa de ter semelhança com a dele.

            Chacina na escola de um tempo pós-liberal
    07/04/2011 
    Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

    Por quê ? Por quê ? Após uma tragédia como a da escola de Realengo, esta é a questão. Por que as coisas ocorreram como ocorreram? Por que o ex-aluno se tornou o atirador que provocou a chacina?  Algumas dessas perguntas são importantes como perguntas retóricas. Fazem parte do processo de luto que já se inicia. Outras perguntas desse mesmo tipo não fazem parte do luto, são feitas por pessoas não próximas do evento, que querem entender e criar condições para que situações assim não ocorram. Ambas são importantes.  Mas, o luto é o luto; e as perguntas para prevenir, são as que pedem resposta.

    A pior resposta é aquela que aponta para a “loucura” do atirador. Louco é louco. Quando dizemos que alguém foi possuído pela insanidade e atirou em outros, criando uma chacina, não dizemos absolutamente nada. Ou melhor, dizemos exatamente o que queremos ouvir: estamos diante do inevitável, pois ninguém pode saber quando alguém que, se parecendo depressivo ou solitário, irá sair disso para a “loucura propriamente dita”. Falando assim, tiramos dos ombros nossos e de toda a sociedade qualquer peso.

    Outra resposta ruim é aquela que encontra na escola a culpa de tudo. A escola, que na verdade é vítima, é responsabilizada pelo crime. Os professores e diretores são, então, responsabilizados pelo fato de que um aluno, num ano indeterminado, sofreu bullying, e então voltou um dia para a vingança. Essa resposta é pior que a da “loucura”, pois ela também gera a inércia que se põe na vala do que precisamos para nos safarmos de qualquer responsabilidade, nós que não somos os professores daquela escola.

    Afinal, quem é que vai conseguir saber, não sendo professor lá, quando é que alguém que passou por bullying irá voltar? Aliás, em um determinado nível, a própria escola pode também não querer nem mesmo pensar no assunto, pois pode argumentar algo assim: como que é possível identificar quem sofreu bullying? Quem sofre o bullying é o silencioso, e a escola está preocupada com o “barulhento”, o “indisciplinado”, o que provoca o bullying. Não se muda essa cultura tão fácil. E, afinal de contas, ninguém quer marcar quem sofreu bullying, tudo é feito para que isso não vire um trauma, que seja esquecido. Ou esquecido seriamente ou simplesmente esquecido através da “vista grossa”.

    Mas uma resposta melhor é que viria da investigação de outros elementos que criam o autor de chacinas em escolas ou coisas do tipo. Um traço comum dessas pessoas é a solidão. Os atiradores são pessoas silenciosas, com uma vida esvaziada e, enfim, com algo que todos podem notar: são sozinhas. Mas são sozinhas de uma maneira especial. Não que não tenham parentes ou amigos. Não! A questão é que elas não dividem, não contam, não conversam, não trocam. Elas não possuem necessidade de atirar em alguém, elas têm é necessidade de se comunicar.

    Tanto é que todos esses crimes são cometidos por pessoas que deixam cartas para serem lidas depois da chacina ou, ainda, deixam mensagens na Internet ou em outros meios em que avisam o que vão fazer, inclusive expondo motivos. Não importa se os motivos são inteligíveis ou não. Ou se são verdadeiros ou não. Ou se são trágicos ou não. A questão não é essa. Pois tudo isso é secundário. O ponto central é que a solidão e a falta de poder se comunicar, trocar informações e, enfim, ser ouvido, é o que está na base das motivações que geram o atirador que cria chacinas.

    Por isso é que esses tipos aparecem mais em sociedades de massa. Os Estados Unidos e a Europa, onde todos estão com todos e, no entanto, muitos, estando com todos, estão sozinhos, são lugares onde é fácil que existam pessoas propensas às chacinas. O Brasil já é uma sociedade de massas e, por isso mesmo, também tem visto as chacinas ocorrerem. O caso da escola de Realengo não é um fato isolado. Mas, pelo número de mortes, foi para a TV, se igualando aos casos desse tipo no exterior.

