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Divulgação
Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus

  

Jogo de Espelhos


Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo:
  • Jansy Mello:
    Animando os refratários à refração se não à reflexão...

  • Jansy Mello:
    Woody Allen & Zelig

  • Marcos:
    brotherhood + solidarnosk

  • Guto:
    Zé Dirceu e a Hybris

  • Jansy Mello:
    RE:Zé Dirceu e a Hybris

  • Marcos:
    espelho do espelho...

  • Jansy Mello:
    RE:espelho do espelho/ Dorian Gray...

  • LFGallego:
    Nenhuma patota pode ser tão forte

  • Jansy Mello:
    RE:Nenhuma patota pode ser tão forte

  • Marcos:
    humor fino

  • Jansy Mello:
    RE:humor fino/ escravo do espelho meu

  • LFGallego:
    a mão que afaga

  • Guto:
    RE:Nenhuma patota pode ser tão forte

  • George B. Shaw:
    sorry, but...

  • jansy mello:
    RE:RE:Nenhuma patota pode ser tão forte

  • Marcos:
    honra e glória

  • Marcia Ador:
    SOS Revoluções

  • Conde Drácula:
    Lynchamento

  • Marcos:
    RE:Lynchamento

  • Visitante:
    COM O OUTRO NO CORPO

  • Conde Drácula:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO

  • jansy mello:
    RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO

  • jansy mello:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia

  • Marcos:
    RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia

  • jansy mello:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia

  • Marcos:
    RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 7

  • jansy mello:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8

  • Davy:
    RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8

  • Marcos:
    RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aa

  • jansy mello:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aaa

  • Marcos:
    RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aab

  • jansy mello:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aabc

  • Davy:
    RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aabc

  • Marcos:
    RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Ad

  • jansy mello:
    RE: O OUTRO NO CORpO e a simples inocencia 8AabcN

  • Marcos:
    RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Af

  • Davy:
    RE:RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Af

  • jansy mello:
    RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Afg...n

  • Conde Drácula:
    RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo

  • Davy:
    RE:RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Afg...n

  • Davy:
    RE:RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo

  • Marcos:
    RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo 3

  • jansy mello:
    RE: CORPO e a simples inocencia 9

  • jansy mello:
    RE:RE: CORPO e a simples inocencia 10

  • Conde Drácula:
    RE:RE:RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo

  • Conde Drácula:
    MAGnÓliA

  • jansy mello:
    RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...?

  • Conde Drácula:
    RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...?

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...?

  • jansy mello:
    RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...? Shame...

  • Conde Drácula Tomatinho:
    RE:RE:RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...? Que vergooooooooonha

  • jansy mello:
    RE: Come on, catch-up...

  • jansy mello:
    intermediações

  • Conde Drácula:
    RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...? Dizem os deuses que a ética sustentada pelo medo não serve para o que os Céus planejam para o terceiro milênio (música do final de 2001)

  • jansy mello:
    ranheta pidão e o muro de lamúrias

  • jansy mello:
    livre pensar é só pensar

  • LFGallego:
    Culpas e Vergonhas

  • LFGallego:
    P.S. que não seguiu no "Culpas e Vergonhas"

  • Conde Drácula Tomatinho:
    RE:RE: Come on, catch-up...

  • Manoel:
    RE:RE: Come on, catch-up...

  • jansy mello:
    RE:RE:RE: Come on, catch-up...

  • jansy mello:
    RE:RE:RE: Come on, catch-up...

  • Conde Drácula:
    The Shining

  • Melanie Klein:
    RE:The Shining

  • jansy mello:
    Rilke e os poemas ao louvor...

  • Guto:
    Rilke - prometo tentar

  • Guto:
    aquele Rilke da "anêmona"- tentei

  • jansy mello:
    Agatha Christie, again

  • Marcos:
    RE:Agatha Christie, again

  • jansy mello:
    Christie e as idiossincrasias

  • LFGallego:
    RE: Christie e as idiossincrasias

  • Guto:
    pizza portuguesa...

  • jansy mello:
    RE:pizza portuguesa...

  • Guto:
    RE:RE:pizza portuguesa...

  • Marcos:
    RE: há uma Babel brasileira pelo mundo e...

  • jansy mello:
    RE:RE: há uma Babel brasileira pelo mundo e...

  • Criticos.com.br:
    Resenha sobre O Labirinto do Fauno

  • Bernardo:
    RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

  • jansy mello:
    RE:RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

  • pp.luiz fernando gallego:
    RE:RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

  • jansy mello:
    RE:RE:RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

  • Omar:
    Camus & o pecado contra a Vida

  • Marcos Florião:
    RE:Camus & o pecado contra a Vida

  • Omar:
    RE:RE:Camus & o pecado contra a Vida

  • dora zander:
    RE:Camus & o pecado contra a Vida

  • Omar:
    Genesis

  • Omar:
    Dilaceramento

  • dora zander:
    RE:Dilaceramento

  • dora zander:
    RE:RE:Dilaceramento

  • dora zander:
    Ian McEwan em "Atonement"

  • Omar:
    RE:Ian McEwan em

  • dora zander:
    RE:RE:Ian McEwan em

  • Omar:
    RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • dora zander:
    RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • dora zander:
    RE:RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • dora zander:
    Ian McEwan retomado

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • cely bertolucci:
    RE:Ian McEwan retomado

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

  • Omar:
    RE:Ian McEwan retomado

  • jansy berndt de souza mello:
    RE:RE:Ian McEwan retomado

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:Ian McEwan retomado

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    um problema no site, será corrigido brevemente..e Rorty

  • cely bertolucci:
    RE:um problema no site, será corrigido brevemente..e Rorty

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:...e Rorty

  • jansy berndt de souza mello:
    Borges /Sabato Diálogos ( ed. Globo)

  • Omar:
    Séminaires

  • Visitante:
    Duas festas no mar

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Duas festas no mar

  • gustavo alcides da costa:
    Tancredo e Clorinda

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Tancredo e Clorinda

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:Tancredo e Clorinda

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Tancredo e Clorinda

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:Tancredo e Clorinda

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Tancredo e Clorinda

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    A pureza

  • Visitante:
    my dear dear dearest Jansy...

  • Marcos Florião:
    RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Pushkin

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    King Marcus, no crees en las brujas?

  • Marcos Florião:
    RE:King Marcus, no crees en las brujas?

  • Omar:
    Grete Stern

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    utilidade publica

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Cirque du Soleil

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Cirque du Soleil

  • Visitante:
    RE:Cirque du Soleil

  • Visitante:
    RE:RE:Cirque du Soleil

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Cirque du Soleil

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Cirque du Soleil

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    PS

    [Aeternus:3995] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Mello(2005-08-11)


    - Animando os refratários à refração se não à reflexão...

    Eis uma nova lista aberta, graças à sugestão do Guto. Que me desculpem os trocadilhos gastos do título ( refratário e reflexão ) jogando com os espelhos, mas é um exercício de aquecimento enquanto as musas não baixam e me beijam.
    Há uma semana incluí um artigo no site, com a colaboração do Gallego, discutindo sobre " Barbárie" ( e identidade). Talvez vocês se interessem de extrair algum tema dali. 
    O meu momento é de questionamento das ideologias e sobre se é possível haver alguma eficácia quando algum indivíduo desenvolve suas idéias sem pertencer a uma patota forte. 
    Uma pessoa me assustou ( risonhamente) quando me jogou essa na cara:
    "Você não é uma pessoa confiável"...
    Para explicar em seguida: "você não entra em conchavos e não faz concessões. Confiáveis são aqueles que, de algum modo, temos como controlar".   
    Gostei da idéia, embora não esteja muito certa de que não faça conchavos nunca pois ainda não conheci alguém que não temesse ser alijado do convívio, que não precisasse se sentir amado e se abrandasse por causa disso... O amor nos leva a fazer milhões de concessões!
    No entanto, temos que preservar a possibilidade de pensar de modo independente, mudar de idéia ( como reconhecia Nietzsche numa citação que trouxe há uns dias na outra lista, quando ele reconheceu que nunca iria para a fogueira da inquisição por causa de uma idéia pois não tinha idéias fixas para morrer por elas, exceto a de que iria para a fogueira para defender o direito de mudarmos de idéia quantas vezes fosse preciso...)
    Eu não sou uma metamorfose ambulante ( como o Raul ) nem Cama,cama,Cameleon ( Boy George). Há invariantes, ou seja, sintomas.  Guto, se cada participante reconhecer seu eixo aqui na lista, seu invariante, o ponto de "repetição" compulsiva  creio que nãot eremos perdido tempo aqui.
    Ontem apareceu uma notícia sobre um alemão que atropelou a esposa e, em seguida, ficou tão nervoso que engrenou outra vez a primeira e a atropelou de novo.  Algumas pessoas comentaram comigo que era um lapso duplo, como foi o caso do clássico Tancredo com a Clorinda na obra de Torquato Tasso: ele a matou num combate entre cristãos e mouros. Depois, sem saber que ela estava encantada como uma árvore, fincou sua espada nela ao repousar no bosque.
    Freud usou como exemplo Tancredo e Clorinda para falar da pulsão de morte e da repetição.  No entanto, no caso desse velho alemão esmagando a velha companheira, achei que no primeiro momento não tinha havido lapso. Nem tudo é lapso, existem acidentes gratuitos.  Ele pode ter atropelado a mulher enquanto estava totalmente ignorante de que ela estava por trás ( teria sido mais um lapso dela a se oferecer ali!). Foi o segundo atropelamento que confirmou, pra mim, seu desejo inconsciente de matá-la: " ah... que bom seria se eu a atropelasse..." e passou o carro por cima dela numa segunda vez que teria sido, para ele, a primeira.
    Não vou ficar atrás do carro de ninguém dando sopa, mas achei o máximo supor que o velhote, enfim, teve algum tipo de revelação com o atropelamento...

     

     

    .  


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    [Aeternus:3996] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Mello(2005-08-11)


    - Woody Allen & Zelig

    Nestas últimas semanas tenho visto trechos do filme Zelig de Woody Allen, infelizmente sem tempo para ver de ponta a ponta e curtindo ainda assim a chance de tê-lo apresentado na Direct-TV.  Na época em que vi o filme completo pela primeira e única vez não gostei muito. Atualmente estou adorando porque existem várias linhas de pensamento sobre o totalitarismo e identidade sendo ali desenvolvidas de modo bastante sofisticado.

    Filmes bons precisam ser revistos. Lembrei recentemente do filme do Dennis Arcand " Invasões Bárbaras" e questionei se havia "visto" o filme corretamente. 

    Olhem só o que andei lendo numa biografia sobre Chomsky (de  R.A.Barsky), com alguma surpresa ingenua e totalmente perdida no meio de um "estuário" de partidos, ideais e idéias complexas transformadas em ativismo manipulado:

    "Há várias linhas(...) que ligam Chomsky e Harris à cidade de Montreal.  Um número significativo de conhecidos e comentadores de Chomsky foram originariamente de Montreal (...) Manufacturing Consent, o filme do Conselho Nacional de Filmes do Canadá sobre Chomsky, foi produzido naquela cidade(...)  Em maio de 1942, apareceu (...)um artigo intitulado "McGill Rallies Students to Fight Anti-Semitism". Ele descrevia uma convocação de anti-recrutamento, realizada em Montreal que se transformou num protesto contra os judeus..  Os membros (...) afirmavam que a confusão fora parte de "um plano bem coordenado de grupos fascistas do Québec", como o L´Ordre de Jacques CArtier e o Partido Canadense, e observavam que a reunião havia sigo divulgada num jornal totalmente anti-semita Chez Nous.  O artigo também culpava algumas pessoas: Adrian ARcand ( um fascista anti-semita), M. Raymond, M.P. e M. Bourasse ( nacionalistas isolacionistas do Québec) (...) Mais do que simplesmente relatar as atividades desses pró-fascistas, o artigo pergunta: " Por que o fascismo cresceu no Québec"?  A resposta lembra a análise de Harris da base social do fascismo: "Devido ao padrão de vida baixo e desumano em Québec, ao fraco sistema educacional, à pobreza medonha, milhares de pessoas foram influenciadas por esses movimentos reacionários.  Os mal pagos e oprimidos operários franceses canadenses na fábrica Dominion Textiles, por exemplo, acreditavam em organizações que prometiam minimizar esta condição".

    Fiquei principalmente impressionada com a situação crítica do Québec nos anos 1942 ( padrão de vida baixo e desumano) e o que foi apresentado como a luta do velho professor de esquerda insistindo em ser atendido no hospital do INSS canadense...No filme, ele debocha dos ideais da sua juventude e faz com que nós, da mesma geração, sintamos o ridículo de muitas das nossas adesões juvenis. Mas agora tenho a sensação de que o diretor ARcand me enganou, precisava dar um acabamento melhor à história para não cairmos no nihilismo da mensagem social e no hedonismo da postura cínica recomendada como alternativa para isto...


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    [Aeternus:3997] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-08-11)


    - brotherhood + solidarnosk

    Ô Jansy, Hedonismo não é uma simples corrente de pensamento. Já se nasce visceralmente hedô !
    Mesmo que o felizardo tente apregoar-se diverso ou mesmo contrariar sua natureza, esta se imporá mais hora menos hora.
    Denys Arcand é, assim, meu irmão de sangue. O hedonismo que desfila em "Les Invasions Barbares" não é defensivo : é assumidaço, assumidíssimo...E para nossa tribo, falar em ideologia(s) para cobrir o vazio deixado pelo fim das Utopias implica em elaborar alguma que se some e possa abarcar esse ser-no-mundo basal.


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    [Aeternus:3998] Mensagem do Grupo43
    -Guto(2005-08-11)


    - Zé Dirceu e a Hybris

    Sucesso à nova lista.

    Jansy falou na ideologia e nas patotas fortes e lembrei-me de nosso infortúnio na política doméstica. Não querendo enveredar pela mera análise política nauseabunda, não acho que a ideologia (em sentido amplíssimo) seja propriedade ou elemento mais factível aos dominadores. Lula e o PT eram menos confusos em sua "ideologia" quando perdedores. Eram um bom exército, ainda que minoritário. Há um certo charme na derrota, a sensação do "e se..." . O PSTU encanta secundaristas adolescentes. Não vai passar daí, mas tem o seu estamento cativo. Se perder esse discurso, babau, vira PT/PFL.

    Afora a chamada ideologia do poder, da mídia, stablishment, consumo, coca-cola etc, há um quê de barricada e resistência nela, ou estou sendo parcial ?

    Nenhuma patota pode ser tão forte. Dá merda. Mais dia, menos dia. Mas sempre dá. O conceito de Estado não é compatível com desprezo à minoria. A própria democracia não avança por esse pequeno grande detalhe. E a gula, a hybris, mostra o terrorista que existe em cada um de nós, dominados. Somos conspiradores. Seja o governo bom (isso existe?) ou ruim.


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    [Aeternus:3999] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Mello(2005-08-11)


    - RE:Zé Dirceu e a Hybris

    Guto pegou o ponto do meu argumento pelas beiradas, como mingau quente quando escreveu: Nenhuma patota pode ser tão forte. Dá merda. Mais dia, menos dia. Mas sempre dá. O conceito de Estado não é compatível com desprezo à minoria.

    Minha dúvida é um tanto ao quanto determinista. Se aceitamos que "nenhuma patota pode ser tão forte porque dá merda" estamos acreditando que há um modo de se evitar a merda ou atenuar a força de uma patota ( por exemplo, Hitler, Stalin, Mussolini, Tony Blair, Bush?) . Ela também se aplica ao resto da frase sobre "o conceito de Estado", uma vez que na prática a teoria é outra coisa.  Que tal "nação", em vez de Estado? Parece mais "natural"

    Comprei o disco do Raul Seixas sobre a Metamorfose Ambulante, e curti ainda o Eu Nasci Há
    Cem Mil Anos Atrás e o deboche xaxado/roque da mosca na sopa. Pra neto ouvir no carro e ir se acostumando ( se bem que...hmmm, a tal gravação da mosca é completamente anos setenta e com direito a intoxicação delirante...dá até pra sentir no som!).

    Enfim, como dizia o Wilde do nosso hedonista de plantão ( olá, Florião!): se todos concordam comigo é porque devo estar enganado...


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    [Aeternus:4000] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-08-11)


    - espelho do espelho...

    Quem disse foi Henrik Ibsen, e o dito parece que foi "se você discorda da maioria, provavelmente está no caminho certo".
    Achei curioso a Jansy ter espelhado a citação em rebatimento ( quanto à essência ), já que Wilde parece operar em outro circuito, em relação à Ibsen.
    Wilde remete a um Hedonismo muito sofrido, já que era um homem ( not much of a man but a man, nevertheless ) muito adiante em (im)pertinência. Tipo da coisas derrisória : acho que ele só foi o que foi em boa parte pelo Vitorianismo, mesmo movimento que o torna profundamente inadequado e disgusting ao Poder...

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    [Aeternus:4001] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Mello(2005-08-11)


    - RE:espelho do espelho/ Dorian Gray...

    When people agree with me I always feel that I must be wrong." (Oscar Wilde) foi a frase que acabei de investigar no Google. Portanto, temos de fato o rebatimento de Wilde e Ibsen, como o Florião apontou quando citou Ibsen:  "se você discorda da maioria, provavelmente está no caminho certo".  
    Ibsen é dramático e não me parece muito dotado de senso de humor ( tenho particular curiosidade quanto ao que diverte os nórdicos das regiões mais turvas e geladas do planeta...) . A ironia engraçada do Wilde desaparece no Ibsen.  Só não posso continuar este debate porque conheço pouquíssimo dos dois. Li tudo quando era adolescente, dava pra conviver com a salada de idéias naquela época ( eu tinha esperança que ia melhorar).
    Ler Wilde outra vez é uma idéia estimulante.  Ler Ibsen, não! ( nem ver os filmes, apesar de uma vaga lembrança de uma excelente CAsa de Bonecas... Jane Fonda??? É possível ???) .
    Há uns anos li a Ballad of Reading Gaol, um texto da prisão no qual Wilde parece ter passado por uma conversão religiosa. Mas está tudo solto no ar, nada combinando com nada, nada pra ser levado em "ernesto".  Se houver algum rebatimento será este: nada com nada. Cuca vazia.

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    [Aeternus:4002] Mensagem do Grupo43
    -LFGallego(2005-08-11)


    - Nenhuma patota pode ser tão forte

    Disse o Guto, lapidarmente, que nenuma patota pode ser tão forte.
    Ando meio (bastante) atolado, sem tempo. Farei um comentário único que é um velho ditado ou moral ou qualquer coisa assim, concordando plenamente com a assertiva do Guto:
    Todo poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente.
    (autor: para mim desconhecido, mas pode ser Voltaire ou algum dos revolucionários franceses de 1789, daqueles arrependidos com o "Terror" de Robespierre. Qualquer semelhança...)


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    [Aeternus:4003] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Mello(2005-08-11)


    - RE:Nenhuma patota pode ser tão forte

    Welcome Gallego. Estava sentindo saudades e sem entender este momento de atolamento. Que outra lama é esta? Qual a carruagem?

    Continuo discordando do Guto e agora do Gallego.  Tem patota que dura mais de duzentos anos no poder ( não foi assim na Áustria? E depois mais brevemente, chocando o ovo de Hitler?). OU Gengis Khan e a China?  Mesmo que, ao fim e ao cabo tudo seja pó e ao pó retorna, pra quem está vivendo no intervalo entre as poeiras, o tempo da tirania pode durar uma vida inteira.  
    Daí que a força da patota deve ser diretamente proporcional ao absoluto da corrupção individual + 1n.


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    [Aeternus:4004] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-08-12)


    - humor fino

    Ok, então temos mesmo duas afirmativas complementares Ibsen/Wilde.
    Os nórdicos tendem a um humor escapista-amargo, na linha 'já que a vida não tem jeito, mesmo, vamos ironizar e adotar a derrisão diante dessa desgraça-nossa-de-cada-dia que temos que aturar'.

    Wilde era extremamente inteligente, aquela ironia corrosiva e perspicaz. Características ( estas mesmo, podem crer ) que o levaram aos imundos calabouços da prisão de Reading. Camus diz que o que ele escreveu que prestou, que foi excelente, foi ali mesmo ( "A Balada da Prisão de Reading" ) e "De Profundis", "após ouvir os gritos de desespero dos homens", e depois de "ter sido acorrentado pelos mesmos parceiros que com ele gargalhavam nos encontros do Ritz".

    Pessoalmente - e embora vocês saibam o quanto venero Camus - creio que ninguém aguenta um cotidiano só de peso e amargura, iluminados ao Deus dará pelo brilho da Arte. Mesmo nos assuntos mais graves e sérios, há que se ter uma saída, ainda que esta, maioria das vezes, mostre-se de um escapismo vazio.
    Em nossa atual crise tupiniquim, confesso que já gargalhei de rolar e quase ter espasmos musculares. Sei da gravidade da situação, sou capaz de refletir com lucidez sobre ela, mas é preciso uma quebra aqui e ali.
    Sobre toda a questão ética em avaliação, finalmente surgiu uma atenuante aos implicados : a suruba no hotel 5 estrelas em Brasília. Da mesma forma que o charuto do Clinton salvou-o das suspeitas de ser um replicante como aqueles do Blade Runner.


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    [Aeternus:4005] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Mello(2005-08-12)


    - RE:humor fino/ escravo do espelho meu

    Relembrando que Wilde um dia escreveu que colocou todo seu talento na arte e seu gênio, na vida faz sentido esta opinião de Camus que Florião passou pra nós, sobre a importancia da Balada da Prisão de Reading e o De Profundis, se pensarmos que ali Wilde teria aproximado arte e vida, quebrando o espelho. 

    Meus gatos começaram uma briga por causa de uma gatinha que entra no cio, aprontando um escandalo enquanto Humberto e eu estávamos à mesa do café.  O gato dominante ainda é muito jovem e por mais que estufasse as costas e inchasse o rabo peludo, acabou saindo da refrega.
    Humberto observou: "Gatos obedecem à pauta e não fazem idéia de quem foi vencedor ou vencido, embora o mais forte pegue a gata. Eles não tem bandeiras, nem princípios... essas coisas que apareceram nos homens para substituir a pauta".
    Imediatamente visualizei aqueles filmes de batalhas chineses com multidões de tambores,  formalidades, bandeiras brancas ou vermelhas lotando a tela. E olhei pro Pipoca ( o filhote metido que desistiu da luta por enquanto) desafiador com seu rabo em pé e pensei nesta pauta animal substituida por... princípios!
    Tive que rir, meio nervosamente, olhando pro bicho e pensando nos "princípios" do PT.


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    [Aeternus:4006] Mensagem do Grupo43
    -LFGallego(2005-08-12)


    - a mão que afaga

    Acho que esta mensagem deveria estar na "Questão de Imagem" pelo tema que prtende abordar, mas como realmente a lista estava longeva... Ou deveria estar no "E agora, José?" que tentei inaugurar mas não decolou. De qualquer forma, o jogo de espelhos existe com as imagens trocadas. O mesmo publoicitário que "criou" o "Lulinha Paz e Amor" no imaginário da nação para leger o Lula, agora é a mesma mão que apedreja:
    o criador Dr. Fran(duda)kestinho(merd)onça destrói a criatura, com razão ou sem razão. Em quem acreditar? Duda ou Marcos Valério? Nenhuma das opções acima? O que o Lula vai dizer? Não concorrerei à reeleição (e devolver menos intranqüiliudade à Nação)? Ou tomado pelo,populismo do parceiro de janta venezuelano enfrentar "as forças de direita" (que - naturalmente, faz parte do jogo - querem derrubá-lo, tal como o PT no passado quis derrubar Collor e se tivesse sido possível, FHC). Só que o aumento do salário mínimo do ACM a esta altura do campeonato é inominável: todos perdemos. Hoje estréia o que deve ser um mau paso na carreira do Walter Salles, um filme de horror do esquemão hollywoodiano. Haverá horror pior do que estamos vivendo?
    O Lulinha paz & amor não mereceu meu voto, ao contrário de quando votei nele CONTRA o Collor e CONTRA o a aliança com o PFL que redundou no vice do FHC (no Brasil onde Getúlio se mata, Janio renuncia, Jango é deposto e Tancredo morre antes de tomar posse eu jamais poderia arriscar colocar um pflista como Marco Maciel na Presidência). Desta vez, como eleger um PT que se aliava a PTB de Jeffersson e PL de bispos evangélicos??? Para continuar na política de FHC, era melhor ficar com o Serra. Melhor? Menos péssimo... Esta aí o bicho que deu: arrogância, ignorância e estupidez, a tráide de Édipo segundo Bion. Só resta furar os olhos...

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    [Aeternus:4013] Mensagem do Grupo43
    -Guto(2005-08-12)


    - RE:Nenhuma patota pode ser tão forte

    Com o que eu falara, Gallego concordou. Jansy discordou um tanto. É isso aí. Acrescento que a longevidade da patota, como no caso de Stalin e Fidel, não denota seu sucesso. Nem sabemos ao certo o que será de Cuba quando o Comandante-em-Chefe partir dessa pra pior.

    A Alemanha nazista é até hoje uma anti-referência. Essa anti-referência veio tarde demais?, depois do estrago ? Certamente que sim. Mas existe uma memória histórica sobre as coisas, que não pega em armas mas é implacável.

    Daqui a cinquenta anos talvez não haja mais secundaristas roucos, de boina e camisa do Che Guevara, por causa de uma quadrilha pseudoesquerdista que assaltou (com trocadilho) o Poder no Brasil. Quem sabe ?

    Jansy, gostei do texto sobre a barbárie. Chegamos a uma discussão bem aproximada num dos fóruns, se não me engano, mas o tema não perde sua atualidade. Concordo em gênero e grau com a ausência de referências divino/parentais. E algo me espanta bastante: a falta de temor pela punição e/ou o inferno intrínseco das penitenciárias, mesmo em sistemas criminais satisfatórios, que não é o nosso caso.

    Gallego, grande sacada a do Dr. Frankstein e sua criatura. Quem disse que a história não se repete ?

    Por falar em repetição, o casal de alemães (atropelador e atropelada) me lembrou o caso de um médico colega de meu pai que passou (propositalmente) as rodas sobre uma cobra (sem ofensa à germânica senhora). Resolveu dar ré para "matar melhor". E aí, não resistiu à curiosidade e saltou do carro. Quando foi verificar, a cobra o picou e ele morreu... moral: esposa pelo menos não tem veneno.


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    [Aeternus:4014] Mensagem do Grupo43
    -George B. Shaw(2005-08-12)


    - sorry, but...

    Wives do have their special poison(s).
    They're frequently hidden behind the smell of parfum, also disguised in their natural smoothness and curves...
    Inasmuch as we're tempted to fall down this trap, I highly reccomend antitoxins such as an ironic dérisoire sprit.
    Last but not least : never ever forget that virtues are nothing else than insufficient temptation.

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    [Aeternus:4015] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-08-12)


    - RE:RE:Nenhuma patota pode ser tão forte

    Não sei porque hoje estou chorosa, seja por causa de algo horrível seja pelo belo, devo estar chorando pelo "meio" já que os opostos estão tão distantes uns dos outros.
    Achei interessante a história da cobra que mordeu seu atropelador, posta tão pertinho da inocente matrona germana... Ainda bem que, embora evolutivamente próximos, cobra e gambá não partilhem do veneno porque com seu amigo Peter aconteceu algo semelhante anos atrás. Vi uma gambá atropelada estrebuchando na rua e, chegando em casa, pedi ao filho mais velho que voltasse lá para terminar de atropelá-la e cessar com o sofrimento do bichinho de uma vez.  Peter voltou tremulo e lívido depois de uns vinte minutos e contou que teve que passar por cima da gambá mais de dez vezes porque ela não morria nunca. Descia do carro, conferia, voltava a passar por cima e nada!  Eis outra característica que a assemelha aos répteis que eu não previa. 
    E, na falta de grandes literaturas e culturas gerais, desfio ainda outra historinha, agora de contraponto ao Baudrillard citado pelo Florião ( a forma é semelhante, mas o sentido é diferente...talvez como no espelhamento Ibsen/Wilde algo se produza?)
    Há muitos e muitos anos fui convocada pelas freiras do colégio Santo Antonio à sala da diretoria porque elas queriam fazer queixa de um dos meninos. Larguei meus afazeres e saí correndo, preocupada. Quando cheguei na reunião, fiquei espantada com o escandalo porque não havia muita coisa errada naquilo que um deles praticou. Fiquei com cara de tacho, esperando mais porque não acreditava que me convocaram com tamanha urgencia para algo tão mesquinho. E aí a porca torceu a história.  A Freira Diretora percebeu que eu esperava uma acusação mais forte e... inventou uma fieira de coisas logo em seguida para justificar a reunião!   Não a desmascarei, mas na semana seguinte retirei os dois garotos daquela escola.
    O que entendi do Baudrillard é algo bem mais complicado porque ali ele faz pouco da justiça humana e desacredita da divina, embora coloque no podio o simbólico como agente promotor dos equilíbrios. Seriamos, assim, totalmente joguetes da sorte verbal e das forças sociais desconhecidas? 
    Retornando ao Nabokov, lembrei de uma perplexidade que ele trouxe da sua experiência como entomólogo. Ele observou que havia borboletas que mostravam um olho enorme na asa para defende-las dos ataques dos predadores pela sua transformação em um monstro ainda maior, mas estranhou que o desenho do olho ( um milagre mimético até para  a teoria evolucionista) fosse tão preciso que o desenho de uma gota ali representada distorcesse a figura total da asa como se fosse pela refração da luz atravessando o líquido. Este detalhe "científico" da falsificação seria desnecessário ante o predador, como se desenhado para um Outro olho que observasse todo o conjunto. Vai ver que é este Olho ao qual Baudrillard atribui alguma visão do que nos acontece?
    Enquanto escrevo ouço, distante, a Tevê que deixei ligada numa peça de Shakespeare: Richard II. Uma das palavras mais comuns nestes diálogos é: " honra".  Tais palavras ( glória e honra, palavra empenhada), desapareceram do nosso vocabulário ativo atualmente...


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    [Aeternus:4016] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-08-12)


    - honra e glória

    ...tornaram-se emblemas personalíssimos, já que ninguém mais os ostenta( mero modismo ou simples cansaço ? ) exceto a Xuxa, assim como ninguém nos representa mais.
    Tema Baudri, assim como o olho-que-nos-vê. E retomo-o em "E agora, José ?". Até já.


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    [Aeternus:4018] Mensagem do Grupo43
    -Marcia Ador(2005-08-12)


    - SOS Revoluções

    Gallego e Jansy,

    Obrigada pela presteza em me darem as discas. Estou tentando mandar uma mensagem e não estou conseguindo. Espero que esta eu consiga.

    Márcia Adorno


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    [Aeternus:4785] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2005-10-05)


    - Lynchamento

    "A viagem ecstasystática, estática e vazia, aquela do viajante que não sai da poltrona, de "Cidade dos Sonhos" deve ser pichado sem dó nem piedade porque cai no mesmo viés da discussão que Gallego colocou ontem, de sermos obrigados a gostar de David Lynch só porque um dia ele fez algo bom..." MARCOS

     

    Mullholand Drive é a culminância da mente psicopática do David Lynch, que tem orgasmos sádicos com suas desconstruções pós-tudo, que reciclam e demonizam desde Marienbad de Resnais/Robe-Grillet à Odisséia de Kubrick (alguns querem achar o culpado pela morte de Deus e o Lynch quer enaltecer o assassino de Deus, quem quer que ele seja, ao passo que eu me recuso a fechar esse caso de desaparecimento com a hipótese de morte porque ainda ninguém encontrou o cadáver).

    É tentador destrinchar o filme de Lynch, a gente se sente inteligentíssimo, porque ali tem links entre a Caixa de Pandora e o Monolito interdimensional de 2001, brincadeiras com o tempo (absolutamente despresentificantes), relativizações do real, do Bem e do Mal, e aquela fusão genial (e o termo aqui não é exatamente um elogio a Lynch, porque tanto o Diabo como Hannibal Lecter também, supõe-se, cometem genialidades) entre aquele mendigo louco, Jesus e o Demônio. Aquele mendigo corresponde, em Matrix, ao Arquiteto, aquele cara que está numa sala que não existe, num pavimento que não existe, um Ser sem um Ente (sem um casulo, ele é software puro).

