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Divulgação
Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus

  

Va Savoir avec Savoir


Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo:
  • Jansy Mello:
    com ou sem Arthur Miller, ressucitando Va Savoir

  • Marcos:
    Ladys & Gentlemen

  • Marcos :
    desculpem-me as ladies, but

  • Jansy Mello:
    Hipped hip Hurrah

  • Marcos:
    com o verniz da Jansy

  • Jansy Mello:
    misturando galhos com cornualhos

  • Jansy Mello:
    Mea Culpa

  • Jansy Mello:
    Kate Winslet

  • Marcos:
    de magníficas

  • Marcos:
    aqui segue, de novo, meu excerto

  • LFGallego:
    labirinto de listas e nomes

  • jansy mello:
    saurianos

  • Davy:
    Para Jansy

  • Jansy Mello:
    Baudrillard via Florião

  • Marcos:
    Kaufman, Miller(s) e mundo sem maneiras

  • Jansy Mello:
    ainda sobre caixeiros viajores...

  • Guto:
    Miller

  • LFGallego:
    I love Carlos Saura movies!!!!

  • LFGallego:
    ainda o Miller

  • jansy mello:
    como é mesmo o nome do médico alemão?

  • Marcos:
    cada craque à sua vez

  • Jansy Mello:
    Não é Deus quem tira...

  • LFGallego:
    Doces Momentos do passado

  • Marcos:
    ponto pro Saura

  • Guto:
    Anos dourados

  • jansy mello:
    notícia da AFP

  • Jansy Mello:
    Barbarie...

  • Guto:
    God bless Rio

  • LFGallego:
    concordo com Guto

  • Marcos:
    rabugices 2005

  • Marcos:
    Cara Helena III

  • Guto:
    Viva Rio !

  • Marcos:
    acertos gerais

  • Jansy Mello:
    Apocalypso do Rio

  • Jansy - A/C Cyro:
    óculos 3-D

  • Marcos:
    tem algum neto que não pareça contigo ?

  • Jansy Mello:
    tá na hora de introduzir...

  • Marcos:
    Ô Jansy,

  • Marcos:
    manipulações pra que te quero !

  • Jansy Mello:
    Florião lírico ensaísta

  • helena:
    choros

  • Jansy Mello:
    Helena e Di Caprio

  • Marcos:
    Gatsby em vinil

  • LFGallego:
    os artifícios e os clichês

  • Jansy Mello:
    continuo interpretando...

  • Marcos:
    interpretações e direcionamento

  • Marcos:
    ainda direcionando...

  • Jansy Mello:
    Lilith

  • helena:
    E Jornada da Alma?

  • helena:
    Poética

  • jansy mello:
    nossas modernadas jornadas ...

  • jansy mello:
    Viva Manuel Bandeira!

  • Marcos:
    Querida Helena

  • helena:
    Nova Poética

  • helena:
    meu ego agradece

  • Marcos:
    eu assisti um filme que comprei no sebo

  • Guto:
    Lilith

  • Jansy Mello:
    geral...

  • jansy mello:
    Achei um lilithxo pelo google, mas no meio, algo sério...

  • Marcos:
    acertos de (p)rumo

  • Marcos:
    Bauman e 'senso comum'

  • jansy mello:
    senso comum e bom senso

  • Marcos:
    deliciosas colocações, e...

  • Jansy Mello:
    Nabokov prescindindo da Glória?

  • Marcos:
    há um descompasso, então

  • Jansy Mello:
    a platéia de Nabokovs vendo Nabokov

  • Marcos:
    todos temos nossas manias

  • Guto:
    Nabokov

  • Marcos:
    Lolita

  • Jansy Mello:
    nem erguer nem raspar as sobrancelhas da fantasia...

  • LFGallego:
    para Helena c/ puxão de orelha na Jansy

  • Marcos:
    Curso de Exorcismo

  • helena:
    Sobre "Jornada da Alma"

  • jansy mello:
    vero cardápio portugues...

  • Guto:
    Nabolita

  • Jansy Mello:
    se não foi Felicidade, procure então Laços de Familia

  • LFGallego:
    Jansy: o que é "unwelt"?

  • Jansy Mello:
    Melindrosa? Eu hem...

  • Davy:
    Para Jansy

  • LFGallego:
    antes do simbólico

  • Marcos:
    a ilusão da imortalidade !

  • Marcos:
    a segunda deixa do Davy

  • helena:
    assaltos em São Paulo

  • Jansy Mello:
    certeza da imortalidade

  • Davy:
    Para Jansy

  • Marcos:
    Ô Galleguito

  • Jansy Mello:
    Consegui achar o filme nos cinemas daqui

  • Jansy Mello:
    Too close

  • jansy mello:
    alguém mencionou...?

  • LFGallego:
    intimidade, dez; privacidade, zero

  • Marcos:
    grato a Gallego e Jansy, e...

  • Jansy Mello:
    a barriguinha do Gallego

  • Jansy Mello:
    Psicopatas?

  • Jansy Mello:
    Davy ainda está vagando pela lista anterior...

  • Jansy Mello:
    recado especial pra Gallego e Davy

  • jansy mello:
    Closer, apanhado geral do discutido nas duas listas

  • Jansy Mello:
    será que é válida esta ordenação?

  • Helena:
    Barriga

  • LFGallego:
    as música de Closer

  • LFGallego:
    Para Alberto Hekel Tavares, para Davy e para Jansy (problemas no site)

  • Marcos:
    colagem e méritos

  • Marcos:
    Network

  • jansy mello:
    da barriga até o maravilhoso Cosi van Tutti

  • Marcos:
    Jansyta, cada um de nós

  • Jansy Mello:
    google search e visitantes inesperados

  • Marcos:
    eu chamei de perfeita a arrumação inicial

  • Jansy Mello:
    do caos ao cosmos

  • Marcos:
    essas Alices em queda livre...

  • Jansy Mello:
    Historietas

  • Marcos:
    para quem ainda vê alguma utilidade

  • jansy mello:
    a espátula de ouro do Bob Esponja!

  • Marcos:
    biografias, pra que te quero

  • Jansy Mello:
    Aviadores e Severinos

  • helena:
    Severino é o rei do "baixo clero"

  • LFGallego:
    voyeurismo, realidade e verdade

  • Jansy Mello:
    escritor obituarista

  • Marcos:
    percebendo e apercebendo

  • Jansy Mello:
    cinema e ficção

  • Marcos:
    Wilde e Davy

  • Jansy Mello:
    no rastro do barco

  • Marcos:
    esse limbo é fascinante

  • Marcos:
    ainda sobre os finais

  • Jansy Mello:
    já boliu?

  • Marcos:
    sonhos e Closer

  • Jansy Mello:
    De baldes e do sonho prolixo...

  • Marcos:
    Tape

  • jansy mello:
    Tape. Ping pong obsessivo

  • Marcos:
    no senso espaço

  • Jansy Mello:
    a longa noite, quem teme VWoolf...

  • Marcos:
    gadijetas & malacachetas

  • Jansy Mello:
    cache do que?

  • Marcos:
    siquêi !

  • Marcos:
    além de

  • Jansy Mello:
    no plano do enquadramento do aeroplano

  • jansy mello:
    não sei dos direitos autorais mas...

  • Marcos :
    sutileza e disparate

  • LFGallego:
    atores são gado?

  • Marcos:
    acho quase incrível

  • Jansy Mello:
    nariz de boxeur e cérebro de tenor

  • Jansy Oscar de Mello:
    Wilde

  • Marcos :
    he ain't heavy, he's my brother

  • Jansy Mello Jr.:
    maduridade

  • Marcos:
    tabelinha

  • LFGa:
    adorei a múltipla escolha

  • Marcos:
    O Raspberry

  • jansy mello:
    Berries

  • jansy mello:
    a representação do PS

  • Marcos:
    rescaldos

  • LFGallego:
    lamentávelmente

  • Marcos:
    Bauman, ficção e verdade(s)

  • Jansy Mello:
    retomndo o que ...vai saber...

  • Marcos:
    e o Bauman perfila Rorty junto a Goethe...

  • Jansyta Mello:
    tentativa de tradução

  • LFGallego:
    duas almas em um só corpo

  • Jansy Mello:
    todos caçadores de algum mim?

  • Jansy Mello:
    O insubstituivel Gallego

  • Marcos:
    tudo a ver, então...

  • Jansy Mello:
    o relativismo ateu de Rorty

  • Jansy Mello:
    ando um pouco precoce, benzinho...

  • Marcos:
    nosso queridíssimo Davy

  • LFGallego:
    não é letra.

  • Visitante:
    RE:não é letra.

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:sonhos e Closer

  • Visitante:
    extroversão e reversão

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:extroversão e reversão/ Tato é Visão à distancia

  • LFGallego:
    perigosa

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:extroversão e reversão/ saudosa maloca

  • Marcos-Alice:
    extroversão e reversão/ Tato é Visão à distancia

  • Marcos:
    por delicadeza perdi minha vida

  • Gallego:
    Tia Neiva e Tio Visitante

  • Marcos:
    Tia Neiva e Tio Visitante

  • Marcos:
    extroversão e reversão/ saudosa maloca

  • Marcos:
    desculpas públicas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Tia Neiva e Tio Visitante

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:desculpas públicas

  • Tio Vania:
    se eu soubesse dançar...

  • Gallego:
    copiar e colar

  • Titio Sukita:
    o ser e o nada e o ser a nado

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:copiar e colar

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:o ser e o nada e o ser a nado

  • Cyro Mello:
    RE:copiar e colar

  • Marcos:
    (im)pertencença(s)

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:(im)pertencença(s): impertinencias!

  • Marcos:
    dicen que la distancia s'enolvidò

  • Marcos:
    a Dama, Lacan, os signos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:a Dama, Lacan, os signos/ signos?

  • Mister Magoo:
    ô (?)Mulher

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:ô (?)Mulher/ Qui parle?

  • Marcos:
    de moldes e olhares

  • Marcos:
    onde começa a escravidão

  • Jansy Mello:
    Ao tio Sukita

  • Marcos:
    arte adequadamente pervertida ?

  • Visitante:
    RE:arte adequadamente pervertida ?

  • Marcos:
    RE:RE:arte adequadamente pervertida ?

  • Jansy Mello:
    RE:arte adequadamente pervertida 3

  • Marcos:
    RE:RE:arte adequadamente pervertida 4

  • Marcos:
    RE:RE:RE:arte adequadamente pervertida 5

  • Marcos:
    e se chama

  • Marcos:
    Bauman, identidades e especialistas

  • Jansy Mello:
    RE:Bauman, identidades e especialistas

  • LFGallego:
    RE:RE:Bauman, identidades e especialistas

  • Jansy Mello:
    RE:Bauman, identidades e especialistas, n. 3 para não dar risada

  • Marcos Florião:
    RE:RE:Bauman, identidades e especialistas, n.4 para os que ainda tem cabelos

  • Jansy Mello:
    RE:Bauman, identidades e especialistas, n.5 e carecóis

  • LFGallego:
    RE:RE:Bauman, identidades e especialistas, n.6

  • Jansy Mello:
    RE:Bauman, identidades e especialistas, n.7

  • Jansy Mello:
    RE pro PS de Bauman, identidades e especialistas, n.8

  • Marcos Florião:
    RE:RE pro PS de Bauman, identidades e especialistas, n.8

  • Jansy Mello:
    Bauman e Baudrillard

  • LFGallego:
    não fui injusto, mas ignorante

  • Jansy Mello:
    RE:não fui injusto, mas ignorante. Eu também me junto a sua turma

  • Jansy:
    ?Etologia para winnicottianos

  • Marcos Florião:
    RE:?Etologia para winnicottianos

  • Marcos Florião:
    enquanto os gatos se comportam como lordes

  • Davy:
    RE:enquanto os gatos se comportam como lordes

  • Jansy Mello:
    RE:enquanto os gatos, eu... se pudesse

  • Davy via Jansy:
    RE:Etologia para winnicottianos 3

  • Marcos Florião:
    triangulo com Davy e Jansy na corda bamba

  • LFGallego:
    são eu prá lá, eu prá cá

  • Marcos Florião:
    RE:são eu prá lá, eu prá cá

  • Jansy Mello:
    RE:são eu prá lá, eu prá cá 3

  • Marcos Florião:
    debulhando a Terra

  • Marcos Florião:
    RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 3

  • Jansy Mello:
    RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

  • Marcos Florião:
    RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

  • Marcos Florião:
    RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

  • Marcos Florião:
    RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

  • Jansy Mello:
    RE:eu prá lá, eu prá cá 6 de gagueira

  • Guto:
    "eu me vendo..."

  • Jansy Mello:
    RE: Vendidos, vendados e de olho grande

  • LFGallego:
    RE:de olhos bem vendados

  • Guto:
    vendidos e vendados e vistos

  • Marcos Florião:
    long live the Queen

  • Jansy Mello:
    RE:long live the Queen

  • Jansy Mello:
    Além do Por do Sol com Lamartine Babo

  • Marcos Florião:
    RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo

  • Jansy:
    RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 2

  • Visitante:
    RE:RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 3

  • jansy:
    RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 4

  • LFGallego:
    esse jogo não pode ser um a um?

  • Jansy Mello III:
    RE: não pode ser um a um ...para o que já foi dez?

  • Helena:
    Turma do silêncio se apresentando

  • Marcos Florião:
    queridos e maravilhosos amigos

  • Guto:
    Gallego, entre um artigo e outro...

  • Guto:
    RE:Gallego, entre um artigo e outro...

  • Luiz Fernando:
    Antes do amanhecer

  • Marcos Florião:
    RE:Antes do amanhecer

  • Jansy Mello:
    RE:Antes do amanhecer

  • LFGallego:
    Não fotografou? Dançou! Mas dançou mesmo?

  • Jansy Mello:
    RE:Não fotografou? Dançou! Mas dançou mesmo?

  • LF Gallego:
    RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 4 ou 5

  • jansy mello:
    enviando outra vez relatório sobre hospital por convenio

  • Marcos Florião:
    romantismo em petites coupures

  • Marcos Florião:
    solidarnosk

  • Marcos:
    ode aos motéis, artefatos de viajantes e psicanalistas

  • jansy mello:
    RE:ode aos motéis, artefatos de viajantes e psicanalistas

  • Marcos:
    RE:RE:ode aos motéis, artefatos de viajantes e psicanalistas

  • Conde Drácula:
    Deturpa-me com carinho, deturpa-me com paixão

  • jansy mello:
    RE:Deturpa-me com carinho, deturpa-me com paixão

  • Marcos:
    RE:Deturpa-me com carinho, deturpa-me com paixão

  • Marcos:
    Antes da Chuva

  • Márcia Adorno:
    Do sentir ao ato

  • jansy mello:
    RE:Do sentir ao ato: poetico e pungente testemunho da Marcia

  • Marcos:
    RE:Do sentir ao ato

  • jansy mello:
    RE:Do sentir ao ato 3

  • Marcos:
    RE:RE:Do sentir ao ato 4 : Todorov rides again

  • jansy mello:
    RE:Do sentir ao ato 4 : Todorov rides again 2

  • Marcos:
    RE:RE:Do sentir ao ato 4 : Todorov rides again 3

  • Marcia Adorno:
    Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo

  • Marcos:
    RE:Do sentir ao ato - a gargalhada no claro

  • Marcos:
    RE:RE:Do sentir ao ato - a gargalhada no claro : a tempo, Marcia

  • jansy mello:
    RE:Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo

  • Marcia Adorno:
    Estações

  • Marcos:
    RE: posso te ter como correspondente ?

  • Conde Drácula:
    RE:RE:Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo

  • jansy mello:
    RE:Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo e mais ainda

  • Conde Drácula:
    RE:Do sentir ao ato - Paul Bowles

  • Marcos:
    RE:RE:Do sentir ao ato - Paul Bowles voltado para a lua

  • Conde Drácula:
    RE: Outras estações

  • Davy:
    RE:RE: Outras estações

  • Marcos:
    RE:RE:RE: querido Davy

  • Davy:
    RE:RE: Outras estações - II

  • Marcos:
    RE: Davy, pergunta-mor !

  • jansy mello:
    Encabeçando...

  • jansy mello:
    RE:Encabeçando...

  • Davy:
    RE:RE: Davy, pergunta-mor !

  • Marcos:
    RE:RE:RE: Davy, pergunta-mor ! - agradecimento

  • Conde Drácula:
    RE:RE:RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

  • jansy mello:
    de novo no começo, porque não achei a metamorfose ambulante

  • jansy mello:
    boa notícia para constar em alguma das listas...Ponte das Garças

  • jansy mello:
    RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

  • jansy mello:
    RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

  • jansy mello:
    RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

  • Conde Drácula:
    Vaticano barra ordenação de gays

  • jansy mello:
    RE:Vaticano barra ordenação de gays:foi fondo

  • Conde Drácula:
    1 em 4

  • Conde Drácula:
    RE:RE:Vaticano barra ordenação de gays: foi fondo & HABEMUS PAPAM

  • Visitante:
    Melhor não conhecer quem você ama?!

  • Visitante:
    RE:Melhor não conhecer quem você ama?!

  • Visitante:
    Palavras de Amor

  • jansy mello:
    tomando emprestado de outro sit: Bresson

  • jansy mello:
    mais uma apropriação devida...

  • Marcos:
    RE:tomando emprestado de outro sit: Bresson 2 : do fragmento

  • Conde Drácula:
    Metalinguagem

  • Visitante:
    não mencionam escapulários...

  • Marcos:
    RE: salvaguardas

  • jansy mello:
    RE:RE: salvaguardas

  • Omar:
    GUANTÁNAMO!!!!

  • Omar:
    "Psicanálise para quem?"

  • cely bertolucci:
    RE:

  • Omar:
    Irresponsável mundo novo...

  • Omar:
    "Quente ou frio?"

  • dora zander:
    RE: Quente ou frio?

  • cely bertolucci:
    RE:RE: Quente ou frio?

  • Omar:
    "O futuro de uma ilusão": Pascal - 233

  • Omar:
    Capitu

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Benedetti

  • Omar:
    RE:Benedetti

  • Visitante:
    ato médico

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:ato médico

  • Visitante:
    RE:ato médico

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    encaminhado para mim

  • Thais Karam:
    RE:ato médico

  • Visitante:
    leitura de fim de semana 1

  • Marcos Florião:
    RE:RE:ato médico

  • Visitante:
    RE:RE:RE:ato médico

  • Visitante:
    RE:leitura de fim de semana 1

  • Visitante:
    Cony

  • Visitante:
    Lolita à brasileira

  • Visitante:
    enquanto se discute a Lei da Palmada ...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:enquanto se discute a Lei da Palmada ...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    leituras

  • Visitante:
    A ARTE DE ESQUECER / Ivan Izquierdo

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    A arte de lembrar Vani Derecha

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Murakami traduzido...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Murakami traduzido...

    [Aeternus:2726] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-11)


    - com ou sem Arthur Miller, ressucitando Va Savoir

    Saborosamente e sapientemente, eis a nova lista!

    Voltar ao topo

    [Aeternus:2728] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-11)


    - Ladys & Gentlemen

    The United Kingdom, in this act represented by me, a simple and devoted servant, proudly make the announcement that Lady Camila Foster-Bowles, the fresh and eternally young bride of Princip Charles, was officially and finally asked by His Majesty to became the new Princess.
    Therefore, from now on, she has honnorably acquired might and right to use the title of Dama da Cornualha.


    Voltar ao topo

    [Aeternus:2729] Mensagem do Grupo38
    -Marcos (2005-02-11)


    - desculpem-me as ladies, but

    Favor corrigirem o texto que improvisei para ler na Old England.
    Já comecei mal no título, errando o plural de 'lady'.

    Voltar ao topo

    [Aeternus:2730] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-11)


    - Hipped hip Hurrah

    Quem falou que compus o samba do miller doido por causa do parafuso horário? Até lembrei que tinha um filme ( era com Dustin Hoffman em vez do Tom Hanks...) e uma película com suas seduções em dupla com a Anais Nin ( uma autora sofisticada em matéria de erotismo verbal, mas ainda prefiro a Hilda Hilst, que também morreu recentemente sem grandes necrológios). Citei quatro livros, sem errar nem nada! Estava esperando alguma dica de outros, de que pudesse gostar!

    Só lembrei do A Longa Jornada Dentro da Noite ( ou variantes para o Dia ) em conexão ao da Morte do Caixeiro Viajante porque, antes do D.Hoffman, havia outro filme, dos clássicos, com este enredo e em preto e branco, e igualmente insuportável. 

    Mas ainda vou pesquisar no Google. Tem aqueles autores americanos badalados dos quais eu devia lembrar antes de abrir a torneira de asneira da Emília pois misturo todos ( Floriano tem razão nisso sim, mas não carece jet lag ). Quem escreveu " Of Mice and Men", filme no qual o John Malkovitch, entre outros atores está comovente?

    Falei em película para não escrever "filme" o tempo todo. Película em francês é caspa.  Antes de visitar o Mickey fui ao cabeleireiro e me distraí lendo os vários nomes de caspa em alemão, italiano e os achei hilários.   

    Não sei se conseguirei consertar o inglês do arauto da Rainha da Inglaterra, mas posso tentar.  Afinal, establishment tem o "e" de Elizabeth e todo mundo em bronca com ele esquece disso. Há certos formalismos que desconheço, portanto, mudarei pouco na mensagem floriona:
    Ladies and Laddies,
    The United Kingdom, in this act represented by me, a simple and devoted servant, proudly announces that Lady Camila Foster-Bowles, the fresh and eternally young love of Prince Charles, was officially admitted as his bride by Our Royal Highness, the Queen of England. Therefore, from now on, she honourably deserves the title of "Dama da Cornualha".

     


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    [Aeternus:2731] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-11)


    - com o verniz da Jansy

    ...só falta o arauto !
    "Of Mice and Men" é de um novelista conhecido, mas esqueço agora.
    O filme "Henry&June" nada tem a ver com Arthur Miller, mas sim com Henry Miller. É do Philip Kaufman, diretor de "A Insustentável Leveza do Ser". Maria de Medeiros, portuguesa com certeza, fazia a Anais Nin, ninfômana que aprazia-se em agradar seu noivo devidamente permissivo, que esperava pacientemente ela acabar de trepar nos fundos de um restaurante, depois do aquecimento com seu psicanalista na sessão recém-terminada.
    Uma turminha insiste em falar mal do Kaufman, mas gosto dele como realizador. Tem no currículo títulos como a boa ficção terrorífica de "The Invasion of the Body Snatchers"; o drama de astronautas e quase astronautas em ostracismo de "The Right Stuff"; e o nauseabundo "Quills", com o excelente Geoffrey Rush, posando de Marquês de Sade e escrevendo com cocô e sangue quando retiram-lhe as quills. Kate Winslet não consegue tirar a roupa neste, como no inocente "Titanic" ( devem ter cortado seu nu generoso, ela é exibidona ), e repete os decotões de "Sense &Sensibility", sobre Jane Austen. Faz uma bondosa Chapeuzinho Vermelho do hospício, que leva os inocentes escritos de "Justine" para a gráfica clandestina. Nas horas de folga, senta no colinho do papai Sade, risonha. Boa menina.


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    [Aeternus:2732] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-11)


    - misturando galhos com cornualhos

    Saquei, Florião. Um é o Henry e o outro é Arthur,  tal qual o nobre cavaleiro cultuado pela Lady Chatterley.
    Nem tinha sacado que havia um e havia outro donde ainda tenho chance de gostar  também do Arthur!
    Vou correndo ganhar erudição através do google...
    Gratíssima pela elucidação espontanea. Cultura geral é isso mesmo, vem pronta na ponta da lingua.

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    [Aeternus:2733] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-11)


    - Mea Culpa

    ARTHUR MILLER - 1915- 2005
     
    Escritor americano de peças teatrais que combinou em sua obra uma fina percepção das questões sociais da época e as fraquezas humanas dos seus personagens.  
    Miller tornou-se famoso pela peça DEATH OF A SALESMAN (1949), e ainda por ter se casado com a atriz Marilyn Monroe.
    Suas peças para teatro dão continuidade à tradição realística iniciada nos EEUU no período entre as duas guerras mundiais.
    "Don't say he's a great man. Willy Loman never made a lot of money. His name was never in the paper. He's not the finest character that ever lived. But he's a human being, and a terrible thing is happening to him. So attention must be paid. He's not to be allowed to fall into his grave like an old dog. Attention, attention must finally paid to such a person." (from Death of a Salesman)

    Arthur Miller nasceu em New York, filho de um alfaiate e comerciante que perdeu tudo durante os anos da Depressão. A falência do seu pai impulsionou Arthur a buscar novos horizontes, a aspirar por uma metamorfose. Sua família mudou-se para uma modesta casa no Brooklyn, considerada modelo do lar do ambulante na peça  Death of a Salesman.

    Decidiu tornar-se escritor depois que leu Dostoevsky: The Brothers Karamazov  e estudou jornalismo na University of Michigan em 1934.  Sua primeira peça na Broadway foi THE MAN WHO HAD ALL THE THE LUCK (1944). Tres anos depois produziu ALL MY SONS . Em 1944 he ele visitou vários acampamentos militares para pesquisar o material da sua peça THE STORY OF GI JOE (1945).  Seu primeiro romance foi sobre o anti-semitismo:  FOCUS (1945).

    O teatro de Miller mostra como as famílias podem ser destruídas pelos falsos valores. Em "A Morte do Caixeiro Viajante(1949)" ele descreve a trágica história de Willy Loman, com cenas expressionistas que misturam seu passado e o presente. Loman se apresenta como homem de sucesso, mas é uma fachada que começa a ruir quando ele é despedido do seu trabalho. Sua esposa  Linda  acredita no "American Dream", sem deixar de ser realista.  Ao descobrir que ele vale mais morto do que vivo, Willy Loman tenta o suicídio, confiando na indenização do seu seguro de vida como recurso para manter sua família e ajudar seu filho Biff.

    WILLY: I'm not interested in stories about the past or any crap of that kind because the woods are burning, boys, you understand? There's a big blaze going on all around. I was fired today.
    BIFF (shocked): How could you be?
    WILLY: I was fired, and I'm looking for a little good news to tell your mother, because the woman has waited and the woman has suffered. The gist of it is that I haven't got a story left in my head, Biff. So don't give me a lecture about facts and aspects. I am not interested. Now what've you got so say to me?

    (from Death of a Salesman)

    Nos anos cinqüenta Miller foi investigado pelo Committee dos United States Congress que explorava a influencia nas artes do comunismo e teve seu passaporte apreendido, o que o impediu de assistir em Bruxelas à sua peça THE CRUCIBLE (1953), baseada nos laudos judiciais e personagens históricas  de 1692, durante a questão das bruxas de Salem . A peçaThe Crucible era uma alegoria ao McCarthyismo e a histeria coletiva.  Duas peças menores foram agrupadas como A VIEW FROM THE BRIDGE, de 1955, um drama sobre amor incestuoso, ciúme e traição.

    "You know, sometimes God mixes up the people. We all love somebody, the wife, the kids - every man's got somebody he loves, heh? Bus sometimes... there's too much. You know? There's too much, and it goes where it mustn't. A man works hard, he brings up a child, sometimes it's niece, sometimes even a daughter, and he never realizes it, but through the years - there is too much love for the daughter, there is too much love for the niece." (from A View from the Bridge)

    Por ter se recusado a dar o nome de pessoas associadas aos grupos comunistas ou tidas como "de esquerda", ele foi julgado por "desacato ao Congresso", mas considerado inocente em 1958.

    Sua peça MISFITS foi escrita com um papel planejado para Monroe, sua mulher na ocasião. O filme foi dirigido por John Huston, com  Mongomery Clift, Clark Gable e Marilyn, mas o casamento estava em crise e ela se envolvera com barbitúricos.

    Em 1964, depois de um silencio de nove anos, ele retornou com uma obra auto-biográfica,AFTER THE FALL, onde lidava com questões como as da culpa e da inocencia.

    Suas peças foram filmadas por John Huston, Sidney Lumet e Karel Reiz.   Nos anos de 1990 Miller escreveu  THE RIDE DOWN MOUNT MORGAN e  THE LAST YANKEE (prod. 1993),embora considerasse o momento histórico ruim para o teatro porque os altos pagamentos aos atores de televisão os desencorajava

    Sobre o autor: Arthur Miller by Martin Gottfried (2003); The Cambridge Companion to Arthur Miller, ed. by Christopher Bigsby (1997); Approaches to Teaching Miller's Death of a Salesman, ed. by Matthew C. Roudane (1995); Arthur Miller and His Plays by P. Singh (1990); Arthur Miller by B. Glassman (1990); File on Miller, ed. by C.W.E. Bigsby (1988); Arthur Miller, ed. by H. Bloom (1987); Arthur Miller by J. Schlueter and J.K. Flanagan (1987); Convesations with Arthur Miller, M.C. Roudané (1987); Arthur Miller: Social Drama as Tragedy by S.K. Bhatia (1985); Twentieth Century Interpretations of Death of a Salesman, ed. by H.W. Koon (1983); Arthur Miller by N. Carson (1982); Arthur Miller by L. Moss (1980); Arthur Miller by R. Hayman (1972); Arthur Miller by R. Hogan (1964); Arthur Miller, ed. by R.W. Corrigan (1962)

    Bibliografia selecionada:

    • HONORS AT DAWN, 1936
    • NO VILLAIN, / THEY TOO ARISE, 1937
    • THE PUSSYCAT AND THE EXPERT PLUMBER WHO WAS A MAN, 1941
    • WILLIAM IRELAND'S CONFESSION, 1941
    • THE MAN WHO HAD ALL THE LUCK, 1944
    • THAT THEY MAY WIN, 1944
    • SITUATION NORMAL, 1944
    • GRANDPA AND THE STATUE, 1945
    • The Story of G.I. Joe, 1945 (film script)
    • FOCUS, 1945 - film 2001, dir. by Neal Slavin, screenplay by Kendrew Lascelles, starring William H. Macy, David Paymer, Laura Dern, and Meat Loaf
    • The Guardsman, 1947 (from F. Molnar)
    • Three Men on a Horse, 1947 (from G. Abbott anf J.C. Holm)
    • ALL MY SONS, 1947 - film 1948, dir. by Irving Reis
    • DEATH OF A SALESMAN, 1949 - suom. Kauppamatkustajan kuolema - Pulitzer Prize - film 1951, dir. by Laslo Denedek; television film 1985, dir. by Volker Schlöndorff, starring Dustin Hoffman - see also Elia Kazan
    • An Enemy of the People, adaptation of Ibsen's play
    • THE CRUCIBLE, 1953 - suom. Tulikoe - film 1996, dir. by Nicholas Hytner, starring Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Paul Scofield, Joan Allen
    • A VIEW FROM THE BRIDGE, 1955 - film 1961, dir. by Sidney Lumet
    • A MEMORY OF TWO MONDAYS, 1955
    • The Misfits, screenplay - film directed 1961 by John Huston, starring Marilyn Monroe, Clark Gable, and Montgomery Clift
    • JANE'S BLANKET, 1963
    • AFTER THE FALL, 1964 - suom. Jälkeen syntiinlankeemuksen
    • INCIDENT AT VICHY, 1964
    • I DON'T NEED YOU ANY MORE, 1967
    • THE PRICE, 1968
    • IN RUSSIA, 1969 (with Inge Morath)
    • FAME AND THE REASON WHY, 1970
    • THE CREATION OF THE WORLD AND OTHER BUSINESS, 1972
    • THE ARCHBISHOP'S CEILING, 1977
    • IN THE COUNTRY, 1977 (with Inge Morath)
    • THE THEATRE ESSAYS OF ARTHUR MILLER, 1978
    • FAME, 1978 - television play
    • CHINESE ENCOUNTERS, 1979 (with Inge Morath)
    • THE AMERICAN CLOCK, 1980 - inspired by Stud Terkel's Hard Times
    • Playing For Time, 1980 (from F. Fenelou)
    • ELEGY FOR A LADY, 1982
    • SALESMAN IN BEIJING, 1984
    • SOME KIND OF LOVE STORY / EVERYBODY WINS, 1982
    • DANGER! MEMORY!, 1987
    • CLARA, 1987
    • I CAN'T REMEMBER ANYTHING, 1987
    • TIMEBENDS: A LIFE, 1987 (autobiography)
    • THE GOLDEN YEARS, 1987
    • 'THE MISFITS' AND OTHER STORIES, 1987
    • Everybody Wins, screenplay - film 1989, dir. by Karel Reiz
    • THE LAST YANKEE, 1990
    • THE RIDE DOWN MOUNT MORGAN, 1991
    • GILLBURY, 1993
    • BROKEN GLASS, 1994
    • ECHOES DOWN THE CORRIDOR: COLLECTED ESSAYS 1944-2000, 2000 (ed. by Steven R. Centola)
    • RESURRECTION BLUES, 2002     contrastar  
    Henry Miller ( 1891-1980)
    O escritor norte-americano Henry Miller  foi um dos escritores norte-americanos mais controvertidos e autor de livros  considerados malditos e liberados pela censura americana apenas em 1961.

    "Trópico de Câncer" e "Trópico de Capricórnio", as primeiras obras de Miller, escandalizaram os leitores com suas detalhadas narrações sobre sexo. Quando "Trópico de Câncer" apareceu pela primeira vez em Paris em 1934 o poeta Ezra Pound comentou: "Por fim, um livro obsceno digno de ser lido". Nasceu em Nova Iorque  viveu em Paris na decada de 1930.
    Seus livros combinam descrições sexuais, conjecturas filosóficas e pensamentos sobre a literatura e a sociedade, e ocasionalmente têm um caráter surrealista e autobiográfico.
    Foi condecorado com a Legião de Honra da França em 1975 e incorporado ao Instituto Nacional de Artes e Letras. "O Colosso de Maroussi", livro de viagens pela Grécia publicado em 1941, é considerado por alguns criticos como sua melhor obra. Entre outras, escreveu "Sexus", "Plexus", "Nexus", "O Grande Sul ou as Laranjas de Hieronymus Bosch" e "A Odisséia do Artista Criador nos Estados Unidos da América do Norte".Os beatniks e posteriormente os hippies se reconheceram nas idéias anarquistas que expressou, às vezes de modo confuso, em cada um de seus livros, nos quais o elemento autobiográfico, quase sempre, constituiu o corpo e a alma de sua escritura.
    Sua aprendizagem recorreu aosescritores que representavam na época a tradição européia de subversão espiritual: Rimbaud, Strindberg, Dostoievsky. Aos 42 anos escreveu seu primeiro livro sobre sua própria experiência parisiense: "Trópico de Câncer", que explodiu como uma bomba no universo dos iniciados. Miller insistiu sempre na diferença existente entre obscenidade e pornografia, este último termo vinculado ao seu nome e aos livros "Trópico de Capricórnio", assim como sua trilogia "Nexus", "Sexus" e "Plexus".
    Miller sustentou sempre a opinião de que tudo deve ser dito, e que graças a isto é que os escritores podem abordar sem problemas os temas antes proibidos.
    Proibido até 1961 nos Estados Unidos e até 1963 na Grã-Bretanha, em todo o mundo a publicação de suas obras provocou frequentemente protestos, cóleras e recursos a tribunais. Porém, progressivamente os malentendidos se foram dissipados. Arthur Miller morreu na California, de arterioesclerose, aos oitenta e oito anos.

     
    Todo crescimento é um salto no escuro, um ato espontaneo e sem premeditação sem influência da experiência.
    Desenvolva interesse na vida como ela se mostra, nas pessoas, coisas, literatura e música - o mundo é tão rico, ele pulsa com tesouros, belas almas e pessoas interessantes. Esqueça-se de si mesmo.
    Cada momento é de ouro para aquele que tem a visão de reconhece-lo enquanto tal.
     
    One's destination is never a place but rather a new way of looking at things.
     
    Our own physical body possesses a wisdom which we who inhabit the body lack.
     
    What does it matter how one comes by the truth so long as one pounces upon it and lives by it?
     
    To live without killing is a thought which could electrify the world, if men were only capable of staying awake long enough to let the idea soak in.
    The Henry Miller Reader (1959), "Reunion in Brooklyn"
    ( dados obtidos de várias fontes do Google, Folha da Manhã de São Paulo, site dos livros da Amazon, entre outros )

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    [Aeternus:2734] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-12)


    - Kate Winslet

    Florião, você está clamando pelo nu em pelo da Kate, mas ele aparece bem destacado quando ela faz o papel da jovem "Iris" ( Murdoch), axilas inclusas.
    Ela tem aquela peculiaridade de construção corpórea que torna as partes abaixo da cintura volumosas e pesadas.  No primeiro filme onde a conheci ( "Sense and Sensibility" do romance de Jane Austen ) achei-a belíssima estátua grega, mas depois disso vi um filme australiano no qual ela e uma coleguinha de escola matam ferozmente a mãe de uma delas e uma peculiar desproporção dos traços físicos me pegou para não abandonar mais.
    Algumas belezas da atualidade me parecem discretamente acromegálicas (  a atriz da "Beleza Roubada", filha de um roqueiro, é um exemplo. Uma Thurman. E multidões de outras...) e a delicadeza dos traços de Gina Lollobrigida ou Elizabeth Taylor, ou mesmo La Kidman,  abriu espaço para mutações que se iniciaram com longos pescoços e grandes olhos ( como os da delicada e linda Audrey Hepburn ), vasto sorriso ( Sophia Loren e Claudia Cardinale ), longas pernas ( agitadas e sinuosas, como daquela lésbica, Annie qualquer coisa, que trabalha no "Quarto Poder" ou fica perdida numa ilha durante acidente de avião, ou das modelos como Bündchen ).
    Os concursos de beleza para tipos de mulheres, totalmente criadas pelo computador me deixam perplexa, mas indicam o rumo dos modismos com botox, silicones e plásticas. Devemos ser mais incompetentes do que um inseto chamado de " paper wasp" no que se aplica aos padrões antiqüados que conferem a "nota dez em capacidade reprodutora" do mundo animal para seleção de parceiros.Esta vespa sinaliza a saúde genética com um traçado alargado em torno dos lábios e investigadores pintaram sinais maiores ( para controle, também com bocas menores) nas vespas inferiores e elas foram rejeitadas pelo grupo que conseguiu distinguir o falseamento!
    A mudança do fenótipo criando uma discrepancia com o genótipo não deixa de ser algo desejável no mundo humano, porque abre espaço para outras qualidades que não sejam a transmissão das superioridades meramente físicas. Assim mesmo, o que estou descrevendo é uma mudança considerável nas proporções físicas que vem sendo endossada ou estimulada pelo grupo social que, em muitos aspectos, é uma forma de violencia com homens e mulheres.  Comparem os "Tarzans" do Weissmuller com os novos tipos Schwarzneegger da atualidade em qualquer academia de ginástica...Ou os atletas olímpicos de trinta anos atrás e os de hoje, que começam a morrer como moscas quando se excedem numa competição. 

    E hoje me animei a escrever porque pretendia falar de outra coisa... Na revista Scientific American há uma reportagem sobre o nivel moderno de interrupção do fluxo de atividade pelos celulares, pagers, computadores e avisos nos carros ou elevadores e uma das frases destacadas foi: " It´s ridiculous that my own computer can´t figure out whether I´m in front of it, but a public toilet can".
    O cara está indignado porque o computador não o reconhece como o cachorro sabe quem é Gertrud Stein, e as latrinas automáticas dão descarga assim que a pessoa levanta a bunda do assento...Fiquei pensando sobre o que o sujeito chama de " me reconhece", afinal quem pensa como ele deve ter mesmo uma cara de bunda, né?


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    [Aeternus:2735] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-12)


    - de magníficas

    ( finalmente minha psicanalista compreendeu-me !...vamos à extremamente relevante discussão ! )

    Florião, você está clamando pelo nu em pelo da Kate, mas ele aparece bem destacado quando ela faz o papel da jovem "Iris" ( Murdoch), axilas inclusas.Sim, bem como em "Holly Smoke", da Jane Campion, onde faz uma americana doidivanas, que vai parar no cafundó do Judas, e o pobre do Harvey Keitel parte para lá, contratado pela atônita família, para resgatá-la.
    Ela tem aquela peculiaridade de construção corpórea que torna as partes abaixo da cintura volumosas e pesadas. Sem dúvida : é toda fofolete. A Julie Delpy, que eu e Gallego curtimos, tem um rostinho delicado, angelical e malicioso ao mesmo tempo, tende a ganhar adiposidade da cintura para baixo. Oposto dela, e muito bonita é uma jovem atriz daquelas bandas chamada Kate Beckinsale : toda delicada. No primeiro filme onde a conheci ( "Sense and Sensibility" do romance de Jane Austen *acaso ou não, revi-o...ontem ! ) achei-a belíssima estátua grega, mas depois disso vi um filme australiano no qual ela e uma coleguinha de escola matam ferozmente a mãe de uma delas e uma peculiar desproporção dos traços físicos me pegou para não abandonar mais. Este foi um terrível ensaio. Tipo do filme ótimo e maldito, ao mesmo tempo. Era australiano ou neozelandês, o Gallego deve saber. Vou tentar lembrar também. A chamada toda eram as duas pulando num vasto lago, de costas...
    Algumas belezas da atualidade me parecem discretamente acromegálicas (  a atriz da "Beleza Roubada", Liv Tiller, e também tende à ganhar peso filha de um roqueiro, é um exemplo. Uma Thurman. E multidões de outras...) e a delicadeza dos traços de Gina Lollobrigida ou Elizabeth Taylor, ou mesmo La Kidman,  abriu espaço para mutações que se iniciaram com longos pescoços e grandes olhos ( como os da delicada e linda Audrey Hepburn ), vasto sorriso ( Sophia Loren e Claudia Cardinale ), longas pernas ( agitadas e sinuosas, como daquela lésbica, Annie Anne Heche, que assumiu-se Lesbos ? acho-a muito bonita e interessante.qualquer coisa, que trabalha no "Quarto Poder" ou fica perdida numa ilha durante acidente de avião, ou das modelos como Bündchen esta faz o gênero Holanda, o das compridonas).
    Os concursos de beleza para tipos de mulheres, totalmente criadas pelo computador me deixam perplexa, mas indicam o rumo dos modismos com botox, silicones e plásticas.O que confronta a moda com algo ligado à sexualidade ! Não conheço nenhum homem com algum rasgo de normalidade que aprecie esses seios feito melancias, esse frenesi de Vaidade Galopante, essa gazelas esquálidas e do alto de esplendidamente horrendas olheiras forçar um andar enjeitado, a enfiar um pé cruzando a linha de caminhada do outro, num ridículo balé narcísico. Devemos ser mais incompetentes do que um inseto chamado de " paper wasp" no que se aplica aos padrões antiqüados que conferem a "nota dez em capacidade reprodutora" do mundo animal para seleção de parceiros.No doubt about it Esta vespa sinaliza a saúde genética com um traçado alargado em torno dos lábios e investigadores pintaram sinais maiores ( para controle, também com bocas menores) nas vespas inferiores e elas foram rejeitadas pelo grupo que conseguiu distinguir o falseamento!
    Graças a Deus ainda temos a ala conservadora : mulheres como Maruschka Detmers, Valentina Cervi, Aitana Sánchez-Gijón, Pilar López de Ayala, Leonor Watling ( êpa : esta precisa tomar cuidado para não resvalar pra lá no time das fofonas : é a Alicia do Almô em "Hable con Ella" ), Héléne de Fougerolles, Paz Vega, Monica Bellucci, Giovanna Mezzogiorno...uau ! Perfeição de corpo é a Ludivine Sagnier, escultural, com uma pele incrível. Ela não é propriamente bonita, no senso clássico, parece uma pós-normalista safadinha, uma expressão que passa da Lilith do Guto à um indefinido misterioso interior. Maravilhosa. E tem o lóbulo superior do pavilhão auricular esquerdo danificado, atrofiado. Provavelmente por algum piercing ou brinco exagerado na adolescência.
    A mudança do fenótipo criando uma discrepancia com o genótipo não deixa de ser algo desejável no mundo humano, porque abre espaço para outras qualidades que não sejam a transmissão das superioridades meramente físicas. Assim mesmo, o que estou descrevendo é uma mudança considerável nas proporções físicas que vem sendo endossada ou estimulada pelo grupo social que, em muitos aspectos, é uma forma de violencia com homens e mulheres. O que penso aqui : a idéia não é o resultado, a idéia é mudar em si ! O simples ato ! Leia a respeito a inserção que fiz ontem na lista "Viva a Diferença" falando da 'Alice' a partir de uma mediação minha sobre Baudrillard Comparem os "Tarzans" do Weissmuller com os novos tipos Schwarzneegger da atualidade em qualquer academia de ginástica...Ou os atletas olímpicos de trinta anos atrás e os de hoje, que começam a morrer como moscas quando se excedem numa competição. Baudrillard refere-se a isso como "um mundo que perdeu as maneiras".

    E hoje me animei a escrever porque pretendia falar de outra coisa...Acertou ao errar ! Na revista Scientific American há uma reportagem sobre o nivel moderno de interrupção do fluxo de atividade pelos celulares, pagers, computadores e avisos nos carros ou elevadores e uma das frases destacadas foi: " It´s ridiculous that my own computer can´t figure out whether I´m in front of it, but a public toilet can".
    O cara está indignado porque o computador não o reconhece como o cachorro sabe quem é Gertrud Stein, e as latrinas automáticas dão descarga assim que a pessoa levanta a bunda do assento...Fiquei pensando sobre o que o sujeito chama de " me reconhece", afinal quem pensa como ele deve ter mesmo uma cara de bunda, né? Crise de identidade, natural em qualquer americano que de repente acorda e precisa reciclar toda uma codificação eu/eu mesmo/social, aquelas instãncias que discutimos há alguns meses, falando em Topologia e sua energética. Toilettes por toilettes, jamais esqueço do que ocorreu no MOMA, em NY, na exposição Picasso. Depois de rir de duas senhoras estarrecidas diante uma sala de gravuras de sacanagem, à saída, assisti a discussão de um furibundo espectador que desejava fazer pipi. É que os toilettes ficavam no setor da exposição, e ele já havia seguido a correntinha terminal. O homem começou a impacientar-se e irritar-se de forma perplexa, e bradava "Jesus Christ ! I swear I'm not going to see the exposition again !!! I JUST WANT TO MAKE PI !!!"

     



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    [Aeternus:2736] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-12)


    - aqui segue, de novo, meu excerto

     Sobre as ‘Alices’ desta vida, ainda acrescento por enquanto os excertos a seguir, de “A Transparência do Mal” ( Baudrillard ) ( embora o autor não especifique ninguém en particulière ):
    “Cada um procura seu visual. Como já não é possível achar argumento na própria existência, só resta fazer ato de aparência sem peocupação de ser nem mesmo de ser olhado.Não se trata de “existo, estou aqui”, mas de “sou visível, sou imagem” – visual, visual ! Já nem é narcisismo, é extraversão sem profundidade, um tipo de ingenuidade publicitária em que cada um torna-se empresário da própria aparência. (...)O visual já não é a moda, é uma forma ultrapassada da moda. Já não apela para a lógica da distinção, já não é um jogo de diferenças, recorre à diferença sem nela acreditar. É a indiferença. Ser torna-se uma performance efêmera, sem futuro, um maneirismo desencantado num mundo sem maneiras...
    ( os negritos são do autor )

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    [Aeternus:2737] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-12)


    - labirinto de listas e nomes

    Falando em labirinto, que labirinto de listas e de Millers! Só faltou a cerveja! :-)

    Acho que estou na lista certa e que os Millers já se acertaram. Do Henry, nada a declarar, não entendo sua suposta qualidade artística: livros chatos até na pornografia - que a rigor é chata e repetitiva mesmo, afinal, desde Adão e Eva não inventamos tantas coisas palatáveis em matéria de saliência. Eu disse “palatáveis”, porque como lembrou Marcos, no filmeco sobre Sade do Phillip Kauffmann há sacanagens vomitáveis. Aliás tb não compreendo a grandeza artística de Sade (e não estou condenando moralmente, acho chato mesmo).

    Aliás, Marcos não citou o filme que prefiro do Kauffmann, a versão (roteiro brilhante em matéria de adaptação do Jean-Claude Carriére) de “Insustentável Leveza do Ser” que me revelou Juliette Binoche que parecia “A” Teresa, personagem do livro. Não acreditei que ela pudesse fazer algo diferente daquilo. E a menina me surpreendeu mais e mais e sempre e sempre...O filme tb revelou o Daniel Day-Lewis e se apropriou da última revelação do Bergman, a Lena Olin.

    Quanto ao Arthur Miller, recém-falecido, gosto especialmente de “As Feticeira de Salém” que eu acho que foi filmado ainda nos anos 1950 na França (roteiro de Sartre?) com a Simone Signoret, eu suponho, but I’m not sure.
    Dele, eu gosto muito também de “O Preço” que assiti em montagem com Jardel Filho, Leonardo Villar e Paulo Gracindo. Teatrão da melhor qualidade. Não entendo o endeusamento do Tennensse Williams, sem dúvida com mais peças (quantidade) do que Miller. Todas parecidas, as do Williams. A Morte do Caixeiro-Viajante eu vi pela primeira vez na TV em filme antigo com o Fredric March, eu acho. O filme mais recente com Dustin Hoffmann como pai e John Malkovitch como filho, eu não sabia que passou nos cinemas, mas se o Marcos viu... eu vi na TV mas dormi no meio (era tarde e o filme enorme). Ano passado a montagem com o Marco Nanini me pareceu prejudicada pelo palco vazio enorme do Teatro João Caetano. Deu a impressão que a peça envelhecera, mas isso pode ser questão de uma montagem menos satisfatória, onde nada era ruim, mas nada decolava.
     
    Quanto ao Orson Welles, não defendo sua obra como um todo, mas Cidadão Kane, sim. Há cinéfilos que preferem The Touch of Evil (A Marca da Maldade|) com Charlton Heston e Janet Leigh, além de Marlene Dietrich. Os filmes do Welles tem, à exceção de “Kane” algo de mal-feito, imperfeito que chega ao “sujo” de seu Macbeth em cenários de papelão ou seu “Otelo” confusamente filmado ao longo de anos. Mesmo em esquemas hollywoodianos como em  “A Dama de Shangai”, tudo tem momentos de brilho incríveis num todo que deixa sempre um gosto de insatisfação, incompletude. Talvez também nisto esteja a grandeza de sua obra, sempre em processo, quase sempre inacabada, em filmes que ele abandonava com freqüência na hora da montagem e aí... Mas ele tem uma pérola pouco vista (embora tenha sido exibida desleixadamente nas TVs abertas) baseada no conto da Isak Dinesen, “Uma História Imortal”, com a Jeanne Moreau. Deve ter uns 60 minutos de filme, se tanto, o que cria uma questão para exibições comerciais em salas de cinema. Adoro “O Processo” dele, criticado por wellesianos e kafkianos. Problema deles.
     
    Só para des-labirintar mais a Jansy: “Longa Jornada Noite adentro” é filme do Sidney Lumet com a Kate Hepburn retirado de peça do Eugene O’Neill. Cuja mãe era tão morfinômana quanto a mãe da peça. E um irmão alcoólatra idem e a família do Nelson Rodrigues e suas personagens perdem... e que virou sogro do Chaplin à revelia dele, já que a Oona, quase de menor foi a última musa do Carlitos, mãe de dezenas de filhos dele que os gerou até os 80 anos de idade (e não havia Viagra na época), com destaque para a Geraldine, caveirinha talentosa em filmes do (ex-marido) Saura e do Altman, diretor maior que ainda nos deve um GRANDE filme.

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    [Aeternus:2738] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-12)


    - saurianos

    Definitivamente, não sou uma entendida, sem queixas de não ser entendida. 

    Apesar da crítica perita do Gallego, confesso que adoro os filmes do Saura, se é que os de que me lembro são dele: Mamãe faz Cem Anos, Carmen...

    A Geraldine Chaplin me incomoda por causa de um olhar duro de psicotica. Alguém me disse um dia que ela era esquizofrenica, mas acho difícil acreditar, se bem que seu olhar tem um negrume despersonalizado que, apesar de combinar muito com Cria Cuervos, Elisa Minha Vida et al., me aperta o coração com uma angústia que não gosto de sentir quando vou ao cinema.

    Já deu pra ver que não sou muito ligada nos autores americanos como  Eugene O´Neill, Henry e Arthur Miller e até grande parte do Poe.  Abro excessão ao Steinbeck ( do "Mice and Men" e "Grapes of Wrath" ) &  Henry James, entre os mais conhecidos. Parei no tempo da Emily Dickinson.  Se não fosse a informação precisa do Gallego e do Florião, eu ia morrer sem perceber isso.

    Desculpem os mea culpas e confissões. Prometo que esta é a última e que não vou mentir nunca mais, só desta vez ( piadinha do Veríssimo)


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    [Aeternus:2739] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-02-12)


    - Para Jansy

    Cara amiga, sua energia pesquisante é fantástica. Adorei as aulas sobre os dois Miller. Ambos abusados, ambos contundentes, ambos co-autores (com outros, claro) pela demolição final da Era Vitoriana. Eu não os aprecio, mas admiro sua coragem.

    Ao mesmo tempo, temos outro Miller, o Glenn, com sua doçura e élan que sempre me encantaram. O que os Miller escritores têm de lúgubre e tenebroso (percebendo com lucidez violenta a podridão humana) o Miller compositor e músico tem de encantador - consegue infundir alegria e alto astral no mais macambúsio dos deprimidos. Agora me ocorreu uma "teoria da conspiração": Os nazistas derrubaram o avião onde ele estava porque perceberam que, embalados pela música que ele fazia, os americanos não iriam perder a guerra nunca. Felizmente, demoraram demais.

    Beijos.

    Davy.


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    [Aeternus:2740] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-12)


    - Baudrillard via Florião

    “A Transparência do Mal” ( Baudrillard ):
    “Cada um procura seu visual. Como já não é possível achar argumento na própria existência, só resta fazer ato de aparência sem peocupação de ser nem mesmo de ser olhado.Não se trata de “existo, estou aqui”, mas de “sou visível, sou imagem” – visual, visual ! Já nem é narcisismo, é extraversão sem profundidade, um tipo de ingenuidade publicitária em que cada um torna-se empresário da própria aparência. (...)O visual já não é a moda, é uma forma ultrapassada da moda. Já não apela para a lógica da distinção, já não é um jogo de diferenças, recorre à diferença sem nela acreditar. É a indiferença. Ser torna-se uma performance efêmera, sem futuro, um maneirismo desencantado num mundo sem maneiras..."
     
    Prestei atenção na citação do Florião com mais atenção, sem dar a tradicional corujada de papagaio. Não sei se concordo, mas gostei muito do que está escrito.  Minha dúvida advem dos critérios perceptuais que variam de uma cultura para a outra.
    Os japoneses parecem "tudo igual" para os ocidentais e quando colocam um quimono, "fica tudo igual" ainda mais.  No entanto, apesar do formato do quimono não variar depois de centenas de anos, há distinções sutilíssimas que se fazem pelo modo de enrolar a faixa da cintura, pela escolha da seda e a mistura dos seus fios e, inclusive, na escolha da padronagem das flores tecidas ou estampadas, que revela elementos da personalidade da pessoa que a veste.  Para os indianos, a mesma coisa: o sarongue pode parecer o mesmo, mas a qualidade da tecelagem revela mundos e fundos.  Portanto, concordaria com o Baudriillard se pensasse exclusivamente no mundo ocidental.
    Infelizmente não posso prosseguir agora, mas queria incluir outra reportagem do scientific american na qual descrevem estudos sobre os efeitos daninhos de " estimular a auto-estima". Queria muito discutir isto com vocês.
     
     

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    [Aeternus:2741] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-12)


    - Kaufman, Miller(s) e mundo sem maneiras

    Mas é claro que adoro "A Insustentável Leveza do Ser", e analisando toda a carreira do Kaufman, apesar de eu gostar bastante dele, parece que a grande manus ali foi a do Carrière, afora a sorte de contar com um brinco de elenco.
    "Os Eleitos" era longo mas interessante, e gosto mais de "Quills" do que o Gallego. Creio que tenho mais stomach para escatologia do que meu amigo.

    A cerveja Miller nunca provei. Presta ? Gosto mais de choo do que das enlatadas, como também mais das engarrafadas.
    De Henry Miller já falei, e recentemente cometi erro mil vezes pior do que o da Jansy, ao citá-lo no lugar de...Henry James ( oh ! Deus...o James saiu de sua cova, e puxou meu pé de madrugada. Apesar de ter murmurado docemente seu protesto : ele sabe o quanto o amo )

    Caro Davy : também amo Glenn Miller, a harmonia de sua orquestra e a Leveza Sustentável de seus violinos. Mas ele e seus divinos foram para o além derrubados pelo chamado 'fogo amigo' : o típico misfit trágico que guerras fazem acontecer. "Moonlight Serenade", "In the Mood", "American Patrol", "A String of Pearls"...Você ia vibrar com "Taking Sides", o filme do Istvàn Szabò sobre o inquérito Fürtwangler na Berlim pós-guerra. Além do tour-de-force esplêndido montado pelo cracão húngaro, os breakings acontecem em salão de dança com essa Música na linha Miller. Sem serem gratuitos : contemplam nossa capacidade de 'mediar' o drama, a dinâmica à qual o Gallego vez por outra refere com mestria, a alquimia do Cinema.

    Apliquei a citação do Baudrillard, naquele caso, à Alice de "Closer". Mas acho que ela estende-se à todo o tapete social do pós. Naomi Campbell desfilou na Portela em cima de um carro alegórico convencional, com uma fantasia ainda mais convencional do que seu carro, e declarou ter sido esta "a melhor roupa que já vestiu na vida". Pode ?


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    [Aeternus:2742] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-12)


    - ainda sobre caixeiros viajores...

    Selecionei do Google:

    "Arthur Miller's Pulitzer Prize winning play Death of a Salesman is brought to the screen by producer Stanley Kramer and directed by László Benedek ( 1951).  The salesman of the title is Willy Loman (Fredric March), who has spent his entire life pursuing success, only to find himself a middle-aged failure. The shock of this realization causes Willy's mind to wander between the Past and the Present, as he muses on lost opportunities, shattered dreams, and his turbulent relationship with his oldest son Biff (Kevin McCarthy). Willy ultimately loses all contact with reality, which results in Fate's final blow. Lee J. Cobb, who'd played Willy on Broadway, had been blacklisted by Hollywood because of his alleged "leftie" politics, thus was denied the opportunity to star in the film version, but Mildred Dunnock was permitted to brilliantly recreate her stage role as Willy's long-suffering wife Linda ("Attention! Attention must be paid to this man"). A second filmization of Death of a Salesman was produced for television in 1985, with Dustin Hoffman as Willy Loman. It was directed by Volker Schlondorff and featured John Malkovich as Biff.  

    Comments:
    It has been said Arthur Miller disliked the film, particularly the realistic representation of Willie's reveries and imaginings. Kevin McCarthy did a fine job as Biff. I loyally refused for years to watch Dustin Hoffman's version, but when I finally gave in I enjoyed his substantially different interpretation. But if he differed from March, then it follows March differs from him. In short, a whole other way of enjoying the greatest American soap opera ever penned.'

    Resumindo: Foram feitos um filme para cinema ( preto e branco, 1951) e outro para televisão ( colorido, 1985, dirigido por Schlondorf com Dustin Hoffman e John Malkovitch). O primeiro, dirigido por László Benedek, teria desagradado a Henry Miller.  O comentador resumiu sua apreciação aos dois como formas diferentes de representar  " a maior soap-opera americana já escrita"...

    Então, temos ainda Glenn Miller, cuja história trágica eu desconhecia. Aqui em Brasília tem uma rádio FM que toca as músicas dele todos os dias e há mais de vinte anos, particularmente Moonlight Serenade! O dono da estação, Garoffalo, morreu no ano passado e sua mulher continua a tradição. A programação, no geral, é de direita católica!  Anuncia-se " Brasília Super-Rádio FM Stereo; 98.9 Megaherz e nove décimos, Brasília, Distrito Federal" ( com todas as letras "esse" pronunciadas de modo ssssibilante...)    


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    [Aeternus:2743] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-12)


    - Miller

    Arthur Miller foi muitíssimo bem "biografado" na lista; não há muito o que acrescentar.

    Apenas gostaria de deixar minha impressão sobre o (atrasado) realismo americano. Não sou fã de carteirinha. Me aparenta um novo com gosto de velho. A Morte do Caixeiro Viajante sem dúvida é para mim uma obra-prima, se bem que nunca a vi encenada. Obra-prima é um conceito que comporta gradações, e não significa "universalidade", coisa que sinto quando leio Shakespeare, ou vejo um gesto Chaplin ou um ouço um compasso de Mozart. Ou mesmo um drible de Garrincha (why not?).

    Miller é um artista sociológico, mas que teve enorme importância no esquemão americano. Se até Micheal Moore tem sido cultuado com dois filmecos-documentários.........

    Foi uma arte depressiva do pós-guerra, berrante, berrada, histérica, mas que deixa no ar um cheiro de bosta na festa de arromba dos anos dourados.

    Grande abraço

     

     


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    [Aeternus:2744] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-12)


    - I love Carlos Saura movies!!!!

    Jansy escreveu: Apesar da crítica perita do Gallego, confesso que adoro os filmes do Saura, se é que os de que me lembro são dele: Mamãe faz Cem Anos, Carmen...

    Vamos reler o que eu escrevi, de fato meio atabalhoadamente e com uma digressão (fuga de idéias?) extemporânea: ...Geraldine, caveirinha talentosa em filmes do (ex-marido) Saura e do Altman, diretor maior que ainda nos deve um GRANDE filme.
    A frase crítica era para o Altman. com quem a Geraldine já filmou também várias vezes!!! Jansy esqueceu que eu escrevi um texto inédito sobre Saura, o Esperpento espanhol e Elisa- vida Minha, inédito, mas que ela leu e elogiou muito.

    Altman, Robert, diretor de M*A*S*H*, Nashville e The Player (O Jogador, nada a ver com roleta, mas com as idiossincrasias e negociatas das e nas produ$õe$ hollywoodianas) é que me fica na idéia como um diretor talentosíssimo que ainda não me deu "A" obra-prima que dele eu esperaria.
    Geralmente seu filme mais elogiado é "Nashville" sobre um festival de música country. Não me encantou.
    No mesmo estilo (uma situação com dezenas de personagens se cruzando em histórias meio curtas e sem necessariamente "fecharem") prefiro "Cerimônia de Casamento", quase-quase a obra-maior de um grande cineasta (que ele é).
    Ao lado deste "A Wedding" que eu adoro caem mais no meu coração "Voar é com os Pássaros", por exemplo: meio surrealista e fábula demais, talvez. Na fórmula (não estou usando o termo pejorativamente) uma situação & várias historinhas, o mais recente "Assasinato em Gosford Park" é outro excelente filme. Há os que preferem "Short Cuts-Cenas da Vida" que também é digno do maior respeito.
    Outros menos conhecidos também me encantam: o esquisitão "Tres Mulheres", a versão da peça do Sam Shepard "Fool for Love" que nem passou nos cinamas no Brasil, só saiu em video, "Come back to the Five, Jimmy Dean, Jimmy Dean" - a mesma coisa, peça de teatro filmada que só saiu em video no Brasil.

    Me irrita ele fazer suceder a filmes ótimos alguns dos piores filmes que já vi: "Uma Mulher Diferente", filme antigão com a Sandy Dennis explicitando um preconceituoso binômio lésbica&assassina; ou o pretencioso sobre esquizofrenia "Imagens" que deu prêmio de melhor atriz em Cannes para a Susannah York, a histérica do "Freud" do John Huston; o confuso "Quinteto" com desperdício de elenco que ia do espanhol Fernando Rey à sueca de Bergman, Bibi Andersson capitaneados pelo Paul Newman; o péssimo "Além da Terapia" - e não acho ruim por falar mal de psicanalistas, mas por falar mal do que pretendia e podia falar, e onde até a Glenda Jackson estava trabalhando mal.

    Às vezes tenho a impressão que as pessoas se sentem obrigadas a gostar de Altman fracotes como "Prét-à-Porter" (mesmo estilo já citado e onde geralmente ele se dá bem de uma situação & várias historinhas, mas bem menos feliz neste filme) ou a comedinha simpática e pouco mais do que isso "A Fortuna de Cookie";
    e às vezes menosprezam outros de resultado bem razoável ("Kansas City" e o "Dr.T e as mulheres"). Sei que Jansy gosta do "Popeye" que só ela gosta, ao que eu saiba, e que foi um fracasso de tentar fazer Altman funcionar em esquemas hollywoodianos. Eu achei chatinho, confesso. Tinha o grande papel da então magrela Shelley Duvall como a própria Olivia Palito, ela que era marca registrada do Altman em filmes mais antigos, bons filmes "menores", menos ambiciosos, corretos, bons de ver mas que se esquece. Outra tentativa de produção de alto orçamento foi o "Gingerbread Man" que saiu só em dvd direto nas bancas de jornais e era pífio.

    Como eu disse do Orson Welles talvez a grandeza de Altman esteja nesse atirar em todas as direções, fazer de tudo, filmar o que dá e o que não dá. Paga-se um preço, mas acerta-se também. E talvez ele não tenha pretensão de fazer um GRANDE filme. Importa mais por sua obra irregular de altos e baixos, mas acho um exagêro considerarem-no um gênio como, ao apagar adas luzes está sendo considerado em Hollywood.

    Já o Carlos Saura não é considerado um grande cineasta, as far as I know. Na Espanha almodovariana o chaman de DinoSaura, considerando que ele "já era", ou é pré-diluviano nos seus ataques ao franquismo que já acabou (já mesmo?).
    Para mim, Saura me deu um dos meus "DEZ MAIS" que é "Elisa, Vida Minha", uma espécie de filme de Bergman que não é do Bergman, e ainda por cima  trocando a Suécia pela Espanha.
    Nem tão recentemente ele me decepcionou em "Dispara!" e em "Taxi"; e seu útlimo filme de dança ("Salomé") pareceia um fórmula (aqui, pejorativamente) menos bem-sucedida do que os fantásticos "Amor Brujo", "Bodas de Sangue" e "Carmen" da parceria com o recém-falecido António Gades e grande dançarina Cristina Hoyos, além da belíssima Laura del Sol (onde foi parar essa beleza?).

    Os filmes de Saura com sua então musa e esposa Geraldine Chaplin que eu pude ver eram muito bons: o mais querido de todos, geralmente é "Cria Cuervos", e outros como "Ana e os Lobos", "Mamãe tem 100 anos" e "Olhos Vendados"  foram apreciados ainda que nem sempre com entusiasmo.
    O recurso de mesclar realidade & ficção/fantasias (como em "Carmen", Elisa", "Cuervos", Mamãe de 100 anos", "Olhos Vendados") e passado & presente como em "Prima Angelica" (onde o ator adulto aparecia na infância com a aparência atual de adulto sendo tratado como criança dava um clima e tanto e era original na épóca) foi rejeitado em "Tango" que - digan lo que digan - é um dos mais belos filmes já feitos. A parceria com o grande pintor (mais do que fotógrafo) Vittorio Sttoraro - fotógrafo favorito de Bertolucci, dentre outros - deu o documentário "Flamenco" com painés de fundo que mudavam de cor como cenário único, simples, funcional e lindo, recurso que foi aprimorado em "Tango" e especialmente em "Goya" que a falecida "Fayga Ostrower desancou quando exibi lá na Sociedade, o que me pareceu um equívoco de quem não aceita a transposição de uma arte para a outra com tudo o que se perde e o que se recria.
    Mas li o roteiro de Sura e do grande Jean-Claude Carriére de um fracasso que nem passou no Brasil, chamado "Buñuel y la Mesa del Rey Salomón" e fiquei perplexô: parece ruim mesmo!!!
    Outra parceria já antiga de Saura com Carrière foi super-mal recebida e eu gostei muito: "Antonieta" com Hannah Shygulla e Isabelle Adjani que só se encontravam na cena final, dentro da Notre Dame onde a Antonieta (Isabelle) vai se suicidar (na verdade é uma personagem real do passado, uma peruana que se matou em Paris e que a jornalista na atualidade, Schygulla está presuisando.

    Como eu queria demonstrar, adoro o Saura apesar de suas falhas e não chego a adorar o Altman, mesmo com seus tantos acertos. Idiossincrasias... Mas concordo plenamente com Jansy que a magreza esquelética da Geraldine incomoda, seja pelo olhar fundo de (não deve ser) esquizofrênica, seja pelo desamparo que transmite e que parece não se deixar acolher, tão diferente da receptividade menos angulosa da outra magrinha famosa, my fair Audrey.


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    [Aeternus:2745] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-12)


    - ainda o Miller

    Guto, lacônico resume o que tem a dizer e bem. Eu, proolixo, devo falar muita coisa pro... lixo. Mas preciso acrescentar o filme "Focus", retirado de livro antigo do Arthur Miller que existe em dvd e passa no Telcine com frequência. É um filme de judeu anti-anti-semitismo que serve para todos od que teme preconceitos e lembra um poema que diz: se entrarem (invadirem) a cas do seu vizinho, vc diz: "não foi comigo"; se entrarem no teu jardim, vc diz: "Não foi na minha casa"; se entrarem na tua sala: "Não foi no meu quarto"; quando entrarem no teu quarto... desculmpem a exporessão (o poema é melhor, claro): FUDEU!!!!

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    [Aeternus:2746] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-12)


    - como é mesmo o nome do médico alemão?

    Gallego, entendi mal sua crítica que pensei ter sido dirigida ao Saura. É que gosto muitíssimo dele, embora não fique tão ligada em quem dirigiu qual filme e dê as maiores mancadas. Muito raramente lembro quem foi o diretor de filmes que apreciei e estou tendo aulas grátis e deliciosas graças a nossa lista.
    Me esqueço de muita coisa, por exemplo, dos artigos que li e elogiei do Gallego, mas como  também esqueço dos que eu mesma escrevi, então... dá pra desculpar?
    Gallego até lembra que gostei do Popeye! Pois é verdade, havia um não sei quê de não sei como de alegria pura e brilhante que me deixou rindo sozinha... Habitualmente detesto os desenhos do Popeye que passam na televisão e o over-acting do Robin Williams, mas ali achei tudo perfeito. O colorido radioso também surge quando faz sol em Gosford Park.

    Piadas sobre " tô fodido" podem ser ótimas. Lembram aquelas sádicas da época em que o presidente Costa e Silva estava morrendo e entendiam que ele pedia que lhe dessem o Topo Gigio quando, por causa do derrame, ele apenas constatava que tava fodido?  A mais filosófica é a da mãozinha mágica. Um cara ia entrar num avião e uma mão transparente fez sinal para ele não viajar e ele escapou do acidente no qual todos os passageiros morreram. Em vários momentos da sua vida a mesma mãozinha aparecia para encorajá-lo ou impedi-lo de alguma coisa e ele ficou inteiramente confiante neste novo guia que havia surgido. Certa vez, descendo a encosta de uma montanha a mais de cem por hora, viu a mãozinha acenar que tudo ia bem e foi ficando cada vez mais animado até que, antes de uma curva perigosa, a mãozinha fez o sinal de " você tá fodido" e acabou-se a história....

    Guto, já vi que você não gosta das festas de arromba dos anos dourados...O que achou do "The Great Gatsby"?  Há um filme que gostaria de ver comentado, sobre um cozinheiro de um conde frances ( coube o papel ao Gerard Dépardieu ) que se esmerou para acolher o rei da França que ia visitar o conde a tal ponto que o rei desejou levá-lo para a corte. Parece que a história era verdadeira. Aquilo ali é que era festa, com direito a todos os joguinhos de poder e requintados brindes de açucar.  Punha até a Disneylandia no chinelo, porque ali predomina a grandiosa festa - embora sem álcool, sem sexo, sem... sem ...
    Meu neto Rafael, que festejou os cinco anos por lá, deu uma resposta bastante coerente quando lhe perguntaram sobre o que ele achou daquele "mundo da fantasia". Disse: " Mas em Disney não havia fantasia, era tudo de verdade como os meus brinquedos, só  que eles lá eram maiores".


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    [Aeternus:2747] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-13)


    - cada craque à sua vez

    * Guto
    Eu pensei que era o melhor mediador do mundo, mas fiquei no chinelo comparado ao Guto.Quando o homem bate o martelo, com suas estupendas metáforas...
    O cheirinho de bosta nos anos dourados foi ignorado durante cerca de 18 anos, e...ali a Dona Lógica ainda prevalecia : deu no que deu, com 1968, os hippies, os gurus e ativismos, & outras maravilhas nos jardins suspensos.

    * Gallego
    Grato pela compilação em Altman e Saura.
    Também prefiro Saura, de longe. Também considero-o magnífico, e adoro no mínimo "Elisa", "Ana", "Mamãe", "Cria", "Tango" e o menos conhecido e badalado "Dulces Horas", arrojo difícil mesclando recordações íntimas, repressão 'dentro&fora' do personagem, linguagem artística. Aqui Saura tenta a mistura de tudo num filme só, e...acerta um bocado !
    Nos Altman temos a mesma opinião. Sinto que gosto de "Brewster McCloud" ( "Voar é com os Pássaros" ) mais do que ele. Adoro "A Wedding", acho primoroso !
    Shelley Duvall fazendo Olivia Palito é a adequação da adequação. Para quem não acredita em premonições, seria o exemplo perfeito a contradizê-lo : o criador da personagem só pode ter se inspirado na Shelley, e isto décadas antes dela nascer...( a caminho : haja feiúra, embora boa atriz. E o Kubrick ainda toma-a para "The Shining", naquele huis clos onde contribui com o peteleco que faltava para o Big Jack endoidar de vez )
    "Nashville" é uma titica, e o prenúncio do Festival de Porcarias Musicais e discutível pluralidade no medíocre que nos assolaria décadas a fio, ainda sem indício de perda de fôlego. Com uns 45 minutos de filme olhei para a Ana, na galeria do Art Copa, e perguntei se ela queira ir jantar.
    Há diretores, como Altman, que parecem estabelecer para si o desafio de passear por vários gêneros. Volker Schlöndorff é outro assim. Erram bastante, mas também acertam, e...devem divertir-se um bocado, enfim : imagino-os crispados com o 'brinquedo novo' em mãos, com algum roteiro ou idéia que parece intransponível.

    * Jansy
    Vou rever "The Great Gatsby" com capricho : num dia tranqüilo, caipirinha na mão em copo boca larga, com mexedor. Som nas caixas, claro.
    Adorei a ambigüidade da mão amiga, o eterno "Deus dá com uma mão e tira com a outra", que pronuncio sempre que estou satisfeito no setor $$$ e a seguir tomo uma porretada no bolso.
    O filme que citas é "Vatel - Um Banquete Para o Rei", do Rolland Joffé, outro híbrido.A festa ali é sobretudo Estética, né ? Circense...falta descontração, sexo ( não explícito mas antes ) na malícia. Joffé é muito Hollywood, muito condescendente. Parecia poder ir bem com "The Killing Fields" e "A Missão", mas afundou em "Fat Man&Little Boy", sobre Enola Gay; "City of Joy", Índia-melô-apocalypse-capengol; "The Scarlet Letter", frouxo; melhorou um pouquinho no cínico e amoral "Goodbye, Lover", parecendo nos contagiar, ao exagerar tanto nessa marcação, com uma amargura irritada transformada em mau caratismo. Até o dito "Vatel". Sem sexo e sem...


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    [Aeternus:2748] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-13)


    - Não é Deus quem tira...

    Parece que minha ligação entre  "Vatel" e "Disney" faz mais sentido do que eu imaginei.  Havia um unico local proibido no reino para crianças do Mickey  e ficava na Downtown-Disney, onde fica o Cirque du Soleil, a maravilha das maravilhas que prescinde de sexo e pipoca porque então seria como ir ao "Jeux de Paumes" para namorar.  
    O local orgiástico chama-se " Pleasure Island", provavelmente em referencia ao mundo de perdição do Pinóquio e não sei como funciona. 
    Mas...atenção. Em Disney tem sexo e tem substancias intoxicantes sim, na versão dos novos puritanos de Hollywood ( os puritanos originais, em extinção, são respeitáveis ).
    Refiro-me ao açucar no lugar do vinho, aos sanduíches com batata frita em lugar de cerveja e aos prazeres orais indiscriminadamente obscenos. Precisava ver as "coxinhas" de peru, imitando o javali do Obelix ou alguma caça de dinossauro que famílias obesas carregavam, vestidas em tons delicados de rosa-bebê e azul celeste e desfiando aos bocados quase a grunhir.
    Por sorte nesta minha visita predominavam as famílias brasileiras e a experiência foi menos traumática, porque as multidões eram de cariocas e paulistas tranqüilos. Não fui a nenhum local em Miami ou Orlando que não tivesse encontrado com brasileiros e em vários locais os avisos são dados em ingles, espanhol e português! 
    Ia até esquecendo de comentar. Disney, apesar de tudo, me reconciliou com a América.  Não é um local de lazer para as classes mais altas ( como a dos brasileiros que estavam por lá ), mas para classe-média baixa ( apesar do preço salgado na entrada ). Ali se educa, se socializa, se moderniza a plebe, que também aprende a agir como multidão obediente e sorridente. Deve ser uma espécie de "ópio do povo" dos mais eficazes. A ideologia seria: " Comam até ficar estúpidos, mas em silencio, sigam sempre as instruções e sintam-se muito muito felizes". Então ninguém empurra para pegar o melhor lugar porque os óculos 3D garantem a igualdade.

    Não detesto a América. Acho que inconscientemente sou americana, tipo "non-conformist" ou, talvez "outcast".  Pelo menos fui educada pelos mais dedicados protestantes metodistas do Rio ( colégio Bennett anos 50-60 ) e meus protestos sintomáticos eram contra as autoridades daquele sistema, e não dos outros!
    Quando a gente pára de pensar por meio de categorias genéricas do "bem e mal" católicos ( palavra que quer dizer "universal"... ), percebe que pega suas adesões e rejeições a partir de algum código nacional ou grupal específico, muitas vezes involuntária e inocentemente. 
    Diga-me contra quem V.se rebela e direi quem V.é ? 

    Comprei um livro com os melhores "ensaios" americanos do século ( passado ), copilados pela Joyce Carol  Oates e fiquei tão aborrecida com o que li que larguei no avião para evitar carregar peso demais.  Haviam selecionado Nabokov, que seria portanto um "americano" que aprecio, mas seu "ensaio" era familiar. O resto... É que o critério de inclusão dos editores para seus "americanos do século" se norteava pelos padrões do políticamente correto e, francamente, por mais que me solidarize com a criação das rampas e estacionamentos para idosos e deficientes, ou me revolte contra os racismos, sexismos ou chauvinismos, detesto mergulhar numa amostragem de leitura tendenciosa!
    Fui em várias livrarias, principalmente a Barnes&Noble e não achei nada do que procurava. Pedia ajuda ao serviço de informações e ouvia dos atendentes: " você devia ter encomendado pela internet. Pela Amazon, por exemplo". 
    Fui em megastores procurando dois CDs que o Gallego encomendou ( da Rita Streich e uma coletanea de um maestro que esqueci qual mas,  Gallego... olha, eu copiei seu pedido - inclusive com a capa do CD - e carreguei o papel na bolsa todos os dias! ) e me disseram a mesma coisa: " Devia ter pedido pela internet".  
    Não é assustador isso também?


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    [Aeternus:2749] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-13)


    - Doces Momentos do passado

    Marcos! Também gosto muito de "Dulces Horas", primeiro filme de Saura depois que acabou a relação com a Geraldine Chaplin. Por acaso (?) ele filmou a história de um diretor teatral que ensaia uma peça sobre sua família na sua infância e se apaixona pela atriz que faz o papel de sua mãe (sutil, não?). E que é dubladora de filmes. Terminava com a moça cantando (dublando) uma canção chamada "Dulces Horas" com a Império Argentina, única cantora (espanhola) que gravou com Gardel, por ter trabalhado com ele num filme. Dublagem, sei... Até hoje ele não encontrou outra Geraldine para dublar a original. Casou-se com sua empregada doméstica.

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    [Aeternus:2750] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-13)


    - ponto pro Saura

    É...
    E na época, na saída do cinema - o Cinema 1, antigo Paris Palace, na Prado Jr., junto daquelas espeluncas da Esther Tarcitano - eu quase apanhei da Ana e de uma amiga nossa, porque defendi o direito do personagem de tomar banhinho ensaboado e esfregado pela namorada. ( elas ficaram revoltadas com a cena : que coisa ! )
    Essa amiga aburguesou-se de forma espantosa, nas décadas seguintes. Da mesma forma que não consegui, igualmente, que a Ana impedisse de se deixar seduzir por discutíveis imposições que o pós-moderno foi propondo a todos nós.
    Não se pode comparar luta de classes aqui com Inglaterra, por exemplo, mas temos nossas mumunhas e pecados, também. Muitos.
    E para o nosso querido Saura trocar as Aitanas Sánchez-Gijón, Lauras del Sol, Pilares López de Ayala e Leonores Watling ( os gens espanhóis andam afiados...)- as achegadas a tais portentos, quarentonas pra lá, para não distanciar demasiadamente as gerações, coisa que considero impeditiva de uma relação sólida ( e até onde se possa chamar de sólida alguma relação amorosa ) - deve ter tido motivos bem peculiares...

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    [Aeternus:2751] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-13)


    - Anos dourados

    Jansy,

    Sua capacidade descritiva torna sua viagem e os tipos encontrados absolutamente visíveis para nós.Como diria Chico Buarque, "videoclipe de cego".

    Quanto a Arthur Miller, eu nada tenho contra festas, festins, banquetes, tertúlias etc, muito menos contra os anos dourados. Aliás, como diria um amigo, o ruim da suruba é não ser convidado. Ter que ouvir deitado na cama, com hora para acordar, o tilintar dos copos, a música, os gemidos, urros e sussurros da casa do vizinho. Dizem que o bom festeiro, quando se muda, já faz alianças com a vizinhança, tornando-a cúmplice.

    Mas que o crescimento precoce e abrupto dos EUA deixa uma certa fedentina (eta palavrinha feia!) no ar, isso deixa. Pós-guerra, guerra-fria, macarthismo, guerras no Camboja, Vietnam, conflitos raciais, KKK etc. É como dar maioridade a uma criança de 10 anos. Foi para isso que Miller alertou. Ele e outros artistas, ainda que a esmagadora maioria de alcoólatras, drogados e suicidas. Esse é o perfil da "resistência americana" (não creio que seja o caso de Miller), tão doente quanto o sistema, mais pária que os estrangeiros. Talvez mais Brancaleone que Brancaleone. Eis minha admiração por Arthur Miller, com seus bons e maus momentos.

    Amplexus, nexus, sexus. (aí é outro Miller, que não a cerveja)


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    [Aeternus:2752] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-13)


    - notícia da AFP

    Recortei algumas informações do site do "Terra", alterando-as um pouco por causa das possíveis restrições do copyright.  Se alguém souber como são os códigos para a divulgação de informações nas listas de debate, gostaria de conhece-las. Eis a notícia que me interessou:

    O maremoto que atingiu as costas do Oceano Índico em 26 de dezembro de 2004 revelou marcas de um antigo império indiano que esteve enterrado na areia durante séculos. Dois grandiosos leões de granito e um Buda de bronze são parte dos objetos as ondas gigantes revelaram depois de terem destruido cidades e matado mais de 285 mil pessoas na Ásia.

    Membros da Escola de Arqueologia Indiana  estiveram no porto de Mahabalipuram que fica a setenta quilômetros ao sul de Madras, que já abriga esculturas de pedra da dinastia dos Pallava, dinastia hindu que dominou o sul da Índia do século I AC até o ano VIII d.C. Entre os tesouros revelados pelos tsunamis estão as estruturas de uma casa e a escultura inacabada de um elefante. O Buda de bronze tem quinze metros de altura e deve ser originário da Birmânia. Os arqueólogos também estão intrigados com as declarações de moradores que afirmaram que pouco antes do tsunami retornar com suas ondas enormes, o mar deixou à vista a estrutura de um templo e várias esculturas.  Apesar da destruição da costa sudeste da Índia, o templo de Shore ( Patrimônio da Humanidade) permaneceu intacto por causa da paroteção das rochas ali colocadas há alguns anos por determinação da primeira-ministra  Indira Ghandi.

     


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    [Aeternus:2753] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-13)


    - Barbarie...

    Guto, que bom que você sentiu vivacidade na minha descrição da ilha dos pinoquios.  Ainda estou precisando elaborar minha experiência porque nunca  viajo bem. Sua acolhida foi gostosa.

    Fico intrigada com sua proposta, bem razoável, da  imaturidade de um povo ou sociedade ( como a americana ) ante estímulos precoces ou  desafios dos mundos mais "avançados". É que nunca vi um povo maduro, entende?

    As culturas vão da barbárie à decadência, algumas vezes tendo sorte de acolher uma fase civilizada de permeio,  como o descreveu um historiador ou filósofo que não sei mais qual foi.  O Rio de Janeiro, por exemplo já foi civilizado, o que é uma sorte incrível para quem encontra os testemunhos daquela época que não precisam de um tsunami para serem achados ainda hoje ...

