| Divulgação | Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus
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Festival de Filmes Rio 2005
| Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo: LFGallego:
Antes mesmo do festival começar jansy mello:
RE:Antes mesmo do festival começar LFGallego:
Sacrifício de cinéfilo maluco jansy mello:
RE:Sacrifício de cinéfilo maluco que passarinho também come pedra Visitante:
RE:RE: Passarinho maluco cai no poço em crise cinéfila exsistencial jansy mello:
RE: Passarinho maluco cai no poço em crise cinéfila exsistencial LFGallego:
RE:RE: Prova que a memória se esvai antes do festival começar jansy mello:
RE:Prova que a memória se esvai antes do festival começar Marcos:
fumaças jansy mello:
Noticiário enviado pelo LFGallego Marcos:
1. Eros jansy mello:
RE:1. Eros Mello Pirata:
Direto do NY Film Festival Pirata Mello:
Oliver Twist, de Polanski, no festival de NY Marcos:
RE:RE:1. Eros Marcos:
RE:Direto do NY Film Festival Marcos:
RE: Hugh Griffith LFGallego:
RE:RE:1. Ainda Eros (e o resto) jansy mello:
RE:RE:RE:1. Eros jansy mello:
RE:RE:RE:1. Ainda Eros (e o resto) LFGallego:
segundo dia do festival jansy mello:
RE:segundo dia do festival - Pedri mais... LFGallego:
RE:RE:second thoughts sobre o segundo dia do festival - Pedri mais... jansy mello:
RE:second thoughts sobre o segundo dia do festival - Pedri mais... Marcos:
2. La Femme de Gilles e 3. Mrs. Henderson Presents Marcos:
4. Coure Sacro jansy mello:
RE:4. Coure Sacro eCuore Saco? Marcos:
5. Proof LFGallego:
preferências e "diferências" Conde Drácula:
RE:RE:4. Coure Sacro eCuore Saco? Marcos:
RE:preferências e diferências Jansy Mello:
RE: Coure Sacro eCuore Saco? jansy mello:
RE:preferências e diferências Marcos:
6. Onde jansy mello:
RE:6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano... LFGallego:
RE:RE:6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano... Marcos:
RE:RE:RE:6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano... Conde Drácula:
RE:RE: A invasão do real jansy mello:
6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano... Tudo com rinite? Jansy Mello:
RE: A invasão do real..A little learning is a dangerous thing LFGallego:
RE:6. delicadas: não necessariamente poéticas cenas do cotidiano jansy mello:
RE:6. delicadas: não necessariamente poéticas cenas Marcos:
RE:RE:6. delicadas cenas e pinceladas Marcos:
7. Caché LFGallego:
RE:7. Caché Marcos:
RE:RE:7. Caché jansy mello:
Longínqüas perplexidades Marcos:
RE: de cotidianos, musas, histórias, denúncias, E.T.s e fins de mundo jansy mello:
extrato de trivial variado Marcos:
8. Forty Shades of Blue jansy mello:
escalada escatologica: a antiga ressurreição alien LFGallego:
filmes quadrados, graças aos Céus! LFGallego:
RE:filmes quadrados/"Roma" Conde Drácula:
O Pornógrafo Marcos:
RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien Marcos:
RE:O Pornógrafo jansy mello:
RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: escalando quem? Conde Drácula:
RE:RE:O Pornógrafo jansy mello:
RE:O Pornógrafo Marcos:
forfaits e últimas do front Marcos:
RE:RE: inveja LFG:
RE: a antiga ressurreição alien jansy mello:
RE a antiga ressurreição alien ... isso!!! Marcos:
RE:RE a antiga ressurreição alien ... Ridley Scott jansy mello:
RE:a antiga ressurreição alien ... Ridley Scott Jmnksy Mollw:
RE:RE:a antiga ressurreição alien ... Ridley Scott Marcos:
RE:RE:RE: Harold Pinter / The French Lieutenant's Woman jansy mello:
RE:Harold Pinter / The French Lieutenant's Woman LFGallego:
Eu sou viciado em sexo! jansy mello:
RE:Eu sou viciado em sexo! jansy mello:
comentando Gallego Marcos:
RE: realizadores, espectadores e rumos LFGallego:
realizadores e espectadores viciados em cinema... e em sexo... jansy mello:
RE:realizadores e espectadores viciados em cinema... e em sexo... Marcos:
9. Innocence Marcos:
10. I'm a Sex Addict Marcos:
RE:9. Innocence Marcos:
RE:RE:9. Innocence : errata 100 anos jansy mello:
RE:10. I'm a Sex Addict Marcos:
RE:RE: mas... jansy mello:
RE:RE:RE: mas... o rebote LFG:
RE:Que memória! (sobre9. Innocence) Marcos:
RE:RE: sobre indução da mídia... Marcos:
RE:RE:RE:RE: o rebote em Innocence Marcos:
RE:RE: Innocence jansy mello:
RE:RE:Que memória! (sobre9. Innocence) jansy mello:
RE:RE:Que memória! (sobre9. Innocence) jansy mello:
meu festival em DVD: Sin City Marcos:
11. La Moustache LFG:
Troquei La Moustache por Ozu jansy mello:
RE:Troquei La Moustache por Ozu/ o que é sapituca? LFG:
RE:RE:Troquei La Moustache por Ozu/ o que é sapituca? Conde Drácula:
RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: Re-res-su-sur-re-rei-çã-ção Marcos:
RE:RE:RE: empatia à muque Marcos:
RE:RE:RE:RE: intróito ao Bigode Marcos:
RE:RE:RE:RE:RE: me subestimei... jansy mello:
RE:Troquei La por Ozu/ o que é sapituca? Marcos:
RE:RE: Conde cada dia melhor ! jansy mello:
RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: Re-res-su-sur-re-rei-çã-ção Marcos:
RE:RE: parabéns a vocês dois Marcos:
RE:RE: intromissão no bacural jansy mello:
RE: intromissão no bacural Marcos:
RE:RE: intromissão no bacural : de penitenências Marcos:
12. Where the Truth Lies LFG:
Iberia jansy mello:
RE:Iberia Conde Drácula:
RE:RE:Troquei La por Ozu/ o que é sapituca?: calor na bacurinha jansy mello :
RE: o que é sapituca? E calor na bacurinha? Ad Tergo? In tandem? Conde Drácula:
RE:RE: escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: Re-res-su-sus-sci-ci-ta-ta-ço-ções Marcos:
RE:RE: Egoyan para principiantes jansy mello:
RE:Egoyan para principiantes: Atom e Dar-El Visitante:
Onde se lê Dar El, leia-se Kal-El Marcos:
RE:12. Where the Truth Lies : uma injustiça que cometi Marcos:
RE:RE: The Sweet Hereafter jansy mello:
RE:The Sweet Hereafter LFGallego:
até que enfim: Win Wenders rides again! LFGallego:
outros assuntos Marcos:
13. Bloom (e) 14. Provincia Meccanica jansy mello:
RE:outros assuntos oferecem um bnhao ed erdicãou jansy mello:
RE:13. Bloom (e) 14. Provincia Meccanica Marcos:
RE:RE:13. Bloom (e) 14. Provincia Meccanica LFGallego:
respondendo Jansyta ao entardecer Marcos:
RE: Carmen Miranda jansy mello:
RE:RE: Carmen Miranda LFGallego:
Belo Sol Negro no Crepúsculo de Festival LFGallego:
outro site... jansy mello:
RE:outro site... LFGallego:
Reis e Rainha Marcos:
16. Rois et Reine jansy mello:
RE:Reis e Rainha de Copas LFG:
filme literário é cinema? Marcos:
15. Sophie Scholl - Die Letzten Tage Marcos:
17. Enduring Love Visitante:
filmes literários... LFGallego:
RE:17. Enduring Love Marcos:
RE:RE: balancing Gallego LFGallego:
comentando a partir do Marcos Marcos:
RE: perdas em Woody LFGallego:
ainda Enduring love Marcos:
RE:ainda Enduring love Conde Drácula:
RE:17. Enduring Love: Um filme-balão com impulsão excessiva Jansita Mello:
RE:17. Enduring Love: Um filme-balão com impulsão excessiva Marcos:
RE:RE: de misoginias jansy mello:
RE: de misoginias LFGallego:
esclarecendo sobre o "mala" "Enduring Love" LFGallego:
definitivo fim de festa LFGallego:
O Homem que amava as mulheres. Marcos:
discorro e respondo as arestas aos amigos jansy mello:
RE:discorro e respondo as arestas aos amigos LFGallego:
RE:discorro e respondo as arestas aos amigos Marcos:
RE:RE: arestas II Conde Drácula:
RE:RE:RE: arestas II: Je T'Aime, Moi Non Plus LFGallego:
Réréréréré Marcos:
RE:Réréréréré...'Ráu' many pregnancies ? Marcos:
A Camareira do Titanic jansy mello:
RE:Réréréréré dos fradinhos Marcos:
RE:RE: pas souffrance !!! Fradinho cumprido:
De piadas que deixam as moças tristes a camareiras do Titanic jansy mello:
RE:De piadas que deixam as moças tristes a camareiras do Titanic Marcos:
RE: de Bigas, bigas, bagos, tetas, triângulos, rostos e atrizes Marcos:
RE:RE: os triângulos do Bigas jansy mello:
bom dia flor do dia no horário de verão... Conde Drácula:
RE:Belo Sol Negro no Crepúsculo de Festival: O Jardineiro Fiel LFGallego:
O Jardineiro de Deus Jansy Mello:
RE:O Jardineiro de Deus Davy:
RE:O Jardineiro de Deus jansy mello:
RE:O Jardineiro de Deus e o Smiley do Davy LFGallego:
Cidade Fiel Marcos:
RE: Lumet europeizado e tendências USA jansy mello:
RE:RE: Lumet europeizado e tendências USA Marcos:
RE:RE:RE: anos dourados Conde Drácula:
RE:RE:RE:RE: ânus dourados Conde Drácula:
RE:1. Eros: O homem pergunta: "O que acontece se eu me deitar aí com você?" A mulher responde: "Eu te digo meu nome" Marcos:
para o Conde : Alan Arkin LFGallego:
Retomando o filme Eros Marcos:
RE: vitrines da perversão : Leconte e Wong Kar Wai jansy mello:
RE:Retomando: se a mão der pé... LFGallego:
RE:RE:Retomando: se a mão der pé... jansy mello:
RE:RE:RE:Retomando: se a mão der pé... Alexandre Dumas:
RE:RE:RE:RE: Aramis Semiramis:
RE:Aramis Marcos:
RE:RE: filiação imediata ! David Niven:
RE:RE: Around the World in Eighty Days Conde Drácula:
RE:RE:1. Eros: Fetiche-tornado-amor Marcos:
RE: Gilliam e Monica Belucci em Os Irmãos Grimm Guto:
RE:RE:RE:RE:Retomando: se a mão der pé... jansy mello:
RE: Around the World in Eighty Days Dercy Gonçalves e Marcos:
RE:RE: de pererekas e toilettes Conde Drácula:
RE:RE:RE: de pererekas e toilettes jansy mello:
RE: de pererekas e toilettes jansy mello:
RE:RE:RE:RE: de pererekas e toilettes Marcos:
RE:RE: filmes família & outras cenas no Rio antigo que não volta mais jansy mello:
RE: filmes família & outras cenas no Rio antigo que não volta mais Marcos:
RE:RE: por isto mesmo que eu coloquei a ?... LFGallego:
Entrando no meio do(s) filme(s) jansy mello:
RE:Entrando no meio do(s) filme(s) Luzes do Cineac Trianon Marcos:
RE:RE: de tóraxes, portugas cutubas e anjos jansy mello:
RE: de tóraxes, portugas cutubas e anjos LFGallego:
RE:RE:Cineac e faquires pornôs!!! Marcos:
RE:RE:RE:Cineac e faquires pornôs!!! - dá samba ? jansy mello:
RE:Cineac e faquires pornôs!!! 3 Marcos:
RE: toda a discreta pujança do Rio Comprido e doces recordações Marcos:
RE:RE: lotações : faltou dizer jansy mello:
RE: lotações : faltou dizer 3 Marcos:
RE:RE: lotações : faltou dizer 4 ( por enquanto ! ) Marcos:
RE:RE: lotações : faltou dizer 4 ( por enquanto ! ) Marcos:
RE:RE: lotações : faltou dizer 4 ( por enquanto ! ) Conde Drácula:
RE: Eros: som e silêncio Conde Drácula:
RE:RE: Eros: som e silêncio Marcos:
RE: respondo a crônica da Jansy jansy mello:
RE:RE: respondo a crônica da Jansy com nota aguda... Brazilian Stallion:
50 sem tirar de dentro Garanhão da Aldeia Campista:
Cinquenta e uma!!!! Cinéfilo Fiel:
Jardineiro Fiel de novo jansy mello:
RE:50 sem tirar de dentro Marcos:
genthem ! vocês estão demais ! jansy mello:
RE:genthem ! vocês estão demais ! Marcos:
RE: flight to quality & strategic or blind landings jansy mello:
John Sayles e mitologia celta Marcos:
RE: interativo jansy mello:
RE: interativo 2 jansy mello:
Stick, uma lembrança que veio atrasada... jansy mello:
T.Roosevelt´s Big Stick...consegui colocar imagem? jansy mello:
Teddy Bear Roosevelt, Barão e James Monroe no Rio Marcos:
RE:RE: interativo 3 : comoções jansy mello:
RE: iterativo 5 : comoções na mosca! Marcos:
RE:RE: iterativo 6 : o palavrão através dos tempos jansy mello:
RE:O Jardineiro de Deus jansy mello:
RE:PS: O Jardineiro de Deus que é fiel LFG:
Deus da Jansy é fiel Marcos:
RE: só jardinarei na 4ª feira jansy mello:
RE:só jardinare i na 4ª feira a camélia que caiu do galho Marcos:
RE:RE: jardinado, digo que... jansy mello:
RE: jardinado, digo que... Marcos:
RE:RE: jardinado, digo que... Conde Drácula:
RE:até que enfim: Win Wenders rides again! VIVA!! Conde Drácula:
RE: A Camareira do Titanic jansy mello:
RE:A Camareira do Titanic Conde Drácula:
RE: A Camareira do Titanic: Full Gas: consumar é consumir Marcos:
a partir de 'A Camareira do Titanic' e do texto do Conde Marcos:
Antonioni em Eros, em seus filmes e em Blow Up Conde Drácula:
RE:Antonioni em Eros, em seus filmes e em Blow Up LFGallego:
quarto festival Varilux de cinema francês jansy mello:
RE:quarto festival Varilux de cinema francês 2 Visitante:
RE:RE:quarto festival Varilux de cinema francês 3 jansy mello:
RE:quarto festival Varilux de cinema francês 3 jansy mello:
RE:quarto festival Varilux de cinema francês 3 Marcos:
RE: quarto festival Varilux de cinema francês 4 : Rendelladas e Chabroladas jansy mello:
RE:RE: quarto festival Varilux de cinema francês 5 : Rendelladas e Chabroladas Marcos:
RE: quarto festival Varilux de cinema francês 5 : um gosto e dois vinténs jansy mello:
RE:RE: quarto festival Varilux de cinema francês 5 : um gosto e dois vinténs LFGallego:
RE:RE: quarto festival... é mais fácil sintonizar no desgosto LFGallego:
RE:RE:RE: quarto festival e nem dois vinténs :
RE:RE:RE: os quatro "B"s da música LFG:
RE: os quatro Bês Marcos:
RE: quarto festival...Keaton, Sellers, 'Ondas' e portugas jansy mello:
RE:RE: quarto festival...Keaton, Sellers, 'Ondas' e portugas 3/4 Márcia Adorno:
O jardineiro fiel e Heidegger jansy mello:
RE:O jardineiro fiel e Heidegger 2 LFGallego:
RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 3 jansy mello:
RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4 jansy mello:
RE:O jardineiro fiel e Heidegger 5 via Lacan Marcia Adorno:
O Jardineiro fiel jansy mello:
RE:O Jardineiro fiel da balança do Gallego LFGallego:
Contra a Interpretação. Márcia Adorno:
Frustração LFGallego:
RE:Frustração (Consolação besta) Marcos:
RE:RE:Frustração : PÔ Galleguito ! Márcia Adorno:
Socializando a tristeza jansy:
RE:Frustração jansy mello:
RE:RE:Frustração (Consolação besta) JANSY MELLO:
RE:Contra a Interpretação. LFGallego:
Nem falsa modéstia do self nem modéstia do falso self LFGallego:
a favor da interpretação jansy mello:
RE:Nem falsa modéstia do self nem modéstia do falso self Marcos:
a nos amours jansy mello:
RE:a favor da interpretação Conde Drácula:
RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4 Conde Drácula:
RE:RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 6: Jardinagens e divagações e a metalinguagem do medo existencial jansy mello:
RE:RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4 Otelo:
RE:RE:RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4 Prof. Orieth Bay:
RE: bola de cristal 5 jansy mello:
RE:O jardineiro fiel e Heidegger 8: Jardinagens e divagações e a metalinguagem do medo existencial LFGallego:
RE:RE:a favor da interpretação (contra lacanices) Desdemona:
Chosisme jansy mello:
RE:a favor da interpretação (contra lacanices) Marcos:
o ângulo Aschenbach em cada um de nós Iago(?):
RE: Villa-Matás jansy mello:
RE: Chosisme Conde Drácula:
RE:Contra a Interpretação & o consultor de Herzog LFGallego:
Cidade Baixa Márcia Adorno:
Formalismo e forma Marcos:
RE:Formalismo e forma : honra ao mérito Marcia Adorno:
Tals e etcs jansy mello:
RE:Tals e etcs Marcos:
RE:Tals e etcs 2 jansy mello:
RE:Tals e etcs 2 Conde Drácula:
RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin: "I can show you the world..." jansy mello:
RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin: Marcos:
RE:RE:Tals e etcs 3 Marcos:
RE:O jardineiro fiel e Heidegger 10: milagres em conta-gotas Enrique L.M:
RE:Formalismo e forma Márcia Adorno:
Língua Viva jansy mello:
RE:Língua Viva 2 Márcia Adorno:
TEMPO...TEMPO jansy mello:
RE:TEMPO...TEMPO 2 do jardineiro fiel Marcos:
RE:RE:TEMPO...TEMPO 3 : da trepadeira do Donne Márcia Adorno:
Língua Viva 3 jansy mello:
Andrew Marvell Coy´s mistress jansy mello:
RE:Língua Viva 3,OED e Dr. W.C.Minor e o Imperialismo da Palavra Conde Drácula:
RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin: jansy mello:
RE:RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin: Conde Drácula:
RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 4 : do Mick Jagger jansy mello:
RE:Andrew Marvell Coy´s mistress jansy mello:
RE: do Mick Jagger...Não diga! Bolsões do tempo... Visitante:
RE:RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 5: do Frederico Marcos:
RE:RE:RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 6 : do Gonzaguinha jansy mello:
RE:: do Frederico e do Florião Conde Drácula:
RE:RE:RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 10: Aladdin para Jasmin: Each man kills the thing he loves... Conde Drácula:
RE:RE:RE:RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 7: Eterno retorno (Alô Davy! Alô Jansy! Alô Márcia! Alô Marcos!) Márcia Adorno:
TEMPO...TEMPO jansy mello:
RE:TEMPO...TEMPO 7: Eterno retorno (Alô Davy! Alô Jansy! Alô Márcia! Alô Marcos!) jansy mello:
tatibitando na resposta LFGallego:
A Marca da Violência/ Tudo acontece em Elizabethtown UAU!:
UAU DENOVO! Visitante:
RE:UAU DENOVO! jansy mello:
RE:A Marca da Violência/ Tudo acontece em Elizabethtown jansy mello:
RE: Alô e os ponteiros do relógio Marcos:
RE:RE: Mercutio jansy mello:
RE:RE:RE: Mercutio Marcos:
RE: Mercutio 3 e Romeo jansy mello:
RE:RE: Mercutio 3 e Romeo Marcos:
RE: viciando os sentidos jansy mello:
RE:RE: viciando os sentidos jansy mello:
Mulundu e Henri Moore Marcos:
RE: Il Sole Anche di Notte Márcia Adorno:
As faces do tempo Marcos:
RE:As faces do tempo : lagartixas pensantes ? Conde Drácula:
RE:tatibitando na resposta: Each man kills THE THING he loves... jansy mello:
RE:Each man kills THE THING he loves... LFGallego:
Mulungu(?) Aspirinas e Urubus Marcos:
RE: Rainer Werner Fassbinder então matou... jansy mello:
RE:Mulungu(?) Aspirinas e Urubus Marcos:
RE:Mulungu(?) Aspirinas e Urubus : Eça de Queiroz jansy mello:
RE:RE:Mulungu(?) Aspirinas e Urubus jansy mello:
RE:RE: Aspirinas e Urubus : Eça de Queiroz e Musil Marcos:
RE: Musil e Bastide Conde Drácula:
Aspirinas LFGallego:
Mulungu, Murundu, Musil y otras cositas más (más e boas) jansy mello:
RE:RE: Musil e Bastide e as panacéias LFGallego:
RE:Aspirinas Conde Drácula:
RE: As faces do tempo jansy mello:
O Tempora... jansy mello:
E agora José, viva a diferença, festival de filmes, va savoir... Conde Drácula:
RE:RE: Rainer Werner Fassbinder então matou...: Protect me from what I want LFGallego:
A escolha anaclítica Conde Drácula:
RE:RE:TEMPO...TEMPO 8: do Calvin jansy mello:
RE:A escolha anaclítica e as elevadas convergências Conde Drácula:
RE: A escolha anaclítica jansy mello:
RE: A escolha anaclítica & Chardin jansy mello:
Vila-Matas, desmemória e Cronenberg Conde Drácula:
O Mercador de Veneza jansy mello:
cutelo temporal LFGallego:
RE:cutelo temporal lfgallego :
RE:RE:cutelo temporal 2 Marcos:
RE: Cronenberg : Twins LFGallego:
Vinicius, o filme LFGallego:
RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins jansy mello:
RE:Cronenberg : Twins jansy mello:
RE: King of Hearts jansy mello:
Desencontro e ficção como realidade Visitante:
NABOKOV Marcos:
RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins Marcos:
RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins Marcos:
RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins Marcos:
RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins Marcos:
RE:RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Quíntuplos... jansy mello:
RE:NABOKOV Visitante:
RE:RE:RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Quíntuplos...quin quin quin quin quin Conde Drácula:
RE:RE:RE:RE:RE: O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven LFGallego:
RE:Desencontro e ficção como realidade Marcos:
RE: O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven LFGallego:
RE:RE:Bujold/As Troianas///Cronenberg : Twins LFGallego:
RE:Desencontro e ficção como realidade Marcos:
RE: Cacoyanis e Bates LFGallego:
E agora? Achei "Manderley" ótimo!!! jansy mello:
entrando de gaiata no navio...ou nas barcas de Niterói jansy mello:
RE:O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven LFGallego:
RE:entrando de gaiata no navio...ou nas barcas de Niterói LFGallego:
RE:RE:O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven jansy mello:
RE:RE:entrando de gaiata no navio...ou nas barcas de Niterói LFGallego:
Oliver Triste jansy mello:
RE:Oliver Triste LFGallego:
RE:RE:Oliver Triste Marcos:
Alan Bates Marcos:
RE: Hello, Stranger ! Marcos:
RE: tornando-nos espectadores ideais Maysa:
RE:RE:RE:Oliver Triste Again jansy mello:
RE:Alan Bates jane mello:
RE:RE: Hello, Stranger ! Visitante:
RE:RE:RE:RE:Para Maysa/Oliver Triste Again LFGallego:
RE:RE:RE:RE:RE:Dickens/[Para Maysa/Oliver Triste Again Conde Drácula:
RE:RE: Hello, Stranger ! How can you tell I'm under a spell, I'm wating for love's first kiss? jansy mello:
RE: Hello, Stranger ! How can you tell I'm under a spell, I'm wating for love's first kiss? Visitante:
RE:RE: Hello, Stranger ! How can you tell I'm under a spell, I'm wating for love's first kiss? Conde Drácula:
RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures jansy mello:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures jansy mello:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures Visitante:
RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures Marcos:
RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures jansy mello:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures Marcos:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures : Women in Love LFGallego:
Cosi fan tutte/Closer jansy mello:
RE:Cosi fan tutte/Closer Visitante:
RE:RE:Cosi fan tutte/Closer jansy mello:
RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures : Women in Love jansy mello:
RE:Cosi fan tutte/Closer jansy mello:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures LFGallego:
RE:querem mais sobre Cosi fan tutte? jansy mello:
RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?... LFGallego:
RE:RE: Alice não é mau-caráter Conde Drácula:
RE:RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures: Por quê o Larry GO-ZA transformando suas mulheres em putas?! jansy mello:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures: Por quê o Larry GO-ZA transformando suas mulheres em putas?! jansy mello:
RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?... Alice em Star Wars! Mel Gibson:
RE:RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem? Jocasta:
RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem? Mel Gibson:
RE:RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem? jansy mello:
RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem? jansy mello:
RE:RE:Closer: o que ELAS querem? Manter a diferença! Conde Drácula:
RE:RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?... Alice em Star Wars! jansy mello:
RE: Cosi fan tutte?... Alice em Star Wars! jansy mello:
RE: mais sobre Cosi fan tutte Conde Drácula:
Alice caindo no poço do país das maravilhas, walking and falling at the same... time jansy mello:
RE:Alice caindo no poço do país das maravilhas, walking and falling at the same... time Conde Drácula:
RE:RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures jansy mello:
RE:Manter a diferença: Moore e Graça Ramos LFGallego:
RE:RE:Alice caindo no poço do país das maravilhas, walking and falling at the same... time jansy mello:
ainda Alice e a queda do amor jansy mello:
RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures LFGallego:
RE:ainda Alice e a queda do amor jansy mello:
RE:ainda Alice e a queda do amor jansy mello:
RE:RE:ainda Alice e a queda do amor: peésse Conde Drácula:
RE:RE:RE: Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut jansy mello:
RE: Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? Conde Drácula:
RE:RE: Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? A ALLLMA masculina jansy mello:
a questão dos começos... Oliver Twist jansy mello:
RE:Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? A ALLLMA masculina Conde Drácula:
RE:RE:Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? A ALLLMA masculina LFGallego:
RE:a questão dos começos... Oliver Twist jansy mello:
RE:RE:a questão dos começos... Oliver Twist Conde Drácula:
Propaganda Iluminada LFGallego:
RE:Propaganda Iluminada/about the book jansy mello:
RE:RE:Propaganda Iluminada/about the book Conde Drácula:
2046: Ser e Tempo em Marienbad à Flor da Pele no fio da navalha de Blade Runner LFGallego:
filmes sérios sobre adolescentes Marcos:
RE: veleidades à maneira teen jansy mello:
RE:filmes sérios sobre adolescentes jansy mello:
Tilda Swinton jansy mello:
The Deep End- 2001 Marcos:
RE:Tilda Swinton : êta mulher trabalhadora ! Conde Drácula:
RE: 2046: as mulheres são muitas, mas o amor é o mesmo jansy mello:
RE:RE: 2046: as mulheres são muitas, mas o amor é o mesmo Marcos:
RE: o bigodinho, O Globo e Gong Li Conde Drácula:
RE:RE: Gong Li jansy mello:
RE:RE:RE: Gong Li jansy mello:
lembrei de Gong Li, mas fui conferir primeiro... Marcos:
RE: de sagas, oportunidades e perdões jansy mello:
RE:RE: de sagas, oportunidades e perdões jansy mello:
RE: de sagas, oportunidades e perdões Luiz Fernando Gallego:
Quero sofrer feito Gong Li - fora das telas, é claro! Marcos:
RE:RE:RE: de sagas, oportunidades e perdões jansy mello:
RE: de sagas, oportunidades e perdões LFGallego :
Feira das vaidades e 2046 Conde Drácula:
RE:Quero sofrer feito Gong Li - fora das telas, é claro! Fica muito longe a estrada para 2046? jansy mello:
RE:RE:Quero sofrer feito Gong Li - fora das telas, é claro! Fica muito longe a estrada para 2046? Marcos:
RE: brincando de real jansy mello:
RE:RE: brincando de real Marcos:
RE: brincando de real e de reinados LFGallego:
RE:RE:RE: palpitando no "brincando de real" Marcos:
RE: se você disser que eu desafino, amor... Conde Drácula:
RE:RE: brincando de real LFGallego:
RE:RE:RE: brincando de real Marcos:
RE: rezando para ser subserviente Marcos:
RE: Un Coeur en Hiver e de novo Seixas jansy mello:
conservadorismo na lista 2005, em vez de 2006? jansy mello:
palestrantes do CCBB... Helena:
Olá para todos jansy mello:
RE:Olá para todos Helena:
RE:RE:Olá para todos LFGallego:
RE:Olá para todos Helena:
RE:RE:Olá para todos
[Aeternus:4574] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-20) - Antes mesmo do festival começar
Antes mesmo dos filmes começarem a ser exibidos já podemos comentar dois dos inéditos comercialmente: o primeiro é "Uma Mulher contra Hitler", lamentável título brasileiro de "Sophie Scholl -os últimos dias" que Jansy assistiu por conta do festival de Filmes de Brasília deste ano e emprestou-me uma cópia em vhs. Deixo que Jansy fale mais sobre o filme, já abordado por aqui em outras listas (não me perguntem quais). Fica como indicação, especialmente para quem admira filmes de Robert Bresson. Lembrei muito de "O Processo de Joana D'Arc" (existe em dvd brasileiro), só que a cores; mas o estilo é semelhante na "frieza" demonstrativa de um episódio histórico comovente, em tom quase documental, criando uma espécie de "distanciamento" do que possa haver de ficção na roteirização dos fatos - e que cria a ilusão de estarmos assistindo um documentário ou algo que esteja se passando ali, na hora, sob nossos olhos. A "frieza" inicial desconcerta um pouco, mas no final a gente está quase se jogando da cadeira, inclinado para a frente, estarrecido! O desempenho da atriz que faz Sophie Scholl é quase uma co-autoria do filme. Não é exatamente "distraído", mas é imperdível. Ainda com legendas eletrônicas em português, portanto ainda sem garantia de futura exibição comercial. Neste festival há ciclos de filmes espanhóis, latino-americanos, japoneses (com destaque para uns quatro filmes de Ozu, incluindo sua obra-prima - e um dos maiores filmes de todos os tempos - "Uma História em Tóquio", a delicadeza em forma de filme, imperdível prá que não viu e para que já conhece rever sempre). Um dos ciclos é de filmes franceses rodados sob a ocupação nazista e inclui pelo menos dois famosos: "O Corvo", sobre cartas anônimas, do Henri-Georges Clouzot, que, mais tarde filmaria "O Salário do Medo" e "As Diabólicas" com Simone Signoret e sua então esposa brasileira, Vera (Amado) Clouzot, precocemnete falecida; e "O Boulevard do Crime" (Les Enfants du Paradis), votado como omelhor filme francês de todos os tempos por críticos e cineastas franceses. Há divergências. Quero rever na tela grande, pois na TV, onde assisti, com seus algo mais do que180 minutos, pode perder muito. Mas na verdade vou tentar verificar se é essa cocacolatoda, aos meus olhos, é claro. É o tal que mencionei há pouco onde, num mafuá, pode-se pagar trocados e "ver a Verdade Nua" (uma mulher se olhando no espelho, supostamente nua, "dentro" de um poço que tapa até seu busto). Tem o Jean-Louis Barrault como um mímico e só isto já vale o filme, idolatrado por muita gente. Um livrinho sobre ele, da mesma coleção de outro sobre "Lolita", escrito como se fosse o "Fogo Pálido" do mesmo Nabokov, é quase tão bom como ensaio como é o sobre "Lolita", independente do objeto de que trata ser mais ou menos apreciado pelo leitor. Vale por si mesmo. Nesta mostra, o Festival repete um filme exibido no Festival de 2002 (ou 3) sobre o "cinema de ocupação", do mesmo diretor de "Round Midnight", do belo "Um Sonho de Domingo" e do premonitório "A Morte ao Vivo" (um dos últimos com a Romy Schneider e com o então pouco conhecido Harvey Keitel), Bertrand Tavernier. Chama-se "Passaporte para a Vida" (Laissez Paser) que, embora com legendas em português na cópia, não foi lançado nos cinemas cariocas, pelo menos - que eu saiba. É longo (170 minutos), mas mantém o interesse e é polêmico. Defende - talvez - e bem sutilmente, os que continuaram a filmar, em condições precárias, na França ocupada, e que acabaram, indistintamente identificados ao colaboracionismo e proibidos de trabalhar por algum tempo depois da expulsão dos nazistas - como ocorreu com o diretor de "O Corvo", que trata do denuncismo em cartas anônimas numa cidade do interior - o que pode ser até entendido como uma metáfora crítica à situação de ocupação. Nós que tivemos tanta censura durante a ditadura militar, teríamos deixado de escutar as maravilhosas composições raivosas de Chico Buarque se ele não compusesse por conta da ditadura. Filmar era colaboracionista ou não? E o amor à atividade cinematográfica? O que fazer em tempos de situações-limite? Não sei se terei tempode comentar os filmes que conseguir assistir por conta de compromissos com palestra na FGV e curso de Shakespeare e psicanálise, mas vou tentar. Outros cariocas cinéfilos podem ajudar. Marcos, certamente, pois até já levantou o assunto do festival e suas opções. |
Voltar ao topo [Aeternus:4575] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-20) - RE:Antes mesmo do festival começar
 Escreveu Gallego "Tem o Jean-Louis Barrault como um mímico e só isto já vale o filme, idolatrado por muita gente. Um livrinho sobre ele, da mesma coleção de outro sobre "Lolita", escrito como se fosse o "Fogo Pálido" do mesmo Nabokov, é quase tão bom como ensaio como é o sobre "Lolita", independente do objeto de que trata ser mais ou menos apreciado pelo leitor. Vale por si mesmo." Pode me dizer que livrinho sobre Lolita é este, ou o que foi escrito parecido com Fogo Pálido? É o do Richard Corliss? Estou curiosa pela impressão do Gallego quando assistir ao "Sophie Scholl" numa tela de cinema. A cópia em VHS não estava boa e deve fazer bastante diferença ver com a imagem correta. Este festival parece estar carregado de coisa boa, mas pesada. Haverá alguma mensagem por trás da peculiar seleção dos filmes das mostras? Espero que Gallego se entusiasme tanto que consiga vencer as barreiras das atividades que o roubam de nós e escreva sobre os filmes que puder assistir. Vi recentemente uma cena curtíssima de um balé ( série "Natascha" do Film and Arts) e creio que era do Jean-Louis Barrault. Não deu para ouvir e ter certeza. Predominou uma voz comunicando que se tentava a coreografia que não interpretasse algum sentido na música ou criasse história, mas que se ativesse à movimentação sugerida pela música. Escolheram Bach. Gostei bastante. Se o destaco entre outras apresentações excelentes é porque me fez lembrar do que Vanessa Redgrave comentou sobre sua experiência de filmar com Antonioni. Ela o contrastou, de modo radical, aos diretores anglo-saxões pela liberdade que havia para os atores porque as cameras eram dispostas de modo diferente e permitiam planos que ela desconhecia. Segundo ela, apesar da disposição para imprevistos, predominava uma atenção meticulosíssima a cada objeto colocado em cena. Como se o cenário falasse e seu código não pudesse ser mal interpretado. Foi quando ela me fez lembrar a defesa do Conde D. para "La Notte", a respeito do ambiente externo a retratar o estado subjetivo dos atores em cena.
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Voltar ao topo [Aeternus:4579] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-21) - Sacrifício de cinéfilo maluco
 Marcos tem toda razão: todos os anos se repetem as mesmas confusões na venda de ingressos para o Festival de filmes do Unibanco (posso odiar todos os bancos, mas o Unibanco, apesar do "patrocínio" aos cinemas do circuito menos americanizado - "mecenato" que deve lhe render ótimos frutos de "auxílio à cultura" pela Lei Rouanet ou similares - , como banco, já nem lembro porque é dos que merece meu ódio mais intenso, só sendo precedido pelos falecidos Banerj e Nacional e pelo sempre líder de atendimento incompetente, o meu, o seu, o nosso...Banco do Brasil). Cada vez mais público se interessa pelo festival, tem gente que marca férias nesse período e em vez de viajar para o exterior viaja pelas salas de cinema do festival - e a "administração" do evento não consegue atender à demanda de forma minimamente organizada e pragmática. Se este ano eram 12 computadores – e não dando conta – imaginem no ano passado quando eram apenas 3 ou 4 computadores para o "passaporte" que está se confirmando como uma "roubada": primeiro a gente tem que comprar o tal passaporte que, em número limitado, acaba no primeiro dia (significa direito a 20 filmes pelo preço de dez ou 50 filmes pelo preço de 20); depois vai comprar as entradas para os filmes que pretende assistir; a maioria das pessoas não colabora e chega lá sem preparar sua lista em casa (por mais chato que seja organizar um cronograma de horários em que pode ver filmes, escolher os filmes que quer ver e descobrir que, não podendo estar em duas salas de exibição ao mesmo tempo [por que não, Oh! Deus? dai-nos o dom da ubiqüidade!] acabar tendo que renunciar a um deles concomitantes ou remanejar um dos escolhidos para outro horário e sala - geralmente o preterido passa num horário em que já se tinha outra escolha - e ficar montando um organo-filo-escolha-crono-grama chatésimo que custa horas de vida, às vezes um domingo inteiro).
Sem este dever de casa, o festivaleiro de primeira viagem fica escolhendo os filmes na cara do atendente; no primeiro dia quase 30 % dos filmes ainda não estão disponíveis (as cópias ainda não chegaram no Rio: como isso acontece com filmes programados para o primeiro dia, eu não sei - às vezes as cópia não chegam mesmo e por isso eles não vendem entrada para os filmes ainda em trânsito); o sistema cai a todo momento, etc etc.
O pior é o que o Marcos denunciou: a toupeirice dos atendentes, imprevidentes e sem noção de ocorrências tais como: por exemplo, a senha 49 é chamada, não está presente (saiu, foi almoçar, foi trabalhar, etc etc - não importam os motivos; os remanescentes insistentes que lá ficam com o olho no relógio do tempo que podem estar lá gritam: "morreu"; passa-se à senha 50 e assim por diante; algumas pessoas estão lá, outras, não; quatro a cinco horas depois, o "feliz portador" da senha 168 vê seu número se aproximar: 164 (morreu!), 165 (morreu!), 166 (está lá! grrrr!), 167 (morreu!), cento e sessenta e... subitamente chega a senhorinha dona da senha 49! E entra na frente do infeliz que ficou obstinadamente por lá fazendo cálculos estatísticos de - pelos ausentes e pelo tempo médio de atendimento dos presente - em quanto tempo será chamado e se pode permanecer lá aquele tempo todo. Se você reclama, eles olham para você com cara de “ããã~...éééé”, e não sabem o que fazer, se o critério é este ou não. Resolvem que não pode ser assim. Muda o “controlador” de tráfico e a orientação não é repassada, chama-se alguém da “administração” (há uma moça sempre à beira de um ataque de nervos que “resolve” tudo, afogada em problemas, é a pobre da “Val”. Não há pastilha Val-da que alivie as questões que vão surgindo, parece que acham que os computadores resolverão tudo). E la nave va...
Pelo relato do Marcos, não adianta chegar às 9 e meia para um "serviço" que abre ao meio-dia. Não tem jeito. O negócio é tirar day-off e se dispor à estreita porta do céu que passa por um purgatório infernal desses e - o que é pior - tal como qualquer objeto de desejo NUNCA vai valer a pena na relação custo-benefício. Mas... é o vício! E, de vez em quando você assiste uma pérola que imagina que não poderia ter vivido sem conhecê-la e que nunca entra em cartaz comercial neste país, nem sai em dvd nem passa no Telecine ou HBO. Aí, o cinéfilo se sente "esperto", dono de um tesouro do significante na sua memória cansada. Pior é quando um colega de infortúnio com quem a gente consegue conversar (porque surgem os malucos mais bizarros nestas circunstâncias com quem não dá para trocar 2 palavras; a gente tb é doido, mas menos bizarro) e você comenta com aquele cara que parece ter o mesmo (bom, é claro) gosto que você que você um filme programado que você já viu antes do festival começar (triunfo narcísico!) como o da Sophie Scholl e o recomenda generosamente ao seu mais novo amigo de infância e ele comenta que viu um outro filme sobre o movimento de resistência a Hitler ("Rosa Branca",. de Munique) do mesmo diretor de "Uma Cidade sem Passado" e você intui que você está ficando um “cinéfilo sem passado”: viu este filme, lembra vagamente do nome, mas... mais nada! Felizmente o cara te ajuda a lembrar do (ótimo) filme que era, mas vc começa a perceber que o fundo do baú de suas lembranças cinematográficas está furado e os filmes estão se esvaindo, perdidos para sempre, a não ser que outro maluco venha catar as pedrinhas que João e Maria deixaram para trás. Mas passarinho também come pedra porque confia no fi-o-fó que tem. E você perde o caminho de volta para suas lembranças internas. É a idade, vc já tem mais de 27 anos... mas também é a pletora de ver três ou quatro filmes num dia. No final, é como se você assistisse o "O Morro do Vento Levou", "007 contra Cidadão Kane", ou - o que é pior: "Tarde demais para... lembrar". Há que ter fairplay e considerar a compra de ingressos um programa divertido, levar dois livros, CD player, saco de filó, comidinhas, farnel para sobrevivência na selva. Não é tão divertido, mas quem não morre não vê Deus. Pior é morrer e não ver, destino que nos aguarda. Se não vamos ver Deus, que vejamos todos os filmes possíveis e impossíveis. Quem sabe, consola? |
Voltar ao topo [Aeternus:4580] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-21) - RE:Sacrifício de cinéfilo maluco que passarinho também come pedra
 Escreveu Gallego em resposta ao desabafo do Florião:
...e o recomenda generosamente ao seu mais novo amigo de infância e ele comenta que viu um outro filme sobre o movimento de resistência a Hitler ("Rosa Branca",. de Munique) do mesmo diretor de "Uma Cidade sem Passado" e você intui que você está ficando um “cinéfilo sem passado”: viu este filme, lembra vagamente do nome, mas... mais nada! Felizmente o cara te ajuda a lembrar do (ótimo) filme que era, mas vc começa a perceber que o fundo do baú de suas lembranças cinematográficas está furado e os filmes estão se esvaindo, perdidos para sempre, a não ser que outro maluco venha catar as pedrinhas que João e Maria deixaram para trás. Mas passarinho também come pedra porque confia no fi-o-fó que tem. E você perde o caminho de volta para suas lembranças internas. É a idade, vc já tem mais de 27 anos... mas também é a pletora de ver três ou quatro filmes num dia. No final, é como se você assistisse o "O Morro do Vento Levou", "007 contra Cidadão Kane", ou - o que é pior: "Tarde demais para... lembrar". Há que ter fairplay e considerar a compra de ingressos um programa divertido, levar dois livros, CD player, saco de filó, comidinhas, farnel para sobrevivência na selva. Não é tão divertido, mas quem não morre não vê Deus. Pior é morrer e não ver, destino que nos aguarda. Se não vamos ver Deus, que vejamos todos os filmes possíveis e impossíveis. Quem sabe, consola?"
Amigo, você com raiva retoma a verve humorística e escreve textos impecáveis e engraçadamente profundos.
Estou num intervalo do consultório, prestes a interromper, não escrevo mais. Adorei a "lista dos filmes" e tudo mais. Á tarde, de casa, escreverei sobre como é saber que me falta um dom de paixão, algo como o dos dois cinéfilos. Entrei até numa crise existencial: será que... |
Voltar ao topo [Aeternus:4581] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-09-21) - RE:RE: Passarinho maluco cai no poço em crise cinéfila exsistencial
 Dra. Jansy ameaça com crise existencial porque lhe faltaria uma "paixão" como a da cinefilia floriânica/galleguiana/e de outros não inteiramente revelados. Há divergências, minha senhora, há divergências. Primeiramente a "paixão" já foi enunciada como "vício", adição, dependência com direito a síndrome de abstinência: procura tampar um buraco sem fundo como o poço onde mora a verdade ("é Pilatos lá Bíblia quem nos diz" segundo Noel Rosa/Orestes Barbosa). Segundamente, ese poço de Alice que atravessa a Terra deixando a menina com medo de "sair do outro lado do mundo e de cabeça para baixo" não deixa de pode não mais do que disimular uma termenda crise igualmente (ou piormente) existencial mal disfarçada pela busca do Graal da Sétima Arte ou da cornucópia cinéfila. Terceiramente, não sou eu quem revelaria as paixões de outrem em público, mas sei de uma (pelo menos) paixão pública da Dra. Jansy que é o seu amadodiado Vladimir Nabokov. Portanto, no offense, mas cada macaco (paixão) pendurado/a no seu galho que sustenta o insustentável peso do ser. O meu (galho - o da cinefilia) tem até maluco demais pendurado, ameaça quebrar e - ai de nós - cinéfilos sem pai nem mãe no país que NÃO é de maravilhas (maravilhas com conotação positiva totalmente em falta). |
Voltar ao topo [Aeternus:4582] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-21) - RE: Passarinho maluco cai no poço em crise cinéfila exsistencial
 Essa eu já contei mas vai outra vez. Telefono pro neto Adriano ( uns tres anos na época). Digo: "Olá, aqui é a vovó". Ele responde: 'Hmmm. Qualé? Qualé?" e a boba do outro lado, meio ofendida, continua: " Drico, é a Vovó..." ( com maiúsculas agora). O menininho não se altera: "Qualé? Qualé?". Passarinho maluco que caiu no poço achava que só existia ele no mundo. E quem não assina no espaço do "Visitante" acha que vou reconhece-lo também? Qualé? Qual é? ( Quem é???) Faz erros de digitação e cita Noel Rosa & Carroll mas não é o Gallego. Se bem que... É cinéfilo viciado mas também não é o Florião, apesar de retomar a idéia "existencial" e adotar um tom ironico afetuoso. O tipo escolhido para a mensagem é Times New Roman (small), mas não é o Davy ( o terceiro cinéfilo discreto no site). Quem é? Acertou com "amadodiado" Nabokov. Como pude trocar por ele o Beckett??? ( Pura retórica, Beckett não dá para reler várias vezes, Nabokov requer isto do leitor e...babei )
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Voltar ao topo [Aeternus:4583] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-21) - RE:RE: Prova que a memória se esvai antes do festival começar
Jansy perguntou e eu esqueci de responder que o livrinho sobre "Lolita" (filme, versão Kubrick) que imita o formato de "Fogo pálido" e me parece bom em si mesmo como ensaio, independente do que se ache do filme, é, sim, de autoria de Richard Corliss. A coleçãozinha do British Film Institute, aliás, geralmente tem ótimos ensaios. Nunca me interessei pelo do Slamn Rushdie sobre "O Mágico de Oz" porque nunca fui tão interessado no filme, sempre curti mais o livro, apesar da Judy Garland, do "Over the Rainbow", etc. E, com exceção de um livro para jovens ("Haroun e o Mar de Histórias", maravilhoso, acho o Salman Rushdie meioi cansativo. Lembro o que o da Camile Paglia sobr "Os Pásaros" tambpem me pareceu ótima leitura. Não sei os nomes de outros autores (não tão famosos como esses dois) mas os livrinhos sobre "Rocco e seus Irmãos", "Cidadão Kane" (esse eu ainda lembro que é da Laura Mulvey, super-badalada nas Universidades americanas) , sobre "Chinatown" e o já mencionado sobre "Boulevard do Crime" são também muito interessantes e agradáveis de ler. Informativos sem tecnicismos (como uma coleção semelhante francesa só que, como sói acontecer, os franceses têm mais detalhes barrocos), essa coleção inglesa é mais livre nos textos, às vezes bem criativos, uma metaleitura do autor como já disse, muitas vezes bons de ler, mesmo que não se curta tanto o filme de que trata. A prata da casa brasileira está representada pelo melhor crítico de cinema que o Rio (o Brasil?) já teve, o José Carlos Avellar, que escreve muito bem sobre o pior e o melhor dos filmes. No caso, ele fala de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e como fala bem. Há livrinhos sobre "Sétimo Selo", "Cantando na Chuva", "Matar ou Morrer", "Dr. Caligari", "Annie Hall" (do Woody Allen) e "NoTempo das Diligências", dentre outros. Pena que a Editora Rocco prometeu e não lançou um sobre "Blade Runner", não sei o que houve, estava "no prelo" há uns quatro ou mais anos e não saiu mais nada, exceto, em outro formato (de livro tamanho padrão), um brasileiro sobre "O Anjo Exterminador" de Buñuel. Bom, mas já não era da mesma coleção inglesa e tinha outro espírito mesmo. Importados, ficam caros e os poucos que vi na Livraria Leonardo Da Vinci eram sobre filmes que me interessam menos, apesar dessa qualidade frequente de os textos serem legais em si mesmos. |
Voltar ao topo [Aeternus:4586] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-21) - RE:Prova que a memória se esvai antes do festival começar
 Gallego escreveu com Times New Roman e digitou montes de coisas errado... Então o Qualéqualé era pra ele mesmo, cuja memória se esvai e etc... Comprei dois livros sobre cinema na livraria Travessinha que tem em Brasílias ( no dia em que fiz duas horas e meia, apenas, de fila para ouvir o Marco A.Coutinho Jorge falar no CCBB) : O Cinema e a Invenção da Vida Morderna, da editora Cosak & Naify e, desta mesma editora, "A palavra náufraga" ( ensaios sobre cinema). Nem abri pra ver, mas tinha tantos em oferta que na hora usei um critério qualquer para escolher estes dois... Depois conto. |
Voltar ao topo [Aeternus:4587] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-21) - fumaças
 O Fest tem seu lado difícil e romântico, também. Rolos e rolos em latas pelos corredores dos cinemas, passeando pra lá e pra cá; o ajuste legendas eletrônicas/quadro próprio para estas abaixo da tela, antes das sessões... Antigamente, por volta de 1983 até 1986, quando começou a melhorar um pouquinho a organização, sequer se sabia se as latas chegariam ao cinema a tempo da sessão marcada ! Alguns filmes chegavam feito nos filmes de James Bond, no último segundo. Nessa salada toda, não sei como não acontece ( só uma vez, nestes anos todos e que eu presenciasse, isto ocorreu, ao se iniciar a projeção de um filme que não era o específico ) trocarem alguma lata na parafernália geral. Pessoalmente, mesmo diante de toda minha paixão, não curto esse mafuá. Admiro a energia da juventude, però...elejo cada vez mais sessões tranqüilas. Longe desse insensato mundo. |
Voltar ao topo [Aeternus:4611] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-24) - Noticiário enviado pelo LFGallego
 "Eros" só vale pelo terceiro episódio do chinês Wong-Kar-Wai Quem for ver esse filme pode chegar atrasado: o episódio de Antonioni (não é implicância) faria melhor se ficasse inédito. Bobo. Tolo. Nada. O de Steven Soderbergh é uma piada sem graça e para variar sacaneia analistas, como no cinema atual embora a piada seja passada em 1955. Mas o chinês (que fez "Amor à flor da pele" que nem ficou como um dos meus favoritíssimos) nos dá uma obra-prima. Lembra quase um Henry James erotizado. Ou um Dalton Trevisan suave. Ou um Nelson Rodrigues romântico. Não acreditam? Pois não percam. É um melodrama sem pieguice. O único com erotismo mesmo, à flor da pele. Poderia ser chulo mas é digno. Chama-se "A Mão". Nunca a masturbação foi explorada tão delicadamente.
"Em Minha Terra" vale pela Juliette Binoche, podendo rir em uma cena onde está esfuziante e repetindo o rosto dramático d' O Paciente Inglês. Que "máscara" facial! A música africana e paisagens ajudam. O roteiro é fraco. A denúncia sobre horrores do apartheid é forte. Ponto. Fujam de "O Gosto do Chá", japones que queria ser Buñuel e é escatológico e chato. Saí no meio. As pessoas riam muito. "Morrer em San Hilário" é espanhol típico de "realismo fantástico". Mediano, nem ruim nem imperdível. "Sacro Cuore" é melodrama disfarçado italiano típico que lembra "Europa '51" de Rossellini com Ingrid Bergman. Mas sem um e sem outro.
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Voltar ao topo [Aeternus:4612] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-24) - 1. Eros
 ( em três tempos ) * Antonioni Instado a falar de amor...Antonioni torna a falar da impossibilidade deste. Muita Natureza, próxima a Treviso, corpos nus, disfuncionais ou funcionais. O mesmo casal falido de "O Eclipse", fazendo um semi-inventário de sua falência. Surge uma espevitada, jovem e adoravelmente lasciva, como espada de Dâmocles, e...puff !!!, entramos em Soderbergh. * Soderbergh Seu 'Equilibrium' começa no desequilíbrio analista-paciente. Este, a princípio apenas um chato de galocha, falando de despertadores e banalidades circunstanciais na sessão, sintoniza em tiques com o analista ( Alan Arkin, excelente ). Freudiano, o prôw folga quando seu cliente refestela-se e fecha os olhos no clássico sofá, ocasião que aproveita para sacar em sucessão dois binóculos de diferente resolução, para paquerar alguém que jamais veremos no apê em frente. Se Antonioni falou do desamor e do sexo, mais do que em algum amor, Soderbergh usa essa situação infantilóide para chegar na fixação deste estressado-mor de 1955 com o desvínculo diário resultante da partida de sua elegantíssima mulher. Esse desmame inscreve-o na inexorável rotina de vendedor de horrendos despertadores, aqui ( e sempre ? ) vilões de nossos sonhos. * Wong Kar-Wai O Karro de Kar-Wai direitinho a Eros, no melhor episódio do filme. Bastante triste e melô, os tons cinzentos e tendendo ao negro chegam às vestes de Gong Li, nos pescoços altos e modelitos colantes, cheios de brilho e estilosos desenhos. Ela é uma puta de bom nível, apoiada por um cafifa que tem sob contrato um dedicado e idoso alfaiate. Quando este passa o bastão a seu discípulo, um jovem, a cliente masturba-o quase chorosa - a Gong chora quase todo o episódio...- dizendo 'quero que você faça roupas lindas para mim'. Assim devidamente pervertido, o rapaz desenvolverá um profundo sentimento pela patroa, avalanche interior contida, vivida no atelier onde ele faz sexo - timidamente - enfiando as mãos pelo tecido da amada, que está a alinhavar. Fetiche-tornado-amor... |
Voltar ao topo [Aeternus:4613] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-24) - RE:1. Eros
Acompanhando o relatório do Gallego, mais indignado e do Florião, buscando mais claramente a prometida volúpia... senti que não sou platéia para estes filmes. Mesmo sem ter simpatia pelos atuais movimentos feministas, me vieram umas indignações próprias às militantes mais sem graça. Minha questão, contudo, não é se nestes filmes os diretores usam mulheres ( analisandos homens) como objeto: isto é até bacaninha. O problema é me parece que os filmes se endereçam para as platéias masculinas. |
Voltar ao topo [Aeternus:4614] Mensagem do Grupo48 -Mello Pirata(2005-09-24) - Direto do NY Film Festival
 Como sou invejosa, vou trazer para vocês notícias do festival novaiorquinho, pela voz do meu repórter particular, Sr. Scott.... Falta tempo para traduzir, mas não precisa...(espero que não me processem por colocar isto no aeternus, já que qualquer leitor online do NYT pode ler ali). News in Black, White and Shades of Gray A.O Scott Published: September 23, 2005,NYT SHOT in a black-and-white palette of cigarette smoke, hair tonic, dark suits and pale button-down shirts, "Good Night, and Good Luck" plunges into a half-forgotten world in which television was new, the cold war was at its peak, and the Surgeon General's report on the dangers of tobacco was still a decade in the future. Though it is a meticulously detailed reconstruction of an era, the film, directed by George Clooney from a script he wrote with Grant Heslov, is concerned with more than nostalgia. Burnishing the legend of Edward R. Murrow, the CBS newsman who in the 1940's and 50's established a standard of journalistic integrity his profession has scrambled to live up to ever since, "Good Night, and Good Luck" is a passionate, thoughtful essay on power, truth-telling and responsibility. It opens the New York Film Festival tonight and will be released nationally on Oct. 7. The title evokes Murrow's trademark sign-off. And be prepared to pay attention. "Good Night, and Good Luck" is not the kind of historical picture that dumbs down its material, or walks you carefully through events that may be unfamiliar. Instead, it unfolds, cinéma-vérité style, in the fast, sometimes frantic present tense, following Murrow and his colleagues as they deal with the petty annoyances and larger anxieties of news gathering at a moment of political turmoil. The story flashes back from a famous, cautionary speech that Murrow gave at an industry convention in 1958 to one of the most notable episodes in his career - his war of words and images with Senator Joseph R. McCarthy. While David Strathairn plays Murrow with sly eloquence and dark wit, Mr. Clooney allows the junior Senator from Wisconsin to play himself (thanks to surviving video clips of his hearings and public appearances), a jolt of documentary truth that highlights some of the movie's themes. Television, it suggests, can be both a potent vehicle for demagoguery and a weapon in the fight against it. Mr. Clooney, who plays Murrow's producer and partner, Fred Friendly, has clearly thought long and hard about the peculiar, ambiguous nature of the medium. It is a subject that comes naturally to him: his father, Nick, was for many years a local television newscaster in Cincinnati, and the younger Mr. Clooney's own star first rose on the small screen. Like "Good Night, and Good Luck," his first film, "Confessions of a Dangerous Mind"(2002), used the biography of a television personality (Chuck Barris of "The Gong Show") as a way of exploring the medium's capacity to show the truth, and also to distort and obscure it. Indeed, these two movies can almost be seen as companion pieces. "Confessions of a Dangerous Mind" suggests that a man with a hard time telling truth from fiction can find a natural home on the tube, while "Good Night, and Good Luck" demonstrates that a furiously honest, ruthlessly rational person may find it less comfortable. Murrow, as conceived by the filmmakers and incarnated by Mr. Strathairn, is a man of strong ideals and few illusions. He knows that McCarthy will smear him (and offers the Senator airtime to do so), and that sponsors and government officials will pressure his boss, William Paley (Frank Langella) to rein him in. He is aware that his reports are part of a large, capitalist enterprise, and makes some necessary concessions. In addition to his investigative reports - and, in effect, to pay for them - Murrow conducts celebrity interviews, including one with Liberace, which Mr. Clooney has lovingly and mischievously rescued from the archives. From that odd encounter to the kinescopes of the Army-McCarthy hearings, "Good Night, and Good Luck" brilliantly recreates the milieu of early television. (Robert Elswit's smoky cinematography and Stephen Mirrione´s suave, snappy editing are crucial to this accomplishment.) It also captures, better than any recent movie I can think of, the weirdly hermetic atmosphere of a news organization at a time of crisis. Nearly all the action takes place inside CBS headquarters (or at the bar where its employees drink after hours), which gives the world outside a detached, almost abstract quality. A telephone rings, an image flickers on a screen, a bulldog edition of the newspaper arrives (sometimes it's this one, whose television critic, Jack Gould, was one of Murrow's champions) - this is what it means for information to be mediated. But its effects are nonetheless real. While the camera never follows Friendly or Murrow home from the office, and the script never delves into psychology, we see how the climate of paranoia and uncertainty seeps into the lives of some of their co-workers. Don Hollenbeck (Ray Wise), an anchor for the New York CBS affiliate, is viciously red-baited by a newspaper columnist, and Joe and Shirley Wershba (Robert Downey Jr. and Patricia Clarkson) skulk around the office like spies (though for reasons that have more to do with office politics than with national security). When Murrow, in March 1954, prepares to broadcast his exposé of McCarthy's methods, the suspense is excruciating, even if we know the outcome. Because we do, it is possible to view "Good Night, and Good Luck" simply as a reassuring story of triumph. But the film does more than ask us, once again, to admire Edward R. Murrow and revile Joseph R. McCarthy. That layer of the story is, as it should be, in stark black-and-white, but there is a lot of gray as well, and quite a few questions that are not so easily resolved. The free press may be the oxygen of a democratic society, but it is always clouded by particles and pollutants, from the vanity or cowardice of individual journalists to the impersonal pressures of state power and the profit motive. And while Mr. Clooney is inclined to glorify, he does not simplify. The scenes between Murrow and Paley, taking place in the latter's cryptlike office, have an almost Shakespearean gravity, and not only because Mr. Strathairn and Mr. Langella perform their roles with such easy authority. McCarthy may serve as the hissable villain, but Paley is a more complicated foil for Murrow - at once patron, antagonist and protector. (Addressed by everyone else, in hushed tones, as "Mr. Paley," he is "Bill" only to Murrow.) Most of the discussion of this movie will turn on its content - on the history it investigates and on its present-day resonance. This is a testament to Mr. Clooney's modesty (as is the fact that, on screen, he makes himself look doughy and pale), but also to his skill. Over the years he has worked with some of the smartest directors around, notably Joel Coeny and Steven Soderbergh (who is an executive producer of this film). And while he has clearly learned from them, the cinematic intelligence on display in this film is entirely his own. He has found a cogent subject, an urgent set of ideas and a formally inventive, absolutely convincing way to make them live on screen. Opens tonight at the New York Film Festival; nationwide on Oct. 7. |
Voltar ao topo [Aeternus:4615] Mensagem do Grupo48 -Pirata Mello(2005-09-24) - Oliver Twist, de Polanski, no festival de NY
 Polanski por Mr A.O Scott:
His last movie, "The Pianist" , which was widely hailed as a return to form, was also an intensely personal movie for the director. Adapted from someone else's autobiography, the movie, about a Polish Jew struggling to survive the nightmare of Naziism, nonetheless dealt with experiences painfully close to Mr. Polanski's own life. The same might be said about his wonderful new adaptation of Charles Dickens's "Oliver Twist" a novel that has been brought to the screen many times before, but never with such a dark intensity of feeling. Or almost never. Precedent for Mr. Polanski's somber, heartfelt interpretation of Dickens can be found in David Lean´s black-and-white versions of "Oliver Twist" and "Great Expectations" both made just after the Second World War. Those films seem marked by the shadows of their own time as much as by the memories of Victorian poverty, and this new "Oliver Twist," while scrupulously reproducing the costumes and décor of the 19th century, seems hardly to be contained within the distant past. Mr. Polanski, a Polish Jew born in 1933, spent much of his childhood in hiding and in flight, which is pretty much the condition of Dickens's young hero (as it was of Dickens himself). Mr. Polanski has, in many of his films, gravitated toward innocent protagonists hounded and bedeviled by monstrous cruelty and, when they are lucky, borne up by small instances of kindness and charity. His retelling of Dickens's tale of a friendless boy discovers within the story those familiar, primal emotions of terror, fragility and the almost perverse will not only to survive but to remain human in inhuman circumstances. In the landscape of "Oliver Twist," as in "The Pianist," goodness is so rare and inexplicable as to seem almost absurd. Oliver is played by Barney Clark, who was 11 when the film was made and whose slight frame and delicate features emphasize his character's vulnerability. An orphan, Oliver lands first in a workhouse (its resemblance to a concentration camp is hardly accidental), and before long finds himself apprenticed to a weak-willed coffin maker. At every turn he is menaced by adults whose grotesqueness, while comical, is also a measure of their moral deformity, and of the ugliness of the society that makes them possible. The worst thing about these villains, who tend to occupy positions of at least relative power, is that they believe their sadism and lack of compassion to be the highest expressions of benevolence. Like Barbara Bush after seeing the "underprivileged" citizens of New Orleans exiled to the Astrodome, they insist on telling Oliver that things are working out pretty well for him. The look of the movie, shot in Prague by the Polish cinematographer Pawel Edelman, is consistent with its interpretation of Dickens's worldview, which could be plenty grim but which never succumbed to despair. There is just enough light, enough grace, enough beauty, to penetrate the gloom and suggest the possibility of redemption. The script, by Ronald Harwood (who also wrote "The Pianist," for which he and Mr. Polanski won Oscars), is at once efficient and ornate, capturing Dickens's narrative dexterity and his ear for the idioms of English speech. Ben Kingsley , hunched over and snaggletoothed, makes his Fagin a figure of hideousness and pathos. The film omits reference to the Jewishness that makes Fagin, along with Shylock, one of the more problematic figures in the English literary canon, but it does not bother to explain or expunge the vicious elements of racial caricature - the nose, the clawlike fingers, the hand-rubbing greed - that cling to the character. There is, nonetheless, great tenderness in Sir Ben's performance, and in the way Mr. Polanski treats him. The rest of the cast, who are likely to be less familiar to American film audiences, honor the best traditions of British acting. Jamie Foreman is a scarily thuggish Bill Sykes, Leanne Rowe is a heartbreaking Nancy (who is nearly as much a child as Oliver), and Edward Hardwicke, as Oliver's benefactor Mr. Brownlow, is the embodiment of stuffy British decency. But there is nothing stuffy about this film. It is bracingly old-fashioned - a literary adaptation with a somewhat overdone orchestral score (by Rachel Portman) and lavish sets and costumes. But unlike too many film adaptations of classic literature, "Oliver Twist" does not embalm its source with fussy reverence. Instead, with tact and enthusiasm, Mr. Polanski grabs hold of a great book and rediscovers its true and enduring vitality. Oliver Twist Opens today in New York and Los Angeles. Directed by Roman Polanski; written by Ronald Harwood, based on the novel "Oliver Twist: Or, the Parish Boy's Progress" by Charles Dickens; director of photography, Pawel Edelman; edited by Hervé de Luze; music by Rachel Portman; production designer, Allan Starski; produced by Robert Benmussa, Alain Sarde and Mr. Polanski; released by TriStar Pictures. Running time: 130 minutes. Or almost never. Precedent for Mr. Polanski's somber, heartfelt interpretation of Dickens can be found in David Lean´s black-and-white versions of "Oliver Twist" and "Great Expectations" both made just after the Second World War. Those films seem marked by the shadows of their own time as much as by the memories of Victorian poverty, and this new "Oliver Twist," while scrupulously reproducing the costumes and décor of the 19th century, seems hardly to be contained within the distant past. Mr. Polanski, a Polish Jew born in 1933, spent much of his childhood in hiding and in flight, which is pretty much the condition of Dickens's young hero (as it was of Dickens himself). Mr. Polanski has, in many of his films, gravitated toward innocent protagonists hounded and bedeviled by monstrous cruelty and, when they are lucky, borne up by small instances of kindness and charity. His retelling of Dickens's tale of a friendless boy discovers within the story those familiar, primal emotions of terror, fragility and the almost perverse will not only to survive but to remain human in inhuman circumstances. In the landscape of "Oliver Twist," as in "The Pianist," goodness is so rare and inexplicable as to seem almost absurd. Oliver is played by Barney Clark, who was 11 when the film was made and whose slight frame and delicate features emphasize his character's vulnerability. An orphan, Oliver lands first in a workhouse (its resemblance to a concentration camp is hardly accidental), and before long finds himself apprenticed to a weak-willed coffin maker. At every turn he is menaced by adults whose grotesqueness, while comical, is also a measure of their moral deformity, and of the ugliness of the society that makes them possible. The worst thing about these villains, who tend to occupy positions of at least relative power, is that they believe their sadism and lack of compassion to be the highest expressions of benevolence. Like Barbara Bush after seeing the "underprivileged" citizens of New Orleans exiled to the Astrodome, they insist on telling Oliver that things are working out pretty well for him. The look of the movie, shot in Prague by the Polish cinematographer Pawel Edelman, is consistent with its interpretation of Dickens's worldview, which could be plenty grim but which never succumbed to despair. There is just enough light, enough grace, enough beauty, to penetrate the gloom and suggest the possibility of redemption. The script, by Ronald Harwood (who also wrote "The Pianist," for which he and Mr. Polanski won Oscars), is at once efficient and ornate, capturing Dickens's narrative dexterity and his ear for the idioms of English speech. Ben Kingsley , hunched over and snaggletoothed, makes his Fagin a figure of hideousness and pathos. The film omits reference to the Jewishness that makes Fagin, along with Shylock, one of the more problematic figures in the English literary canon, but it does not bother to explain or expunge the vicious elements of racial caricature - the nose, the clawlike fingers, the hand-rubbing greed - that cling to the character. There is, nonetheless, great tenderness in Sir Ben's performance, and in the way Mr. Polanski treats him. The rest of the cast, who are likely to be less familiar to American film audiences, honor the best traditions of British acting. Jamie Foreman is a scarily thuggish Bill Sykes, Leanne Rowe is a heartbreaking Nancy (who is nearly as much a child as Oliver), and Edward Hardwicke, as Oliver's benefactor Mr. Brownlow, is the embodiment of stuffy British decency. But there is nothing stuffy about this film. It is bracingly old-fashioned - a literary adaptation with a somewhat overdone orchestral score (by Rachel Portman) and lavish sets and costumes. But unlike too many film adaptations of classic literature, "Oliver Twist" does not embalm its source with fussy reverence. Instead, with tact and enthusiasm, Mr. Polanski grabs hold of a great book and rediscovers its true and enduring vitality. Oliver Twist Opens today in New York and Los Angeles. Directed by Roman Polanski; written by Ronald Harwood, based on the novel "Oliver Twist: Or, the Parish Boy's Progress" by Charles Dickens; director of photography, Pawel Edelman; edited by Hervé de Luze; music by Rachel Portman; production designer, Allan Starski; produced by Robert Benmussa, Alain Sarde and Mr. Polanski; released by TriStar Pictures. Running time: 130 minutes. |
Voltar ao topo [Aeternus:4619] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-24) - RE:RE:1. Eros
 Boa questão, bien posé...e não posso ajudar posto que minha condição biológica impede. Minha alma feminina, no entanto, faz com que eu me imagine sendo uma dessas heroínas dali. Partindo desse pressuposto, vamos lá : as 'duas Antonioni'. A 1ª é uma mulher que emburra e reclama o tempo todo de sua relação falida com o seu distinto. Tem a sensatez de reconhecer defeitos a dois na relação que estabeleceram, e espera uma reconstituição meio mágica das coisas. Não tem como atender as vicissitudes sexuais dele, que a acusa 'de nunca estar disposta', acusação refutada com 'você pensa que sexo é assim, de repente, sem...nada para temperar ?...' ( algo nessa linha ). Já a 'lasciva-à-flor-da-pele' vai direto ao assunto, transborda e transpira sensualidade. Vejo-a como franco-atiradora, aberta de todo ás possibilidades, talvez ainda não magoada, talvez simplesmente mais esperançosa. A mulher-Soderbergh é um repositório de todo o Alegórico Feminino fetichista. Banhos, cintas-ligas, luvas, chapéu com véu, botões enormes, cintos largos, maquiagem chamativa...Un ballo in maschera ! A mulher Kar-Wai é a oprimida-milenar, brinquedinho de mafiosos. Enquanto Antonioni fala de desencontros existenciais, o diretor chinês deslancha sobre as disparidades e injustiças sociais. |
Voltar ao topo [Aeternus:4621] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-24) - RE:Direto do NY Film Festival
O filme do baixote-narigudo polonês está na Mostra daqui, mas não o selecionei pois creio que será exibido comercialmente. A versão musical de Carol Reed, de 1968, era excelente, sobretudo nos décors, fotografia e majestoso Cinemascope ( bons tempos !...só os franceses insistem nisso ! ). Assisti no Roxy antes deste tornar-se tripartide. Ron Moody estava magnífico como Fagin, e o segundo melhor desempenho era de Bulseye, um vira-lata sarnento atormentado pelo Oliver Reed ( que com seu nome tinha que estar no projeto, né ?...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4622] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-24) - RE: Hugh Griffith
...e ainda tinha esse hirsuto aí, tomando pifão meio-sem-conseguir-esconder, olhos esbugalahados no púlpito de onde julgava a conturbada sociedade londrina de então... |
Voltar ao topo [Aeternus:4623] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-24) - RE:RE:1. Ainda Eros (e o resto)
Antes de responder à questão feminista-machista levantada pela Jansy, gostaria de ser mais claro sobre os outros filmes que vi. Disse que "Morrer em St. Hilário" "não é imperdível"; na verdade é dispensável com seus personagens bizarros de pueblo pequeno do interior já explorados até em novelas brasileñas como a vetusta "Saramandaia". O italiano "Sacro Cuore" me lembrou "Europa '51" (plágio?) porque fala de uma mulher das altas rodas que depois de uma morte (em "Europa" o filho ainda criança, talvez suicídio; neste filme, mais de uma morte,parceiros de negócio que ela derruba comercialmente e uma menina-moça de rua, pequena ladra que ajuda pessoas ainda mais pobres do que ela) se transforma em neo-madre-teresa-de-calcutá com suspeitas da sociedade (neste filme até de um bondoso padre) de que está louca. Em uma cena ridícula, ela tira a bolsa, sapato, jóias e roupas numa estação de trem, doando seus pertences aos passantes (como o pai de "Teorema", mas que distância artísitca, meu Deus!). Mais do que dispensável, portanto. "Em Minha Terra" desfaz novas esperanças sobre o diretor John Boorman que já rendeu esporádicamente como em "Excalibur" e no anterior a este, "O Alfaiate do Panamá" que era com o cada vez mais admirável Geoffrey Rush (de "Shine" e de uma recente vida de Peter Sellers). A mini-trama dos personagens é fraquinha, deixando a um americano (ainda que negro) o papel de voz da consciência até mesmo de uma branca que luta pela revelação dos crimes de apartheid. Os fatos políticos-históricos de barbaridades são terríveis e importantes de serem debatidos, a direção é correta, mas rotineira e, como já disse antes, sem as paisagens, música africana (belíssima) e Madame Juliette Binoche com a competência habitual num personagem um tanto choramingas, não valeria a pena de entrar em contacto com os horrores sul-africanos através desse filme. Sobre "O Gosto de Chá", o que dizer se saí no meio? tinha 142 minutos de duração, segundo o programa. Com pouco mais de 60 minutos de filme chato, lento, com escatologia e supostas maluquices engraçadinhas de uma família japonesa do subúrbio, vi que não havia perigo de melhorar. Pena que o início parecia interessante com um menino em início de adolescência lamentando a mudança de uma mocinha de quem ele gostava secretamente e que havia se mudado, partindo de trem. O "trem" "sai" da testa dele e some na distância, prometendo algo que o filme não cumpre. A irmãzinha que "vê" (o espectador é que vê) atrás dela seu próprio rosto gigante a observando o tempo todo rambém seria uma boa situação de amiguinha (ou inimiguinha?) imaginária a ser desenvolvida. Mas um avô demente e um tio que faz cocô em cima de um ovo gigante - ou de uma caveira - e um fantasma de um homem tatuado, sangrando (e com cocô na cabeça) me fez achar que quem fez o filme é que tinha m.... na cabeça. Fui! Finalmente, retorno a "A Mão", episódio de "Eros" sobre o qual Marcos apresentou a situação básica e fez Jansy pensar se nestes filmes os diretores usam mulheres ( analisandos homens) como objeto: isto é até bacaninha. O problema é me parece que os filmes se endereçam para as platéias masculinas. O que posso dizer é que Sueli e outra amiga que encontramos no cinema ficaram igualmente encantadas com o episódio. A beleza plástica e a música (discretas) inteiramente ligadas à narrativa, não sobressaindo nem se destacando; o desempenho magnífico do ator (e competente da Gong Li - a mesma linda de "Lanternas Vermelhas", menos jovem, é claro); tudo faz um todo para compor um "conto" redondo como uma pérola perfeitamente burilada e que passeia com "amazing" delicadeza pelo que poderia ser desagradável perversão/perversidade, lamentável dominação/submissão, polarização indiferença/"concern" e outras categorias como timidez/desfaçatez; uso/abuso; fixação/fetichismo - mas, por incrível que pareça, inclui o fetichismo na esfera do amor, o sexo vulgar na esfera do sublime; a redenção do outro na esfera da dedicação (neurótica, masoquista que seja) de um. Triste? Como uma espécie de "Fera na Selva" hardcore, um Henry James sem sublimação; ou, o inverso, um Trevisan/Nelson Rodrigues sublimados com "prazer de estímulo" estético (como dizia Freud) para falar de tantas coisas nem tão conscientes para nossa estrutura egóica de fachada. Ouso dizer, ainda que sob a empolgação da revelação que é um daqueles "grandes filmes" que merecem um lugar especial na história do cinema, coisa como há muito não se vê, talvez um parente próximo-distante do recém relembrado por aqui "Não Amarás" (até pela metragem do que originalmente era um episódio de menos de hora na série "Decálogo" que Kieslowski nos legou). "A Mão" emociona sem levar às lágrimas. Pode ser que a baixa qualidade dos episódios anteriores supervalorize este episódio? Infelizmente penso que a altíssima qualidade deste filme deixe os antecedentes em situação pior. Se eram banalidades dispensábeis ficam de se envergonhar com a confrontação. Não quis mencionar que o casal antonioniano, anda, anda, anda como os de outros filmes, mas marcos falou. Ou seja, se bons filmes antigos dele ficaram datados mesmo, este já nasceu inteiramente velho, apesar do "aggiornamentto" dos seios de fora, nudez frontal e outras coisas, hoje banais ( e banalizadas) até na TV. Como nos piores episódios de "Além das Nuvens" a não-historinha não diz a que veio e há mesmo cenas algo constrangedoras de nudez feminina ao ar livre, numa "dança" à beira-mar algo patética. O episódio americano é curioso por falar de "Eros" (se é que esta foi mesmo uma proposta aos diretores) numa cena que se passa básicamente entre dois homens, paciente e analista em torno de um sonho erótico do paciente e do voyeurismo do analista que mal presta atenção ao que o paciente fala. Depois nada é o que parece, revelando-se uma charadinha boboca e sem graça. Este, talvez um filme de e sobre homens para homens (bobos). Mas acho (li algo, há tempos) que na verdade o episódio de Antonioni já existia sozinho, precedendo os demais, e para acompanhá-lo foram juntados os outros episódios, talvez, aí sim, encomendados aos outros dois cineastas. As pinturas que antecedem cada episódio são bonitas e a música que os une é do Caetano Velloso, cahamada "Michelangelo Antonioni" incluída num CD em que Caetano homenageia Fellini e Giulietta Masina num show ao vivo na Itália. Confeitos que não conseguem fazer upgrade nos dois primeiros episódios e seriam dispensáveis no último. Vale tolerar os dois primeiros. "A Mão" é um Filme, tenha a metragem que tenha. Honra o título coletivo "Eros", honra o cinema, honra o ser humano e suas vicissitudes nos desvãos do sexo e do amor. O diretor tem outro filme (longa metragem) neste festival, "2046" é o título. Estarei lá, expectante, mas já preparado para não encontrar nada igual a "A Mão" porque obras-primas não acontecem todos os dias - embora também não surjam por acaso. E "A Mão" É uma obra-prima. |
Voltar ao topo [Aeternus:4624] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-24) - RE:RE:RE:1. Eros
That´s the point, Marcos. Sem me identificar com os personagens e não havendo outra coisa a fazer, exceto ainda eróticamente admirar as moças, o filme fica me parecendo sem sentido. |
Voltar ao topo [Aeternus:4625] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-24) - RE:RE:RE:1. Ainda Eros (e o resto)
Gallego levantou a questão que me motivou sobre o tema "feminista/machista" e trouxe o testemunho de duas mulheres que foram ver e adoraram o Wong. Eu não assisti o filme e talvez o adorasse caso estivesse lá. Oque observei surgiu a partir do modo pelo qual ele foi oferecido a quem está, necessáriemente, privado de quase tudo que o cinema oferece: som, cor, fotografia, movimento, atores, roteiro...O que causou em mim foi, no início, uma sensação de voyeurista extemporaneo que valeu, no entanto, porque logo em seguida vieram mais e mais notícias, todas fascinantes. |
Voltar ao topo [Aeternus:4626] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-25) - segundo dia do festival
 Depois de uma excelente "Terceira" de Mahler pela Orquestra Petrobrás no Municipal, um filme belga chamado "A Mulher de Gilles" com excelente desempenho de Emanuelle Devos e dos demais atores, boa foto, clima, etc. Mas um pouco lento demais para pouca história de menos. Interessante a reação de uma "Amélia" interiorana a uma situação de gravíssima ameaça ao seu casamento (estamos em 1930). Bem colcada a compulsão do marido pela cunhadinha (bela atriz). Apesar de lento, mantém o interesse pelo que a "Amélia" fará. Mas não creio que entre em cartaz comercialmente no Brasil. Não é nada ruim, mas não gratifica o esepctador. Stepnen Frears tem altos e baixos na filmografia, mas quando acerta ("Ligações Perigosas", "Herói por Acaso", "The Grifters"), acerta muito. Esse "Mrs. Henderson presents..." é um bom a certo num estilo curioso, mixto de musical com melodrama de guerra inspirado em fatos reais, na base do "there's no business like show business" que os americanos cansam de fazer elogiando o próprio umbigo. mas aqui, a coisa é à inglesa, explorando a extravagância das classes abastadas entre a I e a II Guerra, admirávelmente caricaturada num desempenho brilhante de Judi Dench. Pode parecer pleonasmo, mas o papel oferece oportunidades histriônicas que não lembro de ela ter tido anteriormente e ela aproveita todas. indicação ao Oscar garantida. Ao lado de Bob Hoskins ("Mona Lisa" antigão, policial dark, "Roger Rabbitt"), Judi Dench brilha. O filme é bem humorado e bem palatável, delicioso enquanto dura. Pedri mais é luxo. |
Voltar ao topo [Aeternus:4627] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-25) - RE:segundo dia do festival - Pedri mais...
 (Ue semper peoç!) Fiquei contente com o relatório galleguiano de ontem, que tem uma dose de suspense. "A Mulher de Gilles" não deve entrar em cartaz comercialmente mas mesmo assim a gente fica sem saber o que a "Amélia" fará pois a irmã, o marido, a rotina da casa de verdade... Devia ter um código ( como os de anagramas) para revelar sem estragar a surpresa para todos. Judy Dench é o máximo.Ela é que está como "Mrs Henderson"? Lembro de vê-la cantando e dançando com duas maria-chiquinha no cabelo, um rosto maroto, um olhar cheio de alegria de viver. Espero poder assistir o filme, ainda mais agora que Gallego promete-lhe um Oscar! Acordei com o alarme do meu carro tocando desesperado. Deve ter sido titica de bem-te-vi, pois recebo brindes simétricos diários por causa de um cabo da Net que desfigura a paisagem das ruas, mas é um grande favorito das aves. Espero conseguir dormir outra vez: desde que choveu há dois dias, o clima está maravilhoso. |
Voltar ao topo [Aeternus:4628] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-25) - RE:RE:second thoughts sobre o segundo dia do festival - Pedri mais...
 Fui reducionista ao estereotipar a personagem de "A Mulher de Gilles" como "Amélia". Não que não seja: lava na tina, passa com ferro de carvão, cozinha em fogão idem, cuida de filhas gêmeas grávida de explodir, lava o chão, cuida do jardim e da horta numa casa sem recursos modernos no interior belga em 1930; como na nossa música, não faz exigências e quando vê o Gilles contrariado só falta dizer "meu filho, o que se há de fazer?". Transa com ele quando ele quer - mesmo que ele goze rápido - e quando ele está ensimesmado pensando na outra vai "lá" acariciá-lo e lhe proporcionando uma masturbaçãozinha básica. Mas não é só "Amélia" e é pelo "a mais" que a atriz Emanuelle Devos se destaca: discretamente, sutilmente, com mínimas mudanças de olhar ou de expressão facial, a atriz domina o filme; e com ajuda da atriz a personagem tenta dominar a situação na base do "eu me chamo cá-te-espero", num jogo de placidez e neutralidade absurdas que é arriscado e que pode dar certo ou não (não conto se dá ou não dá). E, como eu disse antes, o estado compulsivo-dependente do marido enrabichado pela bela e mais jovem cunhadinha é muito bem demonstrado pelo ator que tb está excelente na psicologia rude do personagem que repete apenas "ela é minha, ela disse que era minha" desesperado, possessivo e submisso a esta paixão transgressora, enqaunto sua mulher diz: "Vai passar". E ele diz: "Não vai passar nunca". Fala-se pouquíssimo, o filme pode até parecer meio mudo como os personagens bem "primeira-e-marcha-a-ré" sem marchas intermediárias (segunda, terceira, etc.) num carro que não é nada hidramático. Já Mrs. Dench-Henderson fala pelos cotovelos, frases de espírito, bobagens, pieguices, verdades e mentiras (e até palavras chulas!). Jogo de rosto e expressões faciais riquíssimo, a serviço de uma personagem excêntrica com um pano de fundo que permitiria se discutir questões ligadas à sexualidade e hipocrisia, ou seja, o "nu (artístico)" em teatro de vaudeville em 1937 na Inglaterra. Hoje a questão parece apenas hipócrita e datada, já que mesmo filmes não-pornográficos já incluem trepadas autênticas quando os personagens trepam através dos genitais dos atores ao vivo, a cores e sem truques, meus senhores: é ripa na xulipa! Mas vale a pena pensar no fetiche do corpo feminino despido parcialmente ou totalmente para o olhar masculino (e desfrute narcísico de quem se exibe, ça va sans dire); a hipocrisia da analogia com os nus das pinturas consagradas dos grandes artistas (penduradas e estáticas nos museus classe "A") permite a inauguração do nu impedindo as starlets de se moverem no palco, petrificadas com estátuas vivas. Nada disso é aprofundado no filme, afinal, um semi-musical, comédia melodramárica, algo romântica, ainda que mais do que competente. Mas vale uma especulação que me recorda uma das boas tiradas do grande frasista, Bernard Shaw que dizia mais ou menos (segue-se de memória): "Se a moda insistir que as barras da saia continuem a subir enquanto os decotes continuam a descer, eu gostaria de viver para presenciar o grande encontro!" |
Voltar ao topo [Aeternus:4629] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-25) - RE:second thoughts sobre o segundo dia do festival - Pedri mais...
 É curioso como duplas traições e as que mais ferem ( entre pessoas da mesma família ou amigos do peito) sejam tão comuns . Pobre Amélia, que quer continuar com o maridinho seja como for! ( Gallego só não disse se vai dar certo ou não dar recorrer ao absurdo da placidez neutra...). Hoje, ouvindo um telejornal, sobre a corrupção no futebol, veio a queixa: " o torcedor e o povo estão se sentindo como otários", mas principalmente os torcedores... Não há um espaço livre de traição nesta nossa terrinha das impunidades? Seríamos "Amélias/os", sem outro recurso outro senão da neutralidade bovina? Estava lendo um livro chamado "Trivial Variado" que devo ter comprado há uns cinco anos e perdido pelas pilhas que ameaçam minha cabeceira. O autor é um jornalista interessante, na época era ou do Estadão ou da Folha, esqueci e não sei se continúa, Marcelo Coelho. Suas cronicas diárias são deliciosas de ler, embora não todas. Ele mistura com facilidade erudição, humor e atualidade. Ele escreve dando conselhos ironicos sobre o problema dos mendigos ( e lembrei das denúncias atuais contra Serra que pretende uma "operação limpa" sob viadutos paulistas), descrevendo as propagandas para os "Flats" ( excelente: o sonho de trocar de casa e de corpo...), o estilo do Paulo Francis antes e depois de Nova Iorque. Creio que li alguma coisa sobre a corrupção daqueles anos do final do milenio e, se ainda me parecer pertinente, trarei para cá. Ainda não li a parte III onde ele fala sobre cinema. |
Voltar ao topo [Aeternus:4630] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-25) - 2. La Femme de Gilles e 3. Mrs. Henderson Presents
 Por acaso assisti ontem os mesmos filmes que o Gallego, sendo o 2º ( o do Frears ) convidado por ele, diante do forfait da Suely. A duras penas conseguimos dois sanduíches, nos últimos instantes para a sessão, e dei a última mordida no meu alguns metros antes de entrar na sala já lotada. A simpática e tímida Kelly Reilly, uma comprida loura de 28 anos que desfila seios esculturais e muito mais em cena, no teatro da 'Sra. Henderson' do título ( Judi Dench )mostrou-se elegante e algo titubeante diante da massa. Mas foi aplaudida, e como todo o elenco andou bem no seu papel. Gallego falou bastante bem de ambos os filmes que vimos. 'Gilles' vale para dar emprego e mover gente que vai entrando no cinema. O enredo nada traz de instigante, e flui demasiadamente lento, como frisado, sem que isto nos faça 'ler mais nas entrelinhas'. Emmanuelle Devos tira água de pedra, e sem ser bela, enormes olhos verdes translúcidos sobre um rosto de feições algo rudes e pesado como um todo, consegue inesperadas facetas. Ela está também em mais dois filmes da Mostra, num dos quais ignorando a retirada do bigode do marido, num filme que tem como título o dito cujo. Sobre o Frears, acrescento algumas coisas. Aprecio dele também "My Beautiful Laundrette" e "Sammy & Rosie", da fase swinging London& hindus invasores. "Mrs.Henderson Presents" é antes de tudo muito gostoso de se assistir. Bob Hoskins marca com discrição seu personagem, como que estendendo o tapete para a Judi dar seu show. Afora isto, o Frears arranjou uma velhinha espetacular, bem enrugada e cheia de maquiagem, sempre elegante, para fazer contraponto com a personagem central. A instituição da nudez nos palcos ingleses é tratada com bastante sutileza e ironia fina pelo diretor, que encena nuances bastante interessantes, como uma sedução gastronômica de Lord Chamberlain pela 'empresária' Sra. Henderson, a convencê-lo da nudez entre trufas, salmons, queijos e iguarias especiais. Ou ainda a forma com que da pudicícia inicial vamos vivenciando o dia a dia das garotas&técnicos&chefia nos bastidores. A foto esmaecida e repleta de filtros de Andrew Dunn favorece a composição de época, e dá um ar gloomy à homogênea platéia de animados soldados e à Londres-sob-bombardeio. Facilita ainda um certo tom nostálgico daqueles shows de variedades, com pernetas, fantasias de pelúcia, papier maché e papelão, a estilizar luas, árvores e coisas do gênero. A proposta artística básica de Vivian Van Damm - o judeu diretor de arte e homem forte de Mrs. Henderson - passava por esse fait divers, que de repente, numa troca de luzes junto a um acorde musical, revelava corpos femininos nus e estáticos ( e só assim Lord Chamberlain permitira...) A trilha sonora de George Fenton funciona bastante bem, desde os créditos. Canções melódicas ou jocosas dão bojo a bons números de dança e coreografia. Como disse o Gallego : para que pedir mais aqui ? |
Voltar ao topo [Aeternus:4634] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-26) - 4. Coure Sacro
 Bem, gostei um pouquinho do filme, ao contrário do Gallego, desta vez. Nossa empresária gananciosa que decide trocar o açambarca-e-devora por uma versão moderna de Madre Teresa de Calcutá entra numa síndrome altruística paroxística, após carregar culpas familiares e circunstanciais de toda ordem, aqui incluídos o suicídio duplo de um casal ex-sócio e o atropelamento de uma menina ladra-de-rua, que furtara uma girafinha desmontável de madeira para oferecer de presente à empresária, tornada sua quase-preceptora. O diretor-roteirista Ferzan Ozpetek quase resvala para o panfletário, em certos momentos. Grâce Dieu prevalece o viés cinematográfico tentando estruturar-se, isto a partir de uma técnica excelente a seu dispor : som de 1ª, Cinemascope, bela fotografia, muitas cenas num palazzoto familiar de amplos cômodos, com destaque para o quarto de morte da mãe da personagem central, paredes todas escritas em ranhuras, incompreensível linguagem...Abdicando do circuito todo-poderoso de cifras e exorbitâncias, ali foi confinada e deixou-se confinar por uma tia impiedosa, Dama-de-Ferro ancestral e 'supervisora' do aprendizado na área da ( de repente )conturbada sobrinha, antes perfeita discípula. Há um outro cômodo fantasma, todo coberto de lençóis e igualmente lúgubre, onde uma vez ligado o interruptor uma velha vitrola faz ressonar em eco uma ária fúnebre. Magníficos quadros empoeirados, sobre paredes texturizadas, revivem uma época que está sendo banida, exclusa. É quando nossa heroína muda de idéia, após entrar em contato, curiosamente para ela mesma, com 'Os Desgraçados' - a menina ladra que morre, um mendigo angustiado e patético, arrastando-se em pensamento atrás de sua noiva fugidia, o bairro pobre enfim. Seu outrora pomposo palazzoto torna-se abrigo de caridade, com refeições e pacotes-sobrevivência para pobres coitados. O próprio padreco da comuna local tenta dissuadi-la : "não é se exaurindo e se sacrificando dessa forma que se resolverá tudo. Eles pedem 'um' e você dá 'dez'..." A tia-sem-alma entra furibunda em ação, para acabar com o baile dos oprimidos, sem sucesso. Numa escaramuça por subúrbios ainda mais desmantelados, Madre Teresa vê mais desgraça e angústia ainda. O padreco lhe diz "vê, mesmo o milagre é pouco para essa gente. É preciso uma ação geral, ordenadora, determinante !" A moça despiroca geral, então, na viagem de volta : começa doando seus brincos, anéis e braceletes, passa para a bolsa, blusa, sutiã, etc...até que a vemos internada numa instituição psiquiátrica. Também divergindo do Gallego, acho que Barbora ( com 'o' mesmo ! ) Bobulova vai bem no papel central. Concordo que falta inspiração maior artística e soluções mais fortes de roteiro no 'entremeio' da questão ética : um trabalho mais refinado desta epopéia desenfreada de ganâncias, apagando identidades e memórias. Inevitável a comparação com "Viridiana", onde Buñuel genialmente anda na contra mão, e após a orgia descomposturada dos mendigos no casarão, devolve nossa priminha Viridiana, cabelos soltos e sensualidade à flor da pele, ao nosso mundo de pecados. Também inevitável a comparação com "Teorema", onde Pasolini radicalizava o discurso com a volta às origens. A ciascuno il suo, puoi. |
Voltar ao topo [Aeternus:4635] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-26) - RE:4. Coure Sacro eCuore Saco?
 É um privilégio acompanhar MF e LFG nos debates sobre os mais novos filmes, cada um com um viés particularíssimo para amar ou odiar os roteiros, atrozes e diretores. Parece que o tema beira a história dos mendigos e da "solução" proposta pelo Serra, seguramente melhor que a dos seus antecessores no Rio e em Salvador. Agora também descobriram um esquema de corrupçpão para acabar com o paulistano...Do jeito que a coisa vai ainda está todo mundo embarcado no slogan da ditadura: " Brasil, ame-o ou deixe-o" , uma frase que já por si era horrível e que agora ganhou uma torção peculiar "Brasil, use-o e deixe-o". Li montes de discussões dos sociólogos, politicos, antropólogos opinando contra a tática do Serra, todos incrívelmente "políticamente corretos". Me descobri mais reacionária: acho que não há saída para o problema da mendicância. Podemos ( ou melhor,deveríamos) oferecer escolas, hospitais, moradia decente e empregos para a população, distribuir melhor a renda e, apesar disso, estou certa de que continuaríamos com mendigos assentados nos gramados, defecando e urinando na cidade, dormindo nos jardins. Há países nos quais os mendigos representam uma opção de vida ( como os religiosos na India, ou os primeiros franciscanos). No Brasil não se trata de opção, assim no começo: conheço pelo menos três gerações de menina/os de rua que não desejam outra coisa pois nunca puderam aprender como aspirar a algo diferente ( também não sei se adiantaria). Para minhas poucas luzes, a solução mais pertinente seria a de aprendermos a conviver com os mendigos sempre por perto de nós, mas sem voltarmos mais particularmente para eles estas ideologias que gravitam em torno dos projetos de escolas, hospitais, medidas sanitárias. Para não falar nas reformas políticas mais drásticas. Quero dizer que há mendigos por vocação e não apenas aqueles que foram empurrados para a pobreza extrema e ficaram sem outra saída. Proponho um estudo da dinamica da mendicancia para entendermos que há mendigos que moram, comem e se vestem direito por trás de muitos dos assim classificados de "funcionários do governo"... Um filme com a Sarah Miles sobre Lord Byron tem uma cena terrível na qual mendigos se matam quando, num arroubo de generosidade alienada, a moça joga suas jóias para os pedintes. Comprei uma cópia de um Buñuel sobre "Os esquecidos" que vi há uns trinta anos no cinema e tenho tido medo de ver outra vez. Aceito aulas. |
Voltar ao topo [Aeternus:4637] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-26) - 5. Proof
 ( há um excelente filme australiano de 1991, da diretora Jocelyn Moorhouse, chamado "The Proof", com Hugo Weaving, Geneviève Picot e Russel Crowe ) Não sei se o romance de Daniel Auburn, que inspira o filme roteirizado por ele e Rebecca Miller, é anterior ao projeto de "A Brilliant Mind", já que as linha são muito próximas : aqui, professor e pesquisador de Matemática ( avançadíssima ) entra em parafuso, e passa anos a fio confinado em casa, sem produzir, apoiado pela filha mais nova ( Gwyneth Paltrow ). Auburn&Miller conseguem uma delicada abordagem dos rumos dessa família, onde curiosamente a mãe jamais é citada, e logo de início sabemos da morte do pai luny ( Anthony Hopkins, muito obeso ). Chega a irmã toda-dedos de NY ( Hope Davis ), comperguntas e conselhos a tiracolo, tentando convencer a irmã - secretamente também tida como doida, em seu íntimo - a morar e trabalhar em Manhattan. O miolo do drama oscilará entre flash-backs da relação pai/filha, de um affaire filha(27anos)/jovem adulto(26)formando carreira em Mat também e o arreglo entre as irmãs. Alguns pequenos segredos, bem plantados, e alguns arrufos vão dando colorido à trama, adensando os personagens. Hopkins faz um cientista louco sem trejeitos, malabarismos ou exageros. É um zombie mais para o patético do que para a desgraça ou histeria. Gwyneth conduz bem sua introvertida personagem, falhando numa ou noutra careta. Jake Gylenhaal, o rapazinho, compõe bem seu papel, sem brilhar nem comprometer, e Hope Davis destaca-se como catalisadora de situações chave dentro do drama. Além de um questionamento interessante sobre influência/destinação, autoria, confiança e inventário de culpas dentro do âmbito familiar, ponto alto para a não-definição dos rumos dessa intrincada teia onde o encontro parece sempre fugidio. |
Voltar ao topo [Aeternus:4639] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-27) - preferências e "diferências"
 Como os nossos... 17? 11? 6? 3...? leitores já devem ter percebido, Marcos Florião é mais tolerante com filmes italianos, pouco lançados no Brasil nos últimos muitos anos; vai a quase todos que consegue nos festivais e graças a isso me deu a dica, há 2 anos, de "Eu não tenho medo", belíssimo e que acaba de sair em dvd e passou meio em branco quando foi exibido nos cinemas. Também, no Brasil, um filme sobre - digamos - a ética (natural?) de uma criança num ambiente perverso (ou pervertido no sentido da voz passiva? ou desesperadamebnte empobrecido e semi-oligofrênico afim de um golpe de sorte seja de qual origem fosse?). Enfim, assistam. Li o livro depois e é simples como romance; o filme é melhor. Baseado em episódio real. Bonito de foto, música, paisagem para tolerarmos a barra da história. Mas no Brasil faz suceso é "O Homem que copiava" que é uma ode a anti-ética. Eu devo ser mais tolerante com filmes franceses, talvez. "A Mulher de Gilles" ganhou nos dias seguintes ao primeiro contacto, sem virar nenhuma maravilha imperdível, mas com aspectos bem interessantes na memória. Nos encontramos, Marcos e eu, na apreciação de "Mrs. Henderso presents...". Nos encontramos também na saída de "A Mulher de Gilles" e, com a desistência de Sueli, Marcos foi com a entrada dela ver a Judi Dench brilhar. Sueli faz sempre as escolhas erradas (exceto quanto ao marido maravilhoso que ela tem, ça va sans dire): domingo, sob chuva e frio fomos - ela e eu - assistir "A Febre", de diretor estreante, atraídos pela Vanesa Redgrave contracenar com Angelina Jolie e uma de suas filhas, Joely Richardson (menos conhecida que a irmã Natsha Richardson, atualmente Sra. Lian Neeson, também conhecido como o Schindler da Lissta de). Marcos fizera cara feia ao ver o nome de Michael Moore no elenco. Com Vanessa Redgrave? Deveria ser um homônimo. Não era. O diretor estreante estava lá na sesão "de gala". Marcos e eu vimos o nome na véspera e era "Carlo Nero" e nem assim caiu a ficha: Vanessa Redgrave, depois de se separar do Tony Richardson (que dirigiu "Tom Jones", "A Taste of Honey" e dois filmes com Jeanne Moreau - um deles, "Mademoiselle" onde ela uivava no cio -mesmo!- , baseado em Jean Genet - e aí o inglês ficou de quatro pela francesa - que depois o chutou), enfim, a Vanessa, logo que estorou em Blow-Up fez o musical "Camelot" com um italiano bonitão e canastrão como Lancelot (ela de Guinevere) chamado Franco Nero. Buñuel teve que engolir ele em "Tristana" e só agora descobri que ele, como Vanessa foi (ou é) ativista de esquerda. Pois bem, o Carlo é filho do Franco com a Vanessa. Ou será de Lancelot com Guinevere? Mamãe produziu para o filho? ou só deu uma forcinha? Ou ambos se engajaram num filme que é mais uma propaganda institucional da esquerda anglo-americana do showbusines? O filme é chatíssimo apesar de ter só 83 minutos e se não fosse a Vanesa tirando leite (aguado porque o roteiro... não tem roteiro, só monólogos quase) das pedras, teríamos aaído no meio. Mas tínhamos a vã esperança de que melhorasse. Não tem história, é primário com esquerdismo piegas e infantilóide, algo idealizado e ingênuo, Repettitivo, não sai do lugar, criticando o consumismo, etc etc. E pior na lembrança no dia seguinte, tal como ressaca de uísque paraguaio (ou esquerda americana de Michael Moore e Angelina Jolie - esta aparece de católica e revolucionária. Me poupem!) O argentino "Garoa Portenha" é competente como filmagem, interpretação, música, etc. Mas o roteiro é previsível, repisando o tema de uma pessoa viva responsável pela morte de outra ocupar os espaços do morto tal e qual, já mais bem explorado, por exemplo no livro "O Décimo Homem" de Graham Greene (que originalmente era um roteiro - ótimo - para cinema mas que surpreendentemente deu um filme burocrático apesar do excelente Anthony Hopkins antes da fama de canibal no elenco). Acho que esse argentino pretendia ser uma demonstração da culpa persecutória não elaborada depressivamente, mas, pelo menos para psicanalistas, de forma banal, sem maiores vôos. Pena, porque a parte cinematográfica é boa, a câmera é de quem "é do ramo". O chileno "Cachimba" podia ser menor. Joga no difícil terreno da farsa com personagens caricatos e situações cafonas. Interessante pensar que critica (sem falara explicitamente de política) a esclerose de instituições ligadas ao governo (algo como o patrimônio hist´rico e artístico de lá), o mercantilismo oportunista e corrupto, enfim, nossos pecados sul-americanso (embora não só). A platéia riu mais e gostou mais do que eu. Achei meio mais ou menos. Espero que minha sorte mude neste cassino que é ver filmes de acordo com a hora livre e com palpites que se tem, tão idiossincrásicos quanto jogar no vermelho 17 ou preto 27. Haja roleta. "Caché" com Daniel Auteil e Juliette Binoche dirigido pelo mesmo de "A Professora de Piano" (antes da autora do livro em que se baseou ganhar o Nobel de literartura) CHEGOU mas terá que entrar em hoirários livres pois os que tinha sido destinado bem no início do festival foram ocupados por outros filmes pelo atraso nas cópias de Caché. Enfim, o melhor do fim de semana para mim ainda foi mesmo ouvir e ver a Terceira de Mahler numa excelente performance da Orquestra Petrobrás no Municipal com Karabitchevski confirmando que é bom em Mahler. Sábado que vem tem violinista Schlomo Mintz e compramos para ver Marilia Pera em show de músicas de Carmen Miranda (vi Marilia como Carmen duas vezes, em espetáculo roteirizado sobre a vida da Carmen e em uma das imitações que ela fazia emn "Elas por Ela" - é fantástica como clone da Miranda! E aquelas músicas da Carmen eram uma delícia! E as roupas bizarras, divertidíssimas) Com isto vou deixar para o Marcos, se quiser, minha entrada de sábado ás 22 horas de um documentário sobre sexólatras. O título era ótimo de ser escutado pelas pessoas comprando entradas: "Eu sou viciado em sexo" (mas não precisava confessar em voz alta na compra de entradas... e saídas...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4640] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-09-27) - RE:RE:4. Coure Sacro eCuore Saco?
 Então, Caríssima! E aqui na Estação Santana do Metrô, que, apesar de dispor as catracas no subterrâneo, dá acesso a um trecho aéreo da linha, acima do canteiro central da avenida Cruzeiro do Sul, puseram grades de ferro em tudo, e estão tapando as aberturas que faziam um arejamento entre o interior subterrâneo e o exterior da estação. Aquilo também tem cara de "espanta-assaltante", mas, o verdadeiro resultado foi o deslocamento dos mendigos para o relento. Já os pedestres são obrigados a se submeter a um gargalo para atravessar de um lado para outro da rua/estação pelo nível da rua. Até onde sei, os mendigos continuaram ali, em torno das grades, mas nesses dias de chuva, pra onde será que foram? E esse papo de assalto onde tem mendigo, é furado. Alguma vez você já ouviu falar de assaltante mendigo? Mas sabe o que eu acho? Que tucano não reprime. Tucano FORACLUI!! D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4642] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-27) - RE:preferências e diferências
 Antes de tudo, parabéns à auto-estima de meu amigo ! Já que nossas ingratas parceiras não nos reverenciam, ao menos alguém precisa deixar registrado nosso valor intra-muros ( pra não falar intra-lençóis ). Ainda sobre nossa Amélia de Gilles, talvez o mais belo no filme seja a tenacidade dela diante da adversidade. O desfecho certamente será lido de forma diversa por cada um, mas creio que pode passar por um tipo de altruísmo doentio, tal e qual o da Madre Teresa do filme italiano : a entrega do marido à irmã ?... Animei-me a tentar ver "Rois et Reine" para rever a Devos, vamos ver se o filme chega. Eu quero sim esse bilhete para "Eu Sou Viciado em Sexo", absorvendo dessa forma a tara do Gallego. Só acho que a Ana não vai me acompanhar na empreitada. Anda muito casta. Sobre a Vanessa, sofreu muito com esse down de bons nomes no cinema inglês ! Apesar do filão 'luta de classes' haver sido esgotado - genialmente, frise-se ! - junto aos 'não-temas' - junkies largados na sarjeta, ofensas familiares e sociais do princípio ao fim, imundície generalizada e bêbados de plantão - temos uma safra fraca de diretores e até de atores/atrizes, que sempre foram fortíssimos por lá. O pessoal tem valorizado mais algumas gostosas, como a narigudinha Saskia Reeves - já deve estar quarentona - e agora a Safron Burrows, bem assanhadinha e talentosa. Daqui a pouco assisto mais um del paese, "Onde" ( "Ondas"). Torno subito.
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Voltar ao topo [Aeternus:4645] Mensagem do Grupo48 -Jansy Mello(2005-09-27) - RE: Coure Sacro eCuore Saco?
 Caro Conde Drácula ,
Se não tivessemos aprendido o truque de usar o "Tema:ultimas 50 mensagens" e "atualiza a lista" estaríamos todos perdidinhos de tanto que você viaja e resgata listas antigas e temas quase passados para novas discussões.Hoje já passeamos pelo Festival, E agora, José e Hora Azul. Valeu.
Excelente visão: "os tucanos não reprimem...eles foracluem". Os republicanos elefantinos do Bush idem. Daí que, se concordarmos com Lacan, temos uma clara confirmação da observação que ele fez a propósito do Caso Schreber: "aquilo que não é simbolizado retorna pelo real". Estamos sofrendo grupalmente não pelo retorno dos recalcados, mas de uma invasão do Real... |
Voltar ao topo [Aeternus:4647] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-27) - RE:preferências e diferências
 Marcos leu um monte de coisas na última mensagem do Gallego que eu não encontrei. Só quero ver no que vai dar... Vi que LFG ficou bem desencantado com o conjunto total das ofertas da mostra, tanto que colocou como ponto alto o concerto da OSN do sábado passado, que não tem nada a ver com cinema, e anunciou sua expectativa para o próximo fim de semana, quando cederá os bilhetes duramente conquistados ao seu colega de fila.
Ainda assim os dois estão extraindo leite de pedras, como já disseram a propósito da Vanessa Redgrave, nos comentários sobre o festival. Adorei as observações do Gallego sobre o nível patético da esquerda Redgraviana. O filme do protegido da diva deve ser, igualmente, bem pobrezinho. |
Voltar ao topo [Aeternus:4648] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-27) - 6. Onde
 Incrível a tendência moderna de deixar abertos os roteiros, transformando as tramas em recortes do cotidiano. Neste "Ondas" o diretor Francesco Fei usa dois personagens que aproximam-se por suas 'deficiências' : um cego após descolamento irreversível de retina e uma moça estigmatizada por uma mancha hiperpigmentada enorme, de nascença, sobre quase toda a hemiface esquerda. Ao invés de permitir que alguma trama tome rumo, o roteiro prioriza o mero dia-a-dia dos dois, os pequenos obstáculos e tentativas que ambos fazem. A moça nem se arvora a imaginar relacionamentos 'normais' com eventuais parceiros, limitando-se a proteger - e de todo modo - seu flerte com o rapaz cego. É que de certo modo ela já espera o tranco que aplicarão sobre ele, a mesma zombaria, desdém e manipulação da qual ela foi vítima desde a 1ª infância. Há uma espécie de resignação assumida no trato ela com o 'social', uma noção de seus 'proibidos', de sua 'delimitação de ação'. Sem pieguices, Fei conduz bem a narrativa, que se passa numa Gênova impessoal, com seus viadutos a atravessá-la, a areia artificialmente branca, poluída pela indústria próxima, e o plácido mar, constrangedoramente verde claro pelo mesmo motivo. Destaque para Anita Caprioli no elenco, uma delicada moreninha, perfeita para o papel. |
Voltar ao topo [Aeternus:4649] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-27) - RE:6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano...
 Quem não tem cão caça com "Retro" ( Kung Fu) e novela da Globo! Tem cotidiano de montão. Pra confessar francamente gosto dos detalhes e pequenos olhares, gestos ínfimos e desapontamentos. Num mundo superlotado, dá alívio constatar que as escalas menores ainda existem para valorizarmos a vida comum. Não sei se o comentário que li hoje no noticiário era um pronunciamento genuíno do presidente vietnamita, ou talvez do encarregado da defesa contra tufões, mas achei contrastante com tudo que li sobre o Katrina ou Rita nos EEUU: " Perdemos os diques, perdemos milhões mas, felizmente, salvamos milhares de pessoas..." Quem sabe o oriental não é tão massificado quanto as reportagens ou filmes ( como "Lost in Translation") nos levam a crer. Afinal tem o desmentido dos seus filmes, até de alguns desenhos para crianças, como "Totoro"... Talvez eles conheçam desde séculos um termo que hoje vi ser empregado pelos teóricos de Heidegger, propondo uma atitude de "Gelassenheit" diante das dificuldades com o mundo atual. Acho que a tradução poderia ser "Despojamento", mas tem uma tonalidade de "entrega" ( sem ser conformista) no termo alemão e que some em "despojamento". |
Voltar ao topo [Aeternus:4652] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-28) - RE:RE:6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano...
 Jansy diz que os filmes orientais provariam que não são tão massificados assim. Minha segunda tentativa com filme japa neste festival foi a mais desastrosa de todas: "Café Lumière" veio com marketing de ser uma homenagem a Ozu (que tem uma mini-mini-restrospectiva no festival que vai me atrair para uns dois filmes dele que não conheço; aliás, não conheço muitos e ele filmou muito mesmo, desde cinema mudo, eu acho, até os naos 1960). Pior do que o da vanessa e pior od que o que eu saí no meio. Por que? porque é um poço de pretensão no uso da Cãmera parada, intermináveis planos-sequência (ou seja, sem cortes, com sequências enormes da câmera petrificada, banalidades do cotidiano (moda? no filme que Marcos viu - e tinha que ser italiano), história nenhuma, enfim, um tremendo misunderstood do que é o cinema de Ozu que tem cãmera parada (ao nível do tatame), planos seuências longuíssimos, tramas simples do cotidiano, mas com uma "pequena" diferença - ou duas - tem um cineasta sensível, humanista e talvez um gênio (palavra pesada para quem filmava como talvez os músicos renascentistas, sem pretensão maior) atrás da câmera; e os enredos "banais" têm perspicácia psicológica sobre o dia-a-dia das vidinhas comuns. Que diretor daria a um filme o título de "A Rotina tem seu encanto"? Outros títulos: "Uma Mãe deve ser amada" (não vi), "A Escola é um lugar agradável" (idem), "Ele é um pai" (pretendo ver neste festival), "Pai e Filha" (tema recorrente em seus filmes: a filha vai se casar e o pai ficará só), "O Gosto do arroz no chá verde" (vou ver no festival), "Bom Dia", "Dia de Outono", "Flor do Equinócio", "Fim de Verão". prá falar a verdade são todos tão parecidos que já nem sei os que vi e os que não vi, mas todos são como hai kais desde o título. A obra-prima tb passa no festival e eu reveria com prazer, mas não vai dar: "Tpkio Monogatari" (Tokyo Story ou Aconteceu em Tókio no Brasil). Café Lumière não é nada e eé pretensioso. Sala cheia sob chuva e frio raro no Rio. Uns babacas aplaudiram. Um sujeito saiu indignado falando alto: "Ozu não é isso!". Não resisti e concordei: "Ozu não é chato me esse filme é chatíssimo"; uma moça acrescentou: "Quem nunca viu um filme dele não vai ver achando que é isso; a gente depois de meia-hora já podia saber quenão ia melhorar e devia sair!" Contei que fiz isso em "Gosto de Chá" e ela agradeceu a anti-dica. Mas está na moda: desafetivado, seco, frio, blasé, distante: enfim, nada do que são os filmes de Ozu: sensíveis, mas discretos, contidos mas afetuosos, delicados mas agridoces e com um leve sorrisinho sobre melodrmas nem melosos nem tão dramáticos. Um chá de jasmin, saboroso, forte até onde consegue parecer/ser forte. Merecei não gostar de "Um Dia no Campo", retorno do diretor chileno radicado na França há anos, Raul Ruiz que sempre inventa histórias complicadas que não consegue desfiar no desenvolvimento: atrái pelo insólito mas frustra e irrita com pedantismo e falta de consistência. Assim foi com "Crônica da inoc~encia" onde um menino começa a dizer que não é filho de sua mãe mas rerencarnação de outro menino que morreu e, portanto, filho de outra moça. Choque na abertura e portas trancadas na "fechadura". outro que tem tremendo ibope na intelectualidade, consegue atrizes como Isabelle Huppert, Deneuve e conseguia Mastroiani para o decepcionante "Três vidas e uma só morte" onde três personagens eram um só e bláBLÁBLÁ - E DAÍ? mas ele me surpreendeu favoravelmente na sua versão do "Tempo Redescoberto" de Proust (para quem já havia lido: uma torrente de imagens e nomes e personagens incompreensíveis para que não leu La Rechereche... Um elenco de sonhos com Fanny Ardant, Emanuelle Béart, La Deneuve, sua filhota Chiara Mastroiani, malkovitch como Barão Cahrlus, etc etc. Também me pegou em "Genealogias de um crime" inspirado no patético episódio real de uma psicanalista pioneira que analisou seu sobrinho pois achava que ele tinha tendências homicidas. Ou a ana´lise foi frustrada ou ele realizou o desejo da titia: assassinou-a. Este filme sacaneia cruelmente ass instituições e fogueiras de vaidades do mundo psi. LOa deneuve fantástica. Mas "Um Dia no campo"...faça-me o favor! De novo questões de mortos que permanecem vivos, fronteiras dissolvidas entre a vida e amorte, as épocas, o tempo... numa historieta banal e previsível. Esse cara não aprendeu com Buñuel a ssumir o não-explicado, o insólito em si mesmo, o estranho pelo estranho. Quando ele vai explicar e não explica e um tremendo mau-hálito intelectual. A seu favor, os movimentos de cãmera, os travellings, a câmera circular loenta na horizontal com o que seduz na forma. Mas conteúdo...neca! O menos ruim do dia foi o clássico do cinema francês sob ocupação nazista, "O Corvo" (Sombras do pavor quando de seu lançamento original no Brasil. Filme de 1943 que lhe rendeu problemas na Libertação, acusado de ter filmado sb a ocupação alemã com certa simpatia pelo inimigo. Não sei. A história de cartas anônimas numa cidadezinha do interior, com o contágio putrefato da desconfiança e denuncismo (nem sempre calúnias, aliás, nunca mentiras, a tal "verdade" que ficaria melhor não revelada - coisa que se discute até hoje em "Closer", por exemplo) pode ter sido vista como a delação dos simpatizantes ao nazismo, algo ruim? ; ou seria a delação dos resistentes, algo ruim? Delação para o bem? Geralmente delação tem uma conotação feia, seja o que esteja sendo delatado. Mas e o disque-denúncia brasileiro? Voltando ao filme sem extrapolações metafóricas: funciona ainda; é exemplar na apresentação da trama e desenvolvimento, embora com o envelhecimento natural de uma obra acadêmica ( a "nouvelle vague chamaria os filmes franceses "de qualidade" de "cinema do papai"), datada na tipologia dos personagens, atores, maquiagem, etc. Mas isso não chega a ser problema, o filme mantém o interesse crescente. O problema é que, na época, era necessário uma "solução" do tipo quem é o culpado. E para minha suspresa (eu esquecera o final), já naquela época, o psi era o culpado. Não era psicanalista mas era um psqiuiatra algo psicólogo, falando em perversões sexuais, frustrações sexuais, impotência, etc. Mantém uma dignidade formal de clássico sem maiores vôos com excelente caracterização da epidemia de denúncias e medos de perversidades que brotam de cartas anônimas. Valeu rever. Torçam pela melhora na minhas escolhas possíveis porque está brabo! |
Voltar ao topo [Aeternus:4653] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-28) - RE:RE:RE:6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano...
Que 'a rotina tem seu encanto' não tenho a menor dúvida. Mas que 'a escola é um lugar agradável' já se vão outros quinhentos... Os japoneses são muito ajustados, eficientes e competitivos, mas...os que sobram, depois dos jovens que cansam disto aí em cima e fazem harakiri. |
Voltar ao topo [Aeternus:4654] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-09-28) - RE:RE: A invasão do real
 "Estamos sofrendo grupalmente não pelo retorno dos recalcados, mas de uma invasão do Real..." Jansy Alguém poderia perguntar: esse "Real" é o do plano Real ou o do Lacan? Eu diria que, neste caso, são dois lados de uma mesma... MOEDA. Mas falando sério: eu acho mesmo que a pobreza, a miséria e/ou a economia dos excluídos não são simbolizadas pelos tucanos e tucanizados. Há um "buraco no Simbólico", que transforma a Sociologia (e a Política) em Economia, reduzida a significação descolada, flutuante, numa verdadeira inversão de valores em que tudo passa a girar em torno apenas de "valores". Até que chega uma hora em que o simbólico, não conseguindo mais abarcar qualquer realidade, tem sua "praia invadida" pela revolução dos excluídos, essa gente que, como a Jansy disse, não teve nenhuma outra opção de subjetivação que não a miséria ou a bandidagem (sempre lembrando de discernir uma coisa da outra, uns sujeitos dos outros, porque ocupam sítios diferentes nesse panorama). E vira essa briga de grades e cimento pedriscado, numa tentativa de apagar uma percepção. A foraclusão é um defeito perceptual, a alucinação e o delírio psicóticos são defeitos perceptuais, mas com toda (ou maior) força de uma percepção. Aí o burguesinho morre de facada no pescoço e não sabe porquê. E na analogia com o caso yankee, eu diria que o PT bichado no poder também é um retorno do real, assim como o Bush é o retorno do real em relação à foraclusão preceptual dos Democrats. Aqui, nóis tâmo até melhor que eles: eles só têm PSDB (os Democratas) e uma coligação PFL/PDS (os Republicanos). Mas os republicanos, com sua truculência kukluxklônica, é o retorno do real deles, enquanto que o nosso, embora aparentemente oposto, é o povão, seja ele representável pelo PT, ou pelo PFL, ou pelo SBT do Sílvio Santos, ou pelo Cidade de Deus do Fernando Meirelles... Eu acho que a gente tá numa sociedade que, pior do que psicótica, é psicopática... Não me lembro se foi o Lacan ou algum lacaniano que falou que Schreber construía um novo campo simbólico que ia ao mesmo tempo corroendo e substituíndo o antigo, algo que pudesse abarcar seu tufão de realidade irrepresentada. E isso, aos meus olhos, se parece muito com a tucanização da linguagem tal como bem nos aponta o Zé Simão - um cara antenadíssimo. Tucanaram até a lavagem cerebral - agora se chama neurolingüística... Abração, D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4655] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-28) - 6. Onde/ delicadas cenas do cotidiano... Tudo com rinite?