    Mas tem um pô-brema básico que esfarela o pilar de Lynch: ele é niilista, mas não de um niilismo que pode levar à Vida Afirmativa. O niilismo de Lynch leva apenas ao vazio, ao Nada, ao tantofaz, o que é muito mais deletério e muito menos libertador do que a suposta vanguardice dele levaria a supor. Digamos assim: Kubrick, apesar de ter nascido na América, não era um americano, porque ele SAIU FORA da história e Lynch não saiu. Ele absorveu a psicopatia constitutiva da americanidade, essa virtualização que o omni-economicismo opera nos valores todos. A valoração lá (e em todos os lugares KAPITALalistas) é toda aleatória porque externamente determinada, não há uma valoração genuína, não há uma formulação de sentido presEntificadora, Vital, é sempre deslocada, um omnipantógrafo que faz de um merdinha o supostamente poderoso Mágico de Oz. Esse é um mito americano por excelência, a versão infantil de Xanadu... Cadê Rosebud? Pelamordedeus, CADÊ ROSEBUD?

    Aconteceu um curso no Mosteiro de São Bento com um nome super convidativo: "O Rosto e o Abismo". Quando eu lembro da Professora de Piano, lembro de uma cena em que o rosto dela mal aparece, ela está de costas para a câmera, e simplesmente dá uma viradinha, a gente vê o contorno de seu perfil, mas se abre o abismo ali naquele momento... Só que a gente ainda não cai nele. A gente só vai cair no abismo quando ela "estupra" a própria mãe... Quer dizer, a gente pode achar isso tão absurdo, que cai na risada, e não no abismo. Ou então entende a regressão como a busca desesperada pela RECORPORIFICAÇÃO para além do abismo, e dá, junto com ela, um salto desarrazoado em direção ao outro lado do vão sem certeza de alcançá-lo... e geralmente não se alcança, porque o abismo, além de muito grande, é muito sedutor, e periga a criatura não querer chegar ao outro lado da planície, preferir cair no abismo, tipo pagar pra ver.

    Há quem veja similaridades entre os abismos de Haneke e os de Lynch...

    E a diferença entre Haneke e Lynch é que Lynch tem a pretensão de FECHAR (com) seu caos (o que é deixar-se contaminar por um outro dogma). E Haneke se abre ao MISTÉRIO. Seus finais inconclusos não são necessariamente pessimistas, são apenas abertos. Não são dogmáticos, não compram a teleologia do mal, não situam o mal na natureza humana e nem na condição humana, situam-no num erro de invenção humana, num erro cultural. Ele não fecha dizendo que o humano é desumano e nem dizendo que o mal é só externo. A professora é patética, aliás é pathética, ela não é uma vilã, tinha tudo pra ser uma vilã, mas é só pathética...

    D.


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    [Aeternus:4786] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-10-05)


    - RE:Lynchamento

    O Haneke passa uma de anatomista patológico, de pente fino de nossa época.
    O que mais lembro em "Code Inconnu", por exemplo - e portanto a cena mais forte para mim, é preciso assim concluir em 1ª instância - é da Juliette Binoche sendo agredida seguidamente no metrô. Quanto mais indiferente mais assediada, e quando precisa defender-se encolhendo-se ainda mais é ainda mais agredida, até a intervenção de um terceiro a seu favor.

    Lynch parece ter cansado dos USA, e junto...da humanidade. Está perdendo pé, perdendo discurso.
    Adoro "Wild at Heart" porque além das qualidades de composição de personagens e imagem era um inventário de nossa época, algo instigante e que poderia servir  - e ser ! - um divisor de águas positivo dos rumos daqueles anos. Infelizmente a maioria dos americanos elegeu Bush e a indústria bélica para 'protegê-los', e deu no que estamos vendo.

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    [Aeternus:5629] Mensagem do Grupo43
    -Visitante(2005-12-12)


    - COM O OUTRO NO CORPO

    FOLHA mais

    mais

    Domingo, 11 de Dezembro de 2005 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200507.htm

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200507.htm

    COM O OUTRO NO CORPO

    O ESPELHO PARTIDO

    APROPRIAÇÃO DOS TRAÇOS FACIAIS DE OUTRA PESSOA ROMPE O SENTIDO DE IDENTIDADE E RELATIVIZA O NARCISISMO DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

    "Um rosto extinto. Um grau de extinção por certo nunca antes atingido na espécie humana"

    (Michel Tournier)

    MARIA RITA KEHL

    ESPECIAL PARA A FOLHA

    O que acontece com o sentimento de identidade de uma pessoa que se depara, diante do espelho, com um rosto que não é seu? Como é possível manter a convicção razoavelmente estável que nos acompanha pela vida, a respeito do nosso ser -essa ficção indispensável- no caso de sofrermos uma alteração radical em nossa imagem?

    Perguntas como essas provocaram um intenso debate a respeito da ética médica depois do transplante de parte da face em uma mulher que teve o rosto desfigurado por seu cachorro em Amiens, na França.

    Deixo de lado os aspectos da discussão motivados pela rivalidade profissional, em que argumentos éticos podem mascarar a disputa por prestígio e glória entre equipes médicas da França e da Inglaterra. Interessa-me a relação subjetiva entre a identidade e o rosto. Essa relação é tão íntima que, dentre as várias possibilidades de mutilação física, consideramos hediondas as que destroem partes do rosto. Nesses casos, empregamos o termo desfiguração.

    Quando o rosto se torna irreconhecível, a figura humana se desfaz. A legislação britânica que condena o transplante de rosto em consideração à (previsível) crise subjetiva ante uma transformação radical dos traços da face desconsidera que, mais despersonalizante do que encontrar no espelho um rosto alheio, é não encontrar rosto nenhum.

    Ou não: talvez seja menos custoso para um acidentado suportar o luto pela perda da figura facial -e manter sob as ataduras a identificação imaginária com o rosto antigo- do que o estranhamento diante de um rosto outro.

    Ilusão necessária

    Mas penso que vale a pena o trabalho de refazer essa identificação. O que chamamos, confusamente, de identidade não tem nada a ver com o ideal -sempre fracassado- de nos mantermos idênticos, seja a nós mesmos, seja à imagem ideal que pretendemos oferecer ao olhar do outro. A identidade é uma ilusão necessária, de unidade e continuidade do eu.

    Ocorre que o eu se constitui a partir da imagem corporal. Nosso sentimento de permanência e unidade se estabelece diante do espelho, a despeito de todas as mudanças que o corpo sofre ao longo da vida. A criança humana, em um determinado estágio de maturação, identifica-se com sua imagem no espelho. Nesse caso, um transplante (ainda que parcial) que altera tanto os traços fenotípicos quanto as marcas da história de vida inscritas na face destruiria para sempre o sentimento de identidade do transplantado?

    Talvez não. Ocorre que o poder do espelho -esse de vidro e aço pendurado na parede- não é tão absoluto: o espelho que importa, para o humano, é o olhar de um outro humano. A cultura contemporânea do narcisismo, ao remeter as pessoas continuamente a buscar o testemunho do espelho, não considera que o espelho do humano é, antes de mais nada, o olhar do semelhante.

    É o reconhecimento do outro que nos confirma que existimos e que somos (mais ou menos) os mesmos ao longo da vida, na medida em que as pessoas próximas continuam a nos devolver nossa "identidade" -aspas necessárias.

    Sagrado e insubstituível

    O rosto é a sede do olhar que reconhece e busca reconhecimento. O rosto é sagrado, disse e escreveu insistentemente Emmanuel Lévinas. Por que sagrado? O que há de insubstituível em um rosto, que faz dele o centro da nossa humanidade e a sede imaginária do eu? É que o rosto não se reduz à dimensão da imagem: ele é a própria presentificação de um ser humano, em sua singularidade irrecusável. Além disso, dentre todas as partes do corpo, o rosto é a que faz apelo ao outro. A que se comunica, expressa amor ou ódio e, acima de tudo, demanda amor.

    A literatura pode nos ajudar a amenizar o drama da paciente francesa. O Robinson Crusoé do livro "Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico" (Bertrand Brasil), de Michel Tournier, perde a noção de sua identidade e enlouquece, na falta do olhar de um semelhante que lhe confirme que ele é um ser humano. No início do romance o náufrago solitário tenta fazer da natureza seu espelho. Faz do estranho, familiar, trabalhando para "civilizar" a ilha e representando diante de si mesmo o papel de senhor sem escravos, mestre sem discípulos.

    Mas depois de algum tempo o isolamento degrada sua humanidade. O Robinson de Tournier passa a se identificar com os animais, falar com os macacos e rolar na lama com os porcos. "Narciso de um tipo novo, abismado de tristeza, com recrudescido nojo de si (...), compreendeu que o rosto é essa parte da carne modelada e remodelada, aquecida e permanentemente animada pela presença dos nossos semelhantes."

    Na versão de Tournier, a entrada em cena do selvagem Sexta-Feira vem salvar Robinson Crusoé não da solidão, mas da loucura.

    A paciente francesa, que agradeceu aos médicos a recomposição de uma face humana, ainda que não seja a "sua", vai agora depender de um esforço de tolerância e generosidade por parte dos que lhe são próximos.

    Parentes e amigos terão que superar o desconforto de olhar para ela e não encontrar a mesma de antes. Diante de um rosto outro, deverão ainda assim confirmar que ela continua sendo ela. E amar a mulher estranha a si mesma que renasceu daquela operação.

    ----------------------------------------------------------------------

    Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora de, entre outros livros, "Ressentimento" (Casa do Psicólogo).

    TRANSPLANTE DE SENTIDO http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200508.htm

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200508.htm

    A CIRURGIA SE ASSEMELHA A UMA RECONEXÃO SIMBÓLICA COM O MUNDO, MAS PODE TRAZER SEQÜELAS GRAVES PARA A PERSONALIDADE, COMO NÃO SER MAIS RECONHECIDO

    DAVID LE BRETON

    O transplante realizado na semana passada, em Amiens, pela equipe do professor Dubenard coloca em destaque numerosas questões antropológicas. Para as sociedades ocidentais, o rosto cristaliza o sentimento de identidade. De forma vivaz e misteriosa, ele traduz o absoluto de uma diferença individual concomitante à afiliação a um grupo.

    O rosto faz sentido imediatamente; nenhum outro espaço do corpo é mais apropriado para determinar a singularidade e sinalizá-la como cerne do nexo social. Por ele o homem é reconhecido, identificado, amado. Como o sexo, é a mais forte fonte do sentimento de identidade.

    Um homem que se recusa a realizar uma ação que considera reprovável afirma que não o fará porque "não poderia se olhar no rosto" caso agisse de outra forma. Mas, sem que tenha cometido nenhuma falta, um homem desfigurado se vê confinado a essa impossibilidade. Um ferimento que deixa uma cicatriz profunda em um braço, perna ou no ventre não coloca em questão de maneira tão virulenta o sentimento de identidade, especialmente se a ferida não vier a acarretar nenhuma seqüela funcional.

    Toda alteração no rosto marca a personalidade do indivíduo em sua forma mais profunda. É por intermédio do rosto que se pode desfrutar do significado e até mesmo do valor da existência. A dolorosa experiência da desfiguração faz evocar o fato de que o homem não vive apenas como corpo físico. O homem habita um corpo imaginário, ao qual atribui significados e valores, com os quais integra o mundo a si mesmo e se integra como pessoa ao mundo.

    A desfiguração introduz uma brutal ruptura no cerne da aliança, já em si razoavelmente problemática, mas ainda assim passível de concretização, entre o corpo real e a imagem que o indivíduo faz dele.

    Suspensão do eu

    De maneira provisória ou permanente, o homem desfigurado vive a suspensão do eu, a privação simbólica de seu ser que apenas uma mobilização completa da vontade torna possível reconstituir. Ele convive com o sentimento de que sua identidade está desfeita, e se esvai a cada olhar, seu mesmo ou de outros.

    Inúmeras pessoas se sentem excluídas de si mesmas e do mundo, em luto por seu próprio ser, ainda que continuem a existir. A desfiguração constitui uma condenação à morte simbólica.

    A capacidade de superar esse revés e de recuperar plenamente o prazer de viver que se sentia anteriormente está vinculada à experiência pessoal do protagonista, à sua situação social e cultural, à sua idade, às qualidades das pessoas que o cercam. Mas há casos em que ele sofre o desmantelamento de seu ser, a erradicação brutal de tudo aquilo que ele era antes, e cuja perda lhe parece definitiva. A desfiguração dispõe sobre o rosto uma máscara ou ricto como que provocado por um banho de ácido. Não ter mais figura humana pode ser considerado uma metáfora para a morte.

    A perda do rosto, em termos psicológicos e sociais, equivale a perder a posição que a vítima ocupa no mundo. "Fazer face" aos problemas passa a depender dos recursos íntimos do protagonista. A desfiguração salta aos olhos de todos, atrai o olhar curioso dos passantes e causa embaraço aos interlocutores que fazem com ela o seu primeiro contato.

    Sob esse contexto tão pesado em termos humanos, um transplante de rosto é acima de tudo uma cirurgia de sentido e tem por objetivo restaurar o prazer de viver de um paciente ao qual foi amputada parte essencial daquilo que fundamenta sua relação com o mundo. A operação se assemelha ao restabelecimento simbólico de uma conexão com o mundo.

    Mas transplantar um rosto consiste acima de tudo em transplantar uma identidade, e a operação tem conotações sísmicas para as bases da personalidade. Receber o rosto de outro é como se expor a não mais ser reconhecido, a não mais poder se olhar no espelho sem perceber outra pessoa colada ao próprio rosto.

    É certo que a cirurgia não representa a duplicação do rosto do doador da face transplantada, porque o rosto será em parte adaptado à estrutura óssea do receptor, mas este não recuperará o rosto que tinha nem será poupado do choque de alteridade de que essa mudança se impregna. O rosto que passará a ostentar não será o mesmo que antes exibia. O risco de se sentir "possuído", "despersonalizado", é tangível para as personalidades frágeis e que não tenham refletido o suficiente sobre a questão antes do procedimento.

    Presente envenenado

    Um transplante de órgãos ou tecidos nem sempre é uma experiência tranqüila para o paciente: muitas vezes o receptor de um transplante considera o órgão recebido como um presente envenenado. Uma intervenção desse tipo perturba o sentimento de identidade do paciente. Para começar porque o torna devedor da pessoa da qual se origina o órgão. Nas sociedades humanas, presentear envolve uma reciprocidade que garante a dignidade igual dos participantes na transação.

    Receber implica retribuir, de uma ou de outra forma. Os transplantes de órgãos e tecidos sublinham a questão do sacrifício, do preço simbólico a ser pago pela restauração de uma saúde mais propícia, no caso a recuperação de um rosto menos danificado, mais aceitável socialmente e, se possível, parecido com aquele que foi amputado.

    Se viver desfigurado é um sofrimento sem fim que dilacera o eu, é compreensível que o paciente escolha um sentido, mesmo que haja o risco de que o preço a pagar seja muito elevado. Além das severas restrições que a medicação diária contra a rejeição imporá, é preciso compreender que o rosto restaurado não será igual ao rosto perdido, e é preciso manter a lucidez quanto às questões de identidade, a ambivalência possível diante de um rosto marcado pela ambigüidade.

    ----------------------------------------------------------------------

    David le Breton é antropólogo e professor na Universidade Marc Bloch, em Estrasburgo (França). É autor de "Adeus ao Corpo" (Papirus) e "Des Visages" (Rostos, ed. Métailié), entre outros livros. A íntegra deste texto foi publicada no "Libération".

    Tradução de Paulo Migliacci.

    A FACE NOVA DA ÉTICA http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200509.htm

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200509.htm

    OPERAÇÃO DE TROCA DE ROSTO SINTETIZA UMA ERA QUE PASSA POR BRUSCAS MUDANÇAS DOS PADRÕES DE RECONHECIMENTO E IDENTIDADE

    RENATO JANINE RIBEIRO

    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Uma mulher tem seu rosto mais que desfigurado, praticamente destruído. Tradicionalmente, um cirurgião plástico iria recompô-lo. Mas, sem nariz, sem orelhas, se torna possível esculpir qualquer face. Sim, o médico poderia tentar reconstituir o original, como os arquitetos europeus fizeram com as cidades arrasadas durante a Segunda Guerra Mundial, erigindo uma Frankfurt, uma Roterdã "fakes". Qual a diferença então entre refazer o que sumiu e desenhar algo novo? E se, como agora aconteceu na França, o rosto novo da mulher for o rosto bem preservado de alguém que morreu?

    Adianto que não vejo grandes problemas éticos nessa história. Fez-se mal a alguém, com a viva herdando o rosto da morta? Temos uma tradição já bem consolidada de transplantes. Transplantar um coração, quase 40 anos atrás, tornou célebre o cirurgião sul-africano Christian Barnard e causou um choque, tal o simbolismo ligado àquele órgão. Depois disso, transplantou-se quase de tudo. Mas transferir um rosto tem algumas conotações distintas, que vale a pena salientar.

    Outra história pessoal

    Os transplantes que vemos com bons olhos são aqueles necessários, os que atendem a demandas de saúde. Sem coração, sem rim, sem medula, morre-se. Mas o rosto, não. Embora esse caso de cirurgia plástica não fosse estético, mas de plena necessidade, fica a idéia de algo exagerado. Não se podia, apenas, corrigir? Exagero, essa é a palavra.

    O rosto porta nossa identidade como poucas outras coisas. José Dirceu, perseguido político, passou por uma operação, que modificou seu nariz. A voz dele é inconfundível, mas a face a desmentia. O episódio francês nos choca, porque mexe no que é mais fundo na identidade de alguém.

    Se a moda pega, isso propicia que uma pessoa tome o lugar de outra. Lembra o filme "O Segundo Rosto", de John Frankenheimer. Há o perigo de que criminosos se beneficiem disso. Mas, ao mesmo tempo, as técnicas convencionais de cirurgia já permitem um mascaramento bastante eficaz. Então, qual a novidade nisso?

    A novidade está em assumir uma identidade alheia, pronta. Vêm fantasias à mente: e se um familiar da morta encontra a sua sucessora? Ou mesmo, como as pessoas próximas da mulher viva vão sentir o fato de que ela assumiu um rosto que tinha dona, história, documentos? As fronteiras se perdem, assim, entre o habitual e o assustado.

    Mas, mesmo assim, há problema ético nisso? Melhor dizendo, o mero fato de uma pessoa assumir as feições de outra é, por si só, problemático eticamente? Será condenável, concordo, se ela roubar o rosto de outra; se usar desse recurso para fugir à lei; mas notem que nesses casos o que é condenável não é ter um novo-velho rosto, e sim aquilo para que se mudou o rosto. Em outras palavras, o que torna uma ação condenável não é a mudança de identidade aparente, que não passa de um meio; é o fim para o qual essa modificação está sendo utilizada.

    Porque mudar o rosto, apenas, não causa mal a outrem. Pode causar choque, mas não mal. Ora, um dos aspectos mais significativos de nosso tempo é esse: muita coisa nos choca, sem que necessariamente seja má.

    Piercing, tatuagem, roupas esquisitas, isso causa mal-estar a muita gente, mas não lhes causa mal. Mal-estar não é mal. Mas nossa reação automática, assustados com um filho que usa brinco, com uma filha que se tatua, é entender que nosso mal-estar é um mal praticado pelo outro. Não há, porém, razão nenhuma para adotar essa postura.

    Crise de um modelo

    As identidades estão mudando. Um século atrás, a média de idade girava em torno dos 30 ou 35 anos. Dobrou, de lá para cá. Isso significa que passamos a ter tempo de sobra. No entanto não tiramos todas as conseqüências disso. Somente a discussão da contribuição previdenciária trata dessa questão e trata mal, apenas avaliando custos e ganhos.

    Na verdade, o que se desfaz é um modelo de vida, pelo qual se casava ao redor dos 20 anos, tinha-se filhos, dos quais se cuidava, trabalhava-se, chegava-se à aposentadoria e, após mais alguns anos, se morria.

    Esse modelo não funciona mais. Depois da aposentadoria, é possível viver 40 anos. Aí vem a grita: aposentemos mais tarde. Mas não é essa a questão, e sim que, depois de criar os filhos, de curtir os netos, ainda há vida inteligente. É possível viver muito tempo (o que dizem os calculadores da Previdência Social), mas com qualidade (o que pouco se discute). Isso significa que podemos mudar de vida, várias vezes.

    Casamentos se desfazem, que duraram 20 ou 30 anos: valeram mais tempo do que muito matrimônio de 1900, em que o marido ou a mulher morriam antes dos 40 anos de idade. Não é um fracasso um casamento que foi terno enquanto durou.

    Empregos desaparecem, o que nos assusta, mas profissões surgem também, e com elas novas oportunidades. Uma pessoa pode ter várias identidades profissionais ao longo da vida; pode ter algumas parcerias amorosas duradouras e preciosas; pode até, no quadro da União Européia (e espero, um dia, no Mercosul), mudar de nacionalidade. Serei italiano por 20 anos, inglês por 15, alemão nos dez seguintes, espanhol até o fim da vida.

    Mudar de rosto não é mudar de identidade? Depois da operação francesa, ouvi receios, mas quase todos eles baseados na idéia do que o outro acharia da pessoa com nova face. E ela mesma, o que achará? O que sentirá, ao ver-se no espelho, não com um rosto reconstituído, mas com feições prontas, completas, que ela sabe terem tido uma história? Este poderia ser o começo de um conto, que pelo menos aqui não escreverei.

    Mas é um sinal a mais de um mundo que nos coloca oportunidades novas, algumas delas assustadoras, das quais porém não nos desvencilhamos condenando-as em nome de uma ética apressada. A ética é importante demais para se confundir com o medo diante do novo.

    ---------------------------------------------------------------------

    Renato Janine Ribeiro é professor de filosofia da USP e diretor de avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do MEC).

    + entenda o caso http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200510.htm

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200510.htm

    Médicos franceses realizaram, no último dia 27, o primeiro transplante parcial de rosto, dando novo nariz, novo queixo e novos lábios para uma mulher desfigurada pelo ataque de um cachorro, em maio.

    Cirurgiões de dois hospitais realizaram a operação em uma mulher de 38 anos, na cidade de Amiens, no norte francês. O transplante foi feito a partir de uma paciente com morte cerebral (mas com o coração ainda batendo) e imunologicamente compatível. O nome da receptora é Isabelle Dinoire, desempregada, divorciada e mãe de duas adolescentes. Ela havia se tornado incapaz de falar ou mastigar.

    A operação foi liderada por Jean-Michel Dubernard, um especialista de um hospital na cidade de Lyon, e Bernard Devauchelle, de Amiens.

    O procedimento não é permitido atualmente em território britânico.

    "Não houve problemas de pós-operatório", disse o médico. "A paciente estava acordada na 24ª hora e, colocando o dedo no tubo de traqueostomia, sua primeira palavra foi "merci" [obrigado]."

    Segundo Dubernard, acusado de falta de ética por não ter optado por cirurgias de reconstituição antes do transplante, a operação foi feita por insistência da paciente. "Pedimos permissão a ela várias vezes porque queríamos ter certeza de que ela entendia os riscos", disse, acrescentando que a reconstituição seria quase impossível no caso.

    A paciente recebeu um triângulo formado por parte do nariz, lábios e queixo. Os médicos usaram técnicas de microcirurgia para ligar os músculos e vasos sangüíneos do enxerto aos da receptora do transplante.

    O risco de rejeição na cirurgia é grande, por isso a paciente terá de tomar drogas que suprimem o sistema imunológico -que podem falhar em controlar a rejeição a médio prazo e causar câncer a longo prazo. Os médicos dizem que ela não se parecerá nem com a doadora nem consigo mesma, ficando com um rosto "híbrido". As cicatrizes serão mínimas, porque o enxerto está localizado na chamada "unidade estética", ligando-se a junções naturais que esconderão as cicatrizes.

    LOBOS EM PELE DE CORDEIRO http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200511.htm

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200511.htm

    EM "A OUTRA FACE", DE 1997, JOHN WOO TEMATIZOU O TRANSPLANTE DE ROSTOS E A TROCA DE IDENTIDADES

    CÁSSIO STARLING CARLOS

    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    A ciência não costuma perdoar a autonomia assombrosa que a cultura gosta de manter em relação a ela. Corre atrás, descabelada, como se não fosse permitido à ficção inventar suas próprias regras e, pior, poder brincar com elas.

    As indagações que estão sendo feitas por psicólogos e antropólogos sobre os efeitos desse transplante de face já são tema recorrente em filmes feitos há décadas. Em vez, porém, de apenas fazer avançar hipóteses, artistas conseguem ir mais longe e construir cenários fantásticos em todos os sentidos.

    Aos assíduos freqüentadores de cinema não surpreende uma situação como a relatada na manchete "Médicos fazem primeiro transplante de rosto do mundo". Algo semelhante serviu de base à ação do filme "A Outra Face" ("Face/Off"), dirigido pelo cineasta chinês John Woo, nos EUA, em 1997.

    Naquele filme, o transplante é uma invenção que permite ao diretor explorar outras possibilidades que lhe interessam, como o tema do duplo (recorrente nos seus filmes da fase Hong Kong).

    Em "A Outra Face", para frustrar um plano terrorista um policial (Sean Archer) é submetido a um transplante e recebe o rosto de seu principal inimigo, agora mergulhado num coma -o supercriminoso Castor Troy. Para garantir o máximo de peripécias, o criminoso acaba por acordar do coma, obriga os médicos a devolver-lhe a outra face e assume o lugar de Archer.

    O que resulta daí é um delicioso thriller montado a partir de um princípio habilidoso: o gato que persegue o rato passa ser perseguido quando o rato se transforma em gato. Num momento de criatividade, Hollywood não se contentou aqui apenas em opor bonzinhos e mauzinhos. Transplantou, literalmente, um na pele do outro.

    Assim fez o espectador experimentar o fantasma prazeroso que persegue qualquer um quando senta no escuro do cinema. De uma hora para outra, é permitido se colocar na pele de outras pessoas, viver provisoriamente aventuras e dramas "como se" não fôssemos mais nós mesmos. Pois é jogando com a perda de identidade por intermédio da identificação que o cinema (e tantas outras formas narrativas anteriores a ele) captura nossa atenção e obtém nossa entrega.

    Conscientes do encanto dessa fantasmagoria, outros diretores passam a obra a fazer avançar ainda mais essa hipótese. É o caso do canadense David Cronenberg, que desde seus primeiros filmes cria variações da fórmula poética de Arthur Rimbaud: "Eu é um outro".

    Numa primeira fase, Cronenberg aproveitou as possibilidades do gênero fantástico e praticou as conseqüências de transformações para a identidade, recorrendo, para efeito narrativo, a possibilidades sugeridas por uma ciência imaginada.

    Naquela fase, suas mutações originavam-se de experiências físicas ou médicas. É o que se vê, por exemplo, em "A Mosca", de 1986, em que um cientista, ao testar um aparelho de teletransporte, acaba por fundir seu DNA ao de um inseto e se transformar num incrível monstro.

    Mais próxima da realidade da ciência hoje e por isso mesmo ainda mais assustadora é a fantasia proposta em "Rabid", de 1976, no qual uma garota recebe um implante após um acidente grave e se transforma numa perigosa predadora sexual, que mata suas vítimas transmitindo-lhes raiva.

    Depois dessa fase, em que a estrutura de sua ficção se resumia a experimentos físicos, seguidos de mutações, que desembocavam em trágicas dissoluções da identidade, Cronenberg adotou outro rumo, fixando-se mais nas possibilidades oferecidas pelas transformações mentais (a paixão em "M. Butterfly", a perversão em "Crash", o vício em "eXistenZ", a esquizofrenia em "Spider").

    Essas variações em torno de um tema desembocam no recente "Marcas da Violência", em que Cronenberg deixa de lado até mesmo os desvios de comportamento. Aqui, a origem da transformação é a própria normalidade. O outro de seu personagem Tom Stall é ele mesmo, sua transformação não é mais metafórica. Já era assim nos filmes anteriores, mas o fantástico muitas vezes turvava essa compreensão.

    Com "Marcas da Violência", Cronenberg abandona a metáfora e vai direto ao ponto ao colocar no tempo o fator da transformação. O mesmo tempo que o espectador reconhece como sendo aquilo que o transforma a cada minuto que passa e que impede que ele seja o mesmo antes, durante e após a sessão.

    Ou alguém acha que bastaria receber o transplante do rosto que teve quando criança ou quando jovem para voltar a ser aquele que foi?

    + conto http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200512.htm

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200512.htm

    LIBERTAÇÃO

    O ESCRITOR CRISTOVÃO TEZZA FICCIONALIZA UMA OPERAÇÃO DE TRANSPLANTE DE FACE ENVOLVENDO DUAS IRMÃS

    CRISTOVÃO TEZZA

    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Você não pode exigir muito nessas condições -veja que, agora, você não é nada, apenas a idéia de alguém, um projeto, uma possibilidade. Quer se ver antes da operação? Não? Tudo bem, eu também não gostaria. Assine aqui. Ótimo. Você fez bem. A opção é o nada. Bem, pense nos cegos -eles têm a liberdade absoluta da imagem, o desmembramento perpétuo. São puro conceito. Estou brincando. Um pouco de humor sempre é bom. Claro, claro. Tem de amarrar esse braço aqui. O outro também. Não tenha medo. É que às vezes, na mudança de face, a gente sente aquele impulso irresistível de passar a mão. No rosto, quero dizer. A máscara é o riso. Sim, há sempre algum outro que é o verdadeiro eu, é o que dizem. O problema -dói?-, o problema é que, de tanto exercitar a face, a gente não sabe mais trabalhar a alma sem ela. Veja as metáforas, como são poderosas: livrar a cara, salvar a cara. Sujeito cara-de-pau. Que caradura. Até para chamar os amigos: Cara! Você não imagina! Fique tranqüila. A costura é praticamente perfeita. Arte é procedimento. A gente vai conversando, transplante rápido. Lembra a sua irmã Beatriz? E que hoje. Ou até ontem. Não se mexa agora. De qualquer modo, quem perde a cara não perde a alma. Eu sinto que você será a mesma pessoa. Não, ela não teve a cara-de-pau de mandar flores, condolências, bilhete, oferecimento de dinheiro. Uma vez você me disse que ela destruiu a sua vida. Mas veja, não foi nenhuma tragédia. E depois, pense bem -a traição nunca é unilateral. Quando um não quer, a velha história. Bem, eu nunca tive nada a ver com isso. Sou apenas um bom médico -todos dizem. E você é minha prima. E tivemos sorte. Eu com a minha pesquisa, você com o seu desespero. Espere -não vire a cabeça. Quase eu disse: não vire o rosto. Não é engraçado? Uma espécie de justiça divina pelas minhas mãos modestas e ineptas. A Beatriz roubou seu amor, pois não? Aquele homem com quem você viveu -quanto?- três anos e dois meses e nenhum filho. E eles viveram felizes para sempre. Quer dizer, ela, essa está feliz para sempre. Você não sabia? Se separaram. Agora ele está sozinho. Você terá de conviver com isso. Podemos começar? Feche os olhos.

    2 Tudo é novela barata -mas acordar com outra cara é o último limite. Se bem que, com algum esforço da imaginação, dá para misturar o Conde de Monte Cristo com Frankenstein, em versão feminina: eis eu, largada e amarrada nessa cama -não posso coçar o meu outro nariz!-, nas mãos de um médico louco -e parente- que ganhará um prêmio às custas da minha face. Minha?! Eu não tenho mais face: sou agora uma outra pessoa que me oculta. Como tudo é espetáculo, posso ganhar uns trocados nessa festa.

    Ainda não me vi, mas gostei de contemplar meu ex-marido trazendo flores. Inacreditável. Ficou horas aqui do meu lado conversando. Que gentileza! Eu ainda não posso rir muito -porque dói-, mas a situação já não me soa tão terrível.

    Sou mesmo um sucesso, dizem. Claro, a imprensa vive dessas coisas -uma girafa de duas cabeças sempre é notícia. Bem, sou a autêntica mulher de duas caras: uma virtual, outra física, que ainda não vi, mas não estou assustando ninguém, parece. Espelhos proibidos, decretou o primo. Nada de fotos -eu preciso me acostumar lentamente com a idéia de ser outra pessoa, ele diz.