     


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    [Aeternus:2754] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-13)


    - God bless Rio

    Acho que a frase (barbárie à decadência) é do antropólogo Claude Levy-Strauss.

    Agora à noite estava ouvindo a Diana fazer sua oraçãozinha diária: "... proteja todas as pessoas da Terra e também do Rio de Janeiro". O Rio não existe ? Engraçada coincidência.


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    [Aeternus:2755] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-13)


    - concordo com Guto

    As descrições de Disney da Jansy, mais a participação do neto Rafa mereceram divulgação por aqui, tal a perspicácia de captar detalhes (e nem tão detalhes assim) e descrever com elegância e espírito o que os olhos dela viram e como viram. É digno de crônica do melhor Rubem Braga.
    Voltando ao cinema (de onde eu acho que ando não querendo sair: para que?), os filmes do Oscar estão complicados este ano: uma personalidade bizarra como Howard Huges merecendo 170 minutos (podia ter menos) do Scorsese!!! Clint Eastwood enganando todo mundo como se estivesse fazendo um filme de boxe para fazer um dramalhão com tese do tipo "como queríamos demonstrar". Esses dois são os melhores filmes para os eleitores do Oscar?!
    Nada contra dramalhões: há pouco asssiti um para comentar no JB que era um verdadeiro roteiro de dramalhão mexicano anos 1940, só que na ex-URSS de hoje e na Suécia de sempre, o "Para Sempre Lylia" que era arrasador sem ser apelativo. O filme do Eastwood exibe o que eu chamo de "cordéis dos marionetes": a gente vê os elementos do roteiro sendo empilhados um a um para tese a ser demonstrada. Não estou discutindo a tese, mas a forma de defendê-la: é ruim! Embora o filme seja hábil no envolvimento da platéia. Muitíssmo hábil, com desempenhos ótimos. Mas por que cargas d'água a "vilã" é da... Alemanha Oriental??? Está denominação não acabou com a queda do Muro??? É um detalhe supérfluo, mas com os diabos, porque esta escolha num detalhe que seria sem importância??? E tome lágrimas na platéia desprevinida: a vida da "moça de ouro" acumula todas as desgraças possíveis e imaginárias, quase como a Lylia do outro filme. Mas a narrativa deste do Eastwood "entrega" sua intenção de envolver para demonstrar. Acaba me parecendo escroto (desculpem o termo, mas foi como senti). Outro piegas que me pareceu apelativo no melodrama e me decepcionou foi "Em Busca da Terra do Nunca", indicado a sete Oscars!?!?!.
    Se o Howard Huges era ou foi um escroto, eu não sei, mas incomoda um pouco o filme colocá-lo quase como um paladino contra políticos corruptos (já quase MacCarthystas) que patrocinavam trustes e monopólios. Estranha escolha de personagem histórico e real pelo Scorsese. Fora isto (e o fato de que os 50 minutos finais poderiam ser reduzidos a 25 com vantagens, apesar da excelente participação do Alan Alda estar neste terço final do filme), o filme é brilhante com cenas antológicas, clima fantástico e desempenhos adequadíssimos, do Leo di Caprio à Cate Blanchett. Outra coisa: o filme mantém o nome de pessoas conhecidas do mundo do cinema como Kate Hepburn, Ava Gradner, Errol Flynn, Louis B. Mayer, etc. Nem sempre tudo é elogioso para essa turma. Não sei se o político real tem seu nome mantido nem o nome do big boss da PanAmerica.
    A doença psíquica do Huges (mais do que uma neurose obsessiva com nosofobia, havendo momentos psicóticos com paranóia franca) está exemplar, ao que me parece. Mesmo que digam que o caso dele era mais devido à sífilis terciária, o que faz sentido também como agravante de traços de personalidade. Mas a explicação psicológica dada em uma breve cena inicial que se repete no final é de Freud de botequim, lamentávelmente. De qualquer forma, mesmo se for para ver e não gostar tanto, indico "O Aviador". E mesmo que seja para ver e gostar, eu não recomendo "A Garota de Ouro". Não é um filme leal com a platéia.
    Prefiram "Sideways" que não é nada de mais mas por isso mesmo é bem legal.
    E "Closer", meu Deus! "Closer"´tem mais neurônios e quanta de afeto do que qualquer outro desses filmes!!! E fora do Oscar, os já recomendados por Marcos "Desde que Otar partiu" (outro melodrama sem pieguice e com classe, belíssimo) e "Confidências Muito íntimas", muitíssimo interessante.
    Abraços cinematográficos!


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    [Aeternus:2756] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-14)


    - rabugices 2005

    ângulo A
    Guto fala do american apocalypse e penso na apropriação que dele fizemos...
    Um personagem subalterno de “Os Invasores de Corpos”, lá pelas tantas, sobe no capô de um carro e brada’eles já estão aqui’. Pois é...eles já estão aqui.
    Adotamos hábitos diversos ‘deles’, desde a horrenda comida dos ( arrrrgh ! ) Mc Donalds aos hábitos culturais. É só abrir um jornal, com suas matérias pagas, ou ver um Telecine da vida, e lá está : o american Box-office, o que nos recomenda assistir o povo americano. Interessante padrão, este da inteligência do americano médio : parelho ao de um legume de final de feira.
    ângulo B
    Nós(z)inhos aqui do Rio : meus amigos de São Paulo e vocês aí da tchurma-Brasília, cada vez mais, referem-se aos cariocas como quase marcianos...
    Quero lembrar que continuamos com dois ouvidos, dois olhos, uma boca e um nariz, um razoável aparato corporal de aparência humana, e muitos de nós ainda raciocinando. Apenas estamos reféns do narcotráfico e da corrupção ativa, vítimas de um governo (federal e estadual ) absolutamente inerme e incompetente, que só faz refestelar-se e dormir patrocinado por obesos impostos sofregamente saqueados de nossos bolsos.
    ângulo C
    Gallego fala em rabugice, mas tem tutano para dar e vender. Rabugento sou eu : cansei de Hollywood. Se “Closer” é anti-holly, ponto pra mim : é um dos melhores filmes que já assisti. Trata do anti-ser sendo, ou tentando ser diante do anti-ser. Como tentei associar na citação do Baudrillard que publiquei ontem.
    Não pretendo ver “O Aviador”, “Menina” do Clint nem “Terra do Nunca”.
    No primeiro respeito o Scorsese, mas...Leo di Caprio como Howard Hughes ???!!! tenham a santa paciência ! Ele nem é tão mau como ator, mas parece um rapazinho, cara de neném, imberbe. Em “A Praia”, que vi no telecine – curiosa mistura de “Tubarão”, “Lagoa Azul” e “Rambo” – ele ainda fazia papel de um desvairadinho perdido no extremo oriente. Era ridículo mas verossímil.
    O Clint passeia pelas veredas das feridas americanas. É o perfeito out-of-system inside-the system. Respeito sua obra. Recentemente vi “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, retrato da vida em Savannah. O Kevin Spacey, um bem sucedido habitante local, deixa-se incidir no Código Penal absolutamente ciente de sua absolvição. Aliás, nem é esse o propósito básico : ao fulminar um primo complicado, que vivia atormentando-o com seus desvarios, inicia um festim narcísico onde desfilará como uma espécie de emblema local. Todo o crivo judicial e as entrevistas com um jovem jornalista de NY mostram-no tranqüilo, pairando do alto de seu intocável poder.
    Mas menina-loser-boxeur é demais pro meu gosto, e ainda por cima tendo como vilã uma alemã oriental...valha-me Deus ! Deixa a turminha deles trocar porrada entre si, vai...
    Terra do nunca tem um trailer perfumadinho, engatilhadinho, em ralenti...Deve convidar-nos a chorar de forma bem convencional. Nada contra o choro : vocês sabem que sou chorão de plantão. Mas preciso de essência, de equipe, de Absurdo ! De conflitos estapafúrdios, de amores vãos.
    E la nave va.
     
     

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    [Aeternus:2758] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-14)


    - Cara Helena III

    Uma dentre as grandes virtudes de “Closer” é conseguir discutir o tempo todo fidelidade e, ao mesmo tempo, retirá-la do epicentro das ‘responsabilidades penais’ do ser.
    Se em Arcand a abordagem desse assunto é mais um estiloso deboche do que outra coisa – vide “O Declínio...”, de sobra ! – nesse Farber/Nichols ela assemelha-se mais à uma âncora de desespero do que outra coisa. Em Arcand estamos ‘pra lá da infidelidade’, que tornou-se anedótica, um simples mote para risadas. O mal estar próximo ao final de “O Declínio...”, criado pelo (in?)voluntário confronto entre a liberada amiga e ex-amante de Rémy com sua mulher parece muito mais o cutelo do hora/lugar do que o do fato em si. O puxão de orelhas que a criança não quer suportar diante do amiguinho.
    Farber/Nichols também estão para lá da infidelidade. A discussão envolvendo o velho dinossauro avança para o pantanoso terreno do ser e aparência de ser. Quando o mundo da fotógrafa cai, quando tudo está em desordem – e numa dos múltiplos rebatimentos do roteiro –  ela bate de frente ( forte ) com o escritor, que com ela vive um affaire há cerca de 1 ano. Em crise com sua Alice, ele ouve-a colocar com naturalidade que “deseja ter um filho” do dermatologista. As diversas identidades dos personagens dançam fugidias ao sabor dos acontecimentos e de suas vivências, e que as cartas de Farber parecem indicar é exatamente a fluidez e volatilidade de papéis, recorrem à diferença sem nela acreditar , como diz cruelmente Baudrillard.
    Entre nous, pois, mortais comuns que ainda somos ou acreditamos ser ( e olha o ser aí, gente ! ) espero continuarmos a creditar na diferença. Caso contrário teríamos que fingir, o que seria de todo lamentável...como é lamentável alguém ainda ancorar sua relação amorosa na fidelidade, um dos moinhos de vento nas paragens de nossos Quijotes íntimos.

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    [Aeternus:2762] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-14)


    - Viva Rio !

    Marcos,

    Só queria esclarecer que minha alusão ao Rio foi em resposta à Jansy, pegando o gancho numa frase inocente dita pela minha filha de 5 anos.

    Adoro o Rio, minha família veio de lá, minha esposa veio de lá e, como diria o "filósofo" Maguila (pugilista), o Rio é meu estado emocional. Lá tem ET's sim, mas estão sentados no Palácio da Guanabara. O resto é evolução de várias coisas, boas e más, na completa ausência do Estado.

    Dixxxculpa se me exxxpressei mal.

     


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    [Aeternus:2763] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-14)


    - acertos gerais

    Sou dos promeiros a meter os dedão nas feridas daqui, e não estou empunhando nenhuma bandeira a favor de nós, cariocas. Apenas queria registrar nosso confinamento, nosso azar, enfim, de termos sido eleitos a capital do crime no país. O pessoal de São Paulo fala como se lá fosse algum paraíso, como se a violência estivesse apenas em ghetos.Os criminosos lá talvez sejam apenas mais discretos, matam e roubam com mais elegância. Seqüestros relâmpagos - eles são campeões na modalidade - e assalto a condomínios por quadrilhas vestindo Giorgio Armani, com equipamentos eletroeletrônicos de última geração.

    Davy, gostei do diagnóstico 'quase sádico'. Mas não chega a instituir a 'meia-gravidez', chega ?

    Jansyta : só quem já resolveu de todo a questão das relações amorosas e do amor em si foram os sábios ingleses : homens ou mulheres tomam um pifão num pub ou numa reunião festiva, e zapt ! vapt ! vupt ! uma boa cantoria a seguir, naqueles clubes BolinhaXLuluzinha, e tudo resolvido.


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    [Aeternus:2764] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-14)


    - Apocalypso do Rio

    Quem colocou lenha na fogueira fui eu, falando da decadência do Rio.
    Sei que os seqüestros-relampago e assassinatos existem por toda parte, mas há sempre alguma margem pra polícia-e-ladrão. 
    No Rio isto não se consegue distingui-los, como ainda  ninguém sabe quem são os inimigos reais ( os usuários da droga são tão criminosos e responsáveis quanto os traficantes e os encontramos em todos os escalões das várias cortes reais  ). Fora as encenações da Globo, ora a favor, ora contra o Rio.
    No entanto, concordo com o Florião ( acho que faço algum tipo de denegação, mas ando no Rio tranquila e prazerosamente toda vez que visito a cidade cada vez mais linda - apesar das obras comendo as encostas e acostamentos, mais o transito barulhento ). Rio ainda é um lugar onde é excepcionalmente gostoso se sentir vivo. Um ventinho, um por de sol, um encontro amigo num restaurante e não há festa igual. Mas que a corrupção ali faz mais estrago, isto faz...

     


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    [Aeternus:2765] Mensagem do Grupo38
    -Jansy - A/C Cyro(2005-02-14)


    - óculos 3-D


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    [Aeternus:2766] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-14)


    - tem algum neto que não pareça contigo ?

    Ó bela Jansy ?

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    [Aeternus:2767] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-14)


    - tá na hora de introduzir...

    ...o tema que pretendia discutir sobre narcisismo com relação ao artigo de janeiro deste ano, da Scientific American, intitulado: " Exploding the Self-Esteem Myth".

    Os autores são Roy F.Baumeister, Jennifer D. Campbell, Joachim I. Krueger e Kathleen D. Vohs. e parece que, mesmosem ter lido muita coisa até o momento , não concordo com a maneira de organizarem e fundamentarem sua exploração.

    O subtitulo reza: " Incrementando o sentimento de auto-estima das pessoas tornou-se uma preocupação nacional. Contudo, de modo surpreendente, as pesquisas mostram que tais esforços tem pouca eficácia para encorajarem crescimento acadêmico ou na prevenção das condutas indesejáveis.  Alguns estudos até mesmo sugerem que incrementar artificialmente a auto-estima pode reduzir a performance escolar subsequente..."

    Num trabalho que escrevi com o Gallego ( e que não pode ainda constar no Aetern.us porque tem que ser inédito ) propus que a auto-estima, em certos grupos de jovens que matam por prazer e sem motivo, não provém da apreciação dos pares ou de figuras parentais arcaicas, mas é uma expressão de um "narcisismo distópico".  Estava querendo encontrar animo para prosseguir investigando e, trazer para a lista a reportagem desta "revista de ciência americana" ( ou seria uma "revista americana de ciência" ? ), seria um caminho de encontrar a colaboração de vocês todos.  A primeira parte, que lidava com a Ética, se enriqueceu com a colaboração de todos ( principalmente do Davy!) e deve sair em breve na revista "Trieb" da SBPRJ. 

    Reconheço que estou namorando uma  "sóciopsicanálise" a partir de dados predominantemente "populares". É aí que vc.entram para me dar um upgrade! 

    Agora estou ensinando fração para os netos ( que gracinha, Florião, você me achar parecida com os netos e ainda por cima, achar eles bonitinhos...Chorei um pouco e todos vieram me confortar e incrementar minha auto-estima....Valeu )
    Espero ler a tal reportagem ainda hoje para ver se traduzo inteira aqui ou só comento com quem não tiver lido também ( tem na internet, www.sciam.com ).

    Gallego, sei que você está numa fase ligada em cinema. Dá para misturar os campos, não? Na verdade, entendi o argumento do Florião contra o Leonardi diCaprio com sua cara de bebê imberbe. Gostei dele no "Agarra-me se puderes", mas estava melhor no papel de Rimbaud. E, depois disso, cansei da sua cara e hesitava se veria o Scorcese...

     

     


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    [Aeternus:2768] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-14)


    - Ô Jansy,

    Brinca de aviãozinho aí na banheira. No Cinema vá ver um filme de adúlteros, o "Closer". Nem que seja para metralhar eu, Gallego e Helena depois...

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    [Aeternus:2772] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-15)


    - manipulações pra que te quero !

    Vamos lá...começo pelo cinema, que é mais caro mas menos complicado do que a Música para discutir.
    Da manipulação : Gallego tenta situar bem seus points, mas há uma encruzilhada em que as coisas confluem ! Principalmente para nós, rodados cinéfilos, que praticamente ‘enxergamos’ os abismos de roteiro, a manus do drama futucando-o aqui e ali para gerar esta ou aquela decisão, matando ou aleijando este ou aquele personagem, fazendo-o viajar por algum tempo ou desaparecer para sempre.
    Noves fora, situados no Reino do Encontro – e assim reificada a ‘hipótese’ ficcional/funcional – aceitamos o Engano, abrimo-nos para o sonho. Muitos diretores já brincaram com isto, alguns ostensivamente, mesmo. Ao belíssimo final de “E la Nave Va” acontece um encontro (de ou) personagens dançam no convés da dita cuja que va, e a cena continua fluindo com um lento boom da câmera do Rotunno para baixo. Começam a surgir os técnicos em cena, manobrando telões de plástico – o mar do Fellini, “mais verdadeiro do que o próprio”, em suas palavras ! – os eletricistas e assistentes de produção igualmente surgem, em lenta dolly para trás...
    Fellini e Giulleta Masina fizeram chorar muita gente com “As Noites de Cabíria”, e ao longo de sua obra o diretor cada vez mais tornou-se ‘manipulador’. Gallego mesmo colocou muitíssimo bem a fronteira : diz que quando Fellini é ostensivamente felliniano não aprecia o filme !
    Mas por mais lúcidos e cartesianos que desejemos ser ao desfiar esta discussão, ela resvalará, a certa altura, para o imponderável. “Cinema Paradiso” é uma baitíssima manipulação, però...lá estão Phillipe Noiret, passando um sentimento e um Beleza infinitos em seus olhos nostálgicos e suas bochechas perdidas... Modulado por um Jacques Perrin – o menino da aldeia que cresceu - devidamente asséptico de início, a comover-se pouco a pouco junto conosco, de volta à suas origens. Lá está a vida de aldeia com o velho cinema de praça que o tempo levou, seus bobos e loucos de plantão, seu padreco censurador, a bicicleta a carregar rolos de celulóide de uma aldeia a outra. Amores de adolescência, o menino que ali cresceu e hoje tornou-se um bem sucedido empresário, anos-luz distante desse passado. Resultado : além de eu ficar desidratado com as lágrimas, soluçava na poltrona, ao final, precisando recompor-me para voltar ao meu ‘real’. Como ‘julgar’ isto ? Como negar todo esse encanto que essa baita manipulação me causa ?
    Mais ainda, e pior : o mesmo Tornatore, tentando essa mesmíssima linha que o levou ao Oscar, enfiou uma série de filmes débeis a seguir, revelando-se um realizador sem mais nada a dizer ! Coisas do Cinema...
    “Out of África” : quase apanhei da tchurma das esquerdas, do policiamento ideológico, por ter A-D-O-R-A-D-O o filme, onde, de resto, também choro em cascata. E não há jeito : é só passarem fragmentos dele, rever cenas ou mesmo...ouvir a música do John Barry (!!!) e tome lágrimas ! Lembro que eu ia para uma festa depois da sessão do filme, em 1986. Cercas de 20’ depois da sessão terminada, e já no local, era difícil para mim retomar o contato ‘social’, conversar de algo com alguém...Manipulador ? não sei : Sidney Pollack é um diretor muito firme, que sabe o que quer. Como ator, revelar-se-ia primoroso – imaginem : alguém deve ter brincado, o desafiado, e...- mas para além de qualquer discussão de manipulação, o drama da Baronesa Von Blixen, ‘sua’ África e ‘seu’ Limoges, ‘sua’ sífilis, ‘seu’ luto me comove de forma cósmica...
    “Closer” – nítido constructo teatral/teatralizado ! Serralheria mágica. Entrar ou não entrar – eis a questão. Compreendo perfeitamente o problema do botãozinho de switch aqui ! A nível pessoal – e única forma de julgar a questão – hipnotizei-me de saída ( talvez ‘de saída’ aqui de casa, com o nome de Mike Nichols retomando tema intimista...) com a proposta. Não chorei no filme : considero-o um poderosíssimo tour-de-force intimista, balizador de vertentes da relação amorosa. Um curingão, a carta da batida.
    E chegamos à Música : a melhor discussão sobre esta que conheci até hoje continua nas duas linhas de diálogo de Von Aschenbach com seu assistente em “Morte em Veneza”, do Visconti. O braço direito do maestro tenta, em vão, dissuadi-lo de perseguir a ‘Música Perfeita’, a que o Davy diria que pararia o Universo. Usa como argumento básico simplesmente...a paixão ! Aschenbach procura Matemática, mas para seu assistente ( e para mim também ) Música é paixão. Pode vir temperada de amor, de raiva, de solidão, mas tem que ter paixão. E, bem pior que ao discutirmos Cinema, não é conceitual : retira-nos definitivamente, pobres órfãos vãos em pretensiosa inocência, do campo dos significantes...
     

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    [Aeternus:2773] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-15)


    - Florião lírico ensaísta

    Os ensaios que Florião tem escrito aqui no site são primorosos, porque não apenas tem estilo, como a coloquialidade apaixonada da dimensão vivida.
    Num certo sentido, assim como não se corrigem poemas, não há do que poderia divergir do todo da composição.  Mas, modestamente, gostaria de comentar uma coisinha.  Quando entendi ( Gallego poderá me corrigir, xingar ou o que for à vontade porque estou interpretando o que ele mesmo poderia estar apresentando  diretamente) a crítica às manipulações dos diretores que fazem com que vejamos os fios dos marionetes, não achei que Gallego estivesse se opondo a incapacidade de um diretor que nos faz ver o cenário em vez da paisagem,mas ao seu uso moralizante ou de propaganda.

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    [Aeternus:2774] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-15)


    - choros

    Retomo então nessa nova lista essa maravilhosa e riquíssima conversa para dizer que também amo Carlos Saura e que, quando tinha uns 20 anos, assisti "Cria Cuervos" num cinema em São Paulo, lembro como se fosse hoje. E chorei alto, de ficar com vergonha dos outros, de não conseguir me controlar. Uma coisa muito, muito tocante para mim. Nunca mais vi esse filme novamente, mas posso ainda hoje lembrar da musiquinha que a garota colocava na vitrola. A Geraldine Chaplin (nunca tinha reparado que ela seria tão esquisita como vocês a colocaram, embora também a ache muito magra) me faz sempre lembrar a história tristíssima da vida do Chaplin, a loucura e a pobreza extrema de sua mãe e seus filmes todos, belos, tristes e também engraçados. Outro filme que me fez chorar muito foi "As Noites de Cabíria". Também não o revi. Quanto ao Glenn Miller, eu costumava dizer, em minha infância, que a música mais linda do mundo era "Moonlight Serenade". Quando o homem chegou à lua corri para ouvir essa música que adoro até hoje. Música bonita também é o tema do filme "O Grande Gatsby", do livro de Scott Fitzgerald, o qual sou fã de carteirinha (li muitos de seus livros, sua biografia, um livro e a biografia de sua mulher, Zelda). A música está em minha cabeça mas não lembro o nome nem o autor. Mas é daquelas músicas americanas maravilhosas, como tantas daqueles tempos. "Doces momentos do passado", é lindo, nem me lembrava mais. Este vou rever. Quanto ao Leonardo DiCaprio, realmente ele tem cara de menino. Mas, por incrível que pareça, está muito bem em "O Aviador". Não está parecendo um menino. Está bem no papel de magnata, creiam-me. Gellego é testemunha. E por falar em Gallego, por que Gallego, que você não gostou de "Jornada da Alma"?

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    [Aeternus:2775] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-15)


    - Helena e Di Caprio

    Helena, resolvi assistir o Aviador com o DiCaprio seguindo sua recomendação há algumas mails atrás. Agora que você a reafirmou, estou mais animada ainda. A última imagem que tinha dele era a da "Caras" onde ele aparecia branquelo e triste ao lado de um índio.

    Como não consegui nenhum dos CDs que o Gallego encomendou dos EEUU comprei um brinde de consolação, tipo brinquedo do Mclanche Feliz, e que achei divertido ( era surpresa, mas ele agora já deve ter recebido o pacote sedex...): traz os trechos selecionados das músicas clássicas que fizeram parte dos filmes mais famosos ( por exemplo, tocariam o Haendel do "Barry Lindon", o Bartok da "Lolita"...  algo nesta linha porque não examinei nenhum dos títulos na capa do CD por absoluta falta de tempo para tal).

     

     


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    [Aeternus:2776] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-15)


    - Gatsby em vinil

    Estou com o vinil nas mãos, e o destaque natural do LP é "What'll I do", do Irving Berlin. É uma melodia linda e sorumbática, falando na nostalgia da perda. E olhe que Berlin era tido como 'pop' e 'local'...diferente do 'intelectual' e 'cosmopolita' Cole Porter..
    De quebr, alegres charlestons em profusão, efervescência, cha-cha-cha ( "Three O'Clock in the Morning", delicioso ! )e um ou dois blues.
    Será delicioso rev~e-lo em DVD, e compará-lo com o que senti há 30 anos. Acho que assisti o filme no Metro-Tijuca, que 'chamava' os espectadores de época com um equipamento de ar-condicionado que refrigerava até a bilheteria extrena do cinema.A conta de luz não devia ser tão escorchante, então...bons tempos !

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    [Aeternus:2777] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-15)


    - os artifícios e os clichês

    Jansy também tem razão: me irrito com a manipulação seja proselitista (ex: Almodóvar atacando o heterossexualismo em "Fale com Ela" ou em "Tudo sobre minha mãe" como se isto fosse defesa do homossexualismo que mal dissimula o desejo de travestismo dele, Don Pedrito), seja moralizante, marketeira, etc etc. Seja em ficções, seja em documentários, raramente tão neutros como se propõem.
    Mas Marcos tb tem razão: independente disso tudo, a percepção dos artifícios nos roteiros, os truques de filmagem, me levam a uma constatação de artificialismo que é o que me irrita mais. Na música popular, por exemplo: Dona Dalva de Oliveira era breguíssima, cafonérrima mas patéticamente sincera nos seus trinados e exageros. Me comove. Me transmite uma verdade. Já o brega do Roberto Carlos nem sempre me convence, ou raramente. Quando Bethania ou Nara  cantam suas interpretações das  músicas de Roberto são mais sinceras do que as dele. Isso é subjetivo? Talvez. Mas é como sinto.
    Claro que existe algo de subjetivo nesta avaliação, mas eu acho mais ainda que existe algo de INTERsubjetivo: por que o filme não me “enganou”? Acho que há filmes falsos selves e outros mais verdadeiros. O “Cinema Paraiso” era verdadeiro no amor do diretor pelo cinema. O lance mais melodramático (a cegueira do projetista) mereceria uma compreensão analógica ao castigo edípico, ao olhar proibido das cenas de beijos, ao cíclope de um olho só de “Ulisses” que era um dos filmes projetados com destaque no enredo. Os bons melodramas geralmente tem traços “psicanalíticos” interessantes.
    Pena que o amor do Tornatore pelo cinema não foi suficiente para render outros filmes bons. Aliás, numa relação, amor é “só” a base, não acham? Aliás, what is this thing called love? O que as pessoas chamam de amor ou de gostar às vezes me soas muito estranho. Viva a diferença?
    Vcs podem argumentar que artifícios sempre existem na artificialidade da  arte (espaço da ilusão, afinal). Que Shakespeare tinha que agradar seu público de tragédias com mil mortes no último ato. mas isso é o que Freud chama de "prêmio de estímulo", prazer estético (e gosto, neste caso, não se discute, o prazer estético que Roberto carlos oferece `as massas me merce o maior respeito, mas pouco prazer me dá). A questão é que algo mais profundo é liberado, é comunicado, seja no riso ou na tragédia. E aí, os clichês do Clint Eastwood em "Garota de Ouro" só atrapalham (a mim). Parecem aqueles recursos "fáceis" que podemos usar em momentos difíceis de dizer coisas para consolar, mas que nós mesmos não acreditamos nem acreditaríamos se dissessem para nós.

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    [Aeternus:2778] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-15)


    - continuo interpretando...

    Xi, Gallego, descobri que você não gosta da "dimensão histérica" no cinema e na arte!  Temos em comum um vício antigo ( no meu caso provinha dos puritanos e não era um "vício dos antigos" ) o amor pelas "essencias", uma crença indaque involuntária na "Verdade" ...Aprendi ao longo dos desenganos e a duras penas a curtir o jogo das máscaras e o prazer pelo espetáculo enquanto "show", coisa que se mostra e se esgota no processo. Algo que não espero do cinema. Donde... voltamos à vaca fria nem que tussa.  

    Não contei na lista, mas o outro CD McLanche Feliz que escolhi pro Gallego era Cole Porter. Não sabia que ele era "intelectual e cosmopolita" e só espero que não seja um "falso self musical" aos ouvidos do Gallego!

    Escrevo estas mal traçadas linhas neste instante apenas por causa do Shakespeare do qual Galleguito falou há pouco.
    Hoje li um comentário de um erudito ( que deve saber das coisas ) que Shakespeare desprezava o tempo linear dos franceses e os misturava, sendo que o exemplo provinha de MacBeth pois, segundo informa ele, esta tragédia acontece simultaneamente na Londres  no início do século dezesseis e na Escócia do século XI.  E eu crente que esta jogada temporoespacial houvesse sido inaugurada pela Virginia Woolf escrevendo o "Orlando"  em conluio com o Cortazar pulando amarelinha ( há um conto dele, magnífico, além do delicioso Blow Up, sobre um grupo de cantores de madrigal que cantavam Gesualdo e inadvertidamente deixavam suas vidas seguir a letra da cantiga somada à vida do compositor. Acho que Saura, na "Carmen", fez ocorrer algo semelhante? )

     

     


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    [Aeternus:2779] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-15)


    - interpretações e direcionamento

    Dalva me fez chorar, somada aos belos últimos planos de "Filme de Amor", do brazilian-malucaço Julio Bressane : sua interpretação de "Hino ao Amor" nada fica a dever à igualmente exageradíssima Edith Piaf.
    Bethania me comove de montão cantando "Palavras", "Costumes" e "Você Não Sabe", do Rei Roberto, O Supersticioso.
    Quanto aos fortíssimos e direcionamentos na obra de Arte, creio que alguns - ou até muitos...- podem passar desapercebidos pelo póprio realizador. Ontem assisti "Casa de Areia e Névoa", um drama daqueles em que as coisas começam bem mal e só tendem a piorar. É construído meticulosamente pelo diretor, que fá-lo deslizar lentamente, observador, pinçando com esmero as nuances de seus personagens. A todo o tempo podemos perceber ângulos bons e maus destes, e o único 'inocente', o rapazinho filho do Ben Kingsley, é o primeiro a morrer. Não dentre tantos, graças a Deus, mas trata-se de uma tragédia em que, ao natural, a dissensão triunfa gloriosamente.
    Filme curioso, pois : tudo se perde, tudo se arruína, tudo esboroa-se, inclusive o vir-a-ser. Mas há tanta força, tanta paixão ali...

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    [Aeternus:2780] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-15)


    - ainda direcionando...

    ...prefiro que essa parte mais teórica, mais ‘ciência’, seja abordada pela turma do ramo. Gosto, nesse caso, de mediar com algumas pinceladas. O Bauman que ora leio – “O Mal-Estar da Pós-Modernidade” - aborda esse tema partindo de Magritte e Foucault.
    Voltando à ‘Mãe de Todas as Artes’, Cole Porter é um compositor dificílimo de se interpretar. O que suas composições tem de riqueza harmônica igualmente tem de nuances desafiadoras. “Night and Day” é tão bela quanto quase-incantável. Até hoje, para se ter uma idéia disso, Ethel Merman, uma cantora /atriz da Broadway e com um vozeirão que dispensaria os moderníssimos microfones, é considerada sua melhor intérprete. Curto o Cole de montão, e prefiro cada música com um intérprete diferente...
    A trilha de "Evil Under the Sun", baseado em Agatha Christie, tem uma orquestração primorosa sobre ele, do ínício ao fim."Just One of Those Things" está explêndida ali, como em Louis Armstrong.
    O casamento entre as lyrics e os compassos é sublime, para não falar da riqueza de rimas e dos fantásticos dribles lingüísticos. Em “Easy to Love”, por exemplo, quando ele toma a seqüência (...)we’d be so grand at the game / so carefree together / that it does seem a shame / that you can't see / your future with me / ‘cause you’d be, oh!, so easy to love” minha idiosincrasia insiste em remeter o pensamento para o verso de trás na referida shame: seria uma vergonha ‘ser tão grande no jogo’ ( tanto quanto, ou mais do que ) ‘você não querer vislumbrar seu futuro comigo’.

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    [Aeternus:2781] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-15)


    - Lilith

    Andei relendo mails que perdi com a viagem e outras que li depressa demais. Ainda não estou completamente em dia, mas ...

    Guto, descobri que Robert Browning escreveu sobre Lilith.  Nunca li nada dele. Lembro-me do analista Bion contar uma história sobre um dos seus longos poemas cuja escrita era tão complicada, tão complicada que só havia dois que a entendiam: o próprio Browning e Deus. 
    A piadinha continua, mas esqueci do final. De qualquer modo, suponho que esta Lilith do Browning deve ser da pesada!
    A referencia veio a partir de uma personagem tida como sendo "lilithiana" no Nabokov ( "Ada", a ser em breve publicada em português... ) que satirizava um tal poeta Mr. R. Brown numa citação indireta e atravessada.  


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    [Aeternus:2782] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-16)


    - E Jornada da Alma?

    Será tabu? Ninguém fala de "Jornada da Alma". Gallego, por favor, responda-me a pergunta que já fiz: por que você não gostou de "Jornada da Alma?".

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    [Aeternus:2783] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-16)


    - Poética

    Agradeço ao Florião por lembrar da bela música do Irving Berlin. Mas quero aqui destacar um trecho que Florião comentou: "Mas menina-loser-boxeur é demais pro meu gosto, e ainda por cima tendo como vilã uma alemã oriental...valha-me Deus ! Deixa a turminha deles trocar porrada entre si, vai...
    Terra do nunca tem um trailer perfumadinho, engatilhadinho, em ralenti...Deve convidar-nos a chorar de forma bem convencional. Nada contra o choro : vocês sabem que sou chorão de plantão. Mas preciso de essência, de equipe, de Absurdo ! De conflitos estapafúrdios, de amores vãos.
    E la nave va." Essa fala de Florião me remeteu à "Poética" de Manuel Bandeira, da qual gosto muito:
    "Estou farto do lirismo comedido
    do lirismo bem comportado
    Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor
    Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
    Abaixo os puristas
    Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
    Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
    Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
    Estou farto do lirismo namorador
    Político, raquítico, sifilítico
    De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
    De resto não é lirismo
    Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
    com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
    Quero antes o lirismo dos loucos
    O lirismo dos bêbados
    O lirismo difícil e pungente dos bêbados
    O lirismo dos clowns de Shakespeare
    - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
     

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    [Aeternus:2784] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-16)


    - nossas modernadas jornadas ...

    Helena,  no sumário que fica ao lado do local onde escrevemos as mensagens da lista, que remete ao site Aeternus há um local chamado Artigos, com itens "arquivo de artigos" e "autores & artigos" que, aplicando-lhes um "search" lhe darão acesso ao que já temos do Gallego e, provavelmente, ao artigo que ele preparou há uns anos sobre o filme Jornada da Alma ou Freud e Sartre.  Acho boa sua sugestão de retomarmos o que ele já comentou sobre o tema.

    Gallego, que tal facilitar para nós e abrir uma lista nova e ali colar diretamente seu artigo sobre Freud e Sartre?  

     

     


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    [Aeternus:2785] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-16)


    - Viva Manuel Bandeira!

    Helena,

    Perfeita sua responsividade aos movimentos do Florião ( parece uma frase banal, mas fiquei uns cinco minutos cismando antes de digitar "movimentos do Florião" sem conseguir melhorar, mas querendo pelo movimento aludir ao sentido que seria menos de arroubo que fluxo e fluencia em busca de confluentes que engrossem suas águas... Demorei também com a palavra "responsividade" porque pretendia falar de ressonancia emocional/intelectual poético lírica, etc etc e etc) através da lembrança deste poema do Manuel Bandeira.

    Há pouco estava alugando os ouvidos do Gallego para reclamar dos botões e dos mapas que invadiram o mundo moderno: qual senha em que fila para qual guichê escolher pra pagar contas no banco ( caixa automático ou pagamento pela internet sendo mais complexos ainda quando se quer sonhar em vez de se reprogramar a cada dia ..). A impaciencia do Bandeira com os "botões poéticos" me pareceu incomensuravelmente moderna porque, com outras imagens e outras queixas, aponta para esta multiplicação das listagens, categorizações, receitas e instruções fazendo a fragmentação da experiência de estarmos, simplesmente, vivos e que o sol está ensolarado lá fora.   

    É preciso dizer Chega! Dar um basta para a invasão desta multiplicidade das programações que a cada momento nos roubam a fala simples e nos dirigem para onde nem queremos ir e não temos como não ir para não sobrarmos na margem destes fluxos...  

    Até comer ficou complicado, com contagens de calorias e tipos de gorduras saturadas e não saturadas, com escolhas entre açucar ou aspartame, glútem ou polvilho, ingerindo gratis aromatizantes, acidulantes, conservantes, sujeitos ao  fluor, vitaminas B e C, ferro, cálcio tipo A.

    Ontem peguei a lista dos ingredientes impressa num saco plástico, tentando adivinhar a receita inglesa de um biscoito industrializado que ela envolvia.  Por lei exige-se que notifiquem o consumidor o que cada produto contém. O tal biscoito tinha tanto por cento de farinha de trigo, outro tanto de manteiga e de açucar mascavo, pitada de de fermento em pó e acreditei que, pelas proporções poderia recriar  os amanteigados tipo "Walkers shortbread": era apenas medir o dobro de farinha para a porção de manteiga e açucar, prescindir dos ovos e do leite e pronto.  Qual não foi minha surpresa quando, em seguida, encontrei um aviso:  "Deve ser evitado por quem tem alergia às nozes".   Quais nozes????  Um teste em bioquímica certa vez revelou que uma mosca tem a mesma composição de  duas batatas fritas. Então... vamos comer mosca?

     


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    [Aeternus:2786] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - Querida Helena

    Assim vou te pedir que se separe do Cleo e case comigo...
    Pena que as pessoas estejam cada vez mais anti-Bandeira. O (d)efeitos especiais do pós-moderno entrincheiraram nosso tempo/espaço, nossos vãos devaneios...
    Mande teu E-mail para meu mrfloriao@uol.com.br mas não assine como a portuga cutuba, antes como você mesma. Nada contra tua personagem, que adorei : apenas será gostoso te conhecer melhor !

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    [Aeternus:2787] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-16)


    - Nova Poética

    Você tem razão Jansy. Esse mundo das inúmeras senhas que temos que decorar e não podemos, de forma nenhuma, anotar para poder lembrar, as calorias que nos forçam a contar, esse por em ordem tudo todos os dias, meu Deus! Essa coisa também de ter que sempre lembrar de falar politicamente correto, de não poder isso e aquilo. Que mundo horrível. E viva mesmo Manuel Bandeira com sua Poética. E aí vai mais, no mesmo estilo, a " Nova Poética":

    "Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
    Poeta sórdido: aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
    Vai um sujeito.
    Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
    É a vida
    O poema deve ser como a nódoa no brim:
    Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
    Sei que a poesia é também orvalho.
    Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade."

     

     

     


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    [Aeternus:2789] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-16)


    - meu ego agradece

    Puxa Florião, estou mesmo lisonjeada - esta foi a palavra que me veio à cabeça para expressar minha felicidade, meus risos e minha alegria após ler o que você escreveu. Ganhei o dia e a semana. Pode ficar tranqüilo que não assinarei meu e-mail como a portuguesinha, até porque acho que você jamais cairia numa brincadeira daquelas. Vamos ressuscitar Manuel Bandeira e o lirismo dos loucos. Abaixo os puristas, os puritanos, as virgens e os moralistas.

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    [Aeternus:2790] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - eu assisti um filme que comprei no sebo

    Chama-se "The Night and the Moment". Tem uma direção frouxa de Anna Maria Tatò, e um desempenho monocórdio, anódino, do Willem Dafoe, personagem central junto à magnífica Lena Olin. Pena, pois essa Anna dos Meus Dias está cercada ali de Jean Claude Carrière ( roteirista e brincando de ator ), da dita Lena  - belíssima, maviosa ! uau...- Miranda Richardson - rosinha como uma coelha - foto do Rotunno e música do Morriconne.
    Salvam-se no todo a Lena e a Miranda, além de algumas linhas do Carrière. Numa destas ele mesmo pergunta ao Dafoe, na prisão, "por que escrever tantas coisas obscenas ?" e escuta do prisioneiro "a virtude precisa disso".

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    [Aeternus:2793] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-16)


    - Lilith

    Jansy,

    Que ótimo ! Quanto mais informações sobre Lilith, melhor. Passe-nos. Mesmo porque ainda não estou completamente saciado. Tenho planos de escrever uma peça. Meu Deus, tenho tantos planos e não estou conseguindo realizaá-los a contento. Acho que estou precisando de umas sessões de análise.

    Beijos,

    Guto


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    [Aeternus:2794] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-16)


    - geral...

    Guto, vou procurar mais elementos sobre Lilith e Browning para você. E, quanto ao drama de ter "tantos planos e não estou conseguindo realizá-los a contento", não é porque a rotina da nossa luta pela sobrevivência nos rouba diariamente da necessária "torre de marfim poética"? 
    A não ser que, como adverte Freud, você acredite que deva  transformar um hipotético "sofrimento neurótico"  num sofrimento comum... (hehehe)

    Florião, gostei da sua apresentação Bauman/Foucault ( não tem o pós dos pós nos popós, não? ) e achei interessante sua pergunta sobre " o  ponto de convergência em que a discussão da verdade e a discussão do presente subjetivamente vivido se encontram, se animam e se reforçam uma à outra", com uma estrelinha abrindo para * a 'ontologia do presente' em Foucault remete ao espaço transicional, não ?  Ainda bem que não sou winnicottiana porque ficaria num grande aperto para comentá-lo. 
    Será que a palavra "ontologia" não carrega uma sustança ôntica demais para os processos fantasísticos que se passam fazendo convergirem o subjetivo e a realidade externa no bebê?
    Será a "realidade psíquica" menos real ou menos "verdadeira"  que a "realidade externa" ?

    Davy, você anda tão pacíficamente gentil que estou estranhando a antiga advertência que supunha sermos nós dois brigões profissionais...  Valeu o valeu.


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    [Aeternus:2795] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-16)


    - Achei um lilithxo pelo google, mas no meio, algo sério...

    A Modern Development
    Images of Lilith in Literature, Art, and Artifacts

    "Gilgamesh and the Huluppu Tree" (2000 BCE)
    Usually found as part of the Epic of Gilgamesh of 2400 BC, this tale contains the earliest mention of Lilith. She is here associated with Eden and is portrayed as fearsome.

    "The Lilith Relief" (circa 2000 BCE)
    Sumerian terra-cotta relief which features Lilith as the primary figure. Lilith is identified as a succubus.

    Isaiah 34:14 (circa 900 BC)
    This scripture is the site of a much contested incidental literary reference to Lilith. While the word sometimes translated as "Lilith" has been variously translated as "night hag," "night demon," etc., the passage, nevertheless, associates a Lilith-like creature with the desert, night, evil, and flight.

    Testament of Solomon (200 CE)
    Although the character in question is "Obizuth," she describes herself in terms that correlate almost perfectly with Lilith. This text contains the earliest textual reference to the amuletic tradition of warding off Lilith, the demoness.

    The Talmud (400 CE)
    This text contains four incidental mentions of Lilith as a winged, she-demon of the night. Although it alludes to the succubus-myth associated with Lilith, it does not show any connection with Adam at all.

    "The Nippur Bowls" (circa 600 CE)
    Incantation bowls found near the ancient colony of Nippur. This set of archeological artifacts contains 40 bowls, 26 of which feature Lilith. Her guises as the child-slayer and succubus are joined together in the incantations inscribed here.

    The Alphabet of Ben Sira (800 CE)
    Controversial text by an unknown author, generally believed to be the "founding text" for the Lilith myth as it is known today. The Lilith of The Alphabet account is the insubordinate first wife of Adam, created from dust as his equal, who fled Eden.

    Book of Raziel (circa 1100 CE)
    This literary reference draws upon the Hebrew amuletic tradition of warding off Lilith during childbirth. She is here associated with Adam and Eve.

    The Zohar (1200 CE)
    This central work of Jewish mysticism depicts Lilith in all of her various guises: 1) Lilith as "female of Samael." Seductive and beautiful, Lilith sleeps with men and then kills them. (Zohar I 148a-148b). 2) Lilith begets demons from her intercourse with sleeping men and inflicts diseases on them. (Zohar I 19b). 3) The story of creation (Lilith/Adam/Eve) is "resolved" by making Lilith Adam's first wife. (Zohar III 19a). 4) Lilith is described as a strangler/murderer of children. (Zohar I 19b).

    Hebrew Amuletic Tradition (circa 900-1800)
    Numerous archeological artifacts which focus on Lilith. Primarily used during child- birth to keep Lilith away, these were worn by the pregnant woman and/or hung on her walls. Some of these artifacts also draw on the facets of Lilith's identity as a succubus and as the first wife of Adam.

    Jutta (1565)
    German play about Johanna, the granddaughter of Lilith and the only woman known to have been pope. As a backdrop to this plot, the existence of Lilith is explained.

    Paradise Lost (1667)
    Contains an apparent allusion to Lilith in the single phrase "snake witch."

    Faust (1808)
    Lilith briefly appears in the Walpurgis Night scene of this work by Goethe. She is portrayed as a beautiful seductress with long, flowing hair, and Mephistopheles explains to Faust that Lilith was Adam's first wife.

    "Lamia" (1819)
    Poem by John Keats presenting the first Romantic portrayal of Lilith. She is excessively beautiful and is trapped in the form of a snake until freed by Hermes so that she can find the love of her youth, Lycius. She and he live together happily, with him unaware of her mythical past, until, at their wedding, the philosopher Apollonius declares Lilith's name and causes her death. Lycius, unable to live without her, dies also.

    "La Belle Dame sans Merci" (1820)
    Ballad by John Keats which draws upon themes of "Lamia." The unnamed "La Belle" is an enchantress/phantasm who seduces even the strongest of men. She can be read as representing Lilith herself or simply the femme fatale image of which Lilith is a part.

    "Lady Lilith" (1863 and 1864-1868?)
    Two paintings by Dante Gabriel Rossetti (watercolor and then oil version) which depict Lilith sitting in a magical boudoir/bower space, combing her long, ensnaring hair in a mirror.

    "Lilith," later published as "Body's Beauty" (1868)
    Sonnet written by Dante Gabriel Rossetti to accompany "Lady Lilith." She is described as Adam's first wife and possibly implicated in the Fall of Man. The poem emphasizes Lilith's affiliation with the snake and ends with Lilith castrating/killing the universalized young man with her "strangling golden hair."

    "Eden Bower" (1869)
    Ballad by Dante Gabriel Rossetti which elaborates on the themes of "Lilith." Although this poem represents the first time that Lilith is directly implicated in the Fall of Man, it is also here that Lilith truly makes her transformation. By reading the poem from a feminist perspective, it can be seen that Rossetti gives Lilith the power of narrative voice, a voice which was historically denied her, and explodes the dichotomy between good and evil, thereby undermining traditional responses to the myth of Lilith

    "A Sea-Spell" (1868) and "The Orchard-Pit" (1869)
    Two poems by Rossetti which tell of other "femme fatales" who are not necessarily Lilith but, nonetheless, draw upon the symbols and imagery of the Lilith myth. The unnamed femme fatale of "The Orchard Pit" is more explicitly associated with Lilith while the Siren of "A Sea-Spell" merely echoes the theme of Lilith.

    "Adam, Lilith and Eve" (1883)
    Poem by Robert Browning where a thunderstorm drives Lilith to confess that she truly loved Adam, and Eve to confess that she truly loved another man. After the storm is over, Adam naively laughs and dismisses their tales as falsehoods.

    "Lilith" (1887)
    Painting by the Honorable John Collier which pictures sexuality between Lilith and the snake. While most older sources indicate that Collier's inspiration was Keats' "Lamia," the picture more accurately seems to represent the sexual scenes between Lilith and the serpent in "Eden Bower."

    La Fin de Satan (1886)
    Novel by Victor Hugo where Lilith is combined with Isis and is portrayed as hideous and bloodthirsty, "the world's black soul."

    "La Fille de Lilith" ("The Daughter of Lilith") (1889)
    Story by Anatole France about Leila, the daughter of Lilith. Lilith and all of her children are bound to the earth in immortality -- because they were not involved in the Fall from grace --and are described as "neither good nor evil."

    Lilith (1892)
    Play by Remy de Gourmont which gives a cynical and erotic account of the traditional creation story as described in the sacred Jewish texts. Depicts the myth of Lilith as a completely sexualized being who plots revenge on Adam and Eve only so that she can have sex with Adam.

    "Lilith" (circa 1892)
    Painting by Kenyon Cox where Lilith coddles and kisses the snake. In a lower panel of the painting, Lilith is shown in the Tree of Knowledge with the body of the Snake. Lilith is handing the forbidden fruit to Eve and she, in turn, passes it to Adam, thus creating a chain of destructive femininity.
    (* It should be noted that during the late 1800s, images of snakes and women were widespread in art and literature. Archetypal females portrayed with snakes included Salammbô, Eve, Lilith, and Lamia. The list compiled here only includes references to Lilith explicitly and also some references to Lamia that seem to indicate an implicit representation of Lilith as well (such as Keats' "Lamia" and Waterhouse's "Lamia" paintings). For more information on images of women and serpents in fin-de-siècle culture, see Dijkstra's Idols of Perversity, pages 305-313.)

    Lilith (1895)
    Novel by George MacDonald where the hero is forced down a path of painful initiation by the seductress Lilith.

    "Lilith" (1896)
    Story by Henry Harland in which the hero is a poverty stricken, deaf-mute sculptor named Straham. He creates a clay casting for a statue of Lilith and develops a close bond with the statue, sacrificing everything to keep it from being ruined by the coldness of the winter. He stumbles upon an old woman in the street (Lilith herself) and debates over assisting her or going back to his statue. He finally opts for the former, but when he gets home his statue has shattered. Much later, he starts the figure again, and when it is exhibited he becomes famous.

    "Lamia" (1905)
    Painting by John William Waterhouse in which Lamia kneels before Lycius as the snake-skin falls from her body. Clearly depicts a scene from Keats' poem "Lamia," but also, more generally, depicts Lilith as the universalized femme fatale. (See illustration #20).

    Der Heilige und die Tiere (1905)
    Play by Victor Widmann in which Lilith is delivered from evil by a saint.

    "Die Kinder der Lilith" (1908)
    Poem by the German storyteller Isolde Kurz which rejects as absurd the tradition of Lilith as a winged demon who deserted Adam. Kurz asserts that Lilith must have originally been like an angel and capable of deep insight. Adam, the "lump of clay," was created in God's boredom and Lilith, a charming, elfin creature, was given to him as a companion, in the hopes that something new, something disorderly striving for order, would come out of the contrast between their natures. Lucifer creates Eve to distract Adam from Lilith -- his rival. Lilith flees in despair and gives birth to a child that will lead Adam's other children to spiritual perfection, as God had intended.

    "Lamia" (1909)
    Second painting of this title by John William Waterhouse, often known to paint multiple paintings upon the same theme. Lamia is seated alone at a river bank, looking at her reflection in the water. The snake-skin she has recently shed is at her feet. Again, this painting clearly speaks to Keats' "Lamia" but also contains elements which refer to the more general femme fatale, including Lilith. (See illustration #21).

    "The Avenging Spirit" (1920)
    Poem by Arthur Symons which identifies Lilith and Lamia as mother and daughter, united in evil. The Snake plays a primary role in the poem as a symbol of sexuality, lust, and evil.

    Back to Methuselah (1922)
    Play by George Bernard Shaw in which Lilith is the personification of creative development, the mother of Adam, Eve, and all humankind. Lilith bestowed upon Eve her greatest gift -- curiosity. The last act is set in the year 31,920 and Lilith has the last word, concluding that the experience (experiment) of human development has been worthwhile and humanity is on its way to eliminating cruelty, hypocrisy, and death.

    Dieu crea d'abord Lilith (1935)
    Novel by Marc Chadourne where Lilith sows ruin, death and an incurable despair before disappearing to no one knows where, in despair herself and still a rebel. She may/may not be dead.

    Delta of Venus (1969)
    Book of "erotica" by Anais Nin, which features a character named Lilith. Lilith here is described as "sexually cold," but it is not her own fault, for her husband neglects to show any real sexual interest in her. Says Nin, "It was something to be done quickly, for his sake. For her it was a sacrifice."

    Pope Joan (20th c.)
    A reworking of the German play "Jutta"

    "Lilith Prints" (1974)
    Pornographic, passionate images of a transcendental sexual creation including Adam, Eve, Lilith, Satan, and God.

    "Lilywhite Lilith" (1974)
    Song on Peter Gabriel's album "The Lamb Lies Down on Broadway" in which Lilith is the guide of the soul through the Underworld.

    "Lilith" (1981)
    A midrash on the text of Genesis 3:7 which explains how Lilith comforted Eve when she was told to cover her body. Eve had felt that Adam must not have liked her body and, thus, was ashamed. Lilith supports her and gives Eve the confidence and determination to speak up to Adam. The two women embrace as good friends.

    La Papesse ou la legende de la papesse Jeanne et de sa compagne Bartolea (1983)
    A play by Odile Ehret which reworked the "Jutta" story.

    La Papesse (1983)
    A novel by Claude Pasteur also based on the "Jutta" story.

    "The Story of Lilith and Eve" (modern)
    Modern Jewish tale by Jakob Lind in which Lilith and Eve are aspects of one female.

    Lilith: A Metamorphosis (1991)
    Novel by Dagmar Nick in which Lilith tells her version of the story of Adam's experiences in the Garden of Eden, why he and Eve are expelled, and why she herself is transformed into a snake.

    From Lilith to Lilith Fair (1998)
    Authorized story of the evolution of the Lilith Fair, with an introduction by Sarah McLachlan, founder of the event, stating her own abbreviated version of the Lilith myth. Demonstrates the way in which Lilith is defined in modern culture: the first strong, independent woman, a true feminist heroine.

    Which Lilith? (1998)
    Subtitled "Feminist Writers ReCreate the World's First Woman," this book contains modern feminists' cogitations upon who Lilith is/might be. The authors describe the text as "contemporary midrash," commentary on biblical text, and assert that "Jewish women have a need to imagine Lilith."

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    [Aeternus:2796] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - acertos de (p)rumo

    Guto : parabéns pelo projeto ! Precisamos de autores originais instigantes, ao invés de copistas ou repetições ad infinitum dos célebres e clássicos.

    Jansy, dentro de teu texto :
    Florião, gostei da sua apresentação Bauman/Foucault ( não tem o pós dos pós nos popós Popó é um lutador de boxe baiano, troglodita que bate um bocado e sagrou-se campeão mundial, não? ) e achei interessante sua pergunta eu apenas mediei ! quem pergunta é Zygmunt Bauman sobre " o  ponto de convergência em que a discussão da verdade e a discussão do presente subjetivamente vivido se encontram, se animam e se reforçam uma à outra", com uma estrelinha abrindo para * a 'ontologia do presente' em Foucault remete ao espaço transicional, não ? sim, fiz essa ilação, e gostaria de ouvir Grand Davy a respeito. Ainda bem que não sou winnicottiana porque ficaria num grande aperto para comentá-lo. 
    Será que a palavra "ontologia" não carrega uma sustança ôntica demais para os processos fantasísticos que se passam fazendo convergirem o subjetivo e a realidade externa no bebê? Tua pergunta é de todo pertinente, já que eles parecem remetidos à todo o Arsenal Humano, digamos assim. Li 'ontologia' num senso bojudo, cheio, açambarcante...
    Será a "realidade psíquica" menos real ou menos "verdadeira"  que a "realidade externa" ? Dentro da 'filosofia da verdade' no pós-moderno, que Bauman propõe discutir, essa é uma des questões importantes a serem desfiadas. A coisa vai deslanchar mais, estou bem nessa parte em que o autor começa a estruturar suas linhas de pensamento. Ele parte de Magritte/Foucault, e está mergulhando nas vertentes. O que eu achar interessante vou trazendo para cá, ok ?
    Bauman parece bastante lúcido, metódico. Estou gostando. É um atento e paciente semiologista de nossa época, e discursa de dentro do Poder, ao contrário do bucentauro Baudrillard, a crispar fogo pelas ventas. Mas que, delírios e hybris à parte, me faz pensar...


     

    Davy, você anda tão pacíficamente gentil que estou estranhando a antiga advertência que supunha sermos nós dois brigões profissionais...  Valeu o valeu.



     


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    [Aeternus:2797] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - Bauman e 'senso comum'

    O tal 'senso comum' que vez por outra Davy usa em seu discurso é uma das peças no tabuleiro do Bauman...ele tenta uma articulação dessas linhas entrelaçadas vindo de Platão, Kant, Heidegger, até focar a discussão no ponto que publiquei hoje, na carta anterior.

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    [Aeternus:2798] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-16)


    - senso comum e bom senso

    Popó é boxeador, tá certo. E eu estava mesmo me referindo aos 'popôs' da musica baiana. 

    Você falou de senso-comum e me lembrei da palavra "common-sense" em inglês que Bion sugere apontar não apeans para o sentido simples de bom-senso, como o do senso-comum que seria quando as informações dos cinco sentidos convergem numa sensação. Contudo, o mesmo Bion cita um poema do Kipling no qual as informações sensoriais e as perguntas do tipo: como, quem, onde, quando, por quê devem ser abandonadas para a apreensão de algo que lhes escape.

    Andei comentando uma metáfora sobre a metáfora feita pelo Borges,  quando ele falou de um autor que sofria de " cochilo das metáforas"  porque, como as entendo, as metáforas não devem ser predominantemente visuais ou auditivas ou de bom-senso. Elas representam um processo único de acesso ao que não tem um nome próprio, mas que pode ser aludido, apontado, recriado a partir da aproximação de duas analogias díspares e chocantes. 

    Nabokov perde um tempão filosofando sobre o tempo ao modo de Bergson e em oposição ao Bertrand Russell bem no meio de um romance. A gente nota que ele desconhecia então os modernos relógios digitais que não precisam representar analógica e espacialmente os ponteiros girando para dar a medida dos minutos ou das horas que passam...
    Pra mim o tempo ainda é eminentemente analógico, uma sensação de espaço maior ou menor entre duas atividades, mas, entendo o projeto nabokovino para tratar de uma dimensão de "eternidade", desde que não venha teorizado num esboço filosofante que pega carona num livro de histórias. Aí torna-se como mostrar as cordas das marionetes...

    Boa leitura!

     

     


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    [Aeternus:2799] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - deliciosas colocações, e...

    Também jogo no Analógicos F.C.
    Acho que não uso relógio há décadas, pois debaixo de meu nariz há sempre algum à disposição. Deixo, pois, livres e a respirar meus queridos poros - e não pense que sou nudista, apenas quase...
    O escritor e em particular o escritor que prescinde do sistemão e da glória para continuar sua obra, como Nabokov prescindia, pode arvorar-se aos arroubos de 'romper' a narrativa dessa forma. É um dos cordéis aos quais Gallego e Davy aludem, certamente. E novamente cai no limbo do switch, de 'aceitarmos' ou não o convite. Este 'aceitar' não remete, óbvio, ao simples consciente : fala de uma sedução, de algo arrebatador.

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    [Aeternus:2800] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-16)


    - Nabokov prescindindo da Glória?

    Duvido. Ele é o mais narcisista entre os narcísicos criativos que não enlouqueceram por completo. Ele apenas achava a maioria dos leitores desprezíveis e aspirava a uma multidão de Nabokovs ocupados em ler Nabokov...

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    [Aeternus:2801] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - há um descompasso, então

    ...entre essas informações e o que o escritor me passa !
    Não 'sinto' nele o 'homem-atrelado-ao-social' dessa forma, a necessitar o Manto da Glória. E se ele fosse assim espelho do espelho do espelho não seria incapaz de constituir família, ter filhos, tals ?

    Para quem tem tutano, vou escrever na lista "Meu mundo caiu" sobre "My Life Without Me", filme canadense belíssimo que acabo de assistir !


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    [Aeternus:2803] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-16)


    - a platéia de Nabokovs vendo Nabokov

    A frase sobre os leitores terem todos a sua própria cara era do Nabokov, e seus romances pululam com amores incestuosos, jogos de espelhos, gemeos apaixonados, falsas imagens duplicando a si mesmo... O cara era um pavão explícito com direito a todo seu glorioso rabo exposto nas cores e brilhos peculiares.
    Não entendi, você discordou da minha descrição porque achou que se ele se amasse tanto não constituiria família? Em primeiro lugar, não vejo obstáculo para que apaixonados narcisos ou até mesmo homosexuais tentem e consigam ter filhos procurando a parceira adequada para este fito reprodutor.  Em segundo, não deve ter sido a toa que seu filho Dmitry encerrou a dinastia pois não se casou ou teve filhos, vivendo intensamente enquanto uma extensão do rico e famoso pai. Este, quando Dmitri ainda era um bebê, avisava às visitas: " Façam silencio porque meu futuro tradutor está dormindo" . 

    Nada disto diminui a grandeza do talento do Nabokov, minha paixão constante com sua obra e minha admiração pelo que ele escreveu...

     


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    [Aeternus:2804] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - todos temos nossas manias

    ...e se ele fosse só isto jamais teria conseguido articular-se. Algo como Camille Claudel, que torna-se disruptiva e destrói-se e à sua obra, extensão de si mesma.
    As palavras do próprio Nab são nacos dele, como o são de cada um de nós. Mesma coisa que Camus diz quando afirma "impossível a qualquer um redigir sua biografia : por mais sincera e entregue que se tente, sairá falsa".
    'Perfil' de alguém, 'biografia', pois, seria um summon de todos os nossos passos, de todas as fantasias que tivemos e geramos à nosso redor. E aí...como compilar isto ? pode-se tentar chegar próximo, ter indícios...mas, graças a Deus, sempre haverá uma porta aberta para o indefinido, para o mistério...

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    [Aeternus:2805] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-16)


    - Nabokov

    Eis algo que tentei fazer lembrando-me de Lolita. Talvez seja uma visão açodada de Nabokov, e o resultado não foi o que pretendia. Mas F(!@*&^() -se:

     NABOKOVIANO

     Levantou os olhos o professor

    e mirou a aluna dileta

    se aproximando, como quem nada quer.

    Reparou no castanho-cinza dos cabelos

    e no peculiar do semblante.

    Aquela criança diversa, a que vinha ?

     - “Professor, quero te falar. Não vou disfarçar mais: te amo, e estou apaixonada.”

     E a ele faltou chão.

    Cometera porventura a desfaçatez mal-fingida da insinuação ?

    Dera algum sinal de além-contrato ?

    Vazara, num lampejo, a admiração metadidática ?

     A surpresa entremeou-se de orgulho e dor.

    Tocar-lhe as mãos, correr, sentarem-se ao pé

    da árvore mais viçosa e falar de amor.

    Ou apenas guardar aquele momento sublime ?

    Dizer do imponderável, do interditado

    com ternura.

    E se lembrou de semelhante emoção

    amealhada nos primeiros desvãos da vida.

    Por um instante só pôde imaginar vagas

    tempestuosas rebentando em praias remotas

    sob céu obscuro.

    Maré milenar em nova estação.

    A menina, que poderia ter companhia entre os de seus anos,

    e rir-se dos chistes da idade

    entre beijos ingênuos,

    frescor, mocidade,

    trazia tal nova !

    Algo de morte, por certo, nela residia.

    E ele, com que atraso a vida lhe servia !

    Dura prova.

    Agora que não mais esperava por semelhante turbilhão.

    Não que fosse velho,

    mas, professor que era, qualquer proposição seria descabida.

    Bem poderia ser sua filha.

    E merecedora a aluna de mais honrarias que o mero desfrutamento.

    Conquista inútil, pensou, vitória cínica do desalento.

    E se lembrou de versos remotos

    entre os destroços da juvenília

    que falavam de certo cabelo castanho-cinza.

    Ia assim pensando no que dizer quando, súbito,

    foi acordado dos devaneios por passos mais próximos.

    Era a aluna que vinha, então, em seu encontro.

    - “Professor, quero te falar. Ê provinha difícil, hein ?”

     


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    [Aeternus:2806] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-16)


    - Lolita

    Considero-o, do ponto de vista Estético, o mais bem escrito que conheço. Prefiro alguns mergulhos no prumo do Nab à toda a empolação em Shakespeare, por exemplo.Somado ao que 'passa', também um dos melhores, e seria preciso um ensaio completo para tentar chegar próximo à densidade e instigação que dele fluem.
    Guto foi bondoso/piedoso com o Humbert Humbert dele : o que o do Nabokov me passa é capaz de travestir-se em monstro com a mesma facilidade com que desmancha-se, entre gozos e urros. Soberbo e impotente diante do Absurdo.


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    [Aeternus:2807] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-16)


    - nem erguer nem raspar as sobrancelhas da fantasia...

    Guto, seu poema foi ganhando peso na medida em que progredia.  Valeu. No começo fiquei meio confusa porque lembrando de uma história lindíssima da Clarice Lispector, sobre uma aluna apaixonada se aproximando do professor. Esta numa das coletaneas de contos: Felicidade Clandestina ou Retrato de Família ( sou um desastre para títulos, além dos nomes!). É imperdível, sem alucinação, sem Annabel Lee, e todo irreal como seu poema vai ficando, esfumaçando-se devagar... 

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    [Aeternus:2808] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-17)


    - para Helena c/ puxão de orelha na Jansy

    Ô, Jansy! "Jornada da Alma" é um filme sobre o Jung e Sabine Spilrein!!! Meu trabalho é sobre o filme antigo do John Huston com roteiro original de Sartre e que se chamou no Brasil "Freud, além da alma"  e era simplesmente "Freud", embora tenha sido relançado por lá mesmo como "Freud, the Secret Passion" para ver se dava mais bilheteria. Não adiantou.
    Helena: lamento, mas mal me lembro do filme sobre Jung & Sabine Spilrein que vi na mostra de filmes em setembro/2004. Vi quase 30 filmes em 15 dias, o que pode atrapalhar na apreciação de alguns, mas este ficou como um dos menos expressivos, ao meu ver.
    A história de Jung & Sabine é muito forte: já deu um livro de ficção do Morris best-sellers West (Um Mundo Transparente) e um livro sério do Aldo Carotenutto denunciando que Freud teria "criado" o conceito de amor transferencial para livrar a cara do Jung quando Sabine foi se queixar ao rabino-mor que seu querido seguidor ariano estava pisando na bola com ela. A "culpa" era da paciente! Depois o Freud brigou com o Jung e não me lembrou se acabou assumindo a terapia da Sabine ou arrumou um analista mais ético para ela. Ou se deixou ela se virar sozinha. Aconselhou-a, tenho quase certeza, a desistir do amor por Jung.
    O filme se utiliza de um recurso batido de dois personagens do presente estarem pesquisando a vida da Sabine. Essa dupla história é totalmente gratuita: os personagens do presente são desinteressantes, não tem nada a ver com nada, parecem uma desculpa à moda de TV Educativa onde Pedrinho e Narizinho vão descobrir a vida de Não-sei-quem para contar ao espectador. O ator que faz o Jung me apreceu totalmente inexpressivo e a atriz que faz a Sabine apenas "menos ruim" um pouco. Tudo meio sem vida, sem ânimo, sem "alma", sem tesão, sem fogo, sem paixão, tudo meio morno, anódiono, insípido, inodoro e incolor. Burocrático, sem acrescentar nada à história real, parecia documentário chato da BBC. Achei um desperdício de um episódio histórico grave de pessoas reais servindo a uma banalização de temas que mereciam mais intensidade dramática.
    Jansy briga mais do que eu com a apropriação de personalidades reais por livros e filmes (gostei muito de um livro chamado "Alice aos 80" que era uma ficção sobre a Alice real que inspirou Lewis Carrol a escrever "Alice in Wonderland", só que idosa, com 80 anos, indo receber uma homenagem numa Universidade norteamenricana - fato que teria sido real. Não sei o que era ficção ou não na vida desta Alice que existiu de fato, mas curti o livro como uma paráfrase da possível pedofilia de Lewis Carrol se transformando em evento transgeracional: um filho da idosa Alice fica meio tentado por ninfetas, tal como o professor de Matemática Carrol ficara tentado pela mãe deste rapaz). Acho essas apropriações complicadas, mas ninguém se queixa da Mary Stuart de Schiller ter tantas invenções ficcionais (como o encontro dramático entre Mary e sua prima a rainha-dita virgem, Elizabeth, climax dramático da peça antes de Elizabeth mandar decapitar a prima "católica"). Nem nos queixmos do Marco Antonio e Cleópatra de Shakespeare. São personalidades já mitificadas, mais ficcionais mesmo do que reais. E as pessoas reais certamente foram bem menos interessantes do que as ficcionais.
    Atrapalha nossa apreciação de filmes/peças/livros de ficção sobre personagens reais mais próximos no tempo.
    Mas, lamentando discordar de sua empolgação, achei o filme sobre Sabine muito fraco mesmo, sem graça. E me aborreceu de cahtinho que me soou, sem ritmo, lembro que fiquei olhando para o relógio. Idiossincrasia? Pode ser. Mas honestamente, achei bem pouco interessante. A discussão do caso clínico se perde (seria Sabine uma esquizofrênica? Suponho que não, penso mais numa grande histérica meio borderline: aliás, aquelas pacientes do Freud, hoje em dia seriam diagnosticadas como histéricas? Acho que os distúrbios de personalidade narcísica ajudariam a compreender melhor a dinâmica daquelas mulheres com sintomatologia conversiva e ou dissociativa, portanto histéricas, sim. No manifesto. O latente... sei lá. A estrutura psíquica me parece às vezes mais grave ainda do que na grande histeria (que pode ser quase tão perturbadora quanto um surto psicótico esquizofrênco)
    Enfim, não queria mesmo falar sobre este filme que achei tão inexpressivo porque bate muito contra sua apreciação. Não quero ser o chato do site. Davy já me perdoou meus azedumes, espero que vc não se chateie com tanta divergência de opinião. Mas vc pediu e insistiu por que eu não gostei. Nem sei mais mas lembro que não gostei mesmo.
    Mais uma coisa: FUI REVER CLOSER E GOSTEI MAIS AINDA.
    DEPOIS QUE JANSY, DAVY E ETC TIVEREM ASSITIDO VOU CONFIRMAR DUAS COISAS QUE O FILME PASSA MUITO POR ALTO NAs cenas finais. desculpem, esbarrei nas maiúsculas. Deve ser sono Abçs, boa noite.


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    [Aeternus:2809] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-17)


    - Curso de Exorcismo

    Acabo de ler que o Vaticano está ministrando-o. Tem a duração de 2 meses.
    Vou tentar matrícula. Meu objetivo central será exorcizar determinados atores de determinados filmes.
    No caso d'O Aviador" o Scorsese já me tranquilizou, por telefone, dizendo que remeterá para o Brazil uma cópia com decalques em computação gráfica do rosto do Howard Hughes vero sobreposto ao do piloto-bebê. Vai ficar meio Buster Keaton meio Clockwork Orange, com aquelas genitálias desnudas volantes que o Kubrick jocosamente desenhou para gozar nossa censura tupiniquim. Que, de resto, revelou-se, ao longo dos anos, menos rígida e portanto bem mais sábia do que a deles lá, os all american 'surbdesenvorvido' e seu policiamento cultural sub-reptício.

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    [Aeternus:2810] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-17)


    - Sobre "Jornada da Alma"

    Muitíssimo obrigada Gallego por me responder. Não fiquei chateada com você por não gostar de "Jornada da Alma" não. Pelo contrário. Você me fez rever minha posição. Acho que gostei do filme porque sou tão fascinada pela história de Jung e Sabine Spilrein que corri para ver, ávida, esse filme, e me emocionei de verdade. Mas concordo com você em alguns aspectos: também não gostei daqueles dois personagens do presente estarem pesquisando a vida da Sabine, foi mesmo um horror; concordo que o filme merecia mais intensidade dramática, dada uma história tão incrível de duas pesoas tão importantes; e aceito que o ator não faz bem o papel do Jung. Mas, apesar disso, e porque gosto e me empolgo muito com a história, fui capaz de chorar no filme, acredite. E vou correr para ler o livro do qual você fala do Morris West, mais uma vez obrigada pela dica. Também gostei dos seus comentários sobre a doença da Sabine, é um assunto que também me interessa muito. Aquelas chamadas histéricas do Freud teriam todas outros nomes hoje, certamente. E, mesmo não sendo psicanalista, mas metida como sou e amante da psicanálise, me arvoro e também me atrevo a dizer, diante de tão especializados parceiros de conversa, que também não acho a Sabine esquizofrênica. E você usou um termo - distúrbios de personalidade - que me alivia em meus achismos. Vejo que não estou totalmente perdida em minhas leituras sobre esses assuntos. Que bom. Mais uma vez, digo: que bom conversar com vocês.
    Beijos
    Helena

     

     


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    [Aeternus:2811] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-17)


    - vero cardápio portugues...

    S. Porto me encaminhou este delicioso cardápio machista enquanto descrição fiel dos nomes dos pratos lusos, e não  mera gozação.

    Ei-lo:Cardápio lusitano pra valer,.não é sacanagem não...
    Há muitos motivos para se visitar Portugal. Mas um deles é, com certeza, a culinária regional. A minha balança é a maior testemunha de que por aqui se come e bebe muito bem. E como os prazeres da mesa merecem ser compartilhados, neste domingo faço a minha sugestão para um almoço à portuguesa aí na sua casa. Lá vai.


    Aperitivo - Punheta de Bacalhau: Enquanto faz o almoço, nada melhor do que reunir os amigos para uma punheta rápida. É um bacalhauzinho desfiado, temperado com cebola, azeite e vinagre. Simples e dá muito prazer. Fácil de fazer, é uma boa opção para os solitários.

    Entrada - Sopa de Grelos ou Sopa Seca que se Agarra às Costas: Por alguma razão, a sopa de grelos é a preferida dos marmanjos. Já os que não se importam de ter algo agarrado às costas preferem a segunda sopa, típica da Beira-Litoral e feita à base de feijão e pão.

    Prato principal - Arroz de Pica no Chão: É uma especialidade da região do Entre-Douro e Minho, no Extremo-norte do país. O Arroz de Pica no Chão é feito à base de frango e toucinho, levando os devidos condimentos. É um prato delicioso, mas um tanto pesado e por isso deve ser apreciado com moderação, em especial por quem gosta de um "rala-e-rola" depois do almoço. Com Pica no Chão a coisa fica mais difícil.

    Acompanhamento - Caralhotas ou Cacetes: Uma refeição portuguesa tem sempre pão à mesa. As caralhotas são pequenos pães típicos da região de Almeirim. Já os cacetes são comuns em todo o país. É fácil encontrar um português com o cacete na mão.

    Bebida - Vinhos Portugueses: Os vinhos são classificados por regiões e há para todos os gostos. Como é verão no Brasil, talvez seja bom optar por um vinho com aspecto mais leve e feminino. Pode escolher um Monte das Abertas (Alentejo), um Quinta da Pellada (Dão) ou, talvez, uma garrafa de Rapadas (Ribatejo). Mas se insiste em uma bebida mais encorpada e masculina, uma boa opção pode ser o Três Bagos (Douro). Ou, ainda mais intenso, um Terras do Demo (Beiras).

    Sobremesa - Mamadinhas da Pousadinha de Tentúgal ou Espera-Marido à Transmontana: A confeitaria portuguesa é muito rica e os doces conventuais são mesmo um objecto de culto. O Espera-Marido é um doce simples que se faz com açúcar, ovos e canela em pó. Já a mamadinha é uma das maiores delícias surgidas nos conventos.

    Digestivo ­ - Licor de Merda: É uma bebida da região de Cantanhede, feita à base de leite, baunilha, cacau, canela e frutas cítricas. Quem experimentou diz que é uma merda, mas muito gostoso.
    É como diz o velho deitado: "Eu, por exemplo, gosto de comer sapateiras, madalenas e trouxas".
    José António Baço, jornalista e publicitário


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    [Aeternus:2812] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-02-17)


    - Nabolita

    Jansy, que bom que viste algo de envolvente no poema. Foi feito super nas-coxas, para inteirar páginas prum concurso de poesias e merecerá uma severa revisão. Pode-se escrever em qualquer estilo, até mesmo com uma forma cheia, emocional e demodé, mas que o cheio-emocional-demodé seja empurrado para os seus limites. Engraçado, li Felicidade Clandestina na adolescência e não me lembro deste conto. Deve ter ficado no sub do sub do sub.

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    [Aeternus:2814] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-17)


    - se não foi Felicidade, procure então Laços de Familia

    Guto, como lhe disse, o poema foi esquentando e se aprimorando a medida em que ia se desenvolvendo. E o tal conto da Clarice pode estar no outro volume de contos, "Laços de Família". 

    Ontem ouvi uma história que me deixou assombrada até agora.  Estava falando no telefone com o Peter, mei filho, discutindo compras pela internet quando ele observou, de passagem:
    P- "Hoje teve um atropelamento no estacionamento do prédio onde trabalho". Perguntei mais: "- E a pessoa morreu?"
    P- " Não sei" ( pausa )
    J- " Então você viu acontecer?"
    P- "Não". 
    J - "Mas...você conhecia a pessoa?"
    P- " Sim. Era meu colega de trabalho. Chegou esta semana de outra cidade e é novo na equipe".
    J- "Isso aconteceu quando?"
    P- " Saimos toda a equipe para almoçarmos juntos e na volta ele disse que a gente podia pegar o elevador porque ele ia dar um pulo no estacionamento e ajeitar melhor o carro dele. Depois disso ele sumiu".
    J- " Como foi que você ficou sabendo do atropelamento?"
    P- " Ele me ligou no celular"
    J- "Ah, então está vivo..."
    P- " É... "
    J- " Mas onde está agora?"
    P- " Não sei, caiu a linha"
    J- " Óooo... como assim?"
    P- " Não sei. Tentei ligar de novo várias vezes e o telefone estava desconectado".
    J- " E o que ele falou no telefonema?"
    P - " Que tinha acordado de uma anestesia e achado o telefone e esta avisandoque não ia poder voltar ao trabalho. Aí a linha caiu". 
    J- " E ninguém da equipe está procurando descobrir alguma coisa?"
    P - "Já procuraram por todos os hospitais da cidade e não encontraram nada, nem por telefone, nem indo nos pronto-socorro".
    J - " Avisaram à polícia?"
    P- " Ainda não, vamos procurar melhor primeiro".

    Fiquei sem dormir temendo um seqüestro para roubo de órgãos, que os ladrões tinham descoberto que ele tentou usar seu celular e desconectado...
    Pensei num jovem novato no emprego, sem família numa cidade desconhecida e que podia desaparecer sem deixar rastro e me senti gelada por dentro. 

    Hoje já apurei que ele foi de fato atropelado, estava no Hospital de Base de Brasília - onde não haviam registrado seu nome na entrada. Teve vários traumatismos e costelas quebradas, mas num certo sentido, está a salvo.

    Conversar com filho que se parece a um terminal eletronico quando emocionado também me deixa nervosa. Se eu não faço a pergunta direito, tudo desaparece também... E aí a vida humana me parece ainda mais frágil e sem sentido, prestes a sumir sem deixar rastros.

    Ontem vi um cartaz anunciando uma exposição, deve ser no CCBB: " o mundo da pré-história", com uma setinha indicando o sentido retroativo. Pensei nos belos textos da Yourcenar sobre a carta de um soldado romano da época dos césares na qual ele pedia à mãe para lhe enviar um par de meias que fazia frio na Britania... E no olhar de Bion quando citava: " Ante Agamemnon multi" referindo-se aos heróis anonimos que não foram historiados por Homero e aos heróis, como Palinuro, que não puderam nem ir pro inferno porque não foram enterrados e tinham que vagar pelas fimbrias do mundo... 

    Florião, adorei seu texto sobre como aprender a fazer exorcismo dos maus atores no cinema. Genial! Além do Papa reconhecendo abertamente o demonio, havia uma notícia na internet sobre uma investigação sobre seitas religiosas, mas nem pude conferir onde era.

    Estou feito baiano tomando pinga no tiroteio.

     

     


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    [Aeternus:2818] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-18)


    - Jansy: o que é "unwelt"?

    O texto é a pergunta. Tudo bem? Ficou melindrada com minha bronca amiga sobre a confusão do filme da Helena (Jung) com o meu trabalho sobre o outro filme (Freud/Sartre/Huston)?

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    [Aeternus:2819] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-18)


    - Melindrosa? Eu hem...

    Gallego, estou tão acostumada a confundir os títulos dos filmes que cada puxão de orelha só aumenta espaço pros brincos. E meu pedido ainda está válido, que você transponha para a Lista artigos seus que estão em silêncio em algum canto do Aeternus.

    E ainda bem que você transformou Umwelt em título porque vou dizer no que pensei ao usar a palavra, mais do que seu significado. Umwelt é meio ambiente, ou o mundo que nos envolve.  Eu pretendia mostrar que para Lacan, não apenas o real é impossível de apreender enquanto real ( se algo for extraído dele, como significantem deixa de ser do  real ) como ele enlouquece olhando nietzscheanamente de volta pra quem ficar mirando suas profundezas. O animal tem uma "defesa" instintiva que é a criação de uma "bolha de realidade" que cria um mundo próprio para que perceba as coisas de um jeito que lhe permita caçar, defender-se, procriar: cada espécie animal percebe uma fatia da real que é a sua realidade e verdade.  O ser humano não nasce com esta "pauta" instintual que estabeleceria para ele sua própria "bolha de realidade" ( que resolvi chamar de Umwelt) e precisa da mediação da mãe para construi-la aos poucos a partir do simbólico.
    Bion sugere que a função alfa da mãe ( reverie materna ) digira para ele os dados brutos sensoriais do real e transforme em material onírico das sensações que podem, dali pra frente, ser pensadas.  Ele, Bion, fala de algo que portanto vem antes da simbolização propriamente dita do Lacan.
    Winnicott  , com o espaço transicional, provavelmente descreve algo neste mesmo nível, entre os dados brutos da existência e a elaboração simbólica se fazendo pela construção de uma "realidade".   A vantagem desta realidade sobre a do animal é que ela pode ser reprogramada.  É como se a realidade humana fosse, neste nivel transicional, como o ponto morto de uma caixa de marchas do carro: colocando em ponto morto pode-se mudar da primeira pra segunda, terceira e etc... 


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    [Aeternus:2820] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-02-18)


    - Para Jansy

    Jansy querida, você deve estar abalada mesmo. Nunca li uma mensagem sua tão multi-facetada, tão pouco centrada. Você em geral dá uma impressão de grande tranquilidade emocional, aquilo que a gente chama de "está com a vida ganha"...

    Desta vez você escreveu um título, depois passou para a notícia do atropelamento, por fim falou sobre Marcos e o exorcismo, e foi embora.
    Senti você desta vez mais próxima da minha experiência pessoal de vida - com filhos (não meus, dela) com quem é preciso tomar MUITO cuidado quando falamos, para não fazer explodir alguma mina oculta (você conhece gente que parece terreno minado?), e essa possibilidade de desaparecer sem deixar rastros numa cidade estranha é um dos fenômenos que mais de perto me acompanham - até bem pouco tempo atrás, referia-se não só a mim quanto às pessoas com quem me relacionava - este era, digamos, o "pão meu de cada dia". Pode atribuir a isto muitas das nossas tantas controvérsias. Eu sentia nas suas mensagens uma "segurança existencial" que me era sumamente estranha, e reclamava.

    Isto me lembra uma cena de cinema que vi há uns trinta anos atrás: Paul Newman era um jovem boxeador, tratando de ganhar o campeonato porque era a única chance de subir na vida, no contexto onde ele havia nascido. Aí ele se apaixona por uma mocinha (como sempre), e o treinador (um daqueles judeus velhos treinadores de box tão simpáticos mas rabugentos que parecem onipresentes em filmes americanos sobre box) começa a se preocupar com ele - vai perder a forma, vai perder o pique, vai perder a luta. Ele então pede ao Newman que levante o braço e o mantenha na horizontal. Newman: Tá vendo? Firme como uma rocha. O treinador, apavorado: Seu imbecíl, e cadê o tremor natural do músculo retesado? Você está se matando!!!

    Espero que o jovem atropelado supere essa, e quanto ao seu filho "cibernético", não se preocupe. Ele apenas não gosta (tendo mãe psicanalista) de falar a mesma língua que você - é esta a minha impressão. Por outro lado, ele certamente não estava tão preocupado com o colega - achava (viva a onipotência juvenil) que iria se salvar de um jeito ou de outro. (A ilusão de imortalidade, de que fala Winnicott, é isso...)
    Então, beijos calorosos, um grande e reconfortante abraço, e não se preocupe: Dá para viver apesar dessas angústias que você expressou. Eu sou testemunha disso.