    Todavia, quem acompanha a vida de perto sabe que a sociedade brasileira está vivendo tal coisa já há algum tempo. À medida que os jovens brasileiros puderem adquirir armas com a facilidade com que os jovens americanos as adquirem, essas chacinas serão mais espetacularmente parecidas com as dos países mais desenvolvidos. A base motivacional será, no entanto, a mesma: solidão da sociedade onde todos estão com todos o tempo todo.
    A solidão do excesso de não solidão.
    Ninguém pode mais ficar entre seus livros, na sua biblioteca, consigo mesmo – como o filósofo Montaigne dizia que ele adorava ficar. Essa solidão verdadeira, saudável, não existe mais. Na nossa sociedade a solidão é provocada pelo excesso de contato que, enfim, cria a sensação de que deveríamos ser populares, vencedores, estrelas de TV e, no entanto, não temos ainda o contato de troca como gostaríamos de ter.

    Numa sociedade liberal e moderna, mas não ainda uma sociedade de massas, o que se pede aos indivíduos é que tenham as suas relações com um grupo de amigos, familiares ou de namoros. Mas numa sociedade liberal e moderna de massas, o que se exige dos indivíduos é que eles tenham um número de relações tão grande quanto o das celebridades dessas sociedades. Todos são estrelas. Devem ser estrelas. Precisam ser reconhecidos como estrelas. Precisam ser ouvidos e ganharem em trocas comunicacionais. Caso isso não ocorra, então, a saída é a destruição dessa sociedade. Se a sociedade é grande demais, eu, que sou o frustrado dessa sociedade, preciso ao menos destruir o meio mais próximo que a representa ou a representou na minha vida – a escola é um bom lugar para tal. Nesse caso, a destruição é o momento de não-anonimado. É o momento do fim da solidão. O momento da troca. A troca da dor. O contato e a vitória aparecem nessa troca. A troca da violência é, antes que vingança, um ato de solicitação da conversa. Quero ser ouvido, visto. Quero ser um indivíduo que tem um grande Facebook, que possa ser amado. Sou alguém que não é um lixo, um solitário. Ao menos na hora da minha morte.

    Quando entendermos filosoficamente esse recado, talvez não possamos fazer muito pelas escolas a não ser colocar guaritas. Mas estaremos entendendo muito do que faz aparecer o autor de chacinas como a da escola de Realengo e, também, chacinas e comportamentos de banditismo em regiões pobres, ligados ou não ao tráfico de drogas. Há no banditismo em geral esse elemento de espetacularismo de quem precisa sair do anonimato. Quando entendermos isso filosoficamente, vamos entender muito do que temos construído como sociedade liberal moderna de massas ou, se quisermos, como uma sociedade pós-liberal ou pós-moderna.

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    [Aeternus:16436] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2011-04-10)


    - RE:Duas aproximações da tragédia

    Muito boas as duas postagens feitas pelo Gallego, há um desenvolvimento dos argumentos que é pausado, quase contido. Ajuda ao leitor a pensar da mesma forma, desapaixonado e razoável.

    Como até agora não encontrei nada de relevante para dizer a respeito da tragédia de Realengo, de repente me sinto numa posição incomoda porque, confesso, apesar de tudo, nenhum dos textos me satisfez, particularmente o do Mezan (embora sua análise da carta, dos parágrafos cada vez mais longos, tenha nítida mestria e sensibilidade). Mas, se eu estou tão empobrecida que não consigo dizer nada, como é que vou achar ruim quem diz algo, com competencia e até um grau de sabedoria?

    Existem vários pontos pertinentes que poderiam ser destacados de cada um e, talvez, dê para alguém - ou eu mesma - faze-lo em breve, para que possamos debater um por um. Mezan, Ghirardelli Jr e outros são pioneiros numa conversa que precisa se estender durante muito tempo.