    Essa mudança de personalidade! Coisa de espião -sou uma espiã de mim mesma. Alguém que agora, finalmente, pode viver na sombra de sua sombra. E, para ser bem sincera, eu era uma mulher pouco atraente. Agora sou atraente -por outras razões, é verdade, mas enfim, depois dos 15 anos de idade nada de novo acontece na vida de ninguém. Pois na minha aconteceu.

    E aí está meu ex-marido, com o espelho de prata, espelho, espelho meu, parece que todos concordaram que esse é o momento da revelação, o primo sorri, tranqüilo diante do triunfo, as enfermeiras felizes, meu pai, minha mãe, a imprensa -sou outra pessoa, sou minha irmã Beatriz, que, agora é verdade, enfim desapareceu da minha vida.

    -----------------------------------------------------------------------

    Cristovão Tezza é escritor, autor de "O Fotógrafo" e "Breve Espaço entre Cor e Sombra" (ambos pela Rocco), entre outros.


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    [Aeternus:5635] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2005-12-12)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO

    É verdade, Jansyta.

    Imagine se fosse agora que costurassem de volta o pinto arrancado daquele Bob Não-sei-quê (lembra? que a mulher cortou fora?). Iam dizer que é narcisismo machista?

    Cada uma, que parece duas...

    Mas estou pensando em matar o Brad Pitt pra transplantar o rosto dele no lugar do meu, que cêis acham? Aí eu como a Angelina...

    Abraaaaaço


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    [Aeternus:5636] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-12)


    - RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO

    Sr.Conde, essa foi boa! Lembrar o transplante do Bob para encaixar no "com o outro no corpo"...
    Só estranhei seu comentário: então você não é o doublé do Brad Pitt?  Que desilusão.


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    [Aeternus:5638] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-13)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia

    As crianças estavam cantando musicas natalinas que aprenderam na escola e, de repente, ouvimos uma variante inesperada:
    Bate o sino pequenino, sino de Belém...
    Já nasceu o Deus me livre para o nosso bem...

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    [Aeternus:5639] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-13)


    - RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia

    Essa inocência sem Saber tem seus encantos...

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    [Aeternus:5640] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-13)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia

    Marcos, você falou dos certos encantos das distorções - mas quando Gallego me fez lembrar de duas outras variantes sobre o Jingle Bells ( "Acabou o papel"..." "Põe a bunda na janela...") me ocorreu que, mais do que qualquer outra música de natal, esta parece favorecer as gozações jovens.  Até inocentemente!
    Quando eu fazia parte da Associação de Canto Coral, às vezes, em eventos importantes, ficávamos dispostos por trás da orquestra. Para grande susto dos meus dezoito anos relativamente ingenuos, percebi a irreverência dos músicos jogando bolas de papel uns nos outros, lanchando frango com farofa, falando palavrões. Soube que nas excursões de onibus eles faziam arranjos belíssimos que,dada a velocidade do seu deslocamento, não deixavam perceber distorções e jogos obscenos.   Ás vezes o hábito pegava alguém distraído na hora do concerto e uma vez ouvi nitidamente o "qui tollis pecata mundi" como "clitóris pecata mundi".  Não tem jeito, fico desapontada...
    Conheci a história de um antiquíssimo general que, quando fechado no tráfego, gritava: " Batuta" porque contava proteger a "senhora" ao seu lado e com o vento para retorcer o som do impropério até os ouvidos de quem queria ofender.
    Cronicas e mais cronicas irreverentes, já ouviram as peças de Mozart jogando com isto? Nas festividades dos seus centenários gravaram uma coleção completa. E, como no filme "Amadeus", me vejo do lado do Salieri nestas horas!!! O paradoxo das simulações religiosas e do sentimento genuíno.   


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    [Aeternus:5641] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-13)


    - RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 7

    Também compartilho com Jansy de um certo luto por essa perda da inocência.
    Num mundo ordenado, justo e definitivamente mais 'fácil', deveria ser possível preservar um mínimo de retidão, de 'certeza'.
    Mas o Absurdo impõe-se a tudo como se 'real' fosse sinônimo de Complacência. E o faz de forma tão natural, a desmantelar qualquer ilusão e esperança nossa a respeito das idéias acima !...
     
    Quando infante, perdido meu paraíso de inocência, gravávamos fábulas infantis num Phillips holandês legítimo, apreendido em contrabando e doado por meu tio da Alfândega a nós. Transformávamos as falas dos personagens em escatologia da pior espécie. No 'velho&menino&burro', a lamúria "vou vender meu burrinho, eu vou, eu vou/ mas com muito pesar, eu vou, eu vou /meu burrinho é bonzinho, e mansinho e só falta falar" era aviltada por meus irmãos e passava a trazer 'cuzinho' no lugar do burrinho.
     
    Vejo uma economia nessa processo, decorrente do contorno que somos obrigados a fazer em nossa codificação de valores. A partir do cutelo, somos obrigados a repensar e recodificar nossas crenças e esperanças. Os conceitos elastificam-se, tomam nuances, refazem-se. O mundo torna-se mais complexo, mais indecifrável. Rompe-se o encanto do 'constructo perfeito', do valor mais alto, e essa relativização estabelece-se como signo definitivo em nossas vidas...

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    [Aeternus:5642] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-13)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8

    Marcos, você falou do aviltamento dos rituais e na dessacralização do que vinha como "verbo" como uma elastificação dos conceitos. Depois concluiu: Rompe-se o encanto do 'constructo perfeito', do valor mais alto, e essa relativização estabelece-se como signo definitivo em nossas vidas...

    Sua frase sugere que o definitivo se tornaria o indefinitivo e indefinido ao passo que a relativização ocuparia o espaço ( absoluto ) do absoluto.  
    Penso um pouco diferente, mas não sei se conseguirei me expressar melhor do que você para passar a idéia.
    Para mim há algo irredutível nos conceitos ou seja, algo que não permite que os possamos "recodificar" ou "elastificar"  de modo mais amplo, apenas como distorções idiossincráticas. 
    Ou seja,  retomo a lição da torre de Babel se entendermos que a "elastificação" promove linguas particulares enquanto que impede sua generalização e partilha. Desaparecem as pequenas comunidades com dialetos próprios para que cada um tenha seu idioleto ( linguistas é que poderiam nomeá-lo, se é que já não foram relativizados e babelizados também ao aderirem ao "redutível").
    O Real não tem como "ser complacente" : nós é que podemos sê-lo, dando certo ou não no esforço covarde ou corajoso que nos impelir à compaixão ou à crítica.  

    Florião, sei que não estou sendo muito feliz ao me expressar porque queria propor que há uma espécie de dialética do eu para o mundo, do mundo para o mundo, do mundo para o eu que às vezes não levamos em conta. Por exemplo, esperaria que a linguagem carregasse uma referencia do ""mundo para o mundo", ao passo que os sistemas éticos operassem mais na base do "eu para o mundo". Há uma religião do Absoluto, mas só posso vivê-la de modo relativo e, portanto, privado, não evangelizante. Quero dizer que o 'constructo perfeito' poderia existir segundo a fé individual, como também "um valor mais alto". Ele apenas não seria generalizavel, transmissível sem distorções maiores ou menores. 

    Vê como me enrolei? O Natal representa uma época em que o constructo perfeito se deixa generalizar. No entanto, de todas as histórias do Novo Testamento, a que mais me toca é a da Anunciação. Do "Magnificat anima mea Dominum": mensagem de um para outro, um por um, particular e unica.  


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    [Aeternus:5643] Mensagem do Grupo43
    -Davy(2005-12-13)


    - RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8

    Amigos (Marcos e Jansy): Recordo a vocês um termo que utilizei ad nauseam por aqui, e, ao que me parece, vocês não 'pegaram': é a noção de paradoxo, aquilo que convive com seu contrário, aquilo que é verdadeiro porque é duplo, nunca num sentido só, aquilo que torna o absoluto relativo, e o relativo, absoluto, sem problema algum. Nâo há linhas retas no universo (a não ser aquela traçada pela luz, mas mesmo isso é só uma noção teórica...), portanto não há por que esperar que as coisas "se comportem", e que o mundo se faça inteligível e, mais ainda, preserve essa inteligibilidade como o monte Everest preserva o seu cume. Tudo que vocês dois disseram nas últimas mensagens deve ser relido à luz do paradoxo, para resolver os impasses e dar sentidos (mais de um) ao que quer que seja, de modo que não precisamos nos contorcer para caber nas verdades que viram mentiras, basta que façamos como criança que atravessa a rua: olhemos para os dois lados (se possível, simultaneamente...)

    Beijos e abraços.

    Davy.


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    [Aeternus:5644] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-13)


    - RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aa

    Jansy conseguiu bloquear o 'drible do Rivelino' - aquele em que o zagueiro dá o bote à esquerda e o Riva saía pela direita, desmoralizando o cara, depois de serpentear o pé pela bola. Conseguiu explicar muito bem o ( quase )inexplicável jogo de tendências que Davy clareia, retomando o paradoxo.
    E dessa perspectiva...haja teimosia em refutarmos nossa(s) corda(s) bamba(s) !...

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    [Aeternus:5645] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-13)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aaa

    Florião, esta resposta foi inspirada. Se bloquear um golpe, ou inventar um golpe no futebol é muito mais expressivo do que acompanhar as besteiras que Maradona lança contra Pelé ( que também não é lá tão isento de falar besteiras arrogantes) temos nisto um exemplo claro e inequívoco sobre os  diferentes modos de jogar e de se expressar opiniões.

    Os paradoxos, em matemática, destruiram algumas das pretensões organizadoras de Bertrand Russell. Penso, em particular, naqueles que implicavam em auto-referencias e como fraom trabalhados por Wittgenstein ou Gödel.  O conjunto de todos os conjuntos engloba a si próprio? E como entender o cretense que afirma serem mentirosos os cretenses?  São questões que conhecemos bastante, embora não tenha lido nada sobre sua associação com a reprodução "virótica"  na qual cópias de si prórpio ocupam gradualmente o espaço livre nos sistemas,  ou com a pulsão de morte. 
    Afinal, os paradoxos são paradoxais e não apenas uma expressão paradoxal, como o Davy provavelmente já apontou: eles podem servir para abrir ou para entupir caminhos e idéias.

    O que pretendia dizer e não disse, apesar das generosas palavras do Marquito, decorreu de uma atrapalhação da repressão: eu estava tentando evitar falar de Lacan...  Talvez pudéssemos aceitar que o que Lacan descreve sobre o "significante" seja semelhante ao que Davy apontou como sendo a operação do paradoxo. 

    Há uma linguagem ( aliás, milhares) que é convencionada. Na semiologia em medicina, de modo distinto mas igualmente estabelecido, como nos semáforos, sinais de fumaça, placas de transito e, modernamente, nos "emoticons" : > )  ou   :> (  .....
    Todo campo do significado e do sentido pertence a esta dimensão do "convencional". 
    Atualmente a moralidade está ligada a isto, apenas, ao políticamente correto.  Li sobre uma professora que foi expulsa de um colégio porque foi considerada "racista" já que insistia em escrever no "black-board" ( quadro-negro ) em vez do "chalk-board" ( quadro para giz, lousa... ). O aspecto reconfortante da religião e das boas palavras, assim como a mania do "Freud explica" pertencem a esta categoria.

    Já o significante não tem ligação essencial com os significados, nem com os sinais, e não pode ser convencionado rotineiramente ao nosso gosto.  Se desconsiderado, ele "retorna do real" e recebemos uma lição amarga!

    Para mim, a fé não é contagiante nem transmissível. Se pensarmos na definição de Spinoza ( ou Leibniz, não lembro qual deles) para o gozo místico ( "um gozo que se atribui a um agente externo) veremos que, como pode ser o caso dos paradoxos, estamos diante de uma assertiva "indecidível".


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    [Aeternus:5646] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-13)


    - RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aab

    'Para mim, a fé não é contagiante nem transmissível. Se pensarmos na definição de Spinoza ( ou Leibniz, não lembro qual deles) para o gozo místico ( "um gozo que se atribui a um agente externo") veremos que, como pode ser o caso dos paradoxos, estamos diante de uma assertiva "indecidível".'

    'Indecidível' no senso do aleatório ? De precisar surgir como um clair de lune, como um acorde em Debussy, Tchai ou Mozart, vindo...vindo...não se sabe de onde ?...

    Fitzcarraldo tentou o gozo místico usando o Grande Caruso. Achava que essa mágica certamente seduziria os indígenas.
    Em Arte até que dá para 'relaxar e gozar' com o paradoxo : adoramos ser surpreendidos, instigados, manipulados. Já fora dela...somos exigidos a um exercício freqüente, uma espécie de curso prático a requerer disciplinada atualização.
    Deixamo-nos seduzir pela Arte, enquanto tentamos seduzir no cotidiano ?

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    [Aeternus:5647] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-13)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aabc

    (Lista Re:Re:Re: inocencia 8Aabc?  Isto é que organização. Parece o estado dos meus comprovantes e documentos).

    Florião, introduzi o gozo místico sem estar pensando no prazer místico porque mais interessada em usar a definição filosófica e avaliar uma "assertiva indecidível": quem pode dizer ou contradizer a sugestão de um gozo quando se afirma que ele "se atribui a..." quando experimentado de corpo&alma?   

    Você pensou em Mozart e na emoção vinda não se sabe de onde, de alguma parte exterior ao ouvinte.  Não lembra de uma quadrinha antiga que já citei? "Music is but a fart that is sent from the guts of an instrument"?
    A música é o peido que evola das tripas de uma viola... Vem de dentro,vem de fora? Vem de quem? Já foi´mbora?

       


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    [Aeternus:5648] Mensagem do Grupo43
    -Davy(2005-12-13)


    - RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Aabc

    Jansy e Marcos, lá vai a segunda aula de Winnicott:

    "Você pensou em Mozart e na emoção vinda não se sabe de onde, de alguma parte exterior ao ouvinte.  Não lembra de uma quadrinha antiga que já citei? "Music is but a fart that is sent from the guts of an instrument"?
    A música é o peido que evola das tripas de uma viola... Vem de dentro,vem de fora? Vem de quem? Já foi´mbora?"

    Isso, tudo isso, pertence ao espaço transicional - não vem de dentro nem de fora, mas do meio do caminho, daí 'transicional' - nem coisa, nem fantasia.

    E o 'convencional' é visto por Winnicott com muita simplicidade: A 'realidade' é uma 'realidade compartilhada'. Fora dela, nada - a não ser o famoso e assustador REAL, que Lacan capturou e descreveu tão bem.

    Os paradoxos que empatam o caminho são na verdade o sintoma de uma estranha doença - a doença da transicionalidade - aquela que acomete (epa!) os fundamentalistas (que demitiram a professora) porque não sabem viver num mundo paradoxal, precisam que o branco seja branco e o preto seja preto, para poderem se sentir localizados em algum lugar compreensível. Daí que a certeza é a "ciência" dos burros, porque implica necessariamente em simplificação, redução, etc. O fundamentalismo, de qualquer natureza, é burro, mas se fosse apenas burro não teria problema, e de fato ele é não só burro mas também teimoso, por isso não se deixa convencer. Mas na verdade significa uma parada no desenvolvimento emocional, na fase em que ainda não foi possível integrar o seio bom e o seio mal e perceber que o bom não é tão bom e o mau não é tão mau (essa fase deveria ser chamada de 'fase da idealização', mas quem sou eu para cunhar termos psicanalíticos...)

    Na arte, Marcos, vivemos a transicionalidade de modo absoluto (agora resolva este paradoxo, quero ver!). Fora dela, devemos sim saber a diferença entre uma fantasia e uma parede. Isso dá trabalho, com diz Winnicott. Daí por que precisamos da arte - para descansar desse trabalho cotidiano, rotineiro, infindável. Mas quem se acostuma a fazê-lo não se cansa tanto. Cansam-se aqueles que (outra vez) ficaram parados num ponto do desenvolvimento em que a onipotência ainda detinha o poder, e por isso odeiam ter que reconhecer que certas coisas não são como eles queriam (fantasiavam, idealizavam, pretendiam - taí o imaginário de Lacan para explicar esta parte agora!)

    Bem, chega, se não viro um chato insuportável.

    Davy.


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    [Aeternus:5649] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-13)


    - RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Ad

    Davy pede a Tarefa de Hércules...só nos resta tentar, então, já que 'a coisa é séria' ( ou não é ? Mastroianni dizia que Arte é brincadeira, conferindo um tom que a relegava a coisa menor. E creio que ele dizia isto sinceramente, o que é mais grave ! )
    Meu pensamento é eminentemente geográfico, e tenho toda a dificuldade do mundo quando é requerido abstrair-se disto.
    Já quanto às sensações, tornam-se difusas, sem o crivo do conceito...e certamente a Música é um dos instrumentos mais eficazes a causá-las.
    Fico com Nietzsche, que chamou-a "mãe de todas as Artes...penso que a vida não seria possível sem ela !".
     
    Quando a Música desaparece da vida das pessoas, elas morrem. À míngua ou rapidamente, mas morrem.
     
    Ao assistir recentemente "Mrs.Henderson Presents" com o Gallego, na Mostra, estropiado após um longo e difícil dia entre compromissos e lazer - creio que era o 3º filme do dia, e mal conseguimos morder um sanduíche e engolir um suco, antes de enfrentar a sessão lotada do Odeon - curti de montão o clima que o Frears recria dos teatros musicados da época da II Guerra. Mas frise-se : estou a falar de Música, algo composto de compassos, harmonia, melodia ( assobiável ou não, mas uma seqüência de compassos criativos ).
    It's delightful, it's delicious, it's de lovely !

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    [Aeternus:5650] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-14)


    - RE: O OUTRO NO CORpO e a simples inocencia 8AabcN

    Davy do céu! Então sua resposta paradoxal para a velha questão do monismo versus dualismo, idealismo versus realismo é que não se trata nem de um nem do outro? 

    Lacan "capturou e descreveu o Real"?  Se você tiver tempo, pode mandar alguma citação ou descrição? Ficaria gratíssima.


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    [Aeternus:5651] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-14)


    - RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Af

    Além de brilhantes vocês estão cômicos !...

    O abecedário da Jansy contempla um 'n' depois de um 'd'. Davy bate um bolão mas, como os craques, joga 15' e sai aplaudido pela galera.


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    [Aeternus:5656] Mensagem do Grupo43
    -Davy(2005-12-14)


    - RE:RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Af

    Obrigado a vocês dois pelos aplausos. Mas Jansy, deixa de ser terrorista. Dualismo e monismo não fazem um paradoxo, fazem uma controvérsia. E de fato podemos ter uma visão monista, ou uma visão dualista, ou outros pares desse tipo, e tanto nos agarrarmos a uma quanto à outra, ou "acreditar" mais em uma que na outra, ou então vê-las como complementares, e aí sim teríamos um paradoxo, tipo "nem tanto ao céu, nem tanto à terra". Um par que ilustra bem isso é indivíduo X grupo. Esse X só vai embora se olharmos a questão de forma paradoxal. Já o par idealismo versus realismo "realmente" só pode ser resolvido por uma formulação paradoxal. Porque nenhum dos dois dá conta do problema, e o ideal é ter duas pernas sãs, e não ter que escolher qual das duas ficará doente.

    Quanto a Lacan, você conhece melhor do que eu, então que história é essa?

    Davy.


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    [Aeternus:5657] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-14)


    - RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Afg...n

    Davy, você acha que andei fazendo terrorismo?  Certa vez Bion referiu-se a uma pergunta que lhe fiz dizendo que  "soltei uma bomba verbal" que provocou pensamentos. Tomara que seja algo deste tipo.

    Já li bastante Lacan, mas isto não quer dizer que tenha examinado tudo o que ele produziu. Nunca vi qualquer referencia que permitisse supor que ele houvesse "descrito ou capturado o Real" e, portanto, devo supor que você tem acesso a esta informação importante.  

    Será que considerei os debates do "idealismo versus realismo" ou do "monismo e dualismo" como gerando paradoxos? Se o fiz, concordo com você, foi besteira.   Meu plano fora registrar ( ironicamente) a sensação de que sua proposta sobre o "paradoxo" teria eliminado um debate filosófico antiquíssimo - quase com uma penada só. Como se as posturas idealista ou realista ou nominalista,etc  fossem meras infantilidades da filosofia.


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    [Aeternus:5658] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2005-12-15)


    - RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo

    O que é a lógica estóica? Eles fazem distinções entre representação sensível, representação racional e expressão, ou dialética. A representação sensível é uma impressão que o meu corpo sofre ao se encontrar com outro corpo e essa impressão, ela envolve a causa externa, ela envolve a presença do outro corpo, ela é um signo em mim, uma re-apresentação sensível, um signo ou um traço sensível do objeto que me afetou ou que me alterou ou que causou alguma modificação em mim. Depois eu tenho a representação racional que se assemelha ao que Spinoza chama de noção comum. A representação racional é uma apreensão de comunidade de relações que faz com que eu selecione relações que interessam e exclua relações que não interessam, que vem a destruir ou ser nocivas àquela comunidade ou àquela conjugação.

    Essa representação racional é operada por um assentimento. Eu tenho um assentimento que seria uma espécie de visão de que aquilo é comum ou não a certa relação, a certa composição, a certa comunidade. E a dialética, que tem o sentido de desenvolvimento linguístico de relações incorporais, na realidade são atribuições que dizem as maneiras de ser dos corpos. Para um estóico, o enunciado "a árvore é verde" é um enunciado morto, vazio, é um enunciado que diz: a qualidade da árvore, verde, é um corpo, a árvore é um corpo, verde pertence a um corpo chamado árvore, uma qualidade física da árvore. "O fogo é vermelho" - é uma qualidade física do fogo. O estóico não vai dizer "a árvore é verde", vai dizer "a árvore verdeja".

    "O homem é um animal capaz de andar", diria Aristóteles. Os estóicos dizem "o homem anda, o homem corre". Dão um nome próprio, nome de uma singularidade e não de uma generalidade, não de uma espécie, e um atributo incorporal que abre aquela qualidade, aquele corpo físico a um devir. "A árvore verdeja", "a criança brinca", "o homem corre". Correr, brincar, verdejar, são atributos, ou extra-seres, maneiras de ser do ser.

    Eles não diriam "penso logo existo", diriam "estou pensando, penso, a coisa pensa". Algo pensa. É sempre algo em relação, algo em devir, um corpo em devir, algo em fluxo, algo em ação. O verbo, o que é?

    É um infinitivo, ele abre a ação para um devir. O infinitivo não é presente, ele vai para o passado e o futuro ao mesmo tempo. Lewis Carrol: "Alice cresce". Significa que Alice é maior do que era antes e menor do que será, mas ela não é menor ou maior no mesmo tempo, é ao mesmo tempo que ela se torna maior ou menor. Ela não é, ela se torna. Tornar-se, vir a ser.

    O Zen é afinadíssimo com o elemento estóico. É a mesma maneira de ver o mundo. Ao invés de você se ligar ao bom senso e ao senso comum você se liga ao PARADOXO do tempo. Você se abre, vive em vários sentidos ao mesmo tempo e não no bom sentido do bem...


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    [Aeternus:5660] Mensagem do Grupo43
    -Davy(2005-12-15)


    - RE:RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia 8Afg...n

    Jansy, nunca falei com Bion, mas uma vez ouvi uma fita de uma entrevista que ele deu numa sociedade psicanalítica aqui no Brasil e percebi que ele quase nunca respondia diretamente à pergunta, dava "pára-respostas"como um perfeito mestre Zen, cuja intenção não é aumentar o saber do aluno, mas des-centrar esse aluno, pois o Zen é a antípoda do pensamento racional. Achei ótimo. E se ele disse o que disse a você, quem sou eu para discutir com Mestre Bion?

    Segundo, a filosofia é meio infantilóide sim, às vezes. Até Schopenhauer ninguém se preocupava com a vontade humana, por exemplo. Talvez Spinoza, mas com aquele ar apolíneo que o caracterizava. Acho que a filosofia, até talvez Schopenhauer e certamente Nietzsche lidava não com o ser humano real, mas com o que chamamos de "falso-self" - o homem adaptado às normas sociais, o "alienado", como diria Marx.

    A "solução" de alguns problemas "eternos" é simples, sim, basta olhar ao mesmo tempo para os dois lados, coisa que os filósofos não gostavam de fazer, ou achavam que dava para pensar em linha reta.

    E eu não me referi exatamente a uma "besteira" sua, e sim a uma tradição na qual você, pelo jeito, está, e que (como ocorreu quando Copérnico e Galileu disseram o que disseram) deve ceder o lugar para uma percepção mais aguçada da realidade. Como eu disse antes, o pensamento ser "monista" ou "dualista" é apenas uma forma de privilegiar certos fatos e ignorar outros. Se tentamos não ignorar o que não encaixa (leito de Procusto, lembra?) não conseguimos continuar na fórmula tradicional de ver o mundo.

    E quanto a Lacan, pergunte a qualquer um (que o conheça minimamente) se não foi Lacan que "inventou" o Real. Eu não tenho como provar isso, mas qualquer lacaniano médio o faria.

    E agora vamos ler a mensagem do Conde, que me parece uma aula de filosofia das grandes - só li a primeira frase e parei para ler depois. Se tiver comentários, farei, com certeza (mais quinze minutos de jogo, como diz o Marcos)...

    Davy.


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    [Aeternus:5661] Mensagem do Grupo43
    -Davy(2005-12-15)


    - RE:RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo

    Jansy, eu não disse? Aí estão os estóicos do Conde para me defender. Não sabia que havia isso tudo na filosofia estóica. Há algo aí que me faz pensar também na filosofia antiga judaica: Não há, no hebraico, o tempo presente do verbo SER. Se algo É, esse algo É ALGO - a abstração de SER pura e simplesmente é abolida, no hebraico. Não sei com é em grego (fui casado com uma helenóloga, mas não o tempo suficiente para aprender isso). Mas o estóico então se opõe a Aristóteles exatamente por esse mesmo princípio que eu mencionei antes - o princípio da ação, como se não houvesse COISAS, e sim SUJEITOS, sujeitos que agem, o que é confirmado pela física quando diz que matéria e energia são a mesma coisa, portanto não há, absolutamente, nada ESTÁTICO no universo.

    Conde, obrigado. Adorei a aula. Agora falta resumir o pensamento epicurista e o pensamento hedonista para termos um Tratado Geral do Pensamento Grego. Aliás, Jansy, dessas três partes do pensamento grego (o Logos dividido em três) você pode comprovar que ficar com uma delas apenas, por achá-la melhor que as outras, é meio bobo, não? Mesmo que uma delas seja melhor que as outras, as outras não são absolutamente idiotas, portanto é idiota ignorá-las, como tanta gente fez. Então caberia mais olhar para as três, acentuar uma delas e tomar as duas outras como complementares, não? O pensamento paradoxal, então, é um modo de só jogar fora o que realmente não presta, como se faz com uma seleção nacional de futebol: O técnico não pode escolher jogadores só do time pelo qual torce.

    Então, definindo: O filósofo "normal" é técnico de um time. O filósofo (ou o "peru", que é como chamamos quem dá palpite sem ter sido perguntado) paradoxal tenta ver quais os melhores jogadores da atualidade no país, sem levar em conta em que time jogam. Engraçado definir isso dessa maneira. Morin, do Pensamento Complexo, iria gostar dessa definição.

    Davy.


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    [Aeternus:5662] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2005-12-15)


    - RE: O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo 3

    A Empatia condina ( a que ele cita como sendo seu alvo ! ) me parece a do lobo ( ou do vilão da história infantil ) quando tergiversa com o cordeiro sobre a necessidade deste acordeirar-se, assumir-se existencialmente enquanto 'bom cordeiro'. Seja : a Morte Feliz do Camus, a felicidade de Sísifo. O bom cordeiro a ser engolido pelo denodado lobo.
     
    Adorei a noção dos presentes feita pelo Conde citando o estóico, e saber por Davy que o Hebraico não o conjuga. Talvez o presente devsse ser reservado aos escritores, pois só existe no espaço suspenso requerido por Davy na Arte, o hercúleo transicional Absoluto.
    Quando Camus visita NYC, fala de suas impressões e diz 'perco pé', parece falar ad eternum...
    Rompe-se ali e então, naquele instante mágico, uma corda sob seus pés que jamais será recomposta, a não ser na Literatura.

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    [Aeternus:5663] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-15)


    - RE: CORPO e a simples inocencia 9

    Há pouco encontrei uma referencia ao poeta Dylan Thomas : "Alguma certeza deve existir,/ se não de amar, ao menos de não amar."   Vila-Matas modificou para: "alguma certeza deve existir,/ se não de escrever, ao menos de não escrever."  Prefiro a primeira, mas não estou comprometida com um livro sobre Bartleby e a escrita do Não.E o amor... bem...é o amor.

    Assim vou curtindo a aula do Conde e a conversa do Davy sem me engajar nem de um lado, nem de outro embora saiba que, fora do paradoxal, existem algumas certezas.

    Tive uma empregada que percebeu com que facilidade eu admitia que podia ter me enganado nisso ou naquilo, e ela decidiu explorar minha "deficiência" de uma forma bastante engraçada.  Certo dia senti falta dos biscoitos amanteigados que havia feito carinhosamente com meus netos. Perguntei à Maura ( a empregada ´) e ela respondeu:   
    - Ué, a senhora não lembra?  Ontem me pediu um cafézinho e pegou os biscoitos, comeu um, comeu outro, comeu mais um e mais outro e acabou com todos.  E nem me ofereceu unzinho...

    Fiquei calada, meio assustada com meu esquecimento guloso e fui correndo jogar "Memória" no computador, para testar se meu score estava normal.  Estava tudo certo.  Passaram-se uns dias e senti falta de bombons que havia comprado para servir após um jantar festivo. Perguntei à Maura e ela respondeu:

    - Ué, a senhora não lembra? Ontem me pediu um cafézinho e pegou os bombons, comeu um, comeu outro, comeu mais um e mais outro e acabou com todos.  E nem me ofereceu unzinho...

    Fiquei quieta mais uma vez. Testei minha agilidade no jogo da "Memória". Estava tudo funcionando direito, meu escore até aumentara. Passaram-se mais alguns dias e senti falta de um suco de maracujá fresco, que havia colhido no fundo do quintal de casa.  Perguntei à Maura e ela respondeu:

    - Ué, a senhora não lembra? Ontem me pediu um copo e pegou a jarra de suco e...

    Ah, que alívio. Eu não bebo suco de maracujá e, portanto, tinha certeza de que não havia tomado nem um, nem dois, nem tudo que havia na jarra.  E, claro, deu pra notar que também não havia comido biscoitos e bonbons em um surto de ausência demente.

    Portanto aprendi a lição ( Não totalmente, só mais ou menos, pois recentemente outra empregada começou a jogar com esta minha docilidade ao procurar óculos, isqueiros, canetas de admitir que não sei onde guardo uma coisa ou outra, para esconder jóias e ver se eu admitia perde-las como culpa minha...)  . Tenho certeza que vivo, que amo e que escrevo neste instante.

     

     

     

     

     

     

     


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    [Aeternus:5666] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2005-12-15)


    - RE:RE: CORPO e a simples inocencia 10

    Sobre a questão de se ter certezas, ou sintomas, há um belo conto do Thomas Mann sobre a influência de Hitler na Alemanha. Chama-se "Mário e o Mágico". Sob efeito da sugestão hipnótica, Mario segue todas as instruções humilhantes e ridicularizadoras que lhe são dadas pelo mágico. No entanto, quando este último sugere que Mário o considere como sua namorada e o beije, Mário rompe o transe e, não totalmente refeito, mata o mágico. 

    Não penso em Bion como sendo um psicanalista Zen. Dizem isto até do Lacan! E posso explicar por que pensam nele como Zen e porque não seria.  Bion foi um kleiniano e sua teorização empregava bastante as idéias de Klein. Para ele era importante que, na sessão de análise, o psicanalista oscilasse entre duas posições: a posição esquizoparanóide ( que ele chamou de "paciência") e a posição depressiva ( que ele chamou de "segurança").
    A posição "paciente" é bem próxima do Zen: convive-se com incertezas, dúvidas, fragmentos de realidade e de si mesmo, idéias em transito.  Fica-se aberto e continente às identificações projetivas do analisando e aos pedaços das suas projeções de idéias e afetos, em geral.
    Contudo, a "posição paciente" é uma tática de uso da capacidade negativa com o fito de se alcançar uma verdade que advirá como um "fato selecionado" ( no sentido dado pelo matemático Poincaré: enxergar conexões que até então estavam invisíveis ).  No momento em que se alcança uma certeza, uma verdade, pode-se interpretar e se chega à "posição da segurança" com suas pequenas mortes e lutos, mas nutrida pela Verdade. Que eu saiba Zen é apenas este primeiro movimento de abertura, disponibilidade e paciência e não tem, como meta final deliberada, a Verdade.