    Davy.


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    [Aeternus:2821] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-18)


    - antes do simbólico

    Jansy escreveu:Bion, fala de algo que, portanto, vem antes da simbolização propriamente dita do Lacan.

    Nós que não conhecemos bem Lacan achamos que "antes do simbpolico" é o tal Imaginário. Dá para aproximar? Sei que não é legalç reduzir uma teoria à outra, mas pode ajudar didaticamente em primeira aproximações, aida que possa atrapalhar.

    Quanto à "melindrosa", jamais achei que vc fosse: melidrosas são da era do Jazz e vc é da era do hip-hop, queiramos ou não. Seu texto com o diálogo c/ o filho P. me mobilzou muito, é um retrato dos dias de hoje (e de sempre, segundo a Yourcenar). Enviei (editado) para 2 amigos, afinal, vc o deixa público no site. Valeria uma divulgação maior, deixando o nome do filho como P. apenas, por respeito à identidade dele. Tb não disse quem era a autora: "uma amiga de Brasília".


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    [Aeternus:2822] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-18)


    - a ilusão da imortalidade !

    Boa deixa, Davy, para eu falar mais um pouquinho do belíssimo "My Life Without Me", que publiquei na lista "Meu mundo caiu".
    A mocinha ali, protagonista central, toma um cutelo da Medicina ao saber de sua morte iminente. Esboroada a ilusão de imortalidade, ela confessa-nos em off que 'vai pensar um pouquinho', coisa que nunca fizera antes...Vai a sua agenda, numa cafeteria como outra qualquer da vida - e esta é mais confortável do que o apertado furgão onde vive com marido e duas filhas - e redige, numa belíssima cena em ess~encia e solução cinematográfica, "coisas a fazer antes de morrer".
    Os heróis do Paul Bowles em "The Sheltering Sky" partem de NYC para o Marrocos levando a bagagem recheada de ilusão de imortalidade. E começam a pensar quando corajosas moscas dividem as carnes à venda para consumo, expostas a céu aberto, com seus suculentos e avermelhados rostos. Até que os bacilos da febre amarela, tifo, malária ou afim acordem, como diria aqui Mestre Camus.( alô, querido ! )


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    [Aeternus:2823] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-18)


    - a segunda deixa do Davy

    Diz respeito à possibilidade de permitir-nos formas de Revolta algo hmmmm...descompostas. Quando eu e meu pai caminhávamos para a dissensão, o safado usava minha formação em Psiquiatria para me amansar...Como se 'ser psiquiatra' fosse ou devesse ser fator de imunização e robotização nos conflitos humanos. Como se aparentar uma permanente tranqüilidade fosse atestado de saúde.
    Um dos maiores doidivanas de quem já tomei conhecimento foi-me apenas relatado por um amigo : tratava-se de um psiquiatra com consultório estabelecido, e esta amigo frequentou-o, certa vez, ou levou algum parente. Pois bem : ele percebeu que, a cada cliente atendido pelo profissional, este quicava uma bolinha de tênis que trazia no bolso do guarda-pó no chão, e a remetia de volta ao bolso...
    Se fossem vocês não sairiam correndo batidos de lá ?

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    [Aeternus:2824] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-18)


    - assaltos em São Paulo

    A história do amigo do filho da Jansy me angustiou muito e me fez lembrar do mais recente assalto, na última terça-feira (15), que minha filha sofreu em São Paulo. Parada num sinal (semáforo ou farol, como dizem por lá), dois pivetes a abordaram, ameaçando-a, e pegaram tudo o que havia em sua carteira. Sua sorte é que não fizeram nada mais a ela e que ele teve preservados seus documentos e cartão de crédito. No final do ano passado, também em São Paulo, ela foi de ônibus para a casa de uma amiga com a qual faz sua monografia de final de curso, aconselhada que foi a não usar o carro para aquelas bandas da residência da amiga. Pois bem, foi assaltada no ônibus por um casal com o qual ela chegou a dar informação (já era o golpe deles) e teve o celular roubado. Um mês antes disso, no estacionamento da PUC, também em São Paulo, ela chegava da aula de capoeira para pegar seu carro (que compramos novinho para ela, eu e o pai dela) e ele estava arrombado, com a porta quebrada e o som roubado. Isso tudo acontecendo com uma menina que nunca sofreu nada aqui em Brasília (faz um ano que ela mora em São Paulo). A madrasta dela, que a gente chama de "mãedrasta", pois é uma pessoa maravilhosa, comentou comigo, apreensiva, que a Joana está aprendendo a viver em São Paulo a duras penas. Imaginem minha situação, que fico aqui, pensando como ela está na faculdade, indo para a capoeira, para o clube, atravessando a cidade naquelas chuvaradas que transbordam e fazem os carros virarem barquinhos etc etc. Às vezes acho que vou enlouquecer.

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    [Aeternus:2825] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-18)


    - certeza da imortalidade

    Quem tem ilusão da imortalidade não sabe que é ilusão, é a gente de fora que fala assim do que experimentam...
    Rimbaud amarelou, sem febre ou malária, muito antes da doença ( febre, malária com gangrena?) e precisou da mamãe quando percebeu que era mortal. Acho-o um poeta intrigante.
    Um dos filmes mais tocantes que já vi sobre a temática da doença terminal foi com a Emma Thompson. Ela era uma solteirona estudiosa, especialista no poeta John Donne da fase religiosa ( ele tinha uma fase sacana, mas ela o negava), sobre o qual tinha uma erudição estrondosa. Sozinha, internada no hospital e sem ninguém para ficar por perto, acaba fazendo amizade com uma enfermeira que a vai ajudando a elaborar as questões da mortalidade e do balancete da própria vida. Um dia sua antiga orientadora de tese vai visitá-la, de passagem porque tinha ido ao mercado, e se deita ao lado dela na cama, pesca um livro que comprara para ler aos netos e começa a ler a história de um coelho.   É este talvez o momento mais humano que a moribunda jamais experimentou. Discuti os poemas do Donne e o livro do coelho de montão no passado, mas não sei se ainda tenho gravado no computador. Podia ressucitar a morta, hem?

    Davy, a gente se engana sobre as pessoas. Bem que sinto que "estou com a vida ganha", sim, mas não tem nada a ver com tranquilidade emocional ou segurança existencial.
    Essa coisa da "vida ganha" é uma gratidão diária, quase involuntária, por existir e que nunca me abandona ( daí a minha peculiar leitura à história bíblica do Jó ). Esta gratidão opera às vezes de modo bem eficiente, mas não é programável. 
    Veja só. No dia mesmo em que chegamos em Orlando fomos encontrar uns amigos que voltavam logo em seguida pro Brasil no Cirque du Soleil. Depois que vi o espetáculo me senti tão contente, mas tão contente mesmo, que considerei que o resto da viagem seria como estar " no lucro". Podia ficar horas sentada esperando as crianças andarem nas montanhas-russas dos parques e continuar felizinha da vida. Não dava pra ler, acessar internet, fotografar ( tudo era programado, não tinha jeito de uma foto mais ou menos original...), então eu ficava olhando, olhando e pronto.  Minha vida "já estava ganha" desde o Cirque du Soleil ( e acho que morreria de nervoso se sentisse, indo a Paris por exemplo, que deveria aproveitar e assistir a todos os espetáculos, visitar todas exposições novas e os antigos museus...Detesto a "superabundancia" de ofertas ou opções...).
    O que mais me indigna e gera uma angústia de desespero quanto ao que aconteceu com os judeus na Alemanha de Hitler, na Polonia, na Russia  nem sequer registra suficientemente a violencia geral dos holocaustos ( tenho dificuldade com quantidades grandes ) e já se inicia antes, desde a constatação da violação dos direitos mais infimos de cada um dos que tinham a estrela de Davy costurada nas roupas, ante a invasão massiça das intimidades, fora o ataque ao corpo, desde a dor de dente à unha encravada! Derrida e outros estudaram o inominável do ataque de 11 de setembro mas, pra mim, o inominável nos espreita a cada instante e se liga à escravidão do homem pelo homem e a perda da dignidade. 


    Gallego, não acho que tenha problema de aproximar teorias diferentes aqui, porque estamos falando de aspectos relevantes de uma ou de outra que podem se complementar. Nada do Bion serve à Lacan e vice-versa porque ambos partem de uma filosofia da linguagem contrastante demais. Ao mesmo tempo, lacunas da observação ou na prática podem ser entendidas ali mesmo usando ora uma linguagem ora outra, o campo de inferencia ou de aplicação permanece sempre bem reduzido.
    Lacan manteve uma constancia na evolução da sua teorização surpreendente, embora desse guinadas importantes no percurso. Como se espera de cientistas que respeitem mais aos fatos do que  seus pressupostos teóricos, como o que levou Freud a repetidas vezes abandonar um caminho e trilhar por outro. Um destes pontos de mudança em Lacan foi sobre o papel do imaginário. Ele sempre realçou a importancia do imaginário, mas não deixava de considerá-lo mais primitivo ( como também Freud quando situava o sonho como forma de regressão da palavra à imagem que deveria ser reconduzida novamente à palavra ) e até hoje muitos lacanianos desprezam a dimensão do imaginário. Mas ela tem o mesmo estatuto que o Real e o Simbólico na composição do que ganhou expressão pelo " nó borromeano": todos tres precisam estar entrelaçados borromeanamente ou então estamos diante de uma patologia.  O "sinthoma" em Lacan é expressão do momento em que um destes entrelaçamentos não se constitui ou se desfez e que vem fazer uma "amarração/prótese" para reconstituir mais ou menos o nó borromeano.

    Para Lacan a criança já nasce no simbólico por causa do discurso da cultura e das expectativas e da história da família. Ela passa a fazer parte do grupo familiar, quer viva quer morra,  desde o momento em que for gerada.  Cabe à criança aprender a aceitar sua participação neste discurso, mas também saber como e quando a ele se opor para emergir como sujeito. 
    Para Bion não tem nada disso, ou o que tem é diferente.O impacto dos dados sensoriais em estado bruto, sempre traumatizante para o bebê despreparado, precisa ser inicialmente atenuado pela capacidade materna de "digerir a experiência e devolve-la ao bebê transformada em algo assimilável". Neste nivel a operação é puramente imaginária e fundamental. Depois, devagar, a criança transforma cada item da experiencia de beta em alfa, até chegar à pré-concepção, concepção, conceito...Os mitos, para Bion, são uma espécie de "reverie materna" da cultura.   

    Sem tempo pra mais.


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    [Aeternus:2826] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-02-18)


    - Para Jansy

    Tá bom, Jansy, tá bom. Vejo que você já se aprumou de novo. Ficam valendo ambas as coisas.

    Beijos.

    Davy.


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    [Aeternus:2838] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-20)


    - Ô Galleguito

    Joga uma simultânea aqui nessa lista com os aspectos do "Closer" que você citou da 2ª vista !

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    [Aeternus:2839] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-20)


    - Consegui achar o filme nos cinemas daqui

    Gallego me deu a dica: o titulo do filme não constava como " Closer ", apesar do cartaz insistir neste nome, e era por isso que eu não achava nas programações dos cinemas.  Assim sendo, daqui a pouco vou assisti-lo e com certeza Gallego irá retomar, nesta lista do "savoir", novos  comentários para chamar atenção para tudo que deixamos de perceber ali... Aguarde!

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    [Aeternus:2840] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-21)


    - Too close

    Um filme de voyeur para voyeurs e ainda tem como título " Closer" quando o tocar, pela ética da profissão, é impossível! ( exagero )  Mas o filme começa e acaba com a canção sobre " a primeira vez que meus olhos a viram..."

    Esqueci tudo que li sobre "Mais Perto" na lista, e vou pegar de novo do comecinho amanhã.  Hoje, meio tardinho da noite, anotarei apenas as minhas primeiras impressões.

    Pra começar, não vi algum detalhe misterioso que devia ou poderia ter visto. Segundo,  quando vi a atriz  Jane Jones/ Aires lembrei imediatamente da primeira fala endereçada a ela no filme "Guerra nas Estrelas" por um garotinho louro: 
    "-Are you an angel"?
    Terceiro: gostei da pergunta que ela fez antes de ser descartada:  " Isn´t love enough?"

    Acompanhei a aflição de uma analisanda que usou um detalhe do filme " Eu te Amo" do Jabor para descrever suas perplexidades sobre o que do amor é bastante.  Não me recordo do filme, mas gravei a frase que ela trouxe de quando a protagonista avisa ao companheiro: "Hoje de tarde estava caminhando no shopping e parei de amá-lo às quatro horas ". 
    Como a Jane Jones ( que o companheiro desconhecia se chamar assim para engajar-se em tudo que nela era invenção ), no momento mais maduro do filme. Ele ultrapassou um limite misterioso e estourou a bolha imaginária do amor. Ela lhe contou tudo que ele queria saber e o mandou ir embora, definitivamente.

    O obituarista Jude Law tinha de fato cara de bebê chorão filhinho da mamãe ( acho que ele é assim todo tempo? ). O médico foi preciso ao falar dele: "He is beautiful", porque em inglês este adjetivo não é usado para um homem.
    Julia Roberts estava excelente, toda expressão no olhar. Deprimido. E masô também,  porque ela podia não responder em vez de ficar gemendo: " Por que você está fazendo isso comigo?" em vez de reagir. 
    A moça angelical, era "stripper" todo tempo: olhem-me, mas não me toquem porque posso morrer de amor. Quando amo, invento um nome pra mim pois o meu, de verdade, vale pra identidade profissional e pro passaporte.

    O resto do filme, longo demais ( acho que o Gallego falou disso), se perde nos confessionários em nome de "saber a verdade". Um ping-pong chatíssimo e invasivo, uma violentação verbal. Como vi dizerem sobre o casamento: " o máximo de intimidade no mínimo de privacidade".

    O que é o amor? Ele pode dar a sensação de eternidade e desaparecer num piscar de olhos ( um ponto pro Vinícius ) - e vagamente me recordo da Helena perguntar sobre isto. Do que gostei, antes de ouvir novamente o Gallego e os demais amantes do "Closer" para entender melhor ou mudar de idéia, foi o joguinho da Jane não gostar de comer peixe dizendo que é porque eles fazem pipi na água, sem notar que ela se apresenta num aquário e não quer ficar molhada ao passo que sua rival Anna, a fotógrafa, gostar de ficar vendo os peixes movimentarem-se no Aquarium de Londres.

    Agora, antes de fazer a retrospectiva dos textos no Vive la Diference, aguardo as broncas.


     

     

     

     

     


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    [Aeternus:2841] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-21)


    - alguém mencionou...?

    Alguém tratou da homosexualidade latente nos personagens, na qualidade onírica que os levava a transformar o "outro" em personagens do próprio sonho?
    Olá, Estranho...

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    [Aeternus:2842] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-21)


    - intimidade, dez; privacidade, zero

    Jansy lemvrou o casamento como o máximo de intimidade com o mínimo de privacidade.
    Virginia Woolf alertava contra isto através de Clarissa Dolloway:Há uma dignidade nas pessoas, uma solidão... até entre marido e mulher: um abismo; mas que se devia respeitar, pensou Clarissa.

    E Chico Buarque , na letra genial de "Mil Perdões": "Te perdôo por fazeres mil perguntas em vidas que andam juntas ninguém faz" (Lembrem que a tarefa era compor uma música para filme retirado da peça de Nelson Rodrigues onde o personagem masculino diz "Perdoa-me por me traíres". E o Chico fez a letra pela mulher perdoando tudo até o final: Te perdôo por te trair.

    Talvez seja um bom mote para discutir "Closer": a ridícula e ingênua exigência da "verdade" (a qualquer preço?) entre os casais - além do mais, exigência falsa, pois quando a fotógrafa Anna/Julia Roberts conta que transou com o ex-marido (o médico/Clive Owen), o "escritor" Jude Law reclama dela falar a verdade. Que em outros momento ele exige (quando interessa ao masoquismo/voyeurismo/e a outras maluquices que em vidas que andam juntas ninguém deveria fazer).
    Todos são "estranhos". A paixão (narcisismo a dois) exigiria que o outro (que não é bem exatamente "outro) permanecese como "estranho" para continuar o clima de projeções/idealizações/imaginações que alimentam a paixão - mas não o amor que despe o outro (aí, sim) das fantasias e mesmo assim o outro continua a ser gostado.
    Não sei se o Davy já viu, mas vou contar dois detalhes que confirmei numa segunda vista ao filme: na última cena da Julia Roberts, deitada na cama ao lado do ex-ex-marido que dorme o sono descansado dos conquistadopres/demolidores enquanto ela está com cara de tacho acordada, ela está sob as cobertas com um enorme barrigão de grávida, sim.
    E nossa lindinha Natalie Portman, candidata a Juliette Binoche, volta para New York, anda nas ruas sendo olhada e atravessa a rua com o sinal fechado. A peça deixava claro que "uma tal Jane Jones" norrera atropelada ao atravessar uma rua em Times Square. Ninguém saberia jamais que era a suposta Alice Mayer (na verdade uma mulher que morreu ao tentar salvar TRÊS crianças de um incêndio)
    Os TRÊS outros personagens são criancinhas perversas disputando um pirulito que pode ser até o próprio pirulito do Jude Law (elas) ou a posse da "Alice" que não caiu no país de maravilhas (aliás, cá entre nós, a "Wonderland" da Alice do Lewis Carrol era uma terra de coisas fora-do-comu, não "maravilhas" com a conotação de coisa boa que damos em português ao termo).
    O irônico da eswtória é que todos dizem buscar a "verdade" e "Alice", apesar de ser uma falsa identidade construída seria a menos falsa de todos. Pode-se desnudar e até possuir seu corpo, mas nunca sua alma. A tentativa de possuir sua "alma" (verdades) faz com que ela deixe de amr imediatamente quem ela amva, em quem ela se ancorava para se reinventar. Tentativa infantil,  também, mas menos egoísta do que a dos outros três. Ela usava Jude Law como selfobjeto (e ele poderia ter sido o ator adqequado ao personagem que ela inventara para ele, o "salvador" de meninas perdidas - afinal ela fugira de New York c0om a roupa do corpo e sem babgagem fugindo de "uma espécie de namorado", leia-se cafetão ou algo parecido; ele poderia ser como objeto real o "estranho" suficientemente bom e necessário para isto; mas não aguentou a "dependência" dela por ele no início quando a deixa por Anna/Julia Roberts; e no final, ele quis fazer aquelas perguntas que em vidas que andam juntas não se faz. Parecia compulsivo nele. Se arrepende ao sair do quarto e volta: too late...

    Quanto a outras questões que Jansy levantou sobre a homossexualidade dos personagens, acho que está lá, sim, embora não tenhame importado tanto: afinal, Jude Law "cria" uma "Anna" sacana para o médico: dá a entender que Anna frequenta mesmo aquários, talvez só por prazer estético e manda o médico ir encontrá-la (no livro dele, que Anna, durante a sesão de fotos sugere que deva se intitular "O Aquário" - e ele muda o título anterior que nem sabemos qual era antes -  quando ela fala isto ele replica que ela gostou das sacanagens do livro, sugerindo que haveria, no romance, encontros marcados blind date no aquário para saliências, coisa que ele provoca no médico e a Julia Roberts). Afinal, quem o médico queria comer? Anna ou a "Anna" sacana que era o Jude Law? As mulheres também têm um certo "clima" que pode ser só de solidariedade feminina (superficial) mas tb pode ser algo mais do que admiração, embora pouco passe disto: mas o retrato que a Anna tira da "Alice" é qualquer coisa! Sendo grosseiro, eu diria que os pirulitos dos 2 homens "se encontraram" nas mesmas vaginas. Tal como os Don Juans  que só se interessam em conquistar mulheres que seria "de outro homem": afinal, eles querem as mulheres ou um encontro imaginário com o outro homem no mesmo "lugar" que o outro homem frequenta?


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    [Aeternus:2843] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-21)


    - grato a Gallego e Jansy, e...

    Começo pelo mais fácil : a latência gay nos personagens. Acho-a acessória, como se fosse um option desses da vida, um adorno que os mais espevitados e/ou curiosos, entediados com as possibilidades mais usuais, dele lançassem mão. Uma saboneteira etrusca comprada num dia de tédio, para o lugar de uma em argila feita por nosso filho ou neto.
    A complexidade aumenta com o jogo de papéis entre Alice/Jane e seus cumparsas. Alice Ayres ter salvo três crianças num incêndio é uma deliciosa brincadeira do Farber, a costura que o artista-craque lança mão para dar acabamento em seu entrecho. A pseudo-Alice e vera Jane Jones ‘salvou-e-foi-salva’, durante todo o transe entre a tentativa de suicídio em Londres, abortada pela sorte, e a volta a NYC, capítulo final do interregno onde jogara a cartada final de sua Existência.
    Ela é, sim, como Gallego diz : a mais ‘verdadeira’. Mas como diz também Mestre Davy,  “a Verdade é sempre duas”, Jane Jones rebate-se em espelho para o escritor, sendo adotada/e deixando-se adotar como personagem deste. Da mesma forma que o dermato deixa-se adotar como marionete da Anna-virtual, para o encontro no aquário. Para além do viés homo, aqui, creio que seria o fascínio de discutir a Estética que seduz ambos : enquanto ao escritor fascina a ‘pegadinha’, desviar-se de sua habilidade mestra de escrever para o lazer blasé da sacanagem pura, ao dermato envolve a lascívia exagerada e selvagem, fora do habitual padrão feminino – a ‘conversa’ virtual é bruta, rola rápida e pesada em demasia, com fantasias de exageradas surubas e discutíveis formas de prazer. Ademais, o dermato caracteriza-se por estar sempre tentando desnudar a muque a segunda Verdade do Davy...
    Vejo então dispostas uma criança brincando – o escritor deixando a criança nele fluir – e um guerreiro porta-voz da Verdade – o dermato – indo ‘desmascarar’ essa Anna-dos-mil-prazeres. A estrutura do drama é perfeita e poderosa : a personagem de Anna está apassivada pelo rompimento de seu casamento, ela sente culpas típicas de alguém mal elaborado aqui...seu corpo e alma serão devida e cruelmente escalavrados pelo trator. Ela torna-se alguém flutuando num limbo acima do Existir, e me lembra o “tudo a fazer e tudo a renunciar” do Camus. Por isso mesmo, mais adiante, engravida do trator – ou do escritor...- tanto faz!...Está pairando sobre, rindo da comédia humana, ausente de si mesma. E ao mesmo tempo sente-se incômoda, talvez : é hora de ‘descer’...(?)
    Enquanto isso, o escritor descobre, sofrendo muito, que o atual personagem de sua trama é ele mesmo, e que esta trama passou a ser sua própria vida. O que ele buscou, enfim...
    O dermato executa ‘biópsias’ em seus relacionamentos, escavucando-os(as) : torna-se especialista nisto, descobre seu jogo.
    Continuo, depois de todas essa discussões, com o mesmo ponto de vista de antes : não vejo como ‘psicopatas’ os personagens masculinos de Farber, da mesma maneira que a própria Anna, a fotógrafa, cuja leitura, à moda Woody Allen, seria a de alguém ‘que anda sem sorte’ em seus relacionamentos, numa hibernação indesejada. Força-se a sair desta, ainda que sentindo-se canhestra, eventualmente ( e dessa forma Farber constrói a mais difícil marcaçãodentre os personagens da peça ). Jane Jones, sim, seria ‘a psicopata’, por não saber – ou poder...-  conciliar suas máscaras, ao mesmo tempo em que dá-se de todo ao relacionamento amoroso.
    Máscaras que Gallego coloca em discussão ao tentar otimizar a relação amorosa : qual seria o ponto exato de intimismos e ‘verdades’ a se trocar com o parceiro ? que medidas e meios se usaria e vivenciaria em cada uma, com suas mumunhas e peculiaridades ? o que fazer com as beiras de tecido que são cortadas ao prepararmos a peça ? uma relação amorosa bela e consistente como porcelana chinesa deve assim permanecer ? o fim de linha a dois tem como referencial o cutelo que o Farber coloca em “Closer”, aquele momento onde parece ‘nada mais haver a saber’ d’Outro ?

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    [Aeternus:2844] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-21)


    - a barriguinha do Gallego

    Bem que eu lembrava que havia um detalhe de uma barriguinha para ser observado, mas não consegui.  Contudo, o que Gallego afirma faz muito sentido e tem conseqüências para a avaliação da história.

    A imagem que me ficou da cena "com barriga" ( "barriga" não é mesmo deixar de noticiar ou perceber algo no jornalismo? ) me pareceu bastante incongruente. Anna deitada ao lado do marido adormecido, numa cama com lençois e volumosos travesseiros e edredons de cor parda e envolvidos, como pobres, pelas páginas dos jornais espalhados.  Anna retira delicadamente um livro das mãos do Owen ( marido médico dermatologista ) e lhe dá um incongruente beijo.  Este terno momento sugere gravidez. Não combina com a persona anterior de Anna.  E havia antes uma conversa entre ela e o Owen, quando ele lhe pergunta se não estava querendo ter filhos, se era com o Dan que pretendia tê-los e ela diz que sim e vai embora.   Minha memória pode ter distorcido coisas, não sei.

    A conseqüência que vejo neste encaminhamento marca uma espécie de escala social: a puta ( Alice/Jane, what happened to baby Jane sempre na contramão dos eventos? ), o jornalista menor que escreveu um livro de pouco sucesso e o casal requintado da fotógrafa com grandes ateliers e exposições e o médico com chique consultório particular.  O médico, por mais fascínio que tivesse pela Alice/Jane e por mais que tivesse chegado perto do seu nome oculto e exposto ao mesmo tempo, e transado com ela toda uma noite e pagado bastante dinheiro para aquilo, não continuou com ela.  Para Anna, talvez um jornalista mal barbeado e sem sucesso, talvez não fosse o melhor parceiro para seus fins procriativos...

    A cena pela qual Dan e Alice/Jane se apaixonam é muito bonita e é a que se repete no final prenunciando sua morte.  Dolorida porque sugere que mesmo o amor mais inesperado à primeira vista pode ter fim.  Alice estava acostumada a ser olhada com admiração, mas desta vez ela olhou de volta e se estrepou. OU destripou, ou estrippou de alma e não do corpo. 

    Detestei o modo que no filme se assinalava a passagem do tempo. Era um pulo súbito.  Não entendi o clarão quando Alice e o Dan se separam no quarto do hotel, mas era um corte parecido com o clique da máquina fotografica de Anna no automático flagrando o primeiro beijo dos dois.

    Interessante o momento no qual Alice, começando a conhecer Dan, lhe retira os óculos do rosto para ver seus olhos e disfarça ( ou não ) limpando-lhe as lentes para que ele melhor possa mirá-la... 

    Nada de "Pretty woman" para a prostituta cinderela, no entanto...

    Concordo com o Gallego que, de algum modo, estendeu melhor a conjetura que lancei no ar sobre a homossexualidade. Estava claro que o médico Owen queria vulgarmente comer a Anna/Dan e não apenas a Anna.
    Esta, sobre o livro obsceno de Dan, comenta: "não fiquei chocada, era verdadeiro..."  A tal questão da verdade consciente.

    Há um clima curioso dado pela escolha das músicas ( não segui as pistas dadas pelas óperas ).  Achando que não poderia ver Closer fiquei vendo, de tarde, a magnífica comédia " Trocando as Bolas" em que dois riquíssimos banqueiros corruptos fazem o papel de "Deus/Diabo" testando "Jó" em nome da ciência.  No começo há uma seqüência com Mozart, e Mozart sempre retorna em várias cenas, mostrando os prédios tradicionais da cidade, monumentos com dedos indicadores para o alto, vetustas avenidas e magníficos jardins e detalhes contrastando o ambiente requintado da aristocracia do dinheiro ( os banqueiros eram os " Senhor Duque" ) com a pobreza dos bairros negros de NY.  A sugestão era toda de seriedade, religiosidade ( cada sapato e roupa ou casaco e estola eram vestidos como se fossem paramentos para uma missa ) e de estabilidade, mascarando a total instabilidade ( ricos e pobres podem rapidamente trocar de papel e de conduta...). Por que estou falando desta comédia, lado a lado com "Mais Perto" ?  É por causa da sugestão dada pela música clássica.  Representa refinamento e status, em contraste com a música popular. 

    De algum modo em "Closer" há uma marcação com a música clássica também.  Anna fotografa ouvindo Monteverdi ou Gluck ( sei lá, ou canto gregoriano ). Também no filme estes momentos ( que achei deliciosos e repousantes...) demarcam a diferença entre ela e Dan. 

    Sabe que esqueci qual foi a música brasileira que tocou no filme e em qual momento?  A letra combinava, mas me escapa totalmente... 


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    [Aeternus:2847] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-21)


    - Psicopatas?

    Psicopatas?  É mesmo... teve uma conversa assim na lista.  Engraçado, não pensei nos diagnósticos ( o filme deu o da Anna: deprimida e a fantasia sádomasoquista do médico/trator que atá consegue levar um golpe da Anna que lodo em seguida se desconcerta, pede desculpas e estraga a jogada da fantasia perversa do médico ).  Não vi nenhum psicopata na história. Ou quase todos homens brasileiros são psicopatas pros puritanos saxões e isso de modo bem explícito enquanto as mulheres são apenas neuróticas que se preservam pela intimidade das leituras e do leito conjugal... 

    Não sei mais qual frase do Florião me fez pegar uma outra, do Nabokov, que acabava de me cair nas mãos do olhar.  " The I of the book cannot die in the book" ( com outras implicações! ).

    Sem tempo pra mais. 

     


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    [Aeternus:2848] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-21)


    - Davy ainda está vagando pela lista anterior...

    Davy, voltamos a falar de As Horas ontem, mas na lista do Va Savoir e não do Viva a Diferença, entre as quais estamos nos alternando confusamente.  Também quis assistir a retomada de As Horas!

    Helena, houve uma pane geral no Brturbo que é meu provedor  bandalarga da Telebrasília que recomendou que seus assinantes passassem a usar novo endereço.  Como recebo quase todas mensagens pelo aetern.us, peço que use apenas este endereço ( ou, então, o jansy@terra.com.br )


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    [Aeternus:2849] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-21)


    - recado especial pra Gallego e Davy

    -----Mensagem original-----
    De: Alberto Hekel Tavares [mailto:albertohtavares@hotmail.com]
    Enviada em: domingo, 20 de fevereiro de 2005 18:03
    Para: administrador@aetern.us
    Assunto: Aeternus Contate-nos

    Nome do Remetente: Alberto Hekel Tavares
    Endereço de e-mail do rementente: albertohtavares@hotmail.com
    Mensagem: Ao Gallego e ao David o meu abraço- Alberto Hekel Tavares.


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    [Aeternus:2850] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-21)


    - Closer, apanhado geral do discutido nas duas listas

    Mensagens das listas Va Savoir e Vive la Diference, sobre o filme Closer. A maioria  do início foi escrita pelo Florião.  Não deu para distinguir todos os autores na pressa do apanhado sobre o filme, mas os comentários originais constam completos na lista geral do site. Cada um se quiser, se aposse do que é seu.

    Primeira coleta (VLD):

    Largue tudo e corra para o cinema para assistir "Closer".
    O filme consegue discutir fundo a relação amorosa sem ser piegas, fatalista, moralista, maniqueísta, conclusivo ou polarizar o tema para algo no gênero Fé X Niilismo.
    Um amplíssimo e complexo leque de desejos, idiosincrasias e posturas choca-se entre 4 personagens, num huis clos que seria 'Rodriguesiano' e puramente obsceno, não fosse a sensibilidade, propriedade e intensidade da novela de Patrick Marber, que a roteirizou para a perfeita tocada do Mestre Mike Nichols ( quem sabe, sabe : estava caçando coelhos, perdidão anos a fio entre subprodutos como quem não quer nada, e de repente, no último verão, acorda dando esse banho de direção ! como o cinema sabe ser complexo ! ).
    Na turbulenta discussão sobre 'verdades' e 'mentiras', o 'velado' e o 'revelado', o 'que calar' e o 'que dizer' na relação a dois, desfila diante de nós o "circo humano", como explícitamente dito por um dos personagens. Circo de horrores mas também de alegrias, de culpas revertidas em reviravoltas e renascimentos.
    O que Gallego ressaltou muito bem, sobre o melindre - voluntário ou não - é genialmente trançado numa sucessão incrível de rebatimentos. Lembrei-me daquelas tentativas da anti-psiquiatria de 'Matematizar' isto, usando setinhas e o metadiscurso para domesticar toda a carga afeto/desejo/descarga da pulsão/repressão que pode embutir o encontro.
    Jogo com o Gallego na questão levantada pela Suely, e na qual não quis entrar a fundo em seu mérito, para não retirar a natural surpresa quando fosse assistir o filme : não considero 'psicopata' nenhum dos dois personagens masculinos centrais.
    A discussão de fidelidade, valor tão prezado por nosso narcisismo básico e consequentemente pela sociedade, reforçado com o patrocínio da Santa Igreja, vai fundo aqui. A mexer com os brios de qualquer um...e misturada à posturas existencialistas na crise conjugal, como a dos dois homens (um por dever de ofício consigo mesmo; o do outro para expurgar e exorcizar demônios íntimos ). Closer, closer...em busca de algo que num momento é tudo e noutro evanesce no ar...
    Maior surpresa para mim no filme é a persistência com que os personagens insistem e retomam seus objetos amorosos, trazendo-os de volta tanto a partir da própria imaginação quanto de espaços nobres ou espeluncas ! Amar seria, em última análise, ser paciente ?

    Transcrevo a seguir um pequeno debate com minha amigona Cleine. Houve réplica, tréplica, quadréplica...Ela é a dama em negro/negrito ( afirmativa inicial/tréplica ) e eu o replico e quadreplico em vermelho e azul, ok ? )

    O filme é lindo, os closes maravilhosos...o retrato de um relato que pode acontecer a qualquer pobre mortal. Mas achei Dan inocente ou displicente...Tua visão coincide com a de minha prima, de quem mando o debate comigo em outra mensagem. Discordo de vocês duas : acho que o escritor 'luta sua luta' galhardamente. Tudo bem, é sua visão....mas como um homem pode viver com uma mulher sem saber seu verdadeiro nome? isso é um acontecimento natural e por onde já começo a questionar o amor de Alice, pq mentir para o homem q tanto ama? A questão da identidade é crucial no filme. Me ocorre que a 'Alice' é uma personagem do escritor, no caso vivificada, de carne e osso ! Mas uma personagem 'sem nome' mesmo, como demandam as certidões e Félix Pachecos da vida. E na seqüência-nudez o tema identidade torna ao epicentro, com o Dermato exigindo saber o nome da moça depois de "vocês ficam por aí rebolando e se mostrando, parecendo tão à vontade...mas tudo debaixo de nomes falsos" E tenta ansiosamente, de forma sofregamente impaciente,comprar a identidade dela... Você acredita que minha mãe me considera 'frio' ? Pois é.um hedonista apaixonado como eu, chorão...... acredito sim! É  a tal da imagem q cada um de nós passa para o outro, eu  mesma já cheguei a pensar assim de ti.........Talvez tua mãe , não tenha tido chance de ver o Caco apaixonado, chorando e querendo colo......Revelado e codificado o viés fascista nela aos meus 11 ou 12 anos, precisei redefinir meu modelo feminino...hoje vejo-a como uma mulher com muitas virtudes, dedicadíssima à nós, filhos, ainda aos 79 anos, mas a seu modo. Duranga Kidd, com seus 3 maços de cigarro ao dia. Como com o Vítor, minha satisfação ao vê-la sorrir ( coisa pouco usual ) é intensa. Ontem consegui que ela gargalhasse com umas palhaçadas que falei sobre escolas de samba paulistas. Aquele calango frenético, escolas com nomes que nunca ouvimos falar. ‘Unidos da Vila Sete Quedas’, ‘Pé-Descalço da Rua Anhanguera’, ‘Neném Chupeta da Butuca’, sei lá...Até hoje mantenho com cuidado a aresta do melindre, o ponto chave do filme para o Gallego. Há um ‘não-me-toques’, um travo, que nos mantém usualmente cordiais mas que parece estabelecer uma fronteira do possível. Olha o melindre aí, gente ! Chora cavaco !
    Nunca soube o verdadeiro nome de Alice....e sequer tentou procurá-la....Nem nós, e parece que seria Jane Jones, algo parecido, né ? O que ela repete 3 ou 4 vezes ao dermato na sessãozinha nudez na boate. Gallego chamou-o de ‘trator’ conversando comigo ao telefone, mesmo tempo em que eu raciocinava com ‘bandeirante’, o que dá no mesmo : ele vai ‘passando por cima’ d’O Outro. Na cena da alfândega NYC fixei-me no retrato da Alice! É, também fixei-me no retrato dela, só vendo outra vez, pra tirar a dúvida... O safadão do Nichols preparou terreno para nos dar o drible. A Alice havia verbalizado "meu rosto do passaporte não pode ser visto", e quando ela passa pela alfândega nossos olhares dirigem-se para seu rosto. Não sei se aparece o nome dela ali, mas eu e Ana achamos que é o nome que ela repete várias vezes, recebendo as libras do médico-trator e 'vingando-se' do clamor-identidade por ele feito daquele modo bruto !
    ...deixando q o médico receitar tudo o q deveria fazer. A verdade velada de quem apaixona-se, se expõe arriscando a ganhar ou perder...nem sempre funciona...Sei bem disso, como hedonista/existencialista de carteirinha. Mas é exatamente esta busca de verdade o mote, o ser-no-mundo do escritor ! - a propósito : como me identifico com ele...  há coisas q não devem ser ditas, penso...Gallego ressalva exatamente essa questão do melindre, como ressaltado no site, em sua primeiras impressões.
    O melhor do filme foi o encontro dos personagens masculinos ....muita verdade, ainda que doída, precisava ser dita, já que ninguém se poupou em magoar ninguém...Cena implacável, dura demais ! Apenas Alice, quando interrogada por Dan, quando disse a ele que não queria magoá-lo, contando o que houve entre ela e o médico e a decepção de saber que Dan , só queria apenas confrontar as respostas.....Nein, nein, nein !!! Disse e repito : é-seu-ser-no-mundo !!! É o que o mantém aceso e apaixonado. Ou prestes a apaixonar-se. É como ele sabe, pode e deve viver. Ele diz ali : se não conversássemos sobre isso seríamos animais". OK!  OK! OK! Vemos e sentimos diferentes............ele é contraditório... sequer interessou-se pelo que ela era, pelo seu nome , para querer saber detalhes do que ela viveu com o médico.....( dor de corno , apenas a clássica ferida narcísica aqui, só que aqui com uma nuance diferente : ele tenta esgotar seu arsenal hedonista/existencialista, tirar água de pedra, reencontrar significantes ! Para além de traído, ele é hedonista/existencialista ! De certo modo ele já esperava a 'traição' dela, sabe-a inevitável na relação amorosa. O flerte permitido de ambos na vernissage, com parceiros alternados, já antecipa isto : ele conversa com a fotógrafa voyeurizando o flerte da Alice com o trator..., que por ela não teria acontecido... não fosse   por vontade dele, de viver um outro amor... Ela voltou a lutar pela vida...foi apenas um cliente e nada mais... Discordo. O médico e o interrogatório policialesco sobre identidade,na boate, remetem-na de volta ao tal 'social', ao 'sangüíneo'. É a chacoalhada, um crivo, uma etapa. Alice tende à imolação, como quando ‘deixa-se atropelar’ em Londres. das cenas q ele não viu .Não sei se estou na ótica errada, ou como já disse esperava mais do filme...mas vamos discutí-lo? Bem, meu entusiasmo todo inicia-se na identificação com o personagem do Jude Law e no franco convite intimista logo das primeiras cenas...
    Esperando o confronto...foi-se o tempo em que me zangava com alguém por não concordar comigo. Como também disse o Gallego numa dessas encruzilhadas da vida, "se eu quisesse que concordassem sempre comigo, ficava em casa conversando com o espelho". Mas, de minha parte, acho "Closer" um dos melhores filmes que já assisti. O Mike Nichols e o roteirista-novelista Patrick Marber conseguiram, junto com a equipe, ser ao mesmo tempo intensos, sensíveis. Evitaram moralismos, maniqueísmos, conclusões, usar a morte como fortíssimo, discutir (in)fidelidade a fundo e...intrigar ( a mim, ao menos) ....e a mim tb...fiquei intrigadíssima, saí do cinema tonta, pensativa.... HOMESSA ! GUALÉ ! e ainda diz que não curtiu muito o filme ?!!! Mas entendo que se possa achar o filme 'desagradável', quase 'nauseante'. Necrofilia eventual, ativa e passiva, muita culpa, calvário na relação amorosa, purgações...( apesar dos francos rebotes cheios de Vida ! ) e o confronto aqui é no melhor sentido...também não estou nem um pouco afim de me zangar...

    ( no dia seguinte ela especulou sobre Alice-brincando-de-morrer e 'Alice que não está no País das Maravilhas'. Respondi como segue )

    Ela ( Natalie Portman ) e o Clive Owen, que faz o médico, ganharam o Globo de Ouro award. Ela me lembra a Juliette Binoche, surgindo em "A Insustentável Leveza do Ser". Luminosas, moreníssimas...
    Concordo com tua visão : Alice é volátil, Leve demais. Mulher bem Lacaniana, 'inexistente', esperando seu molde. E enquanto seu molde não vem, strippa-se e atropela-se. Só não entendo tua crueldade ao dizer 'bem feito, acabou morrendo no final'. Ela assemelha-se muito, ainda, à Natalie de "Les Invasions Barbares" : ambas são frágeis existencialmente e fortíssimas em intensidade intimista. Queria saber aqui a opinião da tchurma psicanalítica. E trata-se de um tipo feminino bastante 'contumaz' - que me perdoem o pêso da expressão, da qual retiro qualquer viés Penal !

     

    Em "Confessions Trop Intimes", que revi esta semana, o personagem do psicanalista ( Michel Duchaussoy ) atua como gosta a Jansy, com pinceladas em detalhes, à Matisse. A respeito da fixação do analista tributário na cliente que deveria-ser-sua, a que errou e porta, ele diz, reverenciando Chacrinha, o Velho Guerreiro, "quando um homem se fixa num modelo feminino, só acaba quando termina" ( ou vice-versa : só termina quando acaba - a ordem dos fatores altera aqui o produto ? ).
    Talvez o personagem do escritor, em "Closer", tenha seguido esta máxima : esgota o 'investimento' em Alice, que 'desmascarada' precisa assumir outra(s) nuance(s) femininas. Ele quer o impossível ? Uma mulher pode travestir-se em outra(s) ?

    Closer eh dez

    Desculpem, a porcaria do computador de casa esta sem o acento agudo e outras coisas mais. Mas vou escrever mesmo assim. Achei Closer muito bom, segui a indicação do Floriao e fui assistir com minha filha Joana e meu marido Cleo. Todos gostaram. Minha filha, de 24 anos, fez o seguinte comentario: o filme eh interessante porque fala das relaçoes amorosas sem os finais felizes ou infelizes previsiveis. Achei as personagens bem construidas. O dialogo entre o medico e o jornalista pela Internet eh demais, ri alto no cinema, achei muitissimo atual. As pessoas viajam na maionese pela Internet e conseguem fazer sexo sem eira nem beira com alguem que sequer sabem quem eh. O medico, que primeiramente passou por um idiota por cair na pegadinha da Internet, passou uma rasteira de macho bem vingativa, tipica dos homens, no jornalista, porque este tomou a mulher dele, a Julia Roberts. Isso surpreende bastante, pois o heroi romantico, que era o jornalista, termina o filme como um tremendo imbecil, que sequer soube o nome verdadeiro da mulher que dizia amar, a striper. Alias, isto eh muito real sim. Conheço um jornalista, por coincidencia da mesma profissao da personagem do filme, que se apaixonou por uma mulher que nao existia. Uma mulher que eu e uma outra amiga minha inventamos durante uma viagem a trabalho. Sabiamos que ele era muito mulherengo e começamos a mandar bilhetinhos para ele, mancomunadas que estavamos com a portaria do hotel. Ele respondeu aos bilhetinhos, foi aos encontros marcados, pagou todos os micos, atendeu telefonemas nossos. Eramos uma portuguesa com sotaque e tudo, totalmente apaixonada por ele, mas que nunca podiamos estar nos encontros porque sempre havia um problema. Sabiamos que ele cairia na pegadinha mas nunca imaginamos que a mentira se prolongasse tanto. No final, marcamos um encontro fatal, quando minha amiga falou a roupa que iria no restaurante em que todos nos encontravamos. Ele ate me fez de confidente, imagine, dizendo que havia uma mulher no hotel apaixonada por ele. E no encontro descobriu tudo, ficou p.... da vida conosco. Ainda bem que outra amiga intercedeu por nos duas dizendo que ele tinha que ter cintura pois, afinal, havia caido na armadilha sem qualquer pudor. Voltamos todos para Brasilia no mesmo aviao cantando musicas de fado. A historia se espalhou por Brasilia, em todas as redaçoes, foi o maior mico coitado. Quase foi tema de carnaval do Pacotao. E os homens, por mais que nos condenassem, riam da historia e diziam que nao dava para defendelo. Portanto, so para ilustrar, eh bem real o jornalista do filme ter se apaixonado por aquela mulher de repente, na rua, sem saber seu nome. Como disse o medico, ele nao sabia ter compromisso e brincava com fogo. E como brincava. Jah o medico, querendo saber dos detalhes da traiçao da mulher, a Julia Roberts, eh uma coisa tao dolorosa para quem jah vivenciou a situaçao, eh bem isso mesmo. Onde, quando, por que, todos os detalhes possiveis, sabese lah pra que. E a culpa da mulher, a Julia Roberts, eh outra coisa bem sofrida. Um bom filme. Com muita coisa nova de dialogo, a vista belissima de Londres e uma historia bem complicada de amor entre quatro pessoas.

    Achei Closer muito bom, segui a indicação do Floriao ( grazie tanti ) e fui assistir com minha filha Joana e meu marido Cleo. (mulher corajosa ! )Todos gostaram. Minha filha, de 24 anos, fez o seguinte comentario: o filme eh interessante porque fala das relaçoes amorosas sem os finais felizes ou infelizes previsiveis. Achei as personagens bem construidas. O dialogo entre o medico e o jornalista pela Internet eh demais, ri alto no cinema, achei muitissimo Tá vendo ? Então alguém riu de algo num filme tão sofrido, tão mergulhado nos sofrimentos e mágoas das pessoas...atual. As pessoas viajam na maionese pela Internet e conseguem fazer sexo sem eira nem beira com alguem que sequer sabem quem eh. Sexo virtual ganhou status de 'sexualidade' ? Pensei que só eu e minhas devassidões, além de uns desvairados de plantão, enveredassem por essas sendas. O medico, que primeiramente passou por um idiota por cair na pegadinha da Internet, passou uma rasteira de macho bem vingativa, tipica dos homens, no jornalista, porque este tomou a mulher dele, a Julia Roberts. Maybe yes, maybe not...como diz Gallego, ele é um trator : não é essa ou aquela vivência que o faz passar por cima d'Outro, mas antes um ser-no-mundo. É uma postura-basal, em suma, não uma 'reação' como em Karl Jaspers. Isso surpreende bastante, pois o heroi romantico, que era o jornalista, termina o filme como um tremendo imbecil, que sequer soube o nome verdadeiro da mulher que dizia amar, a striper. Minha amiga Cleine, de quem publiquei na carta "mais Closer", há poucos dias, também fez carga aqui ! Rebati colocando-o meio como Chapeuzinho Vermelho, o 'escritor que descobriu uma personagem vivinha da Silva, fascinante. De carne e osso...Alias, isto eh muito real sim. Conheço um jornalista, por coincidencia da mesma profissao da personagem do filme, que se apaixonou por uma mulher que nao existia. Tudo a ver, e tema...do próprio Mike Nichols em "Carnal Knowledge"! O personagem do Jack Nicholson desiste da Mulher no tal 'real' e 'apaixona-se' idealizadamente por uma patinadora dançando toda de branco sobre o gêlo...esta toma sua mente como objeto erótico, o ideal e a que ele desistiu de encontrar aí pelas ruas. Uma mulher que eu e uma outra amiga minha inventamos durante uma viagem a trabalho. Sabiamos que ele era muito mulherengo e começamos a mandar bilhetinhos para ele, mancomunadas que estavamos com a portaria do hotel. Ele respondeu aos bilhetinhos, foi aos encontros marcados, pagou todos os micos, atendeu telefonemas nossos. Eramos uma portuguesa com sotaque e tudo, totalmente apaixonada por ele, mas que nunca podiamos estar nos encontros porque sempre havia um problema. Bela intervenção, un vero ballo in maschera ! Sabiamos que ele cairia na pegadinha mas nunca imaginamos que a mentira se prolongasse tanto. No final, marcamos um encontro fatal, quando minha amiga falou a roupa que iria no restaurante em que todos nos encontravamos. Ele ate me fez de confidente, imagine, dizendo que havia uma mulher no hotel apaixonada por ele. E no encontro descobriu tudo, ficou p.... da vida conosco. Ainda bem que outra amiga intercedeu por nos duas dizendo que ele tinha que ter cintura pois, afinal, havia caido na armadilha sem qualquer pudor. Entendo o rancor dele, mas...a raiva maior é pelo deceivement, por perder o acesso à portuguesita ! Vocês são apenas o rescaldo do processo. Ele deve sonhar e rezar para ela ressurgir no 'real' como passe de mágica. Pode tornar-se a patinadora dele...Voltamos todos para Brasilia no mesmo aviao cantando musicas de fado. Suas sádicas !A historia se espalhou por Brasilia, em todas as redaçoes, foi o maior mico coitado. Quase foi tema de carnaval do Pacotao. E os homens, por mais que nos condenassem, riam da historia e diziam que nao dava para defendelo. É fácil rir de Mercutio. Portanto, so para ilustrar, eh bem real o jornalista do filme ter se apaixonado por aquela mulher de repente, na rua, sem saber seu nome. Ela está lá, madurinha, pronta e pedindo para ser colhida ! Oh ! céus, coitadinha dela ! Como disse o medico, ele nao sabia ter compromisso e brincava com fogo. O dermato é cruel. Sem ser o 'psicopata', que eu e Gallego denegamos, indo contra o diagnóstico da Suely, mas é cruel com a índole humana. Mete o dedão na ferida legal, como bom bandeirante e tratorão. 'Alice' dá-lhe uma surra na boate, sapecando-o com seu nome real, enquanto embolsa sua grana toda, e massacra-o com sua nudez escrachada, que faz questão de exibir ao paroxismo ! E como brincava. Jah o medico, querendo saber dos detalhes da traiçao da mulher, a Julia Roberts, eh uma coisa tao dolorosa para quem jah vivenciou a situaçao, eh bem isso mesmo. Onde, quando, por que, todos os detalhes possiveis, sabese lah pra que. Como eu disse no debate com a Cleine, por que ele é hedonista/existencialista de carteirinha ! Não é uma escolha, é um ser-no-mundo ! Da mesma forma que o dermato é um trator, precisa triturar. E a culpa da mulher, a Julia Roberts, eh outra coisa bem sofrida. E prazerosa: a discussão que propus sobre sexo-com-culpa, o Gozo-deprê...Um bom filme. Com muita coisa nova de dialogo, a vista belissima de Londres e uma historia bem complicada de amor entre quatro pessoas. O Ricardo Amaral, irreverente como sempre, fez a psicosíntese do filme como "de sacanagem ser ter cenas de sacanagem".

    Embora tenha gostado muito de "Closer", admito que seja passível de questionamentos. Quando assisti a peça no teatro, a Barbara Heliodora me disse que não chegava a adorar o texto embora tivesse gostado da montagem dirigida pelo Babenco.

    Acho que o des-envolvimento do envolvimento dos personagens pode carecer de verossimilhança em um momento ou outro, embora os seres humanos não sejam exatamente "verossímeis", quero dizer: surpreendem, sejam incoerentes, etc etc. Mas tb acho que certas "justificativas" oferecidas para terem feito isso ou aquilo sejam apenas... conteúdo manifesto. O latente pode ser outro, a ver. Justificativas... desculpas... racionalizações... sabemos o que é isso.

    Mas de fato me surpreenderam pessoas que não gostaram do filme - e não por não ser "comédia" ou filmeco romântico com happy ending. Uma amiga gostou muito e ficou impressionada com o retrato dos homens e se perguntando a velha questão: afinal, o que as mulheres querem? (no caso, em termos de companhia masculina: tratores como o dermatologista interpretado por Clive Owen ou delicados-infantilóides como Jude Law? - a classificação é reducionista e dela, mas não de todo despropositada; para namorar ou para trepar? para viver ou para conviver? para viver ou para morrer?) Mas esta amiga me contou que outra amiga, talvez ainda mais sensível (habitualmente) achou que "era mais um fiulmeco" (!!!!!!!?????). Pensei em idiossincrasias, rejeições inconscientes ou pré-conscientes, identificação  mobilizante com algum detalhe (e o roteiro tem tantos...). mas descobri que de fato MUITA GENTE (boa?) não está adorando "Closer".

    Para simplificar, vou separar a forma do conteúdo: o que está sendo discutido como bem ou mal resolvido é o TEXTO, portanto, praticamente  a peça original; cinematogràficamente, o filme não reinventou o cinema mas se utiliza de aspectos da linguagem cinematográfica de forma muito feliz. Os rostos em close (perto demais, mais perto, enfim, de muito perto), as fotos que a personagem da fotógrafa tira, enfim, o filme se submete ao texto original (teatro, falado, falado, falado) da forma mais adequada possível: o meio cinematográfico veicula o texto da peça através de uma filmagem elegante, funcional e corretíssima, para dizer o mínimo. (A peça já era "cinematográfica" ao se compor de cenas com elipses enormes de tempo, onde a cada nova cena vamos deduzindo o que se passou entre a anterior e a atual). Talvez o filme, em suas substituições visuais de coisas que na peça eram faladas explictamente, tenha sido sutil demais em alguns aspectos: minha mulher viu uma barriga de grávida numa cena que eu não vi e não lembro se havia na peça. Ma eu, por me recordar do final da peça, identifiquei algo colocado muito sutilmente (demais?) na cena final - mas que as pessoas (minha amiga primeira e Marcos) não perceberam como tão claro. Isso será um defeito?

    Enfim, tal como "As Horas" que mobilizou discussões ricas, "Closer" não será nenhuma unanimidade, o que, segundo Nelson Rodrigues, pode ser um atestado de inteligência caso ele tenha razão quando dizia que toda a unanimidade é burra. Acho estranho o filme não concorrer a prêmios de roteiro adaptado, direção, fotografia, trilha sonora e outros cuidados de produção geralmente reconhecidos em Hollywood, exatamente para não serem premiados: apenas reconhecidos como valores mais "cabeça" (para os padrões anencefálicos do oscar e similares). Isso mostra que o filme incomoda mesmo. Da mesma forma, apesar do magnífico desempenho da atriz "coadjuvante", Natalie Portman como Alice e do efeicientíssimo de Clive Owen como o médico, acho que mais uma vez Jude Law não tem sido reconhecido na sua capacidade de ser sutil. Ele pode ser óbvio (e excelente) como o robô-prostituto de "A.I.", mas geralmente é sutil e elegante em composições como a deste filme (personagem cheio de ambiguidades, ambivalências, contradições, reversões de expectativas, etc etc, nada que ele deixe previsível nem explícito: um narcisista ao sabor das inclinações das águas e dos ventos onde se mira) e em desempenhos de outros filmes (o fotógrafo assassino de "Estrada da Perdição" onde Paul Newman arrasava num desempenho depurado e igualmente sem exageros e - apesar do Marcos - o Tom Hanks também estava ótimo.

    O que me surpreende mais é ter lido que o Clive Owen fez o papel do Jude Law no teatro. Será possível? Depois de vê-lo neste papel fica difícil imaginar...

    Já meu filho me informou que Natalie Portman é veterana: Princesa Amidala de "Star Wars" episódios 1 e 2! E, mais do que tudo: ainda meninota, parceira daquele ator francês com cara de sono cujo nome me escapa num filme em que ele é um assasino profissional e a garota se gruda (quase sexualmente) nele, o que fez o filme ser todo cortado nos EEUU. Lembrei o nome dele: Jean Renno (se não me engano) (O filkme? "O Profissional", talvez). A menina já prometia... os moralistas dirão: tinha que acabar como stripper...

    Talvez agora comece a outra lista do VLDAS

     

    Escreveu Florião, em resposta ao Gallego: Começo pelo mais simples, a respeito de teus escritos : qualquer um tem todo o direito de gostar do Tom Urrrrranques. Com o envelhecimento torno-me mais e mais rabugento, maniathal-maniático.
    Atores pra que vos quero : imagino o tour-de-force do Clive Owen travestido do jornalista-escritor...que desafio, hein !
    Discutindo o mérito 'unanimidade(s)', creio que o essencial é ir fundo na questão 'o que se espera de um fime ?'. Que seja um referendum do que eu penso ? Que a equipe faça momices para eu rir ? Ora, Arte é muito, mas muito mais que isso (...) Que sucesso é esse ? Algumas risadas e tremeliques entre pipocas deglutidas ao longo de 2 hs, aprox. ? Ou o que cala fundo em nós, o que nos faz sentir e pensar intensamente, o que passa a ter relevante lugar em nossas memórias ?
    (...) Até agora, os que não gostaram de "Closer" usaram argumentos que os coloca anos-luz distante de mim. Poderia mesmo dizer 'em planetas diversos'...Porém...é só isso, mesmo : perde-se a oportunidade da troca, da paixão, do que move a Vida.O resto é o resto.

    Pareceu-me que o Florião estava indignado com as anotações do Gallego mas depois vi que eles estão de pleno acordo quanto à importancia e qualidade do "Closer" e que ele apenas manda pro infinito e além os que discordam deles...

     

    Quero ressaltar que faço brincadeiras como as que fiz no teu texto com as pessoas de quem gosto. Caso contrário, fico no cordial-distante.
    Bem colocada a antítese essência entre coluna sonora&linha dramática. Mas discordo de tachar-se o jornalista-escritor de infantilóide. Ele enquadra-se aqui, talvez, no descompromisso com que pretende levar a vida. Talvez uma defesa contra a tarefa de escrever obituários, aqui incluídos o dos que ainda não faleceram. ( outro ponto forte da trama, a aproximação da necrofilia involuntária dele à voluntária da Alice ).E nesse sentido alinha-se to perfection à 'Alice', que pretende ser a No País das Maravilhas mas sabe-se na Londres-das-Repressões.
    Ressaltei num desses escritos a 'universalidade' dessas Alices como a do filme. Comparei a personagem à Natalie, de "As Invasões Bárbaras". Não seria nenhuma surpresa a Alice ser drogadita, não é ? Da mesma forma que ambas são intensas, sabem-se à margem do jogo, sabem pertencerem aos 'excluídos', da tchurma da Sociologia.Não agradam ao stablishment, não são comportadas, produtivas. Quem se habilita a amá-las precisa abrir mão de clássicos conceitos da relação amorosa, e o primeiro destes é o da fidelidade.Tirando um dos seus primorosos coelhos da cartola, a dupla Farber/Nichols mostra-nos uma Alice...comportadinha, ao iniciar o affaire com o jornalista. É ela quem cobra, quem se choca, quem chora primeiro. É ela quem deseja o enquadre clássico da fidelidade. Talvez seu parceiro tenha falhado ao não estabelecer algum pacto a respeito, talvez sinta-se inerme : sua arma única é seu corpo, ela sabe strippar, como veremos mais adiante...Ou, voltando ao jornalista-escritor, quem sabe este não teve tempo para colocar em questão esse ponto : surgiu do nada o encanto pela fotógrafa...
    Mas já se sabia 'infiel', já conhecia sua coceira interior, a mesma que o leva ao conluio via Internet com o dermato. É um escritor, um ficcionista.Sabe-se imerso aí. Precisa de 'situações' no cotidiano. Fabrica-as. Está inserido no que Baudrillard chama de 'produção do acontecimento' : salvá-la do atropelamento suicida e ungi-la é 'fabricar um acontecimento', pinçá-lo do 'real'. Esta auto-proclamada 'Alice' ganhará contornos naturais neste cenário, mas precisa continuar revelando-se. Por isto, por uma necessidade de 'ação' - e numa leitura muitíssimo pessoal minha ! - ele assume descaradamente seu flerte com a fotógrafa na vernissage. A pobrezinha da Alice, belíssima ali ( lembra a Juliette Binoche em "A Insustentável Leveza do Ser" )sente o peso todo do trator sobre si, e joga charme franco pra cima dele.
    Na sucessão de rebatimentos, questionários amorosos policiais, idas e vindas nas relações que se fazem e desfazem, a seguir, penso que cada uma precisaria ser avaliada per si.Não há como ser diferente : é o mesmo que se faz nas anedotas e ditos populares que tentam abraçar o mundo, colocando todos no mesmo embrulho, gerando subprodutos tais como "mulher é isso mesmo...", "homem que é homem tal e tal..." E avaliando especificamente o momento dos dois ali e então, vejo o homem-e-escritor espremendo a parceira a seu estilo hedonista/existencialista, conforme também já firmei. Ele quer saber o que existe depois-da-Tonga-da-Mironga-do-Kabuletê. Igualmente, em espelho posterior, o dermato joga essse jogo com a fotógrafa ( rompido de forma bem feminina por esta, depoius do Diário de Bordo, com "fizemos sexo como todos fazem, o que mais há a dizer ?" ).As peças são as mesmas, só que os protagonistas mudam. Se o escritor o fizera por hedonismo/exist., o dermato o faz por exercício de estilo : é um Esteta da Evidência, um Ativista da Revelação. Nem tanto para aprender ou sensibilizar-se com algo na parceira, mas antes numa jornada tipo 'eu sabia que você era uma disfarçada'. Esse mesmo jugo pessoal prensa-o a um espasmo na esplêndida cena da boate : usando dinheiro e de implacável persuasão, leva Alice a um paroxismo dividido entre nudez escrachada e perverso Gozo íntimo, vitoriosa que está a desfiar debaixo de libras que se acumulam por sobre seu corpo seu verdadeiro nome, tomado como falso pelo algoz.
    Não satisfeito, este ainda passa por cima do escritor no tête-à-tête do consultório.Novamente Evidência&Revelação no topo da pauta...definitivamente é seu cacoete.
    Sobre o destino de nossa Alice, o Nichols fez questão de nos dar o drible dos craques : embalados pela beleza de Natalie Portman, pela citação dela a respeito da foto em seu passaporte e pela letra do tema romântico - 'can't take my eyes out of you', talvez ali corrompido sem o out - faz com que nossos olhares centrem-se na dita cuja, ficando dessa forma apagado o domínio do 'em volta'.


    helena(2005-02-14)


    - obrigada pelas dicas

    Obrigada pelas dicas sobre filmes e pelas novas avaliações sobre o Closer. Gostei do paralelo entre a stripper e a drogada de "As Invasões Bárbaras". Acho que é isso mesmo. As duas excluídas da sociologia, e quem se arvorar a amá-las não pode exigir fidelidade.  Você foi em cima do problema. E ressalvando que, no caso, foi o jornalista quem primeiro foi o infiel. Parece que essas pessoas, como estão pautadas para esse papel, não têm a "chance" de se recuperar. Seria isso? Ou ela encontrou uma pessoa que não lhe daria essa chance, por ter continuado com seu sintoma. Então, tanto faz. Ele a traiu primeiro, porque ela o trairia mesmo. Agora digo como você. Coitadinha da Alice, ou da Jane. E quantas a gente encontra por aí por esse mundo afora. Ontem fui assistir ao "Aviador". Um bom filme sobre a vida do magnata Howard Hughes, excêntrico milionário, doido, apaixonado por aviões e que se envolveu com atrizes famosas e bonitas como Katharine Hepburb e Ava Gardner. É um longo filme e dá medo ver as aventuras

    -----Mensagem Original-----
    Enviada em: Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2005 20:37
    Assunto: closer no vasavooir

    Gallego fala em rabugice, mas tem tutano para dar e vender. Rabugento sou eu : cansei de Hollywood. Se “Closer” é anti-holly, ponto pra mim : é um dos melhores filmes que já assisti. Trata do anti-ser sendo, ou tentando ser diante do anti-ser. Como tentei associar na citação do Baudrillard que publiquei ontem
     
    Uma dentre as grandes virtudes de “Closer” é conseguir discutir o tempo todo fidelidade e, ao mesmo tempo, retirá-la do epicentro das ‘responsabilidades penais’ do ser.
    Se em Arcand a abordagem desse assunto é mais um estiloso deboche do que outra coisa – vide “O Declínio...”, de sobra ! – nesse Farber/Nichols ela assemelha-se mais à uma âncora de desespero do que outra coisa. Em Arcand estamos ‘pra lá da infidelidade’, que tornou-se anedótica, um simples mote para risadas. O mal estar próximo ao final de “O Declínio...”, criado pelo (in?)voluntário confronto entre a liberada amiga e ex-amante de Rémy com sua mulher parece muito mais o cutelo do hora/lugar do que o do fato em si. O puxão de orelhas que a criança não quer suportar diante do amiguinho.
    Farber/Nichols também estão para lá da infidelidade. A discussão envolvendo o velho dinossauro avança para o pantanoso terreno do ser e aparência de ser. Quando o mundo da fotógrafa cai, quando tudo está em desordem – e numa dos múltiplos rebatimentos do roteiro –  ela bate de frente ( forte ) com o escritor, que com ela vive um affaire há cerca de 1 ano. Em crise com sua Alice, ele ouve-a colocar com naturalidade que “deseja ter um filho” do dermatologista. As diversas identidades dos personagens dançam fugidias ao sabor dos acontecimentos e de suas vivências, e que as cartas de Farber parecem indicar é exatamente a fluidez e volatilidade de papéis, recorrem à diferença sem nela acreditar , como diz cruelmente Baudrillard.
    Entre nous, pois, mortais comuns que ainda somos ou acreditamos ser ( e olha o ser aí, gente ! ) espero continuarmos a creditar na diferença. Caso contrário teríamos que fingir, o que seria de todo lamentável...como é lamentável alguém ainda ancorar sua relação amorosa na fidelidade, um dos moinhos de vento nas paragens de nossos Quijotes íntimos.

    “Closer” – nítido constructo teatral/teatralizado ! Serralheria mágica. Entrar ou não entrar – eis a questão. Compreendo perfeitamente o problema do botãozinho de switch aqui ! A nível pessoal – e única forma de julgar a questão – hipnotizei-me de saída ( talvez ‘de saída’ aqui de casa, com o nome de Mike Nichols retomando tema intimista...) com a proposta. Não chorei no filme : considero-o um poderosíssimo tour-de-force intimista, balizador de vertentes da relação amorosa. Um curingão, a carta da batida.
    E chegamos à Música : a melhor discussão sobre esta que conheci até hoje continua nas duas linhas de diálogo de Von Aschenbach com seu assistente em “Morte em Veneza”, do Visconti. O braço direito do maestro tenta, em vão, dissuadi-lo de perseguir a ‘Música Perfeita’, a que o Davy diria que pararia o Universo. Usa como argumento básico simplesmente...a paixão ! Aschenbach procura Matemática, mas para seu assistente ( e para mim também ) Música é paixão. Pode vir temperada de amor, de raiva, de solidão, mas tem que ter paixão. E, bem pior que ao discutirmos Cinema, não é conceitual : retira-nos definitivamente, pobres órfãos vãos em pretensiosa inocência, do campo dos significantes...
     
    Mais uma coisa: FUI REVER CLOSER E GOSTEI MAIS AINDA.
    DEPOIS QUE JANSY, DAVY E ETC TIVEREM ASSITIDO VOU CONFIRMAR DUAS COISAS QUE O FILME PASSA MUITO POR ALTO NAs cenas finais.

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    [Aeternus:2851] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-21)


    - será que é válida esta ordenação?


    1.  " a discussão de fidelidade, valor tão prezado por nosso narcisismo básico vai fundo";  "uma dentre as grandes virtudes de “Closer” é conseguir discutir o tempo todo fidelidade e, ao mesmo tempo, retirá-la do epicentro das ‘responsabilidades penais’ do ser ".  Em Farber/Nichols a fidelidade " assemelha-se a uma âncora de desespero. Em Arcand estamos ‘pra lá da infidelidade’, que tornou-se anedótica, um simples mote para risadas".
    Farber/Nichols também estão para lá da infidelidade. A discussão avança para o pantanoso terreno do ser e aparência de ser.
     
    2.  "Closer" mostra como ficam instigados os brios "dos dois homens (um por dever de ofício consigo mesmo; o do outro para expurgar e exorcizar demônios íntimos )"; Chega-se cada vez mais perto " em busca de algo que num momento é tudo e noutro evanesce no ar" ; " a persistência com que os personagens insistem e retomam seus objetos amorosos".
     
    3. A questão da identidade: " 'Alice' é uma personagem do escritor, no caso vivificada, de carne e osso ! Mas uma personagem 'sem nome' mesmo, como demandam as certidões e Félix Pachecos da vida (...) na seqüência-nudez o tema identidade torna ao epicentro (...)  Dermato exigindo saber o nome da moça.
    6. A busca da verdade: "da verdade velada de quem apaixona-se, se expõe arriscando a ganhar ou perder" (...), "mas é exatamente esta busca de verdade o mote, o ser-no-mundo do escritor !" 
     
    7. A importancia da intimidade: " há coisas q não devem ser ditas"
     
    8. Alice e Dan:
    (a) "
    Alice, quando interrogada por Dan disse a ele que não queria magoá-lo contando o que houve entre ela e o médico" e se decepcionou porque viu que Dan  só queria apenas confrontar as respostas"
    (b) O interrogatório de Dan seria "seu-ser-no-mundo !!! É o que o mantém aceso e apaixonado. Ou prestes a apaixonar-se. É como ele sabe, pode e deve viver. Ele diz ali : se não conversássemos sobre isso seríamos animais".
    (c) o questionário inquisitorial feito por Dan resulta " da dor de corno , apenas, a clássica ferida narcísica (...)com uma nuance diferente : ele tenta esgotar seu arsenal hedonista/existencialista, reencontrar significantes. Para além de traído, hedonista/existencialista !  De certo modo ele já esperava a 'traição' dela, sabe-a inevitável na relação amorosa. O flerte permitido de ambos na vernissage, com parceiros alternados, já antecipa isto : ele conversa com a fotógrafa voyeurizando o flerte da Alice com o trator";
      
    9. Alice: Ela "tende à imolação, como quando ‘deixa-se atropelar’ em Londres"  e depois novamente em NY.
     
    10. Diálogos: " o dialogo entre o medico e o jornalista pela Internet é muitissimo atual. As pessoas viajam na maionese pela Internet e conseguem fazer sexo sem eira nem beira com alguem que sequer sabem quem é. O medico, que primeiramente passou por um idiota por cair na pegadinha da Internet, passou uma rasteira de macho bem vingativa, tipica dos homens, no jornalista" e Dan "termina o filme como um tremendo imbecil" que sequer soube o nome verdadeiro da mulher que dizia amar".
    11. Verossimilhança dos personagens : " o des-envolvimento do envolvimento dos personagens pode carecer de verossimilhança (...) embora os seres humanos não sejam exatamente "verossímeis" (...).
    12. Recalcamento, desculpas e racionalizações: "certas justificativas oferecidas para  terem feito isso ou aquilo (...):  conteúdo manifesto. O latente pode ser outro, a ver ".
    13. Hollywood: "Acho estranho o filme não concorrer a prêmios de roteiro adaptado, direção, fotografia, trilha sonora e outros cuidados de produção geralmente reconhecidos em Hollywood".  Acredita Gallego que isto se deu " exatamente para não serem premiados: apenas reconhecidos como valores mais "cabeça" (para os padrões anencefálicos do oscar e similares). Isso mostra que o filme incomoda mesmo". 
    14. Atores: Alice/ Natalie Portman  e  Clive Owen, que faz o médico, ganharam o Globo de Ouro". Julia Roberts e, particularmente Jude Law está excelente " em  composições como a deste filme, personagem cheio de ambiguidades, ambivalências, contradições, reversões de expectativas, nada que ele deixe previsível nem explícito: um narcisista ao sabor das inclinações das águas e dos ventos onde se mira)" ;
     
    15. Diretores e roteiristas: " Tirando um dos seus primorosos coelhos da cartola, a dupla Farber/Nichols mostra-nos uma Alice comportadinha, ao iniciar o affair com o jornalista. É ela quem cobra, quem se choca, quem chora primeiro. É ela quem deseja o enquadre clássico da fidelidade. Talvez seu parceiro tenha falhado ao não estabelecer algum pacto a respeito, talvez sinta-se inerme : sua arma única é seu corpo"  "voltando ao jornalista-escritor, seu encanto pela fotógrafa surgiu do nada (...) mas já se sabia 'infiel', já conhecia sua coceira interior, a mesma que o leva ao conluio via Internet com o dermato. É um escritor, um ficcionista (...) Precisa de 'situações' no cotidiano. Fabrica-as (...) A auto-proclamada 'Alice' ganhará contornos naturais neste cenário, mas precisa continuar revelando-se. Por isto, por uma necessidade de 'ação' - e numa leitura muitíssimo pessoal minha ! - ele assume descaradamente seu flerte com a fotógrafa na vernissage. As peças são as mesmas, só que os protagonistas mudam. Se o escritor o fizera por hedonismo/exist., o dermato o faz por exercício de estilo : é um Esteta da Evidência, um Ativista da Revelação. Nem tanto para aprender ou sensibilizar-se com algo na parceira" e "esse mesmo jugo pessoal prensa-o a um espasmo na esplêndida cena da boate : usando dinheiro e de implacável persuasão, leva Alice a um paroxismo dividido entre nudez escrachada e perverso Gozo íntimo, vitoriosa que está a desfiar debaixo de libras que se acumulam por sobre seu corpo seu verdadeiro nome, tomado como falso pelo algoz e( ...) não satisfeito "ainda passa por cima do escritor no tête-à-tête do consultório.Novamente Evidência&Revelação no topo da pauta...definitivamente é seu cacoete".Sobre o destino de nossa Alice, o Nichols fez questão de nos dar o drible dos craques : embalados pela beleza de Natalie Portman, pela citação dela a respeito da foto em seu passaporte e pela letra do tema romântico - 'can't take my eyes off you' (...) faz com que nossos olhares centrem-se nela (...)apagado o domínio do 'em volta' ".
    16. Diálogos: O clima policial da investigação sobre a "verdade do outro" gera um pingue-pongue empobrecedor, com um certo sabor de "Harry&Sally" ( com Meg Ryan e Billy Christal ) e joguinho fácil ( ex: "não como peixe que mijam na água; homens também mijam; eu não como homens" )  quase coloca a perder as qualidades plásticas do filme;
     
    17. Homossexualidade latente: homens que enxergam o homem da mulher por trás da mulher ( e vice versa)
    18. Preconceito social: divisão de classes da alta burguesia e bem sucedida  e a "ralé" falsamente equalizada, até o momento de "constituir um lar".
     
    19. A maternidade:
     
    20. O vazio do ser por trás dos nomes falsos, personas, perucas:
     
    21. Avaliação do filme em geral:

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    [Aeternus:2852] Mensagem do Grupo38
    -Helena(2005-02-21)


    - Barriga

    Que bom ler mais comentários enriquecedores sobre "Closer".
    Jansy, barriga em jornalismo é quando se comete um erro, se dá uma informação inverídica, uma notícia falsa, enfim, se paga um grande mico, com risco de ser demitido se for uma empresa privada ou ganhar uma bronca e ser rebaixado se for um emprego público, caso a barriga seja muito grave. Deixar de noticiar ou de perceber algo no jornalismo é levar um furo, ser furado por outro colega de outro jornal, que deu a notícia antes da gente, conseguiu a informação por fontes ou captou a coisa que não captamos. Nesse caso, essa pessoa deu um furo. E isso é motivo de festejo no jornalismo. Dar um furo é tudo o que muitos jornalistas querem fazer.
    Há muitas gírias no jornalismo. Querem ver? Sutiã, por exemplo, é aquele texto que fica logo abaixo do título do jornal, uma espécie de introdução e resumo do que diz a matéria (texto completo). Foca é o jornalista que está começando, inexperiente, vítima de tantas brincadeiras, coitado! Até hoje não sei por que se chama foca. O nome carinhoso é foquinha. Lead é o primeiro parágrafo da matéria escrita nos jornais, e tem que conter informações resumidas e concisas sobre o que, como, quando, onde, e por que. Copiamos do modelo americano. Sublead é o que vem em seguida, detalhando mais o lead. Depois vem o resto da matéria. Antes de adotarmos o lead utilizávamos no Brasil o chamado "nariz de cera", que vinha contando uma longa história, etc etc para, somente depois, entrar no assunto. O lead é para o leitor que não tem tempo a perder, que precisa saber de tudo resumidinho logo ao ler o primeiro parágrafo. Exemplo: "Após 13 horas de votação, o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) venceu, no segundo turno, com 300 votos, a eleição para presidente da Câmara dos Deputados, derrotando o candidato do PT, apoiado pelo governo, deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), que obteve 195 votos. A proclamação do resultado, feita às 6h30 da manhã, provocou indignação na bancada petista e foi festejada pela oposição".      

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    [Aeternus:2853] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-21)


    - as música de Closer

    Respondendo a Jansy:
                                    o que Anna/J.Roberts está ouvindo (e desliga súbitamente quando se emputece com o Jude Law na cena das fotos para o livro dele é Mozart mesmo e não Gluck: é o trio mais famoso da ópera "Cosí fan Tutte", cantado por soprano, contralto e baixo: "Soave sia il vento".
      Ainda que na ópera o contexto dos versos pareça absolutamente singelo (supostamente os dois noivos das duas irmãs partiram para a guerra e elas, ao lado do cínico Don Alfonso desejam boa viagem numa letra que diz mais ou menos: "Suave seja o vento, calmas sejam as ondas e todos os elementos sorriam em favor do vosso desejo") os versos podem ter duplo sentido por desejarem realização do desejo. Isto serviria para o filme (e para a ópera, já que a partida para a guerra é uma farsa montada pelos rapazes com Don Alfonso; apostaram com o velho "filósofo" que suas noivas são absolutamente fiéis, coisa em que o velho não crê. Eles voltarão logo em seguida, mas disfarçados de nobres albaneses (isso mesmo) e cortejarão, cada um, a noiva do outro que não os reconhecerão e resistirão mais ou menos até que... No final, Don Alfonso ganha a aposta provando que "Cosí fan tutte" o que quer dizer "Assim fazem todas". O subtítulo da ópera é "Escola dos amantes" (à moda de Molière e suas "Escola de Maridos" e outra "Escola" que não lembro de quem seria: École de Femmes, talvez). Claro que as confusões absurdas desta semi-chanchada (opera buffa é o nome elegante) terminam bem para o quarteto de dois noivos e duas noivas, ao contrário do quarteto do filme. O título da ópera e misógino: afinal, Cosí fan Tutti (todos, eles e elas, não só todas).
    Quando Anna se atrasa para encontrar o Jude Law no teatro (e porque transou com ex-marido, a ópera, que está já acabando, é o primero ato da mesma "Cosí". Toca nos créditos finais também.
    Escutei este terceto pela primeira vez em outro filme, "Domingo Sangrento" onde a Glenda Jackson namorava um rapaz que também namorava um médico mais velho (esqueci o nome do ator: Marcos sabe, ganhou um Oscar depois de morto em "Network - Rede de Intrigas"; foi par da Audrey Hepburn em "Uma Cruz à beira do abismo").

    A música brasileira que toca com a Bebel Gilberto cantando na hora da exposição de fotos é o "Samba da Benção" (conhecido no exterior como "Samba Saravá" desde que foi incluído na trilha de "Um Homem, uma Mulher" porque Vinicius fala saudando dezenas de amigos e ídolos com um repetido "Saravá"). É de Baden e Vinicius (É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração; mas prá fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza se não não se faz um samba, não. Senão é como amar uma mulher só linda, uma mulher tem que ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade, um molejo de amor machucado etc etc Em outro trecho menos misógino: "Fazer samba não é contar piada, quem faz samba assim não é de nada, o bom samba é uma forma de oração porque o samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre uma esperança, a de um dia não ser mais triste não".)
    A música termina e entra outra do mesmo cd da Bebel, acho que é uma que ela fez com o Cazuza, mas não lembro se é mesmo essa que estou pensando: "Mais Feliz"
    O nosso amor não vai parar de rolar
    de fugir e seguir como um rio
    como uma pedra que divide o rio
    Me diga coisas bonitas
    O nosso maor não vai olhar para trás,
    desencantar, nem ser tema de livro
    A vida inteira eu quis um verso simples
    prá transformar o que eu digo
    Rimas fáceis, calafrios
    Fura o dedo, faz um pacto comigo
    Num segundo o teu no meu
    Por um segundo mais feliz

    Nos créditos finais havia o nome de três canções coma Bebel Gilberto, mas eu só ouvi duas.

    Por fim, Jansy falou que teria achado o filme longo: não achei, não. Me surpreendeu perceber que tem pouco mais de hora e meia. Me pareceu maior, sim, mas não no sentido de longo. Mas de "denso". Afinal, passam-se 4 anos em quantas cenas? Dez, se tanto. Jansy não gostou dos "cortes" com elipses de tempo enorme entre uma cena e outra. Bem, no teatro era assim mesmo. A gente ia deduzindo o que acontecera entre a cena anterior e a atual e via que a cada vez os pares mudavam como numa quadrilha doentia.

    O tema é voyeurismo mesmo: uma personagem é fotógrafa de rostos estranhos dos quais se "apossa" + um escritor frustrado que escreve a (suposta) vida da amante (Alice) que ele acha que conhece + um médico que quer saber de toda a trepada da esposa com o amante escritor + escritor (de novo) que quer a confissão da Alice sobre sexo com o médico + uma stripper (alguém tinha que ser exibicionista para tantos voyeurs) + uma suposta compulsão à verdade, doa em quem doer, a qualquer preço: perguntas que em vidas que andam juntas ninguém faz.

     


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    [Aeternus:2854] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-21)


    - Para Alberto Hekel Tavares, para Davy e para Jansy (problemas no site)

    Suponho que Alberto seja parente do compositor de "Guacira" (Adeus, Guacira, meu pedacinho de terra, meu pé de serra que nem Deus sabe onde está, adeus Guacira onde a lua pequenina não encontra na colina nem um lago prá se olhar etc etc" e de "Você" (Vocês já viram lá na mata a cantoria da passarada quando vai anoitecer? E já ouviram o canto triste da Araponga anunciando que na terra vai chover? (...) Pois meu amor tem um pouquinho disso tudo e tem na boca a cor da penas do Tiê; quando ele canta os passarinhos ficam mudos, sabe quem é o meu amor? Ele é você, você você...) que andou sendo gravada pelo Fagner como de domínio público, "recolhida" por ele - ganhando assim direitos autorais - com o nome modificado para "Penas do Tiê". Pena que a interpretação da Nara Leão seja antológica mas esteja sob judice. O Fagner já plagiara versos de Cecilia Meirlles em "Canteiros" que também está interditada pois ele não creditou os versos retirados quase que extamente como foram escritos por Cecilia.
    Voltando ao Hekel: ele nos deu o Concero para Piano em Formas Brasileiras que Davy e eu adoramos. E um disco  de minha infância onde papai Noel tentava um ajudante nacionalista para o Brasil, Pai João. O parceiro do Hekel era sempre o Joracy camargo, eu acho.
    Se Alberto é parente do Hekel, meus parabéns e obrigado por ter-se manifestado por aqui.
    Recado para o Davy: um dos textos sobre "As Horas" é retirado de outro que tem uma versão a 4 mãos contigo.
    Para Jansy: eu não tenho recebido todos os e-mails das listas. Este do Alberto Hekel Tavares, eu só descobri indo para a lista, coisa que não faço sempre.

    Abraços a todos!


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    [Aeternus:2855] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - colagem e méritos

    Grato à Jansy pela perfeita colagem sobre "Closer".
    Para espairecer um pouco, Helena publicou um gostoso divertissement jornalístico, citando até o sensual Severino Umbigo de Ouro ( vocês viram a foto de front page dele no Globo de ontem ? um charme discretíssimo ). Se Nabokov tenta "os píncaros rosados do inatingível", Severino já está , segundo suas palavras, nos "píncaros da glória".
    ( e eu que, pretensioso, achava que já havia visto tudo...) Sem bola de cristal, há cerca de 15 anos atrás, previ que a Globo se desafiaria a manter seus índices de audiência com alguém fazendo cocô no horário nobre. O tal BBB já chegou lá, e além do mais ainda pode-se pagar para assistir alguém lendo jornal enquanto faz cocô.