 Gallego diz que Jansy diz "que os filmes orientais provariam que não são tão massificados assim", mas não deixou claro se os filmes é que não são massificados ou os milhões dos orientais. A indeterminação ficou ótima porque, como tantos diretores dos filmes deste festival, eu não sabia como concluir. Tentando consertar o erro cheguei à conclusão que me agrada, no oriental, o modo primitivo de praticar o "sincretismo": tudo pode ser qualquer coisa, nada é particularmente sagrado e tudo é especialmente sagrado. Será que melhora assim? Minha atenção é que sacraliza aquilo sobre o que ela se detém? Elogiando Ozu ( foi digitado certo?) Gallego prossegue: "Que diretor daria a um filme o título de "A Rotina tem seu encanto"? Outros títulos: "Uma Mãe deve ser amada" (não vi), "A Escola é um lugar agradável" (idem), "Ele é um pai" (pretendo ver neste festival), "Pai e Filha" (tema recorrente em seus filmes: a filha vai se casar e o pai ficará só), "O Gosto do arroz no chá verde" (vou ver no festival), "Bom Dia", "Dia de Outono", "Flor do Equinócio", "Fim de Verão""...Pra "falar a verdade são todos tão parecidos que já nem sei os que vi e os que não vi, mas todos são como hai kais desde o título". IIIIIHHHHHH. Detestei os títulos e Gallego os considerou poéticos! Parecia propaganda nas embalagens dos "Crunchy Crispies" ou "Softy Yummies" vendidos nos States, com um acréscimo ideologizante. E, enfim: "O menos ruim do dia foi o clássico do cinema francês sob ocupação nazista, "O Corvo" (...) A história de cartas anônimas numa cidadezinha do interior, com o contágio putrefato da desconfiança e denuncismo (...) pode ter sido vista como a delação dos simpatizantes ao nazismo, algo ruim? Ou seria a delação dos resistentes?" quando nos lembra do Disk-Denúncia brasileiro. Teve um filme com o governador da California ( digo o grandalhão austríaco casado com uma Kennedy) no qual a discrição hipócrita dos professores prejudica uma criança que vem sendo espancada em casa: " Um tira no jardim de infancia", talvez seja este. Afinal, ontem estava defendendo a idéia de que, seja o que fizermos, sempre algo dará errado...Que nossa opção nunca deve ser orientada para "o maior acerto" e sim para "o erro menor". É importante podermos "denunciar" o que vemos estar ocorrendo e que, pelas regras daquela cultura, a viola. Mas já por aí tem um senão: ouvi dizer que o Ministério Público só pode acolher denúncias quando o "delator" ( puxa, podia ser "delatante") não as faz anonimamente. Certo ou Errado? O que sei eu? Dizem, por exemplo, que "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher". E as estatísticas mostram que mais de cinqüenta por cento dos crimes ocorrem em casa e contra membros da mesma família. Quando é que cabe intervir? Quem? Como? Onde? Estava eu um dia rotineiramente cotidiano numa fila habitual e diária do banco ( nas priscas eras da desinformatização ) quando uma pessoa furou a fila na minha frente. Reclamei e bem docemente. Sabe o que aconteceu? Todos me olharam indignados, como se a inadequada fosse eu. O mesmo aconteceu num avião da TAM que não levantava vôo nunca e todos sentadinhos, com cinto, no calor da aeronave parada. Chamei a aeromoça para obter informações. A população inteira do avião me olhou de banda como se já soubessem que sou criadora de caso... ( E sabem o que apurei? Foi hilário e, mesmo rindo, não me deixaram saltar do avião quando pedi... A primeira resposta da comissária foi: "Como não dá para decolar deste aeroporto, vamos decolar de Campinas". A segunda foi:"Ué, não pensei nisso. Não vamos rolando pelas ruas, mas...". E a terceira:"Vamos esvaziar o tanque de gasolina para poder ir até Campinas bem leves e lá encherão nossos tanques para decolarmos" ) |
Voltar ao topo [Aeternus:4656] Mensagem do Grupo48 -Jansy Mello(2005-09-28) - RE: A invasão do real..A little learning is a dangerous thing
 Não sei quem inventou a expressão "óbvio ululante": Nelson Rodrigues? Leon Eliachar? Mario de Andrade? Silvio Santos? Estou sempre sendo acometida pelos óbvios. Estava ontem contentinha quando descobri lá no fundo do baú de abravanel ( metáfora para o arco da velha ) que o sentimento do "ser", ou melhor, do "ego" nasce da percepção que temos da passagem do tempo, do antes e depois, do agora e nunca. E não é que precisei dormir, sonhar, acordar para lembrar que o mais famoso livro que não li, do Heidegger, tem este título escancarado: " Sein und Zeit", o ser e o tempo... Ai,santa ignorancia. E vai ver que ele nem trata disto uma vez que não deve ter visto os anjos ouvindo interminável e infinitamente as vozes sussurradas no filme do Wim Wenders.
E aí, Conde, concordamos sobre os republicanos e democratas americanos e você ainda nos deu pitadas de otimismo permitindo-nos sacar que temos mais sorte que a turma lá do norte.
O que Freud descreveu para o Schreber e que Lacan retomou falando do "retorno pelo real daquilo que não foi simbolizado" era parecido com o que você ouviu dizer. Quando o psicótico parece estar mais louco aos olhos dos leigos é quando está em via de recuperação: rompendo seu silêncio, o louco então começa a reconstruir seu mundo destruído com todas as penas do pavão. Não tem nada a ver com a realidade consensual, mas é um mundo novo assim mesmo.
Como é mesmo a piada? O neurótico constrói castelos no ar, o psicótico mora neles e o psicanalista cobra o aluguel? Eu, se tivesse bolado a gracinha, a montaria de outro modo e diria que o psicótico constrói castelos no ar, o psicanalista mora neles e o neurótico cobra o aluguel ( estou pensando nas massas e não na escala de "um")
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Voltar ao topo [Aeternus:4657] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-28) - RE:6. delicadas: não necessariamente poéticas cenas do cotidiano
My Dear Jansy, My (un?)fair Lady: Não achei os títulos poéticos, alguns são até bem cafonas e nem sei se são fiéis ao título em japonês da pátria filhos ver contente a mãe gentil. Eu quis dizer da simplicidade, banalidade prosaica (vale o pleonasmo?) dos títulos, demonstrativos do que se vai ver mas sem revelarem o toque de sutileza que faz de Ozu um nome idolatrado por cineastas como Win Wenders (que filmou uma espécie de documentário sobre a obra-prima "Tokyo Story") - embora isso não seja argumento por Wenders continua cutuando Godard, que até merece pór bons serviços prestados mas é o máximo da desafetivação em muitos filmes (nem todos). Mas "A rotina tem seu encanto" parece título de teorema brechtiano, como querpiamos demonstrar, lembram dos teoremas do terceiro ginasial? e esse, de fato, acho bonito. |
Voltar ao topo [Aeternus:4658] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-28) - RE:6. delicadas: não necessariamente poéticas cenas
 Unfair Lady? Injusta e feia, né??? Desculpe. Ainda bem que pelo menos o lado injusto tem remédio. Entendi que você havia considerado os títulos japoneses constituindo-se em "hai kais", donde, poéticos. Dito de outro modo, opostos à brevidade portuguesa para "Psicose", o conhecido "O filho que era a mãe". Pois, sei lá, a rotina é só encanto pra mim: veja como varia o "todo dia ela faz tudo sempre igual" do Chico ( vai da boca de hortelã à boca de pavor)! Só hoje notei que não apenas o hino da Independência lembrado pelo Gallego, tem orientais e ali falando da mãe ( "Japonês da pátria filhos"), como também nosso Hino nacional em seus acordes iniciais (sua anti-coda): "Laranja da china...laranja da china, etc". E o petróleo que descobriram na costa oriental da Rússia, entre o Alaska e o norte do Japão, será um acréscimo positivo ao mundo, ou seja, um "plus a mais" como traduzem "surplus"? Nabokov era profeta. Ele vivia insistindo que ali naqueles mares tinha coisa... Cheguei a pesquisar a rota diferente do Vasco da Gama de uns russos que, antes da Antártida, exploraram as regiões do canal Bering e enviaram almirantes como Lisiansky...Crente que o tema eram vulcões, arqueologia e comércio de peles, óleo de baleia, ou seja, o tipo de coisa que interessava a turma naquela época... Cutuando Godard é "cultuando" ou "cutucando"? ( implicancia porque sou vingativa e desconto pela "unfair" lady da mensagem anterior. Sei que é "cutucando". Oops, "tucanando"...Épa... "cultuando"!!!! Florião hoje discorreu sobre os japoneses e me pareceu concluir que na primeira metade das suas vidas eles são kamikasis do ego. Na segunda, viram haikais. Talvez sim. O "ego" é um tremendo caixa 2 dos nossos investimentos narcísicos... |
Voltar ao topo [Aeternus:4659] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-28) - RE:RE:6. delicadas cenas e pinceladas
 * para Jansy a. 'óbvio ululante' é do Nélson dos Tigres, claro, assim como 'as sandálias da humildade', que andam usando de novo por aí. Havia ainda 'a velocidade burra', 'os idiotas da objetividade', 'o videotape mentiroso', o 'Sobrenatural de Almeida' ( um torcedor absolutamente neurótico e complexado, morador em Irajá num edifício de banheiro coletivo ) b. sobre o 'castelo' que não é o do Kafka, 'e o psiquiatra tem a chave'. c. ego caixa 2 : gostei. Também 'bandeira 2', porque custa caro. * para o Conde a. foraclusão : abodei bastante o assunto em editos baseados na Sociologia. Modo geral a tchurma pensa que há um impulso natural e cruel em direção a ela, algo como 'vejam o que acontece com quem não lê e cumpre a cartilha'. Seja : é preciso haver e evidenciar-se os foraclusos para 'enquadrar' os pretensos inclusos. O velho 'medo como forma de Governo', de Willelm Reich. b. Sim, também acho nosso Brasilis com cara de P.P.Zão, as clássicas Personalidades Psicopáticas de Kurt Schneider, 'as que fazem sofrer a sociedade com sua forma de Ser'. |
Voltar ao topo [Aeternus:4666] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-28) - 7. Caché
 Haneke é o diretor da dissensão, da violência pulverizada no cotidiano, de todos os ardores que nos vêm atiçar. O curto circuito da perversão em "A Professora de Piano" foi uma 'concessão' à violência urbana geral abordada em "Funny Games"(1997),"Code Inconnu"(2000). Uma filigrana dessa entalpia. A princípio faz todo o sentido do mundo a preocupação do casal parisiense ( Daniel Auteuil & Juliette Binoche ) com a chantagem muda de fitas gravadas sobre seu cotidiano, sem que descubram sua origem e seus fins. Pequenos sinais de disfunção adentram o foco central, como o de um ciclista negro zunindo na contramão, quase atropelando o respeitável cidadão. Haneke adora esse 'desgraçado que não devia estar lá', esse fator de desagregação, essa paranóia de bolso, esse peão do eleitorado de 10-12% na direita radical francesa, altamente xenófoba. Mergulhamos na trama, e surgem os pieds-noirs argelinos, mesmo tempo em que percebemos que o personagem central, como qualquer mortal sobre o planeta e como quer Oscar Wilde, "não é rico o suficiente para comprar seu passado". Mais uma vez o surpreendente diretor austríaco não nos poupa de cenas dantescas, horrendas. Elas coexistem e convivem, em seus filmes, com outras tranqüilas, formando um mosaico desconcertante. Tão díspare, talvez, quanto a pretensa possibilidade de harmonizar as diferenças. Mas as opções parecem igualmente feitas, les jeux sont faits. A Babel aí está. E Haneke continua com sua câmera ligada, pronta para registrar o próximo movimento... |
Voltar ao topo [Aeternus:4667] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-29) - RE:7. Caché
 Antes de falar de "Caché", uma advertência: o chinês de Taiwan "The Wayward Cloud" é uma bosta. Do mesmo diretor de "O Buraco", feito para aquela série de filmes, um de cada país sobre a virada do milênio (o brasileiro foi do Waltinho Salles), é a mesma coisa do anterior: uma história de amor (?) meio besta, personagens bizarros, interrupções para números musicais cafonas (estética nem gay brega, é drag queen cafona mesmo), desta vez com porcaria (falta água em Taiwan e daí falta higienbe no filme), dirty sex, escatologia, sem sexo explícito mas suficientemente desagradável aos meus olhos. As pessoas riem, acham graça e que é "mUderno" (com "U" mesmo). Na cena final (essa eu conto prá desisitirem) o rapaz que mantém um caso platônico com uma mocinha está trabalhando árduamente (é ator pornô) comendo uma japonesa em coma, ou morta, ou sei lá, inerte. Contra-regras a sacodem, abrem as pernas dela, etc etc. Não levantei de perplexidade! No finalzinho, a ponto de explodir, ele vê, através de uma janela gradeada a mocinha "gozando" de olhá-lo fodendo hardcore sex a japa inerte. No último momento ele dá um salto e enfia a jeba na boca dela (e vale o cacófato). Que beleza de grand finale! Quanta poesia! Que criatividade! Um filme escroto, debochado, babaca com verniz de merda de transgressão cuzona. perdoem a linguagem chula, mas veneno cura veneno. ou contagia tudo. Detalhe: me foi recomendado como o melhor filme do festival. Por algum inimigo? Era deboche, ironia, pegadinha? Revi "O Boulevard do Crime", apontado como o melhor filme francês de todos os tempos. Não é, não! Tem muita coisa muito melhor. O livrinho da coleção do British Movies Council te convence que o filme é o máximo numa superleitura, metaleitura, sei lá como dizer, cheia de detalhes indetectáveis para o comum dos mortais. É um bom filme, datado e envelhecido que se sustenta nos efeitos de espetáculo, com uma magnífica cena final. Bom. E nada mais. Valeu rever no meio de tanta bosta contemporânea. Por fim, "Caché", que se tornou o filme mais aguardado até porque não chegava. E não chegou para os dias previstos de passar, colocaram outros nas sessões para as quais estava programado. Chegou anteontem e entrou no lugar da Sophie Scholl que deveria passar hoje mas não chegou. Pena. Não gostei nada de outro filme do diretor de "Caché" (título perfeito, tudo a ver) e mal tolerei a case story de "A Professora de Piano". Só fui ver este cheio de expectativas pela repercussão que teve no Festival de Cannes onde saiu com prêmio de direção, prêmio do "Júri ecumênico" (?) e outro que não lembro. Apostavam no prêmio para a dupla de intérpretes Daniel Auteil e Juliette Binoche, repetindo o feito de "O Colecionador" há 40 anos que premiou o casal Samantha Eggar e Terence Stamp. Não foram premiados nossos franceses atuais, mas não importa. Eles são co-autores do filme, sem eles não seria amesma coisa. E ainda temos a Annie Girardot (inesquecível como 'Nadia' em "Rocco e seus irmãos"), agora velha, sem plástica, com dentes pretos de cigarro e uma interpretação brilhante numa breve cena. Como Jeanne Moreau não deve ter feito plástica nenhuma, o rosto está como os de velhas do meu tempo de criança: enrugados, velhos. E daí? Não se pode mais envelhecer? essas atrizes excelentes dizem que podemos. O filme tem problemas de roteiro, ao meu ver. Se pretendia discutir a xenofobia franco-argelina é sutil demais; se pretendia lançar dúvidas sobre a personagem da Juliette, idem, fica numa quetsão edípica do filho entrando em puberdade; acaba sobressaindo a questão de ciúmes de irmão mais velho por um novo irmão a ser adotado (no passado) e "ganchos" de suspense (o filme deixa todo mundo tenso, o silêncio da e na platéia era estarrecedor) que não se desvendam numa cobrança "realista" que o espectador tem direito de fazer, face ao exposto na tela. Mas, ainda que "aberto" demais para "ganchos" insólitos igualmente demais, não repete a incompetência do Raul Ruiz que mencionei ontem. Este filme também enrola os ganchos do roteiro e fica com pontas soltas. Mas é competente e eficiente no envolvimento e tem desempenhos magníficos dos atores secundários aos principais. Daniel Auteil tem mais chance e está admirável. Pode não ser "o" filme do festival, mas sem dúvida é dos mais instigantes e atraente, apesar de atirar demais em muitas direções e e não atingir (nem deixar claro quais são) os alvos todos. É curioso como o cacoete da moda de enooooormes planos-seuência (tomadas sem cortes) com câmara parada, parada, parada tem razão de ser neste filme e funciona bem, aumentando o suspense a cada tomada lenta, longa, parada, onde nada acontece. Ou talvez aconteça quando menos se espera. Ou nada acontece quando mais se espera. Não é manipulação, faz sentido dentro da forma, do estilo, da trama. O personagem de Auteil é um tratado sobre splitting do Ego sem ser uma 'case story' banal. Vale! E não vou falar que a Juliette Binoche (mais peitudinha, bundudiha e rolicinha) continua linda, trés charmante e fazendo seu papel (menor do que o do Daniel) com a tal naturalidade que os canastrões da Globo acham que têm. A "naturalidade" de Madame Binoche é densa, teatral e espontãnea, artificialemnte natural, naturalmente artificial - como a linha do Daniel Auteil. Que dupla! Não precisam de prêmio em Cannes, estão além e acima disso. |
Voltar ao topo [Aeternus:4668] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-29) - RE:RE:7. Caché
 Bem...perto desse carinha aí de Taiwan e de alguns nomes nauseabundos do cinema atual, um caso como o dos filmes de Marco Ferreri muda seu ângulo de abordagem : passam a ser considerados até comportados e de um formalismo distinto... Mas compreendo - sem aceitar ou concordar nem de longe ! - esse desencanto disruptivo com a Estética e com os padrões 'estabelecidos' de Beleza : misturam-se aqui um desgosto profundo com o ser humano e seus rumos, somado à uma necessidade de 'ressuscitar' para a pessoa ( tentar ) se sentir viva de novo. Passe de mágica, sabe ? Não há mais 'tempo', necessidade de 'trabalho' ou de paciência : o processo deve ser radical, apocalyptico... Mudanças dessa ordem e nessa ordem resultam apenas em modismos idiotas, vazios. A autêntica 'velocidade burra' do Nélson. Adorei a Binoche assumir-se fofinha, roliça ! Nada dessa merda de virar loura para disfarçar idade, magra cheia de estofo de botox, silicone e plásticas para tentar o impossível : voltar a ter 18 anos. Acho bonito o processo natural, a curva biológica, a ascensão ao auge, geralmente ali entre os 27 e 30 anos, quando começa-se a descer a ladeira. Imagino que é difícil uma bela mulher olhar-se no espelho e constatar-se definhando, o que torna perdoável este ou aquele excesso nos artificialismos. A Annie Girardot está tão deformada que não conseguimos sequer identificar se ela tentou algo modificador ao longo desses anos. Está na fronteira de Emilinha Borba com Dercy Gonçalves, talento - claro - sideral à frente das nossas duas divas de subúrbio. |
Voltar ao topo [Aeternus:4669] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-29) - Longínqüas perplexidades
 Quando "Sophie Scholl" foi programada para passar no Festival de Brasilia, os rolos não chegaram em tempo e tudo foi cancelado, mesa-redonda, projeção e até exibição no circuito comercial. A mesma incompetência se repete no Festival do Rio. Acho que vocês só recebem os filmes sexualmente escatológicos e não as guilhotininhas dos nazistas. De quem é esta ideologia maluca discriminando os nossos festivais? Tudo desgramado... Das duas, uma ( típica tirania da palavra "alternativa"): ou os festivaleiros estão promovendo uma revolução cultural ou o cinema-arte está na frente de todas as tendências concretas e desidealizantes. Por mais que eu deteste sentimentalismos e tenha me cansado de singeleza iraniana, dadaísmo, surrealismo,duchampismo...nada disso me preparou para sequer imaginar os filmes de que Gallego e Florião vem trazendo notícias. Achei que as histórias não teriam fim, sempre haveria uma para contar que valesse a pena e no entanto, parece que não se faz mais cinema com narrativa fora de Hollywood. Na verdade, seria qual verdade? Borraram-se as bordas, bordaram-se os bordões, assentaram-se os batons e a turma do "baby boom" começou a perder terreno e se perdeu nas rugas? |
Voltar ao topo [Aeternus:4671] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-29) - RE: de cotidianos, musas, histórias, denúncias, E.T.s e fins de mundo
 Antes de tudo, friso que estou bem satisfeito com o nível do que tenho assistido. Ao ler o listão, geral, achava que não haveria nenhuma obra-prima, da mesma forma que se até aqui esta não surgiu, por outro lado não houve nenhum filme que eu houvesse lamentado ter ido. Sou menos exigente que o Gallego, ver minhas musas movendo-se em cena já me deleita... Quanto às 'histórias', aos fios dramáticos, chamei a atenção para isto por que cristaliza-se mais e mais essa tendência a um 'autoral livre', ume espécie de 'pensar o mundo sobre fragmentos do cotidiano'. Os filmes mais 'fechados', atualmente, são os de terror, onde a desgraceira abate-se sobre os personagens, morrem dezenas ou centenas, e depois da tempestade ainda assim deixam uma janela aberta para a volta do monstro ( "Chamada 2", "Sexta-feira 13 nº 657" ). Amor em baixa : nossos tímidos heróis e heroínas não desejam mais 'serem felizes para sempre', sem essa de anelar relações sólidas e longas, de fazer promises promises : junta-se os trapinhos, no máximo, numa boa, e tudo fica por conta de um je ne sais bien quoi. Filmes sobre denúncias e falcatruas igualmente parecem não mais sensibilizar as platéias. Houve aquela época de "O Caso Mattei", "All the President's Men" e obras nessa linha, que atualmente pedem um perfume mais poisonné como o de Michael Moore, que eu não quis assistir, já que senti que é como o PFL arvorar-se a crítico do PSDB e PT. Numa trama para eliminar o presidente dos USA, por exemplo, precisam ser inseridos habitantes de outro planeta, 250 (d)efeitos especiais por baixo, tals. É insuportável. Ao mesmo tempo, filmes que glorificam a Beleza e a Vida, como "Io Non Ho Paura", passam ao largo, ou sequer são comprados para exibição comercial. Num filme francês regular que assisti com o Gallego na Mostra há uns três anos atrás, passado no réveillon, uma turba de jovens dá uma festa escapista regada a ecstasy, 'i' e alcoólicos. Demolem a casa dos pais da anfitriã, que está empenhada em engravidar, veste uma sainha metálica de um palmo sem nada por debaixo e é a única que não entra na droga. Após concretizar seu sonho - um gozo meio atômico do namorado, espermatozóides voláteis pelo quarto flagrados em câmera-lenta dedans la chambre, acontece um defeito num encanamento de um dos toilletes, e esse casal vai parar na mesma Paris onde estão...só que 20 e poucos anos após. A cidade-Luz tornou-se algo próximo a Casbah, com dunas e seca por todos os lados. Por que conto tudo isto ? vibrei comigo mesmo porque na devastação uma das instituições que restou foi o 'Bistrot Romain', um dos meus preferidos na época em que conseguia visitar Paris... Haja conservadorismo, hein ! |
Voltar ao topo [Aeternus:4672] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-29) - extrato de trivial variado
 A cinefilia é uma espécie de perversão cultural benigna, numa arte que se dedica a dominar e ocupar totalmente a imaginação em funcionamento. É uma vitória contra a passividade que o cinema impõe ao espectador. Fetichizando os grandes mestres do passado em retrospectivas e homenagens rituais, o cinéfilo como que consuma uma involuntária e amorosa traição aos ídolos que cultua. O filme de SB não foi feito para agradar ao público. Vemos a dissecção de uma cobaia, a agonia de um travesti portador do HIV, uma ratazana prestes a ser queimada viva, um esfaqueamento, um suicídio, sem contar diversos casos de crueldade moral e cenas de humilhação explítica. Torna-se praticamente impossível, assim, "recomendar" o filme. O crítico, habituado ao esquema "vá ver/não vá ver", "é bom/não é bom", depara-se aqui com um objeto estranho, radical, intratável. Nazismo, bolchevismo e modernismo surgem a partir de um diagnóstico semelhante, o da exaustão da cultura burguesa, e de um receituário parecido do ponto de vista teórico: destruir para purificar. ( pensam que fui a autora destes tres parágrafos e que vi o Festival numa bola de cristal? Qual. São excertos do livro de Marcelo Coelho, redigidos em meados de 1995...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4679] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-29) - 8. Forty Shades of Blue
Sombrio, letárgico, sem força, sem pegada, sem proposta. ( a tempo ) Milagres acontecem : vencedor do recente Festival de Sundance. |
Voltar ao topo [Aeternus:4680] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-29) - escalada escatologica: a antiga ressurreição alien
 Para discutir cinema sem ir ao festival ou às salas de projeção, peguei um DVD pra ver em casa. Estava interessada na suposição de uma "diferença radical" ( inimaginável por definição) para constrastá-la à idéia de "Aliens" nos quais, por mais terrorífica que seja, sempre tem uma matriz das projeções humanas. Comecei vendo o filme "A Ressurreição" irritada com tudo. Passam-se não sei quantos cem anos e a humanidade ainda fala inglês, usa roupa, tem militares aliados aos cientistas, mais uma turma de hippies-piratas com algum código ético ( melhor que o dos cientistas e militares, claro). Nada evoluiu, só a tecnologia. Devagarzinho fui superando o incômodo com a puerilidade da proposta. À tarde tinha visto uma entrevista com Steven Spielberg falando sobre os velhos filmes de ficção científica, principalmente sua curtição com os que não tinham recursos especiais nem orçamento alto. O favorito até onde vi foi "O incrivel homem que encolheu" sendo perseguido por um gato dentro de uma casa de bonecas, seguido de outro no qual o perigo vinha de uns cristais que se deslocavam para despencar sobre as cidades. O que cria a estranheza do "alien"? No caso deste filme com Sigourney Weaver e Winona Rider, mais outros tantos atores canastrões, os bichos gigantes que abrem a boca e de dentro saltam outras bocas não chegam a ser tão terríveis quanto as moréias, camarões e seres marinhos das grandes profundezas...Será o fato de serem dotados de inteligência semelhante à humana? Dei uma pausa ( ainda está pausando enquanto escrevo). Se temos seres no planeta Terra que são horrendos em todos os sentidos da sua distinção daquilo que faz o humano e, ainda assim, convivemos bem com a maioria deles, ou, se sabemos que numa gota de água carrega microorganismos ainda mais esquisitos, ou se vemos ampliados detalhes de um fio dos nossos cabelos... o que é que constitui o nojento e monstruoso "novo"? Olhei em volta e me perguntei sobre o mundo inanimado ( ensaiando uma psicose a la Clarisse Lispector): uma toalha felpuda com dobras é algo bem estranho, assim como um vidro azul bojudinho carregando bolotas de algodão branquinho. Escova de dentes com cerdas que mudam de cor e tamanho: argh!!! Um vaso com flores. Uma caneta... O mundo inanimado é todo alien também. E então... o que cria o "monstro"??? Quando eu estudava psicologia ainda jovenzinha aprendi que um dos sustos que macacos eram capazes de experimentar advinha de verem outros macacos sem cabeça ou com cabeças trocadas. Faz sentido. E é por isso que o filme "Alien" é esperto. É cheio de seres humanos que hospedam répteis confabulados. Ripley, ela mesma, além de ressuscitada por clonagem, carregou no ventre um dos bichinhos mortíferos alienígenas e sofreu trocas sanguíneas com seu "filhote". Por isso ela era toda monstrinha sem que se pudesse distinguir nada diferente no rosto como o dela trabalhando como uma secretária do futuro. Mais um óbvio de Colombo: a "Diferença" que nos assusta se produz a partir da referência que fazemos a nós próprios ( corpo, mente, ideologia, engramas mnêmicos, subjetividades). Somos uma montagem egóica cheiinha de anti-corpos! Vou clicar o "play" para mais desgraças... |
Voltar ao topo [Aeternus:4681] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-30) - filmes quadrados, graças aos Céus!
 Nada de mais, mas filmes acadêmicos corretos em suas pretensões. Finalmente! O melhor foi o argentino "Roma", nome da mãe do personagem principal. Longo (155 minutos) sem cansar nadinha. Nostálgico para quem foi criança nos anos 1950, jovem no final dos 1960, perplexo com as ditaduras latinoamericanas no início dos 1970. Juraria que é autobiográfico, mas nada explicitou isso nos letreiros, mantendo aquela clássica frase de que "todos os personagens são fictícios, etc etc" que aparece como defesa prévia a questões judiciais até nas biografias explícitas de Nixon a Sophie Scholl. By the way, Jansy, a culpa dos filmes que não chegam não é necessariamente dos programadores das mostras quepodem ser açodados, sim; mas o problema pode ser do país ou companhia produtorra que se comprometeu a enviar, de nossa alfândega (a principal culpada geralmente exigindo buRRocracias que não exigem em transportes contrabandeados de drogas, por exemplo), etc etc. Os filmes escatológicos são assinados por diretores prestigiados pela crítica estrangeira ou por festivais anteriores, assim como pelos ministérios de cultura dos países que esses filmes representaram nos ditos festivais. Deve ser um sinal dos tempos mesmo. Alguns destes chegaram e a fama injusta provocou que eu fosse conferir. dei azar. Por que Sophie Scholl não chegou, não sabemos. Foi duplamente premiado no festival de Berlim, suponho que a Embaixada Alemã teria interesse de divulgá-lo se ainda não está com distribuição comercial garantidam( e não está, passaria com legendas eletrônicas em português, sob a tela como muitos filmes destas mostras). Mas pode ser que não haja interesse me divulgá-lo (teoria da conspiração neonazista). Mas por que outros filmes não chegaram a tempo? (Muitos!) Talvez porque essas cópias que vêm emprestadas para uma mostra no Brasil esteja fazendo falta em outro país mais interessante? Mistééééériosssss.... Voltando a "Roma": o filme tem clichês óbvios, mas o fato de passar a impressão de ser autobiográfico já mostra que consegue transmitir um pathos de verossimilhança (é sobre uma autobiografia de um escritor em crise criativa que só consegue escrever sobre sua mãe no momento e porque precisa saldar dívidas e aí vêm os flash-backs bem tradicionais). Mexe com agente, especialmente com filhos únicos de mães amantíssimas. (O nome da mãe é palíndromo de 'amor'). Édipo perde. "Kim Novak nunca nadou aqui" é um filme sueco que não passa de uma variante daqueles filmes de adolescência que inundam as telas desde "Verão de 42". Música fácil, melosa, mas encantadora; fotografia deslumbrante, paisagens de verão sueco com a obsessão deles pelo verão (aprendi nos filmes de Bergman) e bons atores. Quase banal, previsível, etc, mas um oásis depois de tantos modernos à koda de instalações de artes plásticas que só nos dão saudade de pintores mais "acadêmicos". Para variar, nostálgico, passado no início dos anos 1960. O terceiro, espanhol, "Frio dia de inverno" ou algo assim é bomba! Quis ser diferente na história grotesca e acaba como um neodramalhão como eram dramalhões filmes espanhóis dos tempos de Franco. Só que sem Sarita Montiel com toques de nelson Rodrigues, mas muito ruim. O que é que a Marisa Paredes está fazendo num filme onde sua personagem, um approstituta velha é currada e aparece de costas, nua com sangue saindo pelo ânus... não dá prá entender. Voltamos á escatologia num linguagem tradicional. Não sei o que fica pior: grotesco à moda antiga ou escatologia com ares de mudernidade. |
Voltar ao topo [Aeternus:4682] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-09-30) - RE:filmes quadrados/"Roma"
Ainda sobre "Roma": o academicismo deste filme é auto-defendido com alusões a clássicos como "Vinhas da Ira" de John Ford e uma crítica a... Antonioni: "Suas personagens são mulheres a quem dóem até os fios de cabelo" é uma boa frase. Não me lembro de outras alusões, mas os escritores elogiados são Alexandre Dumas, Julio Verne, Kipling e afins (sem esquecer o orgulho argentino por Cortázar e Borges, é claro). O argentino radicado na Espanha tb fala da arrogância de seus compatriotas e ataca a ilusão populista da esquerda com a volta de Perón naquele período negro. Ainda por cima abre espaço para comentar John Coltrane, "Bird" e Bille Holiday. Simpático, não? |
Voltar ao topo [Aeternus:4684] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-09-30) - O Pornógrafo
 Algumas mensagens sobre o Festival me trouxeram uns lances do filme ‘O Pornógrafo’ (a cena do filme dentro do filme que o protagonista dirige já vale o filme inteiro, aliás, acho até que o restante é redundância, pode ir embora depois, porque aquele trecho já tem polissemia suficiente para altas reflexões. Sem contar a semiótica da coisa, cuja significação extra-diegética inclui até a escolha do ator do Jean-Pierre Léaud, alguém pra quem a gente olha e lembra FORÇOSAMENTE de Truffaut e de TODO um universo histórico!) Só sei dizer que também é sobre esse continuum tido por quebra entre a esfera (abstrata) dos sentidos e a dos cinco sentidos. "Quando comecei, esse gênero fazia parte do espírito revolucionário" diz Léaud à personagem da repórter. O que o filme passa é que, no intervalo de algumas décadas, alguma coisa aconteceu, e o império dos sentidos perdeu todo sentido. Quando, naquela cena que mencionei, os atores pornôs começam a performance, tendo tido instruções (à antiga) dadas pelo diretor previamente e não durante a filmagem, tudo começa bem, o tesão vai engrenando à medida em que a corporeidade é estimulada, a gente parece que sente a vagina da moça se lubrificando, os movimentos do cara traduzem isso, a excitação de um potencializa a do outro, a posição em que se encontram (focada numa interação) afunila a atenção, "apaga" o set de filmagem circundante e uma corporalidade genuína começa a exalar daquela trepada, até que o infeliz do assistente de direção resolve ele próprio dirigir a cena segundo os padrões "mudernos" da indústria pornô e tudo vai pras picas (agora no mau sentido da expressão), culminando com a cara completamente desiludida de Léaud. O mundo e a história de algumas décadas se sintetiza e fica um gosto amargo de realização irrealizadora, uma permissividade revolucionária um dia sonhada que virou exatamente a desrevolução. Fica a indagação: quem desviou essa linha de trem? Abração, D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4685] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-30) - RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien
Jansy dá corpo a uma sensação que tive ao assistir "Alien" ainda no antigo Roxy. Os missionários que foram às galáxias 'trazer' o monstro funcionam como espermatozóides, e a geração do 'monstro' tem-nos, portanto, como 'pais' da criança... Já o útero é o do John Hurt, máe morta ao dar a luz; também quase o da Ripley ( Sigourney ) e...a própria nave, enfim ! |
Voltar ao topo [Aeternus:4686] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-30) - RE:O Pornógrafo
Essa impessoalidade nos filmes pornôs acentua, talvez, o aspecto Olímpico que ora impregna a sexualidade. O mais importante é bater recordes de desempenho, funcionar como uma engrenagem perfeita. |
Voltar ao topo [Aeternus:4687] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-30) - RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: escalando quem?
 Florião... não me assuste! Olha o que você escreveu no comecinho da mensagem: Jansy dá corpo a uma sensação que tive ao assistir "Alien"
Help! Meus impulsos maternais não chegam a este ponto. Então, só por isso, conto o sonho que produziu-se depois que terminei com o filme. Sigourney Weaver transformou-se na Princesa Diana, o mesmo movimento de gigante que encolhe dengosamente o pescoço, o mesmo nariz afilado e o olhar sem perdão. Os ETs filhotes eram mulheres peladas e raspadas, totalmente encobertas pelos chapéus dos soldados da guarda britanicos, aqueles dragões peludos da independência . Great big pussys a serviço de Ripley e da Inglaterra. Argh.
Incorporação, encarnação, dar corpo, gerir... quanta coisa torta. |
Voltar ao topo [Aeternus:4688] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-09-30) - RE:RE:O Pornógrafo
 Tô contigo! Desempenho para mim é cuidado. O resto é com as máquinas. D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4689] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-30) - RE:O Pornógrafo
D. sua descrição do Pornógrafo ficou interessante pra mim ( não vi o filme, mas adoro a aplicação nem tão sutil das metalinguagens e das mises en abîme...) porque tinha lido o comentário do Marcelo Coelho sobre um filme de SB ( esqueci o nome, é diretor brasileiro) no qual, em vez de pornografia, o que os atores precisavam apresentar era a crueldade e, portanto, foram levados às favelas e pronto-socorros, cenas de execução e tortura animal ( era um filme sobre uma filmagem de um conto de Machado de Assis, de um cara que torturava ratos) . Sexo e sadismo, mal conduzidos, fica muito sem graça... Estou longe do livro do Sr. Coelho, senão copiaria os comentários que ele faz em torno do esvaziamento da moda da metalinguagem, uma questão levantada por você também... |
Voltar ao topo [Aeternus:4690] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-30) - forfaits e últimas do front
 Há uma lista de uns 30 filmes ainda sem chegada na Mostra. Sophie Scholl cintinua nos porões da Gestapo, e além dela, na minha programação, estou capenga em "Bloom" - o Ulysses de Joyce readaptado - "Rois et Reine" e "Más Temporadas", um filme espenhol com a Leonor Watling, a Alicia de "Hable con Ella". Minhas musas todas começam, de resto, a entrar em campo. Amanhã assisto "Inocência", com Marion Cotillard e Hélène de Fougerolles. Depois virão Valentina Cervi e Pilar López de Ayala. Com tudo isto, a administração da Mostra é bem blasée. O cartaz de "Rois et Reine" está olhando para nós nos corredores, e se não fosse a Emmanuelle Devos estar linda de óculos escuros e com um jeitão simpático, depois da 'Ameliada' em Gilles, eu reclamaria do cinismo dos organizadores. Outro cartaz interessante é o do filme galleguino de Taiwan : sobre um fundo de pétalas rosáceas, vemos uma gueixa nua em posição clássica, mas seu rosto está encoberto pois sua face embarafusta-se no púbis de uma outra figura nua, com uma bunda sem graça e tronco estendido para o alto, e da qual não sabemos o sexo - os orientais não são hirsutos, e a cabeça está recoberta por rebatimento para baixo e para trás do tronco dela mesma... O diretor da coisa foi premiado em Berlim. Como o horrendo "Forty Shades of Blue" ( acho que esse 'blue' aí é de tristeza, ao invés do 'azul' do título nacional )também foi premiado em Sundance e "L'Enfant" em Cannes, sob perplexidade geral, e talvez seja hora de uma ampla CPI em júris de festivais...( que não seja presidida por Severino Cavalga ou Aldos...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4691] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-30) - RE:RE: inveja
 Que inveja !... É esse tipo de sonho que eu adorava ter, para levar para a análise. Na linha clássica Freud rendia umas 10 sessões, por baixo... |
Voltar ao topo [Aeternus:4692] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-09-30) - RE: a antiga ressurreição alien
Odiei "Alien - o oitavo passageiro" quando o vi pela primeira vez, estimulado pleo filme anterior do Ridley Scott (Blade Runner) que se revelou um roteiro-dependente. A violência, o sadismo das mortes, mas acima de tudo a psicose em franca exposição com partos abdominais destutivos-disruptivos de monstrinhos, a inseminação pela bova no corpo humano, enfim, todas as fantasias perversas da infância aterrorizada com a sexualidade misteriosa em nível de fantasias sádico-orais-anias-perversas nos dosi sentidos de perversão/perversidade me cxhocaram além da compreensão racional. O título brasileiro foi revelador> o oitavo passageiro. Comn o gato eram 9!!! 9 meses de gestação: a fantaisa psicótica da Comandante Ripley (Sigourney Weaver) sobre a gestação e o parto. Final com o gatinho aninhado em seu colo como um análogo a um feto intra-uterino. Minha fantasia maluca se confirmou no Alien 2 onde le tinha que proteger uma menininha órfã e ela tinha que maternalizar. Como demorou muito para filmarem o terceiro, a menininha atriz cresceu e teve que "morrer" na aterrisagem. Poucos gostaram do Alien 3. Eu adorei, confirmava o "parto" abdominal mortal na Ripley enquanto ela cía numa caldeira de aço fervente, neo-JoanaD'Arc au bûcher, O quatro já era apelação demais, não dava, mas as fantasias de clonagem monstruosa mantinham o tema subjacente da criação/procriação. Psicose em estado puro. |
Voltar ao topo [Aeternus:4693] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-30) - RE a antiga ressurreição alien ... isso!!!
LFG, sua resposta foi ótima e abrangente. Quando saí da complacência onírica e li a mensagem do Florião, me toquei com minha contida indignação enquanto assistia "Alien 4" ( acho que só vi o primeiro e ontem, este). Não tem parto normal, não tem vagina peluda, não tem útero. São bocas dentadas e bebês explosivos. No filme, todos os homens são desastres e as mulheres um misto de inseto e robô. Eu não conseguia nem mesmo reconhecer meu desconforto porque carecia usar uma palavra ali tão amesquinhada: o filme me atingiu nas vísceras ( femininas ). |
Voltar ao topo [Aeternus:4694] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-30) - RE:RE a antiga ressurreição alien ... Ridley Scott
 Ninguém melhor do que um diretor inglês para 'captar' e 'dar corpo' à psicose. Se o Polanski - belo representante aqui, também ! - confere uma certa 'alma' e a devida 'descompostura' à psicose, um Ridley atinge essa perfeição 'racional-descomposta' narrada pelo Gallego sobre o 1º "Alien", o único de que eu gostei. Além da filmografia excepcional, do monstro cinzento-gosmento do H.L.Giger, me agrada no filme a evidenciação de onde pode nos levar nossa prepotência. Numa produção euro morreria menos gente, certamente, mas até no nº de mortes surge agora um significante... O Ridley tem ainda, em relevo, aquele policial da Mimi Rogers com o Tom Berenger ( "Someone to Watch Over Me", título parafraseado da maravilhosa canção de Gershwin e "Thelma&Louise", outro mergulho na parana. De "Gladiator" só vi trechos, não me animei. Mas em "Hannibal" ele retoma a veia psicótica, e brinca de Dr. Jekill tentando um monstro mais apavorante que o Dr. Cannibal Lecter...e consegue, né ? O Gary Oldman, já inesquecível como Drácula em êxtase - dando aquela lambidinha num gume sanguinolento de facão - está absolutamente asqueroso no filme. ( a tempo ) "Falcão Negro em Perigo" não me interessou, mas até onde pude tomar contato, era outra reincidência psycho... |
Voltar ao topo [Aeternus:4695] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-30) - RE:a antiga ressurreição alien ... Ridley Scott
 Não sei se o Ridley é britanico, mas a monstruosa alien-rainha do meu sonho ( que nem pôde ser representada pictorialmente) era a Elizabeth, sem a menor dúvida. Não tinha percebido que o diretor deu seu nome à personagem que era o "lugar-tenente" de algum feminino na história. Gostei do "Gladiador" porque me pareceu quase mais terno comparado aos antigos filmes sobre Roma, como Ben Hur ou Spartacus nos quais se apresentam "tipos" mais do que "indivíduos". Também curti bastante o guarda-costas de Berenger/Rogers ("Someone to watch over me"), mas me recordo principalmente da cena de abertura, com uma esposinha temendo que seu bumbum tivesse ficado flácido e os incríveis closets com roupas milionárias. Gostei de "Blade Runner" ( atores, personagens, roteiro, idéia, filmagem). Devo portanto admirar este Ridley maluco que coloca mais amor quando a mulher é um robô! O filme que oferecia pornografia não genitalizada, mas sádica ao qual me referi pelo jornalista Marcelo Coelho chama-se "A Causa Secreta" ( de Sérgio Bianchi ) que "trabalha com três horrores: o horror do conto de Machado de Assis,o horror das atitudes dos atores que devem encená-lo,o horror da realidade brasileira em que buscam inspiração". É falando sobre Fellini que ele menciona a metalinguagem: " Com Oito e Meio, Fellini inaugurou a irritante voga dos filmes que mostram como se faz um filme, dos filmes cujo assunto é a própria falta de assunto, etc.,etc.// Sem dúvida, já passou a época em que a metalinguagem - falar que se está falando, filmar que se está filmando, encenar uma peça na qual os atores se preocupam em encenar uma peça - foi tomada cini oassaoirte oara a genialidade e para o talento original.// Mas por que Fekkubum yn dis duvykgadires dessa nida netakingüística, supera o lugar-comum? ?Ele, que disse uma vez não gostar de Pirandello nem dos truques fáceis de Magritte, soube fazer da metalinguagem, do filme-que-fala-sobre-um-filme, verdadeiras obras de arte.// É que, ao contrário de tantos outros, que procuram com a metalinguagem "desmistificar" a presença do artista na sociedade contemporânea, fez do jogo entre realidade e ilusão uma coisa bem mais bonita. Não buscou os paradoxos lógicos, mas a poesia inesperada, o fantasioso,o onírico..." (1993) nm abn |
Voltar ao topo [Aeternus:4696] Mensagem do Grupo48 -Jmnksy Mollw(2005-09-30) - RE:RE:a antiga ressurreição alien ... Ridley Scott
 "os atores se preocupam em encenar uma peça - foi tomada cini oassaoirte oara a genialidade e para o talento original.// Mas por que Fekkubum yn dis duvykgadires dessa nida netakingüística, supera o lugar-comum? ?Ele, que disse uma vez não gostar de Pirandello..." Desculpem, mas continuei digitando enquanto atendia o netinho que queria escrever ( desde já) uma carta para o papai-noel. Ele escreveu certo, mas eu... Corrijo: - foi tomada como passaporta para a genialidade e para o talento original.// Mas por que Fellini, um dos divulgadores dessa moda metalingüística, supera o lugar-comum? |
Voltar ao topo [Aeternus:4697] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-09-30) - RE:RE:RE: Harold Pinter / The French Lieutenant's Woman
 ...é o grande filme a respeito do 'filmar que se está filmando' - tirante os 'intimistas', tais como Fellini em "8 e Meio" e Bergman em ( toda sua obra...e)"A Hora do Lobo" ou "Paixão de Ana", contendo imagens 'inseridas' no contexto dramático-ficcional. O roteiro de Harold Pinter faz caminhar em paralelo os bastidores e 'o filme' ( "The French Lieutenant's Woman" ), mas magicamente e sob os auspícios da Grande Arte, essas paralelas se cruzam. O personagem do Irons no filme-dentro-do-filme é paleontologista, atributo nada mau para se atribuir...ao ator que o representa ! - não falo do Irons, hein !, mas do ator feito pelo ator Irons. Mise-en-abîme ? |
Voltar ao topo [Aeternus:4699] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-09-30) - RE:Harold Pinter / The French Lieutenant's Woman
 Como entra Harold Pinter na história? Gosto muito de tudo que remete à aplicação da "metalinguagem", tão criticada pelo Marcelo Coelho. Jeremy Irons fez parte d´ "A Opera do Malandro" (não a do Chico e sua adaptação de Brecht, mas do medievalesco John Gay ) onde era o personagem encenando a traição e também repetindo a traição como ator. Infelizmente, o filme do início dos anos oitenta e não se deixa rever facilmente. Tem aquele conto do Madrigal de Gesualdo, do Julio Cortazar onde os madrigalistas cantam um enredo que simultaneamente encenam, mas inconscientemente, em suas vidas. Como aquelas Carmens ( do Saura?). O problema deste recurso de interpelar o observador é que se gasta com facilidade. Ver a camponesa d´ " O Avaro" jogar milho na platéia ao chamar as galinhas é legal uma vez, duas. Depois, haja papo. Ou Marília Pera no "Brincando em cima daquilo". Esgota. Para Lacan a metalinguagem não existe, não há como sair dela para, de longe, criticá-la. Andei quebrando a cara para entender a briga entre Bertrand Russel e G.Gödel, sobre o irrepresentável matemático que destrói a clareza da ciência e que obstrui o angulo metalógico. Tô com a cara quebrada até hoje. Tant pis para os matemáticos e lógicos, a arte dá o brilho que falta a esta dimensão de Rosa Púrpura. Fica como surpresa, irrepetível e irrecuperável num segundo ou terceiro golpe. ( se bem que "As Cobras" do Veríssimo continuam me causando alegria e riso cada vez que me deparo com elas e as placas em miragem avisando que a área é de miragem, etc etc) |
Voltar ao topo [Aeternus:4705] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-01) - Eu sou viciado em sexo!
 Este é o título de um dos filmes mais hilários que já assiti nos últimos anos. A começar pelo diretor-ator, feioso como um paraibinha brasileiro, esquálido, moreninho e... viciado em sexo! É uma espécie de Woody Allen radical. Imaginem que o W.Allen assumisse fizesse um filme onde atuasse e o perosnagem principal se chmasse Woody Allen! Interrompesse a narrativa na primeira pessoa para dize que a atriz que faz o papel de uma namorada alcóolatra ERA alcoólatra e a atriz aparecesse como em off tomando todas e piscando olho pára o espectador. Mostrasse um filme caseiro onde estaria filmada a verdadeira pessoa a quem ele se refere na história cabotina de usa vida sexual. É tosco, filmado de modo displicente (fake) como um documentário (fake?) e cheio de ironias e piadas sobre as mais inconfessáveis fantasias sexuais masculinas. Muito, muito engraçado, criativo como os Woody Allen que já não se fazem mais. Em vez de Woody imitando bergman ou Fellini, alguém imita Woody como Woody nunca fez. Imperdível! Surpresa agradável; fui para encher o tempo entre uma sessão eoutra ver o filme que cabia no horário. "Fogueira", israelense. Se fosse chato, eu sairia para estudar para aula de quarta-feira sobre Hamlet na Psicanálise (devo sumir daqui por uns dias, já vou avisando). Asssiti um filme que podia se passar em NY, Rio, Paris, londres... ou em Israel, mas com cor local que para mim é quase "exotique" com hábitos e costumes próprios e ao mesmo tempo cosmopolita. Como os judeus, em geral. Uma espécie de "Uma Mulher Descasada" (lembram? que lançou a Jill Claybourgh) dos dias de hoje. no caso viúva, 42 anos, uma filha adolescente querendo transar com o namorado em casa, outra pré-adolescente no fervor das explosões hormonais. Condições femininas tratadas com extrema verossimilhança e delicadeza, sem perder a crueza. Um personagem masculino menos verossímil ganha força na simpatia do ator com cara de boa-gente e também judeu daqueles que não precisaria abaixar as calças para causar ataques apopléticos em Adolfo Hitler. By the way, no ônibus entre o metrô e omeu consultório, xereti que livro um senhor bem conservado estava lendo. Sei que as ostras também eram curiosas, mas o que fazer? Tenho a maior curiosidade sobre o que as pessoas estão lendo no metrô e por isso escondo ao máximo o que eu estou lendo. Pois bem: parecia A......(ldous?) H.......*uxley. mas que livro era aquele com as iniciais M......L......? M.....i..........L......t.......a...... Minha Luta?!?!?!!!!!! de Adolfo Hitler!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Numa edição antiga, papel amarelado, parecia livro comprado em sebo meio despencado e encapado. E eu que pensei que seria amesma antiga edição despencada onde li "...Também o Cisne Morre" (After many a Summmer....), obra-prima esquecida do Huxley.... Voltando a "Fogueira": atriz e ator simpáticos e competentes. Valeu! Já "La passione di Giosué" é esquisito, sobre um tema que daria ótimo filme: a expulsão dos judeus e islâmicos da espanha dos "Reis católicos". mas fica estranho um judeu jovem se identificar tanto com Jesus que acaba representando a paixão de Cristo. mal resolvido, apesar da bela música e ambientação. "El Aura" foi prestigiado pelo fato de ter o ator Ricardo Darín, o argentino mais conhecido do cinema atual ("O Filho da Noiva", "Kamtchaka", "Nove rainhas", enfim, ele trabalha em 9 dentre cada 10 filmes argentinos). Excelente desempenho no papel de um taxidermista epiléptico que sonha em cometer um crime "perfecto". Sueli & amigos gostarammais do que eu. Achei lento, eles acharam "tenso". Eu dormi, eles, não. o que dizer? Amanhã acho que não vou ver "Last Days" do mesmo diretor de "Elefante" às 14 horas. Tnho Municipal com Schlomo Mintz tocando o concerto de violino de Brahms, um de Bach e algo de Dvorak às 16 horas. E show com Marilia pera imitando carmen Miranda às 21 horas. Domingo retorno ás lides festivalescas com obrigação de estudar para Hamlet na quarta e "Saúde e Sexo" na FGV na terça. Que vontade de chegar lá e dizer: "EU SOU VICIADO EM SEXO"... VEJAM O FILME - e encerrar a palestra. Mas não dá... |
Voltar ao topo [Aeternus:4706] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-01) - RE:Eu sou viciado em sexo!
 Sexo deve ser algo mais socializante do que futebol ou colecionar selos porque todo mundo parece aceitar bem a idéia de alguém ser viciado em sexo. O encantamento do Gallego com o filme é flagrante. Ele se entusiasmou tanto que não deu a ficha do filme: quem é o diretor, o ator perebinha, as atrizes, os prêmios, filmografia anterior. Um Woody Allen à décima potência deve ser arrebatator pra quem gosta de Woody Allen. Valeu. Jill Claiborough...Gostei do filme "Uma mulher descasada", acho que ela merecia a fama que obteve a partir dele. Se bem que me recordo apenas de encontrá-la em "La Luna" ( algo com a lua, o título pode ser diferente do que citei) de Bertolucci e, bem recentemente, como uma mãe idosa que parecia sofrer de anorexia. Certos atores envelhecem bem, Sean Connery por exemplo, tem uma distinção bem-humorada que torna difícil sequer imaginar que ele tinha sido o mais famoso 007 de todos os tempos. Ele consegue ser, até hoje, o mais carioca dos escoceses. Outros não envelhecem, como Demi Moore e a dupla Warren Beatty/Shirley Mclaine. Aquela vesguinha linda que trabalhou ao lado de Daniel Day Lewis, ou de Harrison Ford cum Anthony Quinn ficou horrorosa depois de velha. O tom pelo qual Gallego descreveu os vários filmes está ótimo, vai passando emoção e pensamento com uma fluência invejável. Existe um site na internet onde um cara conta o título dos livros que ele vê as pessoas estarem lendo no metrô. Igualzinho ao que o Gallego fez. Toda semana ele tem uma coleção sociológica de obras. É em Portugal, não sei mais do que isto. Cheguei lá porque um dia aproximei no Google os nomes de Cioran e Nabokov para ver o que encontrava e numa semana estes dois tinham sido flagrados nas mãos de dois metroviajores Já eu... fui ao cinema, enfim! Vi "Bewitched". Os saudosistas acham que perderam para sempre a feiticeira Samantha e vem criticando o filme. Eu, que nunca curti a série tão especialmente, adorei ver a Nicole Kidman e o ator grosseirão que trabalha com ela fazendo atletismos de balé de dar inveja aos malabaristas do Cirque du Soleil. Como paródia, o filme não deixa pedra sobre pedra. E como foi adorável ver o ..não é Michael Douglas nem Roger Moore... o.... enfim...o coadjuvante do Christoffer Reeves num teatral filme de assassinatos... adorável vê-lo estampado em latinhas de ervilhas e sopas Campbell. A burguesia americana como sonho de consumo das bruxinhas boas. Ótimo... |
Voltar ao topo [Aeternus:4708] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-01) - comentando Gallego
 
Aos que lêem no Metro de Lisboa, Londres, Madrid, Paris, viajando por Queneau/Malle para chegar ao Rio de Janeiro... Goya. No metro de Madrid lêem. De pé e sentados lêem. Príncipe de Vergara. Livros grossos, brochados. Encapados com papel branco ou azul. Tirso de Molina. Que lêem os que lêem no metro de Madrid? Livros técnicos, fotocópias de artigos científicos. Callao. Chueca. Jornais- sobretudo El País. Revistas, menos . Atocha. Menendez Playo. Miguel Hernandez. Raramente consigo ler os títulos dos livros que lêem. Mas nas horas de ponta, debruçando-me ao balanço da composição, leio frases avulsa: Al cabo de un rato llegué a la alcantarilla muerta. Todas las alcantarillas de aguas estanques se parecen. Noviciado. Duérmete corazón prohibido, duérmete antes de la hora fronteriza de las doce. Colón. Velazquez.Lo único claro es que cuando al otro lado de la lluvia ve a un hombre que la mira por un instante que le parece un día, quizá un año, cree, por fin, haber llegado a algún sitio. Ventas. Debe haber una tercera opción, alguna forma de concluir la mañana y darle forma y sentido: algun enfrentamiento que conduzca a alguna palabra final. Fuencarral Esta gente, que lê no metro, está a salvar a literatura. ..................................................................................................................... Observou Gallego: " By the way, no ônibus entre o metrô e omeu consultório, xeretei que livro um senhor bem conservado estava lendo. Sei que as ostras também eram curiosas, mas o que fazer? Tenho a maior curiosidade sobre o que as pessoas estão lendo no metrô e por isso escondo ao máximo o que eu estou lendo. Pois bem: parecia A......(ldous?) H.......*uxley. Mas que livro era aquele com as iniciais M......L......? M.....i..........L......t.......a...... Minha Luta?!?!?!!!!!! de Adolfo Hitler!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Numa edição antiga, papel amarelado, parecia livro comprado em sebo meio despencado e encapado. E eu que pensei que seria a mesma antiga edição despencada onde li "...Também o Cisne Morre" (After many a Summmer....), obra-prima esquecida do Huxley.... Goya. No metro de Madrid lêem. De pé e sentados lêem. Príncipe de Vergara. Livros grossos, brochados. Encapados com papel branco ou azul. Tirso de Molina. Que lêem os que lêem no metro de Madrid? Livros técnicos, fotocópias de artigos científicos. Callao. Chueca. Jornais- sobretudo El País. Revistas, menos . Atocha. Menendez Playo. Miguel Hernandez. Raramente consigo ler os títulos dos livros que lêem. Mas nas horas de ponta, debruçando-me ao balanço da composição, leio frases avulsa: Al cabo de un rato llegué a la alcantarilla muerta. Todas las alcantarillas de aguas estanques se parecen. Noviciado. Duérmete corazón prohibido, duérmete antes de la hora fronteriza de las doce. Colón. Velazquez.Lo único claro es que cuando al otro lado de la lluvia ve a un hombre que la mira por un instante que le parece un día, quizá un año, cree, por fin, haber llegado a algún sitio. Ventas. Debe haber una tercera opción, alguna forma de concluir la mañana y darle forma y sentido: algun enfrentamiento que conduzca a alguna palabra final. Fuencarral Esta gente, que lê no metro, está a salvar a literatura. ..................................................................................................................... Observou Gallego: " By the way, no ônibus entre o metrô e omeu consultório, xeretei que livro um senhor bem conservado estava lendo. Sei que as ostras também eram curiosas, mas o que fazer? Tenho a maior curiosidade sobre o que as pessoas estão lendo no metrô e por isso escondo ao máximo o que eu estou lendo. Pois bem: parecia A......(ldous?) H.......*uxley. Mas que livro era aquele com as iniciais M......L......? M.....i..........L......t.......a...... Minha Luta?!?!?!!!!!! de Adolfo Hitler!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Numa edição antiga, papel amarelado, parecia livro comprado em sebo meio despencado e encapado. E eu que pensei que seria a mesma antiga edição despencada onde li "...Também o Cisne Morre" (After many a Summmer....), obra-prima esquecida do Huxley.... |
Voltar ao topo [Aeternus:4709] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-01) - RE: realizadores, espectadores e rumos
 Quanto mais eu vejo filmes por aí, mais aprendo como é difícil manter uma produção de alto nível durante muito tempo. Seja pelas dificuldades anturais que implicam na realização, seja no momentum do(s) idealizador(es), seja nas escolhas de material. Bergman, por exemplo, conseguiu manter durante décadas um invejável padrão de qualidade. Havia bastante a dizer, e foi dito maravilhosamente. Um ou outro título não atinge o nível geral, mas é admirável a alta qualidade e o estilo em tudo o que ele fez. Allen teve um início boboca, fracativo, reducionista, infantilóide. Algumas anedotas de valor, algumas cócegas ou risos mais Estrutura-se bem mais em "Annie Hall" ( 1977 ) e de repente, em "Manhattan"(1979), talvez crispado de amor por sua Big Apple, deslancha. Passando por alguns bons títulos nos anos que seguiriam, como "Zellig"(1983), começa a enxergar algo mais na existência do que sexo e morte, sua roleta viciada até então. Chega ao que considero seu auge um pouco adiante com "The Purple Rose of Cairo" (1985), "Hannah and Her Sisters"( 1986) - meu predileto dentre todos - mantém ainda essa boa fase ao longo de bom período, com destaque para "Husbands&Wives"(1992). Gallego chama a atenção para a falta de costura no tarado ( Caveh Zahedi ). Esse tipo de realizador 'vai no embalo', como Allen ao começar. Como muitos espectadores, ele não se toca sobre a necessidade de conferir um estilo, uma estética a seu filme. Não sei se pela longa kilometragem que já rodei no cinema, para mim é gritante esse problema. A fotografia digital, por exemplo, me faz sentir assistindo uma transmissão da NASA. É quase que o mesmo que ver um filme com uma cabeça enorme tomando o centro da tela, ou com pessoas passando intermitentemente de um lado para o outro, à frente do filme. A montagem sem cuidados, com passagens estapafúrdias de cena, tomo como uma bofetada. Embora não seja tão exigente quanto ao brilho do filme como um todo, registro cada detalhe falho desses em minha contabilidade íntima. E dependendo da idiosincrasia de cada um de nós, alguns incomodam mais do que outros. Enfim...há gosto pra tudo, como vemos no tal filme de Taiwan, cujo diretor foi premiado em Berlim. Acho difícil ser pior do que o que venceu em Sundance, um pretenso drama americano metido a europeu que sequer consegue ser drama. Imaginem o que o endiabrado taiwaniano ou taiwanense ou taiwanino fará depois desse galardão... |
Voltar ao topo [Aeternus:4710] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-01) - realizadores e espectadores viciados em cinema... e em sexo...
 Jansy reclamou o nome do diretor-ator esquálido explorando a própria megreza esquelética em roupas e postura que acentuam seus "defeitos" físicos. Eu não sabia mais o nome do cara! O Marcos já identificou o sexólatra anônimo e disse. É todo mundo desconhecido, meio amador. O Marcos descreveu o filme à perfeição, sem vê-lo: "falta de costura no tarado ( Caveh Zahedi )(...) 'vai no embalo', como Allen ao começar (...)não se toca sobre a necessidade de conferir um estilo, uma estética a seu filme. (...) A fotografia digital(...) me faz sentir assistindo uma transmissão da NASA. É quase que o mesmo que ver um filme com uma cabeça enorme tomando o centro da tela, ou com pessoas passando intermitentemente de um lado para o outro, à frente do filme. A montagem sem cuidados, com passagens estapafúrdias de cena(...)" Só que neste caso não é tão ruim assim, não cansa a vista nem a visão da imagem: no fundo, tudo é fake, até a "informalidade", eu acho; embora o baixo orçamento seja visível. Mas até isto é suspeito e objeto de gozação em mensagens ambíguas. Logo no início ele diz que a próxima cena deveria se passar em Paris, mas como não tinham dinheiro para filmar lá... uma rua de L.A. com um sujeito de boina e bisnagão (baguette) no sovaco vai servir. Logo depois, uma cena, indubitávelmenet em Paris. Ele justifica: a atriz era francesa, o visto expirou, tiveram que se virar para concluir as filmagens lá. Indubitàvelmente? Já nem sei. Mas cenas em Munique são totalmente em interiores com louras grandalhonas e um suposto motel com cara de chalé alpino e 3 corações se acendendo-apagando-pisca-piscando (que pode ser até maquete). Na saída da sessão um rapaz explicava para sua parceira que era um "docu-drama", misto de documentário com cenas dramatizadas. Mais esperta, a moça rebateu: "Nesse caso é um drama-docu" pois quase tudo me pareceu ficional". Drama docu... não sei não. O diretor diria que é "um drama doca...(rajo)". E ele mantém que fez grupo de ajuda tipo A.A. para se curar. Mas apesar do besteirol, o retrato de uma estrutura obsesivo-compulsiva é perfeito. Ele sai perguntando as mesmas coisas a todas as prostitutas que encontra (busca): "Quanto é?" (cada uma responde) "Você chupa?" (geralmente respondem que sim com ligeiras variações do tipo - "mas não goze na minha boca") ele fica parado, a prostituta pergunta algo do tipo "E aí?", "Vamos?" ele diz: "Não, preciso pensar." Isso se repete ad nausean com efeito cômico. Depois ele faz a ronda dos bordéis, casas de massagem, etc etc. Não realiza nada. Perde um dia inteiro nisso. Volta para casa triunfante porque "venceu a tentação". Quando a realização do desejo fica como impossível (pelo adiantado da hora, por exemplo) ele fica fissurado e só aí sai para perpetrar o ato sexual. Frustrando-se porque a prostituta mais bonita não está mais lá, a casa de massagem que mais lhe agradou está fechada, etc etc. Como reafirma Lacan sobre a estrutura obsessiva de Hamlet, o prazer, o desejo TEM QUE SER ADIADO, e só deslancha "in extremis". Um colega do hospital compra livros em sebo (não "Mein Kempf") e me contou uma vez que foi a um sebo em Madureira (?) num sábado de manhã. Viu um livro que interessou bastante, mas estava proporcionalmente caro pois era uma primeira edição (ele queria a obra, independente de ser qual a edição, o fetiche dele não é esse). Não comprou, voltou para a Zona Sul onde reside. Durante o almoço foi sendo tomado de uma fissura quanto ao livro (vão comprar, não é fácil de achar, nunca consegui, procurei tanto tempo, porque não comprei logo?) levantou da mesa, ligou para a loja perguntou até que horas ficava aberta, pediu para o dono esperar aberta, reservar o livro e foi lá comprar. Só depois da ameaça (interna) de perda definitiva, ameaça de que aquele "seio bom" não estará lá eternamente à disposição dele, à espera, stand-by, é que pôde perpetrar algo que deve ser para ele uma transgresão (pelo preço?, sei la´porque). Objetos dedesejo não podem ser adquiridos. Como tb Lacan cita uma frase genial alheia: "Saberíamos mais sobre o desejo humano se soubéssemos o que é que o avarento lamenta na perda do seu cofrinho" (atenção: não é aperda do dineheiro que estava no cofrinho: é uma metonímia: o cofrinho).
Mas Marcos desafia: Enfim...há gosto pra tudo, como vemos no tal filme de Taiwan, cujo diretor foi premiado em Berlim. Acho difícil ser pior do que o que venceu em Sundance, um pretenso drama americano metido a europeu que sequer consegue ser drama. Imaginem o que o endiabrado taiwaniano ou taiwanense ou taiwanino fará depois desse galardão... PROVE QUE SEU FILME É PIOR DO QUE OS MEUS!!! |
Voltar ao topo [Aeternus:4711] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-01) - RE:realizadores e espectadores viciados em cinema... e em sexo...
 Jansy reclamou? Só se foi no sentido de "reclame" e requerer a propaganda do ator/diretor do "drama/docu" ( as opiniões variam, mas a história todinha é saborosa). O tempo faz milagres. Fui numa liquidação das lojas Americanas ( compre dois e pague tres, ou vice versa) e comprei alguns DVD para animar o repertório daqui de casa. Escolhi "Assassinato no Expresso Oriente" para representar vários atores já falecidos, filme que na época me encheu a paciência dada a inverossimilhança típica dos livros deliciosos de Agatha Christie ( por escrito, os absurdos da lógica extremada e do reconfortante moralismo não me incomodaram nunca...). Revi há pouco, encantada. Albert Finney era Poirot. Tinha Ingrid Bergman com sotaque de sueca falando ingles em rodopios de prazer disfarçado ao brincar no papel. Lauren Bacall. Jacqueline Bisset.Sean Connery. Michael York. Richard Widmark. Anthony Hopkins. Cenário delicioso desde o embarque em Istambul e o luxo do trem atravessando a Europa rumo ao porto de Calais. Sem cortina de ferro ou grandes idéias políticas. Tudo certinho no melhor mundo dos colonizadores britanicos. Acho que no Brasil dos anos cinqüenta a gente ainda se sentia naquele intervalo produtivo das entreguerras, como se tudo chegasse atrasado para nós e ainda não tivesse ocorridoa Segunda Guerra Mundial. Há bastante nostalgia desta fase, com a retomada dos contos do Schnitzler, telas de Klimt, visões de Walter Benjamim, romances de Conrad e outros tantos. Pra mim, foi uma volta no tempo da Praça Paris e do Brailowsky no Teatro Municipal, vestidinha com roupas bordadas em casa, cheia de anáguas, ostentandomeias e luvinhas. Quem não pertence a esta geração talvez não entenda este encanto alienado de usar robes de chambre bordados com dragões ou colocar cera nos bigodes. Só se resolver ler Nabokov, que ainda morava neste ambiente mesmo depois de escapar da França ocupada para os EEUU até estabelecer-se em Genebra com lagos e montanhas de picos brancos. Ah, e havia ainda John Gielguld como mordomo. Acho que o festival de cinema, como vem sendo reportado pela dupla, rompe com tudo isso sem perder o chamativo. Traz um mundo e sociedades dilaceradas, sem qualquer elemento unificador. Faxina geral. |
Voltar ao topo [Aeternus:4712] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-01) - 9. Innocence
 Filme difícil e maravilhoso. Rigor narrativo, perfeição de timing e corte, foto e som primorosos, muita Natureza e muito claustro : tudo para nos levar ao útero da clausura, ao máximo do enquadre, à negação do devir. Os créditos gerais chapados à moda antiga e despejados todos de saída já nos anunciam que só veremos rostos femininos. Apenas alguns técnicos são homens na produção, que se passa num colégio para 'refugos' femininos, menores abandonadas ou de todo carentes, cuja única identidade passará aser intra-muros -e estes são bem altos, para desencorajar qualquer tentativa de evasão. Um Grande Útero, em suma. As novatas chegam em caixões, enterradas vivas, e passam a ter os cabelos trançados com fitas vermelhas - a cor da iniciante. A cada ano uma comissão julgadora composta de duas vetustas e sorumbáticas senhoras grisalhas e em negro seleciona uma ( e apenas uma...)aluna que se destaca para 'conhecer o mundo lá fora', e igualmente a cada ano a turma formada - 5 alunas, uma de cada casa do internato - de cor violeta ;é 'desovada' ( só ao final disso sabemos ). Rigor educacional, andanças na calada da noite, cumplicidades dissidentes, apagamento de parâmetros, castração total de alternativas : os únicos indícios e sopros de vida, o máximo alento que essas alunas podem ter, está na dedicação da professora de balé ( Hélène de Fougerolles )menos automatizada que a professora de sala de aula clássica ( Marion Cottilard ), capenga e sem brilho - corre eventualmente à boca pequena que ela teria transgredido em sua passagem pela escola e sido aleijada por uma preceptora a título de castigo. Na saída do filme que comentei esta semana sobre Paris acabada, durante uma festa de réveillon ( Mostra de 3 anos atrás ), conversei com uma parceira eventual de Festival que morou anos por lá. Casada com um alemão, sua filha era matriculada numa escola que exigia horrores da menina, além de sobrecarregá-la de deveres domésticos. O Vítor no São Vicente não passa muito longe disto. Ela disse que inicialmente pensara ter dado simplesmente azar, mas ao informar-se soube que a estrutura era esta mesma, que não variaria muito numa mudança de escola. E confessou a mim e ao Gallego, que também a ouvia, que lembrou-se de um antigo professor que advertiu-a "não se esqueça nunca do que vou te falar agora : a França é jacobina !" O final de toda essa inocência nesse "Innocence" é belo e simples. Mas pude perceber claramente o nível de dissensão que o drama provoca nos espectadores. Desde logo, meu grande favorito para a Palma de Ouro da Mostra. |
Voltar ao topo [Aeternus:4716] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - 10. I'm a Sex Addict
 Bem, me diverti um bocado aceitando o ingresso solto do Gallego para assistir nosso Caveh Zahedi. Que por sinal compareceu à sessão, dando-nos um tímido 'hi' e reafirmando que 'it's all true', como o título de um antigo filme de Orson Welles. As referências dele, frise-se, são fidedignas : ao longo do filme são colocadas em 1º plano ostensivo semi-debochado Rimbaud, uma edição americana de "Éducation Sentimentale"/Flaubert, o Nietzsche de "Para Além de Bem e Mal" e "Confessions" por Santo Agostinho. Calveh deve medir por volta de 1,60m, e não é tão feio quanto Woody Allen. O jeitão do filme lembra, realmente, o corte ligeiro, as tiradas rápidas e em sucessão do paradigma. Ele pega mais fundo e mais pesado na sexualidade, que Woody trava a certo ponto. Não por repressão, mas por estilo, preferindo aquele humor wit novaiorquino, a troca intelectual-galhofeira no Elaine's e outros points da Big Apple, tais como conversas perdidas recheadas a anedotas no Bloomingdale's, carruagem no Central Park e andanças no MoMA. As moças que fazem as parceiras e prostitutas são bem escolhidas. Algumas são as próprias, outras são atrizes. Bonitas, em geral. Ilustram o gosto de Calveh, e este concentra-se na abordagem da prostituta, para depois concentrar-se no fellatio, sua especialidade passiva. Não há como deixarmos de rir com os sucessivos gozos dele, sempre de pé - a postura eleita para ser agraciado pela parceira - e que funcionam como 'elemento dramático' da trama. As gostosas brincadeiras com limitações da produção e uma natural simpatia do autor conferem bom andamento geral. Ele insere filmes com foto granulosa, mal resolvida, onde surgem as verdadeiras pessoas citadas, quando estas são representadas por atrizes. E breves considerações sobre o destino destas, casou com fulano, teve um filho; continuou bebendo demais, teve câncer, morreu três anos após. O mais engraçado fica por conta de comentários técnicos sobre o intercurso, onde o vemos tremelicando sobre as parceiras, quando decide consumar a relação, e comentar em off coisas como 'quanto mais soava falso o que ela dizia mais eu me excitava'. Aplausos ao final, a sensação de uma sessão da tarde diferente. E para mim um sonho residual estranhíssimo, onde me envolvi sexualmente com uma amiga que jamais desejei. O pior é que nem pervertida a coisa foi...tudo direitinho, das preliminares aos finalmente. Homessa !...culpa do Gallego, né ? |
Voltar ao topo [Aeternus:4717] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - RE:9. Innocence
Copiei vasto material do 'yahoo France' para meus cadernos, belas fotos do filme, tals. Percebi que a crítica dividiu-se de todo, como imaginei, entre entusiasmo e execração... A Lucile é companheira do Gaspar Noé, o nauseabundo de "Irreversível". E bem melhor do que ele, frise-se !...Dedica o filme ao parceiro... ( atempo ) as ilações 'religiosas' saíram de minha veneta. O filme deixa toitalmente abertas 'origens institucionais' do que vemos, e baseia-se em obra de Franck Wedekind de 1988, um autor alemão. |
Voltar ao topo [Aeternus:4718] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - RE:RE:9. Innocence : errata 100 anos
O livro do Wedekind é de 1888...Lei Áurea para as alunas, pois... |
Voltar ao topo [Aeternus:4719] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-02) - RE:10. I'm a Sex Addict
 Florião observou: "me diverti um bocado aceitando o ingresso solto do Gallego para assistir nosso Caveh Zahedi. Que por sinal compareceu à sessão, dando-nos um tímido 'hi' e reafirmando que 'it's all true', como o título de um antigo filme de Orson Welles". Sua referencia cruzada ( It´s all true) coincidiu com uma das que lia no meu romance policial de Colin Dexter, "The Daughters of Cain". Este escritor inspirou uma série da televisão britanica que passou no Brasil pelo Film&Arts, com John Thaw no papel do Inspetor Morse e várias atrizes, aqui estrangeiras quase, que encontrei desempenhando papéis como "Ofélia" ao lado de Lawrence Olivier. Há um pedantismo informativo neste escritor que faz os crimes aparecerem nos locais mais sacrossantos da universidade de Oxford. O próprio detetive foi aluno daquela universidade e anda pela cidade com um Jaguar vermelho ouvindo Bach ou Wagner. O que hoje me chamou atenção foi o capítulo que se abre com uma citação ao Omar Khayyam na tradução de E.Fitzgerald, onde se faz uma busca à sabedoria entre santos e doutos com o peregrino concluindo que "saiu pela porta do mesmo jeito que adentrou". No que se segue temos um grosseiro Chefão comentando sobre o assassino de um professor de História Grega dizendo que ele provavelmente entrou no recinto pelo mesmo lugar de onde saiu. Vemos Morse resmungando: "Me faz pensar em Khayyam". Finalmente, depois de uma porção de investigação o próprio Morse, desarvorado, se retira dizendo: "não descobri nada e saio daqui do mesmo modo que entrei". Seu assistente, Sgt. Lewis, então observa feliz da vida: "Oque fez o Senhor se lembrar de Omar Khayamm, não foi?" Dou uma risadinha de entendida e depois fico zangada porque o humor é tão construído como as gracinhas que deleitam as crianças. Só que no caso do Colin Dexter, as frases são de poetas famosos. No das crianças, são piadas de "Vaca e Frango" ou historinhas de "pum". Tanto faz a erudição, depois da gracinha a gente sai do mesmo jeito que entrou... |
Voltar ao topo [Aeternus:4720] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - RE:RE: mas...
 ...há um movimento duplo, que estabelece um rebote 'para dentro' desse Saber, deixando a 'gracinha' na superfície. O 'Orient Express' da Agatha, que você citou ontem, é todo charme, assim como diversas alusões valorizando aquelas mansões magníficas inglesas, de madeira sólida, corrimãos envernizados a ponto de nos dar vontade de acariciá-los, o ligeiro eco dos ruídos da casa reconfortando-nos... O trem no filme é um dos personagens, destarte, e lembro sorrindo do desdém do Sean Connery quando numa impertinência do Poirot sobre uma disparidade ao longo de seu depoimento diz '...then he was planted there', acentuando o 'a' do 'planted' à moda british. |
Voltar ao topo [Aeternus:4721] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-02) - RE:RE:RE: mas... o rebote
 mas... aí é que está. Os rebotes: aquilo que não se aprende ao jogar jogos, decifrar palavras cruzadas e, mesmo, na poesia e que é tão essencial como viver. O pobrema é que venho tentando tornar-me ascética para apreender apenas a pureza das formas e foracluindo o material que as constitui. Modelando jarro após jarro, estas molduras do vazio, mas dispensando o oleiro e o barro! ( viu que estas imagens brotam direto de Khayyam?) Tudo mentirinha, claro, "it was planted there"...como Melanie Griffith brincando de espiã dizendo que, segundo Bernard Shaw, "um dia sem um gracejo e um sorriso é um dia perdido"... E nem tão mentira assim se pensamos em W.R.Bion que buscava metáforas tidas como o inusitado que brota no espaço que está entre dois polos triviais das imagens que as produzem. O rebote do humor pode produzir uma sensação de metáfora. Sem sentido, sem utilidade... e vital. |
Voltar ao topo [Aeternus:4722] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-10-02) - RE:Que memória! (sobre9. Innocence)
 Marcos fala de um filme com Paris ou França destruída num futuro hipotético e sobre o qual teria nos escrito esta semana festivalesca... De início pensei que era um filme do atual festival. E acrescentou sobre uma conversa casual com outra cineadita: "E confessou a mim e ao Gallego, que também a ouvia..." Eu não entendi mais nada: eu também escutava quem e quando?...até que, relendo com mais atenção, me dei conta que ele se referia a um festival de uns cinco anos atrás quando assistimos a um filme francês meio de ficção científica, "Peut`-être" com um Jean-Paul Belmondo já bem envelhecido em 1999 e que parecia que seria lançado comercialmente (sessão esgotada, argumento instigante, independente do desenvolvimento ser mais ou menos satisfatório). Acho que nunca foi exibido depois por aqui. O diretor só voltou a filmar em 2002 o meio mais ou menos "Albergue Espanhol" que tem até continuação neste festivaL (As Bonecas Russas) que está surpreendendo pela procura, já que o "Albergue" nem teve tanto público. Esses dados eu fui conferir no imdb, não sei como Marcos lembra dessa conversa ocasional com a moça que - só agora - recordo que foi mesmo um papo interessante. Depois eu é quem tenho fama de memória de elefante... Falando de filmes procurados e de outros que nem alcançam tanta procura quanto seus distribuidores esperariam, assinalo que o povo tá mesmo sem $$$ pprá ir ao cinema, é só ver as sessões do SESC Flamengo onde 240 lugares lotam todo domingo à tarde, basicamente porque é entrada grátis. Com a procura menor por salas (quem tem condição vê filmes em dvd ou video) mais dois cinemas de porta de rua fecharam aqui no Rio esta semana. Pouco importa se eram boas salas ou não: o "Jóia" não era, mas tinha seu público de idosos de Copacabana com preços mais baixos e salvava a pátria para filmes em final de carreira que eu não teria visto ainda. O Espaço Leblon de Cinema era pequeno, cheio de probleminhas aqui e ali, mas confortável e com uma programação diferenciada que não chegava ao meio termo do grupo estação (que "de arte" tem tido menos do que de "faz de conta que é cabeça mas não é") e às vezes com filmes muito difíceis mesmo. Exceto "Invasões Bárbaras" acho que nunca teve um sucesso de arrebentar. As gerentes, Lili e Isabella se dedicavam de corpo e alma, aceitando fazer debates in loco (como em "Invasõpes Bárbaras" que tive a oportunidade de fazer em cima do lance, antes do filme cair na boca do povo e virar super-suceso - ou quando tentaram repetir o formato e não tivemos público apesar dos excelentes filmes antigos do catálogo da sala e ótimos debatedores, mas houve falta de oportunidade na época do ano, dezembro, e a imprensa não divulgou a contento) Agora acho que elas estão tendo mais sucesso no Artplex de Botafogo com seis salas, misturando de Godard e filmes mudos de Buster Keaton a Batmans e blocbusters similares. Dizem até que vão reativar antigas salas de cinemas fechados na Tijuca, antiga verdadeira cinelândia carioca nos anos 1950/60/70 que chegou a ter onze cinemas só no entorno da Praça Saens Peña, sem contar alguns menos próximos, porém no bairro e antes da moda de começar a dividir salas grandes em menores. Hoje, apenas três salinhas indefensáveis em um shopping (dizem que vai ter mais salas na ampliação do shopping, espero que não só mais, mas melhores, onde não se escute o som das rodas de pneus de carros sobre uma lombada no estacionamento bem acima de uma das salas). O "Carioca" que seguia a arquitetura do Roxy de Copacabana (hoje o único cine de Copa, dividido em três salas) virou igreja Universal pois - pelo menos o prédio está tombado com seus mármores rosados e outros com ranhuras verdes-musgo, e curiosos lustres laterais fininhos com motivo oriental, algo meio kitsch mas fascinante. Outros cinemas viraram bancos, lojas populares tipo casa&video, cursos pré-vestibular ou simplesmente fecharam. O fato é que o público está minguante, salvo lançamentos promovidíssimos como "Dois filhos de Francisco" que é apenas a fórmula de dezenas de filmes ianques sobre cantores "country". Eu mesmo que não gosto do estilo (nem da música nem dos filmes sobre a música) vi dois por contra das atrizes: um com a Jesica Lange, outro com a Sissi Spaceky (pelo qual ela até levou um Oscar). Os filhos de Francisco é um filme bastante correto, tem seu lugar de filme sem maiores invernções, "comercial do bem", ou seja, não chega a fazer mal a ninguém, embora sua segunda parte se arraste um pouco sem necessidade. O ator que faz o Francisco (pai de Zezé de Camargo e Luciano) é um trunfo e quando sai de cena o filme rateia um pouco. Mas daí até todas esas loas, temos que considerar o marketing natural que a dupla sertaneja já tem pelos brasis e a promoção de um grupo de "formadores de opinião" como Caetano Velloso - mas não dá para deixar de considerar que a Paula Lavigne é produtora do filme e Bethania participa da trilha sonora ao lado do próprio Caetano que é o diretor musical do filme. Claro que Caetano tem direito de se oruglhar de um trabalho que ele fez ou participou, mas definitivamnte sua opinião não é isenta. E é curioso ele gostar tanto de um filme tão antagônico ao único que ele dirigiu, o tal "Cinema Falado" que eu não vi mas soube que seria... como dizer? godardiano. De Caetano para um grupo de pessoas com voz na mídia há um salto fácil e decreta-se que "Os filhos de Francisco" é o máximo dos máximos, redenção do cinema nacional, etc etc. Quando digo que achei apenas legalzinho quase me matam, dizem que tenho preconceito com música "country" (não me dão direito não gostar do estilo dizem que é preconceito) e que só gosto de filme "cabeça" (não tenho direito de ter minhas preferências idiossincrásicas que sejam? Não posso ir na contra-mão da "opinião pública"? Não posso desafinar o coro dos contentes?). Sei que música é ritmo antes de tudo, mas também tem desenvolvimentos na melodia, harmônicos, etc, etc. Depois de Bach, Beethoven, Wagner, Mahler, Stravinsky, vá lá: Puccini, Tom Jobim, Louis Armstrong, Dave Brubeck, cantes flamencos, fados, bossa-nova, Billie Holiday, Ella Firzgerald, Elis Regina, Edith Piaf, Amalia Rodrigues, etc etc etc, tenho que admitir algo que se intitula "ritmo e poesia" (rap)???? onde poesia é eufemismo e o ritmo é monótono? Uma coisa é apreciar manifestações musicais primitivas, outra é curtir a regressão. Na música e, pelo visto no cinema escatológico que está ganhando prêmios em festivais: o filme chinês do ator pornô em Taiwan sem água foi recomendadíssimo pelA Folha de SP, com ressalva que não é para qualquer um. Sou qualquer um, portanto. Se o cinema comercial-industrial já chegou a Spielberg e o cinema-arte já chegou a Alain Resnais, Bergman, Visconti, etc etc; se as barreiras arte-indústria podem ser nubladas em produções de alto investimento financeiro com qualidade de serem populares sem serem oligofrênicas, se a sendibilidade de um Truffaut já deu lucro nas bilheterias, por que é que um filme comercial apenas corretíssimo que tem seu lugar no panorama de qualquer cinematografia tem que ser endeusado como se fosse uma obra-prima? |
Voltar ao topo [Aeternus:4723] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - RE:RE: sobre indução da mídia...
 ...fico logo com uma certa má fé diante desses filmes que estamos desde logo 'obrigados a ver', como "Dois Filhos...". Tendo fortemente a não vê-los...como no caso, assim como foi com "Eu, Tu, Eles" e "Casa de Areia", ostensivamente divulgados, ou mesmo "Olga". Essa técnica indutiva-massiva é a mesma essência que compõe a propaganda política atual, uma consagração-antes-da-consagração, um simulacro plantado. O acontecimento que 'é acontecido' pela mídia para que aconteça. Perfilo-me, pois, junto ao Gallego no bloco dos 'qualquer um'. |
Voltar ao topo [Aeternus:4724] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - RE:RE:RE:RE: o rebote em Innocence
...é mais complexo, pois não passa pelo humor. A perversão está plantada, inscrita e fortemente encravada em tudo, tudo que de resto ostenta exemplar alvura, matizes e gestos delicados. Sem jamais usar o mau gosto e a náusea que Gaspar Noé elegeu para seu "Irreversível", a diretora Lucile Hadzihalilovic compõe seu festim fantasmagórico-limpo, de estupendo arsenal simbólico/afetivo. |
Voltar ao topo [Aeternus:4725] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - RE:RE: Innocence
 Se já não bastasse a crueldade natural que a competitividade fora do esporte contempla, não temos como nos livrar desta no cotidiano. Talvez parte do filme possa ser lido como uma baita alegorização desta 'preferência universal', um Carnaval sobre esta tendência humana. Na cena da seleção da 'contemplada anual' com o prêmio de 'ver como é o mundo lá fora', resultam duas finalistas, que sob o olhar derrotado das demais meninas candidatas submetem-se à inspeção final das vetustas preceptoras. Após dançarem para as julgadoras, passam por um apurado exame particular postural, ponta dos pés, barriguinhas, nuca, arcada adentária...lembrei de Joseph Mengele examinando judeus... |
Voltar ao topo [Aeternus:4726] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-02) - RE:RE:Que memória! (sobre9. Innocence)
 This Illiterate Brazilian's Home Speaks Volumes A laborer has gathered 10,000 books, giving his impoverished neighbors a window to the world. By Henry Chu Times Staff Writer
October 2, 2005 SAO GONCALO, Brazil — Carlos Leite can barely read a word, but books revolutionized his life.
Two years ago, he was doing construction work for a man who was about to toss out six thick, red encyclopedias. Leite asked whether he could have them instead. Thus a dream was born.
Within days, he hit the pavement, knocking on doors, begging people for more unwanted books. No contribution was too small, too big or too arcane. Skeptical members of Leite's cycling club were dragooned into helping him collect donations.
His collection quickly multiplied. The original six volumes turned into 100, then 1,000. Soon, his humble home was bursting with 5,000 books of all types — worn classics, chemistry textbooks, dog-eared thrillers.
To Leite, though, nearly all the books are mysteries. Born into a poor family, he dropped out of school after third grade and, at 51, is practically illiterate.
But books, he knows, are the gateway to a life of greater possibility and more promise than his own. It might be too late for me, a working man, he reasoned, but not for others.
So bloomed the passion that has consumed Leite's free time over the last two years: transforming his home into a public library, free and open to all in this poverty-stricken neighborhood outside Rio de Janeiro. The streets here are unpaved and unweeded, daily life is a struggle and even a single book is an enormous luxury that can cost up to half a week's wages.
To visit Leite's abode now is to see kids doing homework in what used to be his bedroom. Adults browse titles in what was once the foyer. Rainbows of donated paperbacks and hardcovers on almost every imaginable subject, some in crisp condition, others falling apart, cover every available bit of wall space, jammed together so tightly that a knife would have trouble passing between them.
Leite's collection now stands at an astonishing 10,000 volumes, many still packed in boxes or piled in corners waiting to be sorted and shelved. Space is at such a premium that Leite and his companion, Maria da Penha, have had to move into a back alcove with all their belongings, which aren't much.
"This is the only space we have to sleep. Please don't mind that it looks so poor," he told a visitor apologetically as he gingerly picked his way past a precariously leaning wardrobe and a low-slung bed. "The books kicked us out. If we're not careful, the books will kick us out of the back room too."
The house has been christened, as the big, hand-painted sign on the roof proudly announces, the Community Library, 18th Street. On busy afternoons, it's standing room only. Patrons vie for one of the mismatched chairs, which scrape along a floor lined with discarded tiles that Leite and his friends scrounged.
Da Penha, 54, is the den mother, shushing noisy patrons with the severe expression mastered by all good librarians. Like Leite, she is basically illiterate — but aware of the riches crowding her walls, which sometimes invade her sleep.
"I dream that I'm reading them," she said.
What she and Leite have managed to do is all the more remarkable given the daunting hurdles to fostering reading skills and habits in Latin America's largest country. Illiteracy, poverty and the seduction of modern entertainment have made Brazil a country with one of the lowest levels of book-reading in the world. The average American reads five books a year, as does the average Briton. In literary-minded France, that number rises to seven. In Brazil, it's fewer than two.
Brazilians are handicapped by lack of access. Government officials say that nearly 1,000 of the country's 5,500 municipalities have no public library. Buying a book is even less of an option.
As with so many problems here, the lack of access to books reflects and reinforces the vast disparity of wealth that has made Brazil one of the most unequal societies on Earth. Bookstores tend to be clustered in well-off areas like Rio's Zona Sul, or south zone, home to the storied Copacabana and Ipanema beaches; in the city's sprawling northern precincts where millions live, many in slums of unspeakable squalor, bookstores are virtually unknown.
A study in 2001 estimated that 16% of the population owns nearly 75% of all the books in Brazil — hardly surprising considering that a standard paperback routinely sells for about $15, or one-eighth of the minimum monthly salary.
Moreover, illiteracy remains high; 16 million Brazilians older than 15 cannot read or write.
Yet limited access and stubborn illiteracy levels are not the whole story in Brazil, land of sun, samba and soccer.
"There's just not the habit of reading," said Cristina Fernandes Warth, vice president of the Brazilian Editors League. "And now there's competition with other things: cellphones, Internet, DVDs. Let's say there's a shop where there's a book and a CD of the same price. It's the CD that will probably be bought."
The Brazilian government has launched a series of initiatives to improve the situation, including a reduction in taxes on books, a "Hungry for Books" reading drive and a campaign to establish public libraries in all towns and cities.
Leite couldn't wait.
"Those of us who grew up here, we know what the needs of the community are," he said. "I stopped and thought, 'Wait a minute. There's not a single library. The schools have libraries, but there's no public library.' So I said, 'Let's make this dream come true.' "
When he asked members of his small bicycling group to help him collect used books, "they all thought I was a little crazy," he said.
But they humored him, and the nameless cycling club got a moniker: "The Madmen of Sao Goncalo." Or so they seemed at first to the neighbors whose doors they knocked on.
"Some people thought, 'You must be joking. Here in this community, people ask for clothes, but to ask for books!' " said Ronaldo Pena, 48, one of the cyclists.
They inaugurated the library on March 20, 2004, with 100 volumes, most of them literary and historical treatises donated by someone Pena knew. Since then, the group has been amassing books at a feverish pace. Many come from rich Brazilians in whose homes they work as cleaners, handymen and the like.
Because everything is by donation, the collection is eclectic and quixotic, but impressive in scope: from Shakespeare to Agatha Christie, Umberto Eco to political theorist Antonio Gramsci, William Faulkner to James Joyce, not to mention textbooks and reference works. There's no Dewey decimal system, or even strict alphabetical order; books are simply grouped by subject.
"All the material you need is here," said Gabriele Sthefanine Silva Azeveda, a seventh-grader who was busy one recent afternoon copying down information about Central America from an encyclopedia. The nearest public library is 20 minutes away by car — not that many residents here own cars — and her school library is often of little use.
"It has fewer books than here," she said.
Word has spread enough that donations pour in by post, including works by the late Brazilian poet Mario Quintana, whose granddaughter heard about the home library and sent Leite some volumes.
A television station gave the library a computer so that it could maintain a proper inventory, but no one has had time to catalog anything yet.
It's a challenge just to keep the library open Monday through Friday, 9:30 a.m. to 8 p.m., and often later when there's special need: a report due, a test the next day.
"There's a lot of demand," Leite said. "We have lawyers, doctors, teachers, psychologists coming in to do research."
He depends on Da Penha and his friends to staff the library, all of them unpaid. Leite continues to do construction and maintenance work to try to meet the mounting bills. How do you run a library without overhead lights? Or fans to keep patrons cool and books from going moldy on those hot tropical afternoons? Or tape and glue to repair broken spines and torn pages?
Not a single penny has come from official sources — "not from the politicians, not from the government," said Da Penha, who is on medical leave from her job as a cleaning lady at a local school.
"What's here is what we've done ourselves," she said. "We've sacrificed a lot to help the people here. But it's a sacrifice of love."
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Voltar ao topo [Aeternus:4727] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-02) - RE:RE:Que memória! (sobre9. Innocence)
 Adoro música caipira. Durante os primeiros doze anos da minha vida convivi com as produções diárias de uma turma de lavradores que tocava viola e sanfona na fazenda onde passei as férias de verão. Tinha direito a dançar com um velho que havia sido escravo e éramos peritos em "calango". Decorava as músicas de cafagestes que freqüentavam a fazenda, aspirando historinhas de amor, como as do "tio" Carlos para a pobre abandonada "tia" Elvira: " Eu não sou culpado que me tenhas tanto amor, eu não sou culpado que me queiras com ardor. O que eu fiz ninguém pode me culpar, não fui eu que quiz nosso amor começar... Esqueça-me, lhe peço, por Deus, ó criatura...cantando lhe confesso, tudo foi uma aventura". Eu nem sabia direito o que era e já participava das histórias "Seduzida e Abandonada"! A lua assim não pode mais dormir. Vocês leram a fofoca de que um dos jovens era homossexual e que sua ex-esposa estava processando-o pelo filme? Que maldade. De repente, faz parte do quadro geral. |
Voltar ao topo [Aeternus:4728] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-02) - meu festival em DVD: Sin City
 Belo filme, este sobre cartuns/texto de Frank Miller, dirigido por Robert Rodriguez e seu convidado, Quentin Tarantino ( deve ser na parte em que aparece um jorro incrível de sangue depois de uma ninja japonesa cortar a mão do Benício del Toro...). Sessão nostalgia completa: música caipira e revistinhas de terror (aeeeiiiiouuuuuu), tudo que marcou meus mais inocentes verões na serra da Mantiqueira. Mamãe não queria que eu lesse nem mesmo Pato Donald e não pode evitar os coleguinhas com os gibis especiais ( mas havia contos de Edgar Allan Poe, uma pontinha de erudição gótica ). O que escrever depois de ver "Sin City"? Nada. E se quiser, frases breves. Mas não quero. |
Voltar ao topo [Aeternus:4729] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-02) - 11. La Moustache
 Uma vez lida a sinopse, fui ao cinema prepaprado para ver uma gostosa comédia, com tons de perversão. Mas qual o quê !...o escritor do romance que gera o drama, Emmanuel Carrère, também roteirista e diretor do filme - coisa rara, hein ! que privilégio ! - desfia um delírio em cristalização, desconcertando a platéia tanto pelo desarme de expectativas quanto pela dificuldade em montar uma linha compreensível para a proposição. Não que ele tenha sido um chato hermético, mas antes para ser instigante, assim creio. Num dado momento, parce que o filme deu uma virada e que estamos diante de uma história de persecute/persecuteur e núcleos paranóides. Tudo por mera habilidade na apresentação e ordenação, sem nos iludir só por pavonismo, gratuitamente. E há alma no sofrimento desse homem e de sua cônjuge, o circuito negativo e disruptivo da psicose. Quase todos saem rindo do próprio drible que tomam, sem saber (ainda) o que dizer. Mas é só pensar um pouquinho que as peças se encaixam em seu lugar. Vincent Lindon vai bem no papel principal, e uma Emmanuelle Devos linda e doce, très douce quand même, nos faz questionar a própria essência do sublime...( ou, por outro lado, da malícia ladina de determinadas formas de mise-en-scène ) |
Voltar ao topo [Aeternus:4730] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-10-03) - Troquei La Moustache por Ozu
Telefonei para o Marcos para saber se ele tinha assistido "O Bigode" mas ele ainda não tinha visto e não iria ver nada hoje. Sem referência, desisti dO Bigode e privilegiei "Ele era um pai" do Ozu. pena que a cópia estava péssima, de um filme de 1942. Ozu precisa de imagem crsitalina para acompanharmos sua placidez e lentidão. O som estava com ruídos incômodos. Com isso tudo contra não pude concordar com o endeusamento deste filme pelos estudiosos de Ozu, mas deu prá perceber coisas bem interessantes. Neste filme, feito durante a guerra, a hierarquia intra-familiar japonesa era TUDO. O filho tem que seguir o desejo do Outro, no caso o desejo do pai. Tudo que o pai decide será aceito. Se há pálida resistência inicial, em seguida o filho cumpre os desígnios paternos numa nice. Assim é quando o pai abandona a carreira de professor depois da morte acidental de um aluno num passeio escolar. O japonês parece TER que assumir a culpa que não é dele, no máximo relativa, de não ter sido mais incisivo na proibição de um passeio de barco (que os adolescentes fazem às escondidas). Com esta decisão de deixar de dar aulas (talvez auto-punitiva/narcísisica aos olhos da psicanálise ocidental?), mudam-se, pai e filho para uma cidadezinha do interior. Sem chances de se sustentar e pagando ótimo colégio caro para o filho, o pai resolve procurar trabalho em Tókio e o garoto (uns 12 anos, bem infantilzinho) fica numa espécie de regime de internato. O pai o visitará muito de vez em quando, quando pode. Na despedida o menino chora e o pai discursa sobre a necessidade de assim ser. E assim será. Anos depois o rapaz já é... professor (no interior). Numa visita do pai comunica sua intenção de largar o magistério naquele local e ir trabalhar em Tókio onde o pai trabalha numa fábrica. O pai diz que não pode largar aquela escola. Os pais dos seus alunos confiaram nele (parece aquele tipo de escola onde UM professor tem alunos de diferentes níveis, pelo que depreendi: é um educador, um preceptor da coletividade de estudantes do local). Segundo o pai, não pode trair a confiança que depositaram nele. Alude ao fato de que se ele largou o magiustério seus motivos foram justos, mas o filho deve pensar no seu país, no bem comum, etc etc. O filho que já havia feito a ressalva de que não queria ser "egoísta" admite seu "egoísmo" e só lamenta que não pode conviver com o pai. Detalhe: o rapaz já tem 25 anos! Inverte-se uma situação anterior de um dar dinheiro trocado para o outro. Agora já é o filho quem dá uns trocados para o pai. Anos antes, obviamente a maõ era outra. Em outra visita, o filho relata algum upgrade profissional e aí ouvimos falar da mãe pela primeira vez. O pai diz que deve comunicar tal conquista à mãe e o rapaz se ajoelha no "altar" da mãe: um móvel com duas portas abertas na altura do que seria o tórax de um homem em pé, com velas que ele acende e fica ali, em silêncio alguns minutos. Depois o pai faz o mesmo. Claro que a mãe morrera há tempos. O rapaz tem dez dias de férias e vai a Tókio passar esses dias com o pai. Procurado por ex-alunos, o pai aceita uma homenagem a ele e a um outro profesor igualmente viúvo que tem uma única filha. Não entendi porque o filho (que eu acho que era aluno do pai) não vai a esse jantar. Tudo bem formal, com discursos, etc. mas todos se dizem e parecem (dentro do possível) muito alegres (ao jeito deles). Todos os ex-alunos estão casados e a maioria tem pelo menos um filho. Ao voltar para casa, o pai diz ao filho que ele deve casar-se com a filha do outro viúvo e pergunta se ele aceita. O rapaz abaixa o rosto, tímido e envergonhado. O pai assinala que deve ser asim, salvo o fato de ele ter outra moça em vista. Ele nega. O pai pergunta se aceita. Ele diz sim. No dia seguinte o pai sai para o trabalho e pela primeira vez vemos o rapaz sozinho: ele estava lendo o jornal naquela posição ajoelhado dos japas e se deita, se espreguiça, relaxado. A empregada vem dizer que o pai está passando mal: tem um enfarte e morre cercado do filho, do amigo viúvo, da jovem filha deste e de dois dos ex-aluunos. O rapaz sai para chorar contidamente no corredor do hospital. O outro viúvo diz que ele não deve chorar pois teve o privilégio de ter um pai como aquele. Surge o título do filme: "Ele era um pai!" A cena final é do rapaz com a moça num trem, aparentemente indo para a cidadezinha onde ele leciona. A moça se pergunta se o irmãzinho mais novo dela já estaria dormindo. O rapaz diz que pensava em convidar o pai dela e garoto para residirem com eles, tal como faria com seu pai quando este se aposentasse, mas ele morreu. "Há muito tempo não vivíamos sob o mesmo teto. Pelo menos tivemos dez dias juntos." Fim. Resumido asim não posso transmitir o que é a delicadeza do filme (a despeito da barulheira da cópia velha e arranhada) e -pasmem! - do pai ao impor tantos desígnios ao filho. Claro que estamos vendo OUTRA cultura e outros hábitos. DIFERENTES ATÉ MESMO DOS FILMES DE OZU NO PÓS-GUERRA. Em "O Gosto do chá verde sobre o arroz" de 1952 as coisas são bem diferentes. Uma jovem de seus 19 anos não usa o quimono como a tia e enfrenta o tio bondoso e plácido, desobedecendo-o e fazendo só o que quer. O tio é complacente. A tia, não. O tio é um homem simples que gosta de chá verde sobre o arroz; a tia vem de uma família de elite e acha isso "comida de pobre". A sobrinha não aceita ficar numa cerimônia de casamento (pelo que entendi de finalidades casamenteiras). A tia reclama que ela deixou um rapaz esperando e isso não se faz. O tio diz que se ela se casar sem querer será tão infeliz como ele e sua mulher são no momento. O marido e a mulher fazem cada um o que quer, desagradando o outro. No final se reconciliam e a mulher até aceita comer o tal arroz com chá verde. A menina se mostra atraída por um rapaz de origem pobre (como o tio), mas nada submissa. Na cena final parecem estar tendo um desentendimento de namorados. Na obra-prima de Ozu, "Era uma vez em Tókio" o fiapo de história fala de um casal idoso que pela primeira vez vai à capital visitar filhos e a nora, viúva (um filho morreu na guerra). Os filhos não tem tempo paraos pais idosos, o Japão se ocidentaliza em ritmo alucinado. Os velhos são compreensivos mas claro que estão decepcionados e tristes. Descobrem o afeto da nora que, com todas as dificuldades (trabalha, ganha pouco, etc etc) é quem mais se preocupa em ser gentil com os velhos. Mais não conto para não tirar a graça. Vai passar um dia desses ao meio dia, acho que quarta feira. Voltando ao "Ele era um pai", não se pode deixar de pensar na autoridade e hierarquia de um país em guerra com as características do Japão. Mas foi interessante trocar idéias com duas analistas que encontrei por acaso no cinema sobre o filho ser o desejo do pai, aceitar toda castração imposta pelo nome do pai em nome de um suposto bem comum. Diferentemente do Francisco do filme brasileiro que se realiza ATRAVÉS do sucesso dos filhos, criados para satisfazer o narcisismo dele. Francisco, tem aquela ambição sobre os filhos que não difere das antigas "mães de miss" ou "mães de pianistas" (e pianistOs). Claro que quando o desejo herdado é tornado p´roprio, tudo pode ir bem. Pena que muitas vezes não há essa sintonia entre os ideais dos filhos e as aspirações/ambições dos pais. No filme japonês as separações impostas pelo pai ao filho sempre desejoso de uma convivência física mais próxima sempre servem ao crescimento profissional do filho e uma forma curiosa de autonomia (que existe em tudo - desde que o pai concorde - e não existe quando o pai pensa diferentemente - e aí o filho asume o ponto de vista do pai, numa boa). As cenas mais interessantes são quando, ainda garoto, o menino pesca com o pai. Esse ato de pescar se repete outra vez com o filho adulto. As duas longas varas não são pleonásticas como símbolo de identidade masculina entre eles. Não dá prá não deixar de pensar. De longe, porque nada é óbvio nos filmes de Ozu quanto ao subtexto. Já o texto manifesto é feito de obviedades, platitudes, coisas prosaicas. No Ocidente sempre preferimos Kurosawa porque seus filmes tinham frequentemente o "exotismo" oriental, o "diferente". No Japão, Kurosawa era acusado de "ocidentalista" (e de fato, filmou Dostoievski (O Idiota), Gorki(Ralé), Shakespeare ("Ran" é Rei Lear e "Trono manchado de Sangue" é Macbeth) e até policiais americanos de EdMacBain ("Céu e Inferno")- pseudônimo do mesmo escritor de "They shoot horses, don't they?", que deu o filme "A Noite dos Desesperados" com a Jane Fonda. Na mão oposta, vários filmes seus foram refilmados no Ocidente: "Rashomon" virou "Outrage" com Paul Newman; "7 Samurais" virou "7 homens e um destino"; "Yojimbo" virou "Dólar Furado", todos estes transportando histórias de samurais para o velho oeste. Tudo isso prá dizer que no Japão eles curtiam mesmo era Mizoguchi (esse mais oriental mesmo, sem traços de exotismo, com dramalhões ou filmes fantásticos meio de terror bem menos palatáveis ao gosto ocidental da época, mas maravilhosos os que vi) e Ozu que retratava o dia-a-dia e mudanças do Japão desde os tempos de cinema mudo até 1962. Claro que com a ocidentalização excessiva, tudo isso foi sendo descuidado por lá, o cinema japonês perdeu a qualidade que esses 3 cineastas, cada qual ao seu jeito, mantinham, fosse para consumo interno e/ou externo. Conseguir empatizar com os códigos simples mas não simplistas dos filmes de Ozu torna-se um encanto como a rotina do título de seu último filme. Claro que os ensaios sobre sua obra e sua personalidade tem hipertextos discutindo o caos e a ordenação das vivências como subtema de seus filmes. A morte, para ele, seria a única certeza que coloca ordenação no universo caótico. Daí considerarem dramaticamente perfeita a morte do pai em "Ele era um pai" (o título de fato é no passado, deixando entrever o que vai se passar). Nunca o final é tomado como um desfecho melodramático (o pai antes de morrer diz que não devem lamentar, sem pieguice nenhuma). Entendem que a morte acidental do aluno do pai no início pode ser uma alusão veladíssima à morte caótica e fora da "ordem natural" dos jovens na guerra. Não sei se concordo, não tenho elementos nem para concordar nem para discordar. Mas não sei se os filmes de Ozu precisam dessas interpretações. Eles valem pelo que valem, pelo que são - esão como os seus títulos (insisto nos títulos), principalmente os de final de carreira - "Uma tarde de outono"; "Fim de Verão"; "Em pleno outono"; "Bom Dia", "Flor de Equinócio"; "Crepúsculem Tókio"; "Início de Primavera"; "Início de Verão"; "Em plena primavera"; etc. Por isso nunca sei qual que vi. Todas as histórias são banais, todos os filmes se parecem e quase todos os títulos de 1949 até 62. O único que se destaca mais com fiapo maiorzinho de enredo e alguns mini-acontecimentos é mesmo a obra-prima "Tokio Monogatari" cuja tradução literal seia "História(s) de Tókio". Só prá chatear, como "ponte" entre um Ozu e outro assiti uma droga com a Charlotte Rampling, se especializando em papéis de mulheres de meia-idade com fogo na bacorinha. "Rumo ao Sul": americanas, francesas e canadenses ricas vão pro Haiti transar com os jovens negros a quem pagam pelas trepadinhas ou presenteiam, mas... acabam por descobrir a dura realidade da miséria daquele povo!!!! OOOHHHH!!! Faça-me o favor! Eu não preciso ver um melodrama ruim desses prá saber disso sobre o Haiti e o horror da prostituição seja masculina seja feminina por miséria econômica e social. E parece mea culpa americano, mas é francês!!! A atriz que faz a mãe da Natalie em "Invasões Bárbaras" está lá meio repetindo sua personagem com calor na sapituca, mais gorda, prosaica, CARICATA. Fujam!!!! |
Voltar ao topo [Aeternus:4731] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-03) - RE:Troquei La Moustache por Ozu/ o que é sapituca?
 Só não entendi o que é "calor na sapituca". Enquanto o Longwang ataca Taiwan e China me fazendo pensar num filme do Kurosawa que dizem ser falso ( seria de outros diretores, não dele), no qual há uma casa de prostitutas sendo inundada e as moças se preparam para virar heroínas trêmulas, no festival do Rio se faz uma retrospectiva de Ozu. No que Gallego foi descrevendo as antigas tradições da vida familiar oriental acabei fazendo com ele uma breve sessão de "cortes emendados" dos filmes que havia visto anteriormente e dos poucos livros que li ( começando com Pearl Buck e indo até Madame Butterfly...). Conclusão: não entendo nada do mundo oriental e, apesar do circo dos horrores em que vivemos, concluo que sou totalmente ocidentalizada, chegando ao ponto de haver suposto que oriente e ocidente poderiam encontrar-se algum dia. Creio que até o modo pelo qual japoneses ou vietcongs ou tibetanos ou indianos desenham, descrevem, emolduram e, assim, experimentam as emoções é inteiramente distinto do meu. Amor pode existir, mas empatia? Não vejo como. Depois de uma tarde apavorada com "Sin City" ( e reconheci Mickey Rourke no personagem que ele desempenhou, havia algum invariante que me trouxe à mente seu nome..acho que era o modo de inclinar o pescoço e, talvez, a voz?), comecei a imaginar se o mundo das prostitutas com suas lealdades e rivalidades não seria mais próximo de ser "universalizado" do que o mundo centralizado na vida em família, papai e mamãe com filhotinhos. |
Voltar ao topo [Aeternus:4732] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-10-03) - RE:RE:Troquei La Moustache por Ozu/ o que é sapituca?
 Calor na sapituca não passa de uma variante de fogo na bacurinha. |
Voltar ao topo [Aeternus:4733] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-03) - RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: Re-res-su-sur-re-rei-çã-ção
 Que sonho cinematográficoo da Jansy, hã? Tinha diretor de fotografia? (pergunto assim porque alguns sonhos parecem que TÊM diretor de fotografia, não é?) Eu até que gostei do Alien do Ridley Scott... e gostei de algumas das incontáveis continuações, mais por causa do bicho do que por outra coisa. Eu não sei se é algum mecanismo de defesa meu, mas eu acho o Alien um bicho LIIIIIIIIIIIIIIINDO!!!!!!!!! Ele foi... digamos... CONCEBIDO por um maluco holandês, um tal de H. G. Giger (ou seria G.H.? ou G.R.? não lembro), e é bem interessante ver o livro com os desenhos dele (tanto os que fez pro filme como também outros produtos de sua constante tempestade cerebral). Mas dos dois primeiros filmes (por motivos diferentes), eu gosto. Esse "Ressurreição" eu acho que não vi. Chegou uma hora que começou a virar palhaçada, igual às continuações de Planeta dos Macacos pro cinema, e eu larguei de acompanhar. Do terceiro, não me lembro direito. Acho que meu misto de repulsa e fascínio vem da tal boca dentro da boca: ela parece um mecanismo artificial. Essa mecanização do animal ou a animalização do que é FABER é que me fascina. É tão improvável, que a gente só consegue formular sentido nessa... obviedade metafórica: nossas cabeças são feitas meio de instintos e meio de artifícios. Na época em que o Oitavo Passageiro foi lançado, Scott ainda não tinha feito Blade Runner. Alien foi o segundo filme dele, o primeiro foi Os Duelistas, que eu adorei. Mas depois desses três, Scott fez A Lenda, com um quase imberbe Tom Cruise, e era um filme tão bêsta (exceto por aquele personagem que parecia um diabo), que cheguei à conclusão de que Scott era um diretor que dependia da sorte, ou seja, não dava pra chamar de "autor" (um que eu chamava de autor até há pouco tempo era o Martin Scorcese, mas o Gangues de Nova York eu achei tão ruim, que "briguei" com ele. Mas eu também tinha brigado com Polanski quando fez Piratas, mas, depois, com O Pianista, desbriguei). Teve dois "filmes de medo" que eu adorei: Alien e Seven. Nos dois eu quase levantei na metade pra sair correndo, mas resisti bravamente, e não me arrependi. Eu não me lembro agora das comparações que fiz na época com o 2001 do Kubrick, mas deve ter algo a ver com a idéia de MAL, que, em 2001, vinha do artefato que se emancipa, quase que... se humaniza (o HAL 9000: um ser de linguagem por excelência) e que, em Alien, era representado por um bicho que, em muitos aspectos, se parece com um artefato (Poderíamos até filosofar sobre este tema: O MAL). Ah, incluamos então o excelente Drácula do Coppola e o medíocre mas representativo Frankenstein do Kenneth Branagh (este parece ter sido feito dos restos da cenografia e dos figurinos do Drácula - o produtor é o próprio Coppola). A partir deles a gente consegue fazer um apanhado do século HISTÉRICO: o século XIX, e pensar em tudo o que veio dali sob esse prisma da histeria (e o Kenneth Bregah é o diretor ideal pra um filme histérico). Já o Drácula é o Outro de Lucy (ou Mina, eu sempre confundo as duas, mas enfim: é o "Outro" da personagem de Winona Ryder, e digo isso pensando na cena em que o Conde, na pele de um lobo, quase que trepa com ela num banco de jardim, acho aquela cena o máximo; e também gosto muito de uma cena meio de intermezzo, mas muito significativa, quando, no começo, os homens conversam numa sala com Van Helsing (COM ESTACA) sobre as "mágicas" da ciência, enquanto as moças, noutra sala, confabulam sobre "assuntos de moça"). Mas enfim, acho que essa estranheza do Ailen é também fascinante porque, ao mesmo tempo que deserotiza a reprodução (o Giger deve ter estudado até as tampas sobre o ciclo reprodutivo de tudo quanto é parasita, lombrigas e congêneres), reduz os instintos ao medo, um medo que é uma explosão de adrenalina no meio de muuuita tecnologia, e é um medo produzido por um bicho que também é meio mecânico. Por isso ele também é um Outro: provoca o medo de um RE-CONHECIMENTO. Por outro lado, eu não sinto vontade de ficar defendendo o filme do Ridley Scott tal como defendo o Seven ou como ataco o Cidade dos Sonhos. Eu acho que o Seven MERECE ser defendido, e que o Cidade dos Sonhos PRECISA ser atacado, mas o Alien, tanto faz... ele não tem a importância do Blade Runner. Alien, na minha ótica, tem a ver com um modismo que também é só sintoma dessa artificialização do humano e do gosto pela estética da dor: o piercing e as tatoos. Não são em si condenáveis ou louváveis, mas são preocupantes porque são pontas de um iceberg que tem a ver com toda uma Weltanschauung, e as pessoas não têm nem a menor idéia do tamanho da meada enroscada nesse fiozinho Abraaaaaço D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4734] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE:RE: empatia à muque
 Encontrei uma brecha para assistir "La Moustache" ontem, e valeu a pena. Construí minha história, e vou conferi-la com a(s) da crítica francesa daqui a pouco...on verra.
Sobre cultura oriental, até onde posso entendê-la encrava-se nessa 'empatia à muque', e lendo esses escritos do Gallego hoje entendo perfeitamente a distância entre eu e meu pai, um homem pouco culto mas nem tanto e bastante ligado nos japas, com os quais nunca sintonizei. Uma ou outra coisa do Toshiro Mifune, naquelas sagas milenares de samurais, o Kaneto Shindo de "Onibaba - o Sexo Diabólico"... Andávamos e andávamos juntos, praia e campos de futebol, alguns filmes. Nos gostávamos, mas a tal empatia in totum nunca exisitiu, principalmente a partir de minha adolescência. Tínhamos um respeito mútuo recheado de silêncios táticos, que serviram para nos manter cordiais mas que passaram a impedir a efusão, a gargalhada... |
Voltar ao topo [Aeternus:4735] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE:RE:RE: intróito ao Bigode
Sintam só...
LA MOUSTACHE * Un film incompréhensible pour le spectateur désinformé .Et comme rien n'est expliqué dans ce film, et d'ailleurs nulle part ailleurs, on a vraiment l'impression de voir un cauchemar sans intérêt . ... LA MOUSTACHE * Par ERIC JEAN-LOIC BRETON, vendredi 15 juillet 2005 à 19:20 :: 10 ... monde virtuel . Seulement comme le film reste très incertain, ce n'est pas ... ericjlbreton.tooblog.fr/?2005/07/15/180-la-moustache - 24k - En cache - Plus de pages provenant de ce site - Enregistrer - Bloquer
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Voltar ao topo [Aeternus:4736] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE:RE:RE:RE: me subestimei...
Já li três críticas. "Un film à découvrir"...painel e metáfora da indiferença, por aí. Taí um ângulo legal, parecido com o de "Innocence" : o realizador abdica de um 'sentido' para seu filme, e patina livremente pela obra, cria à vontade...( e tanto a Lucile quanto o Emmanuel o fizeram com um bocado de estilo ). |
Voltar ao topo [Aeternus:4737] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-03) - RE:Troquei La por Ozu/ o que é sapituca?
Gallego, assim você me enternece completamente. Você explicou o que é "calor na sapituca"... Não, na verdade não explicou, mas metonimizou ou metaforizou. Disse que era o mesmo que "fogo na bacurinha". Então, pra continuarmos assim, o que é uma bacurinha? |
Voltar ao topo [Aeternus:4738] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE: Conde cada dia melhor !
 'e o Kenneth Bregah é o diretor ideal pra um filme histérico' Este 'Bregah' por Branagh é o que eu penso ? Também não gosto dele, eterno pavônico shakes... A viagem ecstasystática, estática e vazia, aquerla do viajante que não sai da poltrona, de "Cidade dos Sonhos" deve ser pichado sem dó nem piedade porque cai no mesmo viés da discussão que Gallego colocou ontem, de sermos obrigados a gostar de David Lynch só porque um dia ele fez algo bom, de sermos obrigados a gostar de tudo o que Caetano Veloso faz porque algum dia ele fez algo bom, de sermos obrigados a gostar de Chico Buarque escritor porque algum dia ele fez grandes letras e melodias.