    Meu problema com o apanhado que ele fez começa pelo vocabulário complicado demais para a mídia para a qual se dirige. Segue pelo sentimento de impotencia que muitos analistas sentem quando se deparam com os limites do conhecimento sobre a mente humana e suas doenças e que é um fato, um osso do ofício, uma pedra no caminho que com o tempo poderemos ir movendo devagar. Muitos dos doentes mais graves, no sentido social, e que não manifestam sua patologia de modo gritante, são os que se esquivam dos tratamentos que lhes estariam disponíveis,precariamente ou não. O mais importante no texto do Mezan, aos meus olhos, está na humanização do rapaz, na inclusão dele entre os rapazes e moças do nosso mundo, talvez até alguém que pudesse ter sido "salvo" do gesto extremado por haver uma compreensão maior a respeito do sofrimento de indivíduos como ele.

    O texto do filósofo foi mais abrangente porque, já de cara, e discretamente anuncia que tragédias semelhantes vem acontecendo já tempos, em escala menor e que não atraem a mídia com a mesma força. Para mim, uma tragédia como esta no Rio se assemelha a tantas outras e destacar a mais próxima a um certo grupo de cidadãos [como, de modo semelhante, aconteceu na Holanda onde escrevem, perplexos, que "o país perdeu a inocencia" ( que inocencia é essa?) ] não deixa de ser um reflexo, manso, das mesmas forças que atuam nos crimes hediondos como esse: defender a própria turma, a familia, a cidade e ignorar o resto.  Exagerei, mas não vou deletar. Afinal de contas é impossível abarcar todos os horrores que nos cercam hoje e desde sempre, levá-los em conta, propor soluções que atendam em todos os casos, daí meu exagero. É natural, mas não é "bom", que sejamos mais afetados pelo que é "parecido com a gente" para ignorar oque é coisa "dos outros povos."

    O mais rico nos dois debates, embora me pareça que tenha sido o filósofo que o abordou mais diretamente, é a notícia de que nós precisamos nos comunicar, tentamos nos comunicar e muitas vezes fracassamos. Não é verdade que no mundo de hoje as pessoas não tenham tempo para estarem sozinhas refletindo como Montaigne, lendo livros, explicando lições aos filhos e pensando com eles. Essa anomalia dos facebooks, redes sociais de "convívio" ( convívio sem presença física, sem compromisso com corpo, sangue, suores?) e a monstruosidade do "twitter" não pode durar muito tempo e a meu ver não explica grande coisa sobre o que está ocorrendo com a "falha na comunicação humana."  Vou arriscar uma besteira. Esta é ainda a vantagem do Aeternus. Posso estar sendo injusta com os dois autores que li quase depressa demais, posso estar dizendo barbaridades, mas topo ouvir críticas (civilizadas) para aprender com minhas cegueiras. E, se eu temer dize-las, ficarão em mim sem correção.  Enfim, vamos à besteira ( tem duas). A primeira: as pessoas parecem se sentir cobradas a dizer coisas instigantes, dar furos jornalísticos, estarem por dentro das fofocas ou gozarem masoquisticamente porque não conseguem e então ficam emitindo sons e mandando beijos - e esta cobrança é algo doentio ( nisso os dois articulistas estão de acordo entre eles e o disseram melhor do que eu). A minha idéia: está nos faltando  uma forma primitiva de contato, conversa de bonde ou de avião, papo na padaria, receitas trocadas por cima da cerca. Está nos faltando um cotidiano partilhável em que alguém dá uma muda para uma pessoa que aprecia nosso jardim, ou se lembra de juntar latas de bebida prum velhinho que, como os antigos garrafeiros, sobrevive da sua venda. Falo isso porque tem um velho assim que passa na minha quadra e tento ter sempre latas para dar, nunca nunca dou dinheiro (me esforço para não dar) porque as latas são o contato dele com a rua, com as pessoas, com os vendedores. Tá faltando, pra nós, uma vida mais simples e uma conversa feito "dois dedos de prosa" logo esquecidos. Hoje as pessoas se cobram "assuntos" ou se sentem solitárias. Não é contato humano que falta na origem, é um espaço para abobrinhas mentais sem direção especial. "Reverie" (usando Bion) e não informação, cultura, assuntos...