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    [Aeternus:2856] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - Network

    Faltou o mérito para "Network", que curto muito mais do que o Gallego, a renegar o viés geral histeriforme do filme do Sidney Lumet. Os vícios da mídia do pós-moderno já estão denunciados ali, e estamos em 1976...Apenas Guy Debord, um sociólogo francês que teve trágico destino, previu nossa 'sociedade do espetáculo' com aquela acuidade.
    O ator citado é Peter Finch, em explêndida composição, cheia de nuances.
    Lumet - e suas estilosas denúncias - deste só chegara perto em "Serpico" ( 1973 ), amarga e pungente trama de corner e solidão, um "Coronel Redl" do século XX.
    Curiosamente, vivo o Lumet meio às avessas do Gallego : rejeito "Dog Day Afternoon" pelos motivos que ele rejeita "Network"...homessa !

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    [Aeternus:2857] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-22)


    - da barriga até o maravilhoso Cosi van Tutti

    Ainda bem que não sou jornalista, Helena, ia levar furo o tempo todo... Há muitas mails atrás lembro de elogiar um comentário do Gallego sobre a música em "Closer", porque era Mozart que conciliava falas simultaneas musicalmente. Ainda de quebra, reclamei desta mania de atribuir aos homens ou mulheres uma etiqueta "são todos iguais". Depois disso, vendo o filme, não percebo que é Mozart, não lembro da ópera, não conecto com o enredo opera/filme.
    Se eu estivesse num cargo público ou militar, seria rebaixada a cabo.
    Este entrelaçamento entre história e música num certo sentido é parecido com o que Nabokov faz, só que com ele não tem nada de música tradicional ( como Freud, ele era meio "surdo" para este tipo de sonoridade harmonizada ), acrescenta em complexidade pela força sugestiva de um tema operando silenciosamente por trás de um enredo independente.
    Jogando com os netos "Bob Esponja" no Play-Station II e indo de um nível para outro com mudanças de dimensão e revirando perspectivas tive a sensação de que ler Nabokov era o mesmo que praticar um jogo assim.  Mas temo que as espátulas de ouro acabem sempre nas mãos do Gallego.

    Humberto, que percebe as coisas mais engraçadas vendo TV,  me contou que numa passeata em protesto ao Bush no período das eleições americanas, bem no meio da multidão, apareceu um cara segurando uma espátula de ouro do Bob Esponja. 

    Também quero uma!


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    [Aeternus:2858] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - Jansyta, cada um de nós

    ...tem a percepção aguçada nesta ou naquela área, o que implica em lacks nas outras. Por isto mesmo, é delicioso deixar-se fluir nos próprios flaws...embalados nas virtudes do próximo !
    Se você fosse 'cabo', poderia receber ordens do Sargento Garcia, o que seria uma honra. Correr atrás do Zorro sempre na direção errada.
    Quanto aos sons nossos de cada filme e de cada música, igualmente o estilo de cada artista varia. O David Lynch diz que para ele é fundamental essa harmonização. Ele erra um bocado, como bem denuncia o Gallego, mas tem belos acertos como nas composições de "Wild at Heart". Há magníficas passagens de cena, ali, como uma em que um fósforo é riscado em close/efervescente, e o ruído deste deslizando ásperamente na lixa é emendado, junto ao corte de imagem, com um carrão rasgando uma estrada de interior.
    Em "The Sweet Hereafter", o elagantíssimo Atom Egoyan está focando um carro de pais superprotetores que segue o ônibus escolar que, fatidicamente, submergirá num lago enregelecido. Ao suave ruído dos motores e pneus dos veículos segue-se um lento boom para cima da câmera, o ronronar aumenta a pouco e pouco, e...estamos dentro do compartimento de passageiros de um avião, sobre a pista onde rolam o ônibus e o carro dos pais.
    Esta pulsação própria de cada filme, o conjunto imagens/sons, são a(s) assinatura(s) do(s) autor(es).


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    [Aeternus:2859] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-22)


    - google search e visitantes inesperados

    Gallego está espantado sobre a visita do A. Heckel Tavares ao site do aetern.us. É que dificilmente ele teria entrado neste espaço se não fosse o recurso do Google que localiza todas referencias on-line associadas a um determinado nome. Pelo Google já entrei em vários "blogs", conversas do outro lado do mundo e pesquisei em equivalentes ao Aetern.us divertidíssimos em Portugal e em outros recantos de que não sei mais.  Quando escrevemos aqui, podemos disso nos esquecer, estamos abertos às intromissões do mundo sem ser por profissionais em espionagem, mas a de qualquer cidadão bem ou mal intencionado.

    Quanto ao resumo que fiz sobre o "Closer", que está cheio de lacunas e de barrigas, peço que cada interessado ou acrescente ítens aos de 1 a 20 que propus, e que vá incluindo as observações existentes, ou que deseje fazer, sobre estes itens.  Meu plano é de, com isto, escrevermos juntos a quarenta ou vinte mãos, um texto que tenha espontaneidade aliada a ordem, sobre o "Closer".  Futuramente, as listas de debate sobre um filme poderiam continuar seguindo um padrão semelhante, o que nos facilitaria a leitura e até a magia de encontrar aquilo que não tinhamos visto ( ainda estou encantada com a inserção do Cosi Fan Tutti no filme e com outros usos em outros filmes, via Gallego )

     

     


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    [Aeternus:2860] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - eu chamei de perfeita a arrumação inicial

    ...por que respeita a própria incongruência das relações amorosas como no filme ! É exatamente esse painel distorcido, essa impossibilidade de Matematizar, que fascina ! Ao mesmo tempo, nauseia e perturba a muitos, claro. Muitos espectadores esperam, ao assitir um filme, poderem dizer "eu não disse ?! é assim que as coisas são, é assim que a vida é !".
    "Closer" tem a espetacular virtude de virar a mesa geral, de des-teorizar qualquer ensaio sobre amor/paixão. Tema maldito enquanto - tido por muitos -absolutamente 'subjetivo', Farber/Nichols desfilam o drama humano sem nada 'proporem' além do bizarro convite a acompanharmos a sucessão de rebotes e vaivéns entre os personagens, a crueldade com que a verdade pode travestir-se. Seria, se possível e devido fosse sintetizar o que não pode nem deve ser sintetizado, um ensaio do melindre, como sugeriu Gallego em seus primeiros escritos a respeito do filme. Melindre que abre-se em nuances difíceis de avaliar, como a da economia dos afetos reprimidos na relação amorosa. A que chamei 'os tecidos que sobram do picote'.
    O resto...trata do 'ser ou não ser', 'chegar ou não chegar'. Resto sublime...E restaria, pois, compreender que da mesma forma que muitos nada viram no denso contexto, magnificamente executado, eu haja visto Alice cair lentamente. Como a de Carroll, onde "o poço devia ser muito profundo, ou a queda foi muito lenta, que Alice pôde ver, perfeitamente, o que se passava à sua volta."

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    [Aeternus:2861] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-22)


    - do caos ao cosmos

    Florião está reclamando porque da primeira síntese apressada recortando coisinhas de um lado e de outro ( e sem ter achado algumas das trocas sobre comentários e os pps. comentários do Gallego ) com seu sabor de desordem, como da vida, e de espontaneidade, decidi arrumar os textos em ítens. Diz ele" eu chamei de perfeita a arrumação inicial"... e completou" por que respeita a própria incongruência das relações amorosas como no filme ! É exatamente esse painel distorcido, essa impossibilidade de Matematizar, que fascina ! Ao mesmo tempo, nauseia e perturba a muitos".

    Reivindicou uma frase, maravilhosa, que ficou de fora da primeira "antologia" ( sabiam que esta palavra, acho que é esta a palavra e se conseguir depois confirmo, significa "ramalhete de flores"?) sobre o mergulho da Alice no buraco das maravilhas, por sinal... que não são maravilhosas  - outra frase de que me recordo e que não apareceu dessa vez ) e, indiretamente, mostra a importancia de cada um colocar ordem no caos, ir achando seus tesouros e devolvendo para nós que podemos estar sempre caindo, afundando no esquecimento.  O que Florião trouxe foi:  "E restaria, pois, compreender que da mesma forma que muitos nada viram no denso contexto, magnificamente executado, eu haja visto Alice cair lentamente. Como a de Carroll, onde 'o poço devia ser muito profundo, ou a queda foi muito lenta, que Alice pôde ver, perfeitamente, o que se passava à sua volta'."
    Aí está.  Faltam itens sobre :
    21. Cinema e Música: A letra da música brasileira ( aliás, detestei aquele filme onde ela toca pela primeira vez, o Um Homem...uma mulher...) e a história do Cosi van Tutti e mais ainda ....Com falas do Gallego..
    22. Cinema e Literatura:
    23: Filmes e intertextualidade:  observações do Gallego e do  Florião...
    24. Imagens que se recortam e se sobrepõem:  Alice de Carrol e Alice/Jane com as frases do Florião, etc.

    A gente fica retrabalhando e re-encontrando melhor aquilo que nos comove e interessa se não se aplicar apenas romanticamente no instante do arroubo mas permitir um " só-depois".   Escreve o que quer na hora que quer e depois o próprio ou alguém outro, retoma e recoloca em alguma parte do conjunto. 


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    [Aeternus:2862] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - essas Alices em queda livre...

    são um problema...
    E quando se aparentam às Marie-Jose Croze e Natalie Portman complicam mais ainda. Meus amigos gregários ( instiguei um destes a escrever aqui, o Dau, meu antigo e maravilhoso amigo ! )gostam de festinhas eróticas gregárias, que não são minha praia. Numa dessas recentes, a namorada de um dos convivas foi meio que de Alice Closer : peruca rosa, corpete, calcinha ínfima...
    Mas queria agora relembrar uma vinheta gostosa : na queda livre do Coronel Redl, complementar ao estupendo "Mephisto" e tão forte quanto este, lembrei da fase tatibitate da Mostra do Estação : era 1985/1986, e o István Szabò, diretor dos filmes e um dos melhores de todos, viria ao Rio.O filme chegou muito em cima da hora, no entanto, e a bilheteria informava aos interessados "é falado em húngaro e com legendas em ingles". Eu já garantira meu ingresso e o da Ana, e conversava com uma turma de fanáticos próximos à bilheteria, quando um curioso perguntou sobre o ajuntamento. Informado da situação, partiu resoluto para a bilheteria : "acompanho em húngaro".
    ( e fez bem : além do excelente filme, o Szabò, algo tímido e assustado com a badalação, quase saiu carregado nos braços da platéia, após ser ovacionado !)


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    [Aeternus:2863] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-22)


    - Historietas

    Quando viajei em meados de agosto de  1985 para um congresso de psicanálise na Alemanha, com o Humberto, e já tinha me encantado com o filme "Amadeus", temi que  H., por causa da viagem, perdesse a chance de assisti-lo. Decidi levá-lo ao cinema quando passávamos pela Holanda e nem me lembrei que H. não fala fluentemente inglês e, muito menos, acompanha legendas em holandês... 

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    [Aeternus:2864] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - para quem ainda vê alguma utilidade

    ...em política : nosso Severino nos Píncaros dos Umbigos da Glória foi chamado hoje pelo Jabor de 'retorno do reprimido'. De 'maior ameaça à reeleição do Lula'. "Os severinos saíram de debaixo do tapete verde da Câmara e iniciaram a revolução das toupeiras, para vingar os 10 anos de humilhações.(...)Severino é a restauração da estupidez nacional. Severino é a cara do Brasil."

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    [Aeternus:2865] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-22)


    - a espátula de ouro do Bob Esponja!

    Adoro coincidencias, que as jogadas na internet parecem facilitar. 
    Estou anexando esta troca que acaba de chegar com o tema das espátulas em ADA do Nabbokov. Depois de ter escrito, também hoje, que eu achava o romance ADA parecido com o jogo do Bob Esponja eu pedi uma espátula de ouro ...
     
     
    ----- Original Message -----
    From: "Donald B. Johnson"
    Sent: Tuesday, February 22, 2005 3:07 PM
    Subject: Fwd: 'spatule', Ada, Chap 9

    (Pergunta) I've never come across this spelling and use of 'spatule'. Does it have
    an ornithological meaning?
    ( Resposta): SPATULE is a technical term meaning "spoon-shaped" and is widely applies to such structures in insects, birds (spoonbills) and botany. In VN's usage above, I suppose the "free margins"  refer to the nail tips that usually
    conceal the back tips of fingers. In Ada's bitten nails the backs of the finger
    tips are exposed, leaving the grooved area exposed with that additional spatule.


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    [Aeternus:2866] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-22)


    - biografias, pra que te quero

    Deu no Telecine da NET - ultraconservador, e que atira confete ostensivamente sobre si mesmo e sobre Hollywood - sobre "O Aviador" : tirando a omissão a Howard Hughes ter sido anti-semita, racista, colaborador do McCarthismo, bisexual e mulherengo, o resto está todo lá...

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    [Aeternus:2867] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-22)


    - Aviadores e Severinos

    Valeu, Florião!  Denunciar os retrocessos e animos tendenciosos.

    Hoje no site do provedor Terra havia uma sátira ao "Vida e Morte Severino" que devia ter recortado na hora,  porque agora saiu do ar e não sei como encontrar. Nem lembro como era, mas na hora assim voando de passagem, gostei.


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    [Aeternus:2868] Mensagem do Grupo38
    -helena(2005-02-22)


    - Severino é o rei do "baixo clero"

    Vocês podem não acreditar ou se surpreender, mas eu a-d-o-r-e-i a vitória do Severino. Quase dei pulinhos de tanta satisfação e alegria. Explico: eu queria ver a derrota do stalinismo e  da arrogância petista, partido este que demonstrou um amadorismo na política jamais visto em toda a história. Até em grêmio estudantil, no meu tempo, quando o grêmio era competente, a gente sabia quem ia ganhar, quantos votos tinha na manga. Eles não, achavam que iriam ganhar, imaginem só, que até negociaram um cargo na Mesa com o PDT. Perderam a presidência e acabaram ficando sem nenhum cargo na Mesa. É a primeira vez na história deste país que o maior partido da Câmara e que ocupa o Palácio do Planalto não tem sequer um cargo na Mesa Diretora da Câmara, nem de suplente. Vai ser incompetente assim lá no raio que o parta.....Já o Severino.......velha raposa felpuda nordestina, conversa mansa, atento à insatisfação enorme dos deputados, que estavam sendo tratados como moleques pelo partido do governo, foi lá e crau. Ganhou voto a voto, trabalhou em silêncio e deu uma grande lição de política - no sentido de como vencer uma eleição importante (é o terceiro cargo mais importante do país) e difícil, dando um basta nos mandos do Zé Dirceu e, com isso, mudando todo o panorama da reforma ministerial que vem por aí e outras coisitas mais que ainda ninguém sabe. Não estou levando em conta as idéias de Severino - se são retrógradas ou não, pouco me importa. Prá mim é quase tudo a mesma coisa caso vencesse Greenhalg, que já admirei há tempos atrás quando defendeu presos políticos como advogado, mas que me causa profunda decepção atualmente quando defendeu os sequestradores do Abílio Diniz. Como disse ironicamente na TV o Boechat, Severino pelo menos é mais fácil de pronunciar do que Greenhalg. Esse Severino ainda vai causar muita dor de cabeça para o Lula, se vai.
    Desculpem a minha empolgação. É que quando falo de política o sangue me sobe à cabeça.
    Beijos a todos
    Helena


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    [Aeternus:2869] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-23)


    - voyeurismo, realidade e verdade

    Marcos lembrou antiga profecia sua de que a Globo, mais cedo ou mais tarde, mostraria alguém fazendo cocô para ter audiência.

    Não sei se o problema é da Globo: a idéia do programa onde seres humanos ficam enjaulados em exposição via TV, tal como num zôo eletrônico (me recuso a conspurcar a idéia de George Orwell em “1984” e repetir o nome do programa  que está curiosamente "invertido": no livro do Orwell o cidadão era ameaçado pelo olho que tudo vê. Na atualidade o cidadão é o olho que vê tudo o que se passa na jaula) - enfim, a idéia parece que veio da Holanda. Tem direitos reservados e tudo: o Silvio Santos teve problemas em ter usado a “fórmula” antes da Globo num programa-clone chamado Casa dos Artistas (artistas, sei) porque a Globo pagara pela idéia  - que está sendo sensação no mundo todo. Quem não aprecia é minoria absoluta em escala mundial.

    Se não fosse a Globo a fazer seria o Silvio ou até mesmo as redes evangélicas (em nome de Deus, é claro). A questão da imprensa marron e dos chamados “reality shows” (in ingrêis fica mais “chic”) é que existem para um público simétricamente “marron” e ávido por uma (aparência de) “reality”.
    Essa aparência de realidade me remete a outra questão que levanto sempre: a pseudo-realidade de documentários no cinema e a pseudo-irrealidade dos filmes ficcionais. Ainda acho que a ficção (a recriação artística) pode falar mais do que 1000 palavras que estariam implícitas numa foto ou filme documental. Como já disse Jansy antes em algum lugar, citando Lacan eu acho, toda obra visual é hiper-verbal, ou seja, pro-voca (chama a voz) palavras, frases, reflexões. Uma foto (e aí eu penso em algo da esfera do jornalismo e não da criação artística, ou seja algo que teria a pretensão de documentar fatos da forma mais objetiva – e “neutra” - possível; algo como um filme ou vídeo que teve a oportunidade de registrar um evento [exemplo atual e recente: uma onda varrendo um hotel na Ásia] – E tentando retomar a frase: Uma foto apenas REGISTRA  de forma  análoga ao registro sensorial ou à chamada “percepção” em si mesma  (que só ganha sentido pela “apercepção” [não sei porque este nome] que seria a compreensão do significado do que foi percebido, segundo meus antigos estudos de psicopatologia fenomenológica de Karl Jaspers e outros.
    Já uma ficção (em filme, peça, romance, conto, etc.) pode ser um recorte mais significativo - ainda que “comprimido” e reduzido e limitado - da realidade dita externa ou da realidade psíquica . Aliás como registrar a realidade externa sem a realidade psíquica, sem um aparelho mental que de fato “veja” -“escute”-“cheire”- “prove”-“tateie” o que se apresenta aos sentidos e à tal “apercepção”, sem a qual tudo seria apenas sensorial e não de fato PERCEBIDO? Outro dia vi um programa com vídeos que registraram por acaso a chegada das tsumanis em regiões beira-mar: as vozes gravadas na horinha da inundação diziam: “nossa! Uma onda veio até aqui! E está vindo outra! O que é isto?” Ou seja, as pessoas estavam percebendo ondas se espalhando além da “beira-mar” habitual, mas não percebiam de fato o que estava acontecendo. Não havia em suas realidades psíquicas representações prévias que permitissem a decodificação do que enxergavam para que de fato vissem/compreendessem o fenômeno que estava ocorrendo literalmente embaixo dos seus narizes. Aliás, ver o que está abixo do nariz... só no espelho, não é mesmo?
    Retomando a questão do cinema de ficção e de documentários cinematográficos: documentário com autoria é uma leitura do autor, um olhar específico, dirigido, sobre registros fílmicos áudio-visuais. Claro que o autor de um livro ou filme também faz o recorte dele, a seu jeito, com sua visão, mas aí não há disfarces. E muitas vezes, a “autonomia” da obra, do enredo, de algum personagem é maior do que os limites que o autor poderia impor à sua ficção. Para não falar da nossa leitura individual, de cada um e cada qual, o que, quando ocorre (o fato de haver muitas leituras de uma mesma obra) geralmente reflete uma certa riqueza de significados da obra - que permite ser discutida, debatida, polemizada através dos tempos. Um exemplo clássico é o “Hamlet” shakespeariano que dá trabalho até hoje.
    Mas ainda quero retomar a questão da suposta realidade que o público quer ver, seja nos reality shows irritantes de tão “fakes”, seja nas ficções que retratam a realidade de uma forma criativa (artística, se quiserem). Essa questão pode ser colocada pela psicologia e pela psicanálise a partir da pulsão ou inclinação – como queiram - do voyeurismo, tema que nos interessa para debater “Closer” que Jansy definiu tão bem como um filme de voyeuristas (os personagens) para voyeuristas (os espectadores que o admiram).
    O voyeurista (e quem não é um pouco ou um tanto?) quer ver a “verdade” (que Marcos já lembrou, citando Davy, “são sempre duas” – duas, pelo menos, acrescento eu). Mas aqui lembro Orson Welles dizendo que duas coisas seriam impossíveis de serem filmadas: o sexo e a morte. Ora, Welles não era nenhum santo ou noviça-não-rebelde que não tivesse acesso ou notícia sobre filmes pornográficos mesmo nos vetustos anos 1930 (desde o cinema mudo se faz filmes com casais trepando), embora talvez não imaginasse que um dia chegaríamos à saturação das Deep Throats e tudo que se lhe seguiu em matéria de compulsão à repetição do cinema pornô. Talvez ele não imaginasse a escatologia (tb voyeurista) de “snuff” movies (fakes ou não) mostrando um ser humano agonizante e morrendo. Mas, suponho eu que o que Welles dizia era que isso não era filmável no sentido de que não seria “cinema” como modo de apreensão da realidade; filmar sexo e morte redundaria em um “registro” exposto ao voyeurismo erótico ou tanático (ou a mescla de ambos) do freguês. Não é cinema tal como nem tudo que sai impresso em livro é literatura.
     
    Embora não tenha tido repercussão e não fosse mesmo tão ótimo como poderia, o filme “Natalie X.” com Fanny Ardant e Emanuelle Béart me pareceu um dos filmes mais eróticos que já vi (ouvi) por ter cenas de sexo apenas e tão sòmente narradas pela personagem de Béart para a persogem de Fanny. Esta contratara aquela (uma prostituta mais classe “A”) para descobrir porque o maridão (Depardieu) procurava sexo com outras mulheres além dela mesma, a esposa (e afinal, Fanny Ardant não é esposa de se dispensar – e embora a Béart não seja prostituta de se passar por ela sem pensar quanto custaria uma saliência com ela).  Como o filme “micou” nas bilheterias e críticas, adianto o final (QUEM ainda tiver esperança de vê-lo em vídeo ou dvd, se é que vai sair no Brasil pare de ler este parágrafo: quem avisa, amigo é) que explicitava que a Béart (a Natalie X. do título do filme, nome de guerra inventado pela  Fanny Ardant, que nem era o nome original [outro nome de guerra?] da Béart) inventava as trepadas com o Depardieu para contar para a esposa. Inicialmente a esposa se revoltava dizendo que a contratara apenas para saber se o maridão de fato era susceptível a cantadas femininas (e eu resistiria à Béart me cantando?) e reclamava que não a contratara para ir aos finalmente com o Depardieu. Mas com o tempo, tudo que a Béart contava a interessava – e muito. As falas da Béart (Emanuelle B.) e a escuta da Fanny (Ardant-ardente) era qualquer coisa de excitar um frade de pedra. Os lábios da Béart dizendo aquelas obscenidades todas (obsceno=fora da cena) e o rosto da Fanny Ardente tudo escutando deveriam entrar para uma antologia (flores escolhidas) do erotismo. E o que a Béart contava era tudo inventado por ela que nunca se aproximara de fato do Depardieu. Mas queria fazer jus ao cachê! Achou que inventando as cenas de sexo com o Depardieu agradaria à contratante. E – de fato – acho que agradou – mais do que ambas poderiam admitir. Ou seja, era uma ficção da prostituta para a esposa dentro de uma história já ficcional, provavelmente uma situação mais ficcional mesmo do que “real” (ainda que não de todo inverossímil). Acho que este enredo tal como foi filmado até certo ponto (sabem que esqueci mesmo o desfecho final? - acho que era mais fraco do que a idéia anterior) me diz mais sobre a realidade e condição humanas do que um documentário sobre esposas traídas e feridas narcísicamente e sua “rivais” prostitutas.
    Esse filme poderia fazer uma certa “dobradinha” com aspectos de “Closer” sobre a questão da “verdade” que se quer apreender, possuir, esmiuçar, dissecar - tal como o voyeurismo dos personagens de “Closer” denuncia. A “verdade” ou “realidade” não é apreensível mesmo! O que a Fanny Ardant queria saber (afinal o que querem os homens?) não é cognoscível como generalidade nem como particularidade em relação à subjetividade do marido dela. Talvez nem ele mesmo soubesse porque traía (traía como hábito ou havia tido apenas uma aventurinha? Ou ainda: o recado na caixa-postal do celular que a Fanny Ardant descobria era evidência de um adultério ou seria uma mal-amada e rejeitada “armando”? – não me lembro bem do filme, talvez uma dessas coisas ficasse clara, mas o que me interessa é que segredos descobertos por meios ilegítimos são sempre difíceis de serem decodificados, tal como aquilo que se descobria por hipnotismo não auxiliava tanto em termos de transformação de inconsciente em consciente; e em outros terrenos, o que pais descobrem em diários de filhas adolescentes se transforma num saber não-sabido que vira uma “verdade” mal descoberta e mal utilizável).
    Para terminar: quando exibimos e discutimos “Infâmia” (versão dos anos 1960) de William Wyler lá na Sociedade, contei que o mesmo cineasta havia filmado a peça original (The Children’s Hour) de Lilian Hellman antes, nos anos 1930, mas tendo que mudar a calúnia inventada pela aluna sobre as duas professoras: de namoro homossexual entre elas, o filme transformou a mentira em um caso triangular, as duas com um mesmo homem que era oficialmente noivo de uma só delas. Engraçadíssimo: a censura “aceitava” ménage à trois, mas não lesbianismo, nem como calúnia. Tal como a Rainha Vitória no caso real que teria inspirado Lilian Helman a escrever a peça: a denúncia feita por uma aluna de uma escola inglesa na era literalmente vitoriana não foi adiante porque a Rainha Vitória não acreditava que pudesse existir tal coisa como sexo entre mulheres. O ponto com o qual quero concluir (se é que eu consigo concluir algo) é que reportei que a Lilian Hellman não se importou nada de na versão 1930 mudarem o tema da calúnia, porque para ela, a peça não era sobre homossexualismo mas sobre o “poder destruidor da mentira”.  Entretanto, o enredo é conhecido: embora as duas professoras nunca houvessem transado, uma delas nutria paixão ocultíssima pela outra, e a mentira da menina fez a moça apaixonada homoeróticamente se sentir muitíssimo culpada, já que a mentira... no caso dela, era uma verdade ainda que não realizada. No deabte uma pessoa então fez uma bela paráfrase dizendo que devíamos também lembrar o “poder destruidor da verdade”, o que tem tudo a ver com a infantilidade irrrsponsável do jogo da verdade cobrada às mulheres pelos homens de “Closer” e a irresistível compulsão a cobrarem e/ou a falarem a verdade entre eles três. Por isso que, paradoxalmente, a falsa “Alice” pode ser a menos falsa deles quatro, já que preserva para si mesma uma reserva de mercado de identidade e privacidade, incomunicada, pessoal e intransferível: “Alice” servia como modelo para uma ficção (?) do escritor-obituarista (ele só escreve mesmo sobre mortos que ainda estão vivos); modelo para a fotógrafa; e se exibe fisicamente para o médico, chegando a dizer a verdade que ele não pode apreender sobre seu verdadeiro nome. Mas lembrando outro título de filme "Alice nçao mora mais ali". Ou nunca morou ali.

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    [Aeternus:2870] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-23)


    - escritor obituarista

    Excelente lembrança do Gallego sobre este detalhe fundamental: Dan, escritor que conta a vida da Alice/Jane se apresenta como "obituarista" que  "escreve mesmo sobre mortos que ainda estão vivos" . 

    Documentário e Verdade? Realidade e Ficção?

    Ele mesmo há pouco me enviou uma referencia ao livro"Pnin"  do Nabokov que viu num premiado romance espanhol: Estou lendo  "A Viagem Vertical" de Enrique Villa-Matas, prêmio Romulo Gallegos de romance em lingua espanhola 2001. Muito triste e muito bom.O personagem Mayol, homem bem-sucedidíssimo nos negócios parara com os estudos por causa da Guerra Civil Espanhola. Faz uma viagem (vertical) após a mulher deixá-lo depois das bodas de ouro. Vai parar na Ilha da Madeira onde em um determinado momento assiste conferências abertas numa Universidade (e se sente fascinado de estar numa Universidade) sobre mitologias em torno das ilhas. Um outro espectador da palestra faz um comentário depreciativo: "Tudo copiado de Manfredi"

    E segue o autor: "Se ao longo de sua vida Mayol tivesse se dado ao trabalho de ler romances, teria conseguido dizer ao seu vizinho que não tinha o direito de criticar coisas copiadas, porque ele, com seus óculos de carílico e seu lábio superior simiesco nada mais era que uma patética imitação do professor Pnin, uma invenção de Nabokov."
     
    Afinal existe ou não existe metalinguagem, metaliteratura ou metacinema? ( seja o que for)
     
     

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    [Aeternus:2871] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-23)


    - percebendo e apercebendo

    À bela carta do Gallego, queria pincelar algumas observações.
    Minha profecia tinha como âmago a petulância. Coisa tipo ‘vocês querem ver como eu vendo qualquer coisa para a massa ?’. O mesmo tipo de arrogância do personagem do Kevin Spacey no filme do Eastwood, passado em Savannah : ele sabe que pode matar ali, naquela sociedade onde é benquisto, impunemente. ( embora o personagem seja bem construído, não sendo necessariamente ignominioso )
    Belas colocações também sobre ‘verdade(s)’/ficção, percepção/apercepção. Por isto mesmo é melhor, voltando ao caso do aviador do Scorsese, fazer um filme ficcional. Lindo, leve e solto, sem atrelá-lo aos pretensos Howard Hughes.
    “Natalie X” é maravilhosamente erótico. Um olhar, um suspiro e um esboço de riso em Fanny Ardente são mais eróticos do que centenas de garotas fazendo aeróbicas em boates para clientes babando debaixo delas. Assim como os lábios, olhares de soslaio e pequenas hesitações da Emmanuelle Béart ali ou em “Um Coeur em Hiver” e “Nelly et Mr. Arnaud”, por exemplo. A diretora Anne Fontaine soube dar a perfeita medida nos fascinantes diários de bordo da prostituta, que, saberemos deliciosamente, está a construir tanto a realidade que sua cliente contratou quanto dando forma a suas fantasias íntimas. De certa forma, molda-se mulher, faz-se elle même mulher...
    Sobre ‘capacidade destruidora da verdade’, citação a Domingos de Oliveira, que sei que o Gallego não considera nada admirável mesmo a nível pessoal : ele disse outro dia que “a única coisa que ainda pode chocar alguém atualmente é a verdade”.

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    [Aeternus:2872] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-23)


    - cinema e ficção

    Estamos indo e voltando ao tema que balança entre documentário & arte, realidade & ficção.  Gostaria de ouvir mais de vocês porque eu mesma ando um tanto zonza e acabaria considerando tudo, de pura aflição, só um sonho dentro de outro onde se faz muita zoeira.


    Gallego perguntou sobre apercepção/percepção e quase me animei a retomar os alfarrábiospara responder algo sobre Wundt, Kundt ou Kant e a preguiça tomou conta. 

    Pra espairecer-me sem ficar calada, vai um pouco de Oscar Wilde e "A Importancia de ser Ernesto" ( earnest= sério ).

    - "That we should treat all the trivial things of life seriously, and all the serious things of life with sincere and studied triviality."
    Devemos tratar todas as coisas triviais da vida com a maior seriedade e sincera e afetadamente a todas as coisas sérias como trivialidades.

    Algernon - "Truth is rarely pure and never simple.  Modern life would  be
    very tedious if it were either, and modern literature a complete  impossibility!"

    Algernon - A verdade raramente é pura e nunca é simples.  A vida moderna seria muito entediante se fosse qualquer uma destas, e a literatura moderna uma impossibilitade total. 

     
    Jack - "What is a selfish person?  A selfish person is surely one who seeks to keep his joys and sorrows to himself.  I am not like that.  When I am happy, as I am now, I desire everyone to share in my unhappiness.  I give freely of my misfortunes.  I do not treat my misery as a miser treats his gold.  On the contrary, I scatter it abroad with a lavish hand."
    Jack - O que é uma pessoa egoísta?  A pessoa egoista é aquela que procura guardar para si mesma suas alegrias e tristezas.  Não sou dese jeito.  Como estou feliz, como agora, desejo que todos partilhem das minhas infelicidade.  Distribuo minhas desgraças generosamente. Não trato minha miséria como o avarento trata seu ouro. Pelo contrário, espalho-a pelo mundo como a mão  pródiga. 
     
    Pronto, também fui pródiga com vocês  para dividir esta tanta preguiça...

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    [Aeternus:2873] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-23)


    - Wilde e Davy

    Estão a fazer-nos bem com suas verdades duplas.
    E gostei da generosidade macabra do Jack, a distribuir miserabilidade. Wilde era um arauto da Mentira, e portanto...também da Verdade(s).

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    [Aeternus:2874] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-23)


    - no rastro do barco

    Então, Marcos, era assim mesmo que pensava  W.R. Bion ( para quem a Verdade era uma Realidade, igualzinho a qualquer platônico realista ). Bion assegurava que o mentiroso sempre tinha que saber a verdade porque precisava a todo custo evitar cair nela. 

    ( será que traduzi errado? A gente cai no samba e cai na mentira. Pode também cair na verdade? ) 


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    [Aeternus:2875] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-23)


    - esse limbo é fascinante

    E abre-se à imaginação.
    Daí esquecermos de muitos e muitos finais de filmes ambíguos, como em "Natalie X". O Gallego 'se esqueceu' do final por que...não existe final ! Nesse tipo de filme não deveriam sequer aparecer as clássicas palavrinhas "fim", "the end", "fin"...
    Como no magnífico Adagietto da 5ª de Mahler, e após a descoberta, a elaboração, a negação, a tentação, as hesitações e a(s) decisão(ões), tudo evanesce : um longo acorde, como um murmúrio apocalíptico, impõe um tom fugidio à tudo que o precedeu.

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    [Aeternus:2876] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-23)


    - ainda sobre os finais

    Creio que a grande maioria dos filmes, até onde lembro, já boliu o clássico cutelo das letrinhas anunciando seu 'fim'.
    Muitos diretores brincam, de formas diferentes, com isso. Alguns esticam as imagens ao longo dos créditos, outros ressaltam o elenco em vinhetas com caras&bocas, junto a seus nomes, outros plasmam um provocante still sobre o plano final, e por aí vai.
    Talvez o mais 'clássico', atualmente, seja ou o fade com os créditos finais correndo, ou um boom para cima da câmera, também com a inserção das letrinhas.


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    [Aeternus:2877] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-23)


    - já boliu?

    Bolinações dos finais é falar dos tristes ou serenos encerramentos? ( brincadeirinha )

    Queria muito ainda escrever sobre "Closer", mas acho que disse tudo enquanto sonhava e me esqueci depois do sonho ( sério! ). 

    Comigo acontece que  quando um sonho some é mais dificil de retomar alguma imagem ou idéia que pressinto ter sido sonhada, do que quando apenas a associação  foge da memória consciente. 
    Meus sonhos são uma forma de "happy end" quase absoluto.

     


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    [Aeternus:2878] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-24)


    - sonhos e Closer

    "Closer" tem a estrutura tradicional do teatro, toda sua linguagem.
    Curiosamente, e em excelente decisão, Nichols sai da 'marcação-corpo' para a 'marcação-rosto'. Começa o circo opressivo, então : ficamos espremidos, quase sempre em espaços fechados - e quando surge a 'concessão' do espaço aberto é para permitir que Alice/Jane deixe-se atropelar...- e vagando entre rostos ansiosos.
    Todo esse imbroglio - italiano insubstituível aqui ! - remete aos sonhos no que tem de rebatimento, de repetitivo. Aquele sonho-pesadelo, misturando um prazer sofrido à insistentes angústias, em círculo vicioso.
    Os desavisados, os que buscam a (in)sustentável leveza do ser, tem a natural tendência de dobrá-lo e jogá-lo no lixo. Talvez nunca percebam que pedaços de si mesmos, células - uma ou outra clamando socorro ! - ali foram baldados. Vida, enfim.

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    [Aeternus:2879] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-24)


    - De baldes e do sonho prolixo...

    Florião, aprecio seu italiano mas o efeito sobre mim é engraçado. Quando vejo você se referir ao Adagietto de Mahler, ando de Vaporetto com Dirk Bogarde em Veneza.  Imbroglio, senestésicamente falando, me dá vontade de comer... trouxinha de repolho. 

    A gente sempre está perdendo células e se renovando, não é problema perder algumas porque nascem outras. Ou, pelo menos, é assim que todo analista novato gosta de acreditar quando não dá uma interpretação que tinha que ser dada naquele momento. Ou como um famoso tenor no Lohnegrin que, bêbado, deixa passar o barquinho com o cisne que vai buscá-lo e exclama: " vou esperar pelo próximo"... 

    Closer, perto demais... só o título pode ser danado, com este esclarecimento do Florião: quando vai para a rua é pra ser atropelado  ( mas é uma delícia caminhar e sentir que todos olham como é bem marcado pra Alice/Jane). Huys Clos Gallego lembrou  ( e me ocorreu que preciso ir ao Carrefour ) e  introduzo correndo Sartre e um filme com Uma Thurman que discutimos na Lista.  

    A marcação do teatro pro cinema é fundamental para enriquecer a apreciação do roteiro. Não é pra qualquer um

    Too Close. Não vale. Peço tempo...( tenho que ir pro trabalho! Nem tomei café ainda!). Ainda estou com mingau de anjo na boca e ....


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    [Aeternus:2880] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-24)


    - Tape

    Bem lembrado o "Tape" do Richard Linklater.
    Há ali um (des)encontro e o des-envolvimento que Gallego cita. Parecem personas para além do estágio que Farber-Nichols tratam em "Closer", embora mais jovens ! O personagem do Ethan Hawke já atravessou a fronteira da drugsexrock'nroll, descobre-se na amargura próximo ao final; o do Robert Sean Leonard, meio São Francisco de Assis, acabrunha-se com sua impotência enquanto redentor; e nossa comprida Uma Thurman é compelida a funcionar como cutelo, ela que pretendia ali, apenas, a second chance, a célula que renasce. Belo filme, em huis clos também.

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    [Aeternus:2881] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-24)


    - Tape. Ping pong obsessivo

    Florião acertou com o sufoco do ambiente "clos" e forneceu o título do filme ao qual me referia: "Tape".  Creio que foi também apresentado inicialmente no teatro.  Poucos cenários, violencia verbal, pressão psicológica, tortura em ambiente fechado.

    Creio que lembramos, naquela época da nossa lista, de uma peça do Sartre que assisti no Rio nos anos sessenta, perto do que foi o Pavilhão Mourisco em Botafogo. Era o "Teatro Opinião" ? Só recordo os prisioneiros que não enxergavam nem um pedaço do céu começando a ficar mais animados num dado momento porque ouviam o barulho distante da chuva. Sei que você e Gallego souberam dar detalhes pertinentes ( pras minhas lembranças impertinentes ).

    É detestável esse pingue pongue verbal, acho mais típico dos exercícios humanos americanos mas pode ser universal... Cada um quer dar um saque definitivo e colocar o parceiro fora da jogada. Vira uma lenga lenga de obsessivo onde se tenta uma "verdade humana" que, só pode ser, seria sempre sádica.

    Voto pelas conversas tranqüilas e pela sobrevivência apesar da delicadeza. Gallego, venha rápido acrescentar aquela linda música do Chico...nos tempos da delicadeza...  Um autor certa vez expressou-se com um neologismo que me agradou ao " delicadizer-se" .  

    Pouco cenário pode ser bom para filme improvisado, barato, não hollywoodiano. Mas até isto pode virar modismo e ter uma escola de críticos atenta para defender. Na época do "Dogville" havia muitas comparações com uma filosofia de cinema dos nórdicos ( Dinamarca? Islandia? ) onde a regra é o "clean" e o "minimalismo". Botou cenário, perdeu pontos. 

     


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    [Aeternus:2882] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-24)


    - no senso espaço

    "Tape" é passado numa jaula, um claustrofóbico recinto tipo quarto/sala de banho, onde o triângulo de personagens se amontoa.
    Em "Before Sundown" o Linklater anda ao contrário : Ethan Hawke e Julie Delpy saem tout à l'aise caminhando em Paris, antecipando, claro, um final feliz...

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    [Aeternus:2883] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-24)


    - a longa noite, quem teme VWoolf...

    Raro exemplo deste passeio lento abrindo-se para as potencialidades do mundo não-comercial, com Ethan e Julie. Quando aparece ( "O Declínio do Imperio A", todas as cenas de suspense em vários estacionamentos gigantes ) é um espaço maníaco de corrida ou combate. Estaremos nos confinando e não adianta Denise estar chamando por que só ficamos ao telefone, sem encontrar com ela ?

    Estou lendo um livro do século XXI, porque é assim que o apresentam e é um "The New York Times Bestseller".  Parece que está escrito em ingles, mas ainda não entendi grande coisa. A maior parte do relato envolve um rol de marcas de supermercado do primeiro mundo, tipos de sabão ou de chuveiros automáticos, mais griffes e gadgets de computador ( existe "grife" ou "gadijetas" se a gente  "focar" em português?). Um verdadeiro replay do meu terror americano. O mais interessante é que estou adorando porque descreve uma pessoa de algum modo parecida comigo nas fobias ( basta ver um anúncio das roupas de Tommy Hilfiger ou um boneco da Michelin ), mas ela as transforma profissionalmente em vantagem porque é uma caçadora das "tendências da moda" que ganha fábulas de dinheiro antecipando os caprichos consumistas que se ainda pairam pelo ar.   O livro chama-se " Pattern Recognition" e o autor é William Gibson. A moça chega dos EEUU em Londres e abre o computador do amigo e fica feliz: aparece o site que lhe é familiar e ela se sente em casa, apesar do "jet lag" ( e agora? "Discrepancia do fuso horário peculiar às viagens à jato"? ).

    Cayce não estranha nada, nem é atropelada, como a Alice que se atrapalhou pela inversão dos sinais. Até que um "spam"  invade o computador e ela se congela diante de uma mensagem sobre " as putas do vietnam" . O computador agora virou uma ameaça e ao menor clique pode jogá-la no circo dos horrores. É uma fanática pela "footage" ( algum pedaço de filme ou videoclipe, pelo que entendo).

    Porque estou aborrecendo vocês com isso?  É que o século XXI é dos que falam uma lingua estranha embora mundialmente divulgada e que permanece no campo da escrita regionalista -  como um momento inspirado de Tieta do Agreste  falado pela turma da Globo ( O Guimarães Rosa conseguiu uma operação inversa, a pensar ).   Quem sabe o que é pop-toast, decaf ou kleenex está a salvo, ainda mais se souber se aproveitar dos cyber-cafés.  A impressão que tenho é de que nós, das "nações em desenvolvimento" ( como é o eufemismo para "terceiro mundo"? ), estamos ficando anos luz atrasados na linguagem que falamos. Ficamos cismando, como Ethan Hawke e a Julie Delpy, vendo pores de sol e sentindo a maresia na praia.

     

     

     


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    [Aeternus:2884] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-24)


    - gadijetas & malacachetas

    É, mas...só quem está no time do Ethan e da Julie arrisca-se a perder aviões de enquadramento...

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    [Aeternus:2885] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-24)


    - cache do que?

    Xi, não entendo a novalingua nem em português. O que quer dizer:  "arrisca-se a perder aviões de enquadramento."?

    Vou adicionar o antispy ao spam do blog e logar no site do B.B. para votar online usando o plug digital em vez do mouse do PC pra fazer download, acompanhando pelo monitor, modelo de cristal plano anunciado pela www pra escapar aos sinais do webcam por onde o hacker quer atacar meu HD quando me deixo ficar em off a deletar o NKIB do network sem a footage do videoclip da tarde do provedor em ponto com.  Sacou?


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    [Aeternus:2886] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-24)


    - siquêi !

    Achei que você havia visto o filme do Linksooner...e sua última e adorável linha de diálogo, quando a fofíssima Julie, depois de uns irresistíveis e discretos reboladinhos diante do Ethan diz devagarinho "hmmm...you'll gonna miss that plane..."

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    [Aeternus:2887] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-24)


    - além de

    rebolar discretamente, a Julie fala inglês direitinho. Eu é quem ando ruim de vernáculo, e a fala correta é 'you're gonna miss that plane' ou algo quase igual.

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    [Aeternus:2888] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-24)


    - no plano do enquadramento do aeroplano

    Não vi o filme, aí está. Esta é uma das soluções simples. Mas talvez não conseguisse lembrar, caso tivesse visto, os reboladinhos da Julie e a frase final.

    Os novos tipos de beleza masculina não me comovem ou interessam e fico em desvantagem diante dos arroubos do nosso epicurista de plantão.
    Ethan Hawke? Tom Cruise?  O Clive Owen, do "Closer", curtidor de chat pornô e sempre com barba por fazer ( é moda, sei...sei...), tem os dentes branqueados em discordancia com o resto e não acende em mim nenhuma luzinha mágica ( repararam que o Denzel Washington também está com um sorriso Kolynos padrão? Que pena ). Jude Law me encantou quando era robô em AI... A rainha do filme é  Natalie Portman, que nunca focaliza o olhar em pessoa ou coisa alguma ( exceto na placa do cemitério inglês, de onde rapidamente saca seu alias ).  

    Hoje vi pela primeira vez um arco-íris no poente. Brasília é a cidade dos arcos da velha e das velhas do arco durante todo período chuvoso. Tem um que se forma sempre no mesmo local sobre a casa do meu vizinho e ontem fotografei um bem-te-vi arrepiado pousado no fio com um trecho de arco-iris por trás.

    O de hoje nasceu de uma cena mágica. O sol  se recolhia por trás de nuvens chuvosas, contornando-as com uma fina orela dourada e um súbito risco multicolorido e translúcido interrompeu seu traçado...
    Outra novidade é que não havia o desbotado que acompanha o centro de qualquer arco-íris oriental, como se ele precisasse, para se construir, drenar o azul do céu.

     


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    [Aeternus:2889] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-24)


    - não sei dos direitos autorais mas...

    Recebi por e-mail e achei uma pena não incluir na nossa lista um excelente artigo
    " Como Escrever a Tese Certa e Vencer"  de José Murilo de Carvalho.

    (para evitar problemas de copy-right, que não sei como operam nas listas de debates, vou apenas reproduzir alguns muitíssimos parágrafos)

    " Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática (...)". 
    "Dois pontos importantes na feitura da tese são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos, estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores. A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção (...) é preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. Atualmente, a referência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. (..)  Entre os franceses, estão no alto Chartier, Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasado (...)  Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci (...)  ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força, Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história(...). Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm, P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis. Robert Dahl ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e Hayden White em história. Não perca tempo com latino-americanos (ou africanos, asiáticos, etc.). 9...) Da Península  Ibérica, só Boaventura de Souza Santos, e para a turma de direito. Brasileiros não ajudarão muito mas também não causarão estrago, se bem escolhidos (...)
    O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto (...) no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar (as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam: elas lançam um olhar); descentrar (descentre sobretudo o Estado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate (resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois); polissêmico (nada de ‘mono’); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita), multiculturalismo (isto é básico: tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive a imaginação); cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero (essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres); povos (sempre no plural, "os povos da floresta", "os povos da rua", no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc.). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro. Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante. Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.  Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda aprender a escrever como um intelectual acadêmico (...) 
    Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S.T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é ‘crítica’, mas ‘criticismo’. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: ‘é provável’ deve ser substituído por ‘a evidência disponível sugere não ser improvável’. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa ". 

    (Excertos do artigo publicado em O Globo com o título "Como escrever a tese certa e vencer", em 16/12/1999).


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    [Aeternus:2890] Mensagem do Grupo38
    -Marcos (2005-02-24)


    - sutileza e disparate

    Linklater costurou direitinho a trama, deixando que a Julie desfiasse charme sem exagero algum. Ela e o Ethan, a rigor, parecem trabalhar sem roteiro, de tão à vontade.
    Quanto à Natalie Portman, uma coisa curiosa : faz uma perfeita Alice/Jane em “Closer”, mas parece não ter absorvido o contexto. Assisti uma entrevista com ela, que dizia que apesar da abordagem intimista – e sua ressalva parece apontar para isto como algum tipo de pecado...- o filme tem “um moralismo” ( ???!!! )
    ( alguém sabe qual ? alguém viu ? onde, como e quando ?...)

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    [Aeternus:2891] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-25)


    - atores são gado?

    Marcos se chocou com as declarações da Natalie Portman sobre "Closer". Eu já havia entrado no site oficial dela que não deixava dúvidas sobre ela não ser muito mais do que uma menina de 24 aninhos. Talentosa. Em língua de macumba seria "cavalo" incorporando personagens. Nem todos os atores são muito espertos. Marcos sabe disso: conviveu com alguém que tem talento na razão inversamente proporciona à inteligência. E tem talento de sobra...
    Hitchcock podia ser meio sádico e politicamente incorretíssimo ao dizer que atores são gado. Mas alguns são: bem tocados, rendem bem. Claro que na safra mais recente o número de neurônios aumentou. Nas entrevistas do Actor's Studio chegamos a nos surpreender com o fato de até o Harrisson Ford não ser um Zé Bobão completo. E ouvirmos a Sigourney Weaver dizer que faz teatro de vanguarda experimental entre uma superprodução boba e outra descerebrada.
    Se Julie Delpy e Ethan Hawke são co-roteiristas de "Antes do Pôr-do-Sol" candidatos ao Oscar de roteiro, Ingrid Bergman só queria saber de fazer Joana D'Arc que ela achava que dava status intelectual.

    Cantores de ópera tem um dom de Deus (e muita técnica, é claro) e podem ser mais tapados do que atores. Mas tb nessa área o número de neurônios e conexões aumentou.


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    [Aeternus:2892] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-25)


    - acho quase incrível

    ...as maneiras com que um mesmo filme pode chegar às pessoas.
    Podemos dizer "sim, Natalie Portman é uma menina, ainda imatura", tals. ( Diria eu )Precisa intimamente que seu mundo, o fora-Alice/fora Jane, tenha algum enquadre moral : de algum modo para ela isso é importante. Então, fica algo como 'eu não posso ter participado de um filme amoral' (e)'o filme tem um moralismo' ( arrrrgh ! ).
    Um casal de conhecidos meus, bastante liberal e agregé ao do meu grande amigo e roqueiro nudista, lá nas práticas deles, achou o filme 'machista' ( ???!!! ). Até onde ainda compreendo algum conceito e português, uma obra machista impõe à mulher cânones e derrotas inexoráveis. 'Elas' precisam apanhar, senão apenas da vida, apanhar mesmo como as 'cachorras' dos funestos e nauseabundos raps.Perder, perder e perder : serem punidas.
    Em "Closer", além dos homens apanharem como bois-ladrões, nossa Alice/Jane pode até levar surras da vida - um bocado, mesmo, é o que depreendemos ao imaginar seu passado - mas valentemente bate um bocado também, luta sua luta. Desfia corajosamente sua sexualidade e charme, enfrenta as fricotices do Dan e a tratoração do dermato. Só é fraca mesmo intimamente, para lidar com sua mazela íntima. Seu embate é com o todo, não com seus homens.A fotógrafa...é uma passiva que desconcerta o próximo usando seu próprio ritual deprê. Tem uma infinita capacidade de destruir os sonhos d'O outro', ainda que junto esboroe os próprios. O tipo para-religiosa-conformada, sem carolice. Tratando a si mesma como um guinea pig, em duplicidade, como se pudéssemos ser expectadores de nossas vidas. E olhe que ela não passa nem perto de uma etrangère, pois já entendeu perfeitamente que não tem direito a não-escolher ( tem impulsos e sentimentos claros em si, que lê com clareza ! ), mas ao mesmo tempo desenvolveu uma espetacular capacidade de absorver a desgraça humana e continuar assobiando...
     

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    [Aeternus:2893] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-02-25)


    - nariz de boxeur e cérebro de tenor

    Cada profissão tem um preço, haja o nariz sem uma parte do septo nasal de antigos lutadores e a diminuição da inteligencia dos tenores pelo efeito de algo como vibrações sonoras ou falta de oxigenação no cérebro, lá sei.

    Acho a frase do Hitchkock "natural", mesmo se não vegatariana: fruto da experiência dele, que não deve ser pouca.
    Harrison Ford não é bobo e, surpresa maior ainda, Kevin Kostner também não. Já a Natascha Kinski é uma tragédia em tres atos.  O programa de entrevistas do Lipton é sempre muito interessante.
    Que podemos deduzir nisso tudo? Que talento não tem ligação com inteligência, pelo menos em algumas áreas ( desenhista talentoso pode ter belo traçado e só produzir "A Vaca e o Frango"...) se esboça nas conclusões dos colegas.
    E às vezes, a inteligencia faz um estranho uso do talento como foi o caso do Wilde que dizia que gastou sua inteligencia para viver bem sua vida e seu talento, para escrever ( vou procurar a frase correta, não é exatamente do jeito que aqui me recordo ).

    Atores nem precisam ser charmosos e bonitos para parecerem assim nas telas, não é? 


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    [Aeternus:2894] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Oscar de Mello(2005-02-25)


    - Wilde

    Procurei no meio de montes de citações do Wilde, mas achei a que procurava entre as que constam do livro " The Importance of Being Ernest".  Coloquei em grifo, mas não resisti e copiei outras duas....

    I have put my genius into my life, whereas all I have put into my work is my talent.

    I can resist everything except temptation.

    Experience is the name we all give to our mistakes.

     

     


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    [Aeternus:2895] Mensagem do Grupo38
    -Marcos (2005-02-25)


    - he ain't heavy, he's my brother

    Meu irmão gostou de "The Aviator", "nem da trama em si, o Leo di Caprio é simpático mas não devia mesmo ter feito o Hughes", e em palavras similares, "gosto da Kate Beckinsale, mas ela nada tem a ver com a Ava Gardner, uma besta selvagem. A cena que me deixa deslumbrado é a de Coconut Grove : o esplendor, centenas de pessoas movendo-se num glamour incrível, moças balançando-se acima das cabeças dos convivas, algo irreal. E ao invés de pouparem dinheiro, a cena alonga-se sem cortes para mesas de canto : a massa permanece viva e movendose. Cate Blanchett é a Kathy Hepburn perfeita, fisicamente e na asséptica figura que sempre passou - no cinema e em sua vida. Especulou-se sobre casos dela com mulheres, uma com quem conviveu no início de sua carreira; o affair Hughes foi mais desfile de charme ao lado do Big Boss para aparência e puxa-saquismo."
    O drama do intelectual que não consegue chegar ao nível que sabe possível é maior do que o oposto. Bill Murray comprou os direitos e fimou "The Razor's Edge", do Sommerset Maugham, e pouco conseguiu além de uma certa dignidade no papel central e em todo o projeto. Steve Martin lê e tenta escrever romances mais densos, gosta da Europa e de sua cultura, mas ficou marcado pelo estereótipo sub-Jerry Lewis.
    Wilde acreditava ter conseguido colocar seu gênio em sua vida, mas este lhe serviu para uma consagração post-mortem, já que seus comparsas trocaram sua reserva habitual numa mesa do Ritz por um lugar imundo nos calabouços na Penitenciária de Reading, por homosexualismo. Lá, "ouvindo gritos de desespero", selon Camus, ele escreve "seu melhor : "A Balada da Prisão de Reading" e "De Profundis". Gosto é gosto, sempre difícil de se avaliar.
    Pessoalmente, e depois dessa viagem por meu irmão, atores (in)cultos ou pretensiosos e gênio-pra-que-te-quero, fico com um dito de um velhinho num canto de bar diz ( num filme simples e razoável em que o Steve Buscemi - aquele ator dentuço, rosto algo torto e olhos ligeiramente exoftálmicos, meio fanho e que fez um criminoso asqueroso e canhestro em "Fargo" )"maturidade é quando cansamos de tentar o que mais desejamos".


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    [Aeternus:2896] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello Jr.(2005-02-25)


    - maduridade

    Florião citou: "maturidade é quando cansamos de tentar o que mais desejamos".  

    Lembram da época, depois do filme Love Story, que entrou na moda completar tres pontinhos que vinham depois de "amar é..."? 
    ( a primeira resposta e que vinha no filme foi, se não me engano, "amar é... não ter que pedir perdão".  Frase tão boa quanto o filme.

    Ser maduro é.....

    (  ) estar cansado de tentar o que mais se deseja;
    (  ) estar cansado de obter o que mais se desejou;
    (  ) estar cansado de obter o que nunca se desejou;
    (  ) estar cansado de pedir perdão ao velhinho do bar;
    (  ) não acreditar em definições e nas múltiplas escolhas;
    (  ) todas respostas acima;
    (  ) nenhuma das respostas acima.

     

     

     


     


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    [Aeternus:2897] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-26)


    - tabelinha

    Jansy faz tabelinha com George Bernard Shaw - "há duas tragédias na vida : não se conseguir o que mais se deseja, e...conseguir" - mas no lance seguinte, depois de recomeçado o jogo com o gol validado, desconcerta o adversário com outras jogadas mirabolantes.
    Acho que ela acerta, mesmo. Esta semana, numa pequena reunião festiva e conversava com meu amigo roqueiro ( Deus sabe ferir também : ele ficou com um distúrbio auditivo que produz um ronronar muito incômodo, e precisa de toda 'maturidade' agora para tolerar isto ! ). Resvalamos para nosso assunto predileto, o Feminino, e sem que eu houvesse bebido grande coisa, surpreendi-me encadeando meu raciocínio para inesperados rumos. Saí dali sem saber exatamente se estou muito audaz, muito velho, muito cínico ou muito saudável. Ou todas as anteriores. Ou nenhuma das anteriores.

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    [Aeternus:2912] Mensagem do Grupo38
    -LFGa(2005-02-27)


    - adorei a múltipla escolha

    A múltipla escolha da Jansy a partir do marcos é antológica! reenviei um mix dos e-mails de vcs para amigos.
    Falando em múltipla escolha, antes do oscar começar envio o que vi dos oscarizáveis desta safra chinfrin
     
    "Menina de Ouro", já escrevi antes, não é exatamente um filme e muito menos um filme sobre boxe: é uma defesa de tese que abusa dos clichês mais batidos e lacrimogêneos (moça pobre persegue com tenacidade ímpar o ideal de lutar boxe + treinador durão que não quer aceitar mulher como pupila + negão bonzinho que banca o intermediário para aproximá-los + moça "looser" que vira um sucesso - é claro + história paralela de semi-oligofrênico magrelo bi-looser também querendo ser boxeur + a tragédia espreita os pobres que iam dando certo = arghhh, quero vomitar - ainda mais quando lembro da vilã caricatural de tão escrota que - por que diabos ? -seria da "Alemanha Oriental", país que, até onde eu saiba, nem existe mais).
    Esses clichês vão se acumulando para formar uma conclusão manipulada do tipo "Como queríamos demonstrar". Não estou discutindo a tese da dita eutanásia (que já vi mais bem discutida num obscuro filme com John Cassavetes no papel de médico e Richard Dreyfuss no papel do paraplégico implorando para que o deixassem deixar de viver; não sei quem era o diretor e o título brasileiro era o óbvio "De quem é a vida afinal?"), mas chamando a atenção para o fato de que a defesa do filme é manipuladora. A habilidade formal da direção insidiosa na manipulação para enrolar a platéia de almas sensíveis desprevenidas e a excelência dos desempenhos (o destaque é Morgan Freeman que dá uma senhora mão em sua narrativa mais neutra do que dramalhonesca) só me fazem considerar o filme ainda mais safado. Ô dramalhãozinho ruim, sô! Deve ganhar um monte de Oscars. Merece!
    Enquanto isso, um dos raros filmes com mais de 3 neurônios desta lamentável safra oscarizável deve sair de mãos abanando até porque só foi indicado por seus (excelentes) coadjuvantes: "Closer" (Perto Demais) é quase um retorno do Mike Nichols a seu melhor filme já bem antiguinho que teve roteiro genial do Jules Feiffer, o sumido "Carnal Konowledge" (Ânsia de Amar foi o nome aqui no Brasil) com um Jack Nicholson fantástico antes de se estereotipar com caretas, uma Candice Bergen no auge de merecer que o Tom  Jobim fizesse prá ela a canção "Bonita", o Garfunkel (do Simon &) em um raro e bom papel de ator e a Ann-Margret num desempenho tão bom que chegava a sugerir que a personagem poderia ser ela mesma . No filme atual até a Julia Roberts está bem embora quase abafada por estar cercada de cobras como Jude Law (desempenho mais sutil e adequado ao personagem), Clive Owen (com mais oportunidades de brilhar) e a gracinha Natalie Portman com o melhor personagem que ela agarra com unhas e dentes, mostrando ser a mais nova candidata a Juliette Binoche por este filme. A trilha sonora é perfeita e a fotografia cheia de closes é adequada à transposição da peça original para o cinema.
    Já "O Aviador"  é aquele tipo de filme onde o diretor é melhor que o filme e como resumiu o Marcos, tirando a omissão a Howard Hughes ter sido anti-semita, racista, colaborador do McCarthismo, bisexual e mulherengo, o resto está todo lá... e ainda por cima meio heroicizado, mas Scorsese, apesar do personagem, ainda é um diretor muito mais "do ramo" que o esforçado e aplicado Eastwood que, como ator, ainda está mais insuportável no seu papel de "Menina de Ouro" disfarçando (mal) sua crônica limitação canastrônica numa voz rouca monótona, expressão facial imutável e postura corporal rígida, clichê do durão no fundo no fundo bonzinho. Capaz de levar um Oscar de ator, queridinho de Hollywood que ele é.
    A não ser que a imitação clônica do bom ator coadjuvante em "Colateral" no filme sobre Ray Charles leve mais um prêmio de desempenho. Pena que não exista mais o programa antigão de rádio chamado "Papel Carbono" que premiava imitações. Coisa que o Oscar também adora.
    Já o filme sobre o autor de “Peter Pan” dispensa comentários de tão piegas que é sem dar quase nada em troca. Dispensável.
    Perto disso tudo, não é de estranhar que o amável “Sideways” tenha sido tão superestimado. Um filme delicado, correto, muito adequado, mas sem fôlego maior para tanta badalação. Uma espécie de “filme de Truffaut” sem Truffaut. Mas ainda é infinitamente melhor do que outros mais premiáveis.
    O que vai dar? De cabeça de juiz, envelope do oscar e bundinha de neném, nunca se sabe o que vai sair... ou sabe-se?

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    [Aeternus:2915] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-28)


    - O Raspberry

    ...deste ano, Oscar paralelo dos 'piores do ano', foi vencido com sobras por "A Mulher Gata", que recebeu 5 prêmios, inclusive o de pior atriz - Hale Berry. Como pior ator, foi escolhido George W. Bush, por "Fahrenheit 9/11/ Michael Moore".
    O campeoníssimo do prêmio continua sendo Arnoldão Scwarzeneggro, com 8 indicações e oito vitórias.

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    [Aeternus:2916] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-28)


    - Berries

    Florião, sua retomada foi ótima, pela tangente como Sideways. Premio Raspberry para a Berry, para atrizes e Bush para atores!

    Não assisti a toda entrega do Oscar, é esforço demais. Até que gostei do cenário e da participação dos premiados ora no palco, ora na platéia, como se fosse um circo.   No entanto, perdeu uma coisa mágica que ainda acontecia às vezes, uma retrospectiva informativa que ficou reduzidíssima.  O que, pra mim, se destacou veio por esta misturada mesmo, não dava para saber se o que víamos representado era representação de representação ou representação de verdade ( aquela do Brosnan com uma boneca estilista, depois um filme com Miss Piggy...), uma mistura de níveis de expressão e de ficção estonteante, como se devessemos atualmente ser escamoteados nos referenciais externos para nos tornarmos todos personagens de Matrix.   Então, pro espetáculo de premiação do ano, eu concedo o premio Strawberry pro Oscar.


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    [Aeternus:2917] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-02-28)


    - a representação do PS

    O filme que Gallego previa ganhar premios, apesar de ruim, conhecendo a filosofica oscarada ganhou mesmo, viva Clint Eastwood, o garoto dourado de Hollywood.
    O PS vem por conta de duas coisas: achei que queriam dar uma força latina a musica dos Diarios da Motocicleta escolhendo a encenação do Bandeiras e não um desprestigio ao Dexler. 
    Mulheres devem olhar para homens de modo diferente que homens olham para as mulheres. As recíprocas não são verdadeiras...

    Acho Banderas atraente com seu tipo caras e bocas inteiramente dentro do estereótipo de dançarino espanhol, mas em nenhum momento perco a sensação da "projeção" na qual o vejo com os olhos de qualquer Palomita que se derrete porque, pessoalmente, fora da cena, nada nele me comove. 
    Já a Nathalie Portman, apesar de baixinha, é uma rainha em serenidade.  Todo mundo gesticula e se balança e acena a cabeça, pisca, tremelica  na festa do Oscar, mas a Nathalie comedida, elegante como uma divindade olímpica.
    Aliás, Jeremy Irons está com alguma doença tipo Parkinson?


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    [Aeternus:2918] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-02-28)


    - rescaldos

    Só faltaram o blackberry e o blueberry, então...
    Irons envelheceu rápido demais, embora ele não tenha despontado jovem no cinema. Tem família cheia, e está sempre presente a estas badalações e discursos gênero Unicef.
    Não me interessei em nada pela cerimônia deste ano, só a assistiria se "Closer" fosse 'favorito' a algo, mas Hollywood já cansou minha desmaiada Beleza. Creio que os judges do Raspberry seriam mais fidedignos para conceder prêmios aos diotos 'melhores'. Estrutura em si da festa, eu gostava daquelas nostálgicas, com fragmentos de antigos filmes de homenageados e dos premiáveis do ano.
    No mais, tudo ali sempre foi, no fundo, um caça-níqueis para aumentar bilheteria dos 'melhores do ano'.

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    [Aeternus:2924] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-02-28)


    - lamentávelmente

    Lamento ter previsto a premiação de Clint & "Menina de Ouro" que deveria se chamar menina de m.....- deixa prá lá. Nada contra a atriz, esforçada, mas me lembra uma sub-Frances MacDormand (a detetive grávida de Fargo) do tipo "já que não sou muito bonita vou fazer papéis de gente "gauche". Só que a MacDormand (ou que nome tenha) é muito mais versátil, competente e capaz de mais sinceridade na criação de suas personagens: a patética adúltera anos 1940/50 do grande filme "O Homem que não estava lá" do maridão dela (um dos irmãos Coen, qual? eu lá sei com quem amoça dorme nem me interessa).
    Tudo contra o filme-desleal e manipulador que de bom mesmo só tinha o desempenho do MorganFreeman, ainda que igualmente a serviço da clichezada do filme mas com menos xaropada. Mesmo assim sua premiação não me pareceu juatsa, já que o Alan Alda de "O Aviador" e o Clivee Owen de "Closer" concorriam: foi interessante ver a cara do Owen fora do personagem: ele não tem aquele ar mefistofélico-chorão do personagem e agora até acredito que ele tenha feito bem o papel que foi do Jude Law no cinema quando a peça estreou no teatro. O cara dev ser bom mesmo. E a outra injustiçada de "Closer", a Natalie Portman demonstrou ter mais classe de boquita fechada do que no seu site e em entrevistas: de fato, parecia saber que ali é que estava de coadjuvante para outra atriz ganhar. E olha que eu sou tiete da Cate Blanchett, mas foi outro prêmio "papel-carbono" como o do clone do Ray Charles, muito melhor coadjuvando o Tom (Jerry) Cruise em "Colateral".
    A disputa mais séria, dentre os desempenhos a que tivemos acesso até agora, era mesmo de ator coadjuvante.
    Mas, cá entre nós: ainda que "O Aviador" seja muito mais cinema do que o filme do C.Eastwood, também não daria prá ficar satisfeito vendo Scorsese premiado por este filme tão pouco representativo de sua melhor competência. Como o Clint foi hábil na manipulaçõa da "Meninad'ouro", Scorsese foi competente na recriação dos anos e tempos de Howard Huges. Pois é... prá que?........

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    [Aeternus:2939] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-02)


    - Bauman, ficção e verdade(s)

    Vindo da ‘ontologia do presente’ como em Foucault e desenrolada na(s) ‘área(s) de contato’ de cada um de nós em nosso espaço transicional, ontologia essa que abarca o ‘pacotão passado’ de forma dinâmica - conforme muitíssimo bem mediado pelo Gallego há pouco também delineando essas fronteiras – Bauman passa por Richard Rorty, um autor muito prezado por ele, e por Goethe, antepondo ‘filósofos sacerdotais ascéticos observando aventura moderna’, e deságua em ‘protesto moral, esperança de liberdade e igualdade’ que são, segundo Rorty, “o mais importante legado do Ocidente”.
    Passa então a analisar o romance de ficção, uma verdade do Ocidente, verdade  da modernidade. Faz suas as palavras de Milan Kundera :
    ”A arte inspirada pelo riso de Deus não serve, por natureza, a convicções ideológicas : ela as contradiz. Como Penélope, desfaz a cada noite a tapeçaria que os teólogos, filósofos e homens cultos teceram no dia anterior.(...)
    O século XVIII não é somente o século de Rousseau, de Voltaire, de Holbach; é também ( e talvez acima de tudo ) o período de Fielding, Sterne, Goethe, Laclos.”
    Contracultura pra que te quero... “no mundo que jurou buscar e alcançar a certeza e vai ao outro extremo para transformar a palavra em carne, a ficção artisticamente concebida de mundos alternativos impede que os projetos sejam encerrados em gaiolas e as estruturas planejadas sejam ossificadas em esqueletos mortos. Num mundo dominado pelo medo mortal de que tudo o que é contingente, opaco e inexplicável, a ficção artística é uma contínua sessão de treinamento para viver com o ambivalente e misterioso. Ela ensaia a tolerância e equanimidade para com o inconstante, o contingente, o não inteiramente determinado, o não inteiramente compreendido e o não inteiramente previsível. Incentiva a reconciliação com a contingência da vida e a polifonia de verdades.”
    *( nesse ponto, Bauman contrapõe com Umberto Eco, assim )
    “Lemos romances, afirma Eco, porque eles nos oferecem a agradável impressão de habitar mundos em que a noção de verdade é inabalável. Por comparação, o mundo real parece ser uma terra extraordinariamente incerta e traiçoeira...” (e, com negrito meu ) “é na ficção, afirma Eco, que procuramos a espécie de certeza e segurança intelectual que o mundo real não pode oferecer...”
    Bauman media a diferença entre Kundera e Eco, balizando-a na disparidade em que foram ‘aculturados’ – totalitarismo açambarcante, contingente e retratista da diferença no tcheco, versus desregulamentação e polifonia do mundo da pós-modernidade no italiano.
    Discutindo identidade, e para chegar ao pós-moderno, Bauman passa pelos monarcas da linha Fernando de Espanha e “a destruição da diferença era então a condição da ordem” e “uma destruição coletiva”. Até evoluir para :
    “O aspecto novo, caracteristicamente pós-moderno e possivelmente inaudito, da diversidade dos nossos dias é a fraca, lenta e insuficiente institucionalização das diferenças e sua resultante intangibilidade, maleabilidade e curto período de vida. Se desde a época do ‘desencaixe’ e ao longo da era moderna, dos ‘projetos de vida’, o ‘problema da identidade’ era a questão de como construir a própria identidade, como construí-la coerentemente e como dotá-la de uma forma universalmente reconhecível – atualmente o problema da identidade resulta principalmente da dificuldade de se manter fiel a qualquer identidade por muito tempo, da virtual impossibilidade de achar uma forma de expressão da identidade, que tenha boa probabilidade de reconhecimento vitalício, e a resultante necessidade de não adotar nenhuma identidade com excessiva firmeza, a fim de poder abandoná-la de uma hora para outra, se for preciso.”
    Bauman faz algumas considerações sobre a ansiedade daí decorrente, passa pelo Freud de Das Unbehagen der Kultur para os mal-estares do pós : o gênero de sociedade que oferece cada vez mais liberdade individual ao preço de cada vez menos segurança. Até :
    “No mundo moderno, a ficção do romance desnudava a absurda contingência oculta sob a  aparência de realidade ordenada.No mundo pós-moderno, ela enfileira unidas cadeias coesas e coerentes, ‘sensatas’, a partir do informe acúmulo de acontecimentos dispersos. Os status da ficção e do ‘mundo real’ foram, no universo pós-moderno, invertidos (* alô, Gallego, aquele abraço ! )Quanto mais o ‘mundo real’ adquire os atributos relegados pela modernidade ao âmbito da arte, mais a ficção artística se converte no refúgio – ou será, antes, na fábrica ? – da verdade. Mas – que seja enfatizado com toda a veemência possível – a verdade admitida de seu exílio tem, além do nome, pouca semelhança com aquela que se obrigou a emigrar.”
    Uma passagem por Heidegger ( “na obra de arte, a verdade do ser pôs mãos à obra” – está sendo desvendada – “que um ser seja capaz de enganar como aparência é a condição para podermos ser enganados, não o inverso” ) chegando a “o ato de dizer projetivo é o ato de dizer que, ao preparar o dizível, traz simultaneamente o indizível como tal ao mundo.” (/o[7´8p=-59rkqw!1!!! )
    E fecha esse capítulo usando o conceito de simulacro em Baudrillard, ampliado à própria realidade, que “é agora ‘arremedo’, - embora, como o mal psicossomático – faça o máximo para encobrir os sinais.” “Banidas da realidade, as verdades só podem esperar encontrar sua ‘segunda morada’, exilada na morada da arte (...) e assim livres da imodesta bravata que tornou seu antepassado tão adequado e ser empregado como a arma do instinto totalitário moderno, não mais visando o monopólio como sua realização ideal, e não mais procurando o consenso como a medida e a fundamental confirmação de sua validade (...).”

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    [Aeternus:2940] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-02)


    - retomndo o que ...vai saber...

    Eu sabia que o Florião, quando voltasse, nos devolveria a expressão que nega e afirma do " vai saber"...
    Não tenho a menor simpatia pelo Richard Rorty, filosofo pragmatista americano que parece acreditar nas boas intenções conscientes influenciando nossas Dogvilles. Agora, introduzido aqui pelo Florião ( e Rorty já andou transformando as maldades do Nabokov em formas de expressão artística da compaixão...), me deparo com um desafio: esquecer meus preconceitos e entender onde nosso amigo quer chegar. 
    Quando ele propos o tema da ficção/arte/realidade pensei logo no filme "Closer" ( do artista que não enxerga a companheira e a cria a partir das mentiras que ela conta ) e no que vi na cerimonia do Oscar, onde não era mais possivel distinguir, na imagem da televisão, se o que mostravam era magritteanamente a imagem de outra imagem ou apenas um objeto se oferecendo como imagem. 
    Pouco depois me mandaram, por um acaso divertido, uma propaganda das impressoras HP que recriariam rostos com tanta facilidade que não haveria mais quase diferença entre imagem e objeto, entre o presente e sua reprodução.
    Então... começo a arregaçar as mangas para ler a mensagem do Marcos.
    Esta falação toda se resume assim: Seja bem-vindo!

     


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    [Aeternus:2942] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-02)


    - e o Bauman perfila Rorty junto a Goethe...

    em : "Zwei Seelen wohnen Ach ! in meiner Brust, die eine will sich von der anderen trennen..."
    Que nossa juramentadíssima Jansyta traduz como ...( bitte ? )

     


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    [Aeternus:2943] Mensagem do Grupo38
    -Jansyta Mello(2005-03-02)


    - tentativa de tradução

    "Zwei Seelen wohnen Ach ! in meiner Brust, die eine will sich von der anderen trennen..."

    Uma frase curiosa, com sabor germanico do Goethe. Sugere uma ambivalencia, no mínimo.  Tentarei traduzir, mas não ponho minha mão no fogo pelo resultado não.

    " Duas almas habitam, ah!,  meu peito, e uma delas quer separar-se da outra..."


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    [Aeternus:2944] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-03-02)


    - duas almas em um só corpo

    A frase traduzida pela Jansy sobre duas almas que habitam o mesmo peito com ameça de divórcio de uma das partes, me lembra um poema português (não sei de quem) que há muitos e muitos anos Bethânia (antes do megasucesso de um ano com "Rosa dos Ventos", ainda em teatros e antes dos shows de MPB saírem dos teatros para palcos enormes de canecão & similares) declamava em um mini-show em teatro pequeno, show que levava o nome do primeiro verso:
    Comigo me desavim
    fui posto todo em perigo
    Não posso ficar comigo
    Não posso fugir de mim
    (não lembro mais um quarteto inteiro e o início do último que terminava assim)
    Pois que trago a mim, comigo
    grande inimigo de mim.


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    [Aeternus:2945] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-02)


    - todos caçadores de algum mim?

    Comigo me desavim,
    Sou posto em todo perigo;
    Não posso viver comigo
    Nem posso fugir de mim.

    Com dor da gente fugia,
    Antes que esta assi crecesse:
    Agora já fugiria
    De mim , se de mim pudesse.
    Que meo espero ou que fim
    Do vão trabalho que sigo,
    Pois que trago a mim comigo
    Tamanho imigo de mim?

    Sá de Miranda

    A idéia de haver duas almas em um homem surge em Goethe, Faust I, nas linhas 808-1177 quando ele está se dirigindo ao aprendiz Wagner.

    Achei tudo pelo Google...


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    [Aeternus:2946] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-02)


    - O insubstituivel Gallego

    Cliquei pra mandar a mensagem antes de acrescentar minha observação particular sobre a magia que é a internet e o acesso às informações do "google", porque até agora não inventaram algum equivalente ao DiskGallego, pois ele  não precisa fazer das tripas coração ( já tem dois se coração fizer as vezes da alma ...) para nos contar dos conflitos que nascem com um poeta português e desembocam no Brasil, durante um show da Maria Bethania depois de triscarem na maricota alemã. 

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    [Aeternus:2947] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-02)


    - tudo a ver, então...

    Já que a discussão é bem no âmago dessa dualidade. O parágrafo encerra-se com "Parecemos estar adquirindo a capacidade de 'estar ``a vontade com uma multiplicidade de diferentes espécies de pessoas' e avançando em direção a uma unicidade em que 'ninguém julga possível pensar que Deus, ou a Verdade, ou a Natureza das Coisas está do seu lado".
    Sinto, como a Jansy, que Rorty tende a 'amaciar', mas não chega a ser na linha Romualdo Arppi Filho, o árbitro de futebol conhecido como 'coluna do meio' ( quando os jogos em que ele arbitrava estavam empatados, era o melhor juiz de futebol de todos os tempos; quando alguma equipe entrava em vantagem, ele passava a apitar a favor do ora em desvantagem...). Rorty parece desviar as questões para um estado de coisas centrado numa espécie de desejo primal que 'justificaria' o fim. Como ao manifestar, a respeito da cultura ocidental ser racista, sexista e imperialista, que é também "uma cultura que está muito preocupada por ser racista, sexista e imperialista, bem como por ser etnocêntrica, provinciana e intelectualmente intolerante."

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    [Aeternus:2948] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-02)


    - o relativismo ateu de Rorty

    A conclusão que o Florião acaba de enviar reforça o que eu vinha sentindo ao ler Rorty ( enquanto preparava meu trabalho sobre "Ética e Psicanálise", que saiu publicado recentemente na revista TRIEB e que consta do aeternus também ).

    Não creio que seja preciso reintroduzir algum absoluto absolutista ou  a religião para se pensar a moralidade, admitir o " ópio do povo" para comandar as grandes massas humanas no sentido do respeito ao próximo e ao convívio com a diferença. Mas apesar dos dilemas que acompanham as tentativas de alcançar-se uma " ética planetária" ( R.Cardoso de Oliveira ), ainda aposto em algum elemento unificador que esteja para além da cultura. E já inventei um ponto altamente controverso: existe um além da cultura?


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    [Aeternus:2949] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-02)


    - ando um pouco precoce, benzinho...

    Vai ver que este negócio de dividir meus comentários a Lista já é a expressão física da minha tentativa de "dividir duas almas diferentes", e não tanto um lapso na minha emissão de recadinhos...  

    Num endereço do google chamado, a propósito, "duplipensar.net", achei a letra do Chico que andava procurando:

    "Meu coração tem um sereno jeito
    E as minhas mãos o golpe duro e presto
    De tal maneira que, depois de feito
    Desencontrado, eu mesmo me contesto

    Se trago as mãos distantes do meu peito
    É que há distância entre intenção e gesto
    E se o meu coração nas mãos estreito
    Me assombra a súbita impressão de incesto

    Quando me encontro no calor da luta
    Ostento a aguda empunhadora à proa
    Mas o meu peito se desabotoa

    E se a sentença se anuncia bruta
    Mais que depressa a mão cega executa
    Pois que senão o coração perdoa..."

    Depois desta beleza do Chico, pra acalabar com as traições, lembro vocês do outro lado do conflito: a divisão de narciso e os poemas de amor que já andaram circulando pela lista.


    Aviso que nosso webmaster está ensaiando uma novidade que, pelo teste que nela fiz, trará vida nova ao Aeternus e à lista.  
    Se der certo, poderemos transitar com mais facilidade por todas as antigas listas, selecionar um unico comentário nestas e responder diretamente, deixando a resposta constar no lugar certo. 
    Ficaremos dispensados, principalmente o Davy, de ensaiar mensagens para fulano ou beltrano, ou repetindo as coisas num "omnibus" desvairado,  e ainda conseguiremos retomar conversas esquecidas que pingarão nas nossas emails...


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    [Aeternus:2950] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-02)


    - nosso queridíssimo Davy

    ...é apenas e às vezes aquele passageiro que chega batendo na chapa quando o motorista do ônibus alucinado já está bufunfando o ar comprimido da porta, louco para partir. E, ao mesmo tempo, o passageiro que todos exigem dentro da viatura.

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    [Aeternus:2951] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-03-03)


    - não é letra.

    O maravilhoso soneto do vate Francisco Buarque d'Hollanda não é letra de música, mas soneto mesmo, verso para ser declamado - e com prosódia d'Além-Mar. Faz parte de uma canção, sim, o fado com refrão que diz: "Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal!", parte da peça "Calabar", proibida no dia em que ia estrear e que deixou Fernanda Montenegro de pires na mão: era produtora com o marido Fernando Trres, embora não fossem atores no espetáculo. Discutia-se quem era traidor? Calabar? por que? porque ficava ao lado dos holandeses? Este é o pto. de vista dos donos do poder da época, os lusos que cá chegaram primeiro. Mas em termos de futura nação independente (?), este Brasil que conhecemos, que diferença faria ter este ou aquele colonizador? Quem traía quem e para que? Claro que a metáfora da época era que quem protestava contra o governo (ditadura militar) não era  "traidor da Pátria" indesejado na fórmula cretina do "ame-o ou deixe-o". E por isso a peça foi censurada, aliás, o espetáculo, junto com a peça, depois de um investimento caro para a época.
    O disco com as músicas teve a capa censurada (era uma parede pichada como se pichava frases de protesto, escrito apenas "Calabar") e depois de muitas negociações, saiu com a capa inteiramente branca e com o título "Chico Canta". Algumas faixas ficaram apenas com música, sem letra. E palavras eram "apagadas" subitamente nas canções, surgindo um hiato, uma gagueira, um silêncio, inclusive neste "Fado Tropical" em outra parte falada quando o personagem português dizia: Sabe? No fundo eu sou um sentimental: todos nós herdamos no sangue lusitano uma dose de lirismo, além da (corte) , é claro". A palavra censurada e cortada era "sífilis". E prosseguia: "Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e sinceramente, chora."
    O soneto do Chico é mimese perfeita do clima luso dos grandes sonetos de Camões e de Bocage, prova que o sujeito é poeta mesmo, embora não me agrade nem um pouco como romancista.
    Ele fez, no mesmo ano de 1972,  um outro soneto, este com música para ser cantado e caracterizar uma personagem "românticantiquada" na neochanchada em homenagem às antigas, "Quando o Carnaval Chegar", juntando três não-atores desengonçados: Chico, Nara Leão e Bethânia. O filme é meio mais ou menos, vale mais como curiosidade e registro destes 3  ícones da MPB. Mas o disco é o fino, como já se disse num período já longínquo, com 7 canções do Chico e algumas antigas, clássicas: é um portento. Tem "Baioque" (baião + rock), "Mambembe", "Partido Alto", a sensual "Caçada" misturando sugestões eróticas com outras de caça agressiva, a inteligentíssima "Bom Conselho" que subverte os ditados populares tipo "Espere sentado ou vc se cansa: tá provado, quem espera NUNCA alcança", a canção-título que diz "E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar... tô me guardando prá quando o carnaval chegar", além do supracitado "Soneto de Mimi" (que era o nome da personagem de Nara que o gravou divinamente com toda a melancolia do mundo:

    Por que me descobriste no abandono?
    Com que tortura me arrancaste um beijo?
    Por que me incendiaste de desejo,
    quando eu estava bem?...morta de sono.

    Com que mentira abriste meu segredo?
    De que romance antigo me roubaste?
    Com que raio de luz me iluminaste,
    quando eu estava bem...? morta de medo!