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Voltar ao topo [Aeternus:4739] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-03) - RE:escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: Re-res-su-sur-re-rei-çã-ção
 Que sonho cinematográficoo da Jansy, hã? Tinha diretor de fotografia? (pergunto assim porque alguns sonhos parecem que TÊM diretor de fotografia, não é?)
Se fotografar é sintoma em alguém, então os sonhos tem diretor de fotografia, não? A dimensão hiperverbal da imagem, aliás...
Eu não sei se é algum mecanismo de defesa meu, mas eu acho o Alien um bicho LIIIIIIIIIIIIIIINDO!!!!!!!!! (...)Ele foi... digamos... CONCEBIDO por um maluco holandês, um tal de H. G. Giger (ou seria G.H.? ou G.R.? não lembro), e é bem interessante ver o livro com os desenhos (...) Acho que meu misto de repulsa e fascínio vem da tal boca dentro da boca: ela parece um mecanismo artificial. Essa mecanização do animal ou a animalização do que é FABER é que me fascina. É tão improvável, que a gente só consegue formular sentido nessa... obviedade metafórica: nossas cabeças são feitas meio de instintos e meio de artifícios.(...) o Giger deve ter estudado até as tampas sobre o ciclo reprodutivo de tudo quanto é parasita, lombrigas e congêneres), reduz os instintos ao medo, um medo que é uma explosão de adrenalina no meio de muuuita tecnologia, e é um medo produzido por um bicho que também é meio mecânico. Por isso ele também é um Outro: provoca o medo de um RE-CONHECIMENTO.
Vários comentários pertinentíssimos do Ses-Conde. No que ele revelou que o desenhista foi um Giger, maluco holandês, fui imediatamente remetida ao peculiar humor deste povo ( cada filme esquisito deles que andei vendo no passado...sem aliens explícitos, mas totalmente aliens) e às gravuras de Escher. A boca dentro da boca não deixa de sugerir aquele verme ( chama-se "solitária"?) que é expelido por qualquer orifício do corpo: anus, boca, ouvido...Há imagens de afogados dos quais saem animais da boca ( O filme "The Tin Drum" não tinha umas enguias horríveis?). Há contos para crianças e até quadros de Boticelli com flores ou víboras se esgueirando dos lábios de alguma donzela...Deve ser um pesadelo da humanidade, no sentido junguiano? Gostei da proposta da dimensão metafórica: "nossas cabeças são feitas meio de instintos, meio de artifícios". Principalmente da conclusão: ante a dimensão da Alteridade ( do Outro) o medo que nasce é do Re-conhecimento.
Não são em si condenáveis ou louváveis, mas são preocupantes porque são pontas de um iceberg que tem a ver com toda uma Weltanschauung, e as pessoas não têm nem a menor idéia do tamanho da meada enroscada nesse fiozinho.. Concordo cem por cento, se for possível existir algum dia uma concordancia plena sobre seja o que for. Um padrão nos "hominizou" e depois "humanizou". No entanto, a Weltanschauung que criou este padrão está sendo desmanchada e a gente começa a ter medo do que se revela, do que RE-conhece... |
Voltar ao topo [Aeternus:4740] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE: parabéns a vocês dois
...por esses belos trechos. Sobre a boca e as embocaduras, creio que encabeçam os signos da posse, posse esta assustadora de per si. Quantos e quantos autores - ou nós mesmos, quiçá ! - usamos alguma vez ou ainda nos referimos ao sexo como posse ? Claro que somos bondosos nesse ato de 'engolir' o outro, mas ao mesmo tempo...gera-se um signo sub-reptício de re-conhecimento - ( o mesmo que vocês estão xeretando por aí ?...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4741] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE: intromissão no bacural
 Sem querer me intrometer mas já me intrometendo, a introdução do termo 'bacurinha' no site foi feita pelo ilustre Conde Drácula, referindo-se à esplendorosa atriz italiana Monica Vitti. A dita cuja, que atende por alcunhas de toda ordem e nacionalidades, trata-se de uma entidade em formato triangular, localizada um pouco abaixo do Equador ( não a República das Bananas, mas a grande linha horizontal imaginária divisória do planeta que habitamos ), entidade que agrega elementos protuberantes e cavernosos, e cuja personalidade varia dependendo de sua possuidora. |
Voltar ao topo [Aeternus:4742] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-03) - RE: intromissão no bacural
 Intrometido, Florião? Não seja tão penitenente quando nos propõe fatos históricos e nos lembra que bacurinha é um triangulo na Monica Vitti introduzido pelo Conde... |
Voltar ao topo [Aeternus:4743] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - RE:RE: intromissão no bacural : de penitenências
Tomando tenência, o último penitenente de que me lembro foi o Ben Gazzara em "Anatomia de um Crime", um tenente sob risco de enquadre no Código Penal, e portanto um penitenente. |
Voltar ao topo [Aeternus:4758] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-03) - 12. Where the Truth Lies
 Atom Egoyan no pedaço...produzindo, roteirizando, dirigindo. Bom realizador, digno e tendendo ao safado nos campos de Eros. Desta vez tenta fechar um policial intimista, mesmo tempo em que tangencia ética e idolatria. Tal mistura requer inspiração, talento e bastante recurso financeiro. A começar por uma metragem longa, onde as situações e a pulsação não se atropelem. Aqui não temos muitos 'erros' clássicos, mas igualmente ele não consegue encontrar um tom, uma pegada. Contando a história de uma mocinha ajudada em campanha nacional contra a pólio, muy grata à uma dupla famosa de TV pela divulgação e apoio nacional a est. Feita jornalista e incumbida de entrevistar um dos famosos para um livro sobre sua vida, mergulha numa obscura trama que resultou na morte de uma moça, encontrado numa suite onde se hospedariam. Espremendo, espremendo, e ainda que não negando nobres intenções a Egoyan, o melhor aqui é a plástica das atrizes, em excelente forma física. Assim como as cenas eróticas, que ele sabe fazer bastante bem - já sabíamos desde "The Adjuster", passando por "Exotica". A narrativa em si elege sempre o convencional como guia, e é este o sabor ao final de tudo. |
Voltar ao topo [Aeternus:4759] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-10-03) - Iberia
Enquanto vocês descobrem a bacurina (onde está amoralidade deste site? Tem vampiro egente descobrindo a bacurinha... tsctstctsc) eu fui assitir "Ibéria", novo filmusicaldançado do Carlos Saura que, dizem, foi aplaudido em cena aberta na exibição de gala do odeon que ia ser a única e devido ao suceso ganhou duas projeções ainda que na Barra! E lá fui eu. Pode-se dizer que é cinema puro sobre dança pura e música pura. Porque é despojado (e sofisticadíssimo) como filmagem; a dança flamenca pode ser com roupas à caráter, mas mais frequentemente os dançpantes estão de jeans e roupas comuns, ou seja, a dança tem que garantir o pathos daquela caras e bocas trágicas à Garcia Lorca sem ajuda do vestuário, absolutamente quase incompatível com a dança - mas que acaba funcionando; Ibéria pode ser trechos das 12 peças de Albéniz com piano solo e gente sapatenado (um gordinho chora e dança com ar trágico de corno abandonado e comove na disjunção piano lâmguido e sapateado que acabam se harmonizando incrívelmente). Não há enredo, os números se sucedem e o encantamento seria maior se o filme fosse menor, mas entende-se que é difícil deixar algum dos frgmentos de fora. O segundo referido a "Albaicin" (bairro judeu de Grandada - ou será de Sevilla?) ´-e um impacto só: a dançarina dança meio próxima de uma parede semi-transparente de uma película como pvc de cozinha, frequentemnte "sufocada" pelo plástico. O som é disonante com muita percussão. Nem sempre se usa a música de Albéniz, mas os títulos são mantidos. A"Quinta-Feira Santa em Sevilla" que é dos trechos mais bonitos e conhecidos é substituída por um cante jondo ou uma saeta, sei lá, muito bonita mas dá pena não ver esse trecho do Albéniz dançado. O "cenário" é o de outros filmes: telões que mudam de cor com a luz, sombras, espelhos, imagens em TV do dançarino repetidas com uma fração de segundo de atraso, fazendo uma "dupla" virtualizada ou mesmo uma imagem que se repete ad infinitum... Uma beleza, sem dúvida, ainda que fragmentária. Quando Saura bota enredoi ("Tango", "Carmen") reclamam do enredo ser fracote; quando ele abre mão de enredo rpclamam de ser dança em cima de dança. Pobre Saura... Sobre o filme do Anton Egoyan Marcos já dise tudo. É melhorzinho do que o lamentável "Fio da Inocência" de uns anos atrás, outro policialzinho fechado. Seus filmes "em aberto" são muito melhores, como "Exotica" e "O Doce Amanhã" (que era amríssimo). Ou mesmo "Ararat" que foi polêmico com o massacre dos armênios pelos turcos, um genocídio mal conhecido, num grande "filme dentro de um filme" como ele fez. "The Adjuster" só o Marcos para ter visto. Mas aposto que ele não viu "Krapp's Lat Tape" com o John Hurt feito em 2000 para a TV. Nem eu vi. Acho que nunca pasou no Brasil. Jansy ia adorar: afinal é Beckett! |
Voltar ao topo [Aeternus:4760] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-03) - RE:Iberia
 Detesto touradas, não falo espanhol, não visito livrarias madrilenhas senão para olhar encadernações e sentir o cheiro do papel. Chego e no primeiro segundo fico embasbacada ( aliás, na penúltima viagem fotografei uma explosão terrorista quase ao meu lado). Adoro tudo, som e fúria, sem entender nada. Como a dança flamenca. Plena. Anton Egoyan filmou Krapp´s Last Tape? Com John Hurt. Deve valer a plena. ( Céus, como é difícil comentar comentários quando a gente não viu os filmes, não conhece patavina da historiografia do cinema, nem nunca ouviu falar de Egoyan). |
Voltar ao topo [Aeternus:4761] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-04) - RE:RE:Troquei La por Ozu/ o que é sapituca?: calor na bacurinha
 Grande pergunta! Outro dia passou no Canal Brasil um Rolo Extra sobre Dona Flor, e o Pedro Bial, o apresentador, anunciou, a certa altura, uma cena que a censura não deixou ser exibida nos cinemas de então. "Uma rola extra?" pensei. Não, não aparece nada assim. Na verdade fiquei intrigado, porque, à primeira vista, a cena não tinha nada que eu considerasse mais explícito do que outras do filme. Mostrava era o Vadinho comendo Dona Flor por trás, mas isso, a rigor, não quer dizer nada, porque, naquela posição, a gente tanto pode colocar lá como acolá... mas eu desconfio de que o que escandalizou os censores (e eu imaginei uma comissão de Teodoros, como na chuva de homens de terno do Magritte... aliás, quer dizer que o Fellini fazia pouco do Magritte, é??) pode não ter sido a situação em si, que é mostrada em ângulo aberto muito rapidamente, mas o close que logo vai se fechando no rosto de Dona Flor, enfatizando seu absoluto êxtase. Então são duas as perguntas que me fiz ali: 1) é fogo no rabo ou na bacurinha? 2) será que os censores, diante de um filme que também tinha uma porção de putas à disposição, não aguentaram ver uma mulher casada e "de respeito" GOSTANDO de trepar? será que não suportaram a explicitude do prazer da personagem de Sônia Braga? No metafórico, até que suportaram, ou teriam vetado o filme inteiro. Mas quando a câmera fechou no GOZO da mulher casada, aí foi demais pros teodoros da vida??? Agora, quanto ao sentido literal de bacurinha... pelo que entendi então, a "bacurinha" é o mesmo que "perseguida" - l'Origine du Monde... Depois de Dona Flor, zapeando, vi no canal Warner uma chamada em que o Martin Sheen, em seu personagem de Two and a Half Men, dizia: "Você a pediu em casamento? Não seria mais simples se você dissesse que não queria mais transar com ela?" Abraaaço, D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4762] Mensagem do Grupo48 -jansy mello (2005-10-04) - RE: o que é sapituca? E calor na bacurinha? Ad Tergo? In tandem?
 Quem vem primeiro, o Tristão de Athayde ou o Alceu Amoroso Lima? Sergio Porto ou Stanilsau Ponte Preta? Vão Gogo ou Millor Fernandes? Conde Drácula ou.....? São tudo gente famosa? Como será que o Millor ia definir bacurinha e sapituca? Rola e perseguida? Se bem me lembro temos nas Listas um "Pequeno Dicionário" de eufemismos, eumachismos, neologismos et ce ci n´est pas une Afrique. Taí um quadro bonito esse do Courbet, L´ Origine du Monde no qual não há dilema algum sobre o que veio primeiro, nem qual foi o anel.
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Voltar ao topo [Aeternus:4763] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-04) - RE:RE: escalada escatologica: a antiga ressurreição alien: Re-res-su-sus-sci-ci-ta-ta-ço-ções
 Siiiiim! Pavonice é um termo perfeito pra ser aplicado ao Kenneth Bregah como diretor. Ele só é legal como ator dirigido por outros, como em Celebridades de Woody Allen e naquele filminho-chiclete, o James West. Ele se acha... não? A versão longa de Hamlet que ele transpôs à toa pro séc. XIX é cretina, o fato de abranger o texto integral de Shakespeare foi um recurso baixo pra atrair uma respeitabilidade que ele desperdiça ao responder as questões que Shakespeare apenas levanta. As escolhas estilísticas que Branagh, cinematograficamente, enxertou no espírito da peça acentuaram um subjetivismo que eu não acredito que tenha sido cogitado pelo autor, e que colocava as conversas do personagem com o pai morto num limbo entre a loucura e a metáfora; não, não acredito que fosse essa a intenção de Shakespeare, ou, pelo menos, ele não pensava apenas naquelas duas explicações para um sem-número de possibilidades... Tem certas coisas que o diretor de cinema precisa ir pro lado e deixar o teatro passar. Por exemplo, a câmera nervosa de Brian de Palma em Missão Impossível, parava, respeitosa, diante da esplêndida Vanessa Redgrave, para deixá-la brincar. Nesse sentido, eu prefiro a versão do Zeffirelli, que, mesmo com o aversivo Mel Gibson, respeita mais o espírito shakespeareano (fora que aquele filme tem Glen Close, fazendo uma Gertrude da gente assistir de joelhos: ela aparece pouco, dá impressão de que o Zeffirelli teve taaaaaanto trabalho pra dirigir o Mel Gibson, que se esqueceu do tesouro em forma de atriz que ficava esperando encostada num canto do set. Mas teve duas cenas que eu imagino a Glenn Close dizendo, "dá licença, que agora vou trabalhar um pouco": uma é a cena em que Hamlet vai ao quarto dela e a encosta na parede, e a outra é a da morte de Gertrude, inesquecível. Dá vontade de pegar todas as versões de Hamlet pro cinema e enfiar a participação da Glen Close universalmente). Será que o Copolla pode ser considerado o verdadeiro autor do filme Frankenstein? Afinal de contas, ali se resgata, mais do que noutras versões cinematográficas da história do monstro, a metáfora da "alma" da ciência que Mary Shelley quis imprimir a seu romance de horror. No caso de agora, pode ser visto como metáfora da pós-modernidade, também feita de pedaços de cadáveres. Vocês sabem, né, que, segundo se conta, a escritora participava com o marido de uma conversa na casa de Lord Byron sobre as "mágicas" da ciência (como naquela cena de Drácula que destaquei), e ela foi cuspida pra fora da rodinha por discordar de que aquela fosse de fato uma boa perspectiva para o espírito humano, e então foi pro quarto e escreveu quase todo o livro numa noite... Será? Mas é bonitinha a lenda, não é? Mas quando Branagh enfia uma locomotiva a vapor em sua festiva e ensolarada "dinamarca", incarnando um Hamlet estilo tiozinho-sukita, com cabelinho platinado no século XIX... ai, ai... Já a versão reduzida, rolou mais redondo pra mim, não sei por quê... Será a mão mágica do editor? O Eisenstein dizia que um filme não existe enquanto Cinema senão pelo fato de passar pela edição? A gente pode mudar TUDO na mesa de edição. É um fascínio!A prosa tá boa, mas tenho de sair. Abração D. Será a mão mágica do editor? O Eisenstein dizia que um filme não existe enquanto Cinema senão pelo fato de passar pela edição? A gente pode mudar TUDO na mesa de edição. É um fascínio!A prosa tá boa, mas tenho de sair. Abração D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4764] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-04) - RE:RE: Egoyan para principiantes
 Ele foi batizado 'Atom' mesmo, como escrevi, por causa da energia atômica. Seus pais armênios decidiram homenagear a 1ª usina atômica egípcia, e ele é naturalizado canadense. Hibridismo geralmente dá certo !... Deu certo, afinal, pode-se dizer : é um diretor que tem pulso, energia, sonhos e projetos sempre em andamento. Busca alternativas, embora resvale aqui e ali para o convencional, como no filme de ontem.
"The Sweet Hereafter" foi tocante e abordou o trágico de forma corajosa e lúcida, sem apelar nunca. Acompanhamos paripasso as desgraças familiares após um ônibus escolar naufragar num lago, derrapando na neve. Havia uma elegância incrível na filmagem, no corte. A atriz Sarah Polley, canadense, é bastante virtuosa, mas como não é bela e tem sardas, perde papéis. Foi convidada para outro deprêzão, "My Life Without Me", onde está soberba, e que comentei na lista "Meu Mundo Caiu". "The Adjuster" levou numa Mostra dessas da Vida, no Estação 3. Junto com "Exotica", traz um painel dramatizado de nuances do pós-modernouma espécie de conjunto de regras que vai referendando uma nova cartilha de conduta(s). As dançarinas da boate em "Exotica" dançavam sobre as mesas, vestidas de 'estigmas' femininos - a normalista, a boneca, a puta, a Barbie, a careta de óculos - e não podiam ser tocadas pelos fregueses, babando debaixo delas e tentando ver mais do que já estava sendo mostrado. Em "The Adjuster" há uma cena notável onde o personagem central, um corretor de seguros, convence uma dona de casa a comprar uma apólice enquanto vão rolando preliminares até a trepada consagradora. Os dois seguem sempre usando a linguagem técnica da transação. E todo o filme consegue um tom investigador interessante, como se estivéssemos dentro de um sonho Egoyanista ( não Egoyânico ).
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Voltar ao topo [Aeternus:4765] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-04) - RE:Egoyan para principiantes: Atom e Dar-El
 Marcos, gratinha pela aula sobre Egoyan. Ontem li que nasceu o filho do sobrinho do Coppola, que sempre sonhara ter um papel de Super-Homem nas telas e a proposta não se materializava. Daí que, nascido o bebê, seu nome foi escolhido como Dar-El porque era o verdadeiro supernome de Cripton.
O tal filme do onibus escolar que mergulha num lago gelado é uma refilmagem, ou você viu em retrospectiva ou apenas, de lembrança, citou tantos detalhes sobre "The Sweet Hereafter" como se acabado de assistir? Homessa.
Quanto à lendinha da composição de "Frankenstein" por Mary Shelley como uma vingança feminina denunciando a ciência, só gostaria de lembrar que provavelmente Lord Byron se sentia humilhado pela filha ilustre ( que não teria encontrado senão uma vez), Ada Lovelace porque esta é considerada não apenas cientista talentosa como uma das criadoras, com Babbage, do primeiro computador. |
Voltar ao topo [Aeternus:4766] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-10-04) - Onde se lê Dar El, leia-se Kal-El
Puxa. Erro todos os nomes, só porque vivem errando o meu? Não consegui nem lembrar do nome do Jor-El na vida real. Levy-Strauss tem uma proposta bastante interessante a respeito dos nomes, quando avalia a genealogia de Oedipus ( Pés-Inchados) com Laius ( manco?) e Labdacus ( que caminha de perna em L?), pois para o estruturalista-mor nomes não podem ser interpretados como significantes que remetem a outros em infinita metonimia. |
Voltar ao topo [Aeternus:4768] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-04) - RE:12. Where the Truth Lies : uma injustiça que cometi
 Há uma situação bonita ao final do filme do Egoyan, quando a jornalista poupa a mãe da moça que morreu no hotel de uma determinada informação. E o faz sem que essa mãe saiba que é ela mesma, mãe, quem está sendo protegida da publicação da passagem constrangedora, no melhor momento em termos de ética. Preservar a memória de alguém digno, ainda que passando por cima do 'real' ou da 'verdade', é 'bom' ? Bondoso ao menos é...Quanto ao 'ser bom', creio que depende da índole de cada um de nós. Pessoalmente acho que desde que não falseemos de todo a curva dos acontecimentos, como fazem os políticos, a meta aqui é nobre ! |
Voltar ao topo [Aeternus:4769] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-04) - RE:RE: The Sweet Hereafter
Jansy, o filme é baseado num romance que o Gallego está lendo, e falou bastante bem. Disse que é denso, com interessantes repetições verbais. O filme era um grande e emotivo painel da perda e da saudade. Sem pieguices. |
Voltar ao topo [Aeternus:4770] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-04) - RE:The Sweet Hereafter
 Talvez estivesse desatenta, mas não reconheci o livro do Gallego na descrição do filme. E este, acreditei ter visto há tempos na televisão. Sem achar nele nada particularmente bom ou ruim se bem que sua permanencia como "clima emocional" na minha lembrança indica o predomínio das qualidades. Do que recordo: cena de pai protetor que acompanha os filhos confiados ao onibus escolar seguindo-o de carro. Cena de derrapagem, as crianças antes acenando sorridentes fazendo rosto assustado, o onibus deslizando pelo gelo até que a superfície se rompe e ele submerge. Mesmo estando quase ao lado, o pai nada pode fazer para salvar os filhos. Corte. Cenas seguintes: advogados gananciosos e repórteres tentam tirar proveito da dor alheia. Pronto. Fim do que gravei como história. Ficou em suspenso o sentimento de fragilidade e impotência, a indignação com a invasão insensível dos que se apresentam como os que desejam nos ajudar, perdas irreverssíveis. No entanto, pelo título "The Sweet Hereafter", há uma promessa de alguma doçura e de um mundo à parte no "depois da vida". Veremos se Gallego, no meio das suas tarefas, encontra tempo para nos contar um pouco mais. Ou você, se assim se dispuzer. Perda e saudade, sem pieguices, com interessantes repetições verbais: tem exemplos? |
Voltar ao topo [Aeternus:4772] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-05) - até que enfim: Win Wenders rides again!
Até que enfim, um filme que eu tive vontade de aplaudir no final (porque Caché pode até ser muito bom, mas é tão desconcertante que a perplexidade domina). Win Wenders, praticamente refilmou "Paris Texas" em clave de quase-comédia: o roteiro é do mesmo Sam Shepard de "Paris, Texas", agora também ator principal (excelente!) ao lado da patroa Jessica Lange (alguma plástica menos feliz deixou menos bela a outrora paixão de King Kong em cuja mão ela estreou, de Mikail Barishnkov, de Bob Fosse - para quem ela era a morte fascinante de branco em All that Jazz - de Jack Nicholson - em "The Postman always rings twice" - e de tantos fãs e "premiadores" que reconheceram seus belos desempenhos em "Frances" e "Blue Sky", além de "Music Box", "Tootsie",etc).Além desses dois enrugadinhos do século passado, Eva Marie Saint reaparece bem idosa e em ótima participação. Os atores jovens, idem, com destaque para aporralouquice de Fairuza Balk, a "babyconsuelo" made in usa. A trilha sonora é ótima e a fotografia admirável, recriando quadros e quadros de Hopper (estou anexando o cartaz do filme embora não saiba se vcs vão poder ver [p.s.: desisti: amensagem não ia com a imagem]). É incrível que esse filme tenha saído de Cannes sem nenhuma premiação. Aliás, o prêmio de atriz para a motorista israelense de "Free Zone" só pode ter sido polítco: a senhora é competente, mas o papel é histriônico e fácil; melhor seria premiar logo o trio composto pela outra atriz (uma palestina) e a nova Juliette Binoche, a Natalie Portman de "Closer", sem muito o que fazer, embora chore copiosamente durante quase dez minutos com a câmera parada no seu rosto na primeira cena enquanto se escuta uma canção inteira na base da nossa "Velha e o porco", que diz que o pai comprou um carneiro, um outro animal o devorou, um cachorro mordeu esse animal, um pau bateu no cachorro, o fogo queimou o pau, a água apagou o fogo e assim por diante, só que terminando com uma alusão óbiva ao eterno conflito israelense-palestino. O filme parece cheio de boas intenções mas a fábula (?) é confusa (pecado em fábulas). A parábola (?) exige uma vivência do conflito que eu não tenho. O diretor Amos Gitai ganhou alguma atenção por "Kadosh", mas um outro filme que vi dele numa mostra mais anterior ("Eden"), apesar de baseado em Arthur Miller já foi uma decepção. Este também é. Menos, mas é. Um espanhol chamado "Má Temporada" não chega a ser ruim mas também não faria falta. No elenco, ótimo, a bela adormecida de "Fale com Ela", agora em cadeira de roda e chifrando o maridão, apesar de. mais gordota, menos bela. E o "Benigno" mais magro, mais careca, de barba, reconhecido pelo olhar meio parado e pelo lábio superior meio elevado, o que lhe dá uma expressão de menosprezo quase o tempo todo. O que valeu foi mesmo "Don’t Come Konocking", até agora o melhor que eu vi ao lado do terceiro episõdio de "Eros", seguidos por "Caché" e mais adiante por "Ibéria". O custo-benefício está ruim no atacado. Mas o varejo melhorou muito com este filme, prova que Wenders ainda dá no couro, apesar de tantos filmes meio mais ou menos depois de "Asas do Desejo". Já se vão anos que ele não acertava tanto!
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Voltar ao topo [Aeternus:4774] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-05) - outros assuntos
 Sem tempo para as outras listas e mensagens, vou só dar dois pitocos: um, sobre o Frankensteisn do Coppola. Não conheço. Vi nas locadoreas um produzido por ele mas pasado na atualidade. É esse? Não me animei. Na contra-mão, adoro o Frankenstein do Kenneth Bragannah, mesmo reconhecendo problemas (o Tom Hulce, ex-Amadeus e amigão do Victos some de cena, quando no livro foi morto pela Criatura anonimada que reclama ao "Pai" que nem um nome teve: nem o nome-do-pai nem o nome-do-filho. Adoro o livro e gosto das cabotinices do Bragnnah brincando com Muitoi barulho por nada, mudando o ambiente e época (gratuitamente) para Hamlet (mas que ficou bonito, ficou) e até da chegada de Rozencrantz e Guildestern numa maria-fumaça quase de brinquedo, eu gostei. O apelo de usar nomes do cinema comercial pode dar errado como foi com o grande Jack lemmon em filmes para sua medida dizendo sem entender o que dizia "Há algo de podre no Governo da Dinamarca". Mas aquele chato do Bill Crital foi um excelente coveiro (que na versão Olivier é feito pleo mesmo Stanley Holloway que viria a ser o pai de Eliza Doolittle em My Fair Lady: sempre que o vejo em 1948 acho que ele vai sair cantando With a Little bit of luck como em 1956 na Broadway ou em 1964 no filme com minha fari Audrey). Não gosto de um policial de rencarnação do Bragannah, esqueci o nome, mas gostei de um filme "reencontro de amigos" e um que não foi bem de bilheteria de atores tentando encenar um Shakespeare (era preto-e-branco). Como ator, achei exagerada a imitação que ele fez de Woody Allen num filme emmque fazia o papel de Woody Allen. O ator deste mair recente em que a mesma personagem tem 2 destinos diferentes, um no drama outro na comédia foi mais light (sei que ele está nA Feiticeira com a Nicole Kidman que estou louco prá ver e gostar mas o festival não deixa). Bragnnah é um Iagoi magnífico num Othello onde nem a Desdêmona de Iréne Jacob está tão bem (já se fosse a Natalie Portman, vítima sacrificial em Closer... ) mas o filme é bonito e aquele Iago dá até medo. Voltando a Hamlet, concordo que a Gertrude da Glenn Close é algo (como a Ofélia da Helena Bonnah-Carter, ex do K. Bragannah como antes fôra a Emma Thompson). mas o filme é ruim demais. Nem o Espectro com o grande Paul Scofield está bem. A versão melhor que eu vi é do russo Grigori Kosintev com um ator fantástico que depois fez um belo "Tio Vania" todo em tons sépia. esse Hamlet era cinemascope preto-e-branco com música de Shostakovitch de arrepiar os pelos da coluna vertebral na hora do fantasma (tenho em LP e em CXD, uma coisa!). Eu vi com meus 15 anos, as críticas diziam que era um Hamlet mais político de cefia ser pois a Bárbara Heliodora que defende o subtexto político até nos Sonetos de Shakespeare (estopu exagerando) diz que é o melhor Hamlet do cinema. O Lar desse diretor russo tb é muito bom, mas mais "pesado". Só vi uma vez um Lear quase "de câmara" com o Paul Scofiel dirigido pelo Peter Brook. O do Oliveir é teatro filmado, fica chato. Um Hamlet "de câmera" era com o Nigel Williamson (talvez seja esse nome; que foi Merlin em Excalibur e perosnagem porincipal da versão para o cinema de "Laughter in the Dark" de Nabokov com Anna Karina, alguém viu?) e a então linda Marianne Faithfull na época namorada do Mick Jagger era Ofélia. Marcos disse que estou lendo "O Doce Amanhã". Sim. Há anos. Mas está parado. É muito bom, fascinante, parece bem traduzido, tem uma prosa poética como eu gosto, ao mesmo tempo lúgubre -como o tema - e aliviando na beleza do ritmo das frases. mas é tão pesado que está ao meu alcance e nunca o retomo. O filme é muito bom para quem leu 1/4 do livro. |
Voltar ao topo [Aeternus:4775] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-05) - 13. Bloom (e) 14. Provincia Meccanica
 Segunda versão, ao que eu saiba, do "Ulysses" de Joyce. Nunca li a peça literária, mas os dois filmes...valha-me Deus ! Difícil dizer o mais destrambelhado e canhestro. Preciso saber de alguém que tenha lido o livro, e dar uma dica se Joyce seria 'infilmável', pois não acredito que o livro possa ter algo a ver com o absoluto e desgovernado desvario que reina nos dois filmes. Ao longo de duas horas de projeção, passamos pelo alegórico, farsesco, momesco, ridículo, onírico, patético, intimista, escatológico, circunstancial...numa salada russa que não leva a nada. Surge a mesma pergunta que foi feita sobre "Irreversível" : por que não levantar e ir embora ? - e uns 20 o fizeram - porque o filme começa e termina com belos monólogos de Molly Bloom. No 4º final há também um belo monólogo de Leopold Bloom. Bela foto principalmente em tons de Natureza, o céu e o litoral irlandês, e música de David Kahne, delicada, tocante, perdida nesse contexto exdrúxulo. Já o filme italiano traz o roteiro mais estapafúrdio que vi nos últimos tempos. A história do china-taiwanino do Gallego pode ser considerada Aristotélica perto desta aqui, um desvario-desagregação familiar que tenta fugir do convencional a todo custo, aqui incluído o racional, sem que com isso caia num onírico-palatável, ou sequer delicado, funcional. Para vocês terem uma idéia ainda que somente esboçada do que falo, no auge do drama da família em desagragação o Stefano Accorsi ( bom ator ) foge da polícia, e saindo de um matinho 'dá a sorte' de um maratonista em carreira cansar e cair semi-desfalecido. Toma o uniforme deste, e...entra na competição, que, claro, vai dar hollywoodianamente nao local onde toda sua família, amigos, assistente social, cachorro e lagarto estão. Ele encara a Valentina, que corresponde, abraça os filhos, e...segue correndo na maratona !!!(???)!!!...( hora da polícia do filme prender os roteiristas, né ? ) Ao contrário do excelente "Innocence", onde um formidável rigor narrativo impera soberano da primeira à última imagem, ou mesmo de "La Moustache", onde a brincadeira de confundir nos leva a caminhos interessantes na indiferença e sofrimento humano, aqui estamos apenas diante de um quadro psiquiátrico dos personagens, loucos sim, mas menos do que os realizadores... Não houve a menor necessidade, no entanto, de reclamar ou enfadar-se : Valentina Cervi colore o filme com sua Beleza e talento, fazendo a louquinha de plantão, e de quebra despe-se generosamente para seus fãs, exibindo seus fantásticos dotes. Ela já fez 18 filmes por lá, mas só consegui ver o excelente "Rien Sur Robert", do Pascal Bonitzer, roteirista assistente do Rivette, e "Artemísia", sobre a jovem pintora medieval. |
Voltar ao topo [Aeternus:4779] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-05) - RE:outros assuntos oferecem um bnhao ed erdicãou
 Gallego vai fundo, conecta um filme com outro, um subtexto a uma idéia política, uma tática com uma prática... Um show de bola! ( nunca assisto futebol mas ontem vi um cara driblando ,jogando a perna esquerda pra trás ao chutar a bola, desviando da defesa e pegando a pelota mais adiante e fazendo um gol que me deixou arrepiada). Não vi Laughter in the Dark com a Anna Karina, mas sei houve uma coincidência de nomes que ia desde a heroína de Tolstoi até uma outra atriz, fora a personagem...todas variantes de Karina. Se minha memória fosse melhor, eu conseguiria pelo menos tocar uma flautinha na sinfonia do Gallego. Qto ao Shkspr gostaria de saber qual o sentido político de tanto "travestismo", se não for o lado mais prático de saber que conta apenas com atores do sexo masculino para desempenharem todos os papéis ( lembrei do Oscarito fazendo a Julieta numa chanchada da Atlântida, ou será que foi o Grande Othelo? Delícias de nomes, políticos também: Bleacaute. E morreu a Emilinha Borba ) |
Voltar ao topo [Aeternus:4780] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-05) - RE:13. Bloom (e) 14. Provincia Meccanica
 Bloom e Ulisses: eu li. Não aproveitei grande coisa no início, mas em seguida peguei um mapa de Dublin e segui os passos marcados pelo Nabokov em seus seminários sobre James Joyce e...voilá...consegui me apaixonar. Acho que tentei ler a tradução depois, era do Houaiss talvez, mas detestei de cara a grossura do volume, o quebradiço da lombada, a capa dourada e larguei de lado. Florião, o livro do Joyce não tem nada, nadinha mesmo, de caótico. Ele nos brinda com chamadas antecipatórias ( uma nuvem que aparece na praia, um cachorro enterrando ossos... a mesma nuvem sendo vista de um promontório, ou ameaçando um desfile da prefeitura, um enterro, ossos proverbiais...). Ninguém sabe falar muito sobre um cara de capa de chuva que aparece daqui e dali. Mas tem um perneta e uma moedinha tintinambulante que é lançada da janela que viaja direitinho, desde o tilintar que alguém ouve, ao brilho que outro vislumbra, ao que a pega... Duvido que eu vá reler Joyce, mas chega a ser cogitável. Com certeza topo reler as conferências do Nabokov para ir atrás de pedacinhos escolhidos. Principalmente porque aparecem nas obras dele e já ganhei direito a uma referencia "eternizadora" entre a academia por ter descoberto que as pernas do rapaz (no recém lançado livro ADA ou Ardor) que caminha sobre as mãos, e que estão içadas como "velas tarentinas" era uma chamada para Joyce...É um mundo de referencias cruzadas. Uma derrota de Pirro traçá-las todas, Dédalo que o diga. |
Voltar ao topo [Aeternus:4782] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-05) - RE:RE:13. Bloom (e) 14. Provincia Meccanica
 As nuvens aparecem muito no filme, sim. Belas, densas. Leopold Bloom é flácido, frouxo, pervertido, escatológico, retraído, depressivo, conformista. Só consegue a arte do deboche no tribunal, sendo julgado pela sociedade toda local... Do que poderia ser algum 'espírito de Joyce', apenas frases soltas - "o caixão é a casa do irlandês" - e um belo jogo transitivo efêmero/duradouro, fragmento/todo, instante/eternidade. O 'Dédalus', nome de um dos personagens, é ligado à Mitologia Grega, né ? Preciso estudar mais, pois nada sei nessa área ! |
Voltar ao topo [Aeternus:4796] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-06) - respondendo Jansyta ao entardecer
 Se todo mundo chama, eu tb posso chamar nossa musa aeternica de Jansyta como a carmen miranda era sempre Juanita ou Chiquita em sua aparições hollywoodianas cada vez mais caricaturais. O show com a Marilia Pera cantando músicas de Carmen, vestida de forma mais sofisticada como ela, não se mexendo tanto como ela não cantando-imitando como ela vale muito a pena apesar do preço salgadíssimo. Eu vi há tempos (1972) a mesma Marilia num espetáculo de buate que tinha enredo da triste vida de Carmen. Baixota, inventou saltos plataformas e turbantes para ganhar estatura. Sua brejeirice (ainda existe alguém "brejeira" no século XXI?) foi transformada em estereótipo caricatural "exótico" na Broadway e isso só se agravou em Hollywood, onde sempre era a "secunda donna", nunca "la prima" que era uma loura desenxabida qualquer e esquecida. passado o interesse político dos EEUU na "política de boza vizinhança" da II Guerra onde temiam o flerte de Getúlio com Mussollini e a cópula de Perón com os nazistas, Carmen perdera o encanto da novidade e foi sendo relegada a filmecos mais e mais classe B (o derradeiro era com Jerry Lewis e Dean Martin, num papel dela mesma, caricatuta de si própria). A atriz que mais pagara imposto de renda em Hollywood na primeira metade dos anos 1940 (faltou-lhe um Marcos Valério de contador da caixa 2? foi explorada não só pelos agentes e produtores, incluindo o maridão-empresário que herdou toda a sua fortuna? - que exisitia apesar da carreira crepuscular da década de 1950) agora fazia shows na TV, sempre na base do Chica-Chica-Boom, suas baianas lembrando rumbeiras, sua depressão mal-disfarçada na euforia maníaca de suas cantorias em ritmo acelerado. No Brasil, diziam que ela voltara em visitas "americanizada" (e era verdade - mas prá que tanto veneno? se "nas rodas de malandros, suas preferidas, ela dizia 'eu te amo' e nunca 'I love you' e enquanto houvesse Brasil na hora da comida, ela era do camarão ensopadinho com chuchu" - como reza a letra de música que fizeram prá ela). "Enquanto houver Brasil...." Hoje, talvez Carmen pudesse pagar por um prato de camarão mais sofisticado do que "com chuchu", mas o brasileiro-carioca médio que vai ao Lamas ou Nova capela se espanata com um prato de filé sem sofisticação alguma custando 38 reais. O plano real acabou com que inflação? Eu pagava 18 num restaurantezinho simpático que existe perto da Sociedade de Psicanálise que pertenço, em Botafogo-Humaitá há menos de dois anos!!! E eram pratos de filé parrudo que dava para dois com fome média... Os filés dos restaurantes mais boêmios e supostamente menos caros diminuiram de tamanho e aumentaram de preço... Voltando a Carmen (porque nada como alguém mais rica e mais infeliz do que agente como triste consolo de raízes talvez na inveja verde-catarro escorrido que nem Dona melanie Klein percebeu emtoda a sua sutil impregnação da alma humana): em Hollywood suas depressões foram tratadas com os tratamentos da época: eletrochoques que prejudicam a memória quando usados e abusados. Talvez, como Judy Garland relataria mais tarde sobre seus 13 anos ao filmar "O Mágico de Oz", na hora de filmar, davam-lhe anfetaminas, para descansar 0obrigatoriamente nos horários determinados, cloral hidratado ou seja lá qual era o "Valium" da época, mais provavelmente... barbitúricos. Não há pessoa SEM propensão à dependência química que não fique. Judy ficou e morreu com 47anos, com cara de 60 (daquele tempo porque hoje as senhoras de 70 têm um corpinho de 50, imaginem as de 60...). Carmen tinha 55 recém-completados quando o coração simplesmente parou. Com o "burro do dinheiro" e muito rica. Ainda bem que quase nada disso está no novo show de marilia sobre Carmen. Ela interpreta ao seu jeito, mais do que imita. Com seus 60 e tantos anos (e um corpinho de 40) e la nem se movimenta como carmen fazia, mas está lá, lembrando as músicas meio ingênuas, meio "maldosas" como se dizia na época ("Já me disseram que você andou pintando o sete, andou chupando muita uva - e até de caminhão - ahora está dizendo que está de apendicite, vai entrar no canivete e vai fazer operação..." ou "Eu dei - o que foi que você deu, meu bem?"). Jansyta: não é de tarde, é de manhã, "vou buscar minha fulô, a barra do dia ê vem e o galo cocoricou é de manhã, vou buscar minha fulô..." Quem está crepuscular é o festival que se encerra em nosso peito varonil. Vc disse que o que Marcos e eu reportamos mostrava uma tendência de filmes escatológicos e violentos. Não só: a miséria dos povos africanos e outros parece que foi bem mostrada (explorada?) em documentários que não assisti. mais do que tudo, vi também muitos filme "medianos" que não chegam a fazer mal mas também não dizem a que vieram, por que e para quem foram feitos. Viagens narcisistas de seus diretores-roteiritsa-produtores? (porque fazer um filme barato já muito caro hoje em dia) Não necessariamente: alguns são bem-intecionados como o tal espanhol "Malas temporadas", falando de imigrantes na Espanha, cubanos contrabandistas, meninos que não querem sair do quarto, ex-presidiários soltos e ainda apaixonados por seus ex-companheiros de cela que agora retomaram mulher e filhos (homossexualismo circunstancial para uns, preferencial para outros)... Temas que poderiam render filmes péssimos ou ótimos... ou... medianos. Aí, chega a doer. "L'Enfant" é uma inexplicável Palma de Ouro no mesmo festival de Cannes que teve "Don't Come Konocking" do Win ressucitado Wenders e "Caché" com o excepcional Daniel Auteil num desempenho tão perturbador quanto o filme. Falo apenas de dois que vi nessa mostra carioca, infinitamente superiores a "L'Enfant", que não deixa de prender a atenção e ter uma certa competência de escrita cinematográfica, mas nada tão de excelência como as narrativas dos outros dois que prefiro muito mais. Além de tudo, a trama de um jovem pai comunicado por uma jovem mãe que tiveram um filho evolui no sentido de mostrá-lo com uma conduta psicopática tão mais chocante quanto o rapaz não parece "mau-caráter". E nem é. Ele só tem... indiferença! Assim como registra o filho, o malandrinho que vive de pequenos furtos o vende para rede de adoção corrupta (tráfico de bebês para doções ilegais, se é que os bebês não servirão a propósitos meos "nobres" - aliás, um outro filme dessa mostra mostrava um moça fazendo bolinhos chineses de... fetos! para apele ficar mais bela - Incluam-me fora!!!!!!!! Voltando a "L'Enfant" o pretensamente belo e comovente final não fecha muito com a realidade da conduta anterior do rapaz, ainmda que o ator seja ótimo e quase convença que no fundo no fundo qualquer desvio de conduta pode ser salvo por São Winnicott (não, não há psicanalistas winnicottianos "tratando" o rapaz, ele aparentemente cai em si mesmo ao proteger um garoto de 12 anos que é preso num furto onde estavam de parceria e ele assume a culpa; só que minha experiência de trabalhar em Funabem no passado me deixa suspeitando que depois que o filme acaba ele possa... vender a namorada porque deve dinheiro aos traficantes por ter querido o bebê de volta. "Bloom" já foi debatido por Marcos: de nada adiantam as belas nuvens e o desempenho quase chapliniano de Stephen rea. Como filme autônomo e indpendente do livro que nunca li não diz a que veio. para os que têm a referência literária poderá ser um palimpesto bom ou ruim. para os que foram ao cinema é um filme formalmente acadêmico com conteúdo supostamente revolucionário, Mais com menos... dá menos nesse caso. Crepúsculo do festival, resta a msotra de "repescagem" com filmes que chegaram atrasados ("Reis e Rainhas", "Sophie Scholl", finalmente, ambos domingo á noite no odeon, estarei lá). "Escola do Riso" sobre dois japoneses (eles de novo?) que querem omontar "Romeu e Julieta" teria sido a boa surpresa prá jmuitos conhecidos meus. Mas passa de sábado para domingo... às duas da manhã!!!!! Os critérios da repescagem são salve-se quem puder. Entendi que essasw cópias, legendadas em ingl~es fazem o circuito dos festivais e por isso chegam atrasadas ou tem que ir embora correndo. Às vezes são liberadas para UMA ÚNICA exibição, daí o desespero dos cinéfilos que sempre sonham em descobrir um "filme de suas vidas" no meio de lodo (antigo título de novela da Rádio nacional no iníco dos anos 1950: "Também há lírios no Lodo", "a SUA novela" do Grante teatro Colgate-palmolive... "Para um banho de beleza... palmolive-se (do verbo palmolivar-se) dos pés à cabeça". Hoje, pacienta de um ginecologista especializado em fertilidade responde sobre sua vida sexual: "De vez em quando transo com um P.A." - e o que é "P.A."??? - "Pau Amigo", responde a moça, "claro, aomos amigos que transam, de vez em quando nos convocamos para desafogar!" De Pal Molive para Pau Amigo assim se passaram mais que 10 anos, Emilinha Boirba morreu, quem vai cantar Chiquita Sacana, Juanita Banana, Jansyta Bacana?????????????????????????????????????????????????????????????????? Maria do Carmo Miranda da Cunha não era brasileira, como muitos pensam. Nasceu em 9 de fevereiro de 1909 na freguesia de Marco de Canavezes, Província de Beira-Alta, Portugal. Veio para o Brasil ainda muito pequena, com apenas 10 meses de idade e foi criada bem no meio da boêmia carioca. Adorava cantar e isso lhe custou o emprego como vendedora de gravatas. O dono do estabelecimento a despediu por distrair os colegas que paravam de trabalhar para ouvi-la. Sua estréia nos palcos cariocas foi um sucesso. Josué de Barros, compositor conhecido da época, quando a viu, percebeu seu potencial e resolveu investir sua carreira, pagando-lhe cursos de canto e dicção e, ainda encaminhando-a para todas as rádios e gravadoras. Este esforço não foi em vão. Logo veio a gravar seu primeiro disco.
Carmen Miranda era uma mulher baixinha...alguma coisa por volta de 1m 53. Em função de sua pouca estatura gostava de usar aqueles saltos enormes, plataformas mesmo de tão altos. Por causa disso o radialista César Ladeira a batizou, carinhosamente, de “ A pequena notável”.
No final da década de 30 já estava contratada como artista exclusiva do Cassino da Urca. Cantava os melhores compositores da época, como Assis Valente e Ary Barroso. Junto com o conjunto Bando da Lua, cantava a música “O que é que a baiana tem” quando foi vista por Lee Schubert, empresário americano de muita influência na Broadway. Esse contato rendeu a Carmen o ingresso no universo artístico norte-americano. Seu sucesso foi absoluto. Não tardou a ser chamada para fazer um filme em Hollywood. Outro sucesso. Seis meses depois de ter chegado na meca do cinema mundial foi convidada a deixar as marcas de suas mãos, pés e o seu autógrafo registrados na consagrada “ walk of fame”. Era uma consagração nunca vista por uma artista brasileira fora do Brasil. Carmen tinha alcançado o topo de sua carreira. Era reconhecida dentro e fora do Brasil. E no exterior estava no mesmo patamar das maiores estrelas internacionais. Mas todo esse sucesso tem um preço e Carmen sentiu no corpo o cansaço e o esgotamento que tantos compromissos acarretaram. Volta para o Brasil em dezembro de 1954. Fica reclusa no Copacabana Palace Hotel durante quatro meses. Mas as suas obrigações com produtores americanos a obrigam a voltar para os estados Unidos. Durante um desses compromissos, teve um discreto desmaio. Poucos perceberam. Voltou para sua casa em Beverly Hills onde recebeu alguns amigos. A última pessoa que deixou a casa saiu às 3 e 30 da manhã. Foram as últimas pessoas a verem Carmen Miranda com vida. Foi encontrada morta logo depois. Era o dia 5 de agosto de 1955. Carmen morria aos 46 anos de idade.
Aquela mulher pequena , com bananas equilibradas na cabeças e sapatos de saltos plataforma deixou de ser uma cantora de renome internacional e virou um mito. Nunca nenhum brasileiro chegou tão longe em sucesso e fama como ela. Era realmente uma pequena notável.... |
Voltar ao topo [Aeternus:4798] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-06) - RE: Carmen Miranda
Um inegável galardão de nossa Chiquita Bacana é o fato de seu 'feminino' ter sido incorporado pela ala gay. Carmen é estereótipo da desmunhecada, dos alhos e penduricalhos, das caras e bocas e rebolados mils. O gay puto amarra-se nesse 'impossível', nessa coisa de quanto-mais-tenta-mais-vê-que-jamais-chegará-lá... |
Voltar ao topo [Aeternus:4804] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-06) - RE:RE: Carmen Miranda
uma chamada importante, a do Florião, que vai além da proposta do LFG de uma "caricatura". |
Voltar ao topo [Aeternus:4809] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-07) - Belo Sol Negro no Crepúsculo de Festival
No último dia do festival (oficial, porque hoje começa a chamada "repescagem" de filmes que não chegaram a tempo, como Sophie Scholl, na verdade, portanto, pescagem sem "re-") foi para mim uma surpresa (talvez não para muita gente) a excelência do filme "O Jardineiro Fiel" extraído de romance de John Le Carré e dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles que antes fez "Cidade de Deus". Resisti muito a assisitir "Cidade de Deus", acreditando mais nos críticos que acusaram uma linguagem de filmete de propaganda, de comerciais, de video clipe, para um tema socialmente indigesto: favelas cariocas, miséira, tráfico de dorgas, dependência, muita violência, falta de perspectiva de cresimento social prá quem nasceu na m......, etc etc. Afinal, o que ver nas telas para quem trabalhou na extinta Funabem? (- ainda que nos início dos anos 1970, o que fazia da insituição na época uma verdadeira creche de bebês bonzinhos se comparados com os idas dehoje pós- escalada de violência, abandono, gravidez precoce, avanço do tráfico e etc sobre os jovens desassistidos deste RJ e Brasis afora) Só me rendi numa espécie de relançamento quando recebeu várias indicações para o Oscar, passando do lado do meu consultório no Roxy em horário sem atendimento. Tudo o que disseram de questionável e de rui podia ser verdade; mas tudo o que disseram de bom, também era verdade. Eficientíssimo, o filme. Dei o antebraço a torcer. Agora, dei o braço inteiro: "O Jardineiro Fiel" é um filme daquele tipo "político" quase na linha de um Costa-Gavras, embora o foco não seja nenhum governo diattorial de direita, mas as famosas multinacionais de laboratórios e suas pesquisas "in anima nobile" no quintal do primeiro mundo que somos nós, a América LatRina, a África e regiões similares. Menos europeu do que os filmes do Costa-Gavras, seguindo a eficiência anglo-saxão de filmes de espionagem, me lembrei de um subvalorizado "O Americano Tranquilo" com Michael Caine (que merecia 3 Oscars só por esse desempenho) baseado em Grahan Greene, se não me engano. O desempenho de todo o elenco é igualmente eficiente, mas o casal central se destaca: o Ralph Fiennes parece ter vocação masoquista de personagens fatalistas e fatalizados, depois de ter aparecido como carrasco nazista nA Lista de Schindler: como funciona bem em personagens trágicos tipo "Paciente Inglês" e o de "Fim de Caso" (com a Julianne Moore, este com certeza baseado em Greene). A Rachek Weisz lembra uma Ana Paula Arósio menos bela, mas mais parecida com gente e com a personagem comovente que ela interpreta. O filme é muito bom e muito, muito triste. Se chamaram o Meirelles porque ele estetizou a favela e amiséria em "Cidade de Deus", desta vez ele só repete uns galos e galinhas correndo numa aldeia miserável africana como auto-citação. A fotografia é bonita sem ser enfeitadinha e o roteiro ajuda muito o diretor. Sua estréia em filme internacional é infinitamente superior à roubada em que entrou o Walter Salles no triste "Chuva Negra", nem dá prá comparar. O chinês que me encantou no terceiro episódio de "Eros" começa tão bem "2046" que pensei que, finalmente, tínhamos um cineasta do porte dos grandes nomes dos naos 1950/60. Mas, infelizmente ele repete os defeitos que não me deixaram admirar "Amor à flor da pele" (I'm in the mood for love) tanto quanto a maioria das pessoas elogiou este filme anterior do cara: o filme se alonga, é repetitivo, tautológico, reverberante, apesar das belas chinesas, da narrativa em off literária, da beleza plástica, da trilha musical (que vai de "Casta Diva" a "Siboney", "Perfidia" e Mel Thormé vanatndo música americana de Natal. Longe de ser ruim, é frustrante em comparação à obra-prima de seu médio-curta metragem do episódio de "Eros": parece que que a fôrma do tempo fez o chinês mais sintético e condensou suas qualidades espaçosas e expnasivas que acabam "esfriando" o que poderia ser um filmaço. Não houve aplausos ao final da sessão lotada e cheioa de expectativa. Já o "Jardineiro Fiel" recebeu aplausos entusiasmados e longos. Entra em cartaz semana que vem. Vale! |
Voltar ao topo [Aeternus:4825] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-09) - outro site...
 outro site que às vezes frequento pediu cotações dos filmes que vimos na mostra, sendo ***** IMPERDÍVEL: Não pode deixar de ser visto! **** Recomendado com entusiasmo *** Recomendado ** Pode ser visto (com algum interesse) * Dá prá ser visto, a opção é sua 0 Você não pode deixar de perder! Evite!
Me recuso a dar uma cotação global para "Eros" e dou 0 para o episódio de Antonioni, * para o do Soderbergh e ***** para o do Wong Kar-Wai, "A Mão" Don’t come knocking**** Caché**** O Jardineiro Fiel**** Uma Mulher contra Hitler**** (vi em vhs) Ibéria**** Eu sou viciado em sexo*** Sra. Henderson apresenta*** Fogueira*** 2046*** Roma*** Passaporte para a Vida*** (vi na mostra de uns 2 ou 3 anos atrás) A Mulher de Gilles** El Aura** L’Enfant** Free Zone** Where the truth lies** Em Minha Terra** Más Temporadas* Kim Novak nunca nadou aqui* Garoa Portenha* Cachimba* Bloom* Morrer em San Hilario* Dias no Campo* La Passione di Giosue* Dallas entre nós* Sagrado Coração 0 O Gosto de Chá 0 Café Lumière 0 Frio sol de inverno 0 A febre 0 The Wayward Cloud 0 Rumo ao Sul 0 Além desses novos ou semi-novos, vi clássicos como Ele era um Pai**** e Gosto de arroz no chá verde¨***, ambos de Ozu; da mostra ocupação na França, além do "Passaporte para a Vida" (semi-novo) revi O Corvo*** e Boulevard do Crime****. Passaram na mostra outros clássicos que vi em revi no MAM ou na ABI há tempos e não revi agora: caso de "Outubro" e "Encouraçado Potekin" que estão acima de *****, assim como o maravilhoso e deslumbrante - quem nunca viu vai lá que tá na repescagem "Era uma vez em Toquio" do Ozu, obviamente *****
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Voltar ao topo [Aeternus:4827] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-09) - RE:outro site...
Gallego não é nosso reporter exclusivo de cinema, donde a idéia dos outros aplicada aqui é muito bem vinda. Adorei ver a pontuação dos filmes, é interessante como um resumo com sinais informa e estimula. Espero um dia poder assistir algum destes ( só vi o "Uma mulher contra Hitler", se for o da Sophie Scholl...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4837] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-10) - Reis e Rainha
Na repescagem de domingo, "Reis e Rainha" houve quem saísse ao longo das 2 horas e meia de filme - e na saída escutei comentários como "nada a ver", "sem noção", "misturando coisas". Mas durante a projeção também havia uma parte da platéia rindo em horas pertinentes, sintonizada com momentos de humor do filme que atenua um pouco da sua crueldade. Bem cinema francês, bem literário, com ótimas citações que aqui transcrevo de cabeça, resumidamente e empobrecidas fora dos contextos ("O Passado não é o que se perdeu, mas o que se mantém"; "Sede - é a água que nos ensina; terra, é o que vem depois das águas; êxtase é a angústia que se atenuou; hoje não tenho sede e tenho os pés na terra.") Tão literário que tem primeira parte, segunda parte e epílogo. Com direito a um "sub-capítulo" com título "D'entre les morts" ou "De profundis". Desempenhos fantásticos com destaque para Mathieu Almaric, César (oscar francês) de melhor ator neste filme, certamente tão francês que recebeu o tradicional prêmio Louis Delluc de 2004. Prá quem lembrar de "Alice e Martin", M. Almaric era o irmão homossexual de Martin, Benjamin. O personagem deste filme, sem ser gay, tem semelhanças histriônicas que o ator usa e abusa numa boa. Fiquei pensando nessa característica que criticam em filmes franceses: "são muito falados". Não há como discordar, franceses falam muito, adoram falar coisas inteligentes mesmo que não sejam; desde que els achem que são boutades espertas, tome palavrório. Mas não sei se é isso que caracteriza grande parte dos filmes frnceses, não necessariamente bons nem necessariamente ruins. Acho que se são "muito falados" é porque têm a inclinação de serem muito "literários". O que quero dizer com isso? Independentemente de origens em romances (e preferencialmente com roteiros originais) , têm histórias e personagens e acontecimenmtos que poderiam render uma pequeno livro, "a novel" como chamam os anglo-saxões. Dão trabalho de serem acompanhados, exigem atenção do espectador e identificação com tramas sem "viradas" rocambolescas, sem grandes "ganchos" para prender a atenção, mas com muitos acontecimentos que até podem acontecer no cotidiano. Com alguma carga dramática, é claro. O melhor exemplo de cinema "literário", curiosamente, talvez esteja em alguns filmes do italiano Visconti, de quem se dizzia que filmava como quem escreve romances: "Rocco e seus irmãos" daria um livro. E este "Reis e rainha" (não gosto do título), também. Há pequenas "viradas" na idéia que tínhamos dos personagens a partir de suas primeiras aparições. Isso acontecia no subvalorizado e até malhado "Alice e Martin" que me encanta especialmente, e que tinha até maior carga dramática (rejeições, mortes violentas, etc) do que neste filme, de resto, ao meu ver, bastante interessante para quem tem paciência e curiosidade por histórias verossímeis em relação ao cotidiano. Afinal, mostra-se que a auto-imagem nem sempre corresponde à imagem que os outros têm de nós; que vivemos com nossos auto-enganos tanto complacentes como exageradamente auto-críticos; e que o que pode ajudar muitas vezes a sobreviver, física e e psicológicamente, enfrentando obstáculos externos poderosos pode ser... o ódio. Tudo isso, com a proverbial elegância da língua, do estilo e com direito a piadinhas, tais como quando um personagem se dirige à psiquiatra interpretada (numa participação do tipo "cameo") por Catherine Deneuve já madurona: "Já lhe disseram que é muito bonita?" - e ela, na bucha e despachando o sujeito: "Muitas vezes" - e muda de assunto. Não deixa de ser desconcertante como o filme, no todo, é. Sem ênfases, quase. Doucement... com violência e crueldade nas entrelinhas.
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Voltar ao topo [Aeternus:4840] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-10) - 16. Rois et Reine
( ainda hoje edito o 15. Sophie Scholl )
'Afinal, mostra-se que a auto-imagem nem sempre corresponde à imagem que os outros têm de nós; que vivemos com nossos auto-enganos tanto complacentes como exageradamente auto-críticos; e que o que pode ajudar muitas vezes a sobreviver, física e e psicológicamente, enfrentando obstáculos externos poderosos pode ser... o ódio'. Muito bem colocado por Gallego. À saída e no táxi voltando para casa com ele eu disse que teria que pensar bastante para colocar este filme em palavras. A longa metragem privilegia os personagens secundários, abrindo abordagens íntimas e sociais num mosaico desconcertante. Para se ter uma idéia, num filme assim intimista, temos uma cena de assalto num pequeno mercado de variedades. Cena que amplia essa discussão do exercício do ódio em nosso cotidiano. Há uma espécie de conversão e reversão constante do ódio ao longo das situações que vamos assistindo : os pais de Ismael, o herói-louco ( Mathieu Amalric ) são patéticos, convivem num pacto engraçadíssimo e beirando o desvario em sua conduta. Promovem uma reunião familiar com todos os irmãos para anunciar a 'adoção' - não oficial, mas adoção 'de fato', com direitos garantidos - de um amigo pouco abastado que com eles conviveu durante muitos anos. No hospício, nosso herói pede que os pais o desamarrem da maca. O pai sorri amável, bonachão, e diz 'você fez por merecer...soube que saiu vestido de capa de mosqueteiro', a mãe corrobora com um gesto tranqüilo. A narrativa caminha em paralelo com a de Nora ( Emmanuelle Devos ), ex-parceira amorosa de Ismael. O capítulo 'I' tem seu nome, e ela nos é apresentada de forma centrada, numa Paris despojada, com foto propositalmente 'sem graça' e ao som de "Moon River". Me incomodou a decisão estética-narrativa de fazer um corte picotado do fluxo das imagens, diminuindo assim metragem e 'acentuando' tensões. Seja com a personagem solitária, seja em seus contatos sociais, esse picote acentua o fractual, o efêmero ( pessoalmente prefiro, de todo, o timing clássico, a tendência ao rigor narrativo ! ). Ela cuida de seu pai, à beira da morte com um câncer devastador. Sua irmã está tentando vir de Grenoble, está sem dinheiro e pedirá carona. Recusa ajuda direta da irmã nesse sentido. Desse núcleo em diante vamos sabendo de muitas coisas. Da parte de Ismael, sua revolta com a instituição psiquiátrica onde foi colocado por interdição legal de chegados. Revolta com a psiquiatra ( Deneuve ), atenuada pelas boas notícias de um advogado ultra-picareta, que usa sapatos vermelhos e coloca-os sobre sua mesa. Advogado felicíssimo com o atestado de loucura de seu cliente 'durante o ano de 1995', o gancho jurídico que precisavam para as querelas em questão. Ismael tem um bom relacionamento com sua psicanalista, uma negona de 250kg. que lembra nossa Clementina de Jesus. Psicanalista de peso. Ismael é instado por Nora a adotar o filho desta, filho que nasceu com o pai suicida já morto ( suicídio discutível, e a partir de dissesões do casal : afirmo aqui o que depreendi da trama...). Nora, por sua vez, abalada por tudo isso, mantém um relacionamento amoroso com um homem bem sucedido financeiramente ( "tenho uma certa vergonha, mas confesso que gosto disso" ). Confessa a Ismael que tanto ela quanto o parceiro não sentem falta de sexo, mas quando acontece 'gozam rápido - e isto é bom' ; fumam maconha e às vezes experimentam heroína, que ele 'fala pouco' e é incapaz de relacionar-se com o menino ( a pulsação das perguntas e respostas rápidas mas ditas com extrema tranqüilidade pela Emmanuelle nessa cena é notável ! Atriz magnífica ! - e foi uma das que mais ri ao longo do filme ). Desgraça pouca é bobagem aqui, e lá vamos nós. Ismael relaciona-se com uma moça do hospício, especializada em sinocultura. Despreza-a em seguida, não mais a visitando conforme prometera. Balda ligações telefônicas, cortando possibilidades entre ambos. Até que no fecho do terceiro capítulo ele comparece com sua capa de mosqueteiro numa festa comemorativa da saída dela do manicômio. Festa frequentada apenas por chinas, e onde eles refugiam-se num quarto para esfolarem-se. Temos também, no contraponto, uma passagem fortíssima de memórias do pai moribundo de Nora, dirigindo-se à filha, confessando seu intenso amor por esta, só superado pela decepção e ódio pelos rumos que ( segundo a visão dele...) ela adotou : risos desdenhosos de carinho para escamotear uma profunda amargura, postura geral de Rainha ao saber-se preferida em relação à irmã - "você sempre foi a mais bonita, e soube usar isso me seduzindo e depois me usando"; "não há como evitar, mas acho uma desgraça eu morrer antes de você. Gostaria de poder imaginar você morrendo em meu lugar, vê-la definhar, destilar essa amargura" ( coisas similares, até onde lembro ) - e seguimos estrada nessas belezas existencialistas. Nora arranca essas páginas de um caderno que o editor-xereta do pai publicaria, uma espécie de pathos do autor, falando para a posteridade à beira da morte. Êta filme difícil !...e bom ! Eu o consideraria magnífico não fossem as resvaladas de estilo e forma, principalmente em fotografia e montagem. Woody Allen usou o recurso do picote que citei em "Mighty Aphrodite", colocando à flor da pele suas tensões ali. Neste "Rois et Reine" temi, em certos momentos pelo desandar do projeto, que no entanto...ressuscitava plus et plus fort. O ângulo literário, muito utilizado e ressaltado pelo Gallego, funciona muitíssimo bem. Pontua a narrativa enquadrando-a e aos personagens, e no mínimo conforta-nos sobre a sanidade mental do diretor, Arnaud Desplechin. Como o parágrafo que inicia estes comentários aborda, o circuito de ódio e reciclagem deste pode ser construtivo. Comentei com meu amigo, também à saída do filme, que apesar de tanta desgraça e amargura o drama não é 'pra baixo' nem niilista. Afora o humor todo que o perpassa, há uma determinação de aprendizado na personagem de Nora. E no 'epílogo' Ismael passeia com o menino fazendo uma longa digressão sobre sua decisão de não adotá-lo. É quando recita alguns conceitos ressaltados por Gallego, muito ligados à Natureza. Nora termina tranqüila, falando-nos de frente durante um arrufo com a irmã, finalmente chegada e chorosa, logo após parar de administrar morfinas&afins ao pai. "Não queria que ele continuasse sofrendo daquele jeito." Ao rasgar as páginas desdenhosas escritas pelo pai entregar ao editor o caderno 'passado a limpo', está matando o pai de novo. Mesmo tempo em que preserva a visão que sempre teve do relacionamento entre ambos, o carinho que ela achava que tinha por ele...Razão para Hélio Pellegrino : 'o outro é o escândalo para o nosso eu'. Va savoir.
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Voltar ao topo [Aeternus:4843] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-10) - RE:Reis e Rainha de Copas
 Gallego e Florião comentaram ricamente um filme que, espero, poderemos ver em breve nos cinemas. Achei interessante a forma pela qual Gallego comentou sobre franceses verborrágicos e concluiu que era um filme quase "literário". É estranho um povo sofrer dessa mania da palavra ( principalmente da escrita) e acho que minha pouca experiência o confirma. Certa vez há dezenas de anos estive em Paris e liguei um rádio num destes canais tipo "Radio MEC". Tocavam Beethoven. Lindo. No entanto, ao mesmo tempo em que se escutava a música, se ouvia entrevistas com o maestro, histórico da peça e da vida de Beethoven, explicação sobre os instrumentos...Deleite, impossível. Informação ao máximo. Já na Inglaterra, pouco depois, me surpreendi com a importancia das legendas. Tudo tinha manual ou filactera. O noticiário do dia era transmitido e em vez do Pedro Bial ou similares, havia uma página escrita reproduzindo o que era falado.Ou surgiam mapas. Para ligar a luz ou abrir as torneiras para tomar banho, havia plaquetas com instruções. Nunca li tanto como quando estive em Londres. E então... um filme literário? Será que vale como cinema? |
Voltar ao topo [Aeternus:4844] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-10-10) - filme literário é cinema?
Jansy questiona, pertinentemente: filme literário? Será que vale como cinema? Na minha opinião, um filme "literário" pode ser bom filme ou mau filme, ou meio mais ou menos. Se for "Rocco e seus irmãos", poderia ser um romance de um Thomas Mann italiano sem deixar de ser um grande filme, cinema de primeiríssima. Muitos filmes baseados em romances nem são literários: são transposições fracasm dispensáveis, sem tradução em linguagem de cinema. A idéia é que alguns grandes cineastas faziam filmes como se fizessem (em cinema) romances (Visconti), circo (Fellini), ópera, etc etc |
Voltar ao topo [Aeternus:4847] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-10) - 15. Sophie Scholl - Die Letzten Tage
 Na mesma balada de "A Queda - os Últimos Dias de Hitler", o filme veste-se da magnânima arquitetura universitária de München e dos assustadores porões cinzentos de Gestapo para trazer-nos o Deutsch 'OLM' ( Outro Lado da Moeda ) : a organização 'Rosa Branca', anti-nazista, dizimada pela politzei em fevereiro de 1943. A jovem atriz Jana Jentsch, com seu olhar cheio de esperança e expressão luminosa, dá a dimensão do drama dos que amargam a inexorável inscrição no corredor da morte prematura. Mártires. Mesmo presa e sabendo-se perdida, Sophie anseia por "mais dias ensolarados". Pelo dia em que a Alemanha tal e qual concebia tornaria a existir. Mas os Tribunais de Exceção insistem em mudar meteoricamente as regras do jogo. Por isto mesmo são 'de exceção'. O filme coloca de forma interessante o mimetismo que Hitler conseguiu dentro da Alemanha, a sólida e irrefreável adesão ao fanatismo que ia vendendo a berros e babas raivosas, apoiado pela propaganda. Desde o alto magistrado que 'julga' os réus da Rosa Branca diante de militares e advogados fantoches, até o mero secretário do investigador da Gestapo, espalharam-se 'mini Hitlers' por toda a sociedade, como num câncer metastático. Tanto "A Queda..." quanto este "Sophie Scholl..." trazem a adeqüada e aproximada dimensão que pode tomar o Horror Humano. Força, plasticidade, questionamentos instigantes e todo o Império do Desvario. Se em "A Queda" a cena mais dantesca era a de Magda Göebbels envenenando metodicamente e em fileira seus 6 filhos sedados previamente por tranqüilizantes, em nome do Reich que se esvaía, neste "Sophie..." impressiona a despedida dos pais da ré e de seu irmão Hans, ambos confortados e elogiados pelos genitores. E tanto no rosto de Göebbels no filme de Oliver Hirschbiegel quanto no do inspetor Mohr neste de Marc Rothemund estampam-se os piores abismos da alma. Sem apelos para cinematografia engatilhada, choros e abraços além do necessário. O verdadeiro Horror já é comoventemente asqueroso. |
Voltar ao topo [Aeternus:4848] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-10) - 17. Enduring Love
 O romance de Ian McEwan, que inspira este drama, privilegia a paranóia homosexual enrustida como pedra de toque. Maiores virtudes : a plasticidade e construção sem atropelos dos acontecimentos. Maiores defeitos : um certo imobilismo dos personagens, que parecem atrelados a um 'destino fatal'. Um acidente com um balão nas pradarias vizinhas a Oxford logo no início da trama rompe uma 'linha favorável' íntima no personagem central, que a partir dali e da culpa inerente aos acontecimentos - culpa bastante questionável - vai perdendo-se dentro de si mesmo.Do mesmo modo que em "La Moustache" e "Rois et Reine", as insuficiências na relação amorosa vão ganhando campo. A escultora e quase-noiva do hesitante parceiro no fatídico pique-nique desaponta-o, mais adiante, quando questionada sobre o por que de não esculpir seu rosto responde "você é meu amor...sinto atração por você, vontade de amá-lo, de tê-lo comigo. Não de esculpi-lo." Bom desempenho de David Craig no papel central, apoiado pela delicada presença de Samantha Morton. |
Voltar ao topo [Aeternus:4849] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-10-10) - filmes literários...
 A resposta do Gallego foi bem completa: se o diretor é bom, se o fotógrafo for bom... cinema pode ser "literário", circense, operístico sem deixar de ser grande cinema. Estava pensando no filme "Lolita", por exemplo: o livro é tão enormemente mais complexo e verbal do que aparece com Kubrick ou com Lynne. Mesmo assim, gosto imensamente dos dois porque fica nítido que uma linguagem não esgota a outra. Se bem que Schiff, o roteirista do filme de Lynne ( ou foi o próprio Kubrick? Sem tempo pra conferir), observou que " se o livro fosse menos bom o filme sairia melhor"... Agora estou lendo outro livro de Dan Brown, aquele do "Código da Vinci". De vez em quando um best-seller pode distrair os animos que, no meu caso, andam meio pesados. Este se chama "Anjos e Demonios" e tudo indica ser o pior dos três em oferta nas livrarias. Como um outro do Sidney Sheldon ( esse, interrompi nas primeiras dez páginas) já parece ter sido escrito para ser filmado. Os heróis bonitinhos, eruditos, ecológicos e sexy se engajam pelo bem numa movimentação exuberantemente pro-ativa. Lendo estas coisas sou levada a pensar que, por pior que as coisas pareçam estar, já foram piores no passado! O que ainda tenho dificuldade de abandonar é uma crença que me acompanha desde que me entendo por gente: há sábios no mundo que garantem que deus escreve certo por linhas tortas, o bem triunfará e a justiça tarda mas não falha ... Não combina com nada do que vejo acontecer e, ainda assim, persiste como um ideal vagamente hegeliano, uma "bejahung" cega em briga com a realidade. Et in Arcadia Ego... |
Voltar ao topo [Aeternus:4864] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-12) - RE:17. Enduring Love
Marcos Florião teve muita consideração com este filme. Não conheço o romance de Ian McEwan, autor que me decepciona e irrita mais do que agrada ou satisfaz. Ultimamente ele vinha crescendo aos meus olhos com "Amsterdan" (premiadíssimo, o que não foi tão festejado pelos fãs regulares do escritor que consideram este livro "menor" em sua obra ; como eu não sou fã dos livros "maiores" do mc Ewan, gostei muito) e "Reparação", este muito muito bom, embora tenha a afetação habitual do autor na ambição de uma "virada" e surpresinha final que geralmente é pobre. Outros que li ou tentei ler achei péssimos, não entendendo o ibope do cara junto a crítica, prêmios outros e leitores intelectualizados. Um tal de "Cães Negros" começava muitíssimo bem, mas desandava logo em seguida. Este filme "Amor Para Sempre" sugere que o livro tb começa muito bem (como o filme), mas o resto não passa de um versão homo de "Atração Fatal", repetindo o estereótipo do doente mental que é mau, assassino, perturbando a vida dos "normais". Apesar do bom desempenho do ator prinicipal, seu personagem com a culpa de sobrevivente de um malfadado acidente é um "gancho" mal resolvido para substituir a "culpa" de pular a cerca nos filmes na linhagem de "Atração fatal" (que eu acho uma droga). A personagem feminina não é simpática e a atriz Samantha Morton parece estar de saco cheio da personagem, da vida e de si mesma. A atriz tb está ficando estereotipada com cara meio cansada da vida em seus últimos filmes onde ainda estava muito bem. Prá quem não lembra, ela foi a principal "pre-cog" de "Minority Report", fez mudinha no filme do Woody Allen com o Sean Penn de guitarrista escroto, "Poucas e Boas" [Sweet and Lowdown], trabalhou num com o Tim Robbins meio ficção científica, acho que era "Código 46" e um belíssimo de elaboração da perda de um filho que se chamava "In America" e que aqui se chamou "Terra de Sonhos", melhor que todos mais famosos do mesmo Jim Sheridan de "Meu pé Esquerdo" e "Em nome do Pai". O ator Rhys Infans é lembrado como o amigo meio doido do Hugh Grant naquele filme que ele trabalhou com a Julia Roberts e que se destinava a provar que uma atriz de Hollywood pode ganhar 20 milhões de dólares por filme e ser boa gente. Qualquer semelhança com a Julia Roberts seria mera coincidência ou era mesmo propaganda da moça? Ainda por cima, a cena final copiava sem a mesma classe o final de "A Princesa e o Plebeu". Sem Audrey Hepburn, ainda por cima. E sou mais o gregory peck do que o Hugh Grant.como galã romântico. O diretor é o mesmo do filme que mencionei acima ("Notting Hill") que só acertou mais ou menos num filme que só vi na TV com o ben Affleck e o Samuel L. Jackson que tem uma inticada história de troca de pastas, mas mesmo assim, nada de mais. Desta vez, ele se sai bem na super-elogiada cena inicial que não dá prá salvar o filme d eum desastre maior do que o mostrado nesta cena. Fico perplexo com os prêmios que o filme recebeu - ou foi indicado, incluindo vários para o diretor, já que como cinema a narrativa é ruim, tradicional, sem ritmo, perdendo-se em circunlóquios do roteiro e com uma ceninha final já após os créditos que dá pena de se pretender espertinha e não passar de uma babaquice batida e sem graça, crente que tem. Típico do Ian -e, pra desmascarar de vez sua fama de escritor de excelência, lembro que assinou o roteiro de um filme onde aquele garoto (hoje ex-garoto) de "Esqueceram de Mim" fazia o papel de um psicopatinha. O filme "Uma Estranha Pasagem em Veneza", também romance do Ian, apesar de roteirizado pelo Harold Pinter era típico dessa pretensão do mcEwan que acaba como mau hálito intelectual na maioria das vezes. Prá mim, ele é apena um profissional do ramo que poucas vezes acerta. Neste filme "Enduring Love" ele ainda é o produtor, o que deixa claro sua "co-autoria". Na busca do insólito, ele deixa pontas soltas como em um mais antigo com a Isabella Rossellini e Anthony Hopkins dirigido pelo John Schelsinger passado na Berlim de pós-II Guerra, início dos anos 1950 que apesar de não ser nenhuma brastemp era bem melhor do que este estropício. |
Voltar ao topo [Aeternus:4866] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-12) - RE:RE: balancing Gallego
 Vou puxar a trave da balança toda mais ao centro das diatribes do Gallego. * Jim Sheridan Adoro "The Field"( Richard Harris )e "In the Name of the Father". Um pouco menos "My Left Foot" ( que viveu mais do talento de Daniel Day-Lewis ) e "The Boxer" ( idem ). Desanimei com a 'fase americana' dele ( "East of Harlem") e nem quis ver. * Samantha Morton Dela só assisti este "Enduring Love", e leio a apatia dela mais identificada com a personagem mesmo da escultora, sempre à espera de alguma mudança. Ela é simplesmente cool demais, como tantas e tantas mulheres. Quer ser descoberta sem muito esforço, sem fazer grande coisa, sem revelar-se ou desvelar-se. Um ser-no-mundo. Talvez pronta para ser esculpida por outrem que não a ame... * Ian McEwan Nitidamente o manipulador artificioso do romance. O cara que escreve pensando no box-office. Até arranha temas interessantes, mas seu calculismo danifica qualquer vôo mais longo. Ele não consegue deixar de plantar o espetaculoso nas tramas, é algo como um diferencial corrido, que faz o veículo cambar para um lado só... "The Comfort of Strangers" ( no Brasil "Uma Estranha Passagem em Veneza", valha-me Deus...) poderia ser muito melhor, abordando a mesma paranóia homo enrustida desse "Enduring Love". Podem ser considerados gemelares, né ?
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Voltar ao topo [Aeternus:4871] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-12) - comentando a partir do Marcos
 Marcos: pena vc não ter assitido "East of Harlen" que era o título de trabalho, posteriormente preterido no lançamento do mesmo que elogiei como o melhor filme do Jim Sheridan, "In America" (o título pensando anteriormente era melhor, lembrando quando Adão e Eva foram despejados do Paraíso, por usar de serviços não incluídos na taxa divina (a famosa maçã), sendo expulsos por um anjo-leão-de-chácara que mandou-os ir morar numa região que ficava exatamente a... "East of Eden"). No Brasil ficou pior ainda o nome do filme ("Terra de Sonhos") porque na verdade, o que se via era um pesadelo que o casal do filme já trazia dentro de si. Duas atrizes-mirins abusavam do direito de serem graciosas e competentes em seus papéis - e a Samntha Morton utilizava bem sua expressão cansada da vida para a personagem, órfã de um filho que morre antes do filme começar. A pobreza de irlandeses imigrantes no Harlen novaiorquino e um ótimo ator que não sei que é deixaram-me ótima lembrança deste filme que não acho que seja de uma "fase americana" do Jim Sheridan. As ruas do harlen foram filmadas em estúdio na Irlanda! Concordo que o diretor é legal mas não tão interessante assim até este "In America". Os outros filmes dele são legais mas nada tão especial, devendo upgrade aos atores(Daniel Day-Lewis que ele usa e abusa, Emma Thompson, a própria Samantha, etc). O que vc gosta mais (The Field) só vi pedaços na TV, não tenho como avaliar. Dêem uma olhada no tal "Terra de Sonhos", eu gostei. Achei que deria uma elaboração da perda de um filho do Sheridan, já que o roteiro é assinado por ele mesmo e uma mulher com o mesmo sobrenome, mas o in]mdb informa que ele utilizou suas vivências quanto á morte de um irmão dele. O que não deixa de ser uma forma até mais elaborada de "transformação" da experiência vivida em criatividade artísitica. Quando a cineasta Lucia Murat foi debater seu excelente "Quase Dois Irmãos" lá na Sociedade de Psicanálise uma pessoa mais prosaica disse que pensara em ver, na tela, a experiência dela, Lucia, como ativista de esquerda nos anos 1970, posteriormente presa e torturada. Santa ingenuidade! O filme era sobre um homem ativista de esquerda, preso e torturado - no passado - e hoje em dia. Transformação de uma experiência vivida em arte, sem ficar parada no factual e documental d euma vida, elaborando vivências pessoais em vivência compartilháveis mais universais. Esta é uma das formas de artistas de gabarito usarem (e de nós, público, apreciarmos) a criação artísitca. Marcos: você não vê nem Woody Allen? o filme do guitarrista escroto foi um dos mais apreciados (ou menos malhados) do Woody em fase mais recente pós-"Poderosa Afrodite". A Samntha estava excelente num papel de mudinha e chegou a ter indicação ao oscar! Vale também. E eu 0 na contra-mão - prefiro o Spielberg mais recente do que no dos blockbusters garantidos nas bilheterias do passado: mais ainda do que "Minority report", sou fã de "Inteligência Artificial". Jansy aproveitou ambos para belos trabalhos reflexivos sobre um monte de coisas mais importantes até do que os filmes. Sem preconceitos, fiquei fã do Spielberg mais recente. E quanto mais me lembro mais odeio "Enduring love" e o "Código da Vinci", sub-Umberto Eco, sub-"Pêndulo de Foucault" do Eco (que nunca mais conseguiu, dentre os que li, repetir a junção qualidade-divertimento-curtição de "O Nome da Rosa". |
Voltar ao topo [Aeternus:4872] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-12) - RE: perdas em Woody
 Dele só não vi este dito cujo e um musical passado em Veneza, creio que "Everybody Says I Love You". Adoro o Sheridan-all-Ireland pela força 'aldeia', aquele arquétipo pai, ancestral, terra/mar/ar/nuvens...Viver e morrer por isto, valores básicos. Sem invencionices, sem mumunhas ( não que eu concorde de todo com isto, frise-se : apenas aprecio a maneira e a pujança com que o Sheridan descreve e afetiza tudo isto ! ). Similar ao tema mas amplamente diverso na abordagem foi "Local Hero", aí falando da aldeia ali do lado, the Old Scotland, e do às vezes interessante diretor Bill Forsyth. O velhinho que mora numa choupana caindo aos pedaços junto ao mar atravanca um imenso projeto latifundiário de grande condomínio para turistas, ao negar-se a vender seu mísero palmo de terra... Burt Lancaster fazia um executivo meio pirado com NYC, analisado por um schrink ainda mais pirado que ele, que dependurava-se na janela do prédio, pelo lado de fora, para fazer realizar-se à muque a sessão analítica. O Burt dormia em reuniões importantíssimas do board, e é ele mesmo quem vai à Escócia convencer o velhote a sair de onde mora, junto com um executivo padrão, numa tentativa na linha matéria atrai matéria. Ambos aprendem a apreciar a Aurora Boreal, um animado barco russo de contrabandistas trazendo vodkas de 1ª, um casal que toca junto um pequeno hotelzinho, felizes da vida...
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Voltar ao topo [Aeternus:4874] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-12) - ainda Enduring love
 Gastando vela com mau defunto, acho que o que me irritou em "Ebduring Love" foi o desperdício do ótimo gancho inicial, ainda que quase grand-guignol. Não gosto de contar os enredos dos filmes, portanto, quem, apesar das advertências de não perder tempo com este filme, também não goste de saber os detalhes, pode parar de ler por aqui.Afinal, foi tão prestigiado em prêmios e festivais que o errado pode ser eu. Um balão desgovernado com um menino dentro num campo inglês em dia de verão. Uns 5 homens que estavam por perto tentam segurar o balão no grito. Quando quase conseguem, o balão ganha gás e alça vôo, levantando os homens do chão, pendurados na cesta do balão ou numa corda. Todos largam o balão antes de serem alçados a alturas mais perigosas. Menos um. De bem alto, acaba caindo e se estabaca no chão. (Aparece o cara de costas como que sentado; de frente, vemos que o tórax e cabeça estão externamente íntegros, mas da cintura para baixo é uma maçaroca de ossos, vísceras, sangue e grama). Os dois que foram até lá ficam perplexos, mas um deles pede que o outro reze. Constrangido, ele se ajoelha. Depois, este "ateu" será perseguido pelo outro. O que seria interessante seria a (im?)possibilidade de elaborar uma situação-limite de sobrevivência quando alguum outro morre _ e tão mal (detalhe: o garoto no balão se salva muito bem obrigado, o que deixa a morte do que caiu como algo totalmente inútil). Mas o enredo se prende a uma "atração fatal" de psicótico que percebe sinais de amor no outro e vai perturbá-lo à loucura. O que o enredo pretende, talvez, é colocar em discussão a postura do personagem principal (professor de filosofia?) que discute o tempo todo a existência do amor como ilusão ou "verdade" e se enrola todo durante o assédio que sofre. A teoria na prática, como fica? Antes do malfadado balão entrar em sua vida ele ia propor casamento à sua namorada, escultora. O assédio psicótico e gay é mal-elaborado por ele que fica obcecado com a obsessão do outro, perseguidíssimo. Mas o filme não dá elementos para se perceber melhor ambigüidades sexuais neste personagem a ponto de ficar tão atropleado pelo maluco. E o maluco se revela mesmo perigoso num assédio implacável, o que deixa a sensação que, mesmo que o professor lidasse "melhor" com a situação, o perigo seria o mesmo. Se o McEwan queria discutir algo mais como me pareceu, a discussão ficou pobre e atropelada, despencando do balão de vento de suas idéias ambiciosas mas pobres na realização. Desperdiça-se um ótimo in´cio, filmado com tecnologia e competência industrial que serviria a um enredo melhor se examinasse a necessidade de pessoas que compartilharam situação-limite em conviverem ou nunca mais quererem se ver. Uma lástima de escritor menor do que as pernas. |
Voltar ao topo [Aeternus:4876] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-12) - RE:ainda Enduring love
É isso aí, e ao final, tirante essa magna abertura, o que gosto mais é da Samany=tha ter começado a esculpir seu parceiro. O que li como 'deixei de amá-lo'... |
Voltar ao topo [Aeternus:4892] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-13) - RE:17. Enduring Love: Um filme-balão com impulsão excessiva
 Vocês odiaram tanto assim, o filme? Um amiga foi comigo e ela me perguntou ao final da sessão - mas eu não soube dizer - se gostei ou não. Gostei de algumas coisas: o modo como foram filmadas/editadas as imagens do acidente desencadeador das neuras todas, da incongruência do personagem do professor, que ensinava um tipo de questionamento do amor que ele próprio parecia ter dificuldade de aplicar para si... Eu não encontrei no filme a dúvida homoerótica inconsciente da parte do personagem como sugeriu a crítica e como vocês me contam sobre o livro. Em nenhum momento ele me pareceu propenso a embarcar no SENTIMENTO do maluco e muito menos no tesão dele (aliás, o diretor do filme só dá ao espectador a certeza da maluquice do descabelado quando o próprio personagem do professor chega a essa mesma conclusão). Quanto ao professor, seu sentimento era outro, obsessivo, "interno", como se aquilo mexesse em seu núcleo antitético potência/falo X impotência/castração - jamais em sua objetalidade erótico/afetiva. O que o fez, por um único momento, supor que poderia se consolar com o maluco, foi um momento de coragem/desespero de tentar uma outra Weltanschauung que talvez lhe permitisse aplacar a angústia em que patinava sem sair do lugar. O problema foi que, com aquela atitude de oferecer um dedinho de atenção, o professor teve a alma inteira cobiçada pelo psicopata (a alma?). Mas ele logo viu o tamanho da encrenca. E nunca se perguntou se seria legal encarar um romance com o loiro descomposto... nem no nível inconsciente. Mas não posso afirmar isso com relação ao livro. Já quanto à mocinha, lembrei dela no Minority Report, mas ela me pareceu agora muito parecida com Sarah Miles, atriz que foi importante nos anos 60 (O Criado de Joseph Losey? com Sarah Miles e Dirk Bogarde? Imperdível) e isso fez com que se estabelecesse em mim um sentimento favorável em relação à atriz e, quiçá, à personagem. De fato ela está mais desenxabida neste filme, mas sua personagem não me pareceu chorar de barriga cheia, não: afinal, ter de escutar do namorado, a toda hora, que o amor é uma ilusão, dá nos nervos, tanto quanto ser preterida em favor de uma obsessão neurótica. Sobre o "recado" dado pela escultura que ela finalmente fez do rosto do cara, foi aquilo mesmo que o Marcos colocou: "agora você é distante, agora posso te VER, por isso não te amo mais e posso te esculpir, isto é o fim". Mas eu não vejo o fim do sentimento dela como vindo da perda da fonte de suprimento narcísico, e sim da inacessibilidade em que ele se colocou perante ela. Foi pela escolha narcísica DELE: o que eu chamo de anorexia egóica - o cara se põe impermeável a qualquer troca com o mundo e com o outro. Mas também é verdade que há uma inflação de ar quente no balão desse filme, ele não é pra tantos prêmios assim, e o final fica muito em aberto demais, não no bom sentido. Fica o gosto mais da impotência do que da catarse... o que o torna um filme inútil. Se bem que, pensando agora, eu sempre acho interessante quando colocam a religião como parte da doideira. Eu acabei de escrever um e-mail prum amigo em que parece que eu estou falando o contrário: um elogio à religiosidade. Mas é que eu a distingo "religiosidade" da submissão a uma "religião" - que é sempre institucional, relativa, secular. Eu pergunto a esse meu amigo se um dia haverá uma religião que de fato sirva à religiosidade de verdade, que possa REPRESENTAR essa relação de uma forma não alienante e não estagnante. Bacana ler as opiniões sobre o filme justamente pensando na questão que, através do professor, lá é colocada: "o que é mesmo o amor?!" (Fantástico a Jansyta perguntar do amor depois de mencionar os "vícios"... Adorei.) Talvez NÓS estejamos querendo saber... Abração D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4894] Mensagem do Grupo48 -Jansita Mello(2005-10-13) - RE:17. Enduring Love: Um filme-balão com impulsão excessiva
 Que bom...opiniões discordantes sobre o filme-balão. Do autor, Ian McEwan, li apenas "Amsterdam" que tem altos e baixos, mas o tom predominante é de cinismo e farsa. Enquanto leio textos "farsistas" eu me divirto nervosamente na hora e depois fico murchinha da silva, se o riso c[umplice tivesse sido uma armadilha para renegar algo em mim mesma.
O amor... Mmm. Perto do vício! Tem tantas formas de amar e algumas até parecem nos elevar acima do bem e do mal. Não é este o problema?
No resto das vezes é como escreveu Goethe:
Freudvoll und leidvoll, gedankenvoll sein; langen und bangen in schwebender Pein; himmelhoch jauchzend zum Tode betrübt: glücklich allein ist die Seele, die liebt!
Na plenitude da alegria e da dor Pensativo, ansioso no balanço do sofrimento; subindo ao céu de júbilo perturbado até à morte, Feliz apenas é a alma que ama!
Palavras...palavras. Conceitos. Filosofia ( que começa se perguntando sobre o ser e sobre o amor...) São tantos amores e que variam de cara ao longo da nossa vida. Tem até slogan do McDonalds ( "Amo isso tudo", algo assim...). O amor que gostei mais era colorido como uma janela abrindo-se pro arco-íris. Este não doía nada.
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Voltar ao topo [Aeternus:4895] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-13) - RE:RE: de misoginias
 Drakul morde a veia no ponto certo : "Enduring Love" é inútil pois impotente. Auto-podado. Vende um niilismo que não tem sequer o cacoete da comicidade e o brilho de um Cioran. Da bem proposta situação inicial, vamos mergulhando na chatice psicótico-religiosa do amarfanhado e patético paquera do professor; na ( outra vez também citado com precisão pelo Conde )auto-embrulhada filosófica-amorosa-sexófila do mesmo professor; e na apatia progressiva da ex-quase-noiva. Um filme que murcha, murcha, murcha...até que Murchou. Sobre o amor, se alguém sabe aturar-se sem ele, que mande a receita. Outro dia a Ana escutou a conversa de dois caras na praia, em que um queixava-se de enxaqueca, insônia, fadiga, dores musculares, alteração de ritmo intestinal, desânimo, e tals. O amigo deu a receita : "você está precisando de uma mulher". O conturbado : "Deus me livre ! Tudo menos isso. Aí é que vai complicar de vez." |
Voltar ao topo [Aeternus:4896] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-13) - RE: de misoginias
 Marquito não é um Drakul, mas também sabe morder as questões no ponto certo. E, adiante do filme e do falso niilismo, ele pergunta: " sobre o amor, se alguém sabe aturar-se sem ele, que mande a receita" e adentrou aquela frase melancólica de Freud: " No final das contas, a gente precisa amar para não cair doente". Cá entre nós...este modo de amar não é estreito demais? Já vi amorosos desejarem se transformar " em pó de beijos" para recobrir a amada: tal exuberância não é, como parece, niilista!
Hoje me deparei com uma questão inusitada: qual seria o supremo bem, a vida ou o mundo? |
Voltar ao topo [Aeternus:4897] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-14) - esclarecendo sobre o "mala" "Enduring Love"
 Como em uma mensagem anterior adverti que contaria o enredo do filme e avisava para que quem não quisesse saber da história deveria parar de ler após tal advertência, recorto um trecho que dizia: "O assédio psicótico e gay é mal-elaborado pelo personagem principal que fica obcecado com a obsessão do outro, perseguidíssimo. Mas o filme não dá elementos para se perceber melhor ambigüidades sexuais neste personagem a ponto de ficar tão atropleado pelo maluco. (...) Se o McEwan queria discutir algo mais como me pareceu, a discussão ficou pobre e atropelada, despencando do balão de vento de suas idéias ambiciosas mas pobres na realização." Com isto corrijo qualquer impressão de que eu tivesse encontrado "a dúvida homoerótica inconsciente da parte do personagem" tal como foi escrito pelo Sr.Conde, acrescentando que contamos isso"sobre o livro". Não li este livro do ian McEwan, (nem lerei) nem lembro que Marcos tenha concordado com a suposta dúvida homoerótica do personagem central. Portanto, concordo plenamente que "em nenhum momento ele [esteve] propenso a embarcar no SENTIMENTO do maluco e muito menos no tesão dele (...)." E também concordo que "seu sentimento era outro, obsessivo, "interno"(...) jamais mexendo em sua objetalidade erótico/afetiva. (...)Ele nunca se perguntou se seria legal encarar um romance com o loiro descomposto... nem no nível inconsciente.(...)
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Voltar ao topo [Aeternus:4898] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-14) - definitivo fim de festa
Último dia, último filme da repescagem do festival, "The Green Chair", coreano, cinematografia que anda cotada entre cinéfilos mudernos. Não faz minha cabeça. Parece que descobriram o erotismo em censa (não-explícitas) de sexo, o que condiz com o tema do filme, inspirado em fato ocorrido: mulher divorciada de 32 anos é presa por ter mantido relações sexuais com rapaz "menor"...de 17 anos. O filme talvez seja importante lá prá coreanos e coreanas. Os atores são simpáticos e a narrativa, embora muderninha, se alonga além do necessário. Cena final modernosa onde personagens periféricos (alguns até agora ausentes da tela) aparecem discutindo ou opinando o destino do casal na festa de 18 anos do rapaz. Incluindo os pais dele e o ex-marido dela. A cena é algo irrealista, ao contráriodo restante do filme, oniróide, com direito a acrobacias do rapapz, típicas de filmes de luta orientais. Outro filme que assiti merece mensagem à parte. |
Voltar ao topo [Aeternus:4899] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-14) - O Homem que amava as mulheres.
Marcos escolhe filmes, ás vezes, pelas atrizes cujo semblante (e não só) chamaram sua atenção em filmes anteriores: guarda o nome das menos conhecidas e corre atrás de suas novas aparições. Estranhei não encontrá-lo na sessão derradeira do único documentário que assisti neste festival, chamado "Beleza Francesa", que em si mesmo nem é essa cocacolatoda, podendo ser exibido em qualquer canal gnt ou de outra tv a cabo sem incomodar. A diretora, de nome francês, falando em inglês, definitivamente tem um olhar "estrangeiro" sobre a França e as francesas. Como no final a produção é da BBC, deduzo que seja memso um olhar ingês estranhado sobre o culto à beleza que seria uma caracterísitca marcante da França (?). O que importa é que, em 68 minutos, o filme entrevista e dá voz a Catherine Deneuve, Juliette Binoche, Jeanne Moreau, Emanuelle Béart, Sophie Marceau, Chiara Mastroianni, e outra menos votadas, de Audrey Tatou (fazendo gênero atriz alternativa, hahaha) a Brigitte Bardot (que pelo menos desta vez não defendeu animais). Isabelle Huppert também está lá e a grande ausente é Isabelle Adjani, citada en passant e aparecendo em uma foto, rápidamente. Outras musas do passado também aparecem mas não no presente, como a ex-namorada e atriz de Godard, Anna Karina. Outras, mais novas, eu não conheço e o filme não identifica as entrevistadas. Há rápidas cenas de filmes antigos como Bardot em "...e Deus criou a mulher" que eu nunca vi, mas a cena é boa, um plano-sequência dela dançando algo que devia ser a coisa mais moderna e sensual de 1956, uma talvez rumba jazzificada. Em um momento ela sai pela esquerda, a câmera tenta segui-la mas há uma passagem para outra sala onde o ângulo não permite vê-la, ela ainda está andando para esquerda sem que avejamos, e aí, ela aparece mais à esquerda ainda, sem cortes: é um espelho... Bem construída a cena, nem parece que foi feita pelo medíocre cafetão de estrelas, Roger Vadin. Há declarações ótimas dessas mulheres, a maioria muito inteligente - e parecendo sinceras em seus depoimentos. Vou reportar o que me lembro, sujeito a enganos: Jeanne Moreau: "Nunca fui bonita, nunca me achei bela no sentido da beleza clássica . Uma revista italiana estampou minha foto ao lado de outra do Belmondo com o título "Os astros mais feios do cinema". Não é agradável, mas nunca me considerei mesmo bonita." A entrevistadora pergunta como fazia para ficar sensual e ela se espanta, indignada: "Uma atriz nunca tenta ser sensual. Se tentar, está ferrada! Ou está sensual ou não está; ou é ou não é." Catherine Deneuve em outro momento diz que a sensualidade de Marylin Monroe sempre lhe pareceu mais carência do que sex-appeal, que o que dá "sensualidade" a uma imagem é a sensção de incompletude que a atriz esteja vivenciando ou representando. Moreau reclama: "Os diretores podem gostar dos atores como gostam dos filmes que estão realizando. Mas há os que temem os atores que podem ser pessoas que digam: lendo o roteiro, pensei que o personagem poderia isto ou aquilo... Esses odeiam os atores que pensam, só pensam no filme DELES, diretores!" E entrega: "No tempo da nouvelle vague não havia cabelereiros, maquiadores, orçamentos altos: os direotres namoravam suas atrizes e elas trabalhavam em seus filmes. Por amor. De parte a parte" Esta declaração dá um gancho para falar de Godard e Anna Karina (que aparece em filmes antigos, uma graça!), Vadin e Bardot, Truffaut e suas inúmeras namoradas-atrizes-esposas, incluindo a derradeira e fantástica Fanny Ardant (que também não aparece entrevistada). É dito que Truffaut sempre se apaixonava por suas atrizes. Juliette Binoche conta que seu primeiro sucesso consagrador, "Mauvias Sang", foi feito por seu então parceiro, Léo Carax e comenta a nudez em filmes. Diz que achava que fazia parte da profissão, quando adequada ao roteiro, à personagem, etc. Mas que foi percebendo que era também um atrativo erótico próximo à pornografia, exploração, uso com abuso secundário na propaganda e divulgação do filme. E passou a ser mais reticente em aparecer nua. Fala sobre aparecer como garota-propaganda de produtos de beleza e moda como um complemento da profissão. Chiara Mastroiani chuta o balde: muitas atrizes, diz ela, dizem que aceitaram fazer propaganda porque quem dirige o filme de propaganda é fulano famoso ou quem fotografa é beltrano genial. Mas o importante é que dá muito dinheiro! 5 dias de trabalho, podendo escolher cenas e fotos que vão manter ou mudar sua imagem pública e ganhando muito bem. Um filme pode custar 5 meses de vida, mais sofrimento, resultados imprevisíveis e nem tanta recompensa financeira. Na propaganda filma-se com mais humor, menos "seriedade", diz ela. Mamãe Catherine aparece como quem inaugurou o filão, ao aceitar fazer propaganda para a TV americana de Chanel Número 5. Conta que hesitou muito, mas a conveceram ao mostrar como a associação Audrey Hepburn-Givenchy não prejudicou e até foi favorável à carreira de Audrey (e de Givenchy). Deneuve conta que muitos americanos nem sabiam que ela era atriz na época, apenas uma moça frncesa elegante e de rosto agradável. Conta que, aos 23 anos ia ser aprsentada à Rainha Elizabeth e precisou de um vestido de gala, pensando num modeloque vira numa revista de Yves St.Laurent. Lá foi e a maison teria ficado encantada de uma atriz tão jovem procurara alta-costura. Início de uma grande amizade... É mostrado Emanuelle Béart dormindo com imigrantes que invadiram uma catedral em Paris e que a polícia queria expulsá-los. A atriz foi presa como manifestante se opondo à polícia, e por isso perdeu contratos de uma casa de alta-costura e de produto de beleza, mas não se importou. Até essa consciência política conta pontos para a imagem de uma "star" francesa. Sophie Marceau aparece fotografando para uma casa de jóias, e se dizendo "tímida" (o que não convence para quem viu seus primeiros filmes) mas é ótimo ver Jeanne Birkin reclamando que é muito difícil fimar nua: conta que colocam fita crépe para manter as áreas visíveis bem esticadinhas, que a equipe está toda vestida, que o diretor se aproxima para orientar a cena, vestido, e só ela estava nua no setting, constrangida. Mostra-se uma cena de filme onde ela e Bardot estão em carícia eróicas, bem nuas e não se vê constrangimento nenhum. Mas uma coisa é o produto final, maquiado com fita crepe que não se vê; outra, é como deve ter sido a filmagem - sua fala parece muito franca. Um fotógrafo repete a velha história do milagre da fotogenia. Comenta que muitas vezes faz os testes de iluminação das cenas com extras, substitutos, figurantes, pessoas que podem ser bem bonitas, mas a cena não parece bem iluminada, o rosto não parece bem fotografado. Entra em cena a atriz prinicipal... e ele percebe que havia feito a iluminação certa. Há rostos que se revelam mais belos com a luz para a fotografia, seja a luz natural ou não. Não é o caso da fotografia propriamente dita, estática. O cinema é fotos em movimento e as estrelas brilham, aprecem feitas de luz, já que fotografia, dizem eles, é luz. Deneuve fala que dá trabalho permanecer bonita. Não dá mais para ir a festas, jantares, boates, beber, fumar, dormir tarde e acordar cedo para filmar... O rosto se ressente, ela diz: "Não tenho mais 30 anos"... Cenas de Juliette Binoceh muito bem escolhidas, em "A Liberdade é Azul" mostram-na dizendo para um amnate de uma noite: "Mas vc sabe que eu sou uma mulher comum: transpiro, me gripo, tenho cáries. Não vou te fazer falta. Vc encontrará outras." E de Jeanne Moreau em "Jules et Jim", onde ela esteve bonita como nunca, cantando "Le Tourbillon", ou correndo desabaladamente, vestida de rapazola, com chapéu de rapaz e bigode pintado. Hoje, bem envelhecida e algo zangada, diz coisas pertinentes. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma jovem que ambiciona ser estrela dizendo: "chorar, representando, é fácil, basta eu me concentrar (e em menos de um minuto, chora). muito mais difícil é representar um sorriso espontãneo, leve." Marcos, você não é mais o homem que amava as estrelas francesas!
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Voltar ao topo [Aeternus:4900] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - discorro e respondo as arestas aos amigos
 ( acertando as arestas ) * com Jansy : "o supremo bem" Both : a vida e o mundo. Sempre me inquietei com qual seria a Geografia do Paraíso... * o tesão ou não tesão do professor pelo psicótico amarfanhado de "Enduring Love" Bato mais pesado aqui que Drakul e Gallego : o let go com que o professor contempla o chatíssimo assédio do amarfanhado denuncia sexualidade latente, enrustida. Que pode até começar - e sempre começa mesmo, né ? - narcísica, naquela de 'oh ! como sou amado !' * Adjani Preocupo-me muito com ela. Deve ser uma femme très compliquée. Aparece e some, aparece e some... Acho que deixou vingar a gravidez do Daniel Day-Lewis, que rejeitou a criança. Brabeza. Triste. Rica e independente, ainda jovem, relativamente. * Les femmes françaises Ponto negativo para mim, tá. Se eu soubesse que essas queridas iam estar lá, eu teria ido ao filme. Aproveito a ocasião para desfiar meu rosário atual de estrelas de lá ( afora as citadas pelo Gallego ) : a. Ludivine Sagnier : não se pode falar em 'beleza' de traços, mas a harmonia geral dela, a pele deslumbrante... b. Emmanuelle Devos : a musa da Mostra, tanto em talento quanto num charme indefinido. Também não tem feições belas, mas passa um encanto delicioso. Ela é meio...dengosa, dá vontade da gente agarrá-la...Palma de Ouro de melhor atriz da Mostra, levou vantagem em relação à Judi Dench pela quantidade, junto ao talento ( "La Femme de Giles"/"La Moustache"/"Reines et Roi" ) c. Catherine Mouchet : bem principiante. Muito futuro. Filmou com o Pascal Bonitzer, roteirista do Rivette e realizador também. d. Laurence Cote : era a namorada da Deneuve e do Auteuil em "Os Ladrões", do Téchiné. Faz o gênero 'bom dia, tristeza', cabelinho curto, expressão fechada. Geralmente morena, apareceu loura outro dia num papel de 'mazinha' em "Nos Enfants Chéris" e. Nathalie Baye : amadureceu como atriz, depois de começar apenas como 'namorada do Alain Delon'. Está cada vez mais simpática e solta nos papéis. f. Marie Gillain : carreira indefinida. Apareceu com o Tavernier em "A Isca", como bandida doidinha num assalto doméstico. Era a menina carente amante do Gianninni em "O Jantar", do Scola, onde numa cena excelente passa ao amante a carta - redigida por ela - que o amante entregaria à sua esposa. ( a tempo ) A Marie me diz tudo como mulher... g. Karin Viard : muitos filmes, que não chegam aqui comercialmente. Faz um gênero mais Julie Andrews, comédias leves, embora tenha participado de dramas pesados também como "Haut les Coeurs", doente terminal. h. Cylia Malki : exótica, disciplinada. Bem jovem, ainda começando. i. Cécile de France : incisivos ligeiramente separados, cabelo curtinho. Bela, descontraída. Andou muito bem em "Irène", e está fazendo mais filmes. j. Natasha Régnier : apareceu muito bem em "La Vie Revée des Anges", como a tristonha sem rumos. Conheci-a pessoalmente, quando da exibição do filme. É bem loura e luminosa, feições fortes. k. Romanne Bohringer : filha de Richard Bohringer, feioso e bexiguento ator coadjuva veterano. Ela não é bela, mas passa muita doçura. Entre outros, fez uma sensível pintora não reconhecida em"Mina Tannenbaum"; a esposa traída-traidora na obra prima "La Femme de Chambre du Titanic", do Bigas Luna; a dita cuja de "L'Accompagnatrice", de Claude Miller, o melhor filme deste ; e era a parceira amorosa de um aidético num filme terrível, do qual esqueço o título - só pesquisando, talvez Gallego lembre, era só uma palavra - o último filme que levou no Veneza. l. Élodie Bouchez : uma moreninha simpática, que faz papéis diversificados. Era a companheira de jornadas de luta e lazer da Natasha Régnier em "La Vie Revée des Anges". Esteve muito bem em "Roseaux Sauvages", do Téchiné. m. Marion Cotillard : começa a surgir mais. Muito bem em "Les Jolies Choses", num papel agressivo, tenso. O contrário do que faz em "Innocence", agora da Mostra, como a misteriosamente conformada professora capenga de História Natural. n. Emilie Duquenne : mais para comédias leves. Na linha Josianne Balasko, menos puta, mais gostosa. Vi outro dia o trivial-gostosinho "Mariées Mais Pas Trop", onde contracenava com a Birkin bem safadinha, esta fazendo uma viúva negra simpática. A Birkin ensina a Emilie, mais nova, a ser coquette, manipuladora. Bem farsesco. o. Hélene de Fougerolles : era a louquinha que morre no divã do analista no filme boboca do Beineix "Mortal Transfer"; e a simpática descendente do escritor teatral que o Sergio Castellito pesquisa em "Va Savoir", do Rivette; esteve bem comedida em "Innocence", dentro do tom neutro pretendido pela Lucile Hadzihalilovic, a diretora. p. Marie Trintignant : tragicamente falecida, após um arrufo doméstico com seu parceiro ( ou ex ), fratura de crâneo após queda. Ontem, por curiosidade, assisti "Ponette", filme quase todo representado por crianças. Ela faz a mãe morta da Ponette ( Victoire Thivisol, uma menina linda e adorável de uns 5 ou 6 anos, no papel central ). A Marie nunca brilhou, andou filmando com a mãe Nadine aqueles dramas do cotidiano francês. Tinha um jeito tristonho, distante. |
Voltar ao topo [Aeternus:4901] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-14) - RE:discorro e respondo as arestas aos amigos
 Quando encontrei o rol das mulheres francesas enumeradas pelo Florião, tive que rir mais uma vez. Estava lendo um capítulo do David Lodge ( escritor ingles ao qual já me referi aqui) no qual um professor americano embarcou num vôo charter para a Inglaterra e, indo ao toalete no extremo oposto do seu assento, descobre que é o único homem a bordo. Imagina que, em caso de pane, cento e sessenta e cinco mulheres serão desembarcadas antes dele e começa a suar frio. Fica intrigado com o que não poderia ser obra do acaso e, conversando com sua companheira de poltrona, ela o informa que se trata de um vôo de mulheres que, proibidas de fazerem aborto nos EEUU, vão para a Inglaterra. Cento e sessenta e cinco mulheres e cento e sessenta e cinco passageiros clandestinos, contabiliza ele, começando a temer a ira divina. A moça pergunta: você comprou o pacote completo, com visita ao médico, internação, e passeio a Stratford-on-Avon para visitar a casa de Shakespeare?
Que mulherio. E, passado o sorriso inicial e o primeiro paralelo, não relaciono nada com nada e não vejo a graça também não. |
Voltar ao topo [Aeternus:4903] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-14) - RE:discorro e respondo as arestas aos amigos
Marcos se defende, rovando que permanece sendo nosso homem em Paris, aquele que conhece todas as novas, recentes e futuras estrelas do cinema francês. Não identifiquei uams duas ou três mais novas do documentário que vi nas queridinahs recentes do Marcos. Lembrei que aparecia a atual Sra. JOhnny Depp, Vanessa Paradis em um anúncio estranho: ela, meio que "vestida" de "ave-do-paraíso", cheia de penas e plumas (por incrível que pareça, nada que lembrasse aquelas cafonas fantasias de "bailes de gala" de velhos carnavais do Copa ou do Municipal, escândalo supremo de fazer baticum no templo da música "erudiya" carioca, inda bem que tal sacrilégio acabaou). Voltando ao tal anúncio: depois de vê-la numa espécie de trapézio, balançando prá lá e prá cá, em tamanho de gente, uma outra tomada mostra que tal "trapézio" está dentro de uma gaiola gigante. Ou nada disso: ela é que fica da dimensão de um passarinho (uma passarinha) num "poleirinho" de gaiola com uma cara de gato de olho na avezinha tentadora. perguntem a marca anunciada: não guardei, prá mim, era anúncio de Vanessa Paradis e pronto. Algumas correções (?) na lista do Florião-folião das moças: Nathalie Baye é fantástica, nada novinha, brilhou em "Uma Relação Pornográfica", premiada em Veneza, muito justamente com seu parceiro Sergi López, geralmente sub-aproveitado nos outros poucos filmes que chegam ao Brasil onde aparece (o que não chega de filme europeu aqui é surpreendente! E com atores mais conhecidos, de Deneuve a Binoche, por exemplo). Mas ela começou em pequeno papel com Truffaut, independente de Delon, em "Noite Americana"; Truffaut gostou tanto dela que a promoveu em "Homem que amava as Mulheres" e deu-le papel principal em "La Chambre Verte". Prá quem não identifica a moça, foi a mãe de Leonardo Di Caprio em "Pega-me se Puderes" do Spielberg, incursão passageira em filme americano. Se essa Nathalie teve algo com Delon, melhor para eles, mas talvez Marcos estaeja confundindo esta com uma ex-sra.Delon xará desta Nathalie. Eu sempre confundo Romane Boringher ("A Acompanhante", "Nuits Fauves" - a última sessão do Veneza?) com a Charlotte Gainsburg (de "A Pequena Ladra", roteiro que Truffaut morreu antes de filmar) - que devia estar no documentário que vi, ao lado da mamãe Jane Birkin, mas eu achei que era... a Romane. Por fim, uma história triste: o casal Jean-Louis Trintignant-Nadine Trintignant, ele, grande ator, ela diretora muito fraca demais, teriam perdido um filho, ou filha ainda criança muito antes da morte da atriz Marie trintignat. E a diretora fez um filme sobre um casal que perdia seu bebê de "morte súbita", estrelado por Catherine Deneuve e Mastroiani na fase em que estiveram juntos. O filme era Unheimlich até pelo fato de ser baseado na vivência da diretora de perder uma criança, e -pior-não trazia um "transformação" em arte, sendo um realto mórbido, patético e desconfortável de uma tentativa de delaboração de luto terrível. Um filme que eu tinha esquecido nos arquivos descartáveis. Antes de encerrar: Marcos! que filme mais ou menos recente tinha (talvez) o Sergfi Lopez como alccolista esquecendo o filho que dormia no corredor do prédio e um ator mais velho o acolhia, mas esperava a visita de uma ex-mulher para quem escrevia e não recebia respostas mas fantasiava como iria recebê-la (com raiva, amor, perdão, submissão) depois de anos sem vê-la e quando ela chegava de verdade ele nem abria a porta? A mulher seria (na minha já falha memória) a Jane Birkin mas não localizei tal filme no imdb pelos supostos atores que talvez eu ainda lembre. De última hora: o atopr principal de "Enduring Love" será o novo James Bond. Que estranho... |
Voltar ao topo [Aeternus:4904] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - RE:RE: arestas II
 Vanessa Paradis...badalada. Não faz meu gênero. Esteve razoável em "O Atirador de Facas", do Patrice Leconte, com o Auteuil. Vi outro dia o muito bem construído e camerístico "L'Homme du Train", também Leconte, com Jean Rochefort e Johnny Halliday. Foto primorosa de Jean-Marie Dreufou. A ex Delon, feiosa que ele tentou promover, chamava-se Mireille Darc. Era loura falsa, cabelo Chanel arredondado. Mas a Baye andou namorando o Delon aussi, quand même. Injustiça atroz : faltou a charmosinha Charlotte Gainsburg na minha lista. Foi ela quem mandou o Barão Sergio de Giuramondi ( Julian Sands ) para o limbo, acabando com sua carreira de santo-curandeiro em "Il Sole Anche di Notte", dos Taviani, depois de seduzi-lo. Também está com a carreira indefinida. Deve ser difícil carregar a pecha de filha do erotômano Serge... Gallego : o filme do Sergi López que você refere eu não assisti. |
Voltar ao topo [Aeternus:4906] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-14) - RE:RE:RE: arestas II: Je T'Aime, Moi Non Plus
 "Je T'Aime, Moi Non Plus". Ninguém ensinou tanto como Serge Gainsbourg, o autor dessa canção. É preciso ouvi-lo, nas manhãs, com torradas e geléia, para sair de casa muito mais homem. O cantor, compositor francês ensinou a todos nós, principalmente aos mais feios, a dose certa de cinismo e perseverança para saber ao certo o que querem as mulheres. É preciso ouvir alguém que arrancou suspiros de Brigitte Bardot, com quem, aliás, dividiu os vocais em algumas canções e viveu um assanhado caso de amor. Com uma boa garimpagem nas lojas, encontraremos velhos discos e relançamentos, inclusive coletâneas de Gainsbourg. Só serve o próprio. Não se iluda com os samplers do rapper francês M.C. Solaar ou com a regravação bacana e moderninha de Beck. Beba na fonte os sussurros de SG. As suas músicas ensinam, no mínimo, que as mulheres são todas diferentes, cada uma tem um software próprio, cada uma sabe ser uma Beatriz única, com o seu inferno, purgatório e paraíso. A sabedoria de Gainsbourg sempre foi saber sacudir o imaginário dos franceses, provocá-los. Sozinho, valeu tanto quanto muitos filmes da nouvelle vague. Foi acusado de incesto, por exemplo, depois de fazer uma canção para a lolita Charlotte, 14 (na época), sua filha. No clipe da música, apareceu deitado com ela, sob macios lençóis azuis - se não me engano sobre a cor. Também gravou o hino francês em ritmo de reggae, depois de voltar da Jamaica. Outro escândalo. Mas isso é política. E o que vale mesmo é o Gainsbourg da auto-análise, pedagógico. Sobre a sua própria feiúra, ele falou: "Sorte minha, vivo uma época em que as normas estéticas estão revolucionadas. Hoje admite-se com facilidade a desordem formal". Ele pensou também sobre a sedução: "As mulheres amam os homens que a todo momento se arriscam (...) Elas adoram a anormalidade permanente do estado psíquico". Afemaria!! |
Voltar ao topo [Aeternus:4907] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-14) - Réréréréré
 Jansy contou que estava lendo um capítulo do David Lodge no qual um professor americano embarca num vôo charter para a Inglaterra e descobre que é o único homem a bordo porque se trata de um vôo de mulheres que, proibidas de fazerem aborto nos EEUU, vão para a Inglaterra, sendo perguntado se comprou o pacote completo, com visita ao médico, internação, e passeio a Stratford-on-Avon para visitar a casa de Shakespeare. Mas Jansyita diz que "passado o sorriso inicial não vejo a graça".... Pois eu ri um bocado ao ler as fantasias do macho que será ultrapassado por 165 mulheres em caso de ter que sair do avião por situação de perigo ou mesmo temer a ira divina pelo pecado do aborto. Neste caso, se não pode vencê-las, una-se a elas: aborte também! réréré (riso sádico-sardônico-mordaz-irônico) (ah! e sarcástico...) |
Voltar ao topo [Aeternus:4908] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - RE:Réréréréré...'Ráu' many pregnancies ?
A dúvida é de quantas gravidezes ele estará prenhe... |
Voltar ao topo [Aeternus:4909] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - A Camareira do Titanic
 Para quem tem NET, dia 16/10, às 22hs, no TCE ( canal 63 ), a obra prima do Bigas'locas' Luna. Sofrimento inevitável do Cinemascope na telinha, porém...continua valendo a pena ! I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L !!! |
Voltar ao topo [Aeternus:4910] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-14) - RE:Réréréréré dos fradinhos
 Florião e Gallego estão rindo das vicissitudes do Professor Zapp embarcado com as 165 grávidas de olhar assassino e rosto deprê em viagem para a Inglaterra. O detalhe que achei mais "delicado" foi a idéia dos 165 clandestinos voando junto. Mesmo assim senti aquele desconforto do humor a la Jonathan Swift quando recomendou, para o problema progressivo da falta de alimento e o controle da população do planeta, que os pais devorassem os próprios filhos. Recomendando um filme, Marquito quase escreveu: " Sofrimento imperdível"... Vocês são uns desalmados assumidos. Eu vou e volto na risada nervosa e acabo sempre me sentindo culpada pela complacência. Ando cansada de decisões "morais" sobre desarmamento ou critérios de seleção ( competência e saúde ) para candidatos nas grandes empresas. Sabemos tão pouco para chegarmos a uma opinião justa. Confesso que acho estranho determinar vagas especiais para "deficientes físicos", percentuais fixos para "negros", "homens" e "mulheres". É humano, mas pouco sensato, empregar pessoas cujos exames de sangue revelam-nas doentes terminais. Muitas soluções "políticamente corretas" são respostas de aparência, meros paliativos para problemas mais graves e sempre refletem um raciocínio incompleto. Não que tenhamos que ir até o fim como minha netinha de nove anos. Ela precisou fazer uma composição escolar sobre o desarmamento. Obviamente optou pelo "Sim" porque entendia que os ladrões entregariam as armas obedientemente como qualquer cidadão. Quando falei sobre a maldade humana, a inveja, a ganancia e a injustiça ela completou depressinha: " Tudo por causa do pecado original de Adão e Eva"... E assim fomos do mensalão à maçã, como se fossemos todos farinha (frutal) do mesmo saco. |
Voltar ao topo [Aeternus:4911] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - RE:RE: pas souffrance !!!