    A segunda besteira é mais grave. Estava pensando no texto póstumo de Freud sobre as neuroses da humanidade decorrentes das grandes vicissitudes externas e a sequencia que ele fez, aproximando história e filogenia da ontogenia. Os grandes pavores com frios e cataclismas (paranóia ou histeria de angústia, não lembro), a necessidade de agrupamentos para proteção mutua com alguma ordem (neurose obsessiva) e coisas assim. É que uma das doenças da moda é a "bipolaridade" e... céus, históricamente, é o que acontece no mundo com as sociedades todo tempo. Basta contemplar uma tela de Brueghel: festeje hoje, coma bastante porque amanhã você pode estar morto ou não ter o que comer durante uma semana. E os ciclos naturais levavam as pessoas dos piores desastres aos festejos mais amplos, grupos inteiros pendendo prum lado e pro outro.  Realmente, as telas de Brueghel são as que mais me parecem descrever estes dois estados, fora a crítica à estultícia e aos vícios.

    Não tenho pretensão de outra coisa senão tentar levar adiante algo que vi nascer nas duas cronicas mas que outros podem levar adiante, precisam pensar adiante... Me desculpem pelo que parece arrogancia mas, de modo geral, escrever já é arrogante e ter um assunto, então... é um perigo que precisa ser trabalhado com cuidado. 


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    [Aeternus:16439] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2011-04-11)


    - RE:RE:Duas aproximações da tragédia

    Concordo com Jansy que o texto do Mezan, apesar das qualidades habituais como escrita psicanalítica, fica pouco alcançável para um publico mais amplo ou mesmo desinterssado das teorias edípicas. Como falar disso sem ser em um discurso "fechado"? Especialmente se foi isso que ele percebeu dentro do referencial psicanalítico? É complicado mesmo...
    O texto do filósofo é bem interessante quando fala da comunicação, ainda que seja a comunicação póstuma de uma vida patética e tão destrutiva em seu final.
    Mas essa tragédia ainda excede todas essas reflexões, tantos as mais pertinentes como as mais dispensáveis e gratuitas, que nada acrescentam. Aliás, o que se pode acrescentar de construtivo? Desarmamento? Ótimo, mas a natureza humana pode ser criativa para construir como para destruir; a fúria narcísica sempre providencia suas armas, sejam quais forem.
    A nossa ingenuidade, essa do nosso imaginário, nega a morte na juventude ou na infância como se fossem coisas fora da "ordem natural" - que não existe. Preciamos fazer "arrumações" mentais para tolerar a morte "natural", por doença, por acaso, e até mesmo por acidente. Vamos aceitando cada vez menos esse tipo de mortes aos montes e cortando a vida de pessoas jovens.
    Por outro lado, há uma tendência a nos "acostumarmos" com as centenas ou milhares de mortes violentas, "não-naturais", que ocorrem mais distantes de nós.
    Nosso egocentrismo (e não há outro jeito) incomoda-se mais agora porque isso tudo nos tocou mais de perto: neste país, nesta cidade.
    Mas se, por outro lado, ficarmos atentos às barbaridades e ditas desumanidades cotidianas espalhadas pelo mundo afora, tudo ficaria insuportável no viver cotidiano.

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    [Aeternus:16440] Mensagem do Grupo34
    -Marcos Florião(2011-04-11)


    - RE:RE:Duas aproximações da tragédia

    (...)está nos faltando  uma forma primitiva de contato, conversa de bonde ou de avião, papo na padaria, receitas trocadas por cima da cerca. Está nos faltando um cotidiano partilhável em que alguém dá uma muda para uma pessoa que aprecia nosso jardim, ou se lembra de juntar latas de bebida prum velhinho que, como os antigos garrafeiros, sobrevive da sua venda. Falo isso porque tem um velho assim que passa na minha quadra e tento ter sempre latas para dar, nunca nunca dou dinheiro (me esforço para não dar) porque as latas são o contato dele com a rua, com as pessoas, com os vendedores. Tá faltando, pra nós, uma vida mais simples e uma conversa feito "dois dedos de prosa" logo esquecidos. Hoje as pessoas se cobram "assuntos" ou se sentem solitárias. Não é contato humano que falta na origem, é um espaço para abobrinhas mentais sem direção especial. "Reverie" (usando Bion) e não informação, cultura, assuntos...