    Por que não me deixaste adormecida?
    E me indicaste o mar - com que navio?
    E me deixaste só, com que saída?
    Por que desceste ao meu porão sombrio?
                   Com que direito a mim, ensinaste a vida
                   Quando eu estava bem... morta de frio?

    (Mas podem chamar de canção dos esquizóides)

     Dentre as faixas "antigas" (hoje, 2005, temos que dizer "mais antigas) há gravações excelentes de "Nós somos os cantores dor rádio, levamos a vida a cantar" (onde Nara e Bethânia repetiam as roupas da dupla original que primeiro lançou a música num filme de 1930e poucos, Aurora e Carmen Miranda: fraque e catola dourados, com bengala na mão!), a deliciosa "Foi Deus que te fez formosa, formosa, formosa, porém esse mundo te tornou presunçosa, presunçosa", o menos antigo "Frevo" de Tom Jobim, originalmente para o "Orfeu da Conceição" (ou "do carnaval") com letra ufanista do Vinicius ("Vem, vamos dançar ao sol, vem que a banda vai passar - isso muitos anos antes do Chico anunciar outra Banda que ficou mais famosa - Vem ouvir o toque dos clarins anunciando o carnaval - e vão brilhando os seus metais por entre cores mil, verde mar, céu de anil, nunca se viu tanta beleza, ai, meu Deus, que lindo é o meu Brasil!") e uma marchinha pouco conhecida (Brilhou mais uma estrela no céu e a nossa lua de mel que mal começou tão depressa se acabou") que a Nara cantava no antigo coreto do Jardim do Meier, onde na infância cheguei a ver teatrinho de guignol numa construção de alvenaria (palco) e bancos de jardim ao ar livre... o "jardim" foi invadido pelo hospital Salgado Filho e não passa de uma pracinha mirrada e chinfrin, coberta por viadutos, um cocô de urbanismo. Pena que o disco original e o cd não tenham incluído outras canções que o filme tinha, uma delas só saiu agora numa caixa de discos de Nara leão como "raridade": "Taí, eu fiz tudo prá você gostar de mim" em ritmo deprê, bem diferente da coisa saltitante (e bem ridícula) original com a Carmen Miranda.
    retomando "Calabar", não se pode deixar de citar a bem-humorada e sacana "Não existe pecado do lado de baixo do Equador" e a belíssima "Tatuagem" - numa época em que quase que só marinheiro fazia tatuagem no corpo...

    "Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
    que é prá te dar coragem, prá seguir viagem, quando a noite vem
    E também prá me perpetuar em tua escrava
    que você pega, esfrega, nega...
    mas não lava...

    Quero brincar no teu corpo feito bailarina
    que logo te alucina, salta e te ilumina quando a noite vem
    E nos músculos exaustos do teu braço
    repousar frouxa, murcha, farta,
    morta de cansaço

    Eu quero pesar feito cruz nas tuas costas
    que te retalha em postas, mas no fundo gostas, quando a noite vem
    Eu quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
    marcada a frio, a ferro, a fogo
    em carne viva

    Corações de mãe, arpões, sereias e serpentes
    que te rabiscam o corpo todo
    mas não sentes...


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    [Aeternus:2956] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-03-03)


    - RE:não é letra.

    Gallego,

    Parabéns pela palestra bem-sucedida, outro resultado não seria esperável de você. Tenho certeza de que sua expressão oral é tão brilhante quanto a escrita.

    E que biógrafo do Chico estás me saindo ! Por falar nele, vi hoje uma foto dele num banho de mar com uma moçoila bonita no Leblon, na revista CONTIGO !!! Uau, o Chico é pop. Gênio e pop. Morram de inveja os popularóides e intelectualóides igualmente vazios. Mas, jornalistas, deixem o cara curtir a morena em paz ao sol do Lebron !!


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    [Aeternus:2958] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:sonhos e Closer

    Vi novamente Closer!   Desta vez levei minha filha que prestou atenção para eu conseguir perceber o nome do Clive Owen, dermatologista ou trator, que ninguém na lista nomeava.  Chama-se  Larry.  Interessante o nome dele sumir se a gente não está procurando lembrar como ele se chama..

    Dan dizia que "sem a verdade, não somos civilizados". Mas o filme nos lembra que ele era meio bobinho, "too young", assim como sua companheira, Alice.
    Larry dizia: " Sem compromise ( não é como traduziram:  compromisso, mas contemporização ou meias soluções, ou talvez "acordos" ) somos bárbaros".  Frase mais realista...

    Tem outras trocas: Alice acha Anna "muito alta"  e Larry estranha Dan ser "esguio e mais alto do que parecia nas fotos".

    Fiquei sem saber por que os casais deram errado, ou pelo menos um deles. O problema não vinha de se dizer a verdade ou de se mentir num casamento. Talvez fosse porque eram verdades ou mentiras "objetivas", "racionais", "conscientes" que se tentava sustentar como unicas e nunca oscilantes, dúbias, ambivalentes, sem reconhecer um referencial externo ou interno para lhes dar consistência. 
    As nossas verdades humanas ( e portanto, parcialmente veladas a nós, inconscientes) oscilam como a nossa vida de fantasia. Esta é em parte ocupada para dar formas diversas às várias caras do objeto do desejo ou do amor, os vários tipos de "objetos a" lacanianos...
    Se podemos manter um "compromisso" e uma "compromise" é porque reconhecemos, além da dupla, uma instancia terceira que nos sustenta na dupla e a qual devemos alguma coisa.
    Senão... é masturbação mútua e inconseqüente. 
    Alice e Dan não pertenciam a um grupo social específico, nem tinham um papel social "adulto". Eram meio marginais e perdidos. Além do que eram vazios, sem uma vida de fantasia consistente porquanto ligadas a alguns mitos sociais ( seja participar do Big Brother, ver ao vivo o Silvio Santos ou defender a pátria ou os golfinhos ).

     Jane/Alice pretendia ser stripper ou garçonete o resto da vida ( a outra se surpreendia com isso: não era provisório? Ela não pretendia estudar? Algo assim )
    Alice sabia jogar melhor com as coisas, ela sabia o que era se sentir sózinha e triste, melhor do que todos os outros. E não podia evitá-lo, não tinha recursos internos para deles se nutrir. Só sabia curtir ser vista e supor que fantasiavam com ela.

    Parece que muita fantasia erótica que busca parceiro na internet reflete este "vazio da fantasia social", da ideologia, da partilha de uma causa.  Parece que muito sadismo e perversão resulta desta mesma pobreza. 
    Corpo e mente, uma distinção feita no filme: fale e olhe, mas não toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, realmente. Somos bonecos do nosso discurso.
    Micke Nichols, em Quem tem Medo de V.Woolf explora a mesma conversinha nervosa de quem tem ambições frustradas, da esterilidade que precisa encher a vida sendo cruel com quem ama...

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    [Aeternus:2960] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-03-04)


    - extroversão e reversão

    Lá vou eu em vermelho. Vi novamente Closer!   Desta vez levei minha filha que prestou atenção para eu conseguir perceber o nome do Clive Owen, dermatologista ou trator, que ninguém na lista nomeava. Chama-se  Larry.  Interessante o nome dele sumir se a gente não está procurando lembrar como ele se chama.
    Dan dizia que "sem a verdade, não somos civilizados". Mas o filme nos lembra que ele era meio bobinho, "too young", assim como sua companheira, Alice. Larry dizia: " Sem
    compromise ( não é como traduziram:  compromisso, mas contemporização ou meias soluções, ou talvez "acordos" ) somos bárbaros". Frase mais realista...Esse compromise é marcante em Larry. Ele é ‘social’ por excelência. O tipo que não falta a uma vernissage ou festa de aniversário.Tem outras trocas: Alice acha Anna "muito alta" frisei isso outro dia, mas referia-me aos píncaros de um pairar sobre o Humano, uma espetacular capacidade  em uma espécie de ‘não-mais-surpreender-se’ com este insensato mundo, de viver numa constante auto-imunização das pragas deste ( problema de todos nós, talvez sem tal intensidade...mas só conseguir afugentar o Big Brother, citado aí embaixo, o telemarketing y otras já dá trabalho). Mas embora ela tenha conseguido atingir essa redoma, não adoeceu, propriamente : continua necessitando do outro, anelando o compromise. E tem aquela culpinha sempre lá no fundo, que a caracteriza, prato pros psicanalistas. e Larry estranha Dan ser "esguio e mais alto do que parecia nas fotos". Dan é o novo tecido na lâmina dermatológica de Larry. Isto é trabalhado por Patrick Farber nos bastidores, no recôndito do virtual, na conversa hiper-obscena do laptop. A histologia deste novo tecido será analisada em suas peculiaridades anatômicas ao longo da trama dramática.
    Fiquei sem saber por que os casais deram errado, ou pelo menos um deles. Grande sacada do Farber : deixar esse McGuffin para a matutada subjetiva...que cada um de nós especule a respeito...O problema não vinha de se dizer a verdade ou de se mentir num casamento. Talvez fosse porque eram verdades ou mentiras "objetivas", "racionais", "conscientes" que se tentava sustentar como únicas e nunca oscilantes, dúbias, ambivalentes, sem reconhecer um referencial externo ou interno para lhes dar consistência. As nossas verdades humanas ( e portanto, parcialmente veladas a nós, inconscientes) oscilam como a nossa vida de fantasia. Esta é em parte ocupada para dar formas diversas às várias caras do objeto do desejo ou do amor, os vários tipos de "objetos a" lacanianos...Se podemos manter um "compromisso" e uma "compromise" é porque reconhecemos, além da dupla, uma instancia terceira que nos sustenta na dupla e a qual devemos alguma coisa. Senão... é masturbação mútua e inconseqüente. Magnífica passagem, Jansy ! Em poucas linhas você abre o mundo inteiro de possibilidades dentro da relação amorosa. E caracteriza nessa instância terceira o que pessoalmente eu chamo de ‘casal-entidade’, um ente mesmo, que poderia tirar carteirinha no Félix Pacheco e tudo. A carinha dele vai mudando todo dia, igual à nossa...pode alegrar-se, murchar, morrer, sofrer plásticas...
    Alice e Dan não pertenciam a um grupo social específico, nem tinham um papel social "adulto". Eram meio marginais e perdidos. E adeqüam-se, sobretudo. Outro ponto para Farber. Só insisto em que Dan não seja um infantilóide, como já discutido, pois vejo nele uma Busca nítida. Além do que eram vazios, sem uma vida de fantasia consistente porquanto ligadas a alguns mitos sociais ( seja participar do Big Brother, ver ao vivo o Silvio Santos ou defender a pátria ou os golfinhos ). O compromise do Dan é com a Arte. Os olhinhos dele salpicam auto-ironia e certo desdém com os obituários dos anciães e dos terminais que ainda-não-partiram, e sente-se impelido a criar, a suspender-se ao ‘real’. E surge Alice...vítima das ruas londrinas, antes de si mesma...
    Jane/Alice pretendia ser stripper ou garçonete o resto da vida ( a outra se surpreendia com isso: não era provisório? Ela não pretendia estudar? Algo assim Supremo Desafio Feminino ! Na coluna ‘como você pode ? onde consegue força e tutano para tal ? onde fica o respeito por você mesma?’) Alice sabia jogar melhor com as coisas, ela sabia o que era se sentir sózinha e triste, melhor do que todos os outros.Gallego chamou-a a ‘mais verdadeira, de certo modo’, e creio que sim, no sentido em que descobriu a chave de des-cobrir-se, vestir uma camisa listrada e sair por aí... E não podia evitá-lo, não tinha recursos internos para deles se nutrir.A fonte de onde ela precisa beber vem do referendum-Dan, do referendum-Amor. Talvez por isso ela inicie esta relação valorizando-a bastante, esperando atá fidelidade do parceiro.Só sabia curtir ser vista e supor que fantasiavam com ela. Até que Dan beija a Bela-Adormecida-Strippada...
    Parece que muita fantasia erótica que busca parceiro na internet reflete este "vazio da fantasia social", da ideologia, da partilha de uma causa. Aquele texto forte do Baudrillard que o Gallego levou para a aula : “extroversão da imagem” sem que nesta mesmo se acredite...O paroxismo rebolativo-ginecológico na boate é expressão nítida disto : quanto mais se vê, quanto mais ela se mostra e repete seu verdadeiro nome, mais intangível !!!...Parece que muito sadismo e perversão resulta desta mesma pobreza. Mas ao mesmo tempo novas identidades, novas chances a agarrar ! Como se o pós-moderno e suas maravilhas nos estivessem convidando a um grande baile de queima de identidades fixas. Festim perigoso, claro, mas talvez irreversível. Pessoalmente, eu diria que o grande cuidado aqui é não perder-se o juízo crítico entre essa proposta de novo stand der dinge e nossas fronteiras pessoais, íntimas.
    Corpo e mente, uma distinção feita no filme: fale e olhe, mas não toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, realmente. De novo Baudrillard : extroversão da imagem.Somos bonecos do nosso discurso.  Aqui eu somaria o discurso de Heidegger que publiquei anteontem, dentro da teoria de filosofia da verdade : "o ato de dizer projetivo é o ato de dizer que, ao preparar o dizível, traz simultaneamente o indizível como tal ao mundo".

    Mike Nichols, em Quem tem Medo De V.Woolf explora a mesma conversinha nervosa de quem tem ambições frustradas, da esterilidade que precisa encher a vida sendo cruel com quem ama...Sim, mas ali estávamos no 'final da era moderna', o casal clássico convidava outro, em huis clos, para servir de testemnuha de que 'existiam mesmo' e de seu pacto gravídico. Aqui em "Closer" a discussão estende-se para a questão da identidade e da imagem dentro do 'social'/'real'. Há a boate, a vernissage, as ruas a sermos atropelados...

     


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    [Aeternus:2961] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:extroversão e reversão/ Tato é Visão à distancia

    Marcos Florião, você precisa preencher o espaço do visitante com seu nome, ou se recadastrar para não termos sua resposta sem assinatura.

    Jansy: Mike Nichols, em Quem tem Medo De V.Woolf explora a mesma conversinha nervosa de quem tem ambições frustradas, da esterilidade que precisa encher a vida sendo cruel com quem ama.


    Florião: Sim, mas ali estávamos no 'final da era moderna', o casal clássico convidava outro, em huis clos, para servir de testemnuha de que 'existiam mesmo' e de seu pacto gravídico. Aqui em "Closer" a discussão estende-se para a questão da identidade e da imagem dentro do 'social'/'real'. Há a boate, a vernissage, as ruas a sermos atropelados...

     Jansy: Eu me referia ao referendo de um terceiro como aquele que é representado pela "Lei", pelo " Grande Outro", ou pelo menos, pelo "representante do discurso da cultura" ( não queria ficar desfiando este palavrório). 
    Os dois casais obtinham apenas uma referencia imaginária no jogo dos olhares e até das trocas de parceiro, como você observou:  um referendava o outro como em espelho. Mas Larry e Anna acabaram caindo fora e constituindo uma família burguesa tradicional.  Já Alice estava sem lenço e sem documento no mundo, que é tanto a posição mais sábia no Tarot ( o Louco, ou o Eremita) como a primeira.  Alice estava na primeira e não conseguiu fazer a volta toda para retornar ao ponto de partida transformada numa "espira acima" ( pronto, agora pareço discípula de Alain Kardek com tia Neiva ) .

    Jansy: Corpo e mente, uma distinção feita no filme: fale e olhe, mas não toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, realmente.
    Florião: De novo Baudrillard : extroversão da imagem.
    Jansy:
    Somos bonecos do nosso discurso.  
    Florião: Aqui eu somaria o discurso de Heidegger que publiquei anteontem, dentro da teoria de filosofia da verdade : "o ato de dizer projetivo é o ato de dizer que, ao preparar o dizível, traz simultaneamente o indizível como tal ao mundo".

    Jansy:  Não dá para chegar "ainda mais perto", "still closer" além de um limite que, de certo modo, gosto de me representar pela fóvea no olho ( não é por onde passam as fibras dos receptores no próprio campo dos receptores na retina? Ponto cego por excelencia? ).
    Lacan observou : " que se diga algo se perde por trás do que se disse", enfatizando o "sujeito da enunciação" enquanto distinto do "sujeito do enunciado". 
    Tudo o que eu disser em meu nome se transforma... num assunto sobre o que acho do meu "eu" enquanto que este "eu que fala" permanece escondido na fóvea do discurso ( adorei minha frase, que engulo como cobra que tenta comer a propria cauda, mas se engasga até sumir !).

    O indivízel do Heidegger citado por você me lembrou nada mais misterioso do que esta "fóvea", este sujeito da enunciação que desaparece por trás do que diz.  É como um periscópio que pode ver tudo em volta no mar em revolta, mas não enxerga a si próprio saindo das águas...

    Visão é o "tato á distancia" e nunca tocamos mesmo, nem com a pele do olho nem com a pele do corpo. Há um mistério nos intervalos...


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    [Aeternus:2962] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-03-04)


    - perigosa

    Não estou conseguindo colar um trecho que queria comentar, referente a Alice/Jane saber melhor do que os outros o que é se setir sòzinha. Me lembrei de uma frase de "Perdas e Danos" com a Juliette Binoche: "Pessoas feridas (ou magoadas) são as mais perigosas: elas acham que os outros aguentarão o que elas aguentaram". Se não era bem isso, este era o espírito da coisa. É uma falta de alteri8dade, é um narcisismo da dor. Não que Alice/Jane fosse tão perigosa assim, ela apenas re-age quando Dan faz a pergunta que em vidas que andam juntas ninguém faz (por voyeurismo, mais do que por amor à verdade, como explicitou Jansy ao apontar a falta de referncial externo (de novo, o menosprezo pela alteridade, falta de reconhecimento do outro, nem por "mal", mas por incapacidade narcísica mesmo). Mas o larry, este sim, ao ser ferido, reage como uma fera-trator, desatruindo todos os outros. Por isso Sueli o achou psicopata. Ainda não acho. os outros é que se deixaram destruir por ele. Problema dos outros; o dele era não perceber que os outros não teriam a mesma capacidade de revanche que ele demonstrou ter. Perigoso.


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    [Aeternus:2963] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:extroversão e reversão/ saudosa maloca

    Gallego ficou na dúvida se o visitante anonimo era o Marcos, de fato.  Se não for, ele tem um irmão tão gemeo como aquele que o Dirk Bogarde representa no filme " Despair" do Fassbinder...

    Gallego observou:  Me lembrei de uma frase de "Perdas e Danos" com a Juliette Binoche: "Pessoas feridas (ou magoadas) são as mais perigosas: elas acham que os outros agüentarão o que elas agüentaram"...uma falta de alteridade, um narcisismo da dor (...)  Dan faz a pergunta que em vidas que andam juntas ninguém faz (...) Jansy ao apontar a falta de referencial externo traz de novo o menosprezo pela alteridade, falta de reconhecimento do outro...por  incapacidade narcísica (...). Mas o Larry, este sim, ao ser ferido, reage como uma fera-trator, destruindo os outros... por não perceber que estes  não teriam a mesma capacidade de revanche que ele demonstrou ter. Perigoso.

    Será que Deus dá o frio conforme o cobertor (  antigo samba-canção dos anos cinqüenta )? Ou seja, como lembrou o Gallego, as pessoas feridas se tornam perigosas quando acham que todos conseguiram agüentar aquilo que elas agüentaram, como se acredita religiosamente que a ninguém será dado um fardo além do que possa suportar ( a Bíblia o garante, mas não se trata de um tipo de livro preocupado em explicar o tema do próximo congresso de Psicanálise: na Biblia não tem espaço para uma Teoria do Trauma: quem não suporta o traumatismo, morre  - em vez de ficar neurótico -  como a Alice do filme,uma não-neurótica por excelência,  morreu!).

    Gallego acrescentou uma idéia importante àquilo que escrevi sobre "referencial externo". Eu apenas lembrei do "terceiro", do "discurso", do "simbólico". Gallego mostrou que sem o simbólico, sem o "nome do pai",  a pessoa se torna prisioneira do narcisismo e não consegue chegar a perceber a alteridade, seja sob a  forma mais estranha de todas, "O Grande Outro" ou o "A" lacaniano , ou a mais simples, o "outrinho", a do companheiro,  vizinho, ou seja, a do nosso semelhante enquanto distinto de nós ou seja, dissemelhante... 

    Enrolei muito?  É que se colocarmos a psicanálise para entender o "Closer" teremos uma historinha bem certinha pra contar. Dois casais, mais ou menos primitivos, ou seja " pré-edípicos" que se debatem na dinamica que oscila entre mecanismos perversos ( voyeurismo, masoquismo, sadismo ) e as neuroses mais graves ( depressão suicida ), imersos num aquário do próprio mundo mental. 
    Um dos pares resolve a situação a partir da "compromise" , o compromisso da solução de compromisso que se chama :  o sintoma!   Trata-se de um compromisso que tem um sabor de "integração kleiniana" ( perceber que o seiobom e o seiomau são um unico seio, seja da mãe externa, seja da interna )   que leva ao amor dito verdadeiro, "genital", "procriativo".

    O outro par, sem talento, sem eira nem beira, se esborracha. 
    Larry não era um psicopata, não entendi assim. Ele era simplesmente cruel. Ele se comparou com o Dan numa conversa com a Anna onde concluiu que "era mais alto, daria conta de derrubar o rival". Enquanto não sabia que estava sendo provocado, ficou quieto. Ferido, foi à luta, eficientemente.

    Como naquela anedota do cara que queria fazer xixi e temia que alguém bebesse o seu chope caso o largasse na mesa.  Então teve uma idéia e escreveu: " Cuspi dentro" e se mandou. Quando voltou da mijadinha, encontrou escrito em baixo do bilhete: " Eu também".

    Dan não era artista coisa nenhuma, Florião. Não sabia inventar, queria relatar a verdade...


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    [Aeternus:2964] Mensagem do Grupo38
    -Marcos-Alice(2005-03-04)


    - extroversão e reversão/ Tato é Visão à distancia

    Marcos Florião, você precisa preencher o espaço do visitante com seu nome, ou se recadastrar para não termos sua resposta sem assinatura. Searching for my own identity...who knows ? Let's try in blue.
    Jansy: Mike Nichols, em Quem tem Medo De V.Woolf explora a mesma conversinha nervosa de quem tem ambições frustradas, da esterilidade que precisa encher a vida sendo cruel com quem ama.
    Florião: Sim, mas ali estávamos no 'final da era moderna', o casal clássico convidava outro, em huis clos, para servir de testemnuha de que 'existiam mesmo' e de seu pacto gravídico. Aqui em "Closer" a discussão estende-se para a questão da identidade e da imagem dentro do 'social'/'real'. Há a boate, a vernissage, as ruas a sermos atropelados...
     Jansy: Eu me referia ao referendo de um terceiro como aquele que é representado pela "Lei", pelo " Grande Outro", ou pelo menos, pelo "representante do discurso da cultura" ( não queria ficar desfiando este palavrório). Palavrório magnífico, a ser desfiado, pois.
    Os dois casais obtinham apenas uma referencia imaginária no jogo dos olhares e até das trocas de parceiro, como você observou:  um referendava o outro como em espelho. Mas Larry e Anna acabaram caindo fora e constituindo uma família burguesa tradicional.  Já Alice estava sem lenço e sem documento no mundo, que é tanto a posição mais sábia no Tarot ( o Louco, ou o Eremita) como a primeira. O que a Alice/Jane tem de aparentemente mais forte nesse jogo todo é a coisa fluida de brincar de identidade, a grimace de ausentar-se de si mesma. Não é este o desejo predominante ? O que mais atrai os jovens à impessoalidade dos beijos sem dono ao longo de suas noites carnavalescas e aàs viagens ecstasyadas é essa volatilidade de si mesmos. A chance de perderem suas identidades. Ao menos ali, até desmaiarem e ressuscitarem para o retorno ao 'social', a 'realidade'. Alice estava na primeira e não conseguiu fazer a volta toda para retornar ao ponto de partida transformada numa "espira acima" ( pronto, agora pareço discípula de Alain Kardek com tia Neiva ) .
    Perfeita figuração : alguém estranharia nossa Alice/Jane expondo as mãos à uma cartomante ?
    Jansy: Corpo e mente, uma distinção feita no filme: fale e olhe, mas não toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, realmente.
    Florião: De novo Baudrillard : extroversão da imagem.
    Jansy:
    Somos bonecos do nosso discurso.  
    Florião: Aqui eu somaria o discurso de Heidegger que publiquei anteontem, dentro da teoria de filosofia da verdade : "o ato de dizer projetivo é o ato de dizer que, ao preparar o dizível, traz simultaneamente o indizível como tal ao mundo".
    Jansy:  Não dá para chegar "ainda mais perto", "still closer" além de um limite que, de certo modo, gosto de me representar pela fóvea no olho ( não é por onde passam as fibras dos receptores no próprio campo dos receptores na retina? Ponto cego por excelencia? ).
    Lacan observou : " que se diga algo se perde por trás do que se disse", enfatizando o "sujeito da enunciação" enquanto distinto do "sujeito do enunciado". 
    Tudo o que eu disser em meu nome se transforma... num assunto sobre o que acho do meu "eu" enquanto que este "eu que fala" permanece escondido na fóvea do discurso ( adorei minha frase, que engulo como cobra que tenta comer a propria cauda, mas se engasga até sumir !). Outra figuração fenomenal ! Alice/Jane é a boneca russa de estrutura literária em carne-e-osso. Veste-se, re-veste-se, tra-veste-se, in-veste-se e re-investe-se...
    O indivízel do Heidegger citado por você me lembrou nada mais misterioso do que esta "fóvea", este sujeito da enunciação que desaparece por trás do que diz.  É como um periscópio que pode ver tudo em volta no mar em revolta, mas não enxerga a si próprio saindo das águas...Prächtig !
    Visão é o "tato á distancia" e nunca tocamos mesmo, nem com a pele do olho nem com a pele do corpo. Há um mistério nos intervalos...Gallego é nosso perito nesse ponto. Em "Closer" talvez quem melhor 'veja' seja a fotógrafa. Desde o início me vi surpreso com a capacidade dela 'vomitar' antes de pensar, do tal 'indizível' explicitar-se com tal facilidade. O que talvez sirva de estorvo à sua felicidade...a tal liberdade em demasia que atrapalha(ria). Se o pós-moderno é  ( sic Bauman ) caracterizado poor uma demanda crescente de liberdade em detrimento de sagurança(s), urge voltar à pergunta perplexa de Camus nos idos de 50 e diante do fulgor existencialista : "para que tanta liberdade ?" ( genericamente, se é que é possível, e sem tentar, aqui, tocar no mérito das micro-escolhas do(s) valor(es) individual(is) )

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    [Aeternus:2966] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-04)


    - por delicadeza perdi minha vida

    ( red passion aqui ) Assim falou Rimbaud.
    Não estou conseguindo colar um trecho que queria comentar, referente a Alice/Jane saber melhor do que os outros o que é se setir sòzinha. Me lembrei de uma frase de "Perdas e Danos" com a Juliette Binoche: "Pessoas feridas (ou magoadas) são as mais perigosas: elas acham que os outros aguentarão o que elas aguentaram". E por indelicadeza ( melindres Y otras...) os personagens de Farber vão perdendo suas vidas. Se não era bem isso, este era o espírito da coisa. É uma falta de alteridade, é um narcisismo da dor. Mas seria um corolário ? Um fim de estrada ? Sem retorno ?...Não que Alice/Jane fosse tão perigosa assim, ela apenas re-age quando Dan faz a pergunta que em vidas que andam juntas ninguém faz ( por voyeurismo, mais do que por amor à verdade, como explicitou Jansy ao apontar a falta de referncial externo (de novo, o menosprezo pela alteridade, falta de reconhecimento do outro, nem por "mal", mas por incapacidade narcísica mesmo). Há outro modelo narcísico ali, creio, o da onipotência de achar que nosso(a) parceiro(a) atingiu estágio similar ao do Super-Homem de Nietzsche. Algo na linha 'pairamos sobre o terra-à-terra, sobre esse mundinho rançoso do compromisso ( o que segue direitinho as regras das cartilhas ), somos maiores e mais fortes do que O Sistema. Tal pacto é similar ao que a Binoche propõe ao Irons em "Perdas e Danos" : seres acima da Moral, para além do Bem&Mal.Mas o Larry, este sim, ao ser ferido, reage como uma fera-trator, desatruindo todos os outros. Por isso Sueli o achou psicopata. Ainda não acho. Os outros é que se deixaram destruir por ele. Problema dos outros; o dele era não perceber que os outros não teriam a mesma capacidade de revanche que ele demonstrou ter. Exato. Seria o caso de culpá-lo por 'estar lá.'  De inculpar o revólver por dar um tiro.Perigoso. Ele nasceu para Espada de Dâmocles : definitivamente vai apressar nossa conturbada espécie a restaurar-se, reprogramar-se intimamente...

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    [Aeternus:2967] Mensagem do Grupo38
    -Gallego(2005-03-04)


    - Tia Neiva e Tio Visitante

    Jansy-Tia Neiva e Tio Vistante Marcos-Alice estãodando um show! Como é que eu vou fazer quando discutirmos Closer lá na Sociedade? No lançamento da revista TRIEB, número especial de psicanálise & cinema vai haver uma mesa redonda com Fernando Rocha falando sobre "O Ohar em psicanálise", outra pessoa de fora (pensaram na Jansy, mas não estmaos com caixa prá pagar passagem & cachê) e ue falndo do olha no cinema: escolhi passar rápido por "Janela Indiscreta", "Os olhos da cidade são meus", "Saló" (que termina com um cara olhando as torturas pela janela, de binóculo) e... "Closer". Agora que eu copio de você como um cantor que solta a voz e o tempo aeternus canta, como vou fazer com tantas idéias fantásticas???? (de novo não consigo "colar" o que copiei em outtra mensagem para facilitar)
    Alice anão-neurótica por excelêrncia é uma definição ótima da Jansy. E esclarecendo que Dan não era artista. Queria ser... copiava a verdade (que nem era, pois Alice nunca existiu: lembrem que quando Anna (Julia Roberts) pergunta a "Alice" se não a incomoda que Dan tenha escrito sobre a vida dela, Alice, subitamente fica ríspida e reponde: "This is not your business!" - ou seja, omite para não mentir e também para não revelar que "aquela" NÃO "é a sua vida", mas a vida de uma personagem virtual, des-encarnada. Nada.

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    [Aeternus:2968] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-04)


    - Tia Neiva e Tio Visitante

    Galleguito, selecione sobre o texto desejado, clique 'editar'/'copiar', e quando abrir sua resposta no site, clique sobre o ícone 'word'. No espaço aberto à tua escrita, e com o botão direito do mouse, clique 'copiar', e o texto que você selecionara surge todo, para intervenções.
    Quando nossa Alice/Jane/Nada extroverte-se em Nada, como quer Baudrillard, ela não estaria tentando 'ser', ao menos ? Acho demasiado impiedosa e anuladora essa niilificação assim conceituada ! Talvez esteja me dando uma coceira duplamente influenciada : por fatores endógenos/irreversíveis, e pelo pragamatismo do tal Rorty*, que anda exatamente por essas bandas. Diría(mos) aqui, então : nossa Alice/Jane extroverteu-se em simulacro de realidade, que esfarelou-se/anulou-se, sim, però...ela está preocupada em , e se aceitarmos esse acento cairíamos em outra vertente : a de que o problema básico, noves fora psicanalíticos ( self fraco, síndrome da mãe morta, afins aqui )remete à falta de um mínimo senso crítico sobre si mesma.
    * nas discussões sobre rumos da civilização ocidental, Rorty coloca o pano quente sobre a nossa falando que ela está muito preocupada por ser racista, sexista, imperialista, etnocêntrica. provinciana e intelectualmente intolerante. Grand Dúvida aqui : até onde deve-se ou pode-se ser tolerante ao olhar o próprio umbigo ? Pessoas como o Bush parecem ter a infinita capacidade e estômago para fazê-lo e até rir...


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    [Aeternus:2969] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-04)


    - extroversão e reversão/ saudosa maloca

    Dan pode ser um mau artista, mas tenta ser um artista !...
    Quando escreve obscenidades para o Larry está tentando, como B.B. ( Bertholdinho, não Brigitte Bardot ) stuff para deslanchar. Alice já o inspirara a esse ponto...
    A caminho...falta bojo ! Seja em Alice/Jane, seja em Anna ou em si mesmo. Há preocupações dele, sim, em ter acolhida em seu romance. Talvez sua falha tenha sido Buscar a tal Verdade de dentro da aspereza, da interrogação policialesca....ao invés da poesia, de deixar o mundo chegar. Como quem troca um afago nos cabelos por um questionário da Receita Federal.


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    [Aeternus:2970] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-04)


    - desculpas públicas

    Às quiromantes e tarólogos(as) ! embora o sentido do que eu quis dizer esteja claro no texto de hoje : Alice/Jane se entregaria perfeitamente às belas cartas ilustradas ou permitiria que suas mãos fossem perscrutadas. Nada mais natural para a personagem.


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    [Aeternus:2971] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:Tia Neiva e Tio Visitante

    Gallego hoje está inspirado para a sátira. Criou agora o Tio Caco!
    Acho  que a explicação que o titio deu sobre como incluir matérias no site é mais prática do que a minha. Eu sempre copio daquilo que entra por e-mail ( seleciona, corta, transfere, copia no outro lugar) e nem me ocorreu copiar da pp. lista do site. 

    Sem ser muito oferecida, se vocês de fato pensaram no meu nome para a mesa-redonda do "Olhar", eu topo participar e não precisam pagar nada. Estou ansiosa para ter um pretexto para ir ao Rio, estava pensando em dar um pulinho por aí depois de passado o auge do verão carioca e sem coragem de marcar data e sair por aí! 

    Acho esquisito "interpretar" personagens, mas vou chutar alguma coisa, na linha dos dramas pré-edípicos.
    Alice Ayres/Jane Rachel Smith tem o atrativo da beleza e da disponibilidade que sugere algo "Zen", mas que não é nada "Zen", é "auZente".  O pedido inconsciente dela é ser vista de um modo que possa então ser "descoberta" para além do corpo e naquilo que nem ela sabe o que é .
    Falta-lhe o que Anzieu chamou de "eu-pele" ou talvez o "envelope de pele" que o dermatologista Larry foi o primeiro a demarcar. Ele também percebeu que Alice não queria que ele a visse, mas o Dan. E ele soube devolve-la ao namorado antigo.
    E por que o Dan?  Amor eterno pelo primeiro olhar?  Nada disso.  Um dos sintomas de Alice é não ter esqueleto por trás da pele sem envelope: sua expressão vem pelo tombo, "la chute" ( para implicar com o Florião).
    Já que Dan foi o "Hi, Stranger" que, sem interesse erótico voyeurista especial, a acolheu e dela cuidou, Alice lhe passou o papel de "mamãe ganso" ( aquele objeto primeiro que, ao ver passar o patinho toma pela  sua mãe ). Ela esperava que ele a enxergasse e lhe desse um nome próprio. Ele, cego, estava ocupado demais tentando ser artista e não conseguiu nada. Quando ela percebeu que seu pedido de socorro, o pedido real,  não seria atendido, o desamou de uma vez por todas.Ele deixou de existir para ela, como ela nunca existira para ele.

    Dan? Um adolescente comum, bonitinho, sedutor, sem talento e indefinido: vai empurrando a vida com a barriga indo de uma obsessão para outra.
    Anna? No filme, foi diagnosticada como "deprimida" mas agora não sei se concordo. Tem berço, tem talento, tem beleza. Como toda mulher nestas condições está cansada de levar cantadas e desenvolveu alguma lealdade e capacidade de compaixão. Não sei porque decidiu casar-se com Larry, faltam elementos. Como também não sabemos o que "Aquarium" conta sobre o talento suposto de Dan e da invenção pornô da stripper Alice.  Sua tristeza ( e não, depressão ) está projetada nas figuras solitárias e tristes que fotografa em busca de enxergar sua própria dor. Como aquela sacada dos Beatles adolescentes sobre " all the lonely people, where do they all come from...all the lonely people, where do they all belong" ( to belong: a pertencença que faz existir?)

    A figura mais interessante é Larry. Curiosamente, ele deseja levar o tombo que a Alice, sem o desejar, leva. Ele espera ser sacudido do patamar em que está para alguma surpresa diferente. Bem sucedido, não cai e assiste a queda dos outros.  

    Sei lá, foi o que me ocorreu agora.


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    [Aeternus:2972] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:desculpas públicas

    Não entendi, desculpar o que?
    Lembrei da atriz Maria Schneider nos dois filmes que fez antes de sumir de vez. O Ultimo Tango em Paris e um outro. Sempre solta no mundo, aparentemente despojada...

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    [Aeternus:2973] Mensagem do Grupo38
    -Tio Vania(2005-03-04)


    - se eu soubesse dançar...

    Hoje deixaria de invejar Fred Astaire...Jansy foi minha perfeita-Ginger !
    E ainda dispara mais plenitude, agora que os compromissos me chamam...
    Mas prometo manter o dueto amanhã.
    A desculpa pública foi porque ofereci as mãos de Alice, ao invés do mero e completo conluio que envolve a relação de alguém que vai ao tarólogo !
    Até amanhã...heaven, I'm in heaven / and my heart beats so that I can hardly speak ! / and I seem to find the happiness I seek / when we're out together dancing cheek to cheek


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    [Aeternus:2974] Mensagem do Grupo38
    -Gallego(2005-03-04)


    - copiar e colar

    Geralmente seleciono um trecho de algum texto, aperto o botão direito do mouse e aparecem opções, dentre elas "copiar". Clico. Vou aonde quero colar, aperto de novo o botão e aparece "colar". Clico e o texto aparece no novo espaço. Sempre faço assim em todos os lugares. Aqui, o que aperece é "Cut", "Copy" e "Paste", sendo os dois primeiros "pálidos" (sem a função) e apenas "Paste" com cara de poder ser utilizado. Não consigo, portanto, mesmo que tenha copiado algo, colar este algo aqui neste espaço de digitar no site. posso colar em Word, em e-mail, na testa, mas not here. Isso que estranhei

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    [Aeternus:2975] Mensagem do Grupo38
    -Titio Sukita(2005-03-04)


    - o ser e o nada e o ser a nado

    Tio Caco: eu não quis nadificar a Alice/Jane. Mas ela se nadificou, embora eu tb ache que em busca de construir um novo "ser". Mas daquele jeito, não ia dar certo. Lembrando o Sartre: "O Inferno são os outros" quando a gente se submete à imagem que os outros têm da gente! A Jane Jones entra um pouco neste inferno ("se eles julgam que a um lindo futuro, só o amor nessa vida conduz, saibam que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura de luz..."). Ela reinventa uma Alice-para-o-Dan que tb serviria para a Anna fotografar e para aquele diálogo delas duas que é bem mais franco do que outros diálogos "verdadeiros". Ela tb fala mais "verdadeiramente" com o Larry na frente do retrato dela, mas de modo esquivo, ambíguo e elíptico. Na outra cena dela com ele (a cena no reservado do strip-bar) ela sabe que ele não acreditará que ela está dizendo o verdadeiro nome dela, e diz, porque sabe que ele vai achar que é nome "de guerra" (aliás, parece mesmo). Em resumo, ela tenta uma construção que está mais para falso self, ainda que um falso-verdadeiro, quero dizer, sincero nos propósitos e intenções, mas fadado ao fracasso mais cedo ou mais tarde, não só por ela "jogar mal", mas porque escolheu ou se deixou levar por mau jogador como o Dan se revelou (péssimo jogador, aliás, patético). Já o Larry é tipo: "Vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas...  aprendendo a jogar". OU então: "Só vendo como é que dói, só vendo mesmo como é que dói: trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói! Hei, Cantareira (p´ra quem não sabe, nome antigo dados às barcas da travessia Rio-Niterói pré-ponte), hei, Cantareira, vou aprender a nadar! Hei, Cantareira, Hei, cantareira, Eu não quero me afogar!"


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    [Aeternus:2976] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:copiar e colar

    "Vou aonde quero colar, aperto de novo o botão e aparece "colar". Clico e o texto aparece no novo espaço. Sempre faço assim em todos os lugares. Aqui, o que aperece é "Cut", "Copy" e "Paste", sendo os dois primeiros "pálidos" (sem a função) e apenas "Paste" com cara de poder ser utilizado", escreveu o sobrinho LF e já sei qual é o problema dele: ele acredita em fantasma. 

     O que "aperece" na folha branca está perecido mesmo, pálido e sem função.  Gallego deve usar o travessão ( barra de ferramenta, ou algo assim ) que está no alto da pagina onde tem "enviar", "fechar" na parte que tem um quadrado seguido da palavra Source, depois dois quadrados, tesoura, duas páginas, etc. O segundo desenho depois da tesoura é para colar, o primeiro é para copiar o que você tiver selecionado...


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    [Aeternus:2977] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-04)


    - RE:o ser e o nada e o ser a nado

    Enquanto eu copiava e colava, o sobrinho do Tio Sukita escreveu seu recado. Então...
    Achei a tomada do filme mais interessante aquela da Alice de perna aberta numa das periferias de um círculo e o Larry olhando para o alto onde havia o olho eletronico da segurança pedindo "privacidade"...

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    [Aeternus:2978] Mensagem do Grupo38
    -Cyro Mello(2005-03-04)


    - RE:copiar e colar

    "Geralmente seleciono um trecho de algum texto, aperto o botão direito do mouse e aparecem opções, dentre elas "copiar". Clico. Vou aonde quero colar, aperto de novo o botão e aparece "colar". Clico e o texto aparece no novo espaço. Sempre faço assim em todos os lugares. Aqui, o que aperece é "Cut", "Copy" ...

    Se estiver com dificuldades para copiar e colar, pode usar as teclas também. Ctrl+C (copia) Ctrl+V (cola)

    Tente segurar o botão com mais tempo... Este novo Editor, ele leva um tempinho para buscar as funções no Servidor, mas também pode usar os ícones acima... Prancheta (3 desenhos distintos), coloque o mouse sobre eles, que você entenderá!!!

    []'s
    cyro

    PS: para aparecer mais opções (e não so paste) seleciona o texto e clica em cima dele....


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    [Aeternus:2979] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-05)


    - (im)pertencença(s)

    Acho esquisito "interpretar" personagens, mas vou chutar alguma coisa, na linha dos dramas pré-edípicos. Alice Ayres/Jane Rachel Smith tem o atrativo da beleza e da disponibilidade que sugere algo "Zen", mas que não é nada "Zen", é "auZente".  O pedido inconsciente dela é ser vista de um modo que possa então ser "descoberta" para além do corpo e naquilo que nem ela sabe o que é . Seria o protótipo perfeito da ‘mulher lacaniana’, a tal que não existe ? A que será ‘plasmada’ pelo parceiro ?
    Falta-lhe o que Anzieu chamou de "eu-pele" ou talvez o "envelope de pele" que o dermatologista Larry foi o primeiro a demarcar. Ele também percebeu que Alice não queria que ele a visse, mas o Dan. Este ângulo é muito bonito no filme : o festival de ‘poderia-ter-sido’ e de desperdício de vida. E ele soube devolvê-la ao namorado antigo. Não sem antes passar-lhe o muy amigo rolo compressor. Como eu defini num destes escritos, ele é Esteta da Evidência e Ativista da Revelação. A cena da boate é como se fosse um setting de ressonância magnética, onde haverá um rastreamento da impaciente ‘paciente’. Jansy ressalta o irônico ‘privacidade’. O Atom Egoyan filmara coisa parecida em “Exótica”, onde as moças rebolavam e desnudavam-se sobre as mesas da boate, e igualmente não podiam ser tocadas. Mas ali não havia ‘privacidade’, e sim um grande painel público de freqüentadores babando próximo às strippers.
    E por que o Dan?  Amor eterno pelo primeiro olhar?  Nada disso.  Um dos sintomas de Alice é não ter esqueleto por trás da pele sem envelope: sua expressão vem pelo tombo, "la chute" ( para implicar com o Florião). Isso. “A Queda” mesmo, atropeladita da Silva. A rigor ela passa o filme caindo, como sua homônima das Maravilhas, pois Dan e Anna ‘fazem com que’ escutem-se no estúdio fotográfico, desmantelando os mal iniciados sonhos de sucesso amoroso da moça.
    Já que Dan foi o "Hi, Stranger" que, sem interesse erótico voyeurista especial, a acolheu e dela cuidou, Alice lhe passou o papel de "mamãe ganso" ( aquele objeto primeiro que, ao ver passar o patinho toma pela  sua mãe ). Ela esperava que ele a enxergasse e lhe desse um nome próprio. Aqui é uma festa para o Gallego, Kohut, identificação, self, tals...Ele, cego, estava ocupado demais tentando ser artista e não conseguiu nada. Hmmmm not that simple ! Aberto a diversas especulações. O Dan espera muito também de sua Alice, a chave para um mundo excitante, talvez o das Liliths ( no rosto dele, ao saber da atividade de stripper, o Jude Law deixa perpassar uma curta pausa de aceitação do desafio )Quando ela percebeu que seu pedido de socorro, o pedido real,  não seria atendido, o desamou de uma vez por todas.Ele deixou de existir para ela, como ela nunca existira para ele. Exato : um esboroar de perspectivas. A relação dos dois me lembra aquele lance do vôlei em que o saque do adversário vai passar entre dois defensores, e cada um destes espera que o outro o defenda...( a bola ? já passoooooooou...)
    Dan? Um adolescente comum, bonitinho, sedutor, sem talento e indefinido: vai empurrando a vida com a barriga indo de uma obsessão para outra. Ele está à espreita/espera da Grande Mulher.
    Anna? No filme, foi diagnosticada como "deprimida" mas agora não sei se concordo. O rótulo de ‘deprê’ não inviabiliza outras vertentes e ou qualidades/defeitos.Tem berço, tem talento, tem beleza. Como toda mulher nestas condições está cansada de levar cantadas e desenvolveu alguma lealdade e capacidade de compaixão. Não sei porque decidiu casar-se com Larry, faltam elementos.Por abandono. Como eu também já frisei antes, ela não é l’étrangère e tenta manter apego aos outros.Como também não sabemos o que "Aquarium" conta sobre o talento suposto de Dan e da invenção pornô da stripper Alice.  Sua tristeza ( e não, depressão )concordo : ela é mais triste do que deprimida está projetada nas figuras solitárias e tristes que fotografa em busca de enxergar sua própria dor. Outro rebatimento,  e neste eu não havia pensado.Como aquela sacada dos Beatles adolescentes sobre " all the lonely people, where do they all come from...all the lonely people, where do they all belong" ( to belong: a pertencença que faz existir?) Aqui a discussão entra nas estratosferas! Identidade perfilada a o/um ‘grupo social’ ? Contingenciamento por igualdade, como pretendido pelo regime totalitário ? Ali, naquela Londres-ninguém-é-de-ninguém, vejo Dan e Alice tentando serem mantendo-se suspensos, fora do sistema. Mas ele é por demais suscetível ao encanto feminino, à femme d’à côtè, e Alice responde jogando charme para cima de Larry na vernissage. Não por alguma vendetta ou raivinha, mas adotando alguma identidade como mulher, como o próprio Dan ‘pedia’, consciente ou inconscientemente, de um modo ou de outro...Enquanto ele se absorvia com a fotógrafa, o Larry vampiriza-a ( ali) docemente. Nos meneios, caras e bocas, ela diz ao Dan em silêncio e à distância : “veja como sou desejável e gostosona”.
    A figura mais interessante é Larry. Curiosamente, ele deseja levar o tombo que a Alice, sem o desejar, leva. Bela colocação. O aceite da Internet Adventure já denuncia isto. Ele espera ser sacudido do patamar em que está para alguma surpresa diferente.Novos tecidos, novas lâminas a diagnosticar. Palavras, gritos, sussurros e urros. Bem sucedido, não cai e assiste a queda dos outros. Mas é o algoz que também apanha das vítimas ! Por isso discordei frontalmente de um casal de amigos meus que tacha o filme de machista (!!!???). Larry toma duas trombadas de frente com Anna e Alice. Com ambas começa a perceber que não é preenchendo fichas cadastrais que conhecerá suas essências, sendo que, se com Anna recebe por fim o crivo do ‘real simbólico’ – “o que mais você posso dizer ? fizemos sexo como todos fazem !!!” – com Jane-Rebola-Bola acessa uma anatomia que por mais ginecológica que pareça continua a escondê-la sob véus...Fantástico !
    Sei lá, foi o que me ocorreu agora.

     


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    [Aeternus:2980] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-05)


    - RE:(im)pertencença(s): impertinencias!

    Escrevi num pretinho básico para o vermelho do tio Caco: O pedido inconsciente dela é ser vista de um modo que possa então ser "descoberta" para além do corpo e naquilo que nem ela sabe o que é . Seria o protótipo perfeito da ‘mulher lacaniana’, a tal que não existe ? A que será ‘plasmada’ pelo parceiro ?

    Achei engraçadíssimo o viés involuntáriamente machista do Caco que lhe permitiu acreditar que a mulher lacaniana seria "plasmada pelo parceiro"...Hihihhiii...
      "A" mulher em Lacan é o Falo! 
    Parceiros d´Outro sexo,  para os  homens, só buscando entre as mulheres ( plurais, infinitas...porque a sabedoria do Drácula nos ensina:  Mãe a gente só tem Uma ) 



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    [Aeternus:2981] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-05)


    - dicen que la distancia s'enolvidò

    Tio Caco: eu não quis nadificar a Alice/Jane. Mas ela se nadificou, embora eu tb ache que em busca de construir um novo "ser". Mas daquele jeito, não ia dar certo. Lembrando o Sartre: "O Inferno são os outros" quando a gente se submete à imagem que os outros têm da gente! A Jane Jones entra um pouco neste inferno ("se eles julgam que a um lindo futuro, só o amor nessa vida conduz, saibam que deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura de luz..."). Ela reinventa uma Alice-para-o-Dan que tb serviria para a Anna fotografar e para aquele diálogo delas duas que é bem mais franco do que outros diálogos "verdadeiros". Verdadeiro e belo, pois abraça duas mulheres absolutamente díspares que ali encontram um oásis de respeito e aceitação mútua. Ela tb fala mais "verdadeiramente" com o Larry na frente do retrato dela, mas de modo esquivo, ambíguo e elíptico. Em “Da Sedução” o Baudrillard diz que a dita cuja “é oblíqua”. Em “Closer” quem bate de frente é sempre o Larry. Os outros três são realmente oblíquos...Na outra cena dela com ele (a cena no reservado do strip-bar) ela sabe que ele não acreditará que ela está dizendo o verdadeiro nome dela, e diz, porque sabe que ele vai achar que é nome "de guerra" (aliás, parece mesmo). Espetacular esboço do Patrick Farber : tudo a ver ! E o paroxismo onde tudo leva...há um nítido triunfo estampado na Alice/Jane ali, à vontade em seu mais habitual rôle. Em resumo, ela tenta uma construção que está mais para falso self, ainda que um falso-verdadeiro, quero dizer, sincero nos propósitos e intenções, mas fadado ao fracasso mais cedo ou mais tarde, não só por ela "jogar mal", mas porque escolheu ou se deixou levar por mau jogador como o Dan se revelou (péssimo jogador, aliás, patético). É. Ali ela obtém a Vitória de Pirro. Sairá recheada de libras, a premiar sua esplêndida performance ‘sedutora’, mas sabe-se destroçada. De novo.Já o Larry é tipo: "Vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas...  aprendendo a jogar". O pai de meu amigo roqueiro joga no time da Suely, tachando ambos os personagens masculinos de psicopatas. Não sei o diagnóstico da Suely, mas o Amarílio diz que “quem precisa da verdade naqueles níveis é psicopata ! A mim em nada interessa a verdade...para que serve? E o que alguém diz é tão sujeito a dúvidas que...” ( ‘contaminado’ pelo indizível como em Heidegger ? )  OU então: "Só vendo como é que dói, só vendo mesmo como é que dói: trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e morar em Niterói! Hei, Cantareira (p´ra quem não sabe, nome antigo dados às barcas da travessia Rio-Niterói pré-ponte), hei, Cantareira, vou aprender a nadar! Hei, Cantareira, Hei, cantareira, Eu não quero me afogar!" Meu pai buscou por toda a sua vida o ‘simples’ – seja lá o que for isto...Quando triste com algum fato ou pessoa, por vezes desfiava, sob um olhar perdido e amargo, o currículo de alguém como o teu distinto aí. E esse ‘alguém’ trazia sempre o galardão de “ex-passageiro da barca I da Cantareira”...

     


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    [Aeternus:2982] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-05)


    - a Dama, Lacan, os signos

    Não ouso me aventurar nesse terreno lacaniano. Sou um mero aprendiz.
    A conotação que eu quis dar ali foi em cima daquele 'a mulher não existe, e o homem é sua metáfora'. O tal 'mulheres' dele é que me soa machista, transformando-as numa massa industrial única, tipo massa de pizza, da qual nós, pobres homúnculos-metáforas teríamos direito a nacos...
    Mas pode me bater à vontade, Jansyta...você está no AZUL, FRANCO AZUL...

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    [Aeternus:2983] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-05)


    - RE:a Dama, Lacan, os signos/ signos?

    Tio Sukito me colocou toda em azul!  Quer dizer que estou nel blu ti pintu di blu ( se errei é que não pintu nadica de nada de francês - ou espanhol?), ou com os blues ou a salvo do balancete?
    Nem me aventuro ir além do que já disse sobre a plasmaceira do homem na mulher. Jogos de poder ou identificações entre aquelas coisas cada vez mais pertas ( concordancia presidencial).

    Não ouso me aventurar nesse terreno lacaniano. Sou um mero aprendiz : não entendi a colocação do Caco porque ele ousou aventurar-se sim e depois colocou a interrogação do signo de aprendiz - mas tirou o corpo fora em seguida. 
    Como escreveu um dos muitos Bacons: " What is truth? said jesting Pilate and didn´t wait for an answer" .

    Só posso dizer que Lacan não me parecia motivado pelo preconceito dos generos quando tentou cientificizar seus matemas e escolheu para terceiro algo "impar".
    Uma entre multiplas caracterizações do infinito feminino vem daquela questão biológica ( antes dos testes de DNA ) pela qual só u´a mãe pode saber que é a mãe daquele bebê e o pai precisa uma manobra simbólica para reconhecer no bebê, seu filho.  Se nos impérios podemos ter Rainha Maria I, e depois Maria II, Maria III numa linhagem segura aberta ao infinito, a sucessão dos  Reis Marcos I, Marcos II, Marcos III tem sempre que passar pela operação simbólica.


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    [Aeternus:2985] Mensagem do Grupo38
    -Mister Magoo(2005-03-05)


    - ô (?)Mulher

    ...tô só tentando enxergar a(s) mulher(es)...
    Quanto aos signos, no embalo que você vai o Baudrillard vai te aliciar para umas pesquisas...

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    [Aeternus:2986] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2005-03-05)


    - RE:ô (?)Mulher/ Qui parle?

    Who? 


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    [Aeternus:2988] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-06)


    - de moldes e olhares

    A sintonia fina que eu tentei situar nos tais ‘moldes’ baseava-se e instigava-se na perfeita descrição que Jansy faz de Alice/Jane ‘mulher-sendo-no-mundo’, a que “quer ser descoberta por algo que nem ela sabe o que é”. Nesse sentido, e por ser este um protótipo freqüentíssimo feminino, coloquei a couraça de molde. Sem machismo, sem Sade, sem ‘domínio’(s). De modo geral, é difícil o homem ‘querer ser descoberto’ pela parceira, ser ‘a donzela seduzível’...

    E  lá está nosso Dan querendo ser descoberto por essas mesmas boundaries - dessa forma leio sua conduta. O Chat na Internet mistura um início de sedução quase delicado e acelera em direção ao obsceno como um bólido, denunciando o vazio de sua proposta. Espantei-me, desde logo, com o fascínio do Larry por uma mulher tão – digamos – escrachada. Há que se decifrar, aqui, o rosto do Clive Owen no encontro do aquário, já que ninguém espantou-se com o olhar deslumbrado de príncipe que vai beijar a Bela Adormecida ao deparar-se com uma prometida e surubática Messalina...


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    [Aeternus:3225] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-31)


    - onde começa a escravidão

    Estou estudando Literatura com o Vítor, em preparativo para o teste dele, sobre um livro de Ruth Rocha. Há uma alusão a Umberto Eco ( "a gente precisa tomar cuidado com os personagens que cria, porque depois a gente fica escravo das coisas que inventa" ) e me questionei se a gente já não estaria escravo deles antes...de uma espécie de estufa dos componentes que os geraram, armazenada no inconsciente/pré-consciente...
    Dar vazão a isto criando, claro, é bem melhor do que deixá-los hibernando eternamente. Alternativa(s) ? Parece que somente as pervertidas, né ? E aí, Jansy tem razão quando diz que "arte é perversão"...


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    [Aeternus:3226] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-31)


    - Ao tio Sukita

    "a gente precisa tomar cuidado com os personagens que cria, porque depois a gente fica escravo das coisas que inventa"  e me questionei se a gente já não estaria escravo deles antes... ( Florião)

    E a gente precisa tomar cuidado com quem a gente cativa senão fica com uma raposinha pra acarinhar até o fim como aconteceu comigo quando, na idade das misses, me cativei pelo Saint Exupèry!  

    Sua pergunta está bem colocada, a meu ver. Somos escravos ( você escreveu "estamos escravos"?) dos personagens que criamos desde antes de os gerarmos -  porque eles nunca são criados ex-nihilo ( ideal que só vi explicitado pelo Nabokov que garantia que seus tipos eram como as gárgulas e as cariátides do lado externo das catedrais, inteiramente novos e distintos dele mesmo...). Haveria sempre uma parte de nós projetada no que inventamos, por mais que tentemos nos livrar delas pelo exorcismo da arte.

    Arte e perversão, arte e formação reativa, arte e sublimação... temas de congresso, hem? Mas aquilo que vejo de perverso em qualquer expressão da arte é no bom sentido: é o distanciamento do que é "natural" para nos inventarmos no impossível.


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    [Aeternus:3227] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-31)


    - arte adequadamente pervertida ?

    O perigo é quando o artista ( ou pretenso ) permite um transbordamento excessivo - por mero entusiasmo ou por perversão pessoal, mesmo...- e a coisa degenera.
    Mesmo bons realizadores derrapam aqui, vez por outra ( ninguém é de ferro ) e precisamos 'absolver 'isto, dentro do possível. No caso a paranóia em Kubrick, a PMD em Bellochio, o pavonismo em Welles, Coppolla, Brian de Palma e Visconti, o excesso escatológico em Marco Ferreri. Mais difícil perdoar defeitos nos basicamente 'ruins', nos auto-sobrestimados, como Zefirelli, Zemekis, ( ZéZé Camargo&Luciano...) que acham que são mas não são.
    E há o curioso oposto : o mais-humilde-do-que-deveria, aquele que passa a nós o sentimento de que poderia ter ousado mais...


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    [Aeternus:3228] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-03-31)


    - RE:arte adequadamente pervertida ?

    Marcos Florião, está deixando de lado seu ralado lado dionisíaco para propor a adequação apolínea?  Precisamos tomar uma taça de vinho depressinha. 

    É preciso um limite para que se possa transgredi-lo ou então deixá-lo nos demarcar pela correção.Resumindo: transbordamento, seja uma gota ou um oceano, sempre será excessivo e nem todos podem, como se argumentou a respeito de Nietzsche ( na revista Trieb na edição Cinema 2004, grandemente enriquecida pelo nosso mestre Gallego e com o depoimento da mãe da Tande sobre o filme do F.N em Turim ), fazer da loucura o máximo da afirmação conseqüente às próprias teses.

    PMD ( bipolar) ou  Paranóico, cada um que for artista também que se expresse através destas lentes.  E ...os perversos também são gente. O que degenera num filme degenerado? O que se fez, está feito. O efeito do feito cai sobre nós e a responsabilidade passa a ser nossa.

    Sei que estou chovendo no molhado, um outro tipo de transbordamento...


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    [Aeternus:3229] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-03-31)


    - RE:RE:arte adequadamente pervertida ?

    Claro - cinema não mata ninguém. Às vezes quase, de tédio...pela ruindade de alguns filmes.
    A 'doença' a que me referi mesmo nos mestres não os invalida enquanto realizadores : é apenas uma lamúria. A esquizo de Fridrisch Nietzsche está muito, muito aquém de sua genialidade, assim como seus eventuais transbordamentos. Praticamente trata-se de fato estanque. Só uma mentalidade religiosa clássica pode considerar causa/efeito aqui, na linha 'castigo divino' e afins.
    Uma mitologia como, por exemplo, a que impõe a Sísifo carregar suas pedras por ter descumprido normas dos deuses, funciona bem melhor como simples paradigma do que antes atrelada à alguma 'teoria teológica'.
    Falei de carteirinha sobre os diretores perversos/maniatiformes pois simplesmente...simpatizo com esses seres ruminando seus viziettos, a nos instigar e provocar. Muito melhor metabolizar tudo isto dentro de nós do que dicotomizar mundo ruim lá X mundo bom cá, posição adotada pelos self-fracos, pelos que não tem um mínimo de juízo crítico.

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    [Aeternus:3230] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-03-31)


    - RE:arte adequadamente pervertida 3

    Que sejam soliloquazes ou soliloucos estes artistas são ainda assim generosos enquanto tentam dividir seus gozos estranhos conosco, mesmo quando nos confundem com pedaços deles próprios. É como se ainda tivessem esperança na força da comunicação e soubessem se disciplinar para agarrar a técnica. 
    E lhe dou razão pela sua bronca sobre a avaliação "otimista" do destino de Frederico Nietzsche, quando você observou: "a esquizo de Fridrisch Nietzsche está muito, muito aquém de sua genialidade, assim como seus eventuais transbordamentos. Praticamente trata-se de fato estanque".

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    [Aeternus:3231] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-04-01)


    - RE:RE:arte adequadamente pervertida 4

    É como se eles se movessem num espaço mágico, encantado. Nietzsche e seus Dyonisos e Zarathoustras, Nabokov e suas gárgulas...
    A esquizo é corriqueira, com todo a seu séquito trágico, assim como a febre amarela do Port, a espada que perfura Mercutio de forma "suficiente", ou o veneno de Romeu e Julieta.
    ( a propos ) O Renen, um coleguinha de 11 anos do Vítor, assisitiu ontem "O Casamento de Romeu e Julieta", produção nacional em cartaz. A Ana espantou-se com a escolha dos avós dele - "pôxa !...o casamento de Romeu e Julieta ?!" - e ele : "é muito bom : tem muito palavrão."

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    [Aeternus:3232] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-04-01)


    - RE:RE:RE:arte adequadamente pervertida 5

    Corrijo injustiça : o 'Renen' não é um 'nenen', é um bom menino aos seus 11 anos. E é um bom amigo do Vítor.


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    [Aeternus:3233] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-04-01)


    - e se chama

    Renan.

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    [Aeternus:3243] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-04-02)


    - Bauman, identidades e especialistas

    ( antes da tempestade ) ( Pergunto à tropa psicanalítica se, diante da pressa pós-moderna, e da clássica postura não-paternalista que caracteriza o campo : como lidar com a premência decorrente do material que transcrevo, a partir de Bauman ? )

    “São as incertezas concentradas na identidade individual, em sua construção nunca completa e em seu sempre tentado desmantelamento com o fim de reconstruir-se, que assombram os homens e mulheres modernas, deixando pouco espaço e tempo para as inquietações que procedem da segurança ontológica. É nesta vida, neste lado do ser ( se é que absolutamente há outro lado ), que a insegurança existencial está entrincheirada, fere mais e precisa ser tratada. Ao contrário da insegurança ontológica, a incerteza concentrada na identidade não precisa nem das benesses do paraíso, nem da vara do inferno para causar insônia. Está tudo ao redor, saliente e tangível, tudo sobressaindo demais nas habilidades rapidamente envelhecedoras e abruptamente desvalorizadas, em laços humanos assumidos até segunda ordem, em empregos que podem ser subtraídos sem qualquer aviso, e nos sempre novos atrativos da festa do consumidor, cada um prometendo tipos de felicidade não experimentados, enquanto apagam o brilho dos já experimentados.

    Os homens e mulheres pós-modernos realmente  precisam do alquimista que possa, ou sustente que possa, transformar a incerteza de base em preciosa auto-segurança, e a autoridade da aprovação ( em nome do conhecimento superior ou do acesso à sabedoria fechado aos outros ) é a pedra filosofal que os alquimistas se gabam de possuir. A pós-modernidade é a era dos especialistas em “identificar problemas”, dos restauradores da personalidade, dos guias de casamento, dos autores de livros de “auto-afirmação”: é a era do “surto de aconselhamento”. Os homens e mulheres pós-modernos, quer por preferência, quer por necessidade, são selecionadores. E a arte de selecionar é principalmente em torno de evitar um perigo : o de perder uma oportunidade – por não vê-la bastante claramente, ou por não persegui-la bastante incisivamente, ou por ser um agente de demasiada inexperiência para capturá-la. Para evitar esse perigo, os homens e mulheres pós-modernos precisam de aconselhamento. A incerteza de estilo pós-moderno não gera a procura da religião : ela concebe, em vez disso, a procura sempre crescente de especialistas na identidade. Homens e mulheres assombrados pela incerteza de estilo pós-moderno não carecem de pregadores para lhes dizer da fraqueza do homem e da insuficiência dos recursos humanos. Eles precisam da reafirmação de que podem fazê-lo – e de um resumo a respeito de como fazê-lo.”

                                                                                ( os grifos são do autor )


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    [Aeternus:3244] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-03)


    - RE:Bauman, identidades e especialistas

    Florião, ontem estive em Goiania para ler meu trabalho sobre " Barbárie e Identidade" e infelizmente, a coincidência do tema, apesar da caprichosa citação ao Bauman, me deixou sem inspiração. Espero que algum especialista compareça em meu lugar...

    Com o grupo debatemos algumas propostas interessantes sobre a reavaliação do próprio termo "narcisismo", carregado demais pela imagem de Narciso olhando à própria imagem. Freud sempre falou do narcisismo a partir dos investimentos de energia psíquica e sexual, ou seja, direcionamento da libido que podem se dar sobre fragmentos de imagem ( não totalizada, ou seja, um fetiche de si próprio) ou ainda,  sobre pedaços do mundo que substituem o "eu" ( veja a fúria que um amante de carros sente quando alguém risca ou deixa marcas vidro do seu modelo recém adquirido...)  mas, com a escolha da palavra "narcisismo", ele acabou indicando um caminho equivocado, tanto que tem psicanalistas como André Green precisando falar de narcisismo de vida e de morte, narcisismo saudável ou doentio... A relação entre narcisismo e identidade é bastante complexa.

    Então, como quem não quer nada, tiro o corpo fora!


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    [Aeternus:3245] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-03)


    - RE:RE:Bauman, identidades e especialistas

     Gostei muito das observações críticas de Jansy ao fascinante termo "narcisismo".
    Tal como no "Édipo", houve uma pseudo-facilitação didática para a compreensão de determinados aspectos da vida mental descrita por Freud; mas os mitos são polissêmicos, não se deixam "amarrar" numa única compreensão e escapam aos usos e abusos que fazemos deles. Constituem uma forma de sabedoria pré-científica abrangente, talvez até mesmo "sem limites", o que lhes retira a qualidade de "techné" ou mesmo de "episteme", e os deixe, talvez, no terreno de um possível uso à moda da sabedoria de "pronesis". No caso do Narciso, temos inclusive a interessante interpretação de que o narcisismo pode ser - ao contrário do manifesto aparente - uma falta de amor-próprio ou auto-estima, ou seja, o belo rapaz se apixona por uma imagem virtual que ele desconhece ser ele-mesmo; ou seja, ele se apaixona por um pseudo-outro que não existiria, aparece e desaparece nas superfícies da água e se desfaz quando se tenta tocá-lo: ele, Narciso, não se IDENTIFICA com aquela imagem. Bem que Jansy ressaltou: "A relação entre narcisismo e identidade é bastante complexa."
    A própria noção de "identidade" é bidirecionada: existe a identidade "idem", de mim comigo mesmo, eu sempre sendo o mesmo que fui e que serei ao longo da minha curva de vida - a criancinha, o bebê que fui, o velho que (espero!) serei, o adulto que sou, o mesmo ao longo do tempo, apesar das m udanças físicas e mentais; e existe a identidade "ispis", uma identidade social: eu me vendo como um semelhante aos outros seres humanos, e mais ainda aos seres humanos do meu grupo psico-sócio-econômico-cultural, e mais ainda, aos amigos queridos com os quais me identifico, supondo que sou mesmo muito parecido com eles e eles parecidos comigo - o que nem sempre é verdade  - e viva a diferença!
    Kohut achava este conceito de identidade ligado à psicologia social, pouco "psicanalítico", considerando esta suposição de semelhança quase igualdade ao(s) outro(s) como uma forma ilusória do self (fantasias alter-ego - ou de "almas gêmeas" em paulocoelhês & cia), tão necessária em fases precoces do desenvolvimento psíquico  quanto passível de ser revista como um sistema ilusório e não necessariamente uma realidade objetiva. Já a identidade consigo mesmo na longitude da vida, ele achava que era mais bem conceituada pelo conceito de self que ele passou a vida tentando conceituar melhor, de formas mais próximas à experiência a formas mais abstratas-teórico-conceituais.
    Gostei muitoi da observação de Jansy que reproduzo aqui, onde ela lembra o "narcisismo a partir dos investimentos de energia psíquica e sexual - ou seja, direcionamento da libido - que podem se dar sobre fragmentos de imagem ( não totalizada, ou seja, um fetiche de si próprio) ou ainda,  sobre pedaços do mundo que substituem o "eu"."
    Kohut relembra a fase fálica do desenvolvimento psicossexual do bebê (na teoria psicanalítica clássica)  como uma fase de grande manifestação narcísica. O pênis como falo e fet6iche na "cultura" ou no imaginário gaý pode ser um exemplo desta metonímia de tomar a parte como se fosse o todo, parte esta superinvestida.


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    [Aeternus:3246] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-03)


    - RE:Bauman, identidades e especialistas, n. 3 para não dar risada

    A resposta do Gallego foi plena, erudita e galleguica: construiu sobre Bauman, Freud e até meus pecadinhos ( anagrama involuntário de "pedacinhos" . Obrigada inconsciente no espelho meu que, no espaço profundo, revela ao mundo quem lapsa mais lindo do que eu!!! ( ele responderá: A Branca de Neve, claro... )

    Acho admirável o conceito freudiano de narcisismo primário, que é aquele que todos humanos precisam retomar a cada dia -  ao adormecerem para se desligarem do que está no mundo e se voltarem para dentro... Deve ser esse tipo primário que sinto ativado em mim quando vou ao cabeleireiro, por exemplo, e ele saltita em volta de mim, corta daqui e dali e conclui emocionado ( referindo-se ao penteado que elaborou): - Que beleza!  enquanto que eu ( qual eu em mim naquela alienação toda?) -  me sinto emocionada junto com ele, como se a beleza tivesse algo de real ou se referisse a algo "meu" entrevisto naquela cara que surge no espelho...

    Creio que Gallego está remetendo a algo importante sobre o conceito de identidade, construido numa época em que não se reconhecia a importancia das impressões digitais ou havia teste de DNA. Era necessário que houvesse algo constante que caracterizasse como único um determinado indivíduo e se supunha que identidade seria como a igualdade: uma figura corresponder a uma outra ponto a ponto. Atualmente é que se pode entender diferente e, assim, supor que a "identidade" que nasce da primeira jubilosa experiência de totalização do corpo fragmento visto inteiro no espelho não é a modalidade de  "identidade", ou a sua alienação, que nos servirá para o resto da vida.  Hoje a identidade pode ser mesmo só um pedacinho deste todo, uma célula clonável, um trechinho da imagem do fractal que repete a mesma informação em cada nivel. Um invariante que se desenvolve isolado do ambiente, feito a alma dos recém-natos...


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    [Aeternus:3247] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-03)


    - RE:RE:Bauman, identidades e especialistas, n.4 para os que ainda tem cabelos

    ...como a feliz Jansy, que pode servir de cobaia para desmunhecados cabeleireiros !
    Enquanto isso, nós ( descabelados carecóis do meu Brasil ! ) ficamos ainda mais carecas, não fosse Grand Sumido Davy e suas 2 ou mais verdades.
    E ainda bem que Jansy frisa o caquito de narcisismo que resta vagando pela aí, de bar em bar. Mesmo por que...dentre as manias que eu tenho, uma é gostar de você.

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    [Aeternus:3248] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-03)


    - RE:Bauman, identidades e especialistas, n.5 e carecóis

    Virei "mania do gostar"?  Não se embrenhe nos carecóis dos descabelos: aceito a carinhosa manifestação, que retribuo com alegria.  


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    [Aeternus:3249] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-03)


    - RE:RE:Bauman, identidades e especialistas, n.6

    Jansy mandou ver: Atualmente é que se pode (...) supor que a "identidade" que nasce da primeira jubilosa experiência de totalização do corpo fragmento visto inteiro no espelho não é a modalidade de  "identidade", ou a sua alienação, que nos servirá para o resto da vida.  Hoje a identidade pode ser mesmo só um pedacinho deste todo, uma célula clonável, um trechinho da imagem do fractal que repete a mesma informação em cada nivel. Um invariante que se desenvolve isolado do ambiente, feito a alma dos recém-natos..."

    É interessante a importância dada à metáfora do espelho em Winnicott, Lacan e Kohut (dentre outros, provavelmente muito mais ainda). Para Kohut a patologia está na fragmentação do self, ou seja, na perda da coesão, vitalidade e harmonia do self, algo semelhante a um (como que) retorno à fase anterior à tal "experiência de totalização" mencionada por Jansy. Se é no espelho (coisa) como fica sugerido em Lacan, ou se é no "espelho" do olhar da mãe ou caregivers (uma vivência muito menos concreta do que se olhar no espelho de aço ou cristal e se perceber "inteiro", integrado) como fica sugerido em Kohut e euponho eu em Winicott, it doesn't matter at all. O que fica como elemento interessante de ser pensado é a questão da integração e da fragmentação. Para Kohut a fragmentação do self precede o splitting do objeto (ou selfobjeto) em "bom" ou "mau" invertendo a ordem dos fatores kleinianos. Altera o produto? Daí a "se desenvolver isolado do ambiente" como jansy citou, eu não entendo.

     


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    [Aeternus:3250] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-04)


    - RE:Bauman, identidades e especialistas, n.7

    Gallego, você é injusto com Lacan e Klein.
    Quando Lacan descreve a organização imaginária do bebê ao mirar-se no espelho, ele inclui o espelho do olhar e da fala da mãe que pode substituir o espelho material. Ele descreve o "corps morcellé" do infante, nesta etapa, mais em termos da imaturidade neurológica ( não há suficiente integração do sistema nervoso para ter constituída aquela imagem que testes como o de Lauretta Bender estudam, ou sei lá se falta ainda mais extensamente, como seria no "homúnculo de Penfield"...) 

    Você também questiona: " Para Kohut a fragmentação do self precede o splitting do objeto (ou selfobjeto) em "bom" ou "mau" invertendo a ordem dos fatores kleinianos. Altera o produto? Daí a "se desenvolver isolado do ambiente" como jansy citou, eu não entendo".

    Para Klein, ao nascer o ego é rudimentar e fragmentário. Para Freud é " inicialmente, um egocorporal", mas até para Freud  a entrada em cena do objeto é secundária já que primeiro o ego se identifica com o que é externo/ agradável, tomando este "bom" como extensão de si próprio, se é que podemos nos expressar assim. O bebê também vê como externo/mau não apenas o que seria desprazeroso advindo do mundo externo, mas as partes de si doloridas que nele projeta: no início o bom é todo do bebê e produzido pelo bebê e o mau,até a fome e a angústia, é toda do mundo externo. Nem existe nada além disso mesmo: bom/interno e mau/externo e as etapas são "ego prazer", "ego realidade" e "ego prazer purificado"  - só não sei dizer onde consta, talvez nos Tres Ensaios, mas acho que é em outro artigo). Para Klein o ego passa por uma construção inicial chamada "esquizo-paranóide" e não se fragmenta porque já começa fragmentado. Será pela projeção das partes, fora sua incapacidade de perceber qualquer totalidade, que se depara com objetos fragmentados fora de si e os incorpora fragmentados para dentro de si. 
    Não é muito produtivo dizer quem falou o que antes de quem. Na minha humilde opinião, Freud traçou originalmente todos os caminhos que outros trilharam, mesmo quando não teve tempo de desenvolve-los. Klein seguiu Abraham que seguiu Freud...

    Quanto ao que escrevi sobre " se desenvolver isolado do ambiente", referia-me ao que apontei como sendo a matriz ou padrão genético da formação de uma imagem: o DNA. A partir de um grão de mostarda saberemos com certeza que dali só nascerá um pé de mostarda, mas se ele se desenvolverá assim ou assado com tais e tais particularidades vem depois através da interação com o ambiente. 

    Esta frondosa mostardeira com tres galhos e uma ramagem depenada de um lado e chamuscada de outro que invento agora pode até deixar de parecer uma mostardeira, mas por cada célula que restar ainda saberemos que pertence à espécie da mostarda.  Este é o que considerei o "invariante" físico. E minha questão era se existiria um "invariante psíquico" também que persistiria apesar das intempéries do mundo (  O problema do meu exemplo com uma árvore é que não apenas a árvore não tem nada além da aristotélica anima vegetativa e nada de psíquico, como qualquerinvariante de uma árvore seria ainda algo mais próximo do genérico do que do "individualizado". Afinal, no ser humano já e sempre seria algo "individual"...  )


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    [Aeternus:3251] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-04)


    - RE pro PS de Bauman, identidades e especialistas, n.8

    Não vou corrigir erro por erro, palavras aglomeradas ou letras a mais ( ao nascer o ego é fragmentado, devia ser quando nasce o bebê, seu ego é... e, bem no final,  em vez de "no ser humano já e sempre seria algo "individual"..."  preferia ter escrito:  " no ser humano isto já e sempre seria..."

    Bau-man é construtor ou seja, um homem de construção ( brinquei com isto numa mensagem). Agora temos ainda um  Baum/an , este agora qualquer coisa com uma árvore ( Baum) ...


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    [Aeternus:3252] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-04)


    - RE:RE pro PS de Bauman, identidades e especialistas, n.8

    Em homenagem ao '8' acima e à harmonia, nada mais adequado do que Bauman ser 'construtor' e 'árvore' ! As duas vertentes mais instigantes nessa linha de idéias - o 'embate' narcísico intrapessoal ( chamemos assim o intrincado processo...) X a 'psicologia social' (e) os clones narcísicos passeando de camisa listrada pelaí. A esse respeito, vou pinçar o discurso delirante de Baudrillard e tentar compactá-lo, ele que tanto proclama o fractual como emblemático de nosso tempo.

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    [Aeternus:3253] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-04)


    - Bauman e Baudrillard

    Narcisicos de camisa extralistrada versos intracísicos?

    Na história do nascimento do indivíduo a partir do grupo social contada por Freud surge o bardo que canta os feitos da morte do Pai da Pátria e que seduz à turma a cantar e dançar segundo sua lira.
    Borges descreve o despatriamento do guerreiro que perde companheiros de luta e o seu senhor e através dos primeiros textos britanicos ele confirma aquilo que Freud encontrou no mito da horda primeva.
    Hoje estamos voltando àquela época. E quando se esperava que a igreja católica com seu recém-morto papa carismático indicasse alguma coisa na via da moderna desindividualização, nota-se o contrário, vê-se que o ponto de vida do indivíduo vem especialmente dali ainda em cima da construção da "alma individual" e da "ressurreição do corpo".
    Os narcísicos de camisa do vasco ou da Benetton ainda estão perdidos em busca dos seus pedaços...


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    [Aeternus:3254] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-04)


    - não fui injusto, mas ignorante

    Em resposta a Jansy que me sapecou de injusto, tenho a esclarecer que antes de ser injusto fui ignorante. Minha pequena familiaridade com alguns autores induz a erros que também vejo se repetirem no que dizem de Kohut sem nem tê-lo lido direito.
    Mas é que em Klein sempre ouvi como muito valorizado o empobrecimento do self pela projeção das partes ruins na posição esquizo-paranóide, o que me fez pensar que ela priorizasse a divisão do objeto como precedendo o empobrecimento e splitting do ego. Quando deve ser uma espécie de círculo vicioso onde nem ovo nem galinha vêm em primeiro lugar mas realimentam.
    Quanto às limtações neurológicas de percepção do bebê consideradas por Lacan, acho que terá sido algo que Klein nunca levou muito em conta. O ego do bebê kleiniano já é tão competente para tantas operações que teríamos que questionar com que substrato orgânico (neurológico) consegue tantas coisas. Mas em resumo, acho que os diferentes bebês das variadas teorias psicanalíticas são uma outra mitologia, além da mitologia da pulsão. Hipóteses mais ou menos razoáveis sobre o que se passa no mundo infantil. De qualquer forma, me penitencio por meus enganos de avaliação de autores que tenho estudado menos ou nuna estudei muito.


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    [Aeternus:3255] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-04)


    - RE:não fui injusto, mas ignorante. Eu também me junto a sua turma

    A situação descrita por Klein é como Gallego resumiu no final: um círculo vicioso de projeções e introjeções nos quais voam partes do ego e do objeto pra todos os lados. O que é patológico, segundo ela, é o desequilíbrio, a desmesura. O splitting em si é fundamental, o excesso de splitting promove a doença. A projeção é a base da percepção do mundo, mas se for demais, o mundo desaparece. E assim por diante. 

    No entanto, há muito tempo já não leio Klein e desisti de acompanhar os "novos kleinianos" cada um puxando o bebê pra sua banheirinha.  Ao Freud retorno de vez em quando e com enorme prazer e gratidão. Ao mesmo tempo, a cada volta vejo o quanto já esqueci que não deveria, mas o que se desfez  não faz falta para o exercício clínico.  Então, prefiro falar mais do que acontece a minha volta e do que, tendo restado pela longa prática, me permite ver alguma coisa fazendo um sentido novo neste novo mundo de agora. Acho que partilhamos tal pretensão em nossas conversas em geral, não é?


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    [Aeternus:3256] Mensagem do Grupo38
    -Jansy(2005-04-06)


    - ?Etologia para winnicottianos

    Davy, estou com saudades então vou lhe enviar uma provocação. Estava hoje à mesa do café e meu novo gatinho ( o Pipoca ) tentou pular no meu colo, não acertou direito porque se atrapalhou com o teto no tampo da mesa e as dobras da toalha e se estabacou no chão. Tentou outra vez, acertou e começou a ronronar bem assentado e feliz.
    Pergunto: Se eu nunca dei palmadas nele como foi que aprendeu a não se segurar em mim com as garras? Ainda pequenino, vivia nos furando com as unhas afiadas e nós nos crispávamos, entre o rir e a zanga. Agora ele prefere se arrebentar no tombo do que nos ferir.

    Esta sacação da dor do outro, é uma sacação da dor do outro pelo gato? Um impulso "altruísta" quando cai e evitar nos ferir? 


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    [Aeternus:3257] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-06)


    - RE:?Etologia para winnicottianos

    ...( e antes do conclamado pronunciar-se )
    Assistindo os últimos rumos nacionais, e tendo em vista esse altruísmo felino, fico a desejar que um dia permita-se que os chamados irracionais concorram à presidência da República, contra seres humanos.

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    [Aeternus:3258] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-06)


    - enquanto os gatos se comportam como lordes

    Bauman diz que :
    (...)existe pouca coisa que o indivíduo possa fazer hoje para assegurar o atingimento de resultados que ele ou ela deseja manter amanhã. Viver em um Risikogesellschaft ( o termo, extremamente apropriado, cunhado por Ulrich Beck ), podemos dizer, repercute na experiência pessoal como Risikoleben. Como o exprimem Beck e Elisabeth Beck Gernsheim, “as certezas fragmentaram-se em perguntas que estão agora rodopiando na cabeça das pessoas. Porém, é mais do que isso. A ação social necessita de rotinas em que seja sancionada.” Mas é
         precisamente esse nível de “habilitações coletivas”, pré-conscientes, de questões
        tidas por certas que está subdividindo-se num grande número de possibilidades a
        serem ponderadas e negociadas. A camada profunda de decisões excluídas está
        sendo forçada para cima até o nível de tomada de decisões. Daí a irritação, o
        incessante atrito da ferida aberta – e a reação defensiva, e agressiva(...) A vida
       perde o seu caráter evidente por si mesmo.
    Ao tentar apreender a identidade enfurecidamente evasiva, exigida com o mesmo poder sobre-humano com que é negada, os indivíduos travam uma batalha perdida. Daí a irritação que interrompe e envenena as alegrias de seus sucessivos avatares. O que torna ainda mais vaga a perspectiva de uma cura completa é o fato de que os indivíduos, dilacerados entre a liberdade inebriante e a incerteza aterrorizadora, almejam o impossível. Eles querem nada menos do que desfrutar de duas vantagens – saborear e exercer sua liberdade de escolha, ao mesmo tempo que têm o “final feliz” garantido e os resultados assegurados. Seja qual for o nome que selecionem para dar à sua preocupação, o que os indivíduos verdadeiramente ressentem é o risco inato à liberdade. Seja como for que descrevam seus sonhos, o que eles almejam é uma liberdade livre de riscos. A dificuldade, porém, é que a liberdade e o risco aumentam e diminuem somente em conjunto. Assim, a solução definitiva para o transe do indivíduo não tem possibilidades de ocorrer.