Não, Grand Jansy, nada de sofrimento ! O filme é lindo, lírico, flutua entre o tal 'real' e alguma suspensão nos jardins da Babilônia... |
Voltar ao topo [Aeternus:4912] Mensagem do Grupo48 -Fradinho cumprido(2005-10-14) - De piadas que deixam as moças tristes a camareiras do Titanic
Jansyta é, sometimes, como mi Suelita. Conte-se-lha una piadita con un algo más de sadô, absurdô, etceterô y mi bella ni sonreí, pues se compadéce de la vitima sacrificial para nuestra carquejada (HAHAHA). Janyta se sonreí, pero... se compadece después... De fato, o melhor nonsense da história que ela trouxe é que 165 "ilegais" estejam reunidas fellinianamente em um vôo legalmente fretado, o que lhes dá poder de uma maioria de legalidade... e pobre macho solitário que nem engravidara, I presume, nenhuma das abortivas... Maioria que, tal como nas favelas cariocas onde o escroto prefeito Julio César Maya AztecaInca diz não ter porque questionarem uma construção ilegal (em encosta) de um prédio de 3 andares para quem o vê ao nível da rua, nem suspeitando que mais 8 crescem "para baixo", cuesta abajo. Vá construir um prédio de 3 andares em rua legalizada, em regime de condomínio ou como se chame! Onze, então... O injusto do politicamente correto, de cotas para deficientes, negros, homens e mulheres é que melhores podem ser preteridos para cargos por que são... melhores para os cargos! Como apontou Jansy, as emendas para cuidarmos dos menos privilegiados podem ser piores que o soneto. (Fui atendido na Light sobre uma questão de simples mudança de titularidade de uma sala para onde me mudei TRÊS vezes porque simpáticas deficientes físicas de ar avoado e desatento foram totalmente incompetentes em executar a "difícil" mudança de nome, estando eu com todos os documentos, xerox's, etc etc corretos: sabem que não serão despedidas e, sem preparo mal mexiam corretamente no computador. Fora isso, usavam discretas muletas ou botas especiais. Deficiências que propiciam o famoso "lucro secundário"...) O sofrimento é imperdível sim, Jansyta mas só na vida! Ou em ver um cinemascope procrustianamente adaptado à tela quadrarada das TVs. Não se sofre muito ao ver o filme recomendado pelo Marcos, suspeito, suspeito porque fã número zero da atriz camareira, a bela Aytana Sanchéz-Gijón, italiana de carreira predominatemente espanhola com ar melancólico-levemente sexy que estrelou "A Camareira do Titanic" ao lado do (alô moças!) "French Brad Pitt", Olivier Martinez que dividiu o estrelato (e, dizem, algo mais) com a bela Binoche em "O Cavaleiro sobre o telhado" e que, indpendente de ser mais ou menos atraente para as moças, trabalha muito bem neste filme. Filme "esquerdo" na carreira do desaparecido porraloca Bigas Luna, uma espécie de Almodóvar "grosso" desde os títulos "Ovos de Ouro" (leia-se testículos áureos) ou "Os olhos da cidade são meus" (que está à venda em bancas, mas creio que com o título de exportação para os USA, "Angustia") onde os olhos eram arrancados mesmo por um optometrista - primo próximo do Norman Bates de "Psicose" - naquilo que era um filme dentro do filme e não sabíamos... Mas, saindo da tela, víamos um cinema onde um cara ia ao banheiro durante a projeção e... encontrava o optometrista assassino e assim por diante... Seus primeiros filmes, não exibidos por aqui, seriam mais "modernos" e transgresores. Chegou a um semi-pornô explícito, "As Idades de Lulu". Daí, deixou o terror trash de lado e foi para o kitsch de "Jamón, Jamón", uma espécie de meta-dramalhão assumido, muito bom se vc fica cúmplice da meta ( e mêta ) linguagem da história edipiana-perversa com paixões por presuntos espanhóis daqueles que fazem a fama de Madri. Realizou o mais kleiniano dos filmes, "A Teta e a Lua", onde um garoto enciumado do irmãozinho que nasceu deduz que o bebê suga todo o leite da mãe, pobrecita, leite este que seria dado à genitora pelo pai, já que nos coitos noturnos, madrecita grita na hora do clímax para o maridão: "Dáme tu leche!". Ora, se mamita carece de um tal leite do papito é porque o mini-vampiro faz mal `a mamita! - deduz o kleiniano garoto. Paralelamente, ele busca segundos pais em um casal de artistas mambembes, ela portuguesa e ele francês que dão shows onde o francês peida de forma amazing, enquanro a lusitana partner segura um fósforo aceso próximo ao rabo do companheiro, de onde vemos se formar verdadeiro lança-chamas. Fases oral-canibalística, anal-expulsiva e outras menos votadas estão todas lá no que - pasmem - é um filme muy poético.Juro! Daí, Bigas Luna estava tão cotado que foi escolhido para representar o cinema espanhol num projeto de comemoração de 100 anos do cinema ao lado dos nomes mais ilustres de inúmeros países. Filmou um inédito por aqui ("Bambola") de sinopse nelsonrodriguiana e entrou em projetos mais "comportados" e românticos onde se inclui a "Camareira do Titanic", seguido de dois filmes que só vi em mostras de velhos festivais de filmes do Rio, o último muito decepcionante e -pasmem - quase eu diria - moralista!: "O Som do Mar", datado de 2001... e depois nada mais fez! O anterior, "Voláverun" (1999) tinha um superelenco para repetir mitos e mentiras da história de Goya, interpretado pelo cubano Jorge Perugorria ("Morangos e Chocolate", "Estorvo" do nosso Ruy Guerra/Chico Buarque) com a mesma Aytana, aqui de Duquesa de Alba, Penélope (ex-Tom Cruise) Cruz como a moça que teria posado para Goya pintar o corpo da "Maja desnuda" (a Condesa só teria entrado com a cara) e Stefania Sandrelli como a perversa Reina de España, a Maria Luísa (na vida real um trubufú de assustar criancinha e que teria envenenado a Duquesa e sua dublê de corpo por pura inveja, nada comprovado, mas quando a lenda vira verdade, publique-se a lenda...). Mas o filme (que deu até matéria na revista "Bravo" na época) não decolava a e ficava meio mal perto do (subvalorizado) "Goya en Burdéos" do Carlos Saura que tinha o Francisco Rabal no papel do pintor que ele interpretara em mais outros muitos filmes, desta vez, envelhecido e terminal. Tal como Goya, Rabal morreria pouco depois na mesma Bordeuaux num pouso de emergência por estar passando mal a bordo. A fotografia do "pintor de celulóide" Vittorio Sttoraro atingia níveis nunca dantes navegados ( olha que o Sttoraro fotografou "Apocalypse Now", e só para o Bertolucci "Sheltering Sky", "Último Imperador", "Ultimo Tango", "O Conformista", "La Luna", "Noveccento", além de "Dick Tracy" e o "Tango" do Saura, e etc etc etc) Retornando a Bigas Luna e a Aytana: desde que filmou com ele, a Camareira do Marcos já participou de quase dez filmes, enquanto o Bigas, desde 2001... nada. Assistam "A Camareira" se puderem, é bem interessante ao discutir mentiras-verdades, realidades-fantasias, honestidade-enganos, mas principalmente o que é uma montagem de cenário fantasioso erótico. p.s.: Aytana fez uma participação gentil como a mãe do menino do belo "Eu não tenho medmo", já saiu em dvd e é imperdível. |
Voltar ao topo [Aeternus:4913] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-14) - RE:De piadas que deixam as moças tristes a camareiras do Titanic
 Andei matutando sobre a impossibilidade de exercermos a alucinação negativa ( que permite que sistemáticamente deixemos de enxergar uma parcela dolorosa da realidade ) quando vamos ao cinema. Somos obrigados a ver aquilo que o diretor escolhe nos mostrar, sem recorrer às metáforas ou aos deslizamentos sublimatórios. É "Crash" na cara da gente. Vocês, cinéfilos, são verdadeiros heróis. Pelo que andaram escrevendo confesso que fiz a lista dos filmes que não quero assistir em hipótese alguma. Ontem parti ao meio uma unha e quando penso nela ( sem ser assim por alto como agora, ao escrever) me crispo toda como quem se prepara para dançar a tarantela: alguns filmes da listagem de vocês me dão a impressão de sabugo de unha sangrento exposto ao sol do meio-dia. Argh pra "terror trash". |
Voltar ao topo [Aeternus:4914] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - RE: de Bigas, bigas, bagos, tetas, triângulos, rostos e atrizes
 Gallegaço deu uma de Ben Hur e de Messala, dirigindo habilmente as bigas do Bigas. Bigas Bagos-quase-nunca-de-ouro, a não ser em "A Camareira...", ajudado por um roteiro primoroso. É um espanhol típico, baixinho e gordote. Recentemente - pasmem - o Bigas expôs pinturas suas em Los Angeles.
Ele e Vicente Aranda, outro safadão veterano, são os mais populares na Espanha. Saura é considerado intelectual demais pelo povão. Conforme vocês puderam sentir do que o Gallego trouxe, o Bigas tende ao obsceno, aos bagos, presuntos e tetas. Seus filmes abrem com triângulos fumegantes, que minha mente pervertida lê como réplicas simbólicas do Triângulo das Bermudinhas. Mas pode ser considerado angelical perto do Aranda, que descamba brabo às vezes como em "La Pasión Turca", onde poderia evitar, mesmo desejando fazer um filme bastante erotizado, alguns excessos que atingem a grosseria e mau gosto. Justiça se faça, de resto, ambos tem gosto fantástico em termos de mulheres. Aitaníssima Sánchez-Gijon trabalhou com ambos - como sofrem as estrelas, oh ! céus ! - assim como a Leonor Watling, a comatosa do Almô em "Hable con Ella" estava soberbamente linda em "O Som do Mar" e Pilar López de Ayala em "Juana la Loca" ( com Aranda ). Entre outras beldades. |
Voltar ao topo [Aeternus:4915] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-14) - RE:RE: os triângulos do Bigas
( a tempo ) Na 1ª imagem de "A Camareira..." a brasa incandescente do ferro fundido move-se em confluência à direita e à esquerda, juntando-se triangularmente numa só corrente. Em "Volavérun" a apresentação é sobre uma taça de champagne, no seu ápice triangular, imagem que é sobreposta pelo púbis da Maja Desnuda. |
Voltar ao topo [Aeternus:4921] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-16) - bom dia flor do dia no horário de verão...
 Gallego estranhou meu comentário em que reconheço nada conhecer sobre as francesas e perguntou: "... e a Jeanne Moreau? Juliette Binoche? Catherine Deneuve?" Pensando bem tem muito mais na lista: Fanny Ardant, Brigitte Bardot, Anna Karenina...Montes de outras. Mas em qual contexto ou sob que perspectiva falaria delas? Juliette Binoche me agrada mais quando fala inglês, não sei porque. Fica mais exótica. Catherine Deneuve tem um olhar difuso de Capitú que não me encanta, atrapalha sempre aliás. Jeanne Moreau é magnífica. Etc. Etc. E depois???? |
Voltar ao topo [Aeternus:4922] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-17) - RE:Belo Sol Negro no Crepúsculo de Festival: O Jardineiro Fiel
 Ontem fui ver ‘O Jardineiro Fiel’. O filme não só foi a terceira bilheteria de uma semana dessas lá nos EEUU (excesso de Eu??), como pôs na chamada internacional a referência ao "City of God" - sinal de que o Cidade de Deus é mais conhecido lá fora do que o que nos fizeram acreditar. O Fernando Meirelles tá saindo melhor que a encomenda (pelo menos, em termos internacionais, tá se saindo melhor do que o Waltinho). Claro, comparando com Cidade de Deus, este de agora sai perdendo... será que a culpa é do roteirista que fez a adaptação do livro? Apesar de o próprio John Le Carré dar sua bênção e do Bráulio Mantovani ter feito umas sugestões e uns acréscimos, não gostei de umas explicações dadas pelos próprios personagens. Manja quando o bandido fica explicando pra vítima porquê vai matá-la? Isso é coisa que só caía bem no seriado trash do Batman e Robin. Claro, tô exagerando, aqui não é assim tão "de graça", e é só um detalhe que não chega a atrapalhar o filme forte que é, no estilo "denúncia". Aliás, "filme-denúncia" foi um dos termos usados por alguns "críticos" daqui para se referir ao Cidade de Deus, mas eu discordo. Já o Jardineiro Fiel eu acho que é "denúncia". Ficcional. Mas "denúncia". Importante. Meirelles foi muito comedido quanto à história de amor que dá o molho a tudo - não é algo que corra paralelo à trama, o amor aí é um verdadeiro protagonista. Meirelles buscou tanto o pudor para não explorar um romantismo fácil, que o envolvimento do espectador acaba até saindo prejudicado. Mas eu diria que foi de propósito, não um descuido, para que a importância da... denúncia (!) ganhasse o merecido destaque. Aliás, a estória tem algumas passagens em que roliúde adoraria imprimir seu estilo, umas perseguições de carro, umas fugas apressadas de avião... Mas Meirelles não abriu mão de seu estilo "quase-jornalístico", e ficou bem bom. Abraaaço, D. E.T.: Galleguito, valeu pela indicação! |
Voltar ao topo [Aeternus:4924] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-17) - O Jardineiro de Deus
C.D. agardeceu a indicação de "Jardineiro Fiel". Acho que a indicação é geral, não só pela bilheteria, como pela crítica. Parece que foi bem recebido num festival importante desses onde estreou, nossa imprensa até falou em chanbce de alguma premiação oficial, mas acho que só recebeu algum prêmio paralelo humanitário (I'm not sure). A receptividade vem sendo enorme: há mais de 10 páginas de comentários de leitores do site imdb, com predomínio de notas altas. Mas só o fato de tantos teremmvisto e escrito a respeito mostra o sucesso do filme na linha de "Z", "Silkwood" e outros thrillers de denúncia. Impliquei um pouco com a ´linguagem de propaganda em Cidade de Deus, mas acho que o filme funciona. No estilo anglo-saxão este é mais sintônico com a proposta, eu acho. Não li o livro, nunca li LeCarré, só vejo os filmes. Ele foi espião mesmo ao que parece. Estranho isso. E a querida do Marcos, Agnés Joui, que fez propaganada para L. Jospin na França? |
Voltar ao topo [Aeternus:4925] Mensagem do Grupo48 -Jansy Mello(2005-10-17) - RE:O Jardineiro de Deus
 Estou me sentindo novamente ( again, again and again )a mais completa alienada porque não vi os filmes que despertaram tanto entusiasmo da turma. Gallego implicou com uma linha dizendo que " a linguagem de propaganda em Cidade de Deus"... Não entendi o problema, mas serve para comentar que os generos, atualmente, andam bastante misturados. Propaganda que é vera arte, arte que é mera propaganda, documentário que é pura ficção, ficção que é plágio de história "verídica". Proponho que pensemos numa espécie de "código de etiqueta profissional", ou, talvez não... que formulemos o que e quais são os "faux pas" da mídia, quais as borrações artísticas que se sustentam. Michael Moore é um exemplo. "Cidade de Deus", outro. Não vejo problema se a Agnés Joui fez propaganda para L. Jospin, ou se dizem que Wagner compunha germanica demais com jeito de nazista. Talvez fosse algo a se combater há alguns anos quando esta "propaganda" funcionava como documento e prova de realidade: hoje não é mais possível isolarmos os contextos e a voz de um(a) diretor(a) ou roteirista, se aparecem, marca mais um modo de estar no mundo, um estilo questionável ou não. Ninguém quer cinema como um "Diário Oficial", não é? |
Voltar ao topo [Aeternus:4926] Mensagem do Grupo48 -Davy(2005-10-17) - RE:O Jardineiro de Deus
 Gallego, meu querido, não vi o filme, mas li Le Carré (não o livro do filme) - e posso assegurar que, para um leitor mediano como eu (isto é, nenhum virtuose da literatura, desses que já leram tudo e só pouca coisa é capaz de interessá-los) tentarei ler o que quer que ele escreva (não que tudo seja sempre ótimo - por exemplo, o que menos gostei foi o mais famoso - "O Espião que Saíu do Frio"..., bem "clichê" do meu ponto de vista). De modo que, antes de ver o filme, já gostei. Ele já foi espião sim, isto é, trabalhou na Inteligência britânica. Mas o que conta é que ele consegue desenhar seres humanos que realmente parecem seres humanos, nem andróides nem marionetes, como tantas vezes acontece no mundo da "literatura de ação". O Smiley dele é um cara que, lendo uma de suas histórias, nos dá a impressão de o conhecermos de algum lugar... não sabemos bem de onde... Então verei o filme (quase vi ontem, mas não peguei o horário certo). Abração. Davy. |
Voltar ao topo [Aeternus:4927] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-17) - RE:O Jardineiro de Deus e o Smiley do Davy
 Davy se apresentou como "um leitor mediano ...isto é, nenhum virtuose da literatura, desses que já leram tudo e só pouca coisa é capaz de interessá-los", para enfatizar sua admiração por John Le Carré. E confirma ter sido ele um espião da inteligência britanica, desenhando seres humanos que parecem humanos, que conhecemos de algum lugar... Senti inveja quando li o testemunho de alguém que sente capaz de exercer "seletividade" para ler, do tipo de uma seletividade reconhecida. Leio quase qualquer coisa e, infelizmente, meu critério de seleção é mais emocional do que razoável ou artístico. Não consegui ler, até hoje, o Dom Quixote mas li toda obra de Agatha Christie e do rei Arthur e Amadis de Gaula. Li a crítica ao Quixote feita por Foucault e as conferências falsamente depreciativas sobre Cervantes escritas pelo Nabokov. Não peguei o original... Estava há pouco vendo uma reportagem muito bem feita sobre o Dom Quixote no "History Channel", com depoimentos documentados de Günther Grass, Saramago, Vargas Llosa e vários professores de literatura espanhola, mais trechos de filmes inspirados na história da dupla espanhola ( trechos do Sherlock Holmes e Dr.Watson de C.Doyle ou os robôs altos e baixos R2 e R1 de Guerra nas Estrelas) enfatizando a qualidade cinematográfica do texto de Cervantes ( cenas de Chaplin, por exemplo). Assim como Camões, Cervantes era um guerreiro valente e passou vários anos tendo problemas para adaptar-se à corte e sendo enviado para prisão ou exílio. Admirável a coragem de ser injustiçado, punido, preso e com mais de cinqüenta anos escrever uma novela sem esperança de ficar rico! Que seja uma sátira aos romances de cavalaria, cenário de "filme de ação" de roliúde, um testemunho de "gente como a gente", seja como história das emoções humanas básicas e da importância da amizade, temos Cervantes/Quixote/Sancho Pança até hoje. Como, talvez, o Smiley do qual fala Davy. Se tiverem History Channel, tentem ver a reportagem. Queria poder lembrar melhor para partilhar com vocês... |
Voltar ao topo [Aeternus:4930] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-19) - Cidade Fiel
 Minha implicância com livros do John LeCarré começou exatamente com "O Espião que saiu do frio", o filme (chato) e o livro (comecei e enchi), não entendendo o porque de tanta badalação. Eu tinha 15 (ou menos)anos, pode ser que não tenha captado as qualidades do autor. mas o Davy acabaou dizendo que o livro inicial que deu o pontapé de partida na fama e culto ao LeCarré seria mesmo o mais fraco. Um filme menosprezado do Sidney Lumet (que é mesmo de alguns altos, muitos médios e muitos baixos), "The Deadly Affair" (acho que se chamou 'Um Morto ao Telefone' no Brasil) tinha o James mason pós-"Lolita"/Kubrick, Lynn (irmã menos famosa da Vanessa) Redgrave, Simone Signoret subitamente envelhecida como ficou daí para diante e mais gente fina num elenco e tanto. E eu gostei (só vi uma vez, gostaria de rever, mas com medo de medecepcionar) e a crítica e o público esnobaram. Este filme "O Jardineiro Fiel" ('The Constant Gardner', belo título) certamente tem uma boa base. O roteiro me pareceu muito bem desenvolvido (mas não é do brasileiro que roteirizou "Cidade de Deus") e a direção do Meirelles é super-competente, com atores certos para os personagens que eles vestem bem. Jansy questionou meu questionamento sobre linguagem (geralmente cosmética) de propaganda em filme-denúncia de miséria e violência em "Cidade de Deus". É um bom tema para uma nova lista: a ética (Jansy sugeriu um código - nem de ética, mas de - etiqueta profissional). Realmente, é uma utopia dos anos 1960 a cobrança de coerência política (preferencialmente de esquerda) numa forma de expressão tão art-industrial como o cinema. A bagunça começou quando o ídolo da intelectualidade nouvellevaguiana, o Jean-Luc Godard, começou a elogiar um diretor como Samule Fuller, algo á direita do cinemão norteamericano, considerado cultor da violência (na época: hoje seus filmes talvez passem na sessão da tarde). Se era um "autor", tudo ficava bem para a idiossincrasia do Cahiers du Cinéma e outras revistas afetadas de cinema. Realmente, há propagandas que são vera arte e há pretensa arte que faz proselitismo disso e daquilo, quando não merchandising explícito. Jansy bota o dedo na ferida ao lembrar documentários que são ficções e ficções que são desonestas recriações de personagens e eventos reais vendidas como "realidade histórica" (afinal, quem vai dizer que os reis e rainhas d'antanho eram muito feios ou personalidades escrotas?) Mesmo assim, há limites que eu percebo que são ultrapassados em determinadas situações, só não tenho ainda clareza de explicitar o que chega a me parecer desonestidade de "formadores de opinião" ao retratar (ou comentar) o falseamento de uma mensagem ou ideologia que se revelará o "fiscal dos gastos). |
Voltar ao topo [Aeternus:4931] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-19) - RE: Lumet europeizado e tendências USA
 O Lumet teve essa fase com jeitão europeu, "The Pawnbroker", "O Espião...". Aquele filme cinzentão, recheado de capotes, frio, neve, bruma. Atualmente nenhum produtor americano da mainstream aventura-se por essas bandas. Houve uma cristalização de tendências no gosto do público, e qualquer tentativa de mudança aqui implica em ousadias temidas - com toda razão ! - pelo pessoal que raciocina basicamente com o bolso, como eles tanto apreciam. O que acho especialmente curioso é a extensão dessa cristalização de tendências espalhar-se, estabalecendo praticamente padrões de discurso, padrões de estética. Esperando o início de um jogo ou algo que men interessava na TV, assisti um trecho de "Quero Ficar com Polly", uma comédia semi-debilóide ( e seria melhor assumir-se francamente debilóide...), pretensamente farsesca. As situações eróticas do roteiro - a começar pela noiva, que na lua-de-mel atrai-se perdidamente por um guia francês simpático, falastrão e nudista - são transformadas em pataquada, deserotizando assim e propositalmente qualquer proposta. Na volta aos USA, todos os companheiros de trabalho condóem-se com o coitado, oferecendo imediato apoio e causando-lhe constrangimento pela perda de privacidade. Um destes descamba para o escatológico e mau gosto e afirma 'eu sempre disse que ela não passava de uma puta'. Seja para driblar a auto-censura e censura americana, seja por incapacidade mesmo de abordar com um mínimo de criatividade o assunto, parece que o filme evoluiria para o relacionamento do noivo/recém-marido traído com uma antiga amiga, 'prafrentona' - é o que nos informa a sinopse. Porém esta é a Jennifer Anniston, tão prafrentona ou ousada quanto um legume de final de feira. É isto : sexo tem hora, lugar e jeito estereotipado, selado, carimbado. Sexo é anti-business, a não ser em sua hora, lugar e com jeito estereotipado. Junto com todos os americanos, marchando firmes em direção ao big business, ao que realmente intere$$a. |
Voltar ao topo [Aeternus:4932] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-19) - RE:RE: Lumet europeizado e tendências USA
 Que bom que o Marquito acrescentou observações às do Gallego, tirando-me de uma enrascada involuntáriamente auto-imposta: a de uma espécie de vigilancia do cinema politica/artisticamente correto. Já estava nervosa ao ler o arrazoado do Gallego e enfiando a carapuça de metida a "formadora de opinião" ( não que o Gallego tivesse me jogado neste contexto, ele apenas citou e, gentilmente, pontuou... ). Gallego observou sobre os questionamentos quanto à "linguagem (geralmente cosmética) de propaganda em filme-denúncia de miséria e violência ... É um bom tema para uma nova lista: a ética (Jansy sugeriu um código - nem de ética, mas de - etiqueta profissional). Realmente, é uma utopia dos anos 1960 a cobrança de coerência política (preferencialmente de esquerda) numa forma de expressão tão art-industrial como o cinema. A bagunça começou quando o ídolo da intelectualidade nouvellevaguiana, o Jean-Luc Godard, começou a elogiar um diretor como Samule Fuller, algo á direita do cinemão norteamericano...Mesmo assim, há limites que eu percebo que são ultrapassados em determinadas situações, só não tenho ainda clareza de explicitar o que chega a me parecer desonestidade de "formadores de opinião" ao retratar (ou comentar) o falseamento de uma mensagem ou ideologia que se revelará o "fiscal dos gastos". Florião falou de "uma cristalização de tendências no gosto do público, e qualquer tentativa de mudança aqui implica em ousadias temidas ...pelo pessoal que raciocina basicamente com o bolso. ..essa cristalização de tendências espalhar-se, estabelecendo praticamente padrões de discurso, padrões de estética..." Perfeito. Que dobradinha! Quando comecei a me entender como gente eu supunha haver um consenso dos adultos, como se fosse não apenas algo do senso-comum, mas de um senso-geral sobre a responsabilidade dos pais e das escolas para que "educassem" os filhos, e a religião com seus ritos e tradição "conduzisse pelo bom caminho" . As "belas-artes" iriam corroborar os "bons ensinamentos", como vitrais, corais e teatro ilustrariam para os analfabetos a verdade do mundo. Quando as idéias de Freud entraram na minha vida ( em dois golpes: aos cinco anos de idade e depois aos doze ) eu reagi contra a idéia de que não era possível nem educar, nem governar, embora já tivesse sacado que grande parte dos adultos não eram maduros ou sábios, mas tão bobos quanto eu. Foi quando primeiro me apeguei ao Lin Yutang e a alguns artiguinhos da "Seleções" ( e juntei mesada para comprar aquelas coletaneas de "música dos grandes mestres" ). Por sorte, caí logo no Sarte e no Nietzsche que não excluiram, mas se adicionaram aos romanticos ( Goethe, Shelley, Keats e até Shakespeare!): o belo seria o verdadeiro e justo. Nos anos cinqüenta, havia formadores de opinião entre o "grupo de pares" nos colégios: minha escola (só para "meninas") tinha as lideres que julgavam as demais, autoritária e inocentemente, a partir das boas/más notas,pontualidade/ordem/higiene quem caberia em qual patota. Quem usava roupa de etiqueta, quem era parente da professora, quem era indispensável nos jogos de queimado ou pique-bandeira , quem era "nerd" ("cdf" do bem ou do mal) e quem era pra ser esquecido e obliterado... Havia "maus elementos" ( lembram desta expressão?). Havia comparação entre as escolas, também. Quem estudava onde, morava em que lugar, freqüentava qual igreja... Era um mundo cheio de "categorias" que, na infancia, me pareciam compor o que Freud designaria depois de "princípio da realidade", "processo secundário", "ego controlando o id". Cantigas de ninar tinham o maniqueísmo do bom e do mal. As cantigas de roda funcionavam da mesma maneira: veículos de alguma moral. O mundo, inocentemente, era todo cheio de formadores de opinião e catequistas. Os valores mais altos no horizonte das garotas era encontrarem um "rapaz respeitador", que fosse de preferencia "advogado, engenheiro ou doutor" e estas, recatadas, deveriam sonhar em ser "normalistas", professorinhas e donas de casa Que bom que o anel era de vidro e se quebrou. Descobrir qual é a "realidade" e a "verdade" ( singulares ou plurais) é que são elas...O que é "lixo" e o que é "para guardar"... Fim das categorias "agricultores, padres e nobres guerreiros", " classes incultas, classe média, ricos", "arte erudita e popular", "sensibilidade de elite e gosto das massas". Me perdi. É a pressa e o horário de verão...Tenho que sair pra trabalhar... |
Voltar ao topo [Aeternus:4934] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-19) - RE:RE:RE: anos dourados
 'que bom que o anel era de vidro e se quebrou'... Pois é, mas essa terra d'o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou, da perda dos paradigmas e florescência das minorias revelou-se de uma rudeza provavelmente maior que a do arco de nossas resistências. E junto com estas, as da Natureza. Sei que sou um sujeito chegado ao exagero, ao destempero em avaliar determinadas situações. Mas outro dia, assistindo um jornal de TV desses da vida senti-me numa redoma - era inegável o conforto do meu sofá, a boa imagem e som de meu velho aparelho acoplado às caixas, a temperatura estava agradável - dentro de uma caldeira dessas do Inferno. Falava-se no terremoto em Cachemira; na gripe aviária e provável aumento de letalidade de vírus mutantes; a garota do tempo tinha detrás de si o mapa do Brasil com labaredas em toda a região Norte e parte da Centro-Oeste; inundações em São Paulo e Porto Alegre; próxima temporada de ciclones e furacões no Golfo do México; desbaratada uma quadrilha de seis policias federais, que extorquia mafiosos e roubou o dinheiro apreendido, já nos cofres de cadeado papaiz-para-lactentes da PF, de um bando de elite da cocaína; brigas de facções de torcidas de futebol resultando em mortes violentas. Os rumos escolhidos pela globalização não indicam nenhum sinal favorável - se alguém souber de algum, favor indicá-lo ! Uma ridícula padronização e categorização internacional chamada ( ridiculamente também ) de 'percepção de corrupção' mostra nosso Brasil com nota 3,7. Estamos atrás da Argentina e do Paraguai, por exemplo ( faz cosquinha em mim para eu rir...). Somos 37% honestos, em média. |
Voltar ao topo [Aeternus:4935] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-19) - RE:RE:RE:RE: ânus dourados
 Uma das ironias que achei mais legais armadas por Denis Arcand em Invasões Bárbaras aparece logo no começo, depois de ter mostrado de perto o "panorama" social e a corrosão de valores que circunda todo mundo ali: ele coloca uma cena em que noticiam pela tv as "invasões bárbaras" atingindo as torres WTC. Naquele contexto fílmico, o gosto que fica no ar é o de uma pergunta: "cêis têm certeza de que a barbárie vem de fora?????" (pergunta que o Michael Moore demonstrou depois não precisar sequer ser levada em sentido figurado). A miséria ainda não pegou todo mundo, mas só num certo sentido, porque, de outro ponto de vista, todo mundo está, no mínimo, CERCADO por ela, ilhado, ameaçado, morrendo de medo, em condomínios fechados que agora se revelaram também inseguros, alvos de "arrastões"... bárbaros. Quanta gente não mudou pra apartamento por achar que casa térrea era insegura, e agora não acha mais nada seguro? Mas ninguém parece desconfiar de que as pessoas não nascem com vontade de assaltar, sequestrar, depredar, estuprar... Que elas ficam assim também por causa da miséria, mas que não é só a do dinheiro: é uma OUTRA miséria, mais fundamental, mais devastadora... a miséria de humanidade! Não, o Marx era meio otimista demais quanto à natureza humana ("a natureza humana devia cair na miséria absoluta para fazer nascer de si própria sua riqueza interior"). Ela não brota assim espontaneamente na aridez, como os cactus de Antonioni em Zabriskie Point. Mas haverá alguma fórmula pra reverter isso? Ou será necessário, como diz vários de meus amigos, que tudo imploda numa espécie de apocalipse cultural pra jogar uma água na cara dos zumbis? Que língua teremos que falar para nos entendermos? Que catástrofe terá que ocorrer para que finalmente unamos as nossas forças? Mas pra não ficar só nos becos sem saída, não devemos ultrapassar o limite da nossa cultura, que é o quando o sofrimento do outro não nos toca mais. Muitas vezes, não encontramos respostas porque o olhar está viciado, em virtude da pergunta que vínhamos fazendo. Façamos outra pergunta e outra resposta pode vir. No fundo, o que é o processo de psicanálise senão pedir à pessoa que ela conte outra história sobre ela? Que ela perceba que a história que tem sobre si mesma parte de um ponto de vista particular, de uma narrativa oferecida pelo outro - e foi um tipo de prazer que ela desenvolveu sendo personagem dessa narrativa. Se ela sai dessa posição, o universo se abre. Não que sejam soluções, mas, como vejo, nos dão pistas... Abraço! D. |
Voltar ao topo [Aeternus:4954] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-20) - RE:1. Eros: O homem pergunta: "O que acontece se eu me deitar aí com você?" A mulher responde: "Eu te digo meu nome"
 "A MÃO" é de arrebentar!!!!! O do Antonioni ficou prejudicado pela dublagem em italiano - sei lá que língua os atores estavam falando originalmente, se francês ou inglês... Mas é um curta bem pictórico, enquanto seus significados são daqueles que a gente só consegue enxergar entortando os olhos, como diante daquelas figuras em 3D: lembrar da correspondência entre a natureza interior e exterior dos personagens, que caminhos percorrem, o ambiente, o desejo, o artifício, a intervenção na natureza, a poluição, os galhos secos, de fora e de dentro, a nudez, a vestimenta, os cavalos, os corredores estreitos, o carro em contraste com a paisagem, a torre, o mar... o distanciamento, o novo, o feminino... e o feminino. Aí que tá: ele não envolve, porque, como sempre, Antonioni não faz filmes de amor, mas sobre o amor. Este é SOBRE o erotismo. Se bem que Identificazzione... foi bem erotizante, com cenas de fazer a gente suar na cadeira e rasgar o estofado com os dedos... E o do Soderbergh é divertido. Ele conseguiu ser inventivo para sugerir o encapsulamento na onipresentificação do subjetivismo, reeditando aquela velha questão: "a vida é sonho ou o sonho é a vida?". Mas foi o mais inflacionado de estilização gratuita... Botar o episódio dele depois do de Antonioni, foi, nesse sentido, cruel contra o Soderbergh. Mas talvez eu não esteja sendo imparcial, eu implico muito com ele (SoderBLEARGH!). O episódio tem qualidades: gosto muito do Robert Downey Jr. E o psicanalista é fantástico! Já o Kar Wai, eu sempre adoro. O primeiro que vi dele foi aquele Felizes Juntos, em que dois homens de Hong Kong se amam e se odeiam na Argentina. Já ali, a melhor cena tinha na trilha musical a voz do Caetano: quando aparece o sonho de conhecer as cataratas do Iguaçu. "A Mão": quanta coisa acontece naquele "less is more", não?! Faz lembrar do grito no tronco da árvore ao final de "Amor à Flor da Pele", lembram? É da gente rasgar o próprio peito cas zunha! E sempre aqueles corredores dos hoteizinhos de sacanagem... Teve um filme francês, "Uma relação pornográfica", que lembra muito esse estilo, essa delicadeza dilacerante... Gong Li. Que maravilhosa. Mas o chinezinho também arrasa, especialmente no final, hã? A expressão é impressionante!!! Abraaaaço |
Voltar ao topo [Aeternus:4955] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-20) - para o Conde : Alan Arkin
 Caro Conde, o psicanalista do Soder é o Alan Arkin, veteraníssimo e esplêndido ator nascido em 1934. Mais do lado NYC, muito teatro na carreira, muita Broadway. Apareceu no cinema em "The Russians Are Coming", uma pretensa comédia farsesca, apenas regular, do Norman Jewison, profícuo realizador do sistemão, igualmente apenas mediano para medíocre. Além de dramas adaptados de peças teatrais, fez um "Clouseau" naquela s[erie do Peter Sellers; o excelente "Catch 22", do Mike Nichols, mavioso mestre de "Carnal Knowledge" e "Closer". "Catch 22" é uma farsa - este sim !!! - sobre a loucura da guerra em paralelo com a loucura humana; "Little Murders", outra farsa magnífica de Jules Feiffer, cartunista novaiorquino e roteirista de "Carnal Knowledge", onde o Elliot Gould era um fotógrafo que alcança fama na NYC dos anos 70 fotografando cocô de cachorro pelas ruas. Grupos não-identificados, como no nazismo, dão-lhe surras de quando em vez, e o Elliot apenas protege-se, sem revidar, enquanto pede 'por favor, não danifiquem minha câmera !' ( como os americanos faziam bons filmes !...). Já tinha rodagem no rôle de psicanalista, pois fez Sig Freud em 1975, num filme chamado "The Seven per Cent Solution". Teve uma fase menos expressiva, talvez pela careca e idade, mas revi-o, recentemente, no excelente "Thirteen Conversations About One Thing", mais uma farsa novaiorquina, dirigida por Jill Sprecher, sobre roteiro seu e de sua irmã Karen. Uma ironia amarga bem judaica estetiza-se num matiz irônico-deprê, e mede forças todo o tempo com uma arbitragem do Absurdo, e o Arkin faz um executivo subjacente de uma seguradora. É a própria personificação do asa-negra, aquele agourento típico que verbaliza com a maior naturalidade 'espera só um pouco que essa sua sorte já vai acabar. É estatístico.' Toda as falas e posturas dele induzem à diluição, à desesperança, à deterioração. São firmes e tranqüilas, como seriam as de um conformado profeta do apocalypse...Quando um colega que contava com alguma segurança na empresa vai ser demitido, por contenção de gastos, é claro que é o Arkin quem vai conversar com o infeliz - e faz-se o mais amável possível ali... A Jill redime-o um pouquinho no final. |
Voltar ao topo [Aeternus:4958] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-20) - Retomando o filme Eros
 Marcos viu, ru vi, agora C.D viu também. Faltam Jansy e David, dentre os mais frequentes missivistas aetérnicos irem assitir "Eros", ou melhor, "A Mão", o terceiro episódio de Eros, já que, apesar da tolerância de Marcos para com o episódio fracote e estiloso do Sorderberg e de C.D. para com o - sorry, Mr.Count - péssimo e bobo do Antonioni, o filme só vale mesmo a pena ser visto - e como vale! - pelo terceiro episódio, "A Mão", do Wong Kar Wai. Depois que Jansyta e Dayzito (e nossos prezados moitas que nos lêem mas não nos escrevem, quem sabe as moças sumidas, Eugenia, Marucia, Marcia, et alli voltam a nos dar a honra de interagirem com nosotros?)assitirem "A Mão" poderíamos comentar com mais detalhes essa obra-prima imprescindível de ser conhecida, um dos mais belos filmes dos últimos tempos, mais delicados, melodramático sem pieguice, erótico no sentido eros=ligação, ainda que sob a égide de vicissitudes algo perversas, masoquistas, enfim, nada muito diferente da vida que imita a arte e vice-versa em uma espécie de Henry James (me lembra "A Fera na Selva") com sexo ou de Nelson Rodrigues com sublimação e delicadeza. Ainda não havia me tocado que o filme dos chineses gays na Argentina era desse mesmo diretor. Não me encantou quase nada, este. O badaladíssimo (e antonioniano) "I'm in the mood for love" também não me apaixonou tanto quanto a outras pesoas que conheço. Apreciei. Ponto. O "2046" que também passou na mostra se perde em excessos mas ainda assim é um filme de responsa. Mas o episódio de "Eros", "A Mão" contido em meia hora de filme apenas por força da concepção de filme em episódios saiu redondinho. Acho que há muito o que se conversar a partir de "tão pouco" (condensação é uma virtude; síntese evoca análises). Agurado a resposta à chamada de mais gente: digam "presente" e soltem o verbo. |
Voltar ao topo [Aeternus:4960] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-20) - RE: vitrines da perversão : Leconte e Wong Kar Wai
 Como emergente dos subterrâneos da perversão, o que acho mais belo no Wong Kar Wai de "The Hand" é a descoberta do amor a partir do ato pervertido. E pelo visto, se ele continuar trilhando essas sendas, como no tal filme dos roqueiros-japs-gays, começará a compor uma Antologia Pervertida como Patrice Leconte faz na França. Este prefere um camaleonismo. Flutua da farsa, em franco deboche à sexualidade escrachada e seus rumos em nosso tempo, como em "Tango", chega ao sardônico, como em "Confessions Trop Intimes" ( da Mostra do ano passado, meu preferido ), passando pela mestria de "Mr.Hire", o mais parecido com o estilo de "The Hand" : sofrido, penoso, arrebatado 'para dentro', perversão tangenciando amor, gesto pervertido tornado ternura... Talvez seu filme mais 'puro' seja "La Veuve de St.Pierre". Onde um casal ( pervertido, claro / Auteuil/Binoche )é devorado pelo cartesianismo imperialista francês. Em sua elegância natural, tons escuros, vestes em matizes acinzentados, perfumes de Mme. Bovary e décors sombrios, "The Hand" 'avisa-nos' com antecipação do trágico. Como tantos e tantos amores pela milenar China, a diferença social será seu cutelo. E nossa querida perversão, afinal, a fadinha da história... |
Voltar ao topo [Aeternus:4961] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-20) - RE:Retomando: se a mão der pé...
 Vou tentar responder ao Roll-Call ( with no Discount) do Gallego. Amanhã provavelmente poderei ir ao cinema e, se estiver passando em Brasília, serei uma das contempladas. Achei interessante o que os tres, CD,MF e LF observaram sobre o aspecto da "perversão" como apresentado com delicadeza. Se na infancia somos todos "perversos polimorfos" e se a pulsão é sempre parcial, então... por que não curtir estas fragmentações do prazer sem a cobrança globalizante da fase pós-edipica tão cara aos kleinianos britanicos? Mãozinha, pézinho, pele, olho, cabelo e orelha...sem ter que montar um Frankenstein só pra integrar tudo? |
Voltar ao topo [Aeternus:4962] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-20) - RE:RE:Retomando: se a mão der pé...
Os riscos de moralismo nas teorias psicanalíticas é enorme, ainda que nem sempre intencionais: relação total de objeto. Quequiéisso? Coisa de gente grande? Quando eu crescer quero ter? As relações parciais de objeto podem ser o que se consegue, o que se tem, o melhor ou menos ruim possível. E vamos torcer o nariz para isso por isso? Jansy sem ver o filme captou bem a questão enunciada pelos tres cavalheiros, todos 3 chapéu (epa) na... mão! Ô Guto! os 3 mosqueteiros eram 4! Achegue-se que dá pé! |
Voltar ao topo [Aeternus:4964] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-20) - RE:RE:RE:Retomando: se a mão der pé...
 E aí, Guto? Vamos ao cinema??? ( só não dá para levar a Diana) Gallego, como é mesmo o nome dos tres mosqueteiros e Mais Um? Melchior, Baltazar, Athos, Porthos... e D´Artagnan? Na canção edipiana da Terezinha de Jesus só cabem tres ( pai, irmão e um cavaleiro estranho) |
Voltar ao topo [Aeternus:4965] Mensagem do Grupo48 -Alexandre Dumas(2005-10-20) - RE:RE:RE:RE: Aramis
 ...élémentaire, chérie ! Un nom qui se trouve partout ! ( lembrei agora de 'Passepartout' ! Quem foi 'Passepartout' ? ) |
Voltar ao topo [Aeternus:4966] Mensagem do Grupo48 -Semiramis(2005-10-20) - RE:Aramis
 E o nome do Rei Mago faltante? Passepartout é personagem do Julio Verne e um programa avançado de computação... ""The Secret Adventures of Jules Verne" is a television series telling the mythical adventures of a fabulous dirigible named the Aurora and its crew of four adventurerst. The time is somewhere in the 1860's. There is unrest in Europe, civil war in America, and fighting in the Balkans (as usual). The zoo animals are still intact in the Paris zoo, their fate as dinner for the hungry masses not happening for another decade. The intrepid adventurers are Phileas Fogg, Rebecca Fogg, Jules Verne, and Passepartout. |
Voltar ao topo [Aeternus:4967] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-20) - RE:RE: filiação imediata !
Alisto-me de imediato nessa petição. |
Voltar ao topo [Aeternus:4968] Mensagem do Grupo48 -David Niven(2005-10-20) - RE:RE: Around the World in Eighty Days
 Muito bem, Jansyne ! E meu compenheiro quando fiz Philleas Fogg foi Cantinflas, lembra ? |
Voltar ao topo [Aeternus:4969] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-20) - RE:RE:1. Eros: Fetiche-tornado-amor
 "Assim devidamente pervertido, o rapaz desenvolverá um profundo sentimento pela patroa, avalanche interior contida, vivida no atelier onde ele faz sexo - timidamente - enfiando as mãos pelo tecido da amada, que está a alinhavar. Fetiche-tornado-amor..." (Marcos Florião) As observações que vocês fizeram são ótimas! Belíssimas! E o trecho que recortei aí em cima é o que considerei um grande momento de amor com o filme... Lindo! De fato, aquela cena do fetiche tornado amor é ANTOLÓGICÍSSIMA!!!!!!! Tal como o episódio todo. No do Antonioni, o que me tirou da sensação de dèja vu inútil foi o encontro das duas mulheres, que eu "linkei" com aquele diálogo que pus no título da mensagem anterior: "eu te dou meu nome". E com isso o personagem masculino conclui "o perigoso alinhavar das coisas" e sai satisfeito, sem perceber que está EXCLUINDO o... "caos". É da necessidade de matar o caos apelando para um arremate ideativo que Antonioni está tentando falar ao concluir o gozo corporal com um nome-adjetivo, Linda, (mostrando um beijo no pé nu e adornado, e pés, no ideário pictórico, como me ensinou uma historiadora de arte, remete à materialidade do humano, ao seu caminhar e às realizações, por isso há tanto pôr e tirar de sapatos no filme) que mata as incertezas como recompensa de matar as vontades. O homem vai embora e as duas mulheres passam a ficar niveladas, achatadas na mesma exclusão. Mas Antonioni prefere não acompanhar aquele que exclui, e tenta adivinhar o encontro das excluídas naquela paisagem já meio estragada e abandonada pela intervenção humana. Mas depois do AVC do Antonioni, não dá pra esperar muita coisa. Naquele outro (é "A caminho das nuvens"? é este o nome?) também em episódios, o véinho até chamou o Wim Wenders para ajudá-lo a dirigir, e é quase que igualmente frustrante, embora menos constrangedor (minha memória está me pregando uma peça ou a moça do primeiro episódio daquele filme era a Iréne Jacob?! Precisamos averiguar.) [E será que ele fez esse episódio na mesma época daquele outro filme e resolveu tirar porque nem ele tinha gostado? E que resolveram agora lançar por causa do NOME do diretor continuar sendo Cult?] Sabe que eu fico muito intrigado com essas coisas de "filme para público feminino" e "filme para público masculino"? Diziam coisas assim de Esposamante, que só mulheres entenderiam. Tá certo que eu reconheço a dificuldade dos homens embarcarem num filminho bem menos complexo, Don Juan de Marco: era divertido conversar com os casais sobre este filme e ver como as mulheres vibravam e os maridos bufavam... Mas em geral acho infeliz essa distinção. Fiquei, por exemplo, abestalhado ao ver que quase uma dezena de mulheres saiu pisando duro da sessão de MALENA a que fui assistir no Cinearte. Manja, aquele tipo de mulher que exala feminismo ressentido? Elas iam, uma a uma, saindo indignadas! A cada sonho erótico ou avanço real do rapazinho em direção a sua DEUSA Malena, levantava uma ou duas bufando. Foram umas 3 levas em momentos diferentes... Me deu vontade de ir atrás perguntar o motivo... Será inveja da beleza D-E-V-A-S-T-A-D-O-R-A de Monica Bellucci? Em Malena, então, ela estava demais!!!!!! Mas A MÃO é uma obra prima! Apoiados! Abraço forte As observações que vocês fizeram são ótimas! Belíssimas! E o trecho que recortei aí em cima é o que considerei um grande momento de amor com o filme... Lindo! De fato, aquela cena do fetiche tornado amor é ANTOLÓGICÍSSIMA!!!!!!! Tal como o episódio todo. No do Antonioni, o que me tirou da sensação de dèja vu inútil foi o encontro das duas mulheres, que eu "linkei" com aquele diálogo que pus no título da mensagem anterior: "eu te dou meu nome". E com isso o personagem masculino conclui "o perigoso alinhavar das coisas" e sai satisfeito, sem perceber que está EXCLUINDO o... "caos". É da necessidade de matar o caos apelando para um arremate ideativo que Antonioni está tentando falar ao concluir o gozo corporal com um nome-adjetivo, Linda, (mostrando um beijo no pé nu e adornado, e pés, no ideário pictórico, como me ensinou uma historiadora de arte, remete à materialidade do humano, ao seu caminhar e às realizações, por isso há tanto pôr e tirar de sapatos no filme) que mata as incertezas como recompensa de matar as vontades. O homem vai embora e as duas mulheres passam a ficar niveladas, achatadas na mesma exclusão. Mas Antonioni prefere não acompanhar aquele que exclui, e tenta adivinhar o encontro das excluídas naquela paisagem já meio estragada e abandonada pela intervenção humana. Mas depois do AVC do Antonioni, não dá pra esperar muita coisa. Naquele outro (é "A caminho das nuvens"? é este o nome?) também em episódios, o véinho até chamou o Wim Wenders para ajudá-lo a dirigir, e é quase que igualmente frustrante, embora menos constrangedor (minha memória está me pregando uma peça ou a moça do primeiro episódio daquele filme era a Iréne Jacob?! Precisamos averiguar.) [E será que ele fez esse episódio na mesma época daquele outro filme e resolveu tirar porque nem ele tinha gostado? E que resolveram agora lançar por causa do NOME do diretor continuar sendo Cult?] Sabe que eu fico muito intrigado com essas coisas de "filme para público feminino" e "filme para público masculino"? Diziam coisas assim de Esposamante, que só mulheres entenderiam. Tá certo que eu reconheço a dificuldade dos homens embarcarem num filminho bem menos complexo, Don Juan de Marco: era divertido conversar com os casais sobre este filme e ver como as mulheres vibravam e os maridos bufavam... Mas em geral acho infeliz essa distinção. Fiquei, por exemplo, abestalhado ao ver que quase uma dezena de mulheres saiu pisando duro da sessão de MALENA a que fui assistir no Cinearte. Manja, aquele tipo de mulher que exala feminismo ressentido? Elas iam, uma a uma, saindo indignadas! A cada sonho erótico ou avanço real do rapazinho em direção a sua DEUSA Malena, levantava uma ou duas bufando. Foram umas 3 levas em momentos diferentes... Me deu vontade de ir atrás perguntar o motivo... Será inveja da beleza D-E-V-A-S-T-A-D-O-R-A de Monica Bellucci? Em Malena, então, ela estava demais!!!!!! Mas A MÃO é uma obra prima! Apoiados! Abraço forte |
Voltar ao topo [Aeternus:4970] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-20) - RE: Gilliam e Monica Belucci em Os Irmãos Grimm
 Meteram o malho nesse filme, e não fui ver. É do Terry Gilliam, ex-Grupo Monty Pithon, humor negro e irreverente inglês. Mais pretensão do que resultados. O Gilliam gosta de ser estiloso, como naquele "Brazil". A cena que gosto mais do antigo grupo dele é uma em que os crucificados no terreirão descampado one Cristo o será igualmente cantam tranqüilamente, pregados à cruz e entremeando a canção com assovios gostosos, em baladinha, cujo refrão várias vezes retomado é 'always think of the bright side of life !' ( e seguia-se o coro de assovios harmônicos ) Vi uma foto linde da Monica tipo uma fada mázinha... Elegantíssima, cabelos penteados para trás, presos, realçando o esplendor negro que lhe cobre a nuca.
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Voltar ao topo [Aeternus:4971] Mensagem do Grupo48 -Guto(2005-10-20) - RE:RE:RE:RE:Retomando: se a mão der pé...
 Vamos sim, surely, mas pode ser outro dia ? Virei roceiro. Viiiiiiiixe, cumadre. Obrigado e ao Gallego pelo material que ajudou no haikai dos malucos. |
Voltar ao topo [Aeternus:4972] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-20) - RE: Around the World in Eighty Days
 Jansyne? Parece nome de remédio. Jansin também não, tem sabor de pecado. É sempre possível fazermos uma sátira a este tipo de "feminismo/machismo", na linha de alinhavo de uma antiga publicação chamada "Dicionário Kazan" que tinha versão para homens e na versão para mulheres. Comprei as duas para comparar ( tinha filhos e filhas para presentear depois) e morri de rir. As diferenças não tinham nada a ver com meninos e meninas, nem tinham chocolate a mais como acontece com os coelhinhos Kopenhagen. Se continuar com a tarde livre inaugurarei uma lista versão F e versão M...se bem que, depois que Eugenia, Marúcia, Helena e Marcia me abandonaram parece que não teremos candidatos para escrever em F. Lembrei de uma conhecida que ficou sem saber em qual banheiro entrava porque havia uma espécie de batráquio numa porta ( ela não contou qual bicho vinha na outra) e temia entrar numa fria. Até que se tocou que não era rã nem sapo, mas perereca. Então pode fazer pipi em paz. |
Voltar ao topo [Aeternus:4973] Mensagem do Grupo48 -Dercy Gonçalves e Marcos(2005-10-20) - RE:RE: de pererekas e toilettes
 ...'a perereca da vizinha está presa na gaiola / xô perereca ! / xô perereca !' Os toilettes em Paris são montados sem preocupações maiores com pudores. Há os mistos ( ôps ! chacun à sa fois !...) e o masculino do aeroporto tinha um espelhão retangular à côté, à derrière de les lavabos, que concedia ampla mirada dos trabalhos dos usuários. Afora as faxineiras que entram sem cerimônia em nosso reservado para exercer sua sina. |
Voltar ao topo [Aeternus:4974] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-20) - RE:RE:RE: de pererekas e toilettes
 "Lembrei de uma conhecida que ficou sem saber em qual banheiro entrava porque havia uma espécie de batráquio numa porta ( ela não contou qual bicho vinha na outra) e temia entrar numa fria. Até que se tocou que não era rã nem sapo, mas perereca. Então pode fazer pipi em paz". (JANSYTA) Acompanhei uma série de documentários na TV Cultura sobre o corpo humano e eles disseram lá que, bem na base, nós conservamos um cérebro igualzinho ao dos répteis, só que com acréscimos... No fundo, todos somos sapos aspirando à condição de príncipes... Eu sempre me perguntei: Como será que uma coisa tão bonitinha como a "perereca" foi ganhar por apelido o nome de um bicho tão feio como a perereca? Deve ser coisa de adversário querendo que a gente mantenha distância das disponíveis... Bêjo e abraaaaaaaaaaço D., o ainda sapo do brejo |
Voltar ao topo [Aeternus:4975] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-20) - RE: de pererekas e toilettes
 Então... sociologia de banheiro no vapt vupt. Na França, o que mais estranhei não foram os banheiros mistos e sim, a distancia entre os vasos e as pias para lavar as mãos. Fui jantar numa residencia formalíssima e havia compartimentos distintos para cada etapa, donde não me animei a cumprimentar ninguém ali ( só os árabes: sua alma, sua palma ... a direita) . Não fui longe na idéia da lista FM ou Unisex/stereo pois me ocorreu que, se eliminarmos do final das palavras as vogais "a" e "o", discriminatóris e politicamente incorrets, obterems frases mais enxuts, sem perdermos s sentids. Se própri vogl "o" por si só implic em castraç~ e, consequentemente, em uma femininzaç~ , seri interessante substituirmos sempre o "a" pelo "o". Deste mod um sentenço comum descreveria os meninos ( sex feminin) e s menins ( sex masculin), evitando ou adamizando lapss com "o feminino", que sugere dubiedade. Isto é que dá, estou fazendo companhia ao Rafael que quer cafuné enquanto assiste o Cartoon Network. Começo a pensar igualzinho. Aliás, vi umas cenas com Buzz Lightyear fazendo sátira ao capitalismo que achei interessante ( não sei se fica legal até o fim, mas o começo era jóia com direito ao Buzz submetido a lavagem cerebral, falando politicamente correto e gostando tanto da frase "ao infinito e além" que resolveu encomendar uma xícara de café com este lema). Será possível a Disney...????? Já ontem assisti PicNic com Kim Novak, William Holden e grande elenco. Detestei. Falsíssimo. Holden parecia um bobo alegre. Kim Novak, claro, com a cara de sempre. Aquelas festinhas de confraternização agroindustrial com bebês de touca e competições de melancias são de matar. |
Voltar ao topo [Aeternus:4976] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-20) - RE:RE:RE:RE: de pererekas e toilettes
 Lhe dou razão, CD, quanto as pererecas geladas... Lembram de um desenhista do MAD (Vitto?) que representou um banquete medieval no qual uma princesa descobria a salva de prata para encontrar uma deliciosa coxinha de rã aninhada entre batatas fritas e, animada, beijou smack... e a patinha se tranformou numa pernoca de príncipe com sapato de fivela e tudo? |
Voltar ao topo [Aeternus:4977] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-20) - RE:RE: filmes família & outras cenas no Rio antigo que não volta mais
 Eram 'filmes família' ! Neles dá até pra gente ver babando os Selznicks, Mayers da vida, antevendo os lucros ! Aqui no Long River ( Rio Comprido ) onde nasci, fina flor da cultura carioca nos anos dourados* junto ao Catete, Centro, Flamengo, e longe da Ipanema dos mauricinhos, da Copacabana boêmia e do Leblon dos refugiados - estou a brincar : todo o Rio tinha um jeito gostoso, que se perdeu - a platéia feminina suspirava em coro diante da aparição da qualquer bebê na tela. Como se esperava mais do ser humano ! Que inocência (?)gostosa ! Então os picnics de executivos americanos balizavam-nos algo na linha 'the way to welfare&prosperity'. * houve um período em que até o Severiano Ribeiro exibia Resnais ( de quem não sou fã especial, gosto de um ou outro, mas que é sem dúvida um nome de relevo no cult ), Truffaut. Haja decadência. |
Voltar ao topo [Aeternus:4978] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-20) - RE: filmes família & outras cenas no Rio antigo que não volta mais
 Marquito, discordo & discordo quanto à "inocencia gostosa". Todas as cenas de Picnic, exceto a briga feia ( que salva o filme, talvez) são pura construção do "falso self". Estereótipo montado em estereótipo. A estas alturas prefiro as conversinhas na pensão da novela "Alma Gemea" e sua maledicência assumida ( se bem que o besteirol não é proposital). |
Voltar ao topo [Aeternus:4979] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-20) - RE:RE: por isto mesmo que eu coloquei a ?...
 ...e também nunca simpatizei com aquele mulherio 'filhinhas de maman'. Mas junto à minha timidez e isso aí aliava-se igual antipatia pelas 'porralocas', fêmeas desviantes de então. Onde ficava, então, esse pobre infeliz que vos fala ?...a. nas festas da época; b. nos confessionários das igrejas; c. ligado a grupos tipo 'turma do Bolinha'; d. solitário, entediado e dedicado estudante e estudioso das coisas deste mundo ( resposta certa : 'd' + nas salas escuras e recônditos recantos ) |
Voltar ao topo [Aeternus:4982] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-20) - Entrando no meio do(s) filme(s)
Vocês estão loucos! Fuga de idéias perde!
Parece sesão do antigo Cineac Trianon ou do Cine Hora, onde a luz não se acendia, ia emendando uma sessão na outra, sesões feitas de curtas, jornais da tela, desenhos animados, documentários breves em moto perpétuo. Vou palpitar pontualmente em 3 ou 4 coisinhas: 1) Os Reis Magos Gaspar, Melchior, Balthasar 2) Banheiros mistos... em termos. Não lembro em que museu (Louvre?) havia fila, como sempre enorme, para o banheiro feminino. Sueli não podia esperar, ia pipizar ali mesmo e se virou para mim, saindo rapidinho do Masculino e perguntou "Tá cheio?" Não estava. "Então não deixe ninguém entrar!" E eu: "C'est interdit, Monsieur!" (o cara era gringo lá e não entendia francês) (e eu não falava a porra da língua dele,devia ser holandês e na hora não saiu nada equivalente em inglês, tive que me colocar como "porta" - fechada, é claro) E o mulherio fez cara feia. Veio guarda reclamar ("No comprendo!", "Don't understand!" "What?" - e saímos de fininho... 3) "PicNic" (Férias de Amor) não era filme família. Era considerado "forte" em 1955 quando foi feito: o máxinmo que os americanos conseguiam em matéria de repressão/liberação sexual na década de 1950. O William Holden de peito nú foi considerado muito erótico. O autor da história (peça?) original era um tal de Wiliam Inge, considerado por muitos um sub-Tennense Williams (que eu acho um chato e cujos textos tb envelheceram rapidamente), com a vantagem sobre o T.W. de não abusar (nem mesmo usar) do "simbolismo". Eram historinhas que ficavam entre o escândalo bobo de "Caldeira do Diabo", "Vale das Bonecas" e mediocridades semelhantes e o que viria a ser o futuro (muito melhor, nem dá prá comparar) Edward Albee, que - goste-se ou não - tem outro estofo. O William Inge abordava as peuenas cidades do interior norteamericano e pretendia destruir a imagem idealizada da família americana na TV à la "Papai Sabe Tudo", lembrando de forma ambígua (moralista?) que sexo existia no tédio das housewives, por exemplo. (Citação: Playwright William (Motter) Inge brought small town life in the American Midwest to Broadway with four successive dramatic triumphs: "Come Back Little Sheba" (1950); "Picnic" (1953; Pulitzer Prize); "Bus Stop" (1955); and "The Dark at the Top of the Stairs" (1957). With the exception of his Academy Award-winning screenplay for "Splendor in the Grass" (1961), his later plays and prose never achieved the success of his early work. Convinced he could no longer write, Inge fell into a paralyzing depression which resulted in his suicide.) "Bus Stop" (não lembro o nome no Brasil era do mesmo medíocre diretor Joshua Logan, mas este segundo filme ficou famoso por ser com Marilyn Monroe como o equivalente "sexy" do William Holden em "PicNic"
4) Dos apelidos da perereca, gosto mais do lusitano: "Perseguida" que me lembra um fado famoso, não por acaso chamado "Perseguição", o hino da esposa fiel (à força) "Se d'mim nada conseg's Não sei purq m'prseg's Constant'máint' nas ruas... Sab's báin q'sou c'sada, Que não 'stou int'ressada e que não posso ser tua... Só p'rque éis ricu i imp'rtant Queres que eu seja tua'mant Pur capricho ou presunção (agora gemendo aos berros como que sofre pelo que vai dizer) Eu tainhu um marido pobre que p'ssue uma alma nobre i é toda a minha paixão (Segunda parte:) Rasguei as cartas sáin ler E nunca quis receber jóias ou prendas que'mi deste (de novo, gemendo) Não me vendo náim mi dou Pois já dei tudo u q'sou A um amor que não cunheces (com direito a bis deste lamento para se assegurar). NÃO MI VENDO NÁI M'DOU POIS JÁ DEI TUDO U Q'SOU A UM AMOR Q'NÃO CUNHECES! |
Voltar ao topo [Aeternus:4983] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-21) - RE:Entrando no meio do(s) filme(s) Luzes do Cineac Trianon
 Como me recordo no Cineac havia aos domingos matiné para criancinhas (eu). Havia tres notas musicais na abertura e as luzes passavam do verde, pro amarelo, pro vermelho e chegavam ao roxo e eu achava mais lindo que o arco-íris. Ali o resto do tempo era para filme pornô e o lugar era barra pesada. Havia uma galeria onde vi um faquir dentro de uma jaula, às escondidas. É que eu precisava passar por ali quando ia visitar minha mãe no trabalho na avenida São José esquina com Rio Branco. Eu nem sabia da livraria Leonardo da Vinci, mas conhecia os sebos. A livraria da Civilização Brasileira ( Quem não lê mal fala, mal ouve, mal vê...) também ficava por perto e tinha um gerente tarado. Sessão Passatempo era no Cine Odeon: " o filme começa quando você chega" . Ah. Gaspar, Melchior e Balthasar eram os reis magos. O resto foi só brincadeira. Concordo com a fuga de idéias e salada verbal e... por quê não, Dr Bronquinha? Quanto ao filme Picnic... boas dicas, como sempre. Logan era o diretor e o roteirista foi o mesmo de Splendor in the Grass ( com o diretor Elia Kazan, inesquecível ). Bem que reconheci os depósitos de grãos e algo na paisagem... O William Holden ser tratado como "boy" foi demais. A menina moleca, idem e a simpática vizinha preparando lanchinhos. Francamente. E a proposta era destruir a idealização da família americana? Se cinema serve para medirmos algum tipo de "evolução", diria que estamos muito melhor hoje do que antigamente. Dentro da minha salada de cinema, vi trechos hoje de David Lynch em "Blue Velvet" ( adoro a música) mas não agüentei o suspense outra vez. E peguei todinho o "Asas do Desejo" de Wim Wnders. Belíssimo, mas muito bobo. Tem uma ajudinha do Peter Handke no roteiro e talvez o jeito pretencioso seja por culpa dele com aquele poema que atravessa o filme. Trapezistas e circos levam jeito para encantar os anjos alemães. O que me ficou no final foi uma leve inquietação ao constatar que detestaria ser anjo ( aquele tipo de anjo xereta e inútil) embora, se fosse anjo, me borraria toda de pretender me tornar ser humano. Gosto de ser gente já que não tive escolha mas ser anjo é muito mais confortável ( viver fora do tempo, não julgar nada e não saber o que é tédio! É como dormir e sonhar infinitamente). Minha gatinha Nina Black ( que teve filhotes há pouco tempo e ainda não achei dono para dois deles) pariu mais seis hoje de tarde. Alguém quer gato importado? Guto, tem rato na sua chácara???? |
Voltar ao topo [Aeternus:4984] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE:RE: de tóraxes, portugas cutubas e anjos
 Gallego já me fez começar rindo essa sexta-sexy. Nada sexy o Holden Chest, com aquele jeito tough-comedido. Enfim...minha mãe ( y su maman también ! ) suspirou por ele em "Love is a Many Splendored Thing", desfilando por quiet windy hills com a Jennifer Jones. E sei que, na época, ele provocou rios de lágrimas com sua morte na guerra do filme. Gratíssimo ao nosso tradutor juramentado pela versão P'rtuguesa Bv'rdadáira de "Se de Mim Nada Consegues". Quase atingida a perfeição no grafismo, só não a atingindo porque existem fonemas inescrevíveis ! Um 'c' seguido de 'a' como em 'capricho' eles pronunciam com uma engolida resvalada no início do terço posterior do palato, de tal forma que a sílaba 'ca' vira quase 'cu'. Soa como um 'cu' aspirado, para dentro do esôfago. Jansy anela a paz angelical, todo aquele laissez faire... Cada coisa !... |
Voltar ao topo [Aeternus:4985] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-21) - RE: de tóraxes, portugas cutubas e anjos
 Eeeh, Florião, que anelo paz de angelo numa sexta sexy coisa alguma!!! Os suspiros não eram de freira, eram expressão da inércia ante mudanças de estado: passivo/ativo, humano/angelical; rio/df.
Esse negócio liberal de "deixar fazer" ao qual V. aludiu, pelo menos no patamar da economia doméstica ( entendendo-se por doméstico não o Brasil, mas meu ahem humilde lar ) não funciona. Um exemplo: normalmente compito com gatos e netos pelo acesso ao teclado e ao monitor do computador. Brigo para ter cinco minutos ininterruptos fazendo alguma coisa, etc. No entanto, quando fico "Zen" ( sem desejos ) tudo fica mais difícil. Quando tenho vontade própria a briga fica mais ou menos equilibrada. Quando a abandono à serviço dos caprichos dos netos e dos gatos, suas demandas perdem o referencial e proliferam sem fim. Laissez-faire é crime! Tentarei ser mais concreta: se desisto de jantar para apenas servir os pratos das crianças, fritar mais bifes, encher copos de suco, cortar bolo ou descascar bananas fico infinitamente mais desesperada do que quando as ignoro, parcialmente. Elas também preferem ser quase esquecidas porque tem que se virar com os próprios anseios. Se fico totalmente disponível não dou conta de nada porque os pedidos se sucedem numa rapidez imprevisível: quero água, suco, quero mais, o inferno e o céu também. Quanto mais tempo tenho, menos tempo tenho e... ( olhaí o problema da pulsão de morte e da inércia) todos sofrem. Todos perdem "parte dos recursos particulares" ( projetam numa figura metida a onipotente ou onipresente ). É uma lamúria sem fim. Vai ver que sextas-sexy tem que ter limite (remeterem a uma lei ) para ficarem mais sexy... |
Voltar ao topo [Aeternus:4986] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-10-21) - RE:RE:Cineac e faquires pornôs!!!
 Jansy foi catar o que Luzia perdeu na horta (as lembranças, nada do que vcs. pensaram, you, dirty-mind; esta era o título de uma coluna do vetusto "Pasquim" que equivalia às frsquíssimas madelaines proustianas e não procustrianas: memória do lixo, lembranças inúteis):
no Cineac havia aos domingos matiné para criancinhas (eu).[EU TAMBÉM IA COM MEU PAI!!! NÃO ERA SÓ SUA A SESSÃO CONTÍNUA!!!] Havia tres notas musicais na abertura e as luzes passavam do verde, pro amarelo, pro vermelho e chegavam ao roxo e eu achava mais lindo que o arco-íris. ESSA 'INTRODUÇÃO' (ABERTURA) ERA COMUM EM CINEMAS DO SEVERIANO RIBEIRO: o "CARIOCA", o "SANTA ALICE", o "IMPERATOR" NA ZONA NORTE; ACHO QUE TAMBÉM NO SÃO LUIZ E EM OUTROS DA ZONA SUL. ERA COMO UMA "CHAMADA" PARA SAIRMOS DA REALIDADE EXTRA-SALAS DE CINEMA E ENTRARMOS NA TELA COMO EM "ROSA PÚRPURA DO CAIRO", A MAGIA DO CINEMA (E SUAS SALAS DE PROJEÇÃO) COMO TEMPLOS MÍSTICOS, ANALOGIA JÁ DEVIDAMENTE ESTABELECIDA POR ENSAÍSTAS. TENHO UM LIVOR CHAMADO "TEMPLOS E POEIRAS" SOBRE A ARQUITETURA DOS CINEMAS ANTIGOS DO RIO, QUASE TODOS DESAPARECIDOS. O CARIOCA TINHA LANTERNAS DE INSPIRAÇÃO CHINESA COM MÁRMORES ROSA E VERDE-JADE DE CARRARA, UM SAMBA DO CRIOULO (ARQUITETO) DOIDO NO LIMITE DO KITSCH MAS DE RESULTADO FINAL BELO. DEPOIS, ESSA RECRIAÇÃO DE UM 'MUNDO À PARTE SE TRANSFERIU PARA A DECORAÇÃO DOS MOTÉIS: SUITES "EGÍPCIA", "HAVAIANA", "JAPONESA", TUDO PARA O SEXO SE DAR "LONGE DESTE INSENSATO MUNDO" DO TRABALHO E OBRIGAÇÕES. CURIOSAMENTE, JANSY DÁ UM SALTO NO TEMPO E FALA DE SEXO NO CINEAC, PARECENDO QUE A CRIANCINHA, "NO RESTO DO TEMPO" VIA FILME PORNÔ(Ali o resto do tempo era para filme pornô e o lugar era barra pesada.) O QUE EU ME RECORDO DA MINHA HORTA PARTICULAR É QUE, NO DECORRER DO TEMPO, O CINEAC PASSOU A EXIBIR APENAS OS SUPOSTOS "PORNÔS" DA ÉPOCA QUE IAM DE FILMES SOBRE NATURISMO SUECOS E ASSÉPTICOS COM HALTEROFILISTAS E MOÇAS GINASTAS MENOS INSPIRADORAS DE TESÃO DO QUE UMA IMAGEM DE SANTA BIBIANA DECAPITADA. LÁ, ESTREOU "VERÃO COM MÔNICA" DE BERGMAN DEVIDAMENTE (INDEVIDAMENTE) RE-BATIZADO DE "MÔNICA E O DESEJO" ONDE PARECIAM OS PEITOS DA HARRIET ANDERSSON. E JÁ ERA O MÁXIMO! JANSY ENTRA NA GALERIA DO CINEAC (SEGUNDO ANDAR, SE NÃO ME ENGANO): Havia uma galeria onde vi um faquir dentro de uma jaula, às escondidas. É que eu precisava passar por ali quando ia visitar minha mãe no trabalho na avenida São José esquina com Rio Branco. Eu nem sabia da livraria Leonardo da Vinci, mas conhecia os sebos. Sessão Passatempo era no Cine Odeon: " o filme começa quando você chega" . 0 FAQUIR SE CHAMAVA "SAKI" OU QUALQUER COISA ASIM. DEPOIS VI UMA MULHER FAQUIR, LOURA DE MAIÔ ROSA. SEM EROTISMO (NELA OU EM MEUS 5 ANOS?) ACHO QUE A LEONARDO FOI INAUGURADA UM POUCO MAIS TARDE, VOU PERGUNTAR QUANDO FOR LÁ. SEI QUE SOFREU INCÊNDIO SUSPEITO NA DITADURA MILITAR POIS VENDIAM LIVORS IMPORTADOS DE POLÍTICA, SOCIOLOGIA, MARCUSE, ETC ETC. NÃO LEMBRO QUE O ODEON FIZESSE ESSE TIPO DE SESÃO CONTÍNUA, MAS NÃO NEGO. SÓ NUNCA SOUBE. SEI QUE, POSTERIORMENTE, NO EDIF´CIO AVENIDA CENTRAL INAUGURARAM UMA SALINHA COMERCIAL CHAMADA "CINE HORA" QUE ERA ASSIM,PRÁ FAZER HORA, REPETINDO OS MESMOS CURTAS DE HORA EM HORA. NÃO ACENDIAM AS LUZES E COMEÇOU A ROLAR AMASOS E SARROS LÁ DENTRO... VIROU CINE PORNÔ QUANDO DA "LIBERAÇÃO" DA CENSURA E A VOGA INICIADA COM "GARGANTA PROFUNDA" & SIMILARES.
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Voltar ao topo [Aeternus:4988] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE:RE:RE:Cineac e faquires pornôs!!! - dá samba ?
Acho que em bom estado de saúde o Joãosinho ( com 's' como ele pede ) Trinta faria um belo Carnaval a respeito... |
Voltar ao topo [Aeternus:4989] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-21) - RE:Cineac e faquires pornôs!!! 3
 Alguém já percebeu que quqando apagado a fileira de Re:Re:Re: e coloco um número no lugar, 2 ou 3 ou 4, este número é pura invenção minha, um chute apenas?
Bom, vamos ao Gallego que, Darlingest!, entrou de caixa alta quando eu estava de saltinho baixo. Sapato de verniz com meia branca... A maioria das minhas colegas de escola morava no eixo Cosme-Velho/Gavea ( morros verdejantes) ou Botafogo/Copacabana/Leblon ( mares cintilantes). Eu destoava porque preferia Flamengo/Russel/ Centro da cidade...( Tijuca e Long River era outro mundo, privilegiado também, mas tinha seu eixo próprio) Eu me sentia fascinada e enriquecida com a experiência, inicialmente pegando o bonde até o "Tabuleiro da Baiana" para percorrer o resto a pé pelas ruelas do centro, indo da Lapa, à Cinelandia ou ao Liceu de Artes e Ofícios perto da Central do Brasil. Pegar onibus pra Petrópolis na Praça Mauá... Dava para ser menina- mocinha e caminhar à noite pelo Rio sem medo ( exceto dos bêbados e exibicionistas e, claro, do gerente da livraria Civilização Brasileira...) e ao contrário do que acontece hoje, aos dez anos já íamos pra todo canto ( inclusive Niterói) sozinhas. Uma experiência divertida que se repetiu recentemente, com os passeios que fiz com Gallego e Sueli visitando exposição de fotografias na região do CCBB ( eles conhecem todos os recantos "in" do estado! ). Acho que agora que a classe média quase toda anda de carro se perdeu um pouco do sabor dos onibus, troleys ou bondes... Sei lá porque escrevo isto, de novo de sandália e comendo poeira. Eu queria só dizer que o cine "passatempo" podia ser o Odeon, ou um outro chamado Pathé ( ficavam lado a lado ). "Atualidades Atlântica" era da turma do Severiano Ribeiro ( sonzinho triste, até hoje...). Luxo exótico era do cine Metro, Palácio... e que ficavam atravessados em relação aos outros, mais simplórios. Só me lembro das luzes coloridas acendendo no Cineac. Talvez tivesse no Cine São Luiz, mas eram muito mais mixurucas.
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Voltar ao topo [Aeternus:4990] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE: toda a discreta pujança do Rio Comprido e doces recordações
 O bairro Long River ( nos mapas 'Rio Comprido' ) teve seus últimos lampejos de quase-glória por volta de 1960. Dali em diante, uma decadência irrefreável estabelecer-se-ia. Os cinemas - Madrid ( fechado em 1970, "Hello, Dolly" fez seu coro fúnebre ), Comodoro ( inaugurado em 1967, com o bairro já meio péréquété, com o filme do John Huston, "Reflexions in a Golden Eye", o que tinha o sargento erótico, tomando banho de sol nu exibindo-se para a mulher do genera - Liz Taylor - enquanto o dito cujo - Mr. Brando - narcisava seus músculos de camiseta colante ). Nisto as duas espeluncas supremas do bairro, o 'Avenida' ( onde precisava-se de um guarda-chuva para assistir o filme, nos dias instáveis, tal o número de goteiras ) e o 'Haddock Lobo', verdadeiro almoxarifado de ratos e camundongos, que por conseguinte requeria vacinação prévia contra a raiva/peste ). As enchentes, antes garantidas nas chuvas fortes, passaram a surgir mesmo com chuvas intensas que passassem dos 5´. O rio que dá nome ao bairro foi todo cimentado em suas bordas e laterais, mas já desde esta época era quase completamente obstruído em seu curso por detritos de toda ordem. O elevado sobre a Av. Paulo de Frontin foi uma espécie de réquiem fúnebre final. Criou uma cortina de barulho e poluição permanente, comemorada com o estrondo da queda no trecho sobre a Rua Haddock Lobo, que matou dezenas de pessoas por esmagamento. Minha mãe até hoje lá reside, e com ela almoço cerca de 3 vezes por semana. Rimos juntos, e digo que 'só os japoneses ou alemães podem dar um jeito aqui !' Jansy não citou os antigos 'lotações', um mini-ônibus metido a cotar todo mundo de qualquer jeito, precursor ( segundo o Luiz Garcia-Roza, que não gosta desse termo, 'não existem precursores' em sentido : se a coisa já o era, nada pré-cursa, pois; se não o é, nada pré-cursa, também )dos alucinados condutores do pós-moderno. O jornal da Atlântida era insuportavelmente ruim, e aproveitava-se para ir ao toilette nas sessões cheias, comprar amendoim, falar uma bobagem com alguém a nosso lado, tals. Também ninguém citou a Condor Filmes, que tinha o Condor Largo do Machado e Copacabana, com excelentes filmes europeus. Tela grande, ótima projeção. Lá assisti excelentes filmes, como "Le Passager de la Pluie" ( René Clément ). Havia os folhetinescos em série, como "Angelique, la Marquise des Anges". Jansy ou Gallego : vocês sabem por que cargas d'água a platéia assoviava em peso quando o condor-símbolo da Condor Filmes voava na vinheta que antecedia o filme em exibição ? Existe alguma mitologia a respeito da ave, como sendo de algum mau agouro ? |
Voltar ao topo [Aeternus:4991] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE:RE: lotações : faltou dizer
...que eu gostava do motorista dirigindo-o com uma mão só, já que a outra, junto com seu antebraço, segurava as notas que cada passageiro lhe dava pela corrida, de forma a que o vento não levasse o jacá. E eu também gostava da porta única aberta e fechada mecanicamente, por uma alavanca, sem a chata bufunfada que as atuais portas hidráulicas executam, servindo até de 'buzina' por bandalha do condutor, desde que as verdadeiras ditas cujas foram abolidas, para alívio de nossos ouvidos. |
Voltar ao topo [Aeternus:4993] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-21) - RE: lotações : faltou dizer 3
 Quem não for carioca, pode ir deletando porque a turminha do Rio anda passeando na Horta da Luzia ( cf. explicação pasquinal do Gallego)... Florião, meu jovem, lotações vieram depois dos bondes serem desviados das rotas originais.Eu adorava arriscar minha vida neles mas nem sempre podia, porque não podia usá-los para ir ao Centro e tinha que pegar Circular via Jockey ou Copacabana. Surgiram quando eu tinha lá meus doze anos, cor de laranja e com porta "não bufunfante" e paravam em qualquer lugar sem precisar parada de onibus e subiam pelas calçadas perseguindo passageiros distraídos. Só uma coisa era proibida: viajar em pé, morte certa... Outra emoção era andar de onibus comum ( nunca surfei nos trens da Central...), principalmente sentada no banco lateral porque, nas curvas, parecia que tudo ia virar em cima da gente. Por sorte não havia ainda os viadutos curvos passando sobre onde era o Pavilhão Mourisco e não sei como não despencam onibus dali diariamente. Fora o perigo dos assaltos. No Rio a gente tava bem no meio da vida e da morte. Já falei dos operários que caíam dos prédios sendo construidos perto do apartamento onde morava, das velas em volta e dos jornais, do grito e do baque. Sempre tinha gente atropelada pelo bonde ( mas havia uma pá que não deixava ferir demais) ou por algum carro velho. No bonde era possível sentar ao lado de uma senhora com uma galinha viva na sacola e que bicava o braço da gente. Lembro do primeiro morto oficial que encontrei - eu tinha cinco anos - mantido sem flores sobre um alto suporte bem no meio da igreja Santa Terezinha de Jesus. Brincando de correr por ali ( não havia ainda o Rio Shopping, nem o "Canecão") coloquei minhas mãozinhas inocentes na borda do caixão e dei um pulo, caindo de cara no rosto do falecido. ( Como é que deixam um morto assim sem vigilancia?) Às seis da tarde era a hora do angelus e de todas as casas, com o cheiro do arroz sendo refogado e da maresia, vinham as Ave-Maria (Bach-Gounod ou Schubert) anunciando o programa do Julio Louzada... O leite, da CCPL, era entregue de casa em casa nos recipientes de vidro. Mas ainda tinha leite na carrocinha que se anunciava na madrugada com uma corneta e ouvíamos o casco dos burros e o tilintar das garrafas. O padeiro trazia pão na porta, numa cesta enorme coberta com um pano xadrez. havia amolador de faca desfiando musicas metálicas e o portugues garrafeiro berrando na rua e, se aparecia à porta, pesando jornais com uma balança estranha e fascinante. O Rio era escuro, poucos postes de luz da "Light" ( o gás encanado era francês ) e, no entanto, havia um calor humano gostoso vindo das janelas e do rosto das pessoas carregando embrulinhos de papel rosa ou verde amarrado com barbante com um toquinho de bambu pra pendurar nos dedos. Onibus significava sempre desordem e barulho de festa, constratando com o tempo dos bondes que nos deixavam olhar todas as fachadas poeirentas das casas ( havia casas!!!! Tinham até porão onde guardavam cabritos ou, me contaram, escravos ). Não é que o Rio de hoje seja melhor, mas agora as pessoas não seguem o mesmo ritmo e perderam o sentimento de comunidade onde todos se aceitavam como sendo um "popular" anonimo olhando a sua volta. |
Voltar ao topo [Aeternus:4995] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE:RE: lotações : faltou dizer 4 ( por enquanto ! )
 Jansy, |
Voltar ao topo [Aeternus:4996] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE:RE: lotações : faltou dizer 4 ( por enquanto ! )
 Jansy, dessa |
Voltar ao topo [Aeternus:4997] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE:RE: lotações : faltou dizer 4 ( por enquanto ! )
 Jansy, vou comentar essa crônica maravilhosa mais tarde. Preciso sair. Por enquanto, só garanto que iam passageiros sim, sem sentar, nos lotações : bem agachados, com a coluna retorcida, burlando a lei. Dessa forma o fiscal policial podia desconfiar apenas do excesso de crâneos na viatura... |
Voltar ao topo [Aeternus:4998] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-21) - RE: Eros: som e silêncio
 Pra falar de Antonioni, o Caetano Veloso precisou de sete versos e 20 palavras. Conciso, captura a essência da obra do mestre. Não vamos mitificar. Uma coisa é um estudo que tenta dar conta de uma obra de maneira metódica, racional e analítica. Outra é o comentário de um artista, essa captação intuitiva de um sentido possível. Foi o que fez Caetano com a canção Michelangelo Antonioni. A música de Caetano fala em esquinas vazias, visão do silêncio, páginas em branco, um rosto feito de pedra... e vapor. São versos lindos, plenos de um sentido que adivinhamos mas que não se entrega à primeira leitura (audição). A forma é tudo. Essas palavras de Caetano são escandidas por uma melodia estranha, triste, que não parece ter centro tonal definido. Deixa-nos no vazio, docemente abandonados. (Pode-se dizer que a canção é responsável pelo clima intimista que circula e passa entre um episódio e outro??) Essa canção de Caetano é homóloga ao próprio trabalho de Antonioni. Feita de rigor e economia. Menos é mais. Ela fala da mesma forma que o cinema do mestre. Na época do barulho que nada diz, ela tende ao silêncio. E diz muito... Abraço!! |
Voltar ao topo [Aeternus:5000] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-21) - RE:RE: Eros: som e silêncio
 in Noites do Norte (2000) Michelagelo Antonioni Caetano Veloso Visione del silenzio Angolo vuoto Pagina senza parole Una lettera scritta sopra un viso Di pietra e vapore Amore Inutile finestra |
Voltar ao topo [Aeternus:5004] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-21) - RE: respondo a crônica da Jansy
 Respondo à Jansy en bleu liberté Florião, meu jovem grato pela gentileza, lotações vieram depois dos bondes serem desviados das rotas originais. Eu adorava arriscar minha vida neles mas que era apavorante, era ! mas nem sempre podia, porque não podia usá-los para ir ao Centro e tinha que pegar Circular via Jockey ou Copacabana. Surgiram quando eu tinha lá meus doze anos, cor de laranja isso ! e eram gordos !e com porta "não bufunfante" e paravam em qualquer lugar sem precisar parada de onibus navalhando os motoristas e subiam pelas calçadas perseguindo passageiros distraídos. Só uma coisa era proibida: viajar em pé, morte certa...Era da lei, sempre descumprida com o 'jeitinho'. O cara viajava agachadinho, como falei, e de vez em quando levantava a cabeça para situar-se. Fico a imaginar como seria a prestação de contas entre o motorista e o empresário. Outra emoção era andar de onibus comum ( nunca surfei nos trens da Central...) eram lerdos, freios falhos. Tinha sempre alguém sentado no capô que abria-se ao meio, para os dois lados. Com o calor forte, o motorista transformava a calça comprida em bermuda, arregaçando-a até acima dos joelhos. Ninguém é de ferro., principalmente sentada no banco lateral porque, nas curvas, parecia que tudo ia virar em cima da gente. Por sorte não havia ainda os viadutos curvos passando sobre onde era o Pavilhão Mourisco e não sei como não despencam onibus dali diariamente. Fora o perigo dos assaltos. No Rio a gente tava bem no meio da vida e da morte. Já falei dos operários que caíam dos prédios sendo construidos perto do apartamento onde morava, das velas em volta e dos jornais, do grito e do baque. Sempre tinha gente atropelada pelo bonde ( mas havia uma pá que não deixava ferir demais) ou por algum carro velho. No bonde era possível sentar ao lado de uma senhora com uma galinha viva na sacola e que bicava o braço da gente. Essa imagem eu só vi em filme passado na Colômbia e certa vez indo para Poços de Caldas, numa estrada ainda poeirenta, sem asfalto. Lembro do primeiro morto oficial que encontrei - eu tinha cinco anos - mantido sem flores sobre um alto suporte bem no meio da igreja Santa Terezinha de Jesus. Brincando de correr por ali ( não havia ainda o Rio Shopping, nem o "Canecão") coloquei minhas mãozinhas inocentes na borda do caixão e dei um pulo, caindo de cara no rosto do falecido. ( Como é que deixam um morto assim sem vigilancia?) Às seis da tarde era a hora do angelus e de todas as casas, com o cheiro do arroz sendo refogado e da maresia, vinham as Ave-Maria (Bach-Gounod ou Schubert) anunciando o programa do Julio Louzada... O leite, da CCPL, era entregue de casa em casa nos recipientes de vidro. Desde a infância aprendi a gostar do leite encorpado, gorduroso. Atualmente só na Europa ainda se vê isso.Mas ainda tinha leite na carrocinha que se anunciava na madrugada com uma corneta e ouvíamos o casco dos burros e o tilintar das garrafas. O padeiro trazia pão na porta, numa cesta enorme coberta com um pano xadrez. As variantes ao francês clássico eram, no padeiro do prédio, o doce tradicional, com dois tracinhos de ovo na transversal, o 'pão tatu', uma série de sobreposições de camadas em rolinhos cada vez menores, e o sonho também tradicional, gorduroso por fora havia amolador de faca desfiando musicas metálicas e o portugues garrafeiro berrando na rua e, se aparecia à porta, pesando jornais com uma balança estranha e fascinante. O Rio era escuro, poucos postes de luz da "Light" ( o gás encanado era francês ) e, no entanto, havia um calor humano gostoso vindo das janelas e do rosto das pessoas carregando embrulinhos de papel rosa ou verde amarrado com barbante com um toquinho de bambu pra pendurar nos dedos. Onibus significava sempre desordem e barulho de festa, constratando com o tempo dos bondes que nos deixavam olhar todas as fachadas poeirentas das casas ( havia casas!!!! Tinham até porão onde guardavam cabritos ou, me contaram, escravos ). O Rio Comprido era, basicamente, um bairro de vilas e casarões.Quintais ao fundo, mesa de ping-pong. Os edifícios iniciais, como o que morei desde que nasci até casar, tinha uma ampla área de lazer, circundando dois terços da construção. Uma tamarineira frondosa, imensa, situava-se imponente à frente. Não é que o Rio de hoje seja melhor, mas agora as pessoas não seguem o mesmo ritmo e perderam o sentimento de comunidade onde todos se aceitavam como sendo um "popular" anonimo olhando a sua volta. Talvez influenciado pelo parágrafo inicial* do "Passager de la Pluie" do Clément, eu constatei essa mudança com toda a nitidez do mundo. Camelotagem, administração omissa, descaso pelos direitos do cidadão, drogas, violência...o que se vê. *'O poço devia ser muito profundo ou a queda foi muito lenta, que Alice pôde ver perfeitamente o que se passava à sua volta.' |
Voltar ao topo [Aeternus:5005] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-21) - RE:RE: respondo a crônica da Jansy com nota aguda...
 Espero que não se trate de me ver como um problema crônico, se bem que não estaria muito errado não! O Bleu Liberté é por causa do filme com Bleu Blanc Rouge? Ficou muito chique. Veja bem, eu adorava ser apenas "um popular", passante passageira sem passageiro da chuva ( Love love bordado no avental, botão faltando na roupa sempre branca... que filme bacana!).Transitiva e transitória. Automóvel tem este aspecto "auto" que já empola o ego de quem está por dentro, dá carteira e cidadania com sinal vermelho e verde, códigos de transito, direitos e deveres. Popular é só isso mesmo: um qualquer que pode levar um trambolhão anonimo e morrer em silencio, mas, enquanto dura, está observando tudo serenamente. Humberto me contou que o onibus 12 ( Ipanema), de côr grená, era chamado de Camões porque tinha uma parte da frente afundada como se fosse caolho. Era esse que tinha o motor que ficava aberto com duas asas atrapalhando a saída pela porta. Lembro bem dos motoristas de calças arregaçadas, mas usavam sapato preto de cadarço, com meia clara. Gostava de um pote misto de vidro e metal onde jogávamos as moedas com uma alavanca para que descessem para um depósito. Os onibus para Rio Comprido tinham cor creme com risco verde. Tinha galinha viva na sacola, sim senhor, entre couves e cenouras. Havia lavadeiras com trouxa feita com papel pardo bem amassadinho. Senhores de terno, gravata e chapéu. As pessoas se cumprimentavam. Era mesmo o buraco da Alice! Pensei no Rio a la Laurie Anderson: Passar por onde havia a "Sears" para seguir pela mansão entre folhagens poeirentas e, chegando no espaço do Mourisco, mergulhar na Rua Voluntários da Pátria para seguir até o emaranhado de trilhos do ponto final dos ... Retornar até onde não havia o teatro Cecília Meirelles para fazer compras onde era a "Mesbla" e olhar da janela a sombra do Palácio Monroe... Caminhar do morro do Castelo até a rebentação contra o quebra-mar da praia vendo os pescadores no Flamengo jogando anzóis e dançando fino pra não cortarem os pés nas arestas dos mariscos encrustrados nas pedras. Sentar na cadeirinha de topiária da praça Paris ou montar no elefante de ficus cortado rente...Ver as horas no relógio da Glória, da Mesbla, da Central. Nossa, como mudou o Rio! |
Voltar ao topo [Aeternus:5006] Mensagem do Grupo48 -Brazilian Stallion(2005-10-22) - 50 sem tirar de dentro
Ô Xente! As últimas 50 são quase todas de um só dia!!! 50 sem tirar de dentro, uma atrás da outra! Que competência! Tudo para encontrar o que Luiza perdeu na horta... Adorei o excesso de crânios dos agachados dentro dos lotações, viajei muito asim, garoto com pastão de colégio. Sobre os coletivos d'antanho tenho uma história hilária que diz bem quem era minha Jocasta (nickname de mamãe): os ônibus tinham "sessões", lembram? Ficha verde = trajeto integral; ficha amarela = primeira parte do trajeto (exemplo: Tijuca ao Meier); ficha vermelha, parte dois (exemplo: Meier a Madureira). Não raramente, havia um trecho superposto, ou seja, a ficha da cor da segunda parte do trajeto começava antes da ficha d aprimeira parte terminar. O trocador avisava: "Terminou a sessão da fichinha amarela!" SE saltasse no ponto seguinte e colocasse a ficha de cor amarela na caixinha ao lado do motorista, dava rolo! Não valia mais. Pois bem: de uma feita, Jocasta, Édipo e um amigo de Édipinho, digamos, Creontinho, voltavam para a casa de èdipinho após as aulas. Jocasta puxa a campainha antes do ponto onde queria saltar com os pimpolhos. O motorista não pára; Jocasta se pendura na campainha, logo que se dá conta que a velocidade não diminuiu nada (afinal, poderia não ter sido escutada). O motorista se fez debobo e parou no ponto seguinte, a quarteirões de distância. Cheia de autoridade, Dona Jocasta manda èdipinho e Creontinho descerem do bus. Salta em seguida. Ao descer os dois ou três degraus da escada, o motorisat reclama, como se ele tivesse se distraído: "As fichinhas, madame!" (Hoje em dia é "senhor", "senhora", o que me soa estranho, sou do tempo do "madame", "cavalheiro"). Jocasta as segura na mão, entre indicador e polegar e diz, triunfante, já na calçada: "Vou colocar no meio-fio do ponto em que vo~cê devia ter parado!" Dito e feito. O motorista tinha que dar conta do número de fichas e teve que largar o ônibus parado e ir atrás para apanhar as fichas, delicada e asintosamente colocadas no local anunciado. Hoje em, dia, Dona Jocasta apareceria no jornal do dia seguinte: "Passageira trucidada por motorista enfurecido!" E as luzes do São Luiz eram lindas! Há fotografias que provam a arcada da "boca de cena" que emoldurava a tela com vários degraus com diferentes luzes. |
Voltar ao topo [Aeternus:5007] Mensagem do Grupo48 -Garanhão da Aldeia Campista(2005-10-22) - Cinquenta e uma!!!!
Ah, e esqueci: o "teatro" Cecilia Meirelles, leia-se "Sala Cecilia Meireles" sempre existiu, desde a criação do mundo (da Lapa): era um cinema que estava fechado em terreno do governo, e foi transformado em sala de concertos, ideal para música de câmara. Uma vez, estavam esgotados os lugares para asisitr o Karl Richter e sua orquestra barroca tocando Bach, especialidade do Richter. Venderam algumas cadeiras no palco, já que a orquestra era pequena! Assistimos o maestro de frente e fomos assistidos pela platéia. A ocasião era de celebração (acho que rocaram as "4 aberturas"), tal que colocamos nossas vestes de himeneu, recentemente usadas - o que prova que vestido de noiva pode ser usado pela segunda vez desde que não seja fantasia de noiva (Sueli casou vestida de "Julieta", nada de noivinha de branco, o vestido era semelhante ao de Olivia Husey no filme do Zeffirelli, com "cintura" alta, logo sob o busto, caindo solto dali prá baixo - e não estava grávida, mas dava um clima! Cor? Vinho, é claro.) Eu não casei de Romeu, antes que vocês maldem: terno e colete cinza-claro e... gravata borboleta de veludo branca. Enorme. Hoje dá vontade de rir, mas na época foi "very fashion"... |
Voltar ao topo [Aeternus:5008] Mensagem do Grupo48 -Cinéfilo Fiel(2005-10-22) - Jardineiro Fiel de novo
Como Sueli não viu "The Constant Gardner" no festival, fui ver de novo com ela. E digo que fica ainda melhor, apesar de ser mais bem-visto de poltrona longe da tela (nem notara antes que tem muita câmera na mão, mas sem excesso e adequada aos momentos em que é utilizada). Fotografia criativa e variada. Trilha sonora pertinente. Ralph Fiennes merece Oscar de melhor esquizóide que vai se abrindo e Rachel Weisz está realmente encantadora. E como é triste o diabo do filme. Marejei por duas vezes. E no repeteco!!! Como "cinemão" contemporâneo tem pouca coisa igual. Melhor, nem lembro. Nem pensar! E pretendo rever "A Mão" em "EROS" também. |
Voltar ao topo [Aeternus:5010] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-22) - RE:50 sem tirar de dentro
 Garanhão Silvestre contando cinqüenta, e dá-lhe uma, duas, tres e sem tirar de dentro barrou os sonhos mais bem sonhados da primavera de Basho. E tem doce Jocasta numa historieta deliciosa sobre a firmeza da mão sob a capa de pelica. Concedo o ponto do Edipinho sobre a arcada da boca de cena do cinema. Ele tem provas cabais e eu só tenho a lembrança, subjetiva demais. O cine São Luiz era muito, mas muito maior que o cineminha pornô do centro: vai ver que a grandiosidade fez defeito do efeito. Tritrilo De grilo estremece Aurora de hibiscus Arrastão Cardume n´areia Onda leva não Labareda Extingue amendoeira Pinta a esteira Serra serra Cerração serra Estrada e contramão Ufa, foi um exercício e tanto completar as quatro estações deste hemisfério que desobedecem à ordem do ano nos antípodas. Todo esquema corporal do ano carioca induz ao ciclo que rejuvenece... Pena que eu sempre esqueça como ficam solstício e nadir. Palavras tão bonitas que merecem que alguém as haikaia. Ou, ocidentalizando-as, as epigrame.
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Voltar ao topo [Aeternus:5011] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-22) - genthem ! vocês estão demais !
 'O vento do outono Atravessa até os ossos Do espantalho' (Choi)
Senti isso em Paris. Ainda bem que por aqui não venta assim... Muita coisa gostosa ainda por comentar dessas crônicas-Rio, meus formidáveis. Gallego me tirou da boca as frágeis e típicas fichinhas plásticas dos ônibus, algumas das quais atuavam em minhas equipes de botão, após lapidadas e nelas feita a bainha da borda, para fazer a bolinha cobrir o goleiro. O ônibus 'Camões' mandou no mercado por bom tempo. Era feio de dar dó, mas hoje seria bem kitsch...Na linha ultramoderna, surgiu um agora cujos espelhos laterias enormes parecem duas cornas de touro brabo espanhol, quando roça o casco na areia e vai partir contra o toureiro. O bonde era agradavelmente devassado e romântico. Os passageiros compactados naqueles assentos em madeira envernizada, dura mas anatômica, e o cobrador puxando aquela cordinha para o motorneiro partir de cada ponto de parada. Eu gostava do sacolejo do reboque, que surgia apenas nas linhas mais usadas. Os motoristas de ônibus de calça arregaçada atraíram a atenção do campeão alemão de natação apelidado 'Albatroz', um armário de 2,10m com pés e braçadas inalcançáveis em sua época. Ele fez questão de andar de ônibus pelo Rio, para desepero da segurança. Ria com o stress do condutor, alucinado com o trânsito à frente. Apontou para o fulano e comentou 'mas esse homem não sobreviverá muito trabalhando desse jeito !'. Houve uma ocorrência policial de assalto a banco, também, no trajeto. Ele riu e disse 'ah ! na Alemanha isso também acontece'. O repórter contestou 'sim, mas um ou dois por ano. Aqui é todo dia.' O pote coletor das fichas tinha um acionador para atirá-las ao fundo. De vez em quando amontoavam-se em demasia por sobre a tampa, e eu gostava de fazer despencar 100 fichas de uma vez ali. Alguns motoristas amarravam uma cordinha, para acionar o mecanismo, mas também esqueciam-se, por vezes. Sobre entreveros com motoristas como o que Gallego comenta, certa vez meu pai estava atiçado e assediado demasiadamente por um motorista de ônibus alucinado, que queria forçar passagem a todo custo, dirigindo perigosamente próximo. Numa dessas em que o carinha fiocu quase grudado no parachoque dele, meu pai desligou o carro, saltou, abriu o capô, e disse 'enguiçou'. O cara ficou alucinado, manobrava com toda a dificuldade em ré, para sair de novo, e depois de várias idas e vindas, quando ia conseguindo livrar-se, meu pai parou de olhar para o céu, baixou o capô, e disse para ele 'pronto, ficou bom !' Hoje em dia, se se fizer isso, no mínimo o motorista vai tentar espancar seu desafeto. O relógio da Mesbla ecoava em toda a Cinelândia. Não sei se ainda mantêm isso por ali. O casório do Gallego. Pô, amigo ! A Suely dá uma de Julieta e você vai de gravata borboleta de veludo ! Homessa ! Era pra usar no mínimo, assim bem por debaixo, aquela giba Shakes, em listas largas entremeando cores, meia colante coloridíssima, e uma elegante boina, a ser removida durante a cerimônia ! Tórax e mangas bufantes, imponentes, igualmente. Se não Romeu, ao menso Mercutio ! Por fim, os 'cavalheiros' e 'madames', pelos atuais 'senhor' e senhora'. Esse 'senhor' me faz sentir alguma autoridade que eu jamais fui, ou um membro de alguma entidade à qual jamais pertenci. E quando uma caixa de mercado diz sua frase e termina com (vírgula)'Senhor' penso em Jesus Cristo... Jansy diz 'como mudou o Rio'. Não. É apenas outra cidade.
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Voltar ao topo [Aeternus:5012] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-22) - RE:genthem ! vocês estão demais !
 Cariocada pixa, mas ainda baba pelo Rio e sua peculiar na mistura de paisagem e de gente. Não dá para saber o que cria o encantamento, um jeitão tipo "pátria amada salve salve" tendendo pro aberto, pro feminino que tá lá pra todo mundo viver pra crer. Não creio que tenha saudades do Rio d´antanho: choro por mim e a lágrima sai por um olho só. Me sinto feito os personagens do Veríssimo quando se depararam com pegadas de um dinossauro enorme. Uns queriam ver onde iam dar, o mais esperto sugeriu que fossem "pesquisar as origens'. |
Voltar ao topo [Aeternus:5013] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-22) - RE: flight to quality & strategic or blind landings
 Jansy, nós ( eu, você, Gallego, Davy, Helena ) nos tornamos cidadãos meio apátridas, meio acitadinos. Somos uma espécie variante de cosmopolitas, que sem desprezar de modo algum a terra em que pisamos, de certa forma pairamos sobre esta. Assim suspensos, flutuamos sobre a Humanidade e sobre nós mesmos. Claro - com adeqüadas e planejadas aterrisagens táticas ! Resta-nos como problema os pousos forçados, aqueles onde precisamos usar toda nossa perspicácia... |
Voltar ao topo [Aeternus:5014] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-22) - John Sayles e mitologia celta
 Não sei de onde Florião tirou a idéia de que nós seríamos "apátridas", "acitadinos" que "flutuamos sobre a Humanidade e sobre nós mesmos". Nem sou lá muito dada às flutuações e pairamentos: alturas me dão aflição... Hoje de tarde vi um filme simplezinho e poético, do tipo que ressuscita os costumes e lendas da Irlanda. Este se chama " The Secret of Roan Inish". O diretor é americano e antes deste fez "Tudo Pela Vida", "Lone Star", "Homens Armados" e "Limbo". Quase sempre acho cansativos os programas de música irlandesa, mas a série ( original) de Riverdance e Lords of the Dance , com sapateado e cantigas, é contagiante. Na lenda do filme as focas tomam o lugar dos botos amazonenses. Os animais, hieráticos, lembram as esculturas do Henri Moore que agora estão em exposição no CCBB aqui em Brasília... O que me agradou particularmente no filme da ilha misteriosa, com a vida simples dos pescadores, foi a idéia da lealdade a uma região, a uma lingua, a uma história. Assim como os palestinos, os irlandeses não se deixam dominar há séculos, como se preservarem este tipo de "identidade nacional" fosse uma verdade de valor absoluto. A própria inistência pela qual se fazem as oposições simples à integrações globalizantes é um fenomeno curioso. Não apenas pessoas, nações inteiras não querem se transformar em rinocerontes ionescanos. Durante quase toda a vida eu entedia os contos de fadas e histórias mágicas como representando uma dimensão "transcendental", uma "outra cena" conovocando à visitas e adesões. Neste filme de hoje o apelo de focas encantadas e sereias funcionava, nitidamente, para garantir a permanência na terra. Exatamente o contrário da visão do Florião: a fantasia do sobrenatural convida à se valorizar o natural, o que paira pelos céus chama ao pouso natural... Neste filme se ensina como o trabalho da gente é aqui mesmo, entre os que falam nossa língua... |
Voltar ao topo [Aeternus:5016] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-23) - RE: interativo
 'De um certo ponto em diante não há mais retorno. Este é o ponto a ser alcançado.' ( Franz Kafka ) Para nós cinco mosqueteiros, certas inocências tornaram-se impossíveis. Você imagina eu e o Gallego dando as mãos em volta da Lagoa pedindo paz ? Juntar-se à Helena num panelaço em Brasília, com uma fita colorida na cabeça, requerendo algo ? Não estou desdenhando os que ainda acreditam nesse tipo de coisa, nessa ação coletiva que o ser humano cada vez mais vê-se esvaziado. Apenas e simplesmente nós perdemos a condição e a esperança de 'redimir' as cidades e os países. Que, de resto, continuam nos oferecendo perfeitamente eventuais êxtases. Meus vôos angelicais contemplam de todo pousos bem terráqueos. Se neles exagero, aqui e ali, o Vítor - adoravelmente ou não - e alguma inevitável contingência me reinscreve de imediato na 'cidade' ou 'país'. |
Voltar ao topo [Aeternus:5017] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-23) - RE: interativo 2
 Florianíssimus, Ontem passei por uma experiência patriótica interessante. Fui assistir à entrega de uma comenda para minha enteada Claudia Lucia ( que trabalha na Vara da Infancia & Adolescência). Entre comendadores ( nunca pensei em ligar comenda e comendador até ontem, associava-os à encomendas, não sei como...) procuradores e desembargadores a solenidade se desenvolveu em clima de festa e esporte fino. A primeira coisa a acontecer foi todos se levantarem para cantar o Hino Nacional e, de repente, me vi cantando. Comecei tímida como protestante relapsa num culto religioso até que lembrei dos atletas olímpicos gaguejando os hinos: eu não podia dar uma de analfabeta...Pronto. Mandei brasa, esperando a hora em que todos erram ( "em teu seio" em vez de "no teu seio") e, claro, todos erraram e fiz mais uma viagem narcísica em louas à minha professorinha de Canto Orfeônico no colégio Bennett... Contudo, me arrepio e tenho lágrimas nos olhos quando pessoas cantam hinos e uma bandeira sobe no mastro ( qualquer uma). Mais atávico ainda é o choro esgoelado de que me lembro com um frio na alma quando ouvia uma banda militar. Eu vivia tendo sentimentos de "Misterium Tremendum" ante "O Sagrado". Multidões entregues a algo "Inominado". Choro em casamento, me arrepio em desfile de...moda. É o que resta da sensação de ser um "Popular" entusiasmado com a Ode à Alegria. Felizmente vieram experiências e filmes como "O Tambor", "Clockwork Orange", "Ensaio de Orquestra" que me devolveram a perspectiva de ser pó entre pó, não mais pó-pular anonimo no jogo de uma coisa maior. O respeito pelo sagrado não diminuiu, mas surge muito muito raramente. Ás vezes surge quando olho nos olhos de um animal ou de um bebê. Talvez por causa da palavra "Vara" da infancia e de ter colocado "Batom", ou de ter explicado no carro o que é "Casseta & Planeta" pra neta de dez anos... sei que, ainda quase dormindo hoje cedo fiquei viajando nas palavras "batom" porque também minha xícara tinha uma marca na borda. Foi quando me confundi com "lipstick", com coisa de boca grudada numa superfície, marca reveladora. Stick, sticker, adesivo autocolante... Custei a sacar no devaneio que, em inglês, stick é grudar, mas é "vara", é "batom" e é "cacete" e "casse-tête". Fui toda curiosa conferir como era batom em alemão. "Lippenstift". Aha. Fui ver "Stift". Que varinha mixuruca: quando de metal, é alfinete; quando de carbono, lápis.Ao mesmo tempo, "Stift" era fundação, pedra fundamental, estabelecimento, convento, doação e, finalmente, desaparecimento! Vara grande é "Stab" ( vara de condão e de salto à distancia, bordão peregrino, haste de hastear bandeira) Não é embasbacante? |
Voltar ao topo [Aeternus:5018] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-23) - Stick, uma lembrança que veio atrasada...
  Big Stick Diplomacy - political cartoon "the new diplomacy" is on Roosevelt's nightstick He is depicted as a police officer excercising international police power Americans began to be concerned when British, German, and Italian gunboats blockaded Venezuela’s ports in 1902 because the Venezuelan government defaulted on its debts to foreign bondholders. European intervention in Latin America would undermine America's dominance in the region. As part of his annual address to Congress in 1904, President Theodore Roosevelt stated that in keeping with the Monroe Doctrine the United States was justified in exercising "international police power" to put an end to chronic unrest or wrongdoing in the Western Hemisphere. This came to be called the Roosevelt Corollary. Ironically, the Monroe Doctrine's purpose had been to prevent intervention in the internal affairs of Latin American countries. The Roosevelt Corollary sought to justify such intervention whenever the American government thought it was necessary. It wasn't long before the corollary was put into action. The Dominican Republic could not pay its debts and to protect American interests the United States took over the customs houses and established a customs receivership. Roosevelt was fond of the African proverb, "Speak softly and carry a big stick, you will go far." His foreign policy style has come to be called Big Stick diplomacy. Later, the Roosevelt Corollary to the Monroe Doctrine declared that the United States would exercise "international police power" to get Latin American nations to honor their financial commitments. |
Voltar ao topo [Aeternus:5019] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-23) - T.Roosevelt´s Big Stick...consegui colocar imagem?
Voltar ao topo [Aeternus:5020] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-23) - Teddy Bear Roosevelt, Barão e James Monroe no Rio
O Palácio Monroe foi projetado pelo general Francisco Souza Aguiar para a Exposição Internacional de Saint Louis, em 1904. Seu projeto foi premiado. Era a primeira vez que uma obra da arquitetura brasileira era reconhecida internacionalmente. Terminada a exposição, o Palácio foi reconstruído no Rio de Janeiro, sendo este o primeiro edifício oficial inaugurado na Avenida Central, em 1906. 
| O nome foi uma homenagem ao Presidente americano James Monroe, por sugestão do Barão do Rio Branco, Ministro das Relações Exteriores. Monroe foi o criador do Pan-Americanismo e, naquele local, realizou-se a "Terceira Conferência Pan-Americana" Até 1914 o magnífico palácio continuou sendo usado como pavilhão de exposições. Após algumas reformas passa a abrigar a Câmara de Deputados, que ali permanece até 1922. De 1925 a 1930 é ocupado pelo Senado Federal. A "Revolução de 30" dissolveu o Senado, encerrando um ciclo. |
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Voltar ao topo [Aeternus:5021] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-23) - RE:RE: interativo 3 : comoções
 Sobre a letra certa do hino nacional brasileiro, sempre tropeçamos nesta ou naquela passagem. No trecho do seio, o que importa é mergulhar nele. Nosso hino foi contaminado com os vírus 'UlySar 90s' e 'PT-DelDir 05'. Só me lembro dos parlamentares de mãos dadas e erguidas no Congresso cantando-o, após saquearem os cofres públicos. Chororô. Atualmente o que mais me faz chorar são as músicas que aprecio. Restaram como o vínculo lírico mais poderoso em mim. No cinema curto mais e mais os detalhes, a pulsação do filme. Talvez isto impeça um envolvimento mais 'natural' com a trama, mas ganho por outros caminhos. Às vezes um gesto, uma citação de um personagem, pegam-me mais do que uma situação onde, por lógica ou retrospecto, seria mais viável esperar-se a comoção. Que palavra essa 'stift', hein ?!...viaja na maionese... |
Voltar ao topo [Aeternus:5022] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-23) - RE: iterativo 5 : comoções na mosca!
 Nossa, essa foi forte. Relembrar os parlamentares de mãos dadas cantando o Hino Nacional depois de saquearem os cofres da nação... Um pedaço de mim saiu quicando e ainda está rodopiando. Filme triste que me fez chorar... ( quem é que cantava? Celly Campello?) Sempre fui do detalhe, como você diz, de sentir a pulsação do mundo. Donde fico lesada se tenho que dar conta das tramas, personagens, nomes e ação. Do "Splendor in the Grass" ( independente da paixão pelo poema do W.Wordsworth ali referido, que por si só merecia um filme só com a palavra projetada durante uma hora inteira: "though nothing can bring back the hour of splendor in the grass, of glory in the flower, we shall grieve not rather find strenght in what remains behind, the primal sympathy which, having been, must ever be" como ficou na memória e suas imprecisões...) acabei lembrando do diretor Elia Kazan porque achei dois momentos especiais: as mocinhas que se re-encontram e não sabem o que dizer e ficam pulando juntas; o gesto desanimado da esposa do Warren Beaty no fundo escuro da cozinha quando, em cena, aparecem apenas os dois antigos namorados e a mulherzinha cheia de panelas e filhos está esquecida e seu abandono surge e toma conta pelo simples gesto que ela faz quase fora de foco... E a palavra "Stift" também aparece em "lápis de cor", "Buntstifte", uma das palavras mais lindas do alemão na minha infancia. Lembra que falamos sobre palavrões e xingamentos? No consultório recentemente percebi analisandas usarem palavrões não como imprecação, mas quase como desmedida deslumbrada. Diziam, entusiasmadas que algo era... grande pra caralho, bom pra cacete... Não é legal mais esta viagem do Stift???? |
Voltar ao topo [Aeternus:5023] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-23) - RE:RE: iterativo 6 : o palavrão através dos tempos
 ( ainda sobre os detalhes )...ainda mais que a trama é uma sucessão de detalhes.
Você abriu uma vertente interessante, a do palavrão feminino. Nos anos dourados, a imprecação era atributo, às vezes até virtuoso, masculino. Não há como negar que nas Artes e mesmo no cotidiano, o palavrão era usado comedidamente. Quando ele surgia no filme, a legenda trazia a inicial do palavrão, seguida de ... Colegas que exageravam na dose eram vistos de lado. As moças tentavam ignorá-los. Ao longo das décadas, no entanto, foi havendo não só uma apropriação como também uma banalização perigosa do palavrão. A Arte contornou em parte essa tendência estilizando e envernizando certas agressões. A partir de ironias finas, conseguiu, talvez, uma eficiência cirúrgica, um simancol crítico de muitos. Mas no geral, em comparação com as décadas de 50 e 60, o palavrão chegou redondo aos lábios, línguas e palatos femininos. Em algumas acho risível a nítida preocupação em chocar, em mostrar-se uma tough girl. A essa altura, não há como fugir da questão da hybris : quando alguém se excede no 'boquirroto' está denotando problemas em seu aparato. Henry Miller tentou este movimento no que deveria ser Literatura, e foi até bem recebido. Mesmo quando aquilo era 'novidade' ou 'chocante', ou 'inovador', nunca me agradou. Os americanos igualmente banalizaram os fuck, son of a bitch, motherfucker ( creio que este é considerado por lá o pior dos insultos ), a ponto do damn virar quase simpático. Este movimento levou à uma contrafacção curiosa : a banalização dos opostos ! I love you, I love my dog, I love my car tornaram-se ralos, quase impotentes. E chegamos ao funk, a ruptura inevitável, ao escatológico injustificável. Divisor de águas, clarificador, ser ou não ser, pegar ou largar : ou se escolhe a escrotidão, ou não.
Kubrick importava-se com esses rumos, com sua discrepância. "Barry Lindon", o filme mais maldoso e agressivo para o Davy, contempla uma elegãncia de linguajar invejável. Tudo termina remetendo a Choderlos de Laclos, como em "Les Liaisons Dangereuses" : há um abismo entre a sordidez enrustida ou de bastidores, os atos cruéis e a nobreza do linguajar. |
Voltar ao topo [Aeternus:5024] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-23) - RE:O Jardineiro de Deus
 Ah. Deus é fiel. Entendi. Vi o filme " O Jardineiro Fiel" e, não sei como, chorei do princípio ao fim. A Nigeria ( Hoje caiu um avião de Lagos para a capital, e salvaram-se quase a metade dos passageiros embora fossem mais de cem...) não é exatamente como aquele Kenia britanico, mas é muito parecida no tipo de ruas, lixo, casas, jogo de poder, corrupção policial, redutos diplomáticos como pequenos paraísos. Havia uma cena de um teatrinho para ensinar ao povo sobre AIDS e eu conhecia o tipo de mulheres com roupa colorida varrendo o chão sem que a vassoura tivesse cabo, gritando "êe" ( Ursula mandava-me cronicas que, talvez um dia, copie pra cá!). Meu choro era fora de hora. Comecei a derreter quando Tess questionou o diplomata sem graça que estava fazendo o discurso de outro... Quanto mais veemente ela ficava, mais as pessoas iam saindo de fininho de perto dela pois ninguém gosta de escandalo, hem! O diplomata, no entanto, deu acolhida pra moça...que acolhida suave com mudas de plantinhas enroladas num cobertorzinho... Interessante o jogo de sabermos que ela tinha morrido antes da história se desenrolar. Ajudou a tornar a trama mais suportável, a gente ia fazendo o percurso do luto de Quayle/Adam/Black devagar junto com ele. Que expressão fantástica no close da camera no rosto dele, bem na hora em que se espera tristeza ou dor e ela não surge. Vemos o Ralph Fiennes incrédulo, impassível, quase frio e até agradecendo ao companheiro: "deve ter sido difícil me dar esta notícia...". O espectador tem que ir acompanhando o crescimento da dor da perda do Quayle pedacinho por pedacinho. Incrível. Arendt observou a frieza do Eichmann, a quem considerou como representante do "o mal absoluto" enquanto funcionário de estado obediente e eficaz como uá máquina para exterminar milhares de inocentes. No filme do Jardineiro a situação é diferente, mas tem um horror comum: era difícil culpabilizar uma ou outra pessoas, os assassinos estavam sempre mais adiante, os mandantes diluidos numa cadeia de informações ( acho que isto o Florião comentou, comparando com Assassinato no Expresso Oriente?), predominava um misto de paixão sacana, morbidez, ignorancia, cupidez gerando os desencontros. O nosso problema com os laboratórios mundiais e as ajudas internacionais é a perda da escala. A ajuda médica, quase sempre suspeita ( como naquele outro filme, "The Quiet American" do G.Greene) me fez pensar no brasileiro que pesquisou os anticoncepcionais: Elsimar Coutinho. Nunca mais ouvi falar. Lembrei do jeito que temos para estes filmes de denúncia. Não que fizéssemos nada ( que me lembre, em grande estúdio) como aquele do Jack Lemmon ( Missing) na Santiago de Allende, ou os da Nicarágua e el Salvador, ou da ditadura na Argentina. Mas, vendo o filme de hoje, me senti transportada para o idealismo dos anos setenta. Fidelidade no amor e fidelidade a uma causa humanitária. Traição, também. Acho que nos expressávamos de modo não cinemático: literatura, canções, Arena e Opinião... Mas este assassinato holocaustico e anonimo é muito assustador porque não tem mais a escala humana, não se dá de modo a que possamos minimamente compreender o que está em jogo. A civilização européia, para manter-se com dinheiro, saúde, cultura precisava se garantir deste modo e testar entre povos que estariam se matando entre eles de qualquer maneira parecia razoável a muitos representantes do establishment. Tess dizia, enternecida, que o maridinho "ia servir fish ´n chips pros pobres enquanto esperava o retorno da paz e da ordem"... Um ponto ficou muito nítido: a ajuda ao indivíduo sendo mais perigosa para o próprio que a recebe do que seu abandono. É o que pretendi ligar à "máquina Eichman" e não consegui, lá no comecinho. E nem conseguirei agora. Há o momento em que Tess quer dar carona pros irmãos que carregam um bebê e Quayle explica que aquilo não cabe e não era conveniente, com ela insistindo: " mas estes três, a gente pode ajudar um pouco, eles estão aí pertinho... não dá?" Há o risco que o garoto corre apenas porque foi interrogado por Quayle. Há a estratégia do avião que não pode levar a garotinha africana como uma política necessária e de bom-senso ( a menina evita o impasse porque salta do avião e desaparece na poeira). Acho que esta denúncia é que foi mais impactante para mim. Só podemos ajudar indivíduo por indivíduo e este tipo de ajuda não ajuda. Se quisermos algo mais amplo estamos fadados ao insucesso ( no filme, deu certo... mas na realidade?). Temos que poder ter sucesso nos empreendimentos em vasta escala: como conseguir? |
Voltar ao topo [Aeternus:5025] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-24) - RE:PS: O Jardineiro de Deus que é fiel
 Fui ao cinema e fiquei por fora das notícias. O "Não" está predominando e sendo entendido pelo que representa realmente: um recado pro Presidente; todos os 117 passageiros e tripulantes do avião que caiu perto de Lagos morreram. Furacões de Wilma a Alpha novamente atacando de um lado, inundações e terremotos de outro.