    Selecionei esse trecho de Jansy como ilustrativo da franca mudança do estado de coisas entre outros tempos e o pós-moderno.

    Não vou me alongar muito, prefiro usar um simples exemplo, vivido pessoalmente : o edifício de bairro onde nasci, passei infância, adolescência e vida de adulto jovem até meu casamento tem uma fachada ampla, com uma frondosa tamarineira à esquerda, e que dá para um páteo retangular que se estende em 'L' para os fundos da construção.

    Ali brinquei, ali fiz meus amigos afora os da escola.Após as obrigações estudantis jogávamos bola, brincávamos de jogos diversos, e nas noites alternávamos idas ao cinema do bairro, em geral, ou...simplesmente prosear à solta, nem que fossem "dois dedos" como dito aí no excerto.Bancos em pedra bruta esculpida serviam de assento, moldando a entrada do prédio.

    Por vezes um simpático vizinho agregado nos convidava para um ping pong na garagem de sua ampla casa pouco adiante.

    Haviam passantes ao mesmo termpo estranhos e conhecidos, uma vez que sem sabermos suas identidades repetiam o trajeto diante de nós.Uma bela moça de generosas curvas,carregando uma pastinha escolar, provável aluna de supletivo, era alvo da cobiça dos mais atirados do grupo, e um deles mais chegado a folgazão não resistiu à tentação, certo dia, dirigindo-se à ela efusivo e dizendo em voz de excitação e desejo "Jussara!rs... - sabia o nome dela de alguma fonte...-...Jussarinha meu amor...vem cá, meu amor!" - e saiu atrás dela como um garanhão excitado, colocando-a para correr.A galera riu de montão com a cena.Em outra noite o pândego notou uma lagarta cabeluda e enorme subindo em sua calça, e apavorado retirou-a, diante do riso geral, para tentar livrar-se do bicho.

    Outros gostavam de samba e cantavam sucessos ou enredos de Carnaval, a noite fluía entre assuntos ao acaso.Tomávamos sorvete numa pequena loja da rua ao lado.A portaria do prédio fechava às dez horas, quando a maioria se retirava para dormir.Um ou outro remanescia - quem estudava à tarde, ou nas sextas-feiras, quando o sábado livre acenava o lazer maior.

    Anos adiante, pouco após eu ter casado e mudado em 1976 - desde que casou(1948)e até hoje minha mãe mora lá - com o banditismo e a agressão em assustadora alta, foi necessária a colocação de uma cerca bloqueando a entrada do prédio a estranhos.Talvez por impeditivos de lei esta foi encravada sobre os bancos onde sentávamos, liquidando com a possibilidade de alguém usar os bancos com comodidade.

    Atualmente não há mais grupos reunidos ali, quando preciso ir ao prédio à tarde ou à noite.

    O moderno play, como o do edifício onde resido, não abriga ninguém.Até 2ª ordem todos são suspeitos, é o que parece.Meu vizinho pode ser um psicopata ou serial-killer, como em vários filmes de terror que assistimos.Uma moradora daqui, residindo há uns 4 ou 5 anos com duas filhas, limita-se a acenar com a cabeça para todos os que com ela cruzam.Não forço a barra, não falo da previsão do tempo ou de alguma abobrinha só para puxar assunto, respeito sua postura - em minha fantasia deverá ter sofrido horrores nas mãos de algum parceiro que a deixou em perplexidade-eterna diante do cotidiano - e solidarizo no aceno.Pode-se ouvir até uma muriçoca voar no elevador se por acaso subirmos juntos.

    Perdeu-se enfim uma descontração que de ponto de partida em priscas eras se tornou jóia cada vez mais rara.As festas e eventos em geral trazem uma alegria de polipropileno, induzida à muque pelo som potentíssimo destinado a garantir o 'sucesso total' do encontro, nos últimos anos aditivado com a figura do 'animador' do evento.