    O filme do Mundo de Jack and Rose com Day-Lewis tem um ponto em comum com um outro, acho que se chamava "A Vila" no que em ambos se busca rejeitar os valores da civilização capitalista e industrial e criar um universo à parte.  No caso de Day-Lewis a problemática edipica aparece com mais clareza.


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    [Aeternus:5670] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2005-12-15)


    - RE:RE:RE:RE:RE:COM O OUTRO NO CORPO e a simples inocencia do paradoxo

    Há vários pensadores, como Pitágoras, Anaximandro, Parmênides, Heráclito, Zenão, Demócrito, que tinham algo em comum: acreditar que a natureza tem uma profundidade única, unitária que é a causa de tudo. Ou seja, a causa não estaria mais nos deuses, não estaria mais fora da própria natureza ou em alguma entidade que se travestisse de homem ou animal. A causa estaria no fundo da própria natureza e esse fundo é que vai ser interpretado de formas distintas.

    Tales vai acreditar que a água é a causa, é o ser ou a unidade de todas as coisas. Heráclito vai dizer que é o fogo. Empédocles vai dizer que são os quatro elementos: a terra, o fogo, a água e o ar, unidos ou separados pelo amor ou pelo ódio. Demócrito vai dizer que são elementos imperceptíveis e indivisíveis que são os átomos. Átomo em grego significa indivisível. E por aí vai.

    Todos eles tem uma orientação para uma profundidade da natureza, abaixo da superfície, abaixo da terra ou atrás das coisas, que dá até pra associar a imagens de cavernas, dos oceanos. O que está escondido debaixo da natureza é que remete a essa unidade primordial da natureza que seria o ser, seja ele água ou fogo ou que determinação se queira dar.

    Foi Parmênides o primeiro a dizer que isso tudo era o ser. Ele usou a palavra ser pela primeira vez e fundou a ontologia, que é a busca do ser, a lógica do ser. Agora essa orientação pré-socrática dizia que, se a causa de tudo está na profundidade, a salvação também está. Ou seja, de onde tudo vem é a profundidade, para onde tudo vai, é a profundidade. É ela que mantém a superfície organizada. Ela é a causa da nossa organização.

    O que é importante saber é que os pré-socráticos tinham um objeto de pensamento que era o mesmo objeto da vida e eles, como filósofos que inauguraram o pensamento, diziam que o objeto do pensamento e o objeto da vida eram um só. Eles nunca separaram vida e pensamento, não separaram o desejo da verdade, não separaram o corpo e a alma. A alma é um corpo para os pré-socráticos, é um corpo sutil que coexiste com o corpo orgânico. Na medida mesma em que existe uma comunidade de causa entre o corpo e o pensamento, o objeto mesmo do pensamento nunca separa o pensamento da vida. É impossível ter um pensamento que acuse o corpo ou que julgue a vida. Você tem uma aliança, núpcias entre pensamento e corpo. Existe uma cumplicidade, não é uma confusão, mas um jogo lúdico.

    O Heráclito dizia que o tempo é uma criança que brinca e joga as peças do jogo para lá e para cá e ao brincar é que a realidade é tecida. O tempo cria a realidade, tece o real e se ele tece o real, envolve tanto o corpo como o pensamento. Não há separação, há uma cumplicidade. Só que essa aliança não é no modo de conjugalidade, mas no modo de bodas.

    O tempo do corpo e do pensamento são diferenciais, no entanto um envolve o outro, um afirma o outro e o outro ativa o um. O pensamento afirma a vida e a vida ativa o pensamento. O pensamento tem valores e sentidos porque interpreta, apreende o que é mais real, o que tem mais valor, o que é mais importante, qual o sentido que a vida deve seguir e a vida busca com autonomia meandros e limites que ultrapassam essas limitações aparentes que o pensamento cria. Então, a vida ativa e arranca o pensamento de lugares comuns e o pensamento faz a mesma coisa em relação à vida, tira a vida da situação orgânica, da situação prazerosa da boca, dos olhos, do sexo, de uma sociedade acomodada. O que é o pensamento? É uma potência virtual que atrai ou repele, que chama, que seduz, que orienta, que desorienta, que desvia, que cria vias novas para que a vida crie outros caminhos. Então é o laço mais intenso e afirmativo da autêntica experimentação. Porque experimentar é ousar, é crescer a partir dos limites, ir tangenciando o inédito e não fazer experiências em estados controlados como se faz em laboratório. A vida nômade exige esse tipo de atitude, mas não exige como um dever moral, é uma exigência de sedução, o desejo quer porque ele se sente muito mais forte, mais alegre, se desenvolve.

    Então você tem uma orientação ligada aos elementos, à profundidade e aos corpos. O objeto do pensamento e da vida é UM só. Há uma unidade entre pensamento E vida na noção pré-socrática do mundo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


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    [Aeternus:6039] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2006-02-02)


    - MAGnÓliA

    Nem precisava da chuva de sapos...

    Eu já tinha odiado o filme muito antes. Odeio todos os filmes que indicam redenção pela culpa: Dançando no Escuro, Festa de Família, Magnólia, Magnólia e Magnólia (sim, são muitos filmes em um, e TODOS eles apontam a redenção pela culpa). Culpa é engasgo no passado, e não tem nada a ver com responsabilidade, a única via da liberdade.

    Responsabilidade também não pode ser mera prevenção medrosa contra culpas futuras, mas simplesmente abrir a consciência ao poder que a gente tem de intervir neste mundo.

    Tem outros filmes que nem essa "solução" indicam, são niiilistas totais, mas um niilismo ranheta-pidão. Magnólia "recomenda" que cada um vá trabalhar psicologicamente suas culpas, sendo estas absolutamente alucinadas: o poder de comunicação entre as pessoas, os efeitos dos pedidos de desculpas, os sacrifícios compensatórios, tudo isso chega no suposto interessado com significados completamente diferentes dos imaginados pelo "culpado". É a incomunicabilidade disfarçada de linguagem (um fala pêra, o outro entende guarda-chuva, responde pedra, e o primeiro entende mixirica, e todos pensam que estão conversando, isso é Magnólia). É uma incomunicabilidade tida por inescapável, mas que continua dizendo que cada um precisa "resolver" sua própria alucinação culpada pra continuar sua "vida", mesmo que o outro não tenha nada com isso. Já há outros filmes em que o niilismo é total, não passa nem por essa solução: Beleza Americana é a diluição de uma tendência mais radical desse niilismo que não deixa de ser moralista, que está em Felicidade e em Histórias Proibidas. É uma concentração de gente que se joga fora na vida, e todas escondendo algum lado "freak", mas não para questionar, como a psicanálise de agora questiona, "os modelos de subjetivação oferecidos pela pós-modernidade". Esses filmes parecem só querer botar a espécie humana abaixo de cu de cobra, sem perceber sua ranhetice pidonha, sua vitimização... São filmes que não localizam a origem das monstruosidades (como a do personagem psiquiatra-psicanalista que dopou o coleguinha de seu filho para estuprá-lo mais facilmente) em um desvio de percurso, mas parecem atribuí-los à própria "natureza humana".

    E isso tudo me irrita demais.

    Não sei se já contei que, quando um colega meu disse que lembrou de mim ao assistir Felicidade, eu respondi que jamais doparia criancinhas pra estuprá-las, porque se estiverem desacordadas não tem graça?

    Só sendo cínico assim diante de um trem desses.

    É tudo filme de ranheta pidão. Aquele personagem do Dogma que estraga a festa de todo mundo pra dizer que teve seu cuzinho arrombado pelo pai e que pelo mesmo motivo sua irmã se matou... eu tinha vontade de enfiar um bofetão na cara do panaca. Por que escolher uma ocasião daquelas e aquele jeito de tratar do problema? Recurso "artístico" dos autores do filme pra demonstrar a hipocrisia da família? Ora, os caras não ouviram falar de Buñuel? Isso pra citar só um. O que eles achavam que estavam fazendo? Misturando Glauber com Bergman? (o Bergman sim é bom pra filosofar em cima da família como um VETOR de algo maior que ela, sem pessoalizar choradeiras) Oooooooora...

    Eu sempre digo:

    É preciso tomar cuidado com a crise da permissividade que estamos vivendo, pra não confundir nostalgia da moralidade com nostalgia do moralismo. Isso é um perigo muito grande, e eu desando a metralhar qualquer coisa que reproduza essa confusão.

    Magnólia inclusive.

    Mas que os atores estão de assombrar, isso é preciso reconhecer.

    E também os de Festa de Família. Eu até consegui fazer abstração das coisas que me desagradam no filme e fui ver de novo. São atores muito bons, eles nos dão grande prazer. Mas precisei fazer um esforço pra acionar meu filtro mental...


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    [Aeternus:6040] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-02)


    - RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...?

    "Culpa é engasgo no passado, e não tem nada a ver com responsabilidade, a única via da liberdade. Responsabilidade também não pode ser mera prevenção medrosa contra culpas futuras, mas simplesmente abrir a consciência ao poder que a gente tem de intervir neste mundo. Tem outros filmes que nem essa "solução" indicam, são niiilistas totais, mas um niilismo ranheta-pidão", observou o Conde Drácula num arroubo inspirado bem sucedido.  Parabéns pelas elaborações sobre certos filmes, estados de culpa, manipulação  histrionica e moralidade.

    Seguindo uma direção diferente, mas apenas pelo contraste e não por discordancia, desemboquei no que os católicos interpretam como a condição básica para o perdão: arrependimento na contrição perfeita. Ou seja, quando acontece haver culpa sem engasgo no tempo. 
    É que a culpa como caminho para a redenção, criticada pelo Conde ao falar da recriação sentimental no cinema (  que ele observou em Magnólia e nos outros trabalhos do mesmo diretor), é uma construção falsa nascida da mesma falha de comunicação que a de se falar de peras e de guarda-chuvas...Uma quebra na conversa de si para si, de si para o outro e, principalmente, de um artista para um grupo anonimo de espectadores.  Isto cria a culpa como forma de gozo, a culpa masoquista de "ranheta pidão".  No entanto, arrependimento e contrição, pra mim, são elementos valiosos para uma mudança de atitude e como caminho da liberdade responsável. Quando se alcança a verdadeira "salvação pela fé" defendida por Lutero, por exemplo. 

    Ontem comecei a ler, tímidamente, um ponto de vista mais antigo que o dos católicos e beneditinos protestantes. Ainda arrumando estantes, escondendo de novo o Joseph Conrad,  dei de cara com um livrinho com tres palestras sobre o Talmude, entre o final dos anos setenta e oitenta, proferidas pelo Lévinas.  

    Leio Levinas e vou ficando tremula, até com medo de entender mais profundamente distinções como a que ele faz entre a justiça divina e a justiça dos homens, principalmente quando se trata de pagar pelas conseqüências dos atos e das desobediências. 

    Uma frase me pegou: "O juiz não pode perdoar um réu  em nome da caridade porque apenas deslocará o ônus do pagamento para algum inocente" e, num rodapé, havia o exemplo de um juiz que pagou ele mesmo a pena pelo réu que ele liberou, evitando assim fazer outros algum dia pagarem o preço da sua falsa generosidade...   É um belo exemplo ( creio que do comentador talmudista Ben Gazza ) em que não se joga o problema na divindade, mas onde a ação humana se apoia sem se acovardar.  Fiquei surpresa com outra notinha de rodapé, zangadíssima com os psicanalistas, que Lévinas ali tomou como hereges por preferirem as interpretações que favorecem o Complexo de Édipo para atenuar a relação pai/filho em vez de enfatizarem a necessária obediência do discípulo para com o mestre, do filho para com o pai e a Lei Paterna como sendo uma só.  Terei que me dar mais tempo para ler antes de comentar qualquer outra coisa.

    Enfim, culpa tem a ver com lei, com autoridade paterna, com édipo... E ela pode ser genuina como experiência ( no arrependimento ) ou apenas novo pecado gozozo... 


     

     

     


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    [Aeternus:6041] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2006-02-02)


    - RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...?

    Olha que coincidência! Agora que li o Contardo de hoje.

    Ele diferencia a culpa da vergonha.

    Me lembrei agora de uma reflexão minha de tempos atrás, que contrapunha a moralidade da vergonha (que eu colocava no mesmo balaio da culpa) à moralidade do orgulho - o da "raça" ariana no delírio nazista, por exemplo... Eles se achavam super MORAIS!!!!! Magina se alguém dissesse que não!!!!

    Mas o Contardo botou mais variáveis na minha equação.

     

    Folha de S. Paulo, 02 fevereiro de 2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0202200622.htm

    , 02 fevereiro de 2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0202200622.htm

    Culpa e vergonha (Moralidade 1)

    CONTARDO CALLIGARIS

    CONTARDO CALLIGARIS

    Em 2005, as CPIs escancararam atos de corrupção, apropriações indébitas, malversações variadas. A campanha eleitoral deste ano promete uma reprise e uma ampliação do mesmo espetáculo.

    Mesmo assim, a impressão de muitos é que tudo isso seja apenas a ponta de um iceberg. É como se estivéssemos convencidos de que uma desonestidade endêmica compromete cada órgão vital do país, se não cada consciência.

    Pagamos a dívida com o FMI, conseguimos um superávit primário e, quem sabe, com a inflação controlada e a baixa dos juros, a dívida interna diminua. Mas não há como festejar: o país nos parece sofrer de um déficit mais fundamental, que nenhuma política econômica sarará, um déficit moral.

    Durante o século 20, aliás, muitos sociólogos e ensaístas brasileiros se debruçaram sobre esse déficit moral, perguntando-se como ele teria chegado a ser um "costume" nacional. Um costume, segundo a definição proposta por Tocqueville, é um hábito do corpo e do espírito, um hábito compartilhado por uma coletividade; ele dá forma a escolhas e atos de maneira, por assim dizer, espontânea, irrefletida.

    É nesse contexto que dedico uma pequena série de colunas (seguidas, mas com possíveis exceções) ao funcionamento de alguns reguladores da moralidade em nossa sociedade.

    Num livro famoso, "O Crisântemo e a Espada", de 1946, uma grande antropóloga americana, Ruth Benedict, tentou entender a sociedade japonesa.

    Ela chegou a uma conclusão que se tornou clássica: há sociedades em que o comportamento moral é regulado pela vergonha (por exemplo, o Japão) e outras em que ele é regulado pela culpa (por exemplo, as sociedades ocidentais modernas). Em cada tipo de sociedade, ambos os afetos estariam presentes como motivações e deterrentes, mas um deles seria dominante.

    Nas sociedades em que predomina a vergonha, o sujeito escolhe agir, se abster ou impor limites à sua ação para não perder a face e para preservar ou resgatar sua honra e sua dignidade. Nas outras, o sujeito age para evitar a culpa ou para expiá-la.

    A ação moral concreta é parecida nos dois tipos de culturas. Por exemplo, em ambos, um sujeito moral não rouba, mas, no primeiro caso, ele não rouba para evitar a desonra que espera o ladrão; no segundo, ele não rouba para não se sentir culpado.

    A vergonha parece ser um regulador perfeito para as sociedades tradicionais, em que, acima da lei, vigem os códigos de honra, a fidelidade ao legado dos ancestrais, o sentimento de uma missão simbólica da estirpe e da casta -ideais que permitem medir nosso valor e nossa dignidade.

    A culpa seria o regulador das sociedades individualistas modernas, cuja origem está na idéia cristã de que o indivíduo deve pouco ou nada a seu passado e aos grupos aos quais ele pertence, mas é contável diante de um Deus que sabe tudo e, em última instância, julgará e punirá ou recompensará.

    O Brasil de hoje é, grosso modo (voltarei a essa aproximação), uma sociedade ocidental moderna e fundamentalmente cristã. Na oposição proposta por Benedict, o sentimento que regula nossa ação moral deveria ser sobretudo a culpa.

    No entanto, a sabedoria da língua sugere algo diferente: a malandragem "não tem vergonha na cara", "sem-vergonha" é uma fórmula tão corriqueira que se tornou um adjetivo hifenizado, assim como "pouca-vergonha" se tornou um substantivo e o mesmo vale para "cara-de-pau".

    Em matéria de moral, nossa língua espera mais da vergonha que da culpa. E, ao estigmatizar a imoralidade, ela deplora mais a falta de vergonha do que a falta de culpa.

    Apesar da idéia de Benedict, nossa língua tem razão, sobretudo porque a culpa, de fato, é um péssimo regulador moral.

    À primeira vista, que a gente acredite ou não nas penas do inferno, pareceria lógico que evitássemos as ações que (como sabemos sempre de antemão) não nos deixariam dormir tranqüilos. Mas qualquer terapeuta sabe que não é assim: a culpa funciona como uma espécie de pagamento antecipado. Autorizo-me a fazer algo que me parece errado justamente porque sei que me sentirei culpado, e meu sofrimento futuro compra, desde já, o perdão para meu ato.

    A Igreja Católica, quando instituiu o arrependimento e a penitência como condições da confissão, inventou um dispositivo extraordinariamente permissivo. Posso pecar quanto eu quiser, pois já me arrependo, sinto-me culpado, sofro e meu sofrimento me remirá.

    É a mesma dinâmica que funciona quando pedimos desculpas: numa palavra só, admitimos que nosso ato é errado, prometemos que nos sentiremos culpados, e essa promessa nos garante o perdão. Com isso, podemos furar a fila e passar a perna, à condição de murmurar "desculpe".

    A vergonha é um regulador moral muito mais eficaz que a culpa porque meu sofrimento por perder a face não repara minha honra. Enquanto a própria culpa absolve o sujeito culpado, a vergonha mancha, e sentir vergonha não restitui a dignidade de ninguém. A única cura da vergonha está nos atos futuros do sujeito.

    Mas como funciona (ou não funciona), então, a vergonha numa sociedade moderna, como a nossa?

    Continua.


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    [Aeternus:6042] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-02)


    - RE:RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...?

    Shame on you! Trocar Freud pelo Calligaris... Pelo menos neste caso, de registrar que o Contardo "diferencia a culpa da vergonha" como se fosse novidade! Vai ver que

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    [Aeternus:6043] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-02)


    - RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...? Shame...

    Cliquei errado e a mensagem foi enviada "com sucesso". E aí me deu uma preguiiiiça!

    Então, deixa eu entrar como a Dalva de Oliveira, antiqüadamente...

    Errei, sim

    (Ataulfo Alves)

    Errei, sim
    Manchei o teu nome
    Mas foste tu mesmo o culpado
    Deixavas-me em casa
    Me trocando pela orgia
    Faltando sempre
    Com a tua companhia

    Lembro-te agora
    Que não é só casa e comida
    Que prende por toda vida
    O coração de uma mulher
    As jòias que me davas
    Não tinham nenhum valor
    Se o mais caro me negavas
    Que era todo o teu amor
    Mas se existe ainda
    Quem queira me condenar
    Que venha logo
    A primeira pedra me atirar...

    Confundir culpa e vergonha é para filósofos como R. Rorty, pragmatista americano que prega a adequação ao grupo e, se o entendi bem alguma vez, acredita na pressão social para promover vergonha e culpa (consciente, claro).



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    [Aeternus:6044] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula Tomatinho(2006-02-02)


    - RE:RE:RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...? Que vergooooooooonha

    Hahahaha, sério, Jansyta? que o Freud já fazia essa distinção? Perdi esse

    pedaço!!!!!! Veja só!!!

    Cê lembra onde? Agora fiquei instigado a saber o que ele disse.

    Lembro de algo sobre o pudor sexual... mas não me lembro de ter lido nada

    dele falando dessa vergonha social, da perda da honra...

    Mas, como diz você, errei, sim...

    QUE VERGOOONHA!!!!!!


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    [Aeternus:6045] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-02)


    - RE: Come on, catch-up...

    Rapidinho, de cara assim, só me ocorre a primeira grande referência na qual a vergonha aparece quase como "instinto" porque se manifesta espontaneamente, de dentro pra fora. Fica nos Tres Ensaios, já em 1903. Não vem ligada à culpa, principalmente nada a ver com o inconsciente.

    Sob o ponto de vista da fenomenologia, há um texto do Sartre e, se não me engano, dele fala Mannoni no "La Férule" ( uma espécie de vara de marmelo para castigar e envergonhar garotos franceses ), um dos ensaios no " Ça n´empeche pas d´exister"  dos anos oitenta.  Muitos analistas da turma do "psicanálise do ego" ( Ericsson) trabalham bastante sobre o tema.  Já apresentei um trabalho há milhares de anos num congresso de psicanálise no Rio, sob o título de "Culpa, Vergonha e Curiosidade" mas não ficou lá grande coisa e acho que não o publiquei, nem coloquei no site. Depois verifico. O material clínico era ótimo, mas eu não podia abrir ao publico e o incluir na época quando ele era, na verdade, a principal motivação para escrever sobre o tema. Pudor sexual. Analisando entrando e saindo, entrando e saindo ao passar pela porta, rubro de vergonha e me acuando no meu canto para em seguida mergulhar na sala com um salto,tampando os olhos em seguida...Um estupro muito abstrato, aquele..."Um interfalo doloroso", foi uma das primeiras falas do moço naquele dia, descrevendo a distancia cadeira/divã...

    Com mais tempo tentarei localizar mais elementos no Freud. Além dos Tres Ensaios, provavelmente teremos mais no texto-chave sobre os rumos da culpa: "Inibição, Sintoma e Angústia".


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    [Aeternus:6046] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-02)


    - intermediações

    Há cenários que só percebo em segunda ou terceira mão, mesmo neles estando inserdia. Preciso de fotografias ou de palavras para enxergar o que me cerca ( talvez por sofrer daquilo que Raul Seixas cantou como "a cegueira da visão"). Um dos meus prazeres com as histórias de detetive advém da minuciosa descrição de ambientes, vestimentas ou objetos com o foco voltado para as pistas deixadas neles e não nas suas características catalogáveis, pois isto transformaria o detalhismo em manual de botanica ou catálogo imobiliário. Para Balzac "os eventos da vida humana, sejam eles públicos ou privados, estão ligados à arquitetura de uma forma tão íntima que a maioria dos observadores pode reconstruir nações ou indivíduos, na plena realidade do seu modo de agir, a partir dos seus monumentos em praça pública ou pelo exame dos restos da sua vida doméstica".   Pode até ser, mas preciso de Balzac para descreve-los para mim, ou de Frenhofer para pintá-lo e me fazer ver através dos véus da ficção e da imaginação.

    Minha primeira surpresa com o milagre da escrita surgiu vendo um filminho trivial sobre os iroqueses, talvez chamado"Manto Negro". Dos irmãos Taviani tenho lembrança da escrevinhadora que fingia anotar mensagens dos camponeses italianos aos filhos emigrados para a América. E até da Fernanda Montenegro, a Dora, no filme "Central do Brasil" estabelecendo elos.  Mais perto do momento de agora, ainda com Ray Bradbury, vivi novamente o encantamento com a escrita num conto tratando do "The wide world out there". A personagem nunca saiu do seu rincão seco no Arizona, não tinha idéia da geografia do planeta ou a menor sensação do que poderia ser o oceano. Seu maior sonho era conseguir entrar em contato com aquele mundo "lá fora". Não sabia ler nem escrever. Sua vizinha tinha uma caixa de correio e, semanalmente, mostrava-lhe a  correspondência recebida num leque de "Royal Flush" e lhe fazia inveja com notícias sobre parentes residentes na costa ou na capital. Um dia, enfim, um sobrinho foi visitá-la e prontificou-se a lhe ensinar a escrever. Trazia um lápis atrás da orelha. E, devagar, a tia percebeu que não tinha papel, selos, caixa de correio. Também não conhecia ninguém para enviar cartas. A medida em que ia se organizando com o que precisava para, pelo menos, mandar virem catálogos das lojas que ofereciam brochuras gratuitamente, foi notando que também nunca havia visto um carteiro chegar com sua carroça, bicicleta ou mesmo a pé. Sua vizinha abria semanalmente as mesmas cartas há dez anos e, mesmo essas nem lhe haviam sido endereçadas, eram sobras de outra pessoa. O mistério da escrita que permite em silencio transportar-se um segredo de uma pessoa a outra ou que nos abre portas do mundo, apesar de ser tão familiar, me atinge numa hora destas com a força de novidade. Acho que começo cada dia como uma analfabeta. 
    Quis a sorte que no canal "Film& ARts" estivesse passando uma reportagem especial sobre o filho de Petrarca, Guido d´Arezzo, que viveu no começo do século XI num mosteiro beneditino. Pois também não havia me ocorrido, até então, o milagre da notação musical.  Guido precisava ensinar canto gregoriano para os garotos da aldeia e para obter resultados satisfatórios era preciso treinar com eles durante dez anos. Quando bolou as riscas ( inicialmente, tres em amarelo, azul e vermelho) para registrar as notas e intervalos ( era algo com "F" de "fá") o prazo da aprendizagem passou para um ano. E, com isto, tornou-se possível haver dois cantores em contraponto. Depois, três. Finalmente mais de quatro. A música modificou-se e ficou tão comovente que um dos papas proibiu que uma especial partitura fosse cantada ou copiada. Ela podia ser ouvida uma vez ao ano, para uma platéia reduzida e o segredo era protegidíssimo. Até o dia em que Mozart, com 14 anos, foi um dos meninos que pode ouvi-la, gravou os quinze minutos de música na memória e registrou tudo quando voltou para casa, divulgando a missa para o mundo...Nem os chineses tinham um sistema de notação como o de Guido ( eles registravam posições, como a notação para se premir as cordas do violão nos manuais de hoje. Outra novidade foi que, com a notação musical, tornou-se possível ter música como estilo e propriedade de um autor/compositor. Até então era uma tarefa grupal e anonima!

    Pena que não saiba reproduzir o deslumbramento ante a escrita, ante a notação musical, ante o zero ...Deve dar para assistir o programa na tevê ( esqueci do título, como era de se esperar), certamente dá para ler o conto do Bradbury ou assistir o filme da conversão ao cristianismo dos iroqueses ao norte do Canadá...


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    [Aeternus:6047] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2006-02-03)


    - RE:RE:MAGnÓliA: mágoa de ranheta pidão...? Dizem os deuses que a ética sustentada pelo medo não serve para o que os Céus planejam para o terceiro milênio (música do final de 2001)

    Uma colega minha das aulas de filosofia, me falava maravilhas de Lévinas. Eu pensei que fosse me dar bem com ele. Mas nunca fui atrás.

    Agora a Jansyta o apresenta a mim com esses trechinhos, e eles me deram a impressão de que eu não vou me dar bem com Lévinas.

    Concordo quanto ao arrependimento como uma passagem necessária. Mas é aí que entra o delicado da coisa: passagem pra onde? Será que o arrependimento vai servir pro gajo consertar o que fez, ou ele vai achar que sofrendo e se punindo basta? (ó a descorporificação narcísica aí de novo).

    Punição e conserto: eis a MINHA versão da diferença entre a lei humana e a lei divina (ou melhor: de uma das diferenças).

    Pano pra manga, não?


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    [Aeternus:6048] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-03)


    - ranheta pidão e o muro de lamúrias

    Quase comecei a escrever como "título" uma mensagem longa como se fosse ábertura de literatura de cordel, aqueles nomes compridos que contam a história toda antes dela começar. É que tive um sonho que deve ser relacionado a estas listas: foi um momento de anti-Sherazada ou seja, de Shazerada ... Em vez de ter histórias para entreter o sultão a cada noite e assim adiar a morte, vivo nelas duas mil e uma ou duas mil e seis noites, começando a narrar um caso, me esquecendo no meio...convidando para as visitas voltarem no outro dia e eu lembrar para continuar contando...

    Seja como for, tenho preconceito favorável ao Lévinas, embora não entenda grande coisa do que ele escreve sobre a face e a presença, nem da defesa ao que está escrito no livro de Ester ( das traiçoeiras violências bíblicas a de Ester é a maior que já vi).  No entanto, guardo minha perplexidade e de vez em quando tento avançar um passo. O que me instiga é uma promessa de misticismo  no final do percurso que... Mmm.

    Como a questão da justiça humana e divina. Tem um mundo de escolas filosóficas por trás delas porque remetem às idéias de imanência ( justiça humana com inspiração divina) e transcendência ( a lei mosaica e o nome do Pai; o ordálio na idade média ).

    Ainda não pude procurar no Freud.  Quase todos autores importantes estão facilmente accessíveis à investigação pelo Google, mas isto não acontece com a obra de Freud.  E já tive dois disquetes com sua versão eletronica, mais um que dei de presente crente que duplicatas eram demais para uma dona só: funcionam uma ou duas vezes e travam para sempre.

    Contudo... onde me recordo do tema da vergonha e da inveja é nos textos onde Freud fala sobre O Riso ou o Humor.  O tombo na casca de banana, o sentimento do ridículo e seu resgate pela gargalhada. Um superego amigo que dá a mão ( é só ali que vi alguma vez o superego surgir como aliado do sofredor).  Deve ter ainda coisa nos trabalhos sobre o masoquismo, claro.  Nada muito japones, com seu sistema de "salvar a cara" do outro que os leva a cometerem hara-kiri diante daquele a quem desejam envergonhar...

    Mas no Octave Mannoni, que escreve divinamente, tem muita informação. E me recordo das caretas do Sartre diante do espelho, meio que falando sozinho, quando se recordava de algo vergonhoso. E dali associo com outro texto de Freud, sobre um escultor psicótico...

     

     

     


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    [Aeternus:6050] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-03)


    - livre pensar é só pensar

    Eis o que encontrei como notícia sobre o Big Brother: uma referência à vergonha que nada tem a ver com o sexual explícito:Thaís quer chupar dedo no BBB6, mas diz ter vergonha
    No Quarto Africano, a psicóloga paraense Thaís, 27 anos, contou para a dançarina Roberta que está com vontade de chupar o dedo, hábito que mantém desde criança
    "Prometi à minha mãe que ia me segurar para não fazer isso aqui, mas estou morrendo de vontade", admite.
    Roberta ficou surpresa com a revelação.


     


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    [Aeternus:6054] Mensagem do Grupo43
    -LFGallego(2006-02-03)


    - Culpas e Vergonhas

    Embora eu goste de "Magnólia"  [e confesso que me surpreendi com desgostarem tanto do filme, pois até agora, geralmente as pessoas com quem converso sobre filmes adoravam-no; eu talvez ainda goste mais do anterior do mesmo cineasta, o "Boogie Nights" sobre uma "família" que faz filmes pornô hardcore unida e permanece (?) unida (também...vivem se unindo...)]
    e eu não lembre mais (não estou dizendo que não exista, eu teria que rever para concordar ou discordar - e agora alertado sobre este ângulo) da importância que está sendo dada à questão da "redenção pela culpa-para-americano-ver" em "Magnolia"neste filme especificamente...
    enfim, apesar de discordarmos, em princípio, sobre "Magnolia" e o papel do ideário da culpa neste filme, a discussão sobre culpa e vergonha está ótima.