Há pouco vi um filminho de um tal de Tahore ( acho que o nome era mais longo) com montes de atores importantes: Nick Nolte, Melanie Griffith, John Malkovich. Um tema que se repete, num roteiro com torções interessantes, mas que pela proximidade reduz um pouco o "Jardineiro Fiel" enquanto história e acentua a qualidade da direção e da fotografia. No " O Preço da Traição" diz o general: " Para garantir a civilização e a democracia é necessário que cem morram para salvarmos mil..." e responde o bom policial: " O problema é que pego um por um"... E fica tudo como bandido e mocinho. |
Voltar ao topo [Aeternus:5026] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-10-24) - Deus da Jansy é fiel
Jansy enriquece minha brincadeira ao misturar os títulos dos filmes já famosos do F. Meireles, onde A cidade que era de Deus perde-O para o jardineiro. No cruzamento, A cidade não ficou fiel, mas o jardineiro ficou sendo de Deus. Porque Ele seria fiel. Será? Os comentários de Jansy enriquecem a brincadeira inconsequente com os título, dando-lhe consistência que não tinha. O fato de se encerrar numa catedral cristã, num ofício que, de hipócrita, passa à denúncia que recolocaria ordem no caos da história, acentua a idealização deste Deus Fiel à sua criação e criaturas que fosem fiéis a ELe e seus semelhantes. isto talvez diferencie um filme do "cinemão" que tem que ser catártico e restaurador da lei e da ordem (na tela, pelo menos) dos filmes não-americanos e seus imitadores. Meireles e o roteirista (talvez a partir do romance que não li) apazigüam nosso sentimento de injustiça mas deixam um enorme travo amargo nos olhos e na boca, tal a tristeza do filme que perpasa desde o início até o fim. |
Voltar ao topo [Aeternus:5027] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-24) - RE: só jardinarei na 4ª feira
...e por isso não li os escritos de vocês a respeito do filme. Prefiro assim. |
Voltar ao topo [Aeternus:5028] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-24) - RE:só jardinare i na 4ª feira a camélia que caiu do galho
 Desculpe, Florião... achei que você tinha assistido o filme. Mas não contei inteiramente o final.. Mas não leia o que escrevo em seguida, tá?
Gallego, o final na igreja ( era mesmo a catedral de Westminster, como havia sido anunciado entre o corpo diplomático na Africa?) pode servir para dar garantia e lugar à denuncia que foi feita na frente de todos os que precisavam ouvi-la. Daí a idéia do "Deus é fiel". Mas eu fiz uma brincadeira também. O Deus da catedral dos ingleses não é fiel para os orixás africanos ou o maomé dos arabes. Era isto que, meio sem jeito, pretendi questinar na ironia. Não estou negando Deus, aliás. Mas esvaziando um pouco a idéia de que ele tem que ser ou ingles ou brasileiro. A leitura do Gallego, a partir da minha, enriquece o sentido porque acrescenta outro gancho. Que Deus é aquele que produz justiça com tanta linha torta?
Ontem mesmo li notícias sobre o pronunciamento do novo papa católico e, por incrível que pareça, gostei bastante da posição dele de insistir no celibato dos padres, de combater o aborto ( viram que tem já um projeto de novo referendo para decidir pro ou contra aborto????). Mais sobre isto em outro momento. |
Voltar ao topo [Aeternus:5066] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-26) - RE:RE: jardinado, digo que...
 ...também gostei do filme, e que vocês já disseram tudo. Achei bom o Meirelles não apelar para o lacrimogêneo, confiando na força das imagens e da denúncia. Quanto à salvar um ou dois ou mesmo milagres locais não mais serem suficientes, trata-se do mesmo discurso do padreco de bairro de "Cuore Sacro", que diante do tamanho das desgraças e desigualdades que tentam contornar, diz à empresária gananciosa que torna-se Madre Tereza de Calcutá "vê, milagres não bastam para essa gente. É preciso uma ordenação, um programa amplo." |
Voltar ao topo [Aeternus:5067] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-10-26) - RE: jardinado, digo que...
 Não acredito que se disse tudo que se podia dizer sobre o filme ajardinado. Não é uma obra excepcional, mas tem seu valor e qualquer assunto se desdobra quando a gente o quer. Por coincidência ( em relação à insonia do Almadrácula) Humberto e eu falamos hoje de dormir e de sonhar, quando observei que ele parecia ter dormido o "sono dos justos". - "Não, o bom sono é o dos patifes, é o que dizia meu pai".
Haja berço esplendido pra tanto patife, pensei. Depois lembrei do filme do Meirelles e do médico que foi responsável pela morte de umas sessenta jovens cobaias e que se embrenhou nos desertos como forma de expiação da culpa. Quem não é patife sente culpa pelos erros que comete?
Lá sei. Segundo Freud carregamos conosco todo tipo de culpas e cobranças, inclusive a culpa inconsciente. Fora o muro de lamentações. Em muitos aspectos creio que minha home-base é diferente da dele, mais otimista, mais alegre. O "fundo" da Clarice Lispector tem jeito de gosma de barata, o do Sartre, n´A Náusea, parece uma massa informe e cinzenta como matéria-prima ou substrato geral. Como eles, um tantão de gente tem este peso pra carregar e pecados a pagar. Devo me perdoar à beça mas, principalmente, troco a culpa pelo sentimento de compaixão. Sinto pena. Muita pena... de quase tudo. E pronto. Não se transforma em culpa. Depois da pena vem uma gratidão. Se um dia eu fosse me meter em algum fim de mundo seria por gratidão e não para expiar alguma coisa. Aliás, aquele tal médico-cientista do filme estava muito mal apresentado, foi um personagem pouco trabalhado, quase uma "apelação" do enredo. |
Voltar ao topo [Aeternus:5068] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-10-27) - RE:RE: jardinado, digo que...
 Em "O Homem Mau Dorme Bem", antigo filme japonês, o empresário fabricava medicamentos 'aguados', fora da dosagem e potência adequada, para alavancar lucros. Quase uma transmissão de pensamento para "O Jardineiro...".
Sobre a culpa do patife, é a do PPzão, dos Calígulas da vida, como abordei outro dia. Como não se representa jamais no outro, e só obtém o retorno em sofrimento, imposto por sua Maldade, resta sempre uma 'insuficiência' energética, que resulta em novos impulsos malévolos, destrutivos, deletérios. Essa 'pena' aí em Jansy em mim funciona como ironia matizada. Arco-íris irônico, sardônico, amargo, derrisório, efusivo... O médico corrupto ( Pete Postlethwaite ) era o 'pai' em "Em Nome do Pai", do Jim Sheridan. Rosto ossudo, esculpido, coisa pra Rodin/Camille Claudel. Creio que o roteiro deixou-o sempre à meia distância, na poeira, para...pulverizá-lo, mesmo, como um rato do deserto. Desde o hospital ele é filmado à meia distância, e apenas no confronto próximo ao final, com o jardineiro, tem uma cena suarenta de confessionário. |
Voltar ao topo [Aeternus:5077] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-10-27) - RE:até que enfim: Win Wenders rides again! VIVA!!
 Aquelas pradarias. Linhas de trem intermináveis, como são, aliás, todas as linhas de trem. Lembro que quando era criança, encasquetava em andar pela linha de trem, sem saber aonde ia chegar. Depois de duas horas sem ter chegado a lugar nenhum e já com muita fome, resolvia voltar pra casa. As grandes distâncias sempre me fascinaram, assim como fascinam a Win Wenders. Logo no começo do filme, o cowboy (símbolo mítico da liberdade americana) fugindo pela gigantesca pradaria. O se livrar de coisas que ficaram de outra vida. A linha de trem. As meias nos pés livres das botas de cowboy, e finalmente a freeway. A grande distância. "Estrela Solitária", o novo filme de Win Wenders, é um filme de grandes distâncias. Howie está distante do que poderia ter sido e é venerado pelo que conseguiu ser. Howie está distante afetivamente de sua mãe, do filho que não conhece e da mulher que poderia ter amado. É preciso encurtar essas distâncias. É o que me parece que Sam Shepard tenta martelar em nossa cabeça durante todo o tempo do filme, e Wenders sublinha a intenção de seu amigo com notável cumplicidade. Um filme memorável, de grandes interpretações e marcadamente poético. Pelo roteiro brilhante de Sam Shepard, a direção cúmplice e carinhosa de Wenders e pelo elenco notável. O que dizer de Sam Shepard? Quem mais poderia com tanta veracidade encarnar o próprio anti-herói mítico que ele mesmo escreveu? E Jessica Lange? Apesar de não poder chorar como em "Frances", devido ao excesso de botox (quando é que as mulheres vão entender que elas ficam com caras de plástico com essa merda?), continua ainda assim, emocionante. Todo o elenco está à vontade. Sarah Polley trabalha com sutileza de gente grande e foi muito bom reencontrar Eva Marie Saint (a mãe de Howie). E atentem para a cena que Howie depois de perseguir Doreen pela rua, para perto de um poste que fica na frente de uma lanchonete ou algo do tipo. Me digam se aquilo não é um perfeito quadro de Edward Hopper? Outras cenas são fodas pra caralho. Destaque para o dia virando noite com Howie sentado no sofá destruído no meio da rua. O carro passando com a fuça do husky na janela é genial, hein? É fodida mesmo. Aliás, é tudo muito bonito. E o monólogo da Sarah Polley, segurando a mão do velho Shepard é de se ajeitar no banco, dar uma pigarreada e segurar a onda. E ao final, depois que as distâncias foram devidamente encurtadas, e depois de nos ter brindado com todos aqueles planos geniais e amplos, Wenders então nos presenteia com uma série de closes mais que providenciais no belo monólogo de Sarah Polley. Ah, Jaime "Olga" Monjardim, presta atenção. Tento encurtar minha distância até o bar mais próximo, mas a bela música de T-Bone Burnett não me deixa prosseguir. É pra parar numa esquina qualquer e tentar respirar um pouco de ar, antes de retomar o caminho. A distância continua muito grande. Abraço apertado! [em cartaz na Mostra de SP, pra quem tiver no pedaço, sábado tem mais UMA chance às 19h20 no Unibanco1] |
Voltar ao topo [Aeternus:5164] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-02) - RE: A Camareira do Titanic
“Para quem tem NET, dia 16/10, às 22hs, no TCE ( canal 63 ), a obra prima do Bigas'locas' Luna.
Sofrimento inevitável do Cinemascope na telinha, porém...continua valendo a pena !
I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L !!!” MARCOS
PUXA!
Gravei e só agora que vi a Camareira...!
Não se parece em nada com o Jamón Jamón (que eu adoro por toda espécie de motivos, incluindo os ´sórdidos´) e com outros dramalhões picantes que já assisti do diretor. 'A Camareira' é delicado, e um prato cheio pros nossos temas...
Estará o amor sempre onde a gente não está, e, pior, onde a gente não É?
E tem um reverso de questão aí: quem disse que é o tesão que conduz a imaginação? Se fosse, aquelas revelações sobre a 'verdadeira' camareira não causariam nenhuma dor ou decepção. Ou seja, o filme desmonta uma crença que o freudismo apressado ajudou a consolidar nas cabeças simplórias, a de que o "nobre" sentimento do amor seria, na verdade, um deslocamento dos sujos desejos da carne. Ora, será mesmo que os desejos são assim sujos? E será que o amor é, com essa certeza toda, uma encenação fake do espírito enganado? No final, a puta fica absolutamente balançada ao se dar conta do tamanho que adquiriu dentro da cabeça do Olivier... (ó o Narciso aí de novo, no caso, o dela). A questão então passa para outro nível: o da força de realidade do subjeto e a da incomunicabilidade. Não seria o amor, ilusório ou não, o abrir de um espaço para o vir-a-ser?
De qualquer forma, é a quebra da aplicação viciada dos raciocínios de causa e efeito aplicado às relações entre sentimento, tesão e imaginação. Nenhum deles é CAUSA do outro, mas transcendência (no sentido kantiano: fenomênica, dialética, uma outra ponta da coisa-em-si: o Eu e as relações entre os Eus). No filme: a realidade é dura? É!!! E é uma dureza que às vezes até parece intransponível. Mas será mesmo?
Anotação de margem: adorei o "efeito" das histórias do Horty sobre aquele bando de boçais: a muierada ficou toda mais feliz!!!!!
Enfim: ADOREI.
Gratíssimo pela dica.
Mas, agora que também já vi, falem mais vocês, que mais os impressionaram?
Abração |
Voltar ao topo [Aeternus:5167] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-02) - RE:A Camareira do Titanic
 Caro Almodrácula Estou de saída para assistir "Eros" e sem chance com a camareira, donde não posso participar do debate. Chamou-me a atenção, no entanto, a sua dúvida rimbaudiana: "Estará o amor sempre onde a gente não está, e, pior, onde a gente não É?" A inspiração vem "Eu é um outro", mais uma variante lacaniana de "somos onde não estamos" ( fenomenológica e sartriana também). Neste caso estaríamos limitados à circularidade do mundo sensorial, sem esperança de transcendência, como você aspira indo além do reflexo da Coisa ou da sua ponta..
Argumentativamente resta-me sugerir que você se despreocupe do verbo "to be" ( ser ou estar) para então investigar o amor! .. |
Voltar ao topo [Aeternus:5168] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-02) - RE: A Camareira do Titanic: Full Gas: consumar é consumir
 Por outro lado...
Também é verdade que a abstinência forçada inflaciona a imaginação do amor, SELANDO-O.
E agora estou pensando não só no Olivier quieto ali na cama, tentando esquecer que está com sua coxa peluda encostada nas coxas delicadas que ele vira lhe convidando ao aconchego, como também na sua amiga, que morde e assopra... o seu fogo. Ao esconder-se, ela assopra como se quisesse apagar um fogo que na verdade só se incendeia mais... E assim ela te controla, ela te MANTÉM, te atrai para segui-la sem jamais alcançá-la, sem que a coisa se consuma, sem que se consume como fogo fátuo. É o desejo da constância, em sacrifício da plenitude: os tempos se incompatibilizam - o presente infinito ou o duradouro que limita...? |
Voltar ao topo [Aeternus:5169] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-02) - a partir de 'A Camareira do Titanic' e do texto do Conde
 'De qualquer forma, é a quebra da aplicação viciada dos raciocínios de causa e efeito aplicado às relações entre sentimento, tesão e imaginação. Nenhum deles é CAUSA do outro, mas transcendência (no sentido kantiano: fenomênica, dialética, uma outra ponta da coisa-em-si: o Eu e as relações entre os Eus). No filme: a realidade é dura? É!!! E é uma dureza que às vezes até parece intransponível. Mas será mesmo?' O que achei mais belo e tocante, no todo de vertentes propostas, foi a perfeita sensação da puta ( Aitana Sánchez-Gijon )do desperdício de sua existência. E em termos de roteiro, a solução de colocar a Aitana na platéia do patético show do Horty é absolutamente primorosa ! As elipses que a direção usa são tão magníficas que nem parece que foi o Bigas quem dirigiu o filme. Ficamos na expectativa do que 'realmente' se passou na noitada no Titanic, às vésperas de zarpar. Anotação de margem: adorei o "efeito" das histórias do Horty sobre aquele bando de boçais: a muierada ficou toda mais feliz!!!!!
Esperança de reviver, de reciclar...há muito da temática querida a D.H.Lawrence ali, o bando de miseráveis carvoeiros, cansados e imundos... Por outro lado... Também é verdade que a abstinência forçada inflaciona a imaginação do amor, SELANDO-O. E agora estou pensando não só no Olivier quieto ali na cama, tentando esquecer que está com sua coxa peluda encostada nas coxas delicadas que ele vira lhe convidando ao aconchego, como também na sua amiga, que morde e assopra... o seu fogo. Ao esconder-se, ela assopra como se quisesse apagar um fogo que na verdade só se incendeia mais... E assim ela te controla, ela te MANTÉM, te atrai para segui-la sem jamais alcançá-la, sem que a coisa se consuma, sem que se consume como fogo fátuo. É o desejo da constância, em sacrifício da plenitude: os tempos se incompatibilizam - o presente infinito ou o duradouro que limita...? Belas considerações. Penso que este movimento é bem Feminino, tipicamente feminino. Nós homens preservamos mais na relação o que chamo a 'bonequinha de luxo', nosso bibelô e fonte inesgotável ( em tese ) de prazeres. A mulher preserva a redoma do 'casal entidade', a ilusão da paz do nosso amor, de sua éternité. A marcação da Romane Bohringer, nesse sentido, é adeqüadíssima. Ela é a própria 'mãe que vela', que 'nos acalanta'. Passado o fogaréu inicial da paixão, da mesmerização, a (boa)mulher tende a tentar descobrir novos climas, novos êxtases. Era isto que estava matando o casal-base, e é esse vão que a camareira e seu mistério vai preencher. Mas para tanto é preciso coragem, muita coragem. Deixar cair máscaras, preconceitos, tabus. Repensar-se, enfim. Ainda mais que, a essa altura, o homem é mais acomodatício, mais paxá. Espera que a 'mágica' venha toda de sua parceira amorosa... Exemplo perfeito disto é o personagem de Jude Law em "Closer", meio perdidão, que espera de sua Alice/Jane ( Nathalie Portman )esse ballo in maschera. Os dois se gostam bastante, mas encontram-se em momentos muito díspares para que as coisas funcionem... |
Voltar ao topo [Aeternus:5177] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-03) - Antonioni em Eros, em seus filmes e em Blow Up
 Jansy, o Conde e eu escrevemos sobre o Antonioni de "Eros" privilegiando o mesmo ângulo : o predomínio do simbólico, do 'estar sobre' à ação em si do que o explícito de forma mais direta, imediata. A rigor, toda a obra dele funciona por aí, e em "Blow Up", a obra prima, a trama flui em paralelo. Dois feixes independentes, mas embutidos num canal único, como um manto mantendo-os na mesma direção. |
Voltar ao topo [Aeternus:5190] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-04) - RE:Antonioni em Eros, em seus filmes e em Blow Up
 PERFEITO os comentários da Jansyta e do Marcos!!!! É por aí. O Antonioni usa a bidimensionalidade da tela, é como uma fotografia que se mexe, naquilo que a fotografia pode herdar (porque poucas vezes o faz) da pintura. O take final, se a gente transformar numa pintura, também fica com areia rodeando as moças por todos os lados. E OS CAVAAAAALOS!!!!!! Não que ele se esqueça da tridimensionalidade, mas a transformação do tridimensional em bidimensional feito pela câmera e pelo enquadramento é similar à estese humana e seus padrões perceptuais: os reflexos nos vidros, do restaurante, do carro... são subjetos refletindo e dando um "frame" às imagens externas. E, no final, a bidimensionalidade dialoga com a tridimensionalidade: a moça que chega faz sombra na moça deitada, e é assim que se faz perceber... São símbolos... mas não exatamente traduzíveis por palavras... o que não quer dizer que o universo antonioniano nos seja de todo... incomunicável. Abração! |
Voltar ao topo [Aeternus:5215] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-06) - quarto festival Varilux de cinema francês
 Marcos foi ver dois filmes deste estranho "festival" que teve péssima divulgação, misturando filmes já lançados com inéditos e uma reprise em cópia restaurada. O "festival" é itinerante e estará em Brasília de 02 a 08 de dezembro e em Sampa de 09 a 15 de dezembro, além de Búzios, Recife, Porto Alegre, Ribeirão Preto, etc etc. Mas acho que não vou arriscar mais nada, exceto rever o clássico "Pele de Asno" em cópia restaurada que é um encantamento para grandes e pequenos (alô, vovós & netinhos!!!) Não vou arriscar porque não gostei nadinha do filme do Claude Chabrol que está sendo comentado em outra lista. Chabrol é mesmo um cineasta de altos (mais medianos do que "altos" propriamente ditos) e baixos (muitos baixos, aliás), mais pretencioso do que consistente, coisa que este filme (ao meu ver) prova com des-louvor. Se a música é ótima, a fotografia competente, a câmera profissional e os desempenhos corretos, a historieta é lamentável, previsível, embora encaminhando-se para o inverossímil, ou seja, é previsível dentro de clichês e estereótipos da "realidade" ficional de filmes ou de má literatura policial (não sei qual a responsabilidade de Ruth Rendell no enredo, mas o cartão de visitas para quem nunca leu um livro seu é péssimo). O início é tipicamente "chabroliano": passa-se no interior da França e envolve uma família de mãe madurona (profissão: cabelereira, esforçada na manutenção da família; e em fogo de outono, empolgada com um novo affaire), uma filha prestes a se casar, outra na porralouquice da adolescência e um rapaz, mais velho que as irmãs, supostamente centrado. Como de perto ninguém é normal, a fixação dele por um busto de pedra de "Flora" levanta alguma lebre sobre sobre sua "normopatia", a qual não se sustenta frente a um bom "amor de pica" (aquele que onde bate, fica) com uma moçoila "misteriosa" e simbiótica fusional. Para se dar ares de culto-inteligente o filme faz alusões à "Senta", personagem do "Holandês Voador" (ou "Navio Fantasma" como a ópera é conhecida no Brasil), incluindo uma cena de moçoilas costurando. No restante, nada a ver. Como Chabrol se dizia autoridade em Hitchcock (ao lado de seu desafeto Truffaut de quem falou bem mal num documentário chamado "Cadernos Roubados", alusão ao título "Beijos Roubados" de um filme truffautiano), há citações de "Strangers on a Train" e outro filme de Hitch que não vou mencionar porque vai tirar mais ainda a graça de quem insisitir em assistir essa perda de tempo e de dinheiro. Também tem alusões freudianas: a estátua de "Flora" seria presente do ex-marido da mãe (o pai do rapaz) para ela - que, agora, empolgada com o novo namorado, lhe faz presente do busto de pedra que ficava no jardim. O normopata irá recuperar o busto em paixão já bem definida como pigmaleônica (outro piscar de olho "inteligente" do Chabrol para sua platéia culta) mas também denota que o objeto é mediador dos resquícios edípicos do rapaz com a mamãe madura, mas jovial, "gente boa" que não dá limites à filhota porralouca. Se Chabrol é estimado por sua observação dos costumes da França provinciana, o início do filme pode até parecer que vai ser legalzinho neste sentido, mas a cena do casamento já não repete o clima de seu melhor filme "Le Boucher" (O Açougueiro) numa fimografia que deve ir a mais de 60 (sessenta!) filmes entre 1958 e 2004. E não há como não lembrar de uma frase de Tchekov sobre estruturas de peças teatrais: se o autor mostra um revólver no primeiro ato, ele terá que ser utilizado até o terceiro ato. Claro que a própria nouvelle vague desfez essa rigidez de estrutura de enredos (que permanece no cinemão americano), permitindo divagações e observações periféricas sem uma ligação obrigatória com a trama "central" de muitos filmes. Mas aqui... quem viu sabe do que estou falando, e não é de um revólver. Se é verdade que não assisti a alguns dos seus mais bem-falados filmes [os primeiros "Le Beau Serge", "Os Primos"; "As Corças" - que teria sido seu "renascimento" depois de uma série de filmes "comerciais" muito ruins; "Violette Nozière" (porque inédito no Brasil como outros ditos bons)], além de "O Açougueiro" só posso considerar como filmes que podem valer a pena serem vistos menos de uma meia-dúzia, incluindo "A Mulher Infiel" que foi refilmado pelos americanos (dirigido por Adrian Lyme) algo recentemente como "Infidelidade" tendo Richard Gere no papel principal, o que modificava totalmente a situação original dos personagens franceses; "Mulheres Diabólicas", que era uma variação do caso das Irmãs Pappin que até hoje rende buchicho na França, inclusive pela apropriação de Lacan do episódio real para suas teorizações iniciais sobre psicoses; "Madame Bovary", "Um Assunto de Mulheres" e, num degrau abaixo,"Ciúme- o Inferno do amor possesivo" são outros filmes mais bem-sucedidos. A lista dos ruins ou muito ruins é muito maior...Alguns, constrangedores mesmo como um tal "Alice" com a então na moda Sylvia "Emanuelle" Kristel que repetia o batido clichê da pesoa que morreu mas não descobriu isso, misturando com paráfrase de "Alice in Wonderland"... como diria o Millor: ah, essa falsa cultura!... |
Voltar ao topo [Aeternus:5216] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-06) - RE:quarto festival Varilux de cinema francês 2
 Num delicado filme inspirado nas aquarelas de Beatrix Potter, o coelhinho Peter repeter para as irmãs as palavras da mamãe: "Se não tem algo de bom para dizer, é melhor ficar calado".Observação que não se aplica à crítica precisa e inteligente do Gallego, nem é um bom conselho que se possa dar a quem quer que seja entre crianças e adultos. Beatrix Potter talvez tenha até escrito algo diferente, porque ela não foi daquelas britanicas puritanicas pollyanicas sentimentalonicas (o pai do Coelho Peter, só para dar um exemplo de texto para pixotes de tres ou quatro anos, distraiu-se e virou recheio na torta do jardineiro McGregor: o perigo espreita os enternecedores bichinhos a cada esquina!). Pra mim quando se tem algo a dizer não se deve ficar calado. E, para calar, só em consideração ao amor especial por alguém ou algo. Isto posto, mostro o rosto. Obrigada, Galleguito, pelo calendário do festival Varilux, mais a dica do filme "Pele de Asno". Quanto à Ruth Rendell é difícil comentar sobre sua transposição para o cinema. Já vi uma produção sobre "A Arvore das Mãos", interessante e mediano como filme para televisão. Rendell não tem o mesmo status literário que Patrícia Highsmith ( do incrível Rippley ) e as duas são mórbidamente cruéis. Suas tramas dificilmente interessariam a Hitchcock, embora costuradas direitinho com revólver no começo e no fim ( quanto aos objetos), nem seus mendigos e sem-teto serviriam a Samuel Beckett. O que notei, particularmente, me fez pensar no que se designa "defesa obsessiva" ( como datilógrafas que batem a primeira página de um texto sem mácula e sem erro, entortam um pouquinho a margem na segunda folha, fazem um erro na terceira e na quarta o texto tem mancha,erro e perdeu a marginação. Os computadores hoje escondem esta característica que saltava aos olhos antigamente de qualquer patrão ou colega atento...) . O primeiro capítulo de Rendell costuma ser quase uma obra-prima, o segundo e o terceiro prometem um desenvolvimento da psicologia do personagem coerente e instigante, o quarto tem uma proposta genial sobre a sociedade e os costumes, o quinto é um conto ágil mas, de repente, o livro vai pro brejo. Quem parecia bonzinho, é perverso e quem parecia perverso, continua perverso. E pronto. Sem grandes viradas gogolescas ou bulgakovinas. A referencia à Senta, com fiandeiras/moças bordando mais a proposta de amor eterno e fiel, deve introduzir no filme do Chabrol algum judeu errante, ou grego que se autocondenou à cegueira e ao exílio (como Édipo). Ou, claro, um crime edípico como um assassinato hediondo. Ai,ai. Sou distraida como carrapato sem pai ( lembrei da febre maculosa que atingiu primeiro um diretor da "vigilância sanitária" em férias). Prefiro o cenário londrino da Rendell à Paris de Simenon pois ainda leio feito criança, feito coelhinho Peter, sem esperar grandes coisas. Simenon tem o corte claro, preto e branco necessário ao Hitch mas, embora fosse meio perverso na vida privada ( o que escrevo agora é quase fofoca porque não fui conferir no Julian Barnes em "Nothing to Declare" quando ele contou do suicídio da filha de Simenon e nunca lembro direito dos detalhes objetivos) sem o clima emocional rendelliano que também combina com Hitch. Quando Rendell usa pseudônimo pode ser apaixonante porque a "Barbara Vine" é como uma vinha se enroscando ao fundo, uma rede de contatos, um sabor... Há o prolixo "Livro de Asta" ( re-impresso, em algum tipo de golpe editorial, como "O Livro de Ana" ) que me encantou e o selecionei especialmente pensando na Sueli Gallego de metodica delicadeza. Há o "Chimney Sweeper´s boy", talvez mais bem resolvido que o anterior ( que continuo preferindo pois trata de crianças perdidas, diários escritos por uma avó, a mídia moderna com suas jogadas publicitárias em tres gerações, ou mais, sendo retratatas. O final é doido ...como quando Rendell perde o pé na história, o que ocorre quase sempre apesar do revolver inicial) e outro de que me esqueci. Rendell introduz os sem-teto e sem-terra, mas acaba os justificando lhes dando uma ascendência nobre ou um abandonado curso em Oxford. Músicos de talento vou ganhar trocados nos corredores subterraneos do metrô. A força da gravidade serve apenas para esmagar ou deformar o que tenta se erguer. Vai ver que é porisso que ela sofre um pouco da síndrome de Babel. Seu domínio sobre os mapas de Londres, dos trens e seus horários, sobre corredores ou portões secretos me impressiona muito. Há sem-teto que moram nos tetos da cidade e viajam nas alturas de Londres, saltando como Tarzan de uma casa vazia para outra. Há os radicais que sobem nos gafanhotos metálicos da Eletrobrás para desafiar o choque elétrico e aqueles que habitam os canais de esgoto. Se me interessasse mais por isto, daria para construir uma tese estruturalista sobre os temas da Rendell, leituras Edmond Leach et alii. |
Voltar ao topo [Aeternus:5217] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-06) - RE:RE:quarto festival Varilux de cinema francês 3
 A lembrança de Jansy sobre "Se não tem algo de bom para dizer, é melhor ficar calado", eu a ouvi (li) pela primeira vez como "Se não tem algo de GENTIL a dizer, não diga nada" em uma tiurinha de Charlie Brown, onde, obviamente, Lucy NÃO deixava de dizer, azedamente (e orgulhosa de seu azedume) algo bem pouco gentil ao Charlie (talvez até como sua picanalista em sua banca algo na base de camelô, com frases do mesmo jaez de "vende-se limonada" substituída por "a psiquiatra está" - ou "não está" - conforme a plaquinha estivesse de uma lado ou de outro).
Quanto à minha "crítica precisa e inteligente", volto a citar o velho Rosa, Guimarães: "pão ou pães é questão de opiniães". Já quase arrumei inimizades por achar "Dogville" uma porcaria fake, fascista-niilista, de "originalidade" plagiada de Brecht/Durrenmatt; fui intolerante com o recente filme do balão ("Amor até o fim"?), asim como com os dois episódios iniciais de "Eros" que não incomodaram, pelo contrário, muitos aetérnicos e outros conhecidos meus.
Por outro lado, minha admiração irrestrita por filmes como "Alice e Martin" de André Techiné não se encaixa em críticas severas que se lê na internet, de usuários de sites cinematográficos ou mesmo de "especialistas". "Elisa, vida minha" do Saura" entraria na minha lista de dez mais de todos os tempos, e provavelmente na de mais ninguém, nem nos "cem mais de muita gente", provavelmente. [A propósito de especialistas, ganhei de presente um alentado tijolão com seleção de textos da decana dos crítcos de cinema norteamericanso, admirada por seus pares all over the world, Pauline Kael. Tenho porfunda antipatia por ela, desde que a vi "reduzir" Cidadão Kane" ao roteiro que ela defende ser mais de Hermann Mankiewiecz do que de Orson Welles, e daí, redirecionar a autoria e grandeza do filme ao co-roteirista e não ao cineasta. Suas opiniões raramente encaixam com as minhas (exemplo: ela admira a primeira versão de "The Mandchurian Candidate" como filmaço, quando eu acho um samba do crioulo doido metafórico que só se justificaria como delírio farsesco, mas cujas "intenções" eram sérias mesmo) mas dou a mão à palmatória: a Sra. Kael escreve diabolicamente bem, suas críticas não são "críticas", mas sim ensaios que podem ocupar páginas e páginas (ocupavam na revista "The New Yorker") com argumentos inteligentes e fortes, em tom algo provocativo, mas parecendo sincero em suas admirações e menosprezos, ainda que raramente coincidamos, eu ela nas apreciações e desgostos.] Voltando à "Dama de Honra", é interessante o que Jansy propõe como articulação para uma citação que não fosse gratuita de "Senta"; diz Jansy que uma "referencia à Senta, com fiandeiras/moças bordando mais a proposta de amor eterno e fiel, deve introduzir no filme do Chabrol algum judeu errante, ou grego que se autocondenou à cegueira e ao exílio (como Édipo). Ou, claro, um crime edípico como um assassinato hediondo". Como está no filme, foi gratuita a referência explícita (o nome da moça, as costureirinhas, a frase que ela diz ao rapaz: "Eu sempre esperei alguém como você"), mas num esforço de super-interpretação podemos pensar (ATENÇÃO: QUEM QUISER VER O FILME PARE DE LER POR AQUI) que pontas soltas da história poderiam ser unidas por preenchimeto das lacunas na base do Édipo (mas, afinal, o que escapa à universalidade de Édipo e/ou de Narciso?). Por exemplo: nunca fica bem explicada quem é a tal "Rita" que habita na mesma casa de Senta, às vezes chamada de "mãe" de Senta, mas que ela diz ser a segunda mulher do pai dela... mas que atualmente tem um caso com um dançarino de tango. Rita e seu companheiro aparecem sempre ensaiando tangos para competições (como o casal da fantasia do bebê kleiniano, aquele em permanente cópula que exclui o bebê em sofrimento, preterido sádicamente pelo gozo permanente dos pais em cena primária). Mas nada no clima do filme autoriza esta hipótese: as associações seriam mais do espectador do que do discurso fílmico. Um primo de Senta diz que o pai dela engravidara a mãe dela e sumiu. E se refere à tal "Rita" como "tia Rita" (ou seja, seria uma terceira irmã da mãe de Senta, sendo a segunda a mãe deste primo? pode ser isto ou não, o filme deixa esta ponta familiar soltinha no ar). Como o pai teria casado de novo se simplesmente era desconhecido? Fantasias de Senta são necessárias para a construção do enredo, é verdade, mas fica meio mal num filme onde "a arma do primeiro ato" de Tchekov abre a primera cena como um "nada a ver" para se revelar no finalzinho como "tendo a ver". O ódio de Senta por um mendigo folgado e simpaticão que usa o jardim de sua decadentíssima casa poderia ser um ódio pelo "pai" abandonante? Daí suas fantasias de crimes e assassinatos? Como contra o namorado da mãe do rapaz, a tal cabelereira esforçada que se encantou com o tal cara que deu-lhe um toco, sumindo sem nem dizer good-bye? O envolvimento do rapaz com as fantasias de Senta, por sua vez, atacariam o novo ex-futuro-companheiro de sua mamãezinha? (tal como Hamlet odiava Claúdio por ocupar um lugar no leito de Gerturd? Pior ainda: se Claúdio morresse ou abandonase Gertrud, como ficariam as fantasias edeípicas de Hamlet? A existência deCláudio e sua presença no leito materno, afinal, "interditava" o incesto do príncipe com a rainha...) O rapaz não é nenhum "holandês voador", apenas demonstra um mal-estar ciumento de a mãe doar a estátua para o novo namorado (que sumirá de circulação no dia seguinte) - estátua que seu próprio pai dera à mãe de nosso não-holandês voador (quem era este pai fica mal-definido, acho que não morreu, mas é sugerido que abandonou a família, tal como o pai de Senta abandonara sua mãe após engravidá-la, tendo esta mãe de Senta morrido no parto). Encontrar a estátua jogada por aí deixaria qualquer um ressentido... Percebem que todas estas inferências "cabem" no filme tanto quanto uma "interpretação" psicanlítica com boa base teórica "cabe" num discurso de sujeito suposto saber? O leito de Procrusto das teorias podem fazer qualquer um (ou qualquer filme) caber nelas, mas, ao meu ver, o filme do Chabrol e seu enredo blasé não autoriza tanta areia para tão pouco caminhão. Ou o filme "dissimula" estas alusões como que piscando o olho para um espectador-suposto saber gozar seu suposto brilho/cultura/inteligência em "desvendar" o "mistério" do filme e do enredo; ou nada disto existiria na intenção dos roteiristas/diretores/escirtores da trama original e podemos mesmo, psicanaliticamente, "compreender" os aparentes disparates e inverossimilhanças de um filme que ganham alguma coerência com base na hipótese de intencionalidades inconscientes dos personagens; ou tudo isto não pasa de masturbação mental inútil, porque, ao meu ver, o filme não tem estofo para aguentar uma "leitura" tão - digamos - "sofisticada" em relação à sua apresentação blasée e descompromissada. A "divisão" do rapaz centrado que "escorrega" numa paixão sensual por uma "islandesa" (Senta nasceu na Islandia!) "voadora" capaz de boquetes-surpresa e frases de proposta fusional acaba sendo demonstrada de forma não convincente pelo ator (geralmente bom), o que seria no mínimo uma falha da direção na construção do personagem. Ele não aparcee "dividido": parece apenas um bobo que não sabe se preoteger dos outros (em vez de não se proteger de si mesmo, que é o que estria na base do risco que correm, por exemplo, os heróis hitchcockianos que não cometem crimes mas que são acusados de crimes... que eles queriam cometer - vide "Pacto Sinistro" - Strangers on a Train como exemplo supremo desta temática hitchcockiana do "homem errado") A primeira leitura "psicanalítica" da obra de Hitchccock (um livro do francês Noel Simsolo) me chocou como forçação de barra, mas vendo e revendo os filmes mais ou menos brilhantes ("I Confess" - A tortura do Silêncio é menos satisfatório do que Pacto Sinistro mas esclarece e referenda outros filmes melhores de Hitch) fiquei convencido da adequação de entender as histórias de Hoitch "feitas apenas para divertir" (segundo ele mesmo, surpreso com as ilações e interpretações dos franceses sobre sua obra) como aquela que oferecem dois níveis (no mínimo) de prazeres: o manifesto da diversão (prêmio de estímulo estético, segundo Freud) e o latente de "prazeres inconscientes", de identificações não conscientes. Mas nada disso se reproduz nos filmes do Chabrol que queria tanto ser Hitchcock... Só para terminar: o melhor filme de Almodóvar, "Carne Trêmula" também seria inspirado em romance de Ruth Rendell e, apropriado no universo do espanhol deu um tremendo filme! O que o espanhol faria com a trama deste "A Dama de Honra" e suas possíveis ilações, dá prá pensar que seria em clave bem mais interessante.
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Voltar ao topo [Aeternus:5218] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-06) - RE:quarto festival Varilux de cinema francês 3
 Antes da missa, alguns avisos aos nossos paroquianos: 1.O título do livro do Julian Barnes, ao qual me referi como fonte sobre Simenon, não se chama "Nada a Declarar" e sim "Something to Declare". Apesar de inglês, é muito querido pelos franceses... 2. David Lodge, sobre quem andei escrevendo vagamente e citando, estará lançando seu novo livro "Autor!Autor!" em Portugal que, como país europeu, se afina mais com o humor da UE do que os brasileiros. 3. Varilux, apesar do nome sugerir sabão em pó, é um tipo de lente que me deslumbra até hoje. Livrei-me dos tres pares de óculos ( fora os escuros) que precisava alternar com uma unica armação. Congs. Taí, Gallego, Ruth Rendell combina com o Almodóvar. Não vi "Carne Tremula", deve ser duro de suportar e intenso e maravilhoso. Tentarei assistir ( ganhei uma caixa com uma coleção do Almodóvar, não sei se tenho comigo para festejar hoje à noite...) Os finais da Ruth Rendell às vezes sugerem que ela consome algum tipo de droga, como o Stephen King ( outro escritor de talento), pois ambos começam seus romances num tom normal, brilhante até e de repente caem no surrealismo total. Olhando para as fotos da ilustre Dama Rendell suponho que posso eliminar esta hipótese e, então, ao modo da interpretação vale-tudo para o "holandes voador" aventada pelo Gallego, sugerir uma outra. Em vez de estruturalista de direita, Rendell pode denunciar o mundo burguês com seus andarilhos e mendigos onipresentes ( tem também um no filme do Chabrol, repararam na historinha do Gallego?) porque ela nunca enfoca sua história a partir de uma família constituída ou situando sua perspectiva do interior de uma casa ( Simenon, sim! Apesar dos pesares. Agatha Christie também ). Os marginais é que olham o mundo todo tempo e nos oferecem visões dos lixos e das cercas que moradores do Rio, dos subúrbios pobres de Paris ( que nos ensinam uma lição sem encontrar fortuna no meu coração... conhecem a melodia?) ou... de Berlim e New Orleans iriam reconhecer. Talvez a nobre Rendell esteja propondo um novo angulo para se entender o MST e as favelas. Talvez seu final caótico represente apenas a forçação de barra de quem demonstra que não há final, que as coisas se dão desordenada e ordenadamente em turnos. Se ela não faz aparecer exatamente revólveres no começo e no fim (na Inglaterra a turma do "Sim" teria vencido no referendum que lá nem deve ter sido feito...), pedaços de um canudinho afanado de uma lanchonete, bem do início ( quando descrevi aqui o parágrafo do comecinho, no qual um drogado extrai do lixo uma flor metálica de distribuir água nos regadores e o canudo partido para absorver a atmosfera dos cristais da droga que aspira ) ressurge na página 194 ( Nabokov faz isto acontecer mil e uma vezes em cada capítulo do seu romance "Ada"): "Ele atravessou a rua e olhou para o espaço verdejante abaixo, algo que teria sido um dia um jardim ornamental, conhecido como Grotto. O baixo muro de uma ponte estendido sobre um braço defunto do canal ainda trazia um baixo-relevo comemorando o martírio de São Pancras, o santo com um rosto radiante voltado para o céu enquanto era atacado por uma leoa de jeitão amigável e ameno que pulava nele como um cachorro. Havia rochas aqui e ali e uma fonte cercada de seixos, no formato de oito, sua água marrom e recoberta de uma rede de detritos espumantes. Entre as ramadas de louro e rododendro, havia lixo espalhado ou preso nos galhos, tiras de plástico, jornal molhado, seco e molhado de novo, latas de cerveza e frangalhos de tecidos. Rolos de arame farpado e de cercas metálicas se misturavam sem sentido (...) Ele havia descoberto há tempo que o arame farbado não impede a invasão de intrusos que não se importam de rasgar seus farrapos. Ali no meio ele encontrou um lugar privado, negligenciado e decadente para se acomodar. Ele recolheu de um arbusto um par de canudinhos de refrigerante, um dos quais fora inexplicávelmente dividido em dois. Estendeu seu papelão sobre a grama mofada e preparou sua cama..." Lembrei de um detalhe do Simenon: ele descrevia aromas e mau-cheiros que incluia como pista na trama. Havia uma madame que se disfarçou com as roupas e tocas da sua doméstica e despistou Maigret porque o cheiro que a envolvia, de margarida murcha e peixe, sugeria a pouca higiene típica dos quartos de serviço nos casarões antigos... Um marxista dedicado, Mandelstamm, escreveu sobre "As Delícias do Crime", sem deixar de pedir desculpas aos camaradas por seu desvio...Recomendo pra quem quiser ler mais sobre romances policiais na história. |
Voltar ao topo [Aeternus:5219] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-06) - RE:quarto festival Varilux de cinema francês 3
 peésse: farbado é farpado ( em inglês, barbed) e há vários erros decorrentes da pressa. Hora do almoço por aqui... |
Voltar ao topo [Aeternus:5220] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-06) - RE: quarto festival Varilux de cinema francês 4 : Rendelladas e Chabroladas
 A maravilhosa e desafortunada mãe do herói não muda no drama. Do início ao fim suporta estoicamente - e até com capacidade de sorrir, compreender, reciclar ! - as mazelas de uma filha pós-hippie-boboca, que a respeito do irmão só diz 'je m'enfou !'. Daquele tipo que as pessoas só servem pour rende compte à elle : dinheiro emprestado, favores, tals.
Michel Duchaussoy passa de psicanalista em "Confessions Trop Intimes" a sem-teto na Cabrolada. Lá pelas tantas, quando suspeitávamo-lo ( urrrrgh ! ) morto, ele aparece bonitão, de bigode e barba bem aparados, recém-saído do hospital. Bem diferente do Gallego, adorei o filme. Prefria apenas que a última cena fosse menos elíptica. De resto, irrepreensível. Cinema é isso mesmo, não há a menor lógica entre as opiniões. Sintonizo bem mais com filmes escabrosos do que meu amigo. Muitas vezes, quando achamos que nosso gosto 'combina' com o de alguém, acontece um espetacular misfit, tipo um achando o filme uma obra prima e o outro tendo saído no meio. |
Voltar ao topo [Aeternus:5221] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-06) - RE:RE: quarto festival Varilux de cinema francês 5 : Rendelladas e Chabroladas
 "Sintonizo bem mais com filmes escabrosos do que meu amigo. Muitas vezes, quando achamos que nosso gosto 'combina' com o de alguém, acontece um espetacular misfit" Florião curte filmes eschabrosos e desacerta do Gallego, mais pra juiz olímpico uma vez que ele elogia os atores, a musica, a fotografia, algumas cenas e, às vezes, até o diretor de uma pelicula antes de concluir que o filme não presta. Florião conclui que quanto ao cinema " não há a menor lógica entre as opiniões". Pois eu acho que, de modo geral e não apenas referido ao cinema, nunca há lógica entre as opiniões. Por isso é que a gente tagarela tanto! |
Voltar ao topo [Aeternus:5222] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-06) - RE: quarto festival Varilux de cinema francês 5 : um gosto e dois vinténs
 Ainda mais surpreendente do que a simples divergência de opiniões é a 'análise aleatória' - que seria um oposto da análise combinatória da Matemática - que se pode auferir destas linhas cruzadas. Derrubando silogismos ou tendências, na ordem de fulano adora A, B e C mas detesta D ; Beltrano adora A, B e D mas detesta C... Eu não gosto de alguns filmes espetacularmente consagrados, como "E o Vento Levou", "Forrest Gump" ( havia resistido a ir ao cinema, por causa do Urrghanques, fui ver algumas partes na TV e...deixa pra lá ), "Back to the Future". Meu gosto é mais para intelectualizado, em geral, embora adore alguns besteiróis como o recente "Tais Toi !", onde Depardieu me fez ter espasmos e chorar de tanto rir. Assim como o Dr. Phibes de Vincent Price, humor campy, desajustado. Por outro lado, o supra-sumo intelectual do momento, Lars von Trier, acho um chato de galocha. Tolerei "Europa", que achei razoável, e quando vi que a arenga dele seria sempre falar de decadência americana - e sem nunca lá ter sequer estado...- desisti logo. Esses 'cineastas de um mundo só' são os mais polêmicos, né ? Junte a isto tudo as manias que vamos desenvolvendo ao longo dos anos, e tem-se uma mistura explosiva. Aprecio o punch do Gallego, admirável, em arriscar tanto a pele. Fiquei muito mais seletivo na hora do 'vou ou não vou ?'. Ao mesmo tempo, sou bem mais condescendente na questão agrado. Às vezes acho que valeu a pena ver um mau filme por causa de uma única cena, uma única linha de diálogo. |
Voltar ao topo [Aeternus:5223] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-06) - RE:RE: quarto festival Varilux de cinema francês 5 : um gosto e dois vinténs
Quero o gosto e os dois vinténs e nem assim, a julgar pela missiva do Florião, me assemelho ao Gallego que espera isto e o céu também do cinema. Me contento com uma frase, um bom diálogo, uma fotografia bonita...Nosso juiz olímpico dá ponto para todas as categorias. |
Voltar ao topo [Aeternus:5224] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-06) - RE:RE: quarto festival... é mais fácil sintonizar no desgosto
Marcos escreveu:
Eu não gosto de alguns filmes espetacularmente consagrados, como "E o Vento Levou", "Forrest Gump" (...), "Back to the Future". Meu gosto é mais para intelectualizado, em geral, embora adore alguns besteiróis como o recente "Tais Toi !", onde Depardieu me fez ter espasmos e chorar de tanto rir. Assim como o Dr. Phibes de Vincent Price, humor campy, desajustado. Por outro lado, o supra-sumo intelectual do momento, Lars von Trier, acho um chato de galocha.
É mais fácil então sintonizarmso no que não gostamso: nunca captei o endeusamento de "...e o vento levou", incluindo gerações mais novas do que a nossa! Fui criado ouvindo falar excelências do filme. Uma empregada me contava que era a história de uma moça rica que acabava comendo raízes da terra. Quando o filme finalmente foi reprisado, vi que este era o final da priemira parte! Acho que ela saiu no intervalo e por isso até gostou. Porque a segunda parte acaba com os parcos bons momentoda primeira.Exceção para a Vivien Leigh e para enfática trilha sonora. "Forrest Gump" é o supra-sumo do establishment in U.S.A. dizendo que é melhor ser idiota do que ter neurônios. A presença do F.Gump ao lado de personalidades reias em truques, hoje fáceis, já havia sido utilizada com muito mais pertinência e espírito crítico no genial "Zelig", talvez a obra-prima de Woody Allen, ao lado da "Rosa Púrpura" e de "Crimes e Pecados". Mas "Forrrest Gump"... faça-me o favor! Foi indigno ter sido usado como logomarca no recente festival do Rio, ao lado de cenas, essas sim, antológicas, de Gene Kelly em "Singing in the Rain" e Anitona Ekberg em "La Dolce Vita" (que, aliás, não é dos meus favoritos, acho que envelheceu rápido demais). Já "De volta para o futuro" eu adoro: quando estreou, Sueli foi ver com os filhos e meu Francisco, emplena fase edípica sóqueria ver o filme de novo com o papai. Que foi e gostou tanto que gostou até da segunda parte com vidas paralelas em universos virtuais de nossas vidas. Como tentativa de sequência achei bem inventiva. É o filme-pipoca por excelência que aguenta uma bela leitura de elaboração do ataque aos vínculos de pai-e-mãe, transformados ao longo do filme em figuras idealizáveis e não mais conspurcadas como objetos insuficientemente razoáveis, quem diria, bons. Já o "Tais-toi!" me fez rir também na primeira metade, mas a chanchada desmiolada me cansou na segunda metade e o resultado final ficou pífio para mim. Em matéria de comédia ffrancesa, o preconceituoso "O Armário" me caiu muito melhor. Além do depardieu, o Daniel Auteuil fazendo comédia foi uma grata surpresa. Gosto até de "Décalage Horaire" (Fuso horário do amor) e não é só pela Juliette Binoche, mas porque ri um bocado e não ofendeu meus neurônios em extinção,mas ainda orgulhosos do que souberam um dia... Já em relação ao Lars Von Trier, somos uma unanimidade, Marcos e eu (que gostei muito de "Ondas do destino" e não só pela Emily Watson, mas também). O cara é picareta, odiei "Dancing in the dark" e de "Dogville" não falo mais. Não merece. (agoira que estou lendo Pauline Kael que é "A" dona da verdade e bem persuasiva, ninguém me segura - embora continue achando que entre "pãos" e "Pães", o plural escolhido será(serão) "questões de opiniães". Mas defenderei até o fim o meu direito de dizer as minhas, como deve ter dito Lucy do Charlie Brown. |
Voltar ao topo [Aeternus:5225] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-06) - RE:RE:RE: quarto festival e nem dois vinténs
Jansy acha que eu espero tudo isso e o céu também dos filmes...Pois eu acho que o Marcos, às vezes, parece usar alguns filmes como referência existencial, como se fossem tratados de Spinoza, Wittengstein, etc etc. Posso estar errado sobre Marcos, mas o que eu espero mesmo dos filmes é "apenas" diversão & arte. Embora talvez possa se decodificar diversão=tudo isso; arte=ao céu também. No mais, nem dois vinténs, só um gosto: nenhum filme é minha "bíblia", exceto alguns de Bergman, mas acho que isso foi no passado. Hoje, me ligo mais no anarquismo de Buñuel.do que na seriedade do sueco. Como dizia Hermann Hesse em "Lobo da Estepe": o riso de Mozart liberta mais do que as correntes de seriedade de Brahms. Adoro os dois, aliás os quatro (Bergamn, Buñuel, Mozart e Brahms) (dentre muitos outros que me fazem acreditar que a raça humana teve razão de existir, ainda que estes muitos sejam tão poucos), mas reiterando o que já disse, "A Flauta Mágica" (antes de Bergman filmá-la) já era para mim mais reveladora da totalidade da vida, tral como se encontra presente nas tragicomédias debochadas buñuelianas do que nos soturnos desesperos suecos do Ingmar,l o rei da dor-de-dente-na-alma que só esporadicamente sorri em seus filmes. Ou seja, Mozart, quem diria, nA Flauta, Don Giovanni, Figaro, Serralho e Cosí, está mais perto de Buñuel do que de Bergman! Mas quero encontrar todos eles (e os oputros também) no "céu dos cinéfilos e melômanos". Deve existir. |
Voltar ao topo [Aeternus:5226] Mensagem do Grupo48 -(2005-11-06) - RE:RE:RE: os quatro "B"s da música
Vocês sabem que há uma bobagenzinha que diz que os 3 grandes "B's" da música são Bach, Brahms e Beethoven. Um senhor luso, ouvindo isto quis acrescentar um quarto nome com inicial "B". O empolado frasista dos clichês que citara os 3 B's, apressou-se: "Bartók, é claro!" Mas o luso, corrigiu: "Bibaldi!" (riam, por gentileza) |
Voltar ao topo [Aeternus:5227] Mensagem do Grupo48 -LFG(2005-11-06) - RE: os quatro Bês
Os 3 mosqueteiros (e não mosquiteiros) eram 4. Pela lógica da piada do fantasma, os 3 Bês da música sereiam mais do que 4: um fanho acrescentaria "Bendelsonhn" ou "Bahler". E o lusitano poderia acrescentar "Bagner" ou "Berdi". Um tímido diria "Schu...Bert", dando margem a um fanho, português, tímido (e azarado) propor "SchuBann", ou "StraBinski", ou mesmo "DBorak". Difícel seria incluir Chopin nessa lista de besteirol dos 3 Bês que já são 12! Quanta Bês...teira |
Voltar ao topo [Aeternus:5228] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-06) - RE: quarto festival...Keaton, Sellers, 'Ondas' e portugas
 No filão 'idiotas-úteis' ou 'idiotas-sábios', os melhores são Buster Keaton e Peter Sellers. O 1º teve menos recursos técnicos à disposição, menos carpintaria. Mas acaba funcionando no kitsch, como outro dia em "The Cameraman", onde os mafiosos atacam isando facas tipo da Rozenlândia, de papier maché, sei lá. Sellers fez um Quilty ridículo-clownesco em "Lolita" de Kubrick, que repetiu a brincadeira com ele em "Dr. Strangelove". Hollywood adora seguir tendências, e dali ele enfia a série Inspetor Clouseau, para desaguar no rafinée "Being There", Hal Ashby sobre Jerzy Kosinski. Floresta Gumpa é um pasticho sem essência do Videota.
"Ondas do Destino" também me foi recomendado por outros amigos. Esse dá para tentar ver, já que igualmente aprecio a Emily, muito talentosa. Sobre os 'b's e 'v's dos portugas, nenhuma dificuldade : é só pronunciar trocando-os ! O clássico Vasco X Benfica, na pronúncia deles, vira Básco X Váinfica. |
Voltar ao topo [Aeternus:5229] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-06) - RE:RE: quarto festival...Keaton, Sellers, 'Ondas' e portugas 3/4
 Vou responder no tom das últimas mensagens, produzindo aos tres bosqueteiros que viraram apóstolos ( olha que chique, troquei o numero doze dos Bs do Gallego, pelos apóstolos, notaram? Como se chama esta figura da retórica? ). Bosquejos. Pois pois. Hoje no almoço recontei para os filhos uma aventura do Humberto em Lisboa. Ele pediu um caldo verde num local pitoresco e, rindo, o garçom lhe perguntou: " Quer culhometa?" Na dúvida entre a culhometa e o que se meta, H. apostou no tom jocoso e concordou. No teto, preso com uma roldaninha, havia um paio suculento. O garçom puxou uma cordinha, baixou o paio que foi afundando no caldo. Marcou o tempo e então içou o paio. Então lembraram de outro caso, em outro local português. Um freguês gostou tanto do local que pensou em levar ali a família inteira para almoçar no dia seguinte. Perguntou ao garçom: " Este restaurante fecha aos domingos?" e o gajo respondeu que não. No outro dia a família deu com o nariz na porta. É que, mais tarde explicou o moço, ele disse que o restaurante não fechava aos domingos porque, afinal, também não abria. Como poderia fechar sem abrir primeiro? Gostos musicais são complicados. Je n´aime pas Brahms. Ele e Ravel me capturam numa dimensão sonora que tenho vontade de sair de perto, mesmo sem saber que música está tocando. Se quiserem me expulsar de casa, coloquem o Bolero que vou correndo. Aqui em Brasília quando, nos anos setenta eeu queria que minhas hostes de hospedes se fossem, eu punha pra tocar um disco de um compositor nativo chamado Antunes ( a última dele que ouvi foi um concerto com buzinas de carros na esplanada). Mozart, assim como o badejo e a cebola, só muito mais tarde descobri que não apreciava o tanto quanto antes supunha. Admirável e genial, com risada ou missa fúnebre, mas impossível ouvir o tempo todo. Bach, por outro lado ( sem ser com violinos) posso ouvir durante as vinte e quatro horas do dia. Não deixa de ser um critério preferir o cenestésico matemático ao deleite aural puro. Não deixem de provar o sorvete de café e o de iogurte com malena do "Marietta". Não posso ir na livraria Cultura sem presentear também às papilas ( os livros que lambo são meio ásperos).Hoje fiz a festa com uma promoção da Cosif Naify. Quando gosto de um autor(a) aprecio ler no original e em todas as traduções que consigo entender. Hoje foi Katherine Mansfield e, claro, O Primeiro Amor do Samuel Beckett. Se der ainda vou atrás da Virgínia Woolf e do Melville. Estou em estado de graça. |
Voltar ao topo [Aeternus:5236] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-07) - O jardineiro fiel e Heidegger
 Oi Pessoal, Retorno depois um silêncio, embora já tenha tentado por três vezes mandar mensagens mas elas não vão. De vez em quando tenho dado uma olhada na profícua produção da lista e creio que realmente Jansy é o arauto do feminino dessas listas, pois se mantém constante e atuante. Porém creio que a questão de gênero aqui apenas tangencia e não é fator relevante, pois apenas serve de coador para as experiências enunciadas. Também não pude deixar de perceber que o Conde anda bem apaixonado. Legal. Estou tentando encaminhar um texto que escrevi já faz uns 20 dias. Senti-me tentada a mexer nele, mas vai assim mesmo, da forma como foi elaborado.Caberia falar mais sobre a aproximação com Heidegger, mas é apenas um exercício de construção de idéias. Vi que a lista já fez referência a "O Jardineiro Fiel", que só recentemente pude assistir, ficando notório a queda do Marcos pela atriz principal, que realmente tem semelhança com a Ana Paula Arósio. Recentemente Jansy falou da Tess como sendo um exemplo de altruísmo verdadeiro, tese que coloco em questão. Ao ver o filme não pude deixar de fazer uma analogia com as teorias de Heidegger, pois a abordagem do tema me pareceu bastante Heideggeriana, principalmente quando faz uma fusão do presente, passado e futuro numa narativa que não é original mas foi usada com bastante delicadeza e sensibilidade, resultando num filme que equilibra sentimentos de amor e ódio. Para Heidegger a temporalidade é uma questão fundamental da existência humana, onde o Dasein se caracteriza por uma tensão constante, uma inquietação relativa ao tempo, ou seja, entre aquilo que o Dasein é, o seu vir-a-ser e o seu passado. Poderia ser dito que, até o instante em que soube da morte de Tess, Justin vivia uma existência inautêntica, ou seja, distanciado de sua condição real. Sua inquietação com a perda da pessoa amada é que o possibilitou ultrapassar o estágio da angústia (em Heidegger) e retomar o seu destino com as próprias mãos.Foi a morte de Tess que o acordou para a autenticidade, ou seja, quando o homem pode conviver com sua condição enquanto ser-para-a-morte, uma vez que a morte é a única possibilidade que lhe é dada como certa. Foi a partir daí que Justin a ser um exemplo vivo da noção de angústia heideggeriana, que é o que possibilita ao homem resgatar-se do viver cotidiano e ir em busca de sua totalidade.Quanto a Tess, eu a vejo como uma pessoa que lutando contra sua fragilidade usava sua agressividade como arma. Inicialmente de forma difusa, metralhadora giratória, como na entrevista em que agride Justin, sendo esta a forma como se conhecem. Já naquele instante ele demonstrou sua capacidade de acolhimento e asseguramento descrita por Bion como rèverie . Há inclusive uma cena em que Tess fala explicitamente se sentir segura ao lado dele, protegida de sua própria destrutividade. Para tanto o escolheu, oferecendo-se para o acompanhar à África. Já na África, mantinha uma vida como se Justin não existisse, agindo de maneira a não se importar com os sentimentos dele, de ciúmes, insegurança, abandono e impotência. A luta pela defesa dos africanos contra a indústria farmacêutica passou então a ser o seu objeto de investimento, feito de forma tão acirrada e pouco racional que a levou à morte. Não creio que ela estava protegendo o companheiro deixando-o de fora, mas simplesmente parece que não havia espaço para ele em sua vida. Ela estava, na realidade era protegendo a sua rota de colisão, pois sabia que as ponderações dele poderiam levá-la de volta ao desamparo do qual queria fugir por meio de suas ações obssessivas.A miséria humana do povo africano era na verdade um espelho da miséria emocional sentida por Tess, daí sua identificação narcísica. A perda do bebê foi mais um elemento aprofundador desta imagem especular, levando-a a se resignar tão prontamente. Tess na verdade é uma haroína às avessas, alguém que tentando fugir de suas dificuldades arriscou tudo, inclusive a vida. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5239] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-07) - RE:O jardineiro fiel e Heidegger 2
 Bem vinda, Márcia. Que pena que não conseguiu antes nos enviar seus comentários... Quando tiver problemas, mande a mensagem para mim que a encaixo na lista, para não romper o ritmo da conversa e das associações. Coerente, sua descrição da destrutividade de Tess, no O Jardineiro Fiel : Quanto a Tess, eu a vejo como uma pessoa que lutando contra sua fragilidade usava sua agressividade como arma. Inicialmente de forma difusa, metralhadora giratória, como na entrevista em que agride Justin, sendo esta a forma como se conhecem. Já naquele instante ele demonstrou sua capacidade de acolhimento e asseguramento descrita por Bion como rèverie . Há inclusive uma cena em que Tess fala explicitamente se sentir segura ao lado dele, protegida de sua própria destrutividade. Para tanto o escolheu, oferecendo-se para o acompanhar à África. Já na África, mantinha uma vida como se Justin não existisse, agindo de maneira a não se importar com os sentimentos dele, de ciúmes, insegurança, abandono e impotência. mas não concordo inteiramente. Obviamente, há a "metralhadora giratória" da sua agressividade, ao ponto de se perder e se apagar no meio de tanto fogo. Amor e ódio, construção e destruição estão presentes todo tempo... Aos meus olhos, pelo menos por enquanto, estes sentimentos estavam projetados para fora, longe do próprio núcleo do seu ego e, isto, não como tática defensiva, como na projeção paranóica. Entendi mais como uma dissolução do próprio eu. Ela usou Justin para chegar à Africa, mas pelo que me recordo ela já tinha elos com a Africa e precisava apenas de um modo de conseguir entrar no país. Ela o amava como amava a si mesma e a tudo no mundo, de modo transitório, inteiramente centrada na experiência do momento. Seu bebê perdido acolhia o neném africano e o passava adiante para acolher todos os outros que precisassem de um colo. Quanto a Justin, o certinho numa fantasia de mundo certinho, você observou: "Justin vivia uma existência inautêntica, ou seja, distanciado de sua condição real. Sua inquietação com a perda da pessoa amada é que o possibilitou ultrapassar o estágio da angústia (em Heidegger) e retomar o seu destino com as próprias mãos.Foi a morte de Tess que o acordou para a autenticidade..." Sua descrição me remeteu a cena do enterro de Ofélia, como analisada por Lacan no "Hamlet e o Desejo" quando, pela primeira vez, o príncipe se apresentou: - " Sou Hamlet, Rei da Dinamarca" porque o fosso no qual Ofélia jazia representava o buraco da perda etc etc.( Lacan escreve lindamente, não vou plagiá-lo inventando frases imprecias agora). E, como na trajetória de Hamlet, este mergulho na "autenticidade" culminou com sua entrega à morte, embora no caso de Justin parecesse que suas alucinações o levavam a crer que na morte reencontraria Tess, uma fantasia de controle peculiar aos obsessivos. Sua frase:"A miséria humana do povo africano era na verdade um espelho da miséria emocional sentida por Tess, daí sua identificação narcísica" é precisa, teóricamente coerente, mas, talvez por recorrer à teoria do narcisismo, não nos permita ir além da idéia da sua "miséria emocional", ali suposta mas, talvez, não muito real. Espero que você, Márcia, continue escrevendo para desenvolvermos melhor alguma intuição que nos impele a discutir Tess e Justin... |
Voltar ao topo [Aeternus:5241] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-07) - RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 3
Os aspectos levantados por Márcia são muito interessantes. Jansy defende sua visão muito bem. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Já manifestei munha desconfiança quanto à generosidade doadora de Tessa. Existe, seria boa para os que a recebem, mas não é boa com ela-mesma nem com seu apaixonado Justin. Ela adentra na vida dele e quase o "usa" para ir cumprir sua "missão" na África, Ela o ama, ela o protege na condição de membro do governo britânico, mas também se utiliza da condição de esposa para cumprir sua missão pessoal. Como ele diz: "Não me surpreenderia, em se tratando de Tessa..." (que mudasse o rumo da viagem, que não estivese de avião) (que estivesse se expondo daquele jeito, acrescento eu) Viva os generosos, os que se dão, os que sacodem nosso egoísmo inútil. Mas saibamos que tal doação aos outros é uma exigência do próprio eu (ou do supereu) que, como o escorpião que aferroa o sapo que o transportava na travessia do rio, cumpre com a natureza dos dadivosos: compulsiva, reparadora, o que for. Não lhes tiro o mérito (quem sou eu para tal? eu que nada de desinteressado faço pelos outros...) mas apenas compreendo sua generosidade como tento compreender a mesquinhez de outros tantos (o que não justifica, nem perdoa, nem desculpa a mesquinhez da maioria). Lembro que minha musa, Audrey Hepburn comeu o pão que os nazistas amassaram na invasão à Holanda quando ela era uma mocinha pré-adolescente. Passou fome. Teve um irmão (meio-irmão) preso por ser da resistência Holandesa. Quando voltou a se alimentar teve problemas digestivos (não era magra de graça). Depois de um casamento frustrado foi abandonando a vida de estrela para se dedicar ao segundo casamento e aos filhos, um de cada. Frustrada com o segundo casamento, cheia da grana, se dedicou de corpo e alma a tarefas humanitárias que incluíam visitas à África para divulgar situações de miséria extrema e angariava fundos dos tão ricos como ela. Dizia que sabia o que era passar fome sendo criança. Só aceitava dar entrevistas se dividissem o tempo, dedicando a maior parte a questões de fome no terceiro mundo. Deixou de cuidar de sintomas digestivos para não interromper suas atividades. Era um câncer que a matou rapidamente. Talvez fosse a natureza do cãncer, muito agressivo, quem sabe? Talvez ela tenha se descuidado... Nada disso diminui minha a dmiração por ela (real) ou pela Tessa ficcional. Benvinda de volta, Márcia: a concretude da morte, da perda foi bem lembrada no viés heideggeriano. Jansy lembrou bem a descrição que Lacan faz da cena do enterro de Ofélia quando Hamlet se dá conta que seus atos tiveram consequências irreversíveis: por loucura ou suicídio, Ofélia morreu. E isso não tem volta. É mesmo a única coisa que ordena o caos em movimento da vida que se pretende sem limites. É o que leva Justin à ação além de cuidar das plantas. Como vemos, um filme quando é bom mesmo, dá frutos. |
Voltar ao topo [Aeternus:5242] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-08) - RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4
 Gallego, você teve como o Justin justo, a fidelidade de fiel da balança: nem tanto ao mar, nem tanto à terra ao discorrer sobre os insights da Marcia e minhas idéias. Valeu.
Muitos psicanalistas, principalmente nos anos sessenta quando a moda estaga no auge por aqui, sofriam de "interpretose" e, logo em seguida, seus analisandos também não deixavam o mundo em paz. Hoje não cometemos os mesmos enganos pois aquela turma ficou como o louco analisado por Hanna Segal: ele sacava que um violinista tocando em público estava gozando pela masturbação, mas não percebia emocionalmente outra dimensão ligada à beleza da música. Será que exagero repudiando a teoria do ego e do narcisismo como podendo explicar todas as ocorrencias de ações e corações humanos? Talvez esteja pensando nas pessoas, às vezes, como os bons poemas: não devem vir cercadas de adjetivos, apenas externarem o seu ser. |
Voltar ao topo [Aeternus:5243] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-08) - RE:O jardineiro fiel e Heidegger 5 via Lacan
 Já não me recordo do que deixei em suspenso porque não conseguiria reproduzir Lacan coerentemente no que ele discorreu sobre "O Objeto Ofélia" ( quinta parte do seu texto sobre Hamlet e o Desejo, indo até as "Falofanias").
Aqui vão alguns excertos, mal separados e abridged porque irei extrair apenas o que, no texto, deixei sublinhado há anos...Espero encontrar a Ofélia em algum ponto, mas ...
A história de Hamlet nos denuncia um sentido dramático muito vivo da topologia freudiana, de onde extrai seu poder de cativação. Ofélia é a isca da armadilha em que Hamlet não cai, inicialmente porque foi avisado e depois porque a própria Ofélia não é mais capaz de enganá-lo, apaixonada que está. Ainda assim ela se torna um elemento íntimo do drama de Hamlet que perdeu a via do seu desejo. É uma articulação essencial no encaminhamento do herói em direção à hora de seu encontro mortal com seu ato. Há um nível do sujeito em que se pode dizer que é como puro significante que seu destino se articula, onde ele não é mais do que o avesso de uma mensagem que nem mesmo é a sua.
O primeiro passo que demos foi articular o quanto a peça é dominada por este Outro, a Mãe, o sujeito primordial da demanda. A onipotência é, inicialmente, a onipotência deste sujeito da primeira demana, é à Mãe que deve ser referida. Há um mistérioi a respeito da fantasia, pois ela é o último termo do desejo, mas quando abordada em uma das suas fases ela se situa ao nivel do consciente. A fantasia marca toda paixão humana com os traços da perversão porque foi consagrada a uma economia inconsciente. Em Hamlet a fantasia é colocada em função sobre o circuito inconsciente, que diferen profundamente da cadeira que o sujeito comanda conscientemente, que está ao nivel da demanda. Na tragédia shakespeariana há um momento de desvario do desejo de Hamlet. Ofélia situa-se nesta referenciação ao nível da letra "a", inscrita na simbolização da fantasia. Devemos evitar a confusão de tomar a dialética do objeto pela dialética da demana porque, nos dois casos, o sujeito se encontra na mesma relação com o significante: em posição de eclipse, de "fading".
De fato, o que chamamos relação de objeto é sempre relação do sujeito em situação de "fading" ante os significantes da demanda, e não aos objetos. Diante do objeto central da dialética do desejo, imagem e pathos ao mesmo tempo, o sujeito se experimenta numa alteridade imaginária. Este objeto não satisfaz qualquer necessidade, ele é por si só relativizado porque posto em relação com o sujeito, o sujeito enquanto presente na fantasia. E o objeto é objeto do desejo unicamente no que ele é termo da fantasia. O objeto toma o lugar daquilo de que o sujeito é simbolicamente privado, ou seja, do falo. É do falo que o objeto toma a função que adquire na fantasia.
Retomando, pois: o objeto da fantasia é este outro que toma o lugar daquilo de que o sujeito é simbolicamente privado, naquilo que o objeto imaginário se encontra em posição de condensar sobre si as virtudes ou a dimensão do ser. E o que é este "a", o outro imaginário?
Ele é o elemento estrutural das perversões já que a perversão se caracteriza por isto, que todo acento é colocado na fantasia sobre o correlativo própriamente imaginário, "a". O sujeito está sempre ali numa relação ao patético, à dor de existir, de existir como tal, ou como termo sexual. Enquanto que na perversão o acento se dirigie sobre o "a", na neurose, ele se situa de uma enfase situada sobre o outro termo da fantasia, o sujeito barrado. A fantasia se situa no extremo, no ponto de interrogação subjetiva, como sustentáculo uma vez que aquilo de que o sujeito tenta se apoderar está no mais além da demanda. Ele precisa reencontrar, na dimensão do discurso do Outro, o que perdeu em nome da sua entrada naquele discurso. Não se trata, então, da verdade e sim, da hora da verdade.
A fantasia da perversão é dizível. Está no espaço. Não é atemporal, está fora do tempo. Na neurose, pelo contrário, a base mesmo das relações do sujeito ao objeto no nível da fantasia, é a relação do sujeito ao tempo. Na histeria o desejo surge enquanto insatisfeito e na obsessão, é a de um desejo impossível. Mas há uma relação inversa com o tempo porque o obsessivo procrastina, ele se antecipa sempre tarde demais enquanto que a histérica repete sempre o que foi inicial em seu trauma, um cedo demais, uma imaturação.
Hamlet de distingue de Édipo porque ele, Hamlet, sabe. Na tragédia antiga os heróis são loucos, mas não bancam o louco como o faz Hamlet.
Eu me surpreendo porque nos textos psicanalíticos não se tenha apontado que Ofélia é o falo..
O desequilíbrio perverso se dá na relação fantasmática quando a fantasia se volta em direção ao objeto. Hamlet não trata de modo algum Ofélia como uma mulher. Ela se torna a portadora das crianças de todos os pecados, ela seria quem engendra os futuros pecadores, suporte d euma via condenada por Hamlet. Ou seja, o que ocorre é uma destruição, uma perda do objeto, egrada em seu plano narcísico. Para o sujeito, o objeto aparece "lá fora". O sujeito não o é mais, ele o rejeita com todo seu ser, e só poderá re-encontrá-lo quando ele próprio se sacrificar. É em que o objeto é o equivalente do falo. Ofélia é o falo, exteriorizada, rejeitada pelo siujeito enquanto símbolo significante da vida.
Na cena do cemitério, durante a qual é enfim aberta a Hamlet a possibilidade de afivelar-se e de se precipitar ao seu destino. É o que se propõe como uma reintegração de "a", o objeto re-encontrado ao preço de um luto e da morte.
O buraco da perda que provoca luto no sujeito está no real. Do mesmo modo que aquilo que foi rejeitado do simbólico reaparece no real, também o buraco da perda no real mobiliza o significante. Este furo oferece o lugar onde se projeta o significante faltoso, essencial à estrutura do Outro. Trata-se deste significante cuja ausência torna o Outro incapaz de lhes dar a resposta, deste significante que vocês não podem pagar senão com sua carne e seu sangue, essencialmente, "o falo sob o véu". O fundo do luto, tanto em Hamlet como em Édipo, é um crime.
Etc...
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Voltar ao topo [Aeternus:5244] Mensagem do Grupo48 -Marcia Adorno(2005-11-08) - O Jardineiro fiel
 Assim que vi o filme senti necessidade de escrever algo sobre ele, sendo que ao ler o comentário da Jansy me motivei ainda mais. Quis fazer um contraponto à idéia por ela expressada, sendo que no meu ponto de vista desconfiei um pouco da bondade messiânica que Jansy viu em Tessa. Aproveitei os conceitos Heideggeriano com os quais me referi ao Justin, uma vez que o seu personagem me pareceu um pouco contrditório e uma maneira de tentar compreendê-lo foi usando a compreensão da temporalidade, ainda em Heidegger. Ao enviar a mensagem, já depois de um certo arrefecimento das idéia colocadas de chofre na hora da escrita, desconfiei que estaria também, como a Jansy, fazendo uma leitura unilateral de um personagem complexo. Senti vontade de atualizar o texto mas percebi que, além do tempo que teria que utilizar, encontraria dificuldade no envio. Foi como estava, capengo, incompleto e superficial. Mas serviu para o que eu queria que era retomar a discussão sobre o filme. Concordo com a Jansy quando ela se refere à análise do Gallego, que me parece mais ponderada e leva em conta um certo equilíbrio das diversa fontes mobilizadoras da personagem Tessa. Quanto à utilização indiscriminada da teoria do narcisismo e egóica também creio que se tudo for enquadrado apenas sob essa ótica estaremos deixando de produzir uma análise mais rica. É justamente uma ampliação das diversas possibilidades de entendimento de qualquer assunto que torna as listas do aeternus um abrigo para mentes inquietas. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5245] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-08) - RE:O Jardineiro fiel da balança do Gallego
 "É justamente uma ampliação das diversas possibilidades de entendimento de qualquer assunto que torna as listas do aeternus um abrigo para mentes inquietas", escreveu há pouco Marcia. Há dois abrigos paradoxais (até mais): a abertura peripatética das conversas pela internet, que abriga sem acobertar e, ainda, o estímulo das trocas de idéias sobre o que circunda os que apreciam ler e escrever. Uma quarta ou quinta dimensão de acolhida, talvez? Não sei se constituiriamos um grupo seleto de "mentes inquietas" ou se estaríamos reproduzindo um padrão cultural mais vasto de um tipo novo de "sem-teto" (estou me devendo uma cópia do novo ASTERIX anunciado como "O dia em que o céu desabou" e que deve ter Panoramix e um escudo na cabeça ...) . É que estou correndo feito cachorro atras do rabo desde que de Ruth Rendell fui para o Beckett e, de quebra na promoção, comprei dois livros de um catalão que escreve sobre o Bartleby de Melville e se dedica à escrita do "negativo" e aos escritores ágrafos! Daí que estou bem na moda literária ( pelo menos a lançada neste mes pela Livraria Cultura) dos romances, como este Montana do Villas Mata escrevendo sobre livros inexistentes e escritores suicidas. Para marcar ainda mais, sem querer ( não sei como fiz isso!), comprei um livro da editora Penguin chamado "Liquidation" de um autor húngaro chamado Imre Kertész, Nobel em 2002, que constroi a história sobre uma frase do Beckett ( no Molloy) : "Then I went back into the house and wrote, It is midnight. The rain is beating on the window. It was not midnight. It was not raining". Hoje ouvi ( de M.E): Podemos fazer todo tipo de interpretação das composições musicais pois elas se abrem infinitamente às suas multiplas significações. A escrita é mais honesta. Fiquei intrigada com esta caracterização da "honestidade" na escritura, mas acrescentei-lhe a sugestão de que na escrita, quer queira ou não, o autor precisa partir de uma posição que revelará uma faceta que o comprometerá. A escrita nihilista mendicante a céu aberto prepara rodapés aos textos que não existem ( ao contrário do nabokovino "Fogo Pálido" onde há um poema breve que foi anotado de modo disparatado e longuíssimo por um editor delirante ...) e já não se acha o autor por trás do narrador ou uma voz algum sujeito estabelecível que se diz ao se desdizer. Para minha interlocutora matinal ( M.E) se, em matemática, por mais variações que possamos produzir para demonstrar como Dois Mais Dois são Quatro, teremos sempre um ponto de partida e uma conclusão. Em literatura temos tres mosqueteiros e mais um, ou a contabilidade da lógica no mundo da Alice no País das Maravilhas espelhadas. Pensei agora no delicioso Mendoncinha do conto do Veríssimo que se inicia afirmando que, segundo Freud, quando um casal está na cama para transar há sempre pelo menos quatro ali presentes ( considerando-se a teoria da bisexualidade...) |
Voltar ao topo [Aeternus:5246] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-08) - Contra a Interpretação.
 Jansy lembrou a postura patética de analistas donos do suposto saber (eles acreditavam que não era "suposto"; que era "SABER" mesmo - tal como os paranóicos que não têm dúvidas, eles sofrem de certezas...), dando o exemplo de que Hanna Segall "sacava que um violinista tocando em público estava gozando pela masturbação, mas não percebia emocionalmente outra dimensão ligada à beleza da música." Que perda para Segall... azar o dela! Quando coordeno debates sobre filmes com pessoas de diferentes áreas do saber (modestos saberes incompletos) percebo que, não raro, a platéia espera que o "psi" "explique"; que "saiba" (tudo). Não raro, alguns psis caem nesta tentação de serem aqueles que "ilustram" (iluminam) o filme ou a obra de arte em debate com sua leitura "definitiva". Não entenderam que Freud, mais do que ensinar sobre arte, aprendeu coisas com os artistas; que as obras de arte é que ilustraram seu pensamento sobre procesos mentais, emocionais, racionais e irracionais dos seres humanos. Acho Lacan meio metido a espertinho quando se diz "freudiano", em "retorno a Freud" e contesta a proposta de Freud sobre a hesitação de Hamlet. O texto de Lacan é muito persuasivo, mas o que ele diz muitas vezes serve a ele, serve à teoria que ele quer demonstrar sobre o desejo e não há tantas novidades sobre o "Hamlet". A maioria das coisas que ele diz sobre a peça e a motivação do personagem central outros ensaístas (não-psicanalistas) já haviam dito, como por exemplo, que a questão principal para o príncipe não era tanto o assassinato do pai pelo tio, mas o rápido casamento da mãe após a morte do pai (e logo com o tio que se confirmará como assassino do rei!). Ele questiona o que Freud propõe como identificação de Hamlet com Cláudio, sendo Hamlet o que fantasia o que Claúdio fez: matar o Rei (papai de H.) e transar com a Rainha (a mamãe de H.)... como matar quem "apenas" fez o que virtualmente (sem virtude) o próprio Hamlet poderia (desejaria) fazer? Lacan cria um sofisma na base da "projeção" em vez de privilegiar a identificação: porque Hamlet não se aliviaria de matar EM Cláudio os seus desejos inconfessáveis? - pergunta Lacan para desenvolver a teoria do desejo da mãe (muito pertinente, mas, a rigor, nada original nem se tivermos em mente a proposta de Freud sobre a realização da mulher ao parir um bebê como seu falo ou mesmo os estudos de ensaístas da área de lieteratura que já apontavam, há muito, a personagem da mãe , casando-se menos de 2 meses depois da viuvez, como "pivô" para a melancolia inicial de Hamlet, antes mesmo de ver o fanatsma do pai clamando vingança e denunciando o tio como seu assassino. A propósito, uma das frases mais engraçadas da peça (cito de lembrança) é quando, após seu primeiro monólogo melancólico (se esta carne se derretesse, etc etc), adentra o amigão de Hamlet, Horácio que diz ter chegado á Dinamarca para o enterro do pai de Hamlet. Hamlet o contradiz: "Vieste mesmo para o casamento da minha mãe!". Embraraçado, Horácio, pego na hipocrisia do que dissera antes, comenta: "É... realmente foram bem próximos estes dois acontecimentos". E Hamlet fuzila: "A carne quente servida no velório foi servida como salada fria no casamento: economia, Horácio, economia!"
A peça original é maior do que todas as interpretações. Nada disso que Freud, Lacan, Kohut, Ella Freeman-Sharpe, Harold Bloom, Northrop Frye, Daniel Sibony, Barbara Heliodora, etc etc dizem SOBRE Hamlet é maior do que a peça original, do que o texto original, do que a poesia dos solilóquios de Hamlet, do que a descrição da morte de Ofélia pela Rainha, do que o clímax dramático/melodramático da cena do cemitério onde Ofélia é enterrada e Hamlet e o irmão dela brigam, dentro da cova sobre o corpo inerte da moça, cena tão estudada por Lacan... nada do que se diz SOBRE Hamlet é maior do que "Hamlet". Por isso concordo com Jansy quando ela diz "Será que exagero repudiando a teoria do ego e do narcisismo como podendo explicar todas as ocorrencias de ações e corações humanos? Talvez esteja pensando nas pessoas, às vezes, como os bons poemas: não devem vir cercadas de adjetivos, apenas externarem o seu ser." Nenhuma teoria (do ego, do self, do narcisismo, etc etc) "explica" TODAS as ocorrências dos e nos corações humanos, muito menos "explicam" os bons poemas que se bastam em sua polisemia (como os mitos), não podendo ser reduzidos a um ponto-de-vista único ("pensamento único" é um horror). Susan Sontag lançou uma coletânea de ensaios com o título que reproduzi: "Contra a Interpretação". O que podemos é mostrar UMA (numeral) possibilidade de leitura; haverá outras; UM ponto de vista dentre outros ("UM" como artigo indefinido; porque "O" ponto-de-vista definido pelo artigo definido é mesmo um pleonasmo de Narciso perdido numa sala de espelhos onde só vê o que quer, o que pode, o que consegue, fechado à diferença, tão difícil de se conviver com ela, mas que é o verdadeiro veneno antimonotonia). |
Voltar ao topo [Aeternus:5247] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-08) - Frustração
 Ao tentar enviar um texto, que jamais o escreveri novamente, sobre os fragmentos de escritos de Lacan, ele ciu no buraco negro da realidade virtual e babau... Foi sem ter ido. Toda vez que escrevo umtexto maior, não consigo enviá-lo. Por favor HELP ME. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5248] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-08) - RE:Frustração (Consolação besta)
Não foi a primeira vez, Marcinha, nem será a última: já aconteceu com todos nós. O bom-senso mandaria que escrevessemos em Word, salvássemos provisoriamente, recortássemos e colássemos no "enviar nova mensagem" do aeternus e aí, tudo daria certo, sempre. Mas quando eu começo a escrever, sempre acho que serão cinco ou seis maltraçadas linhas, quando são mal-planejados parágrafos que só mesmo Jansy tem paciência e consideração de ler por extenso e ainda comentar. Mas quando percebo o alongamento da escrita pelo micróbio (ou seria macróbio?) da prolixidade, paro, salvo em Word, concluo meu tratado e devolvo à caixa de "enviar nova" do aeternus. |
Voltar ao topo [Aeternus:5249] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-08) - RE:RE:Frustração : PÔ Galleguito !
Sou um leitor atentíssimo a seus arroubos... |
Voltar ao topo [Aeternus:5250] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-08) - Socializando a tristeza
 Gallego, Obrigada pelo apoio. Realmente fiquei muito frustrada porque levei um tempão redigindo o texto, fazendo considerações ao calor da escrita que não poderei reproduzir se o quisesse. Bem, digamos que o trabalho da sublimação pelo menos teve seu efeito. Vamos ver se eu me programo para fazer como vc disse.Mas, como vc, acho que quase nada terei para fala e, de repente, uma serpente de frases cresce cada vez mais o rabo numa infinitude de idéias. Em tempo: não é só a Jansy que lê o que vc escreve. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5251] Mensagem do Grupo48 -jansy(2005-11-08) - RE:Frustração
 Márcia, não é muito comum escrever no Aetern.us e perder a produção, embora aconteça. Já ocorreu comigo quando cliquei "enviar" no mesmo instante que outro, que escrevia também, clicava "enviar". O sistema registrava uma oscilação e, no final, rejeitava uma das remessas. Já aconteceu de haver pico de energia e o sistema cair. Também quando colo algo que recortei de um site na internet, dependendo do conteúdo e de onde veio, dá problema. Quando você escrever algo mais longo e caprichado, faça no Word, grave e depois recorte dali para colar prontinho no Aeternus. Eu prefiro escrever uma e-mail pra mim mesma e depois extraio dela o que vou colar no site. Se falhar, posso encaminhar esta mesma email para algum colega colocar por mim... |
Voltar ao topo [Aeternus:5252] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-08) - RE:RE:Frustração (Consolação besta)
 Gallego, você obteve o reconhecimento caloroso da Marcia e do Florião, agora sabemos que ambos lêem o que você escreve ... ( e está implícito que o apreciam, senão ficariam calados). E tenho montes de comentários a sua mensagem, que está meio apressada ( não é "pobre Hanna Segal" porque foi ela quem observou a parcialidade dos psicóticos e você considerou que era ela que perdia a música do violinista...Nem Lacan merece seu rápido rebutalho,etc) mas, pra minha não ficar ainda mais resumida deixarei para responder depois. Márcia, você está formal demais conosco. Relaxe e fique mais errante. A gente sempre começa achando que vai escrever só umas linhas, como reconheceu o Gallego, e acaba com um tratado lavadinho esperando ser enxugado. Então, cada um que ache seu ponto a la Castañeda e, de preferência, ao estar inspirado, que tente escrever em outro lugar para gravar antes de enviar. Não me importo de ser ora Quixote ou Sancho Pança ao escrever no site de cinefilos e leitores pensantemente apaixonados, ou de ler os rompantes da dupla nas múltiplas vozes que lhes darão vidas e pós-vidas. Adoro ouvir os ornejos do Roncinante ( como é mesmo que se chama a montaria do Sancho Pança?) principalmente os que vem ao fundo do que escrevo naqueles bosquejos que saem pela culatra ( os tais "cochilos da metáfora" descritos pelo Borges). . |
Voltar ao topo [Aeternus:5253] Mensagem do Grupo48 -JANSY MELLO(2005-11-08) - RE:Contra a Interpretação.
 "Acho Lacan meio metido a espertinho quando se diz "freudiano", em "retorno a Freud" e contesta a proposta de Freud sobre a hesitação de Hamlet"..."A maioria das coisas que ele diz sobre a peça e a motivação do personagem central outros ensaístas (não-psicanalistas) já haviam dito"..."Ele questiona o que Freud propõe como identificação de Hamlet com Cláudio, sendo Hamlet o que fantasia o que Claúdio fez: matar o Rei (papai de H.) e transar com a Rainha (a mamãe de H.)"... a teoria do desejo da mãe (muito pertinente, mas, a rigor, nada original nem se tivermos em mente a proposta de Freud sobre a realização da mulher ao parir um bebê como seu falo)... Ufa, Gallego. Se aceitamos,com os franceses, que "c´est le ton qui fait la musique", você compôs uma ressonante letra pra "Cantiga do Desdém e do Maldizer" para Lacan. Não há dúvida que inevitavelmente cada um interpreta o que lê ao seu modo, mas quando há menos zanga fica mais fácil se trocar idéias.
Lacan foi um francês que chegou a analista didata na IPA numa época em que isto representava erudição e competência. Sua leitura ao Freud é rigorosíssima e o que ele tem a dizer sobre Klein, Winnicott, Ferenczi e vários outros analistas daquela geração é informado e respeitoso na maioria das vezes, embora soubesse caçoar cruelmente de alguns colegas, como do J-B Pontalis, fingindo-se de gago para enfatizar o som de "gibet" (acho, não sei a palavra mas creio que representava "forca") em JB,JB,JB. Raros leram o "Projeto" de Freud, como ele, durante um ano inteirode seminários na fase de "retorno a Freud". Tive a impressão de que no artigo sobre Hamlet, Lacan estava pouco preocupado com conceitos da metapsicologia ( ele foi rejeitando a "feiticeira" freudiana cada vez mais, para deter-se sobre outras obras de Freud que ele interpretou como representando mais fielmente "o desejo de Freud" do que as da metapsicologia. Até mesmo a teoria do complexo de Édipo não ganhou destaque nas suas elaborações posteriores e este foi um dos motivos pelos quais desligou-se ( foi excomungado) da IPA). Lacan destacou que Hamlet era um personagem de Shakespeare e, por isso, não podia ser interpretado como se fosse um obsessivo hesitante ( e neste ponto ele criticou a leitura do Hamlet feita por Ernest Jones ) ou um histérico recalcado ( em oposição a outra teoria de um analista britanico do qual não me recordo o nome) e que uma obra de arte podia apenas servir de modelo para um tipo de leitura em psicanálise. Algo que você, Gallego, desenvolveu adiante de modo muito elegante, aliás.
A dificuldade de Hamlet para matar Claudius, por exemplo, não advinha de uma hesitação pois Hamlet soube muito bem matar Polonio, mas ligava-se ao fato de Claudius estar rezando e se, morto naquele instante, teria alguma benção celestial em vez de castigo divino. Claudius, enquanto representante do falo invisível, também ali era inatingível. A distinção que Lacan faz entre demanda e desejo associados à frustração/privação/castração é novidade, assim como o lugar da mãe como o "Outro" do início da vida de um infante. Você observou que " a peça original é maior do que todas as interpretações" e também não sei se quem interpreta se pretende substituto ou autor senão apenas "crítico" ( e estes, quase sempre, incapazes de escreverem suas obras embora consigam ler melhor que ninguém as dos outros). Deduzo que quanto a isto nós não concordamos de algum modo ( mas nossos corações continuam con-cordes em tudo mais, fora estas teorias todas...) pois você me cita logo em seguida de modo que não entendi como se conecta ao que vinha antes. "Será que exagero repudiando a teoria do ego e do narcisismo como podendo explicar todas as ocorrencias de ações e corações humanos? Talvez esteja pensando nas pessoas, às vezes, como os bons poemas: não devem vir cercadas de adjetivos, apenas externarem o seu ser." Nenhuma teoria (do ego, do self, do narcisismo, etc etc) "explica" TODAS as ocorrências dos e nos corações humanos, muito menos "explicam" os bons poemas que se bastam em sua polisemia (como os mitos), não podendo ser reduzidos a um ponto-de-vista único. Talvez eu tenha me expressado mal no tom genérico que emprestei a minha questão ao usar "explicar todas as ocorrências". Pretendia referir-me a "todas ocorrências que muitos analistas encaixam rapidinho na teoria do narcisismo" sem entende-la ou mirá-la de outro angulo.Como Lacan, quando privilegia o "sujeito" e situa o "ego" apenas na dimensão imaginária da sua constituição. Quanto aos adjetivos também aqui escrevi mal. Eu tentei dizer que se deve evitar escreve-los nos poemas ( em vez de adjetivar poemas prontos), trouxe apenas uma repetição do que todos conhecemos: é melhor encontrar uma imagem precisa ou metáfora para o por do sol do que fazer um verso limitado ao "lindo por do sol", por exemplo. " Susan Sontag lançou uma coletânea de ensaios com o título que reproduzi: "Contra a Interpretação". O que podemos é mostrar UMA (numeral) possibilidade de leitura; haverá outras". Por mais que goste de Susan Sontag em vários dos seus ensaios e críticas e esteja cem por cento de acordo quando V. se recorda dela para enfatizar que podemos apenas fazer "uma" leitura e não "a" leitura, ainda assim preciso resmungar um pouco mais e acrescentar que entre as várias leituras, existem as interessantes e as aborrecidas, as leituras que abrem caminhos e as que fecham, leituras mais próximas a uma vertente interpretativa e coerentes com uma visão de mundo e outras que são díspares ou imprecisas... Se fossemos privilegiar toda leitura como sendo única e essencialmente diferente de todas as outras, sem chance de consenso, não haveria comunicação possível nem conversa porque se inauguraria uma conversa de surdos. Gosto sempre das suas leituras e interpretações dos filmes e da conexão que você faz com a teoria psicanalítica. Existem poucos que, como você, conseguem aprofundar questões sobre as mais diferentes expressões da arte, e abrir questionamentos novos que interessam e enriquecem tanto aos psicanalistas quanto aos que amam a arte. Você dá acesso para que possamos encontrar a perspectiva única que você nos aponta só que, então, torna possível que partilhemos com você esta visão... A interpretação e a leitura se tornam, depois disto, algo dividido entre os que conseguem alcançar seu ponto de vista. |
Voltar ao topo [Aeternus:5254] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-08) - Nem falsa modéstia do self nem modéstia do falso self
Desculpe, Marcos, desculpe Márcia, desculpem todos os demais que lêem o que eu escrevo de modo prolixo (ou quem sabe - pro...lixo) (hehehe) Não foi um ataque de falsa moséstia para provocar declarações de amor e carinho (mas já que vieram, são sempre benvindas, muto grato). Eu queria dizer que a Jansy lê e comenta. Não só as minhas intervenções. Quase todas. Ela alimenta o diálogo, a polêmica saudável, não deixa a peteca cair facilmente. Eu sei que lêem, pois frequentemente comentam. Mas ler e (quase) SEMPRE comentar... acho que a Jansy neste aspecto excede muitos de nós em gentileza e consideração por nossos destemperos verborrágicos (meus, a maioria de vocês é mais comedido e sintético e objetivo). Mas foi ótimo ser reasseguradíssimo ao ouvir (ler) que vocês me lêem mesmo quando me excedo. Muchas y muchas grácias. |
Voltar ao topo [Aeternus:5255] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-08) - a favor da interpretação
Agora vou ser a favor das interpretações: Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela mesma velha opinião formada sobre tudo (ou seria melhor dizer: sobretudo não ter aquela mesma velha opinião formada sobre nada). Eu não quis nem poderia maldizer Lacan em cantigas de desdém. Imagine! A cultura do cara era enciclopédica, ele é brilhante, inteligentésimo, provocativo, o escambau. Não é o meu pensador favorito em psicanálise: é, ao mesmo tempo, cabotino, persuasivo, prestidigitador, um fazedor de jeux de mots - como a maioria dos franceses com "esprit" - é assim que se escreve ? Dele, só consegui estudar mesmo o "Hamlet por Lacan" (por interese no "Hamlet", eu confesso) que devo ter lido duas vezes quando Jansy me deu uma cópia há alguns anos e umas três vezes, mais recentemente. Oscilei da admiração à irritação, da curiosidade ao tédio, do espanto à constatação da mesmice, da humilhação (minha) à veneração (por certas colocações e passagens). Antes disso só havia lido atentamente (ou esforçadamente?) "Os 4 conceitos fundamentais", mas sempre o que gostei mais foi daquele lindo poema que ele usa como mote "Je suis ce malhereux comparable aux miroirs / qui peuvent réflechir mais ne peuvent pas voir..." (cito de cabeça, o meu exemplar está no consultório, mas vcs sabem que eu sei de cor, não vou repetir por aqui). Filtrei algumas de suas idéias talvez mais importantes e já li aproximações curiosas de lacanianos como Serge Cotet sobre Lacan e Kohut, tão diferentes em tudo. Não nego que Lacan me cansa a beleza com seus excessos de brilho e de palavrório, talvez meu modelo de pensar mais obsessivo não se case bem com a diáspora de idéias em metralhadora giratória que ele traz; talvez eu não tenha captado o "código" que (acho eu) cada autor exige de seu leitor "ideal"; talvez eu seja mesmo burro para questões mais filosófico-linguísticas. E não digo isso para vocês me escreverem reassegurando que não sou burrinho. Sei que não sou, mas acho que a inteligência (ou deveríamos dizer "inteligências") raramente é "global". Não sou muito esperto em matemática, não sou nem medíocre fazedor de versos, não tenho habilidades manuais (pintura, desenho, etc) (nem para tocar piano ou violão); mas tenho "ouvido" para música e para poesia e para prosa e para filmes (ouvido para filmes? vá lá, o "ouvido" no caso é metafórico). Adoro ensaios interpretativos de obras de arte, desde que não sejam arrogantes. Quanto mais ângulos diversos, melhor. Muitas vezes recolho tudo, faço uma colagem e preparo um texto (com as referências, é claro; nada de pirataria sem crédito) Gosto de uma troca de idéias esperta, como quando a Jansy corrige meus malentendidos do que ela disse ou quando a provoco pisando no calo dela chamado Lacan. Ela tb pisa no meu calo chamado Kohut e vamos assim, com "venenos" e "antídotos" antimonotonia.
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Voltar ao topo [Aeternus:5256] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-08) - RE:Nem falsa modéstia do self nem modéstia do falso self
 Estou sempre vivendo e aprendendo com vocês todos. Daí que leio e comento o que consigo e como posso porque busco um eixo que mantenha viva a discussão e produza algum tipo de enriquecimento aos que participarem da conversa, principalmente a partir do que eles próprios elaborarem. Gallego, quanto aos destemperos verborrágicos que fazem parte da poesia trovadoresca - do século XII ao XV na península Ibérica, no idioma galego-português e divididas em dois tipos: líricas (de amor e de amigo) e satíricas (de escárnio e mal-dizer) - aproveito para corrigir o título que dei às suas trovas. Pretendi escrever "Cantigas de Escárnio e Mal Dizer" e coloquei "desdém" no lugar do escárnio, talvez porque pressentisse que você não escreveria com tal escárnio, nem nada parecido aos nossos lusos antecessores! Trago dois exemplos obtidos da internet: Cantiga de Escárnio (Dom Afonso Sanches) Conheceis uma donzela por quem trovei e a que um dia chamei de Dona Beringela? nunca tamanha porfia vi nem mais disparatada. Agora que está casada chamam-lhe Dona Maria.
Algo me traz enjoado, assim o céu me defenda: um que está a bom recato (negra morte o surpreenda e o Demônio cedo o tome!) quis chamá-la pelo nome e chamou-lhe Dona Ousenda.
Pois que se tem por formosa quanto mais achar-se pode, pela Virgem gloriosa! um homem que cheira a bode e cedo morra na forca quando lhe cerrava a boca chamou-lhe Dona Gondrode.
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Cantiga de Mal Dizer (João Garcia de Guilhade) Ai dona fea! Foste-vos queixar Que vos nunca louv'en meu trobar Mais ora quero fazer un cantar En que vos loarei toda via; E vedes como vos quero loar: Dona fea, velha e sandia!
Ai dona fea! Se Deus mi pardon! E pois havedes tan gran coraçon Que vos eu loe en esta razon, Vos quero já loar toda via; E vedes qual será a loaçon: Dona fea, velha e sandia!
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Voltar ao topo [Aeternus:5257] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-09) - a nos amours
 Já chamei Jansy de 'Beethoven' das listas, de pilastra. Certas grandes equipes de futebol tem jogadores que atuam como referencial, uma espécie de fulcro. A húngara de 54, Hidgkuti; a nossa de 70, Gérson; a da Holanda de 74, Cruyff e a da Alemanha Beckenbauer. Jansy 'distribui jogo', e tem um fôlego impressionante. Adoro editar quando estou com ímpeto para tal -claro - mas também adoro ficar na tribuna assistindo. A entrada do Conde foi ótima pela instigação constante que ele faz, por sua natural postura de instigar e fazê-lo com erudição e brilho. Gallego denega um bojo ou um formato mais 'redondo' à nosso discurso ou aos nossos simples achaques verborrágicos, irônicos ou estapafúrdios, mas vejo uma necessidade em deixar uma obra. Deus me quis crítico e irônico, devasso e pervertido, então que permita também a heresia de exercer-me... Como em Paul Bowles, não sabemos quando vamos morrer, mas diferente do Port de "The Sheltering Sky" não vivo como se fosse imortal. Nesse sentido, já 'me eternizei' ( hehehe ! )em minhas veleidades por escrito. Afora meus dois romances e meio já prontos, que nunca consegui editar mas que me causaram enorme prazer - gostosa e irresponsavelmente obscenos, pervertidos e intelectualizados ( meu retrato, ora ! por que e sobre o que escrever se o narrador vai se esconder ?...) - já chegou à ordem do milhar essa troca de correspondência entre nós ! Fui pai muito tarde, embora tenha tido um filho teimoso chegando ao irascível, que me dá um trabalho do cão, e ao mesmo tempo maravilhoso. Se algum dia ele quiser me conhecer, afora nosso contato diário alternando espezinhares e carinhos ao longo de 12 anos...( a propos : nossas trocas constam desse acervo. Mantenho artigos de cada um de nós em disquetes ) Me ocorre agora o elo natural entre Gallego e meu irmão do meio, Marcelo. O gosto dos dois aproxima-se incrivelmente, da mesma forma que tem disparates risíveis. Ambos tem uma bagagem cinematográfica admirável, juntando os dois comigo acho que estamos para lá de 22000 filmes ( é isso mesmo, 22000 ! ). A semelhança entre ambos seria este 'descompromisso' com o elaborado-intelectualizado, mais preciso talvez uma 'não-busca-imediata' de significantes mais amplos num simples filme ou livro. O simples deleite. Gallego me lembra muito um tio que eu adorava. Muito culto, vivaz, geralmente não se interessava em 'ordenar' filosoficamente seu ser-no-mundo. Uma vez por ano, assim assim e sem mais nem menos, ele dizia coisas 'abrangentes'. Murmurava aquilo entre nós, de mansinho, como um Matemático que chegou a um corolário... |
Voltar ao topo [Aeternus:5258] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE:a favor da interpretação
 Gallego, estava com esperança que você me colocasse em cheque sobre Lacan e o Édipo, a partir do Hamlet. Precisava de um empurrão para ir adiante nos tres tempos do "to be or not to be", etc e chegar à "metáfora paterna" porque há uma mecanica da articulação lacaniana que me aflige toda vez ( são formulas precisas das quais nunca me recordo e tenho preguiça de deduzir e errar ainda por cima).
Você está certíssimo, pisa nos meus calos quando critica Lacan porque tenho uma admiração enorme por ele, sem nunca conseguir aderir ou dominar seus conceitos adequadamente. Ontem, ao passar os olhos sobre o material do Hamlet para copiar velhos sublinhados aqui, fiquei intrigada com uma proposta ali que, na leitura escorreita habitual, havia captado sempre de outra maneira. Trata-se da distinção entre fantasia consciente e inconsciente. Tive a impressão, ontem, de que ele atribuía às fases edípicas kleinianas ou às etapas da libido freudiana, com seus objetos determinados e reconhecidos ( "demanda") um nivel de fantasia consciente, reservando para o inconsciente aquelas cujas metas e objetos fossem reguladas pelo desejo e, no final, pelo falo/"a". Para Klein estas fantasias ( oral-sádicas, esquizo-paranóides, etc ) formariam o material constitutivo do inconsciente. Se, para Lacan, elas estiverem excluídas do que conceitua como o inconsciente, então pela primeira vez depois de vinte anos de leitura, terei apreendido mais uma característica do que, para ele, é o inconsciente que se articula como se fosse uma linguagem. Na fantasia kleiniana haveria apenas uma arquitetura imaginária ou conjuntos de objetos configurando as guerras do mundo interno, sem uma submissão ao verbal e tudo organizado pela demanda/frustração... Será mesmo???
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Voltar ao topo [Aeternus:5259] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-09) - RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4
 O próprio Freud isolou e mapeou o vírus da Interpretose: é a nossa velha conhecida Racionalização, um mecanismo de DEFESA CONTRA A EXPERIÊNCIA. Também conhecido como uma versão sofisticada do pré-concepto. Por isso os cursos sérios não se bastam na teoria, exigem a vivência analítica...??? Mas se for pra fazer da análise essa vacinação desafetuante (neologizei brabo, agora, não?), que graça terá a vida? Sem pelo menos um pouco de piração, nada rola. Viver ainda é pirar... Pelo menos enquanto nosso ar cultural continuar baldo de oxigênio. O regador desse jardim ainda é... pra te repetir... A VERTIGEM. ABRAÇÃO! |
Voltar ao topo [Aeternus:5260] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-09) - RE:RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 6: Jardinagens e divagações e a metalinguagem do medo existencial
 Quando penso na Tessa, o que me vem à cabeça é um take de uma fração de segundos, não deve ter 24 fotogramas, de um sorriso da Rachel Weisz que me fez pensar: "puxa, eu NUNCA a tinha visto assim TÃO fulgurante". E olha que já vi a moça em muitos filmes... Foi numa das cenas em que o personagem de Fiennes, já ciente de que ela NÃO o traíra, tem flashes de memória dos momentos mais íntimos, quando se impõe, se simboliza e se consolida uma CERTEZA (ou quase que uma FÉ, porque se alicerçava por baixo da obscuridade e da suspeição inspirada pelas aparências dos fatos - e se a gente quiser lacanizar: por baixo da linguagem simbólica) de que ela merecia sua confiança mesmo na omissão, na mentira ou na conveniência da posição de esposa de diplomata, de que aquilo que ela sabia ou deixava de saber fora suplantado por um outro nível de verdade, tanto na intimidade e na cumplicidade com ele, como na integridade e ENGAJAMENTO dela com um outro tipo de Amor... aqueeeele amor tão desacreditado hoje em dia. A cena não mostrou um sorriso qualquer, foi de um transbordamento esplendoroso de vitalidade, o atingir de uma experiência do Ser para além das palavras, ditas ou omitidas... (e a Tessa que o espectador conhece é apenas aquela de que o Justin vai se lembrando + a que Justin vai descobrindo - como a Antonia de Laura Antonelli descobre depois o Mastroianni que tinha). Alguns takes rápidos assim podem fazer grandes diferenças nos filmes... Eu, por exemplo, fico imaginando se tivessem tirado, de Titanic, um plano de pouquíssimos segundos, que é quando Di Caprio, lá na proa do navio, toca docemente a mão de Winslet em close. Não precisava tirar a cena inteira, bastava suprimir o close das mãos... Eu aposto que muitos dólares A MENOS teriam entrado no caixa da produção se não fossem aqueles míseros fotogramas. Se a gente, na sala de projeção, olha pro lado, pisca ou toma um gole de coca-cola bem numa hora dessas, o filme inteiro pode ficar com outra cara na cabeça da gente. Quem fez o grande estouro de Titanic foram as ptchulas românticas... e aquela PEGADA do DiCaprio FEZ a diferença. Em O Jardineiro Fiel, a cara de apaixonada da Rachel Weisz naqueles segundos também pode fazer a diferença. É uma cara de entrega, sem medos, sem medo do Fiennes, sem medo dos interesses e métodos escusos da indústria farmacêutica, sem medo... E não foi algo que ela adquiriu depois da morte de seu feto, mas que já estava presente desde o início, combustível também da passionalidade e obstinação com que abraçava a causa que defendia. Se havia alguma agressividade em si mema de que Tessa talvez tivesse medo? Eu diria que era a possível agressividade despertada pelo medo existencial de Justin, ele sim, de fato, vivendo, de início, uma vida inautêntica... e ela sabia que as ponderações DELE iriam tentar tolher a força quase telúrica das convicções DELA... E não a vejo alheia a QUEM estava dentro do homem que a tocava. Inclusive, ela, conscientemente ou não, acabou lhe deixando um legado que era, ao mesmo tempo, uma opção: se o amor dele fosse igual ao dela, se ele fosse capaz de AMAR a humanidade na mesma medida em que a AMAVA (e uma coisa só seria possível se confundida com a outra, tal como no modo com que ELA amou as africanas e seus filhos tanto quanto amou o próprio filho que não nasceu), então ele adotaria sua causa, não só no nível da concordância ideológica, não só nas prudentes mas ineficazes boas intenções diplomáticas, e passaria, para além da razão, a investigar e lutar com a mesma paixão com que inicialmente ele apenas quis pôr à prova o amor dela por ele. E assim se deu: sua investigação transformou a perda num legado, e deixou que o amor individual incendiasse-lhe... o AMOR. Pra pensar heideggerianamente, o contato que ela teve com a morte (através do filho natimorto) não foi simplesmente a consciência da finitude de si mesma fazendo despontar o valor da vida, mas a morte de um ser amado (do filho em gestação) tendo o poder de, digamos, desnarcisizar a consciência do amor, mesmo que deflagrada pelo próprio narcisismo. Vejo aí uma emancipação para além do narcisismo e o acontecimento de uma outra dimensão da consciência do amor. Essa vivência ela não podia argumentar com Justin, seria inútil arrazoar com ele: ou ele passava por um impacto transformador ou então, o nada. Se ela se entregou ao risco de morte por uma força narcísica, não o fez por um colapso dos significados como num mero suicídio, mas sim na tentativa de deixar um legado de novos sentidos. No mínimo, conscientemente ou não, deixou o engajamento agora existencialmente experimentado por Justin.... Sem medo. Mas ainda vou ver mais uma vez esse filme, há muito a ser descoberto ali, são dois prazeres diferentes: na primeira vez a gente monta o quebra-cabeças, mas, na segunda, já sabendo das conexões, vai curtindo as entrelinhas, as reações e os sentimentos dos personagens na expressão dos atores. É a reconstrução dos fatos que vai reconstruindo o amor, mas noutra dimensão. Justin se TRANSFORMA, e eis a questão importante (e bela) do filme: o que o transforma? Abraço forte D. (Detalhezinho paralelo: aaaaah, a Tessa lembra uma "minha" namorada. Pois, procêis terem uma idéia, conto que o primeiro marido dela ateou fogo à cama do casal e foi parar no manicômio... é mole? E eu entendo ele perfeitamente... Não que ela lhe tenha feito esse mal, ele é que não teve caminhãozinho pra areia dela. Ela é uma mulher inflamável, não enquanto temperamento explosivo nem impulsivo, mas por fazer entrar em combustão aqueles que a tocam, aqueles que a amam... Coitado do moço...) |
Voltar ao topo [Aeternus:5261] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE:RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4
Conde, sabe que eu não havia conectado o cone culminando em flor do aspersor guardado pelo mendigo de Ruth Rendell, ao regador do jardineiro? Também não sei se você fez a conexão ( que ganha um sentido diferente, caso tenha feito, como um flash daquele de que você irá falar na próxima mensagem, que já li...). |
Voltar ao topo [Aeternus:5262] Mensagem do Grupo48 -Otelo(2005-11-09) - RE:RE:RE:RE: O jardineiro fiel e Heidegger 4
Quequiéisso? Como Jansy já sabe do que alguém irá falar na próxima mensagem, que já leu? Vidência? Clarividênci^? Contactos imediatos de terceiro grau? Extra-listas? Hmmmmmmmm... |
Voltar ao topo [Aeternus:5263] Mensagem do Grupo48 -Prof. Orieth Bay(2005-11-09) - RE: bola de cristal 5
Sim, Otelo, é possível. Em meu caso, uso minha bola de cristal. |
Voltar ao topo [Aeternus:5264] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE:O jardineiro fiel e Heidegger 8: Jardinagens e divagações e a metalinguagem do medo existencial
 Não adianta eu ficar sempre gemendo que escrevo correndinho, nos intervalos matinais da minha atividade clínica, no sobressalto da luz que pode se acender a qualquer instante e me obrigar a interromper. De tarde, quando fico por conta dos netos, é ainda mais complicado!
Vamos lá, então, na afobação injusta de sempre. Vou tentar aproximar o que Florião escreveu há pouco com a longa mensagem do Drácula, embora não tenha muito como faze-lo, principalmente no embalo da minha distorcedora lembrança.
Florião confessou-se como quem prefere o estilo informal do fluxo mollybloom sem ficar preso ao fio de uma narrativa fixa ou aos contornos de uma estrutura. É o mesmo que me acontece mas que, ao contrário dele, tento combater. Meu projeto seria o de conseguir um poema "enquanto tal" como uma jóia ( que pode até ser enterrada, desde que consiga compor algo assim que "exista") e, nos instantes mais modestos, me propor a formular uma frase-jóia, ou uma palavra... O sonho impossível seria a montagem de uma narrativa perfeitamente articulada ...
O que vem me dando cócegas continua sendo a coincidência que me fez pegar num pacote único livros de mero fluxo associativo florianico ( o "Austerlitz" do Sebald, a retomada do BECKETT, a lembrança do Se um viajante numa noite de inverno - do Italo Calvino, que mistura tudo e dá um fecho de brilhante - ou as ondículas do seu Palomar... Fora os dois livros de Vila-Matas em torno do escritor inexistente, explicando o "chosisme" de Robe-Grillet e o Nouveau-Roman e, culminando, uma obra de Kertész...) . Em todos aparece a importancia de afirmarmos a escrita, a vida, o instante luminoso de Tessa, a arte e algum "testemunho"...
Que salada. E acho que o paciente das onze vai faltar... O das nove trouxe um sonho no qual se via como se num espelho e, achando-se belo, saía correndo da imagem.Dali falou sobre um sonho que tivera na adolescência, de que iria morrer no mes seguinte tendo que carregar seu temor à morte anunciada até o final do mes. Lembrou, então, que apesar disto não sofrera tanto quanto aos dez anos de idade, quando sentiu algo ainda pior que o medo da morte: era sentir-se vazio completamente, no tédio de quem espera a morte que já estava vivendo como um nada avassalador. Narcisismo salva.
Acho que era este o gancho. Narcisismo. Gostei enormemente do que o Conde elaborou sobre o amor e sobre algo "além". Se saísse do sobressalto de escrever num intervalo que mágicamente se estendeu ... Tentarei.
Escreveu o Conde:..." fora suplantado por um outro nível de verdade, tanto na intimidade e na cumplicidade com ele, como na integridade e ENGAJAMENTO dela com um outro tipo de Amor... aqueeeele amor tão desacreditado hoje em dia. A cena não mostrou um sorriso qualquer, foi de um transbordamento esplendoroso de vitalidade, o atingir de uma experiência do Ser para além das palavras, ditas ou omitidas... Inclusive, ela, conscientemente ou não, acabou lhe deixando um legado que era, ao mesmo tempo, uma opção: se o amor dele fosse igual ao dela, se ele fosse capaz de AMAR a humanidade na mesma medida em que a AMAVA (e uma coisa só seria possível se confundida com a outra, tal como no modo com que ELA amou as africanas e seus filhos tanto quanto amou o próprio filho que não nasceu), então ele adotaria sua causa, não só no nível da concordância ideológica, não só nas prudentes mas ineficazes boas intenções diplomáticas, e passaria, para além da razão, a investigar e lutar com a mesma paixão com que inicialmente ele apenas quis pôr à prova o amor dela por ele. E assim se deu: sua investigação transformou a perda num legado, e deixou que o amor individual incendiasse-lhe... o AMOR (...).Pra pensar heideggerianamente, o contato que ela teve com a morte (através do filho natimorto) não foi simplesmente a consciência da finitude de si mesma fazendo despontar o valor da vida, mas a morte de um ser amado (do filho em gestação) tendo o poder de, digamos, desnarcisizar a consciência do amor, mesmo que deflagrada pelo próprio narcisismo. Vejo aí uma emancipação para além do narcisismo e o acontecimento de uma outra dimensão da consciência do amor. Essa vivência ela não podia argumentar com Justin, seria inútil arrazoar com ele: ou ele passava por um impacto transformador ou então, o nada..." (grifo meu)
É por onde Lacan me apaixona, por exemplo, no seminário 3 sobre A Transferência, no qual desenvolve o Simpósio de Platão, quando ele descreve - em contraste ao amor narcísico ( depois de garantir que todo amor é narcísico, é correspondido, é no espelho...) - o amor simbólico, no qual se faz a passagem do Eromenos a Erastes (quando se passa da demanda de ser amado para o movimento de amar "desnarcizado"). Talvez o amor como um sintoma de estar vivo naquele molde ou nível que o Conde aproximou do Heidegger e o Dasein? ( é uma pergunta real, não retórica, seja pra ele ou pra Marcia ).
Gastei minha energia na pressa. Então encerro com um aparte do Animal Planet. Humberto me contou que os caracóis ( que são hermafroditas, bissexuados ) na riqueza das suas transas múltiplas ( acho que ele situou suas trocas na região do pescoço, ou seja fora da casca, mas me esqueci...) podem produzir uma excrescência em forma de seta que, no auge da excitação, eles lançam pra fora como uma ponta de Cupido.