    ( Jansy pode discorrer algo sobre os termos alemães, sem tradução, e que em minha pesquisa dizem algo como ‘Sala de Reunião de Riscos’ e ‘Risco de Viver’; e ainda, voltando ao narcisismo projetado em clones e apêndices, sobre essa ‘economia da irritação’ diante da impossibilidade liberdade> risco 0/ou< )


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    [Aeternus:3259] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-04-07)


    - RE:enquanto os gatos se comportam como lordes

    Marcos, dois comentários sobre a citação de Bauman.

    1 - Para meu espanto, nem o Bauman entendeu o significado de "paradoxo" que Winnicott tanto emprega. Por isso ele analisa situação como um beco sem saída, e fala como se estivesse apenas assinalando a falência da razão. O fato é que a "razão" é um mito inventado por Platão-Descartes, um mito tão belo e tão bom, que a humanidade (ao menos o Ocidente) caíu de boca nessa promessa-falácia. O paradoxo consiste em olhar para os dois lados ao mesmo tempo, considerar os dois lados ao mesmo tempo, viver no espaço transicional todo o tempo. Quando Bauman diz que "Seja qual for o nome que selecionem para dar à sua preocupação, o que os indivíduos verdadeiramente ressentem é o risco inato à liberdade. Seja como for que descrevam seus sonhos, o que eles almejam é uma liberdade livre de riscos", ele não se dá conta da questão do paradoxo e da transicionalidade, senão ele apontaria esse aspecto imediatamente.

    2 - Explicando melhor: Hà muito tempo me dei conta de que Liberdade e Segurança fazem uma série complementar. Sua soma dá 100. Quando um aumenta, o outro diminui - inevitavelmente. O que Bauman diagnostica, sem saber, é uma das "doenças da transicionalidade", que eu venho perseguindo há muito tempo para conseguir entender, e que consiste em levar a vida num plano mental em que as coisas ou são isso, ou são aquilo, quando na verdade, como eu disse há algum tempo e você tanto gostou, "a verdade é sempre duas", ou seja, paradoxal, ou seja, transicional. Veja se, considerando esse outro modo de entender, tudo que ele diz não fica mais claro.

    Um grande abraço.

    Davy.


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    [Aeternus:3260] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-07)


    - RE:enquanto os gatos, eu... se pudesse

    Há uma frase esperta da qual Davy acaba de me fazer lembrar, embora não me recorde do autor ( Manoel Barros?). Ei-la

    " Eu, se pudesse, ia cada um prum lado" 

    Nossa racionalidade é colorida pelo sentimento e, portanto, fora do espaço da suposta "neutralidade científica", é sempre ambigua ou ambivalente. Não é esta a base da fala freudiana com ranço do iluminismo quando busca retirar a dimensão prazer/dor primária para alcançar o secundário processo do "pensar claro"?

    Então, deixeu ir pro outro lado.


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    [Aeternus:3261] Mensagem do Grupo38
    -Davy via Jansy(2005-04-07)


    - RE:Etologia para winnicottianos 3

    Davy me enviou, com cara de Aeternus, mas pro endereço particular, a seguinte mensagem sob o título da "Etologia para Winnicottianos":

    Jansy, essa é boa. Miauuuuuu.
    Então o cão é o melhor amigo do homem, e o gato, o melhor amigo da mulher...
    Bem, hum, agora falando sério, Winnicott chama a isso que o gato fez de 'concern', a capacidade de levar o outro em consideração, de importar-se com ele. Ao estágio anterior ele chamou de 'ruthlessness', que é o avesso do 'concern', ou seja, a incapacidade de importar-se com o outro, etc. Um dia eu estava na minha casa num prédio que ficava na Lagoa, mas de costas para a Lagoa, ou seja, de frente para aquele morrinho que fica ali atrás, aquele que chamam 'da Catacumba'. Havia muitas árvores, e muitos passarinhos. E eis que um casal de gaviões resolveu mudar-se para lá. Passei algum tempo furioso, planejando matar os malvados gaviões, porque eles iriam infernizar a vida dos passarinhos. Mas nesse tal mencionado dia eu estava ali na varando olhando os gaviões e odiando-os, quando tive um insight: Mas porra, disse eu, do que é que os gaviões irão viver se não comerem passarinhos? E nesse dia eu entendi que 'ruthlessness' significava isso - a capacidade de destruir e matar sem qualquer ódio, sem qualquer maldade, pelo simples fato de que é assim que se vive. Os gaviõe comem passarinhos (ou seus filhotes) do mesmo modo como os passarinhos (ou seus filhotes) comem minhocas e insetos.
    Contei isso tudo para dizer que, em relação a animais, entendo mais de 'ruthlessness' que de 'concern'. No entanto, a mãe jacaré carrega os filhotinhos (minúsculos, em relação a ela) na boca e não machuca nenhum no caminho para a água, a mãe leoa carrega os filhotes pelo cangote com os dentes e certamente jamais partiu o pescoço de nenhum, e a mãe cadela dá mordidas nos filhotes que teimam em mamar depois que passou o prazo, e tampouco machuca algum deles. E os cães em geral (fora dobermans, rothweilers, pit-bulls e filas) mordem o dono para protestar contra alguma coisa, mas não enfiam os dentes na pele, apenas causam a dor necessária para o protesto ser percebido. Quanto a gatos, sempre achei que eles eram totalmente destituídos de 'concern'. Claro que gostam do dono (ou da dona), claro que se apegam, e isto é um 'concern', sem dúvida nenhuma. Mas pela minha pouca experiência com gatos, nunca vi gato algum ter pena de mim na hora de me 'acariciar' com as garras. Mas também não sei de gatos que mordam os donos do jeito que eles são capazes de morder a comida, ou algum adversário. Portanto, é bem provável que gatos também se importam. Mas o teu gatinho talvez não tenha tido o tempo de se 'agarrar' (isto é, de enfiar as garras). Talvez tenha sido só isso, já que é um gatinho, e não um gato adulto. Mas talvez você esteja certa e seja uma manifestação clara de 'concern' por parte dele. O que me espanta por ser um gato, como eu disse antes, mas não por ser um bicho (não 'humano'). Nesse último sentido, estou inteiramente de acordo com o Marcos. Nenhum animal conseguiria fazer tanto mal a tanta gente quanto certos 'pais da pátria' que andam por aí. Winnicott tem uma frase engraçada sobre isso: Uma pessoa saudável não consegue ser nem tão canalha nem tão boazinha quanto o consegue uma pessoa doente. Daí...
    Davy

    E respondi:

    Um dia meu gato fez a mímica de ataque contra um dos meus filhos, porque o pai estava brigando com ele por causa de algum mal-feito. Assustado, o menino se encolheu e os irmãos fizeram involuntáriamente um circulo em volta dele.  Foi nessa hora que o gato foi lá no meio daquele círculo, estendeu as garras e fez fffffff em sintonia com a bronca do dono. Depois saiu sem atingi-lo porque "sentiu o clima".
    Este mesmo gato ( 14 anos na minha casa ) um dia salvou um filhote de outro gato que eu havia trazido para casa e que ele detestava como rival. Um cachorro o atacou e então  Golgi ( o tal de 14 anos de casa)   veio dando pinotes, torcido de banda e eriçado para afastar o cão do filhote. Foi emocionante, parecia uma entrada do Zorro montado num cavalo. Naquele dia tive certeza que gatos são gente.

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    [Aeternus:3262] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - triangulo com Davy e Jansy na corda bamba

    O ensaio que ora termino de ler ( “O Mal Estar da Pós-Modernidade” ) foi editado em 1997. Pode ser que Bauman ‘redima’ a porta de saída em Winnicot, a respeito das angústias de nossa época, em “A Modernidade Líquida” (2000) ou em algum novo intento nos últimos anos. Seja como for, vislumbrar, aceitar e relaxar/gozar o paradoxal/transicional, o equilíbrio balouçante da corda bamba, pressupõe Temperança e Saber soberbos ! Há que se ter um bom estoque de força e saúde para a empreitada !
    Ontem fui buscar o Vítor na casa de um coleguinha, com quem fizera um trabalho escolar ao início da noite. O pai deste é de uma geração abaixo da minha, ali pelos 45 anos. Homem trabalhador, empenhado na faina habitual dos horários e compromissos, e ao mesmo tempo interessado no processo cultural. Do que seria um rápido aperto de mão e despedida, embarquei em Heidegger, Todorov, tals, e minha equipe entrou em campo...Discutindo “Closer” en passant, ele centrou-se na náusea, na opressão ( o rosto dele demarcava isto ! ) e ele verbalizou “nós que vivemos essa luta diária precisamos de uma orientação” ( tudo o que o filme em questão não é nem pretende ser). Eu sorri e disse “mas é exatamente esse o ponto : não existe esse referencial fixo, cristalino...ele é mutante por excelência !”- o equilíbrista do quadro do Davy, que quase entrou como paradigma do site )
    Cada um de nós encontrará seu ‘consolo’ e alternativa, pois. A ‘orientação’ dos estados totalitaristas, os manuais de auto-ajuda e os aconselhadores e personal trainers...todos são artefatos a serem usados e baldados pelo ( ávido ! ) consumidor.
    A ciascuno il suo ( cada um na sua, + ou - ) como costumo dizer, e adorei a alternativa-Jansy, diante da encruzilhada : cabeça e tórax combinam com quadril e pernas um reencontro lá adiante...Va Savoir !!!


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    [Aeternus:3263] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-08)


    - são eu prá lá, eu prá cá

    Lendo as duas ou três últimas mensagens de vocês, eu fui um prá cada lado: cérebro direito prá lá e hemisfério esquerdo prá cá e lembrei da canção do João Bosco/Aldir Blanc, "São dois prá lá, dois prá cá", só que eu era um só prá lá E prá cá, o que na fenomenologia de Jaspers corresponderia à perda da Unidade do Eu (esquizofrênico que descobre ser jesus cristo e confrontado com a evidência de ser o Sérgio, por exemplo, tranquilamente assume que "são (ou é) dois" ao mesmo tempo: o Sérgio E Jesuscristo, ou seja o Sérgio é Jesus cristo e Jesus Cristo é sérgio). Se a unidade do eu se perde num mesmo momento (corte transversal na curva do tempo), a perda de Identidade do Eu nesta abordagem fenomenológica seria aquela em que o nosso esquizoSérgio assume que ERA o Sérgio, mas AGORA ele descobriu que é Jesuscristinho e não aquela  identidade com os outros que mencionei antes como algo criticado por Kohut como um conceito que não se baseia em teoria ou prática psicanalítica. Embora, outro lado, ele mesmo abriu espaço para a importante vivência de não sermos mais um E.T. na Terra através da necessidade da ilusão de encontrar "alter-egos" no mundo social e afetivo. Claro que sem exagerar. Analisando que faz transferência alterego (tb chamada de "gemelar") pode acham (por premissa) que é "igual" (no sentir e pensar, por exemplo)ao analista ou que o analista é igual a ele... e quando surge a diferença... que dor narcísica!!!)
    Mas voltando ao ponto ao qual ainda quero chegar (que fase transicional, hein?tipo "de volta para o futuro", sacaram?), conto prá vocês que precisei ir lááááá´em ciiiiima e percorrer os 529.471 textos anteriores quando vcs começaram a falar de Bauman (que minha ingnorãça desconhecia e desconhece, exceto pelas dicas de vocês) para tenatr me re-unir e dançar com vocês direitinho: afinal, toda academia de dança ensina que não é um prá lá e um (o mesmo) prá cá: são dois prá lá (Jansy e Marcos?), dois prá cá (Gallego e Davy?) - com direito a troca de pares neste minueto de Boccherini (ou de Beethoven?) - ça va sans dire, que eu não quero ficar dançando com o Davy, afinal, pega mal... Cede-me a dama, Sr. Marcos?
    Enfim, se ainda me aguentaram até aqui: encontrei uma frase de minha lavra (bonito isso!) que li com perplexidade pela ambivalência do significante escolhido: o tempo no gerúndio do verbo "ver", que pode ser "vendo" referente a aquilo que meus olhos estão vendo (olhando, percebendo, etc), ou o presente do indicativo do verbo vender (ex: "eu vendo meus discos velhos, alguém quer comprar?"). Vejam agora a frase com este duplo sentido, um prá lá e um (o mesmo termo) prá cá:
    ... e existe a identidade "ispis", uma identidade social: eu me vendo como um semelhante aos outros seres humanos, e mais ainda aos seres humanos do meu grupo psico-sócio-econômico-cultural, e mais ainda, aos amigos queridos com os quais me identifico, supondo que sou mesmo muito parecido com eles e eles parecidos comigo - o que nem sempre é verdade  - e viva a diferença!
    Será que eu me venderia para me sentir como um semelhante? Isso deve ser o processo do falso self que, sem nem o saber, "vende" a verdadeira alma para se sentir "pertencendo" (e não perder o amor do superego ou do ideal do ego em Freud) se sentir aceito, enfim, aquilo que a Jansy lembra sobre o verbo "belong" (all this lonely people: whwere do tehey all belong?). O drama é que quem é "aceito" não é ele... é o "ele-outro"...
    Pirei de vez?


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    [Aeternus:3264] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - RE:são eu prá lá, eu prá cá

    O texto do Gallego, além de fazer Antonin Artaud urrar de alegria onde quer que esteja, nos mostra que é possível continuar saudável mesmo com a corda bamba sacolejando...
    Se a Jansy preferiu compartimentar-se e ser duas ao mesmo tempo ( como auto-cobaia de algum experimento alucinado ? ), Gallego propõe ser um quase-emcee de tardes carnavalescas.
    O que me deixa tranqüilo quanto aos rumos da ( saudável ) humanidade.

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    [Aeternus:3265] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-08)


    - RE:são eu prá lá, eu prá cá 3

    Neste dois pra cá e dois pra lá, Gallego me colocou em dupla com o Florião que, por sua vez, me chamou pelo esquizo-  o que faz com que ele só dance com  "metade de mim, metade afastada de mim, por ter acentuado minha escolha ( que não é escolha) de me apresentar dividida.

    Mas...mas... quem não é dividido ( entre os sanos, como de outro modo, os insanos)?
    Como dizia Rimbaud: " Je est un Autre" que Lacan retomou para falar do sujeito barrado.

    O esquizo do jesuscristinho, quem é e porque vem designado como "sérgio" ? Perdi o bonde.

    É a pressa.  Também porque a vida me faz cócegas.  Hoje fui ao Posto Médico do Senado e no caminho vinha em minha direção um ciclista todo paramentado com capacete e uniforme, pedalando a toda. Fazia calor e ele, para refrescar-se, lançava pelos ares a água de uma garrafinha, como coroinha aspergindo insenso ou flores e dava uma corridinha para se molhar nas gotas a sua frente. 
    Pode? E enquanto esguichava, torcia a boca em biquinho.

    Aí, como se não bastasse, tive que parar o carro numa faixa para pedestres. Duvido que alguém tenha passado por essa. Quem atravessou em formação rigorosa, com plumas e passo certo, mas se servindo da faixa tão pedestre, eram os Dragões da Independência, que iam para o revezamento para a guarda do Lula!  Eu queria ter me fotografado. Eu daqui e eu de fora.  


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    [Aeternus:3266] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - debulhando a Terra

    Bauman parece não acreditar que seja suportável, em regra, aceitar o equilíbrio precário. Diz (...)”esse dilema assinala uma situação. O valor adquirido e acalentado necessita ser sacrificado, a fim de obter o valor perdido.Mas o aconchego caseiro da não-escolha deve seu fascínio exclusivamente aos contratempos da liberdade cotidiana. Sem essa liberdade, a difícil situação da não-escolha tem toda a atração da vida na prisão. (e)(...)”satura a experiência do indivíduo pós-moderno reiterada, cotidianamente, num mundo que é fragmentado, episódico e hostil à ação constante e conseqüente; o indivíduo sobrecarregado com a tarefa de escolhas cotidianas e a tarefa cotidiana de ‘confirmar’ e validar as escolhas entre a cacofonia de ideais e preceitos contraditórios e efêmeros.”
    O magnífico cineasta Denys Arcand, intelectual de classe média-alta canadense e diretor de “Les Invasions Barbares”, entre outros excelentes títulos, manifestou-se recentemente, em entrevista a um jornal, que “necessitamos de ideais. Se todos até aqui se mostraram utópicos ( uma das muitas instigantes vertentes do filme ), que se crie algum novo”.
    Seja : um homem hedonista e liberal por excelência, como atesta toda sua obra, clama por  libelos e panfletos comunitários...( que, por definição e excelência, são contrapartida ao ‘individual’, ao ‘criativo’ ). Nele o paradoxal de Winnicott está bem resolvido, assim como no “graças a Deus continuo ateu” de Luís Buñuel...


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    [Aeternus:3267] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 3

    Aos Sérgios o que é dos Sérgios : o que Jansy teria contra o Sérgios ? Se fosse a Sérvia, ainda dá pra entender, com toda aquela vocação de violência. Mas a pobre "Sérgia" sequer existe...

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    [Aeternus:3268] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-08)


    - RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

    Nada contra sérbios, servos ou sérgios. Queria só saber de onde Gallego tirou o exemplo do "sérgio/jesuscristinho".  Afinal, meu primo favorito que às vezes colabora conosco e que não é o Ponte Preta, também se chama Sérgio Porto...

    Entrando fora do lugar pra não debulhar a terra ( em lágrimas milhenares, oooops ) , observo que outro olheiro do site está curtindo sua tradução e comentários sobre o Bauman que, segundo informa conheceu a figura como um velho ágil ( mais de oitentanos ) com uma inteligência ainda mais ágil e que compensa algumas falhas no rigor analítico pela vivacidade e pertinencia das observações.

    Gesellschaft, ensinou, não é nada de "sala de espera do risco". É sociedade de risco, mesmo.
    E eu, que nada li, só posso passar adiante a bola...


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    [Aeternus:3269] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

    Caramba...'sociedade' é mais comprometedor do que sala

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    [Aeternus:3270] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

    Caramba...'sociedade' é mais comprometedor do que sala de

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    [Aeternus:3271] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-08)


    - RE:RE:são eu prá lá, eu prá cá 5

    Caramba...'sociedade' é mais comprometedor do que 'sala de reunião', como aventurei traduzir...
    E nosso Bauman é muito lúcido, metódico. Aqule jogador de zadrez que esgota sua ampulheta a cada movimento. Cerebral articulado. Risiko ? ser devorado pela própria ampulheta. Nada comprometedor ou ignominioso, né ?

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    [Aeternus:3272] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-08)


    - RE:eu prá lá, eu prá cá 6 de gagueira

    " satura a experiência do indivíduo pós-moderno reiterada, cotidianamente, num mundo que é fragmentado, episódico e hostil à ação constante e conseqüente; o indivíduo sobrecarregado com a tarefa de escolhas cotidianas e a tarefa cotidiana de ‘confirmar’ e validar as escolhas entre a cacofonia de ideais e preceitos contraditórios e efêmeros"

    Com limão ou sem limão?
    Açucar ou Adoçante?
    Oque é isso se tanto faz?
    Água com gás ou sem gás?
    É gelada ou natural?
    Serve na mesa? 
    Quer no balcão?
    É no copo ou na tulipa?
    Quer de vidro ou de cristal?
    Quebrou-se, agora. Faz mal?

    Alternativas ativas... 
    Indício da inação,
    Pensamento entre pilares
    Viciando opinião,
    Joga seu jogo de azares
    Falta-lhe o sim pro seu
    -  Não!

     


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    [Aeternus:3273] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-04-11)


    - "eu me vendo..."

    Gallego,

    Há ainda outro sentido para o "eu me vendo", que é o de pôr venda nos olhos, que se contradiz  com o "ver". Ou não. Vendar-se pode ser uma forma de ver melhor a si.

    Grande abraço.


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    [Aeternus:3274] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-11)


    - RE: Vendidos, vendados e de olho grande

    Guto, você dirigiu breves linhas ao Gallego e fui conferir na lista para achar o contexto da resposta e não encontrei. Importante observar que aquele que está se vendo, que se aponta no "eu me vendo", não apenas está olhando pra si e deixando de olhar porque colocou em si uma venda e isto porque está se vendendo.  Mas...o que foi mesmo que ele disse? 

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    [Aeternus:3275] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-11)


    - RE:de olhos bem vendados

    Se não me engano, Guto é da área de Direito e assim ficou mais compreensível a excelente lembrança dele sobre "eu me vendo" (de "vendar os olhos"). E de olhos vendados, tal como a justiça cega ou vendada, não vejo em torno (mas posso aumentar a introspecção ou a visão interior, se não a clarividência dos Tirésias das tragédias gregas). O problema não é a justiça vendada, mas quando ela é vendida... o que, infelizmente, até ocorre...

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    [Aeternus:3276] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-04-12)


    - vendidos e vendados e vistos

    Jansy, a msg do Gallego é do dia 8, 10:10 h. Ele fala de uma frase ambivalente (ou, no caso, "antrivalente") que escrevera. Antes, fala de minuetos, swing intelectual (ops, essa é por minha conta) Sérgio/Jesus/esquizofrênico etc.

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    [Aeternus:3277] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-15)


    - long live the Queen

    ( o conjunto de rock, desmantelado com a morte de Fred Mercury...)

    Agora há pouco, indo ao banco, um senhor sessentão próximo a um setentão via as fotos do casamento do Príncipe Charles com Camila Parker Bowles. Perplexo, perguntou-me “como pode ?... trocar a Lady Di por isso ? ( apontando para a noiva, cujo conjunto, aliás, me agradou muito : lembra uma alegoria de escola de samba estilo rococó-anos-70 ). Eu : existe muito encontro entre eles. São almas gêmeas. ( ele anuiu parecendo entender, e voltou, após outra olhadela na foto ) “como é que pode ? por que casou com a outra, então ?” Eu : pompa e circunstância. A princesa bonita. A festa, o protocolo.” ( ele deu mais uma olhadela examinadora no casal )“Eu não gosto dele !” ( sacudi a cabeça e disse ) “são ingleses, colonizadores por natureza. Sempre vão nos olhar de cima para baixo.” Ele : do you speak English ? Eu ( erguendo as sobrancelhas e acentuando o empolado british accent) : of course !


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    [Aeternus:3278] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-15)


    - RE:long live the Queen

    Florião, que interessante conversa você teve com um formalíssimo sessentão na fila do banco!
    O que me intriga mais não é a escolha do feioso Charles à horrenda Camila ( eles até se parecem físicamente) porque, como você disse, parecem almas gêmeas.  É a aceitação da Long Living Queen Elisabeth desta situação, quando a irmã Margareth teve que desistir do grande romantico amor Peter Townshend porque ele era divorciado e isto não era admissível para uma princesa da Inglaterra.

    A aceitação oficial da escolha de Charles torna indigno o que fizeram com Margareth, ou entendi tudo errado?


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    [Aeternus:3279] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-15)


    - Além do Por do Sol com Lamartine Babo

    Transcrição informalíssima das mensagens de hoje fora do site: 

    Jansy: Gostei do filme “Before Sunset mas era um filme exclusivamente feito de fala ( na estrutura), sem jogadas de armações para a maior parte do enredo. Como o próprio escritor delineava na entrevista que deu na livraria, durante a primeira cena do filme: fazer um livro que abarque apenas um momento, tão breve que caberia no espaço de uma valsa.

    As falas dos personagens são próximas do meu modo de falar e pensar adolescente. Alguma coisa disso sobrou até hoje só que faço mais pausas. Sou menos...peripatética?

    Achei o falatório excessivo, mas não sei como cortaria alguma coisa dele. Isto quer dizer que fico  dividida para avaliar o filme. Os diálogos são importantes, mas tem algo faltando na montagem para colocá-los num lugar secundário, algo semelhante ao que fizeram na tal entrevista com os jornalistas: incluir outras cenas no meio da conversa?

    Gostei, no sentido da simpática, da decoração e da luz do apartamento da Celine (desempenhada pela Julie Delpy) Não só a luminosidade dos ambientes, também os jogos de sombra e luz nas passagens pela rua foi muito bonito e os atores estavam inteiramente à vontade. Era, como gosto de dizer, algo realizado  na escala um por um, ou seja, no tamanho da realidade. A gente podia estar com uma câmera como aquelas que ficam no capacete do corredor de formula um pra gravar tudo que acontece ali.  Achei o fim interessante porque coloca o espectador como um bobo romantico, já que provoca alívio: eles não vão se separar.

    O primeiro filme que fizeram antes deste, lembrei depois, me encheu o saco por causa da falação e não o assisti senão as primeiras cenas. No entanto, a introdução dos dois atores enquanto bem mais jovens, filmados neste primeiro, mostrados em breves cenas durante a entrevista do escritor em Paris, deu um contraste magnífico, adorei o recorte com eles enamorados como ficou na lembrança dele.

    Por que você perguntou “cadê Mimi”?  Se não sou a Mimi da ópera La Bohème, é porque estou mais pro “Cadê Zazá”  que a Fernanda Montenegro popularizou na novela e você evitou porque é requintado com as referencias...

     

    Gallego: Cadê Mimi, Cadê Mimi, Mimi que fugiu prá Xangai (ou era Paris?).

     Não conheço direito esta vetusta musica do nosso surrealista-mor, Lamartine Babo, capaz dos nonsenses mais nonsenses da Música Popular Brasileira. É muito velha, uma marchinha de carnaval doce doce como muitas de antanho que nem vc nem eu contemporaneizamos mas que chegaram em ecos até nossos dias de infância prá depois caírem no ostracismo das ostras. Lamartine Babo, feio como uma caveirinha (com Yara Salles e o marido dela, cujo nome me escapa) formavam o "Trio Osso" de 3 magrelos feiosos e bem-humorados. Lamartine, capaz de canções antológicas como "Serra da Boa Esperança", feita para uma mulher que não existia (tal como em "Closer", um fã - homem - de Boa Esperança, MG) escrevia para Lalá (apelido que ele gostava de se dar) como se fosse mulher: quando Lalá foi lá, descobriu a farsa: e nem por isso chutou o balde, fez uma canção romântica com alguma alusão críptica e simpática ao engano. Marchas de carnaval, canções juninas, Lamartine Babo foi um verdadeiro gênio sem a aura de poesia maior de um Chico Buarque: autênticamente popular no sentido amplo do termo, daqui a alguns séculos, algumas canções suas poderiam ser conhecidas como "folclore". Neste sentido, igual - e ainda maior do que ele neste sentido "folk/povo", só  o Caymmi. Parece que sreriam capazes de compor "Ciranda Cirandinha" ou volklieder da terra de Schubert.
    A “Mimi”, cadê Mimi foi só um jeito simpático de perguntar por você: nada a a ver com a agonizante Mimi, isola, sô!

    Antes do Por do Sol é falado, falado, falado, mas não se enquadra no que escreveste sobre a falsa Alice de Closer: “Fale e olhe, mas não me toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, somos marionetes de nossos discursos”. Em Before Sunset eles falam, falam, falam, dissimulando cada vez menos até que ela dá a a sentença: vc vai perder o avião!

    Jansy: Você sabia que o nome do diretor do filme com a Julie Delpy e o Nathan quer dizer  “conecta mais tarde"? ( Linklater...). Todo romance “Ada”, do Nabokov,  é neste espírito, mas o filme que vi no sentido vital cotidiano me comove muito mais. Encontrar, com algum estranhamento, um amor que não nos saiu da cabeça, depois de passados quase dez anos!  Gostei, sim, apesar do falatório. É meio como gosto de conversar. Será que a vida da gente é isso, falação e falação com saudade ou sem saudade?

     

    Gallego:  A frase crítptica em Serra da Boa esperança é :

     

    "Levo na minha cantiga a imagem da Serra/ Sei que Jesus não castiga um poeta que erra / Nós os poetas erramos porque rimamos também / os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem." Não é o máximo da delicadeza, oposta a do Larry, também enganado?

    Por outro lado, Lalá compunha nonsenses como:

     

     "No cemitério, quem quiser viver, tem que falecer, tem que falecer..." Além da clássica "Quem foi que inventou o Brasil? Foi Seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia 21 de abril, dois meses depois do carnaval// Depois Pery beijou Cecy, Cecy beijou Pery ao som do Guarany. Do Guarany ao guaraná surgiu a feijoada e mais tarde o parati" (apelido de cachaça na época).

    A primeira namorada se chamava Alda e ganhou o mimo: "Com a letra A começa o amor que agente tem, com a letra A começa o nome do meu bem".
    E "Chegou a hora da fogueira, é noite de São João, o céu fica todo iluminado, fica o céu todo estrelado pintadinho de balão, pensando na cabocla a noite inteira também fica uma fogueira dentro do meu coração..." não é linda?

     
    E "Eu sonhei que tu estavas tão linda" ser do mesmo autor de "AEIOU, letra U, letra U na Cartilha da Juju" e de "No Rancho Fundo bem prá lá do fim do mundo" além de "Cócócócó o galo tem saudade da galinha carijó" e de "A tua vida é... é um segredo, é um romance e... que tem enredo..." , "Rasguei a minha fantasia, o meu palhaço cheio de laço e balão, raguei a minha fantasia, guardei os guizos no meu coração".
    Será que a música não é Mimi, mas Zazá? Cadê Zazá, cadê Zazá, Zazá que fugiu prá Xangai... Poderia ser, vai ver que é...

     

    Pois eu curti de montão o primeiro "antes" (do amanhecer) e desconfiei que os diálogos eram semi-improvisados: havia sequências de 10 minutos ou pouco mais sem cortes, com a Julie e o Ethan falando, falando, falando, desde bobagens a trivialidades com alguma coisa "séria" no recheio, solta, como em papo de bar de adolescentes protraídos. Isso não é comum em cinema: eles andavam por Viena, entravam em trolley, sentavam, desciam em outro ponto, continuavam andando e falando coisas impossíveis de serem decoradas pela mescla de banalidade com algo latente aqui e e ali mais significativo... Fiquei para os créditos finais e vi que os atores ganhavam crédito pelo roteiro/diálogos. Bingo!
    Nesta continuação foram todos indicados a Oscar de roteiro. Mas eles dizem que foi tudo ensaiado antes, com criação conjunta em "laboratório" e depois cristalizaram os diálogos e filmaram. Pode ser.

     

    O Marcos é que deve saber, mas acho que o Linklater dirigiu "Tape"? Ou é contaminação na minha memória pelo fato do Ethan estar nos 3 filmes, os dois "Before" e o "Tape"?

    O casal dos personagens Ethan-Julie apareceu brevemente num desenho animado adulto do diretor que eu não curti: a imagem do desenho tremia muito, era desenho feito em cima do filme, do ator real fotografado e a história era aquela bobagem de  o personagem já ter morrido e não saber, vivendo coisas fantásticas naqueles segundos de vidaemtransiçãoparaamorte.  Me cansa este esquema de "Cidade dos Sonhos" e um filme bobo dirigido pelo Paul Auster, com a Mira Sorvino e o Harvey Keitel (acho que se chamava o segredo de Lulu ou coisa parecida). Essa facilidade de enrolar o roteiro com o insólito a mil e depois "explicar" tudo com a revelação (OH!) que era um sonho/delírio/alucinação só vale em obras geniais como Alice do Lewis Carrol e poucas mais. No resto é bobagem.


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    [Aeternus:3280] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-15)


    - RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo

    Deixa eu me intrometer em vermelho

    Jansy: Gostei do filme “Before Sunset  mas era um filme exclusivamente feito de fala ( na estrutura), sem jogadas de armações para a maior parte do enredo. Como o próprio escritor delineava na entrevista que deu na livraria, durante a primeira cena do filme: fazer um livro que abarque apenas um momento, tão breve que caberia no espaço de uma valsa.

    As falas dos personagens são próximas do meu modo de falar e pensar adolescente. Alguma coisa disso sobrou até hoje só que faço mais pausas. Sou menos...peripatética? Não, de jeito algum. A pausa é o silêncio que fala. Dois jovens como aqueles – e já não tão jovens assim, caso contrário nem conversariam o que conversam...- intuem que há lenha naquela fogueira, e assim sendo...

    Achei o falatório excessivo, mas não sei como cortaria alguma coisa dele. Não concordo. Há uma ansiedade latente que os unge, a convicção de um atraente e desafiante rumo a tomar. Isto quer dizer que fico  dividida para avaliar o filme. Os diálogos são importantes, mas tem algo faltando na montagem para colocá-los num lugar secundário, algo semelhante ao que fizeram na tal entrevista com os jornalistas: incluir outras cenas no meio da conversa?

    Gostei, no sentido da simpática, da decoração e da luz do apartamento da Celine (desempenhada pela Julie Delpy) Não só a luminosidade dos ambientes, também os jogos de sombra e luz nas passagens pela rua foi muito bonito e os atores estavam inteiramente à vontade. Era, como gosto de dizer, algo realizado  na escala um por um, ou seja, no tamanho da realidade. A gente podia estar com uma câmera como aquelas que ficam no capacete do corredor de formula um pra gravar tudo que acontece ali.  Achei o fim interessante porque coloca o espectador como um bobo romântico, já que provoca alívio: eles não vão se separar. "You’re gonna miss that plane”...

    O primeiro filme que fizeram antes deste, lembrei depois, me encheu o saco por causa da falação e não o assisti senão as primeiras cenas. Também discordo : achei adorável, delicioso. No entanto, a introdução dos dois atores enquanto bem mais jovens, filmados neste primeiro, mostrados em breves cenas durante a entrevista do escritor em Paris, deu um contraste magnífico, adorei o recorte com eles enamorados como ficou na lembrança dele.

    Por que você perguntou “cadê Mimi”?  Se não sou a Mimi da ópera La Bohème, é porque estou mais pro “Cadê Zazá”  que a Fernanda Montenegro popularizou na novela e você evitou porque é requintado com as referencias...

     Gallego: Cadê Mimi, Cadê Mimi, Mimi que fugiu prá Xangai (ou era Paris?).

     Não conheço direito esta vetusta musica do nosso surrealista-mor, Lamartine Babo, capaz dos nonsenses mais nonsenses da Música Popular Brasileira. É muito velha, uma marchinha de carnaval doce doce como muitas de antanho que nem vc nem eu contemporaneizamos mas que chegaram em ecos até nossos dias de infância prá depois caírem no ostracismo das ostras. Lamartine Babo, feio como uma caveirinha (com Yara Salles e o marido dela, cujo nome me escapa) formavam o "Trio Osso" de 3 magrelos feiosos e bem-humorados. Lamartine, capaz de canções antológicas como "Serra da Boa Esperança", feita para uma mulher que não existia (tal como em "Closer", um fã - homem - de Boa Esperança, MG) escrevia para Lalá (apelido que ele gostava de se dar) como se fosse mulher: quando Lalá foi lá, descobriu a farsa: e nem por isso chutou o balde, fez uma canção romântica com alguma alusão críptica e simpática ao engano. Marchas de carnaval, canções juninas, Lamartine Babo foi um verdadeiro gênio sem a aura de poesia maior de um Chico Buarque: autênticamente popular no sentido amplo do termo, daqui a alguns séculos, algumas canções suas poderiam ser conhecidas como "folclore". Neste sentido, igual - e ainda maior do que ele neste sentido "folk/povo", só  o Caymmi. Parece que seriam capazes de compor "Ciranda Cirandinha" ou volklieder da terra de Schubert.
    A “Mimi”, cadê Mimi foi só um jeito simpático de perguntar por você: nada a ver com a agonizante Mimi, isola, sô!

    Antes do Por do Sol é falado, falado, falado, mas não se enquadra no que escreveste sobre a falsa Alice de Closer: “Fale e olhe, mas não me toque nem desfaça a ficção porque nós não existimos, somos marionetes de nossos discursos”. Em Before Sunset eles falam, falam, falam, dissimulando cada vez menos até que ela dá a a sentença: vc vai perder o avião!
    Jansy: Você sabia que o nome do diretor do filme com a Julie Delpy e o Nathan quer dizer  “conecta mais tarde"? ( Linklater...). Todo romance “Ada”, do Nabokov,  é neste espírito, mas o filme que vi no sentido vital cotidiano me comove muito mais. Encontrar, com algum estranhamento, um amor que não nos saiu da cabeça, depois de passados quase dez anos!  Gostei, sim, apesar do falatório. É meio como gosto de conversar. Será que a vida da gente é isso, falação e falação com saudade ou sem saudade?

     Gallego:  A frase crítptica em Serra da Boa esperança é :

    "Levo na minha cantiga a imagem da Serra/ Sei que Jesus não castiga um poeta que erra / Nós os poetas erramos porque rimamos também / os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem." Não é o máximo da delicadeza, oposta a do Larry, também enganado?
    Por outro lado, Lalá compunha nonsenses como:

     "No cemitério, quem quiser viver, tem que falecer, tem que falecer..." Além da clássica "Quem foi que inventou o Brasil? Foi Seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia 21 de abril, dois meses depois do carnaval// Depois Pery beijou Cecy, Cecy beijou Pery ao som do Guarany. Do Guarany ao guaraná surgiu a feijoada e mais tarde o parati" (apelido de cachaça na época).

    A primeira namorada se chamava Alda e ganhou o mimo: "Com a letra A começa o amor que agente tem, com a letra A começa o nome do meu bem".
    E "Chegou a hora da fogueira, é noite de São João, o céu fica todo iluminado, fica o céu todo estrelado pintadinho de balão, pensando na cabocla a noite inteira também fica uma fogueira dentro do meu coração..." não é linda?

    E "Eu sonhei que tu estavas tão linda" ser do mesmo autor de "AEIOU, PÔ ! Eu achei que era da geração do Gallego ! No meu tempo aqui era “dabliú, dabliú (WW)letra U, letra U na Cartilha da Juju" e de "No Rancho Fundo bem prá lá do fim do mundo" além de "Cócócócó o galo tem saudade da galinha carijó" e de "A tua vida é... é um segredo, é um romance e... que tem enredo..." , "Rasguei a minha fantasia, o meu palhaço cheio de laço e balão, raguei a minha fantasia, guardei os guizos no meu coração".
    Será que a música não é Mimi, mas Zazá? Cadê Zazá, cadê Zazá, Zazá que fugiu prá Xangai... Poderia ser, vai ver que é...

    Pois eu curti de montão o primeiro "antes" (do amanhecer) e desconfiei que os diálogos eram semi-improvisados: havia sequências de 10 minutos ou pouco mais sem cortes, com a Julie e o Ethan falando, falando, falando, desde bobagens a trivialidades com alguma coisa "séria" no recheio, solta, como em papo de bar de adolescentes protraídos. Isso não é comum em cinema: eles andavam por Viena, entravam em trolley, sentavam, desciam em outro ponto, continuavam andando e falando coisas impossíveis de serem decoradas pela mescla de banalidade com algo latente aqui e e ali mais significativo... Fiquei para os créditos finais e vi que os atores ganhavam crédito pelo roteiro/diálogos. Bingo!
    Nesta continuação foram todos indicados a Oscar de roteiro. Mas eles dizem que foi tudo ensaiado antes, com criação conjunta em "laboratório" e depois cristalizaram os diálogos e filmaram. Pode ser. 
    O Marcos é que deve saber, mas acho que o Linklater dirigiu "Tape"? Ou é contaminação na minha memória pelo fato do Ethan estar nos 3 filmes, os dois "Before" e o "Tape"? “Tape” é Linklater, já disse nas listas. Teatro, linguagem teatral...é o jeito dele dramatizar. “Escola de Rock”, que o Vítor assiste sem cansar, um beabá roqueiro, é um simpático filme comercial dele. E tem um tal “Waking Life”, com a mesma dupla dos “Before”, que eu não quis assistir por que, ao que lembro, misturava gente com computação gráfica, ou algo na linha. Esse que o Gallego discorre abaixo !
    O casal dos personagens Ethan-Julie apareceu brevemente num desenho animado adulto do diretor que eu não curti: a imagem do desenho tremia muito, era desenho feito em cima do filme, do ator real fotografado e a história era aquela bobagem de  o personagem já ter morrido e não saber, vivendo coisas fantásticas naqueles segundos de vidaemtransiçãoparaamorte.  Me cansa este esquema de "Cidade dos Sonhos" e um filme bobo dirigido pelo Paul Auster, com a Mira Sorvino e o Harvey Keitel (acho que se chamava o segredo de Lulu ou coisa parecida). Essa facilidade de enrolar o roteiro com o insólito a mil e depois "explicar" tudo com a revelação (OH!) que era um sonho/delírio/alucinação só vale em obras geniais como Alice do Lewis Carrol e poucas mais. No resto é bobagem. Concordo que o recurso é manjado, mas às vezes funciona. Mesma coisa que rever os truques já vistos de um mágico. Talvez a questão mais importante aqui seja o ‘agente sedutor’ : se o filme é bem dirigido, tem bons atores, envolverá. Caso oposto, ficamos amuados. E também levo em conta minha ‘sedutibilidade’ : se me enganaram direitinho, gosto. ( no Reino da Cornualha ? ) Gosto muito da construção de “Swimming Pool”, nesse gênero, que o Gallego descarta solenemente. Onde eu vejo charme/ volúpia/ instigação/ luta contra tédios e imobilismo, ele irrita-se com manipulação da imagem...

     


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    [Aeternus:3281] Mensagem do Grupo38
    -Jansy(2005-04-15)


    - RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 2

    Gallego e eu seremos duplamente ouvidos com este seu modo simpático de entrar na conversa "para conectar depois" como se estivéssemos todos dentro de outro filme do Linklater.

    Que ótimo que você discorda de mim ( exceto quanto à importancia das pausas...). "Tape" é outro filme destes onde a falação não cessa, só que ali a fala entra como instrumento de controle e dominação. Romanticizando, ou não, todos os tres do Linklater referidos por você e pelo Gallego, me parecem aqueles filmes de antigamente ( ou nem tanto, se pensarmos no "Rain Man", "Advogado do Diabo", "Código de Honra", "O Juri"ou similares. Mas é que penso principalmente numa série com aquele eterno namorado da Katherine Hepburn como advogado veemente ).

    Acho que penso nos filmes com longuíssimas cenas de acusação e defesa se esticando numa corte judicial. Seja a naturalíssima e vital troca entre os amantes delicados do "Before the Sunset", seja o pegapracapar de "Tape", o que existe é principalmente a conversa segurando tudo. Realmente, não sei como caracterizar, mas me causa zoeira no ouvido, apesar do interesse.

    Trabalhar nesta dimensão não é fazer arte. Não mesmo.  É "causer" como dizem os franceses. Fazer discurso numa tribuna. Talvez até gostasse de ouvir Cícero declamando durante hora e meia, ou o discurso de Marco Antonio aos Romanos. Ou São Paulo aos Coríntios.  Mas filmá-los no púlpito não é arte.


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    [Aeternus:3282] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-04-15)


    - RE:RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 3

    Discussão difícil taí...Ars gratia ars...
    Há várias vertentes em questão aqui. Já contei certa vez, em alguma de nossas listas, que os próprios diretores tem categorias pouco usuais ( e imagino que escritores igualmente o tenham...). Jacques Rivette, no documentário "Le Gardien", diz ao entrevistador "não sou um diretor de rostos. Sou um diretor de situações." Bergman seria um diretor de rostos, embora usando o falatório. Liv Ulmann em "Persona" despeja um falatório fenomenal em cima de Bibi Anderson. Ao contrário, no mesmíssimo Bergman, em "Tystnaden" ( "Silêncio" ) faz jus ao seu homenageado no título, e...faz-se silêncil entre Ingrid Thulin e Gunnel Lindblöm. "Closer" é um filme de rostos.
    Curiosamente, os "Before Sun&rise&set" são um mix, da mesma forma que "Tape". A tensão do 'vir-a-ser' nos "Before" é substituída pelo 'tamanho da derrocada' em "Tape".
    Adoro timings lentos, em geral. Diálogos pausados. Mas eventualmente, dependendo ( de novo friso ! ) do autor e dos atores, também curto bate/rebates. E há o oposto, como um filme norueguês ou dinamarquês que vi, tipo experimental, "Planeta Água", onde a diretora nos acaricia com poesia fílmica. Câmera a meia distância, sem condições de 'ouvir' os personagens quando estes falam, próxima a estes nos silêncios, trilha sonora linda perpassando.
    O único consenso, então, parece ser que Arte é perversão...


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    [Aeternus:3283] Mensagem do Grupo38
    -jansy(2005-04-15)


    - RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 4

    Sr. Visitante que suponho ser o Caco,

    Então... cada coisa nos oferece uma chance  de alguma perversão!  Até a brincadeira que Nabokov faz com "ars gratia artis" porque "arse" em inglês é bunda. 

    Fiquei me perguntando porque  fui tão veemente dizendo que Tape ou Before  não seriam arte. Claro que seriam, como documentário fictício ou retórica. Para "cinema", na minha modestíssima opinião, falta uma mediação, algo como um trabalho de substituição, metaforização para não darmos de cara na conversa do casal.

     


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    [Aeternus:3284] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-15)


    - esse jogo não pode ser um a um?

    Mas é: Florião fez golaço ao corrigir "letra U" por "dabliú" na cartilha da Juju da letra lamartínica. Não sei de onde tirei a letra U!!! A Juju já sabe ler, a Juju sabe escrever há dez anos na cartilha, a Juju já sabe ler, a Juju sabe escrever mascreve só com cecidilha. A Juju sabe contar, sabe até multiplicar, mas na divisão se enrasca: outro dia fez um feio, pois partindo um queijo ao meio quis me dar sòmente a casca. E eu não conheço mais "dábliu".
    Mas ele trocatudo quando diz: Liv Ulmann em "Persona" despeja um falatório fenomenal em cima de Bibi Anderson. Quem está muda em Persona é a Liv e quem despeja falação é a Bibi Anderson. É como funciona para alguns analisandos: o analista se cala e o analisando fala. Já outros carecem de participação/interação permanente ou abandonam o barco. Mas o gol contra do Marcos não foi tão grave; afinal, no final de Persona elas "trocam" dee papel ou se fundem ou eu nunca entendi bem que diabos acontece. mas ofilme é bom assim mesmo!
    Muito retardadamente, esclareço que o "Sérgio" mencionado há umas semanas atrás como nome de suposto esquizofrênico era qualquer nome, nada a ver como primo da Jansy (auto-referente, hein, moça?). Usei o nome de outro correspondente de e-mail (fora do aeternus) só por contigüidade: era a mensagem acima.
    Voltando à questão do silêncio: onde andarão Davy, Helena, Eugênia? Guto até apareceu no meu trocadilho com "vendo" do verbo ver, vender e vendar. Mas éramos sete ou mais, e como nos "dez negrinhos" agora estamos sendo só três?!?!?!?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    [Aeternus:3285] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello III(2005-04-15)


    - RE: não pode ser um a um ...para o que já foi dez?

    Gallego, você não conhece mais o dabliú? Em matéria de curso de letras das que me lembro eram mais recentes: Tem a Maria Candelária, alta funcionária, pulou de páraquedas, caiu na letra O, coitada da Maria, trabalha todo dia, trabalha trabalha de fazer dó... E, claro  Adeus cinco letras que choram num soluço de dor. Puxa, estamos plantando e colhendo na Horta da Luzia a partir de um Lamartine brabo.

    Não sei por onde anda a turma do silencio. Estamos cantando e dançando pra eles, feito aquela moça cega da islandia cantando a noviça rebelde no tribunal?


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    [Aeternus:3286] Mensagem do Grupo38
    -Helena(2005-04-15)


    - Turma do silêncio se apresentando

    Aqui estou eu, depois de uma viagem a São Paulo, onde passei mais de 15 dias. Agora estou aqui fechada para balanço. Falei ainda hoje com o Davy. Ele me mandou um e-mail que me deu muita alegria. Estou no paradoxo de querer estar em São Paulo e estar morando em Brasília. Aqui está minha vida toda, meu emprego, amigos, minha casa. Lá está minha filha, parentes que gosto, também amigos, e familiares. Foi muito difícil voltar prá cá desta vez. Até a claridade de Brasília - cidade que sempre gostei - me deixou tonta e cega. Então estou parada, pensando e lendo, sem conseguir produzir muita coisa. E fico feliz que Gallego tenha lembrado de mim. Estou mesmo carente. Todo consolo é bem vindo.
    Beijos
    Helena


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    [Aeternus:3287] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-16)


    - queridos e maravilhosos amigos

    Há uma cena em “Jungfrukällan” ( “A Fonte da Dozela” ) em que o Max Von Sydow brinda à mesa, com amigos, a possibilidade de estarem ali irmanados. Desfrutam-se.
    Aqui confinados às nossas queridas letrinhas – nossa mídia possível – congratulo-me com vocês todos também, adoráveis !
    Logo que redigi a mensagem falando em “Persona” me deu uma coceira, e fui à procura de minha cópia do VCT para assisti-lo pela 3ª vez, que vou tentar hoje. Me lembrei do rosto da Liv mais como psicanalista, e o Gallego já corrigiu meu erro. Há um jogo magnífico de espelho entre as duas, culminando com uma belíssima composição fotográfica da hemiface de ambas unida, compondo um rosto só. A Bibi Andersson está com o cabelo curtíssimo no filme, lembra a Jean Seberg, que viva peladita, de “A Bout de Souffle”.
    Jansy clama por mediação. Tem toda razão. Mas reafirmo que nos “Before” do Link ele confia francamente no Later : a incorporação dos atores aos roles é de tal monta que os diálogos podem fluir ao natural. Ao contrário do quebra-cabeça em “Closer”, onde Patrick Farber brinca com os personagens num huis clos tempo/logística( as camas onde eles dormem...) Ethan Hawke faz uma quase-paródia de si mesmo. Desfez recentemente sua relação com Uma Thurman da forma que o Gallego referiu, deixando-se surpreender freudianamente com uma piranhuça classe ‘S’ na cama doméstica. Talvez vivesse com a Uma um ‘simpatia é quase amor’, quem sabe ? A meiga Julie andou perdita duranga pelos USA, e – boa e comportada moça ! – deve andar lutando pelos palcos e produções francesas, de onde nunca deveria ter saído. Teve seu highlight em “O Viajante”. Ainda é jovem, apesar dos diálogos adult(er)os dos “Before”, e – queira Deus – pode tornar a nos deleitar !
    A sacudida na latinha com adornos dentro, feita pela Jansy em nome de nosso bloco-dos-3-solitos, deu resultado : nossa querida e reflexiva Helena retorna à casa. Feliz e bem alimentada em SP ( como se come bem por lá, Deus ! ) pode nos agraciar de novo com sua presença.


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    [Aeternus:3288] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-04-16)


    - Gallego, entre um artigo e outro...

    ... do Código Penal Militar, que estou estudando para um concurso de juiz (acho que estou ficando viciado em concurso), sempre leio as msgs, ainda que não responda. E muitas discussões têm girado em torno de filmes, e - confesso - estou em falta com o cinema. Mas gosto de ler as discussões uw a


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    [Aeternus:3289] Mensagem do Grupo38
    -Guto(2005-04-16)


    - RE:Gallego, entre um artigo e outro...

    Eta nóis... a msg foi contra a minha vontade... como ia dizendo, tenho acompanhado com entusiasmo as discussões, como aquela coruja da piada de português: "moço, falar ele não fala, mas presta uma atenção...)

    Grande abraço.


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    [Aeternus:3290] Mensagem do Grupo38
    -Luiz Fernando(2005-04-18)


    - Antes do amanhecer

    Fiquei em casa de manhã e por coincidência (nem tanta pois é filme-"freguês" do canal TNT) revi pedaços enormes de "Antes do Amanhecer", ainda que dublado. Fico muito emocionado com a bobeira do filme, tão verossímil ao retratar a cabeça que se tem (tinha?) naquela idade. Nem tudo é bobeira, é claro, há ótimos diálogos. Mas independente da profundidade ou de o quanto podem ser rasos os diálogos, o filme me parece muito verossímil. Na época foi dito que seria o retrato de uma tal "Geração X" (não sei bem o que seria mas penso que tem a ver com algo que a personagem da Julie Delpy fala sobre seus pais terem sido jovens em 1968  com suas utopias político-sociais, etc.
    E o que restou daquilo tudo para nossos filhos? De fato, o filme sendo de 1995 nada impediria que quem tinha seus 18, 19, 20 anos em 1968 tivesse filhos de seus 20 anos em 1995.
     
    Quando "Lost in Translation" (Encontros e Desencontros) da Sofia Coppola passou na seleção dos melhores de 2004 e me coube comentá-lo ao lado de "Elefante" me ocorreu que era uma espécie de versão pós-moderna de "Roman Holiday" (A Princesa e o Plebeu) transformada em "Tokio Holidays" - com uma pitada do final de "O Eclipse" de Antonioni ao mostrar os lugares urbanos vazios de gente após a separação da moça do brinco de pérola e do ator coroa que vai fazer o comercial de uísque em Tóquio.
    Mas "Antes do Amanhecer" , que antecedeu "Lost in Translation" também já utilizara esse recurso de mostrar a Viena por onde a Celine (Julie) e o como-é-o-nome-do-personagem-masculino??? (Ethan Hawke) passearam a noite inteira sem quase nenhum ser humano na paisagem urbana matinalzinha-madrugadora esvaziada.
    Tudo isso é muito melancólico/romântico, mas talvez eu (e Marcos) sejamos assim. Outros talvez sejam mais racionais. Aliás a Celine/Julie diz que os homens são bobos e não entendem nada do que as mulheres pensam e Celine conduz o ritmo da relação o tempo todo.

    Os homens serão mais românticos? Num certo (pior) sentido, talvez: a fantasia comuníssima de posse do passado e do futuro das mulheres com quem conviveram, por exemplo, é romantismo-mórbido. Já as mulheres tem outra espécie de romantismo. Quando o parceiro a s trai ou se interessa por outra mulher ou a relação se mostra desgastada, as mulheres tendem a se perguntar: "Ele ainda me ama ou já não me ama mais?". Na situação simétrica, o homem quer saber se a transa com o outro homem foi melhor. Podem ser expressões diferentes do mesmo narcisismo: no homem mais flagrantemente homossexual, disputando o pênis maior/melhor e supostas competências fálicas; na mulher, parece algo mais objetal (ao contrário do que Freud dizia, que a mulher é mais narcísica), mas penso que é mais ou menos a mesma coisa com manifestações diferentes.

    De qualquer modo, o filme me encanta muito, me trazendo lembranças vagas de clima interno e externo: também passei uma noite inteira em claro em Salvador na flor dos meus 17 anos, sem nenhuma Julie Delpy ao meu lado. Na verdade éramos um grupinho de uns 2 ou 3 garotos e umas tantas quantas garotas, ningém transou com ninguém (eu pelo menos, não - e nem soube se outrem did it) mas foi muito româticoantiquadounforgettable. Na verdade, havia me esquecido, nem lembro direito quantos éramos nem os rostos, embora um retrato horrível daquela semana em outra situação tenha preservado um ou dois dos rostos femininos. É muito estranho esse negócio do instante sem continuidade que o filme coloca ( que a sequência parisiense de "Antes do Por-do-Sol" de 2004, nove anos depois vai desfazer em parte). Sou meio fascinado pela fugacidade do tempo, pelo instante que não volta e que se guarda (e se perde) na memória. Muito melancólico com uma ponta de fascinação.

    Mini-biografia do Richard Linklater colhida pelo Yahoo:

    Self-taught writer-director Richard Linklater was among the first and most successful talents to emerge during the American independent film renaissance of the 1990s. Typically setting each of his movies during one 24-hour period, Linklater's work explored what he dubbed "the youth rebellion continuum," focusing in fine detail on generational rites and mores with rare compassion and understanding while definitively capturing the 20-something culture of his era through a series of nuanced, illuminating ensemble pieces which introduced any number of talented young actors into the Hollywood firmament. Born in Houston, Texas, Linklater suspended his educational career at Sam Houston State University in 1982, to work on an offshore oil rig in the Gulf of Mexico. He subsequently relocated to the state's capital of Austin, where he founded a film society and began work on his debut short film, 1987's It's Impossible to Learn to Plow by Reading Books (1988). Three years later he released the sprawling Slacker (1991), an insightful, virtually plotless look at 1990s youth culture that became a favorite on the festival circuit prior to earning vast acclaim at Sundance in 1991. Upon its commercial release, the movie, made for less than $23,000, became the subject of considerable mainstream media attention, with the term "slacker" becoming a much-overused catch-all tag employed to affix a name and identity to America's disaffected youth culture.


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    [Aeternus:3291] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-19)


    - RE:Antes do amanhecer

    O romantismo dos “Before” de Richard Linklater me lembra muito o dos anos dourados.
    Os sonhos, as esperanças, as cores, as músicas – tudo convidava ao romântico, ao amor. Me lembro de ter ficado fascinado ao assistir “I’m in the Mood for Love”, no Veneza. Talvez tudo naquela época nos convidasse a estar ‘in the mood for love’. Mesmo as cenas que ‘deveriam ser de sexo’ eram um convite ao glamour, ao tal clima. Lembro vagamente de uma passagem em que, por algum motivo tolo, suspeita-se da sexualidade hetero do herói. A ‘moça’ (creio que a heroína ou uma destas Jill St John (?), na trama ) recebe um telefonema quando quase chegava às vias de fato com o ( acho que era ) Rod Taylor, engalfinhados num confortável sofá. O lado de lá da linha denuncia as suspeitas homo sobre o Rod, e a testemunha em ação diz “...não é o que parece...”.
    Creio que é ‘Jesse’ o nome do Ethan, um ator firme, simpaticíssimo. Mesmo tornando-se escroto/escroque como em “Tape”, de certa forma torcemos por ele. Coisa para o Davy analisar, ele que é especialista nesse tipo de envolvimento, aquela coisa de 'agora, dá-lhe uma bofetada, surra esse desgraçado !'. O Ethan nos passa sempre uma aura de redenção, de fazer renascer a esperança.
    Gallego coloca à perfeição o encanto de “Before Sundown”. Seja de que tipo for o romantismo dali, é algo que pretendo carregar comigo, muito bem guardado, por toda a minha existência. Como numa letra simplória de samba-enredo, "desse sonho eu não quero acordar". ‘O instante que se perde, a fugacidade...’ – quem navega por essas águas sabe que traz consigo um tesouro.
    E caímos no inevitável : a praticidade, a maneira como essas esperanças vão se inscrever no ‘real’. Vejo a mulher investida no castelo amoroso da relação, que ela protegerá como os antigos Lancelot du Lac protegia o reino de Camelot ( ao qual 'traiu', cedendo à tentação-Guenevere...). A traição masculina, abordada pelo Gallego, é uma ferida profunda aos olhos delas. Ao contrário, quando é ela quem cede a fascínios não domésticos, a mulher tende ao ‘escondidinho’, a abafar e esconder os ‘sintomas’, chegando até a denegação da própria tentação. Compartimentaliza, como se os braços, quadris e pernas a houvessem desobedecido. Fragiliza-se.
    Seja como for, creio que a infidelidade altera a identidade do casal. Se ‘dar nome às coisas é mudá-las’, como em Todorov na análise literária, ‘trair na relação amorosa’ é dar nova identidade aos amantes : abre-se então um outro campo, e o jogo passa a ter novas regras. Este novo jogo é curioso, pois abarca obrigatoriamente as memórias do antigo.
    Un ballo in maschera ?


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    [Aeternus:3292] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-19)


    - RE:Antes do amanhecer

    Título curiosos: Antes do amanhecer e Depois do por do sol, parecem contar vida de vampiros e, no entanto, nada mais distante deles do que a história desordenada do amor entre dois sonhadores.  Apesar da mocinha trabalhar numa ONG ou em instituições voltadas para causas sociais... que dupla alienada eles formam! Parecereriam extraídos de trechos do Dom Quixote, se não fossem também tão parecidos com muitos de nós ( sou um pouco como ambos, admito ) .

    Mistura de ficção com realidade, seja nos filmes do Linklater ou no A Princesa e Plebeu, de que o Gallego lembrou para relacionar com estes.  Vamos pensar se os homens são mais romanticos do que as mulheres, não sou boa de estatística, mas darei um depoimento em breve...


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    [Aeternus:3293] Mensagem do Grupo38
    -LFGallego(2005-04-19)


    - Não fotografou? Dançou! Mas dançou mesmo?

    Há uma passagem de "Antes do Amanhecer" que me toca particularmente: sem máquina fotográfica, Ethan Hawke diz que vai "fotografar" o rosto de Julie Delpy (em sua memória). Ela faz carinha de quem vai tirar foto 3 x 4 com ar nem tão "de pôse" nem tão "pseudo-espontânea", com um sorrisinho tímidoansioso e ar de quem sabe que deve estar agradando cheia de falsa modéstia dissimulada ou seja, ela está desassombradamente cativante - e ele a olha fixa(embasbacada-/dissimulada-)mente como quem quer apreendê-la com os olhos ("comer com os olhos" deve ser isso).
    Adoro ver fotos tiradas "de verdade" e não só "na memória" Mas raramente me lembro de carregar máquina. Quando minha mulher leva, quero tirar as fotos pois acho que tenho melhor enquadramento, melhor olhar "cinematográfico", enfim...curto. Mas de fato me atrái muito aquilo que não pôde ser registrado, firmando e confirmando a situação temporo-espacial do efêmero que nem efeméride chegará a ser. Um instante, um nada que será recordado ou não; esquecido e talvez evocado um dia por asociação com qualquer coisa (tal como anoite em claro baiana por asociação com a noite fílmica em claro vienense). Isso deve ser uma espécie de romantismo-fatalista que não aprecio particularmente nem estou defendendo: apenas é a minha natureza, para pior ou para melhor. Pois, afinal, pode-se fazer o mesmo com os retratos acumulados em caixas, álbuns, álbinhos, relegados às partes altas dos armários, sótãos, etc. Um dia, pode-se abrir as caixas ou álbuns e reencontrar um Proust perdido. Ou deixr que se cale para sempre. Afinal, como diz o Chico Buarque: são os mesmo tristes velhos trapos que num álbum de retratos teima-se colecionar...

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    [Aeternus:3294] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Mello(2005-04-19)


    - RE:Não fotografou? Dançou! Mas dançou mesmo?

    Escreveu um dos nossos romanticos: "Um dia, pode-se abrir as caixas ou álbuns e reencontrar um Proust perdido. Ou deixar que se cale para sempre. Afinal, como diz o Chico Buarque: são os mesmo tristes velhos trapos que num álbum de retratos teima-se colecionar... "

    Fotografo até suspiro, principalmente agora com as máquinas digitais.O problema é que as imagens acabam servindo apenas como aquelas coisas que nos mandam pela internet e que achamos o máximo ( tem fotos maravilhosas) e depois deletamos. Quando algum neto ou bisneto se interessar mais profundamente por elas, terão perdido a cor, borrado de mofo ou pegado fogo. Os recursos modernos não são tão sofisticados como na época primeira da fotografia ( as que meu tio-avô tirava no final do século XIX ainda estão como eram desde o comecinho ), a pressa toma conta.

    Já tentei fazer como lia nos romances dos romanticos, guardar fitas e flores secas numa caixa, por exemplo. Já se passou meio século desde que iniciei com o projeto infantil e não tem jeito: posso olhar pra flor, lembrar de onde foi que ela veio e não me emociono nada. Quando muito, e agora é porque estou olhando pra fotos, vem uma dor enorme de tempo desperdiçado ou perdido irrecuperávelmente. Nenhuma recuperação do passado. E, Proust não descrevia estes patéticos retornos. Ele falava de acometimentos inesperados por intrusões da "memória involuntária".

    Hoje, discutindo tumores e pintas com minha prima, ouvi dela uma história romantica bastante curiosa.

    Anos quarenta. Rio. Passeio de bonde...

    Yara, com a prima Ingrid e a tia Nelly pegaram um bonde número 5 para irem do Flamengo até a praia do Leme. Não havia lugar no mesmo banco para as três e o grupo se dividiu. Tia Nelly e a Ingrid ficaram na parte traseira e a Yara, algumas filas mais para a frente.
    Não era o bonde "taioba", que tinha os bancos frente a frente para abrirem um espaço central para se carregarem ali cestas com legumes e gaiolas com galinhas. Era o bonde, com direito a reboque, para passageiros tradicionais. Lavadeira com trouxa embrulhada em papel pardo amarrotado, doméstica levando frango aprisionado num jornal enrolado e que tentava bicar quem sentasse por perto, alunos do Dom Pedro I e do Instituto de Alicação nos uniformes engomados.  Senhores de terno de linho branco, lenço bordado no bolso, chapéu. E damas olhando pro alto e vendo os avisos: " É proibido cuspir ou escarrar no bonde", " Cada passagem será registrada à vista do passageiro, admitindo-se apenas, para facilitar-se a cobrança, cobrar o total por banco", ou ' Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o Rum Creosotado".
    E o cobrador, andando pelo estribo do bonde, com notas de cruzeiro dobradas de comprido e enfiadas nos dedos, tilintando as moedas que segura no cavado da palma, cobrou. Yara pagou a passagem dela e fez um sinal para a tia que havia pago a delas também.
    Minutos depois um cavalheiro de uns sessenta anos, sentado no banco imediatamente atrás da Yara, tocou levemente no ombro da moça e perguntou: " Posso lhe endereçar um poema ao seu sinal?"
    Yara ficou aflita e corrigiu: " Não fiz o sinal para o senhor, foi para minha tia que está sentada no banco que vem atrás do seu".
    O poeta insistiu: " Permita-me, senhorita, um poema ao seu sinal?"
    Yara o corrigiu de novo, virou-se para a frente encabulada.
    Na parada seguinte, a primeira na rua Voluntários da Pátria, o velhinho desceu e jogou no colo da jovem um embrulhinho, feito às pressas com um maço de cigarros vazio, no qual havia anotado o poema. Ei-lo:

    "Este sinal sedutor
    Que trazes ao teu pescoço
    Deus Nosso-Senhor quando moço
    tirou do pólen da flor"

    As pintas nos ombros eram sinais de beleza, os fetiches da época.Yara tinha uma destas, quase esquecida e que se exibia pelo decote refrescante para quem a visse pelas costas...

    Já me endereçaram vários poemas no passado ( que vergonha me davam!), mas esta história é a mais bonita de todas.

    Os homens, quando podem, são romanticos. As mulheres ... aprendem depressa a sair da etapa Madame Bovary para não sofrerem um destino semelhante ao dela.

      

     

     



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    [Aeternus:3295] Mensagem do Grupo38
    -LF Gallego(2005-04-19)


    - RE:Além do Por do Sol com Lamartine Babo 4 ou 5

    A frase crítptica em Serra da Boa esperança é : "Levo na minha cantiga a imagem da Serra/ Sei que Jesus não castiga um poeta que erra / Nós os poetas erramos porque rimamos também / os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem." Não é o máximo da delicadeza, oposty à do Larry, também enganado?


    Por outro lado, Lalá compunha nonsenses como "No cemitério, quem quiser viver, tem que falecer, tem que falecer..." Além da clássica "Quem foi que inventou o Brasil? Foi Seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia 21 de abril, dois meses depois do carnaval// Depois Pery beijou Cecy, Cecy beijou Pery ao som do Guarany. Do Guarany ao guaraná surgiu a feijoada e mais tarde o parati" (apelido de cachaça na época). A primeiras namorada se cahmava Alda e ganhou o mimo: "Coma letra A começa o amor que agente tem, com a letra A começa o nome do meu bem".


    E "Chegou a hora da fogueira, é noite de São João, o céu fica todo iluminado, fica o céu todo estrelado pintadinho de balão, pensando na cabolcla a noite inteira também fica uma fogueira dentro do meu coração..." não é linda?

    E "Eu sonhei que tu estavas tão linda" ser do mesmo autor de "AEIOU, letra U, letra U na Cartilha da Juju" e de "No Rancho Fundo bem prá lá do fim do mundo" além de "Cócócócó o galo tem saudade da galinha carijó" e de "A tua vida é... é um segredo, é um romance e... que tem enredo..." , "Rasguei a minha fantasia, o meu palhaço cheio de laço e balão, raguei a kinha fantasia, guardei os guizos no meu coração".


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    [Aeternus:3296] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-04-19)


    - enviando outra vez relatório sobre hospital por convenio

    A anestesia hoje em dia é um barato. Precisei dela para que me retirassem uma pequena verruga no canto do olho.
    Tudo começou assim:
    Pré-operatório com direito a conhecer rapidamente o futuro cirurgião e pegar os pedidos para exames de sangue, tempo de coagulação, autorização do convenio. Havia ainda páginas com instruções sobre jejum de oito horas antes da cirurgia ( marcada para as duas da tarde ) e aviso sobre não cumprimento das instruções, seguros, riscos.
    (Quando fui ao Posto Médico para autorização, encontrei Dragões da Independência atravessando a rua... já contei isso, mais a história do ciclista se aspergindo na corrida).
    No dia marcado, cheguei pontualmente e fui conduzida a uma sala onde troquei para roupa hospitalar, tirei jóias, óculos, celular, relógio e tranquei num escaninho. Fiquei meio cega, sem saber horas, sem contato com o mundo, mas tudo bem. Afinal, a enfermeira prendeu a chavezinha no meu peito com um esparadrapo e eu podia ter certeza de que meus bens e identidades seriam recuperados depois. Em seguida, a atendente colocou protetores nos meus cabelos e nos pés e me empurrou para adiante.
    Sentei numa sala com outros já sentadinhos numa fileira de cadeiras, todos sem exceção com soro pingando na veia, alguns conversando e outros emburrados, enquanto a enfermeira ia achando veias e colocando soro em cada paciente novo que entrava naquela sala. E não parava de entrar. 
    Os velhos, com catarata nos olhos, ficavam isolados. Os mais jovens se abanavam impacientes e reclamavam de fome ou sede, ou ficavam perguntando a hora de minuto em minuto.
    O cirurgião ia chamando um, depois mais outro e os víamos retornarem minutos depois, ainda tontos e com os olhos vendados...
    Parecia um pouco com o filme que assisti há pouco com o Rock Hudson que trocava de rosto e ganhava vida nova para fazer tudo que fazia na vida velha.
    O enfermeiro conduzia cada um com carinho, segurando no alto a aparelhagem do soro. Velhas tropegas seguravam no jaleco dele que se enfunava como um balão e iam seguindo, arrastando os pés devagarinho.
    Enfim, minha vez.  
    Sentei na cadeira, a inclinaram para trás, o anestesista sorriu, colocaram um lençol verde sobre meu rosto com um pequeno orifício para que  a verruga do olho sorrisse de volta para ele. Só isso.
    Apaguei na hora escarrapachada na cadeira reclinável do "cirurgião em série" ...
    Algum tempo depois me acordaram num pequeno toque e estava tudo resolvido. Saí da sala com tampão no olho feito Camões e mirando o resto na fila de espera. 
    Pensei por instantes em outro filme de terror, naquela cirurgia de olho do filme "Minority Report". Esqueci disso mais depressa ainda, ainda meio indignada com a impessoalidade do processo que parecia uma organização germanica de extermínio. Meio encantada também: deu tudo certo, me trataram com carinho antes de passarem pro próximo. Reclamar do quê?

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    [Aeternus:3297] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-19)


    - romantismo em petites coupures

    Bem...Jansy me faz compreender melhor a natureza Duranga Kidd de muitas das tough girls com as quais nos deparamos...Talvez a maioria da população feminina atual e recente ?...

    Desencanto. Amargura. Tá. Alguns autores, franceses principalmente, aliam-se a este bloco. Assisti esta semana na TV5 francesa, por incrível sorte, um filme do Pascal Bonitzer, roteirista e assistente direto do Jacques Rivette, meu muso-vovô. Bonitzer já havia feito o excelente “Rien Sur Robert” ( Fabrice Luchini, Valentina Cervi, Michel Piccoli ), e desta vez traz esse “Petites Coupures” – coupures estas que poderiam ser cortes mesmo na narrativa e/ou cortes na alma... – onde os personagens aliam a suas manias, hesitações e hipocrisias uma postura (quase sempre) educada e ‘integrada ao social’.
    O personagem central, feito por Daniel Auteuil, trata-se de um aproveitador de 1ª, cínico caradura de plantão. Aparência de homem íntegro, a tentar passar uma pose e aura de austero. Diz a um candidato a vereador ( Jean Yanne ), seu cunhado e traído amargurado-silencioso, após este pedir ajuda com pequenas manipulações de campanha, “não faço nada ilegal”. A mesma tática é usada em sua vida amorosa : vai de braço em braço feminino, nem de longe pelo enlevo como os (castos)do homme qui aimait les femmes do Truffaut, e muito mais em direção à coluna Antonioni : a dos heróis vazios dos anos 60, sempre prontos a cair em novos braços que logo abandonarão. Aqui ele é abandonado de saída pela namorada ( Émmanuelle Devos ), e une-se à uma mocita cheia de esperanças ( Ludivine Sagnier). Através da área de ventilação do banheiro,numa cena doméstica, esta escuta fragmentos da conversa dele com um amigo. Nada politicamente correto : ela passa a saber que “é meio idiota...vesga, tem dedos grossos e unhas sujas. É quase comovente”, e o tom geral de bola da vez. Abandonado de novo, é humilhado por um casal publicamente, em um bar, porque dera carona à uma arrivista desconhecido ( Dinara Droukarova, a Ada de “Depuis qu’Otar est Parti” ) debaixo do nariz de um marido bronco. Xingado, espezinhado e execrado, jamais reage. Sai dali em companhia de uma amiga da família ( Kristin Scott-Thomas ), que apieda-se dele (“por que você não reage?”...). Insinua-se um flerte entre ambos. Dos promissores olhares trocados, ele rompe com tentativas de pequenos/ou grandes beijos, tanto quanto abraços, abortados sempre por ela. Descobre-a casada com quem parecia ser apenas ‘enteada’ – um homem doente, à beira da morte ( Hans Zischler ).

    Ela parece uma heroína sofrida e desesperada, mas um desespero antes de tudo delicado, e num 2º encontro tenta induzi-lo a matar o moribundo, em permanentes cuidados médicos. Patéticos e sorrateiros, enrolados em seus próprios nós íntimos, esvaziam-se em si mesmos. Até que ela parte sem aviso prévio da sua casa de campo e ‘refúgio’ provisório que haviam eleito. Sozinho, ele sabe da chegada de sua 1ª ex (Devos ) voltando de Lyon. Frustrado em sua tentativa de reconciliação, novamente só e com o anúncio de namoro da parte desta ( “por favor, desapareça, senão vou desmaiar ! é importante para mim ! ele já está vindo !” ), ele  recebe a notícia de um acidente com sua 2ª-ex ( Ludivine ) junto a um parente afastado, que com ela partira após o arrufo. Dirige-se ao hospital numa van com uma antiga amiga(Catherine Mouchet ), e reincide na  tentativa de aventura vazia : troca olhares com esta na viatura, oferece-lhe um anel que vem rolando de dedo em dedo, de casa em casa, desde a parceira inicial. Ela gosta e aceita. Em outra virada de olhares, o beijo voluptuoso e a companhia em novo enlevo até a acidentada. Com petites coupures pelo corpo, além de uma baita equimose, esta diz “eu sei que não significo nada para você, mas estou feliz de você ter vindo. Serve para você ver que é um pobre coitado, um infeliz” Ele : é. Sou mesmo.” Ao sair dali, é atiçado pela recém-conquistada para os fundos do nosocômio, começam a se atracar com volúpia, mas ressurge a 3ª-ex (Kristin ), que levara o moribundo para reavaliação numa crise mais intensa. O clima entre ambos se desfaz, e impõe-se um silêncio constrangedor após algumas poucas palavras ( “por que você partiu sem avisar ?” ). A nova namorada  (Catherine )volta para a frente do hospital, onde combinara encontro com o marido, que nota-a aturdida; enquanto isso, o cínico compenetrado tenta explicar, sem sucesso, o ‘nada aconteceu’ da há pouco à 2ª-ex. Solitário e sentado a um banco e jardim, vê o marido da jovem que beijara há pouco aproximar-se e baleá-lo.
    ( corte para )(cena de enterro ) O moribundo que morreu foi o de morte morrida, enfim, atendendo aos anseios de sua mulher. Sabemos disto quando Kristin deixa a cerimônia e encontra o cínico-sério (“estou bem. Perdi apenas o baço” ) ( dolly pra trás, Kristin maquia-se usando seu pequeno estojo de bolso, desvio da câmera à direita, boom, céu azul nublado de branco/ et fin )

    Assim assim, lendo, parece um rondó amoroso folhetinesco, donjuanesco. Mas Bonitzer confere delicado e refinado tratamento à tudo, resultando um painel muito interessante de discussão. Não se trata mais nem do ‘efêmero’, a meu ver, mas de um frenesi de volúpia para sentir-se vivo. Fuga ao bom-ruim e velho tédio existencial : os personagens precisam sentir-se vivos, e o ‘amor’, o ‘envolvimento’ atesta-os. Porém, feu de paille, esvai-se tão rapidamente quanto surge. Sem parecer tão centrado na extraversão da imagem, como em Baudrillard, Bonitzer orquestra uma ópera de patéticos zumbis-do-amor no pós.
    N’est-ce pas  romantique ?


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    [Aeternus:3298] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2005-04-19)


    - solidarnosk

    Sei muito bem do que Jansy fala.
    O pior de tudo é exatamente o que ela relata sobre o 'clima', a 'aura', a assepsia impessoal com que tudo se passa. A educação estruturada e quase-robótica, que funciona no senso 'respeito', cria ao mesmo tempo um ar de que não mais existimos na dimensão habitual, enquanto e durante ali estamos.
    O que mais me assustou durante minha última cirurgia, afora eu quase ter morrido de náusea no pós-operatório, foi o bem estar que senti enquanto meu amigo cirurgião me estripava e re-costurava. Viva a anestesia e os psicotrópicos !

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    [Aeternus:3299] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-04-22)


    - ode aos motéis, artefatos de viajantes e psicanalistas

    Discorrendo sobre possibilidade de integração indivíduo/comunidade, volatilidade de identidade(s), graus de liberdades/riscos e busca de ‘metas coletivas’, Bauman cita em “A Modernidade Líquida” ( 2000 ) :

    “A suposição tácita que apóia uma tomada de posição tão radical é que a liberdade concebível e possível de alcançar já foi atingida; nada resta a fazer senão limpar os poucos cantos restantes e preencher os lugares vazios – trabalho que será completado em pouco tempo. Os homens e as mulheres são inteira e verdadeiramente livres, e assim a agenda de libertação está praticamente esgotada. O protesto de Marcuse e a nostalgia comunitária de comunidade perdida podem ser manifestações de valores mutuamente opostos, mas são igualmente anacrônicos. Nem o reenraizar dos desenraizados, nem o ‘despertar do povo’ para a tarefa não-realizada da libertação estão nas cartas. A perplexidade de Marcuse está ultrapassada, pois o ‘indivíduo’ já ganhou toda a liberdade com que poderia sonhar e que seria razoável esperar; as instituições sociais estão mais que dispostas a deixar à iniciativa individual o cuidado com as definições e identidades, e os princípios universais contra os quais se rebelar estão em falta. Quanto ao sonho comunitário de ‘reacomodar os desacomodados’, nada pode mudar o fato de que o que está disponível para a reacomodação são somente camas de motel, sacos de dormir e divãs de analistas, e que de agora em diante as comunidades – mais postuladas que ‘imaginadas’ – podem ser apenas artefatos efêmeros da peça da individualidade em curso, e não mais as forças determinantes e definidoras das identidades.”


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    [Aeternus:3300] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-04-22)


    - RE:ode aos motéis, artefatos de viajantes e psicanalistas

    Destaco do parágrafo oferecido pelo Marcos, a partir do Bauman: "A perplexidade de Marcuse está ultrapassada, pois o ‘indivíduo’ já ganhou toda a liberdade com que poderia sonhar e que seria razoável esperar; as instituições sociais estão mais que dispostas a deixar à iniciativa individual o cuidado com as definições e identidades, e os princípios universais contra os quais se rebelar estão em falta."

    Separei este trecho e dele ainda focalizo mais de perto uma frase, um pedaço dela: "os princípios universais estão em falta".  Não vejo como seja possivel falar de liberdade sem ter uma moldura para a palavra, ou seja, algo que defina o que a "liberdade não é". Algum princípio ou fim é preciso, por mais abstrato que seja, como é no caso para Lacan quando ele descreve o "falo" ( significante para a falta de um significante, significante da ausência) ou sobre "o nome do pai". É preciso haver a idéia de algum código, mesmo que não se diga qual seja o código para então dizer que a liberdade existe ou não.

    Fora do campo filosófico, é claro que a liberdade não existe para quase a maioria dos habitantes do planeta. Trabalho escravo não é apenas aquele que se vê assustadoramente ser descrito pelos jornais.

    Onde concordo com o parágrafo do Marcos é sobre a crítica a respeito da idéia da "extinção da comunidade" e do "desenraízamento" como demandando uma retomada das comunidades ou retorno às raizes, como entendi que seria a proposta do Marcuse ( pensar com pedaços de sentenças ou parágrafos, ignorando o todo da obra é injustiça com todos os envolvidos! O melhor é deixar de fora nomes e autores...) .  O mundo está construido atualmente de modo distinto daquele onde era necessário genealogia, raízes, comunidade.


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    [Aeternus:3301] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-04-22)


    - RE:RE:ode aos motéis, artefatos de viajantes e psicanalistas

    "O mundo está construido atualmente de modo distinto daquele onde era necessário genealogia, raízes, comunidade."
    Este núcleo que destaquei dos comentários a Jansy é um dos campos centrais de abordagem do Bauman, que o esmuiça com toda lucidez. Da mesma forma forma que alinha-se, em paralelo, ao que Jansy cita a respeito de Lacan, 'falo' / 'significante no não-significante' quando o autor atrela os estudos da liberdade ao seu oposto comunitário - o estado totalitário.
    Talvez fique faltando aqui apenas uma demarcação do que seria 'estado totalitário' a nível íntimo, em huis clos e/ou no núcleo familiar ( ou no que restou deste ).


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    [Aeternus:4353] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-06)


    - Deturpa-me com carinho, deturpa-me com paixão

    Assisti um belo filme chamado Antes da chuva; nele, num dado momento, num mosteiro, um padre mais velho diz a um monge bem jovem em voto de silêncio algo como: também já fiz voto de silêncio, entretanto a realidade é desmesuradamente exuberante para eu ficar calado.

    Em contraposição, muitos problemas começam quando não conseguimos calar. Será que diante da exuberância, devemos apenas degustar quietos a beleza que ela representa? Falar sobre ela servirá somente para distorcer os seus contornos? Jamais haverá fidelidade entre o sentimento e a expressão?

    Entre o sentir e o falar existe uma distância que altera todas as intenções, por melhores que sejam?!

    Qualquer palavra nossa, em lábios alheios, não passa de deturpação – e deturpamo-nos a nós mesmos quando, em vez de palavras, são nossos lábios nos lábios alheios... Deturpamo-nos um ao outro?

    Essa passagem do filme é linda, dando muito a pensar. Sim, calar e falar, duas possibilidades intensivas de modos de celebrar a realidade. Pois é, quanto à celebração, ao elogio, que trouxe a passagem à tona. Nesse tipo de fala, temos, no filme, duas experiências: a do silêncio e a da fala. Mas não a de uma fala qualquer – a de uma fala depois do silêncio. A de uma fala posterior ao silêncio, incorporadora dele e, ao mesmo tempo, que não quer renunciar mais a nada, nada. Quer desdobrar-se, de vida para vida, de vida para vida falada. Talvez a fala seja distorção, mas, distorção vigorosa e celebradora, sem desejo de fidelidade...

    Abraços,

    D.


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    [Aeternus:4355] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-06)


    - RE:Deturpa-me com carinho, deturpa-me com paixão

    Caro Conde D.

    Interessante o título "deturpa-me com carinho" e seus comentários sobre falar e calar. Eu mesma estava enrolada na outra lista, discutindo meu riso diante do Magnificat de Maria porque sempre vi com reverência as telas da anunciação que, subitamente, ganharam uma vida nova e deturpada.  Minha risada nasceu dessa mesma deturpação do sentimento silencioso e piedoso.
    Menina ainda decorei: " A minh´alma engrandece o Senhor e meu espírito se alegra em Deus meu Salvador" ( tínhamos que decorar versículos bíblicos na ordem alfabética e este era o primeiro ).
    Cantando nos corais em casamentos grandiosos sempre lá havia o Magnificat Anima Mea Dominum ( é bem mais curto em latim ). 
    Calar ou confessar? Rir? Chorar?  Lá sei. Dentro de nós há um turbilhão contraditório de emoções e guardo em mim um recanto de quietude que não vem da repressão ( recalcamento ), mas de uma paz interna real. As telas da anunciação evocavam em mim esta quietude. E...ainda evocam. Nada do que eu diga, deturpe ou distorça irreverentemente chega até lá.
    Não creio que tenha visto o filme "Antes da Chuva", vou procurar para alugar.
    Bela mensagem a sua, Sr. Conde.