    Sempre ouvi dizer que as teorias psicanalíticas deixaram de lado por muito tempo a questão da vergonha. Não sei. Sei que fui instruído sobre a culpa dita reparadora e a culpa persecutória (acho que é desta última de que se está falando quando se lembra da confissão católica e do que o C.Calligaris dise sobre "o pagamento antecipado" pelo delito a que nos permitimos (uma espécie de "fiança" prévia) ou quando ele fala do "desculpe" - odeio o "foi mal" indiferente das novas gerações - (e quem pede desculpas, geralmente não pede: se acha no direito de ser desculpado: "até me desculpei, pô!" - e o outro que continua magoado, ressentido e não dá mole o perdão é quem fica como o "mauzão da vez", como se fose alguém sem capacidade de perdoar - e às vezes sem capacidade de... por exemplo, andar pois pode ter perdido uma perna no acidente que o Sr.Desculpe-me causou, ou sem dinheiro para sobreviver porque foi tungado por Mr. I'm So Sorry, porque foi sacaneado pelo garotão "FoiMal", etc etc).
    Ao que me lembre, a teoria kleiniana (socorro Jansy!) menciona a culpa "reparadora", mas que esta  que implicaria mais no reconhecimento de que nossos ataques (especialmente os mentais) aos objetos eram maniqueístas, projetando fora, nos outros, o "tudo de ruim" das frustrações trazidas inevitavelmente pela alteridade; depois de reconhecermos que os objetos atacados poderiam ser os mesmos objetos que nos apóiam, sustentam, atendem em dezenas de outras ocasiões, haveria uma elaboração depresiva pelos nossos ataques anteriores, uma culpa "reparadora" do objeto antes atacado, denegrido, estragado porque splittado, mas finalmente agora re-unido em um objeto total, nem idealizado nem persecutório, nem só bom nem só mau - ao mesmo tempo em que deixaríamos de nos identificarmos com um Eu-ideal, só feito de per-feita perfeição narcísica colocando o "tudo de ruim" fora do Eu arcaico, infantil, primitivo... que permanece em tantos de nós em proporções variáveis, geralmente nem tão pequenas como num esquema teórico.
    Isso de odiar a alteridade que não é idêntica a nós mesmos ou ao que esperamos que sejam em função de nos atender, já chamaria nossa atenção para a questão do narcisismo ligado a este "Eu-Ideal", "eu-prazer, "eu-tudo-de-bom", etc, etc.

    Talvez uma simplificação razoável (mas que vai se revelar insatisfatória mais adiante) seja dizer que 1) a culpa é ligada (como Jansy trouxe) à estrutura edípica (afinal, quem acusa a culpa é o famoso "herdeiro do complexo de Édipo", sim: ele mesmo, o meu amigo tremendão... o Supereu (prefiro sempre pensar no "acima-do-eu"). Que geralmente "conhece" o Id que tem ali, ó! pertinho dele, em convivência não-pacífica.
    Enquanto a culpa faria parte da configuração e estruturação edípicas, 2) a vergonha seria ligada ao narcisismo no sentido amplo (o narcisismo estuturante do amor próprio, da auto-estima, da auto-imagem não denegrida neuroticamente, etc etc.) Por isso, dizem, a Psicologia do Self de Kohut teria sido uma vertente teórica que teria dado mais atenção à questão da vergonha, já que começou por se interessar pelas estruturas narcísicas não-necessariamente as "neuroses narcísicas (psicoses) na terminologia de Freud, mas também às necessidades ananclíticas de espelhamento, de ter um modelo ideal protetor, de encontrar alter-egos, etc etc .
    Afinal, há aproximação com o que Calligaris diz quando comenta que "nas sociedades em que predomina a vergonha, o sujeito escolhe agir, se abster ou impor limites à sua ação para não perder a face e para preservar ou resgatar sua honra e sua dignidade (...) ele não rouba para evitar a desonra."

    A confusão se estabelece quando a gente se pergunta quem estabelece o critério de desonra, para quem se quer preservar a dignidade. Porque o usual suspect dessas operações é, novamente, nosso velho conhecido o Supereu! Quem mais? De quem o envergonhado se esconde? De si mesmo, é claro, mas como se estabeleceu esse "critério" de que algo é vergonhoso?
    Infelizemente não tenho como consultar no mommento um calhamaço chamado "The Wide Scope of Shame" que não sei onde foi parar antes de eu conseguir ler 10% dos trabalhos, bastante complexos e exigentes de atenção, mas que era uma alentada coletânea de textos de psicanalistas americanos sobre a questão. E não pensem que eles sejam sempre aqueles bobocas que se vê caricaturados em filmes: no Congresso Internacional que houve aqui no Rio em julho, os que conheci e asiti citavam mais Lacan  e nem lembravam de Hartmann e da psicologia do Ego, mais Stolorrow (intersubjetivismo) do que Margareth Mahler e assim por diante.
    No final das contas, acho que Calligaris coloca bem questões de uma "psicologia cultural" (nada contra) e ligada a um nível Consciente, mas que não esclarece (como eu não consegui) metapsicologicamente a questão da culpa e da vergonha.

    P.S.: 1)Para terminar, um ponto que tb me chamou atenção: Jansy lembrou, do texto de Freud sobre o humor, "o tombo na casca de banana, o sentimento do ridículo e seu resgate pela gargalhada." que me fez lembrar do que Kohut coloca como uma das mais importantes "transformações" do narcisismo arcaico: o senso de humor de poder rir de si mesmo, de seu anterior perfeccionismo ilusório, isso tudo podendo levar a uma verdadeira joie de vivre... ou sabedoria.
    P.S.: 2) Outra confusão como a de culpa e vergonha se estabele ce na questão do tal "amor", palavra-ônibus (ou camburão) onde cabe de tudo, muito.
    Não concordo com as frases postadas do tipo: "O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada. Nem no Crato... nem na Suécia. Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o "the end" sem uma quebradeira monstruosa. Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.
    O mais frio, o mais "cool" dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim."
    Acho quer de fato, também não pode "é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo." e concordo que "o fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.".
    Mas aquele barraco de que se fala acima, me parece muito mais ligado ao narcisismo ferido do que ao que se poderia conceituar idealmente como "amor objetal". Como dizia o Barão de Itararé sobre o ciúmes: "mais do que uma questão do próprio amor, é uma questão de amor-próprio".


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    [Aeternus:6056] Mensagem do Grupo43
    -LFGallego(2006-02-03)


    - P.S. que não seguiu no "Culpas e Vergonhas"

    P.S.: 1)Para terminar, um ponto que tb me chamou atenção: Jansy lembrou, do texto de Freud sobre o humor, "o tombo na casca de banana, o sentimento do ridículo e seu resgate pela

    gargalhada." que me fez lembrar do que Kohut coloca como uma das mais importantes "transformações" do narcisismo arcaico: o senso de humor de poder rir de si mesmo, de seu anterior perfeccionismo ilusório, isso tudo podendo levar a uma verdadeira joie de vivre... ou sabedoria.
    P.S.: 2) Outra confusão como a de culpa e vergonha se estabele ce na questão do tal "amor", palavra-ônibus (ou camburão) onde cabe de tudo, muito.
    Não concordo com as frases postadas do tipo: "O amor, se é amor, não se acaba de forma
    civilizada. Nem no Crato... nem na Suécia. Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós
    consegue escrever o "the end" sem uma quebradeira monstruosa. Fim de amor sem baixarias é o atestado, com
    reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais
    estava.
    O mais frio, o mais "cool" dos ingleses
    estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano
    esse barraco sem fim."
    Acho quer de fato, também não pode "é sair por ai assobiando, camisa
    aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das
    calçadas e do tempo." e concordo que "o fim do amor exige uma viuvez, um luto, não
    pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com
    mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela
    frente.".
    Mas aquele barraco de que se fala acima, me parece muito mais ligado ao narcisismo ferido do que ao que se poderia conceituar idealmente como "amor objetal". Como dizia o Barão de Itararé sobre o ciúmes: "mais do que uma questão do próprio amor, é uma questão de amor-próprio".



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    [Aeternus:6058] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula Tomatinho(2006-02-03)


    - RE:RE: Come on, catch-up...

    Hoje estou "de verde" nos comentários da Jansyta.

    "Rapidinho, de cara assim, só me ocorre a primeira grande referência na qual a vergonha aparece quase como "instinto" porque se manifesta espontaneamente, de dentro pra fora. Fica nos 3 Ensaios, já em 1903. Não vem ligada à culpa, principalmente nada a ver com o inconsciente".

    Ah, foi daí mesmo que eu tirei a vaga lembrança sobre o pudor. Percebo agora que, na época em que li, não fiz questão de me deter sobre isso porque achei uma coisa meio datada... Magina, pudor espontâneo...?? Não, não dei importância. Fora que aquilo estava longe de uma amarração ética com a abrangência coletiva como a que se refere o Calligaris.

    Já os outros textos ("Inibição, Sintoma e Angústia" e o do Sartre) de fato eu não li ainda.

    Não que eu despreze a importância da vergonha, aliás, acho que ela pode ser letal, especialmente se associada ao escárnio emitido pelos circundantes, o que a torna mais repressiva até mesmo do que a ameaça de violência - por que esta leva à contenção pelo medo, mas o conteúdo reprimido continua lá, transformado em ressentimento. Essa vergonha advinda de uma reação ríspida do outro suscita mais o desejo de esconder alguma coisa do que de eliminá-la, ao passo que a vergonha pelo escárnio pode levar a um desejo de suprimir uma parte de si, um horror...

    Agora, a culpa como motor da ética, a nós que nascemos numa cultura de herança católica (por menos católicos que nossos pais gostem de se admitir), não é nada difícil de entender.

    Só que nenhuma das duas coisas me parece um bom start na direção do sentimento ético - meu referencial agora é a empatia, não consigo evitar.

    Depois tento mandar um trecho que escrevi prum amigo meu, neste fim de semana sobre o Catolicismo como religião do medo, sob a propaganda enganosa de ser a religião do amor, e de como isso inventou o individualismo ao inventar a expiação individual: o sofrimento puro e simples, sem um propósito mais nobre do que o de salvar a própria alma, coisa socialmente inócua, irreal, descorporificada.

    Em Magnólia, por exemplo, alguns personagens até tentam sair da auto-suficiência do gozo do desgosto ressentido e auto-punitivo, e alcançar uma reparação, alguma reconciliação com o outro. Mas é aí que é niilista: ao dizer que não há empatia possível, que a reconciliação só consegue ser uma espécie de delírio, que é sempre e somente interna, nunca REAL. E é disso que eu discordo.

    "Inibição, Sintoma e Angústia" e o do Sartre) de fato eu não li ainda.

    Não que eu despreze a importância da vergonha, aliás, acho que ela pode ser letal, especialmente se associada ao escárnio emitido pelos circundantes, o que a torna mais repressiva até mesmo do que a ameaça de violência - por que esta leva à contenção pelo medo, mas o conteúdo reprimido continua lá, transformado em ressentimento. Essa vergonha advinda de uma reação ríspida do outro suscita mais o desejo de esconder alguma coisa do que de eliminá-la, ao passo que a vergonha pelo escárnio pode levar a um desejo de suprimir uma parte de si, um horror...

    Agora, a culpa como motor da ética, a nós que nascemos numa cultura de herança católica (por menos católicos que nossos pais gostem de se admitir), não é nada difícil de entender.

    Só que nenhuma das duas coisas me parece um bom start na direção do sentimento ético - meu referencial agora é a empatia, não consigo evitar.

    Depois tento mandar um trecho que escrevi prum amigo meu, neste fim de semana sobre o Catolicismo como religião do medo, sob a propaganda enganosa de ser a religião do amor, e de como isso inventou o individualismo ao inventar a expiação individual: o sofrimento puro e simples, sem um propósito mais nobre do que o de salvar a própria alma, coisa socialmente inócua, irreal, descorporificada.

    Em Magnólia, por exemplo, alguns personagens até tentam sair da auto-suficiência do gozo do desgosto ressentido e auto-punitivo, e alcançar uma reparação, alguma reconciliação com o outro. Mas é aí que é niilista: ao dizer que não há empatia possível, que a reconciliação só consegue ser uma espécie de delírio, que é sempre e somente interna, nunca REAL. E é disso que eu discordo.

    "Come on, catch-up..."

    Bom, a Jansyta já tá tirando esse sarro todo de mim, legáu.


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    [Aeternus:6060] Mensagem do Grupo43
    -Manoel(2006-02-03)


    - RE:RE: Come on, catch-up...

    Esse troço de catch-up me recorda um ocorrido ao meu patrício Joaquim, que casou donzelo e na lua-de-mel queria tirar o atraso sem dar folga à Maria. A pobrezinha, já esfaimada e desnutrida pediu tempo para se alimentar e tiveram que ir ao supermercado comprar gêneros. Convenceu ao Quincas que ele tambáim precisava se alimentar, e foram. Com pressa de voltar aos deveres conjugais, Quincas propôs de irem, cada qual dos dois, por um corredor, para as compras serem feitas mais rapidamente. De um corredor para o outro Quincas perguntava em voz alta: - E aí, Maria, queres que compre azeitonas? - E ela repondia: quero! E ele prosseguia: - Queres macarrão? - E ela: - Quero! - E ele: - Queres parmezão? _ Quero! Até que ele perguntou: - Queres ketchup? - E ela, assutada: Aqui não, Quincas! Aqui, não!

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    [Aeternus:6062] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-03)


    - RE:RE:RE: Come on, catch-up...

    Ai, pobre da Maria. Ainda mais com tomates verdes fritos. 

    Prefiro outra piadinha, do genero da que enviei há dias:
    O português vê uma máquina de Coca Cola e fica maravilhado.
    Coloca uma fichinha e cai uma latinha. Coloca 2 fichinhas e caem 2  latinhas.
    Coloca 10 fichas e caem 10 latinhas. Então ele vai ao caixa e pede 50 fichas.
    Diz então o caixa:
    - Desse jeito o Sr. vai acabar com as minhas fichas. 
    - Não adianta, eu não paro enquanto estiver ganhando.

    Mais no espírito do filme temos aquela do português que viu uma placa "Trocam-se segredos" quando passou em frente ao balcão de um chaveiro. Parou abruptamente, entrou na loja, olhou para os  lados e cochichou para o balconista:
    - Eu sou gay, e você?!
      


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    [Aeternus:6063] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-02-03)


    - RE:RE:RE: Come on, catch-up...

    Não se avexe, seu conde. É disso mesmo que vinha falando ( e o Gallego retomou, a partir do Kohut): da salvação pelo humor.

    Tudo depende do nosso ponto de investimento narcísico ou de angústia. Uma criança de um ano e meio pode não gostar de revelar seu nome e não se importar de estar peladinha ou com a roupa suja. Ainda assim não deixa de ser uma forma de "pudor sexual" porque narcísico ( é libido, né?).  Até a defesa da honra pode não passar de uma questão de narcisismo na maioria dos casos.

    Sei que há tempos discutimos na lista vergonha e culpa, Irving Goffman e sua cultura. Assim como pagar pedágio do pecado ou fazer reparação antecipada não deixa de ter equivalência na antiga venda das indulgências e de terrenos no céu contra as quais se inssurgiu Calvino.

    Galleguito, não vou entrar nas equações da álgebra de Klein, só rapidinho: culpa persecutória tem a ver com a dinamica psicótica, na qual um superego primitivo e cheio de dentes ( feminino!) antecipa a salvação pela intervenção do pai com sua lei. E, claro, sendo Klein, é um processo imaginário decorrente das várias projeções e introjeções do mundo interno na troca de figurinhas com o mundo externo, mas tudo gerado pela fantasia.   A outra culpa, "reparadora ou depressiva", decorre de uma integração maior que permite suportar o sofrimento de não haver nada idealizado, nada perfeitamente belo, puro, amorável - nem em si, nem no mundo: é hora de juntar os cacos da divindade sem trocar a cabeça de Kali pela de Shiva.

    Fuuuuuuuuuuuuuuui ( não é assim que se diz atualmente? Espero que não seja palavrão)


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    [Aeternus:6417] Mensagem do Grupo43
    -Conde Drácula(2006-03-02)


    - The Shining

    O Iluminado é um Kubrick que não 'captei', mas vale a pena destacar: Shelley Duvall estarrecida ao ver que Jack datilografara um calhamaço inteiro só com a frase:

    Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. 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Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão. Jack é um bobão.


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    [Aeternus:6420] Mensagem do Grupo43
    -Melanie Klein(2006-03-02)


    - RE:The Shining

    Identificação projetiva/introjetiva é isso mesmo.

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    [Aeternus:7396] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-05-30)


    - Rilke e os poemas ao louvor...

    Estava conferindo as anemonas, flores do vento, o gozo com o processo alternado de respirar ( se na vida, assim é pois me parece, a alternancia é parte fundamental do prazer de viver )e retomei um Rilke... Vou trazer para cá o que colhi pelo google e, com tempo, tentarei minha tradução.  Sei que Gallego e Davy conseguiriam provavelmente uma versão melhor, mas já antecipo em alemão e em inglês a ousadia de colocar Rilke em português...

    V [ZWEITER TEIL]

    Blumenmuskel, der der Anemone
    Wiesenmorgen nach and nach erschließt,
    bis in ihren Schooß das polyphone
    Licht der lauten Himmel sich ergießt,

    in den stillen Blütenstern gespannter
    Muskel des unendlichen Emphangs,
    manchmal so von Fülle übermannter,
    daß der Ruhewink des Untergangs

    kaum vermag die weiterzurückgeschnellten
    Blätterränder dir zurückzugeben:
    du, Entschluß und Kraft von wieviel Welten!

    Wir, Gewaltsamen, wir währen länger.
    Aber wann, in welchem aller Leben.
    sind wir endenlich offen und Empfänger?
    V [SECOND PART]

    Flower-muscle, that the windflower
    morning meadow gradually encloses,
    till the polyphonic light of the shrill
    heavens pours into its womb,

    in the outstretched muscle of the quiet
    flower-star of infinite reception,
    many times so overpowered with fullness,
    that the moment's rest before darkness

    can hardly return to you the once
    again hastened back edges of leaves:
    you, resolution and power of how many worlds!

    We, the violent ones, we last longer.
    But when, in which of all lives,
    are we finally open and receivers.

     

    Tensos tendões da flor, que à anêmona
    Circundam na campina ao fecho da manhã 
    Até que a luz polifônica do céu escandaloso
    Esparrama o céu no seu colo recondito

    Expandindo o músculo da calma flor
    Estelar da recepção sem fim,
    Tantas vezes dominada pela plenitude
    Da calma do angelus ao anoitecer

    Dificilmente nos devolve com renovada
    Pressa as bordas das folhas, tu
    Resolução e força dos muitos mundos!

    Nós, os seres violentos, duramos mais tempo.
    Quando, onde todos nós vivemos,
    Nos tornaremos abertos e receptivos? 

    Ajudem, corrijam... Jansy

     


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    [Aeternus:7414] Mensagem do Grupo43
    -Guto(2006-06-02)


    - Rilke - prometo tentar

    Poeminha difícil ... belo, porém.

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    [Aeternus:7453] Mensagem do Grupo43
    -Guto(2006-06-09)


    - aquele Rilke da "anêmona"- tentei

    "Flower-muscle, that the windflower
    morning meadow gradually encloses,
    till the polyphonic light of the shrill
    heavens pours into its womb,

    in the outstretched muscle of the quiet
    flower-star of infinite reception,
    many times so overpowered with fullness,
    that the moment's rest before darkness

    can hardly return to you the once
    again hastened back edges of leaves:
    you, resolution and power of how many worlds!

    We, the violent ones, we last longer.
    But when, in which of all lives,
    are we finally open and receivers. "

    Flor pulsante, que o campo de anêmonas,

    à aurora, aos poucos abraça

    até que a luz polifônica do céu estridente

    se esparrame em sua taça

    No distenso músculo

    da silente flor-estrela de infinito consentir

    Tantas vezes dominada pela plenitude

    que a placidez do crepúsculo

    Não te poderá restituir,

    as bordas das folhas apressadas

    Tu, valentia e força de tantos mundos

    Nós, os violentos, sobreviveremos por mais tempo.

    Mas quando - já que estamos vivos -

    Seremos, enfim, livres e receptivos ?

    (como se faz mesmo para se retirar o espaço duplo entre os versos?)


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    [Aeternus:7470] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-06-12)


    - Agatha Christie, again

    Mesmo havendo filmagens com grandes astros ( Mia Farrow, Ustinov, etc) e belas cenas no Egito, em "Morte no Nilo", um um capricho clássicom em "Assassinato no Expresso Oriente" ( Ingrid Bergman enternecedora, Anthony Perkinsde malucão contagiante e tenso - como sempre, etc...) e uma série com jeitão de comédia em que Miss Marple é Margareth Rutherford como velhota careteira, ainda fico com as filmagens da BBC, nas quais a senhora detetive que medita enquanto tricota é a excelente Joan Hickson e o cenário reproduz a paisagem e os interiores deliciosos das casinhas inglêsas... Mesmo sem esquecer do David Suchet como Poirot em cenários impecáveis, ainda dou o prêmio à Joan Hickson.

    A.Christie não dá muito IBOPE na lista. Para mim o mais rico nos filmes baseados nos romances dela é o retrato fantástico da vida na Inglaterra. Em filmes do Hitch dá para sentir isso, às vezes, mas nas histórias de Christie se nota claramente como se expressa o emaranhado social dividido em classes que esmagam o espaço do indivíduo, então limitado ao campo da excentricidade, e até do crime se não puder aderir ao estereótipo.  Há em tudo uma falsa transparência porque as idiossincrasias tornam-se isto mesmo, em vez de pequenos lapsos divertidos ou amenas incompetências. 

    Se alguém precisar estudar o vocabulário para as várias movimentações de pessoas idosas, de gente enraivecida ou avaliações moralísticas deve aprender em Christie. Todos julgam ( e condenam ou perdoam) o vizinho, o amigo do vizinho ou o vendedor da loja do bairro. Os adjetivos são variados e em amplo leque de oferta porque quase parece que não se pode construir frases sem  determinar algum valor.

    Não sei até que ponto este universo é produto da cabeça da Sra. Christie. Onde há fumaça, há fogo. A vida por lá é boa de se olhar, mas não sei se é tão boa assim para se viver...

     

     

     


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    [Aeternus:7473] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2006-06-13)


    - RE:Agatha Christie, again

    'Há em tudo uma falsa transparência porque as idiossincrasias tornam-se isto mesmo, em vez de pequenos lapsos divertidos ou amenas incompetências'. 
    Mas...e quando as meras idiosincrasias são a essência mesmo dos personagens ?
    Nem se poderia falar em inverossimilhança, já que um expressivo nº de pessoas ancora-se existencialmente nas idiosincrasias, o que leva, inexoravelmente, a considerá-las niilistas - elas não tem a menor noção disso, mas lá irão desaguar !...
    Acho possível, sim, pessoas viverem toda sua vida a partir de horóscopos, ações beneficentes e participação em igrejas, consumismo contumaz-obsessivo, jogatina inveterada e tals. Respeito-os mas não posso admirá-los.
     
    Porém mesmo essa mirada crítica cai no pessoal/intimista, já que o referencial é tão subjetivo !
    Quando Chaplin diz 'amo as mulheres, mas não as admiro', constrói com poucas palavras um mosaico praticamente intraduzível. Não seria melhor lê-lo de forma reducionista, da mesma forma que os missionários da Agatha Christie que vão à África, a trazer seus misteriosos venenos, comodistas senhoras a tomar o chá das 5, médicos falastrões e atrizes egocêntricas, arrogantes e pomposos novos ricos aqui e ali, pequenos casais emergentes na sociedade inglesa, ambicionando ascender mais rápido do que o possível em segredo ?

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    [Aeternus:7474] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-06-13)


    - Christie e as idiossincrasias

    Marcos citou uma frase minha e a comentou:
    'Há em tudo uma falsa transparência porque as idiossincrasias tornam-se isto mesmo, em vez de pequenos lapsos divertidos ou amenas incompetências'. 
    Para ele: " ...e quando as meras idiosincrasias são a essência mesmo dos personagens ?
    Nem se poderia falar em inverossimilhança, já que um expressivo nº de pessoas ancora-se existencialmente nas idiosincrasias, o que leva, inexoravelmente, a considerá-las niilistas - elas não tem a menor noção disso, mas lá irão desaguar !... Acho possível, sim, pessoas viverem toda sua vida a partir de horóscopos, ações beneficentes e participação em igrejas, consumismo contumaz-obsessivo, jogatina inveterada e tals. Respeito-os mas não posso admirá-los.Porém mesmo essa mirada crítica cai no pessoal/intimista, já que o referencial é tão subjetivo!"
     
    Gostei das observações que ele fez.  Não sei ao certo o que eu pretendia com minha observação, penso que a intenção foi ilustrar como, numa sociedade marcada por estratos sociais distintos e na qual cada macaco deve ficar no seu galho, quem não se adapta ao estereótipo do seu papel social, vira um "excentrico". Mas, é aí que vem o ponto sobre a "idiossincrasia": um excêntrico aos olhos daquela cultura, um produto das valorações morais do grupo e dos outros mecanismos de controle social.  É como quando a gente tem um hábito inofensivo, ou faz um lapso e todos passam a nos descrever e caracterizar a partir disto e, no final, nós aceitamos o rótulo e nos identificamos com estas falhas, inicialmente espontaneas.
    Talvez fosse isso mesmo que Marquito apontou, ainda insistindo na ficção de todo comentário uma vez que me baseei apenas nas fantasias e caracterizações da Dama Christie ( e, talvez, outros autores criticos das formalidades, como E.M.Forster) .   

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    [Aeternus:7478] Mensagem do Grupo43
    -LFGallego(2006-06-13)


    - RE: Christie e as idiossincrasias

    Não é que Agatha Christie não dê ibope por aqui, é que tenho com ela, depois de alguns livros seguidos, a sensação de qualquer autor de policiais: quando se lê um e se gosta, queremos ler o outro e outro, mas depois do segundo ou terceiro tudo fica meio igual e a gente cansa do autor. Lê outro autor e o encantamento-cansaço se repete. São recicláveis - repetem um ciclo de prazer seguido de saturação. As arquiteturas, os truques, as características dos personagens detetives (e mesmo dos vilões) viram clichês.
    Acho que é como a questão do desejo que vai se instalar a partir de uma experiência primitiiva nirvânica (acontecida ou mítica) que nunca maiis se repetirá tal e qual o desfrute e delite original, amis original que o pecado original, algo como deve ter sido a transgresão epifânica de comer do fruto proibido.
    Agatha Christie surpreendia especialmente nos Dez Negrinhos quando acompanhávamos as mortes dos dez únicos habitantes da Ilha. E quando morria o décimo... quem era o assassino? Genial!
    Outro truque genial dela era em "Os Cinco porquinhos" ou "O Assasinato de Roger Ackroyd" (dos quais não me recordo de nada, está dando vontade de reler, nada como o olvido para reinstalar prazeres idos e vividos agora esquecidos) em que o narrador se revelava o assassino até então dissimulado, algo como o primeiro enredo policial que foi o de Édipo Rei, onde já havia uma quebra do cânone que ainda nem existia: o detetive era o criminoso!
    Policiais seriam "Irmãos Karamazov" (quem matou o pai? todos em desejo, o que fazia Dmitri se acusar quando não havia desferido nenhum golpe mortal em seu Laio de plantão), "Hamlet" (pesquisa de se se pode acreditar em fantasmas que tiram a graça da história revelando logo de cara que foi o criminoso - mas como matar o atual Rei e dizer: "Matei porque um fantasma me disse que ele matou o rei anterior: ele que era um neoÉdipo ou néoCaim, eu não!" ??? Sem provas, o príncipe ia ser linchado por crime de lesa-majestade) e outros tantos. Até Don Casmurro é um caso policial ainda que banal, de adultério suposto ou ocorrido. Podemos enquadrar Cidadão Kane no grupo (quem ou o que era Rosebud?) e até mesmo "Ano passado em Mariembad" (que coisa é essa que não faz sentido? São todos malucos? Ou o diretor e o roteirista piraram? Ou a mulher é desmemeoriada ou o cara delira dizendo que estiveram juntos ano passado em Mariembad?).
    O magnífico livro de Bioy-Casarés, "A Invenção de Morel" foi associado a "Mariembad" e dizem até que o filme seria uma adaptação do livro argentino. Não sei se chega a tanto, "Morel" é uma espécie de ficção-científica que antecipa imagens holográficas perfeitas, registros físicos de nossas memórias que podem nos ser mortais, obra-prima ainda pouco louvada no Brasil - ao que me parece, tais os seus méritos. Amigo de Borges e algo eclipsado pelo mais famoso, Casarés fez com o  Jorge Luís duas antologias de contos policiais, gênero ao qual se dedicaram em livros paróidicos escritos sob pseudônimo que mesclava os dois escitores amigos. Tenho, mas ainda não li.
    O policial é uma forma de intelectuais se distrairem sem culpa (especdialmente os do Simenon). Mas podem ser bobagens violentas (subprodutos do tipo pulp fiction que deu mestres como Raymond Chandler e Ross McDonald - este, quando acertava a mão em tom mais "existencialista") ou, agora, em  pretensiosos romances enormes com ares históricos (subprodutos do excelente "Nome da Rosa", cujo "Pênculo de Foucault" do mesmo Umberto Eco deve ter servido de modelo para os Códigos da Vinti e seus sucedâneos.)
    Mas não desisito, comprei um passado num mosteiro (de novo!) com boa propaganda na capa e outro passado na Grécia antiga. Provavelmente vou me decepcionar, mas o que fazer com o desejo pelos objetos de desejo?
    Há tempos recebi um anexo de e-mail com uma cena de crime em Roma antiga, eu acho,que mandei para Jansy mas acho que ela não se interessou. Não poso criticar, eu tb não tive paciência de pedir pistas, seguir pistas, etc etc. e desvendar o crime. Mas era bem feitinho, ao que me pareceu.
    Dame Agatha Christie num certo sentido "envelheceu" como a Inglaterra que ela adorava de pré-IIGuerra - apesar da violência de alguns de seus crimes ("Natal de Poirot" que tinha a epígrafe de Macbeth: "Nunca pensei que o velho tinha tanto sangue") e do aspecto histórico que ela deve ter inaugurado em um livro passado no Egito antigo (A Morte não é fim).
    Ela foi retomada como paráfrase no filme do Altman, "Assasinato em Gosford Park" que ironiza aquela mesma elite inglesa aristicrática que, no fundo, Chrsitie idolatrava e "perdoava" como em "Assasinato no Expresso Oriente" (outra resolução criativa fora do feijão-com-arroz do tipo "não é o mordomo, mas pode ser a criada que não é criada mas a filha rejeitada de Lord What's hisName?")
    Ela trapaceia muito nos livros mais fraquinhos dela, Poirot é antipático ao extremo em suas longas preleções de resolução do crime e Miss Marple algo doidivanas enxerida. Mas é um clássico, queiramos ou não. Hitchccock odiava o "who dunit?" de seus livros, ele preferia entregar antes o perigo para deixar o espectador sabendo mais que o herói em ameaça- para ele isso que era suspense. O público pensa diferente dele, eu acho: suspense também é não saber e sofrer identificado com o herói em perigo: passar perigos que não são mortais é uma delícia da fantasia e da ficção. deve liberar adrenalinas e endorfinas para pacatos que não se arriscam em esportes radicais da moda.
    Os mais vendidos atuais podem ser divertidos como o italiano Andrea Camilleri com seu ético polcial Salvo Montalbano que dá receitas sicilianas de pratos e nos dá vontade de comer. Mas algumas vezes algo se esgarça nas tramas, embora de leitura agradável, pouco frustrante. mas muitas vezes, terminando mornas.
    Os crimes, como no mundo atual, muitas vezes ficam sem punição e algo "político" pode estar por trás. O detetive vira um "Tirésias" ou "Cassandra" cujo saber de pouco serve porque não se tem o que fazer com o saber que esbarra no poder (corrupto). O destino segue implacável, o mal  triunfa de uma certa forma.
    Ainda o prefiro ao badalado catalão Vasco Montálban que era antipático e seu detetive, mais ainda, com mania de quimar livros para se aquecer no inverno de Barcelona. Embora talvez ele tenha criado o esquema de recitas (catalãs) e crimes resolvidos, mas sem punição. Seu "Mares do Sul" pode ter sido o único grande livro que consegui ler dele, outros são mais fracos ou mesmo ruins como a continuação do "Mares do Sul" que foi dos últimos que ele escreveu, anos e anos depois.
    O melhor de Agatha Chsristie pode ser lê-la em francês, mania de uma senhora que conheci, já falecida há muitos anos, do tempo em que se estudava francês e não inglês na juventude.
    Outro dia fui visitar uma colega internada por uma bobagem que deu iatrogenia e levei policias para ela se distrair e ela me contou que estava com o mesmo ha´bito: treinar o francês lendo madame Agatha Christie em idioma de Astérix. Para muitos, blasfêmia, mas prova que Agatha é mesmo  tão traduzida e venerada como Shakespeaere a Bíblia. Afinal, quem matou Abel? Foi mesmo Caim? E o autor intelctual do crime, perguntaria o advogado dos psicopatas paulistas que mataram os pais de um(a) deles?