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Voltar ao topo [Aeternus:5265] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-09) - RE:RE:a favor da interpretação (contra lacanices)
Pois é, Jansy: vc aponta uma hipótese de que para Lacan as fantasias inconscientes de Klein poderiam ser conscientes. É isso que me irrita nele, esse latifundiário do inconsciente: só o inconsciente dele é que serve, o inconsciente dele é mais inconsciente do que o dos outros teóricos, ele sabe mais do incosnciente do que os demais psicanalistas teóricos, e acaba que o inconsciente dele me parece (segundo a hipótese que vc traz) mais restritivo e menos caldeirão das bruxas de Macbeth, como os inconscientes freudianos com seu "Isso" quase que inonimado, kleinianos com suas entranhas mentais sádicas, esquizo-paranóides, etc etc; bionianos com seus objetos bizarros, kohutianos com sua fúria narcísica indomável, etc etc. Enfim, não é à toa que a paranóia era um de seus temas favoritos. Os analsitas teóricos sempre desenvolveram teorias que se referiam a suas estruturas mais patológicas. A grandiosidade de Lacan não cabia nele mesmo nem o espelho de seus olhos sobre sua auto-imagem. Como Freud já dizia, ficamos fascinados com o narcisismo auto-suficiente do bebê. pesoas narcísicas são, ao mesmo tempo, objeto de despeito e admirtação. Como é que conseguem ser tão auto-suficientes? Ponto prá elas. (Até certo ponto... a hybris vem a cavalo...) Remédios para calo na farmácia da esquina... ou uma boa resposta desfaorada também pode aliviar a pisada de elefante (hehehehe)
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Voltar ao topo [Aeternus:5266] Mensagem do Grupo48 -Desdemona(2005-11-09) - Chosisme
 Minha bola de cristal é receber mensagens no outlook e ler as que chegaram de uma vez só, indo responder depois no site...
Tenho seis minutos e então vai dar pra copiar um parágrafo do "Bartleby e companhia" do Enrique Vila-Matas:
María Lima Mendes passava horas no Flore ou no Deux Magots (...). Muitas vezes conseguia passar momentos agradáveis junto dela. E mais de uma vez a ouvi comentar que, quando chegou a Paris, instalar-se naquele bairro havia significado para ela, em um primeiro momento, começar a fazer parte de um clã, integrar-se a um brasão, algo assim como abraçar uma ordem secreta e aceitar a delegação de uma continuidade, ficar marcada por essa heráldica de alcool, de ausência e de silêncio que eram os máximos distintivos do bairro literário e de seus dois ou três cafés...
Apesar da ausência e do silêncio, no início Paris foi para ela apenas uma grande festa.Integrar-se no brasão e abraçar a ordem secreta tornou-se dramático no momento em que apareceu na vida de María o Mal que a impediria de ser literata. Na primeira etapa, o Mal se chamou concretamente chosisme (...) A culpa não fora da bossa-nova e sim do chosisme. Quando chegou ao bairro no início dos anos 70, era moda nos romances prescindir do argumento. O que se usava era o chosisme, isto é, descrever com morosidade as coisas: amesa, a cadeira, o canivete, o tinteiro...
Maria conseguiu começar um romance e...
Até aqui tudo bem para María, mas, a partir da água mineral o romance encalhou dramaticamente, pois ela começou de repente a pôr em prática o chosisme, a render culto à moda. Dedicou nada menos que trinta folhas à descrição minuciosa do rótulo da garrafa de água mineral. Quando concluiu a exaustiva descrição do rótulo e voltou às ondas que quebravam suaves sobre a areia, o romance estava tão travado quanto destroçado (...) Mas deu também para conceentrar-se no minucioso estudo dos romances do Nouveau Roman, em que encontrava precisamente a máxima apoteose do chosisme, muito especialmentem Robe-Grillet, que foi o que María mais leu e analisou...
O golpe de misericórida lhe foi dado pela revista Tel Quel. Viu nos textos dessa revista sua salvação (...) Por mais que se armasse de paciência na hora de analisar a construção dos escritos de Sollers, Barthes, Kristeva, Pleynet e companhia, não conseguia entender inteiramente bem o que esses textos propunham...
Por onde começar? - pergunto´-me um dia María, sentada no terraço literário do Flore... O golpe final lhe foi dado por um texto de Barthes, prcisamente Par où commencer?.
Ora, acabou-se o tempo de copiar pra vocês terem um gostinho do humor crítico de Vila-Matas...
Inté. |
Voltar ao topo [Aeternus:5267] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE:a favor da interpretação (contra lacanices)
ai, estou como o coelho da Alice, vou me atrasar para o que ainda está pra acontecer... mas... Gallego! Elefante?????? Prefiro coelho, mesmo. |
Voltar ao topo [Aeternus:5268] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-09) - o ângulo Aschenbach em cada um de nós
 Jansy : 'Meu projeto seria o de conseguir um poema "enquanto tal" como uma jóia ( que pode até ser enterrada, desde que consiga compor algo assim que "exista") e, nos instantes mais modestos, me propor a formular uma frase-jóia, ou uma palavra... O sonho impossível seria a montagem de uma narrativa perfeitamente articulada'. Este sonho fulgura a nível íntimo, bem narcísico, já que 'outdoors' Jansy já está eternizada, ao menos por mim...
Quanto à excrescência falomimética dos caracóis do estudioso Humberto, lembra os geniais deslocamentos em Nabokov, trocando um delicado 'coloquei meu rosto' por 'enfiei meu focinho' e estrada afora... |
Voltar ao topo [Aeternus:5270] Mensagem do Grupo48 -Iago(?)(2005-11-09) - RE: Villa-Matás
Acho que ainda no ano passado (2004) mencionei que estava lendo um livro dele, acho que o nome era "Viagem Vertical" que me deu muita satisfação enquanto lia, embora algo de meio frustrante me tenha ficado na lembrança quanto ao desfecho (acho que nem fechava nada nem deixava em aberto). Foi daqueles livros que "escolhem" a gente na livraria e a gente sai da compra já lendo. Gostei o suficiente para comprar àvidamente o seguinte (Bartleby & Cia.) que saiu logo que eu terminei de ler o anterior. Mas não gostei tanto, achei meio chatinho, muito intelectualizado, apesar dos bons momentos espalhados ao longo. Parecia uma daquelas antologias tipo "O Melhor do mau Humor". "Melhores frase do cinema". Desconstruído como romance, qual é o DNA dele afinal? Prefiro o Bartlby original do Melville que é genial. Cada vez mais prefiro os chamados clásicos que dizem e repetem a que vieram e porque ficaram. Sem intelectualices pós-pós-modernistas, são o que são. |
Voltar ao topo [Aeternus:5274] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE: Chosisme
 Iagogallego, ou assim suponho, preferiu "A viagem vertical" ( que não chegou a me chamar da prateleira, embora estivesse colocado bem à vista) ao Bartleby via Vila-Matas. E depois deste, tem outro que continua a mesma história intitulado O Mal de Montano, um corcunda charmoso que, pelo jeito, consegue as mais lindas mulheres. Sair escrevendo parece um filão bem explorado para os que sofrem do mal das leituras acumuladas ( a solução para o mundo de citações e frases soltas que achei mais interessante foi a do Umberto Eco em O Pendulo de Foucault, quando ele inventou uma firma de detetives especializada em investigar frases perdidas, operando como, hoje, são os serviços tipo Google ). Florião observou que "quanto à excrescência falomimética dos caracóis do estudioso Humberto, lembra os geniais deslocamentos em Nabokov..." e fiquei aflitinha como o garoto que alucinou que o dedo dele ia cair pois estava pendurado por uma pele, apenas ( Terá sido o Homem dos Lobos?). É que a excrescência dos caracóis não apenas era uma crescência, mas "ex", uma vez que era ex-pelida como um dardo. Teve até um campones de sandália havaiana que foi atingido por uma seta daquelas e não achou nada bom e, suponho, considerá-la "falomimética" poderia ser angustiante, um pouco...???? Mas, retomei o Chosisme por causa do comecinho da descrição da María, que sentia-se encantada com o "brasão" dos intelectuais do Quartier Latin e a sensação dissolvida de continuidade que esta pertencença lhe dava. Para ligar a outro tema, que retoma outro, o do narcisismo, que encontrei numa tese em andamento e publicada na internet. A idéia me interessou porque estendeu algo que Gallego e eu começamos a trabalhar no artigo sobre "Barbárie e Identidade" de um modo bastante abrangente: DA METÁFORA PATERNA À METONÍMIA DAS TRIBOS: UM ESTUDO PSICANALÍTICO SOBRE AS TRIBOS URBANAS E AS NOVAS CONFIGURAÇÕES DO INDIVIDUALISMO, por Lucia G. Coutinho Conclusão: Uma das maneiras de entendermos o porquê da proliferação de tribos na cidade contemporânea é através de uma reflexão sobre o lugar e a função da família nuclear no mundo atual. Vários autores (Donzelot, 1986; Mafesoli, 1987; Harris, 1998; etc.) têm mencionado as transformações que esta instituição tem sofrido nas últimas décadas, tanto no que diz respeito a sua própria organização interna - com as fragmentações e novas formas de adesão devidas às transformações na esfera do casamento, ou com as redefinições de papéis materno e paterno - quanto em relação à influência que a mesma exerce na constituição da subjetividade. A hipótese que levantamos é a de que o grupo familiar está perdendo o seu antigo lugar de referência principal para os sujeitos, em favor do aparecimento de outros grupos (as tribos, por exemplo) e outros meios (principalmente a mídia) no cenário urbano da sociedade de consumo contemporânea. Esta hipótese está presente no próprio texto de Mafesoli, quando a caracteriza por retomar a antiga estrutura antropológica que é a "família ampliada", na qual, apesar da ausência de laços consanguínios, "a negociação da paixão e do conflito se faz bem de perto"(Mafesoli, 1987: 98). Enfim , retomando o ponto de vista da psicanálise, observamos ainda que, enquanto em Mafesoli (1987) podemos encontrar uma menção a um certo declínio do lugar da família e da metáfora do terceiro na constituição das subjetividades em favor da metáfora do "um" que predomina na lógica tribal, em uma leitura psicanalítica, podemos afirmar que no funcionamento tribal predominam as identificações narcísicas unificadoras (modelo do ego ideal), em detrimento das identificações propriamente edípicas nas quais o distanciamento e a tensão entre dois pólos (o ego e o ideal do ego) estão presentes como condições necessárias. Portanto, à luz da psicanálise, podemos interpretar este movimento de "transferência" da experiência de pertencimento a uma família para o engajamento em uma tribo como, mais do que uma mudança espacial, uma mudança estrutural na constituição subjetiva contemporânea. A partir disso, nos perguntamos se, já que o édipo , ou o pai, ou a lei (Crespo, 1998), não ocupam mais a função central na constituição subjetiva que ocupavam na sociedade burguesa do século XIX, que outro dispositivo poderia nos ajudar a pensar esta outra organização estrutural?. Considerando o percurso que realizamos aqui, o modelo do narcisismo, enquanto momento de constituição do ego e do imaginário, nos parece ganhar um valor renovado para a clínica do sujeito contemporâneo. Esta hipótese talvez possa ser confirmada através de observações clínicas a respeito das modalidades psicopatológicas predominantes na contemporaneidade, tais como a "síndrome do pânico", os "casos-limite", a depressão, as toxicomanias, etc. Uma análise mais minuciosa a respeito destes sintomas exigiria que tomássemos uma outra direção neste nosso caminho que partiu de um macro-contexto para chegar em um micro-universo, ficando reservada para um outro momento de continuação desta pesquisa. O texto completo pode ser encontrado em: www.rubedo.psc.br | Artigos | © Luciana Gageiro Coutinho Gallego comentou: O tema da família ampliada aparecia como "novas famílias" em "Uma Casa no fim do mundo" do mesmo autor de "As Horas", há uns 10 ou 12 anos atrás ( Michael Cunningham, NI?). As categorias de ego ideal e ideal de ego me parecem muito úteis. A primeira reaparece no self grandioso de Kohut e a segunda na imago parental idealizada com libido narcísica. O que eu questiono é a idéia da moça de que houve uma mudança do édipo para o narciso. Acho que apenas não atentávamos tanto para as estruturações narcísicas, eram repudiadas como inanalisáveis e equacionadas às "neuroses narcísicas", ou seja, psicoses. Freud que não aconselhava o trabalho analítico como sendo o mais indicado para os psicóticos, confiando num futuro tratamento pelos "humores" (hormônios - isso décadas antes de se falar em neuro-hormônios e se descobrir anti-psicóticos realmente úteis para os surtos esquizofrêncos). O que mudou, se mudança houve, foi no sentido da cultura como um todo que teria exacerbado a questão narcísica em detrimento da lei edípica.(nisso eu concordo plenamente com o texto) É muito interessante ela falar de tensão entre os pólos do ego ideal e ideal do ego, pois esta é uma linguagem titpicamente kohutiana na representação do self como bi-polar, com um arco de tensão entre o pólo das aspirações/ambições (o self grandioso que equivale ao ego ideal e demanda espelhamento) e o pólo das idealizações (a imago parental idealizada que corresponde ao ideal do ego com demanda de fusão com o objeto idealizado/reassegurador). Entre estes dois pólos estaria o arco de tensões dado pelo "genético/congênito" das séries complementares freudiana (ou seja, os talentos inatos e habilidades desenvolvidas) com a fantasia alter-ego de identificação dos outros consigo, imaginado os outros à sua imagem e semelhança.
Jansy (NI, ou seja, autora da nota intrometida): Gostei do esboço do trabalho porque, sem usar diretamente Lacan ( ela citava Calligaris, não sei se Jurandyr Freire e não incluiu nada de Lacan na bibliografia), ela desenvolve uma teoria que representa uma leitura mais diluida e aculturada de Lacan ( falando das formas de subjetivação, por exemplo ). Não creio que, ao fim e ao cabo, fosse concordar com a proposta da Luciana Coutinho, mas quando tiver tempo retornarei ao texto mais extenso que ela ofereceu online para ver se encontro algo novo a discutir. |
Voltar ao topo [Aeternus:5275] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-09) - RE:Contra a Interpretação & o consultor de Herzog
 Uma vez eu estava no Instituto Goethe assistindo a uma palestra/debate com ninguém menos que Werner Herzog em pessoa. Aí uma criatura na platéia levanta a mão pedindo o microfone pra fazer uma pergunta: "Quem é o psicanalista que dá consultoria para você criar seus filmes?" É claro que ele explicou que NÃO HÁ consultor nenhum. Aí a criatura não se conformou e insistiu: "então você lê muito sobre psicanálise". E é claro que ele disse que NÃO LÊ nada de psicanálise. E a pentelha CONTINUOU: "mas não é possível, porque há muito de psicanálise em seus filmes..." Nem consegui mais prestar atenção ao que respondeu o Herzog, e ele o fez com uma paciência infinda!!!!!!! |
Voltar ao topo [Aeternus:5278] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-09) - Cidade Baixa
O filme está sendo incensado e tem lá suas qualidades. MAS... Se chega a interessar bastante no início pela desfaçatez com que exibe personagens dos baixos segmentos sócio-culturais sem retoques em sua linguagem, postura e atitudes (incluindo uma relação animal com a sexualidade - e não uso "animal" em sentido pejorativo, mas descritivo, pois essa realidade crua é exibida de forma rara, sendo um dos maiores méritos do filme), a compulsão à repetição se alonga no impasse de uma situação triangular que é explorada de forma clínica-distanciada, sem diagnósticos. O que poderia ser uma vantagem (o distanciamento sem apriorismos de clichês de roteiros) acaba parecendo uma opção de ficar sobre o muro; ainda que seja curiosa a identificação da narrativa "distante" da explicitação de moitivações com a inconsciência dos personagens sobre suas motivações. Mas do jeito que está, é como se a moça simplesmente tivesse tesão nos dois amigos e, sendo ela bem gatinha para uma prostituta de baixo escalão, é natural que eles fiquem, os dois, por que não? gamados por ela. Quando o filme parece (parece apenas) que vai (talvez) insinuar algo mais (latente e inconsciente) entre os dois rapazes ambos fixados na mesma prostituta, parece recuar com ar blasé superior e fica por isso mesmo. Mas isso não é uma atitude geral do roteiro, pois um dos rapazes fica com um perfil mais propenso à transgresão de arrumar dinehiro por meios mais violentos e ilícitos do que o outro. Se define alguma coisa sobre os personagens masculinos e deixa a moça como em eterna dúvida de quem quer tudo sem ter o trabalho de escolher e abrir mão de algo, fica artificial a pseudo des-dramaticidade do interesse de ambos pela mesma mulher de forma obsessiva e como fixação. O "naturalismo" tem dessas aramadilhas. Lembra peças de Plínio Marcos sem os lances (melo)dramáticos. Como nas antigas peças, o que tem que sustentar a passagem do roteiro para o palco ou para a tela é o desempenho dos atores: vi "Dois Perdidos numa Noite Suja" com desempenhos memoráveis de Nelson Xavier e Fauzi Arap; no cinema, "Navalha na Carne" se sustentava especialmente em Glauce Rocha, mais do que admirável. Neste filme, sem Wagner Moura e Lázaro Ramos, o filme não seria o mesmo. Alice Braga também se sai bem num papel em que a personagem tem que se manter indecisa em estilo esfinge low profile. O filme tem sido louvado por evitar psicologismos. Na verdade tal ideologia de louvação anti-psicologismos (ou anti-psicologia?) deve fazer parte da mesma idéia de que somos subprodutos ou epifenômenos de nossos neuro-hormônios, ou seja, abaixo a "psicologia", viva as "neurociências". Mas depois de "Jules e Jim" de Truffaut e "A Intrusa" (o conto de Borges, nunca a bosta de filme que fizeram com o conto), os triângulos amorosos ficcionais precisam dizer a que vieram. O naturalismo-realismo com lente de entomologista distante tem seus méritos que são equivalentes a suas limitações. "Cidade Baixa", no fundo, é vista de longe, da Cidade Alta, deixando-nos tão perto e tão longe dos personagens, tal como eles mesmo se colocam frente a suas auto(in)consciências. |
Voltar ao topo [Aeternus:5282] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-09) - Formalismo e forma
 Achei curioso e divertido o fato de Jansy falar que ando muito formal. Isso porque tinha um professor de Português que vivia pegando no meu pé para escrever textos menos formais. Não havia percebido isso aqui, mas valeu a dica. Creio que em parte é um pouco questão de estilo, acho que é até uma fantasia e desejo de escrever um texto-jóia como foi dito, que pudesse reluzir sem máculas as faces das palavras e assim traduzir o lapidado sentido da idéia elaborada. Como também não tenho tempo para maiores aprofundamentos, o texto nunca sai do jeito que quero e por isso muitas vezes deixo de me manifestar nas listas. Vou seguir a sugestão de Jansy e tentar bruxulear mais sem me incomodar tanto com o resultado formal e, quando for possível, encaminhar mensagens de melhor acabamento. Quanto a Dogville, o que me chamou atenção foi a forma de ter sido utilizada uma teatralização do cinema, que me causou impacto e um certo aborrecimento pela frustraçãode ver uma trama contraditoriamente lenta à espectativa minha espectativa de ação cinematográfica. O final do filme em nada me surpreendeu pois a narrativa já deixava antever o desfecho. Qual é o limite? Quanto à questão moral suscitada pelo filme, percebi mais como um jogo perverso do diretor no sentido de obter uma concordância incontestável de que somos todos iguais e capazes de tudo. De qualquer forma acho que é um ponto de partida para algumas indagações nesse sentido, ainda mais em tempos belicosos de guerras forjadas em pretextos inverídicos; de Paris em chamas; CPIs e Tals, como diz o Marcos. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5283] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-09) - RE:Formalismo e forma : honra ao mérito
Grã Marcia, o 'tals' - que devia ser instituído na Última Flor do Lácio, é uma criação da uma adólescenti pérnâmbukâna, em cujo blog eu comentava e que tornou-se minha amiga. |
Voltar ao topo [Aeternus:5284] Mensagem do Grupo48 -Marcia Adorno(2005-11-09) - Tals e etcs
 Marcos, Outro dia vi uma entrevista com uma professora que defendeu uma tese de mestrado analisando a interferência do intenetês na escrita formal de seus alunos e constatou que está havendo uma mistura já quase automática, fruto de uma economia de linguagem. O interessante é que tem alguns signos que são praticamente impossíveis de serem decifrados pelos não-iniciados em blogs e orkuts. Creio que estamos presenciando um período rápido de transformação da linguagem que procura se adaptar à velocidade das informações virtuais. Márcia adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5285] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE:Tals e etcs
 Marcia, não sei se minha opinião decorre do fato de que eu não desejaria que o internetês influenciasse muito a escrita formal ( ainda mais na passagem a uma linguagem de signos!), mas penso que as trocas nos vários blogs e chats tem uma soltura de pensamento e emoção que cria um estilo novo, sem apagar ou se sobrepor ao que existe na cultura fora do campo "digital". Não consigo imaginar contratos, clausulas, acordos que não recorram a uma sintaxe tradicional, no que estafunciona quase bem ao evitar distorções, multiplas interpretações divergentes ou duplos sentidos quando ligados às determinações legais ou projetos e leis. Deve haver, sabe-se lá, uma nova estética linguajeira que, no entanto, não comprometa de todo a linguagem. Porque não será um modismo o que advirá das conversas ágeis e gostosas pela internet, será algo com efeito de mudança duradoura, senão permanente... |
Voltar ao topo [Aeternus:5286] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-09) - RE:Tals e etcs 2
 É um jargão próprio deles. Confere esse lado prático e uma 'jovialidade' ao discurso. Mas ao mesmo tempo, também é a 'velocidade burra' do Nélson Rodrigues. 'Cá' é k, simplesmente, e dessa forma formam-se palavras com dois toques nas teclas, diálogos como 'kd vc' ? e por aí. Para o Bauman, essa febre de velocidade e de 'comunicação', com o boom dos celulares, é na verdade uma forma de esgotar com rapidez o pouco que se tem a dizer. Ele exemplifica isto falando de pessoas como as que ligam informando várias vezes onde estão - uma estação do metrô, por exemplo - "como se estivessem ansiando pela comunicação", e que ao chegarem em casa trancam-se no quarto e nada mais tem a dizer ao interlocutor. O mais espantoso, para mim, é a excessiva escatologia, os palavrões gratuitos e à granel, e o atoleiro dos 'e aí, cara ?', 'pois é, cara'. Lembra daquela discussão em torno da 'necessidade de seguir alguém' e da 'falta de sombra' em Baudrillard ? |
Voltar ao topo [Aeternus:5287] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-09) - RE:Tals e etcs 2
 Marcos Florião, depois de citar Nelson Rodrigues e a "velocidade burra", e de citar Bauman com a febre de velocidade e de comunicação, mencionou o risco de "esgotar rapidamente o pouco que se tem a dizer". E foi aí que perdi o rumo ( um pouco apenas) pois estou sempre achando que, tanto nós aqui, como o resto do mundo, deve estar para alcançar o ponto final da tagarelice que caracteriza nossa civilização voando nas asas do desejo. E, claro, achando e me enganando redondamente. Graças a Deus! Afinal, no meio de tanta falação devemos ter chance de ocorrer algum diálogo. Socrates, se entendi Lacan, imaginava o paraíso como um espaço de interminável interlocução ( ele não escrevia), o que fez sentido. Quando durmo espero continuar gastando as solas dos meus sapatinhos de dança oníricos. Mas tem horas que a escatologia da alma me deixa profundamente deprimida. Hoje consegui me conter quase todo tempo em que durou a novela que as crianças estão assistindo deslumbradas ( descobriram a novela da Globo) enquanto me debatia se devia permitir-lhes este horror que é "Almas Gemeas". Pelo menos será melhor do que M.Delly em "Escrava ou Rainha" ou "As Meninas Exemplares" da Condessa de Ségur, que eu lia sem ficar aleijada moralmente, como seria de se supor. Como isolar as crianças da sua (ahem) "cultura"? E ver de quebra anuncio da plantação de sandálias "Moranguinho" e a propaganda de absorventes íntimos explorando a graça de um gay reclamando do bofe, sei não! Mais do que quando assistimos filmes VHS ou DVD com as crianças, a novela tem uma atualidade que tranforma aquele momento em algo especial que está além da besteirada que se acompanha. Tipo aquele slogan religioso: " a família que vê tevê unida permanece unida" - mesmo depois de separada... E, afinal, enquanto eles vêem tevê a gente os vê e eles não estão treinando trocar sinais de fumaça digital pela internet.... Assustadoras as considerações de Danton sobre as novas futuras revoltas populares. Nem sei o que comentar. |
Voltar ao topo [Aeternus:5288] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-09) - RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin: "I can show you the world..."
 “É por onde Lacan me apaixona, por exemplo, no seminário 3 sobre A Transferência, no qual desenvolve o Simpósio de Platão, quando ele descreve - em contraste ao amor narcísico (depois de garantir que todo amor é narcísico, é correspondido, é no espelho...) - o amor simbólico, no qual se faz a passagem do Eromenos a Erastes (quando se passa da demanda de ser amado para o movimento de amar "desnarcizado"). Talvez o amor como um sintoma de estar vivo naquele molde ou nível que você aproximou do Heidegger e o Dasein?!? (é uma pergunta real, não retórica)”. JANSY
Sim, mas usei Heidegger só como ponto de partida, porque a explicação clássica do Dasein (que a Márcia resume didaticamente) não se encaixa assim tão precisamente naquilo que entendi do filme, pelo menos não tanto quanto a Márcia sugere. Porque eu, daqui do meu insuficiente conhecimento do Heidegger, "sinto" que ele vislumbra, aponta, apresenta, descreve, mas NÃO NOS CONDUZ por essa ponte ontogênica. E me parece que a personagem de Rachel Weisz CRUZA essa ponte, porque ela passa por um outro Outro, ou seja, ela chega a um Outro diferente desse "o Outro" lacaniano... (daí o altruísmo a que o Gallego e a Jansy se referem, impossível na perspectiva da universalidade da alteridade radical geralmente interposta no contato com "o diferente", que filtra até boas intenções reduzindo-as ao assistencialismo imediatista, paternalista e, subliminarmente e em última instância, ainda fascista.
Eu não discordo de um amigo quanto à luzinha vermelha que se acende quando a gente lembra que Heidegger escorregou pra dentro do nazismo. E quando penso nisso, e comparo com minhas pesquisas sobre a castração, fico imaginando se não teria sido porque ele não fez devidamente a distinção entre (seilá, tô chutando) aquele gregarismo egóico de que já conversamos e um outro tipo de consciência de coletividade - e é essa a ponte que falta, é a ponte que até pode ser feita de narcisismo, mas que conduz para além dele. É algo parecido com o que eu digo sobre a diferença entre a individualização e a individuação segundo Jung.
No fim, acho mais fácil mesmo é comparar com um aforismo filosófico meio universal, comum tanto ao racionalismo como ao taoísmo e quetais: conhece-te a ti mesmo... e encontrarás o próximo. Pra resumir, não acho que o altruísmo de Tessa seja o falseamento de seu narcisismo, mas que a forma singular como Tessa viveu seu narcisismo talvez lhe tenha aberto as portas do altruísmo.
Vai daí que acho imprescindível a gente salientar mesmo a distinção entre o "bom" e o "mau" narcisismo (ou entre o narcisismo-curto-circuito e o narcisismo anaclítico - se Freud me visse falar em "narcisismo anaclítico" mandava cassar meu diploma, mas acho que Lacan, não...).
Sabem o que vou assistir agora?
Aladdin, da Disney em DVD (ah, vou pôr o nome da love-song do filme como título desta mensagem porque tem a ver com um amor para além do narcisismo...)
Banoite! |
Voltar ao topo [Aeternus:5289] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin:
 Quando li " O Mito do Estado" de Ernst Cassirer, fiquei intrigada ao constatar que, como sói ocorrer quando se filosofa, as construções e idéias filosóficas voltadas à verdade e ao belo ( como as de Ruskin e Carlyle, entre outros ) abriram caminho para o nazismo alemão. Desde então passei a ser cautelosa com espírito romantico na busca ao que é belo, justo, verdadeiro, limpo e ordenado - quando advindo do entusiasmo amoroso e do pensamento "grandioso" voltado a um futuro. Freud elaborou sobre o mal-estar da civilização, mas não me ocorre alguma frase sua que sintetize a ligação inevitável entre "civilização" e "morte" ( de certos grupos, idéias, sensibilidades, valores). Não li suficientemente bem nem mesmo parte da obra de Heidegger: ele não partiu da experiência e doestudo profundo de Aquino ou Santo Agostinho? Talvez por isto, por trás do seu pensamento sempre ressurja a sombra ou a promessa de um "Outro do Outro", como o Conde retomou numa formulação curiosa porque esta construção lacaniana é mais extensa: "Não há Outro do Outro". A verdade não tem garantia ontológica e, mais do que o Ser, ela surge sobre o Nada na sua qualidade de ficção! Só que Lacan era, também, religioso. O rigor da sua elaboração sobre, por exemplo, a ex-Sistência colocava o onus da interpretação ( mais ainda, o da mudança de lugar no discurso que se constrói entre semblante e verdade) no encaminhamento do sujeito de um modo tal que a "transcendência" não podia ser foracluída. Quando o Conde descreve o que vê em Tessa ele está tratando da "transcendência" como ela brota em Lacan embora empregue vocábulos como "mais além" ou "altruismo". É por aí que estou entendendo os argumentos dele. E o social, o mundo humano, a civilização... onde está e como sustentar a partir das teorias e da filosofia? Ontem à noite ( é madrugada, agora e acordei com uma lufada forte de vento que sacudiu os sininhos orientais e com a advertencia sobre temporais e alagamentos no DF e cercanias...) percebi com clareza algo que terei dificuldade para transmitir, que tem a ver com a arrogancia de se construir uma utopia e tentar ir muito mais longe que os bíblicos Lírios nos Campos ou os despojamentos orientais. Vila-Matas alude ao projeto de um personagem maluco para alcançar "a fonte da escrita", o lugar de onde todos os livros brotariam. Daí que ele vai gradualmente se paralisando, impedido de escrever e até de viver. Borges ama e destrói o "Aleph". Todos estes são exemplos das tentativas de se olhar para o mundo como se estivéssemos fora do mundo ( transcendência não é isto, não é uma meta-visão metafísica!). É aí, neste olhar exterior, em que situo a arrogancia, a onipotência, a destrutividade. É como se uma borboleta no seu fantástico mimetismo, que "lhe desenha" nas asas os padrões de um olho ameaçador, olho com a força de um olhar, pudesse enxergar/perceber aquele olho que traz nas costas! Se eu esticar as idéias um pouco mais vou acabar caindo no determinismo de "está tudo escrito", inscrito, traçado, desenhado...Não quero ir tão longe. Por enquanto é apenas uma sensação do quanto é absurdo acreditar que, como borboleta, possamos entender estes "desígnios" que estabelecem um padrão de interação com...com... Temos que agir pro bem, com amor meio às cegas... é isso que me pareceu que ocorria com a Tessa. Por isso achei importante ela insistir no "um por um" em vez do "muitos". Porque ia contra aquela idéia das vacinas ou chacinas justificadas com "matar cem para salvar mil"... |
Voltar ao topo [Aeternus:5291] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-10) - RE:RE:Tals e etcs 3
 Ô Jansy, o Bauman falou aquilo do pessoal 'escravo do celular', o tipo que precisa de uma orelha extra. Sobre nós aqui, Bastiões do Saber a tagarelar e produzir espetaculares artigos para a salvação da humanidade, acho que - sim - estamos nos comunicando, e - sim - temos sombra ! |
Voltar ao topo [Aeternus:5292] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-10) - RE:O jardineiro fiel e Heidegger 10: milagres em conta-gotas
 Sobre esses milagres 'cirúrgicos', localizados, como os aventados em "Cuore Sacro" e "O Jardineiro Fiel", tendo a acreditar mais neles do que nos macromilagres. Talvez contaminado pelos rumos e retrospecto desfavorável dos 'governos' em geral, ou por defeitos especiais meus, meu sentimento ruma para o desdém e desconfiança diante de macroprogramas bondosos. Os mandatários franceses, diante do desvario e do vandalismo por um misto de diversão, tédio e ódio, falam em 'programas de emprego para os excluídos'. E me soa como mera conveniência de momento...
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Voltar ao topo [Aeternus:5297] Mensagem do Grupo48 -Enrique L.M(2005-11-10) - RE:Formalismo e forma
 Pois então, Marcia, escrever espontaneamente não é o mesmo que se espalhar e tals pelas letras resumidas ou sinalizadas de qualquer jeito. É, simplesmente, escrever de verdade sem a pressão da cobrança e expectativa do outro. "Bruxolear sem se incomodar tanto" é uma expressão bastante bonita para as hesitações que produzem luz e estão fixas ao fio do pavio... Florião e Gallego estão denunciando o filme sem formato que se constrói ao deus-nãodará da ideologia moderna. Quando há uns vinte anos tentei elaborar meu primeiro livro, um amigo sugeriu que eu arrumasse um gancho para aproximar suas tres partes ( ainda em esboço) citando um dos filmes dos irmãos Taviani ( que inicia com uma camponesa pedindo a uma escrevinhadora que preparasse uma carta para seu filho, residente na América, passa por um comovente caso de amor marcado pela lua cheia e um relato de estupro) que tinham um corvo com um sininho na pata servindo de elemento de união, pairando de um conto ao outro. Agora talvez tenham morrido os corvos dantanho e, para evitar o dilema, se eliminou a narrativa fragmentária também. Você escreveu: "creio que em parte é um pouco questão de estilo, acho que é até uma fantasia e desejo de escrever um texto-jóia como foi dito, que pudesse reluzir sem máculas as faces das palavras e assim traduzir o lapidado sentido da idéia elaborada. Como também não tenho tempo para maiores aprofundamentos, o texto nunca sai do jeito que quero e por isso muitas vezes deixo de me manifestar nas listas" e quase se candidatou a escritora do "Não" ( na acepção do escrivão Bartleby). Colecionando trechos sobre a Escrita do Não e o projeto da "jóia": "Escrever não é importante, mas não se pode fazer outra coisa... Entre a futilidade da pura criatividade artística e o terrorismo da negatividade, talvez haja lugar para algo diferente: a moral da forma, o prazer de um objeto bem-acabado... Escrever é uma atividade de alto risco e, nesse sentido, no estilo de Pasolini e Calvino, a obra escrita está baseada no nada, e que um texto, se pretende ser válido, deve abrir novos caminhos e tentar dizer aquilo que ainda não se disse...Quando se usa a linguagem para simplesmente obter um efeito, para não ir mais longe do que nos é permitido, incorre-se paradoxalmente em um ato imoral". Uma busca ética é decorrente da "luta por criar novas formas. O escritor que tenta ampliar as fronteiras do humano pode fracassar. Em compensação, o autor de produtos literários convencionais nunca fracassa, não corre riscos, basta-lhe aplicar a fórmula de sempre, sua fórmula de acadêmico acomodado, sua fórmula de ocultamento" ( o grifo é meu). Apesar da impossibilidade da escrita, é possivel existirem "olhares sobre novos objetos e, portanto, é melhor escrever do que não o fazer". Hugo von Hoffmanstahl ( autor de uma peça sobre "Edipo"...) escreveu enquanto lorde Chandos para sir Francis Bacon para lhe comunicar que renunciava a escrever porque " um regador, um rastelo abandonado no campo, um cão ao sol...,cada um desses objetos, e mil outros semelhantes, sobre os quais o olho normalmente desliza com natural indiferença, pode, de repente, a qualquer momento, adquirir para mim um caráter sublime e comovente que a totalidade do vocabulário me parece pobre demais para expressar"... |
Voltar ao topo [Aeternus:5301] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-10) - Língua Viva

Sobre o internetês, também me fere a alma imaginar que o Português que tanto amo pudesse ser reduzido a uma língua só de radicais e abreviaturas. A evolução da língua se faz morosamente e sua estrutura se altera pela usualidade de determinada forma ao longo de muitos anos, sendo que para que possa realmente ser integrada às normas formais deve antes passar pelo crivo da Academia Brasileira de Letras, que é responsável pela vigilância contínua da estrutura da Língua Portuguesa aqui no Brasil. Quanto à pesquisa realizada pela professora, ela justificou o seu interesse por perceber que os alunos estavam exatamente cometendo erros formais na escrita de redações e trabalhos estudantis, os quais estavam vinculados à escrita-relâmpago da comunicação virtual. O que me chamou a atenção é que uma coisa aparentemente banal pode ser o início de uma transformação mais profunda, a posteriori, na estrutura da nossa língua, uma vez que a evolução tecnológica não pode ser freada e está diretamente implicada à nossa forma de vida e capacidade de adaptação ao novo. Certamente, como disse Jany, trata-se de “uma nova estética linguajeira”, mas receio que o modismo acabe por fincar suas raízes na nossa língua como erva daninha. Um amigo meu especialista nestas coisas diz que algumas formas são inevitavelmente absorvidas, mas sem traumas. É um processo importante, pois, é exatamente esse dinamismo que torna viva a língua. Acho que é o “ princípio da vacina”. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5303] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE:Língua Viva 2
 Marcia observou: 'A evolução da língua se faz morosamente e sua estrutura se altera pela usualidade de determinada forma ao longo de muitos anos, sendo que para que possa realmente ser integrada às normas formais deve antes passar pelo crivo da Academia Brasileira de Letras, que é responsável pela vigilância contínua da estrutura da Língua Portuguesa aqui no Brasil. " Não entendi: Como é que a Academia Brasileira de Letras consegue uma vigilancia contínua da estrutura da língua no Brasil??? Impossível. Há duas leituras fascinantes sobre critérios para verbetes de dicionário. Uma se chama "The Imperialism of Words" e conta a construção da enorme enciclopédia inglesa de Oxford, a OED. A outra, traduzida para o portugues mas não recordo o título e copio em breve, é sobre um dos colaboradores da OED que, eficientíssimo, foi visitado pela equipe do dicionário e descobriram que se tratava de um louco "certified" internado há anos num hospicio de onde escrevia suas notas. A lingua pra mim é viva e se modifica todo tempo. Há vigilancias, há controles... mas... Nem sei. Acho ótimo que falhem pois a língua também é uma "formadora de opiniões"...
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Voltar ao topo [Aeternus:5307] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-10) - TEMPO...TEMPO
 Sobre a questão da temporalidade, esse é um assunto que muito me atrai. Tempo real, tempo virtual, tempo lógico, tempo cronológico...TEMPO. Digam-me, como é que você compra um carro 2006 em 2005? Você estanca o fluir do tempo, usa uns cosméticos e permanece eternamente jovem? Será a nossa angústia existencial diante da inexorabilidade da finitude?
Ao abordar o “Jardineiro fiel’, o fiz por ver na forma narrativa um bom exemplo para a teoria Heideggeriana sobre temporalidade e a sua função no despertar para uma vida autêntica. Não sou especialista em sua teoria mas me sinto à vontade para usar sua construção teórica como um elemento a mais para pensar. Para ele, é “através do próprio homem, é que se dá o caminho para se conhecer o Ser. O homem em sua solidão interroga-se sobre sí mesmo, colocando-se em questão e refletindo sobre ele mesmo, e neste momento o Ser dá-se a conhecer.” O fato de o filme ter início quando Tessa embarca para sua viagem sem retorno, marcando também o início de um novo estágio na vida de Justin, que se veria diante de uma situação na qual deveria fazer uma escolha e como esta escolha definiria seu futuro, foi o que me fez lembrar de Heidegger. O filme transcorre num entrelaçamento entre passado, presente e futuro, demonstrando a importância da temporalidade para a construção do sentido, o que é foco de meu interesse. Achei interessante poder pensar a questão do sintoma sob esse prisma, conforme sugerido. Percebi que o contraponto que fiz sobre Tessa em relação à percepção de Jansy foi entendido, por alguns, como um exercício de Psicanálise selvagem, repudiado ao extremo, uma análise rasteira e estapafúrdia, uma apologia da teoria do narcisismo em detrimento de um olhar mais humanizado, confundida até com o fato de Heidegger ter sido simpatizante do nazismo. Entretanto, Gallego pôde perceber tratar-se apenas de chamar a atenção para um outro lado possível que pudesse mexer no fiel da balança, como ele próprio o fez. Quanto a qualquer radicalização sou totalmente contra, inclusive ao fato de haverem filósofos ou estudiosos do existencialismo estarem aplicarem a teoria como forma de acompanhamento terapêutico, uma arremedo de Psicanálise.
Márcia Adorno
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Voltar ao topo [Aeternus:5310] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE:TEMPO...TEMPO 2 do jardineiro fiel
 Curiosa a colocação sobre a temporalidade, assim como foi explorada nas trajetórias de Tess e Justin. Quase me fez sentir melhor a descrição que Lacan fez para o tempo do obsessivo ( sempre adiantado ou atrasado demais) e notar como o conceito psicanalítico de "sintoma" se assenta na nossa relação com o tempo constituindo uma espécie de ... animismo histórico. Nunca vi exemplo clínico de um processo de análise existencial ( só de momentos, vinhetas), embora tenha lido textos muito bons no passado. O analista didata da SBPSP, Isaías Melsohn, se encaixa bem nesta linha ( embora ninguém o mencione deste modo) e ele tem uma percepção enriquecedora quando dá supervisão porque valoriza os gestos, o tom, os jogos verbais e com isso tem como demonstrar, de modo visível, aquilo que percebe no analisando. Há um poeta, dos antigos, talvez John Donne que descreve a lentidão do cerco amoroso como criando " a vegetable love" ( não no sentido atual, de lesionado como um pé de alface e, sim, do enroscamento como uma trepadeira que cresce todo tempo, se estende ao sol e tudo processo permanece quase invisível). |
Voltar ao topo [Aeternus:5311] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-10) - RE:RE:TEMPO...TEMPO 3 : da trepadeira do Donne
Hmmmm....adorei essa trepadeira que trepa sem ninguém ver. E o abraço invisível. |
Voltar ao topo [Aeternus:5314] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-10) - Língua Viva 3
 A questão da vigilância da Academia Brasileira de Letras se refere ao emprego correto das normas formais da língua. Quaisquer mudanças nas regras só ocorrem com sua aprovação, embora mesmo dentro da Academia haja divergênciasias sobre algumas normas gramaticais. Mas é exatamente a língua viva, esta falada de diversas formas, com diferentes acentos culturais e veiculada nos clãs de acordo com a identidade de cada um que é o motor de permanência da língua. Mas mesmo diante dessa profusão de formas, há uma estrutura sobre a qual ela repousa. As trangressões, os estilos e os erros são analisados em relaçãoa esse corpo denominado gramática. Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5315] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - Andrew Marvell Coy´s mistress
 Had we but world enough, and time, This coyness, lady, were no crime. We would sit down, and think which way To walk, and pass our long love's day. Thou by the Indian Ganges' side Should'st rubies find: I by the tide Of Humber would complain, I would Love you ten years before the flood, And you should, if you please, refuse Till the conversion of the Jews. My vegetable love should grow Vaster than empires, and more slow ; An hundred years should go to praise Thine eyes, and on thy forehead gaze ; Two hundred to adore each breast, But thirty thousand to the rest ; An age at least to every part, And the last age should show your heart ; For, lady, you deserve this state, Nor would I love at lower rate.
- But at my back I always hear
- Time's winged chariot hurrying near ;
And yonder all before us lie Deserts of vast eternity. Thy beauty shall no more be found, Nor, in thy marble vault, shall sound My echoing song: then worms shall try That long-preserved virginity, And you quaint honor turn to dust, And into ashes all my lust : The grave's a fine and private place, But none, I think, do there embrace.
- Now, therefore, while the youthful hue
- Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires At every pore with instant fires, Now let us sport us while we may, And now, like amorous birds of prey, Rather at once our time devour, Than languish in his slow-chapt power. Let us roll all our strength and all Our sweetness up into one ball, And tear our pleasures with rough strife Through the iron gates of life : Thus, though we cannot make our sun Stand still, yet we will make him run.
By Andrew Marvell (1621-1678).
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Voltar ao topo [Aeternus:5316] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE:Língua Viva 3,OED e Dr. W.C.Minor e o Imperialismo da Palavra
 Marcia, o deleitavel assustador livro sobre o colaborador voluntário do OED chamado Dr.W.C.Minor de Crowthorne, descreve os vinte anos de correspondência entre o organizador do dicionário. Dr. James Murray e seu prolífico colaborador e o momento do grande encontro dos dois em 1892 no hospital onde este último estava internado durante todo aquele período. O título é "o professor e o [demente] ~ a história de assassinato e loucura durante a elaboração do dicionário Oxford", da autoria de Simon Winchester, Ed. Record, 1999. O livro sobre "o Império das Palavras" descreve o esforço de colecionar citações e palavras em inglês utilizadas não apenas na Grã Bretanha como, ainda, em todas as suas colonias. Chama-se Empire of Words:The Reign of the OED por John Willinsky What is the meaning of a word? Most readers turn to the dictionary for authoritative meanings and correct usage. But what is the source of authority in dictionaries? (...) In this fascinating study, John Willinsky challenges the authority of this imperial dictionary, revealing many of its inherent prejudices and questioning the assumptions of its ongoing revision. "Clearly, the OED is no simple record of the language `as she is spoke,'" Willinsky writes. "It is a selective representation reflecting certain elusive ideas about the nature of the English language and people. Empire of Words reveals, by statistic and table, incident and anecdote, how serendipitous, judgmental, and telling a task editing a dictionary such as the OED can be." Willinsky analyzes the favored citation records from the three editorial periods of the OED's compilation: the Victorian, imperial first edition; the modern supplement; and the contemporary second edition composed on an electronic database. He reveals shifts in linguistic authority (...) Willinsky's dissection of dictionary entries exposes contradictions and ambiguities in the move from citation to definition. He points out that Shakespeare, the most frequently cited authority in the OED, often confounds the dictionary's simple sense of meaning with his wit and artfulness. He shows us how the most famous four-letter words in the language found their way through a belabored editorial process, sweating and grunting, into the supplement to the OED. Willinsky sheds considerable light on how the OED continues to shape the English language through the sometimes idiosyncratic, often biased selection of citations by hired readers and impassioned friends of the language. Reviews:"Willinsky . . . focuses on the source of the OED's authority--its imposing database of over five million examples of words used in context. . . . By scrutinizing OED entries, he exposes ambiguity and contradiction between citations and definitions and shows a nearly complete neglect of women and workers. Replete with statistical content analysis as well as engaging anecdotes."--Library Journal "This lively polemic about a formidable weapon of the English establishment. . . ."--The Glasgow Herald "John Willinsky . . . offers a study of the Oxford English Dictionary and how it got that way, its often subtle omissions and prejudices, and the absolute vastness of its achievement. . . . Willinsky has made a significant contribution to the appreciation and enjoyment of our language... "--Los Angeles Times
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Voltar ao topo [Aeternus:5317] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-10) - RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin:
 Não sei se entendi, eu estou caminhando na tal trilha arriscada? Será? Vamos colocar assim: o outro da diferença e o outro da igualdade são a mesma pessoa. Qual desses eu vou enxergar é que são elas... Não há só ficção no outro (sem maiúscula). Pode haver re-conhecimento. Não pode? É o um a um! Isso é de verdade. é de verdade.Por outro lado, tem o velho papo da esmola que não elimina a mendicância. A tendência é a gente ficar pinguepongueando entre o individual e o político, mas é pra sair desse impasse, precisamente, que SERVE a idéia de estrutura combinada à de superego: este é exatamente o individual que é ao mesmo tempo o coletivo, aquilo que unifica as subjetividades sem que cada um perceba que está sendo achatado e apagado em sua diferença e peculiaridade. E que esconde a VERDADEIRA igualdade, invertendo-a até torná-la inalcançável, por desumanizá-la. Por nos desumanizar. Não, eu não estou desatento às fascistices que espreitam as coisas todas, não. |
Voltar ao topo [Aeternus:5318] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE:RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 9: Aladdin para Jasmin:
 Cambio! Não sei de qual "trilha arriscada" Sr. Conde está falando, nem sei a quem responde aqui. Desculpem-me se me intrometo. Conde observou: " o outro da diferença e o outro da igualdade são a mesma pessoa. Qual desses eu vou enxergar é que são elas...Não há só ficção no outro (sem maiúscula). Pode haver re-conhecimento." Como o vocabulário dele sugere algo de Lacan sem seguir sua leitura, não sei qual código usar para compreender. No caso de Lacan, o outro da igualdade poderia ser o que chamamos de nosso próximo, ou seja, nosso "semelhante" ( mon sembable, mon frère, meu companheiro e camarada, nosso rosto no espelho, nosso amigo imaginário ...), mas o "outro da diferença", do que se trata? Se discrimino alguém por achar que é diferente, sua diferença é ainda produzida por algum critério imaginário e não uma ficção. Tem corpo que se opõe ao meu. Ocupa espaço e habita o tempo para competir comigo ou, colaborar. Aqui é possivel, sim, "o um a um! Isso é de verdade... é de verdade." Verdade de consenso, partilha da realidade... O Outro ( com maiúsculas) não é nem pessoa nem ser, é linguagem, o campo do simbólico. O lugar da diferença. Lacan observou que, no início da vida, enquanto o outro da demana, está corporificado na mãe. Conde continua: " a tendência é a gente ficar pinguepongueando entre o individual e o político, mas é pra sair desse impasse, precisamente, que SERVE a idéia de estrutura combinada à de superego: este é exatamente o individual que é ao mesmo tempo o coletivo, aquilo que unifica as subjetividades sem que cada um perceba que está sendo achatado e apagado em sua diferença e peculiaridade". Aqui, novamente, perdi o referencial pois, para Freud, a diluição do indivíduo no coletivo, apagado em sua diferença e peculiaridade, é decorrente de vários processos como ele analisa (no "O Ego, sei lá o que mais e a Psicologia dos Grupos"): identificação com os pares ou com um líder, por exemplo. Nesta madrugada adormeci tentando alcançar uma formulação para este problema do "um" e dos "milhares", querendo evitar usar "Deus", "Fatalidade" ou "Transcendência" e não consegui senão encaminhar a questão: Estava pensando sobre a "quem" se dirige o olho aterrorizador do desenho da borboleta ( o detalhismo realístico do olho não é necessário nem muito eficaz para afastar o pássaro, me informaram). Quando um cardume ganha a forma de um peixe enorme é mais fácil entender a manobra de sobrevivência dum bando de peixinhos indefesos ante um tubarão devorador. Mas como eles "sabem" que estão copiando, em escala gigante, o contorno do seu predador? Quem faz a linha pontilhada e marca o lugar para cada um deles ocupar o espaço da cabeça ou da cauda? Apenas aquelas regras darwinianas do reforço e repetição de um acaso feliz, algo assim e etc? Montei minhas idéias deste modo: A Vontade "divina" não é altruísta, ela é "Outra" e age do exterior, seja como obstáculo ( Freud) ou como...? A Vontade ( Eros, Amor, Desejo,..., ....) não é teleológicamente orientada numa direção apreensível ao individuo. Para Freud ela busca agrupar, formar unidades mais complexas. Para fulano...., ela ... ????? Segundo o pai da psicanálise, assim como para alguns filósofos, somos "seres para a morte" mas, para ele, estamos condenados a tentar morrer seguindo o padrão da morte que for peculiar à nossa espécie. Nossa vida é um produto dos obstáculos externos que atrapalham a linha reta entre este impulso e a morte. Falta explicar muita coisa do que acontece entre um polo e outro. Não é apenas o ID que fica no meio da vIDa... Onde queria chegar? Apenas na idéia de que nossos limites humanos nos obrigam a pensar de modo limitado. Fazermos o que pudermos da forma que seja mais verdadeira para nós. O resto é...fatalidade. Tive um sonho no qual dirigia um onibus cheio de crianças numa avenida escura e escorregadia. Um dos meninos pulou fora e ficou no acostamento exatamente na hora em que uma carreta se aproximava do onibus. Se eu quisesse sair da frente da carreta teria que atropelar o menino. Acordei suando, mas percebi que nunca atropelaria a criança em nome de tentar salvar a turma toda do onibus ( e à propria pele). Aguardaria a "intervenção" ou a iniciativa do outro, do carreteiro, da fatalidade... Há um livro inquietante sobre uma ponte que desabou nos Andes onde o autor, Thornton Wilder, descreve os esforços de um padre para entender os "desígnios divinos" que teriam determinado a morte daquelas pessoas que passavam por ali naquele dado instante: "A Ponte de São Luis Rey"... |
Voltar ao topo [Aeternus:5319] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-10) - RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 4 : do Mick Jagger
 “Sobre a questão da temporalidade, esse é um assunto que muito me atrai. Tempo real, tempo virtual, tempo lógico, tempo cronológico...TEMPO. Digam-me, como é que você compra um carro 2006 em 2005? Você estanca o fluir do tempo, usa uns cosméticos e permanece eternamente jovem? Será a nossa angústia existencial diante da inexorabilidade da finitude?” MÁRCIA
O que é dramático na questão do tempo hoje em dia, é que o sonho contemporâneo é a abolição do tempo, as tecnologias visam isso. O tempo real é a abolição do tempo. A instantaneidade televisiva em que se fica hipnotizado diante da tela, a gente fica no instante vazio, fica hipnotizado pelo instante vazio da televisão, tanto faz o que se está passando ali, você está totalmente indiferente, porque é um tempo sem densidade, é um tempo sem textura. É a hipnose do instantâneo repetitivo e vazio, um tempo vazio, que já não é um tempo. As tecnologias visam abolir a distância espacial e a densidade temporal.
E nessa supressão do tempo em que a densidade temporal é perdida, a gente passa para um regime da instantaneidade universal. É como se aí, estivesse um campo político perigosíssimo. Ele transforma as fronteiras... atravessa tudo, e esse instante constante de vazio a que nós estamos ligados, via computador, via televisão, via várias outras tecnologias, abolem o futuro como abertura, porque estamos num presente repetitivo e vazio, assim como abole a idéia de passado.
Esta onipotência tecnológica de abolição do tempo, não seria uma tentativa astuciosa de se desfazer do “FOI”? Que relação uma cultura televisiva estabelece com o passado? Que lugar tem o passado? O passado tem algum lugar, neste instante hipnótico, vazio e sem densidade temporal?
(FOI. Nietzsche se refere como o foi... O peso que tem o foi e que ordem que ele dá. E diz o Nietzsche: não poder destruir o tempo, nem a avidez devoradora do tempo, tal é o desespero, o mais solitário do querer. O querer se desespera com isso. O tempo devora, o tempo torna em foi, cristalizado e endurecido, contra o qual o querer não pode nada. O que pode o querer diante do foi? Essa é uma pergunta lancinante. O querer diante do foi, acaba querendo uma única coisa: vingança).
E também homogeneiza-se o tempo. O tempo do campo é diferente do tempo da cidade, que é diferente do tempo do louco, que é diferente do tempo dos artistas, e assim vai, daria pra fazer um mapa um pouco idealizado das várias temporalidades paralelas, das várias densidades temporais paralelas, que coexistem no universo e pensar o tipo de homogeneização temporal que a tecnologia globalizante inculca.
Penso um pouco isso em relação aos loucos, que tem um tipo de relação com o tempo muito específica, muito diferenciada. E quando os loucos são tomados por um regime de administração hospitalar, que tem toda esta lógica do tempo útil, da utilização das consultas, das tentativas de que o louco obedeça no tratamento um certo ritmo societário? E eles não obedecem porra nenhuma, eles vivem outro tempo, tem outra relação com o passado, tem uma desconexão temporal e acho que é isso que produz tanta aflição...
O quanto que hoje é possível preservar bolsões temporais? A criação exige um tempo, a loucura exige um tempo, mas não um tempo homogêneo, instantâneo e universal, como esse da tecnologia. O que acontece com essa multiplicidade temporal, que nos habita também?!?
Agora, a gente chega a um fenômeno, nesta história da destruição do tempo, o jornal destrói até na distribuição, o jornal de domingo hoje em dia está matando o jornal de sábado, o jornal de sábado sai de manhã e o de domingo ao meio-dia.
Esteriliza-se o universo dos tempos... Ao mesmo tempo, uma outra parte dessa história, que desterritorializa todos os tempos locais acaba subordinada à um tempo homogêneo, universal e global: pessoas, loucos, artistas, o tempo dos artistas...
E o tempo do campo que é um ciclo e o tempo da igreja que tem a ver com deus e daí o tempo universal homogêneo, que está engolindo todos os tempos. Que novas temporalidades se abrem a partir de um novo tempo que se cria? Uma navegação num computador, numa sequência escolhida pela navegador, quer dizer o quê? Que não se está atrelado numa narrativa prévia, a uma sequência prévia. Você constrói a sua sequência um pouco assim como você lê um jornal: um pouco daqui, um fragmento dali...
Vou dar um exemplo mais completo. Imaginemos que a narrativa sequencial - começo, meio e fim - acabou, e que a nossa idéia de tempo se alterou profundamente, que tipo de cinema daria pra criar que obedecesse a uma nova lógica temporal? Uma história que não tivesse começo, meio e fim, mas que tivesse a cada instante dezenas de bifurcações, que não necessariamente progredisse...
Como História sem Fim mas com mil..., o que ele fez, pegou um sonho lá, que são seis lobos em cima de uma árvore e fez um monte de associações do paciente, sobre o lobo e a mãe e o pai e etc. O que acontece? A gente na frente um monitor e é como esse paciente está vendo. Você vê um galho de árvore através da janela e seis lobos, aí você toca o dedo num dos lobos, que dispara uma certa cadeia associativa, você se remete a papai e mamãe. Vamos começar por aí, e no meio dessa história de papai e mamãe você pode tocar e te remete a um conto de..., ou você começa por outro lobo e é totalmente diferente. Chega um momento em que o cara tem o seguinte dilema, você está numa ante-sala, no outro lado da porta estão tocando piano, vai acontecer um assassinato, alguém vai assassinar a moça que está tocando piano, segundo a progressão temporal mais ordinária, a tensão vai num crescendo, até que se ouve um berro e você vai lá abre a porta e vê quem matou quem. Agora, imagina que a gente tem a opção, em vez de procurar saber quem matou quem, você resolve, num instante antes do crime, entrar na cabeça do criminoso, a gente toca a cabeça dele, e ao invés de ter aquele clima de assassinato e depois acabou a questão, faz uma viagem na cabeça do assassino, aí é uma outra viagem. Ou se preferir, a cabeça da vítima, aí é uma viagem interior no tempo dela, e aí desfez-se uma certa linearidade narrativa, que culmina num clima e depois... Há uma imagem temporal que é primeiro, depois e acabou, e outra de uma complexidade “rizomática”, são vários tempos simultâneos que se interpenetram e que você navega em outra história, outra densidade temporal, outra...
Não sei se dá pra responder o que é o tempo. O que dá pra pensar é a que variações temporais nós estamos sujeitos. É claro que uma visão de tempo de um chinês e de um brasileiro é totalmente diferente. Como a flecha do tempo é vetorizada em direção ao futuro e como a Europa está trabalhando com o passado, e como isto se interpenetra com este tempo tecnológico que atravessa hoje e nos chega também?
É um tempo interativo, é interessante pensar uma maneira de abordar o tempo homogêneo universal tecnológico como um demônio. Ah, esse tempo aqui vai ser o final de tudo, do próprio tempo, que é um jeito como se chama esse tempo, um tempo vulgar ou tempo “inautêntico”, são maneiras que os pensadores desqualificam este tempo. E tem um outro jeito, que é, este tempo que desterritorializa um monte de tempos locais, tem nele uma certa potência de temporalização que ainda não está claro. Que outros tempos ele pode fazer emergir de dentro dele? Que outras pluralidades temporais ele comporta? Não tem a ver com regredir ao tempo do campo, da igreja, tempos nativos ou natais, que é outra coisa, e pensar dentro disso o que é o tempo? É uma loucura. Você vai pra tudo quando é lado, tem aí uma pluralidade temporal, que é uma revolução da nossa concepção linear da mais vulgar e outras também. São tempos intensivos e não extensivos. O tempo extensivo do relógio, espacial e o tempo intensivo, que não tem representação possível, que é da ordem da intensidade...
E ainda temos os Roliing Stones:
Time is on my side, yes it is
Time is on my side, yes it is
Now you always say
That you want to be free
But you’ll come running back (said you would baby)
You’ll come running back (I said so many times before)
You’ll come running back to me
Oh, time is on my side, yes it is
Time is on my side, yes it is
You’re searching for good times
But just wait and see
You’ll come running back (I won’t have to worry no more)
You’ll come running back (spend the rest of my life with you, baby)
You’ll come running back to me
Go ahead, go ahead and light up the town
And baby, do everything your heart desires
Remember, I’ll always be around
And I know, I know
Like I told you so many times before
You’re gonna come back, baby
’cause I know
You’re gonna come back knocking
Yeah, knocking right on my door
Yes, yes!
Well, time is on my side, yes it is
Time is on my side, yes it is
Cause I got the real love
The kind that you need
You’ll come running back (said you would, baby)
You’ll come running back (I always said you would)
You’ll come running back, to me
Yes time, time, time is on my side, yes it is
Time, time, time is on my side, yes it is
Oh, time, time, time is on my side, yes it is
I said, time, time, time is on my side, yes it is
Oh, time, time, time is on my side
Yeah, time, time, time is on my side
D.
E.T.: Bêjo! |
Voltar ao topo [Aeternus:5320] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE:Andrew Marvell Coy´s mistress
 Tentei, ah...tentei... Peço ajuda aos mais talentosos e gramaticalmente inclinados para a tradução do poema de André Maravillha a sua timida amante! Se o mundo e o tempo nos pertencesse Sua timidez, senhora, não nos faria dano. Conversaríamos da poltrona sobre o avanço Do amor ao longo do dia, enquanto rubis À beira do Gangues acharíeis vós: Enquanto, queixoso, contemplaria a maré Do Humber por decenios pré-diluvianos. Amando-a ainda e sem descanso. E, caso me recusásseis o lento assédio, Aguardaria os judeus até se converterem. Assim cresceria meu amor vegetal, mais vasto Que um império e mais devagar...
Cem anos passaria a louvar Seus olhos e sua fronte; Duzentos anos para cada seio, E trinta mil para o restante. Uma era, ao menos, à todas partes, E na final, o coração encontraria suas artes. Porque, Senhora, mereceis tanta demora Não a amaria menos, medindo-a pela hora.Contudo, às costas, já estou ouvindo A carruagem do tempo com suas asas, E mais além, ao nosso olhar surgindo O deserto da eternidade tão vasta. Sua beleza, Dama, não encontraria Entre o mármore da sua colunata Passos ecoando entre minhas cantigas. Vermes testarão sua virgindade galante Delegando sua honra ao pó e às cinzas O capricho do desejo, tão constante. Túmulos nos encobrem discretos num enlace, Mas desconheço quem seja que ali se abrace. Portanto enquanto a juventude ainda Tinge de orvalho sua pele matinal E ávida sua alma deixa o amor se incendiar Transpirando em cada poro, precisamos Enquanto ainda possivel, nos atarefar Como aves de rapina o tempo a devorar; Em vez de enlanguecermos, juntemos as forças e nosso gozo terreno Como rasga a bola na labuta do amor Os portões de ferro desta vida: Se não podemos parar o sol, nem perto Fazer com que ele voe, isto é bem certo. Andrew Marvell (1621-1678).
Contudo, às costas, já estou ouvindo A carruagem do tempo com suas asas, E mais além, ao nosso olhar surgindo O deserto da eternidade tão vasta. Sua beleza, Dama, não encontraria Entre o mármore da sua colunata Passos ecoando entre minhas cantigas. Vermes testarão sua virgindade galante Delegando sua honra ao pó e às cinzas O capricho do desejo, tão constante. Túmulos nos encobrem discretos num enlace, Mas desconheço quem seja que ali se abrace. Portanto enquanto a juventude ainda Tinge de orvalho sua pele matinal E ávida sua alma deixa o amor se incendiar Transpirando em cada poro, precisamos Enquanto ainda possivel, nos atarefar Como aves de rapina o tempo a devorar; Em vez de enlanguecermos, juntemos as forças e nosso gozo terreno Como rasga a bola na labuta do amor Os portões de ferro desta vida: Se não podemos parar o sol, nem perto Fazer com que ele voe, isto é bem certo. Andrew Marvell (1621-1678).
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Voltar ao topo [Aeternus:5322] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-10) - RE: do Mick Jagger...Não diga! Bolsões do tempo...
 Sempre quis identificar a cantiga "time is on my side, yes it is", que um dos demonios cantam enquanto se desloca em sucessivas encarnações naquele filme com Denzel Washington. Então é dos Rolling Stones, grupo que escolheu um nome que também remete ao tempo. Ganhei o dia aprendendo de onde provém. Esta letra me assombra... O Conde escreveu pra Márcia que "o que é dramático na questão do tempo hoje em dia, é que o sonho contemporâneo é a abolição do tempo, as tecnologias visam isso. O tempo real é a abolição do tempo..." e, por mais que eu quizesse não saberia dizer nada melhor. Por sorte há sempre algo sobrando, algo a mais pois incompleto e, graças a isto, nasce um novo um tempo. O homem de hoje tenta abolir a espera, como se pudesse fugir da frustração. Só que nem escapa e mais, ainda perde o desejo, fruto da duração e do adiamento. Há um artigo maravilhoso de Umberto Eco, discorrendo sobre o Tempo, quando retoma um termo dos estóicos ( creio que foi deles): diastema, um tipo de intervalo na música no qual não há um vazio porque resta um eco unindo uma nota a outra como expectativa.Na ficção científica temos autores que só escrevem sobre viagens no tempo e temporalidade. O livro só o conheço em ingles: "Timescapes" ( paisagens temporais ). Cito, logo ...sito. |
Voltar ao topo [Aeternus:5323] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-11) - RE:RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 5: do Frederico
 "E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!’ - Não te lançarias ao chão e rangeria os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada de mais divino!’ Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última confirmação e chancela?" |
Voltar ao topo [Aeternus:5324] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-11) - RE:RE:RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 6 : do Gonzaguinha
 Parabéns ao Conde e à Jansy pelas belíssimas passagens, tanto em prosa como nos versos de Andrew Marvell. Dona Márcia terá interessante material para pensar seu tempo. Quanto ao rebote de vida(s) absolutamente idênticas, a idéia só seria tolerável sem memória, apagando-se o passado. O que resultaria numa nova vida, uma vez que sem passado...babau ! Mas ainda assim ainda que prometido o rebote sem passado, resultaria o problema do devir : uma vez sabedor de que reviveria tudo outra vez, o infeliz precisaria 'caprichar nos atos e pensamentos', para clarear horizontes 'à frente'...Tarefa de Hércules !!! Quando Gonzaguinha canta 'começaria tudo outra vez / se preciso fosse meu amor / (...)por favor, outra vez, recomeçar !' fala do deleite obtido, claro. Mas creio impossível, se possível fosse, alguém recomeçar sabendo de antemão o feixe de sensações e todo o crivo dos discursos e pensamentos que este traria embutido. |
Voltar ao topo [Aeternus:5325] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-11) - RE:: do Frederico e do Florião
Queria responder rapidinho, mas as tempestades andam fazendo desordem na biosfera e lentificando a resposta dos programas... assim, perdi tempo esperando abrir aqui. Não dará para ir muito longe. Queria só comentar com o Marcos ( do Frederico e do Gonzaguinha ) que apesar de toda breguice desagradável, há uma linha de pensamento ( pensamento?) interessante na novela Almas Gemeas, que trabalha sobre este ponto de "reviver a vida passada", no caso da teoria espírita, sem a condenação diabólica da repetição do mesmo ( que tira qualquer chance de se melhorar ou aprimorar alguma coisa, afinal... nem se sabe se a consciência está vivendo a décima ou milionésima repetição...) : a mocinha que era Luna e que reencarnou como Serena ( uma índia e a música "ìndia seus cabelos nos ombros caídos" sempre toca ao fundo na hora em que ela surge como leitmotif) passou-lhe uma "missão". Serena sente que, além de ser a Luna e ter a missão desta, tem uma vida própria e uma missão própria. Não está sendo novelizado de modo bobo, embora ainda muito primário. Sem tempo, que pena. Perdoem as imprecisões... |
Voltar ao topo [Aeternus:5326] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-11) - RE:RE:RE:RE:O jardineiro fiel e Heidegger 10: Aladdin para Jasmin: Each man kills the thing he loves...
 "O Outro (com maiúsculas) não é nem pessoa nem ser, é linguagem, o campo do simbólico". É, eu sei. Tanto que, depois de ter enviado minha mensagem, lembrei que eu podia ter arrematado dizendo que aí sim eu estava falando do Outro: "este é exatamente o individual que é ao mesmo tempo o coletivo, aquilo que unifica as subjetividades sem que cada um perceba que está sendo achatado e apagado em sua (diferença e) peculiaridade". Melhor a gente tirar "diferença" desse pedaço, pra não dar confusão. O que estou querendo dizer é que o Outro, justamente por ser linguagem (mas que é, digamos, acionado toda vez que eu lido com o outro real ou imaginário, e que, sendo linguagem, é algo social e aleatório que me IGUALA ou que me amarra a um discurso já dado - donde eu me torno um outro para mim mesmo), minha singularidade egóica se faz sobre uma ficção, ao passo que minha singularidade real me é tornada inacessível. Ok, talvez eu não esteja me fazendo claro, porque "o vocabulário sugere algo de Lacan sem seguir sua leitura". Parte disso é por insuficiência de conhecimento da minha parte, mas, por outro lado, há uma recusa minha a sintonizar plenamente com algo que me parece por demais abstrato, que parece desmerecer demais o Ente e o Real como dimensões do Ser, ou do Sujeito.É como se dissociassem o Ente e o Real da idéia de Vida, e eu prefiro associá-los. Pra mim a descorporificação narcisica é o que pereniza o narcisismo do tipo curto-circuito. Sobre essa defesa do conceito de descorporificação narcísica, e pra voltar para o próprio universo conceitual que nos define como seres de linguagem, eu diria que essa descorporificação vem de um defeito estrutural da NOSSA linguagem. Vejamos uma diferença exemplar mas fundamental entre o que penso e o que Lacan pensa: Lacan descorporificou o conceito de PULSÃO. Eu prefiro recorporificá-lo, quase como Freud fazia. Mas só quase. Ou seja, para Lacan, a pulsão está já "formatada" pelo desejo, e eu vejo a pulsão mais como Das Ding, ainda que corporal. Por isso eu resisto a usar também o conceito de ID, que já é o próprio Freud descorporificando o conceito de pulsão. Tudo fica muito psíquico, visto apenas pelo túnel do... NARCISISMO. O meu "o outro da diferença" não é o da diferença representacional, não me refiro à diferença segundo a filosofia, mas à diferença que desperta o medo ou o ódio, enfim, o preconceito, que faz com que o diferente seja como alvo de alguma desvalorização: o diferente supostamente inferior em relação aos meus compatriotas, à minha raça, à minha religião, à minha espécie, à minha família, à minha classe social, ao meu time, à minha escola... Quando a gente diz que o italiano é expansivo mas meio mal-educado, que o parisiense é mal-humorado, que o alemão é frio, que o espanhol é sanguíneo, estamos falando de distinções que todos sabem ser culturais apenas. Não que não se reflitam no modo de SER das pessoas, e nem que todo parisiense seja realmente mal-humorado etc., mas são diferenças em alguma medida não naturais, e não pessoais. Mas quando alguém diz que os negros (sejam eles africanos, brasileiros, americanos, pobres, ricos) são intelectualmente inferiores, aí estamos universalizando algo que na verdade vem de um defeito da NOSSA cultura: a cultura inventada pelos brancos (mesmo quando nela crescem sujeitos de pele negra) é preconceituosa. E esse preconceito, essa necessidade de se eleger um inimigo qualquer, seja numa guerra, seja numa disputa, é um curto-circuito linguístico que é um efeito colateral do advento desse "o Outro". Ah, diriam alguns, mas "o Outro" é sempre "o Outro" em qualquer cultura, raça, continente e planeta. Será? Será mesmo? Não, eu não... SINTO assim. Então não sei se entendo e, portanto, não sei se concordo com o que você me conta de Lacan: "não há Outro do Outro". Lacan fala em algum lugar que é justamente o fato de que o Outro está não só fora do eu, como é também um "outro eu", que é exatamente esse "o Outro" que nos permite RE-conhecer alguma coisa do semelhante (real). [E me parece que ele fala isso se referindo ao tesão, ao mínimo re-conhecimento sexual necessário a qualquer interação não-masturbatória]. Só que eu sou levado a deduzir que essa "outrificação", que me subjetiva de um lado, me dessubjetiva de outro. E, pela teoria do conde, é justamente quando eu me ressubjetivo que eu consigo um ENCONTRO com o outro, e amar sua diferença tanto quanto a minha própria (agora "diferença" enquanto liberdade, enquanto possibilidade ilimitada de devir). Amar a liberdade do ser amado. Difícílimo, não é? Mas quando a gente mata sua liberdade, a gente mata o ser amado. E vai amar quem, então? E aí a gente vê o quanto é difícil amar a liberdade do outro, não é difícil? Eu não consegui até hoje na minha vida. Each man kills the thing he loves... Já dizia Oscar Wilde. Curto-circuito. Será o benedito que, se a gente é capaz de imaginar algo como o EXERCÍCIO da liberdade, da invenção, da apropriação do devir pelo próprio sujeito, e a gente não é capaz de imaginar algo que desfaça o curto-circuito? "o vocabulário sugere algo de Lacan sem seguir sua leitura". Parte disso é por insuficiência de conhecimento da minha parte, mas, por outro lado, há uma recusa minha a sintonizar plenamente com algo que me parece por demais abstrato, que parece desmerecer demais o Ente e o Real como dimensões do Ser, ou do Sujeito.É como se dissociassem o Ente e o Real da idéia de Vida, e eu prefiro associá-los. Pra mim a descorporificação narcisica é o que pereniza o narcisismo do tipo curto-circuito. Sobre essa defesa do conceito de descorporificação narcísica, e pra voltar para o próprio universo conceitual que nos define como seres de linguagem, eu diria que essa descorporificação vem de um defeito estrutural da NOSSA linguagem. Vejamos uma diferença exemplar mas fundamental entre o que penso e o que Lacan pensa: Lacan descorporificou o conceito de PULSÃO. Eu prefiro recorporificá-lo, quase como Freud fazia. Mas só quase. Ou seja, para Lacan, a pulsão está já "formatada" pelo desejo, e eu vejo a pulsão mais como Das Ding, ainda que corporal. Por isso eu resisto a usar também o conceito de ID, que já é o próprio Freud descorporificando o conceito de pulsão. Tudo fica muito psíquico, visto apenas pelo túnel do... NARCISISMO. O meu "o outro da diferença" não é o da diferença representacional, não me refiro à diferença segundo a filosofia, mas à diferença que desperta o medo ou o ódio, enfim, o preconceito, que faz com que o diferente seja como alvo de alguma desvalorização: o diferente supostamente inferior em relação aos meus compatriotas, à minha raça, à minha religião, à minha espécie, à minha família, à minha classe social, ao meu time, à minha escola... Quando a gente diz que o italiano é expansivo mas meio mal-educado, que o parisiense é mal-humorado, que o alemão é frio, que o espanhol é sanguíneo, estamos falando de distinções que todos sabem ser culturais apenas. Não que não se reflitam no modo de SER das pessoas, e nem que todo parisiense seja realmente mal-humorado etc., mas são diferenças em alguma medida não naturais, e não pessoais. Mas quando alguém diz que os negros (sejam eles africanos, brasileiros, americanos, pobres, ricos) são intelectualmente inferiores, aí estamos universalizando algo que na verdade vem de um defeito da NOSSA cultura: a cultura inventada pelos brancos (mesmo quando nela crescem sujeitos de pele negra) é preconceituosa. E esse preconceito, essa necessidade de se eleger um inimigo qualquer, seja numa guerra, seja numa disputa, é um curto-circuito linguístico que é um efeito colateral do advento desse "o Outro". Ah, diriam alguns, mas "o Outro" é sempre "o Outro" em qualquer cultura, raça, continente e planeta. Será? Será mesmo? Não, eu não... SINTO assim. Então não sei se entendo e, portanto, não sei se concordo com o que você me conta de Lacan: "não há Outro do Outro". Lacan fala em algum lugar que é justamente o fato de que o Outro está não só fora do eu, como é também um "outro eu", que é exatamente esse "o Outro" que nos permite RE-conhecer alguma coisa do semelhante (real). [E me parece que ele fala isso se referindo ao tesão, ao mínimo re-conhecimento sexual necessário a qualquer interação não-masturbatória]. Só que eu sou levado a deduzir que essa "outrificação", que me subjetiva de um lado, me dessubjetiva de outro. E, pela teoria do conde, é justamente quando eu me ressubjetivo que eu consigo um ENCONTRO com o outro, e amar sua diferença tanto quanto a minha própria (agora "diferença" enquanto liberdade, enquanto possibilidade ilimitada de devir). Amar a liberdade do ser amado. Difícílimo, não é? Mas quando a gente mata sua liberdade, a gente mata o ser amado. E vai amar quem, então? E aí a gente vê o quanto é difícil amar a liberdade do outro, não é difícil? Eu não consegui até hoje na minha vida. Each man kills the thing he loves... Já dizia Oscar Wilde. Curto-circuito. Será o benedito que, se a gente é capaz de imaginar algo como o EXERCÍCIO da liberdade, da invenção, da apropriação do devir pelo próprio sujeito, e a gente não é capaz de imaginar algo que desfaça o curto-circuito? |
Voltar ao topo [Aeternus:5328] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-11) - RE:RE:RE:RE:RE:RE:TEMPO...TEMPO 7: Eterno retorno (Alô Davy! Alô Jansy! Alô Márcia! Alô Marcos!)
 "Então não há por que desancar o homem transcendental. O homem que foge da imanência é um homem amedrontado, ao qual é preciso ACALMAR, TRANQUILIZAR e ASSEGURAR, e essa é a diferença entre Winnicott e Nietzsche: Este último HUMILHA o homem já humilhado, fazendo-o refugiar-se ainda mais profundamente em seu refúgio, onde se esconde dos "Perigos desta Vida", como dizia o Vinícius, enquanto o primeiro o pega, senta, conversa com ele, tenta entendê-lo, tenta explicar-lhe, discute as suas várias razões para ter tanto medo, e aos poucos permite a ele ir arriscando pouco a pouco aqui e ali, até "entender" que a vida não é esse covil de víboras, tigres e hienas que ele pensava antes (com razão, pois era uma criança), mas agora não mais. Em vez de esfregar a cara do homem no cocô que ele fez, à moda de Klein, e mesmo Freud, Winnicott permite a esse homem descobrir a ele mesmo, em primeiro lugar, e ao mundo, depois". DAVY "Será a nossa angústia existencial diante da inexorabilidade da finitude?" MÁRCIA ADORNO "O homem de hoje tenta abolir a espera, como se pudesse fugir da frustração. Só que nem escapa e mais, ainda perde o desejo, fruto da duração e do adiamento" JANSY "Fazermos o que pudermos da forma que seja mais verdadeira para nós. O resto é... fatalidade". JANSY "Queria só comentar com o Marcos (do Frederico e do Gonzaguinha ) que apesar de toda breguice desagradável, há uma linha de pensamento (pensamento?) interessante na novela Almas Gemeas, que trabalha sobre este ponto de "reviver a vida passada", no caso da teoria espírita, sem a condenação diabólica da repetição do mesmo (que tira qualquer chance de se melhorar ou aprimorar alguma coisa, afinal... nem se sabe se a consciência está vivendo a décima ou milionésima repetição...)" JANSY "Quanto ao rebote de vida(s) absolutamente idênticas, a idéia só seria tolerável sem memória, apagando-se o passado. O que resultaria numa nova vida, uma vez que sem passado...babau! Mas ainda assim ainda que prometido o rebote sem passado, resultaria o problema do devir : uma vez sabedor de que reviveria tudo outra vez, o infeliz precisaria 'caprichar nos atos e pensamentos', para clarear horizontes 'à frente'...Tarefa de Hércules !!! Quando Gonzaguinha canta 'começaria tudo outra vez / se preciso fosse meu amor / (...)por favor, outra vez, recomeçar !' fala do deleite obtido, claro. Mas creio impossível, se possível fosse, alguém recomeçar sabendo de antemão o feixe de sensações e todo o crivo dos discursos e pensamentos que este traria embutido" MARCOS * * * * * * * * * Lembram do romance intrigante do Bioy Casares ‘A Invenção de Morel’?? É uma invenção, de um sujeito apaixonado por uma mulher que não correspondeu o seu amor, e ele teve de usar a imaginação. Então, olha só a idéia desse inventor. Qual é a função da radiotelefonia? Suprimir no que diz respeito ao ouvido, uma ausência, uma ausência especial, ou seja, por meio de transmissores e receptores podemos nos reunir em conversa com Madeleine nesta mesma sala, embora ela esteja a mais de 20.000 km, nos arredores de Quebec. A televisão consegue o mesmo, no tocante à visão. É então um projeto desse inventor alcançar vibrações mais rápidas, mais lentas, estendendo-se aos outros sentidos, que não são o ouvido e a visão. Continua o inventor dizendo o seguinte: os quadros científicos dos meios de suprimir ausências era até a pouco, mais ou menos o seguinte, quanto à visão: televisão, cinema, fotografia; e quanto à audição: radiotelefonia, fonógrafo, telefone. A ciência até há pouco limitou-se a fazer frente à ausências espaciais e temporais, em relação ao ouvido e à visão. E aí o inventor diz: o mérito da primeira parte dos meus trabalhos consiste em ter interrompido essa tradição. Ele vai dizer: me propus a procurar ondas de vibrações nunca alcançadas, a imaginar instrumentos para captar essas ondas nunca alcançadas e para transmiti-las. Isso inclui então, sensações olfativas, térmicas, táteis, etc. A conclusão dele é: se ligarem o receptor de ondas olfativas, sentirão o perfume do jasmim, que há no peito de Madeleine, mesmo sem vê-la. Ligando o receptor de ondas táteis, poderão acariciar os seus cabelos, suaves e invisíveis e aprender como os cegos a conhecer as coisas com as mãos, mas se ligarem todo o jogo de receptores Madeleine aparecerá completa, reproduzida, idêntica. Então, essa é a primeira parte da máquina que esse inventor está inventando. É uma máquina de captar imagens, mas que não são só imagens, são também sons, são também vibrações, cheiros, etc. A segunda parte dessa máquina, deste inventor, é projetar essas imagens no espaço e estas imagens não precisam ser projetadas numa tela, basta ser projetada a céu aberto, que ela funciona tridimensionalmente, mas também funciona com todos estes outros sentidos. E aí é que o inventor faz uma pequena especulação filosófica. Ele diz o seguinte: eu imaginava, que embora as reproduções de objetos fossem objetos, as reproduções de animais e de plantas não seriam animais e plantas. Eu estava certo de que os meus simulacros de pessoas careceriam de consciência de si mesmas, ou seja, ele achava que as imagens seriam apenas imagens. Diz ele: tive uma surpresa, depois de muito trabalho, ao congregar harmonicamente estes dados. Encontrei-me com pessoas reconstituídas, que desapareciam quando eu desligava o aparelho projetor, e só viviam nos momentos passados quando da tomada da cena, e ao terminá-lo, voltava a repeti-lo, como se fosse um disco ou um filme. O importante aqui é uma coisa só. Eles não se distinguiam das pessoas vivas das quais se extraiu essas imagens. Conclusão, o resumo desta invenção é o seguinte: congregados os sentidos surge a alma. Se tem o cheiro de Madeleine, o som de Madeleine, a imagem de Madeleine, o corpo de Madeleine, é Madeleine. Madeleine existia para o ouvido. Madeleine existia para o paladar. Madeleine existia para o olfato. Madeleine existia para o tato. Madeleine existia... Esse inventor, que não podia ter a exclusividade da mulher que ele amava, resolveu fazer o seguinte, levou essa máquina para uma ilha, convidou para esta ilha a mulher amada e muitos outros amigos, e ali eles conviveram despreocupadamente durante uma semana. Só que eles não sabiam que estavam sendo, digamos assim, filmados, captados pelas imagens. O cotidiano deles foi registrado na sua minúcia e no último dia o Morel comunica a todos os convivas, que apesar de no dia seguinte, todos eles irem embora, eles continuarão na ilha eternamente. Porque esta semana que eles viveram ali, vai se repetir eternamente, porque ela vai ser projetada no ar, mas estas imagens têm consciência e elas vão viver eternamente esta mesma semana. E aí o Morel continua contando, com os convivas um pouco assustados, e diz a eles: isso lhes permitirá se fundirem numa vida sempre nova, em cada momento da projeção. O futuro muitas vezes deixado pra trás, conservará sempre os seus atributos. Olha só qual é a invenção temporal dele. É a imortalidade garantida, MAS o futuro aberto. Sempre o instante vivido como se o futuro estivesse completamente aberto. Tem um detalhe técnico nessa invenção do Morel, ela é acionada pela maré, mesmo quando todos os habitantes dessa ilha ou o próprio Morel terão passado, essas imagens continuam, porque a maré continua, e o mar funciona sozinho. Imagens vivas eternamente. Coisa difícil de pensar, a não ser na ficção. Contei essa historinha para introduzir a idéia de eterno retorno. Há várias interpretações diferentes sobre o eterno retorno que são muito diferentes entre si. Uma delas diz assim: nós que estamos falando sobre o eterno retorno já falamos aqui sobre o eterno retorno infinitas vezes. Nós voltamos a estar aqui, nesta exata constelação, ouvindo falar sobre o eterno retorno, infinitas vezes, numa infinidade de vezes e esta é a dificuldade que nasceu de aceitar essa infinidade da repetição. Isso quer dizer o quê? O mundo se volta ciclicamente e se repete ad nauseam. O mundo se repete eternamente e não tem finalidade alguma. Dá um sono danado, hein? É um pouco essa imagem de um mundo cíclico, eternamente repetido, sem nenhuma progressão, não tem um desfecho, uma finalidade. É a idéia de uma repetição incansável, que exclui qualquer finalidade e, portanto, aceitar essa idéia de repetição, equivale a desfazer-se radicalmente de Deus. Se a gente considera o mundo constituído por uma quantidade finita de elementos e, portanto, de uma quantidade - embora imensa mas finita de combinações possíveis -, ao cabo de um certo tempo, recomeça tudo. Se o mundo tem dez pedaços, dez elementos, tem um número finito de combinações, e esgotadas estas combinações, se recomeça as combinações já feitas e é uma repetição infinita. Totalmente mecânica. Aí não tem Deus, têm uma certa ordem, mas não tem deus, não tem finalidade... Nessa concepção é o eterno retorno do mesmo, esgotadas as combinações possíveis, recomeçam as combinações já feitas. Essa é a visão cosmológica, é uma interpretação cosmológica do eterno retorno. Ah, então Nietzsche está falando que tudo vai voltar... Essa idéia que tudo retorna, ainda nessa concepção cosmológica, pra assumir isso, Deus precisa ser esvaziado, tem aí um ateísmo necessário pra embarcar nessa idéia. Passo rápido por essa e vou pra outra que é muito mais interessante. A idéia de um eterno retorno não é uma tese cosmológica, mas, uma espécie de imperativo ético. E o que diz esse imperativo ético? Viva este minuto, como se ele fosse retornar por todo o sempre, ame-o como sendo eternamente repetível, mas não no sentido de uma aquiescência passiva de um fardo a ser carregado, esse amor é um amor ativo, é um desejo, é um desejo tamanho desse instante, que se deseja que ele retorne eternamente. É desejar tanto o instante, que esse instante possa voltar eternamente, sem que isto me assuste, ao contrário. É querer esse instante infinitamente. Se eu quero este instante infinitamente, eu também o quero infinitas vezes. Eu o quero tão intensamente, tão infinitamente, que eu o quero infinitas vezes. Já requer que cada um tenha abandonado seu espírito de vingança contra o tempo, pra querer tão infinitamente, que queira infinitas vezes o próprio instante dos fatos. É preciso não ter nenhuma raiva do tempo. O que quer dizer essa raiva contra o tempo. Por que o tempo dá raiva? Por que o tempo provoca ressentimento no homem? Por que esse espírito de vingança, do homem contra o tempo? Diz o Nietzsche, porque o passado é irremediável, isto é, o passado pesa sobre mim, como um peso morto. De todo o passado eu não tenho domínio algum, então o que acontece com o tempo é que ele fabrica estes pesos mortos, que constituem sobre mim um fardo, que eu carrego e do qual tenho a maior raiva, o maior ressentimento. Eu quero me vingar contra este tempo, que ao passar produz montanhas de fardos, irremediáveis, como os grandes rochedos do passado, contra os quais eu não posso nada. É como se o tempo me roubasse o direito que eu gostaria de ter sobre as coisas, porque ele leva essas coisas, essas experiências e as cristaliza como passado, como grandes rochedos, que eu não consigo pulverizar. É o espírito de vingança contra o tempo. É a vontade dando de cara com a rocha do passado, ali não tem como pegar. Tem esta vontade, que se depara com o passado e contra o qual ela não pode nada, é impotente. Impotência com o passado duro. Endurecido. E que relação com este tempo que faz isto? Que relação de ressentimento absoluto com o tempo? O tempo priva um pedaço da nossa vida e nossa ascendência sobre ele, ou seja, o tempo impede que a gente se aproprie de um pedaço dessa vida. O Nietzsche coloca que o foi é terrível, o homem enxerga o foi como terrorífico. O foi como passado, que ele tenha sido terrível, ele pesa, e se ele tenha sido magnífico, talvez pese o fato de que o tempo o levou. O ódio é contra o fato de que o tempo não pode voltar atrás. E o fato consumado, que é consumado mesmo, e que, e esta é uma frase do Nietzsche: é a rocha que não podemos deslocar. E queremos nos vingar, tornando o querer um malfeitor. Não obstante, continuamos sujeitos ao devir, mas continuamos do mesmo modo vingativo, contra o foi e contra o devir. É o ressentimento contra o tempo e a figura do tempo, que humilha o querer. Ao mesmo tempo que humilha, essa relação de submissão e sujeição ao foi, é de uma total indignação contra esse fardo que a gente carrega. Não tem outra coisa a fazer senão protestar. O que eu estou falando sobre o espírito de vingança contra o tempo, não é contra o tempo. É contra o tempo, tal como o homem o construiu e o vive. Agora, pode ser que todas estas teorias novas sobre o tempo, propulsione uma outra ética em relação ao tempo. Esta é uma das discussões mais antigas do pensamento, e o drama do tempo é tão antigo quanto o pensamento sobre o tempo, porque tem a frase belíssima do Santo Agostinho, que diz mais ou menos o seguinte: quando não me perguntam, eu sei do que se trata, mas se perguntam o que é o tempo, eu não sei. Como se fosse inconciliável saber e dizer sobre o tempo. Saber todo mundo sabe, mas quando é obrigado a definir, ou convocado a explicar, aí tem um impasse do verbo. E a interpretação do Deleuze sobre Nietzsche, sobre o eterno retorno? Diz o Deleuze, não é tudo que retorna, só retorna o que tem força de retornar. Só tem força de retornar o que merece retornar e só merece retornar aquilo que é afirmativo. Tem uma regra no eterno retorno. O eterno retorno é como uma roda, que tem uma força centrífuga e ela manda embora tudo que é negativo. Tudo que é em termos, reativo, ressentido, não tem força para voltar, não merece voltar. Tudo o que quer o mesmo não volta. Porque querer o mesmo é ser reativo, ser ressentido, ser niilista, é querer o nada. Só retorna o que quer o diferente, retorna o que se afirma de diferente. O que quer o mesmo, o que quer a mesma coisa, ou seja, nada, este aí não tem força de retornar, não merece retornar e é expelido para fora do eterno retorno. A idéia um pouco é a seguinte: querer que retorne tudo aquilo que era criado por uma vontade afirmativa, e tudo aquilo que era uma meia vontade (uma vontade fraca, uma vontade esgotada) sai fora, digamos que daí tiramos uma regrinha, e ela tem um pouco a ver com a segunda interpretação. Seria assim, seja lá o que for que eu queira, por exemplo, a minha preguiça, a minha covardia, o meu vício ou a minha virtude, eu devo querê-lo da maneira que eu queira o seu eterno retorno. Só que desta maneira, é óbvio, se eu quero a minha preguiça e quero que ela retorne eternamente tem aí uma vontade afirmativa, que faz com que a própria preguiça deixe de ser uma meia vontade, ou deixe de ser uma preguiça. Esta regra é estranhíssima. Quando eu penso: "Ah!! Isso aí eu vou fazer uma vez na vida e nunca mais eu quero saber disso". É como se essa fosse uma meia vontade. "Uma vez e nunca mais", esse nunca mais é uma maneira de dizer que eu quero me livrar disso pra sempre, então eu não tenho essa vontade que assumiria eternamente esse minuto, ou esse momento, ou esse estado. É um meio querer. Claro, uma preguiça que eu quisesse eternamente, já seria quase uma coragem, em querê-la eternamente, porque há aí uma transmutação, a própria coisa torce quando eu a quero inteiramente. A idéia é: querer inteiramente aquilo, querer infinitas vezes, ou infinitamente... a relação que está em jogo é uma certa relação da vontade com a vida e da vontade com o tempo. Não ser ressentido contra o tempo, é não dizer: Ah, FOI uma vez e nunca mais quero saber disso, OU, pena que isso nunca mais volte, uma relação de impotência com o tempo. Esse eterno retorno do mesmo, é o eterno retorno do diferente. Não é o mesmo que retorna. No retorno já se dá uma diferença, a vontade conseguiu imprimir àquele objeto uma diferença, porque é uma vontade afirmativa suficiente para comportar essa diferença. Não é uma circularidade monótona, nada disso, é uma roda seletiva, que vai descontando dos fios as meias vontades, as vontades fracas, as baixezas (não no sentido moral), as baixezas são essas vontades cansadas que querem o mesmo, que querem sempre continuar o mesmo. Vai aprimorando, vai fazendo uma reversão que passa por este crivo da afirmação e deixa pelo caminho aquilo que é da ordem da reação. Isso só funciona por reatividade. É curioso, porque no fundo, no entender dessa explicação, não quer dizer que tudo volta, ao contrário. Sempre acho curioso a coexistência dessas 2 idéias. Uma, digamos que é esta inclinação para repetir o mesmo, a coisa como um ciclo, e por outro lado, ao mesmo tempo, há como que um ressentimento contra o tempo, que leva embora e nunca mais... é aquela idéia da impotência da vontade diante do passado, cristalizado como rocha, dentro da qual a gente nada pode. E a idéia do Nietzsche é uma vontade forte que faz do acaso uma necessidade e que pode querer o seu passado, e daí, uma relação com o tempo diferente. Não é uma relação de impotência com o tempo que já foi e levou, cristalizou... mas é uma relação de potência com o próprio tempo, com o próprio passado. Querer o que foi, querer o que me adveio, querer até o que me estraçalhou, querer... é a vontade olhando de frente o tempo sem negá-lo, ou sem fugir dele. É uma idéia muito estranha, porque a gente está acostumado, literalmente, com uma linha do tempo, em que a gente está situado em um dos pontos em relação ao restante, o restante não existe, ou existe como fatalidade. O passado é objeto da vontade. Querer sempre e querer até o que foi, até o que foi ruim, péssimo, mas nesse querer, esse ruim e péssimo já sofreu uma transmutação, ficou objeto de um querer, que é forte o suficiente. Não há uma descontinuidade. Essa idéia do tempo como uma linha... dizem que é a maior invenção da humanidade foi o tempo, a mais determinante. Inventaram esse antes e esse depois. Têm culturas que lidam com isso muito diferentemente. Que relação o homem estabelece com este antes? Ele inventou o antes e o que ele faz com este antes? Uma possibilidade é exatamente esta, ele odeia o antes, o que já foi, porque já foi, porque virou um fardo, porque cristalizou, porque ele tem que carregar, porque não dá para pulverizá-lo, é uma rocha que ele carrega. Mas, o ódio está também em relação ao bom que não retorna. Claro, que aí não tem nenhuma concepção de resignação, não é isso. A resignação é outra história, é o contrário, é a fraca vontade que aceita o fardo e acha que tem de carregar pela vida afora. Porque é impossível ser resignado sem um certo ódio embutido em relação a este fardo que é obrigado a carregar... é o acaso como condição de afirmação de nossa potência. O eterno retorno não é uma idéia cosmológica, é uma idéia ética. A idéia cosmológica seria: tudo retorna, é um ciclo, a vida é assim mesmo, tudo retorna, o universo físico é constituído assim, tudo sempre retorna igual. No pensamento ético é outra história. Não tem nada de inevitável aí, essa roda não é dada ela tem de ser CONSTRUÍDA. Em geral, entende-se o eterno retorno no sentido de uma teoria cosmológica do Nietzsche. Nada garante que será assim, pelo contrário tudo tem demonstrado o inverso. Só temos preservado os meio-quereres. Que roda é essa? Na verdade é quase uma questão de engenharia política, ética. Como construir essa roda? A idéia cosmológica enclausura o Nietzsche dentro do século 19, no pior positivismo do século. Ao invés de abrir Nietzsche para o nosso século, ela fecha Nietzsche dentro das teorias científicas vigentes e outras mais e aí dá a idéia de um ciclo cosmológico. Vamos ao Zaratustra, em que se fala do eterno retorno. Não são textos especialmente difíceis, mas são abissalmente enigmáticos. Deixa eu situar quem está falando com quem. É Zaratustra e o anão. É Zaratustra dando uma bronca no anão. Quem é o anão? O anão está mais perto da terra, ou seja, ele está mais submetido à gravidade. O anão é o espírito de gravidade, é o que não consegue muita distância do chão, e o anão não tem muita mobilidade própria, ele só tem uma mobilidade, quando ele é carregado, quando está nas costas do outro. A figura do anão é uma espécie de cópia ridícula do Zaratustra, o anão se diz companheiro do Zaratustra e tenta se equiparar a ele, mas a única maneira de ele chegar perto do Zaratustra é montando em cima do Zaratustra. O anão sempre acha que entende o que Zaratustra diz, seria aquele que distorce a fala do Zaratustra. É o Zaratustra distorcido, ridículo, totalmente sem leveza. Estamos num diálogo entre os dois... "Olha este portal... até eu que te trouxe para o alto". Talvez seja esquisito entrar no Zaratustra assim, pelo meio, pelo estilo do diálogo e todas as figuras, fica um pouco metafórico, labiríntico... É um pedaço, é um início de uma reflexão sobre o TEMPO. Por que? Zaratustra e o anão chegaram a um portal, que ele chama de instante, ou momento, e nesse portal saem duas vias, duas eternidades, uma pra frente, outra pra trás. A questão do Zaratustra é mais ou menos assim, a pergunta é básica: que relação há entre o momento, o passado e o futuro? Qual a natureza dessa relação? E o anão tem uma resposta imediata: o tempo é circular. A idéia do anão é aquela em que tudo volta do mesmo jeito. É aquela primeira hipótese do eterno retorno, como uma hipótese cosmológica, é o ciclo que se repete eternamente. Todas as versões baixas que a gente ouve do Nietzsche, são como que caricaturas, assim como o anão é uma caricatura do Zaratustra. O anão é a simplificação do senso comum e o senso comum sempre carrega os preconceitos vigentes. O Zaratustra tem uma visão de um homem convulsionado, por uma espécie de negrume. O que é isso que convulsiona este homem? E essa imagem da cobra que retorna várias vezes no livro inteiro, que é uma imagem sobre o eterno retorno, a serpente como uma espécie de símbolo do eterno retorno? Tem dois animais que acompanham Zaratustra o tempo todo, um é a serpente e o outro é a águia, são os animais do Zaratustra. Tem uma interpretação que diz o seguinte: a águia é a Vontade de Potência e a serpente é o eterno retorno, em geral, a águia leva no pescoço a serpente enrolada, no livro, às vezes. Uma outra interpretação - aqui também tem trocentas abordagens - a serpente simboliza o eterno retorno e a águia, na maneira dela voar, simboliza também uma outra faceta do eterno retorno, mas é uma outra circularidade, que não é a mesma da serpente. O que é essa serpente na garganta do homem que o sufoca desse modo, que o convulsiona? Aliás, é uma imagem das mais terroríficas Uma interpretação mais frequente desse trecho, é o homem tomado pelo horror de que tudo sempre há de voltar, do mesmo modo. Se a serpente é o eterno retorno, o homem está absolutamente mortificado com essa idéia, de que tudo há de sempre voltar da mesmo jeito. "Tudo vai, tudo volta... até, o pequeno homem..." Vamos começar por uma frase aqui que diz o seguinte: "o grande fascínio que sinto do homem, isto penetrara a minha goela e me sufocava e aquilo que proclamava o advinho, tudo é igual, nada vale a pena, o saber nos sufoca". Um pouquinho mais adiante: "eternamente retorna o homem porque está cansado, o pequeno homem, assim bocejava a minha tristeza, arrastando da perna e sem poder adormecer" e "um dos dias viraremos o maior e o menor dos homens, demasiado semelhante um ao outro, demasiado humano, ainda que também maior. Demasiado pequeno o maior, esse era o fastio que eu sentia de toda a existência". Zaratustra está enojado com este eterno retorno do pequeno mesmo homem, que diz nada vale a pena e tudo há de voltar do mesmo modo. Zaratustra, entende que ali está o pivô da doença do Ocidente. Qual é a doença do Ocidente? É o niilismo. O niilismo é a valorização do nada. O niilismo é "o nada vale a pena" e também é o tudo. Equivalem-se. É esse nada voltando eternamente, o que Zaratustra está dramatizando, é essa enfermidade. O interessante é o próprio homem morrendo de si mesmo. Tá doente de si mesmo. Tem a idéia de que todos só conseguem acusar a vida. A vida é o grande réu do Ocidente... "Se alguma vez, nos salões de um palácio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!" BENÇA, Baudelaire!!!! Bom final de semana pra todos D. |
Voltar ao topo [Aeternus:5329] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-11) - TEMPO...TEMPO
 Em visão de vôo rasante, me impressionou a acolhida do tema da temporalidade. Não poderei, nesse momento comentá-los, mas na segunda-feira farei algumas considerações. Obrigada pelas contribuições e bom final de semana. Márcia |
Voltar ao topo [Aeternus:5330] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-11) - RE:TEMPO...TEMPO 7: Eterno retorno (Alô Davy! Alô Jansy! Alô Márcia! Alô Marcos!)
 Estou atarefadíssima, o que não quer dizer que esteja ocupada. Parece contraditório, mas é que me coloco à disposição de filhos, netos, amigos (em algumas ocasiões) de tal jeito que me sinto como se estivesse congelada no ar ou dando saltos Matrix em camera lenta. Daí que, ante as duas longas contribuições do Conde, estou sem saber como fazer. Acho que não poderei responder, ainda, do jeito que gosto. Só soltar algumas associações sem eira nem beira. Prometo mais cuidado depois. Quando ouvi tanto "alô", lembrei de uma propaganda antiga que tocava na era do rádio: "Alô, alô...quem fala, é do armazém do seu José? A mamãe mandou pedir para comprar uma lata, uma lata de biscoitos Aymoré..." Com o resto de uma lembrança da invenção de Morel ( não lida direito ainda) lembrei de uma coleção de fotografias tiradas pelo meu pai e que são de cortar o coração, donde não sei como organizá-las para produzir algo como uma "obra". Durante mais de vinte anos ele fotografou o brinde de ano-novo no apartamento, sempre o mesmo com os mesmos móveis, onde morávamos no Rio. Vai desde que eu era menininha, adolescente, casada e se vê meus pais que, jovens vão envelhecendo e se sentando mais afastados...As últimas tem meu pai, sozinho, com uma foto da companheira falecida, levantando uma taça de champanha...( tem uma com a lápide do túmulo, ele estava com mais de oitenta anos quando se fotografou usando o automático). Acho um tesouro, a coleção. Mas...há anos que não sei o que pensar: tem um "real" de um buraco no tempo que é quase insuportável quando tomo as fotos na mão e alinho em ordem. Na adolescência eu chegava atrasada nas festas da turma porque a foto tradicional, com o ponteiro certinho mostrando a meia-noite, tinha que ser realizada. Já mais adiante consegui que ele aceitasse um "cenário", ou seja, adiantasse os ponteiros para fotografar às dez como se fosse às 12 da noite. Há umas mensagens atrás do nosso tempo aqui da Lista escrevi uma linha de Shakespeare na qual ele fala do "prick of noon", ou seja, da "do meio-dia em ereção" , "pau duro das doze horas", algo assim. Eu conhecia a brincadeira de baianos que descrevem este "prick temporal" no formato de dois ponteiros do relógio esticadinhos para o alto. E só hoje caiu a ficha. Não havia relógio no tempo de Shakespeare! Relógiode pulso não havia com certeza ( foi uma das invenções do nosso Santos Dumont...) e a criação do inglês que conseguiu o premio de uma academia, depois de inventar um relógio especial de navegação para se determinar a longitude ( pena que o magnífico livro de Dava Sobel, "Longitude" esteja esgotado...) se deu depois do bardo. Então... Prick of noon deve relacionar-se com os ponteiros do relógio de sol. Ou não? Que coisa. Eu lia Shakespeare e nele incrustava nele uma imagem moderna, quase baiana... E só percebi isto por acidente. Tenho no consultório um lápis, no topo do qual coloquei um enfeite no formato de uma esfinge ( obra de arte do Humberto ). Ele fica meio despencado num copo entre o buquê das canetas inclinadas. Hoje um abajur lançou sua sombra na parede de modo tal que a esfinge ficou retinha e com novos contornos. Devaneando recordei a frase do "prick of noon" porque sempre achei que 11:50 ou 12:10 fornecia uma imagem mais realística e, ali, tinha a esfinge como se impondo pra mim. E pimba! Foi quando pensei no relógio de sol... Viu, Conde... hoje minha atenção não presta pra grande coisa não. Ainda por cima ontem fui dar uma aula e quando fui responder se seriam só as idéias o que era recalcado e não os afetos, descobri que tinha caído numa área perigosíssima. Afetos não são recalcados, são reprimidos ou inibidos ou deslocados ou somatizados, mas.... mas... O inconsciente voltou a se manifestar como um bolo de camadas, tudo com goiabada no meio. |
Voltar ao topo [Aeternus:5331] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-11) - tatibitando na resposta
 Caro Conde, entremearei comentários, ainda rapidíssimos e usando outra cor... ... há uma recusa minha a sintonizar plenamente com algo que me parece por demais abstrato, que parece desmerecer demais o Ente e o Real como dimensões do Ser...É como se dissociassem o Ente e o Real da idéia de Vida, e eu prefiro associá-los. Pra mim a descorporificação narcisica é o que pereniza o narcisismo do tipo curto-circuito... eu diria que essa descorporificação vem de um defeito estrutural da NOSSA linguagem. Comecei gostando da idéia de um defeito estrutural da nossa linguagem, depois empaquei de novo. Porque não sei distinguir como Lacan requer: Langue, Language, Lalangue, Mot, Discours. Linguagem é menos preciso do que " alíngua": existe a linguagem da matemática ou da arte! Wilfred Bion, que não distinguia estas coisas assim e considerava toda linguagem verbal como sendo uma forma de engano mais do que instrumento de comunicação, construiu uma grade para expressar, usando coordenadas especiais, a evolução da nossa apreensão do mundo do som ao mito, da pré-concepção ao conceito e indo até as equações matemáticas. Cada um expressaria sua apreensão do mundo e seu ser (num determinado nível plotado com "ação,atenção, juízo.." no outro eixo) com os recursos de que dispusesse... Lacan descorporificou o conceito de PULSÃO... já "formatada" pelo desejo, e eu vejo a pulsão mais como Das Ding, ainda que corporal. Das Ding ( que Lacan interpretou nas variantes de "A Coisa" e "A Causa" ) tem uma bela origem no projeto de Freud. É tudo aquilo que o bebê encontra na mãe e lhe escapa porque lhe é dis-semelhante. Vale conferir, mas não sei em que capítulo ( será onde trata dos Juízos?). Não há nada pulsional ligado ao Das Ding. A pulsão não é formatada pelo desejo... Esse preconceito, essa necessidade de se eleger um inimigo qualquer, seja numa guerra, seja numa disputa, é um curto-circuito linguístico que é um efeito colateral do advento desse "o Outro".Ah, diriam alguns, mas "o Outro" é sempre "o Outro" em qualquer cultura, raça, continente e planeta. Será? Será mesmo? Não... Então não sei se entendo e, portanto, não sei se concordo com o que você me conta de Lacan: "não há Outro do Outro". Conferir Análise do Eu e Psicologia de Grupo (ou algo assim e nas conferencias introdutórias 2 e em vários outros textos) para o "narcisismo das pequenas diferenças" em Freud. Lacan fala em algum lugar que é justamente o fato de que o Outro está não só fora do eu, como é também um "outro eu", que é exatamente esse "o Outro" que nos permite RE-conhecer alguma coisa do semelhante (real). Quando Lacan referiu-se ao "não há Outro do Outro", uma das leituras aponta para o fato de não haver uma garantia ontológica da Verdade, um Ser ou Deus como suporte do "Outro". Each man kills the thing he loves...Já dizia Oscar Wilde. E..como é mesmo? A palavra é a morte da Coisa? Curto-circuito. Será o benedito que, se a gente é capaz de imaginar algo como o EXERCÍCIO da liberdade, da invenção, da apropriação do devir pelo próprio sujeito, e a gente não é capaz de imaginar algo que desfaça o curto-circuito? Lacan descorporificou o conceito de PULSÃO... já "formatada" pelo desejo, e eu vejo a pulsão mais como Das Ding, ainda que corporal. Das Ding ( que Lacan interpretou nas variantes de "A Coisa" e "A Causa" ) tem uma bela origem no projeto de Freud. É tudo aquilo que o bebê encontra na mãe e lhe escapa porque lhe é dis-semelhante. Vale conferir, mas não sei em que capítulo ( será onde trata dos Juízos?). Não há nada pulsional ligado ao Das Ding. A pulsão não é formatada pelo desejo... Esse preconceito, essa necessidade de se eleger um inimigo qualquer, seja numa guerra, seja numa disputa, é um curto-circuito linguístico que é um efeito colateral do advento desse "o Outro".Ah, diriam alguns, mas "o Outro" é sempre "o Outro" em qualquer cultura, raça, continente e planeta. Será? Será mesmo? Não... Então não sei se entendo e, portanto, não sei se concordo com o que você me conta de Lacan: "não há Outro do Outro". Conferir Análise do Eu e Psicologia de Grupo (ou algo assim e nas conferencias introdutórias 2 e em vários outros textos) para o "narcisismo das pequenas diferenças" em Freud. Lacan fala em algum lugar que é justamente o fato de que o Outro está não só fora do eu, como é também um "outro eu", que é exatamente esse "o Outro" que nos permite RE-conhecer alguma coisa do semelhante (real). Quando Lacan referiu-se ao "não há Outro do Outro", uma das leituras aponta para o fato de não haver uma garantia ontológica da Verdade, um Ser ou Deus como suporte do "Outro". Each man kills the thing he loves...Já dizia Oscar Wilde. E..como é mesmo? A palavra é a morte da Coisa? Curto-circuito. Será o benedito que, se a gente é capaz de imaginar algo como o EXERCÍCIO da liberdade, da invenção, da apropriação do devir pelo próprio sujeito, e a gente não é capaz de imaginar algo que desfaça o curto-circuito? |
Voltar ao topo [Aeternus:5332] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-11) - A Marca da Violência/ Tudo acontece em Elizabethtown
 Mais dois incensados pela crítica "especializada": o primeiro, "Tudo acontece em Elizabethtown", no fundo, no fundo, não passa de uma comédia romântica que se alonga mais do que o necessário com a pretensão de - já quase no apagar das luzes (êpa, no cinema deve-se dizer "quase no acender as luzes") - mostrar a "deep America" aos americanos (e ao mundo?). Não se nega que o diretor filma bem essas cenas, agora rápidas, com ótimas músicas e tomadas, quase emocionantes... desde que não nos demos conta da moralidade quase-"Forrest Gump" (em "F.Gump", o valor era "seja um idiota, você dará certo, seja feliz" e aí... o Bush ganhou duas eleições!). Neste filme a "moral" não vai tão longe, mas é bem conformista ao defender os valores interioranos da "gente boa" e "simples" de uma cidadezinha no Kentucky, para onde se vai quase sózinho nos vôos, segundo o filme. E contra os "valores" da mídia, do marketing, da propaganda, do sucesso & cia ilimitada. É tão hipócrita quanto um outro recente (esqueci o nome) que dizia, como este, que o imprtante não é ter sucesso, se bobear é "até legal" um bom "fiasco" ou "fracasso"... justo "eles", com seu menosprezo por um "reles" "second place"; que dividem as pesoas em "winners" e "loosers"; que entregavam Oscars com a frase "THE Winner is..." (até que se tocaram e mudaram para "The Oscar goes to...", já que os demais selecionados ficavam como "loosers", ou seja, até seria melhor nem ser "nominated" se se era "nominated" para depois "perder"). Enfim, um filme bem-embalado com "palavras que consolam". (E que, parece, está sendo sucesso... nossos críticos mudernos recomendam, e com entusiasmo!) Um certo tédio que vai se instalando pela duração esticada só é quebrado numa grande "cena de palco" (ou, em teatro, se diria "cena de platéia") da Susan Sarandon, que, infelizmente só aparece no início um tantinho (e estereotipada como viúva recente, desesperada para não se deixar "abater" pela perda - aliás, o filme também parece, todo ele, uma negação do luto pelas perdas sejam quais forem, inclusive dos entes queridos), mas de algum modo ela "rouba" o filme nesta cena, hilária e comovente (graças à atriz; outra, menos esperta poderia derramar o balde em ridículo atroz: Susan parece até se auto-gozar ao "sapatear" amadoristicamente, ao som do arranjo original do lento "Moon River"! Aliás, outra breve qualidade do filme é citar Audrey Hepburn na cena hilária da Princesa que tira o sapato sob o vestidão e depois não o encontra quando tem que levantar para dançar em "A Princesa e o Plebeu" - que de certa forma também dizia que vida de princesa rica era um saco, o que, entretanto já seria mesmo outra história; e "Moon River" parece ser outra citação a Audrey que defendeu a inclusão da música em "Bonequinha de Luxo" quando os produtores queriam amputá-la da trilha sonora). No extremo oposto, "A Marca da Violência" do famigerado Cronenberg, pelo menos nem chega a 1 hora e 40 minutos de duração, com "timing" bem mais acertado. Para Cronenberg até que não é tão escatológico (embora ele não perca a oportunidade de mostrar um possível estrago de tiros em duas faces; e como sempre, a exibição é grotesca e gratuita, ainda que breve). O roteiro tem lá seus pontos de interesse, mas pouco posso contar para não tirar o tal interesse de quem for assisti-lo. A situação básica que está nas sinopses dos jornais mostra um bom ponto de partida: a reação heróica de um homem comum numa (de novo) cidadezinha interiorana a um assalto violento pode trazer complicações adicionais à sua vida pacata. O ator Vigo QualquerCoisa-parecida-com-Metzgernstein (trabalhava, senão me engano nos filmes retirados do Tolkien) está sendo elogiado, mas sua "poker face" inicial não me pareceu tão adequada ao desenrolar posterior da história. Mas ele está bem e mantém o interesse do filme bem centrado nele. E está bem a atriz que faz uma bela esposa (Maria Bello, esa, eu não esqueci o nome... Freud explica?). Já William Hurt não escapa de uma decepcionante caricatura numa caracterização acima do tom, coisa em que não incorre Ed Harria, apesar do personagem dele ser tão estereotipado quanto o do Hurt. Difícil dizer algo mais ou discutir o filme sem "entregar" a história. De bom início, mas que "trava" em algum momento o ponto de partida interessante, embora, já explorado em muitos outros filmes. Há qualidades no atual desenvolvimento até certo ponto, mas Cronemberg me parece aquele cara já "instrumentado" por teorias psicanalíticas (e isso ficava mais do que evidente em seu filme anterior, "Spider", uma "case story" de psicose com "explicação" "psicanalítica" que era com o Ralph Fiennes). Aqui, esssa psicanalices são mais discretas, mas me ocorreram, em algum momento como uma demonstração da proximidade entre o erotismo e a violência/perigo como excitação numa cena "sexual", algo gratuita e menos verossímil para a perosnagem da esposa - que também tem uma cena sexual anterior bem menos excitante em condições mais "normais". Como em outros casos, os cineastas são "do ramo" e competentes em envolver o espectador, mas alguma coisa fica fake ou mal-demonstrada, até mesmo no caso de se aceitar as (supostas) idéias subjacentes à historinha do "Eizabethtown" ou esta do Cronenberg (que decai mesmo no quinto final quando o personagem do William Hurt entra em cena). Aliás, sobre "envolver o espectador", hoje li um comentário ao novo filme de Lars Von Trier, "Manderley", continuação de "Dogville" onde o crítico reconhece (ainda que admirando) a "manipulação da platéia" pelo cineasta no filme anterior. Finalmente, não fui só eu a achar isto. Claro que os "efeitos" dramáticos fazem parte da ficção, seja nos filmes, em peças, romances, etc. Mas eu quero mais que me enganem MESMO, que me iludam, que eu não perceba os cordéis dos marionetes... ou o encanto da supensão de descrença se desfaz. O proselitismo de Von Trier e dos últimos de Almodóvar enfraquecem, para mim, a qualidade de suas realizações e malbaratam seus talentos. Depois, o chato sou eu... Vai ver que, se não sou, estou. Quem manda ir tanto ao cinema e já perceber todos os velhos truques, apenas reciclados? ou ter alguns neurônios que lêem as entrelinhas dos roteiros e as "entrecenas" dos filmes? Mas, de vez em quando, existe por aí um "A Mão" (em "Eros") para renovar uma velha história onde não faltariam perversão & melodrama-clichês, só que elevados a um patamar de beleza por uma narrativa ao mesmo tempo clássica e criativa. Ou, mesmo dentro de formato "cinemão", uma extrema competência de contar bem uma boa história como em "Jardineiro Fiel". Ou, ainda, como em "Crash". Nem dá para reclamar tanto, afinal...
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Voltar ao topo [Aeternus:5333] Mensagem do Grupo48 -UAU!(2005-11-11) - UAU DENOVO!
 Foram mais de 40 mensagens só no dia 10/11, ontem...!!!!!!!!!!!!!! |
Voltar ao topo [Aeternus:5334] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-11) - RE:UAU DENOVO!