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    [Aeternus:4356] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE:Deturpa-me com carinho, deturpa-me com paixão

    Tzvetàn Todorov, analista literário búlgaro, diz que 'não se pode verbalizar com impunidade : dar nome às coisas é mudá-las'.
    ( ao citá-lo eu estaria deturpando-o ? Seria esta uma 'solidarnosk triçoeira' ? )
    Prefiro acreditar numa 'deturpação do Bem', digamos. Alinhar-me com correntes de pensamento que levarão à formação de novos elos. Lavoisier...nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

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    [Aeternus:4358] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - Antes da Chuva

    O filme que nosso Conde traz à baila é a obra da dissensão.
    Através de um fotógrafo radicado em Londres, com origens nos Bálcãs, assistimos uma costura do desencontro humano.
    Cenas violentíssimas perpassam o filme, como a passada num restaurante, onde um cliente recalcitrante leva ao extremo uma rusga por um prato de comida. Seja : um pacato restaurante londrino pode transformar-se numa colina sangrenta dos Bálcãs : basta a tal deturpação surgir...
    Mais sutil, ainda, a deturpação colocada pelo Conde : passada num mosteiro, onde só imperaria a paz.
    ( a tempo : ) Embora bem sucedido em Londres, o fotógrafo não resiste à tentação que o impele às origens. Não temos como escapar desse revertere ad locum tuum ?


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    [Aeternus:4359] Mensagem do Grupo38
    -Márcia Adorno(2005-09-06)


    - Do sentir ao ato

    Em silêncio tecem-se as palavras, apesar de ruidoso o pensamento. É uma questão: atravessar o silêncio com a espada da linguagem e imolar o sentido que queríamos dar à luz? Estaríamos , pois, violentando a água pura da fonte e fazendo-a desaguar desvirginada de seu sentido inicial? Mas se a qualidade do ato é operar uma rotação no sentido remetendo-o ao Outro, prescindir do ato não seria abortar nos sentimentos a sua própria natureza fluida, que corre em direção à receptividade, à busca no Outro da confirmação de si próprio? Não seria enclausurá-lo e condená-lo à esterilidade?

    Desejar  transmitir a originalidade bruta do sentimento, sem a lapidação que lhe é feita pela articulação do pensamento até à transformação desse magma em linguagem, é o que busca o escritor. Mas se diante da impossibilidade de conseguir realizar seu desejo ele simplesmente decide se embriagar com éter de seu sentir, jamais teríamos a oportunidade de tocar em algo palpável e reluzente como o brilhante que se revela em diversas obras de arte, não só no campo da literatura.

     Podemos então pensar que este obstáculo é exatamente o que nos move, nos impulsiona, nos remete à busca da perfeição, daquilo que mais se assemelha à "coisa em si", que pela sua própria natureza é intangível por ocupar outra dimensão.

    Márcia Adorno


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    [Aeternus:4360] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato: poetico e pungente testemunho da Marcia

    Marcia, não há nada a acrescentar ao seu belíssimo texto, completo em si mesmo, porque dá para perceber que nasceu de um modo profundo sentir o mundo e sofrer a duplicidade das palavras de que precisamos para existirmos como testemunhas, em vez de ficarmos como " á agua na água".

    Lembrei de um poema de Dante Gabriel Rossetti , que acrescento abaixo.

    The Woodspurge
     
    Dante Gabriel Rossetti (1828–82)
     
     
    THE WIND flapp’d loose, the wind was still,
    Shaken out dead from tree and hill:
    I had walk’d on at the wind’s will,—
    I sat now, for the wind was still.
     
    Between my knees my forehead was,—        5
    My lips, drawn in, said not Alas!
    My hair was over in the grass,
    My naked ears heard the day pass.
     
    MY eyes, wide open, had the run
    Of some ten weeds to fix upon;        10
    Among those few, out of the sun,
    The woodspurge flower’d, three cups in one.
     
    From perfect grief there need not be
    Wisdom or even memory:
    One thing then learnt remains to me,—        15
    The woodspurge has a cup of three.

     

    Este poema me veio com facilidade à memória porque tinha usado sua última linha como epígrafe para um dos meus poemas que ousarei copiar aqui também...

    Há uma estridência nas flores
    uma discórdia
    no miolo das coisas.
           A indicadora do fundo
           do mundo
           dos acertos
           dos valores
           dos pecados mortais
    a tristeza esconde
    outras dores
    e nos isola.
            Quando a beleza se cobre de roxo
             quando a verdade esconde sua face
             quando paramos de sentir culpa
             deixamos de sofrê-la
              a sofrer ainda mais.

    Todo psicanalista conhece a solidão de certas dores e reconhece que, ante algumas experiências, não há como estar junto do que sofre senão como  testemunha. 


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    [Aeternus:4361] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato

    Os discursos de Marcia e Jansy remetem a Kafka /Kierkegaard/Camus : 'em um mundo acabado e perfeito, não haveria lugar para a Arte'.
    Mundo perigoso, hein !!!???...Se aparecesse um carinha na frente de vocês oferecendo uma passagem gratuita para ele, vocês iriam ?
    Donc : 'alegria' e 'felicidade' só existem por causa de 'tristeza' e 'infelicidade' ?
    Se assim não é, teríamos que nos remeter a um novo balizamento, à uma nova ordem das coisas e do pensamento.


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    [Aeternus:4362] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato 3

    Como é óbvio, só posso responder por mim mesma ao Marcos.

    Se me oferecessem uma passagem a um mundo perfeito teria medo de estar diante de um fundamentalista islamico a cobrar de mim algum suicídio a ser recompensado pelo paraíso. Desde Freud, talvez desde antes ainda,  Nirvana é sinonimo de Morte.

    Será que só se chega à felicidade contrapondo-a à infelicidade?
    Marcos perguntou:: 'alegria' e 'felicidade' só existem por causa de 'tristeza' e 'infelicidade' ?
    Se assim não é, teríamos que nos remeter a um novo balizamento, à uma nova ordem das coisas e do pensamento...

    Entendo que só se chega a falar da alegria por causa da tristeza, ou da felicidade contrapondo a palavra "felicidade" a sua negação ou ao seu oposto. Lembro-o de uma batida frase: " eu era feliz e não sabia", ou seja, podemos ser felizes sem recorrer às palavras mas, então, não teremos consciência do que experimentamos. A palavra trai a experiência no mesmo movimento em que a revela para nós e para o mundo.


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    [Aeternus:4363] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE:RE:Do sentir ao ato 4 : Todorov rides again

    A palavra é sempre o cutelo normatizador/modificador ?
    Coitada...espremida entre o silêncio-estufa ou tornar-se a Espada de Dâmocles !...ó dia, ó azar !!!

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    [Aeternus:4364] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato 4 : Todorov rides again 2

    Marcos, não tenho vocação evangelizante ( nem o necessário talento) e portanto não vejo como desembainhar a espada ( que não precisa ser de Damocles, nem qualquer uma que me emprestassem) para defender a pobre da "palavra" ante os questionamentos que você fez.

    Você perguntou: "A palavra é sempre o cutelo normatizador/modificador?" e, como alguém disse um dia, sempre às vezes é sempre mas, nunca, é pra sempre.  O que, de quebra, ainda ilustra o componente equivocante das palavras. 
    Não sei se a palavra é um cutelo normatizador, mas penso que, em Lacan, o significante "Falo" remete à lei e à mudança. Também remete à espada e ao cutelo, mas agora... de qual lado?
    Ainda bem que nos versículos temos que o " Falo é o significante da falta, ou seja, da falta de um significante no campo do Outro".  Pode baixar o cutelo que ele só atingirá o fantasma...


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    [Aeternus:4365] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE:RE:Do sentir ao ato 4 : Todorov rides again 3

    Você está D-E-M-A-I-S, garota Jansy !...

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    [Aeternus:4369] Mensagem do Grupo38
    -Marcia Adorno(2005-09-06)


    - Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo

    Marcos,

    Se alguém me oferecesse a passagem  que você mencionou eu teria certeza que ele estaria tentando enganar a mim ou a ele próprio num ataque alucinatório. A felicidade infinita, superfície inerte do lago dos desejos, é algo para além do Nirvana, portanto muito além do alcance de nossa transitoriedade e limitação. Entretanto, a alguns é dado o prazer de defrutá-la em alguns átimos de segundo, quando podemos sentir seu sabor que de tão concentrado nos faz antever que não suportaríamos  muito mais que isto.

    Não vejo a palavra como cutelo a amputar o sentido, mas como elemento indispensável para que algo seja criado além dele, como  feixe de luz derivando vários prismas. É por meio da linguagem que o homem é arremetido para outra realidade que não a do seu próprio narcisismo.

    Márcia Adorno

     


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    [Aeternus:4371] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato - a gargalhada no claro

    Marcia, há um ano e pouco, relaxado e vendo TV em Pouso Alto, uma filial do Paraíso aqui na Terra, rolei os canais disponíveis. A 'Rede TV' trazia uma mesa redonda com a apresentadora-mor, um artista, um psicanalista e um jornalista. Sem que eu soubesse o tema espesífico em discussão - pegeui o bonde andando - e com a palavra, o psicanalista nos dizia 'o ser humano tem horror da monotonia : '10 dias seguidos de felicidade é algo insuportável !'.
    Após a gargalhada no claro, e em auto-crítica, senti-me um marciano : houve uma vez num outono, Europa adentro/afora, onde fui feliz um mês seguido. E nada tenho a reclamar a respeito...


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    [Aeternus:4372] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE:RE:Do sentir ao ato - a gargalhada no claro : a tempo, Marcia

    ...era outono aqui, e a tua estação lá.

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    [Aeternus:4374] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo

    Ouvindo o Marco Antonio Coutinho Jorge no CCBB na semana passada entendi algo que ele com certeza não falou, que a linguagem era o abismo que separava o humano do mundo natural.
    Suponho que seu plano era o tradicional, de remeter à linguagem enquanto ponte sobre o abismo, assim como sugere o títuloda Márcia...

    É que gostei da idéia de um abismo gerado graças à intervenção do simbólico, do que separa o homem dos animais e dá a chance de experimentar o susto ante o Real ( que é este mesmo abismo que nos olha de volta, como queria Nietzsche, e que só atravessamos porque há o simbólico! Haja paradoxo).

    Estamos sempre, como lembrou o Conde, nos desiludindo porque antes de mais nada, nos iludimos. Se não o fizéssemos, enlouqueceríamos. É preciso acreditar que teremos um por do sol e que o veremos surgir no dia seguinte caso estejamos vivos e até nos expressarmos dizendo que é o sol que se põe ou nasce, ou que Aurora singrou o céu com véus multicoloridos! O problema é quando esquecemos do que David ensina sobre Winnicott: acreditamos excessivamente na nossa ilusão, em vez de vivermos no espaço transicional que cria o "nem isso, nem aquilo, talvez as duas coisas". O amor é o máximo da ilusão que, como o cerne vazio dos eixos, promove vida e felicidade.

    Para Emily Dickinson, na frase que não canso de lembrar, a fé é uma ponte sem pilastras. Atravessamos por ela  até aquele ponto atemporal de extase do qual a Marcia fala: " a alguns é dado o prazer de defrutá-la em alguns átimos de segundo, quando podemos sentir seu sabor que de tão concentrado nos faz antever que não suportaríamos  muito mais que isto".

    "He who binds to himself a joy does the winged life destroy;
    He who kisses the joy as it flies, lives in eternity´s sunrise".
    (William Blake, Songs of Innocence and songs of Experience)


    Florião reconhece que é possível viver um mes de felicidade em Pouso Alto ou viajando pela Europa, que dez dias é pouco. Ás vezes, se dosarmos os desprazeres, podemos nos sentir felizes até por mais tempo pois a felicidade tem muitas nuances ( agora escrevo com netos em volta pintando telinhas de tecido e me pedindo para abrir vidros de tinta, limpar borrocações e me atrapalhando toda enquanto me sinto incrivelmente feliz com eles ).

    William Golding observou  que a felicidade é um exercício para quem tem apenas dez dedos nas mãos ao tocar piano... Lenin escreveu algures que a "felicidade é para os porcos".
    Lembro do desespero da personagem Miranda Richardson num filme em que está na India e abre uma janela: " Que insuportável, mais um dia lindo!".

    É bom termos e não termos razão, entrarmos e sairmos da felicidade e do êxtase pois tudo isso é mudança e, portanto, sinal de que existe vida...


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    [Aeternus:4375] Mensagem do Grupo38
    -Marcia Adorno(2005-09-06)


    - Estações

    Marcos,

    Vejo que gosta de cultivar o hedonismo. Falo de uma felicidade estanque, imemorial, que nos remete sempre à mesma coisa, que por sua vez confirma o estado anterior numa seqüência infinita. Andar Europa adentro/afora é uma experiência de surpresa, e possivelmente o viajante está aberto ao inesperado, ao novo e o vivencia sem querer dele se apropriar. Por isso a felicidade que você mencionou não cansa. Assim deveríamos nos comportar diante da vida, sem querermos dela nos apossar para termos garantias de não sentir dor.

    Bem não era exatamente isso que queria falar. Podemos voltar ao assunto em outro lugar dessa espiral que é nossa vida. Ainda bem que nela o mesmo lugar é sempre outro.

    Um abraço,

    Márcia Adorno


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    [Aeternus:4380] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-06)


    - RE: posso te ter como correspondente ?

    Me passe teu mail, escreva para mrfloriao@uol.com.br

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    [Aeternus:4381] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-06)


    - RE:RE:Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo

    Eu acredito nessa possibilidade: na desinvenção da impossibilidade do amor e da egotização narcísica do sexo. No fundo, sou um otimista.

    Closer me animou bastante. Eu não ficava tão entusiasmado com um filme desde "Fale com Ela" do Almodóvar. Porque são filmes que entendem mas contestam a inescapabilidade da idéia de destino que a filosofia contemporânea tirou da mão dos deuses mas tampouco conseguiu, como pretendiam alguns pensadores, devolver ao homem: é um destino estrutural inoculado pela descoberta e aceitação do Nada (noutros termos, da Castração) que funda os processos subjetivantes. É a eternização do que foi um dia aleatório. Eu penso que essas filosofias falam apenas e tão somente de um legado perverso, que exigiria um antivírus lingüístico, um discurso diferente. Não sei se isso surpreende, mas eu acredito que a alternativa esteja em algo parecido com a teleologia da Natureza. E a Natureza em nós, como já nos apontou Schopenhauer, se manifesta por essa coisa incompreensível para a qual o Chico Buarque pergunta "o que será? que será?", essa "sensação que espicaça" como explicam as edições Standard da obra do Freud para traduzir a idéia de pulsão, essa força amorfa para a qual a gente procura incessantemente um continente, uma REPRESENTAÇÃO. E essa força é o nosso elo com o real, um real vivo, não morto. É essa a minha diferença com... as "filosofias da diferença".

    No caso de Lacan, minha diferença começa com a quase sinonimização que ele faz entre castração e recalque. Pra mim, o recalque é subjetivante, mas a castração... bem... isso é uma outra história.

    Onde quero chegar: o que é ou o que foi um dia aleatório, pode ser mudado, até mesmo o superego ou coisa que o valha. Dizer que a liberdade é conseguida pelo divórcio com a natureza é um equívoco, porque, para REALizar plenamente esse divórcio seria preciso morrer. Eu acredito na vida extra-egóica. Só assim o orgasmo pode ser numinoso.

    "Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma

    A alma é que estraga o amor

    As almas são incomunicáveis

    Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo

    Porque os corpos se entendem, mas as almas não"

    Manoel Bandeira

    Um dia as almas hão de aprender a se entender, hão de aprender com os corpos.

    Na adaptação que Jean-Jacques Annaud fez para o cinema de O Nome da Rosa do Umberto Eco, há uma frase que resume muitas buscas:

    "Para dominar a natureza, Adso, é preciso antes aprender a obedecê-la".

     Abraços,

    D.


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    [Aeternus:4383] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-06)


    - RE:Do sentir ao ato - ponte sobre o abismo e mais ainda

    Pelo jeito, no final o conde sempre retorna a Lacan para melhor situar os descontentamentos com o que se escreve em psicanálise. Ele fala muito em subjetivação ou em "processo subjetivante" e, há pouco, aproximou castração e recalque. Estes termos não fazem parte do Lacan que estudei, então não tenho muito a comentar  - embora até que goste da fase em que ele ainda era membro da IPA. 
    Castração e recalque no sentido usado estão talequal em Freud ( cf. "Inibição,Sintoma e Angústia"). Não sei o que é  "subjetivação".

    Talvez Dante achasse que as almas se entendem e os corpos não, ao contrário de Bandeira.Cada um tem sua experiência e a reinventa como pode e aos olhos de quem der pra escolher. Não me esqueço da piada do sujeito que estava a dois naufragado numa ilha e precisou ver a Sharon Stone se vestir de homem  para contar pra ela que transava com a Sharon Stone.   

    Quem está com uma baita dor de dente sabe que não há como escapar da natureza. Só às vezes, quando adormecemos e sonhamos, conseguimos escapar, mas, não dura muito.  Então não sei por que caminhos seguem os argumentos do conde. Um retorno ao conceito de instinto animal?
    É o que todos fazem atualmente, se é que algum dia entenderam a novidade que Freud introduziu com sua invenção da pulsão como algo "na fronteira do físico e do psíquico" e que não tem um objeto dado através dos determinismos da biologia. Ainda não entendi muito bem o que Freud propôs, me seguro na intuição dele. Como ele entendo que, ao fim e ao cabo, a gente precisa amar para não ficar doente.


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    [Aeternus:4397] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-08)


    - RE:Do sentir ao ato - Paul Bowles

    O inapreensível, está sempre aí, por trás de toda a aparência do mundo, junto ao mundo mesmo – e no entanto somos nós que insistimos em não vê-lo...

    "O céu que nos protege" (The Sheltering Sky) levado às telas no filme de Bertolucci:

    Port: 'You know, the sky here's very strange. I often have the sensation when I look at it that it's a solid thing up there, protecting us from what's behind.'[...]

    Kit: 'But what is behind?'

    Port: 'Nothing, I suppose. Just darkness. Absolute night.'


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    [Aeternus:4398] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-08)


    - RE:RE:Do sentir ao ato - Paul Bowles voltado para a lua

    Aceitar o inapreensível exige que se atravesse o mar...
    Fôlego e saúde, pois. Do magnífico romance do Bowles, adoro quando Port diz ( no filme é o próprio Bowles quem recita essas linhas, em bela solução do Bertô e olhando-nos ! é lindo ! ) "a morte está sempre no caminho, porém o fato de nunca se saber quando ela chegará, parece amenizar o caráter finito da vida. É aquela precisão terrível que odiamos tanto. E como não sabemos, temos a tendência a encarar a vida como um poço inesgotável. Entretanto, tudo só acontece uma determinada quantidade de vezes e, na realidade, uma quantidade muito pequena. Quantas vezes mais lembrar-se-á de uma certa tarde em sua infância, alguma tarde que faz tão profundamente parte de seu ser que não conseguiria imaginar sua vida sem ela ? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais assistirá ao nascimento da lua cheia ? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece não ter limites."

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    [Aeternus:4412] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-09)


    - RE: Outras estações

    PREZ@DOS Davy, Eugenia, Eva, família Manson, Fata Morgana, Gallego, Guto, Helena, Jansy, Madalena, Márcia, Marcos, Noel Rosa, Olivier Assayas, Quim quem, Roman Polanski, Sharon Tate, Van Helsing S.E e Outros!!!!

    O Nietzsche vai dizer que a gente Humaniza o Real, a gente torna o Real habitável pra gente mesmo. E, diz ele, com isso nós cometemos uma injustiça. No que consiste essa injustiça? Que injustiça é essa que nós cometemos quando nós humanizamos o Real? A injustiça consiste em recalcar o devir. Nós dissimulamos o devir. O que é o devir? É o vir-a-ser. É o fluir do Real, a fluência, o movimento. A nossa injustiça consiste em congelar este fluir. O que é injusto? É cristalizar aquilo que flui, que é o devir.

    Então, o que seria uma justiça? A justiça consistiria em deixar o devir aparecer, em deixar o devir se revelar enquanto devir, o devir em pessoa, digamos assim, em contraposição à tudo aquilo que imobiliza ou tenta solidificar este devir. Em geral, qualquer crença que nós temos é uma tentativa de solidificação deste devir. Uma crença é uma constância.

    Agora, o Nietzsche diz que nós não podemos abrir mão completamente das nossas crenças, ou melhor, das nossas perspectivas ou de algumas perspectivas. Um pouquinho de cristalização a gente precisa porque senão a gente morre. Se tudo muda o tempo todo em tudo, a gente não consegue nem sobreviver psiquicamente. A gente não pode dispensar completamente patamares mínimos de solidificação. Só que, às vezes, eles encobrem completamente o fluir ou cristalizam completamente o devir, e aí cometemos uma grande injustiça.

    Essa idéia de injustiça é bárbara, é estranha, porque é uma injustiça cósmica. Não é uma injustiça com um outro, é com a natureza ou com esta natureza de devir. A humanização está em querer uma constância e projetar uma constância sobre aquilo que é louca fluência.

    A idéia aqui é de que uma justiça reabilita o devir porque ela deixa este devir, esta fluência, este movimento aparecer na sua nudez. O que é a nudez do devir? É este devir no seu caráter de contraditório, de ambíguo. Um devir que alterna Criação e Destruição. O que é o devir? É esta alternância entre Criação, Destruição, Contradição, Paradoxo, Ambiguidade, Irracionalidade. É tudo isso que a nossa humana sede de constância e de identidade não suporta.

    O humano em nós pede coisas fixas, previsíveis, programáveis, reconhecíveis. É muito difícil para essa sede de constância alguma coisa que muda o tempo todo. e que não dá para reconhecer, e que não dá para identificar, e que não dá para prever, e que não dá para programar. É este o caráter um pouco diabólico do devir que a gente não suporta. Com ele não dá para conversar porque o tempo todo o devir ameaçaria a nossa representação de constância e de estabilidade, a sede de estabilidade. O nosso ideal é uma companhia de seguros. Ideal metafísico de segurança, estabilidade, previsibilidade, programabilidade. Precisamos da máxima segurança ou do máximo conforto. Esta não é só uma sede de constância, um material de conforto, é uma ânsia metafísica.

    E o que mais contraria isso, subverte isso é um devir que, por natureza, é subversivo. O devir das coisas, o movimento das coisas, como absolutamente paradoxal, irreconhecível, ilógico, caótico, fractal, que entra em choque com esta nossa ânsia de seguridade social e outras.

    A idéia do Nietzsche não é nova, vêm de Heráclito, mas não importa. Ele reformulou em função da conservação antropológica do século XIX, que também é a nossa. A idéia do Nietzsche é como reafirmar este fluxo eterno? Como não ter medo deste fluxo do mundo que é um fluxo nosso também, fluxo interno, fluxo externo, cósmico? Como não ter medo, não evitá-lo e não negá-lo, sobretudo? Como não recalcar o fluxo do devir?

    E o Nietzsche diz que é preciso reconhecer a Inocência do Devir. O que é a Inocência do Devir? Vou representar o devir como uma onda. E, em geral, se subsume, ou melhor, se subordina este devir à alguma coisa. Esta coisa pode ser uma finalidade última, uma razão superior de ser das coisas, etc. É como se a gente olhasse para isso e dissesse: "Isso é um absurdo! Se fosse só isso estaríamos perdidos!" Então tem que ter alguma razão extrínseca à isso, que explique isso, que dê sentido à isso, que dê alguma finalidade à esse movimento caótico que a gente não domina, não controla. Vamos chamar de força superior, de finalidade, de lógica do mundo, não importa. Mas é uma maneira de negar o devir. De dizer que este devir, assim, por si só, ele é insuportável. A gente desacredita o devir e o desqualifica em função de uma outra coisa maior que nos dê segurança mínima. É a nossa maneira de se vingar contra o devir. Como ele é insuportável a gente constrói uma vingança.

    E o Nietzsche vai "reafirmar a inocência do devir". O devir não está subordinado à nada. Este caos tem que poder ser, assumido enquanto tal, vivido e não evitado. Tem uma frasezinha do Nietzsche que ele diz: "Nós que queremos devolver ao devir a sua inocência gostaríamos de ser missionários de um pensamento mais puro, à saber, que ninguém dá ao Homem suas qualidades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais, nem seus ancestrais, nem ele mesmo. Ninguém é culpado dele".

    Quando a gente olha o devir assim a gente diz: "é um absurdo". Tem que buscar alguma causa ou alguma finalidade ou alguma razão. E não que "isto aqui seja representação da minha pessoa". Aí eu vou dizer que eu sou assim porque Deus ou a razão ou meus pais ou a sociedade... Quer dizer, eu subordinei o meu fluxo à alguma coisa de fora que o explica. E aí é uma instância explicativa, com uma finalidade, que dá sentido. Mas é algum sentido extrínseco ao devir. Ele é imposto de fora, vem de fora. Se ele fosse só assim ele seria culpado de alguma coisa. Então, precisa alguém ou alguma instância de fora que o explicite.

    Nietzsche diz que sempre que você procura alguma explicação ou algum responsável você já está se considerando culpado. Mas o devir já é culpado. Porque a idéia do Nietzsche é que o fluxo não precisa de nenhuma explicação externa. Nada é responsável por ele, nem pra bem e nem pra mal. O fluxo, por isso, ele é inocente. Se alguma coisa vai mal não é uma culpa de alguém ou de alguma coisa. Esta é a idéia da Inocência do Devir porque, em geral, se considera o devir culpado e vai se buscar o culpado.

    O "sacerdote" consegue nos fazer acreditar que o culpado pelo nosso sofrimento somos nós mesmos. Esta é a grande malícia com a qual a culpa se interioriza e aí vira uma tortura e novos flagelos e tal. Como se eu não pudesse ser inocente. E toda a idéia do Nietzsche - e agora eu estou ampliando um pouco porque é um plano mais profundo esta história, mas é a mesma temática. Questão: como aderir ao fluxo do mundo? Como não se proteger dele o tempo todo criando ilusões de estabilidade, congelamentos?

    Eu relacionei inocência não à subordinação mas à insubordinação. Estou contrapondo um ao outro. Deixa eu explicar melhor esta idéia da inocência em relação à subordinação. Já que o mundo é assim caótico em seu fluxo e provoca tanto sofrimento ele deve ter alguma mácula. O fluxo do mundo por ser causador de sofrimento, paradoxo, e imprevisibilidade... ele é manchado. Aos olhos de quem? De alguém que quer estabilidade. Aos olhos de quem acha que apenas a estabilidade é limpa. O olhar tradicional considera a estabilidade como inocente e esta instabilidade como culpada, como manchada, criminosa, maculada. E aí ele faz uma inversão. Por que esta inocência, por que este devir, mesmo sendo causador de tanta confusão, por que ele seria culpado? Ele é inocente! Justamente porque Deus está morto é que o devir é inocente.

    A idéia é a seguinte: o usuário precisa de um seguro de vida o tempo todo e ele faz questão desse seguro de vida. E a vida, nesse fluxo demoníaco, ela é um perigo. Além de terrorífica ela deve ter alguma mácula intrínseca por ser isso tudo. Então, pelo olhar a partir da segurança do segurado a vida é considerada perigosa e maculada. E o Nietzsche vai dizer que este seguro de vida não existe mais. Deus está morto!

    Esta mácula quer dizer o seguinte: que na tradição do pensamento do Ocidente e na Cultura do Ocidente este fluxo e as suas turbulências são sempre consideradas imorais. Em função de quê? De uma certa moral. E que moral é esta? É a moral de uma certa constância, de uma certa identidade das coisas, das pessoas, de uma certa previsibilidade de contrato entre as pessoas. O mundo, o tempo todo, contesta estas nossas regras morais. E cada um é si mesmo. E o contrato entre as pessoas tem uma certa constância, coerência, etc.

    O que Nietzsche está dizendo é que ao invés de desqualificar do alto de nossa moral o fluxo do devir como demoníaco seria preciso fazer o contrário. Abandonar esta moral para poder entrar no rio do devir e senti-lo como inocente. Não sei se agora melhorou um pouco.

    O Nietzsche tem uma proposta de método para se aproximar deste fluxo e do devir.

    O método do Nietzsche é estranhíssimo. Como não fugir ao devir e se aproximar ao máximo dele, mergulhando nele? É multiplicar as perspectivas. Porque todo o problema era que a partir de uma estabilidade suposta é que a gente se contrapõe ou se defende do devir. Então a multiplicação das perspectivas nos dá uma mobilidade. Uma mobilidade tal que nos aproxima da mobilidade do devir. Somente com essa mobilidade das perspectivas que a gente consegue escapar daquela perspectiva única segundo a qual nós nos consideramos estáveis.

    É curioso como o cinema consegue isso... é a mudança de perspectiva o tempo todo que dá uma mobilidade que começa como a mobilidade do Real. Será que não é esse um dos encantos do cinema? Você entrar no turbilhão de movimentos do próprio mundo e abandonar o seu centro?

    A idéia é: se o devir é tão múltiplo, só adotando perspectivas múltiplas que dá para entrar. Se o devir é tão paradoxal, só adotando perspectivas paradoxais entre si que dá para se aproximar. Olha só, esta idéia é fundamental. Se o devir é tão paradoxal é só tendo perspectivas paradoxais entre si que dá para se aproximar. Então não tem nenhum ideal de uma perspectiva estável, garantida... Não existe a boa perspectiva. A boa perspectiva é a multiplicação das perspectivas e a pluralidade de suas perspectivas.

    A frase que o Nietzsche formula é: "Nossa preocupação mais grave é compreender que tudo está em devir e negarmo-nos, nós mesmos como indivíduos, de ver o mundo pelo número de olhos possíveis".

    E como abandonar estes dois olhos e multiplicá-los até o infinito e enxergar através de todos estes outros que a gente é capaz de criar? Quantos olhos nós somos capazes de criar, de tal modo que através deles novas perspectivas contraditórias, paradoxais entre si surjam?

    Tem uma idéia do Niilismo como Relativismo Absoluto. "Ah!, já que nada é verdade, tudo pode ser verdade, então tudo se equivale e então nada vale à pena". Mas, esta posição é o maior número de olhos para multiplicar o máximo as perspectivas. Que mundo mais rico, multifacetado e vital que sai daí. Não é "então, não tem nada para fazer". Ao contrário, "então, tem muitíssimo mais para fazer". Tem toda esta criatividade de olhos e de perspectivas para extrair, ou enfiar no mundo um a mais.

    Uma maneira seria tentar imaginar imediatamente como seria, mas aí eu acho que é rápido demais, não dá certo. Eu acho que é um exercício de pensamento aqui que vai maturando esta história. Você imagina quantas coisas ao mesmo tempo você sente e coisas muito paradoxais e contraditórias entre si sob uma mesma coisa a partir de diverso ângulos... já tem aí uma multiplicidade operando. É uma multiplicidade de olhos sensíveis.

    Perspectiva, para o Nietzsche, não é uma coisa anódina, não é um olharzinho. Perspectiva é uma maneira de organizar o mundo, é um recorte, é uma sensação, é um pensamento, é uma maneira de ser, é tudo. É a capacidade de criar uma perspectiva que dá um certo sentido. Você cria uma outra perspectiva que é um outro sentido e uma terceira é um terceiro.

    É isso que eu estou tentando mostrar. Em perspectiva, o olhar é mais do que os olhos. É uma maneira da vida se colocar. Por isso também que é terrível ler Nietzsche. Porque vira e mexe ele também está mudando de perspectiva. Aí você diz: "pô, mas o cara tava lá e de repente tá aqui. Aonde é que tá esse cara? Quem é ele?" Aí ele diz: "Eu sou todos os nomes da História". O Nietzsche afirmou essa multiplicidade e não surgiu dela postulando uma suposta identidade fictícia.

    Há alguns anos, aconteceu um colóquio sobre o Foucault. Teve lá o maior especialista em Foucault do Brasil que eu conheço, o Roberto Machado. Ele era muito amigo do Foucault. O Foucault, quando o Roberto estava na casa dele, apresentava-o para os amigos e dizia: "este é um cara muito legal apesar de ser hetero".

    Lembro-me que o Roberto apresentou uma comunicação sobre Foucault e a Literatura. Não importa muito o que ele diz, mas o que interessa é que ele foi contando a paixão que o Foucault tinha pela literatura dos anos 60. E como que, primeiro, a literatura para ele era uma espécie de O Lugar da Loucura quando ele estava escrevendo A História da Loucura. Mais tarde, a literatura, passou a ser O Lugar da Morte quando ele estava escrevendo sobre o Nascimento da Clínica. Depois, a literatura passou a ser O Lugar da Finitude. E aí foi indo... Em 1969, Foucault não escreve mais nada sobre Literatura e desde então acabou a Literatura para ele.

    E o Roberto faz essa comunicação e começa de um jeito absolutamente apaixonado contando as fases e as paixões literárias do Foucault. De repente some a literatura da vida do Foucault e dá uma sensação estranha porque aquilo que era quase que O Lugar da Subversão Maior, de repente, sumiu! E aí, na conversa maravilhosa e inesquecível que teve depois, lá no debate, o Roberto diz: "Mas a questão é que Foucault não tinha o mínimo escrúpulo em se jogar fora". PUTAQUEOPARIU!! Ele produzia alguma coisa, todo mundo idealizava aquilo como Verdade e, de repente, ele já estava muito longe dele mesmo. Estava num outramento que deixava todo mundo desamparado. Então, para quem está em busca do verdadeiro Foucault, o Roberto mostra. Qual que é o verdadeiro senão este que está o tempo todo se distanciando de si ao máximo e fazendo disso a paixão. A Paixão do Outramento.

    E o Roberto Machado conta que foi conversar com Foucault sobre o primeiro livro dele - A História da Loucura. Foucault NEM lembrava do livro. O Roberto disse que ele sentia que ele sabia muito mais sobre o livro do que o Foucault. Ele tentou checar algumas coisas, umas hipóteses que ele tinha sobre aquele livro e Foucault estava em outra, muito longe. Ele realmente estava muito mergulhado numa pesquisa que o levou tão longe daquele ponto inicial, e assim sucessivamente, que as pessoas vão correndo atrás dele mas não acham.

    Se vocês se interessarem em ler o prefácio da História da Sexualidade II ele diz lá: "Vão cobrar de mim fidelidade ao meu passado recente, mas esta cobrança é uma cobrança de estado civil, o pensamento é outra coisa". Que outra razão teria este pensar senão esta de devir outro?

    Então, esta qualidade de ver com mil olhos, esta mobilidade... Afirmar a inocência do devir através dessa multiplicação de perspectivas móveis é claro que descentra o Homem, tira ele do seu eixo. E é através desse descentramento que o Homem entra numa mutação. Vira um aventureiro sem pátria, sem pátria de si mesmo. Já não pode se ancorar em si mesmo. Dizer 'sim' ao devir...

    Você não está fora do objeto que você está investigando. Você faz parte dele. Então, na sua multiplicação de perspectivas você acompanha o movimento do próprio mundo no qual você está. É uma maneira, para usar um nome mais técnico, mais transcendente de enxergar e isso é a maneira imanente. Muda tudo. Um jeito é "eu estou pedindo emprestado o olho de Deus" e aqui é outra coisa, "eu estou pedindo emprestado o olho da matéria". Não tem um ponto de vista privilegiado.

    Como aderir, como esposar o olho da molécula? Como entrar no olho da molécula?

    Nietzsche está pensando porque é que os Homens saltaram de dentro da água e criaram isso aqui no céu, a partir do que eles julgaram a água perigosa, nojenta, naufragante. Por que esse lugar? Por que eles não voltam? Por que fizeram esse lugar? É conseguir entender a gênese deste lugar da Verdade, da moral, de julgamento da Vida. Porque a partir daqui começou a se julgar a Vida? Se julgar, ou seja, culpar. Porque a Vida é inocente. Então, porque é que se saiu fora dela pra partir de um outro lugar?

    Para Nietzsche, o que são perspectivas razoavelmente estáveis? São pequenos congelamento necessários, pequenos patamares, pequenas estabilidades que são condição da Vida. Porque nós não somos essa molécula. Tem que haver estes pequenos congelamentos.

    Aquela perspectiva, ela é absolutamente cortante. É muito categórico isso. Por mais que depois ele a abandonasse, mas produziu-se um jeito de ver, de sentir, de pensar, de viver muito incisivo. Essa multiplicação das perspectivas não quer dizer uma indiferença total de todas, nem uma moleza, nem uma sopa indiferenciada. Não é nada disso, ao contrário. E isso é muito claro porque o tempo todo ele valoriza a produção de perspectiva. O que é produzir um valor? É ter uma perspectiva. Sem isso... A Vida é isso. Vida é produção de perspectivas.

    Mas, eu estou chamando a atenção para um outro lado aqui. Como que a perspectiva é uma produção da Vida. Essa produção, por mais que ela seja descartável na dinâmica das produções - porque uma substitui à outra -, quando ela vêm, ela é uma afirmação da Vida.

    Nenhum deles almeja ser o definitivo, para o Nietzsche. Agora, é claro que os muitos autores se vêem como tal. Ou muitas vidas produzem a perspectiva e se agarram nela e se atrelam à ela com o maior medo de que aquilo se dissolva, acabe. É o mais incisivo na produção de uma perspectiva.

    Cada afirmação é uma destruição das demais.

    A demolição é uma fraqueza. A demolição é efeito de uma força. Uma força que se afirma, ou melhor, uma perspectiva que se inventa, derruba outra, implode outra. Esta afirmação é uma negação de outras. Ou seja, a afirmação é demolidora de outras afirmações anteriores.

    Tem uma outra maneira de ver: "Ah!, eu sou contra tudo isso então eu vou inventar uma outra coisa contra isso". Não é isso. Isso seria ficar no campo do outro. Porque se você está negando o que o outro fez você está preso ao outro, está atrelado à ele. Essa é a diferença, digamos, entre um Nietzsche e um Hegel. O Hegel confia no negativo como produtor. Então, se eu sou contra ele eu estou criando outra coisa. Por mais que você seja oposição do outro, no jogo dele você só está intensificando o jogo, dando legitimidade ao jogo que ele inventou. Na Política isso é fenomenal. O Guattari num Congresso em Buenos Aires há um tempo atrás encontra uma mãe da Praça de Maio, inflamada e tal. Aí teve toda uma discussão e a mulher diz assim pra ele: "Porque nosso mérito é ter combatido esse governo por anos a fio". O Guattari olha pra ela e diz: "Se fosse isso seria nulo. O que vocês fizeram foi inventar uma outra cena". Uma outra cena, ali numa praça em que elas vão todo domingo. Bom, não sei o quanto que isso ilustra, mas a idéia do Guattari era a seguinte: inventar outros jogos que, de alguma jeito também, esvaziem aquele que é o da macro-política que está muito investido, sobre-investido. Todos acreditam nele e basta criar outro para que algumas pessoas desacreditem dele, e ele perca a efetividade, a pregnância. É uma concepção política bastante interessante.

    E o Nietzsche vai dizer que não, que contra ele quer dizer ainda estar no campo dele. Está jogando o jogo dele, do outro lado, mas o jogo que ele inventou. Inventa o teu jogo. De que adianta você jogar o jogo que ele inventou? Você está jogando o mesmo jogo. Inventa um outro jogo, vai brincar de outra coisa. E aí claro que com este novo jogo aquele jogo desmorona. A força daquele jogo que capturava à todos tinha que se situar em relação àquele jogo, mesmo que de algum lugar, de alguma posição naquele tabuleiro... desmorona tudo. Aquele jogo não interessa a mais ninguém...

    Abraço demorado,

    D.


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    [Aeternus:4431] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-09-11)


    - RE:RE: Outras estações

    Olhaí, Conde: Tudo que eu tentei dizer até hoje sobre Winnicott está dito aí no teu texto sobre Nietzsche. Tudo. E sobre Foucault. Tudo. A direrença entre Roberto Machado e Foucault, por exemplo: É que Foucault não "sabe" Foucault. Machado "sabe". Mas é claro que não estou "condenando" o Roberto Machado. Ao contrário. O que o mundo é para Foucault, Foucault é para Roberto Machado: Algo a conhecer. Algo inteiro, completo, que é preciso (na verdade, é BOM) conhecer. Adorei essa história dos dois. Assim foi com Winnicott. Ele e Fairbairn, na mesma época, estavam em busca de uma revolução psicanalítica. A velha psicanálise já não satisfazia a eles. Mas Fairbairn saiu em campo desconstruindo Freud, e Winnicott disse a ele (sem, ao que eu saiba, ter lido Nietzsche): "Cara, deixa de perder tempo. Escreva logo o que VOCÊ está pensando, em vez de provar que o outro está errado." Fairbairn insistiu em desmontar Freud, e ficou sendo um autor, digamos, "menor".

    O verdadeiro self do Winnicott faz isso que o Nietzsche receita. Mas o que Winnicott fez e Nietzsche não, foi nos dizer que o verdadeiro self não se faz por si mesmo. Ninguém se faz por si mesmo, diga-se de passagem. Então...

    Marcos, aliás, Conde, vou imprimir o que você escreveu, porque você me proporcionou, com esse texto, um roteiro. Um "script", um "story board" a partir do qual construir um monte de coisas. Por exemplo, tudo que você disse também serve para explicar o Zen Budismo. O Mestre Zen diz exatamente a mesma coisa. Quando o discípulo pede: Mestre, me explique o Zen, o mestre lhe dá na cabeça com o seu cajado. Fim da aula. E isso até o dia em que, berrando no ouvido do discípulo ou torcendo-lhe o nariz, o mestre consegue que o discípulo entenda que o Zen não precisa ser explicado, que o Zen É,


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    [Aeternus:4432] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-11)


    - RE:RE:RE: querido Davy

    Nosso 'Conde' é um jovem culto, e dele tornei-me apenas servo,depois de respondê-lo inicialmente sob cognome de 'Van Helsing Sem Estaca', e embevecido com os escritos fantásticos sobre "Les Invasions Barbares", entre outros. Para não falar nesse magnífico Nietzsche que nos trouxe !

    Sobre perspectivas&Nietzsche, eu conhecia apenas a gargalhada íntima do Zarathoustra, ao pronunciar 'se há algo de bom´em mim é reverter as perspectivas'.


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    [Aeternus:4433] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-09-11)


    - RE:RE: Outras estações - II

    Merda, teclei de novo na tecla errada e a mensagem seguiu antes da hora.

    Mas vamos lá:

    O Zen É, não precisa ser "compreendido" - precisa ser "devorado", comido, engolido, para então fazer parte dos ossos e dos nervos, não da "mente" (que, como o nome diz, "mente"...)

    Um dia o discípulo descobre (tira a coberta) e então vira mestre. E ninguém fala mais nisso.

    O Zen não pensa. O zen vive.

    Só que, diz Winnicott, (ou melhor, digo eu, porque ele não disse nada disso), para ser mestre zen é preciso assumir a solidão total. Ninguém se "casa" com o devir a não ser abandonando todos os outros que estão à volta. A alternativa é encontrar um meio termo, viver a partir do self verdadeiro (que, naturalmente, é mestre zen, é nietzschiano, é "filho" de Foucault, o pobre infértil....) com uma capa (não uma armadura) de self falso ao mesmo tempo protegendo o verdadeiro e protegendo os outros), e quem consegue tirar essa média e viver nela é feliz.

    Ao homem é necessária a proteção contra os excessos do devir. Lembro de um filme, "A Guerra do Fogo", que mostra de onde viemos: De um "devir" cheio de tigres (os antigos cartógrafos, quando não conheciam uma região, escreviam ali "His sunt Tygres", deixando claro que é melhor ao viajante não se meter por ali...), um Devir sinônimo de MORTE, não de "maravilhas da natureza". A repressão do eu e a repressão do futuro vêm do mesmo lugar - do medo da morte, e não há filosofia que dê jeito nisso.

    O que Winnicott faz, com suas propostas, é oferecer ao homem o remédio contra a parada no desenvolvimento que o deixou no meio do "caminho" - essa palavra tão cara aos religiosos em geral. O Caminho rumo à verdade, rumo à felicidade, rumo ao encontro com a Divindade, que se pode ver nitidamente desde o self verdadeiro. Uma divindade que, agora sim, é o Devir "em pessoa"...

    O tratamento psicanalítico, apud Winnicott, não se destina a "curar" ninguém, como dizia Freud, que na verdade "curava" sim, mas a criar a criança que não cresceu até o fim, sendo que o "fim" significa o começo, o começo da vida propriamente dita, o "fim" da defesa contra a vida (o Devir). O falso self se defende, o falso self (esse homem que Nietzsche desanca) apenas quer sobreviver num mundo que, para ele, não é cheio de "devir", é cheio de PERIGO, perigos reais, pois são sentidos a partir do olho da criança, não do olho do adulto. Para a criança, e quanto menor pior, tudo é, REALMENTE, muito PERIGOSO, e este é um fato, não uma fantasia. O que Nietzsche não viu é que o homem nasce criança, e a criança PRECISA SIM de toda uma constância, uma segurança, um abrigo inexpugnável onde ela possa acalentar a mentira que lhe contaram - de que ELA É IMORTAL. Se ninguém contar essa mentira para a criança direito, ELA NÃO VIVERÁ, MORRERÁ DE MEDO DE VIVER.

    Então não há por que desancar o homem transcendental. O homem que foge da imanência é um homem amedrontado, ao qual é preciso ACALMAR, TRANQUILIZAR e ASSEGURAR, e essa é a diferença entre Winnicott e Nietzsche: Este último HUMILHA o homem já humilhado, fazendo-o refugiar-se ainda mais profundamente em seu refúgio, onde se esconde dos "Perigos desta Vida", como dizia o Vinícius, enquanto o primeiro o pega, senta, conversa com ele, tenta entendê-lo, tenta explicar-lhe, discute as suas várias razões para ter tanto medo, e aos poucos permite a ele ir arriscando pouco a pouco aqui e ali, até "entender" que a vida não é esse covil de víboras, tigres e hienas que ele pensava antes (com razão, pois era uma criança), mas agora não mais. Em vez de esfregar a cara do homem no cocô que ele fez, à moda de Klein, e mesmo Freud, Winnicott permite a esse homem descobrir a ele mesmo, em primeiro lugar, e ao mundo, depois.

    Ainda vou escrever um dia um trabalho que já trago na cabeça há muito tempo - algo assim como "Winnicott - herdeiro de Nietzsche".

    Marcos, quer dizer Conde, obrigado. Você não avalia o quanto você me ajudou.

    Abraços demorado ainda mais.

    Davy.


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    [Aeternus:4434] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-11)


    - RE: Davy, pergunta-mor !

    ( leu minha mensagem anterior ? O 'Conde' não sou eu, hein ! Trata-se de um nobre culto, que escreveu cartas belíssimas, e de quem tornei-me embevecido lacaio ! )

    "O que Nietzsche não viu é que o homem nasce criança, e a criança PRECISA SIM de toda uma constância, uma segurança, um abrigo inexpugnável onde ela possa acalentar a mentira que lhe contaram - de que ELA É IMORTAL. Se ninguém contar essa mentira para a criança direito, ELA NÃO VIVERÁ, MORRERÁ DE MEDO DE VIVER".
    Mas essa criança tende à onipotência, arrogância e imortalidade, se lhe estendermos um tapete infinito !...combinar 'assegurá-la' com 'enquadrá-la' parece tarefa de Hércules !
    Adoro esse 'MEDO DE VIVER' tão cheio de paixão, e sinto isso em meu filho, Vítor, que quando contempla arroubos mils de felicidade e risos em mim ou na Ana, sua mãe, tenta esvaziar-nos...
    Saboteur-Mor ?


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    [Aeternus:4436] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-11)


    - Encabeçando...

    Depois das riquíssimas trocas entre Conde, Davy e Florião é quase um crime saltar por cima das mensagens e abrir um espaço que vai parar no topo da lista. É que ainda não deu para corrigir o critério de inclusão das mensagens com o webmaster e não achei onde vocês estavam papeando para me sentar junto aos tres. 

    Sem Freud provavelmente Winnicott não teria existido com a mesma projeção no campo da psicanálise. Ou Fairbairn. Entretanto, o conselho de escrever sem ter que desmanchar o que veio antes e avançar independentemente é sábio. Daí a riqueza do que podemos descortinar com Winnicott e que Davy nos trouxe mais uma vez de forma clara e  inspirada.

    Gostei principalmente da frase que se seguiu ao Winnicott: " O Zen não pensa, vive". Tenho conjeturado sobre isso ( pois, como com Fernando Pessoa, "o que em mim sente está pensando" ). Ela encerra uma espécie de dialética não verbal que me intriga porque depende de um modo de troca com o ambiente cultural e o mundo que é muito especial.  Levei anos para sacar que os eremitas que passam anos comendo gafanhoto num pantano perdido na India são constantemente falados e reconhecidos pelos indianos, ou seja, que eles não estão realmente isolados da cultura ( embora alguns talvez acreditem que estejam). Precisaria ouvir ( e isso já é contraditório) de algum eremita completamente esquecido numa ilha deserta e que não está nos mapas.

    Não estou contra-argumentando, apenas livre associando. 


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    [Aeternus:4437] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-11)


    - RE:Encabeçando...

    Eis um diálogo a um, colocando-me como quem responde a si propria. Mas trata-se de um PS.

    Soube hoje que não apenas "Lolita" está comemorando seu aniversário de cinqüenta anos, como ainda que "O Caso Dora" também faz aniversário.  Um psicoterapeuta ( dizem que é famoso) chamado Anthony Stadlen enviou uma nota curiosa porque também destacou que o poeta Coleridge usou a palavra "psicanálise" noventa anos antes de Freud e antecipou Sartre com a frase " a existência antecede a essencia".  

    Quanto ao caso Dora, ele considerou a idade do Sr. K e a da moça e percebeu que correspondia a de Humbert Humbert e Lolita:

    cito: "It is not generally realized that Herr K. and Dora were almost
    exactly the same ages as Humbert and Lolita when these older men sexually
    molested these girl-children. Ernest Jones, psychoanalyst and Freud's authorised
    biographer, described Dora as 'a disagreeable creature who preferred revenge to
    love'; while Lionel Trilling, a psychoanalytically informed literary critic,
    and abridger of Jones's biography, described Lolita as a novel about 'love'.

    A disparidade da segunda, causa escandalo até hoje. Já Ernest Jones, aparentemente, achou Dora uma chata exigente e muito histérica...

    Queria partilhar estas "comemorações" com a lista...


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    [Aeternus:4440] Mensagem do Grupo38
    -Davy(2005-09-12)


    - RE:RE: Davy, pergunta-mor !

    Caro Marcos, Caríssimo Marcos, meu amigo, agora sim. Você chegou ao que eu chamaria de "a alma do paradoxo".

    A criança criada como se fosse única (e não é?^), como se fosse o ápice da criação (e não é?), como se fosse o ponto culminante do processo que começou, um dia, com o Big Bang (assim dizem...), precisa um dia conformar-se com o fato de que não passa... de um outro ser humano como outro qualquer. Até como você e eu, digamos (que tão pouco valem...)

    A tarefa de Hércules é essa (e talvez até mais difícil, pois não custa pesquisar no mito para descobrir até que ponto Hércules NÃO conseguiu realizar esta, e por isso acabou mal...)

    A tarefa é: PRIMEIRO convença o/a filho/a de que ele/ela é ABSOLUTAMENTE ESPECIAL, para DEPOIS começar a explicar-lhe que os outros TAMBÉM SÃO. Mas isso bem DEPOIS. Alguns anos depois. (Não demais, porém, porque aí será tarde...) A criança SABE que os outros (mãe e pai e irmãos, nessa ordem, em primeiro lugar) o são, mas como diz a piada, não se conforma (a piada é: O psicótico SABE que dois mais dois são cinco. O neurótico JÁ SABE que são apenas quatro, mas não se conforma de jeito nenhum...)

    O seu filho tem CIÚMES, ciúmes de vocês com vocês (deixando-o fora da brincadeira, nessa hora). Isso passa, porque é um ciúme bobo, e ele descobrirá isso logo logo. O ciúme é filho (ou irmão siamês, sei lá) do narcisismo, que, como disse Green, pode ser DE VIDA ou DE MORTE. No primeiro caso, o narcisismo natural, confirmado pelos pais, surge um sentimento de auto-confiança que, por experiência, se torna tolerante com o que é natural nos outros. No segundo caso, a intolerância cresce com a experiência, porque esse narcisismo não se baseia na auto-confiança, e sim, ao contrário, na ausência dela, resultado de uma falha no processo de "endeusamento" da criança.

    Depois de assim "endeusada", a criança terá de ser "humanizada" (seis bilhões de seres humanos contra um único deus...),e o fato é que, como diz Winnicott, depois da ilusão (e da auto-confiança decorrente) a desilusão não é problema (grave): é apenas um "ralador" (aquilo que a gente usa para ralar...). Dá trabalho, (só criança doente não dá trabalho), mas funciona. (Se você diz NÃO para uma criança saudável, ela chia, mas acaba concordando. Se você diz NÃO para uma criança doente, será o caos fazer com que ela concorde. E se você diz NÃO para uma criança GRAVEMENTE DOENTE, você está exagerando, porque essa, coitada, nem precisa ouvir um NÃO, ela pára antes - de medo.)

    Então, caro Marcos, não tema: Mais cedo ou mais tarde seu filho passará a aceitar que você e Ana têm motivos para rir mesmo que não tenham contado a piada para ele também. Pois logo logo ele também terá motivos próprios para rir que vocês não entenderão, e sem perceber ele acabará percebendo tudo isso. OU SEJA: NÃO É PRECISO "ENQUADRAR" NINGUÉM. NESSE PONTO, DIGA-SE DE PASSAGEM, WINNICOTT É O HERDEIRO DE NIETZSCHE: O HOMEM É "NATURALMENTE" AQUILO QUE NIETZSCHE DIZ, É SÓ NÃO ENCHEREM O SACO DELE OU DEIXAREM ELE PARA LÁ NA FASE CRÍTICA, OS PRIMEIROS ANOS DA INFÂNCIA.

    Esta, posso dizer agora, é a RESPOSTA-MOR. Que, em linguagem mais formal, funciona assim: O Homem tem uma vocação para a saúde (isso de que falava Nietzsche) que não deve ser ensinada, porque não é necessário. Qualquer tentativa de ensinar isso se torna super-egóica, e estraga tudo. Não se ensina a amar, não se ensina a respeitar, não se ensina a empatizar, não se ensina a ver no outro um outro eu - equivalente, embora diferente. O que Winnicott disse foi que não é a criança que vem ao mundo com defeito, precisando ser consertada pelos pais, mas o manual de instruções (a famigerada "educação") é que foi mal escrito. Que eu saiba, Winnicott não menciona Nietzsche uma única vez sequer (mas posso estar enganado), mas a meu ver, naquele tal Grupo de Bloomsbury que ele frequentou durante tanto tempo (do qual fazia parte, entre outros, a famosa Virginia Woolf), deve ter ouvido falar no filósofo alemão o suficiente (ele tocava piano de ouvido, porque não teria aprendido de ouvido outras coisas?). Ou então, como soe acontecer (desculpe...) os gênios muitas vezes se descobrem uns aos outros, não é verdade?

    Uma correção: "Mas essa criança tende à onipotência, arrogância e imortalidade, se lhe estendermos um tapete infinito", diz você. Sim, menos "arrogância", que é a DOENÇA da onipotência. A criança pode ser até PREPOTENTE, tentando sobrepor-se aos outros, para fazer valer a sua vontade. Mas "arrogância" é sintoma de que a onipotência natural (naturalmente aceita pelos pais) está com defeito, e precisa ser empurrada para funcionar. A arrogância é a tentativa de obrigar os outros a admitir essa onipotência, e uma criança naturalmente onipotente não precisa disso. E o tapete, como disse acima, deve PARECER infinito, sem sê-lo de verdade. Aí entra, muito nietzschianamente, o instinto dos pais para dizer quando é preciso deixar claro que o tapete termina em algum lugar. E a criança aceitará que o tapete não é infinito, pois em algum momento ela perceberá que mesmo o tapete dos pais não é infinito, como ela imaginava antes.

    De novo, Marcos (ou Conde, sei lá) obrigado pelo empurrão que me obriga a formular respostas cada vez mais precisas. Um grande abraço para você, Ana e o filho.

    Davy.


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    [Aeternus:4444] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-09-12)


    - RE:RE:RE: Davy, pergunta-mor ! - agradecimento

    Além da verve, lucidez e carinho habituais, mangas pra pano.
    Sobre o 'Conde' - que como já frisei não sou eu ! - o destino pregou-me uma peça : há muitos anos, fazendo cinema amador, fiz o papel de lacaio do Conde Drácula. Qual não é minha surpresa de, tempos atuais, ver-me imbuído de tão nobre tarefa !
    Reafirmo minha admiração pelos escritos de nosso correspondente, cheio de fôlego e cultura. Veja como instigou-nos !...
     
    Sobre tua carta em si, maravilhosa, ressalto algumas sutilezas bastante difíceis para um pai.
    'Mostrar que meu filho é absolutamente especial.' Sim. Resta-nos tentar a sintonia adeqüada, o estoicismo dos grandes navegadores. Vez por outra eu pronuncio, do fundo da alma, uns 'ah ! meu filho !...' que carregam ( ou pretendem...) séculos de empostação.
     
    'Não se ensina a empatizar.' Certo. Resta aos pais o embaraço da perplexidade diante de situações 'inadmissíveis' : o Vítor simplesmente entregar um presente a seu padrinho, padrinho este dedicado a ele ; retribuir um cumprimento amistoso de alguém que o admira ; despedir-se com algum sinal de afeto das pessoas a quem ele mesmo preza. Entre outros exemplos.
    Ao invés de gestos, o que resta nele nesta área é, curiosamente, a voz. Há uma disparidade entre a voz terna e o gesto abortado, como se o 'corpo' não acompanhasse 'o que vem de dentro'.
    Enfim...on verra.
     
    Dia de bustos, em definitivo. Já conferi bronzes ao Conde e à Jansy, e agora descerro a fita do teu. Grato de novo pela atenção e carinho, amigo !

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    [Aeternus:4515] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-15)


    - RE:RE:RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

    Prefiro ser essa metamorfose ambulante

    Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

    Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

    Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes

    Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

    Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

    Sobre o que é o amor

    Sobre o que eu nem sei quem sou

    Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou

    Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor

    Lhe tenho amor

    Lhe faço amor

    Eu sou um ator

    É chato chegar a um objetivo num instante

    Eu quero viver essa metamorfose ambulante

    Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

    Sobre o que é o amor

    Sobre o que eu nem sei quem sou

    Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou

    Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor

    Lhe tenho amor

    Lhe tenho horror

    Lhe faço amor

    Eu sou um ator

    Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhes disse antes

    Prefiro ser essa metamorfose ambulante

    Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

    Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

    Raulzito

    Tentei mostrar a importância da idéia do devir pro Nietzsche. Mais do que a importância da idéia do devir, o importante pra Nietzsche é a possibilidade de AMAR o devir.

    O que quer dizer isso? Ter com o devir uma relação que não seja de ressentimento, não ter em relação ao devir, um espírito de vingança. É uma idéia bem complicada, eu vou dar um salto... vamos ver por onde dá. É que é uma passagem difícil essa. Não só para explicar, mas é uma passagem difícil para o próprio Nietzsche, então se é difícil para ele, imagina...

    Como não considerar o devir como uma injustiça a ser expiada, então volta a minha idéia, o devir é inocente. O devir não é culpado e, portanto, ele não deve ser expiado, o devir não é maculado, não tem nenhum crime no próprio devir, então o devir é uma fonte de inocência e de afirmação e não como em geral se faz que é um ódio contra o devir, uma sensação... um desejo de vingança contra o devir.

    É uma relação muito ambígua, porque ao mesmo tempo o devir é visto como culpado, algo a ser eliminado e algo em relação ao que a gente busca saídas, ou seja instâncias, que nos retiram do devir para um outro plano que seria mais inocente, mais sereno, mais estável, mais conhecido, mais pacífico, mais harmonioso.

    Quando Nietzsche postula, o que ele vai chamar de transvaloração de todos os valores, ou seja, que todos os valores são revirados, o que acontece? O devir é reativado e não negado, como se fazia antes. O múltiplo também é afirmado e não depreciado, ou desqualificado, como se fazia antes. Vale notar que todo o pensamento ocidental repousa na idéia de UM e UM é o contrário de múltiplo. A idéia de UM desqualifica o múltiplo, deprecia o múltiplo, quando você valoriza o um, você desvaloriza o múltiplo e quando você valoriza o ser, você deprecia o devir.

    Olha só, esses dois UM, essencial ao pensamento Ocidental. Por um lado o ser e por outro o devir, por um lado o um e por outro o múltiplo. Então, o que o Ocidente privilegiou? O ser, ao invés do devir. O ser, aquela instância de estabilidade, idêntica a si mesma, eterna, atemporal...Aqui eu estou mexendo com as peças mais abstratas da filosofia, no entanto são as mais essenciais. Não tem maior abstração que o ser, o devir também, um e múltiplo,...

    A operação do pensamento em geral, é subordinar qualquer multiplicidade a uma unidade, assim como um rei subordina os seus súditos que são uma multiplicidade, ao seu poder central.

    É uma operação política essa. A operação política de um soberano é subordinar, justamente, a multiplicidade de territórios, de riquezas e de homens. Então, é óbvio que o soberano vai entender aquela multiplicidade como um conjunto, é a operação régia de um soberano.

    E de alguma maneira curiosa é também a operação régia do pensamento, você vê que o pensamento está nas sombras de um soberano, ou melhor, o pensamento é paralelo à política. Se a gente pensa em função do UM, é porque, politicamente, funcionamos ao longo da história em função de um soberano.

    A gente pode pensar o pensamento como um campo de forças em que se guerreia, também pelo UM, contra o UM, a favor de outras multiplicidades. O pensamento, também em si mesmo, é uma multiplicidade móvel, que a cada tempo pode ser dominada por uma espécie de unidade central, que depois essa unidade se vê abalada e aí surgem vários outros focos. Mas, é como se a gente pudesse identificar ao longo da história, como que uma unidade cedeu lugar a uma outra unidade, como que se seguiram maneiras de pensar, embora muito diferentes, de algum modo centradas.

    E na passagem entre uma e outra sempre tem um momento em que parece que vai dar uma anarquia e "Ops!" se refaz alguma coisa, os governos se refazem, os Estados se recompõem, depois de uma revolução, uma guerra civil e etc. É uma leitura absolutamente política, no seio do pensamento. Como guerrear o UM no seio do pensamento?

    Daria pra pensar que Sócrates é o culpado disso. Se a gente pensar um pouco mais longe, Sócrates mostrou no pensamento uma operação que é da ordem do real. Digamos assim, ele explicitou uma regra, uma lei, que acontece no mundo. Se na política é assim, então o pensamento refletiu isso, de algum modo, mas o curioso é que, assim como na política, não é só isso. Por baixo dessa suposta unidade, formiga uma multiplicidade e a gente sabe no cotidiano quantas guerras acontecem o tempo todo, e nos atravessam o próprio corpo, nas sensações, nos afetos, nós mesmos somos palco de uma multiplicidade em guerra.

    Essa representação unitária do mundo é no mínimo suspeita, tal como no mundo o uno "reina", mas ao mesmo tempo ele convive com mil guerras, que a cada tanto o ameaçam, mas também produzem outras tantas, em outros palcos (não só no palco do rei), acontecem outras coisas. Assim também no pensamento. Também no pensamento uma multiplicidade opera e faz guerra, mas a gente só tem olhos para o palco da unidade, do soberano.

    Se o pensamento está plasmado no poder instituído, que liberdade tem o pensamento em desmontar esse poder? Que liberdade tem esse pensamento que o poder molda?

    Vamos dividir bem simploriamente o real e o pensamento. Se o pensamento fosse puro reflexo do real e o real funcionasse unitariamente, não haveria saída pro pensamento. Aí meus @migos, tava fudido. O pensamento só refletiria esse unitário real. Mas primeiro, o real não é unitário, ele se apresenta como unitário, é de interesse do soberano mostrar que somos um Estado/estado, que tem um soberano, um centro político. É de interesse do soberano que nós nos representemos no poder em função de uma unidade. Mas realmente o poder é uma guerra. O soberano não está ali tranqüilo, por baixo dele mil movimentos, guerras de bastidores, macro e micro, de todas as ordens, por dentro dele também, ele também é palco de forças, é uma composição, uma resultante. É de interesse do soberano, que nós nos representemos no poder segundo essa figura do soberano e não segundo a multiplicidade real que opera, ali em baixo, ali do lado, ali em cima...

    É por isso que o Foucault dizia: nós cortamos a cabeça do rei, mas nós não cortamos a cabeça do rei na representação que nós temos do poder, porque nós continuamos pensando o poder em função de unidade. O um que governa.

    Ocorre também que a gente se sente múltiplo, mas a gente acha que sentir-se múltiplo é uma patologia e procura centrar, para descobrir o "problema" que está dando esta dimensão múltipla na nossa pessoa. É um processo de domesticação da nossa pessoa. É uma normatização, querendo enquadrar, criar uma norma, para ter um controle maior...

    Justamente o modelo da unidade pairando sobre nós, pensando sobre nós e tornando essa multiplicidade culpada sobre a qual ele faz esse modelo unitário. É a desqualificação que o UM faz sobre o múltiplo.

    O Foucault mostra como num certo momento já não precisa de um rei, porque o poder não está centrado numa pessoa. Ele já se exerce anonimamente, como um dispositivo. Aqui complica, porque o poder conseguiu desbancar a roupagem de UM, que já estava frágil, brigaram muito com esse UM e ele precisou se travestir, mas não é que ele precisou se travestir, ele se TRANSUBSTANCIOU. Não é um soberano disfarçado de dispositivo, não! O soberano foi pro beleléu, mas aí ficou o dispositivo.

    Aí é complicado, porque o Foucault vai tentar mostrar esse dispositivo e aqui vem uma coisa muito astuciosa, porque é um dispositivo que não aparece, não tem visibilidade, assim como no Panóptico, não dá para saber se tem alguém lá ou se não tem, pode não ter, tanto faz, não interessa, não depende de uma pessoa. O dispositivo funciona por si próprio, perfeitamente. É um dispositivo invisível, que opera sobre todos os corpos. Não opera da mesma forma, mas produz os mesmos efeitos.

    O mais maluco é exatamente isso; ele não necessariamente homogeneiza todos, ao contrário e essa é a idéia mais original do Foucault, porque o poder como dispositivo individualiza os sujeitos. Individualiza significa criar sujeitos diferentes. Singulares, quer dizer, cada um fruto da individualização de um dispositivo que opera sobre cada corpo. Aqui tem a unidade do dispositivo, a sua flexibilidade e o seu efeito sobre a multiplicidade, mais do que isso ele cria uma multiplicidade. É um UM, flexível, que cria uma multiplicidade, mas é óbvio que é uma multiplicidade que trabalha em benefício desse dispositivo. O flexível já não é na própria composição arquitetônica do Panóptico, porque lá é uma torre, não tem como flexibilizar, mas aquilo é só uma metáfora pra mostrar como acontece no social. No social não tem torre, você nem vê.

    É uma criação de multiplicidade, mas é uma multiplicidade a partir de um dispositivo, e essa multiplicidade serve a esse dispositivo. Não é a liberação dessa multiplicidade do dispositivo que a criou. Você sempre encontra o UM no resultado final da operação.

    E o poder é inerente à vida também, porque o que é o poder? É uma constelação de forças numa configuração determinada. São sempre forças numa relação, numa relação x ou y ou z, e o que é a vida, senão essas forças em relação...

    E o conceito do devir, autêntico, inculpado, com uma série de adjetivos perniciosos, isso não confunde o correto com o real? Dizer que o devir é inocente, implica em se desfazer da moral para pensar a natureza. Por isso, o devir é inocente diz o quê? Que a natureza não tem moral, que nós olhamos a natureza segunda os critérios de uma moral.

    Tem um princípio científico que diz que a natureza é regida por certas leis. Nietzsche vai fazer uma crítica a essa idéia. É como a ciência fosse uma vontade de moral aplicada à natureza. É uma vontade de verdade, de estabilidade, de julgamento, sobre a natureza. O Espinosa vai desenvolver isso bem melhor: deus é imanente à natureza e portanto a natureza não pode ser má, mas também não é boa no sentido de uma moral, mas, para usar a expressão de Nietzsche, ela é inocente. A moral é uma criação humana, mas, moral aplicada à natureza, desfaz a natureza um monte.

    Falando assim a vida vira um centro, mas essa visão de buscar achar um centro não faz parte de uma forma de pensar paralelo, que vai olhar as coisas e buscar um centro?

    A Vontade de Potência, ela não é um centro pelo seguinte sentido. A Vontade de Potência é imanente à força. O que faz a Vontade de Potência? Ela cria perspectiva, depois em sendo mudadas as relações entre as forças, cria outra perspectiva e assim sucessivamente. Nenhuma delas é a verdade. Cada uma destas perspectivas é resultante de uma determinada configuração das forças. Essas perspectivas se sucedem e nenhuma delas tem nenhuma prioridade sobre as demais. Nenhuma delas é central, nem eterna, nem mais verdadeira, ela é apenas a verdade daquele momento, na configuração das forças que criaram aquela perspectiva. A Vontade de Potência não é o centro do mundo, ela é a produção do diferente no mundo. É a partir da Vontade de Potência que se criam perspectivas diferentes. Eu diria até o contrário, que ela é a origem da diferença, a gênese da diferença.

    O que é a Vontade de Potência? Não é um ser, porque a Vontade de Potência é uma multiplicidade de forças numa configuração x, que depois muda para uma configuração y e cada uma delas cria uma perspectiva. Hoje nós temos uma certa relação de forças, em que nós criamos um certo olhar pelas coisas, uma certa moral, uma certa percepção coletiva, um presente x e amanhã a configuração de forças será outra e vamos criar outras.

    A Vontade de Potência não tem essa constância, se vocês quiserem ser bem nominalistas, Vontade de Potência não existe. Ela é o nome de uma configuração, móvel, de forças que produz perspectivas, mas não é um ser o que vai mudando e não é um ser no sentido de o que é um Ser, um idêntico a si mesmo. A Vontade de Potência não é idêntica a si mesma, ela não é uma substância, ela é a força em jogo, ela é a paixão da diferença. Ela é criadora de diferença. Eu diria que é coextensiva a isso que a gente, por falta de nome melhor, chamamos de universo mas, que eu acho que deveria chamar multiverso.

    O fraco tende a preservar a sua perspectiva, preserva porque ele não tem força de criar uma outra. Então é uma força conservadora. Conservar o que tem, conservar o que é, conservar o que foi, conservar... Está separado de sua força, só se agarra ao que já existe. É a cristalização, e mais do que isso, não só se atrela no que já é, mas envenena os criadores na sua fraqueza. É uma maneira de vencer. Vencer os fortes que criam novos valores, novas perspectivas, novas vidas. É a força de um consenso de normalidade que preserva o já instituído e bloqueia qualquer irrupção de um novo valor, uma nova perspectiva.

    E é da constituição dos fracos depositar a força, que ele não tem, num ser exterior a ele, seja este ser um deus, um deus por vir, um tirano. Ele tem a força que eu não tenho e ele contenta a minha fraqueza, ele supre a minha sede de segurança, é uma dinâmica de depositação. Há uma lacuna constitutiva, que vai ser preenchida por um, por outro, ou um terceiro, mudam as figuras daqueles que suprem essa carência, mas a carência é o móvel dessa pessoa...

    O devir está para além do bem e do mal, ou melhor, aquém do bem e do mal, o homem está no bem e no mal e o Super-Homem vai além do bem e do mal. A idéia do Super-Homem do Nietzsche é isso, alguém que joga as tábuas da lei no chão, para usar uma figura bíblica demais. A idéia de Super-Homem é aquele que reencontra esse estado do devir, onde não há bem e mal.

    Agora, ele deu a isto num certo momento da obra dele, um adjetivo, é o inocente, mas em outros ele falou: é a criança. Se você pensa que a criança, segundo Freud, é o perverso polimorfo, de inocente tem quase nada. Então, pode pensar este universo, ou este multiverso, como o perverso polimorfo. Não tem culpa, é isso, é essa idéia. Não tem culpa, então é inocente, inocente nesse sentido, não há culpa, porque não há bem e mal. É essa relação com o devir, que não é uma relação de vingança, nem de ressentimento, nem de recriminação...

    O destino é, e agora eu vou confundir um pouco, a necessidade do acaso, é o acaso vivido como necessário... assumir o acaso. Sem julgar, sem esquadrinhar o acaso em função de um cálculo, em que se der errado, você fica puto e ressentido.

    Nietzsche diz com muita clareza - tem uma fórmula lapidar maravilhosa -, é que nós jamais nos libertaremos de deus, enquanto acreditarmos na gramática. A linguagem já leva a deus, esta linguagem culturalmente sedimentada, ela já é portadora de toda a metafísica do nosso pensamento. Há uma guerra dentro da linguagem, contra a linguagem. A gramática já traz um sujeito, um verbo referido, um verbo como ação de um sujeito e não um sujeito como sendo o próprio verbo, o verbo é o sujeito. Verdejar. Poderia ser uma frase em português, mas não é uma frase em português, porque quem verdeja ? A árvore verdeja. Ah! Mas não é que o essencial é o devir verde, então porque a gente subordina isto a um sujeito consciente. Um ser que é um agente da operação, mas o agente da operação é a própria operação. O que é a operação? É o devir. A operação é que é o sujeito, o devir é que é o sujeito!

    Assim como o pensamento e assim como o real, a linguagem é também um campo de forças e é uma guerra na linguagem. Por exemplo, essa história do inocente ou da criança. O que é a criança ? É um significante sobre o qual incidem diversas forças, se apropriando desse significante, num certo sentido, numa certa perspectiva. Tem aí, forças imprimindo sentidos diferentes ao mesmo termo.

    Às vezes, dá a impressão que o Nietzsche era uma espécie de uma máquina superpoderosa, que a gente deveria ficar prestando reverência. Essa é uma questão importante e, sinto que se faz uma ref(v)erência ao Nietzsche, como que estivesse calando a nossa boca. Aí há um erro de perspectiva. Porque na história biográfica do Nietzsche, ele era um homem, que era uma pessoa afetuosa, um excelente pedagogo, quer dizer tem outras dimensões nele, tem outras coisas que eu possa discordar do Nietzsche. É uma guerra com as palavras, contra os sentidos cristalizados das palavras. E é uma guerra então de cada um contra si mesmo. É uma guerra que vai desconstruindo, certas culpas, certas unidades...

    Por exemplo, meus caros @migos, a idéia de idéia de dialética: não vejo uma coisa estática, vejo um múltiplo, uma coisa viva mesmo. Dialética é um termo recheado, carregado e tem um sentido muito preciso também filosoficamente, o qual Nietzsche se afasta a sua maneira. O pecado de um pensamento dialético numa perspectiva nietzschiana seria entre recompor uma oposição binária - dois termos que se opõe e superam um terceiro que depois encontram um contrário e assim sucessivamente. De algum jeito, você já não tem uma multiplicidade, você tem dois, conseguiu balançar o UM, mas recompôs ele em dois e na sua guerra refazem o UM. Dois campos opostos, ou melhor dois blocos opostos que estão no mesmo campo e que tem uma superação, UMA síntese.

    Primeiro, já não trabalha com a noção de dois, porque o dois é UM dividido em dois, dois é UM e o seu contrário, é UM e o seu espelho negativo, então é Um. Postulando dois blocos contraditórios, já se reduziu a multiplicidade a blocos maciços, dois, que de alguma maneira reproduz UM.

    Segundo, na dialética o que cria é a negação, ou seja é um negando o outro é que se cria um terceiro. E o Nietzsche vai dizer, que a negação não é criadora, a criação é negadora. A negação não cria nada, agora a criação nega, na criação você devastou todos os vigentes até então.

    E aí também, tem um terceiro ponto na questão, é que nesse jogo dialético da oposição de uma superação, uma síntese, há necessariamente um movimento progressivo, é uma lei do Hegel. A história vai pra frente tem um sentido e uma lógica que é a lógica da razão. Há uma razão que nos usa a toda, pra progredir. A gente acha que está um caos, mas no fundo tem ali uma progressão. Toda essa idéia de progresso da história e evolução da história... não tem nada disso no Nietzsche, ele não diz estamos progredindo, ou encarnando a razão da história, ou indo pra frente. Estamos indo para todos os lados, ou pra nenhum lado, ou sabe-se lá para que lado estamos indo!!

    Essa idéia é muito importante porque toda a concepção política dominante até há poucos anos atrás, estava calcada nesta idéia da inevitabilidade da revolução. Porque se tem um progresso e segundo a lei de Marx, determinadas forças produtivas entram contradição, numa determinada relação de produção, num certo momento, isso explode. Necessariamente. Pra quem não pensa dialeticamente, nesse sentido de uma evolução progressiva, não há nenhuma necessidade histórica, e aí já muda tudo, porque pode ser e pode não ser, pode acontecer e pode não acontecer e sabe-se lá que agenciamento seria preciso fabricar para que aconteça e que outros não, e que nada nos garante. Aí volta o acaso.

    É muito reconfortante pensar que a história tem uma lógica, uma razão e uma direção que nos leva do pior pro melhor. E se não leva? Será que então estamos entregues ao mais absoluto caos? Sim e não.

    Caótica, com uma porrada de variantes. Caótica construtivista por exemplo, que germes dá pra criar, aonde, pra multiplicar de que jeito, que agencia não sei como... A idéia é totalmente nietzschiana, se não tem uma lei progressiva da história, nessa multiplicidade geram-se focos criativos, essas criações são construções e estas construções, perspectivas, criações, destroem o mundo até então vigente.

    Este construtivismo é gestado no seio mesmo do próprio caos, ou no centro dessa multiplicidade. Então, quando se diz caos, e se você enxerga o caos com a moral do nosso pensamento, você diz : o caos é uma confusão, é a morte, é a impossibilidade de qualquer coisa, sempre referido a uma suposta ordem ideal. Agora se você vê o caos com a inocência, o caos gera ordem.

    Daí também essa atração da ciência mais contemporânea pela idéia de caos, hoje em dia, porque se entende que existem estados de desequilíbrio que geram novos equilíbrios. Porque se pensava que estados de desequilíbrio degeneram, num progressivo desequilíbrio que leva a nada. Tem toda essa teoria do Prigogine, que é um prêmio Nobel de Química, que escreveu um livro com a Isabelle Stengers que se chama A Nova Aliança. Uma idéia importante deles, é como se desfazer desses paradigmas científicos vigentes e mergulhar num novo horizonte, a idéia dele é - não é minha praia, eu sei de leituras superficiais - que existem estruturas dissipativas, que são essas que geram novas ordens, e isto até então parecia um absurdo.

    Como que uma ordem, nova, se engendra a partir de um estado de desordem. O caos gera novas ordens, engendra novas formas de organizações. A ordem que emerge da desordem.

    É isso, este próprio pensamento, que a gente tem, ele também resulta de um acaso. Isto é mais difícil de conceber, o próprio pensamento, tal como nós o temos, foi fruto de um certo momento, de uma certa conjunção, ele não tem nada de eterno, nem de necessário, nesse sentido qualquer pensamento deveria ser assim.

    Aeternus, que outras conjunções de forças, ou configurações, podem dar lugar a outros pensamentos? Uma infinidade. Já o próprio pensamento é fruto de UMA determinada configuração e acaso. Estamos mergulhados num certo caos, mas toda a questão seria como ir desmontando este pensamento que ainda faz questão de se defender desse caos, desse devir, dessa multiplicidade, com a sua forma conhecida e assegurada... é usar o martelo contra a própria cabeça.

    Forte abraço,

    D.


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    [Aeternus:4517] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-15)


    - de novo no começo, porque não achei a metamorfose ambulante

    Raul Seixas, portanto. "Eu sou um ator" parece que se tornou o invariante da cantiga.

    Lembrei-me de Lawrence Olivier quando lhe perguntaram o que era mais importante para o sucesso de um ator. Ele respondeu: "Sinceridade".

    Depois continuou: "No dia em que o ator conseguir parecer sincero, venceu". 
    Como o fingidor do Fernando Pessoa, mas seu invariante seria a "dor".

    Tem muita filosofia na mensagem do Dr.Lucas. Um deleite para leitura, mas exige reflexão e adiamento.
    Parmênides e Heráclito. Pensamento ocidental viciado, segundo Derrida, pela busca do UM. Ressentido, segundo Steiner, pelo monoteísmo judeu.  Como não habito a escala cósmica, minhas metamorfoses são mixurucas porque não implicam em qualquer "transubstanciação".

    Já volto.


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    [Aeternus:4518] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-15)


    - boa notícia para constar em alguma das listas...Ponte das Garças

    Graças às garças e aos esforços diligentes de um grupo de gente indignado com a placa para a velha ponte exibindo o nome "Ponte Presidente Médici", a escolha popular  anteriormente já garantida por um decreto (como se descobriu), voltou a figurar na paisagem brasiliense: PONTE DAS GARÇAS.  

    Minúcias. Como naquele antigo dizer: por falta do prego, perdeu-se a ferradura. Por falta da ferradura, perdeu-se o cavalo. Por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro...

    Maiores astúcias e ... uma pequena batalha foi vencida. 


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    [Aeternus:4519] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-15)


    - RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

    Achei. Funciona! Clique-se em "Tema" e "Atualiza a lista" e pronto.

    Vou associar livremente porque Nietzsche foi lido há algum tempo, quase  relido e trelido ainda


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    [Aeternus:4520] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-15)


    - RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

    Achei. Funciona! Clique-se em "Tema" e "Atualiza a lista" e pronto.

    Vou associar livremente porque Nietzsche foi lido há algum tempo, quase tanto  relido e trelido ainda


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    [Aeternus:4522] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-15)


    - RE: Outras estações e a metAMORfose ambulante

    Achei seguindo o rumo solicitado para o Davy: Vamos em "tema", escolhemos data ou ultimas mensagens, "atualizamos a lista" e voilá.

    MetAMORfose tem amor no meio e não podia ser ROMÃ, a fruta que foi provada por Perséfone que ficou condenada a circular do Hades para a superfície terrestre de seis em seis meses... Nada para amortecer-lhe o sofrimento.

    Não sei se posso ainda falar qualquer coisa coerente sobre Nietzsche sem retomar novo ciclo de releituras. Prefiro amar o destino. Em vez do Devir, Amor Fati .

    Não sei como fica a questão da "memória" e o "sujeito", creio que há apenas transformações e pontos de enrijecimento (sintomas). Memória é fundamental e ( será?)  depende das marcas na carne do "ser". Puro devir é um sonho de eternidade, que não precisa de ponto de partida, começo, fim ou causa/efeito e nem requer termos como "devir". 

    Não parem o planeta por minha causa porque não pretendo des-ser...



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    [Aeternus:4662] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-28)


    - Vaticano barra ordenação de gays

    Quando vi esse papo de barrar ordenação de gays, fiquei pensando: mas se a idéia é o celibato, que diferença faz por quem os sinos dobram???

    Que gente mais hipócrita, não?????

    E burra! Parece aquela piada de português:

    Pãozinho...................0,20

    Pão com manteiga....0,30

    Pão sem manteiga....0,25

    Fui,

    D.


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    [Aeternus:4663] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-09-28)


    - RE:Vaticano barra ordenação de gays:foi fondo

    Ué, caro D., o "mundo gay" não implica apenas na escolha dos parceiros sexuais...

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    [Aeternus:4664] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-28)


    - 1 em 4

    O jornal inglês Mirror divulgou um estudo de um tal Dr. Lenny Kristal (???) afirmando que 1 em cada 4 mulheres quer sexo todo dia.

    Mas o dado mais engraçado é que há mais probabilidade das meninas perderem a virgindade antes dos 17 anos do que os meninos. Bem, se isso é verdade, elas estão transando com os irmãos das amigas, com os pais das amigas e com viagráticos velhinhos.

    Reservem a minha cota.

    Abração,

    D.


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    [Aeternus:4665] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2005-09-28)


    - RE:RE:Vaticano barra ordenação de gays: foi fondo & HABEMUS PAPAM

    Então já sei! Tinha padre que gostava de tocar Barbra Streisand nas festinhas da paróquia e isso pega mal porque ela é judia, é isso?

    E a Madonna também não podia, porque ela fez uma música chamada Papa don't preach...?

    hihihihi

    Ah, mas eu lembrei de outra coisa: a Barbra não se converteu ao catolicismo quando fez aquela música Papa can you hear me?

    Ah, não era esse Papa? era outro? Ôps...