    E assim nós vamos(vamos?) vivendo de amor.


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    [Aeternus:16441] Mensagem do Grupo34
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2011-04-11)


    - RE:RE:RE:Duas aproximações da tragédia

    Com novos dados sobre o atirador na escola, os apressados em dar "diagnosticos" psiquiátricos ou psicanalíticos na midia podem vir a se arrepender da pressa em aparecer pontificando suas verdades. Ideias delirantes de uma pessoa em surto psicótico? )Ou seja, um esquizofrêncio com alucinações auditivas, construções delirantes bem organizadas?) Ou um caso grave de distúrbio de personalidade, sem alucinações nem ideias delirantes, mas com uma coisa difícil de descrever porque bastande difícil de empatizar: um modo incomum (mais pecuiliar e pouco ou nada comunicável) de ser no mundo, de estar no mundo (por mundo leia-se a vida de relação com os outros).

    Tento aproximações insatisafatórias: a grande maioria de pessoas com um psiquisomo integrado sabe que se vê alguém chorando deduz que a outra pessoa está triste, sabe o que é tristeza, já experimentou tristeza, independente dos motivos que se tem para ficar triste, r e pode considerar, levar em conta a tristeza alheia. Pode ficar indiferente, não se meter, não perturbar; ou tentar aproximar-se, por curiosidade ou generosidade, etc,
    Se vemos gente correndo de um lugar, podemos imaginar que haja um perigo do qual tentam escapar, mas podemos corrigir a primeira impressão, percebendo que na verdade correm para um lugar, descobrimos que haverá um show grátis ou uma competição esportiva em um lugar ali perto, a poucas quadras e as pessoas estão saindo do metrô correndo mas apenas para conseguir um bom lugar.
    Enfim, há formas comuns de perceber as coisas.
    É mais fácil comentar as formas muito diferentes demais: delirantes, geralmente com certeza absoluta de perceber significados em fatos banais: uma pessoa chorando pode ser enetendido como dissimulação para uma intenção malévola de atacar o que está delirando; pessoas correndo estariam "certamente" atrás desse delirante, para fazer mal a ele; qualquer evento banal, como uma pessoa qualquer coçando o olho pode ser entendido com um sinal desta pessoa para outra que está fora do campo de visão, para uma ataque.

    No caso de distúrbios de personalidade grave não há exatamente essas ideias delirantes, mas haveria ideias supervalorizadas, ideias obsessivas graves (rígidas, recorrentes, não como na neurose obsessiva, hoje em dia chamada de T.O.C.), e mais amplamente, como base, uma visão do mundo e das pessoas diferente do comum, do compartilhável. Por exemplo, consideração pelo outro pode não exisitir em assassinos perversos ou em politicos que só pensam em usar bens comuns para enriquecimento pessoal, como mafiosos, traficantes, exploradores dos outros, etc. O outro só existe para seu prazer, sua ambição, podendo ser descartável. Não existe de fato o outro, só EU, meu interesse solipsista. Não há identidade no sentido de identificação (o outro sendo como eu e eu sendo assemelhado a ele) e muito menos empatia (quando percebo que há diferenças entre mim e o outro, mas tento compreender seus pontos de vista diferentes do meu).
    Também é dif´cil, senão impossível empatizar com estados delirantes ou com o modo de ser dos graves distúrbios de personalidade. A difrença pode ser abissal. Mas nem todos estes serão assassinos ou perversos. Podem ser inofensivos e sofrer muito mais em vez de fazer sofrer (esquizóides retraídos, narcisistas susceptíveis nada agressivos, ou mesmo paranóides que ficam mais assustados, recolhidos, "na defesa", do que partindo para o ataque - mas sem delirar extamente: a questão é que toda a sua inserção nos eventos, no mundo, nos relacionamentos é peculiar em relação ao que consideramos comun nos dois sentidos (comum no sentido de corriquiero, estatisticamente "normal" - e comum no sentido de comunhão, coisas que são comuns a várias pessoas)