 Reclamão!!!! |
Voltar ao topo [Aeternus:5335] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-11) - RE:A Marca da Violência/ Tudo acontece em Elizabethtown
 Acabo de saber que o filho de um dos vizinhos do prédio em que morei no Rio ganhou um concurso com seu roteiro, mais um financiamento para filmá-lo, sendo que a história se passa nos anos sessenta e a dois andares acima de onde eu morava ( não creio que deva comentar muito...). Conheci os elementos que inspiraram a trama e achei emocionante. Estavam procurando um apartamento vazio que não tivesse sido reformado, por isso me contactaram. Conheço o pai ( contrabaixista italiano ) do cineasta mas, dele, não me recordo. Aquele edifício tem histórias... |
Voltar ao topo [Aeternus:5336] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-12) - RE: Alô e os ponteiros do relógio
 Resolvi investigar melhor sobre relógios e Shakespeare ( ainda mais que, logo me ocorreu, ao meio-dia as sombras ficam reduzidas a um ponto negro: uma medida do "prick" num relógio de sol não seria muito legal!) . Eis o que encontrei: Mercutio ( no Romeu e Julieta de Shakespeare ): "the bawdy hand of the dial is now upon the prick of noon." Ou seja, o emprego de "hand of the dial" indica claramente os ponteiros de um relógio. Teria sido de...bolso????? Há uma referencia de Holden Caulfield sobre Mercutio in J.D. Salinger's Catcher in the Rye: "He was very smart and entertaining and all. The thing is, it drives me crazy if somebody gets killed — especially somebody very smart and entertaining and all — and it's somebody else's fault." |
Voltar ao topo [Aeternus:5337] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-12) - RE:RE: Mercutio
John McEnery fez um estupendo Mercutio sob o bombástico e limitado Franco Zefirelli. Embora seja magrelo, rosto encovado e ossos sobressaltando, me fez rir um bocado. Adoro quando ele chama de 'a sail' a gorduchona emperequetada, gown e véus, com aqueles veludos que dobram o volume da mulher, quando esta atravessa a praça central de Verona. E é tocante o momento em que ele está morrendo, respondendo a um dos amigos se o ferimento é grave. Traduziram como "é suficiente" - bem funcional, não sei qual a escrita original do Shakes aqui... |
Voltar ao topo [Aeternus:5338] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-12) - RE:RE:RE: Mercutio
 | Mercutio | I am hurt. A plague o' both your houses! I am sped. Is he gone, and hath nothing? | | Benvolio | What, art thou hurt? | | Mercutio | Ay, ay, a scratch, a scratch; marry, 'tis enough. Where is my page? Go, villain, fetch a surgeon. [Exit Page.] | | Romeo | Courage, man, the hurt cannot be much. | | Mercutio | No, 'tis not so deep as a well, nor so wide as a church door; but 'tis enough, 'twill serve. Ask for me to-morrow, and you shall find me a grave man. I am peppered, I warrant, for this world. A plague o' both your houses! 'Zounds, a dog, a rat, a mouse, a cat, to scratch a man to death! A braggart, a rogue, a villain, that fights by the book of arithmetic! Why the devil came you between us? I was hurt under your arm. | | Romeo | I thought all for the best. | | Mercutio | Help me into some house, Benvolio, Or I shall faint. A plague o' both your houses! They have made worms' meat of me. I have it, And soundly too. Your houses! [Exeunt Mercutio and Benvolio.] |
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Voltar ao topo [Aeternus:5339] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-13) - RE: Mercutio 3 e Romeo
 | Mercutio | I am hurt. A plague o' both your houses! I am sped. Is he gone, and hath nothing? | | Benvolio | What, art thou hurt? | | Mercutio | Ay, ay, a scratch, a scratch; marry, 'tis enough. Where is my page? Go, villain, fetch a surgeon. |
Eu não lembrava desse Mercutio auto-depreciativo...não sei se o Zefir aplacou este ângulo no personagem. O que é 'hath' ? Inglês arcaico ? E por que 'marry' ? Senso duplo ? Romeo sai dali falando 'I'm the fortune's fawcett', e tanto por essa ação entre Thibalt e Mercutio, onde a espada passa por ele, quanto por essa fala, já antecipa sua morte trágica. |
Voltar ao topo [Aeternus:5340] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-13) - RE:RE: Mercutio 3 e Romeo
 No, 'tis not so deep as a well, nor so wide as a church door; but 'tis enough, 'twill serve. Ask for me to-morrow, and you shall find me a grave man. Romeu não avalia a extensão do estrago e Mercutio responde: Não estou ferido tão no fundo quanto a água de um poço, nem meu ferimento tão largo quanto a porta de uma igreja; mas o suficiente, já vai dar. Peça notícias de mim amanhã e encontrará um coveiro ( grave man, duplo sentido com "homem sério"). Um scholar observou que a morte de Mercutio dá o tom emocional desta peça, e de outras que lhe seguiram, quando cria o clima de culpar agentes externos pelo que é da responsabilidade humana e culpar os humanos pela fatalidade, invertendo as acusações. Não vi nada disso, senão um retrato daquele tipo de valentão que faz piada até na hora de morrer... Ante-ontem revi, quase até o final, um dos filmes dos irmãos Taviani que me causara impacto quando assisti no cinema da primeira vez. Fala de um barão de poucas terras e grande ambição, que pretende servir ao rei, depois ao papa, finalmente a Deus atrás de um patrão mais imponente. Tentado por uma mulher enquanto vivia de eremita, corta um dos dedos com o machado e vira santo milagreiro... Meu prazer com o filme foi renovado: nenhuma cena excessiva, as paisagens italianas se oferecendo no que há de terrível e de belo no ponto certo. O que achei mais lindo foi ver ao longe os rebanhos de ovelhas se unindo e separando na paisagem, as texturas de chão e pedra, madeira ensolarada descascando e a lentidão dos desvelamentos. O estranho é que atualmente convivemos mal com este olhar espraiado e reflexivo: novamente meus companheiros de "cinema" se entendiaram e não fui até o final. O que estará mudando no nosso ritmo? |
Voltar ao topo [Aeternus:5341] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-13) - RE: viciando os sentidos
 De certa forma isto foi também abordado nessas discussões sobre o tempo, ao longo desses dias. Nossos sentidos são convidados a se viciarem no excesso. Excesso é 'bom', excesso é 'a meta'. Um filme como o insuportável "Moulin Rouge", em que o diretor joga no lixo milhões de dólares da produção&direção de arte para se masturbar com cortes alucinantes, dando pretensamente 'ritmo' e 'ação' à narrativa - esta na verdade torna-se um monte de cacarecos, impossíveis de causar codififcação e enternecimento - além de esterilizar seu elenco e fotógrafo. Se diretores como Theo Angelopoulos e Andrej Tarkovski exageraram nos planos longuíssimos e no direito de serem chatos, esses reis do efeito especial e da montagem video-clip conseguem juntar a chatice ao nada. |
Voltar ao topo [Aeternus:5342] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-13) - RE:RE: viciando os sentidos
Florião, concordo com o vício dos excessos, mas a lentidão dos Taviani não cabe nesta categoria porque há uma naturalidade no giro da camera percorrendo um horizonte vasto que sugere o movimento espontaneo do olhar reflexivo. Não é nem como o ritmo do Antonioni, o tal na escala do tempo real "objetivo", é uma visada sonhadora, de quem se deixa penetrar pela paisagem. O excessivo está nos "montes de cacarecos", como você bem lembrou a propósito do "Moulin Rouge" que invadem o cenário para entreter ou ocupar o espectador. Creio que foi isso que você escreveu, mas tive vontade de relembrar mentalmente os planos dos Taviani... Acho que o filme se chama "O sol à noite", não sei, não entendi bem e não consigo memorizar. |
Voltar ao topo [Aeternus:5343] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-13) - Mulundu e Henri Moore
 
Estive hoje com Admar Horn e Miguel Carlmon na exposição do Henri Moore e consegui fotografar uma escultura que tinha dois espinhos se beijando com a superposição de um espinho de uma árvore que estava por perto. Li na plaquinha que era um "mulundu" e lembrei que há uma canção de crianças que tem esta planta ( que não havia visto antes, talvez porque considerei uma paineira e nem prestei mais atenção para corrigir o engano ). Miguel sugeriu que eu consultasse o Gallego pois ele, seguramente, conheceria a cantiga do pé de mulundu. Achei boa idéia. Então segue a foto e o pedido para complementar o espinho... |
Voltar ao topo [Aeternus:5344] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-14) - RE: Il Sole Anche di Notte
 Ô muié !...esse filme é belíssimo, e volta e meia a ele me refiro. Tanto o título italiano "Il Sole Anche di Notte" quanto o francês "Le Soleil Même la Nuit" são lindos. É o do Barão Sergio ( creio que 'de Giuramondi' ), e a musa 'pervertedora' do mesmo, quando virando curandeiro, a Charlotte Gainsbourg. Tenho a trilha belíssima - ainda que repita o mesmo tema, em anadamentos diversos - do Nicola Piovani, músico que sucedeu o Nino Rota em Fellini. Os Taviani são talentosos, e também aprecio a pulsação habitual deles. O Theo Angelopoulos de "Paisagem na Neblina" é lentíssimo mas interessante. Do Tarkovski, apenas "Solaris" me agradou, já que depois de "O Sacrifício" ( que Gallego e o Conde apreciam )e "Nostalgia" desisti dele. |
Voltar ao topo [Aeternus:5345] Mensagem do Grupo48 -Márcia Adorno(2005-11-14) - As faces do tempo
 As apreciações do Conde sobre a temporalidade remetem a inúmeras possibilidades, tal como o tempo com suas diversas faces. Diz ele “...o sonho contemporâneo é a abolição do tempo... a instantaneidade televisiva em que se fica hipnotizado diante da tela, a gente fica no instante vazio...as tecnologias visam abolir a distância espacial e a densidade temporal...passa para um regime da instantaneidade universal...não seria uma tentativa astuciosa de se desfazer do FOI?” Com isso ele retoma minha indagação se não seria a nossa imensa angústia diante da idéia do nada do nosso ser diante da mort,e para a qual caminhamos independente da vontade, sobre a qual não exercemos nenhum domínio. O instantâneo repetitivo e vazio televisivo segundo ele seria um não-tempo. No meu entender não seria isso, seria exatamente algo colocado no lugar desse vazio, ou a ilusão de se ter um não-vazio, o vazio preenchido pelo não-pensar, a saturação exclusiva da visão e audição, fragmentos que tomam um valor metonímico da parte pelo todo. Como foi dito sobre “A invenção de Morel” que não conheço, mas que pela descrição pude pensar em algo assim: um único fragmento é pouco para acalmar meus desejos; busco então algo que diminua o contorno da falta, que imagino poder conseguir com o acúmulo de mais fragmentos na tentativa de construir um todo.” Só que caiu no engano de achar que o todo é apenas o emparelhamento ou empilhamento das partes. Por isso não posso concordar com a conclusão que não sei se foi o romance que chegou ou o Conde de que “congregados os sentidos surge a alma”. Isso porque o que ele tinha era a pura ilusão e com isso ele se contentou. O que lhe faltava era exatamente a alma que daria concretude ao que pude imaginar como efeito alucinativo auto direcionado. A questão do “FOI” entra em consonância com o que o Marcos falou sobre a memória, a partir da contribuição do nosso visitante Frederico (?) e o texto por ele apresentado sobre o eterno retorno igual-em-si-mesmo. Sem a memória o nosso passado inexiste e caímos no alheamento de nós mesmos e dos outros, o sentido não se constitui. Considerando que o termo existir no latim significa “opor-se a”, poderíamos pensar que o presente seria uma oposição não nos termos do “contradictus” mas como elemento referencial, em relação ao qual o “a significar” se materializa no “a posteriori” quando este se transmutar no “instante-já” Lispectorniano. O belo poema do André Maravilha, como disse Jansy, nos remete ainda à possibilidade de um futuro que podemos intuir o desfecho a partir da experiência que se acumulou possibilitada pela memória. “O deserto da eternidade tão vasta”, um lugar no horizonte que lá não alcançaremos, apesar do desejo. Aí entraremos na questão do eterno retorno... em outro “ instante-já” Márcia Adorno |
Voltar ao topo [Aeternus:5346] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-14) - RE:As faces do tempo : lagartixas pensantes ?
Estou terminando de ler "O Sol dos Scorta", com que Jansy me presenteou, e vou entrar em "Let it Come Down" ( traduzido por "Que Venha a Tempestade", do Paul Bowles, autor que aprecio de "The Sheltering Sky", livro enxutíssimo, sóbrio e fluido. Alusão confirmada pelo autor à citação Shakes de um personagem, talvez o domador da megera de "The Taming of the Shrew", ao vislumbrá-la já próximo de sua moradia, quando de seu 'arribamento', e igualmente já escutar suas imprecações e desaforos ). Na orelha do Bowles há uma citação, talvez de algum personagem - o autor gosta de colocar sua voz neste ou naquele personagem, e adota uma polifonia, onde cada um deles tem sua 'autonomia' - que diz "a vida não é um movimento de avanço e recuo; nem mesmo do passado para o futuro, da juventude para a velhice, ou do nascimento para a morte. O todo da vida não é igual à soma de suas partes. É igual a qualquer uma de suas partes, não existe soma." ( que vivam as lagartixas ? ) |
Voltar ao topo [Aeternus:5347] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-14) - RE:tatibitando na resposta: Each man kills THE THING he loves...
 Bem o disseste (nessa lacanização de Wilde):
A palavra é a morte dA Coisa.
Mas também pode ser a morte de outras coisas, como as que estou tentando... comunicar(?).
Sim, sei que a "linguagem" é uma coisa imensa, tudo é linguagem, pelo menos, tudo o que sabemos, mesmo o que pensamos e sentimos, não o pensaríamos sem uma linguagem, sequer identificaríamos o próprio sentir. Daí eu dizer, por exemplo, que no desejo já há uma linguagem, sendo a pulsão, em si mesma, algo tão irrepresentado quanto o Das Ding. No mínimo, o desejo, na forma como entendo, já não é pulsão pura, porque a pulsão pura não foi fenomenalizada ideativamente... Mas quando lembro do conceito lacaniano de enlaçamento de borda, ele parece sugerir que a pulsão pura... não existe. E é nisso que ele "briga" com Freud, ou tenta descer mais uma camada abaixo do que Freud consegue mergulhar, porque Freud não só diz que a pulsão pura existe, como tem localização corporal (as "fases"), coisa que a explicação do enlaçamento de borda vê como um esboço de objetalização da libido, algo aprendido e não inato como supôs Freud. Assim, por um lado, é por aí que Lacan pega seu gancho pra dizer que a pulsão, para Freud, já tem objeto. E eu digo que a pulsão, pra Freud, só tem objeto enquanto libido, mas não tem objeto enquanto sensorialidade corporal. No fim, eu vejo uma "briga" que não existe, mas que acaba encobrindo outras possibilidades de entendimento, porque é o entendimento do corpo sem objetalidade e sem linguagem e sem simbolização é que acaba escapando à compreensibilidade dentro do universo lacaniano, donde das Ding já é psiquismo puro ("descorporificado", como gosto de dizer). Mas os primeiros passos nessa direção não foram mesmo de Lacan, foram do próprio Freud, a partir da idéia de Id e de pulsão de morte - esta, incluída no Id - o que considero um cruzamento de linha. Eu não tinha essa opinião a respeito do Freud, quanto mais sobre Lacan (porque a respeito de Lacan eu não tinha nenhuma opinião), antes da minha pesquisa. Depois dela é que passei a ver o inatingível, o "impossível", a indefinibilidade da Causa/Coisa como correlata à indefinição da pulsão enquanto um instinto orgânico não completo (porque em si mesmo sem representação, tanto de fonte como de objeto), indefinibilidade esta vinda de um afunilamento no psíquico em detrimento da razão corpo/psiquismo. Esse esmaecimento da função corporal do erotismo na teoria freudiana ainda não se via na transição entre o Freud-médico e o Freud-aspirante-a-antropólogo.
É na pulsão segundo Lacan, que é uma espécie de "existência do que não existe", que eu vejo um "Real" mais morto e inanimado do que o do início de Freud (pré-Id), mais vivo, mais "Vontade" do que o Real lacaniano. A pulsão segundo Lacan já é por demais psíquica (sexualizada mas deserotizada), filha do conceito de ID, e o Id, na minha ótica, já é o daltonismo da psicanálise deixando de enxergar o "vermelho corporal" (que passa a ser um buraco negro).
Mas esse assunto todo apenas encosta na parede o meu conhecimento de Lacan - o que talvez me dê nota vermelha mesmo, me desautorizando a usar o vocabulário dele.
Mas então falemos da representativiade, da objetalidade, do conhecimento (do outro) versus a idealização na intersubjetividade (amores, ódios, adesões, convivências desejadas, convivências indesejadas, negação ou satisfação de desejos através da sociabilidade - que ilusões ou que verdades podem haver nela, na sociabilidade)...
[Por exemplo: "o que quer uma mulher?" E também aquilo que o Contardo colocou no título de seu artigo: "É preferível não conhecer quem amamos?". Há um desejo de saber (afinidades já constatadas mas que, incompreensivelmente, não levam ao próximo passo presumível: o encontro entre os corpos), mas me parece haver também o desejo de NÃO saber].
Acho que o apego ao ponto de vista lacaniano é um jeito de se enrolar numa teia ALHEIA a essa possibilidade de vir a saber que desejo é esse. Eu vejo a teia lacaniana de pensamento tão onisuficiente, que fica difícil contestá-la. Mas eu só me "enredei" até o ponto em que a cordinha - que eu vinha desenrolando pra me mostrar o caminho de volta pela floresta - acabou, mas acabou num ponto que me satisfez: a cordinha era minha pergunta-referência: será que, no universo lacaniano, o "Real" e a "VIDA" estão no mesmo plano? Quando constatei que NÃO, então catei minha cordinha e saí de lá. Daí talvez meu "lacanismo aos pedaços". Mas também é claro que pode-se dizer que, pra mim, a recusa a beber mais de Lacan talvez venha de defesas contra conhecimentos outros... (???)
De qualquer forma, vejo uma tensão na minha expectativa a partir das afinidades (que, no meu modo de ver, crer em afinidades é crer que se pode conhecer o outro) e a crença em Lacan (que põe sempre em dúvida a viabilidade desse conhecimento), coisa acirrada pelos próprios fatos: as "surpresas" que as mulheres me aprontam. E isso reedita a tensão entre o desejo e o medo à liberdade... |
Voltar ao topo [Aeternus:5352] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-15) - RE:Each man kills THE THING he loves...
 Que bom que Gallego voltou à carta, discutindo filmes com Florião: é sinal que resolveu o problema com o computador dele. Agora sou eu sofrendo enguiço do modem que me dá acesso à internet e com feriado não foi possível obter reposição ou consertar. Escrevo do consultório, onde vim apressadinha, apenas para conferir minha agenda. Então, segue o pedido de desculpas para vocês todos.
Beckett inventou um verbo: "To Eff ( the ineffable)" e certa vez escrevi um artiguinho curtinho sobre "Efar o Inefável" inspirada nesta brincadeira verbal. Não sei como situar as experiências não-verbais, que existem como experiência profunda ou, até, mística - até mesmo se tentasse um caminho como o do Bion que admite vários níveis cada vez mais sofisticados de expressão e que seriam "não verbais". . Para ele nossa abertura ao desconhecido e à Verdade absoluta situa-se fora da racionalidade e do conhecimento: você não conhece a verdade, você se transforma nela como um corpo que atinge a velocidade da luz se transforma em luz ( foi o que me disseram, mas não acredito muito ).
Quando se está apaixonado o mundo é diferente. Não sei como é a viagem do as drogas, as portas da percepção do Huxley, o LSD, o ópio do De Quincey, o láudano ou aquela coisa verde ( como se chama?) da turma do Verlaine. Paixão basta para abrir portas inesperadas... Mas não há como contar sobre a experiência.
A frase ( lindamente cantada pela Jeanne MOreau no filme "Querelle" ) sobre "each man kills the thing he loves" se presta a varias leituras. Não sei se a morte resulta porque se ama "the thing", mas é uma forma interessante de entender.
E fim do tempo. Hoje vi um filminho não muito ruim enquanto idéia e péssimo como típico produto da "cabeça de americano": Chicken Little. A ideologia é revoltante. Mas adorei o pedaço de céu caindo como uma placa de transito e a jogada com a música. Mas continua sendo um filme perdível...
Gallego, e então? Sabe ou não uma cantiga com a palavra "mulungu"?????
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Voltar ao topo [Aeternus:5354] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-15) - Mulungu(?) Aspirinas e Urubus
Estou devendo a Jansy uma resposta sobre "mulungu", palavra que desconheço. Suponho, entretanto, que uma canção de ninar (?) dizia "Bicho Papão sai da trás do Murundú, Pato, Farofa, Galinha e Angú", variante de "Bicho Papão sai de cima do telhado e deixa esse menino dormir bem sossegado". O que é "murundú"? Também não tenho a menor idéia, mas me lembra um montículo de qualquer coisa: terra, objetos jogados no lixo, bagunça de quarto de criança com roupas e/ou brinquedos empilhados, ou o que mais quiserem amontoar e chamra de "murundú" Murundu ou Mulungu? Seja como for, rimam com "urubu", bicho que está no título de mais um filme incensado pela crítica: "Cinema, Aspirinas e Urubus" - que me pareceu um bom filme mas jamais essa coca-cola toda que estão proclamando. É um filme de ritmo intencionalmente lento, com digressões de câmera sobre a paisagem árida ao extremo do Nordeste em tempo de sêca braba digna dos melhores filmes do antigo cinema novo brasileiro - que também é lembrado pela fotografia "espoucada", "queimada" pelo solzão besta e inclemente, com um belo colorido que fica quase preto-e-branco ou sépia, muitas vezes. Dois desempenhos excelentes, o do ator que faz um alemão no Nordeste em 1942 (fugindo de lutar na guerra) e um nordestino que pega carona com ele, tentando fugir da seca e do resto todo de vida miserável da região. A coisa que mais me chocou é que não precisamos de cidade cenográfica para reconstituir cidadezinhas ou vilas do interior do nordeste brasileiro: elas estão lá, existem ainda hoje como em 1942, 1932, 1962, 1992, 1972, 2002,3,4,5... Nada muda, a miséria é a mesma, as secas, as mesmas, esse horror sócio-econômico-ecológico ontem como hoje... e amanhã? Não há perigo de melhorar, pelo jeito... O filme assume sua lerdeza ao ritmo do calor que "passa" pela fotografia. Escuta-se "Serra da Boa esperança" e outras canções de antanho com vozes reconhecíveis de Carmen Miranda, Francisco Alves e outros em outras músicas que não identifiquei, várias falando do "Brasil" maravilhoso das composições ufanistas da era Vargas/Rádio Nacional. Essas músicas tocam no rádio do caminhãozinho do alemão representante da Bayer (alemã) para vender o super-lançamento (Ácido Acetil Salicílico, as aspirinas do título) com técnicas hoje primitivas, mas mostrando o ovo da serpente da indústria farmacêutica tal como é hoje, agressiva ao extremo, impondo mudanças nos códigos de doenças da Organização Mundial de Saúde, fazendo a cabeça dos médicos, enfim, uma das cinco (ou três) indústrias mais lucrativas do planeta. Fiquei pensando naquela gente pobre e ignorante tomando o remédio que alivia "tudo", como diz a frase de propaganda na lateral do caminhão. Sem comida, com o estômago vazio, quanta dor de estômago ou mesmo sangramento de úlceras devem ter ocorrido por conta da auto-medicação tão típica no Brasil. Mas o personagem do alemão não é do mal: pelo contrário, ele é contra todas as guerras, fugiu de uma, veio dar com os costados num inferno de caatinga, fazendo seu trabalho honesto dentro dos padrões possíveis. Só não dá para entender um lenço de cambraia, perfeitamente dobrado e passado no bolso de um sujeito amassado pelo desconforto, vivendo (sobrevivendo) em condições um tanto precárias. "Furo" mais do que perdoável da produção. O filme é muito melhor do que uma ou outra falha dessas. Mas a empatia maior da platéia vai para o retirante, um ator de histrionismo discreto, manhoso e malicioso como um nordestino esperto, ainda que sem acesso à cultura. O ator que faz o jovem alemão é excelente mas seu personagem tem menos oportunidade brilhar como o outro. Mas que o filme ganharia com uns 20 minutos a menos e uma montagem menos digressiva, uma câmera com menos "tempos mortos", ganharia. Já sabemos que está quente por lá, que tudo tem seu ritmo de fim-de-mundo. Não carecia tanta lerdeza. Mas é um filme bom. E digno.
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Voltar ao topo [Aeternus:5355] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-16) - RE: Rainer Werner Fassbinder então matou...
...ele mesmo ! Amar demais a si mesmo é um problema... E volta sempre a hybris. |
Voltar ao topo [Aeternus:5356] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-16) - RE:Mulungu(?) Aspirinas e Urubus
 Em 1904, a Typographia Commercial de Maceió realizou o feito da excelente impressão do Diccionario Musical/ / contendo: // Todas as abreviaturas, expressões, phrases, // vocabulos, sua techinologia, a par da nomenclatura dos / instrumentos musicaes desde sua // mais remota antiguidade; e mais ainda a theoria, pratica, // etymologia e synonymia, em geral; seguidas de // uma ligeira e rudimentar explanação historica na maioria // de seus respectivos artigos // compilado e coordenado // pelo Professor // Isaac Newton // Natural do Estado de Alagoas
extrato
Modinha. Diminutivo de Cantiga. Poesia lyrica posta em musica; pequenas composições que andam em voga, e que qualquer curioso as pode crear e compor. (...) Mulungú. Instrumento de percussão grosseiro e campestre, formado de um pedaço de madeira de que tomou o nome, de forma cylindrica e ôca, tendo em uma das extremidades uma pelle estendida sobre a qual batem com ambas as mãos, produzindo um batuque, ao som do qual exhibem danças grotescas e extravagantes, por ocasião de festas e regosijos populares, os pretos boçaes nos Estados de Pernambuco e Alagoas, do Norte da Republica. (...) Musica de baile pastoril. Pequenas composições musicaes, moldadas ao genero idylico de modo representativo, versando a lettra da poesia sobre scenas campestres extrahidas das legendas tradiccionaes dos acontecimentos biblicos, para exhibições publicas, bailados, quasi sempre ao ar livre sobre tabalado e ordinariamente por ocasião das festas de Natal, mui em voga especialmente nos Estados do Norte da Republica. Estas representações lyrico-scenicas, constituem um grande e interessante divertimento publico.
Eis o que extraí da internet, coletado de um antigo dicionário políticamente incorreto do início do século passado, sobre mulungú. Com a dica do Gallego falando de murundu e angu ficará mais fácil perguntar ao Dr. OZ ( para obter boa resposta é preciso fazer boa pergunta )
No cinema a gente sempre espera uma manobra temporal que não nos dê tudo na escala da experiência, não é? Gallego critica este filme nacional sobre o nordeste e a seca pelos excessos. Não é preciso castigar o espectador além de um limite... A mesma argumentação, se bem me recordo, aparece no final do primeiro seminário de Lacan, quando ele aborda o monismo e as teorias idealistas/realistas. Ele pega Tomás de Aquino, Abelardo e argumenta longamente sobre a importancia da palavra "lixo", por exemplo, permitir a realização do que é "lixo", sem que seja importante se colocar o nariz numa lata fedorenta... Um bocado como cobrir um corpo para isolar o campo cirurgico.
"Human beings cannot bear too much reality", or some such sentence, do T.S.Eliot pela voz de um pássaro.
Será que o que era revoltante antigamente era mais revoltante do que hoje? Náusea, engúio ( como se escreve?)...Mmm. |
Voltar ao topo [Aeternus:5357] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-16) - RE:Mulungu(?) Aspirinas e Urubus : Eça de Queiroz
 Gallego coloca : 'A coisa que mais me chocou é que não precisamos de cidade cenográfica para reconstituir cidadezinhas ou vilas do interior do nordeste brasileiro: elas estão lá, existem ainda hoje como em 1942, 1932, 1962, 1992, 1972, 2002,3,4,5... Nada muda, a miséria é a mesma, as secas, as mesmas, esse horror sócio-econômico-ecológico ontem como hoje... e amanhã? Não há perigo de melhorar, pelo jeito...'
Ontem no artigo do Jabor ele publica um parágrafo de Eça de Queiroz, redigido em 1871. Assim : 'O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas idéias aumenta a cada dia. A ruína econômica cresce, cresce, cresce...A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Não é uma existência, é uma expiação. Diz-se por toda parte : "O país está perdido". ( o grifo é meu ) |
Voltar ao topo [Aeternus:5358] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-16) - RE:RE:Mulungu(?) Aspirinas e Urubus
 Tu-tu-ru-tu-tu / lá detrás do murundu * / teu pai e tua mãe / que te comam com angu. (in Cantos populares do Brasil, Sílvio Romero) * murundu - pequeno monte, montículo.
João Curutú / detrás do murundu / levai este menino / pra comer angu. (in Os meus brinquedos, Figueiredo Pimentel, 1959)
Gallego sabe, Gallego diz. Eu lembrava do som "murundu/mulungu" numa cantiga. Ele identificou direitinho, com uma variante que não consta na coletanea que liga murundu ( montinho de lixo ) com angú... Vi que, sem ser cantiga de ninar, tem uma música folclórica nordestina que fala de " o mulungu fuloriô". Parece que as flores são menos vermelhas que as do flamboyant, mas igualmente fogosas.
E, de quebra, lembrei de outra planta nordestina, e de uma musiquinha: " Mandacaru quando fulera na terra, é o sinal que a chuva chega no sertão, toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor já chegou no coração. Meia comprida, não quer mais sapato baixo, vestido bem cintado, não quer mais usar chitão".
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Voltar ao topo [Aeternus:5359] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-16) - RE:RE: Aspirinas e Urubus : Eça de Queiroz e Musil
 "Mas de tempos em tempos, depois destes estados de satisfação que em certo sentido podemos chamar de estados obsessivos da emoção e da vontade, parece que somos dominados pelo seu contrário; para o expressarmos também com conceitos de hospício, subitamente começa na Terra uma intensa fuga de idéias, depois da qual toda a vida humana vê-se transferida para novos eixos e centros. A causa profunda de todas as grandes revoluções não está no progressivo acúmulo de condições insuportáveis, mas no desgaste da coesão que apoiava o contentamento artificial das almas". (Robert Musil em O homem sem qualidades, Ed. Nova Fronteira, pg 376).
Esta citação acima é a epígrafe de um trabalho de Miguel Calmon du Pin que será incluído no site brevemente. Achei que a escolha desta frase do Musil foi muito feliz para exemplificar uma série de conclusões difusas que estamos aventando por aqui nas nossas discussões. Este romance do Musil, " O Homem Sem Qualidades" é longo mas de leitura mais do que recomendada: imprescindível. Pelo menos até o ponto em que o li ( perdi meu exemplar e não terminei de ler, o que não é novidade).
De repente fui levada a questionar minha mania de "ligar, conectar, costurar e alinhavar" ( dá uma cantiga de ninar, hem?) que interpretava como uma expressão sublimada de "Eros" que, para Freud, é a tendência a agrupar unidades esparsas em conjuntos progressivamente mais complexos. Eu estaria, com isto, me opondo às transformações e revoluções que permitiriam um novo estado ( artificial? ) da alma. Para Musil, rompendo-se o animo obsessivo, cai-se numa fuga de idéias e as coesões promotoras de contentamento se desfazem...
Se bem que, com a ajuda de vocês, passamos por estados alternados de fuga de idéias e re-organização obsessiva e formando um ciclo vamos "evoluindo" sem rupturas. Ou não????
Vejam como o Florião pegou o Jabor que pegou o Eça de Queiroz e, no meio da bagunça, a mesma conclusão de ontem e de hoje: Não é uma existência, é uma expiação. Diz-se por toda parte : "O país está perdido".
Tecendo. Separando, juntando. Não pode ser apenas uma forma inconsciente de resistir ao novo, da pulsão de morte com seu conservadorismo emergindo da boca de eros... Não sei mais quem, antes de Freud ( em "Repetir, Recordar e Elaborar") escreveu: " quem não se lembra dos erros no passado está condenado a repeti-los". Ou seja, para sair da repetição é preciso lembrar e elaborar. Tecer. Dar pontos de "haste" ( costurando pra frente, voltando um pouco atrás e indo pra frente mais um tanto para a costura não exigir duas agulhas como na da máquina, ou ser frouxa como alinhavo )
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Voltar ao topo [Aeternus:5360] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-16) - RE: Musil e Bastide
( boa idéia uma lista sobre 'movimentos dentro do social' )
Interessante colocação do Musil. Má perda essa, hein Jansyta !...estou atrás desse Musil há tempos, em sebos...E não se consegue encomendar. Ele parece à frente de seu tempo, já que a Física Mecanicista não contempla esse tipo de raciocínio. A perda de coesão de partículas lembra mais a Física Quântica, e a revolução, nessa linha de raciocínio, resultaria de uma entalpia no sistema. O 'obsessivo entrópico' é uma caldeira ambulante. Julien Bastide, no campo da Sociologia, anda por outras bandas. Ao dizer que 'famintos não fazem revoluções, famintos morrem de fome', no entanto, também está negando a insatisfação e a raiva como fatores desencadeantes. |
Voltar ao topo [Aeternus:5361] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-16) - Aspirinas
 O CINEMA, CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS Xico Sá Aos poucos o Nordeste-coitadinho-cordial-folclórico-e-lesado vai ganhando uma nova feição no cinema. Quem talha tal obra, qual xilo na aroeira, é a geração pós-kinema do sertanejo-corisquiano nascido sob o baptismo de Glauber Pedro de Andrade Rocha, Vitória da Conquista, Bahia, primeiro filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e Lúcia Mendes de Andrade Rocha. Ponto. O filme universalíssimo "Cinema, Aspirinas e Urubus", do pernambucano Marcelo Gomes, em cartaz a partir desta sexta (11 na folhinha), é uma lindeza neste sentido de assassinar, pelas mãos sangrentas da sensibilidade, a imagem do Nordeste-oxente-bichim. Mas a lindeza do filme de Gomes está longe de acabar na esquina deste parágrafo. Na companhia da nova fita de Beto Brant, "Crime Delicado", que será motivo de futura prosopopéia neste papiro, os urubus assassinam também, Antonios das Mortes que são, uma certa histeria típica do tal do cinema nacional. Falo daquela agonia danada pra narrar o estado das coisas. O filme de Gomes é simples como dois homens em uma boléia de caminhão. Um brasileiro dos sertões (o ator João Miguel, foda!), um alemão dos estrangeiros cujo batismo também esqueço. E um ceuzão nublado de destinos e aves elípticas - os urubus aqui são os pássaros de Hitchcock que não careceram arruaçar, preferiram a botuca, a espreita, a tocaia da morte-morrida-antes-dos-trinta. "DIRIGIDO POR MIM, GUIADO POR WALTER BENJAMIN", poderia dizer o diretor, se metido fosse, na pegada da filosofia do pára-choque que roadmoveia-se entre o que se imagina de comum entre o semi-árido e Frankfurt. Ah, o que há de comum nas diferenças também é simples: o que está guardado dentro do peito dos homens, tanto os que viajam como os que se trancam. |
Voltar ao topo [Aeternus:5362] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-16) - Mulungu, Murundu, Musil y otras cositas más (más e boas)
Quer dizer que "murundu" existe mesmo! E "mulungu" também! Uma eu não sabia que sabia; outra eu sabia que não sabia; mas ambas exisitiam... Comentários muito interessantes da Jansy sobre a (velha) questão da arte que retrata a realidade em "um por um". Não lembro quando Jansy usou esta expressão pela primeira vez, mas acho que foi em relação a algo (filme?) que funcionou bem. O que eu acho que nem sempre ocorre no ritmo do filme brasileiro que assisti ontem e no tédio dos filmes sobre tédio (perigo de alguns filmes do Antonioni) bem como no excelente exemplo lacaniano sobre não prercisarmos sentir o cheiro de lixo para saber que se está falando de lixo, basrta a representação através da palavra. Até porque a palavra pode carrear consigo as mesmas desagradáveis sensações; outro dia, lendo um texto onde uns garotos sacaneavam outro esfregando sua escova de dentes em "merda" e depois o garoto, sem saber, usava a escova, eu quase vomitei, só de ler. Se visse a cena, certamente... (chega, talvez um dos leitores já esteja v.........). Não me identifico com a histeria conservadora do Jabor que critica do alto do seu suposto saber, balendo por ser via Eça. Eu critico debaixo de minha incompetenete perplexidade. Para mim faz alguma diferença. mas como os opostos dão à volta ao planeta (que ainda é redondo) e se encontram... essa inércia do nada-acontecer me assusta. A
"revolução" socialista/comunista pretensamente do bem não veio nem
nunca virá - eu suponho. Mas a revolta, as revoltas caóticas como as que
existem agora na Europa, ainda incipientes, e a canalização do desamparo
sócio-econômico para atiivdades ilegais (no tráfico não há mais vagas) como
aqui no Rio/Brasil, virão ou já chegaram. O Rio-maravilha dos anos 1950/40 guardava restos da
opressão política da ditadura Vargas e os pobres conheciam o "seu lugar". Mas esse tempo
pasou e essa terra secou e o brinquedo quebrou. Pagaremos eternamente o crime
da escravidão e exclusão social dos negros e miseráveis. Lá, eles pagarão o
crime da exclusão dos imigrantes tão "bem recebidos" da boca prá
fora. Não dá para manter tanto tempo de desnível e desigualdade. Os revoltosos podem até ser
massacrados como em outras ocasiões e governos de mão de ferro se reativarem. Mas os excluídos podem também ser
canalizados para poderes paralelos (que já são oficiosos) como aqui no Rio onde o tráfico está mais
bem aparelhado do que as forças da lei e da ordem (frequentemente mescladas à
transgressão da lei e à desordem). Apocalipse now? Ou daqui apouco mais... Gostei muito da citação do Musil: "Mas de tempos em tempos, depois destes estados de satisfação que
em certo sentido podemos chamar de estados obsessivos da emoção e da
vontade, parece que somos dominados pelo seu contrário; para o
expressarmos também com conceitos de hospício, subitamente começa na
Terra uma intensa fuga de idéias, depois da qual toda a vida humana
vê-se transferida para novos eixos e centros. A causa profunda de todas
as grandes revoluções não está no progressivo acúmulo de condições
insuportáveis, mas no desgaste da coesão que apoiava o contentamento
artificial das almas". É uma outra visão das mesmas questões. A eterna alternância sístole-diástole, mania-depressão, depois da tempestade vem a bonaça (e vice-versa, como esperam os pessimistas)... Jansy comenta: "Para Musil, rompendo-se o animo
obsessivo, cai-se numa fuga de idéias e as coesões promotoras de contentamento
se desfazem..." e prossegue em mensagem para ser guardada para não esquecer e figurar numa antologia do aeternus, se um dia houver. Sem desemerecer a frase que transcrevi, pelo contrário, lembro que sempre estudamos que os obsessivos e seus superegos "sabiam o id que tinham"; não que o deles seja obrigatoriamente mais caótico ou "perverso". Apenas eles "sabem" (inconscientemente que seja) o que se passa nos corações humanos... eles e o antigo "Sombra", personagem interpretado pela voz radiofônica do Orson Welles nos EUA e por... (ainda vou descobrir quem era) na versão brasileira da antiga rádio Nacional. O obsesivo quer controlar tudo temendo que qualquer mínimo relaxamento deixem aflorar as forças do caos interno e externo, o magma do id, os instintos (eles mesmos, mais até do que as pulsões) incontroláveis num retorno à barbárie ou simplesmente à amoralidade dos animais ditos inferiores. Que pelo menos não cometem tantos assassinatos intra-específicos (dos mesmos de sua espécie). Já os virus da gripe não têm a menor consideração pelas aves... e pelos humanos... O velho deus de barbas brancas que não era papai noel pode estar se zangando de novo? Chuvas, diluvios, enxofre e fogo.
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Voltar ao topo [Aeternus:5363] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-16) - RE:RE: Musil e Bastide e as panacéias
 O dia começou animado na lista, oscilando daqui e dali, mas com idéias importantes que adoraria destacar no timtim por timtim. Como estou sem internet ( sem ser nos intervalos precários do consultório, onde não venho na parte da tarde), tenho dificuldade de acompanhar os vôos de garças, graunas ou...urutus? Esconjuro.
Então, como quem não quer nada, vou tentando uma pontinha daqui e dali. Há anos li sobre a descoberta dos poderes curativos da aspirina ( acido acetil salicílico ) conhecidos na antiguidade, explorados nos caldeirões da bruxas com baratas e asas de morcego, e, finalmente, alterados por um alemão ( creio que era o al Dr.Bayer) devido às características agressivas do ácido que vinham junto com a potencia analgésica e anti-térmica dos "salicílicos", ou seja, dos derivados da casca do salgueiro, um tipo diferente do shakespeariano "weeping willow" ( "chorão") mas, todos, salgueiros... Pra mim até hoje a aspirina é um santo remédio, apesar de "liquefazer" meu sangue um pouco mais do que o desejável e olho para qualquer salgueiro com a nostalgia de apaixonada.
Agora falta conhecer mais sobre outro destes remédios que a indústria gigante tenta dele se apropriar: a Arnica.
E, pensando em revoluções e nordeste, urubus ( que tem o vôo mais lindo entre as aves que observei algum dia, adorava ir quando era ainda possivel numa caminhada até o mirante dona Marta, na estradinha do morro do Corcovado, para deitar num banco de pedra e ficar olhando...olhando...) e pombinha branca... xi.... não estou pensando pois funciono ao contrário do Fernando Pessoa quando ele escreveu : "o que em mim sente está pensando".
O filho de um amigo era destas crianças de "mente brilhante" com QI acima de qualquer suspeita e, coitado, não se adaptou na escola, foi piorando no curso secundário e acabou não dando conta de obter um diploma na universidade. Evaristo de Galois passou por dramas semelhantes, de saber mais do que o professor que o interrogava e desafiá-lo, arrumando inimizade gratuitamente. Gallego lembrou uma frase: Como diz aquele filme do Bertoluci: "Pobre de quem não viveu os prazeres da burguesia antes da revolução!" e, suponho, uma dose de ingenuidade, burrice ou corrupção inocente poderia ajudar aos que sacam precocemente as mazelas do mundo e se esborracham antes mesmo de poderem adquirir sabedoria para esconder suas qualidades. A perene tentativa de se transformar em valor universal alguma ideologia dominante ( autoridade divina dos reis ou do Papa, o Deus judaico-cristão ou a democracria grega, etc) nem sempre foi danosa para uma boa parte das gentes civilizadas: Marcos Florião andou tratando deste tema há pouco.
E, pra não dar vexame, fico quietinha até...até... sei lá. Poder ler e escrever sem ser a toque de caixa em fuga de idéias não revolucionárias movidas pelo gongo.
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Voltar ao topo [Aeternus:5364] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-16) - RE:Aspirinas
Não sei se entendi o que o Xico Sá quis dizer, mas se foi como li no Globo que o filme não é tributário do antigo cinema novo brasileiro, discordo. Na forma é bem parecido. O conteúdo, há muito em nossos filmes já não é o idealizado, mítico ou grandiloqüente. Quanto á "agonia" na narrativa daquele "estado decoisas" há gonias e agonias: as histeriformes operísticas e as naturalistas-blasés. Este filme fica um pouco próximo deste "naturalismo" que, como no outro "Cidade Baixa" só vinga na dependência de atores excepcionais para transmitirem os personagens, como a Jansy cunhou, "um por um". Louve-se que o roteiro diz ser baseado em narrativas de um tal "Ranulfo", nome do personagem do nordestino em viagem com o alemão que, se tem uma aura mais ficcional (usando lenço de cambraia passado e dobrado) também tem um "desenvolvimerto" bem linear no sentido realista anti-dramático. Quase não há "curva de tensão" dos personagens, opção que aproxima a ficção do semi-documentário com sua pretensão realista-naturalista. Volto a dizer: sem atores excepcionalmente identificados com o perfil dos personagens, a coisa ficaria meio esturricada ao sol inclemente, vista de cima "au vol d'oiseau", no caso, vôo de urubu. Não é o caso: o filme é bom naquilo que se pretende, mas me parece que segue uma opção anti-ficcional de se prender a uma "situação" básica sem desenvolvimento dramático que - ao meu ver - limita maiores vôos de compreensão, aprofundamento e significação do que se poderia extrair da mesma situação quando trabalhad com talento no terreno das ficções verossímeis, ou seja, que não ficam no "manifesto" fenomenológico das situações enfocadas. Claro que o cineasta tem direito a esta opção e dentro de tais limites, ele cumpre bem o seu objetivo. Ao meu ver, mantendo tal objetivo o filme ganharia em redução de metragem e em menor uso do estilo exatamente cinemanovista de digressões em "tempos mortos". desde Nelson pereira e Graciliano já sabemos que aquelas vidas são "vidas secas". Chover no molhado, neste caso, não rega a terra.
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Voltar ao topo [Aeternus:5366] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-16) - RE: As faces do tempo
 CAMARADAS!! E o tempo do/no KAPITALismo?!?? Cada indivíduo produz, visando uma satisfação final, mas os homens passam mais tempo visando essa satisfação do que usufruindo. Quanto mais o trabalhador quer ter tempo livre, e ele compra "engenhocas" para justamente se liberar de tarefas e ter tempo livre, mais tempo ele passa trabalhando para comprar essas engenhocas que supostamente lhe dariam o tempo livre. Tanto mais tempo ele investe trabalhando para ter tempo livre. Conclusão: o hedonismo extremo que o KAPITALismo promete acaba desembocando no puritanismo mais extremado que promete o jardim do Éden... para ter o tempo todo livre ele trabalha o tempo todo. Nessa história do tempo é curioso que o KAPITAL até pouquinho tempo, se apresentava como um doador de trabalho, e hoje em dia ele se apresenta como doador de tempo. Ele te promete que te vai doar tempo. Sabe o anúncio do celular que "diz" dá tempo... não te dá só celular, ela te dá tempo. Essa idéia do KAPITALismo, que diz que te dá tempo, te promete tempo e escraviza todo o seu tempo. Isto é, ele te promete todo o tempo livre, e é todo esse tempo livre que ele te rouba nessa promessa que ele repete num estoque de fruição retardada. É diferente do regime antigo. Porque antigamente (e antigamente pode ser poucos anos atrás) no regime do assujeitamento, conseguia-se um tempo livre mesmo que esse tempo livre fosse relativamente controlado para a força de trabalho se recompor, se reconstruir ou mesmo para se dirigir voluntariamente para algum lugar. Agora, o neo-KAPITALismo (??) investe inteiramente nesse tempo livre. Não tem mais esse tempo livre. O tempo livre é inteiramente investido em nome de satisfações finais que ele vai fazendo proliferar. E com isso, o KAPITAL, usando a expressão do véio Marx, subsume, subordina. Ele subsume a integralidade do tempo. O tempo livre virou tempo escravizado. Tempo investido em ganhar tempo. O tempo livre virou um tempo investido em ganhar tempo. AÍ MUDOU O CONCEITO DE TRABALHO! A sensação que fica é que de um jeito ou de outro o homem está sempre reinventando um anseio por aquela coisa inalcançável, aquela coisa lá adiante na qual se investe muito. Inventa-se formas mais compatíveis com a contemporaneidade mas no fundo é sempre a mesma coisa. É uma matriz meio religiosa mas é uma matriz. Essa é a matriz da transcendência. Algo que me falta aqui na terra me está prometido em algum lugar. E isso é o motor que me faz ao mesmo tempo desvalorizar o que eu vivo aqui, e me atrelar a esse além que pode ser um além celeste, mas pode ser o além que o KAPITAL promete que é... Mas é uma matriz de falta. O que me falta. O que me falta é aquilo que transcende que preencheria esta falta. Essa questão do tempo é muito intrigante porque é como esse regime tenta tornar rentável a totalidade do tempo. Ele sempre te força a investir para ter tempo livre e, portanto, para escravizar o tempo todo. Mas o paradoxo é que ele faz perder sempre. Em que sentido ele produz perda de tempo? O contingente de desempregados é tempo perdido. Falo desses inimpregáveis, desses expulsos do circuito econômico ou informático que só têm tempo a perder. São os que perdem tempo e não podem investir no próprio tempo. Essa vacância de tempo, daria para pensar nisso sobretudo em termos políticos, em termos de riscos. Dos riscos que estão embutidos nesses que perdem tempo, porque os que investem no tempo o tempo todo, esses já estão plugados na máquina. E os que são expulsos? Que indeterminação engendra essa perda de tempo? O que faz alguém que perde tempo? Mas é essa á questão: o que acontece com essa massa que perde tempo.... e que tem assim esses acessos flutuantes, não plugáveis e que dispõem de tempo mas não dispõem de espaço algum? E tem também uma espécie de investimento total o tempo todo. Assim como se nas finanças, você precisa fazer render o tempo. A idéia é que você está trabalhando o tempo todo, num certo sentido. Você precisa fazer render tudo. Você precisa fazer render o seu corpo. Bom... academias mil... Você precisa fazer render o seu sexo. Você precisa fazer render sua comida. Você precisa fazer render o seu tempo ganhando mais informações, ações que vão rentabilizar absolutamente tudo. Você precisa se fazer render. Você investe em você mesmo pra render o máximo possível, o tempo todo. E não há esfera que escape disso porque tudo virou um investimento rentável. O KAPITALismo conseguiu disseminar essa produção de valores rentáveis pelos poros mais moleculares do nosso corpo, da nossa imaginação, da nossa atividade... Saca aquela idéia de que a gente é uma empresa? É isso aí exatamente. Por outro lado, o que assusta é a relação do homem com a máquina. Classicamente essa relação é de se sujeitar a uma máquina, é uma relação de assujeitação mas agora é mais de incorporação, e eu vou dar um exemplo, que não tem nada a ver com a máquina. É com a televisão. Isso a gente conhece em nossa experiência mais cotidiana: A televisão não se dirige mais a um sujeito. Uma coisa é a televisão ter por alvo um indivíduo que é um espectador, que é um sujeito separado, aí tem que atacar esse sujeito. Outra é essa coisa que a televisão faz hoje que é de incorporar o espectador no próprio espetáculo. Você participa com telefonemas, mas às vezes ‘você decide’, a televisão é uma espécie de entorno do qual você faz parte. Teve há algum tempo o diretor de uma empresa de tecnologia que deu uma entrevista sobre a grande experiência que eles estão fazendo, o grande experimento deles hoje é tentar acabar com o computador. Em que sentido? O computador é grande, atrapalha, você tem que ficar ali, curvado... é um objeto anacrônico. Qual é a tentativa? Diluir o computador no espaço, ou seja, perder essa relação de sujeito e objeto. O computador está nas paredes, na mesa, no copo com água e você está dentro dele, e é impressionante porque essa é a forma que o sujeito está descrevendo como vai ser amanhã. O projeto é você fazer parte de um ambiente computador. Então você se dilui nele!! Nesse sistema tudo já estará no ambiente e você deixa de ser o sujeito que liga e desliga o computador, você já está ligado no computador o TEMPO TODO, é essa a idéia, ou seja, de você já estar plugado em tudo, em todo o entorno. É o que o Guattari chama de escravização maquínica, que é uma escravização objetiva dos indivíduos pelo KAPITALismo. Os indivíduos escravizados objetivamente pelo KAPITAL em todas as esferas da sua vida. É curioso, é uma espécie de des-subjetivação que deságua nessa escravização. É o sujeito e a máquina... o sujeito passando de uma esfera a outra, diluindo-se no KAPITAL... |
Voltar ao topo [Aeternus:5367] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-16) - O Tempora...
 Nas mensagens de hoje encontrei um montão de alão delão chorando o passar dos anos e o desaparecimento da beleza seguido de um relato intenso contra o capitalismo que inclue o tempo como mercadoria. Logo hoje que passei tres horas sofrendo ao telefone para conseguir cancelar compras, assinaturas, vínculos sociais e sendo transferida de um canto para outro no arraiá da comunicação. Se pudesse me deslocar fisicamente faria exercícios mais saudáveis em vez de me entortar na cadeirinha do telefone...
Quanto ao capitalismo, antigo ou neo: reclamar de que modo, ínfimo número que me cabe entre a multidão? Somos erros nas estatísticas e entramos - por isso mesmo- numa outra estatística mais abrangente, sem escapatória. Queria anunciar o fim do mundo dos profetas: vaticinar, por exemplo, que em 2010 a internet implodirá e os hackers perderão o emprego. Voltaremos a escrever manualmente e enviar mensagens em garrafinhas soltas no oceano das palavras, sem assinar. Entraremos na era da nova Babel, bebel, bibil, bobol ou bubul (deu pra sentirem o melhor do mau-humor?)
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Voltar ao topo [Aeternus:5368] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-16) - E agora José, viva a diferença, festival de filmes, va savoir...
Prometo trazer excertos do livro onde Habermas e Derrida escrevem sobre "hospitalidade". Eis o que hoje surgiu como hipótese de "ministro francês" sobre os disturbios na França, reivindicando a importância de algum "modelo paterno".
As famílias polígamas levam às vezes a "um comportamento anti-social entre os jovens que carecem de modelo paterno, o que influencia negativamente os patrões na hora de recrutar indivíduos pertencentes a esses grupos étnicos", aponta o ministro. "Como parte da sociedade mostra esse comportamento anti-social, não podemos estranhar que algumas pessoas tenham dificuldades para encontrar trabalho", acrescenta o político francês.
Embora a poligamia seja ilegal na França, até 1993 eram concedidos livremente vistos aos familiares dos imigrantes. Esse ano, foi proibido por lei conceder vistos a mais de um cônjuge, o que não impediu que as esposas dos imigrantes polígamos continuassem entrando ilegalmente.
Políticos acham que há entre 10 e 20 mil famílias polígamas na França, em sua maioria procedentes de países africanos como Argélia, Mali e Senegal, onde a poligamia é legal. (Terra)
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Voltar ao topo [Aeternus:5369] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-17) - RE:RE: Rainer Werner Fassbinder então matou...: Protect me from what I want
 Pode ser, que o Fassbinder tenha matado a si mesmo, afinal o raciocínio dele era, digamos, de um curto-circuito maravilhoso. Tem aquele grupo "Placebo", vocês devem conhecer, que tem uma música que diz Protect me from what I want. Eu acho essa frase absolutamente perfeita pra dar uma idéia do universo fassbinderiano, vocês não concordam? Muitos dos personagens dele conseguem o querem, e isso é geralmente o pior que lhes poderia acontecer. Já eu acho que a primeira coisa que a gente mata é a liberdade que faz com que o outro SEJA aquele que a gente ama. Aí a gente reclama que a criatura não é mais aquela... No entanto, Almodóvar - que eu vejo como uma espécie de versão alto astral do mesmo baixo astral fassbinderiano - fez aquele filme chamado ÁTAME!!!!!!!!!!!! Ou seja... a gente tá sempre matando o que a gente ama, porque nunca ama uma coisa só, mas elas são quase todas incompatíveis entre si. E tem sempre aqueles que procuram alguém que os MATE... de amor - quando o gozo se dá pelo não-ser (pode?). Enfim, se a gente foge de uma armadilha, cai em outra. Por isso parece que Lacan tem toda a razão ao dizer que não há amor que não seja narcísico (donde ele sugere que o amor "anaclítico" de que Freud falava era uma quimera, mas o próprio Freud também passou a achar). O que penso é que, se há um defeito estrutural na nossa linguagem, é um defeito dos nossos modelos intersubjetivos... o que faz com que, de um lado, sejamos obrigados a desabsolutizar as "verdades do amor", mas, por outro, nos leva a pensar que, sendo a linguagem a universalização de um aleatório, então, deve haver, noutra desconhecida sintonia, formas diferentes de... intersubjetividade!!! O que as poderia tornar possíveis? D. (eu ganhei de presente o dvd do Closer, pulei de alegria - embora o filme seja de uma tristeza infinda... mas o dvd tem o clip, com a musiquinha inteira, Can't take my eyes off you, que é de mataaaaaaaar!!!!!!!! e é um filme que MEXE com a gente, não é só pela cabeça, é por tudo! que atores! que direção! que montagem! tudo mágico, tudo engrenado, tudo emocional, tudo muito tudo!) [ah, outro dia eu prometi prum amigo o poema do Oscar Wilde inteiro - a Jeanne Moureau, minimalisticamente, só fica repetindo a estrofe final - só que eu não encontrei. Por acaso vocês não teriam, não?] |
Voltar ao topo [Aeternus:5371] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-17) - A escolha anaclítica
C.D. informou: parece que Lacan tem toda a razão ao dizer
que não há amor que não seja narcísico (donde ele sugere que o amor
"anaclítico" de que Freud falava era uma quimera, mas o próprio Freud
também passou a achar). É curioso que Lacan tenha colocado isso, já que, embora eu não saiba se Kohut também disse isso com todas as letras, para ele, a expectativa (inconsciente) de uma pessoa de que uma outra cumpra as funções selfobjetais que a primeira espera, envolve tanto a idéia da escolha "anaclítica" (escolha objetal reproduzindo a mãe nutriz ou o pai provedor) como a idéia da escolha narcísica - se aceitarmos que o objeto investido da expectativa selfobjetal é investido com "libido do eu" (narcísica). Nesse sentido, especialmente o modelo do selfobjeto idealizado (imago parental idealizada) sintetiza a escolha "anaclítica" com a escolha "narcísica", mas demonstrando que tal escolha está a serviço do eu, atendendo às necesidades narcísicas, portanto. Ou seja, ao meu ver, por caminhos diversos, as teorias muitas vezes se encontram. Ou como dizia Tei8llard de Chardin, "tudo o que se eleva, converge".
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Voltar ao topo [Aeternus:5372] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-17) - RE:RE:TEMPO...TEMPO 8: do Calvin
Voltar ao topo [Aeternus:5373] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-17) - RE:A escolha anaclítica e as elevadas convergências
 Muito interessante a aproximação do Gallego/Kohut com a questão das escolhas anaclítica e narcísica a partir dos desenvolvimentos em Freud. Adorei a citação final ao Teilhard de Chardin e adoraria voltar a ser alguém que acredita nisso, de que "tudo que se eleva converge", pois ando nostálgica de uma verdade absoluta, de uma espécie de ponto essencial para acolher as contingências do mundo humano...
Comprei uma edição da VEJA só porque na capa anunciavam algo sobre "Freakonomics" e me desapontei com a reportagem, na verdade fiquei até indignada com a proposta do premiado americano que antes parecia promissora e, no entanto, é quase repugnante se a gente presta atenção nas extensões e digressões que ele faz. Ali achei também uma cronica da Lya Luft ( a quem não muito aprecio, mas não li o suficiente para ter certeza) que me pareceu cheia de promessas, na qual ela questiona quem é o títere que maneja a classe nem tão alienada dos brasileiros e causa confusão nas CPIS e trabalha contra a verdade, etc.Mas tudo ficou vago e só como dúvida, mesmo, sem qualquer luz... Então joguei a revista fora e não posso dar os nomes direito, nem tenho tempo...
Adorei o que incluiram aqui sobre o problema na França ( reportagem da Folha, creio). Se der, retorno. Bye Bye...Até poder acessar algum computador outra vez, resta-me o silencio... |
Voltar ao topo [Aeternus:5376] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-17) - RE: A escolha anaclítica
 Cêis gostam do Teilhard de Chardin? Só o que sei dele foi através de palestras dadas pelo único tradutor brasileiro autorizado (??), Luiz Archanjo. Mas me lembro de ter adorado a forma como ele enxergava a sacralidade na natureza (herança espinozina enrustida? ou declarada?), e de como se esforçou para juntar a ciência com a metafísica. Já pelo simples nome de um dos livros dele, O Meio Divino, para se referir ao Universo palpável, sinto grande simpatia pelo padre inquieto. |
Voltar ao topo [Aeternus:5380] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - RE: A escolha anaclítica & Chardin
 Meu primeiro contato com Teilhard de Chardin se deu em frances mesmo. Traduzido o título, seria " O fenomeno humano" no qual havia delineada uma escala causal, determinada, evolutiva que ia dos animais mais primitivos até o homem no ápice da piramide. Não me recordo de grande coisa do Chardin propriamente dito, mas há algo que ficou gravado para sempre. As conferências sobre ele que assisti na Faculdade Santa Ursula, no Rio de Janeiro. Deve ter sido no final dos anos sessenta. Era com um monge beneditino meioi gorducho, já idoso, chamado Frei Secondi. Era um teatro lírico ouvi-lo, ele se transformava em chama tremula ao falar e a voz modulava seu êxtase em público. Deve ter sido algo excessivo ou belo demais porque não provocou frissons duradouros, que eu saiba. Embora eu mesma não o tenha olvidado.
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Voltar ao topo [Aeternus:5382] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - Vila-Matas, desmemória e Cronenberg
 Comecei aqui tecendo loas ao Vila-Matas do Bartleby e Montano, Gallego comentou o El Viaje Vertical e nem assim lembrei que havia lido o livro anotado pelo Gallego e, inclusive, mencionado aqui. E alhures, pois Gallego achou na caixa de correspondencia dele a cópia que enviei pro site do Nabokov!
Eis os excertos daquilo que mandei para a lista do Nabokov: Enviada em: Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005 11:09 Assunto: FVN sighting: Villa-Matas "El Viaje Vertical"
Nabokov Sighting: " El Viaje Vertical " ( Vertical trip ) by Enrique Villa-Matas, 2001, in which the author makes a reference to Pnin while criticizing the academic world and imitations. quote: "Everything was copied from Manfredi"... " If, in the long run of his life Mayol had given himself the trouble to read novels he´d have been able to tell his companion that he had no right to criticize copied things because he, with his glasses framed in acrilic and his simian upper lip was nothing else but a pathetic imitation of Professor Pnin, an invention of Nabokov´s" . ( I translated freely from another translation of the original in Spanish - which I have not read. There seems to be no English translation of this particular novel of Villa-Matas´s ).
Abaixo os dados do Gallego, trocas em fevereiro deste ano!!!!
1) O nome do livro em espanhol é, como eu supunha, “El viaje vertical”
2) O outro livro dele traduzido é “Bartleby e companhia”, sobre a “pulsão negativa” de escritores que param de escrever. Premio Cidade de Bracelona 2001 e de melhor livro estrangeiro (na França), 2002.
3) Frase do autor (Enrique Vila-Matas): “ Minha visão de mundo está baseada fundamentalmente em investir de sentido o absurdo e em considerar que o essencial da realidade se encontra nos livros. Ainda que não tenha entendido nada, segui sempre em frente, buscando e encontrando na literatura e, paradoxalmente, no absurdo, o sentido do mundo.”
4) Outra frase dele (esta no romance que li): “Por que não seríamos nós mesmos – homens, deuses, mundo – sonhos que alguém sonha, pensamentos que alguém pensa, localizados sempre fora do que existe? Por que esse alguém que sonha ou pensa não poderia ser alguém que não sonha, nem pensa, súdito do abismo e da ficção afundando em sua própria vertigem, chegando ao país onde as coisas não têm nome e onde não existem deuses, não existem homens, não existem mundo, só o abismo do fundo? Finalmente.”
5) Empolgado com literatura de língua hispânica, peguei “O Cantor de Tango” de um argentino chamado Tomás Eloy Martinez que tem anagramas nabokovianos com a palavra “Buenos Aires”: beso em Rusia; no sé, es rubia; suena, serbio; sería um beso.
Gallego é incrível. Lembra, acha, partilha, retoma, lembra, acha, retoma, partilha, lembra, lembra... Que inveja. Porque ele é dos que pensam e desenvolvem a partir do que arquivam...
Ontem finalmente assisti o filme abaixo. Não recordo os comentários dos cinéfilos especialistas, mas gostei bastante! Não me afligi, nem assustei, não chorei, não tive medo. Senti uma espécie de alívio físico, como quando assisto um bom balé. O William Hurt parecia estar tentando desempenhar seu papel mafioso como Brando, para deixar uma marca no cinema. O que gostei mais foi do começo, com uma sensação de lentidão, calor e preguiça. Torpor assassino e sem direção... Bem feito, bem filmado.
Marcas da Violëncia
A History of Violence
Tom Stall (Viggo Mortensen) leva uma vida tranquila e feliz na pequena cidade de Millbrook, no estado de Indiana, onde mora com sua esposa Edie (Maria Bello) e seus dois filhos. Um dia esta rotina de calmaria é interrompida quando Tom consegue impedir um assalto em seu restaurante. Percebendo o perigo, Tom se antecipa e consegue salvar seus clientes e amigos e, em legítima defesa, mata dois criminosos. Considerado um herói, Tom tem sua vida inteiramente transformada a partir de então. A mídia passa a segui-lo, o que o obriga a falar com ela regularmente e faz com que ele deseje que sua vida retorne à calmaria anterior. Surge então em sua vida Carl Fogarty (Ed Harris), um misterioso homem que acredita que Tom lhe fez mal no passado.
Direção: David Cronenberg Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes. Nacionalidade: EUA, 2005 Duração: 96 minutos Gênero: Drama Classificação: 18 anos
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Voltar ao topo [Aeternus:5383] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-18) - O Mercador de Veneza
 Eu nem sei dizer sobre o filme em si, se é ótimo ou só quase, mas tem uma coisa que o torna absolutamente imprescindível: a atuação de AL PACINO é ASSOMBROSA!!!!!!!!!!! O filme é recentissimo, sua pré-estréia foi num telão sob o vão do Masp na Mostra do Cacóffato, tem ainda o Jeremy Irons e o Joseph Fiennes. A mocinha eu não conhecia, ela parece que não vai dar conta, mas acaba dando. No vão do Masp eu perdi de bobeira, deve ter sido de graça. Eu assisti agora no Reserva Cultural, onde está em sessões normais. Mas é bom ir logo, porque o filme já estreou em poucas salas na semana passada, e está em menos ainda nesta semana. Pelo jeito, não terá vida longa. E é daqueles pra CINEMA, não esperem pra ver no vídeo. Apesar de recente, ele não faz nenhuma concessão ao ritmo acelerado dos filmes de hoje, a ansiedade que desenvolveram na gente até estranha, no começo fica meio difícil de embarcar na estória. Mas quando embarca... Mas nenhum senão é justificativa pra ficar sem ver Al Pacino. NECESSÁRIO! Não percam! |
Voltar ao topo [Aeternus:5385] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - cutelo temporal
 Terrível escrever com um cutelo temporal prestes a me cortar no meio de uma sentença. Estou tentando resolver meus problemas de micro, mas agora aguardo um sedex com novo modem, enviado pelo provedor Terra. Tomara que funcione. A "Telebrasilia" tem que operar também ( algo ainda duvidoso), pois escolhi permanecer com a linha telefonica, em vez da NET ( pois assino Direct-TV, que é via satélite e não a cabo ). Nunca sei quando terei que parar e, por isso, escrevo sem usar pronomes, errando nas vírgulas. Desculpem-me, pois.
Já que vai dar para comentar melhor, gostaria de retomar o filme do Cronenberg. Violencia pura, descabida, moderna, antiga, imemorial. "Homo necans", foi como um filósofo nos classificou. Homens que matam... Se no "Crash" havia uma "desubjetivação" peculiar, pelo desaparecimento das vozes do cinegrafista, do diretor, do espectador ( depois pego a fonte que analisou isto, numa coletanea de lacanianos de Berkeley intitulada "Art and Sublimation" ), neste da violência o efeito é diverso, embora ainda pouco "mental". Minhas reações, enquanto espectadora, permaneceram frias, sem empatia e ao nível das respostas límbicas de eros e agressividade. Comparei ao balé no efeito físico que exerce sobre a platéia, um descarrego mais que catársis. A primeira cena num motel, que parecia apresentar personagens que durariam até o final, deu o tom da história sem a vagareza inicial. O sentimento que tive, antes de saber que Tom era Joey mesmo, foi do mais total desamparo. Havia um menino que era considerado bicha, fracote, covarde na escola ( filho do heróico Tom Slatter/Morgenssen ) e que se revela herdeiro direto dos dois momentos do pai: valentão competente e delicado cidadão. Ele sabia se defender, mas se reconhecia no excesso mortal da sua "legítima defesa" e optava pelo oposto da doçura amedrontada. Já vi algo parecido no Ceará. Um pescador marcado pelo tempo, derrotado pela pesca fraca e preços baixos, segurando uma peixeira na mão e conversando mansamente com idiotas que o provocavam, sem crispar os dedos na arma, sem piscar, seguro da sua liberdade de agir ou deixar de agir. Andei lendo sobre a importancia de se poder decidir sobre a própria morte ( no livro do Kertész) e comecei a achar que o mais interessante é a liberdade de poder segurar o gesto contra um atacante idiota. Esta, pra mim, é a verdadeira força! De repente, sem esta pretensão no Cronenberg, foi o que ficou para mim. Ter como reagir e saber escolher a hora certa. Mas, seja como for, me senti desamparada no filme: não é possível viver sem lutar na cidade grande e menos ainda numa cidade pequena... Numa reportagem com Derrida que assisti em DVD recordo-me de vê-lo gesticular falando sobre "a mão" e a demonstrar que a desconstrução não é algo que se faça externamente. Toda obra já traz em si o germe da própria desconstrução... E, ligando esta lembrança difusa ( as minhas sempre são assim ) ao Cronenberg, pensei que a vida carrega, realmente, o germe da morte. Toda construção traz consigo um ponto de implosão... A não ser que...
A não ser que... Isto o Cronenberg não diz. É como se ele fizesse a apologia de se "virar uma nova página em branco na vida" - desde que se tenha competencia para esquecer, cindir, apagar, foracluir o passado. Nele não há nada de psicanalítico. Talvez por isso que, no comentário ao "Crash" tenha sido escrito sobre o angulo "des-subjetivante" que ele emprega. O apagamento do mental que surge apenas como uma exscrecência pitoresca e frágil imaginariamente construída sobre uma resposta animal bem mais"real". Até a idéia do social é diversa, porque não tem relação com qualquer somatório de "mentes individuais", mas segue uma dinamica em paralelo com a do corpo: respostas assassinas de sobrevivência ou gozo mortal como um "epifenomeno" que baixa nas gentes.
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Voltar ao topo [Aeternus:5386] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-18) - RE:cutelo temporal
Jansy diz sobre Cronenberg: É como se ele fizesse a
apologia de se "virar uma nova página em branco na vida" - desde que se tenha
competencia para esquecer, cindir, apagar, foracluir o passado. Nele não há nada
de psicanalítico. Concordo, mas recordo que o que eu disse a respeito foi: "Cronemberg me parece aquele cara já "instrumentado" por teorias
psicanalíticas (e isso ficava mais do que evidente em seu filme
anterior, "Spider", uma "case story" de psicose com "explicação"
"psicanalítica" e que era com o Ralph Fiennes). Aqui, esssa psicanalices..." O "instrumentado" e "psicanalices" já foram termos que usei que conotam o que julgo ser uma relação conturbada com a psicanálise, seus conceitos, sua compreensão e sua "aplicação" aos personagens e roteiros de filmes: um "excesso" de édipo em "Spider", com as relações triangulares pai-mãe-filho concretamente transportadas para formações delirantes do pobre paciente psiquiátrico - "explicações" muito "matemáticas" na vbase 2+2=4...quando agente sabe que no ser humano 4 também pode ser resultado de 1+3 (e que 2+2 pode dar...22); neste filme atual a "psicanalice" estaria (ao meu ver) numa apresentação inicial da relação sexual do casal-casadinho em busca da "pimenta" de cenários e execução de fantasias sexuais adolescentes mostradas quase que como patéticamente encenadas... e - depois da revelação do marido como uma potencial máquina de matar - uma relação (quase estupro) com arfares, suspiros e respiros demonstrativos de um gozo transbordante. Me poupe, Cronenberg! Leitura concretinah de Eros e Tanatos, entendida como erotismo e violência. Não estou dizendo, é claro, que não haja associações as mais variadas nas fantasias e práticas sexuais. Mas ainda querer demonstrar isso como repetição de suas "bandeiras" perversas de filmes anteriores como o seu "Crash" de casais excitados pela visão dos corpos mortos em acidentes... é cansativo e tautológico. No mais, os ângulos abordados por Jansy sobre des-subjetivação são muito interessantes, embora eu confesse que não sei se entendi bem tudo o que ela disse. Sobre outros olhares, umj amigo, Bernard, psicanalista daqui do Rio fez um belo comentário sobre "Cinema, Aspirinas e Urubus": "Um ponto marcante para mim foi a questão da identidade que o nordestino
necessita e vai adquirindo: ele diz que vai esfregar na cara dos outros a
carteira assinada quando conseguir emprego na mesma Bayer para quem o alemão trabalha. O contraste é que o alemão estará se
desfazendo da identidade dele (fuga ou busca de um outro sentido?)". |
Voltar ao topo [Aeternus:5387] Mensagem do Grupo48 -lfgallego (2005-11-18) - RE:RE:cutelo temporal 2

Estou limpando as quatro mil e seiscentas mensagens acumuladas na minha caixa de entrada; já cheguei a 3.600; faltam outras 4.000 na caixa de enviadas. Encontro viagens no tempo. assuntos que já foram importantes e deixaram de ser; outros que nunca foram; algumas lembranças chatinhas; outras tantas, gostosas, apesar de supérfluas, fúteis ou inúteis (ou talvez exatamente por conta disso, uma delícia).
Uma mensagem, inicialmente particular para Jansy (talvez depois tenha aparecido no aeternus, não sei) informava
Frase do autor (Enrique Vila-Matas): “ Minha visão de mundo está baseada fundamentalmente em investir de sentido o absurdo e em considerar que o essencial da realidade se encontra nos livros. Ainda que não tenha entendido nada, segui sempre em frente, buscando e encontrando na literatura e, paradoxalmente, no absurdo, o sentido do mundo.”
O que interessa mais rever é a idéia do Vila-Matas no item 3 acima, onde ele diz que o essencial da realidade se encontra nas ficções. Minha opinião pessoal sobre a armadilha dos documentários que podem ser mais ficcionais do que se pretendiam: a maravilha das ficções que transmitem mais da realidade do que muitos dos leitores/espectadores aceita como tal...
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Voltar ao topo [Aeternus:5388] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-18) - RE: Cronenberg : Twins
 Cronenberg sempre foi altamente sensacionalista e mercadológico. Sabe filmar, mas pretere sua própria virtude em nome das leis de mercado. Em "Twins", que adoro, teve a sorte de partir de um fragmento do real - o fato concreto de dois ginecologistas, irmãos gêmeos e canadenses terem aparecido mortos em Montreal. Ora, para o nosso morbidus morbidorum Cronenberg isto é um prato feito ! Especulou brilhantemente sobre a esquizo/sintonia entre ambos, a amante partilhada, as clientes partilhadas... Show de Irons, merecidamente oscarizado, excelente participação de Geneviève Bujold. Show de roteiro, mesmo em pequenas e magníficas soluções de andamento, como a da apropriação do ourives-artista´-escultor das idéias do gêmeo delirante, produzindo para expor 'instrumentos ginecológicos para mulheres mutantes'... |
Voltar ao topo [Aeternus:5389] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-18) - Vinicius, o filme
Confesso que fui assistir com
preconceito: 1) o trailer, visto inúmeras
vezes, me cansou, ao mostrar a atriz Camila Morgado, com rosto de epifania um
tanto o quanto deslumbrada declamando aquele belo soneto "De tudo, ao meu
amor serei atento" com pausas excessivas nas vírgulas do verso seguinte
"antes,(.............) e sempre, (..............) e com tal zelo,
(..............) e tanto"(........)... a ponto da gente esquecer o que ela
estaria dizendo, perdendo o ritmo perfeito do soneto, totalmente;
2) a biografia de Vinicius, escrita pelo José Castelo (esqueci o título do
livro) já selara definitivamente uma personalidade melancólica, alcoolista
grave, enroladíssimo nos seus casos amorosos; a leitura do livro não permitia
mais idealizar seu ideário, como quando adolescentes, em seus versos, hoje
politicamente (feministamente) incorretos onde a mulher sofre pelas estrepolias
do amado mas quando ele retorna encontra-a sempre de braços abertos (a
repetição de "a chorar nos braços meus", "a voltar aos braços teus"
e similares nas letras de Vinicius é incrível!);
3) o disco com a trilha do filme
me decepcionara enormemente pela escalação pouco adequada da maioria dos
intérpretes para as canções já por demais conhecidas. "Clássicos" das
canções populares devem ser mantidos em suas melhores interpretações
anteriores, ou merecer releituras sem muitas invenções ou ganhar recriações
criativas (risco para quem manda muito bem não se dar mal). Na maioria das
vezes, apenas escutando as músicas, as interpretações da trilha sonora me
pareceram pálidas, nada acrescentando a gravações anteriores.
Devo confessar também que na
meia-hora final o filme me pareceu ganhar um upgrade inesperado. Graças ao
Chico Buarque, principalmente: suas declarações já vinham se revelando as mais
simpáticas do filme. Com aquele jeito de falar hesitando muito, e depois
"aos arrancos", Chico está à vontade (como ele, só o Ferreira Gullar
que dá uma espinafração até engraçada, mas totalmente gratuita em Samuel Becket) e
pareceu-me ser quem mais transmite a dimensão total do biografado (além da
filha Suzana de Morais). Porque, no mais, o filme é quase uma hagiografia
sintonizada com algo que me parece muito desconfortável na vida de Vinicius,
letrista admirável, poeta de altíssimos e baixísimos, mas cuja tão elogiada
"figura humana" não me seduz nem um pouco, parecendo-me um daqueles
chatos bêbados de fala empastada que eu prefiria mesmo não conhecer ao vivo e a
cores.
Assisti um show com ele no auge
da dupla com o Toquinho (muito simpático, mas nem de perto um parceiro músico à
altura de Tom ou Baden Powell que o precederam como "pares
constantes" do letrista Vinicius). Bebendo no palco o tempo todo (e a
platéia achava isso o máximo), logorreico como bêbado que não reconhece limites
(e todo mundo o tomava quase como um "guru" coroa-hipponga), contando
piadas de sacanagem que eu já havia conhecido anos e anos antes (e as pessoas
riam e riam e riam - claro que é preciso dar um desconto para os anos de chumbo
que vivíamos onde qualquer coisinha menos "reprimida" já tinha valor
de antagonismo político... ou de consolo... ) Mas desde então preferi separar o
artista e sua obra (que curto muito, sem achar que "tudo é maravilhoso")
da pessoa e sua vida.
O filme tenta resgatar a aura
supostamente maravilhosa da personalidade de Vinicius de Morais, louvando sua
incontinência afetiva, sua labilidade emocional (de alcoolista avançado?). O
depoimento, sem dúvida, emocionado e merecedor de respeito de Edu Lobo mostra
este outro grande parceiro (ainda que mais esporádico) de Vinicius fascinado
com o fato de que Vinicius telefonava para os amigos só para saber se estava
tudo bem. Realmente, as pessoas vivem cada vez mais carentes dessas delicadezas
que, felizmente para mim, não me impressionam tanto já que, dou e recebo telefonemas
ou e-mails neste sentido de apenas saber "como anda você", título de
um belo bolero com o Toquinho.
Dou a mão à palmatória em relação a outras passagens do filme com versos
declamados pela mesma Camila Morgado que critiquei acima, um deles com uma interpretação
ousada e arriscada com largos gestos amplos de braços, e que funciona muito
bem, quando podia cair em total ridículo. Mas muitas outras passagens me soaram
meio bregas mesmo.
Estou na contra-mão: as pessoas
aplaudem no final, riem muito, o filme me foi recomendado enfaticamente por
muito amigos. Comparam-no a outro documentário recente sobre a Bossa Nova
("Coisa mais Linda" do Paulo Tiago) dizendo que "Vinicius"
é melhor. Pãos ou pães... Este filme do Miguel Faria Jr. me
pareceu muito "produzido", se me entendem. A maioria dos números
musicais se dá num pequeno palco com pequena platéia montada para a filmagem.
As declamações de Camila e Ricardo Blat (excelente ator que desta vez nem
sempre me pareceu à sua própria altura, embora com momentos bem felizes) são
filmadas num camarim "fake" e no mesmo palquinho idem.
Imagens de arquivo, não tantas. E
acho um desperdício o filme mal mostrar uma cena de um antigo filme brasileiro
(daqueles com números musicais interpolados) onde se vê/ouve Elizete Cardoso
cant5ando com voz cristalina "Eu sei, e você sabe já que a vida quis assim
que nada nesse mundo levará você de mim...".
Louve-se o confronto entre o
poeta-letrista popular e o poeta-"literário" muitas vezes soturno (e
nem sempre bem resolvido, mas essa era mesmo a "cara" da obra poética
de Vinicius em livros). Mas no todo, o filme busca mesmo resgatar um romantismo
ingênuo, que eu admiro, sabendo que ficou num passado ou na ilha da fantasia.
Ainda bem que as pessoas aplaudem e adoram a busca de algo menos violento e destrutivo,
embora eu tenha sérias dúvidas sobre as "aparências do amor" neste
formato.
No filme sobre a bossa nova "Coisa mais linda" havia algo corajoso de se manter na
trilha sonora a gravação quase completa de "Insensatez" na voz da
Sylvinha Telles, ou de outra canção com Nara Leão enquanto a imagem desfilava
fotos de arquivo. Aqui, ouvir Olivia Bygton cantar
a camerística "Modinha" (Ah, não pode mais meu coração, /viver asim
dilacerado, /crucificado a uma ilusão que é só /desilusão) com gestos patéticos
e pretensão de cantora lírica dando um agudo final que nem Elizete nem Elis
deram em suas gravações perfeitíssimas, é dose! Caetano, geralmente bom cantor de
clássicos alheios na base simples de voz e violão, não trouxe nada de novo ao
belíssimo "Poema aos olhos da Amada" - que ele nem canta todas as
estrofes (Oh minha amada que olhos, os teus,
são cais noturnos cheios de
adeus, são docas mansas, trilhando luzes
que brilham longe, longe nos
breus [...] Oh, minha amada de olhos ateus, se Deus houvera, fizera-os Deus pois não os fizera quem não
soubera que há muitas eras nos olhos teus
...)
O “Eu sei qeu vou te amar” com Adriana
Calcanhoto vai bem, mas Joyce foi mais transcendental na mesma canção no filme
da bossa nova. Mart’nália (que por ser filha de
Martinho da Vila e de uma provável dona Anália ou qualquer coisa semelhante
acha que é cantora) nem compromete uma musiquinha simpatiquinha e nada mais da
fase Toquinho. E Mariana de Morais é neta do biografado numa não mais do que razoável
“Coisa mais linda” Zeca Pagodinho é uma escolha
curiosa para “Pra que chorar” mas também nada acrescenta.
Mônica Salmaso é a única que diz
mais a que veio (e não deve ser a toa
que tem direito a dois números: “Insensatez” e o maravilhoso “Canto Triste” de
Edu e Vinicius que, louve-se, é uma bela escolha para encerrar o filme. Se não
atinge o mesmo patamar de outras gravações dessas canções, a interpretação é
corretíssima sem ser “mais uma” banal. E olhem que “Canto Triste” foi lançada
num festival daqueles de vaias ensandecidas no Maracanãzinho pela Elis! Quando
todos esperavam de Edu e dela uma nova agitada “Arrastão”! E é quase um ‘lied’ romântico.
E eu vi o público se dobrar à interpretação impecável de Elis que, por milagre,
eu tenho gravada num LP bolachão de distribuição não-comercial, raridade que não
dou, não vendo, não troco, não empresto. Ela gravou também em estúdio com outro
acompanhamento, privilegiando os sopros em vez das cordas.
Talvez para a maioria da platéia
que não conhece ou não tem hábito de ouvir de novo essas canções, a viagem ao
passado e a (re)descoberta de músicas, de fato, maravilhosas seja o que tanto
atrái no filme. Para mim, que, sozinho, dirigindo, estou sempre cantarolando “Chega
de Saudade” ou “Medo de Amar” (que Chico canta no filme) e que re-escuto as
gravações melhores destas músicas, o filme não me acrescenta muito.
A ausência de menção aos discos de Vinicius é curiosa: nada se fala deles nem
se mostra a capa antológica de seu primeiro disco “Vinicius & Odette Lara”
que inaugurou a gravadora Elenco; nem o disco do show de enorme sucesso
"Vinicius e Caymmi no Zum-Zum com o Quarteto em CY e Oscar Castro Neves". Os cantores da antiga que ainda estão vivos e em ação foram esquecidos. Com
desvantagens...
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Voltar ao topo [Aeternus:5391] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-18) - RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins
Ô Marcos, o jeremy irons não recebeu Oscar por "Gêmeos- Mórbida Semelhança", título tautológivo que "Twins" recebeu na Brazuca. Foi por "Roda da Fortuna" onde ele interpretava um personagem da realidade, suapeito de matar a esposa milionária (Glenn Close). Já impliquei com as psicanalices de "Twins" que era profundamente desagradável. E "Roda da Fortuna" na época não me conquistou nem acho que tenha sido um desempenho tão brilhante do Irons que estava como quase sempre excelente, mas o papel, o filme... sei lá. Coisas do Oscar: era "a vez" dele ganhar.
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Voltar ao topo [Aeternus:5393] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - RE:Cronenberg : Twins
 Assim como Spielberg é um "monte de brinquedo", Cronenberg pode ser "monte de coroas" ou, como prefiro na minha deriva associativa, "monte de tempo" ( pensando em Chronos, mais do que em Krone ).
E é o tempo que permanece cutelo, tenho tres minutos ainda... Genevieve B ujold me agradou em duas aparições: como uma bailarina louca num filme em que Alan Bates aparece no final de costas e pelado, segurando uma gaiola ( sempre confundo com "Gaiola das Loucas", que não tem nada a ver... É algo como " Mundo Louco" ) e, na outra, acho que com Costa Gavras, quando faz o papel da profetisa que não escutam, anunciando o final de Tróia.
Gallego escreveu irado contra Cronenberg pela "psicanalagem" e Florião, pelas escolhas "mercadológicas". Nada disso me incomodou no produto final das "Marcas da Violência", nem mesmo o que poderíamos reconhecer da dinamica perversa. Se Cronenberg se refocilou na psicanálise e deblaterou teorias analíticas antes, neste filme ele surgiu como uma novidade, o homem não-psicanalítico por excelencia, o homem sem psiquê no mundo ocidental ( no oriental é fácil, no mundo mítico também... histórias de heróis sem história própria e depois comento isto a partir do outro filme que vi ontem, A História de Chichiro, que adiei porque me avisaram que era desenho pesado demais para criança ver e, no final, meus netos tiraram de letra e amaram tanto que já viram tres vezes ). Mesmo apagando o outrinho, e velando o Outrão, o perverso ainda é "ocidental", embora esta frase assim solta fique muito esquisita... É uma patologia judaico-cristã, um rótulo possível na nossa cultura.
Não me senti tocada pelos dois encontros eróticos do filme, mas eles valeram como "descarrego" do mesmo jeito, uma emoção não tão forte como a angústia das alturas quando olhei a enormidade da represa de Itaipu e senti um empurrão ou empuxão no corpo como se fosse partir em dois, ou então, me lançar no espaço gozozamente. Este filme é como uma lenda moderna ( sem associação com o outro uso que fizeram da palavra para filmes de terror sobre lendas urbana, ok?)
Cutelo. Cai o pano. |
Voltar ao topo [Aeternus:5395] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - RE: King of Hearts
 Gallego gentilmente enviou dados sobre o filme do Mundo Louco com o Alan Bates e uma gaiola. Ele era um ornitologista, originalmente, confundido com um especialista em explosivos. Daí a gaiola, finalmente entendi!
Eis os dados que recolhi do endereço que Gallego enviou:
Le Roi de Coeur, 1966 ( King of Hearts) Directed by Philippe de Broca Writing credits Maurice Bessy et Daniel Boulanger
dois resumos da história: 1.An ornithologist mistaken for an explosives expert is sent alone into a small French town during WWI to investigate a garbled report from the resistance about a bomb which the departing Germans have set to blow up a weapons cache. He arrives to find a very eccentric group of townspeople, inmates of the local insane asylum, as it turns out, who have stepped into the characters of the fleeing villagers.
2. During the latter part of World War I, Private Charles Plumpick is chosen to go into the French town of Marville and disconnect a bomb that the German army has planted. However, Charles is chased by some Germans and finds himself holed up at the local insane asylum, where the inmates are convinced that he is the "King of Hearts." Feeling obligated to help the inmates, Charles attempts to lead them out of town, but they are afraid to leave and frolic about the streets in gay costumes. Will Charles be able to deactivate the bomb in time and save his newfound friends?
Alan Bates, Genevieve Bujold ( Coquelicot) Pierre Brasseur, Jean Claude Brialy, Adolfo Celi |
Voltar ao topo [Aeternus:5396] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - Desencontro e ficção como realidade
 Não achei a mensagem na qual Gallego fala da ficção mais convincente que a realidade e certos documentários sem qualquer valor, seja como ficção, seja como testemunhos da realidade. Então não poderei responder diretamente.
Sobre este assunto há algumas coisas que ficarão para outro dia: por exemplo, o livro sobre "Nabokov e o Cinema" de Barbara Wylie, no qual ela argumenta que os romances de VN deveriam ser lidos cinematicamente, com planos peculiares ao cinema e jogos de espelho, roteiro, closes ...Como se em vez de escrever ele estivesse dirigindo um filme com palavras ( filmando verbalmente, não é escrevendo roteiros não...). A crítica de Zoran Kuzmanovitch me caiu hoje mas mãos e acho boa demais para não incluir elementos dela aqui. Oportunamente o farei...
Cronenberg... Retomando em parte para explicitar o seu plano "genérico como de uma lenda", que tornou o filme suportável e agora refiro-me à não convocação do ego do espectador como elemento para facilitar empatias ou antipatias com o que se passa na tela. Não há mundo mágico ou de suspensão da descrença que convoque, como nos grandes épicos ou filmes de heróis, uma empatia com algum ideal ou aproximação a um superego severo ou frouxo. É por isso que, entre outros motivos, pensei em "não-psicanalítico". As categorias comuns da psicanálise não se encaixam. É uma outra leitura, como se esperaria de outdoors do tipo escolhido pela Benetton: aidéticos no leito de morte, freiras fazendo gesto obsceno, gente de todas as caras e carapaças expostos ao sol e à chuva para vender camisetas e moletons coloridos. Nem comove nem repele, mas deixa uma ponta de indignação perplexa e sem fio condutor. Quando liguei o Cronenberg/lenda, por um fio bem tênue, ao "A viagem de Chichiro" (desenho japonês premiadíssimo), foi exatamente por esta dimensão "lenda". Há um herói que perde o nome e não pode quebrar o encanto que o torna escravo ladrão de uma bruxa nem recuperar sua generosidade original. Ele ora é Raco como dragão irado, ora tem nome de menino e nenhum é o nome dele mesmo. A menina, os pais, os bruxos e fantasmas são figuras exemplares, genéricas das maldades e bondades do mundo. Até o nome figura como senha, mais nada. Um ideograma, pedaço de hai kai... Não vou me deter no filme ( que me recordou um anterior, poesia pura, chamado "Totoro"...), apenas sugerir estes lugares que se dão aos personagens numa trama e que são escravizados pela trama. Ganham novos nomes, mas não tem vida propria. Gostei da menina por uma característica que encontrei em outra figura mítica germanica ( que, adocicadamente, foi transformada em Eduardo Mãos de Tesoura, com aquele belo ator que agora fez a refilmagem da Incrível Fabrica de Chocolates ). A história vem em torno de uma certa "Frau Holle"( que alguns aproximam à Senhora Hell, Inferno) que faz chover ou nevar na terra, que premia ou castiga crianças bem comportadas. Chichiro é como a menina boa na Frau Holle: ela faz o bem automáticamente, sem pensar duas vezes nas conseqüências das suas iniciativas. Se há algo a recolher do chão, ela pega. Se há uma planta para regar, ela rega. O que lhe aparece na frente carecendo de um movimento amorável, ela atende. Sem ideologia e sem virtude senão esta acolhida natural da desordem sendo posta em ordem. E, na digressão, fui pruma banda completamente fora do Cronenberg se esquecemos da esposa do Tom Slatter, advogada brigona que é fiel ao que ela mesma não sabe.
O outro comentário sobre o peso da ficção ficará para nova mensagem. Vem do livro do Kertész, de um editor que de repente não sabe como encaminhar um texto, ou escrever sua história porque ele só encontra "soluções, em vez de vidas". Como o contexto do livro é uma denuncia a Auschwitz, até a palavra "solução", solta no texto, ganha corpo quando se pensa na "solução nazista" e no título da obra: "liquidação".
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Voltar ao topo [Aeternus:5397] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-18) - NABOKOV
QUAL O ENDEREÇO DO SÍTIO DO NABOKOV? |
Voltar ao topo [Aeternus:5398] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-18) - RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins
 É, me enrolei. O Irons ganhou o meu Osca no "Twins". Não |
Voltar ao topo [Aeternus:5399] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-18) - RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins
 É, me enrolei. O Irons ganhou o meu Osca no "Twins". Não acho |
Voltar ao topo [Aeternus:5400] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-18) - RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins
 É, me enrolei. O Irons ganhou o meu Osca no "Twins". Não acho que |
Voltar ao topo [Aeternus:5401] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-18) - RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Twins
 É, me enrolei. O Irons ganhou o meu Osca no "Twins". Não acho que o |
Voltar ao topo [Aeternus:5402] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-18) - RE:RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Quíntuplos...
 Os gêmeos entraram em clonagem, ou os irmãos ginecologistas ressuscitaram e estão fazendo experiências no ramo... Acho que o Cronenberg ali foi bem como disse a Jansy, vendo o indivíduo como se não houvesse essa coisa de sociedade. À la Margaret Tatcher, então, que lascou esse 'não existe essa coisa de sociedade'. |
Voltar ao topo [Aeternus:5403] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-18) - RE:NABOKOV
 Duas publicações americanas recebem colaborações de nabokovianos do mundo inteiro. São "The Nabokovian" ( University of Kansas, Lawrence, 66045) e o mais erudito "Nabokov Studies" Davidson College, DAvidson, NC 28036.
Há livros disponíveis on-line, particularmente "Ada or Ardor", completamente anotada pelo professor Brian Boyd de Auckland, NZ ( mas nem todas as notas sairam ainda no site ) . O local para acessar este material minucioso é alcançável pelo Google ( não uso o endereço eletronico de nada!). Basta clicar "Zembla".
A lista de debates, atualmente ainda aos cuidados de Don Barton Johnson ( University of California, Santa Barbara), tem e-mail para participantes inscritos NABOKV-L@listserv.ucsb.edu; Para acessá-la, novamente o Google é o melhor caminho, basta digitar: Nabokov-L Archives e pedir a main page
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Voltar ao topo [Aeternus:5404] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-18) - RE:RE:RE:RE:RE: O Oscar do J.Irons/Cronenberg : Quíntuplos...quin quin quin quin quin
Marcos andou sofrendo para postar a mensagem e chegaram quintuplicadas. Hoje cedo o nosso aristocrata do Dragão também enviou uma mensagem vazia e, em seguida, sem acrescentar nada sobre ela, referiu-se ao silencio. Num rompante sonhador me vi transportada para a versão do "Amadeus" no qual o personagem do Tom Hulce explica como se conversa a partir de muitas vozes dizendo coisas diferentes ao mesmo tempo através da música. Havia entradas como soprano, momentos pianíssimos e fortíssimos... Hoje cedo a turma compôs uma partitura com rompantes de Ionescu e musicada por... Schoenberg? |
Voltar ao topo [Aeternus:5405] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-18) - RE:RE:RE:RE:RE: O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven
 Cronemberg deve ter batido a cabeça durante a filmagem de Crash e retardou mental.
Ou antes... O único filme admirável dele é Gêmeos, Móórrrrbida Semelhaança!!!!!! Mas sem dúvida o trabalho do Jeremy Irons, em si, é melhor do que o todo do filme...
Crash (o do Cornembrega) é simplório. É bom como idéia, mas não deviam deixar a gente passar da sinopse e entrar no cinema.
Canadense bom mesmo é o Denis Arcand, o do Declínio do Império dos Bárbaros. Você viram dele Amor e Restos Humanos? ADORO aquele filme.
Mas em termos de fusão de violência com erotismo, gosto dos primeiros que vi do Verhoeven: o último que ele fez na Holanda - O Quarto Homem, um thriller sobrenatural passional - e o primeiro que fez nos EUA, Conquista Sangrenta, aparentemente uma mera aventurazinha ambientada na Idade Média, mas que subverte totalmente os... digamos... arquétipos do que seja um "mocinho", uma "mocinha", um "vilão", o "amor" e o tesão. Ah, e o que seja a intervenção divina também! Ou seja, é um filme cheio de sutilezas escondidas numa aparência hollywoodiana.
Mas aí veio Robocop, e sua veia artística sofreu uma trombose.
Não que não haja interesse nos filmes seguintes: Instinto Selvagem, que devia ter dado um Oscar prá Sharon Stone, só não é uma obra prima porque o Verhoeven não entendeu o personagem que deu a Michael Douglas (se tivesse entendido, ele não teria dado o papel pra ele). Acho ótimo o título original, Basic Instinct, muito mais preciso no tom não-sexual pra contrastar com o que se vê na tela. "Instinto Selvagem" combina com a explosão erótica que é Sharon Stone, mas a idéia era outra, era o contraste, era puxar pro instinto de sobrevivência, aí sim uma boa fusão entre erotismo e medo, a adrenalina que faz a efervescência transformadora das rainhas em bruxas, dos medrosos em assassinos, dos cerebrais em passionais, do tesão em ódio, do amor em... narcisismo.
BASIC INSTINCT. O que o estraga é a pastelice do Michael Douglas, precisava de um ator de PULSO, que soubesse transitar pelo fio da navalha que separa a psicologia criminosa da mentalidade policial. Douglas não transita. Nem nada... (SÓ a Catherina Zeta-Joooooooones)
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Voltar ao topo [Aeternus:5406] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-18) - RE:Desencontro e ficção como realidade
Jansy se referiu "à não convocação do ego do espectador como elemento para facilitar
empatias ou antipatias com o que se passa na tela." Discordo: o filme entrou em segunda semana no Rio comcircuito ampliado, o que sugere que deu mais bilheteria do que supunham. Acho que no medo em que vivemos, o início do filme onde um supostamente homem pacato e comum reage heroicamente a um ataque que - o espectador sabe - será violentíssimo pois já viu os mesmos bandidos agirem na cena de abertura. Essa didentificação com um ideal é imediata, ao meu ver. Quando o homem comum se revela ainda mais do que meramente um pacato cidadão, a idealização com um superhomem ideal (em vez de um superego) do mal também se dá. Daí, a perversidade do enredo em confrontar o espectador comum com suas limitações numa situação de violência avassaladora. |
Voltar ao topo [Aeternus:5407] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-19) - RE: O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven
 Adendos ao Conde em azul ! Cronemberg deve ter batido a cabeça durante a filmagem de Crash e retardou mental. Creio que foi a Jansy quem melhor situou o 'jeito Crô' de filmar. Eu o chamei 'mercadológico' pois acho que o artista que enche linguiça com ultraviolência é um baita apelador. Falta o que falar, então...que morram uns 30. Ou antes... O único filme admirável dele é Gêmeos, Móórrrrbida Semelhaança!!!!!! Mas sem dúvida o trabalho do Jeremy Irons, em si, é melhor do que o todo do filme... Conde concorda em gosto comigo, pois. Mas afora o virtuosismo do Irons, acho o filme esteticamente fascinante e horroroso em suas nuances, o cúmulo do escabroso, que vai do elegante ao emético. Há um carinho especial, morbidamente assumido e por vezes terno entre os twins. Ensaio no grotesco, pois, e se eu fosse eleger a cena mais apavorante que já vi no Cinema creio que votaria na da cirurgia ginecológica em que o gêmeo drogado/semientorpecido/trêmulo perscruta com agulhas o útero da paciente. Polanski deve ter ficado com uma inveja federal desta cena... Crash (o do Cornembrega) é simplório. É bom como idéia, mas não deviam deixar a gente passar da sinopse e entrar no cinema. Não quis assistir este. Achei que seria como vocês estão mesmo comentando. Canadense bom mesmo é o Denis Arcand, o do Declínio do Império dos Bárbaros. Você viram dele Amor e Restos Humanos? ADORO aquele filme. Arcand é um dos maiores nomes do Cinema. Seja em estilo, seja em bojo, uma tremenda pilastra. Daquelas em mármore de Carrara, dos prédios europeus que ecoam nossos saltos. "Love & Human Remains" - que título magnífico, hein ? - tinha um clima urbano incrível, sorumbático e terrivelmente à espreita. Aquela tranqüilidade que a gente sabe que não é tranqüilidade. O ator Thomas Gibson está ótimo, ele é bastante expressivo e de poucos gestos. No excelente "Stardom", também sob Arcand, ele faz um papel bastante difícil, o de agente internacional de imagem da top model. ( a tempo ) "Stardom" não foi lançado no Brasil, levou apenas na NET. Um B-A-N-HO de estilo e coragem. Arcand filma como se estivéssemos vendo TV em casa, ou alguma colagem de reportagens. O fio dramático vai se impondo naturalmente, pela primorosa ordenação e desempenhos. Show de visão do pós-moderno, dos antirumos ideológicos, da mídia engolfadora, dos simulacros, das falácias da globalização e do aparecer-é-poder.
Mas em termos de fusão de violência com erotismo, gosto dos primeiros que vi do Verhoeven: o último que ele fez na Holanda - O Quarto Homem, um thriller sobrenatural passional - e o primeiro que fez nos EUA, Conquista Sangrenta, Verhoeven conseguiu fazer alguns dramas com 'cara Holanda' menos barra pesada, como "Turkish Delight" e "O Amante de Katie Tippel", ambos com Rutger Hauer e Monique Vande. Neste "Flesh&Blood" que o Conde refere, adoro a cena em que o brutamonte-armário Hauer, como auto regalo por ter pilhado uma cidade, vai comemorar estuprando a Jennifer Jason-Leigh. A pobre coitada consegue estender a mão até uma tocha acesa e queima a bunda brancona dele.aparentemente uma mera aventurazinha ambientada na Idade Média, mas que subverte totalmente os... digamos... arquétipos do que seja um "mocinho", uma "mocinha", um "vilão", o "amor" e o tesão. Ah, e o que seja a intervenção divina também! Ou seja, é um filme cheio de sutilezas escondidas numa aparência hollywoodiana. Sim, por que traz aquele verniz das conquistas bárbaras, formação de etnias, tals. Mas aí veio Robocop, e sua veia artística sofreu uma trombose. Hollywood coloca uma faca na goela do realizador, transtorna-o...Ele ainda tentou "Showgirls", sobre stripers, e "Hollow Man", um drama com Kevin Bacon e a bela dengosa Elizabeth Shue. Não que não haja interesse nos filmes seguintes: Instinto Selvagem, que devia ter dado um Oscar prá Sharon Stone, só não é uma obra prima porque o Verhoeven não entendeu o personagem que deu a Michael Douglas (se tivesse entendido, ele não teria dado o papel pra ele). Acho ótimo o título original, Basic Instinct, muito mais preciso no tom não-sexual pra contrastar com o que se vê na tela. "Instinto Selvagem" combina com a explosão erótica que é Sharon Stone, mas a idéia era outra, era o contraste, era puxar pro instinto de sobrevivência, aí sim uma boa fusão entre erotismo e medo, a adrenalina que faz a efervescência transformadora das rainhas em bruxas, dos medrosos em assassinos, dos cerebrais em passionais, do tesão em ódio, do amor em... narcisismo. BASIC INSTINCT. O que o estraga é a pastelice do Michael Douglas, precisava de um ator de PULSO, que soubesse transitar pelo fio da navalha que separa a psicologia criminosa da mentalidade policial. Douglas não transita. Nem nada... (SÓ a Catherina Zeta-Joooooooones) A Zetinha Gostosa transita nas altas de "Traffic", num papel excelente ! Sua transformação de inocente em esperta a partir das necessidades de pagar as contas habituais do cartão de crédito, uma vez remetido ao xilindró ( não lembro bem se morto, até, ou simplesmente destronado )seu mafioso marido. E estava um charminho em "Armadilha", ao lado do Sean Connery.
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Voltar ao topo [Aeternus:5408] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-19) - RE:RE:Bujold/As Troianas///Cronenberg : Twins
A Geneviève Bujold que Jansy lembrou num filme dirigido por cineasta grego foi de fato Cassandra, a profetisa em quem ninguém acreditava (e ela acertava em suas previsões funestas), na versão para cinema de "As Troianas", com Katherine Hepburn no papel de sua mãe, a rainha deposta de Tróia, Hécuba; a Vanessa Redgrave como a viúva (Andrômeda?) de outro filho de Hécuba, Heitor (morto por Aquiles); e a Irene Papas como Helena que era mulher do grego Menelau e, ao abandoná-lo pelo Príncipe Troiano, Páris, deu pretexto à Guerra dos gregos contra Tróia. Um elenco e tanto! Mas o diretor não era o Costa-Gavras, e sim o Michael Cacoyanis que já dirigira uma "Electra" e viria a dirigir uma "Ifigênia em Áulide", todos estes filmes baseados em peças de Eurípides, nos quais a Irene Papas encarnou mulheres fundamentais (e parentes entre si) no ciclo de peças dos atridas: em "Ifigênia" ela foi Clitemnestra, a mãe de Ifigênia, sacrificada aos deuses para as naus gregas ganharem vento e partir para Tróia; em "Electra" ela foi a outra filha de Clitemnestra que fica remoendo ódio pela mãe tê-la mantido como escrava enquanto o pai estava na Guerra, tendo matado este marido quando ele voltou de Tróia (trazendo Cassandra como espólio de vitorioso); em "As Troianas" ela foi a irmã de Clitemnestra, Helena. Jansy me emprestou, há tempos, fitas de vhs com os filmes "As Troianas" (falado em inglês, sem legendas) e "Ifigênia" (falado em grego com legendas em inglês) e este eu pude inserir no ciclo de debates que coordenei durante 10 anos na Sociedade Bras. de Psicanálise do RJ. O Cacoyanis sumiu, sendo que eu vi num festival desses de filmes uma versão dO Jardim das Cerejeiras de Tchékov dirigida por ele onde o Alan Bates fazia uma de suas últimas aparições no cinema, ao lado da (não lembro se era da Charlotte Rampling ou da Vanessa Redgrave, mas acho que era a Charlotte). Não o reconheci pouco tempo depois no filme do Altman "Assasinato em Gosford Park" nem num que andou passando direto nas TVs (foi feito para TV) com Michael Caine no papel de um antigo carrasco nazista protegido por padres católicos. Mas, ainda que careca e tão inchado como nestes últimos filmes, o vi e pude achar que era ele mesmo ainda anteontem como "Agripa" numa versão para a TV de "Spartacus" (no crédito final, dedicado à memória de Sir Alan Bates; na cena final ele se mata como romano depois de dixar a viúva de Spartacus fugir) p.s.: Descobri que o título original de "Gêmeos - Mórbida Semelhança com a G.Bujold e J.Irons nunca foi "Twins", mas "Dead Ringers" no Canadá e "Alter Ego" nos países de língua só francesa.
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Voltar ao topo [Aeternus:5409] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-19) - RE:Desencontro e ficção como realidade
 Criteriosamente, Jansy escreveu: Não achei a mensagem na qual Gallego fala da ficção mais convincente que a
realidade e certos documentários sem qualquer valor, seja como ficção, seja como
testemunhos da realidade. Então não poderei responder diretamente. Escrevi sobre isto recentemente me apropriando de uma idéia no livro "Viagem vertical", mas digo e repito essa idéia desde que escrevi para aquela mesa da qual participamos no festival de filmes de Brasília, lembrando que o documentário é "dirigido". "montado". selecionado de acordo com a tese do documentarista. Exceção magnífica são alguns filmes do Eduardo Coutinho que parece que realmente são filmes "en train de se faire", sempre em processo de feitura enquanto estavam sendo filmados, dando voz ampla aos entrevistados. Vide "Babilônia 2000" e "Edifício Master". Estreou, del, "O Fim e o princípio" que estou doido para ir lá conferir. Mas a ficção pode aprofundar e refletir mais sobre os fatos reais e mais ainda sobre a realidade psíquica. Harold Bloom chega a dizer que o homem psicológico contemporâneo foi criado por Shakespeare. Exageros e hipórbeles à parte, é razoavelmente convicente a defesa que ele faz sobre o modo do homem moderno se representar, refletir, dialogar consigo mesmo ser tributária dos monólogos de Macbeth ou de Hamlet. A introspecção, senão o "insight" viriam dali. Claro que Shakespeare estava inserido no Renascimento que tomava o ser humano como amedida de todas as coisas (o maior eleogio que se vê em várias peças de Shakespeare é "Este é um homem!"; "Ele foi um homem!"; "Aquele, sim, era um homem!". Onde "Homem" parece mais uma qualidade, um adjetivo, do que um substantivo. As verdades eternas - por exemplo- sobre as guerras estão nAs Troianas de Eurípides e mesmo em ficções baseadas em fatos/personagens que existiram mesmo. Os filmes de Michael Moore são atraentes pela sua montagem ficcional, mas o mesmo episódio do massacre em Columbine, levemente ficcionalizado em "Elefante" me parece mais perplexamente retratado neste último do que no documentário de Moore. Aliás, já se criou a denominação "docu-drama"... Não estou inspirado para desenvolver essas idéias neste momento, acho que já as expus melhor em outros escritos, mas aceito críticas e sugestões que possam desenvolver a idéia, seja para lá ou para cá, contestando-a ou afirmando-a - ou muito pelo contrário...
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Voltar ao topo [Aeternus:5410] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-19) - RE: Cacoyanis e Bates
 Em "Ifigênia" ele acertou a mão legal ! É uma sacudida e tanto, bem na linha clássica. Alan Bates sempre teve uma bela cabeleira. Deve tê-la perdido por alguma droga forte, coitado. Achei-o pletórico em "Gosford Park". E talentoso, como sempre. |
Voltar ao topo [Aeternus:5411] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-19) - E agora? Achei "Manderley" ótimo!!!
Cheio de má-vontade fui assistir a segunda parte da trilogia do Lars VonTrier iniciada pelo niilista-fascista "Dogville". Gente! Será que eu sou do contra? O famoso "espírito de porco", ainda que involuntário? Porque este filme mal está aguentando a segunda semana em cartaz, lançada numa sala média do Espaço Unibanco, já saiu para sessões alternadas com outros filmes em salas de "final de carreira"... Aonde estão os inúmeros fãs de Dogville??? A crítica que incensou "Dogville" está dizendo que este filme é bom ou "muito bom" sem entusiasmo, com subtexto de complacência, idéia de "filme menor" de um grande diretor (?). O VonTrier é camaleônico quando quer (e consegue) - e esperto. Burro, ele não é. Deve ter lido minhas críticas à "Dogville" (hahahaha, estarei eu com um "megaloma" no lobo frontal cerebral esquerdo? segundo as neurociências de Santa Rita do Passa-4, Megalomas são tumores que causam paranóias de grandeza, todos sabemos... hehehehe). Falando sério: o filme é MUITO MUITO BOM, mantendo o niilismo sobre a espécie humana e nossas (des)organizações culturais(?) "civilizadas", no atacado e no varejo. Mas não repete o grandiloquente final assassino da Grace de Dogville, revelada como filhota protegida de gângster poderoso dando a sua "virada" (aparente) de masoca para sádica, dona do poder, das armas, com direito da força de julgar os vivos e os mortos como um deus onipotente... final que eu soube que era aplaudido (não o filme que era aplaudido, a cena mesmo em que ela mata todos os habitantes de Dogville com o próprio dedinho no gatilho das metralhadoras do papapizão), ou seja, a manipulação da platéia numa espécie de filme do Charles Bronson (Desejo de Matar 1,2,3,...n) com ares de fábula intelectualóide. O mais curioso é que os críticos estão mencionando que "a novidade" da narrativa em uma espécie de enorme "palco" sem paredes nem portas para as casas, apenas desenhadas em seus perímetros no chão, já não atrái tanto!... Devo ser um E.T.! A "novidade" era um recurso teatral brechtiano e a fábula um recurso idem do Dürenmatt. Aliás, apelidei "Dogville" de 'A Visita da Jovem senhora' no lugar da 'velha senhora' da peça de Durenmatt. Novidades? Acho que faz bem a "Manderlay" o recurso formal dessa narrativa ser menos explorado: está lá, mas sem ênfase, servindo ao enredo e nunca como exibicionismo do tipo "Mamãe, sem as mãos! e sem cenário!" Como a troca dos atores sobreviventes (sai Nicole Kidman, entra aceguinha de "A Vila", outro em que fui espinafrado por espinafrá-lo; sai James Caan, entra Willem Dafoe como o pai-gângster/deus ex-machina); o filme se abre com um narrador (John Hurt) informando que, tão logo deixaram Dogville para trás, Grace e seu pai retomaram as divergências anteriores; ou seja, Grace volta a querer se opor ao gangsterismo do papai e quer ser nova santa ou fazedora do bem, acreditando na bondade humana. Esta "retomada" da premissa anterior é bem absurda, se esperamos uma coerência psico-naturalista da personagem, mas serve bem a um "novo" filme, trazendo a mesma base para discutir outro desenvolvimento das mesmas premissas, ainda que a evolução seja semelhante, vale dizer, a decepção com o gênero humano. Esta "retomada" da "psicologia" prévia de Grace também pode ser sugestiva da irresponsabilidade camaleônica de Von Trier que não tem muito compromisso com o que diz ou -será ? - reviu sua mão pesada que acabou com uma idéia mais fascista do que niilista em "Dogville". Em "Manderlay" descobre-se o fascismo interno como potencial - ou internalizado por cada um a partir da experiência com a realidade externa adversa e excludente. A provocação é boa: nos EEUU de 1933 uma fazenda ainda tem escravos negros. Talvez Trier achasse que culpar os escravos por sua escravidão fosse trazer polêmica política e protestos escandalosos a favor do filme. Mas já somos sartreanos suficientemente para pesquisarmos e sabermos de nossa falta de liberdade interna, não raro maior do que os grilhões concretos que possam nos aprisionar. Com isto, o filme ganha uma relevância, aos meus olhos, muito maior do que o fascismo dogvilliano. O filme é um pouco menor e bem menos chato (porque, cá entre nós, Doogville era repetitivo e arrastado no "calvário" de Grace-1) com uma Grace-2 com ar mais ingênuo do que Nicole Kidman, por vezes; ela "engana" menos, com boa mistura de perplexidade e atordoamento, assim como com uma certa curiosidade pela malícia que ficam bem expressas no olhar da jovem Bryce Dallas-Howard - que nome!). Desta vez, se o filme não reassegura saídas para os agrupamentos humanos, também não se mostra tolerante com a lei do mais forte que detenha o poder das armas depois de vincular emocionalmente o espectador aos sacrifícios da bela e"bondosa" Grace-1; mais sabiamente, retrata, como num bom Durrenmatt (me lembrei de outra peça dele, "Os Físicos"), o impasse, a frustração de um projeto mais, digamos, iluminista que a Grace-2 tenta retomar, (e que, de antemão, só impõe novamente pelas armas) abalado pela alteridade divergente de seus ideais e pela própria atração instintiva, desta vez não pela destrutividade, mas pelo erotismo. Pretendo ver de novo. Recomendo, dou a cara a tapa! Desde "Ondas do Destino" não vejo um filme tão bom do Von Trier, o esperto que muitas vezes direciona sua inteligência e habilidade de manipulação em projetos de escândalo cheios de som e de fúria significando nada ou mais ainda, más-intenções. Pode ser que, desta vez, o manipulado tenha sido eu. Corro o risco. E espero ansiosamente o desfecho da trilogia, "Wásington" (parece que é asim mesmo que o filme vai se chamar, não é Washington, mas Wásington). Tem fotos no final e música de David Bowie de novo. Que fotos!!!
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Voltar ao topo [Aeternus:5412] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-19) - entrando de gaiata no navio...ou nas barcas de Niterói
 Estou re-instalando internet em casa e, com isso, escrevo no meio do caos de modems e routers e computadores desmontados. Vi montes de comentários e até particulares "provocações" do Gallego. Queria ter mais oportunidade para responder com calma, mas aí vai. Gallego estava avaliando o sucesso do filme do Cronenberg junto às massas e considerando que havia um "ideal de eu" presente na figura do mafioso competente que defende a família influindo na aceitação do filme. Eu havia proposto que não havia "ideal de eu". Entramos num impasse de terminologias! Ideal de eu, a partir de Freud, é o que dá origem ao superego. Eu-ideal é diferente e, talvez, seja ao que Gallego se referiu, pois descreve não uma instancia censora, mas um modelo para as identificações idealizadas. Estes termos vão mudando e nem mesmo os dicionários mais sérios dão conta das alterações. Tenho que admitir que os argumentos do Gallego fizeram sentido, sim, seja com que nome for. Talvez eu tenha me projetado ao propor que havia uma frieza entre filme e espectador, um corte. Quando assisto novelas ruins ( como esta Alma Gêmea da Globo), mesmo assim apesar de prever o que o roteirista vai usar e os recursos para adiar a história interpolando ceninhas divertidas ou coisas semelhantes, ainda assim fico nervosinha, irritada, comovida. Esta história de um crime hediondo, e que está sempre por ser revelado, mas a boa mocinha continua sendo injustiçada e a megera triunfando me coloca na torcida pelo "bem" ( ou podia ser pelo "mal") e até me dá taquicardia tipo água com açucar. Como então não senti isto vendo o Cronenberg? Daí minha caracterização das escolhas dele como outdoor-benetton, com personagens suficientes para as diferentes divas ou divos se exercitarem com boas falas. Gostei muito também do que Gallego anotou sobre documentários e ficção. Comecei a elaborar algo nesta linha, mas ainda não estou com as frases do Kertész que buscava para copiar aqui. Vai só o início que escrevi... usando o Word, ontem, muito desligada do mundo sem internet ...Colo o início: Comentando a peça teatral, encomendada pelo príncipe Hamlet para ser apresentada na presença do Rei Claudius, Borges observou que, se personagens de ficção encenam diante de uma platéia que não faz parte da história que representam, este processo pode contagiar o leitor de Shakespeare e, enquanto leitor, ele passar a ser incluído na obra que supõe ler. O caminho das táticas de involução embora bastante explorado para ressaltar o choque entre ficção e realidade, sempre traz surpresas. Assim aconteceu comigo ao ler o “Liquidation” de Imre Kertész. Um escritor comete suicídio e entre seus papéis o amigo, Kingsbitter, encontra uma peça de teatro que antecipa e realiza seus futuros movimentos enquanto editor e cidadão húngaro. O autor, Bee, havia sido salvo do campo de Auschwitz e, sua história particular, contaminada pela tragédia dos demais prisioneiros e pela culpa de estar vivo. A peça de Bee é secundária a um manuscrito desaparecido. Kingsbitter se ocupa da investigação, misturando-se cada vez mais no enredo da peça enquanto um dos seus personagens, até descobrir que o romance que buscava havia sido incinerado. O meta-texto da peça teatral desaparecera e, no processo, os atores se misturavam aos personagens "reais", desordenados e sem história, já que a novela, como os prisioneiros do campo de extermínio, haviam sido igualmente "liquidados". O escritor havia colocado todos, inclusive o leitor, no mundo dos indigentes, daqueles que vivem apenas "o presente contínuo"... |
Voltar ao topo [Aeternus:5413] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-19) - RE:O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven
 Prometi tanta coisa e não vou cumprir tão cedo... Devagar e sempre chego lá. Florião, você gosta do desempenho de Alan Bates? Eu, raramente. Creio que o curti num filme cheio de ovelhas que se lançavam num precipício e, talvez, neste King of Hearts. Depois o vi como profeta numa espécie de Mil e Uma Noite e num papel semelhante em outro filme completamente diferente, barba disfarçando tudo. No último que vi ( não era onde foi mordomo, em Gosford Murders, pois o papel duro de mordomo engomado combinou com a persona gordota dele e não achei mal) estava lamentável ( pode ter sido um sobre uma árvore mágica e que envolvia peixes? Tim Burton?). Ele acha sua risada estereotipada o máximo e fica rindo de bobo. Hoje comecei o dia ouvindo a música do "Closer". Depois, só olhando à distancia e escutando trechos. Achei curioso como o filme se presta a uma visão "estruturalista". Começa com o olhar ( can´t take my eyes off you/ Alice desvia o olhar na direção especular de Dan e é atropelada, sem estragos/ escolhe nome Alice entre os que morreram para salvar alguém/ limpa óculos do Dan e discutem obituários/ será que ela morre no final para "salvar Dan"?) e na cena seguinte, temos a fotógrafa e o olho da camera, mas a pergunta que Dan faz é: "Você já exibiu?" ( exhibition em inglês/ exposição em portugues). Em outro movimento: ela não come peixe ( nem crianças)/ o dermatologista encontra Anne no aquário por aprontação de Dan que publicou um livro intitulado "aquário"/ Na cena dos computadores, temos um ambiente quase de aquário com os monitores e o escurinho, seguida pelas telas de vidro dos aquários verdadeiros e o escurinho. A primeira fala de Alice para Dan é "Hello, Stranger" e a exposição de Anne, com foto de Alice, é "Strangers". Em vez dos telões/aquários, as grandes telas de fotos... ainda e sempre luz artificial e as "mentiras" como forma de contato humano, mediatizado sempre. Um saborzinho de Antonioni??? Can´t take my eyes off you... Esta música me comove com o efeito de uma "madeleine" de Proust. Uma nostalgia profunda, sentimento de encontro de passagem, reconhecimento, sorriso e perda. Um êxtase de angústia. É como se só pudéssemos conhecer Deus através da angústia! Misterium Tremendum que nos habita e nos põe em estado permanente de luta para escapar e, simultaneamente, atravessar o que a angústia apresenta. Eu achava que ouviria esta música todo tempo e, no entanto, quando ela aparece no começo é brevíssima. O longo ali é visual, vem por conta da filmagem, os transeuntes caminhando em camera lenta. Tem muito mais a beleza do Cosi Fan Tutti entremeada com um tema em instrumentos de cordas, muito belo também. Que diferença entre o questionário dolorido que Alice faz quando Dan a abandona e o do perito em pele de alma humana atacando Anne...