    Bêjo,

    D.


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    [Aeternus:5304] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-11-10)


    - Melhor não conhecer quem você ama?!

    Melhor não conhecer quem você ama

    Contardo Calligaris

    Contardo Calligaris

    [Folha, quinta-feira, 10 de novembro de 2005]

    Faz tempo que Laura Kipnis, professora de comunicação na Universidade Northwestern, nos EUA, escreve sobre a vida amorosa e sexual com uma inteligência e com um brio invejáveis. Seu último livro acaba de ser publicado no Brasil, "Contra o Amor, uma Polêmica" (Record).

    Para Kipnis, diante da vida de casal (e no meio dela), nossa ambivalência é sem solução: "Por um lado, o anseio por intimidade; por outro, o desejo de autonomia; por um lado, o conforto e a segurança da rotina; por outro, sua medonha previsibilidade; por um lado, o prazer de ser conhecido profundamente (e de conhecer profundamente outra pessoa); por outro, os papéis restritivos que essa familiaridade prevê".

    Kipnis acrescenta que a familiaridade produz "a rotina do "Pare de Tentar Me Mudar" e a rotina do "Pare de Me Culpar por Sua Infelicidade'". São, de fato, duas grandes armadilhas da intimidade do casal: "Você me conhece tão bem que o deleite da surpresa foi substituído pela paixão pedagógica de me transformar". Ou então: "Você me conhece tão bem que consegue sempre encontrar em mim as razões de sua insatisfação".

    Não sei se existem formas de convivência íntima capazes de evitar que o parceiro se torne tristemente familiar. Kipnis pensa que não; pessimista e freudiana, ela não acredita em esparadrapos: na vida de casal, anseios contraditórios se chocam sem parar e sem remédio. Queremos o impossível: a transparência recíproca e, ao mesmo tempo (paradoxo), a preservação daquela aura misteriosa sem a qual, para o outro, somos "o cara" ou "a mina" de sempre, sem surpresas.

    Muitos acham intolerável ser conhecidos profundamente pelo parceiro. Na convivência do casal, uma expressão banal como "Eu te conheço" pode ser recebida com ojeriza e rebeldia, como se o olhar do outro se tornasse, assim, a tumba de todos os possíveis: "Você é este aqui, que amo e conheço, e não é, não foi e não será nenhum outro".

    Ora, freqüentemente, uma fantasia responde a essa dificuldade do amor. É o devaneio de uma vida passada, totalmente outra e geralmente excessiva, arriscada e aventurosa -o contrário, em geral, do cotidiano atual do casal. O parceiro desconheceria esse passado: ele nos amaria sem saber quem somos, ou melhor, ela amaria, em nós, um mistério.

    Por isso, acontece, às vezes, que um dos membros de um casal fabule sobre seu passado, não para tornar-se mais digno do amor recebido (ou seja, mais conforme com o que o outro espera), mas para declarar que ele pode ser radicalmente diferente do que o parceiro imagina. No caso, trata-se de mentiras que não querem "melhorar" a imagem de quem fabula; ao contrário, elas inventam um currículo inquietante: "Já fui drogado, heroína na veia", "Teve uma época em que transava só em grupo, com homens, mulheres e qualquer coisa que se mexesse" e por aí vai.

    Conheci, por exemplo, um casal em que o marido jurava ter passado anos na prisão (e não por um erro judiciário). A mulher teimava em demonstrar que o marido mentia, exibia certificados de antecedentes penais, alegava testemunhas, provava que nada disso era possível. Ela ganhou a disputa, mas foi o fim do casal, pois o marido mentia para continuar acreditando que, apesar da "normalidade" do casamento, sua vida permanecia livre e aventurosa. Mais do que isso, ele queria ser amado pelo mistério de seu passado inventado, não pelo conformismo de seu presente. Privado de um falso "segredo" que o mantivesse como enigma aos olhos de sua amada, ele recorreu à banalidade de pequenas traições para criar, em compensação, segredos reais. Logicamente, a relação acabou.

    Para esse impasse da vida amorosa, o cinema, repertório de nossos devaneios, propõe algumas soluções.

    O exemplo inaugural é "Gatilho Relâmpago" ("The Fastest Gun Alive", 1956), de Russel Rouse, em que Glenn Ford vive como comerciante tranqüilo (e quase "moscão") numa pequena cidade do Oeste americano. De fato, ele e sua família estão fugindo de um passado em que ele era o maior dos pistoleiros. Claro, um dia a coisa estoura.

    Melhor ainda é um filme que estréia amanhã no Brasil, "Marcas da Violência", de David Cronenberg. Melhor, digo, não só por ser dirigido com extrema simplicidade e maestria, mas por propor uma versão aprimorada da fantasia em questão. À diferença do que acontece em "Gatilho Relâmpago", aqui ninguém sabe se o protagonista esconde ou não um estranho passado: nem o espectador nem (mais importante) a mulher. Ao meu entender (vejam se vocês concordam), depois dos acontecimentos, a família continuará mais unida do que nunca, por todos terem aprendido a amar sem a pretensão de conhecer quem eles amam.

    Agora, a solução ideal mesmo é a história de Jason Bourne ("A Identidade Bourne", de 2002, e "A Supremacia Bourne", de 2004). Nesse caso, nem Bourne sabe direito qual foi seu passado. A mulher que, no primeiro filme, torna-se sua companheira se apaixona por um sujeito que é um enigma para ele mesmo. Talvez essa seja a melhor maneira de amar e de ser amado. Mas fazer o quê? Nem todo mundo pode ser agente secreto e amnésico.


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    [Aeternus:5308] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-11-10)


    - RE:Melhor não conhecer quem você ama?!

    Que prolixo, nosso Contardo. Não conheceria ele a frase "casamento é o máximo da intimidade com um mínimo de privacidade"? 

    Quanto ao resto, temo ser um mistério pra mim mesma e mera rotina pruma porção de parentes e amigos...Uma identidade "Bourne" seria quase suportável. 


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    [Aeternus:5741] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2005-12-27)


    - Palavras de Amor

    Alguém aí assistiu "Bee Season" (Palavras de Amor) com Richard Gere e Juliette Binoche??

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    [Aeternus:5755] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-12-29)


    - tomando emprestado de outro sit: Bresson

    O cinematógrafo contra o cinema
    Por Robert Bresson

    ( excertos, a partir de uma matéria no UOL)

    Temos dois tipos de filmes: aqueles que utilizam os recursos do teatro (atores, encenação etc.) e se servem da câmera com o intuito de reproduzir; aqueles que utilizam os recursos do cinematógrafo e se servem da câmera com o intuito de criar. O cinematógrafo é uma escrita com imagens em movimento e sons.
    Um filme não pode ser um espetáculo, porque um espetáculo exige a presença em carne e osso. No entanto, ele pode ser, como no teatro fotografado ou CINEMA, uma reprodução fotográfica de um espetáculo. Contudo, a reprodução fotográfica de um espetáculo é comparável à reprodução fotográfica de uma tela de pintor ou de uma escultura.  A reproduçáo fotográfica do Saint Jean-Baptiste de Donatello ou da Jeune femme au Collier de Vermmer não tem a força, o valor, nem o preço dessa escultura ou dessa tela.
    Os filmes de CINEMA são documentos de historiador para guardar em arquivos. Um ator está no cinematógrafo como num país estrangeiro. Ele não fala aquela língua.

    O teatro fotografado ou CINEMA quer que um cineasta ou um diretor faça atores representarem e fotografe esses atores representando; em seguida que ele alinhe as imagens. Teatro bastardo ao qual falta o que faz o teatro: presença material de atores vivos, ação direta do público sobre os atores.
    Natureza: o que a arte dramática suprime para proveito de uma naturalidade estudada e mantida com exercícios. Nada é mais falso num filme do que esse tom do teatro copiando a vida e calcado em sentimentos estudados. Achar mais natural que um gesto seja feito, que uma frase seja dita desta maneira em vez de outra é absurdo, não tem sentido no cinematógrafo.

    Não há casamento do teatro com o cinematógrafo sem o extermínio dos dois.
    Filme de cinematógrafo em que a expressão é obtida pelas relações de imagens e de sons, e não por uma mímica, gestos e entonações de voz (de atores ou de não-atores). Que não analisa nem explica. Que recompõe.  É preciso que uma imagem se transforme no contato com outras imagens, como uma cor no contato com outras cores. Um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um amarelo, de um azul.Não há arte sem transformação.

    O verdadeiro do cinematógrafo não pode ser o verdadeiro do teatro, nem o verdadeiro do romance, nem o verdadeiro da pintura. (O que o cinematógrafo capta com os próprios meios não pode ser o que o teatro, o romance, a pintura captam com seus próprios meios.)  Filme de cinematógrafo em que as imagens, como as palavras do dicionário, somente têm força e valor pela sua posição e relação.  Se uma imagem, olhada à parte, expressa nitidamente alguma coisa, se ela comporta uma interpretação, ela não se transformará no contato com outras imagens. As imagens não terão nenhuma força sobre ela, e ela não terá nenhuma força sobre as outras imagens. Nem ação, nem reação. Ela é definitiva e inutilizável no sistema do cinematógrafo.

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    [Aeternus:5756] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2005-12-29)


    - mais uma apropriação devida...

    Crônica no site do UOL sobre " A urgência do cinema", de Carlos Adriano
    ( excertos da crítica aos livros “Os adivinhadores de água”, de Eduardo Escorel. Ed. Cosac & Naify.  & “O cinema do real”, de Amir Labaki e Maria Dora Mourão. Ed. Cosac )

    Dois livros recém-lançados fornecem subsídios para pensar o cinema em sua (im) pertinência para o mundo onde vivemos. Partindo de objetos distintos -o filme de ficção (“Adivinhadores de água”, Eduardo Escorel) e o filme documentário (“O cinema do real”, Amir Labaki e Maria Dora Mourão)- ambos convergem sobre a questão necessária da urgência do cinema para a sociedade.

    O cinema brasileiro não possui a legitimação institucional que a música popular brasileira tem. Isso não é demérito nem critério de valor. Apenas a constatação do “status” de um estado de coisas no caso da cultura do Brasil, entendendo que tal legitimidade significa respaldo e respeito da atividade junto ao povo de uma nação.

    Embora possamos (exercício tão instigante quanto ambicioso) traçar linhas divisórias paralelas e diacrônicas entre o cinema e a música ao longo da história do século 20 no Brasil, contrapondo movimentos e escolas, modos de produção e economias de difusão, não é difícil ver que a música conquistou um espaço incomparável.

    Já se explorou à exaustão a imagem de que a história do cinema brasileiro é feita de crises e ciclos (ou “surtos”), uma história cuja trajetória se fez no subdesenvolvimento (que, mais do que meio ambiente ou contexto, seria, no caso, uma condição de existência ou sina condenada). A frase de efeito teima em não se tornar defasada.

    Fatos confirmam o clichê, de acordo com circunstâncias e interesses em pauta. Há dois anos, vivia-se certa euforia por uma reconquista do mercado para filmes brasileiros, alavancada por leis de incentivo. Mas a contingência se cansa, e produtores e distribuidores já pleiteiam providências, prevendo uma temporada decepcionante.

    Saiu há pouco a notícia de que temos hoje o número assustador de 365 filmes brasileiros “em produção”. O certo seria dizer “captação”, pois tais “filmes” são ainda “projetos”, aprovados por leis de incentivo que os habilita a captar recursos financeiros (baseados em renúncia fiscal) para serem produzidos. Outro número assustador noticiado é que, destes projetos de filme, 337 não teriam distribuição acertada.

    Outra informação que deve ser matizada. Isso porque em 2004, por exemplo, foram 51 filmes brasileiros lançados comercialmente. O quanto esses filmes permanecem em cartaz é outra história. Mas, mesmo tendo um filme produzido para cada dia do ano, o Brasil estaria longe do índice imperial de Hollywood (600 títulos produzidos) ou do milagre de Bollywood, a indústria de cinema da Índia, com seus cerca de 1.000 filmes anuais.

    Em Bombaim, o filme "The braveheart will take the bride" já passou da 500ª semana em cartaz, no cinema Maratha Mandir, onde foi lançado em outubro de 1995. No livro, Escorel lembra a “coincidência” entre a performance econômica de países como a Índia e sua performance cinematográfica. O Brasil atingiu seu recorde na década de 1970: 80 filmes em média produzidos e lançados anualmente.

    Ao focar a década ora perdida ora auspiciosa dos 1990 (sensações paradoxais e pendulares num breve lapso), o livro de Escorel é diagnóstico -pois compõe-se de artigos escritos na hora, que retratam perplexidades atuais- e ponderação -pois faz uma defesa do cinema brasileiro, nutrindo inquietações com indignação: o cinema é uma necessidade do Brasil ou uma veleidade dos que dele tentam viver?

    O livro faz um recorte determinado no multiforme organismo do cinema brasileiro, deixando de lado outras experiências. Sem perder do horizonte o lastro cultural para o “produto” filme, o autor recorta fatias que responderiam de modo mais natural ao anseio de empatia com o público (no sentido de comunicação necessária com a sociedade).

    Sempiterno desprezado e alvo de antipatia, o documentário adentrou o século 21 e o terceiro milênio como o gênero da moda no planeta do cinema, num fenômeno mundial. Escala ou escolha da globalização? A presença tem espessura econômica, ideológica e cultural.

    Ocupando um leque de telas espalhadas ao redor do mundo, atraindo um público espectador antes hostil, consagrado em festivais do mainstream, impulsionando eventos alternativos, e produzido em quantia assustadora (muitos não lançados no circuito comercial), eis o documentário atual.

    A realidade revelou-se mais imaginativa do que qualquer ficção, e o “acaso” (sem dirimir o tal do “telos” do processo histórico) das coisas do mundo tem se mostrado um dos mais capazes roteiristas ou diretores de representações audiovisuais. Causas são tão variáveis e complexas quanto a dificuldade em resumi-las de pronto e em espaço exíguo, em medida diretamente proporcional.

    Uma hipótese? O advento de uma interface digital para o mundo. A internet estreita distâncias, disponibiliza “conteúdos” imediatos. A manipulação eletrônica confecciona formas híbridas que desafiam o estatuto real e o lançam na imersão virtual. A facilidade de acesso e posse de equipamentos que fazem da casa um estúdio. Uma espetacularização de tudo (a vida como sociedade do espetáculo e dos poetas mortos), da guerra simultânea em sua transmissão televisiva à invasão de privacidade vigiada pelo recalque voyeurista.

    O apelo por mais realidade parece vir contrabalançado por uma tendência de triunfo do virtual. Há um desejo do real que se hipertrofia em virtualidades. Como se não houvesse mais capacidade para confrontarmos o real, somos consolados com o vicário substituto. A hegemonia da globalização decreta em sua agenda a demanda do homogêneo, um mundo cada vez mais dominado por simulações, vazio de substância e cheio de simulacros (para usar conceitos terminais baudrillardianos).

    Num país que não permite que o documentário ocupe as centenas de milhões de telas de tubos catódicos (ou de cristal líquido) acondicionadas realmente (não virtualmente, nem potencialmente, mas efetivamente), em quase todos os cantões do país, o perigo é que o gênero se converta em tábua de salvação para todos os males do cinema nacional, um ersatz messiânico a erradicar nosso subdesenvolvimento e analfabetismo audiovisual.

    É o risco de uma época em que altos ideais libertários foram degradados em meros rótulos consumistas, ao serem (tais ideais) incorporados por corporações midiáticas para satisfação de suas estratégias inflacionárias (que insuflam falsos valores) e de hiperexposição (que faturam com o culto à celebridade) no mercado congestionado e catatônico de imagens e sons (altares submodernos que veiculam padrões de vida).

    Nessa plataforma de hegemonia totalizante, a dialética negativa tem sua validade (e mesmo atualidade) contestada. Da desrazão clínica à razão cínica, as potências da negatividade são absorvidas pelo poder hegemônico e absolvidas de seu poder subversivo, tornado matéria de subserviência. Esgotado o repertório da resistência, resta desmoralizada a insurreição.

    É tudo verdade - Festival Internacional de Documentários, criado e dirigido pelo crítico Amir Labaki, vem apresentando uma programação arrojada, sintonizada a tradições e rupturas de um gênero que sempre foi associado à fossilização mas que tem mantido intacto seu potencial físsil.

    Marcando os dez anos do festival, “O cinema do real”, organizado por Labaki e a professora da USP Maria Dora Mourão, reúne ensaios e debates oriundos das Conferências Internacionais do Documentário que ambos coordenam no evento. O livro traz um rico material, abarcando vários tópicos.

    Um cinema do real seria aquele próximo da experiência do mundo (perto, para manter o calor da fricção entre suas peles), mas distanciado o suficiente para poder observar com olhar crítico suas contradições. Olhar que implica também o escutar. No museu imaginário do homem, um cinema do real seria a projeção dos desejos e a guarda da memória. Matéria de pensamento, portanto.

    Quem sentir falta dos textos precisos de Amir Labaki deve se reportar a outro livro lançado no mesmo impulso celebratório: “É tudo verdade”, seleta das colunas publicadas no jornal “Valor”. Reunidas em livro, demonstram a coerência do autor e o largo espectro de suas intervenções. Transcendem o dado provisório da página jornalística para se fixarem como revelador, na dimensão de dar a ver e perenizar um sistema de conhecimento.

    Com diferentes gradações de tom, adequadas a seus respectivos temas, estes artigos testemunham o espírito combativo e apaixonado de um crítico curioso, generoso e culto, atributos em tríptico que fundamentam um projeto que não se furta a disfarçar seu caráter de manifesto, e que são também os atributos necessários para quem quiser fazer, assistir e pensar um cinema do real.

    Pois, como disse (inspirado em São Paulo -“a imagem virá no dia da ressurreição”) aquele João de Nada, que porta em seu nome os dardos de Deus e da Arte, numa incerta “Histoire (s)”: "O cinema é de alguma forma a ressurreição do real".

    O cinema brasileiro não possui a legitimação institucional que a música popular brasileira tem. Isso não é demérito nem critério de valor. Apenas a constatação do “status” de um estado de coisas no caso da cultura do Brasil, entendendo que tal legitimidade significa respaldo e respeito da atividade junto ao povo de uma nação.

    Embora possamos (exercício tão instigante quanto ambicioso) traçar linhas divisórias paralelas e diacrônicas entre o cinema e a música ao longo da história do século 20 no Brasil, contrapondo movimentos e escolas, modos de produção e economias de difusão, não é difícil ver que a música conquistou um espaço incomparável.

    Já se explorou à exaustão a imagem de que a história do cinema brasileiro é feita de crises e ciclos (ou “surtos”), uma história cuja trajetória se fez no subdesenvolvimento (que, mais do que meio ambiente ou contexto, seria, no caso, uma condição de existência ou sina condenada). A frase de efeito teima em não se tornar defasada.

    Fatos confirmam o clichê, de acordo com circunstâncias e interesses em pauta. Há dois anos, vivia-se certa euforia por uma reconquista do mercado para filmes brasileiros, alavancada por leis de incentivo. Mas a contingência se cansa, e produtores e distribuidores já pleiteiam providências, prevendo uma temporada decepcionante.

    Saiu há pouco a notícia de que temos hoje o número assustador de 365 filmes brasileiros “em produção”. O certo seria dizer “captação”, pois tais “filmes” são ainda “projetos”, aprovados por leis de incentivo que os habilita a captar recursos financeiros (baseados em renúncia fiscal) para serem produzidos. Outro número assustador noticiado é que, destes projetos de filme, 337 não teriam distribuição acertada.

    Outra informação que deve ser matizada. Isso porque em 2004, por exemplo, foram 51 filmes brasileiros lançados comercialmente. O quanto esses filmes permanecem em cartaz é outra história. Mas, mesmo tendo um filme produzido para cada dia do ano, o Brasil estaria longe do índice imperial de Hollywood (600 títulos produzidos) ou do milagre de Bollywood, a indústria de cinema da Índia, com seus cerca de 1.000 filmes anuais.

    Em Bombaim, o filme "The braveheart will take the bride" já passou da 500ª semana em cartaz, no cinema Maratha Mandir, onde foi lançado em outubro de 1995. No livro, Escorel lembra a “coincidência” entre a performance econômica de países como a Índia e sua performance cinematográfica. O Brasil atingiu seu recorde na década de 1970: 80 filmes em média produzidos e lançados anualmente.

    Ao focar a década ora perdida ora auspiciosa dos 1990 (sensações paradoxais e pendulares num breve lapso), o livro de Escorel é diagnóstico -pois compõe-se de artigos escritos na hora, que retratam perplexidades atuais- e ponderação -pois faz uma defesa do cinema brasileiro, nutrindo inquietações com indignação: o cinema é uma necessidade do Brasil ou uma veleidade dos que dele tentam viver?

    O livro faz um recorte determinado no multiforme organismo do cinema brasileiro, deixando de lado outras experiências. Sem perder do horizonte o lastro cultural para o “produto” filme, o autor recorta fatias que responderiam de modo mais natural ao anseio de empatia com o público (no sentido de comunicação necessária com a sociedade).

    Sempiterno desprezado e alvo de antipatia, o documentário adentrou o século 21 e o terceiro milênio como o gênero da moda no planeta do cinema, num fenômeno mundial. Escala ou escolha da globalização? A presença tem espessura econômica, ideológica e cultural.

    Ocupando um leque de telas espalhadas ao redor do mundo, atraindo um público espectador antes hostil, consagrado em festivais do mainstream, impulsionando eventos alternativos, e produzido em quantia assustadora (muitos não lançados no circuito comercial), eis o documentário atual.

    A realidade revelou-se mais imaginativa do que qualquer ficção, e o “acaso” (sem dirimir o tal do “telos” do processo histórico) das coisas do mundo tem se mostrado um dos mais capazes roteiristas ou diretores de representações audiovisuais. Causas são tão variáveis e complexas quanto a dificuldade em resumi-las de pronto e em espaço exíguo, em medida diretamente proporcional.

    Uma hipótese? O advento de uma interface digital para o mundo. A internet estreita distâncias, disponibiliza “conteúdos” imediatos. A manipulação eletrônica confecciona formas híbridas que desafiam o estatuto real e o lançam na imersão virtual. A facilidade de acesso e posse de equipamentos que fazem da casa um estúdio. Uma espetacularização de tudo (a vida como sociedade do espetáculo e dos poetas mortos), da guerra simultânea em sua transmissão televisiva à invasão de privacidade vigiada pelo recalque voyeurista.

    O apelo por mais realidade parece vir contrabalançado por uma tendência de triunfo do virtual. Há um desejo do real que se hipertrofia em virtualidades. Como se não houvesse mais capacidade para confrontarmos o real, somos consolados com o vicário substituto. A hegemonia da globalização decreta em sua agenda a demanda do homogêneo, um mundo cada vez mais dominado por simulações, vazio de substância e cheio de simulacros (para usar conceitos terminais baudrillardianos).

    Num país que não permite que o documentário ocupe as centenas de milhões de telas de tubos catódicos (ou de cristal líquido) acondicionadas realmente (não virtualmente, nem potencialmente, mas efetivamente), em quase todos os cantões do país, o perigo é que o gênero se converta em tábua de salvação para todos os males do cinema nacional, um ersatz messiânico a erradicar nosso subdesenvolvimento e analfabetismo audiovisual.

    É o risco de uma época em que altos ideais libertários foram degradados em meros rótulos consumistas, ao serem (tais ideais) incorporados por corporações midiáticas para satisfação de suas estratégias inflacionárias (que insuflam falsos valores) e de hiperexposição (que faturam com o culto à celebridade) no mercado congestionado e catatônico de imagens e sons (altares submodernos que veiculam padrões de vida).

    Nessa plataforma de hegemonia totalizante, a dialética negativa tem sua validade (e mesmo atualidade) contestada. Da desrazão clínica à razão cínica, as potências da negatividade são absorvidas pelo poder hegemônico e absolvidas de seu poder subversivo, tornado matéria de subserviência. Esgotado o repertório da resistência, resta desmoralizada a insurreição.

    É tudo verdade - Festival Internacional de Documentários, criado e dirigido pelo crítico Amir Labaki, vem apresentando uma programação arrojada, sintonizada a tradições e rupturas de um gênero que sempre foi associado à fossilização mas que tem mantido intacto seu potencial físsil.

    Marcando os dez anos do festival, “O cinema do real”, organizado por Labaki e a professora da USP Maria Dora Mourão, reúne ensaios e debates oriundos das Conferências Internacionais do Documentário que ambos coordenam no evento. O livro traz um rico material, abarcando vários tópicos.

    Um cinema do real seria aquele próximo da experiência do mundo (perto, para manter o calor da fricção entre suas peles), mas distanciado o suficiente para poder observar com olhar crítico suas contradições. Olhar que implica também o escutar. No museu imaginário do homem, um cinema do real seria a projeção dos desejos e a guarda da memória. Matéria de pensamento, portanto.

    Quem sentir falta dos textos precisos de Amir Labaki deve se reportar a outro livro lançado no mesmo impulso celebratório: “É tudo verdade”, seleta das colunas publicadas no jornal “Valor”. Reunidas em livro, demonstram a coerência do autor e o largo espectro de suas intervenções. Transcendem o dado provisório da página jornalística para se fixarem como revelador, na dimensão de dar a ver e perenizar um sistema de conhecimento.

    Com diferentes gradações de tom, adequadas a seus respectivos temas, estes artigos testemunham o espírito combativo e apaixonado de um crítico curioso, generoso e culto, atributos em tríptico que fundamentam um projeto que não se furta a disfarçar seu caráter de manifesto, e que são também os atributos necessários para quem quiser fazer, assistir e pensar um cinema do real.

    Pois, como disse (inspirado em São Paulo -“a imagem virá no dia da ressurreição”) aquele João de Nada, que porta em seu nome os dardos de Deus e da Arte, numa incerta “Histoire (s)”: "O cinema é de alguma forma a ressurreição do real".


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    [Aeternus:5757] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2005-12-30)


    - RE:tomando emprestado de outro sit: Bresson 2 : do fragmento

    'Se uma imagem, olhada à parte, expressa nitidamente alguma coisa, se ela comporta uma interpretação, ela não se transformará no contato com outras imagens. As imagens não terão nenhuma força sobre ela, e ela não terá nenhuma força sobre as outras imagens. Nem ação, nem reação. Ela é definitiva e inutilizável no sistema do cinematógrafo.'
    Não entendo a última ilação do Bresson, que a ser tomada como 'vera' inviabiliza 99% das produções !
    Esse 'sistema do cinematógrafo' reveste-se, nessa linha de raciocínio dele, como um paraíso quase intangível, algo parecido com os filmes do Stanleyzinhozão Kúbrico, que dava bye bye para a família, refugiava-se em seus assustadores devaneios eremíticos, e tentava babar sobre cada quadro que filmaria. A música perfeita do Aschenbach, sempre ela...
     
    Há filmes e filmes. Como já disse, não me incomodo como o 'estanque', com o fato de apreciar uma mera seqüência bem resolvida dentro de um filme fraco. O filme espanhol "Um Banco no Parque" é insuficiente em toda a sua metragem, mas no final alevanta-se numa vinheta simples no tal 'banco do parque' - talvez a imagem-base a partir da qual o diretor idealizou a produção...- abrindo ali um interessante leque de discussão da sedução e dos rumos do amor no pós-moderno.

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    [Aeternus:5885] Mensagem do Grupo38
    -Conde Drácula(2006-01-14)


    - Metalinguagem


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    [Aeternus:5886] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2006-01-15)


    - não mencionam escapulários...

    FERNANDO CANZIAN
    da Folha de S.Paulo

    O Brasil não quer entregar a rapadura. Para isso, já mobilizou suas representações diplomáticas em Berlim, Washington e Brasília contra uma pequena empresa alemã que é atualmente a "dona da marca" rapadura na Alemanha e nos Estados Unidos.

    A empresa de alimentos orgânicos Rapunzel, sediada na pacata Legau, cidade de 3.062 habitantes ao sul da Alemanha, registrou a rapadura como sendo uma marca sua de açúcar orgânico em 1989 na Alemanha. Sete anos depois, fez o mesmo nos EUA.

    Aparentemente, nenhum brasileiro se deu conta do fato até meados deste ano, quando uma comunicação anônima chegou ao conhecimento da Divisão de Propriedade Intelectual do Itamaraty. Navegando pela internet, um brasileiro se deparou com o registro e imediatamente avisou as autoridades brasileiras.

    A Rapunzel não só registrou a rapadura, uma denominação geral de domínio público (assim como feijoada ou suco), como também adquire cerca de 600 toneladas do produto no Brasil --de um suíço naturalizado brasileiro.
    No limite, qualquer exportador brasileiro de rapadura que vender o produto com esse nome para a Alemanha ou EUA será obrigado a pagar royalties à Rapunzel pelo uso da marca registrada.

    No segundo semestre deste ano, a embaixada do Brasil em Berlim fez duas tentativas formais de demover a Rapunzel de continuar usando a rapadura como marca. A última foi há três meses.

    Na réplica da empresa, enviada por escrito em setembro, a Rapunzel afirmava desconhecer o fato de que "rapadura" é um termo genérico de uso comum.

    A resposta foi considerada "descarada e cínica" pelos brasileiros, já que a Rapunzel vende há vários anos açúcar mascavo, que vem a ser rapadura triturada.

    Procurada pela Folha, Heike Kirsten, da divisão de marketing da Rapunzel, disse que a empresa não tem a "intenção de abandonar o registro" que "salvamos para nós".

    Além de rapadura, a Rapunzel comercializa uma pasta de chocolate chamada Samba. Neste caso, não houve registro do nome.

    Diante da resposta da Rapunzel sobre a rapadura em setembro, o Itamaraty estuda quais medidas jurídicas tomar agora, já que uma batalha judicial em um caso como esse pode se arrastar por anos.

    Há três anos, o Brasil viveu uma situação semelhante, quando a empresa japonesa Asahi registrou a "marca" cupuaçu --uma fruta tipicamente nacional. Depois de várias gestões do Itamaraty, a Asahi concordou em abrir mão do registro no Japão e nos EUA.

    No mercado americano, a marca Rapadura está registrada no USPTO (United States Patent and Trademark Office). A última atualização é de 2001.
    Membros da Embaixada do Brasil em Washington afirmam que faltou "bom senso" ao organismo. Procurado pela Folha, um funcionário do USPTO disse que o órgão cumpriu todas as etapas formais (como publicação de anúncios e consultas) antes de registrar a marca (desconhecida dos americanos) para os alemães.

    Depois dos casos do cupuaçu e agora da rapadura, a Divisão de Propriedade Intelectual do Itamaraty começou a preparar uma lista com nomes tipicamente brasileiros para servir de indicação do que não deve ser registrado nos inúmeros escritórios de marcas e patentes espalhados pelo mundo.

    Jabuticaba vai constar da lista, mas há dúvidas sobre Carnaval.

     

     

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    [Aeternus:5887] Mensagem do Grupo38
    -Marcos(2006-01-15)


    - RE: salvaguardas

    Sem ter bola de cristal, antevi essa Rapunzel traiçoeira quando em meu 2º romance duas personagens trocam sua indumentária típica - aqueles vestidões até os pés, rodados e coloridos, firmes na cintura - numa festa de arromba.
    Essa Rapunzel aí alemã, pelo jeito, vai acabar formando uma Escola de Samba e desfilando na Marquês de Sapucaí.
     
    Vamos nos precaver contra isso, e amanhã nosso buffet entra com os pedidos de registros para nossas criações 'schnitzel', 'apfelstrudel' e 'bratwurst' na liga internacional de Patentes.

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    [Aeternus:5889] Mensagem do Grupo38
    -jansy mello(2006-01-16)


    - RE:RE: salvaguardas

    Marcos, que bela idéia. Registrar  na liga internacional de patentes Schnitzel, Apfelstrudel e Bratwurst. Pensando em nosso bombom mais popular, sugiro registro de Walz e, de quebra, Traum.

    Quais palavras da União Européia seriam recomendáveis? Waffles? Chips? Hors d´Oeuvres? Buffet? Carpaccio!


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    [Aeternus:8685] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2007-08-07)


    - GUANTÁNAMO!!!!

    Publicaram recentemente nos USA um livro com poemas de prisioneiros de Guantánamo (http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=11354562). A situação dos caras só encontra paralelo em campos de concentração. Ainda assim, a gente - nóis & o Mundo - permitimos a existência de Guantánamo.
    De que vale tantos livros, tanta Cultura, tanto Engenho&Arte?
    Fica a pergunta, caríssimos companheiros bovinos.
     
    Em Boston, tem uma praça que simula uma câmara de gás. Você passa e fica respirando vapores (espero que d'água!). No final, tem o nome de pessoas que morreram em campos de concentração.
    Será que um dia teremos um memorial para Guantánamo, por exemplo, em NYC?
     
    É visceralmente difícil se manter indiferente a essa tragédia. No Estadão de domingo, tem uma matéria que comenta o último livro do sempre lúcido Eric Hobsbawm, "Democracy, Globalization and Terrorism". Quem assina o artigo é Martin Woollacott, do "The Guardian". Há uma frase que resume bem o artigo e que, de certa maneira, guarda relação com isto: "(...) é no uso de um suposto perigo existencial para justificar políticas extremas que está a real ameaça à estabilidade mundial". Que alguém nos proteja do George Dáblio Arbusto...
     
    Existe algumas respostas possíveis, que podem explicar mas não justificar os nossos comportamentos. Segurem aí um trecho de John Gray: "Progresso e assassinato em massa andam juntos. Assim como reduziu o número de mortos por praga e fome, também cresceu a morte por violência. Assim como a tecnologia e a ciência avançaram, também avançou a proficiência em matar. Assim como aumentou a esperança por um mundo melhor, também cresceu o assassinato em massa." Tecnologia, ora a tecnologia...

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    [Aeternus:8802] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2007-10-10)


    - "Psicanálise para quem?"

    Ótimo texto, inteligente, sensível, esclarecedor sobre aquilo que existe dentro da gente como um conteúdo a nos martelar a existência sem que, muitas vezes, nem saibamos do que se trata. Nossos medos, dúvidas, nossas carências mais profuuuuundas escondem-se sob uma superfície de comportamentos adquiridos como sendo uma verdade... que não passa de aparência.
     
    Em textos como este percebo uma lucidez de propósitos que me estimula. Será isso ou a escolha de um dia partir sem compreender tudo... como uma planta que nasce, cresce, floresce, perfuma e morre. Cumprindo ciclos. Se não fôssemos racionais, cumpriríamos etapas sem questionamentos. Mas o racional também não basta, é necessária a sensibilidade para compreender meandros e se encantar com a Vida. Como admiro quem tem este encantamento e vive "de bem" com tudo... Outro dia, ao conversar com uma mulher de 87 anos que sobreviveu a duas guerras, percebi nela traços de uma imensa compreensão do papel do ser humano no mundo... Nada lhe passa despercebido, cenas do cotidiano viram arte em suas maõs, como se tudo merecesse louvores como uma oração particular que faz por estar viva e integrada. Acho que quem vive assim não tem pensamentos sombrios... como os que às vezes me colhem, vindos de uma profundeza que, sinceramente, desconheço... Sofremos sim pelo que não conhecemos... Sofremos pela nossa desarmonia. E me desculpem se, às vezes, transformo os parâmetros filosóficos em pequenas experiências particulares... Me debruço ainda sobre tantas teorias e minha compreensão da vida tende a ser cada vez mais uma... poética... que, talvez, seja também minha religião.
     
    *
     

     

    MARA SELAIBE*

    Dizer que é preciso se manter sempre sob o domínio da lógica é tese ordinária num mundo que se preza pela posse da razão. Em defesa dessa posição, toda irracionalidade deve ser estrategicamente cooptada a ponto de forjar um tecido duro que sustenta em suas fibras a ordem científica concêntrica. Loucuras tristes do pensamento.

    Quando Freud enunciou a psicanálise como método de acesso ao inconsciente, ofereceu à sua época algo a mais do que o muito que a poesia, a filosofia, a dramaturgia e a literatura já nos tinham feito saber no transcorrer dos tempos precedentes: a proposta racionalista é obtusa por pretender fazer assepsia, através de matrizes lógicas, da matéria primariamente sem fundamento e sem forma de onde o pensamento se cria. O pensamento organizado é trama que se faz num caldo de sensações, percepções, fantasias, intuições, sonhos, observações e acasos. Um caldo composto de fluxos do inconsciente articulados, por alguma linguagem, na ordem da consciência e do eu. Por isso não lhe compete ser asséptico. Mas o mais notável é Freud ter sustentado que o eu não é a instância geradora e central pela qual se toma.
    Foi ele, então, quem enunciou a terceira das três feridas narcísicas da humanidade: o eu não é o centro de si. E o eu não é o centro de si num mundo no qual, faz questão de nos lembrar o próprio psicanalista, a Terra não é o centro do Universo (Copérnico) e nem a espécie humana é criação divina, mas se origina na ordem da natureza (Darwin).

    Ainda que a modernidade tenha organizado seus saberes levando em conta, em especial, Copérnico e Darwin, o mesmo não se passou com Freud e sua psicanálise. Esta nos rouba a quimera de nos auto-dirigirmos, de sermos o que escolhermos ser. A dor é tamanha que mesmo entre os homens mais instruídos sobre as verdades da cultivada Ciência, muitos resistem a acatá-la. A psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco (Paris, 1999) conta que em Biology of the conscience (New York, 1992), Gerald M. Edelman, neurobiologista norte-americano e ganhador do Nobel de medicina, relata o desfecho de um tipo de discussão calorosa e freqüente que mantinha com seu amigo Jacques Monod (reconhecido biólogo molecular) a respeito de Freud. “Ele (Monod) afirmava peremptoriamente que Freud era anticientífico e que, provavelmente, tinha sido um charlatão. Por meu lado eu defendia a idéia de que, mesmo não sendo científico no nosso sentido da palavra, Freud fora um grande pioneiro intelectual, em particular no que concerne à sua visão do inconsciente e do papel deste no comportamento. Monod, que vinha de uma austera família protestante, respondia a isso dizendo: ‘Sou inteiramente cônscio de minhas motivações e inteiramente responsável por meus atos. Todos eles são conscientes’. Exasperado um dia eu lhe retruquei: ‘Jacques, vamos dizer, muito simplesmente, que tudo o que Freud disse se aplica a mim e que nada se aplica a você’. ‘Exatamente, meu caro amigo’, respondeu ele.”

    Não apenas homens do saber se opõem a admitir que não sabem de si. Popularmente parece que foi necessário inventar uma frase que, absolutamente, não tem a ver com a própria natureza da psicanálise, mas que exerce o poder de iludir e frustrar a todos que a tomam como verdade. Refiro-me à conhecida expressão “Freud explica”. Será mesmo? Freud nos contempla com um método e uma teoria que nos obrigam a suportar justamente a ignorância, a face obscura, a ininteligibilidade de muitos de nossos móveis. E pior de tudo, saber que o conflito interno de cada qual não se extirpa nunca – uma vez que o inconsciente vibra e pulsa sem cessar. Mas se a psicanálise não é explicativa, ainda assim ela se presta à nossa insaciável busca de produção de sentido para tudo que vivemos e experimentamos. Mesmo que seja, no limite, para nos apropriarmos do pior em nós.

    É assim que, como adepta, declara Françoise Giroud no periódico francês Le Nouvel Observateur (n.1610, 14-20 de setembro de 1995): “A análise é árdua e faz sofrer. Mas quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é esse. Pelo menos eu o experimentei (...). Não mais sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (...). Isso é o que uma psicanálise bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”.


    * Psicanalista. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Integrante do Grupo de Estudos sobre a Intolerância, conveniado ao Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Usp (LEI/ USP). Autora do livro Ensaio clínico sobre o sentido (EDUSP/Casa do Psicólogo, 2003). 


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    [Aeternus:8803] Mensagem do Grupo38
    -cely bertolucci(2007-10-10)


    - RE:

    Omar,

    A sua sensibilidade, para mim, me diz mais sobre aquilo que existe dentro da gente, e da luta humana para  compreender e se encantar com a Vida, do que quaisquer argumentações teóricas rebuscadas.  Como busco esse encantamento ... como luto com meus pensamentos sombrios e meu desancantamento do mundo que com frequencia me encontro, superados em raros momentos frente a gestos ternos, simples, genuínos de pessoas especiais como essa senhora de 87 anos.

    Concordo que mais do que explicação estamos em busca de produção de sentido para tudo que vivemos e experimentamos. O desencantamento e o tédio de nosso mundo, a meu ver, passa pela questão da falta de sentido gerada pelo excesso de informação e de explicação, num ritmo de tempo tão rápido que não permite que nos fixemos em nada. Sinto que vivemos em uma superficialidade barulhenta e tão indigesta que num contraponto desesperado busco o silencio. 

    Há anos peço socorro à psicanálise e ainda tenho certa esperança de não mais sentir vergonha de mim mesma. Não gostaria de partir sem essa vivencia libertadora.





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    [Aeternus:8839] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2007-10-28)


    - Irresponsável mundo novo...


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    [Aeternus:8927] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2008-02-05)


    - "Quente ou frio?"

    BOA PERGUNTA!!!!
    Mas que aquele filminho do Al Gore deixa a gente com a pulga atrás da orelha, deixa. A pulga a que me refiro é essa: "deve ter muita politicagem atrás de tanta ecologice".
    Até' agora, por exemplo, não sei qual exatamente o grau de estrago que o desmatamento causa, porque já ouvi gente DO RAMO dizer que o efeito estufa nao tem nada a ver com isso. Não que o desmatamento seja inócuo, mas que os danos que causa são OUTROS.
    Enfim, não sei mais o que pensar.
    Uma coisa, pelo menos, é certa: os patrulhamentos estão mesmo insuportáveis...
    Seo João, o jardineiro que tem dado um trato nas pranta da casa da minha vó, é' anarfabeto; e me contou que o pai dele, pouco antes de morrer, pediu pra fumar. O véio estava bem mais pra lá do que pra cá, e então o João lhe deu um cigarro. Os irmãos dele caíram de pau, e o João se defendeu: "sem fumar AQUELE cigarro o pai purum acauso ia viver para sempre? Pelo menos, que morra SAStifeito, ara!"

    Eu di o maór apoio pro João.

    E fecha o pano.

    Folha de São Paulo, segunda-feira, 04 de fevereiro de 2008

    NELSON ASCHER

    O lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou ecologistas

    Quando vieram atrás das lâmpadas incandescentes, não protestei porque já me habituara a ler à luz de outras; quando baniram os bifes, não disse nada porque podia comer pizzas; quando eliminaram os transgênicos, tampouco reclamei, pois meu salário bastava para comprar alimentos orgânicos; quando proscreveram os vôos internacionais, dei de ombros, pois já conhecia Paris, Londres, Veneza; quando tornaram proibitivo o uso de automóveis, obrigando todos a se aglomerarem em ônibus e metrôs, calei-me porque trabalhava em casa; quando plastificaram as genitálias alheias para limitar a produção de bebês, ri da história porque não me dizia respeito; quando criminalizaram a sátira, os comentários politicamente incorretos, a obesidade, o fumo etc., aí, obviamente, já era tarde demais para abrir o bico.
    Poucas décadas atrás, todas as proibições mencionadas teriam parecido ridículas, quando não absurdas. Dependendo de onde a vítima viva, hoje a maioria delas se tornou real demais. E muitas estão sendo impostas aos cidadãos não por meio de mecanismos democráticos, como a discussão e o voto, mas através de lobbies endinheirados que pressionam governos para que estes imponham à sociedade as manias desta ou daquela minoria obsessiva.
    O lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou ecologistas. Esse pessoal não apenas meteu na cabeça que, devido a algumas variações de frações de graus nos últimos cem anos, o planeta está prestes a se derreter, como se convenceram também de que nós, ou seja, os seres humanos, é que somos a causa do suposto desastre. Gente como Al Gore, os militantes do Greenpeace e os burocratas transnacionais da ONU selecionam a dedo, entre inúmeras hipóteses contraditórias, as poucas que lhes confirmam os preconceitos, obtêm apoio de alguns cientistas que acreditam nelas, conseguem o silêncio de muitos outros e, valendo-se de modelos computacionais às vezes duvidosos, muitas vezes discutíveis e discutidos, transformam em verdade absoluta o que mal passa, no momento, de uma especulação entre tantas, declarando, precipitada e acientificamente, que se trata de consenso indiscutível. Para completar, demonizam ou isolam quem quer que levante a menor objeção.
    Mas, como não faltam mais aqueles que estão devidamente habituados a/e vacinados contra seu terrorismo conceitual (e, não raro, seu terrorismo propriamente dito), o fato é que, se submetidas aos processos decisórios normais de uma democracia, as medidas que eles reivindicam para combater tais males imaginários jamais seriam referendadas pelo grosso do eleitorado. Aí entram milionários como George Soros, companhias preocupadas com o efeito da propaganda negativa, firmas interessadas em vender produtos ecologicamente corretos, economias estagnadas que vêem nessa medida uma maneira de prejudicar as que andam a pleno vapor, países, ou antes, governos e elites do Terceiro Mundo aos quais se promete certa vantagem financeira em troca de apoio e assim por diante.
    Um exemplo ajuda: pouco antes de deixar a presidência dos EUA para se tornar uma presença requisitada em Davos e lobbista internacional, Bill Clinton assinou o Protocolo de Kyoto. Por que é que só o fez então? Porque sabia que o documento não tinha a menor chance de passar pelo Senado. Embora seu gesto fosse, como tal, inútil, este aumentava sua popularidade entre o jet-set internacional em detrimento, é claro, da imagem de seu país. E isso apesar de sabermos que Kyoto era praticamente inútil, que as nações mais vocalmente empenhadas em seu sucesso têm sido as que mais longe ficaram das metas propostas.
    A preocupação exacerbada com o clima e o meio ambiente, coisas cujo funcionamento se conhece pouco e mal, já resultaria em problemas imediatos, pois, para a parcela miserável da humanidade, dificulta cada vez mais a superação de seu estado. O que a faz ainda pior é o fato de que seja usada para encobrir ou eclipsar as questões verdadeiramente urgentes, os perigos autênticos que nos rondam: fanatismo religioso e conflitos interétnicos, terrorismo e banditismo internacionais, contrabando de armas e narcotráfico, migrações descontroladas, ditaduras genocidas em vias de adquirir armamentos nucleares. Nada disso, porém, desviará a atenção de milhares ou milhões de militantes que, como os adeptos de qualquer seita, são movidos por dois desejos prazerosos, a saber, o de policiar a vida alheia e o de punir o sucesso de sociedades inteiras que não comungam de sua fé apocalíptica.


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    [Aeternus:8928] Mensagem do Grupo38
    -dora zander(2008-02-05)


    - RE: Quente ou frio?

    O tal poema aludido pelo Nelson Ascher, e que Al Gore proteja seus direitos, foi escrito por um brasileiro e todo mundo acha que é importado e eu, que não entendo nada de nada, fico sem saber porque tanta zanga com os verdes ou os amarelos que vai dar naquela coisada antiga de proibir a proibição. Também acho que não devemos permitir que cortem as flores do nosso jardim, nem cortem o grito das nossas gargantas mas será que adianta achar isso ou aquilo?

    Narcisismo das pequenas e grandes diferenças, diferenças dos pequenos e grandes narcisismos, seja de que lado for, patrulhamento sempre haverá enquanto o homem for homem e  sentir inveja, enquanto houver escolha entre Abel ao Caim, enquanto as democracias, enquanto tais, incluirem o direito ao lobi e darem força ao lobo que suja a água do cordeiro. 

    Sugiro que leiam o livro do Ondaadtje "Bandeiras Pálidas", curtam alguns versos dos Luzíadas sobre o fraco humano e, numa visada do contrário, vejam a Europa pelos olhos do Coetzee.  E isso adianta?


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    [Aeternus:8930] Mensagem do Grupo38
    -cely bertolucci(2008-02-06)


    - RE:RE: Quente ou frio?

    Tive uma impressão de desanimo e desesperança em voce Dora. Não sei se estou errada. Agradeço pelas indicações literárias. Essa é uma das coisas que me encanta no site do Aeternus: os comentários inteligentes sobre artes em geral (cinema, literatura), sobre psicanálise, vida, enfim sobre tudo que torna a nossa existencia mais rica e interessante, mesmo nos momentos de tristeza e desesperança.

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    [Aeternus:9058] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2008-03-09)


    - "O futuro de uma ilusão": Pascal - 233

    E me lembrei da aposta de Blaise Pascal (alô, Davy!).
    Mas existe maneiras&maneiras de crer, e eu gostaria de algo diferente daquele "erguei as mãos e glória e glória a Deus" ou da religiogice degenerada dirigida, por exemplo, a partidos políticos e grupos de rock&roll; 1 pouco de sofisticação cai bem. E Pascal vem a calhar nessas situações.
    E que raio de aposta é essa?
    Resumidamente ele diz que vale a pena apostar na existência de Deus...
    É o seguinte: se eu apostar na vida eterna e não acontecer pôrranenhuma lá no undiscovered country, não haverá um eu-alma ou o que quer que seja pra pensar "pôxa, que bosta, virei pó". Mas se nós, agnósticos(?), apostarmos que não tem nada, podemos ser recepcionados, depois da morte, por uma junta de querubins fazendo "top, top" com a mão esquerda espalmada sobre a mão direita fechada ("Sifudeu, brother").
     
     
     
    ou
     
    Parlons maintenant selon les lumières naturelles. S'il y a un Dieu il est infiniment incompréhensible puisque n'ayant ni parties ni bornes, il n'a nul rapport à nous. Nous sommes donc incapables de connaître ni ce qu'il est, ni s'il est. Cela étant qui osera entreprendre de résoudre cette question? ce n'est pas nous qui n'avons aucun rapport à lui.
    Qui blâmera donc les chrétiens de ne pouvoir rendre raison de leur créance, eux qui professent une religion dont ils ne peuvent rendre raison, ils déclarent en l'exposant au monde que c'est une sottise, stultitiam, et puis vous vous plaignez de ce qu'ils ne la prouvent pas. S'ils la prouvaient ils ne tiendraient pas parole. C'est en manquant de preuve qu'ils ne manquent pas de sens. Oui mais encore que cela excuse ceux qui l'offrent telle, et que cela les ôte du blâme de la produire sans raison cela n'excuse pas ceux qui la reçoivent. Examinons donc ce point. Et disons: Dieu est ou il n'est pas; mais de quel côté pencherons-nous? la raison n'y peut rien déterminer. Il y a un chaos infini qui nous sépare. Il se joue un jeu à l'extrémité de cette distance infinie, où il arrivera croix ou pile. Que gagerez-vous? par raison vous ne pouvez faire ni l'un ni l'autre, par raison vous ne pouvez défaire nul des deux.
    Ne blâmez donc pas de fausseté ceux qui ont pris un choix, car vous n'en savez rien. Non, mais je les blâmerai d'avoir fait non ce choix mais un choix car encore que celui qui prend croix et l'autre soient en pareille faute ils sont tous deux en faute; le juste est de ne point parier.
    Oui, mais il faut parier. Cela n'est pas volontaire, vous êtes embarqués. Lequel prendrez-vous donc? Voyons; puisqu'il faut choisir voyons ce qui vous intéresse le moins. Vous avez deux choses à perdre: le vrai et le bien, et deux choses à engager: votre raison et votre volonté, votre connaissance et votre béatitude, et votre nature deux choses à fuir: l'erreur et la misère. Votre raison n'est pas plus blessée puisqu'il faut nécessairement choisir, en choisissant l'un que l'autre. Voilà un point vidé. Mais votre béatitude ? Pesons le gain et la perte en prenant croix que Dieu est. Estimons ces deux cas: si vous gagnez vous gagnez tout, et si vous perdez vous ne perdez rien: gagez donc qu'il est sans hésiter. Cela est admirable. Oui il faut gager, mais je gage peut-être trop. Voyons puisqu'il y a pareil hasard de gain et de perte, si vous n'aviez qu'à gagner deux vies pour une vous pourriez encore gager, mais s'il y en avait 3 à gagner?
    Il faudrait jouer (puisque vous êtes dans la nécessité de jouer) et vous seriez imprudent lorsque vous êtes forcé à jouer de ne pas hasarder votre vie pour en gagner 3 à un jeu où il y a pareil hasard de perte et de gain. Mais il y a une éternité de vie de bonheur. Et cela étant quand il y aurait une infinité de hasards dont un seul serait pour vous, vous auriez encore raison de gager un pour avoir deux, et vous agirez de mauvais sens, en étant obligé à jouer de refuser de jouer une vie contre trois à un jeu où d'une infinité de hasards il y en a un pour vous, s'il y avait une infinité de vie infiniment heureuse à gagner: mais il y a ici une infinité de vie infiniment heureuse à gagner, un hasard de gain contre un nombre fini de hasards de perte et ce que vous jouez est fini. Cela ôte tout parti partout où est l'infini et où il n'y a pas infinité de hasards de perte contre celui de gain. Il n'y a point à balancer, il faut tout donner. Et ainsi quand on est forcé à jouer, il faut renoncer à la raison pour garder la vie plutôt que de la hasarder pour le gain infini aussi prêt à arriver que la perte du néant.
    Car il ne sert de rien de dire qu'il est incertain si on gagnera, et qu'il est certain qu'on hasarde, et que l'infinie distance qui est entre la certitude de ce qu'on expose et l'incertitude de ce qu'on gagnera égale le bien fini qu'on expose certainement à l'infini qui est incertain. Cela n'est pas ainsi. Tout joueur hasarde avec certitude pour gagner avec incertitude, et néanmoins il hasarde certainement le fini pour gagner incertainement le fini, sans pécher contre la raison. Il n'y a pas infinité de distance entre cette certitude de ce qu'on expose et l'incertitude du gain: cela est faux. Il y a, à la vérité, infinité entre la certitude de gagner et la certitude de perdre, mais l'incertitude de gagner est proportionnée à la certitude de ce qu'on hasarde selon la proportion des hasards de gain et de perte. Et de là vient que s'il y a autant de hasards d'un côté que de l'autre le parti est à jouer égal contre égal. Et alors la certitude de ce qu'on s'expose est égale à l'incertitude du gain, tant s'en faut qu'elle en soit infiniment distante. Et ainsi notre proposition est dans une force infinie, quand il y a le fini à hasarder, à un jeu où il y a pareils hasards de gain que de perte, et l'infini à gagner.
    [...]
    Or quel mal vous arrivera(-t-)il en prenant ce parti? Vous serez fidèle, honnête, humble, reconnaissant bienfaisant, ami sincère, véritable... A la vérité vous ne serez point dans les plaisirs empestés, dans la gloire, dans les délices, mais n'en aurez-vous point d'autres ? 

    Je vous dis que vous y gagnerez en cette vie, et que à chaque pas que vous ferez dans ce chemin, vous verrez tant de certitude de gain, et tant de néant de ce que vous hasardez, que vous connaîtrez à la fin que vous avez parié pour une chose certaine, infinie, pour laquelle vous n'avez rien donné.


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    [Aeternus:11585] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2009-05-17)


    - Capitu


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    [Aeternus:11586] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-18)


    - Benedetti

     Arte e Cultura
    Domingo, 17 de maio de 2009, 18h31  Atualizada às 19h33
    Morre aos 88 anos o escritor uruguaio Mario Benedetti


    O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu neste domingo em Montevidéu aos 88 anos, informaram à Agência Efe fontes ligadas à família do autor.

    » Vida de Mario Benedetti foi marcada por compromisso social

    Benedetti, que tinha um estado de saúde bastante delicado, estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu.
    Mario Benedettié escreveu diversos contos, dramas, novelas, poesias e ensaios. Os contos mais recentes são El otro yo, El porvenir de mi pasado, Buzón de tiempo, Despistes y franquezas e Recuerdos olvidados. Já as últimas novelas escritas por ele foram: Andamios, A Borra do Café e Primavera con una esquina rota. 
     


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    [Aeternus:11587] Mensagem do Grupo38
    -Omar(2009-05-18)


    - RE:Benedetti

    Garrafas (ao mar) & sopros (ao vento)... Quem sabe?, a sorte, o acaso, ou o que quer que atenda pelo sinônimo compreensível de bem-aventurança, pouse uma destas garrafas na praia (vezINquando deserta) da nossa Existência. Acho que o + importante é jamais deixar de lançar ao mar, aos 4 ventos...


    Pongo estos seis versos en mi botella al mar
    con el secreto designio de que algún día
    llegue a una playa casi desierta
    y un niño la encuentre y la destape
    y en lugar de versos extraiga piedritas
    y socorros y alertas y caracoles.
     
    (Mario Benedetti)


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    [Aeternus:12681] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2009-11-19)


    - ato médico

    vcs aqui do portal acham que isso seria prejudicar os psis?

    julia

    Caros senhores favoráveis ao Ato Médico,

    Se o grande problema é "prescrever", por favor, preciso que me prescrevam
    um tratamento fisioterapêutico para um paciente de 45 anos com uma
    tendinopatia crônica do tendão do músculo supra-espinhoso, apresentando
    calcificação no tendão. Ele apresenta história ocupacional de trabalho com
    elevação dos membros superiores acima do nível da cabeça (é vendedor de
    loja de roupas).

    Como é ex-jogador de voleibol, desenvolveu lesão do nervo supra-escapular,
    que culminou numa atrofia do músculo infra-espinhoso. Devido a distúrbios
    hormonais, desenvolveu osteoporose. Na avaliação, apresentou restrição da
    mobilidade da cápsula posterior do ombro, fraqueza dos músculos rotadores
    internos do úmero (grau 3), além de fraqueza de serrátil anterior e
    trapézio
    fibras inferiores (graus 4 para os dois músculos). A articulação
    esterno-clavicular também tem sua mobilidade diminuída.

    O que devo fazer, Dr.? Como posso fazer para restaurar a mobilidade da
    articulação? O que é mais indicado: mobilização articular ou alongamento?
    No caso de ser mobilização, que grau devo utilizar? No caso de ser
    alongamento, é preferível o alongamento ser estático ou balístico? Ou
    seria melhor utilizar de contração-relaxamento? Qual o tempo adequado de
    manutenção do alongamento? Ou será que é tudo contra-inidcado, devido à
    osteoporose?

    Com relação ao fortalecimento dos rotadores internos do úmero, qual
    exercício seria mais indicado para fortalecer o músculo sub-escapular,
    importante na estabilização dinâmica da articulação gleno-umeral? Devo
    usar thera-band, halteres, resistência manual ou simplesmente realizar
    exercícios ativos livres?

    Com relação ao serrátil anterior qual exercício seria mais indicado?
    Push-ups? Protração resistida? Exercícios ativos apenas, simulando
    atividades funcionais e procurando evitar movimentos escapulares anormais?
    Tudo isso? Nada disso? E se ele utilizar de compensações para a realização
    dos exercícios, como devo proceder?

    Com relação ao trapézio inferior, é melhor fazer o exercício contra ou a
    favor da gravidade? Devo ou não utilizar de movimentos ativo-assistidos?
    Qual o melhor exercício? Existe tal exercício?

    No caso da restrição da articulação esterno-clavicular, é necessário
    corrigir essa alteração de mobilidade? Se for, é possível corrigí-la? Como
    proceder. Tem contra-indicações ou precauções?

    Não podemos esquecer-nos de tratar também o tecido lesado (tendão do
    supra-espinhoso). Ele apresenta dor moderada ao elevar o membro superior D
    acima de 90 graus, que diminui a praticamente zero ao abaixar o braço. É
    necessára analgesia? Se for, que forma TENS? Qual a modulação (frequência,
    comprimento de onda, duração e intensidade)? Ou será que crioterapia é
    melhor? Em qual forma de aplicação? Por quanto tempo? Ou será que nenhuma
    analgesia é necessária?

    O que posso fazer para estimular o reparo do tendão? US (quantos MHz?
    Quantos W/cm2? por quanto tempo? Onde aplicar?), Laser (qual a
    intensidade? duração? tem contra-indicações?), exercícios (excêntricos,
    concêntricos, isométricos, resisitidos, livres? quantas séries e
    repetições? Qual o intervalo entre séries? Quantos RM? Devo fazer todos os
    dias ou não? É contra-indicado exercício?). Como posso fazer um exercício
    para supra-espinhoso?"

    Por favor, repassem essa mensagem com urgência para todos os médicos com
    competência para me ajudar, pois estou com o paciente afastado do trabalho
    por invalidez e continuo aguardando a "prescrição médica da fisioterapia",
    já que sem a "prescrição médica", segundo o ato médico, não posso fazer
    nada e nós todos os brasileiros, inclusive os médicos estamos pagando para
    ele não trabalhar. Não deixemos esse afastametno virar aposentadoria!

    Concluindo: Sim ao ato médico, desde que os médicos estudem na faculdade
    todo o conteúdo que outras 13 profissões da área de saúde têm em seu
    currículo.

    Marco Túlio Saldanha dos Anjos
    Fisioterapeuta


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    [Aeternus:12682] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-19)


    - RE:ato médico

    Julia, sou psi e não, médica. Não entendi nadinha do que você ortopédicamente colocou na lista ("portal"). Tem algo por trás que me escapa ( como, se me recordo da velha história, era imprescindível que os "psis" só atendessem para psicoterapia aqueles casos que lhe tivessem sido encaminhados por um médico). Suponho que os fisioterapeutas, atualmente, estejam reivindicando uma independencia semelhante a que os psicólogos obtiveram. Mas posso estar enganada. Você pode explicar?

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    [Aeternus:12683] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2009-11-19)


    - RE:ato médico

    acho o exemplo . nem todos os ortopedistas ou fisiatras sabem tudo, imaginem os outros médicos. esse ato médico deveria ser mais aberto ou discutido a luz de outras profissões relacionadas.

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    [Aeternus:12767] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-30)


    - encaminhado para mim

    O encanto dos orixás

    Leonardo Boff

     

    Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual.

    Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais.

    É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas.

    Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

    O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos.

    Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual.

    Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

    O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina).

    Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente.

    Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades.

    Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las.

    Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade.

    Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus.

    Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

    A Umbanda é uma religião profundamente ecológica.

    Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

    Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda.

    Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda.

    Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi.

    Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

    Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos.

    Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs.

    Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

    Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo.

    É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos.

    Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.

     


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    [Aeternus:13808] Mensagem do Grupo38
    -Thais Karam(2010-08-13)


    - RE:ato médico

    Não é de agora que a medicina busca monopolizar todas as atividades que envolvem o contato, físico ou emocional com o ser humano. Daí a ser o único que  utiliza, despudoradamente, o "doutor" como pré nome, mesmo não tendo defendido tese.

    Não faz muito tempo que a formação psicanalítica era vetada às psicólogas, o que constituia  o mais completo absurdo. Estudamos 5 anos só sobre psicologia, em suas diferentes vertentes. O médico passa por escassos 6 meses de estudo em psiquiatria, ao longo do curso, e, depois, dois anos de residência. Convenhamos. O que os leva a crer que são mais capacitados para o exercício da psicoterapia e a psicanálise? Lembrando que o próprio Freud declarava a inutilidade de ser médico para o exercício  da psicanálise.Melanie Klein,  por acaso, era médica???  

    Sempre que participei de Congressos e Jornadas de Psiquiatria e Psicanálise, a presença de psicologia era numericamente superior a dos  próprios anfitriões, nossos colegas da psiquiatria. Curiosamente nossos amigos psiquiatras, apesar de  gentilmente convidados, não costumam dar o ar da graça nos Congressos promovidos pela Psicologia. O que está implícito nesta ausência?

    Está na hora dos senhores doutores se conscientizarem  de que o trabalho em equipe é o que realmente vai ao encontro das necessidades do paciente. E isto vale para a psicologia, para a fisioterapia, nutrição e enfermagem! Ah a enfermagem! Pobre enfermagem, triste sina!!! Que injusto desprestígio, social e financeiro, a uma profissão de tamanha responsabilidade e inestimável valor.O que seria dos pacientes sem o acompanhamento diuturno da enfermagem? 

    E ainda tentaram confiscar a legítima consulta de enfermagem e  a enfermagem obstétrica, para a qual a enfermeira está perfeitamente habilitada.  Senhores Doutores, porque se sentem sempre tão ameaçados? Agora só falta reivindicarem o atendimento aos animais. Veterinários... fiquem atentos!

    NÃO, em letras garrafais, ao prepotente e arbitrário ato médico.Todos os profissionais da área de saúde merecem idêntico respeito  e reconhecimento. Aquele que pensa ser capaz de fazer tudo, na verdade não faz nada bem! 

                                                     Thaïs Helena Karam/ Psicóloga e Enfermeira 


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    [Aeternus:13809] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-13)


    - leitura de fim de semana 1

    > Declaração de princípios sem fins / Carlos Heitor Cony Sou contra o hábil cronista e contra o paciente pesquisador. Sobretudo, contra o vibrante jornalista SOU CONTRA o desenvolvimento autossustentável e contra a insustentável leveza do ser. Sou contra o esgotamento dos prazos legais e contra as objurgatórias indeclináveis. Sou contra o fomento da agricultura e contra o colóquio de física nuclear. Contra o abastardamento de nossas tradições, contra o dever inelutável de consciência e contra os soluços da espiral inflacionária. Sou contra a transparência das decisões ministeriais e contra os legítimos reclamos do operariado. Sou contra os artefatos de fabricação caseira e contra as armas de uso exclusivo das Forças Armadas. Sou contra a mais completa apuração das responsabilidades e contra a dilatação do perfil da dívida externa. Contra a camada de ozônio, contra a injusta concentração de renda e contra as colocações politicamente corretas. Sou contra o quadro de nossas importações e contra o arbítrio das decisões apressadas. Sou contra o apaziguamento dos espíritos e contra as inalienáveis prerrogativas da pessoa humana. Contra os lídimos representantes das classes produtoras, contra os autênticos interesses de nossa soberania e contra os sagrados postulados da civilização cristã. Sou contra a exata compreensão dos meus direitos de cidadão e contra o impostergável dever de solidariedade. Sou contra as injunções de ordem econômico-social e contra a voz da consciência, contra o tato político, contra o gosto da glória, contra o cheiro de santidade e contra os pagamentos à vista. Contra o arbítrio das decisões apressadas. Sou contra o ovo de Colombo, a bacia de Pilatos, o tendão de Aquiles, a espada de Dâmocles, os gansos do Capitólio, as asas de Ícaro, o estalo de Vieira, a caixa de Pandora (nos tempos de Machado de Assis não se dizia "caixa", mas "boceta de Pandora") e contra a trompa de Eustáquio. Sou contra o bico de Bunsen, o tonel de Diógenes, o teorema de Pitágoras, o disco de Newton, o gol do Gighia, o banho de Arquimedes, a casta Suzana, as rosas de Malherbe e o corvo de Poe. Sou contra a retirada da Laguna e os canhões de Navarone, contra as ilhas Sandwich, contra o estreito de Bósforo, o farol de Alexandria e o colosso de Rodes. Contra o templo de Diana e contra o desfiladeiro de Termópilas, contra o herói de Maratona e, acima de tudo, contra o quartel do Abrantes. Sou contra a nuvem de Juno e a maldição de Montezuma, contra a vitória de Pirro, contra a casa da mãe Joana, contra a Maria vai com as outras, contra as vilas do Diogo, contra a invasão da Normandia, contra o túnel do tempo e contra a dança das horas. Sou contra a Lei de Murphy e contra a matrona de Éfeso, contra as Guerras de Peloponeso, contra a paz de Campofórmio, contra a batalha de Itararé, contra a dieta de Worms e contra o Édito de Nantes, contra o Tratado de Tordesilhas, sobretudo contra a vingança do Zorro, contra o voto de Minerva e contra a besta do Apocalipse. Sou contra a ampla pesquisa ao eleitorado e contra a arregimentação de consciências. Sou contra o imediato socorro às regiões desamparadas e contra o mais fino ornamento de nossa sociedade. Sou contra o transplante de ideias alienígenas e contra os óbices que entravam o nosso desenvolvimento. Contra o lúcido ensaísta e contra o rigoroso crítico teatral. Contra o inspirado poeta e contra o agudo filósofo. Contra o hábil cronista e contra o paciente pesquisador. Sobretudo, contra o vibrante jornalista. Sou contra os valores agregados, o veredicto das urnas, a paz da família brasileira, os dois pontos para mais ou para menos das pesquisas eleitorais, sou contra todos aqueles que dispensam apresentações, contra os vasos comunicantes e, principalmente, contra as mulheres que fazem os poetas sofrerem, os governantes roubarem, os comerciantes falirem, os filósofos meditarem e os pecadores pecarem. P.S.: Esta crônica é baseada em texto antigo e já publicado em livro que a editora Leya acaba de lançar. Funciona como uma declaração de princípios sem fins, fala do trono de um plebeu que nem possui um reino para trocar por um cavalo. / tekka /

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    [Aeternus:13810] Mensagem do Grupo38
    -Marcos Florião(2010-08-14)


    - RE:RE:ato médico

    No geral concordo com as colocações de Thais.
    Deixo detalhes na área psicanalítica aos profissionais do ramo.De minha parte, tendo exercido psiquiatria durante alguns poucos anos médicos em Perícia e pronto-socorro - minha formação tomou outros rumos, 'para-psiquiátricos ' como obesidade/nutrologia - sei que existem rivalidades eventuais, de maior ou menor monta, com colegas psicanalistas ou psicólogos.
    Minha relação com estes sempre foi a melhor possível, de resto - vide este próprio site e estas deliciosas tribunas, onde nos exercemos e até trocramos blagues.

    Ah !...o social...este anda Perdidinho da Silva, né ? Quem lê o que escrevo por aqui sabe do tamanho de minha desilusão com nossa ex-quase-futura-nação...
    Autores e articulistas com nobre formação tentam como bons cêrumanus organizar o caos - ainda que eventualmente aceitando-o, como faz com frequência o Pondé ! Cada pedra, cada grão de areia...il faut imaginer Sysiphe heureux.

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    [Aeternus:13811] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-14)


    - RE:RE:RE:ato médico

    Pois é, Florião... os desencantos!  Quando li o texto bem articulado da Taís sofri uma espécie de dèja vu pois nada, ali, é novo em matéria de reivindicação e protesto. Nos anos setenta o nosso discurso, o dos psicólogos, era idêntico e eu tinha esperança que, recém-reconhecidos como profissionais, nossos conselhos obteriam um progresso na nossa idependencia dos médicos. Quarenta anos e nada!!!! (bem, daqui e dali algumas coisas melhoraram, pouco demais).

    Nem sei dizer se é bom que a psicanálise atualmente não esteja totalmente sob controle da IPA (fundada pelo Freud) pois existem escolas de formação de psicanalistas organizadas por pastores evangélicos que prometem formar profissionais em menos de um ano e todos dirigidos à moralidade e a religião (nada menos freudiano). Fora a falta de seriedade da maioria dos cursos de psicologia, pedagogia e tudo mais.  Dentro da IPA a luta para ter outros profissionais das ciencias humanas reconhecidos como capacitados para serem psicanalistas começou cedo. Na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo psicólogos e sociólogos foram aceitos desde o começo, mas no Rio a coisa demorou ainda uns dez anos para acontecer.


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    [Aeternus:13812] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-14)


    - RE:leitura de fim de semana 1

    Tekka, infelizmente não conheço a maior parte das frases ou conceitos citados pelo Cony...Não entendi o espírito da sátira que ele fez. Topo uma idéia anárquica, tipo "hay gobierno, soy contra." mas não acompanho anarquistas que se organizam em grupos, sou mais pelo caminhante solitário no espirito de rousseau. E no caso, com pensamentos positivos em vez de jogos verbais. 

    Se alguém me explicar melhor o sentido desta leitura...quem sabe penso sobre ela mais uma vez? 


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    [Aeternus:13813] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-14)


    - Cony

    > Querido/a Visitante O Cony apenas juntou uma série de locuções da imprensa, chavões e batatadas, que servem para os mais diversos fins ou fins nenhuns gostei deste artigo tb do estadão: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100814/not_imp594900,0.php desejo aos/as amigos/as um ótimo fim de semana / tekka / BTW, adoro vir aqui ler tudinho

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    [Aeternus:13814] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-14)


    - Lolita à brasileira

    > O PASSADO PASSA / Marcelo Rubens Paiva http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100814/not_imp594886,0.php abraços gerais, tekka

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    [Aeternus:13815] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-14)


    - enquanto se discute a Lei da Palmada ...

    > http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=3126&titulo=Big_Brother_da_Palmada

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    [Aeternus:13816] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-08-14)


    - RE:enquanto se discute a Lei da Palmada ...

    Olá, Tekka, adorei sua resposta para visitante sobre cronica do Cony e o adendo no btw... Vamos ver se leitores silenciosos colaboram, com você, com sugestões de leituras, comentários, idéias... Obrigada. Jansy

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    [Aeternus:13817] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-08-14)


    - leituras

    Dei espiada em duas matérias que foram linkadas ( ou é lincadas?) ao site pela Tekka. Ando susceptível demais e já quase enguicei na primeira que discute a "lei da palmada". Vamos colocar o estado interferindo na vida privada em breve, é só se distrair quando uma proposta maluca como esta passa sem ser percebida. Há o risco!!!!

    Quanto ao Marcelo R.Paiva, escrevendo sobre "o passado passa" não sei bem o que comentar. A cronica tem um jeitão do Veríssimo, mas não escorrega tão naturalmente. Recentemente descobri algo curioso enquanto lia Murakami e alguns costumes budistas.,quanto a uma cena em que filhos respeitosamente renovam o incenso diante do altar com as fotos dos pais. Percebi que nunca nunca olhei para uma foto antiga de pais, avós ou amigos como "foto de pessoa morta." Para mim foi sempre uma representação de alguém que estava vivo, que viveu...Minha viagem ao passado me levava até ele, sem a quebra de continuidade, ou de algo que não sei bem nomear. 

    Tem aquela anedota do político que sempre encontrava saída para uma gafe e na qual, encontrando um rapaz conhecido, o saúda e lhe pergunta sobre a saúde do pai.  "Meu pai morreu há dois anos," responde este.  E o político revida, na hora: "Morreu para você, filho ingrato, para mim ele continua vivo no meu coração."  Pena ligar esta historinha ao que se passa comigo mas, puxa...combina até certo ponto com meu modo de olhar para fotos. Citando uma citação do Murakami (Kafka à Beira Mar, legível como ficção e história de detetives) de não sei mais qual autor ( de Yeats, "sonhar é o início da responsabilidade") ou seja: "Só se percebe o mundo no passado" ou "perceber é utilizar a memória" ( talvez seja de Bergson) 


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    [Aeternus:13818] Mensagem do Grupo38
    -Visitante(2010-08-14)


    - A ARTE DE ESQUECER / Ivan Izquierdo

    . Como e por que esquecemos ou precisamos esquecer? A arte de esquecer responde a esta e muitas outras perguntas. Mostra que cada um de nós é quem é porque tem suas próprias memórias. Portanto, aprender a distinguir entre as informações que devemos deixar de lado e as que devemos guardar é uma arte difícil. O neurocientista fala dos vários tipos de memória, de suas respectivas áreas cerebrais, bem como das três grandes formas de exercer a arte do esquecimento: o bloqueio, a extinção e a repressão. Para Iván Izquierdo, a arte de esquecer ou, no caso, a arte de não saturar os mecanismos da memória é algo inato, algo que nos beneficia de maneira anônima, pois nos impede de naufragar em meio às nossas próprias recordações. Escrito com a leveza de uma conversa entre amigos, os ensaios que compõem este livro navegam por vários aspectos: da memória do indivíduo à das sociedades: "cada país é feito de suas memórias, como as pessoas" ou "Se há uma arte especialmente maldita é a de forçar, pela propaganda, o esquecimento de coisas importantes a povos inteiros, substituindo-as por mentiras. Intoxicados por mentiras, esses povos podem ser levados a cometer as piores barbaridades". Ao final da leitura o leitor compreenderá que esquecemos para poder pensar, esquecemos para não enlouquecer e para poder conviver e sobreviver. Enfim, como não há fórmulas para a felicidade, talvez haja para o bem-estar, e a arte de esquecer, bem praticada, pode ser uma delas. APRESENTAÇÃO Leitor, o livro que você tem em mãos é um livro raro. Começa que o autor é um dos nossos maiores cientistas, produtor de centenas de artigos especializados em neurobiologia da memória e, portanto, uma das pessoas mais capacitadas a falar ao grande público sobre o tema. Não é sempre que podemos ter esse privilégio. Além disso, Iván Izquierdo é um homem de cultura, ilustre leitor de Jorge Luis Borges, e que aqui e ali faz referência a escritores, poetas e artistas de outras artes, aproximando — quase sobrepondo — a ciência e as humanidades. E finalmente, o livro está escrito de maneira informal como uma conversa entre amigos, com o chimarrão circulando, como é próprio do sul da América, onde nasceu e vive o autor. Posso apostar: você primeiro folheia o livro, como é possível que esteja fazendo agora. Eventualmente o compra e o separa para começar a ler em um domingo chuvoso. Nesse dia, as primeiras páginas com certeza o prenderão e não será fácil interromper a leitura até o final. Izquierdo nos mostra muitas coisas: que somos o que lembramos, mas só lembramos porque esquecemos. Lembramos de um fato central porque esquecemos dos acessórios. Você se lembra quem passou ao seu lado quando tomou o livro nas mãos na livraria? Nem mesmo se era homem ou mulher... Esquecemos dos fatos acessórios, mas esquecemos também de coisas cruciais: aí se insere a base neural do conceito freudiano de repressão e da noção pavloviana de extinção, aplicada aos processos de aprendizagem. Esses eventos psicológicos do dia-a-dia dependem de neurônios, sinapses, neurotransmissores e impulsos nervosos — não são abstrações etéreas de realidade duvidosa. ‘‘A arte de esquecer’’ nos cativa porque nos faz aprender muitos detalhes científicos da neurobiologia da memória, sem que nos demos conta disso, tranquilamente, sussurrantemente. Você não irá se esquecer dele. Roberto Lent Professor titular e diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro SOBRE O AUTOR IVÁN IZQUIERDO é médico, professor e neurocientista. Nasceu na Argentina, mas naturalizou-se brasileiro e mora em Porto Alegre há quase trinta anos. Lecionou em inúmeras instituições de ensino superior, entre elas a Univ. de Buenos Aires, a Univ. do Rio Grande do Sul — onde ajudou a criar a pós-graduação em bioquímica — , e a PUC do Rio Grande do Sul — onde dirige o Centro de Memória do Instituto do Cérebro. Membro de várias Academias e sociedades científicas do país e do exterior. Recebeu mais de cinquenta prêmios e distinções nacionais e internacionais. É um dos mais respeitáveis especialistas em fisiologia da memória do mundo e descobriu os principais mecanismos moleculares da formação, evocação, persistência e extinção das memórias. Izquierdo destaca-se entre os cientistas brasileiros mais citados em todas as áreas do conhecimento. / tekka /

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    [Aeternus:13819] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-08-14)


    - A arte de lembrar Vani Derecha

    Parece que o artigo de Izquierdo, ou melhor, o livro, é muito bom. Dei uma espiada na crítica favorável e me interessei. Mas... não tenho nada a dizer. Ainda estou com a frase mal lembrada do Bergson, sobre só percebemos o passado (que fez o maior sentido pra mim) porque ela se choca com o que Freud observou e Bion ( e o que eles dizem faz o maior sentido pra mim), Já no "Projeto" e indo pelos seus primeiros textos Freud notava que quando lembramos, não estamos percebendo o que acontece à nossa volta. Bion levou esta constatação ainda mais longe, recomendando que o analista fique sem memóreia na sessão para poder estar atento ao que se desenrola naquele dado instante. Só que Bergson também está certo. A gente só pode perceber (diferente de registrar algo novo) porque tem memória (para nomear, dar contorno, reconhecer). Além do que, quando a percepção se faz, o evento já se tornou passado.   Bergson e /Freud/Bion falam de níveis diferentes da memória e da percepção, claro, mas uma mesma frase se aplica para os dois sentidos.

    Gosto do que De Quincey observou sobre os fatos mnêmicos ( se sobrepõem, como um manuscrito, um palimpsesto, e pedaços antigos vazam e se misturam aos atuais) e de Proust, conceituando "a memória involuntária" (que não é o mesmo que um retorno do recalcado).

    A cada dia a mesma linguagem significa coisas mais distintas... Com a internet surgiu o "leet" e minha filha, que está estudando "Libra" (linguagem de sinais), avisou que é possivel se expressar com sotaques diferentes dependendo das convenções dos sinais. Será mais fácil ou indiferente aprender "libra" quando se usa ideogramas, como os chineses, em vez da linguagem 'fonética'?


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    [Aeternus:13820] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-08-16)


    - Murakami traduzido...

    Puxa...depender das traduções no Brasil é um problema.  Estava lendo o livro do Murakami, "Kafka à Beira-Mar" e percebi que, em vez de Austria (para informar sobre o famoso trio de Beethoven dedicado ao Arquiduque austríaco) a tradutora, nas duas menções, falou de Austrália.  Em seguida, tendo ficado curiosa sobre a menção a "Corvo" e seguyindo à informação de que "kafka em tcheco é corvo" fui pesquisando (com ajuda da lista do Nabokov, interessados em "raven" e "rook" ) acabei descobrindo que, embora da familia dos "corvus", o animal designado por kavka é a gralha. 

    Creio que, seguindo a dica de "jackdaw" na wikipedia para a gralha, Murakami se inspirou numa notícia dada pelo Milan Kundera, no "Livro do Riso e do Esquecimento." As outras ligações com esfinge e Hamlet, também para gralhas, não devem ter determinado o enredo do livro edípico do escritor japones, mas serem elementos de algum outro tipo de "sobredeterminação." - e, como tais, muito interessantes.

    Quando saí para fotografar a placa do Detran  que aponta para a Embaixada da Republica Tcheca, porque nela há um erro que a torna "Theca", quase comentei  o caso com nossa participante Tekka.Ortografia por ortografia... No entanto, achei uma "Tekka" de verdade no livro do Murakami.  Uma cadelinha, amiga de um gato chamado "Toro", que mora na cozinha de uma casa de sushi..

    Meu interesse pelos corvos vem ligada a uma curiosidade. A peça de xadres que no Brasil se designa por "torre" em ingles pode ser "castle" ou "rook" ( outro membro da turma dos Corvus)  ao passo que na Persia antiga no jogo de xadres a peça equivalente ao "rook" era um par de elefantes ( um branco e um negro) 

    Supuz que, para Murakami, o inconsciente freudiano seria algo como o sonhar, com determinismo ligado a uma ordem cósmica (ou arquetípica) e não submetido à cadeia significante. Pelo menos foi isto que depreendi pela maneira pela qual conduziu o menino Kafka, fugido de casa para não matar o pai segundo uma profecia que ainda o marcava como dormindo com a mãe. acabou matando o pai e transando com a mãe em sonhos que se tornavam realidade. Murakami cita uma linha do poeta W.B.Yeats ( que traduziu o Edipo Rei, de Sófocles, para o ingles) na qual Yeats fala de que "os sonhos são o começo da responsabilidade." e que só por sonhar já se torna "responsável" (embora não "culpado") 

    Não incluiria Murakami no rol dos escritores excepcionais desta fase. Ele tem jogos espertos, moderninhos demais, com grandes empréstimos de outros escritores ( como Robe-Grillet). Ao mesmo tempo, ele adentra uma dimensão mítica que afeta o leitor de modo curioso e, nisso, tiro o chapéu para ele., 


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    [Aeternus:13821] Mensagem do Grupo38
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-08-16)


    - RE:Murakami traduzido...

    Não sei se deu para notar, na mensagem anterior, a ligação com a placa do Detran indicando a embaixada Theca e o país de Kafka (Republica Tcheca). Nem contei que há uma semana achei um cartão falando de elefantes brancos (acompanhando um presente de um elefante de ébano) e no dia seguinte ganhei um elefante de marfim. Daí minha pesquisa, com o enxadrista amador Nabokov, que constroi seus romances ligados a certas táticas do xadres, ligando "rook" e os elefantes.

    Hoje me deram um livro de Konrad Lorenz para examinar (uma edição mexicana xinfrim) para ver se eu descobria quem fez os desenhos da capa.  Lorenz trabalhou com gralhas e, pelo google, cheguei a alguns indicadores. Infelizmente não consegui acessar o trecho desejado porque meu google está programado de um jeito novo que não tem o comando "localiza" ( e o de "formatar"). 

    Uma autora junguiana pesquisou sobre gralhas e corvos...”A sombra do mal nos contos de fada.” (Marie Louise Von Franz)  Não consigo, infelizmente, enviar os links pelo aeternus. A modernização dos programas acabou com minha agilidade na internet 

    Vou tentar os mais neutros.books.google.com.br/books?isbn=8571390967...

    books.google.com.br/books?isbn=8574306797...

    www.dfs.uem.br/Joomla/index.php?option=com...view...id...

    www.clinicapsique.com/doc/marielouise-sombra.doc

    www.scribd.com/.../a-sombra-e-o-mal-nos-contos-de-fada-marie-louise-von-franz -


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