    Não tenho mais tempo quase de prosseguir, tenho outras coisas para fazer, mas volto ao início sobre detalhes das cartas e diários do atirador da escola: culpabilização do próximo, ao usar os maus-tratos (bullying) que sofreu como "justificativa" para sua revolta desmedida; busca de um sistema religioso e/ou político-terrorista que albergasse de certa forma sua revolta e - quem sabe -suas ideias delirantes - ou deliroides - ou suprevalorizadas, ou ou ou...etc etc.
    Enfim, quanto mais detalhes, mais podemos nos aproximar de uma percepção adequada do estado mental do atirador. Ou não: quanto mais detalhes, mais complexidade e caminhos possíveis que se abrem para uma reconstrução hipotética do que se passava na mente deste sujeito.
    Horrível também é constatar que o episódio serviu de gatilho (apenas) para ataques ressentidos por aqui.

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    [Aeternus:16855] Mensagem do Grupo34
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2011-07-08)


    - Claudia Lucia encaminha...

    A presidenta foi estudanta?Existe a palavra: PRESIDENTA?

    Miriam Rita Moro Mine - Universidade Federal do Paraná.

     

    No português existem os particípios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante... Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha. Diz-se: capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".
    Um bom exemplo do erro grosseiro seria:
    "A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta por ter sido nomeada representanta.
    Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta".


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    [Aeternus:17744] Mensagem do Grupo34
    -cely bertolucci(2012-07-19)