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    [Aeternus:7491] Mensagem do Grupo43
    -Guto(2006-06-14)


    - pizza portuguesa...

    ... é um amontoado de coisas, carinhosamente chamada de "pizza de entulho".

    Por partes: Jansy, que susto, achei que '"remover lista" era no sentido literal. Tô igual aquele cara (não sei onde li) que estripou a mãe, retirando-lhe o útero para ver de onde ele tinha saído. O problema da humanidade não é a agressividade, mas a incapacidade de metaforizar. Jamais chegaria a tanto, claro, hehe.

    Sou fã da Agatha Christie, podem falar dela (bem ou mal) o quanto quiserem que estarei sempre ouvindo. Os retratos (recém) pós vitorianos dela são riquíssimos (detalhes têm que ser o forte de um romancista policial) e, nesse aspecto, nada devem aos "escritores sérios" britânicos. Achava algumas narrativas um pouco envernizadas, mas envernizados são os ingleses dessa (e desta) época. Claro que a solução final das novelas, com todos reunidos numa sala, comportados, bebericando algo e a polícia respeitosamente do lado de fora esperando as primas-donas (Poirot e Marple) exporem suas inteligências é uma fórmula prá lá de farsesca. Mas roman policier é isso aí. Um dia desses assistia um filme dela (não me lembro o nome e nem me lembrava do livro) e a assassina era uma mulher, lésbica, machona, contra todas as evidências do caso, que queria viver com uma das personagens, outra moçoila. Fiquei escandalizado, não com o tema, mas imaginando a possível repercussão desse livro na época. Viados, nem pensar. (como diz o Millor, quem chama viado de veado é viado).

    Perdi o tesão pela seleção brasileira em 1982, e o que restava, em 1986. Gosto do evento, dos jogos, das zebras, mas se o Brasil perde, dane-se. Gostaria de ver o Zico, pelo Japão, ter algum sucesso, já que seu destino não foi com verde e amarela, pelo menos em copas.


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    [Aeternus:7492] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:pizza portuguesa...

    Jogo de espelhos, como título da lista, é legal pra Agatha Christie pois ela tem dois romances com títulos assim: "The Mirror Cracked from Side to Side" e "They do it with Mirrors".
    As reuniões com policiais delicados e drinks depois das quais tudo se resolve e se flagra o assassino são curiosidades britânicas. Creio que estes, daquela época pelo menos, não são autorizados a usar armas de fogo, só  bastões.
    Qual foi o romance com a assassina lésbica? O filme que assisti tinha um casal encantador e Hinch é a fortona que sobrevive, mas não é a assassina. Pelo contrário, é a amiga dela que morre. É uma das histórias da Miss Marple, "A Murder is Announced".

    Guto, sua tradução do Rilke foi excelente. Agora falta o Gallego oferecer a que ele conseguiu para um belo soneto de Shakespeare, lido durante a apresentação do filme "Romeu e Julieta" para discutir amor narcísico...

    Pizza é pizza. Esta é de vários sabores...Romances, cinema, poesia e, finalmente, futebol.
    Bem que eu gostaria de apreciar mais este jogo, de todos em que sou platéia é o mais interessante. E na época da Copa, adoro o clima geral de festa e a ilusão patriótica com as bandeirinhas e verde-amarelo.
    Além do Zico tem outro brasileiro como treinador no estrangeiro, não?


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    [Aeternus:7493] Mensagem do Grupo43
    -Guto(2006-06-14)


    - RE:RE:pizza portuguesa...

    Tem 4 ou 5 treinadores brasileiros (Brasil, Japão, Portugal, Trinidad e Tobago e Arábia Saudita que eu lembre).

    Vou pesquisar o filme da machona e digo depois.

    Fico contente que tenha gostado do Rilke "interpretado" por mim.

    ósculos e amplexos. Bom feriado.


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    [Aeternus:7494] Mensagem do Grupo43
    -Marcos(2006-06-14)


    - RE: há uma Babel brasileira pelo mundo e...

    É fácil compreender : com a popularidade do futebol e a explosão demográfica mundial, os cartolas foram inteligentemente introduzindo novas e novas competições, dando assim motivação aos torneios. Um time que está em 6° ou 7º no campeonato espanhol, por exemplo, segue lutando por vaga em copas européias, que uma vez vencidas levam-no a torneios mais importantes. Afora visar-se o narcisismo e a psicologia do torcedor, tornando campeões vários deles, de diversas agremiações.
     
    O Havelange, em sua época, foi contaminando a Copa do Mundo de países e mais países, para angariar votos fisiológicos que o manteriam à frente do cargo por vários mandatos. Assim é que das tradicionais 16 nações chegou-se às 32 atuais, constituindo esse feirão inicial, um baile à fantasia e aquário mundial, até interessante como fenômeno antropológico.
     
    Ponto mais + feminino, entre as torcedoras, para algumas beldades indo das mais discretas - ainda que a caráter, maquiadas com as cores da torcida a que pertencem - às mais assanhadas, com amplo destaque aqui para as ucranianas, ganhando de longe em sensualidade selvagem das outras. Essa mistura de alguma liberdade política com carga energética muito repressora anterior dá nisso, repetindo a experiência dos colégios e internatos do tipo 'base religiosa forte'.
     
    A análise da Jansy está excelente, e o R.Gaúcho estará sempre serelepe mas com 3 ou 4 caras a seu redor babando disposição e derrubando-o. É fundamental, pois, a movimentação dos demais, aproveitando os espaços que ele abre com esse potencial de exigir marcação especial.
    Dida é tranqüilo e seguríssimo, mas toma frangos homéricos com essa mesma imperturbável tranqüilidade. É o próprio cara borrado da anadota do tratamento psicoterápico. 
     
    Ponto cômico maior desses jogos fora do usual : os gritos femininos de pavor, em sinfonia, diante dos perigos por que passa o time brasileiro. Como antigo aficcionado, consigo prever os lances que serão cortados pela zaga dentro de uma certa margem de cálculo/erro, mas nos nossos jogos quase todos esses lances são acompanhados de longos gritos agudos de pavor como o dos filmes do Drácula, Fred, Jason, serra elétrica...
    Quando havia real perigo nesses lances de área contra o Brasil, meu pai rebatia em casa a 'bola' e depois exclamava 'pôxa !...essa ei tive que tirar daqui'.

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    [Aeternus:7496] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:RE: há uma Babel brasileira pelo mundo e...

    Quando fui à padaria peguei a televisão de lá com o jogo da Alemanha contra a Polonia e curti o finalzinho do jogo com o gol da salvação germanica. Achei um barato o pingue-pongue das bolas do ataque alemão, iam até o magnífico goleiro que as pegava de um modo quase inacreditável, em seguida havia uma grande comoção depois que ele lançava a bola e os teutos retornavam a toda, parecia jogo de pin-ball com a pelota ( ha! sinonimos antigos) indo em zigue-zague em chutes diretos. Até que não deu pro polonês segurar.

    Estão considerando o pobre Ronaldinho El Gordo como um "perebão" ( não sabia que o termo pereba vinha do tupi, para "chaga"!). Continúo apostando na recuperação dele, mas estou menos convicta. O peso emocional parece insuportável pra ele e lembrei de uma Copa na qual ele caiu duro de angústia.

    Me disseram que o resto do Brasil comemorou o 1 x 0 do Brasil, mas em Brasília o silêncio foi quase unânime e parecia que havíamos sido derrotados. Semanas antes, festas e bandeirinhas pra todo lado, gente buzinando e acenando bandeira. Depois do jogo, o silêncio.  Porque será que, aqui, ficou tão diferente do resto do país? Seríamos tão "preciosistas" na capital ou...ou...

     


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    [Aeternus:8447] Mensagem do Grupo43
    -Criticos.com.br(2006-12-15)


    - Resenha sobre O Labirinto do Fauno

    (está no site www.criticos.com.br enquanto o filme estiver em cartaz; copyright do site, disponível para repasse por e-mail)
     
    GROTESCO COM ARABESCOS

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    6/12/2006

    A questão mais interessante que O Labirinto do Fauno pode levantar diz respeito ao que seria mais assustador: a realidade quando nos traz ameaças que paralisam de pavor, ou tudo aquilo de que a nossa fantasia é capaz?

    Obras como as de Edgard Allan Poe ou de Hoffmann, para ficarmos apenas com dois clássicos tidos como precursores da literatura fantástica, poderiam nos induzir à resposta de que a imaginação é capaz de conceber horrores “inimagináveis” – valendo a contradição. Vale lembrar que A Colônia Penal de Kafka viu transformada sua fantasia assustadora em obra premonitória - quando praticamente seus terrores se concretizaram nos campos de concentração nazistas. Além deles, só no século XX tivemos os gulags, os porões de torturas de ditaduras fascistas, as aplicações das “leis” de discriminação racial, tanto nos EUA como no regime de apartheid da África do Sul - dentre muitos outros mergulhos na aparentemente infinita capacidade do ser humano de criar ou recriar abismos piores do que o próprio inferno imaginado por Dante ou pelas religiões com a ênfase na culpa a ser redimida por punições sado-masoquistas.

    A imaginação infantil não é menos pródiga na criação de monstros do que os piores delírios paranóicos de algumas formas de doença mental - nem do que a criatividade mórbida dos mais inventivos artistas. E é na questão formulada acima, contrapondo horrores reais e terrores imaginados, que reside o cerne do novo filme de Guillermo Del Toro. Entretanto, o cineasta e roteirista parece não querer deixar dúvidas: por mais apavorante que seja o mundo de fantasia da personagem central, a menina (significativamente nomeada) Ofélia (Ivana Baquero), a realidade à sua volta é muito pior. E para garantir isso, Del Toro pesa a mão na escatologia e nos requintes de sadismo e violência, especialmente nas atitudes do “Capitão Vidal”, o padrasto da menina, interpretado sem as sutilezas de que o ator Sergi López já demonstrou ser capaz em filmes como Uma Relação Pornográfica, ou como o psicopata aparentemente amistoso de Harry Chegou para Ajudar.

    O clima de fábula alternada com metáforas pouco sutis do mundo “real” não atenua o grotesco das cenas bizarras, como os assassinatos que Vidal comete com estiletes furando olhos da vítima, ou quando ele mesmo “costura”, com doloroso prazer, sua boca cortada com uma faca pela personagem de Maribel Verdú. As mais assustadoras fantasias da menina ávida por leituras seriam menos fatais (até porque prometeriam um retorno a uma vida anterior como princesa em um reino mágico) do que esta realidade violenta e destrutiva na qual se encontra: um posto militar representando a ditadura de Franco em 1944, já há anos vitoriosa na Guerra Civil, e em franco (vale o trocadilho) alinhamento com o nazi-fascismo de Hitler e de Mussolini - que deram uma mãozinha e tanto para sua vitória.

    Em suas excursões a um mundo paralelo (com algumas menções ao Reino de Oz ou ao de Alice no País das Maravilhas – em tintas bem negras) Ofélia enfrenta perigos asquerosos como o vômito de um enorme sapo, ejetado em forma de “bolha assassina”, contendo uma chave que lhe permitirá outro passo nas (sempre em número de três) provas a que tais heróis ou heroínas são submetidos para confirmar suas virtudes ou identidade. Um outro monstro tem olhos nas palmas das mãos e, portanto, uma face sinistra, com rosto e corpo emaciados lembrando as representações de zumbis, de um morto-vivo. Além de insetos-fadinhas e do Fauno (Doug Jones) do título, que pode ser amistoso – ou não.

    Mas nada será mesmo pior do que a realidade violenta onde está com sua mãe perto de dar à luz um filho do padrasto sádico de Ofélia. À parte possíveis alusões psicanalíticas mais sutis, de inveja do irmãozinho que vai nascer ou de rejeição de uma nova Electra contra Egisto, o cineasta parece mais interessado em retomar a proposta de um filme anterior seu, o interessante A Espinha do Diabo (de 2001), no qual elementos sobrenaturais se misturavam com questões políticas, e sempre da Guerra Civil Espanhola – só que em 1939 e com as mesmas perseguições dos fascistas aos comunistas, situação que ainda se mantém em O Labirinto do Fauno, que se passa seis anos depois.

    Neste labirinto, entretanto, del Toro parece ter se perdido em meio ao deslumbramento com efeitos especiais mais sofisticados do que no filme mais antigo - e na maior ênfase de sua fascinação pelo grotesco, um dos gêneros mais arriscados nas artes visuais, ainda que com antecedentes tão nobres como Goya na pintura (O Sonho da Razão produz Monstros) e Buñuel no cinema: não só, mas mais especialmente no destemor de seus filmes iniciais e nos da “fase mexicana” – do mesmo país de Del Toro. A fértil tradição hispânica nesta área, entretanto, parece trocada pela bizarrice à moda dos efeitos virtuais de Peter Jackson, seja por apelar a bichinhos virtuais nojentos como os de King Kong, seja no retrato delirante de duas mocinhas à maneira de Almas Gêmeas, por sinal muito mais bem-sucedido na mistura de fantasia e realidade,

    Em A Espinha do Diabo, o fantástico não era “explicado” (aqui há um momento em que vemos Vidal vendo Ofélia como que falando sozinha) e o mundo das crianças era invadido pelas perversões dos adultos e pelos crimes, políticos ou não. O Labirinto do Fauno faz o caminho inverso de tentar substituir o mundo adulto, perverso e violento, por um mundo fantástico terrorífico, ainda que com mais esperanças de sucesso e poder. E deixa poucas dúvidas sobre o escapismo de Ofélia atraída por ameaças fantasiosas às quais se entrega: mais fascinantes e certamente infinitamente menos desprazerosas do que as do mundo real em que está imersa.

    É uma pena que Del Toro tenha deixado de lado um “princípio” enunciado em A Espinha do Diabo: “O que é um fantasma? Uma tragédia condenada a se repetir sempre e sempre? Um instante de dor, talvez. Alguma coisa morta que aparenta estar viva. Uma emoção suspensa no tempo. Como uma foto borrada. Como um inseto preso em âmbar”. Com este filme mais recente, ele corre o risco de se transformar em fantasma de si mesmo, repetindo-se, mas como farsa grotesca em vez de avançar nas fronteiras do que chegou a parecer uma saudável influência buñueliana entrevista no seu filme de 2001.


    O LABIRINTO DO FAUNO (EL LABERINTO DEL FAUNO)
    México / Espanha / EUA, 2006
    Direção e roteiro: GULLERMO DEL TORO
    Fotografia: GUILLERMO NAVARRO
    Desenho de produção: EUGENIO CABALLERO
    Montagem: BERNAT VILAPLANA
    Música: JAVIER NAVARRETE
    Efeitos Especiais: CafeFX
    Elenco: IVANA BAQUERO, DOUG JONES, SERGI LÓPEZ, MARIBEL VERDÚ
    Duração: 112 minutos
    Site oficial:
    clique aqui

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    [Aeternus:8487] Mensagem do Grupo43
    -Bernardo(2006-12-20)


    - RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

    Há algo muito maior dentro do filme de Guillermo Del Toro e que o pessoal – concentrado ou não – perdeu. É a pista com que o diretor indica que a fábula imaginada por Ofelia é real e tá de fato acontecendo, bem no final. O 1º plano do filme, em que vemos o sangue de Ofelia retornando do exterior para o interior, entrega a tragédia que testemunharemos, mas exibe a capacidade do cinema em remodelar e subverter as leis que nos regem.

     

    O espectador conhece a necessidade de Ofelia em refugiar-se da duríssima realidade da Espanha após a vitória de Franco, pois quantos não utilizam o cinema para abstrair do mundo ao redor. Obrigada a instalar-se numa área rural, onde come o pau entre Nacionalistas e Republicanos, junto com a mãe e seu pai adotivo, o ameaçador Capitão Vidal (Sergi López, impressionante), Ofelia descobre no labirinto abandonado da casa o terreno perfeito para exercer todo seu conhecimento sobre fábulas. É o que dá vida ao Fauno, uma criatura mágica que lhe impõe algumas tarefas. O objetivo é resgatar a chave que garantirá a reentrada no mundo mágico, distante de toda a violência e tristeza que a cerca. Dentre todas as criaturas dos contos de fada, o Fauno, juiz e guia de Ofelia, é a escolhida por seu subconsciente (??): variação do deus Pan, criatura das possibilidades e do pensamento livre, é a única capaz de saciar seu desejo latente de transformação.

     

    Mas... Ofelia torna-se refém da fantasia que nada mais é que uma interpretação do real a partir de seu âmbito (Heidegger). Quando Del Toro planta os pés da trama firmes na realidade, o espectador pode se perguntar como é que diabos ele irá agora integrar todos os stills fantásticos disseminados durante o filme. A fantasia é parte integrante da realidade, logo o filme nunca fugiu, nunca se alienou. O ameaçador Homem Pálido é uma interpretação do autoritarismo da Igreja, pune os que cedem à tentação que ele próprio sugere, com direito a uma ameaçadora via-crucis. As conspirações do Fauno são produto da revolta de Ofelia contra Vidal e a fantasia a seduz para um perigoso jogo, de consequências e peças maiores do que ela jamais poderia se dar conta com sua idade. A violência que permeia o filme precisa sempre ser levada ao nível do horrivelmente absurdo – nem o real pode ser tão real... ou pode?

     

    As questões levantadas por Del Toro perturbam. A realidade é liderada por um bocado de fantasias. Qual o poder transformador da fantasia sobre a realidade. Qual a função do fantástico. Em que o diretor se reconhece na fábula que inventou. Del Toro assume sua posição: irá fantasiar, não importa o que o real lhe cobre – se a morte é amarga, é doce morrer pelo sonho. Ser um mártir pela fantasia... eu amo esse filme pra caralho.

     

    [Notão: infelizmente, as crianças contemporâneas foram vítimas da psicologia de mercado e tiveram seu desenvolvimento cinematográfico e emocional atrasado por guaxinins falantes, peixes falantes, carros falantes, duchas íntimas falantes e sabe-se lá o que mais pode ser transformado em bonequinho de 19,99 nas Lojas Americanas, mas fábula adulta que seja, “O Labirinto do Fauno” ainda é fábula: sombria, agressiva, melancólica, que não nos poupa, mas que emociona com uma intensidade da qual crianças mais maduras não deveriam ser privadas. Me remeteu a uma era em que a Disney utilizava de uma tática de choque e traumatizava as criancinhas: atentava contra a Branca de Neve – e tem coisa tão assustadora quanto a desgraçada se perdendo na floresta à noite? “O Labirinto do Fauno” não é produto insípido, é pura mágica, a Super Nanny deve me mandar um e-mail de repreensão dizendo o quão inadequado o filme é, mas não interessa: mesmo que os pimpolhos – que já saibam se comportar dentro de um cinema feito gente e não como as gárgulas de classe mérdia, frequentadoras da série Harry Potter – se caguem todos no cinema de medo, uma coisa que eles irão aprender: a crueldade do mundo & o poder da imaginação. Sem contar que, ao contrário de nós e nossos 500 divórcios, talvez eles aprendam a dar alguma relevância aos sentimentos que ebulem e assombram]

     


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    [Aeternus:8488] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-12-20)


    - RE:RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

    Caro Bernardo,

    não vi o filme de Del Toro, mas você abriu algumas brechas para que eu pudesse conversar assim mesmo. Por exemplo, ao escrever "a fantasia que nada mais é que uma interpretação do real a partir de seu âmbito (Heidegger)... A fantasia é parte integrante da realidade, logo o filme nunca fugiu, nunca se alienou.."

    Espero não estar chovendo no molhado quando digo que, se bem que possa concordar com você e com Heidegger que a fantasia é parte da realidade, estamos no ambito da realidade psíquica. Os monstros do sono da razão podem representar empuxos angustiantes advindos das pulsões sexuais e das de morte, mas ainda assim são instrumentos de aproximação ao desconhecido traumatizante. 

    Construímos o mundo externo, em parte, a partir da realidade interna, mas, lendo seus argumentos, não consigo ver claramente como pode o filme não ter se "alienado". Os pesadelos não são partilháveis...

    Mitos, ao contrário, são "sonhos da coletividade" e não uma visão particular. São interpretações das experiências inexplicáveis observadas no mundo externo: primeiro temos um susto com o estranho e, depois, elaboramos esta vivência usando a fantasia.  

    Fantasias também podem servir como fuga à realidade, quando mais do que tentar interpretar o mistério a partir de alguma simbolização, tenta-se negar sua existência.  Até o conluio sado-masoquista é uma negação da realidade que tem mais nuances do bem e do mal.  Nem toda fantasia tem poder transformador no sentido que você lhe dá...

    Quanto aos filmes para crianças, muitos são quase deformações realizadas a partir dos interesses comerciais das grandes empresas de entretenimento. Outros não são, de modo algum e não precisamos recordar dos horrores da Branca de Neve ou de Bambi, há filmes modernos que dão conta disso.

    Ando opinando um bocado como quem viu o galo cantar, meio fora de sintonia. Me desculpe. Mas... aí está, agora passo a bola pra quem viu o filme...


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    [Aeternus:8493] Mensagem do Grupo43
    -pp.luiz fernando gallego(2006-12-21)


    - RE:RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

    Esta é para manter a polêmica - embora eu vá dizer sinceramente o que eu penso, assim como suponho que Bernardo fez em seu texto.
    Acho muito pouco interessante este tipo de "interpretação" onde cada coisa é um "símbolo" de outra coisa a ser decifrado. Por exemplo: "O ameaçador Homem Pálido é uma interpretação do autoritarismo da Igreja, pune os que cedem à tentação que ele próprio sugere, com direito a uma ameaçadora via-crucis."
    Ou:
    As conspirações do Fauno são produto da revolta de Ofelia contra Vidal e a fantasia a seduz para um perigoso jogo, de consequências e peças maiores do que ela jamais poderia se dar conta com sua idade.
    Cansei de escutar "decodificações" deste tipo a respeito de filmes como "Mulholland Drive" (Cidade dos Sonhos) feito por um dos maiores picaretas do cinema, o David Lynch - talentosíssimo em criar "climas" emocionais insólitos, mas sem muito "recheio" de fato. Alguns colegas psicanalistas babam com seus filmes desde "Veludo Azul" que tem uma série de perversões pour épater, clima cinematográfico virtuosísitco e uma historieta de revelações para o personagem central sobre seu "lado negro". Mas nada mais consistente do que Mestre Buñuel fez mais vezes e melhor, sem obviedades, sem "símbolos" a serem decifrados (ele morria de rir das "interpretações" dos amigos dele psicanalistas). Os "símbolos" eficazes são para serem vividos, experimentados, intuídos: a comunicação eficaz é quase de "inconsciente" para  "inconsciente" sem passar pelo sub (termo que Freud nunca usou) ou pré-consciente (este, sim, faz sentido de algo que está perto da consciência).
    David Lynch agora arrumou uma vaca para fazer propaganda de seu novo filme. Depois dessa apelação, já estão começando a desconfiar - finalemente - que ele é picareta mesmo, que está abusando do marketing. No fundo deve rir da cara de quem fica "descobrindo" sentido em suas bizarrices gratuitas. Pena, porque fez boas coisas como "O Homem Elefante", por exemplo, com menos "complicação" intelectualóide.
    Não é o caso do Del Toro, que me parece sincero em seu propósito, mas desta vez, com mau hálito intelectual. Ele foi mais "surrealista" em "A espinha do diabo" com algo sobrenatural em ação (nada era "explicado" sobre o mal naquele colégio: era O MAL), com liberdade de surrealista nos limites do bom para o "mau-gosto", do "kitsch", do passional, da latinidade melodramática hispânica, do patético da guerra civil espanhola (e de todas as guerras), do retorno a um estágio pré-civilizatório sem lei ou com leis hipócritas que servem apenas de fachada e de aparência. Um filme imperfeito, mas honesto, inspirado, corajoso e ousado. Eficientíssimo. Desconcertante. Criativo.
    Já nO labirinto do Fauno, ele mergulha na escatologia, no grotesco (sem o mesmo talento de antes para enfrentar uma categoria tão árdua como a do grotesco desta vez) - e  na obviedade do personagem sado-masô que mais um pouco vai parecer aqueles ditadores sul-americanos dos romances do chamado "realismo fantástico" que tinham 3 metros de altura para ficar bem clara a "metáfora" (?) do poder desmesurado. O Sergi Lopes furando os olhos dos outros, costurando a bochecha rasgada quase gozando... é grotesco na ênfase do filme em "dizer" : "Viram como ele é sado-masoquista?"  "Mau como o fascismo de Franco!". É mesmo? Que coisa!!!
    Como também é óbvia a idéia central de que "a fantasia nada mais é que uma interpretação do real a partir de seu âmbito". Não precisamos de Heidegger aqui: esta é a proposta mais do que evidente do filme que não abre espaço para o que poderia ser sua melhor questão: qual o pior terror? O que existe ou o que imaginamos? E esta pergunta nem sempre é fácil de ser respondida.
    Depende! Mas o filme deixa claro que neste caso é a "realidade" política e perversa em que Ofélia é jogada. O "outro mundo" da fantasia (com seus outros horrores) pode até ser bem menos ruim como escape, e também não passaria de uma outra forma de representar a mesma realidade numa apresentação "fantástica".
    Metáforas podem ser poéticas ou perigosas. No caso deste filme, o perigo é o da banalidade da "mensagem" óbvia transmutada em arabescos (como nos efeitos especiais ou no "roman à clef" do roteiro) com simbologia fácil e empobrecedora: tudo é explicadinho.
    Ou nem tudo: assim como o labirinto" pode ser "real" na visão de Bernardo quando ele abre seu texto ("o diretor indica que a fábula imaginada por Ofelia é real e tá de fato acontecendo"), poder-se-ia pensar o oposto a partir de uma cena em que o espectador vê Ofélia falando com o Fauno, mas do ângulo do padrasto vemos que ele vê Ofélia falando sòzinha. Nós vemos Ofélia falando sozinha com o padrasto vendo a mesma coisa. Por favor, naõ me digam que ele não tinha acesso a ver o Fauno porque ele é mauzão e Ofélia é boazinha. Até porque não é só boazinha. O melhor que eu vi sugerido no filme foi o ciúmes dela em relação ao irmãozinho na barriga da mãe, ciúmes reprimido, mas bem sugerido pelo desconforto que ela tem com o padrasto, afinal, pai do irmãozinho. Por mais malvado que o padrasto seja, ela pode ser uma "Electra" com ódio de Egisto (que não prestava também), mas principalmente porque ele ocupa o lugar do pai junto à mãe viúva. Gosto da idéia de que o falecido pai era alfaiaite do padrasto. (As roupas do pai - no sentido de os hábitos do pai - não serviam no padrasto fascista - aos olhos de Ofélia).
    Ofélia é um nome marcado para morrer como a mais famosa Ofélia, a noiva-vítima de Hamlet e da podridão do Reino da Dinamarca. Ela se sacrifica, ela perde o pai, ela ama alguém que a abandonou, ela se deixa morrer ao afundar no lodo. O nome da personagem do filme não é gratuito, foi escolhido como forma "esperta", mas caba sendo outra obviedade ao antecipar o futuro da menina, futuro algo paralelo ao da personagem de Shakespeare, com as devidas substituições.
    No final das contas, esse tipo de observação (Há algo muito maior dentro do filme de Guillermo Del Toro e que o pessoal – concentrado ou não – perdeu. É a pista com que o diretor indica...)

    é um pouco arrogante: "há algo que ninguém viu, todo mundo perdeu, mas EU vi!" Então foi mal mostrado. Sutileza é outra coisa além de mostrar rapidinho uma pista, algo para ninguém ver direito (só os com olhar supostamente privilegiado). Sutileza é passar um clima, um código, um significado que não precise de "interpretação", mas algo que possa apenas ser salientado numa das formas de se ver um filme. Pois o melhor é que haja vários planos de leitura. Ou então se cai na mesma "psicologia de mercado" - só que agora no sentido de ser uma forma "decifração" exclusiva dos "decifradores" das coisas herméticas e pistas disfraçadas...
    A interpretação rica e enriquecedora não é a decifração de símbolos, mas a possibilidade de se oferecer uma forma de leitura menos óbvia, um olhar de entrelinhas, ou de entrecenas, de coisas que talvez não estivessem explícitas até quem sabe nem para os realizadores do filme. Uma leitura que represente algo que (talvez involuntariamente) terá estado na gênese da idéia do filme - ou acabou pintando no seu resultado final.  E que seja apenas 1 leitura, aberta . Podendo existirem outras.
    Na clínica não adianta interpretar o material de um analisando se ele não puder acompanhar o significado. Por isso Freud abandonou o hipnotismo, o papel de "lider" ou de sibila ou de oráculo
     

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    [Aeternus:8494] Mensagem do Grupo43
    -jansy mello(2006-12-21)


    - RE:RE:RE: Outra resenha sobre O Labirinto do Fauno

    Falou a voz da experiência...

    Gostei muito de "O Homem Elefante". Não foi o John Hurt, sem aparecer realmente com a cara e o corpo, que ganhou com isso um Oscar?  Que voz. Até hoje me impressiono com a gana de sobreviver enquanto era apenas uma questão de sobrevida e o desejo de morrer depois que ganhou espaço, admiração, respeito porque, só aí, ele teve chance de avaliar a própria situação. São os obstáculos, dizia Freud, que nos levam para a frente: seja pra sobreviver, seja pra morrer. E esse não morreu feliz.

    Também acho enjoado quando se fica decodificando símbolos óbvios. `As vezes isto se obtém com uma torção humorística, como no desenho do "Shrek". Um principe diminuto constrói um castelo enorme e o burro observa: " acho que ele está compensando alguma coisa..."

    [ Deve ter algo com Ofélia e Hamlet ligado aos sistemas totalitários, mas não me pergunte o quê. No mesmo livro "Bend Sinister", Nabokov compara a Ofélia de Shakespeare com uma prostituta, simultaneamente ela é nova encarnação da Lolita e do seu primeiro amor quando menino! Ele coloca na boca do tirano a fala na qual o que há de podre no reino da Dinamarca é " a pletora de palavras", que deviam ser silenciadas drásticamente. Ao mesmo tempo, assim como Ofélia, Hamlet é vítima de todo tipo de impropério, inclusive sendo comparado com o pequeno burguês de Flaubert, Mr. Homais e um caprichado "Homelette".  Eu, hem.

    Diretores podem fazer boas peripécias. Guto há uns meses observou duas lésbicas bem ativas num dos filmes da Agatha Christie que, embora muito pra frente, não levava jeito de uma representação tão aberta. Conferi vendo os dois filmes com o mesmo título e a diferença vinha toda da direção e do roteiro. Hoje vi um outro da Dama Agatha, "Um Crime Adormecido", com o mesmo tipo de excesso.
    Minha sorte é que não vou atrás da trama. Gosto dos cenários, das conversinhas e me lixo pro assassino. Não dá pra levar a sério os encadeamentos da lógica da Agatha, todos se parecem com aquela solução na qual todo mundo dá uma facadinha no homem mau para se vingarem e diluirem a responsabilidade, enquanto o espectador procura só um ou dois criminosos entre os treze ou vinte assassinos . 


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    [Aeternus:8609] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2007-04-30)


    - Camus & o pecado contra a Vida

    Meu paladar sempre identificou a Vida como um pedaço de coisa que, mesmo pesando o estômago, ainda sim faz-se tão saborosa no momento da degustação...

    * * * * * * *

    * * * * * * *

    Car s’il y a un péché contre la vie, ce n’est peut-être pas tant d’en désespérer que d’espérer une autre vie, et se dérober à l’implacable grandeur de celle-ci.

    Pois se há um pecado contra a vida, talvez não seja tanto desesperar dela quanto esperar uma outra vida, e furtar-se à implacável grandeza desta.

    CAMUS, Albert. "L'été à Alger". In: Noces. Algiers: Edmond Charlot, 1939.


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    [Aeternus:8610] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2007-05-02)


    - RE:Camus & o pecado contra a Vida

    ...o que caracteriza o que o autor do prefácio de "A Inteligência e o Cadafalso" chama de 'hedonismo desesperado' em Camus.

    (...)'moldando uma sensibilidade que vê a tragédia pela lente da beleza e do prazer.(...)Para Camus, o absurda nasce justamente da contemplação de êxtases envenenados pela idéia da morte:sem a beleza, o amor ou o perigo seria quase fácil vuiver' .

    ( e uma titica ?...)


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    [Aeternus:8611] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2007-05-02)


    - RE:RE:Camus & o pecado contra a Vida

    Lindo o texto, MARcos!
    Há bastante de divino na realidade. É só aguçar o olhar pro entorno.
    Creio que adiar a Existência pra uma vida posterior implica em anulá-la. Como é que disse aquele poeta: "mas os momentos felizes não estão escondidos nem no passado e nem no futuro". Então, céu ou inferno, vivamos o presente!! Até porque, em suma, é o que nos resta...


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    [Aeternus:8612] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2007-05-02)


    - RE:Camus & o pecado contra a Vida

    Car s’il y a un péché contre la vie, ce n’est peut-être pas tant d’en désespérer que d’espérer une autre vie, et se dérober à l’implacable grandeur de celle-ci.

    Aí está. Uma bela frase de Camus que propunha um tipo peculiar de dialética porque colocava dois pontos em confronto para anotar o que observava no vão entre estes, no caso, o absurdo gerado pelo homem diante do universo. Apagar um ponto ou negar o outro e a magia do absurdo angustiante desapareceria.

    Mas não vejo porque não podemos entender que " a implacável grandiosidade da nossa vida" não se esgotará em si mesma, mas seja simplesmente um testemunho, feito na medida humana, a da nossa vida física e na da nossa mente, de uma grandeza ainda mais implacávelmente maravilhosa. Se vamos participar dela de alguma maneira em alguma transcendência após a morte, ou se nos será dado apenas participar nesse nosso dedalzinho de vida... será que importa, dado que somos mesmo do estofo do fraco humano, indiferentemente poupado ao abraço dos terríveis belos anjos de Rilke  e da indignação do céu camoniano?   Cada vez que o dia termina e vivo um "sursum corda", experimento a gratidão pelo dia que acabou e pela esperança de um novo, talvez igual ao anterior, talvez diferente. Um sorteio, um jogo de dados ou um certo tipo de graça celestial. As amarras do antes e depois são limitantes se não podemos usufruir o que vem no meio.  Como também dizia Nabokov falando do berço pendurado à beira de um abismo negro daquilo que o antecedeu  e do que o sucederia: a vida humana como uma fresta de luz entre duas eternidades de escuridão. 

    Então, sei lá. O tal momento nabokoviano era de "cronofobia", ter medo do tempo, ter pavor do escuro. Já eu... tô me lixando. Quero mesmo morder a amora que me foi dada pois a vida se chama agora ( Guilherme de Almeida). O meu ponto do confronto com o universo me basta. 

    E amanhã é o dia do meu aniversário: um montão de anos e, thank God, ainda consigo celebrá-los sem tristeza e sem medo.   

     


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    [Aeternus:8642] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2007-05-24)


    - Genesis

    Caro Signor Rossellini,
     
    ho visto i suoi film "Roma città aperta" e "Paisà" e li ho apprezzati moltissimo. Se ha bisogno di un'attrice svedese che parla inglese molto bene, che non ha dimenticato il suo tedesco, non si fa quasi capire in francese, e in italiano sa dire solo 'ti amo', sono pronta a venire in Italia per lavorare con lei.

    Ingrid Bergman

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    [Aeternus:8823] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2007-10-22)


    - Dilaceramento

    “(…) Tudo o que é do domínio afetivo reclama o Absoluto. O filho quer a mãe por toda a vida, os amantes querem se amar por toda a vida, tudo em nós pede o Definitivo – enquanto que a vida nos ensina o Provisório. Na medida em que o tempo passa, torna-se conveniente esquecermos nossos mortos, pois, esquecendo-os, é a nossa própria morte que esquecemos. (…) O verdadeiro dilaceramento reside na necessidade de aceitarmos o Provisório – para sobrevivermos”.
     
    (O Cinema Segundo François Truffaut , Editora Nova Fronteira, 1988).

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    [Aeternus:8824] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2007-10-22)


    - RE:Dilaceramento

    Depois de uma colagem com frase de François Truffaut, quando fui clicar para escrever, levei um susto. O botão que me daria acesso chamava-se "Responder".

    Como se fosse possível. A não ser que eu copiasse, usando uma máscara, as linhas do Vinícius: " Amor...posto que é chama, seja eterno enquanto dure", que equilibra o absoluto e o provisório, mas bastante precáriamente.

    Já que não tenho mais nada do Christian Morgenstern à mão ( tem uma tradução do Haroldo de Campos falando de uma toupeira, não sei se era menina ou ele a via acima... uma toupeira, dizia, que sentou na bosta por amor à rima..) prefiro ficar na minha...  

     


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    [Aeternus:8825] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2007-10-22)


    - RE:RE:Dilaceramento

    Duda, lá de longe, colabora com nova questão filosófica...

    Eis sua mini-crônica, ou mini-aguda anedota:

    Era uma vez...Eu quiz estudar
    Entomologia em Kuala Lumpur.
    Fiz o possível.
    Consegui ir morar na Ásia, mas
    a fábula que quero contar  - acredite quem quiser -
    é que não me interessava o estudo e só sabia
    que Kuala Lumpur é a capital - discutida, por alguns - da
    Malásia.
    O que registrava a fala era a fala mesma:
    eu estudo Entomologia em Kuala Lumpur.
    Eu queria ser sujeito desse pronunciado.


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    [Aeternus:8925] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2008-02-02)


    - Ian McEwan em "Atonement"

    Há muito tempo li "Amsterdam" de Ian McEwan, até então ilustre desconhecido do público brasileiro. Agora a maioria das suas obras estão traduzidas e duas, se não mais, foram para as telas dos cinemas.  A primeira, "Um amor obsessivo", que descreve um caso de erotomania despertado pelas angústias que surgiram durante o salvamento de uma criança sozinha dentro de um balão erguido por fortes lufadas de vento.  O segundo foi intitulado "Desejo e Reparação".

    Enquanto assistia o filme perdi uma boa parte da percepção objetiva sobre o desempenho de Vanessa Redgrave, distraída que fiquei sobre a nova estética que dá closes nos rostos enrugados de modo impiedoso como que explorando algum novo padrão de convívio com a velhice. Minha retomada retrospectiva me levou a uma admiração ímpar pela atuação de Redgrave, se pudesse lhe daria Oscar de melhor coadjuvante naquele instante mesmo. No papel de narradora, Redgrave explicita suas motivações ao escrever o livro cuja história havia sido  apresentada no filme, convidando o espectador a uma avaliação final do conjunto sob uma dimensão de cumplicidade crítica e narsícamente perversa ( diz ela: "os leitores comuns esperam que do romance um happy-end, além disso, inventar um final feliz é também uma forma de reparação...).  A sedução e a ironia podem passar desapercebidas do espectador mas estão ali, sinalizadas quase como um suspiro, no brilho malicioso do olhar de Redgrave justificando sua posição, sintomática de narradora infiel ( "unreliable narrator").

    Achei interessante que este filme ilustra o poder exercido pelo grupo social sobre o destino dos indivíduos dentro de uma organização como a aristocracia britanica ( Bion colocou, junto à igreja e ao exército, como um terceiro grupo de "suposto básico"- ie., com dimensões psicóticas e arcaicas, o grupo "aristocracia"). Chegamos até esquecer que a Inglaterra Vitoriana era, exclusivamente, a Inglaterra dos velhos ricos e dos poderosos, jamais a dos  proletários...  


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    [Aeternus:8931] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2008-02-08)


    - RE:Ian McEwan em

    O saudoso Rorty em "Contingência, Irony and e Solidarity" desenvolveu a idéia q a verdadeira mudança de atitudes&sentimentos se produz pela literatura - e não pela filosofia!. Sempre botei fé nessa tese.
    Aproveitando o debate em torno do filme "Atonement", cito uma passagem de Ian McEwan em seu romance "Na praia":
     
    "(...) Tudo que ela precisava era da garantia do amor dele, e da sua certeza de que não existia pressa, pois tinham a vida pela frente. Amor e paciência - se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo - seguramente os teriam ajudado a vencer as dificuldades".
     
    Acho que nenhum Friedrich Nietszche é capaz de maior verdade: amor&paciência. Êita combinação!!. Taí... amor&paciência. Só isso.

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    [Aeternus:8932] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2008-02-08)


    - RE:RE:Ian McEwan em

    Rorty, o que conheço, é um filósofo que faz crítica literária sentimentalizando autores polêmicos ( vide Nabokov e Lolita, ou Fogo Pálido ) para defender seu "relativismo moral"...

    Plus ça change... diziam e as primárias de New Hampshire, numa esperta edição enviada pelo youtube, colocou todos os candidatos presidenciais americanos enfileirados em seus pódios, cantando em sucessão ou em jogral "precisamos...mudar...esta... nossa...bandeira... mudança...mudança...mudança..."   O problema da verdadeira mudança se fazer pela literatura vem de isto acabar incentivando a propaganda no campo da arte.

    Por falar em amor e paciência, hoje me enviaram o Xico Sá (parece que não há como não receber infusões deste Xico) com uma cronica: MIOJO SENTIMENTAL OU O AMOR NOS TEMPOS DO MSNonde ele discorre sobre "o amor nos tempos do Messenger... Tudo muito rápido, espécie de miojo sentimental, emoções baratas, 3,5 minutos, ferveu, fodeu!... amor nos tempos do MSN (Multidão Sem Ninguém, como decifra a hermanita Clarah). E o novo problema –amor & tecnologia- já está ficando velho...como se fosse um enigma grego, tipo assim decifra-me ou te deleto: como transformar uma tara platônica em uma trepada homérica? 

    Vou tentanto, vou tentando...carece acompanhar os tempos com amor e paciência, ver os reprimidos britanicos ensinando e os gregos inspirando a gíria das trepadas, cada vez mais globais. 



     


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    [Aeternus:8933] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2008-02-08)


    - RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Dora, minha cara
     
    1. Xico Sá. O 'Catecismo' é um Tratado de devoção às Mulheres!!!!
     
    DO MANUAL DE CIVILIDADE PARA USO DAS MENINAS NA ESCOLA
    XICO SÁ 
     
    [com ajuda espírita, influência, plágio e sample livre de Pierre Louys, soprado ao escriba por lindas ninfomaníacas em flor]
     
    Não diga: "Chupe-me todinha".
    Diga: "use a pedagogia da manga".
     
    Não diga: "Minha buceta."
    Diga: "Meu coração."

    Não diga: "Quero te dar o cuzinho".
    Diga: "voltei da depilação".
     
    Não diga: "Estou com vontade de foder."
    Diga: "Estou nervosa."

    Não diga: "Deixa eu fazer fio-terra".
    Diga: "que rabinho mais quente."
     
    Não diga: "Acabo de gozar como uma louca."
    Diga: "Sinto-me um pouco fatigada."

    Não diga: "Ninguém me chupa como você".
    Diga: "Eis a língua universal".

    Não diga: "Vou masturbar-me."
    Diga: "Vou voltar."
     
    Não diga: "Vamos foder".
    Diga: "Oremos ao senhor".

    Não diga: "Quando eu tiver pentelho no cu."
    Diga: "Quando eu for grande."
     
    Não diga: "Precisamos inovar as posições".
    Diga: "Vamos ler o catecismo".

    Não diga: "Eu prefiro a língua ao pau."
    Diga: "Só gosto de prazeres delicados."
     
    "Não diga: "Não é nada disso que você está pensado".
    Diga: "Se junte a nós e sejamos felizes".

    Não diga: "Entre as refeições só bebo porra."
    Diga: "Sigo uma dieta especial."

    Não diga: "Mete mais devagarzinho".
    Diga: "Não foi assim que te ensinei".
     
    Não diga: "Tenho doze consolos em minha gaveta."
    Diga: "Nunca me entendio quando estou só."
     
    Não diga: "Beije os meus pés".
    Diga: "Você hoje ainda não rezou por mim".

    Não diga: "Os romances honestos me chateiam."
    Diga: "Eu gostaria de ter algo interessante para ler."

    Não diga: "Quando se lhe mostra uma pica, ela se zanga."
    Diga: "É uma original."

    Não diga: "É uma menina que se masturba até quase morrer."
    Diga: "É uma sentimental."

    Não diga: "É a maior puta da terra."
    Diga: "É a melhor menina do mundo."

    Não diga: "Ela deixa-se enrabar por todos aqueles que a masturbam."
    Diga: "Ela flerta um pouco."

    Não diga: "Ela é uma lésbica raivosa."
    Diga: "Ela não flerta de jeito nehum."

    Não diga: "Eu a vi ser fodida pelos dois buracos."
    Diga: "É uma eclética."

    Não diga: "Ele dá três sem tirar da buceta."
    Diga: "Ele tem o caráter muito firme."

    Não diga: "Ele gozou em minha garganta e eu na dele."
    Diga: "Trocamos algumas impressões."

    Não diga: "Seu pau é demasiado grosso para minha boca."
    Diga: "Sinto-me bem pequena quando converso com ele."

    Não diga: "Ele fode muito bem as menininhas, mas não sabe enrabá-las."
    Diga:" É um simplório."
     
    Não diga: "Cadê o gel lubrificante".
    Diga: "Com o carinho de sempre".
     
    Não diga: "Você é o homem da minha vida".
    Diga: "Você me conforta bem lá dentro".
     
    Não diga: "Não sei viver mais sem você".
    Diga: "Adoro a sua pica dura".
     
    Não diga: "Vou chupar o seu pau".
    Diga: "derrama o mingau dos deuses".
     
    <in "catecismo de devoções, intimidades et pornografias", 2ª ed. 2007>
     
     
    2. Aprendi 1 bocado com os ingleses reprimidos! Ao ler McEwan, percebo que continuo a aprender. Quanto ao MSN, nada + verdadeiro. 
     
    3. Você pergunta no final da mensagem 'Paranóia...': "Tal mundo da "indiferença", será este realmente aquilo que desponta como sendo nossa global distopia futura?"
    Minha cara Dora, num tô dando conta nem das diferenças do presente, que dirá das "indiferenças" do futuro (rss...) 6ªfeira, início de noite... deixemos essa questões pro boteco, depois que a Língua estiver enrolando + do que político tentando explicar gastos no cartão corporativo.
     
    bj, bj

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    [Aeternus:8934] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2008-02-09)


    - RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Foi mencionar o Xico Sá e a baixaria dos espíritos do além recomeçou?

    Dá um desanimo...


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    [Aeternus:8935] Mensagem do Grupo43
    -cely bertolucci(2008-02-09)


    - RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Omar, não me leve a mal, mas tratado de devoção à mulheres quem fez foi o outro Chico, sem apelar para a vulgaridade.

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    [Aeternus:8936] Mensagem do Grupo43
    -cely bertolucci(2008-02-09)


    - RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Rorty é um pragmatista, enfatiza o contexto, e como tal valoriza mais a prática que a teoria. Defende a idéia de que importa mais as conseqüências e efeitos da ação do que seus princípios e pressupostos. O conceito de verdade tradicional é substituído por um critério de verdade que deve ser encontrado nos efeitos e conseqüências de uma idéia, em sua eficácia e sucesso.

    A filosofia para Rorty é uma atividade educativa. Acredita que podemos redescrever tudo de modo inteiramente novo, e de que tais redescrições, como novas imagens do mundo e de nós mesmos, poderão nos levar a novas condutas, quiçá melhores. A filosofia é antes de tudo filosofia social e política.

    Rechaça o dualismo metafísico platônico que considera que conhecer é se apropriar ou representar essências ou modelos aproximados delas. Para Rorty, o mundo fenomênico onde acontece a vida social e a justiça, não é derivado de outro mundo não relacional, o mundo das verdades eternas e do Bem. A justiça, se a queremos, temos de construí-la de acordo com os outros, no mundo das relações contingentes.

    É nesse contexto que Rorty se apropria de alguns textos literários para defender suas idéias. Não o vejo como um crítico literário, pois o que importa em suas reflexões é o efeito de certas obras nos leitores. Assim ele distingue os livros que nos ajudam a tornar-nos autônomos e livros que nos ajudam a tornar-nos menos cruéis. Seu relativismo moral decorre de seu historicismo e de sua visão não dualista e antiessencialista da filosofia.  

    .


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    [Aeternus:8937] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2008-02-09)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Fora do site recebi:

    (a) Tambem acabei de ler a mensagem Chico Sa, ou Xico Sa,
    que eh pior ainda, e a sua resposta.
    Solidaria, posso imaginar e sentir o seu desanimo.


    (b)afinal, quem é esse tal Omar que escrevinha no Aeternus?Que mau gosto o gajo tem! Sou contra censuras e coisa e tal, mas acho que o distinto está a merecer uma descompostura pública do site pela vulgaridade dos seus emails!

    (c) Achei muita baixaria dispensável.
    Uma piadinha como a  do coração tão macio quanto o seio e o pinto tão duro quanto o cotovelo tem um nonsense de humor, bobinho, mas que não ofende; tem um paradoxo ingênuo e malicioso, uma surpresa que faz graça e justifica uma piada obsceninha que não vale só por ser sacaninha, mas porque tem essa graça.
    Aquela série de "analogias" parece  feita por uma criança que aprendeu a dizer merda e cocô como sinônimos; ou adolescente que aprendeu a dizer vagina e xereca. E sai por aí dizendo em momentos que não têm nada a a ver: vagina, vagina, vagina, vagina, ad libitum, ad aeternum, ad nauseam. Que saco! É grosseiro, bobo - 
    pornográfico no mau sentido: não erotiza, não excita, degrada a própria sacanagem que deveria ser algo divertido, por mais que seja ousada. É só escatologia imbecil!

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    [Aeternus:8938] Mensagem do Grupo43
    -dora zander(2008-02-09)


    - Ian McEwan retomado

    Cely,

    Obrigada pela colaboração quanto ao tema do Rorty.  O que li dele foi há muito tempo e também estimulada sobre um texto do antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira. Este trouxe vários exemplos práticos para situar suas idéias ( só me recordo de um, da catequese dos jesuítas que defendiam a "alma" e combatiam o aborto praticado por uma tribo de indígenas que, sistemáticamente, há seculos, eliminava todo quarto filho que nascesse de um casal para garantir a sobrevivência da tribo e evitar seu crescimento além dos recursos materiais de que dispunha e que, por causa desta prática, havia se mantido por todos aqueles anos) e me encontrei diante de vários dilemas que, por serem humanos, me colocaram diante de proposições indecidíveis.

    Sabemos que estadistas, como Churchill, podem decidir jogar uma bomba numa cidade em seu próprio país para simular um ataque do inimigo e justificar a entrada numa guerra que salva milhões de pessoas graças a sua intervenção. Certo ou errado?  

    Quando, na ficção do filme "O apanhador de pipas", em que vemos  um homem dentro de um jipe com outros refugiados e que se levanta contra um soldado que quer estuprar uma jovem que ali está com eles e amamenta seu bebê, este gesto corajoso me aqueceu o coração. Deu certo e a dignidade humana naquela hora foi garantida e o filho que observava a coragem do pai teve o curso da sua vida modificado pelo gesto que testemunhou, etc. Mas... e se o desafio que ele fez arriscando sua vida tivesse dado errado e o soldado decidisse matar todos que estavam no jipe? Diríamos que ele foi pouco político, imprudente, altruista, ou o quê? 

    Deleuze argumenta a favor das posturas pragmáticas, como as de Rorty, falando da superioridade da "jurisprudência" sobre "tratados dos direitos humanos". Os exemplos dele são convincentes, mas nenhum deles implicou numa em que um grupo inteiro fosse sacrificado em nome do bem estar de uma maioria ou de uma crença religiosa.   

    Ontem conversava com uma amiga sobre a decisão do tal estadista. Alguém na turma disse: "- ele se colocou no lugar de Deus". Inicialmente, concordei. Depois, repensei e concluí que, exceto o Jeová do velho testamento e suas outras antropomorfizações, nem  mesmo "Deus" agiria deste modo, supondo-se que o mundo não seja todo regulado por um determinismo onde predomina culpa e castigo, ou se não houvesse  liberdade para se ter gestos nobres ou vís, para exercer escolhas  ( além da marca de shampu ou da gasolina que se vai usar) e praticar uma virtude...  Só mesmo um "deus humano" será capaz de certas decisões que levam milhares à morte pela fome ou doenças,etc.  

    Este tipo de exercício, amadorístico, vale só como um exercício mesmo. Não tenho certeza de nada porque não estou sendo posta à prova, mas, apenas, falando e falando...


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    [Aeternus:8939] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2008-02-09)


    - RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Rorty foi 1 pensador raro q fazia questão de ser claro em seus txts, fazendo com q nós, ainda que contrariados com as suas idéias, ficássemos impedidos de largar o livro antes do fim. Difícil não mencionar que, junto de Wittgenstein e, em < grau, Chomsky, Rorty deixou sua contribuição pro melhor entendimento da estruturação da linguagem, sobretudo ao demonstrar q uma idéia somente deve ser valorizada se, a partir dela, decorrer uma ação transformadora do pensamento e, no limite, do mundo. O cara acreditava q uma história de vida, com todas as suas adversidades, percalços e misérias, era o melhor jeito de despertar nas pessoas uma consciência mais justa, correta e, assim, fazer prevalecer a bondade acima de todas as coisas. Taí o Pragmatismo onde enquadraram o Rorty. Pollyana?
    Anyway, ele foi um baaaaaaaaita humanista.
    Já faz falta!
     
    Cely, seguraí o belo obituário do Habermas sobre ele:
     
     
     
    Folha de São Paulo, domingo, 17 de junho de 2007

    Filósofo, poeta e amigo

    O alemão Jürgen Habermas relembra o pensador pragmatista americano Richard Rorty, morto no dia 8

    JÜRGEN HABERMAS

    Recebi a notícia por e-mail, faz quase um ano. Como tantas vezes nos últimos anos, Rorty expressava seu desconsolo diante de [George W.] Bush, o "presidente da guerra" cujas políticas tanto afligiam um patriota como ele, que sempre quisera "realizar" seu país.
    Depois de três ou quatro parágrafos de análise sarcástica, vinha a frase inesperada: "Mas o fato é que estou com a mesma doença que matou Derrida". Como se quisesse atenuar o choque, ele acrescentava que, segundo sua filha, esse tipo de câncer parece típico de quem "lê muito Heidegger".
    Três décadas e meia atrás, Richard Rorty livrou-se do corselete de uma profissão cujas convenções haviam se tornado estreitas demais para ele. Não o fez para se furtar à disciplina do pensamento analítico, mas para levar a filosofia a caminhos ainda não explorados.

    Criatividade
    Rorty sabia manejar magistralmente o aparato da nossa profissão; em duelos com os melhores entre seus pares - como Donald Davidson, Hilary Putnam ou Daniel Dennett -, ele era uma fonte inesgotável de argumentos sutis e sofisticados. Mas ele jamais esqueceu que a filosofia - a par das objeções dos colegas - não pode deixar de lado os problemas com que a vida nos depara.
    Entre os filósofos contemporâneos, não conheço nenhum que se igualasse a Rorty na capacidade de confrontar seus colegas - e não apenas seus colegas - com novas perspectivas, novas intuições e novas fórmulas.
    Essa criatividade espantosa deve muito ao espírito do poeta que deixara de se esconder atrás do filósofo acadêmico bem como ao brio retórico e à prosa impecável de um autor sempre disposto a chocar seus leitores com estratégias inauditas de representação, conceitos inesperados e novos vocabulários - um dos termos favoritos de Rorty. A arte ensaística de Rorty cobria toda a gama entre Friedrich Schlegel [1772-1829] e o surrealismo.

    Orquídea selvagem
    A ironia e a paixão, o tom jocoso e polêmico de um intelectual que revolucionou nossos modos de pensar e influenciou gente em todas as partes do mundo - tudo isso sugere um temperamento robusto. Mas essa impressão não faz justiça à natureza gentil de um homem muitas vezes tímido e reservado - e sempre sensível aos demais.
    Um breve texto autobiográfico de Rorty traz o título de "Trotsky e as Orquídeas Selvagens" (disponível em
    www.philosophy.uncc.edu/mleldrid/cmt/rrtwo.html). Rorty conta que, quando rapaz, gostava de caminhar pelas colinas em flor do noroeste de Nova Jersey e sentir o perfume poderoso das orquídeas.
    Por essa mesma época, descobriu um livro fascinante na biblioteca de seus pais esquerdistas, uma defesa de Trótski contra Stálin. Assim nasceu a visão que o jovem Rorty levou consigo para os anos de universidade: a filosofia existe para reconciliar a beleza celestial das orquídeas com o sonho de justiça sobre a Terra.
    Nada é sagrado para Rorty, o ironista. Quando lhe perguntaram, no fim da vida, sobre o "sagrado", o ateu rematado respondeu com palavras que fazem pensar no jovem Hegel: "Minha noção de sagrado se prende à esperança de que, em algum dia distante, nossos descendentes viverão numa civilização global em que o amor será a única lei".

    Este texto saiu no "Süddeutsche Zeitung".Tradução de SAMUEL TITAN JR.


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    [Aeternus:8940] Mensagem do Grupo43
    -cely bertolucci(2008-02-09)


    - RE:Ian McEwan retomado

    ... pois continue falando, mesmo sem certezas. Quem as tem? É muito bom sentir sua sensibilidade, experiencia e inteligencia registrada neste espaço.

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    [Aeternus:8941] Mensagem do Grupo43
    -cely bertolucci(2008-02-09)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Ian McEwan em

    Foi bom reler o obituário de Habermas, com quem Rorty polemizou acerca do uso acautelado do termo "verdadeiro". Concordo com voce Omar: Rorty fou um grande humanista que buscou com inteligencia, sensibilidade e esperança contribuir para um mundo melhor. 


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    [Aeternus:8943] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2008-02-10)


    - RE:Ian McEwan retomado

    Dora
    talvez tivéssemos que discutir a falácia da democracia. Rorty parte desse princípio, e, por isso, advoga uma postura mais prática e menos intelectualizada, acadêmica e, quase sempre, hermética. Alguém sempre decide as coisas. E acredito que não seja Deus...

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    [Aeternus:8944] Mensagem do Grupo43
    -jansy berndt de souza mello(2008-02-11)


    - RE:RE:Ian McEwan retomado

    NB: Acabei tendo que me cadastrar com novo nome, avisei aos participantes da lista sobre Jansy=Dora=Joana.

    Omar, acho boa idéia discutirmos "a falácia da democracia" embora eu não tenha conhecimento suficiente para sustentar um debate tão complexo ( quem sabe outras pessoas se animam a colaborar?) Começo observando sobre sua frase "alguém sempre decide as coisas...acredito que não seja Deus": Existe mesmo "alguém" único, ie. monoteístico ou personalizado que dá a palavra final?

     


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    [Aeternus:8946] Mensagem do Grupo43
    -cely bertolucci(2008-02-12)


    - RE:RE:RE:Ian McEwan retomado

    Transcrevo parte de um artigo de Rorty na Folha de São Paulo de 24.05.1998. Já se vão 10 anos. Não sei avaliar como pode contribuir para a discussão, mas demonstra a sensibilidade do autor para a questão fundamental da solidariedade na comunidade humana e na democracia.

    "(...) Pais e professores deviam encorajar os jovens a ler esses dois livros (O manifesto comunista e o Novo Testamento). O jovem será moralmente melhor por tê-los lidos.

    Devemos educar nossos filhos para que considerem insuportável o fato de nós, leitores do Franfurter Allgemeine Zeitung, sentado atrás de mesas e computadores, ganharmos dez vezes mais do que aqueles que sujam as mãos limpando lavabos e cem vezes mais do que aqueles que fabricam nossos computadores do Terceiro Mundo. Devemos nos certificar de que eles tenham consciência de que paises pioneiros na industrialização possuem uma riqueza cem vezes maior do que aqueles que ainda não se industrializaram. Os nosso filhos tem de aprender, desde cedo, a enxergar as desigualdades de suas fortunas e aquelas de outras crianças não como "vontade de Deus", nem como "o preço necessário da eficiência econômica", mas como uma tragédia evitável. Eles devem começar a pensar, o mais cedo possível, sobre como modificar o mundo, de modo a fazer com que ninguém passe fome enquanto outros se empanturram.

    As crianças precisam ler a mensagem de fraternidade humana de Cristo em conjunto com o relato de Marx e Engels sobre o capitalismo industrial e o mercado livre - indispensáveis como são hoje - pois tornaram muito dificil instituir essa fraternidade. Elas precisam ver suas vidas como esforços no sentido de realizar a nossa potencialidade moral, inerente à nossa capacidade de comunicar as nossas necessidades e esperanças. Elas devem ouvir histórias sobre as congregações cristãs que se reuniam nas catacumbas e sobre os comícios operários nas praças de metrópoles. De fato, ambos cumpriram papéis igualmente importantes no longo processo de realização dessas potencialidades"


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    [Aeternus:8950] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-02-12)


    - um problema no site, será corrigido brevemente..e Rorty

    Só agora notei que o cursor não percorre todos os itens arrolados, nem conduz ao final das mensagens. Não sei se este problema acontece apenas no meu programa ( andei modificando o computador) ou se é ligado ao próprio Aeternus (seria novidade, antes não acontecia o mesmo)

    Seja como for não pude alcançar o local para responder à mensagem com um recorte do Rorty recomendando a leitura de Marx e Jesus. 

    Não achei muito prática a proposta que ele fez de recomendar a leitura destes dois textos, ambos complexos, para que as crianças alemães ou americanas se conscientizem dos problemas de um terceiro mundo não industrializado (o contexto me pareceu ser este, mas será possível?). Estranhei a frase "Elas devem ouvir histórias...". Puxa. Estranhei tudo.


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    [Aeternus:8952] Mensagem do Grupo43
    -cely bertolucci(2008-02-13)


    - RE:um problema no site, será corrigido brevemente..e Rorty

    Eu me mesma me pergunto o porquê de ter trazido o artigo de Rorty. Acho que foi uma forma de estimular a participação do Omar. 

    É engraçada sua observação: "não achei muito prática a proposta de recomendar esses dois textos para crianças, americanas ou alemãs".  Pode até não ser prático, mas demonstra que a justiça e a solidariedade são virtudes a serem cultivadas numa democracia. Para conquistás-la é necessário despertar a consciência e a sensibilidade para o sofrimento do outro desde a infância com boas histórias ( não necessariamente o Novo Testamento e o texto de Marx). Acho que foi esse o sentido do artigo.  


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    [Aeternus:8953] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-02-13)


    - RE:...e Rorty

    Obrigada por encorajar o debate sobre o tema introduzido pelo Omar. Espero que ele o retome para conhecermos seus pontos de vista em discussão.

    Quanto ao Rorty, infelizmente o trecho que você selecionou e que me pareceu esquisito se parece, nesta esquisitice, com os outros artigos dele que li no passado.

    Sem aderir cem por cento ao que Roberto Cardoso de Oliveira apresenta sobre relativismo e ética  ( ainda porque não encontro onde está publicado e, também porque ele parece acreditar que a ONU enquanto tal seria um orgão capaz de legislar questões ligadas aos conflitos interculturais - e eu não tenho esta esperança) lembro de uma frase, meio solta, na qual ele afirma que quando há conflito entre valores que surge do encontro entre culturas diferentes, vence o "discurso dominante". Rorty, até onde li, fala a partir do discurso dominante, daí minha desconfiança do que ele escreve.

    Como curiosidade, para quem quiser acompanhar, sugiro que leiam o que Lacan fala a respeito do "humanismo" ( como praticado depois da grande abertura na época, sei lá ao certo.. de Erasmo de Rotterdam entre outros nomes respeitáveis). Estou sem tempo para dar a indicação bibliográfica precisa de onde catar isto no Lacan.  


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    [Aeternus:8954] Mensagem do Grupo43
    -jansy berndt de souza mello(2008-02-14)


    - Borges /Sabato Diálogos ( ed. Globo)

    Borges:...propor Martín Fierro como personagem exemplar é um erro.  É como propor Macbeth como bom modelo de cidadão britânico, não?  Como tragédia me parece admirável, como personagem de valores morais, não.

    Sabato: O que prova que um grande escritor não tem por que criar pessoas boas.  Nem Raskolnikov nem Julien Sorel para citar alguns, podem ser julgados como "pessoas boas."  Quase ninguém na grande literatura.