    - formação em psicanálise à distância

    Será possível formar psicanalistas à distância? Não é iniciativa dos evangélicos, segundo entendo. Que maluquice é essa? Programa de formação em psicanálise - Agora também com turmas presenciais! Matrículas abertas para turmas presenciais às quartas às 09:00 ou quintas às 19:00 com início em agosto de 2012 / turmas EAD com grupos de estudos às terças-feiras às 08:00h ou às 21:00h (temos outros horários, inclusive aos sábados) com início imediato. São diversas atividades que juntas compõem o nosso programa de formação, como módulos de teoria psicanalítica, aulas ou grupos de estudo, conferências teórico-clínicas, estágio, supervisão e análise pessoal. Nosso programa segue o tripé psicanalítico estabelecido por Freud: conhecimentos teóricos, supervisão e análise pessoal. Aqui você encontra a qualidade de que precisa com a seriedade em relação à psicanálise, respeito ao aluno e ainda tudo com didática simples e descomplicada. Quando: turmas presenciais agosto/2012 e turmas EAD com início imediato. Duração: três anos Investimento: 36 X R$ 399,00 (EAD) ou 36 X R$ 499,00 (Presencial) Local do curso presencial: Rua Itapeva, 240, sala 103 - 1º andar Leia mais Aprofundamento Transformações e Invariâncias - Grupo de trabalho teórico-clínico em W. Bion A Escola Paulista em Psicanálise abre inscrições para o grupo trabalho teórico-clínico destinado a analisar a obra de W. Bion, bem como as suas implicações clínicas. Esse grupo será operacionalizado a partir de quatro eixos: a) Leitura sistemática da obra bioniana, iniciando a partir de “Estudos Psicanalíticos Revisados”. b) Aprofundamento e pesquisa das origens do pensamento e influências de suas obras, quer na psicanálise, quer fora dela. c) Analisar o impacto dos conceitos estudados na clínica contemporânea, bem como assuntos externos a ela mas que influenciem a sua prática, visando tornar o seu estudo atual. d) Utilização desses conceitos na clínica via supervisões em grupo mensais. Os encontros, sendo um encontro mensal destinado a supervisão clínica a luz dos conceitos bionianos. Os alunos serão incentivados à pesquisa e produção de artigos, motivo pelo qual esse trabalho se chama “grupo de trabalho”. Público-Alvo – Psicanalistas já formados. Duração – Encontros semanais de uma hora e meia sendo a primeira fase até 15/12/2012. Quando – Segundas às 20:00 ou quinta às 09:00 com às início imediato iniciando a partir de 7 participantes. Investimento – mensalidades de R$ 399,00. Certificação – o aluno receberá certificado com carga horária total de participação semestralmente. Pré-requisitos – conhecimento da obra kleiniana e ter no mínimo três anos de prática clínica. Coordenação – Ale Esclapes Leia mais Aprofundamento Conferências teórico-clínicas As conferências teórico-clínicas têm o objetivo de aproximar a teoria da prática clínica, fornecendo aos nossos alunos em formação uma fonte inestimável ao seu desenvolvimento - o acesso à profissionais que gentilmente vêm dividir sua experiência a partir de um tema específico. Veja abaixo a programação desses eventos que são gratuitos e exclusivos aos alunos em formação. Todas as conferências ocorrem ao vivo em nossa sala virtual e posteriormente ficam à disposição dos alunos em formação em nossa biblioteca virtual. . Cinco lições em psicanálise Essa série tem como objetivo fazer uma introdução à psicanálise através do próprio texto freudiano. A psicanalista Vera Garcia vai percorrer todos os tópicos dessa obra, de forma didática e sistemática, sendo essa série portanto, indicada àqueles que não possuem conhecimento dos textos psicanalíticos, ou mesmo para aqueles que desejam revisitar essa grande obra do mestre. Cronograma: 18/07 - Introdução geral 15/08 - Cinco Lições de Psicanálise – Histeria e hipnose 19/09 - Cinco Lições de Psicanálise – Repressão e resistência 17 /10 - Cinco Lições de Psicanálise – Interpretação dos sonhos e atos falhos 21 /11 - Cinco Lições de Psicanálise – Sexualidade infantil, perversão e Complexo de Édipo 19/12 - Cinco Lições de Psicanálise – Resumo / balanço das conferências . O ser adoecido Nessa série de conferências profissionais de diversas áreas são chamados para abordar um tema único, e no ano de 2012 o tema escolhido é "O ser adoecido". . 130 anos do nascimento de Melanie Klein Uma das grandes influências no ensino da EPP é sem dúvida alguma Melanie Klein. Para comemorar essa data, o psicanalista Ale Esclapes faz um balanço da obra dessa grande mestra, desde as suas primeiras publicações até os desenvolvimentos atuais de suas teorias. Cronograma: 14/08 - A análise de crianças 18/09 – A questão das posições esquizo-paranóide e depressiva 16/10 – A inveja na situação clínica 20/11 – A atualidade da clínica kleiniana Sempre às 20:30h em nossa sala virtual. Leia mais Veja também Próximas conferências 18/07 às 10h, em nossa sala virtual, com a psicanalista e professora da epp Vera Garcia, se iniciará o Ciclo "Cinco Lições de Psicanálise". Inscrições: faleconosco@apsicanalise.com Leia mais Veja também Aulas gratuítas no Vlog Conheça nossa didática e assista a alguns vídeos da escola paulista Psicanálise totalmente gratuito. Leia mais Veja também Quem somos nós A epp – escola paulista de psicanálise tem a missão de promover a formação de psicanalistas à distância. Leia mais Telefones: 0800-7711262 (11) 8596 8640 (Tim) (11) 7978 8645 (Oi) (11) 7055 7349 (Claro) (11) 7192 4725 (Vivo). www.apsicanalise.com | faleconosco@apsicanalise.com Se você desejar não mais receber nossa newsletter, Clique Aqui. Copyright © 2010 Escola Paulista de Psicanálise. Divulgação RedePsi Siga RedePsi pelo Twitter A RedePsi é um portal de psicologia de caráter formativo e informativo das atividades relacionadas a psicologia do mundo contemporâneo. Seu objetivo é servir como ponto de encontro de profissionais da área e interessados no assunto. Aqui você poderá obter e passar informações, conhecer pessoas, opinar e tudo que for relativo ao universo da psicologia e afins. Para se descadastrar clique aqui. Encaminhe este email para um amigo. Recebeu este email de um amigo? Inscreva-se na RedePsi News..

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