    Borges: Que estranho. Agora me lembro de Macedonio Fernández tinha uma teoria que eu considero errônea. Ele dizia que todo personagem de romance tinha que ser moralmente perfeito.  Dessa, perspectiva, sem conflitos, ficaria difícil escrever alguma coisa...

    ...

    Sabato: Basta considerar os grandes protagonistas de romances. Sempre marginalizados...

    Borges: Há uma frase de Kipling, que escreveu no final da vida: " A um escritor pode ser permitido inventar uma fábula, mas não a moral."  O exemplo que ele escolheu para sustentar sua teoria foi o de Swift, que tentou um arrazoado contra o gênero humano e agora restou "Gulliver", um livro para crianças. Ou seja: o livro viveu, mas não com o propósito do autor.

    Sabato: É complexo o suficiente para ser um espantoso arrazoado e ao mesmo tempo um livro de aventuras para crianças.  Essa ambiguidade é frequente no romance.

    Borges: Ocorreu-me uma coisa....

    Sabato: É que quase nenhuma obra de arte é moralizadora no sentido edificante da palavra. Se servem ao homem, é num sentido mais profundo, como servem os sonhos, que quase sempre são terríveis.  Ou as tragédias.  O senhor falou de Macbeth: é espantoso, mas serve. E eu não sei se o justo não seria suprimir esse "mas", ou colocar no seu lugar "por isso mesmo"...

    E por aí vai, um livro cheio de vida, respeitosamente anotada pelo intermediador do encontro ( Orlando Barone)


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    [Aeternus:9644] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2008-06-06)


    - Séminaires

    http://gaogoa.free.fr/SeminaireS.htm


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    [Aeternus:10549] Mensagem do Grupo43
    -Visitante(2008-12-03)


    - Duas festas no mar

    Sosígenes Costa
     
     
    Uma sereia encontrou
    um livro de Freud no mar.
    Ficou sabendo de coisas
    que o rei do mar nem sonhava.

    Quando a sereia leu Freud
    sobre uma estrela do mar,
    tirou o pano de prata
    que usava para esconder
    a sua cauda de peixe.
    E o mar então deu uma festa.

    E no outro dia a sereia
    achou um livro de Marx
    dentro de um búzio do mar.
    Quando a sereia leu Marx
    ficou sabendo de coisas
    que o rei do mar nem sonhava
    nem a rainha do mar.

    Tirou então a coroa
    que usava para dizer
    que não era igual aos peixinhos.
    Quebrou na pedra a coroa.

    E houve outra festa no mar.

    (1934)


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    [Aeternus:10551] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-03)


    - RE:Duas festas no mar

    Essa sereia do Sosígenes Costa é danada, deve ter aderido ao PT. Insosso. Quero o rei, quero a rainha, quero o mendigo e a fada madrinha. Tirar a prata das cintilancias da cauda? Abolir o valor do sonho? 

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    [Aeternus:10561] Mensagem do Grupo43
    -gustavo alcides da costa(2008-12-06)


    - Tancredo e Clorinda

    Tenho me deliciado com a leitura do livro do Humberto, um resgate brilhante de um mito belíssimo.

    Jansy, por favor, dê meus parabéns ao escritor. Aguardo novas obras.

    Nunca parei pra pensar no erotismo das batalhas corporais, a não ser para debochar dos lutadores de "vale-tudo" se agarrando e do síndico do prédio que alugo (uma dessas "Barbies" de academia de ginástica).

    O mito retrata de forma absolutamente original (e genial) o amor romântico daquela atmosfera pós-medieval. A moçoila não está a esperar o mancebo numa sacada, com os olhos marejados, a agitar um lencinho branco.

    Ela está no exército inimigo, comandante-em -chefe, matando, mutilando, desbofando, fazendo sangrar os cruzados europeus, em honra de seu povo (vítima de uma verdadeira "jihad" cristã, conforme bem ressalta HH). 

    A presença de uma jovem à frente de um exército mouro talvez soe historicamente inverossímil. Mas quem se importa? Talvez não menos que Diadorim nos sertões mineiros. O historiador é antes de tudo um chato.

    E a repetição, tição, tição..... a grande sacada (não a das moçoilas medievais, arquitetônica).

    Bem, depois falo mais.


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    [Aeternus:10562] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-06)


    - RE:Tancredo e Clorinda

    Que bom, Guto, que você está se deliciando com Tancredo e Clorinda vistos, pensados, ouvidos pelo Humberto. Venha aqui um dia e o diga pessoalmente!

    Um belo corpo a corpo está no filme "Women in Love" ( Oliver Reed e Alan Bates), inclusive porque tem amor misturado e, como foi filmado, grandioso, me agradou - como se pressentisse o mundo de Aquiles ou Alexandre mais do que Mel Gibson.

    Repetição tição tição? Ah, o exemplo de Freud vem mesmo de Tancredo matando a amada duas vezes e, se tivesse uma terceira, faria de novo. E tição tição... tem repe pro nascer do sol e poente, cada um a seu tempo até começar outra vez. Que nunca é outra, mas uma nova - se acreditarmos em Heráclito, Hesse, Bion. Por isso mesmo queria saber o que você pretende dizer em seguida, afinal... deixou a promessa no ar.

    Hoje é dia de São Nicolau que chega com barulho de nozes e brinquedinhos miúdos. Rafael está acreditando de novo, deu um jeito e pronto: ele repete algo muito humano insistindo neste sonho com as coisas mágicas. Não deixa de ser um pressentimento dos mistérios que existem, aqueles que vamos descobrindo a cada dia. Um destes é o que nos renova a cada dia que passa, nos acende os passos e desentope o olhar: não tem explicação.   Daí eu prefiro ouvir os poetas ( "pensar é estar doente dos olhos" ou em contraste, pelo outro heteronimo: "o que em mim sente está pensando") ou Freud ("quem se pergunta sobre o sentido da vida deve estar doente do fígado"). Se bem que, o mesmo poeta do início também escreveu ( e me esqueci do que dizia antes da conclusão impactante, remetida a sua crença do papai-noel D.Sebastião que não morreu em Alcácer-kibir):"besta saudável... um cadáver adiado que procria". Todas estas frases, quase em oposição entre elas, tem sua verdade. Até as "patricinhas de academia" tem também!


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    [Aeternus:10563] Mensagem do Grupo43
    -gustavo alcides da costa(2008-12-06)


    - RE:RE:Tancredo e Clorinda

    Quando criança, tive um sonho que nunca esqueci: eu estava a duelar de espada com uma menina de quem eu gostava, nós dois de elmo e armadura (pelo menos ela, posto que eu não me via externamente), num castelo com um mezanino enorme. Não tive qualquer sensação de pesadelo e nem chegamos a nos ferir.

    Como são os sonhos! E os mitos.

    Entendi mal ou seu neto passou a "reacreditar" em papai-noel ? Isso pra mim é inédito.

    É quase um "revirginar-se". Carla acreditou até os 11 anos. O pai dela sumia lá pelas tantas na véspera de Natal e e descia pelas escadas devidamente paramentado, dizendo que o trenó estava na varanda. A barriga e as bochechas vermelhas pelas circunstâncias etílico-lusitanas ajudavam bastante. Foi demovida por uma conversa franca com a mãe, que não a queria ver humilhada pelos coleguinhas.

    Me lembrei de uma tirinha mordaz do Henfil: " Sabe por que o Papai-Noel não vai à Etiópia? porque ele só dá presente para as crianças que comem direitinho."


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    [Aeternus:10564] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-06)


    - RE:RE:RE:Tancredo e Clorinda

    Pois então, o Rafael voltou a acreditar. Ele deve ter talento para a tal "suspension of disbelief" que demandam pra quem assiste teatro ou filmes...( esqueci quem originalmente escreveu esta expressão, mas soube um dia! Será que foi Fitzgerald? Ah, creio que foi Coleridge). Mas é que a gente encena a coisa direitinho. Num natal alguns netos maiores também começaram a acreditar na farsa para os menores porque descemos uma bicicleta, com som de sinos, no escurinho da noite, pelo balcão da varanda e os  maiores logo quiseram  ver acontecer o mesmo para eles...Não deve ter algo tão esquisito assim, até hoje tem gente acreditando no Lula!


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    [Aeternus:10567] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2008-12-08)


    - RE:RE:RE:RE:Tancredo e Clorinda

    A perda da ingenuidade é dolorosa.
    Acho que é nesse exato momento que nos tornamos +1 "anjo caído", como disse Bloom embasado em Milton.
    Estou lendo as entrevistas de Roth ('Entre nós') com alguns escritores. Appelfeld diz "que só as crianças e os velhos são ingênuos, puros". Os velhos também? Devo discordar: acho que os velhos não!

    Mas... temos o "muso-vovô" do Florião com "para se chegar à Inocência, é preciso muitas voltas no saber"...


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    [Aeternus:10568] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Tancredo e Clorinda

    Na Bíblia não tem a história de Lúcifer e da sua queda ao inferno. A gente pensa nele como se fosse coisa de catecismo e concílio. Milton rimou, Blake depois tinha seus figurantes...mas preciso pesquisar melhor como se originou esta lenda. Vamos aceitando as visões dos poetas. Se Dante não vivesse na idade média que via a terra como centro do universo não teria construído o cosmo na escala do céu ao inferno como imaginou e convenceu tudo que é freira do Sacre Coeur.

    E essa história da inocencia das crianças? Agora tem até velho puro graças as voltas no saber? Ontem achei um negócio divertido na internet. As moças inglesas eram desencorajadas de estudar nas universidades porque teriam que ler os clássicos no original: até ali só liam traduções expurgadas para proteger a pureza delas. E olha, vai ver que os pomposos clérigos tinham razão: olha só o que aconteceu com os homens e patriarcas depois que as moçoilas de classes mediana e alta puderam ter aulas de educação sexual... 


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    [Aeternus:10569] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - A pureza

    O texto maior sobre a tradução dos clássicos, interessante em vários aspectos, é do Alberto Manguel. Achei enquanto tentava encontrar uma frase de "Conto Azul" da Yourcenar. Elogiam os primeiros esforços literários dela mas, confesso, achei os primeiros esboços metidos à besta e fantasiosos demais.
    Greek and Roman texts were recommended for the moral education of women only when purified in translation[...]" Reverend J.W.Burgon, 1884, "preached against allowing women into the university where they would have to study the texts in the original."

    Cf. Reading Black for White  PDF/Adobe Acrobat - Ver em HTML : stories by the late Marguerite Yourcenar.www.atelieraldente.de/manguel_0h4/pdf/Reading-Black-for-White.pdf -


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    [Aeternus:10570] Mensagem do Grupo43
    -Visitante(2008-12-09)


    - my dear dear dearest Jansy...

    ...a coisa se tornou ambígua de vez : além de puros, nós ômis véios viramos também putos.

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    [Aeternus:10571] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:my dear dear dearest Jansy...

    Sorry, people : não vi que estava como visitante.Claro que fui eu, Príncipe Marcos, quem escreveu há pouco.

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    [Aeternus:10572] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Inenoubilavel inominável bagunça! Quem é quem, hoje e ontem? Visitantes em azul e nero. Mais o Florião correndo atrás do delicioso efusivo dear dear pra contar que veio dele e não de outro. Porque, concordo com o espírito, Shakespeare falando por Julieta errou quando desprezou o nome da rosa.

    Velhos puros e putos. Tá certo. O que é puto eu sei, mas não o que é puro. Não que discorde. Mas, aí está, eis uma palavra que ficou como a rosa da Julieta ou iterada como a da Gertrudes Stein. Rosa rosa rosa e toda prosa nada sei... Mas tem um  príncipe que, não sendo Charles, um dia pode ser rei?

    (brincadeirinha..mas não sei mesmo oque  "puro" quer dizer, se não for um charuto cubano..claro)


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    [Aeternus:10573] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    De príncipes e reis, a brincadeira partiu de um criador tresloucado de cavalos, um tal 'Stud Red Black' que venceu o G.P.Brasil anos atrás com o animal 'Lord Marcos'.Seu lord passou a garanhão, e este ano surgiram 'King Marcos' e 'Príncipe Marcos'.(seja:o megalômano é ele, hein ?!!!)
    ---------------------------------------
    Que rosa recôndita é essa do Shakes ?
    ---------------------------------------
    Charutos.Uma vez, após um almoço inesquecível, comprei o charuto 'Vasco de Gama' para curtir com a Ana.Nunca havia experimentado.Tem sabor de salada de fruta.
    Notei que era das Ilhas Canárias, se não me engano - há tantos arquipélagos nesse mundo...
    Valeu.
    Já o Vascão daqui virou Vasquinho.
    ---------------------------------------
    (ainda)Sobre putos, a ambiguidade continua, pois há putos e putos nesse mundo...

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    [Aeternus:10574] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Nem todas rosas só exalam... A de Julieta, na peça de Shakespeare aparece como: que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem....A Rose by any other name would smell as sweet...

    Charuto com gosto de salada de fruta? Com direito à versinhos aos mares nunca dantes navegados pelos Lusíadas indo até as Canárias?

    Ah, entendi a genealogia aristrocrática do King Marcus. Emoção e corrida hípica. Sereias e cavalos tem graus de aristobeleza.  


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    [Aeternus:10575] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    O galope dos cavalos me tranquiliza.
    Sereno, rápido, lento, atiçado, fogoso...

    Sim, lembrei agora do nosso Romeo comparando sua Juliet ao smell of roses.E de novo os bucéfalos, aqui 'Smell of Rose' e 'Name of Rose', de outro criador, dessa vez.

    Sereias.Traiçoeiras, ao que dizem.

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    [Aeternus:10576] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - RE:my dear dear dearest Jansy...

    Nossa, só agora entendi o detalhe da sereiazinha dinamarquesa do Andersen. As sereias são traiçoeiras porque cantam e atraem os pobres homéricos para as profundezas do mar. A da historinha infantil, ao desejar virar humana, tem que aceitar perder a maviosa voz!     

    Acho que o Umberto Eco jogou ali com a idéia de "segredo" ( ie o que está subrosa )


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    [Aeternus:10577] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Sacrifício.Porque será este tão encravado no cêrumanu ?
    Porque a oferenda da perda/morte seduz com a promessa de vida, como nas colheitas medievais, a pedir sacrifícios das 'bruxas' da aldeia, quando se mostravam pífias ?

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    [Aeternus:10578] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Sacrifício? Lá sei. Estou lendo um livro cheio de heróis e vilões, contado de um jeito que faz com que a vilania fique maior e a bonomia também. "Universo Eléterico" de David Bodanis. Leitura inicialmente planejada pros netos e que estou percorrendo antes, encantadíssima. Tem sacrifício aí também.

    Voltando. Sacrifício mais geral.Pena que não vou recordar um fio de idéias que hoje me percorreu enquanto tentava decifrar o cirílico do Pushkin, traduzido em seguida pelo Naboca. Este ultimo dizia detestar alegorias, mas todo tempo vemos o arcabouço delas  por trás do seu pensamento. Tem até um convite para uma amada se vestir como a Flora na tela Primaverda do Boticelli e se transformar numa pura alegoria para seu amante.  O poema sobre Liberdade, do Pushkin, é magistral porque ( fora o que todos os peritos apreciam, terza rima ou pentametros com alternancia de finais masculinos e femininos e coisas assim) ele transforma a idéia da liberdade numa força libertadora ao encarná-la numa alegoria. Todo amor, todo amante é, ao fim e ao cabo, apenas uma destas alegorias feitas de carne e osso... Acho que foi por este caminho que entendi os sacrifícios, algo ligado a uma exacerbação deste processo "incarnatório", porque  o que se busca não existe ( ou é abstração pura) e sua saída material oferece desencontros que frustram e enlouquecem. 


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    [Aeternus:10579] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Você menciona algo tipo uma busca desesperada de um 'sentido'?
    A 'exacerbação do incarnatório' daria um sentido 'a muque' do que é naturalmente intangível...

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    [Aeternus:10580] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - Pushkin

    "Arrive;pluck off my garland;break/ the lyre of mollitude! I wish/ Freedom to sing unto the world/ and smite iniquity on thrones." (5-8).

    (Sobre a liberdade)

    Venha, arranque minha guirlanda, quebre a lira da malemolencia! Desejo que a Liberdade cante para o mundo e destrua a iniquidade no trono dos monarcas...
    ( o fantasma do Nabok acaba de me dar um beliscão! Ele avisou que tradutores só podem lidar com a obra de autores do mesmo sexo que o deles, fora todo o resto) 

    O que me agradou nestas linhas ( e nas outras) foi o fato do poeta ter recomendado que a lira dele e a coroa de louros fossem jogados fora para que a liberdade cantasse seu canto de guerra. O mesmo ele recomenda aos governantes: que sejam servidores da lei abstrata ( em vez de seguirem os ditames dos próprios desejos) para tornarem livres seus servos. Este "lugar" ( da liberdade, de uma lei) não existe mas existe...Se não for respeitado, há o caos.

    Só não sei como fica hoje quando qualquer poderoso, por mais que tenha poderes, está submetido às regras da bolsa, aos caprichos acéfalos das corporações... 


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    [Aeternus:10581] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Não sei se chamaria de "busca de sentido", pode ser. O que eu via era mais "busca de ordem". Se você mata um monarca, esvazia o lugar de onde vinha o referencial (incarnado no humano) da ordem. Se o monarca só pensa no próprio corpo, ele é tirano mas preserva algo desta ordem, mesmo como falso intermediador... Sem monarca, com os plutarcas... ou putorcas... não há mais cabeça pra se guilhotinar, nem referencial de ordem... mas... só sei mesmo colocar tres pontos...

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    [Aeternus:10582] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:RE:RE:my dear dear dearest Jansy...

    Boa linha de raciocínio.Faz com que se entenda melhor os Calígulas, Neros, Genghis Khan e afins dessa vida, para além de estarem no trono 'por obra e graça divina'.

    Falei em 'sentido' tentando a semântica ideal para expressar 'aquilo que explica o que não se domina', 'sentido' esse obtido a muque&martelo&serrote, o qual inscreveria o fenômeno num assegurador 'compreensível'.
    Voltam as bruxas : se uma vez sacrificadas em oferendas a próxima colheita vier favorável, fecha-se o ciclo 'inexplicado', representando assim(falsamente, claro ! mas...) um 'domínio' sobre o que é indômito...

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    [Aeternus:10583] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-12-09)


    - King Marcus, no crees en las brujas?

    Um  dos últimos experimentos de Thomas A. Edison, já velhote, foi ligar um fio condutor que saía de sua cabeça a um ponteiro. Michael Faraday só descobriu algo sobre os campos magnéticos porque era religioso e achava que não podia existir um vazio. E Marat indiretamente colaborou com a morte de Lavoisier porque este último não o aceitou como membro do colegiado científico pois d esacreditava da teoria sobre o flogiston. 

    Cada coisa.   


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    [Aeternus:10584] Mensagem do Grupo43
    -Marcos Florião(2008-12-09)


    - RE:King Marcus, no crees en las brujas?

    Jansy sempre é Kultur.
    Lembrei do velho Nicola Tesla, Feiticeiro-Mor.Até hoje tenho arrepios com a história da vida dele e o que vimos no excelente 'The Prestige'.
    O mero fato de alguém imaginar dar a volta no planeta com um arco voltaico já é coisa de bruxa(o), né ?

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    [Aeternus:11506] Mensagem do Grupo43
    -Omar(2009-05-09)


    - Grete Stern

    Tá acontecendo uma exposição no Museu Lasar Segall com fotos de Grete Stern, vejam o link: http://www.museusegall.org.br/lsFetchItem.asp?sMenu=L003&sTipo=5&sItem=625&sOrdem
    Eu não fui ver ainda, mas ganhei um livro com as fotos, são fotomontagens feitas na década de 40, em P&B, baseadas em relatos de sonhos de pacientes de psicanálise, muito interessante!

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    [Aeternus:11508] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-09)


    - utilidade publica

    AVISO IMPORTANTE !!!


    Quem quiser tirar uma cópia da certidão de nascimento, ou de casamento, não precisa mais ir até um cartório, pegar senha e esperar um tempão na fila.
    O cartório eletrônico, já está no ar! Nele você resolve essas (e outras)
    burocracias, 24 horas por dia, on-line. Cópias de certidões de óbitos,
    imóveis, e protestos também podem ser solicitados pela internet.
    Para pagar é preciso imprimir um boleto bancário.
    Depois, o documento chega por Sedex.
    www.cartorio24horas .com.br
    Passe para todo mundo, que este é um serviço da maior importância.
    DIVULGUE. É IMPORTANTE: AUXÍLIO À LISTA
    Telefone 102... não!
    Agora é: 08002800102
    Vejam só como não somos avisados das coisas que realmente são
    importantes. ..
    NA CONSULTA AO 102, PAGAMOS R$ 1,20 PELO SERVIÇO.
    SÓ QUE A TELEFÔNICA NÃO AVISA QUE EXISTE UM SERVIÇO
    VERDADEIRAMENTE GRATUITO.

    Não custa divulgar para mais gente ficar sabendo.
    Importante: Documentos roubados - BO dá gratuidade - Lei 3.051/98 - VOCÊ SABIA???

    Acho que grande parte da população não sabe, é que a Lei 3.051/98 que nos dá o direito de em caso de roubo ou furto (mediante a apresentação do Boletim de Ocorrência), gratuidade na emissão da 2ª via de tais documentos
    como:
    Habilitação (R$ 42,97);
    Identidade (R$ 32,65);
    Licenciamento Anual de Veículo (R$ 34,11).

    Para conseguir a gratuidade, basta levar uma cópia (não precisa ser
    autenticada) do Boletim de Ocorrência e o original ao DETRAN p/ Habilitação e Licenciamento e outra cópia à um posto do IFP.


    -Gostaria que cada um não guardasse a informação só para si.


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    [Aeternus:12387] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-26)


    - Cirque du Soleil

    Quando pela primeira vez vi imagens do Cirque du Soleil, na televisão, contando a história da trupe canadense andando em pernas de pau, expressando uma forma de viver o mundo, criando um clima de estranheza encantadora, decidi que iria assisti-los um dia.  Havia magia, semelhante a captada no filme " Le Grand Meaulnes" , uma sugestão de novos espaços e dimensões. Por coincidencia eu lia meus primeiros livros de autores canadenses e estava igualmente surpresa com as histórias de selvageria e delicadeza que não tinham qualquer semelhança com as americanas sobre assuntos semelhantes, com as inglesas, com as francesas. Era como se, sem mais nem menos, eu passeasse na floresta da Tijuca e encontrasse, ali, a casa de João e Maria com biscoito de gengibre e tudo.  Ou, como na frase genial da poeta Marianne Moore, visitasse "um jardim imaginário guardando sapos de verdade". Estou sempre atrás destes sapos.

    O primeiro espetáculo que vi ( La Nouba) aconteceu de modo inesperado. Eu tinha acompanhado os netos à Disneylandia sem prestar muita atenção nos programas que me esperavam, deixando acontecer e indo na onda. E não é que a primeira visita foi ao Cirque?  O show foi maravilhoso e eu ainda estava sofrendo de jetlag, o que aumentou a sensação de sonho. 

    Para o segundo me preparei. Ia levar comigo o Humberto, que sempre os curtia pela TV. Comprei ingressos com antecedência, passagens e reserva de hotel. Vimos "Alegria", na Barra da Tijuca, com o filho Cyro. Foi quase tão bom quanto o anterior.

    Pra o "Quidam", novos cuidados antecipatórios. Em maio comprei ingressos e iríamos todos, Ula e Peter e filhos. A cada mes, quando pagava as prestações, me consolava que os gastos, astronomicos para mim, ia valer a pena. Até que valeu. Mas não era mais o circo mágico. Os palhaços e enchimentos cenicos, a brincadeira de fingir que pessoas da platéia entram  no show estavam descozidos do resto. Era um quadro "maníaco". Havia até um palhaço principal encarregado desta parte que era muito talentoso, mas tinha aquela graça germanica de menino de seis anos que gosta de pum. A gente ri, contentinha, mas não faz bem à alma como outro tipo de palhaçada que se apresentara em Disney ( os palhaços interagiam com objetos, sofriam com o mundo inanimado e levavam tombos, davam de cara na parede... eram todos acrobatas)   O espetáculo do talento circense foi, como sempre, ótimo ( orientais diminutas com diabolô, trapezistas em fios ou faixas de tecido, homens e mulheres musculosíssimos obtendo recordes de força e equilíbrio, piramides humanas, gente pulando cordas entrelaçadas), a música estava horrível e a cantora sem competencia. A articulação entre as apresentações chegava a ser desagradável. Magia????? Nenhuma. Pra quem nunca viu antes, tava de bom tamanho. Podia ter havido um Carequinha pra endereçar o respeitável público com balões e esguichos, mas o substituto agradou e dava pra ver que a platéia ficou feliz. Até eu, um pouco.


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    [Aeternus:12388] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-26)


    - RE:Cirque du Soleil

    Ontem, durante o espetáculo, Humberto fez pouco de algumas acrobacias que tiraram suspiros de mim, garantindo que no treinamento militar nas academias aquilo era quase rotineiro. Hoje, conversando sobre a experiência, ele foi mais entusiástico, sem deixar de lado a paixão pelas orientaizinhas com suas cordas e carretéis. É que ele não espera muito da mise-en-cène e da música. 

    Se retomo o tema é porque, de fato, eu podia ter elogiado mais o palhaço principal. Este era um mímico genial, mesmo não sendo acrobata. Discutimos se todos os convocados da platéia seriam contratados pelo show antecipadamente, ou havia alguns incautos. Eu acho que as moças eram escolhidas previamente. O cara arrancou as sandálias das duas e jogou longe e ambas nem registraram alguma preocupação com os pés. Andaram descalças e voltaram descalças pro assento delas. O que faz as pessoas rirem de montão é o que o palhaço provoca nos amadores postos em cena, todos com um espírito esportivo dos mais surpreendentes, levando broncas, errando, sendo imitados nas falhas e ridicularizados com bom humor. Se eram todos escolhidos na hora, o palhaço será, acima de tudo, um excelente psicólogo para reconhecer os limites do que podia obter de cada um. Até beijinhos e cabelos arrepiados.   Foi bom relembrar a cena da pulação de corda, uma beleza de trabalho em equipe e de harmonia. Tinha a estética de um bom balé. E, talvez, comparar o rosto de uma das principais dançarinas no espaço (se exercitando em fitas vermelhas) que, na hora do esforço parecia uma eumenide, uma bruxa irada voando aos gritos e, no chão, tinha um sorriso candido, aflito pela aprovação.


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    [Aeternus:12389] Mensagem do Grupo43
    -Visitante(2009-09-26)


    - RE:Cirque du Soleil

    Foi a primeira vez que me animei a assistir le Cirque, dando-me o direito inclusive de Tapis Rouge com tratamento VIP e angulo privilegiado na platéia.´O grupo tem grande dominio de sua arte, não resta dúvidas, apesar de pequeno erro das chinesinhas que mereceu aplauso do publico, em reconhecimento à dificuldade do trabalho que apresentavam. Imaginava que o espetáculo seria a dramatização de alguma história, não foi o que vi, apesar da presença de um "palhaço" que fazia um "link" forçado entre os quadros. Bom espetáculo.

    Talvez por não ter expectativa nenhuma, fui surpreendida  com a apresentação do grupo vocal israelense extremamente talentoso: The Voca People. Recomendo. Não sei a cidade onde estão se apresentando nesta semana.


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    [Aeternus:12390] Mensagem do Grupo43
    -Visitante(2009-09-26)


    - RE:RE:Cirque du Soleil

    http://www.youtube.com/watch?v=N6EYrqIn0yI

    Um aperitivo do genial grupo israelense. Não há instrumentos musicais ...


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    [Aeternus:12391] Mensagem do Grupo43
    -Visitante(2009-09-26)


    - RE:RE:RE:Cirque du Soleil


    Crédito: Divulgação
    A Terra foi invadida por seres de outro mundo e as cidades de Porto Alegre, Curitiba e Brasília já foram visitadas. Agora, vindo do Planeta Voca, The Voca People promete assolar o palco do Vivo Rio nesta quarta-feira (23/09). E a única forma de comunicação são expressões vocais primitivas - beatbox, barulhos estranhos e onomatopeias.

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    Vestido de branco, da cabeça aos pés, o grupo performático israelense, sucesso no YouTube, apresenta um musical de repertório eclético. O que chama atenção é a forma como eles interpretam canções que vão desde Madonna e Michael Jackson a Nirvana e Spice Girls. Ao todo são oito integrantes: contralto, soprano, mezzo, tenor, baixo, barítono e dois especialistas em beat-box. O resto... Bom, o resto vale a pena conferir no famoso video do grupo.

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    Serviço
    The Voca People
    Onde: Vivo Rio - Avenida Infante Dom Henrique, 85 - Parque do Flamengo - Rio de Janeiro
    Quando: Quarta-feira, 23 de setembro
    Quanto: De R$60 a R$ 140
    Como chegar: Veja no mapa
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    [Aeternus:12392] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-26)


    - RE:RE:Cirque du Soleil

    Valeu, visitante. Sensibilidades musicais diferentes, no entanto. Eu esperava uma musica estratosférica, como nos shows anteriores e cantoras com voz finíssima. Talvez o grupo vocal de sucesso que eles escolheram para este shw seja ótimo, mas em outro contexto. Assim como a turma vestida de branco, às vezes fazendo o papel de focas de circo, em outras como enfermeiros de pronto-socorro astral.

    Havia um enredo. Cada show tem um tema e um personagem. La Nouba era uma menina de cabelo e nariz arrebitado; Quidam, um boxeur de braços longuíssimos com poder de gerar raios e trovões.  Neste espetáculo, a figura habitual do homem sem cabeça que segura umarda-chuva,dá um chapéu da fantasia, azul, para uma menina de roupa que pedia, em vão, a atenção dos pais, ambos ocupadíssimos com jornal ou ouvindo rádio. Quando ela coloca o chapéu, os dois somem no espaço ( as cadeiras são içadas e levadas embora, com gaiola de passarinho e abajur) e a fantasia vivida por ela, inicia.  No final a família se une, o pai recupera o sapato, a menina solta balões e coisas no genero. Uma história bastante boba. E, como disse, ao contrário dos outros espetáculos, totalmente descozida do resto, mesmo no mundo da fantasia.  Portanto, viva os atletas, os malabaristas, os palhaços. Viva o espetáculo de circo! Mas não era quase sobrenatural, como o antigo surrealismo luminoso dos shows anteriores.  E a música étnica variada, com pedaços de várias culturas diferentes mas sempre a mesma intérprete. Mas na verdade, não posso comentar como quem entende de música. Eu curtia o clima e a variedade, a estranheza. Nada mais.  Pra quem não espera isso ( problema meu, não é?) apesar de dez vezes mais pobre que os espetáculos anteriores, ainda foi algo excepcional.


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    [Aeternus:12393] Mensagem do Grupo43
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-26)


    - PS

    Há outras coisas que devem ser elogiadas no cirque du soleil. A organização que impede acotovelamentos, o tratamento diferenciado para idosos ( levaram Humberto por uma rampa, para evitar as escadas íngremes), garçons, seguranças, atendentes sorridentes. No Tapis Rouge, ainda mais cuidados e menos fila nos banheiros, taças de proseco, suco del Valle ou refrigerantes, mais uma variedade grande de salgadinhos num bufê. Um fantasma alado jogou montes de papel picado bem em cima da minha cabeça e recolhi alguns, ainda no clima do pó de pirlimpimpim (joguei fora depois).

    E há coisas que uns vêem e os outros, não. Por exemplo, na cena das cordas de pular, que eram riscadinhas em colorido com branco, não vi o desenho de flores que se abriam quando as cordas eram giradas rapidinho entrelaçando várias as cordas agitadas em sincronia. Juliana, minha neta, viu e se entusiasmou. Atrás da minha fileira, uma senhora se animou tanto com a música que batia com o pé no chão e estremecia todas as cadeiras...

    Mas só retomei porque na mensagem passada havia o delete em vez do insert na hora de corrigir uma frase ou outra, assim a palavra "um guarda-chuva" ficou truncada e a roupa da menina negligenciada pelos bons burgueses era baloné vermelha...


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