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Voltar ao topo [Aeternus:5414] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-19) - RE:entrando de gaiata no navio...ou nas barcas de Niterói
Chiii... essa discussão sobre ego-ideal e ideal do eu é complicada. Freud abandonou o termo ideal do eu quando passou a usar o termo que equivale ao superego (isso não quer dizer que uma instância comece como ideal do eu e evolua para superego). Alguns autores mantiveram os dois conceitos. Um deles dizia que o eu se submetia ao superego por medo; e ao ideal do eu por amor/admiração. Na terminologia kohutiana sempre achei (eu achei, ele não explicita asim) que o "self grandioso" seria equivalente ao ego-ideal e a imago parental idealizada, ao ideal do eu. Pode ser. Ou não. A identificação da platéia com um superhomem não me parece que seja como Jansy disse: "Eu-ideal é diferente e, talvez, seja ao que Gallego se referiu, pois descreve
não uma instancia censora, mas um modelo para as identificações idealizadas." De fato, há um problema terminológico: para mim, "identificações idealizadas" se dão com base num objeto representado ou percebido como poderoso, um ideal do eu (independentemente do superego, estou utilizando o termo como algo autônomo, tal como Numberg, se não me engano), um ideal que o eu não toma ainda como próprio, deseja ser como o objeto que é poderoso ou idealizado como tal, objeto que tem características que o eu não encontra em si mesmo. Já o ego-ideal, no meu entendimento, seria totalmente narcísico: o eu é o modelo ideal, a medida, a plenitude ilusória e iludida, sua majestade, o neném, a criança maravilhosa. Talvez eu esteja mesclando termos de Freud (e que ele mesmo abandonou) com conceitos kohutianos. Retomando o filme: um homem "comum" que reage a um assalto de psicopatas que iam matar uma moça indefesa é tudo o que gostariamos de poder ser, ser com tal poder. Se o personagem fosse confundido com um marginal desaparecido, mas não fosse o marginal, o filme poderia ter outro desenvolvimento esperto e hitchcockiano (o tema do "homem errado" mas que pode ser quem se procura para ajustar contas com a lei; neste filme seria para ajustar contas com foras-da-lei). Poi, de alguma forma, o sujeito capaz daquela reação inesperada seria uma potencial "máquina de matar", que só entra em atividade na hora certa e necesária: um super-herói - porém, como todos os super-heróis, com a possibilidade de ser um super-bandido, dependendo de para qual lado se direciona. O fato de o personagem ser mesmo um ex(?)psicopata que virou a página e - como disse Jansy - forclui seu passado também é interessante, porque sua personalidade "retorna" do Real (estou certo?) Por isso critiquei a cara do ator no início do filme: muioto blasé, muito "frio" para quem, de repente foi levado a fazer o que fez para se defender. Isso é coerente com a psicologia "manifesta", naturalista, do personagem mas dá logo a pista de que ele não era quem a gente achava que ele era: um homem "comum". Dramaticamente faltou ambivalência (que tb é coerente com a psicologia [latente] de um homem com duas faces: me lembrei de um antigo título: A Face Oculta). Enfim, seja como for, as platéias atuais adoram poderem se identificar idealizadamente com um herói que "nasce" de um homem comum. Quando descobrem que ele não é tão comum assim, temos duas possibilidades: "o bom mesmo é ter sido um assassino treinado e competente para usar quando necessário" (fantasia absurda que aceita a foraclusão e idealiza uma espécie de alienação splittada de aspectos próprios, psicótica); ou... "que pena que eu não sou assim", deixando o self humilhado com tamanha competência do homem que foi(?) do mal. Ele mostra que pode voltar (?) a ser do mal a qualquer momento e depois voltar para casa, abraçar as crfianças e sentar na mesa. Acho que a primeira idealização "vence" na platéia que está prestigiando o filme e divulgando-o no boca-a-boca como valendo apena assistir. Tal como a esposa que goza adoidado na trepada violenta da escada depois que tenta rejeitar o maridão. Antes, ela tinha que se vestir de colegial para apimentar a vida sexual do casal-modelo. Cronenberg é perverso até quando é discreto. David "Deprave" Cronenberg, also known as the King of Venereal Horror
or the Baron of blood, was born in Toronto, Ontario, Canada, in 1943. Vejam como ele é apresentado ni imdb: " David "Deprave" Cronenberg, also known as the King of Venereal Horror
or the Baron of blood, was born in Toronto, Ontario, Canada, in 1943. His films generally involve the horror caused by a mutation, a parasite, or particular medical conditions. Uses dark backgrounds. Films often include explicit carnage.Frequent references to "the flesh". Os críticos mais intelectualizados não entram nesses procesos de identificação e adoram a idéia de Cronemberg mostrar o "assasino dentro de nós" (que fantsiamos identificações com o herói do filme).
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Voltar ao topo [Aeternus:5415] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-19) - RE:RE:O Oscar do J. Irons / Cronenbrega / Verhoeven
Jansy retoma "Closer" em grande estilo, mostrando/demonstrando pontos de ligação/desligamento dos personagens numa visada estruturalista, para ler e guardar.
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Voltar ao topo [Aeternus:5416] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-19) - RE:RE:entrando de gaiata no navio...ou nas barcas de Niterói
 Não adianta muito discutir terminologia per se. Os exemplos clarificam melhor. Você optou por considerar que o ego-ideal é como "sua majestade o bebê", ou seja, o narcisismo inicial do bebê. Então, tá. Também marcou uma passagem na qual Freud teria deixado de escrever "ideal-do-eu" para usar "superego", sem que isto implicasse numa substituição do primeiro pelo segundo. Então tá. Se der vontade, cabe pensarmos no tipo de pai que o Tom Slatter era depois de adotar o novo nome e ter filhos, como na cena em que ele critica o filho por ter lutado na escola, e este responde que "em nossa família a gente não luta, mas mata a tiros" e é esbofeteado pelo pai... Ou na outra, em que o filho questiona qual o verdadeiro "nome do pai" que ele pode adotar como próprio ( sem nada a ver com o nomedopai lacaniano, aqui ). Falta também toda história edípica daquelas crianças com pais muito ausentes e envolvidos passionalmente entre si, como recém-casados adolescentes. O menino chamado constantemente de "maricas" ... Aliás, que menininhas feias Cronenberg escolheu. Quanto ao " revelar o assassino dentro de nós" pode ser uma boa idéia: qualquer carioca precisa sentir que é capaz de ser competente na hora de defender-se das agressões mortais às quais é exposto diariamente. Lembrei de dois ( ou mais) pacifistas no filme " O jardineiro fiel" e questiono se o que vem acontecendo, no Rio e São Paulo mais do que algures se pensarmos apenas pelo padrão da moral burguesa, não deforma o cidadão que nem pode se tomar como pacifista: precisa optar pela visão de si como lobo sanguinário... Sabe que não vejo Cronenberg como psicopata, devasso, amoral total? Entendo-o como quem descreve um mundo diferente daquele ao qual estou acostumada e do qual conheço pouco. Uma vida de família burguesa comportada, com festas, reuniões de pais e mestres, natal e etc é apenas uma vitrine bem decorada que só assim funciona como esteio da sociedade atual. Como já o reconhecia a rainha Vitória... |
Voltar ao topo [Aeternus:5417] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-20) - Oliver Triste
Quando eu era moleque sem entender nada de inglês, eu achava que o nome do livro de Charles Dickens era "Oliver Triste". Acho que nunca li "Oliver Twist", exceto talvez num resumo em quadrinhos de uma revista chamada "Edição Maravilhosa" que publicava os enredos de romances em quadrinhos. Havia também as edições brasileiras de autores nacionais. Claro que nada de Gumarães Rosa ou Clarice Lispector: José de Alencar aos montes! Macedo e outros menos votados ainda, também. Os romances estrangeiros [engraçado, eu havia escrito "outros" querendo dizer estrangeiros] (de língua inglesa, a edição original deveria ser americana) também eram os românticos de Walter Scott, Alexandre Dumas, e é claro, Dickens. De Conrad, me apaixonei por "Lord Jim". Alguns desses títulos eu nunca consegui ler nos livros originais. Terá sido o caso de "Oliver Twist", se é que eu li em quadrinhos. Mas assistindo o filme na versão Polanski recente alguns trechos me pareceram conhecidos. E não confundi com "Grandes Esperanças" nem com "David Copperfield". O filme do polanski não é (quae) nada. É burocrático. Quase não emocinona (em Dickens!). É rotineiro. Denuncia a origem em folhetins, capítulo por capítulo, lance por lance, "virada" por "virada". Sem ritmo. Monótono. A música chata e repetitiva. os cenários parecendo levemente cenários (cheguei a pensar que poderia ser intencional para seguir gravuras de livros da época, mas acho que foi boa vontade de minha parte) Não fosse pelo desempenho brilhante de Ben Kingsley (com quem Polanski já havia trabalhado em "A Morte e a Donzela") no fio da navalha do ridículo (especialmente na sua patética cena final), nada sobraria deste filme. Este, sim, o verdadeiro Triste Oliver Twist.
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Voltar ao topo [Aeternus:5418] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-20) - RE:Oliver Triste
 Tive que ler Dickens "abridged" nos cursos da Cultura Inglesa, o que me despertou o gostinho para ler o original completo. Atualmente me perco na trama e na população de tipos, mas continuo sapateando de felicidade com a concisão da linguagem de cada frase em que esbarro. Assisti "Oliver Twist" em 1964 como musical, do qual me restou uma linha esganiçada: "Food, Glorious Food". Há muitos e muitos filmes na televisão a partir de O.Twist, Great Expectations, A Tale of Two Cities, a história natalina - mas sinto então saudade da experiência de ler, do papel e das frases impressas, pois não curto as histórias em si. A crítica do Gallego foi mais contundente do que outra que li recentemente, onde apenas falam sobre a opção "não sentimental" de Polanski que empobrece o filme. Acho que vou me poupar de ver ... |
Voltar ao topo [Aeternus:5419] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-20) - RE:RE:Oliver Triste
O pior é o ritmo (ou falta de ritmo) do filme, passando burocraticamente pelo que devem ser os vários capítulos do folhetim origina: capitulinhos rapidinhos, talvez fiéis ao livro, mas equivocados por serem mantidos na tela se não acrescentam ação à história principal, só mais problemas ao personagem. De fato, a opção é "não sentimental", o que poderia ser bom ou ruim, mas noi caso não funciona: toda a carga de emoção estaria na cara sempre triste do atorzinho principal que não parece saber fazer mais do que ter cara triste, triste, triste. Mas não passa emoção maior nenhuma. Parece que Polanski não teve muito saco de dirigir os atores-mirins. E o filme acabou proibido até 14, por aqui, o que retira um público que talvez pudesse se interessar mais (mas não sei se Dickens fala ao público jovem atual). Não há como não deixar de pensar na tragédia dos meninos de rua do Rio e outras cidades. Londres parecia uma "fábrica" de órfãos (abandonados, desportegidos, filhos de mães mortas, etc) de onde saiu também Carlitos (a mãe era doente mental e o pai... não sei) já no final do século XIX, início do XX. O filme talvez sugira mais do que o livro na caracterização de duas jovens moças com ares de prostitutinhas-light, uma delas, a "Nancy" que teria feito o público de então chorar. Além da versão musical que nunca tive ânimo de assistir (foi uma espécie de símbolo de uma Hollywood que se queria super-produção à moda antiga contra o auge do cinema de Easy Rider, Bonnie & Clyde, e similares - para não falar do cinema europeu, enfim, aquele clima 1968 anti-stablishment), há uma versão "clássica" do David Lean, que também não conheço, em preto-e-branco, de 194(6?) ou por aí, com Alec Guiness no papel do Ben Kingsley nesta versão Polanski, um judeu avarento estereotipado que explora as crianças induzindo-as aos pequenos furtos em troca de uma "família", casa e comida. As "famílias de rua" tb existem aqui no Rio em estado mais lamentável e promíscuo do que se vê no filme. Mas o curioso é que o filme de D.Lean teve problemas com judeus que o achram anti-semita - e no Egito onde o julgaram complacente com as maldades do judeu. Coisas do pós-Holocausto, início das rivalidades pelo Estado de Israel? Ou ponto para Guiness ter dado a medida da ambigüidade do personagem? Polanski, sendo judeu, talvez fique imune a novas discussões sobre o personagem. Ingleses quando falam de judeus trazem complicações: Shakespeare no igualmente ambíguo Shylock de "Mercador de Veneza" e Dickens neste personagem, "Fagin", se não me engano. Outro romance de Dickens, "Nicholas Nickleby" foi dirigido na Inglaterra por Alberto Cavalcante, brasileiro considerado no exterior e cujos filmes mal se asitem por aqui, filmes do cinema mudo até os anos 1950, se não me engano. Só prá lembrar: David Lean é um dos cinastas do "cinemão" mais comptetentes que já exisitiram: do delicado clássico "Brief Encounter" (Deesencontro ou Desencanto no título brasileiro?) sobre um adultério que nunca se realiza ainda nos anos 1930; outra versão de Dickens, "David Copperfield", e mais tarde, superproduções como "A Ponte do Rio Kway", "Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago", "A Filha de Ryan" e o último, "Passagem para a India".
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Voltar ao topo [Aeternus:5420] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-20) - Alan Bates
 Bem, certamente gosto mais de Bates... "Zorba, the Greek" (1964), ancorando o histrionismo de Anthony Queen, com a exuberância - até discutível, aqui - da direção do Cacoyanis; "Woman in Love" ( 1968), memorável e já discutido, onde até mesmo a afetação exagerada do seu personagem, a ressaltar sua ojeriza ao 'bom costume social' em detrimento do 'espontâneo' mostra-se funcional; "The Go-Between", sob Losey e com Julie Christie magnífica; boas aparições em "Nijinsky" (1980) e "Quartet"(1980), e bom papel em "The Return of the Soldier" ( 1981). Achei perfeito o mordomo de Gosford Park, a contenção nossa do dia a dia terminando no pifão homérico... |
Voltar ao topo [Aeternus:5422] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-20) - RE: Hello, Stranger !
 'Achei curioso como o filme se presta a uma visão "estruturalista". Começa com o olhar ( can´t take my eyes off you/ Alice desvia o olhar na direção especular de Dan e é atropelada, sem estragos/ escolhe nome Alice entre os que morreram para salvar alguém/ limpa óculos do Dan e discutem obituários/ será que ela morre no final para "salvar Dan"?) e na cena seguinte, temos a fotógrafa e o olho da camera, mas a pergunta que Dan faz é: "Você já exibiu?" ( exhibition em inglês/ exposição em portugues).' Jane/Alice imola-se. Todo o filme é seu calvário, já que perdida está desde a primeira cena. Entra na vida de Dan - hello, stranger ! - como se entrasse em outra dimensão, como que acreditando numa ressureição. Mas ao perceber que trata-se apenas de um bibelô dele, de um experimento para que ela torne-se personagem de algum escrito 'ficcional' por parte dele, reassume seu lugar-suicida neste mundo. Mas de certa forma, nesse processo, é como se houvesse ganho fôlego inflada por esse fio de esperança. As coisas fluem, então, em franca direção à morte, mas ela tem a necessária energia para ir ao palco representar seu papel. Sem depressão, pois. Conformismo energético, a partir do desgosto perfeito... Anna, a fotógrafa - e ao contrário, em movimento oposto ! - ainda "nem se exibiu". |
Voltar ao topo [Aeternus:5423] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-20) - RE: tornando-nos espectadores ideais
 Gallego trouxe : 'Ele mostra que pode voltar (?) a ser do mal a qualquer momento e depois voltar para casa, abraçar as crianças e sentar na mesa. Acho que a primeira idealização "vence" na platéia que está prestigiando o filme e divulgando-o no boca-a-boca como valendo a pena assistir. Tal como a esposa que goza adoidado na trepada violenta da escada depois que tenta rejeitar o maridão. Antes, ela tinha que se vestir de colegial para apimentar a vida sexual do casal-modelo.' Esse tipo de travestimento é a fantasia mais vendida no cinema americano. O pai pacato, trabalhador, que se vê forçado a 'sair do natural' e enfrentar trogloditas especializados de toda espécie. Geralmente, depois de um festival de violências e de um banho de sangue, abraços, brincadeiras com ursinhos de pelúcia, cortador de grama no jardim e um cachorro saltitante afagando os donos da casa, antes ameaçada. Vende-se, assim, nossa 'capacidade' de enfrentar o horror, de mostrar na hora certa o Brucutu, o Homem Leitoso do Malcolm McDowell em "Clockwork Orange". Diferente dos bandidos, somos no entanto engrenagens perfeitas, relógios suíços que com o devido ajuste nas cordas voltam a marcar a hora certa...
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Voltar ao topo [Aeternus:5424] Mensagem do Grupo48 -Maysa(2005-11-20) - RE:RE:RE:Oliver Triste Again
 A escrita de Dickens é magnífica, perde-se no cinema, embora a ação dos seus romances e a criação de figuras memoráveis seja bem representada e produza papéis igualmente memoráveis. A denúncia da desigualdade social na Inglaterra, onde os pobres eram tão maltratados quanto os colonizados na Asia e na Africa é sempre importante e Dickens conseguiu manter a independência artística sem deixar de contribuir para uma conscientização social. Algo assim poderia ainda ser escrito sobre crianças no mundo todo. E seus algozes. Todo Natal tem Dickens na televisão e não apenas no conto natalino. Nunca prestei atenção nos nomes dos diretores, mas tem de tudo, em cores e pb... Se melhoramos a vida para mil, tem sempre a dezena que sofre igualzinho e sempre. |
Voltar ao topo [Aeternus:5425] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-20) - RE:Alan Bates
 Florião, você lembrou boas atuações, foi bom relembrar delas. Há atores e atrizes que se sabem belos ( mesmo depois que deixam de ser ) e isto os atrapalha porque perdem aquele mergulho no personagem e na cena como se soubessem todo tempo que estão sendo olhados por alguém. É o que sinto com Alan Bates. Descobri isto um dia admirando Sergio Britto fazendo o papel de um dos mendigos do Beckett: ele era um cego que tinha postura de quem enxerga. Trabalhei com cegos por uns tempos ( eu lia para eles, coitados, não sei como suportavam o esquema de esperar pelo resto do livro num intervalo longo de tempo... E Jorge Amado, adolescente boba que era e antes da Globo, pulava todos os palavrões e ficava quase que apenas gaguejando quando sobrava algo para ler) e me acostumei com o modo pelo qual se movimentam, se sentam e até como sua anatomia é alterada, musculos faciais, gestos... |
Voltar ao topo [Aeternus:5426] Mensagem do Grupo48 -jane mello(2005-11-20) - RE:RE: Hello, Stranger !
Não parece porque ela era bela e limpinha, mas Jane/Alice habitava o tempo dos mendigos, o presente contínuo ( segundo Kertész). Chegou de Nova Iorque sem mala, sem amigos,sem endereço e sem medo. Caminhava na rua como rainha, daquelas que sabe que será reconhecida e as portas se abrirão e as contas serão pagas. Sabia, profundamente, como viver o mundo da mentira e jogar no cenário social sem se mascarar. Apenas não supunha que o amor não fosse mágico e "enough". Era seu unico engano, crer no valor da vida quando se encontrava amando alguém e se sentindo amada, era ingenua até supondo a reciprocidade despojada no amado. Ela se apresentou como "waif" para Dan. É um tipo de sílfide ou anjo nórdico, se não me engano. Nabokov usava a expressão "waif" para as pessoas que haviam sobrevivido uma doença grave e estavam ainda meio desligadas do mundo. |
Voltar ao topo [Aeternus:5427] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-20) - RE:RE:RE:RE:Para Maysa/Oliver Triste Again
Foi bom lembrar que, apesar dos enredos e tramas que se prestam a boas adaptações em outros meios de comunicação, a escrita de Dickens sempre será a melhor forma de conhecer sua temática, seu estilo, sua capacidade inventiva. Valeu Maysa!
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Voltar ao topo [Aeternus:5428] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-20) - RE:RE:RE:RE:RE:Dickens/[Para Maysa/Oliver Triste Again
E mais: no imdb constam 212 filmes, desde 1897, feitos sobre histórias originais de Dickens! Embora de Sahespeare constem 626!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Voltar ao topo [Aeternus:5429] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-20) - RE:RE: Hello, Stranger ! How can you tell I'm under a spell, I'm wating for love's first kiss?
 Quando o Marcos diz que Jane/Alice imola-se, dá a impressão de que é algo voluntário, cuja finalidade seria a auto-imolação em si mesma. Mas eu SINTO a imolação de Alice como consequência de ela ser... yearning.
Aí lembrei de uma música. Dêem uma olhada:
Doll on a Music Box
Richard M. Sherman e Robert B. Sherman
What do you see?
You people gazing at me
You see a doll on a music box
That's wound by a key
How can you tell
I'm under a spell?
I'm wating for love's first kiss
You cannot see
How much I long to be free
Turning around on this music box
That's wound by a key
Yearning, yearning
While I'm
Turning around and around... |
Voltar ao topo [Aeternus:5430] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-20) - RE: Hello, Stranger ! How can you tell I'm under a spell, I'm wating for love's first kiss?
 Consegui ver "Closer" hoje, de fio a pavio, ou seja como for que se diga de ponta a ponta se o DVD for circular. Humberto viu junto e se impacientou com os diálogos neuróticos de cobranças e confissões e fiquei me sentindo meio infantil de topar ouvir as conversinhas na tela, mas passou logo e voltei a curtir a montagem. Gallego pensou numa imagem semelhante a do Drácula com a Alice como "Doll on a Music Box", mas não me recordo exatamente como foi. Suponho que homens vejam histórias sobre mulheres, ou escrevam sobre elas, de um jeito próprio. Moças adormecidas, ou frigidas, esperando o beijo do principe para o mundo se movimentar novamente. Nesta nova experiência notei mais detalhezinhos porque ficou mais nítido o aspecto de peça para teatro, com gente sempre atravessando um assoalho de um canto a outro ou entrando /saindo fechando portas ou cortinas. Anna escolheu o título do romance de Dan porque o leu antes de ser publicado, e lhe desgostou o título. "Aquarium" virou tema ( introduzido antes com o sanduíche de atum da merenda levada, sem crosta, para o pronto-socorro) e peixes se transformam para ela em "elementos terapeuticos" e, para Larry ( ou Martin, sei lá, o dermatólogo) "seres que merecem respeito porque são nossos ancestrais". Mas é um balão de tubarão que ele lhe presenteia quando conversam já fora das luzes de boates do aquário. E, montando seu consultório particular, na sala de espera vemos um aquário também. "Strangers" é outra palavra que é jogada em cena todo tempo. É como Alice chama Dan na primeira cena. Na cena das fotografias Anna diz que não beija "strangers", mas já organiza sua exposição com este tema. Há as trocas entre quem rouba ou toma emprestada a história ou imagem de quem: Anna com fotos, Dan com seu romance e nos dois Alice é chupada em livro e foto antes de dizer que aquelas duas capturas são mentiras que tem efeito terapeutico para a sociedade burguesa que quer estetizar a tristeza e a solidão. Ela é sempre a que resta, a verdadeira "stranger", enquanto Dan e Larry brigam entre si pela Anna. Larry também se diz "stranger" para encantar Anna ( ele usa uma frase peculiar da qual não me lembro agora). O final é esquisito, bem circular. O casamento se refaz e Dan se consola com Alice enquanto os dois fingem que está tudo bem e fazem "pegadinhas" para recordar como se conheceram. Voltam no tempo. E o filme também. Ele vai ao parque ao qual visitou no dia em que sua mãe morreu ( e ele não se refez da morte, causada pelo cigarro ) e descobre que desconhecia o verdadeiro nome de Alice. Ela, de volta a NY, caminha pela rua e a camera repete a cena de abertura. Mas agora ela não olha para ninguém e quem a admira, se volta para observá-la pelas costas. Ela atravessa a rua com o sinal fechado para pedestres e não precisaria olhar para a direita ou para a esquerda para enxergar o perigo. No final, Anna ( como Gallego observou desde o início), está definitivamente grávida e domesticada. Não sei como Cosi fan Tutti entra direito. Não conheço a opera. Na sessão de fotos, quando ouvimos pela primeira vez ( Gallego informa...), ela interrompe a música quando se nega a continuar recebendo o assédio de Dan. Ela não quer fazer como qualquer uma, como tutti. No teatro, quando há a ruptura, também ouvimos Cosi fan Tutti, mas não sei qual trecho e se continua o tema, ou inclui algum dueto significativo. Alice tenta fazer os dois parceiros fumares. No final, ela não fuma mais e Dan voltou ao vício e se conduz como um fracassado. Tem o modo pelo qual Larry descreve Dan: "pretty" ( beleza de mulher ) e Alice considera Anna "alta". Depois Larry e Anne discutem a estatura aparente de Dan, o aspecto enganador do tamanho da sua cabeça em alguém longilíneo. No corpo a corpo Larry venceria Dan. Quanto ao status, idem. E durante todo filme, em quase todo filme aliás, Larry se conduz como gato que se lambe depois de comer o creme ( e Anna diz isto e considera esta frase como algo horrível que disse a ele, pedindo desculpas em seguida). Enfim, o autor da peça de teatro se divertiu com estes joguinhos. O casal e o jornalista continuam gente comum. Alice permanece marginal, sem lugar, sem poder ser tocada, sem poder olhar para nada de frente, nem o sinal com a mão vermelha. A unica vez em que tentou, se estrepou todinha e descobriu que era inútil querer mudar alguma coisa. Nem queria mesmo ( não pretendia estudar, mudar de profissão, nada senão ser a companheira de alguém de quem pudesse depender patéticamente). E Anna, seria mesmo deprimida? O bebê seria sua cura? Lá sei. A abertura do filme é o ponto alto de tudo pra mim. Podia parar ali.
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Voltar ao topo [Aeternus:5431] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-21) - RE:RE: Hello, Stranger ! How can you tell I'm under a spell, I'm wating for love's first kiss?
 "Que diferença entre o questionário dolorido que Alice faz quando Dan a abandona e o do perito em pele de alma humana atacando Anne..." Jansy Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa. Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes? Quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes...
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Voltar ao topo [Aeternus:5432] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-21) - RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
 Às vezes não tenho certeza, mas me parece que estamos concordando, cada qual tirando uma camada da cebola... Alice, oscilando entre o cinismo do parecer (que ela conduzia com desenvoltura) e a vã esperança na propriedade preenchedora do amor, só conseguiu aprender uma lição, que foi seu pior revés: ela própria só descobriu o que queria ao não conseguir dar-se a conhecer... mas foi assim que pôde inalar novos ares e voltar reconciliada para seu... Rosebud natal. O que vocês me dizem? Eu confesso que estou dando um tempo pra criar coragem de ver de novo... é muito perturbador, esse filme. |
Voltar ao topo [Aeternus:5433] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
Um bom subtítulo: "unexhibited picutres", ou seja, os quadros humanos que não entraram na mostra dos "Strangers". Como o nome do Conde Dracula que não vai alem de um Dr.Luca anagramatico. A psicologia, no filme, me cansa um pouco quando tentamos enquadrá-la no que já é conhecido. Há os restos da alma que também constituem objetos "pequeno a" luminosos. Por quê, terá sido proposital, que o nome da menina stripper ( que não se mostra toda...) tem iniciais repetidas? AA e JJ? ( Alice Ayres e Jane Jones)? Por quê o dermatologista goza transformando suas mulheres em putas? |
Voltar ao topo [Aeternus:5434] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
O que será que "ibido" quer dizer? Tem ex-ibido, tem in-ibido. Aqui, do que não se fala, é da parte homossexual presente no filme. Tem um Harry que toma drinks com Dan e que é um pouco apaixonado por este ( assim o julga Alice pouco antes de ter que desaparecer de casa...). Há a sedução entre Dan e Larry pela internet, quando Dan se passa por mulher e se reveste de Anna. Há a constatação de Anna de dois homens "whacking away in cyberspace" ( ou outra expressão parecida para a experiência masturbatória pelo estímulo das palavras e promessas descarnadas ). Há a cativação ( não recíproca) de Larry por Dan porque ele sabe tudo sobre este último, que pouco se interessa pelo outro... Matemáticamente vemos Dan e Anna recebendo todos amores. Sem muito a dar de volta. |
Voltar ao topo [Aeternus:5435] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-21) - RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
 O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância. |
Voltar ao topo [Aeternus:5436] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-21) - RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
 Jansy apôs 'Por quê o dermatologista goza transformando suas mulheres em putas ?'
Porque é a confirmação de seu referencial de mundo, a prova de que ele está certo. Ele navega pela vida com a transmissão do leme empenada, não tem condição de enxergar o outro. Até tem o simancol necessário de aceitar o jogo social, as convenções, os papéis - afinal é um homem bem sucedido dentro dessas regras ! Apesar desse mundo pronto, consegue rir e usufruir de joguinhos como o do computador erótico com Dan, da 'carta de apresentação' das mulheres diante de si, dos possíveis e prováveis dramas humanos que desfilam em seu consultório. É assim que, eventualmente, veste sua armadura da Távola Redonda para trombar com alguma 'aventura' interessante. Mas ele sabe que mais hora menos hora suas 'verdades' se evidenciarão. Compraz-se com esse desmascarar do outro, com esse desnudamento existencial à muque. Sádico ? Não, ao menos no sentido clássico do termo. Reducionista ? certamente. Larry é a impossibilidade do matiz, da alternativa. Só pode conhecer um pouco - ou tentar - de si mesmo. Por vezes chega ao discreto escárnio nesse movimento ( e aqui a performance de Clive Owen brilha ao extremo ). Quando se confronta com Dan, mais do que algum tipo de fogueira de vaidades, está em jogo ali 'vencer o duelo'. Um Lancelot du Lac cuja virtude maior é provar-se sempre com a razão. A identidade de 'puta' será, então, a leitura que faz do Feminino. O jogo do amor presta-se a revelar 'a puta que existe em toda mulher', o que aproxima-o de todo com o machismo mais rudimentar. Diferença(s) ? Talvez no conformismo narcísico, local onde ele deságua. O gozo vem da confirmação de que ele é capaz de revelar o 'lado puta' da mulher em cartaz. |
Voltar ao topo [Aeternus:5437] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
Vou responder primeiro ao visitante que descreve a transa homosexual sob uma forma curiosamente sublimada e que nunca abandona as amizades masculinas. Lembrei do Alan Bates lutando nu com Oliver Reed diante de uma lareira enorme e sobre tapetes de pele de urso, mas pensei ainda mais naquela piadinha sobre o Hombre mexicano, caçoando do forasteiro que, em vez de tomar tequilla, escolhe um copo de leite e o desafia gritando: " Na minha terra todos são machos". Ao que o estrangeiro responde: " Ué, na minha terra é diferente, tem uma metade que é de homens e a outra, de mulheres". |
Voltar ao topo [Aeternus:5438] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2005-11-21) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures : Women in Love
 Jansy refere na anedota a tendência ao apagamento da mulher, relegando-a a uma espécie de receptáculo do homem. Uma forma de coisificação, então, já que a ela caberia, então, ser um bom receptáculo e uma boa matriz paridora quando se fizesse mister. Em "Women in Love" a única mulher, a princípio, que 'tem uma faceta' é a personagem representada por Eleanor Bron. Admirada pelo Bates, tem boa situação econômica, é independente em relação aos costumes da sociedade local. Ela percebe desde logo a atração sexual dele por outra ( Jennie Linden ), no entanto. E tenta anulá-la, em vão, usando seus talentos. O que veremos no desenvolvimento disto é o envolvimento do Bates com a Linden, ancorado no sexo, e o dos outros dois personagens principais, o truculento ( Oliver Reed ) e a feiticeira ( Glenda Jackson ). A personagem da Glenda ganha contornos, cresce. Ela admira a ganga bruta do Reed mas passa a aspirar por mais verniz na relação amorosa. Perdido, o personagem do Reed suicida optando pela morte gelada, afundando na neve até desaparecer no horizonte. |
Voltar ao topo [Aeternus:5439] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-21) - Cosi fan tutte/Closer
Entendi que Jansy gostaria que eu falasse sobre o enredo da ópera de Mozart citada duas vezes no filme "Closer". Aí vai: "Cosí fan tutte" tem o subtítulo (à moda de Molière) de "Escola de Amantes", tendo sido considerada uma obra "menor" da dupla Mozart/Lorenzo da Ponte principalmente por causa do seu enredo que Bethoven tomou como "indecente" ou "imoral". É quase uma chanchada com disfarces e travestimos. Dois jovens são noivos de duas irmãs e conversam com um amigo mais velho que lhes diz que não há mulheres obrigatoriamente fiéis. Eles querem até mesmo desafiar o amigo mais velho para duelo. Este propõe um teste: dirão para as amadas que foram convocados para a guerra e retornarão disfarçados em príncipes orientais, cada um fazendo a corte à noiva do outro. Em 24 horas seriam "traídos". De início as duas moças choram com a (falsa) partida dos noivos, falam no temor de perderem seus amados, falam em matar-se caso o eleito morra na batalha, etc etc. A criada, Despina, típica personagem da "soubrette" mais popular, mais chão, mais safa e esperta do que as nobres ou as burguesas moralistas e presas às convenções, zomba de tantas manifestações de dor das "abandonadas". Será devidamente cooptada pelo "professor" da "escola dos amantes", o mais velho e cínico desfiador, para colaborar como alcoviteira na sedução das mocinhas. Despina não sabe que os príncipes albaneses (!!) são os noivos disfarçados mas aceita, por algum dinheiro (e por convicção que não se deve ser fiel a nenhum homem) a derrubar as barreiras morais das chorosas noivas. As resistências iniciais são enormes, mas pouco a pouco as moças vão cedendo aos assédios e rompantes apaixonados de seus, digamos, cunhados. Tudo iso em tom de farsa rasgada, de opera buffa, de quase-chanchada, como eu disse, com lances inverossímeis desde o início, parecendo teatro infantil ou de palhaçadas de circo nos dias de hoje (ou de ontem, acho que nem fazem mais pecinhas infantis com tamanhos absurdos coocando a paltéia como cúmplice que sabe de tudo) Os rapazes que, de início, face à resistência inicial das irmãs em aceitar novos conquistadores, achavam que ganhariam a aposta com o amigo (?) mais velho e experiente também parecem deixar de lado o que defendiam antes e se comprazem nas conquistas das, digamos, cunhadinhas. O auge da confusão (não vou perder tempo narrando toddas, afinal, se a ópera tem um problema para o espectador de hoje em dia é sua longa duração em dois enormes atos sem que seu enredo seja tão interessante como os de suas antecessoras "Bodas de Fígaro" e "Don Giovanni" da mesma dupla Mozart/Da Ponte), enfim, o ápice dos desmandos é quando Despina (soprano ligeiro de voz aguda) se veste de "tabelião" ou juiz de paz e vai "casar" os casais "trocados". Na última hora os noivos aparecem sem seus disfarces e - aparentemente - os casais originais são refeitos após desculpas e perdões mútuos. Final feliz (?). Dizem que a ideía de base teria sido inspirada pelo próprio imperador Joseph II que por sua vez estaria baseado numa episódio verídico ocorrido em Viena do qual muito se falav na época. As duas cantoras que fizeram as irmãs na estréia eram irmãs na vida real. A "imoralidade" do enredo fez com que, no século seguinte (os 1800) a música fosse aproveitada com enredos diferentes e títulos como "Peines d'Amour Perdues" (se não me engano título emprestado de uma peça de Shakespeare) ou "Le Laboureur Chinois" (que me faz pensar perversamente numa versão mais hipocritamente pornô que poderia ser "O Mecânico Mexicano", "O Operário Egípcio" ou qualquer fantasia sexual do tipo entregador de pizza sensual comendo burguesa que encomendou pizza). Outra curiosidade é que - não sei como os entendidos em música mesmo - consideram os pares: a irmã soprano está noiva de um barítono e a irmã contralto, noiva de um tenor. Na maior parte do tempo da ação da ópera, os casais estarão "trocados" e a soprano cantará duetos com o tenor e a contralto com o barítono, o que parece uma aproximação maior das vozes. Será apenas por questões de adequação à encenação? Ou há uma "dica" de que os casais originais podem ser meio "desencontrados"? É uma ópera cheia de conjuntos, quero dizer, trios, quartetos, quintetos, sextetos. As vozes se mesclam celestialmente (como no trecho escutado em Closer na seção de fotos da segunda cena do filme onde vemos Anna com Dan) ou irônicamente (a marcha militar que convoca os noivos para a falsa guerra e o final do primeiro ato que se escuta no filme quando Anna se atrasa para o encontro com Dan no teatro e acaba contando que voltou a ter uma transa "de despedida" com o ex-marido Larry, com quem depois vai reatar e engravidar). Hoje temos menos empatia com as tramas absurdas das operas buffas, mas Cosí fan Tutte (Assim fazem TODAS - misoginia? já que não um genérico tutti que seria todOs) é tida como ápice do gênero. Musicalmente pertence ao período final de Mozart, e tal como suas duas outras realizações com Da Ponte, elevam o "dramaturgo" musical Mozart aos patamares de um Shakespeare, dizendo em melodia tudo e muito mais sobre seus personagens e situações, havendo um sutil amargor sugerido ao longo do desenvolvimento da brincadeira que acabou indo longe demais. Sua utilização como música de fundo em filmes não é novidade. A primeira vez que escutei algum trecho desta ópera foi o belíssimo trio "Soave sia il vento" (o mesmo usado em Closer) nos títulos de abertura de "Sunday, Bloody Sunday" onde a Glenda Jackson amava um jovem bissexual que também era amante de um médico, se não me engano, Peter Finch. A beleza da melodia justifica ser escutada em qualquer situação, alusiva ou não ao enredo da ópera. Mas, em "Closer", a "troca" de parcerias se presta bem ao uso de trechos da ópera como música incidental (eu ia dizer acidental, já que os atropelamentos estão lá como acidentes, intencionais ou não). Os entendidos em música não hesitam em dizer que esta ópera é para artistas e público mais sofisticados, na medida em que se tem que ter competência vocal e oscilar de árias e situações de pompa amorosa para a comédia rasteira e debochada com música e orquestração de mestre. É mais fácil gostar de tal mistura em "A Flauta Mágica", sem dúvida, onde Zarastro é Zaratstro e Papageno é Papageno. É mais fa´cil apreciar a msitura de drama e comédia em Don Giovanni. Mesmo a música destas dus outra obras-primas é mais fácil de ser assimilada em suas árias dos cantores isoladamente. Apesar de ser ainda maior, é mais fácil gostar de cara dos intervalos e os 4 atos de "Bodas de Fígaro" com situações também inveróssímeis, trocas de identidades, travestismo, etc - ainda é uma ópera mais palatável numa primeia visada - e afinal, a peça de Beuamarchais que deu base à ópera já é uma obra-prima em si mesma, usando dos elementos de comedia buffa e antiga comedia dell'arte numa trama sofisticada de ironias políticas contra os poderosos. Lembrem do sonho de Freud em torno da ária "Si vuol ballare, Signor Contino" onde o ex-barbeiro de Sevilha, Fígaro, diz que se o "condezinho" que dançar, a guitarrinha é ele, Fígaro, quem vai tocar, associando aspectos de rivalidades edípicas nas relações do Conde e do seu agora valet de chambre, só que o Conde quer comer a futura mulher do empregado... "Cosí", entretanto está pareada com as grandes óperas de maturidade de Mozart, entre "Idomeneo" e "Flauta Mágica", podendo ser equivalente em sua obra ao que é, por exemplo, "As Alegres Comadres" em Shakespeare, autor onde também há disfarces de identidade e travestismos aos montes nas comédias. O mais "perversinho", por exemplo, em "Bodas de Fígaro" é que o personagem do adolescente Cherubino é escrito para contralto ou mezzo-soprano, sendo que em uma cena ele precisa se disfarçar de mulher: o que temos é uma mulher interpretando um homem que se disfarça de mulher, num piscar de olhos para a platéia sobre os gêneros e suas identidades sociais.
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Voltar ao topo [Aeternus:5440] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE:Cosi fan tutte/Closer
 Closer tem a ver com "close", "visto de perto". Sugere aproximações cada vez maiores e, no entanto, carrega a sonoridade de "close" enquanto o contrário de "open": algo travado. Closed. Gallego, no texto que acaba de enviar sobre as jogadas da opera, as diferentes vozes desencontradas em contraste aos desencontros do filme (e muito mais...), corrige o "tutti" por "tutte", ou seja, reafirma que as mulheres são todas igualmente infiéis ao passo que os homens estão acima desta "moralidade". Quando desejei esclarecimento não esperava receber de presente esta cornucópia de informações arrepiantes! Gratíssima. Tentava entender o motivo pelo qual Anna recusou o pretendente comprometido com outra e, junto ao seu "não", desligou a ópera para marcar sua diferença entre ela e "tutte" altri. Também mais tarde quando, no re-encontro de ambos, faz-se a reintrodução da ópera, queria ter como sacar se as falas ouvidas ao fundo sugeriam a mudança de Anna, seduzida e agora, igual a todas as outras. Mais Jó e Dr. Fausto com o demonio tentando arrastá-los à vala do comum... Se entendi uma parte da colocação do Gallego, Larry poderia estar desempenhando tres partes: o de um dos condes casadoiros, o do seu "amigo mais velho" e ainda, ser a Despina! |
Voltar ao topo [Aeternus:5441] Mensagem do Grupo48 -Visitante(2005-11-21) - RE:RE:Cosi fan tutte/Closer
O que quer uma mulher? |
Voltar ao topo [Aeternus:5442] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures : Women in Love
Já tentei arrumar tempo duas vezes para responder esta análise do Florião, mas não deu ainda. Gostei bastante, espero que outros retomem onde por enquanto tenho que ficar sem dizer nada... |
Voltar ao topo [Aeternus:5443] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE:Cosi fan tutte/Closer
No singular, o que "uma mulher" quer, deve ser o FALO. Já o que querem as mulheres, quem sabe responder é o Mel Gibson. |
Voltar ao topo [Aeternus:5445] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-21) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
 'Por quê o dermatologista goza transformando suas mulheres em putas ?' perguntei. Florião respondeu: "porque é a confirmação de seu referencial de mundo, a prova de que ele está certo. Ele navega pela vida com a transmissão do leme empenada, não tem condição de enxergar o outro...ele sabe que mais hora menos hora suas 'verdades' se evidenciarão. Compraz-se com esse desmascarar do outro, com esse desnudamento existencial à muque. Sádico ? Não, ao menos no sentido clássico do termo. Reducionista ? certamente... Só pode conhecer um pouco de si mesmo. Por vezes chega ao discreto escárnio nesse movimento ( e aqui a performance de Clive Owen brilha ao extremo ). Quando se confronta com Dan, mais do que algum tipo de fogueira de vaidades, está em jogo ali 'vencer o duelo'...provar-se sempre com a razão...A identidade de 'puta' será, então, a leitura que faz do Feminino. O jogo do amor presta-se a revelar 'a puta que existe em toda mulher' Nem é preciso acrescentar algo mais ao que Florião escreveu sobre Larry: personagem que usa a sensação de poder médico em jaleco branco, mais as fantasias de um "sultão". Ele sabe e não sabe simultaneamente que é um engodo no contato com as pessoas, mas tem a "autoridade" para dar explicações fáceis, rotular e imobilizar questionamentos. Não pode admitir que Anna tenha mais sucesso e sensibilidade do que ele e, assim, inverte as coisas e transforma Anna na ficção pornô proposta por Dan ( habitualmente muito mais gentil e recatado do que se mostrou pela internet). O que, no sexo, é expressão de paixão e amor, para ele, se transforma em putaria. Clive Owen está magistral ao assustar-se profundamente quando Anna avisa que vai embora: "mas não somos felizes?" e logo inventa uma teoria sobre ela "temer, depressivamente, a felicidade e ter que se punir buscando Dan!" Tem referencias demais no filme ao desejo da mulher de ficar grávida ( "possuir um penis/filho"). Alice é descartada ( "jovem demais") e Anna é colocada como esperando bebês ora de Dan, ora de Larry para, finalmente, ajustar-se à felicidade marital com o médico que "a perdoa" dos deslizes anteriores.
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Voltar ao topo [Aeternus:5447] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-21) - RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?
Fui dar uma olhada em textos sobre a ópera nas duas gravações que tenho: textos muito bons, rebatendo algumas lendas que escrevi antes. 1) O Imperador Joseph II já estava muito doente e morreu pouco depois da estréia da ópera: não teria dado a idéia para Mozart coisa nenhuma, isto é lenda. Interpreto que, pela condenação moralista de Beethoven e Wagner (logo ele!), dentre muitos outros ao enredo da ópera, inventaram essa origem "nobre" para aplacar a malícia da anedota em questão. Lembro que "Closer" tb foi mal-recebido por muitas pessoas, acusando o roteiro de desagradável e de artificial no desenvolvimento dos personagens; vejamos como ficariam essas críticas frente outras considerações sobre o tema.. 2) Revejo também este tema que chamei, na ópera, de chanchadístico e que foi tão menosprezado: descobri que tem origens nobre mesmo, não nobre de reis, mas de clássicos da antiguidade. Mais imediatamente em Ariosoto que seria, na época de Mozart, um autor mais popular do que Dante, Petrarca ou Tasso (sic). Em seu "Orlando Furioso" que também aborda a "guerra dos sexos" há uma interessante passagem no Canto 43 onde um personagem, o Paladino Rinaldo, é hospedado por um homem que lhe oferece uma taça de vinho que revelaria, a quem dele bebesse, se sua esposa lhe é fiel ou não. Sàbiamente, o tal Rinaldo declina a bebida dizendo: " ...ben sarebbe folle chi quel che non varria trovar, cercasse. Mia donna è donna, ed ogni donna è molle. Lasciam star mia credenza, come stasse. Sin qui m'ha il creder mio giovato, e giova: Che poss'io megliorar per farne prova?" Traduzi livremente com ajuda das versões em francês e ingles, mas notem: mantive a métrica de decassílabos iâmbicos, a mesma de Shakespeare!: É tolo e de esperteza pouco ágil quem busca o que não gosta de encontrar. Minha amada é mulher; mulher é frágil: Se confio, deixo a fé como está. Se a verificasse para aumentá-la talvez não mais pudese aproveitá-la. O desfecho em inglês (tradução de Sir John Harington de 1591) é brilhante: I know I cannot better my beliefe, And if I change, it will be my griefe. Voltando ao Canto 43 do poema de Ariosoto: depois que Rinaldo declina o vinho prodigioso (que devia se chamar "Será que sou cornudo?"), seu anfitrião louva-lhe a sabedoria e conta sua triste história: Uma feiticeira, Melissa, apaixonara-se por ele, mas ele resistiu aos avanços dela, alegando o amor e fidelidade de sua esposa. A bruxa viu em seu caldeirão que esposinha era, de fato, a rainha da fidelidade. Mas questiona o maridão, dizendo que era fácil ser fiel sem ser tentada. E propõe que ele mesmo vá tentar seduzir a esposa, disfarçado, por magia, com a cara de um outro cavaleiro conhecido por amar a esposa deste narrador-anfitrião. Este cavaleiro teria pretendido a mão dela, sido preterido e ficado melancólico, eternamente apaixonado pela virtuosa dama que o rejeitara e que, agora, é modelo de fidelidade conjugal. Todos sabem que o sujeito continua apaixonado por ela, nas vizinhanças, rondando... O marido finge que vai para a guerra e retorna com o aspecto físico do antigo pretendente, oferecendo riquezas que a feiticeira colocou à disposição para a tentativa de sedução. Depois de resisitir muito, a esposa cede. Nesta terrível "hora da verdade", o marido reassume sua aparência. A esposa o deixa e vai se juntar ao tal cavaleiro a quem ela sempre resisitira até que o marido assumiu sua aparência. Os nomes das personagens femininas da ópera também remetem a Ariosoto: a irmã soprano (que resiste mais à corte do tenor que é, na realidade, o noivo de sua irmã contralto) se chama Fiordiligi que é o nome de uma personagem secundária de "Orlando Furioso". Neste poema existe uma Doralice e a personagem da irmã contralto se chama Dorabella, a que cede mais fácilmente ao barítono, noivo de Fiordiligi; e a criada Despina lembra o nome de outra personagem de Ariosto: Fiordispina (ou seja, Lorenzo Da Ponte arrancou a flor do nome e ficou com o espinho). A ópera tem sugestões musicais de que quando o tenor se declara à soprano ele está, de fato, apaixonado pela irmã de sua noiva; e a melodia dos duetos deles e das árias dela de resistência inicial até capitular sugerem que talvez eles tenham descoberto que o casal "certo" deveria ser o que estão formano. A "ordem" reestabelecida pode ser mais falsa que a falsidade da farsa... (isso já está lembrando a cara infeliz da Julia Roberts grávida ao lado do dermatologista...) Por sua vez, Ariosto pode ter se baseado em Ovídio, em cujas "Metamorfoses" se encontra a triste história de Céfalo e Procrism segundo dizia um ensaio sobre "Cosí Fan Tutte". Fui lá no livro de Ovísdio que raramente li - e agora me amarrei - , li esta pasagem que é maravilhosamente triste. Resumindo ao máximo: Um rapaz de Tebas, chamado Céfalo, recém-casado com Procris, sai para caçar no final da noite e se encanta com a Madrugada (uma deusa também conhecida como Aurora). Esta é muito atraente com suas cores rosadas e brilhantes, afastando as sombras da noite, mas Céfalo conversa com ela falando apenas de sua amada Procris, de sua primeira noite juntos, etc. "Sujeito mal-agardecido! - diz-lhe a deusa enraivecida - Pare com lamúrias e fique com sua preciosa Procris, mas eu lhe digo que, se tenho uma única certeza sobre o futuro, é que você desejará nunca tê-la encontrado!" De alguma forma, a deusa deixa em Céfalo a semente da dúvida sobre a fidelidade de Procris: "Teria ela mantido seus votos matrimoniais? Sua beleza e juventude apontavam para um lado, seu caráter para outro" (lembra a stripper Alice/Jane?), pensa o rapaz e acrescenta: "um homem apaixonado é sempre um homem inseguro". (O amor é o anti-narcisismo, já que no narcisismo a ilusão é a de não ser traído, já que o narciso não se trái a si mesmo no auto-apaixonamento). A deusa Aurora modifica as feições de Céfalo que tenta seduzir Procris que diz: "Estou me guardando para um homem apenas", mas ele promete uma fortuna por uma única noite (Larry, o dermatologista com a stripper na "suíte Paradiso" da buate?). Ela resisite. Ele dobra o valor (lembrei de "Proposta Indecente", o filme do Adrian Lyne) e ela hesita. Céfalo, como o boboca Dan querendo "dobrar" Alice a confesar o que houve entre ela e Larry, grita: "Vitorioso!" (?), - e é ele quem narra - "perversamente exclamei: 'Mulher ingrata! Na verdade não sou um sedutor, mas teu esposo, ao mesmo tempo detetive e testemunha!' Ela nada disse, nem uma palvra, mas como uma mulher envergonhada e derrotada, fugiu do marido traiçoeiro e de sua casa, e odiando a ele e toda a raça masculina, se pôs a vagar pelas montanhas (Alice atravessando as ruas sem atenção?), dedicando-se ao culto deDiana, a caçadora virgem. Na solidão, implorei seu perdão, confessei que havia pecado e que teria titubeado também eu, como ela fizera, se tais presentes me tivessem sido oferecidos. Nessa minha confissão ela voltou para mim e nós passamos anos maravilhosos juntos..." A versão de Ovídio prossegue e é trágica: depois desse "segundo tempo" de felicidade uma trama complicadíssima, envolvendo uma lança que Diana dera à Procris faz com que o próprio Céfalo acabe matando Procris sem querer quando ela é que está enciumada dele e o segue entre arbustos. Temendo um monstro que estaria por ali (apresentado como semelhante à Esfinge morta por Édipo), ele joga a seta e mata a amada. Chega de analogias com a ópera e com "Closer"? 3)Indo para amenidades da seção "revista Caras": As cantoras da estréia não eram irmãs na vida real e a soprano era, na época, amante do Lorenzo da Ponte, poeta e libretista mais famoso do período, por usa vez amigo de Giacommo Casanova (que deve ter inspirado aspectos de seu donjuanismo para "Don Giovanni"). A ação da ópera se passa em Nápoles (essas italianas!... na concepção germânica deviam ser mais saidinhas) e as duas irmãs personagens seriam naturais de Ferrara, tal como a cantora-amante do libretista. Seria uma private joke que na época divertia. Depois ela deu muito trabalho para o ex-amante, brigaram muito. Ela seria uma cantora excepcionalmente dotada de malabarismos vocais e o papel foi escrito para ela, sendo considerado, a posteriori "incantável" por muito tempo. 4) no ano de 1970, depois de escrever "Cosí" Mozart entrou no período menos produtivo de sua vida. A ópera estreou em janeiro e ele só compôs dois quartetos de corda por encomenda do rei da Prussia e rearranjou obras de Handel, inclusive "O Messias" até o final deste ano! Morreria em 1791, ano em que compôs duas óperas, não mais bufas e suas grandes obras-primas "terminais" (quinteto para clarinete, concerto para clarinete, etc).
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Voltar ao topo [Aeternus:5448] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-22) - RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?...
 Não imaginava quantas saborosas histórias que ainda escorreriam da cornucópia ( Oooh!). Naquelas eras nas quais não havia exame de DNA, nem textos dispondo as formas legais de herança e transmissão das terras e riquezas, cultivar histórias romanticas sobre amor fiel faz mais sentido do que apelar para a palavra e a honra. Não é assim, ainda, que se iniciam as histórias das Mil Noites e Uma Noite? O roteiro de "Closer", reprovado por ser "desagradável e artificial no desenvolvimento dos personagens" parece merecer esta crítica quanto a artificialidade. Uma garotinha sem rumo e berço, "stripper" assumida, dificilmente se misturaria com uma fotógrafa rica e famosa a partir de uma troca de amantes como ocorreu no roteiro. De repente senti falta de saber se o escritor da peça era americano ou inglês porque não deixa de ser uma proposta "democratizante" fazer com que as duas americanas não tivessem o mesmo tipo de consciência de classe que os britanicos. Ou, talvez, como crítica à democracia ( vide os rápidos comentários de Anna sobre a "internet" e a abertura democrática descambando para o sexo virtual). Quando Gallego escreveu: ...sua beleza e juventude apontavam para um lado, seu caráter para outro" e acrescentou entre parêntesis : (lembra a stripper Alice/Jane?) estaria ele julgando a stripper Alice como sendo apenas jovem e bela, mas de mau caráter??? Nunca pensaria isto de Alice na ficção do filme. Ela é mais como "Le Fou" na cabala do tarô, nunca mau caráter. Nem ela, nem Anna seriam basicamente traiçoeiras, como os dois "donjuans" envolvidos com elas. Não li "Orlando Furioso" mas assisti à ópera de Vivaldi no "Film&ARts" pelo prazer da música. Tenho em casa um DVD ( que não escutei ainda) com Marilyn Horne, Susan Patterson, Kathleen Kuhlmann et alii, sob regencia de Randall Behr da orquestra e coro da opera de São Francisco. Na sinopse do DVD a história escolhida por Vivaldi parece diferente, com bruxa Alcina, inocente Angelica, um amante sarraceno chamado Medoro e o Orlando, igualmente apaixonado pela Angelica. Senti falta das "fiori", mas a capinha do disco não é muito esclarecedora. Além do mais, nada impede que na obra de Ariosto houvessem subhistórias dentro da história. Tancredo e Clorinda, por exemplo, constituiram apenas alguns capítulos dentro da obra "Jerusalem Libertada" de Torquato Tasso... Me disseram que há um "google" que pesquisa tudo que está em nossos próprios arquivos e adoraria usar para ver onde, recentemente, se discutiu Ariosto. Será que foi em nossa lista? Sempre me impressiona a facilidade com que imediatamente me vem a mente seus larguíssimos contornos conforme uma pintura antiga (Rubens?) do livrinho de ginasial no qual estudavamos os grandes nomes da renassença. Agora fiquei animadinha para ouvir o DVD, tão perto e tão heróico... Ah... vocês repararam outra coisa em "Closer" ??? O hotel perto do aeroporto no qual Dan e Alice se aproximam para se separarem em seguida ( repetindo o padrão do momento Dan e Anna no restaurante da Opera) tinha o nome de "Renascimento" ( ou Renascença, não lembro qual dos dois). Gallego, como é a história de que "o amor é o anti-narcisismo, já que no narcisismo a ilusão é a de não ser traído, já que o narciso não se trái a si mesmo no auto-apaixonamento"? Deu um nó nos meus miolos tentar resolver os cachos da história a partir da idéia de "não ser traído": imaginei logo o bebê quando lhe nasce um irmãozinho e o precipita nas dores da rejeição, sentimento de insuficiência ou impotência, ódio, etc. Quanto à tradução em decassílabos iambicos, fiquei babando.
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Voltar ao topo [Aeternus:5449] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-22) - RE:RE: Alice não é mau-caráter
Jansy questionou: Quando Gallego escreveu: ...sua beleza e juventude apontavam para um lado, seu caráter para outro" e acrescentou entre parêntesis : (lembra a stripper Alice/Jane?) estaria ele julgando a stripper
Alice como sendo apenas jovem e bela, mas de mau caráter??? Nunca
pensaria isto de Alice na ficção do filme. Ela é mais como "Le Fou" na
cabala do tarô, nunca mau caráter. Nem ela, nem Anna
seriam basicamente traiçoeiras, como os dois "donjuans" envolvidos com
elas. Não sou eu quem pensou mal do caráter de Alice. A frase é original de Céfalo sobre sua amada. Apenas a reproduzi tal e qual. Não há explicações sobre qual seria o caráter divergente da beleza e juventude da moça. Eu apenas "analogizei" o que Céfalo pensava sobre ela e o que Dan poderia estar pensando sobre Alice, bela e jovem, mas... stripper! Acho a Anna maio traiçoeirazinha, sim. Até porque seria a mais esclarecida, já saindo de um casamento, etc etc, com melhores condições sócio-econômicas. A Julia Roberts é que nãosoube dar ambigüidade à personagem sacaninha na tal "última transa"... hahahha me engana que eu (ela) gosto (gosta). Quanto à crítica de artificialidade do roteiro, Jansy pegou pelo ângulo das camadas sociais, quando as pessoas achavam falsa a cobrança da "verdade" entre os casais. Isso é que seria artiuficial. Os antecedentes dessas tramas sobre fidelidade desde Ovídio pelo menos mostram que não, que essa é uma preocupação do narcisismo masculino e maluquice de "posse" de suas... amadas(?) Ainda assim, acho que o que Jansy diz não procede tanto: Anna e Alice mal se encontram ao vivo e a cores: só duas vezes: na sesão de fotos e na vernissage, muito rapidamente, acho que nem se falam, elas uma com a outra. O que as une/desune são seus parceiros narcísicos. Não leve a sério minha digressão: mas o Narciso de Ovídio não aceita a corte de ninguém, só se apaixona por ele mesmo e é fiel ao seu amor até a morte. Foi uma brincadeirinha. Já quando se ama... se perde a suposta imortalidade narcísica (lembre a Brunilda: perde a imortalidade depois que sai do sono eterno em berço esplêndido, protegida pelo papaizão Odin que exatamente temia que ela se apiedasse muito dos mortais e "preserva" sua imortalidade no isolamento de sono narcísico que é quando se retira as catexias de investimento do mundo objetal) Mas se Narciso "sobrevive" como flor... after many a summer... também as flores morrem...armadilhas narcísicas enganam mais do que as bruxas de Macbeth...quando falam a verdade!!! E, de fato, pelo que li, o episódio do Paladino Rinaldo, da taçade vinho "será que sou cornudo?" e do infeliz anfitrião que foi testar sua esposa devem ser histórias paralelas dentro do enredo principal de Orlando Furioso. Afinal, seria um tal Canto 43... quantos cantos tem o poema? Deve ser enorme como de hábito na época! Prá quem não tinha cinema nem televisão... poemas enormes deviam quebrar um galho e tanto...
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Voltar ao topo [Aeternus:5450] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-22) - RE:RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures: Por quê o Larry GO-ZA transformando suas mulheres em putas?!
 FANTÁSTICO! Este é um veio que a gente não tinha abordado nas nossas mensagens: o lado dos "meninos". Da última vez que eu estava escrevendo, até me passou um flash na cabeça: "depois preciso voltar ao assunto de Dan impersonating Anna e da fascinação homossexual que se imiscuía ali, reduzindo as mulheres a fetiches". Mas é que Alice me fascina tanto, que eu me esqueço da importância dos outros. De fato, eu fico falando que nenhum dos dois foi competente o suficiente para dar conta da Alice, mas eu não parei pra pensar por quê. A Jansy fala do Larry e da compulsão dele a reduzir todas as mulheres a putas... estamos num caminho quentíssimo!!!!!! Mas Dan, de fato, não pega o gancho do Larry. No entanto, quando ele começa a fantasiar Jane/Alice com Larry... pronto, ele se iguala ao adversário, só que pelo reverso: ele queria uma Jane santa, e não uma Alice puta. Larry ganha seu concurso de punheta espirrando porra na cara do Dan como quem diz vitorioso: "suas DUAS mulheres são putas, eu as estraguei pra você, babacão". Ambos (Dan e Larry) são versões opostas de uma mesma incompatibilidade (na relação com O FEMININO): a mulher amada e a mulher desejante - eles não aguentam que essas duas sejam A MESMA mulher. Larry toma antídotos diários contra o amor (atacando antes de ser atacado), e Dan se expõe a ser ferido pelo amor (idealizando, jamais VENDO suas mulheres). Será que Dan vai se transformar num Larry? Será que Larry já foi um Dan? |
Voltar ao topo [Aeternus:5451] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-22) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures: Por quê o Larry GO-ZA transformando suas mulheres em putas?!
 Por que nunca nos referimos ao autor da peça e roteirista/produtor do filme pelo nome? Já me esqueci do que li nas legendas introdutórias e esperava ser lembrada, mas como não fui passei a me sentir curiosa sobre esta omissão de outro nome. O nome do escritor é Patrick Marber. De algum modo, Dan e Larry são aparentados porque foram criados pelo senhor Marber. Contudo, não vejo outra ponte entre eles. Dan é o bonitinho que chama pela mãe enquanto está dormindo, tira as casquinhas do sanduíche que prepara maternalmente para si mesmo e põe na lancheirinha. Persegue o "amor anaclítico". Escritor "sem voz", jornalista de obituários, cheio de trejeitos de garoto de quatorze anos ( é tão genial esta caracterização que só pode corresponder a algo na alma do próprio Jude Law). Ele não queria proteger alguma mulher, mas ser protegido...Alice lhe pesava demais pela dependência emocional. Larry é o típico valentão sacana que deu certo socialmente e profissionalmente, mas que mostra ressentimento com as mulheres e talvez tema a superioridade delas. Usando o estilo do Gallego diria eu que esta psicologização descreve o que Patrick Marber poderia ter planejado na peça...Florião acrescentou uma parte importante nos comentários dele, enfatizando a bronca de ambos com o feminino e Conde colocou novo adendo tratando da divisão entre "santa e puta" com as consequências disto no mundo moderno. Alice me fascina também. Ela é "waif", vem de outro planeta... |
Voltar ao topo [Aeternus:5452] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-22) - RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?... Alice em Star Wars!
 Escrevi há pouco que Alice é uma fada celta, "waif", que vinha de outro planeta. Se prestasse mais atenção nos filmes que vejo com os netos saberia dizer de onde ela vem porque, em Star Wars o Annakin ( parente de Anna?), vem de um planeta que fica "numa galáxia muito distante" ( de qual outra?) e, ao ver Alice exclama: " você é um anjo"? E, para salvá-la, ele se transforma em Darth Wader, vencido pelas forças do mal. Numa trama edípica completa, seu filho Luke Skywalker precisa matar o pai para salvar o Império... Alice vem de outro planeta ou é anjo...???? Podia ser uma vítima da Fata Morgana, da Morgause, das velhas lendas do rei Arthur com as transformações mágicas do rosto do homem repudiado na face do marido... Na terra ela é filha de Susan Sarandon num longo filme chato do qual esqueci o nome. |
Voltar ao topo [Aeternus:5453] Mensagem do Grupo48 -Mel Gibson(2005-11-22) - RE:RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem?
 O que elas querem? Oras: empenho, cuidado, espírito investigativo, safadeza, respeito, enfim: palavras e gestos que evidenciem a nossa dedicação... Aí vocês me dizem: "Mas assim até eu". E era exatamente onde queria chegar. Eu não acredito que haja mais mistérios entre elas do que existem conosco. Podem ser mais ou menos confusas, mais ou menos expostas aos seus ciclos naturais, mas elas, como nós, não querem só "comida", se é que vocês me entendem... Você viram Roger Rabbit?! Lembra o que aquela "pin-up" deliciosa respondeu quando lhe perguntaram por que se dignava ficar com um coelho atrapalhado como aquele? Ela disse que era porque o bicho "a divertia". Portanto, senso de humor sempre. Homem já é um saco, imagine os mal-humorados?! Não é tanto o que "elas querem" que devia nos incomodar, mas o que somos... Por exemplo: uma parte ruim dessa história é que ainda carregamos a "responsabilidade social" de comandar o jogo da sedução, o que é um saco... De um modo geral, tratamos nossa sexualidade com cerimônia, quando devia ser assunto para extrema clareza. Falamos pouco do assunto num tom que não seja irônico e defensivo. Temos vergonha de nossas fantasias. Temos receio de perguntar e de propor... O que me faz pensar de novo na pergunta, agora com um acréscimo: supondo que elas tenham algum querer além daqueles "demasiado humanos", será que estamos preparados para ouvi-los? Não sei não... Enfim, eu posso até não saber o que elas querem, mas bem que gostaria que elas quisessem a minha disponibilidade... Como aliás, quero a delas. Todo o resto me parece teórico demais para um tema que devia ser bem prático, é ou não é? |
Voltar ao topo [Aeternus:5454] Mensagem do Grupo48 -Jocasta(2005-11-22) - RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem?
Caro Nobre Mel Gibson, as mulheres são diferentes dos homens... que fazer? Mas você está certo, sob minhas parcas luzes, quando constata que é preciso aos homens se conhecerem mais do que se perderem sobre "o que querem elas". Lembro aqui aquela história do Lacan sobre as tres fases do Édipo: ser ou não ser o falo da mãe, ter ou não ter o falo da mãe, etc A dificuldade dos filhos homens é saber o que a mãe deseja e deixar de acreditar que, como filho, será capaz de supri-la. Esquecer o que quer A mulher ( A Mãe ) e curtir os mistérios de cada uma das diferentes mulheres com seus gostinhos particulares.... |
Voltar ao topo [Aeternus:5455] Mensagem do Grupo48 -Mel Gibson(2005-11-22) - RE:RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem?
 Às vezes é ruim com ELAS, mas, garanto, será sempre horroroso sem. Nosso erro, muitas vezes, consiste em não dar margem a que as fêmeas revelem sua própria sabedoria, mas não é sempre que encontramos fêmeas dispostas a pôr à disposição dos parceiros tudo o que sabem. Não é desculpa, mas é uma tentativa de explicação. Aliás, e eu sei que vocês sabem disso: culpa nada tem a ver com isso. Somos carentes de afeto por natureza; afinal, fomos separados de nossas mães quando estávamos no melhor do bem-bom uterino. Portanto, acaricie-nos, pegue-nos, aperte-nos, beije-nos, coloque-nos no colo, ajude-nos a diminuir esse violento trauma inicial!! Há muita gente precisando. Há muita gente oferecendo. Não vejo escassez de gente interessada em gente! Não há nada mais simples do que um espécime masculino heterossexual... Aliás, Jocasta, qual é mesmo o seu telefone? |
Voltar ao topo [Aeternus:5456] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-22) - RE:Cosi fan tutte/Closer: o que ELAS querem?
 Pegando a deixa da Jocasta e a resposta do Mel Gibson:
Quando estive na exposição do Henri Moore comecei me sentindo humilhada porque não conseguia "ouvir" o que os rostos das esculturas diziam, como aquela camareira do filme "A Thing of Beauty". De repente, se não escutei, ainda assim, pude ver algo novo. Moore é pluridimensional e suas esculturas tem milhares de planos distintos, volumes reveladores e surpreendentes o que surge com clareza quando representa mulheres e homens. Ele não precisa adicionar seios ou detalhes anatomicos para expressar o feminino num discreto drapeado sedoso ou o masculino como couraça parcialmente protetora. Dá para perceber o "feminino" diferindo do "masculino" olhando apenas para um detalhe isolado, uma curva do ombro, um contorno de clavícula, um angulo do pescoço... Achei genio! Depois incluo um par hierático como imagem aqui. Só os fotografei como "bustos", mas ali já dá pra sentir o que quero expressar. |
Voltar ao topo [Aeternus:5457] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-22) - RE:RE:Closer: o que ELAS querem? Manter a diferença!
Voltar ao topo [Aeternus:5458] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-23) - RE:RE:querem mais sobre Cosi fan tutte?... Alice em Star Wars!
 Eu vejo a busca pela "santa" como resultado dessa infantilização a que você se referiu (o Dan neném que precisa de colo), a "santa" é a "mãe". (E "Mãe" é a que não tem desejos, ela vive para os MEUS desejos, daí eu dizer que é um dos lados da incapacidade de aceitar o feminino desejante). E a "puta" é a morte da mãe (o FEMININO passa a ser desejante, mas ainda é o desejo de ME satisfazer, dar vida e existência ao meu falo, agora sexualizado, o que é, apesar da aceitação, uma aceitação ressentida, que desvaloriza, diminui, degrada o feminino desejante). Só que num luto sem fim. Porque ambivalente. A ambivalência encalacra. ANNAkin Skywalker...? Essa é uma simbologia que dá pano pra maaaannngaaaaa... |
Voltar ao topo [Aeternus:5459] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-23) - RE: Cosi fan tutte?... Alice em Star Wars!
 Não foi o Conde Drácula da anedota que preparou um banquete para o Frankenstein e, quando este pediu repeteco numa outra ocasião negou porque " mãe só tem uma"? Este é um problema e tanto, mães que se acabam. Deviam se regenerar, feito rabo de lagartixa.
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Voltar ao topo [Aeternus:5461] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-23) - RE: mais sobre Cosi fan tutte
 O conde escreveu: Eu vejo a busca pela "santa" como resultado dessa infantilização (o Dan neném que precisa de colo), a "santa" é a "mãe". (E "Mãe" é a que não tem desejos, ela vive para os MEUS desejos, daí eu dizer que é um dos lados da incapacidade de aceitar o feminino desejante).E a "puta" é a morte da mãe (o FEMININO passa a ser desejante, mas ainda é o desejo de ME satisfazer, dar vida e existência ao meu falo, agora sexualizado, o que é, apesar da aceitação, uma aceitação ressentida, que desvaloriza, diminui, degrada o feminino desejante).Só que num luto sem fim.Porque ambivalente.A ambivalência encalacra.
Não entendi os argumentos sobre a mãe enquanto santa/puta uma vez que ele colocou que, na fantasia do menino, a "mãe não tem desejos além dos do filho" ( lado santa) mas que ...puxa. Não compreendi mesmo nada, nem consigo comparar os dois lados para chegar à ambivalência. Não há como responder objetivamente. Chamou minha atenção a caracterização do "feminino" a partir do olhar do menino, sem uma realidade própria.
A vida dos gatos é completamente diferente da nossa. A Nina Black teve duas ninhadas muito próximas, ainda amamentava quando engravidou. Expulsou os filhotes antes mesmo de nascerem os novos. Eles tiveram que se virar. Alguns gatos desmamados imediatamente elegem algum outro como mãe-substituta ( pode até ser outro macho que aceite brincar de mãe , mas costuma ser alguém dos humanos) e fazem dengo, fazem pastelzinho amassando o outro com as patas, tentam aninhar a cara num cantinho escuro e quente como o ventre da mãe. Outros, rejeitam o mundo humano e se tornam quase selvagens, sem sair da casa que passa apenas a ser uma espécie de "território demarcado". Um dos desmamados, o "Pipoca", passou um longo tempo mamando na própria teta. Depois parou com isso, mas vive atrás de calor humano... Cada gato é cada qual e seu estilo, em parte, vem do desmame e, em parte, de algo nele mesmo.
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Voltar ao topo [Aeternus:5462] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-23) - Alice caindo no poço do país das maravilhas, walking and falling at the same... time
 Criei coragem. Ontem revi CLOSER... O filme ainda no começo: Portman e Law estão no ônibus, ele tinha acabado de dizer pra ela que um eufemismo para defini-la seria "desconcertante" e então pergunta o que ela fazia em NY. Quando ela responde que trabalhava de stripper, a cara do Jude Law é por DEMAIS expressiva!!!!! Revendo agora é que lembrei do que pensei ao ver a cena no cinema: "pronto, o filme já me ganhou, e já tô dando um Oscar pro Jude Law". E (como nas facas Ginsu) e não é só isso: ela diz pra ele "Olha os seus olhos!" E ele responde: "Não dá pra eu ver meus próprios olhos". É de dar dó ver o sôfrego Larry emputalhando suas mulheres... Ele não o faz com facilidade, não. É por desespero, coitado. E eu queria saber se tem algum espectador que fique com dúvidas de que ele mentiu ao dizer que comeu Alice. (Nessa hora ele só "come" o Dan). Tinha que dar um Oscar coletivo pros quatro. Estão todos soberbos. Eu hesito em imaginar como teria sido se minha amadaidolatrada Cate Blanchet tivesse podido aceitar o papel de Anna. Há quem diga que ela daria uma aparência forte demais pra personagem, mas eu não acho, não. De qualquer forma, não quero imaginar nada diferente em Closer. Um ótimo exemplo praquela frase "se melhorar, estraga". O que eu sei é que ao revê-lo, fiquei de novo sem palavras. |
Voltar ao topo [Aeternus:5469] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-23) - RE:Alice caindo no poço do país das maravilhas, walking and falling at the same... time
 Quase perdi o comentário do Conde sobre "Closer", dando Oscar para todo mundo. Que eu saiba já aconteceu algo assim uma vez, no filme "Quem tem medo de Virgínia Woolf". Se não foram todos premiados, todos foram indicados pelo menos. Creio que Gallego e Florião já se manifestaram a favor de Clive Owen, mais particularmente. Achei Jude Law excelente, mas fiquei com uma ponta de dúvida se todos aqueles modos doces e adolescentes dele eram parte de um papel ou algo peculiar a ele. No "Making of" do filme do Spielberg, onde Jude Law é um robô-sexual há uma cena na qual ele é içado pela polícia num helicóptero no qual ele está dando um grito. No filme, cortaram o som do grito e ficou muito melhor. Aquele grito o Dan também daria...No entanto, concordo com a indicação dele pro Oscar: estava perfeito no papel. Aquelas variações de expressão facial ao ver Alice caminhando pela primeira vez, o rosto registrando emoções diversas, abaixando os olhos, se assustando... Apaixonante. A Alice tem pernas feias, que pena. As da Julia Roberts são fininhas, mas fazem sucesso entre os britanicos que as nomeiam de "spindly" ( penso em "aranha" pelos ecos germanicos, mas a palavra descreve mais o formato daqueles fusos de uma roca ). Eles também apreciam dedos que vão se afilando nas pontas, "tapering", como velas de castiçal. Eu prefiro imaginar que o Larry teria realmente transado com Alice, embora na hora em que ele o afirma gere uma hipótese titilante. Pelas trocas entre ele e Alice no show de strippers não há sinais de que teriam se encontrado mais tarde sem vigilancia e com todos os toques desejáveis. O fato de Alice, no final, contar que passou uma noite inteira com Larry, para humilhar Dan, também não traz certeza, porque ela cultiva mentiras e esta poderia ser mais outra. Acho que o filme se enriquece quando ela, numa assustadora mudança, afirma que não ama mais o Dan. Este esvaziamento rápido de um longo estado de enamoramento assusta, impacta. As pessoas costumam se enganar a si mesmas prolongando a ilusão de paixão...Amor pode acabar assim, sem uma grande explosão e sim, num murmurio... como acaba o mundo para T.S.Eliot no poema "The Hollow Men": This is the way the world ends Not with a bang but a whimper. . Alice, algum tempinho depois, explica como chegou a este desinvestimento total do ex-amado: ela foi colocada contra a parede, pega no cerne da verdade/mentira sintomática que vive. Confessa que não poderia dizer a verdade e também não poderia mentir ( teria que ver o filme outra vez para lembrar da frase, perfeita, que ela emprega. Tudo piora, se é que poderia piorar diante da presente indiferença dela, quando Dan confessa que já sabia que ela havia traído... |
Voltar ao topo [Aeternus:5470] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-23) - RE:RE:RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
 "O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância". VISITANTE Mas que puxada de sardinha pra mulherada, hein? Tadinhas, tão sinceras e de sentimentos tão... ascendentes sobre o tesão, tesão este que, nelas, é tão dócil ao amor... Me lembra a Jeanne Moureau, cantando sozinha e abandonada naquele universo tão masculino, mas tão masculino, que as mulheres não eram nem objeto de desejo. Aliás, não chegavam a "objeto" (e essa foi uma das questões preciosas que o Fassbinder quase que didaticamente nos apresenta em Querelle: homossexualidade pode não ser a feminização do homem, e sim vir exatamente da supervalorização da masculinidade - se bem que, se a gente prestar atenção nuns trechos de Freud, a gente vê que isso não é uma idéia assim tão original). Mas é verdade que há uma programação mental que dá às mulheres a sensação de serem mais sinceras em seu amor sexualizado. Esses dias vi na tv um diálogo não sei se em filme, se em entrevista (eu já estava meio sonado), sei que era uma mulher desafiando a outra, duvidando de que tivesse sido fiel a qualquer homem que fosse, mesmo ao mais amado. A pergunta já traz mileum pressupostos e incongruências: passa uma idéia já aceita de separação entre amor e tesão (reconhecimento este até há poucas décadas raro entre mulheres) e uma não-aceitação interna/emocional dessa separação. A incongruência se esconde no conceito de "fidelidade", porque ou bem a gente aceita a separação - donde a fidelidade desapareceria como valor -, ou então é sinal de que a distinção entre uma coisa e outra não é tão bem resolvida assim. Que cêis acham? Já a distinção que algumas pessoas fazem entre o ciúme masculino e o feminino, dizendo que os "mininos" gostam de competir com nossos iguais, é uma pedra que o próprio Freud botou nas mãozinhas feministas para que nos atirassem quando lhes fosse conveniente: foi ele que disse que o delírio paranóide de ciúme (e elas já acham que todo ciúme masculino é desse tipo) vem do medo do próprio desejo homossexual, ou, quando tanto não seja, vem de uma espécie de "inveja do pênis" do rival, e o inconsciente do cara não sabe mais se queria estar no lugar do homem ou da mulher na cena da traição (que bate no imbroglio objetal/subjetivante/narcísico/socializante que entra na órbita da cena primária). Ufff! O que o Freud se esqueceu de dizer é que esse papo de que o amor colado ao tesão - de que as mulheres tanto gostam de se orgulhar- também é falsificado. (E ele próprio era um romântico, ele também colava o amor ao tesão e só constatou a diferença entre essas coisas ao tropeçar em alguns pacientes que lhe abriram os olhos). A "instalação" dessa "verdade" aparente (de que, nas quase palavras do Gikovate, mulheres dão por amor e homens amam pra trepar) é feita no mesmo download do defeito estrutural (que é o mesmo evento que, nas palavras da Maria Rita Kehl, faz a passagem do sexual não-sexuado para o sexual sexuado), ou seja, o "genitalidade.exe". Mas se a gente puxar essa cordinha... esse assunto vai loooooooonge... O grande xis da questão quanto a esse tipo de definição é saber se quem repete uma idéia dessas sabe ou se não sabe que essas coisas todas não vêm no hardware. Se a pessoa sabe que isso não é da NATUREZA feminina e nem masculina e está fazendo a constatação de uma tendência estatístico-cultural, aí tudo bem. O que enguiça mais ainda essa coisa é o fato de que essas separações estão cada vez mais nebulosas nos últimos tempos, não é mais uma questão de saber o que é o tesão e/ou o amor para homens e para mulheres, mas para uma geração inteira de homens e mulheres comparada a outra geração inteira de homens e mulheres. A meninada de hoje parece contrariar todas as teorias... Há quem diga que isso sim é uma degenerescência cultural, como se essa "geração perdida" tivesse se desgarrado da verdadeira natureza do amor... hohohohohoho... Quem se mantém em torno desses referenciais, nunca chegará sequer à constatação de que os "filhos do Larry" (na forma como emputalham o "feminino") grassam como praga incontrolável. A diferença é que as ptchulas gostam, sem serem masoquistas como nos velhos tempos da dor-de-cotovelo, mas gostam de certa dose de brutalidade de uma forma ativa, de uma forma sádica, de igual para igual para com os trogloditinhas... Como entender????? Isso tudo torna o hiato entre os sexos um assunto pra mim sempre fascinante. |
Voltar ao topo [Aeternus:5471] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-23) - RE:Manter a diferença: Moore e Graça Ramos
 Consegui autorização de Graça Ramos para incluir trechos da reportagem que fez sobre Henry Moore em Brasília, com o título de "Parque das Esculturas" e que saiu publicada no Pensar/ Correio Braziliense de domingo passado. Graça é jornalista e doutora em História da Arte pela Universidade de Barcelona, com tese sobre a escultora brasileira Maria Martins. Ao comentar a exposição no CCBB de Brasília, ela recomenda ao visitante que ele "se entregue ao desejo de apalpar com os olhos aqueles volumes, substâncias que se sustentam entre plenos e vazios, em ritmos que se alternam conforme a exposição da luz". Ela situa Moore " no limiar da tradição e da inovação, devotado à fluidez dos movimentos", antes de prosseguir com seu convite: " Aproveite também para entender o porquê de os ingleses serem mestres na edificação de jardins ao integraram natureza e arte, com o sentido de humanizar cidades(...) Oferecem experiências estéticas para serem contempladas no cotidiano e, desse modo, fazem ver um universo ainda por ser visto", antes de convocar sua indignação por "inexistirem na Brasília projetada sob a aura do moderno pontes entre arte e cultura capazes de povoar o imaginário. Revolte-se com a esterilizante negação da presença de praças públicas ocupadas por expressões artísticas passíveis de provocar deslumbramentos". Para ela, " o maior mérito da exposição trazida ao Brasil a partir do acervo da Fundação Henry Moore(...) se configura em uma redescoberta local: a da paisagem brasiliense e da necessidade de devolvê-la ao público com equipamentos culturais que ampliem seu contexto". Para Graça, " a decisão de situar dez das esculturas ao ar livre, quase todas nos jardins orientados para o Lago Paranoá, descortinou uma Brasília esquecida. Basta dedicar alguns minutos na observação dos expectadores e anotar como se esparramam pelos gramados. É possível identificar o prazer com que percorrem o jardim e sentir o deleite manifestado quando se sentaram nos bancos e tateiam com o olhar a composição de esculturas e jardim somada à vista de ângulos da cidade" e, ao mesmo tempo, seguir "a perseguição do artista a um ideal de plasticidade e tactibilidade facilita a compreensão de que uma escultura significa muito mais que a matéria trabalhada. Em Moore e para Moore, esculpir vincula-se a vibrar". Ela chama atenção para a "ausência de políticas culturais para a ocupação do espaço público dessa cidade. O prédio do CCBB, projeto da grife Niemeyer transformado para abrigar centro cultural, exemplifica a questão. Dirigido por uma empresa pública, destinado ao público, o local nunca foi objeto de um plano de aquisição de obras que ajudassem a integrar o jardim ao edifício e ao próprio conceito de espaço cultural". No parque de esculturas pode-se perceber, graças à mostra de Moore "a importância dessa prática, tão comum em países em que o Estado, a iniciativa privada e a sociedade não são frágeis no que diz respeito à cultura e pactuam ações para construção de acervos públicos. O jardim permite que os orifícios, as ranhuras naqueles corpos e as pontas que convergem e não se encontram ampliem o movimento constante em Moore...Ali, as obras se tornaram muito mais potentes do que na montagem da Pinacoteca de São Paulo, quando foram inseridas no interior do prédio de estilo neoclássico, pois alcançam dimensão quase onírica, como se brotassem do chão. Os curadores Anne Bennet e David Mitchinson conseguiram atender ao anseio de Moore, que dizia: “de tanto penetrar no coração da matéria, acabei descobrindo o céu do outro lado”..." Ele pode ter sido o último dos clássicos, mas continua sendo o artista que restituiu à escultura a idéia de força vital e rigor formal em questionamento a partir das experiências das primeiras vanguardas do século XX. E, sabiamente, preferia que elas ocupassem espaços ao ar livre, onde pudessem ser observadas por muitos e adquirissem a força do entorno"... "Na montagem que se derrama entre o cheiro dos pés de jasmins e os tomentos das flores-de-coral, os ângulos obtidos pela disposição das esculturas permitem que sejam vistas formas através das formas(...) O cuidado nessa parte da montagem só rende elogios: o posicionamento de algumas esculturas impede que o espectador observe que logo atrás delas centenas de outdoors horrendos mancham o céu dessa cidade que já não cuida de suas tradicionais escalas", qualidades estas que não apareceram na montagem na área coberta arredondada pois "ali tudo se soma para um rebaixamento da energia: o próprio local com seu pé direito atarracado; a cor cinza esmaecido escolhida para recobrir as paredes; a disposição dispersa das obras e o andar inferior melhor composto que o superior"..." Na galeria retangular, também ocorrem problemas. Um deles diz respeito à estratégia comercial (...): um filtro nos vidros impediria que as letras em néon refletissem nas paredes e deixaria a entrada da mostra, que agrega cinco esculturas, muito mais elegante e atraente". E conclui: "Apesar de algumas obras realizadas no final da vida do artista revelarem "um enfraquecimento da potência energética" enquanto que, em outras, segundo os historiadores de arte aparece "uma retórica pomposa, estão todas emprenhadas de reverberações. São memórias poéticas visíveis a cumprir o papel imaginado pelo próprio Moore para suas esculturas: “ajudam a compreender, a sentir a beleza das formas”." Quando vi uma exposição de Moore, nos anos sessenta, havia o mar como natureza e os espaços abertos do MAM no concreto e gramados de uma arquitetura que na ocasião me parecia inovadora e única. Não achei a mensagem do Sergio Porto descrevendo sua experiência anterior com Moore para ser mais precisa. Aprendi que a obra de Moore também veio ao Brasil nos anos cinqüenta, para as festividades dos quatrocentos anos da cidade de São Paulo. Em Brasília foi um privilégio retomar o prazer das caminhadas no jardim com o horizonte sem limite da cidade e sentir a "vibração" da qual falou Graça, e lamentar que experiências como esta não sejam incorporadas de modo permanente à vivência dos habitantes daqui. |
Voltar ao topo [Aeternus:5472] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-23) - RE:RE:Alice caindo no poço do país das maravilhas, walking and falling at the same... time
Jansy retomou coisas escritas há quase um ano por aqui sobre "Closer" e outros filmes: No filme "Quem tem medo de
Virgínia Woolf". Se não foram todos premiados, todos foram indicados pelo
menos. Injustamente, Richard Burton foi só indicado (aliás nunca recebu Oscar algum: problema do Oscar)."Aconteceu Naquela Noite" de Frank Capra nos anos 1930(38?) premiou todos as 5 categorias mais visadas: ator, atriz, diretor, roteiro e filme, etc; "Um estranho no Ninho" repetiu o feito com Jack Nicholson, a enfermeira (depois ela sumiu), o Milos Forman diretor, o roteirista e o filme premiados; "O Silêncio dos Inocentes", idem, com Anthony Hopkins, Jody Foster, diretor, roteirista e filme. Que eu me lembre foram só esses 3 com as premiações mais importantes. Nomeações... muitíssimas de um mesmo filme e muitas levando a um total "mãos abanando" no final da noite... quando 2 atores concorrem pelo mesmo filme na mesma categoria, gerlamente nenhum dos 2 ganham; exceção: Shirley macLaine recebeu seu postergado Oscar pelo mesmo filme em que Debra Winger havia sido nominated. Acho que o Jude Law está perfeito em Closer, num desempenho mais sutil, mas não foi nem indicado. Quem já o viu como o robô-gigolô de "Inteligência Artificial", "Alfie" (segunda versão), fotógrafo-assassino de "Estrada da Perdição", vítima em "Mr. Ripley", etc, sabe que ele pode ser versátil, ter excelentes desempenhos, sejam baseados em sua "persona física" ou "persona jurídica" - ou em nenhuma das duas (ou muitas?). Mas o Clive Owen e a Natalie Portman foram indicados ao Oscar e haviam ganho o Globo de Ouro nas categorias coadjuvantes, o que sugeria que poderiam ser oscarizados, mas o oscar é mais conservador e premiar a Natalie Portman de pernas arreganhadas com o Clive Owen cara a cara com a........... dela... Não, o Oscar, nunquinha! O papel dela já dera à Guta Strasser nos palcos brasileiros uma oportunidade de brilhar acima dos demais bons desempenhos da montagem dirigida pelo Babenco. Em Londres, Owen fez o papel de Dan, o que é surpreendente! Já o vi em outro filme bobo onde ele se mostra romântico e bonzinho, um anti-Larry. O cara é bom ator mesmo ao criar o Larry-trator em fúria narcísica. Eu tb achei, de início, que o Larry mentiu ao dizer pro Dan que transou com Alice. Na segunda vez que vi o filme, acreditei que transaram, com a Alice dizendo que sim. Mas Jany propõe que ela pode ter mentido. O que importa é que o Dan é como os personagens que citei outro dia em Ariosoto e em Ovídio que querem saber "a verdade" - e o Larry quer até os detalhes da transa alheia! - e extorquir "a verdade" da boca da amada; querem saber mais, aumentar sua crença na fidelidade... aumentá-la... e acabam sem desfrutá-la... Cosí fan tutte, cosí fan tutti. Se não fazem, podem fazer, ou fantasiar, ou devanear, ou sonhar e o macho quer da fidelidade feminina o reasseguramento narcísico de seu falo como o mais desejado pela mulher amada. Diz Jansy que Alice, numa assustadora mudança, afirma
que não ama mais o Dan. Eu já lembrei a Jansy que no início do filme Alice diz que só sai das relações se não ama mais e diz exatamente a frase que dirá para Dan no final: "Eu não te amo mais, tchau!" Diz Jansy: Tudo piora, se
é que poderia piorar diante da presente indiferença dela, quando Dan confessa
que já sabia que ela havia traído... Só não concordo com "indiferença": acho que aí mesmo é que tudo vai para o brejo: se ele já "sabia a verdade" e quer "arrancar" dela a mesma confissão, faz como se fazia com as bruxas na Inquisiação (se confessavam ser bruxas, iam prá fogueira; se não confessavam, iam também porque bruxas mentem....), ela não tem mesmo saída. Não pode mais mentir nem pode mais falar a verdade: fala o que ele já acha que sabe. Não importa mais se ela transou ou não com Larry. Ela não pode mais amar Dan neste estado de coisas.No mais, concordo em tudo com a escrita da Jansy nesta revisão de "Closer"
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Voltar ao topo [Aeternus:5474] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-23) - ainda Alice e a queda do amor
 Gallego observou que eu disse que Alice, numa assustadora mudança, afirma que não ama mais o Dan. Eu já lembrei a Jansy que no início do filme Alice diz que só sai das relações se não ama mais e diz exatamente a frase que dirá para Dan no final: "Eu não te amo mais, tchau!" Sorry, Gallego, se repeti um montão de coisas ditas antes, sem dar os merecidos créditos ao autor original da idéia. Tá tudo disponível nas listas e não fui conferir por causa da pressa informal para manter a peteca no ar: ainda bem que você trouxe alguma coisa de volta. O ideal seria um dia arrumarmos tudo por tema, como conseguíamos inicialmente: discutir um filme na lista encabeçada por ele, outro sob o título correto em vez da quase-salada que ando fazendo saltando daqui e dali e misturando tudo pois, assim, fica difícil achar a frase que se busca. Disseram que a um programa do "google" que pesquisa os próprios arquivos que temos no computador e seria ótimo instalá-lo, até aqui para nós todos usarmos. Verei sobre o assunto.
A frase da Alice continua me assustando pela rapidez com que se produziu depois de uma briga amorosa no hotel. Ela tinha observado que "era sempre ela quem abandonava" e, por isso, estava surpresa quando Dan se afastou dela para ficar com Anne: queria a todo custo poder vê-lo, olha-lo, desamá-lo devagar.
Prosseguiu Gallego: " se ele já "sabia a verdade" e quer "arrancar" dela a mesma confissão, faz como se fazia com as bruxas na Inquisiação (se confessavam ser bruxas, iam prá fogueira; se não confessavam, iam também porque bruxas mentem....), ela não tem mesmo saída. Não pode mais mentir nem pode mais falar a verdade: fala o que ele já acha que sabe. Não importa mais se ela transou ou não com Larry. Ela não pode mais amar Dan neste estado de coisas... Então, estamos de acordo. Ele a colocou numa posição impossível porque anulou a voz de Alice, tentou apagar sua subjetividade e seu direito à intimidade e ao segredo. Foi isto que provocou o corte, quebrou o elo com ele. O que ele continuou dizendo só piorou o que já não tinha como piorar. Interessante é que não a vejo como vítima suicida. Afastar-se dele, retornar a NY foi uma resposta saudável... Mas... |
Voltar ao topo [Aeternus:5475] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-23) - RE: Hello Stranger! Unexhibited pictures
 Lacan caracteriza o "feminino" e o "masculino" a partir do modo pelo qual o "ser" ( com corpo de macho ou de femea) se posiciona diante do Falo. Dentro desta visada torna-se possível entender que há mulheres que se posicionam como homens (e vice-versa) sem deixarem de usar brincos e saltos altos e sem precisarem se mostrar donas da situação como alguma Dama Thatcher britanica. Aceitando-se esta hipótese lacaniana, fica difícil falar sobre ciúme feminino e masculino se apenas considerado a partir da impersonação das ditas mulheres/ou/ homens. Até a prática sexual entre homens, com seus diferentes jogos e variantes das posições passiva e ativa, não implicaria na "feminização" de ambos. No entanto, confesso, não conheço muito bem a teoria senão em alguns aspectos que me interessaram particularmente, logo não ponho a mão no fogo para defender estas idéias. Quanto ao Larry, apesar da sua grosseria, acho-o mais atraente do que o garotinho Dan. Este último estava prontinho a viajar com a grana que Alice obteve como "stripper". Há uma moralidade na história que não fica muito aparente: é como se o roteiro admitisse as infidelidades e perdões daquela troca de casais como sendo uma forma de garantir que, fora desta, todos seriam fiéis para sempre. E quem é que vê o sultão Larry ou o galinha do Dan sendo fiéis à Anna e/ou à Alice, mesmo enquanto ligados por matrimonio ou pelo simples compromisso de convívio? Quanto a elas também não sei dizer. Alice prometia fidelidade enquanto durasse o amor, uma fidelidade de alma e não de corpo. Anna era mais contida, pois preferia o que alguém já chamou de uma "monogamia serial" socialmente reconhecida. Oferecia fidelidade de corpo, mas não de alma ou de alma, mas não de corpo. Ih. Sei lá. Acho que o roteirista gostaria de acreditar que os Homens seriam poligamicos e as Mulheres "monoandricas". Deve ser uma fase transicional da cultura em que outras formas de se entender o que sustenta um casal moderno começam a se definir melhor. O desapego de Alice aos bens materiais também cria um clima de "pureza", como se ela não ganhasse dinheiro se exibindo e até transando com homens pagantes.
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Voltar ao topo [Aeternus:5477] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-24) - RE:ainda Alice e a queda do amor
Jansy, eu não reclamei querenDo cédito; nem vc se apossou de nada que eu tivesse dito. E se assim fosse, aqui não tem royalties (deveríamos pensar niso?). Eu apenas tentei relembrar você que a frase em que Alice "despede" o Dan já havia sudo anunciada por ela no início do filme. Vc sempre se manifesta chocada com a surpreendente frase de Alice. Surpreendente não é a frase: é a "virada" que ela dá. Eu só quis te lembrar que eu já lembrara isso para você antes, mas sem quixas nem ranzizices. Se o "tom" foi zangado, sorry - digo eu. É aquela velha história do telegrama "Papai mande dinheiro" que pode ser entendido como pedido humilde (Papai, mande dinheiro...) ou arrogante (PAPAI! MANDE DINHEIRO!) Não foi neste tom que eu escrevi.
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Voltar ao topo [Aeternus:5478] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-24) - RE:ainda Alice e a queda do amor
 Não achei a mensagem ranzinza, só um pouco impaciente por ser forçado a repetir algo que já fora discutido antes e, isto, discretíssima e delicadamente. Quem nos brinda com ensaios incríveis é você, donde, se alguém quiser pensar em estudar a questão do copyright ou royalties deve ser você! O que escrevo flue ao capricho dos meus dedos que não pedem "cédito" ( ambivalente?). Lembro que comentei um comentário de outro comentário a respeito deste súbito desamor com hora marcada, algo que teria sido mostrado no filme Eu Te Amo do Jabor. Algo como: Deixei de amá-lo hoje, às quatro horas da tarde, enquanto passeava pelo shopping... Vou rever o filme uma hora destas para ver se ela anuncia mesmo a frase que dirá no final, como você está dizendo. Não estou duvidando, mas querendo captar o "feeling" deste aviso. Pois ela depois implora que Dan a deixe ir se desligando dele devagar, que ele não desapareça por completo. Será que ela só desama se não for desamada primeiro? |
Voltar ao topo [Aeternus:5479] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-24) - RE:RE:ainda Alice e a queda do amor: peésse
Estou errando muito as construções: afirmo que duvido e nego em seguida, quase no mesmo impulso! Queria dizer que acredito na sua observação, mas não a "senti" do mesmo modo. Também esqueci de anotar que Alice ouve pedaços da conversa de Dan seduzindo Anna e que ela chora quando avisa a Anna que ouviu tudo. Esta a fotografa com a lágrima para expo-la como "stranger". Ela não fez nenhuma cena com Dan, nem se negou a ir à exposição: apenas pediu a ele que se deixasse ser amado por ela. Creio que não discutimos esta parte? |
Voltar ao topo [Aeternus:5480] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-24) - RE:RE:RE: Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut
 Não, eu não tenho dúvidas: Alice mentiu ao "confessar", porque não fazia mais diferença para ela. Não foi assim um esvaziamento à toa. O Dan a estava pentelhando igualzinho como fizera antes com Anna. Só que é aí que o filme dá sua grande virada, porque Alice quebra a... REPETIÇÃO, ela quebra os 'retornos do mesmo' que se infundem sob as mudanças de papéis. Ela se descobriu envolta na idealização sedutora de Dan e se pega de volta. Dan a conquistara jogando aquele charme bajulador, e ele não aguenta deixar de SER o Falo omnipreenchedor. Mas deixa eu finalizar o parágrafo repetindo a idéia mais central: Alice se pega de volta (como Jane). A tal explicação dela é bem aquilo que vocês lembraram, e eu vejo como a explicação do próprio Nichols (e/ou do Marber, é legal que o próprio autor do livro tenha feito a adaptação, né?): pouco importa a realidade, se dela depende uma verdade que deveria se apoiar nalguma outra coisa (daí o jogo com a troca de nomes, a alternância entre a stripper que mostra mas não toca e a recatada que toca mas não mostra - o próprio nome). Sobre Jude Law como ator, ele é especialista em ranhetas pidões. O melhor papel da vida dele foi fazendo um dos efebos do Oscar Wilde, Bosey, justamente o pivô do escândalo que culminou na prisão do poeta. Um pentelho de marca maior, um escrotinho empertigado da pior espécie. Talvez ele seja mesmo dado a personagens chorões desprezíveis, mas, tanto como o robô de Kubrick/Spielberg como aqui, esse tom veio a calhar. Isto porque os robôs de Kubrick, a começar do menininho esquisito, eram feitos à imagem e semelhança cuspida e escarrada de seus criadores humanos/desumanos: NARCISISTAS. E ele estava bem também em Ripley, fazendo o hedonista - não sei como não pegaram ele pra fazer o próprio Ripley, o nihilista (claro que aqui eu forcei pra rimar, mas não achei de todo impróprio o uso do termo). E a gente não pode deixar passar em branco: O CLIVE OWEN TÁ IM PRE SSIO NAN TEEEE!!!!!!!!!! E a sequência da vernissage é plasticamente linda (o que não é de se espantar em se tratando de Nichols) sem falar na Bebel Gilberto ao fundo... Ah! E.T.: e por falar em retorno, deixeu retornar ao início desta mensagem: essa dúvida que Mike Nichols nos deixa é parecidíssima com as dúvidas inculcadas por Almodóvar, por exemplo, em Fale com Ela: teria mesmo a gestação da moça em coma sido resultado de alguma tara do enfermeiro? Almodóvar não prova isso pro espectador, e temos, pelo menos, três possibilidades: o próprio enfermeiro, o jornalista (que garante muito veementemente pra locatária que o enfermeiro é inocente), e... tchã-tchã-tchã-tchããããããã::::::: o pai dela (tem uma cena que mostra o pai olhando escondido o enfermeiro dar banho na filha, sabe-se lá com que hormônios correndo em suas veias). No caso de Mike Nichols, ele provou em flash back TODAS as outras traições, menos a de Alice. Mas também não prova o contrário. Acho que é pra mostrar pro espectador qual a verdadeira importância de se procurar a ALMA na buceta. |
Voltar ao topo [Aeternus:5482] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-24) - RE: Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma?
 Agora é que entendi porque as comadres de antanho advertiam as filhas garantindo que "homem é tudo igual", na infidelidade e na sacanagem.
CD escreveu: No caso de Mike Nichols, ele provou em flash back TODAS as outras traições, menos a de Alice. Mas também não prova o contrário. Acho que é pra mostrar pro espectador qual a verdadeira importância de se procurar a ALMA na buceta.
Deduzo disto, que os homens não tem alma. CQD ou a QED. |
Voltar ao topo [Aeternus:5483] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-25) - RE:RE: Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? A ALLLMA masculina
 Há controvérsias. Dona Marta, por exemplo, tem uma teoria interessante sobre a LOCALIZAÇÃO da alma masculina. Veja:  |
Voltar ao topo [Aeternus:5484] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-25) - a questão dos começos... Oliver Twist
 Assisti o filme do Polanski, "Oliver Twist" e comecei me emocionando com a abertura, com uma gravura antiga ampliadíssima emn suas nervuras e representações da paisagem inglesa, mais uma musica de fundo neo-clássica. Acostumada com gravurinhas reproduzidas nos meus livros, aquela amplidão esticou meus musculos oculares prazerosamente. O modo pelo qual a gravura se fundiu com o começo da filmagem ficou ótimo, do sépia para o cinza para o colorido, com riscos ondulando ainda até sumirem.
Muitos cenários, no entanto, me desagradaram pela escolha dos tons azulados artificiais para reproduzir a Londres antiga. O foco acentuado nos rostos, resolução em "grão duro" ( na fotografia tradicional o vocabulário era assim, não?). O esquálido aparecendo palatável e quase belo pelos efeitos da luz se filtrando nos interiores...
Não gostei da atuação dos meninos, de quase nenhum. Parecia teatrinho da escola. Tudo muito ET ou bonitinho demais em contraste. Quem se destacou foi mesmo o Fagin/Ben Kingsley. Mesmo a gente sentindo o prazer dele de se imaginar num papel clássico, exagerando aqui e ali, ele estava magnífico. E Fagin, no filme, era o personagem central mesmo, patético, comovente e, talvez, a única pessoa de coração - em termos, claro - entre os desafortunados. Outro ator ótimo foi o cachorro branco. A caricatura dos magistrados ingleses auto-centrados, gordos e egoísta ficou ótima. Cenas como as sátiras de Hogarth. O filme é um depoimento contra a monarquia e o império ingles, não lhes pareceu? |
Voltar ao topo [Aeternus:5485] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-25) - RE:Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? A ALLLMA masculina
Se você olhar para o cartum verá que dona Marta é homem ( quando ela diz "bom-dia", veja como fica sua linguinha esticada e os dois peitos volumosos na imagem ) |
Voltar ao topo [Aeternus:5493] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-26) - RE:RE:Larry queria ver a ALLLMA de Alice, por isso pediu pra ela abrir as pernas bem perto de seus eyes wide shut. Os homens tem alma? A ALLLMA masculina
Ah, então é daqueles casos de alma de homem presa num corpo de mulher? Mas então é uma alma gay... |
Voltar ao topo [Aeternus:5496] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-26) - RE:a questão dos começos... Oliver Twist
Em outra lista (nós enossa eterna desordem) Jansy retomou "OLiver Twist" do polanski. Não gostaria de perder tanto tempo com um filme que, definitivamente, não vai ficar na história nem do Cinema nem do Polanski, mas como Jansy trouxe um outro olhar, inclusive mais simpático do que o meu quanto à abertura e outras coisinhas mais, para aproveitar alguma chance de debate sobre filme novo, acrescento algo a partir do que ela escreveu na outra lista:"...estranhei demais os cenários urbanos
criando angulos nas ruas com sua bifurcação marcada por algum prédio
triangular, como o do Times Square, ou para os quadros do seu outro
filme, "O Pianista"..." Pois é: embora pareça que teve alguma grana, os cenários ficam indecisos entre o que Jansy observou (um aspecto artificioso intencional de recriar o clima de gravuras/ilustrações de livros antigos) e um realismo tradicional no cinema com grana/produção caprichada. Se houve a intenção que hipotetizei acima, entre parênteses, menos mal, mas... a coisa ficou no meio-termo, lembrando... cenários artificiais. Esta op´ção foi muiot interessante em "My Fair Lady" onde, ao mesmo tempo se recriava o Convent Garden que se deixava clara a teatralidade dos cenários, caminhando para um clima irrealista de musical na "Street where she lived" ou na casa da mãe do prof. Higgins. Em Oliver Twist a perspectiva das ruas quase acaba em telão de fundo como em filmes do Hitchcock que, parece que se lixava para a impressão de realidade. A cena final de "Marnie" é claramente uma rua de estúdio de cinema com telão pintadeo; a colina onde Paul Newman explica sua situação de espião pra Julie Andrews em "Cortina Rasgada" era francamente bizarra, de tão bandeirosamente made in studio. Curiosamente, o clima oniróide, de pesadelo, em seus filmes, se beneficiava diso. Em "Oliver Twist" parece que não foi feito 100%. Espero que vocês assistam "Manderlay"; "Crash"; "Uma Vida Iluminada" (menos bom que os outros dois, mas muiot melhor que o "Twist" e seus atorezinhos fracotes); para conversarmos por aqui. Já o documentário do Eduardo Coutinho, "O Fim e o Princípio" me decepcionou bastante. Acho que gostei de "Edifíco Master" e "Babilônia 2000" por serem mais urbanos, mais fácil de eu me identificar com. Já este filme com pesoas que vivem num fim de mundo a 400 ou 500 km de João pesoa, no interior da Paraíba, sendo tomado como manifestação de filosofia popular... perdoem meu possível preconceito, mas só ouvi clichês, até simpáticos em gente tão simples, humilde e sem aceso à dita "alta cultura"; mas idealizar aquilo, me parece deslumbramento com "o povo", idealização sem realismo. Tenhoi até medo de me manifestar sobre iso pois o filme está sendo elogiado como o melhor filme do Coutinho desde "Cabra Marcado para Morrer". Não concordo.
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Voltar ao topo [Aeternus:5497] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-26) - RE:RE:a questão dos começos... Oliver Twist
 Eu me contento com pouco, Galleguito, e assistir o Fagin em cena compensou outras falhas do Oliver Twist. Hoje só posso comentar o Harry Potter, cada vez mais mágico. Me perguntaram o que havia e pude dizer: dragão, cavalo alado, caldeirão, vassoura, bruxos e bruxas, arcas, portas, sereias e até Ralph Fiennes (Voldemort), o máximo do poder do Mal. As crianças parece que adoram e eu continuo detestando a imitação do clima de universidade aristocrática inglesa e o rebaixamento da magia a uma série de truques que a tecnologia moderna transforma em alto espectáculo visual vazio. Enfim. Não percamos nosso tempo. PS: Este modismo da "sabedoria popular" é muito cansativo. Espero que seus proponentes se exterminem mutuamente pelo tédio. |
Voltar ao topo [Aeternus:5498] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2005-11-26) - Propaganda Iluminada

Então, People
Eu adorei Uma Vida Iluminada enquanto assistia.
A primeira cena em que aparece o Frodo com aqueles óculos do Brains em Thunderbirds, me provocou uma gargalhada explosiva que não ficou nem bem dentro do sóbrio "Reserva Culturallllll"
Mas o filme é simpático e pega a gente como obra sensível, discreta, que sabe narrar no registro da sutileza...
Mas este NÃO foi um filme que CRESCEU na minha cabeça depois.
Fui ler o que dizia o jornal e vi que não chega nem a ser co-produção com a Ucrânia ou com país nenhum, que o dinheiro do filme saiu exclusivamente dos EEUU, e comecei a ficar cismado, comecei a lembrar da influência da... do... daquele órgão que "fiscaliza" e "orienta" a produção cinematográfica americana pra exportação, comé que chama? eu sempre esqueço o nome da instituição...
Enfim, esta produção me pareceu encaixar-se a uma política de bajulação dos Iunáited Globalizêiting Stêites para com os países mais recém-globalizados (aquelas cenas mostrando coisas absolutamente locais, regionais e enraizadas... de repente a grua sobe e se vê uma pista de skate; outra hora tem merchandising do McDonalds; tem aquele prédio abandonado e o Frodo pergunta "por quê?" e o cara responde "Independence" (e ali tem um aspecto que acaba passando despercebido, acho que, no caso do olhar brasileiro, é porque nos acostumados à padronização arquitetônica desde a COHAB até os prédios classe-média-pra-baixo de Brasília [lá, só de consul pra cima é que têm residências, digamos, singulares], mas que é uma padronização que surgiu primeiro como solução burguesa para o proletariado, e me vem à cabeça aqueles tijolinhos aparentes ingleses mas tudo igual, funcional, sem ornamentos - quando ainda não havia comunismo - e depois é incorporada pela ditadura do nivelamento por baixo da (est)ética soviética, agora mais mudérrrna, como, pra cair de novo no exemplo brasileiro, no oscarniemeyerismo das cidades satélites de Brasília; aqui em Sampa temos nossos já velhos "conjuntos dos bancários" feitos como caixotes indistintos desde os anos 50... no filme, o "pombal" dá impressão de ter sido abandonado tão logo o jugo cumunista teve fim, e me soou como uma mensagem subliminar dizendo "vejam como o serumano nasceu pra ser liberaaaaaaal" - não que não haja pombais nos estêites, mas a padronização é sempre disfarçada "pra inglês ver"), enfim, todo aquele confronto cultural mostrado como pano de fundo no filme me bateu de forma inversa ao teor crítico do também road movie Y tu mamá también; este de agora me pareceu mais aparentado ao abjeto A Vida é Bela, porque a idéia que fica é de que o Frodo teve uma SOOOOOORTE DANAAAAAAAAADA de ter nascido naquele país longínquo que acolheu tão bem seu avô e todos judeus que lá chegaram (e que não precisaram matar a própria alma para sobreviver, como foi o caso do velhinho motorista que se desjudaificou, e, de outra forma, o caso da irmã da Augustine - é esse o nome? - que parou no tempo, desistorificou-se), e que é um país que respeita a raiz de cada um, patati patatá patatí patacolá, esse papo todo que a gente sabe que tem argumentos fortes, mas que servem pra encobrir defeitos gravíssimos na consistência da tão alardeada (e que, agora, com essa bushada toda, fica cada vez mais periclitante) LIBERDADE.
Abre as asas sobre nós...
Aqui nos países já capitalistas (seja com ditadura consentida como a do Getúlio, seja com ditadura imposta como a dos militares, ou ainda sem ditadura aparente) a globalização teve ambiente mais disfarçado pra ir minando todas as mentalidades... Já nos países neo-capitalistas, a coisa fica mais marcada, e é preciso uma maçã envenenada mais vermelhinha e brilhante, ou seja, com cara de filme NÃO-americano. NUNCA vi um filme americano com menos cara de americano!!!!! Você se lembram de algum? Eu não estou lembrando. |
Voltar ao topo [Aeternus:5499] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2005-11-26) - RE:Propaganda Iluminada/about the book
The simplest thing would be to describe Everything Is Illuminated,
Jonathan Safran Foer's accomplished debut, as a novel about the Holocaust.
It is, but that really fails to do justice to the sheer
ambition of this book. The main story is a grimly familiar one. A young Jewish
American--who just happens to be called Jonathan Safran Foer--travels to the
Ukraine in the hope of finding the woman who saved his grandfather from the
Nazis. He is aided in his search by Alex Perchov, a naïve Ukrainian translator,
Alex's grandfather (also called Alex), and a flatulent mongrel dog named Sammy
Davis Jr. Jr.
On their journey through Eastern Europe's obliterated
landscape they unearth facts about the Nazi atrocities and the extent of
Ukrainian complicity that have implications for Perchov as well as Safran Foer.
This narrative is not, however, recounted from (the
character) Jonathan Safran Foer's perspective. It is relayed through a series of
letters that Alex sends to Foer. These are written in the kind of broken
Russo-English normally reserved for Bond villains or Latka from Taxi.
Interspersed between these letters are fragments of a
novel by Safran Foer--a wonderfully imagined, almost magical realist, account of
life in the shtetl before the Nazis destroyed it. These are in turn commented on
by Alex, creating an additional metafictional angle to the tale.
If all this sounds
a little daunting, don't be put off; Safran Foer is an extremely funny as well
as intelligent writer who combines some of the best Jewish folk yarns since
Isaac Bashevis Singer with a quite heartbreaking meditation on love, friendship,
and loss. --Travis Elborough, Amazon.co.uk
From Publishers
Weekly What would it sound like if a foreigner wrote a novel in
broken English? Foer answers this question to marvelous effect in his inspired
though uneven first novel. Much of the book is narrated by Ukrainian student
Alex Perchov, whose hilarious and, in their own way, pitch-perfect malapropisms
flourish under the influence of a thesaurus. Alex works for his family's travel agency,
which caters to Jews who want to explore their ancestral shtetls. Jonathan
Safran Foer, the novel's other hero, is such a Jew an American college student
looking for the Ukrainian woman who hid his grandfather from the Nazis.
He, Alex, Alex's
depressive grandfather and his grandfather's "seeing-eye bitch" set out to find
the elusive woman. Alex's descriptions of this "very rigid search" and his
accompanying letters to Jonathan are interspersed with Jonathan's own mythical
history of his grandfather's shtetl. Jonathan's
great-great-great-great-great-grandmother Brod is the central figure in this
history, which focuses mostly on the 18th and 19th centuries. Though there are
some moments of demented genius here, on the whole the historical sections are
less assured. There's a whiff of kitsch in Foer's jolly cast of pompous rabbis,
cuckolded usurers and sharp-tongued widows, and the tone wavers between cozy
ethnic humor, heady pontification and sentimental magic-realist whimsy.
Nonetheless, Foer deftly handles the intricate story-within-a-story plot, and
the layers of suspense build as the shtetl hurtles toward the devastation of the
20th century while Alex and Jonathan and Grandfather close in on the object of
their search. An impressive, original debut. (Apr. 16) Forecast: Eagerly
awaited since an excerpt was featured in the New Yorker's 2001 "Debut Fiction"
issue, Everything Is Illuminated comes reasonably close to living up to the
hype. Rights have so far been sold in 12 countries, the novel is a selection of
the Book-of-the-Month Club and a main selection of Traditions Book Club, and
Foer will embark on an author tour expect lively sales. Copyright 2002
Cahners Business Information, Inc.
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Voltar ao topo [Aeternus:5500] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2005-11-26) - RE:RE:Propaganda Iluminada/about the book
 Propaganda iluminada? Como não vi o filme, nem sei o que dizer. Pelos comentários ora apresentados parece que é um filme sobre amizade e lealdade, que tem ainda boas piadas. Mesmo assim, não tão bom cinema quanto outros em cartaz e perdi um pouco a motivação para vê-lo. Freqüentemente sinto que estou exposta demais ao impacto do "mundo midiático" e tento me preservar um pouco. Davy me escreveu dizendo que passou por uns apagões e não deu para responder aos comentários sobre o texto que ele colocou no site. Observou que apreciou mais a primeira mensagem e " da segunda nem tanto, porque há nela aquilo que eu chamo de 'busca da doença mesmo na saúde'... A minha estratégia, a partir de Winnicott, passou a ser 'busca da saúde mesmo na doença', e a anterior me dá sempre uma crise alérgica que não me deixa nem contestar direito". Creio que entendo seu argumento, embora não tenha encontrado naqueles excertos de Freud uma "busca da doença" e, mais, sua constatação dos nossos limites ante a "realidade externa" e a arte como uma solução de fuga saudável à realidade. Se eu tivesse mais talento tentaria enveredar por aí e escrever o tal poema "jóia luminosa". Como não tenho esta saída, preciso que regular o "input" das informações - para não ficar deprimida demais com o rumo das coisas. É por aí que vou "buscar a saúde mesmo na doença", suponho. A vida é frágil e preciosa, temos que cuidar bem dela, enquanto dura... |
Voltar ao topo [Aeternus:5843] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2006-01-10) - 2046: Ser e Tempo em Marienbad à Flor da Pele no fio da navalha de Blade Runner
 Vou precisar assistir de novo, deixei escapar muita coisa. Kar Wai faz umas superposições, uns enlaçamentos... tanto fora do filme como dentro. 'Fora' porque é mesmo uma espécie de continuação de Amor à Flor da Pele (o tal do segredo soprado no buraco de uma árvore, personificações "empáticas" para entender o amado através do amigo...), além de brincar com o tempo não da mesma forma, mas inspirada em O Ano Passado em Marienbad. Mas são principalmente os enlaçamentos feitos dentro do próprio filme que foram demais para minha capacidade de retenção, fiquei confuso, é um carrossel de mulheres, eu me perdi. Ficava lembrando de uma frase que tem no meu trabalho: muitas mulheres é o mesmo que nenhuma pessoa. Mas não é disso que trata o filme. É da busca do eu no outro. Falamos disso recentemente. Aliás, vocês falaram disso brilhantemente.
Dá também pra dizer que é uma variação sobre um velho tema "quem a gente ama quando a gente ama". Mas é diferente de Closer, que parece vestir melhor essa questão.
E Marienbad não é a única influência. Há outras, ainda mais explícitas, como uma superposição da andróide com (ou sem?) alma de Blade Runner com a boneca que dança com Donald Sutherland em Casanova... Mas não receiem, não é um filme de ficção científica. A ficção científica é um livro dentro do filme, ou um filme dentro do filme, ou um sonho dentro do sonho, como queiram. Aliás, é bom a gente esquecer do que diz uma dessas sinopses de jornal, que se trata do ANO de 2046. 2046 pode ser muita coisa.
Mas a gente também lembra de Brilho Eterno... a questão da memória... (ser é amar? amar é lembrar? Lacan tem uma visão preciosa sobre memória, mas a minha memória não está localizando em que trabalho ele fala disso).
No fim eu não me decidi entre dizer que eu me perdi ou se Kar Wai se perdeu (não, acho que fui eu, mesmo). Vou precisar ver outra vez.
E vai abaixo tudo o que encontrei sobre 2046, inclusive um artigo de hoje do Jabor.
Aliás, agora é que vou ler essas matérias todas, eu tinha deixado pra ler depois de assistir... quem sabe eu me localize melhor.
Abraço grande
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2006
O amor é uma droga pesada ARNALDO JABOR
O verdadeiro amor é impossível, logo, só o amor impossível é o verdadeiro amor. Saí do cinema onde fui ver 2046, do chinês Wong Kar-wai, pensando nisso. Saí do cinema como de um sonho barroco, manchado, molhado por uma grande massa de cores e sons, de rostos, gestos, mãos, gemidos, dores e gozos. Saí como um drogado, viajando ainda num LSD, uma mescalina da pesada, saí de um milagre alucinado. Vi uma coisa rara: um filme que é o que ele conta. Explico: 2046 seria, no filme, o ano futuro em que tudo seria imutável, lembrado. E agora, quando escrevo, vejo que o tal lugar em 2046 é a própria obra. Entramos nesse filme como numa utopia, um lugar úmido, denso, esfumado, chuvoso, cambiante, onde estaríamos no lugar, na terra da paixão. Kar-wai é um grande artista que faz uma súmula de influências do melhor cinema ocidental e realiza um filme híbrido como Hong Kong, oriental para o Ocidente, diferente do que esperamos de um filme chinês. E por ele, como pelo primeiro Zhang Yimou, vemos que a cultura erótica chinesa atravessou 5 mil anos incólume, mesmo depois das revoluções maoístas e da China recente dos escravos globalizados. Muito mais sofisticado que europeus e americanos.
É um filme fragmentário sobre o fragmentário das emoções de hoje. Ali estão pedaços de Blade Runner, ecos dos Krells do Planeta Proibido (lembram, cinéfilos?), ali está Júpiter de 2001, ali estão emblemas e ícones dos filmes noir da Warner, ali está Godard na descontinuidade narrativa, ali estão confusos cacos de Ocidente e Oriente, uma Hong Kong da alma, músicas tropicais, Nat King Cole e ópera, Siboney e a Norma, de Bellini. Que banho... que cineasta admirável!
Em 2046, tema e matéria se misturam numa massa indissolúvel.
Tudo nesse filme é uma exposição da "parcialidade" do erotismo contemporâneo. (Exemplo brasileiro: a bunda substituindo a mulher inteira). À primeira vista, parece uma louvação da perversão, do fetichismo, do erotismo das "partes", do "amor em pedaços". No entanto, Kar-wai está além do fetichismo, além da perversão. Ele retrata (sem teses, claro) a imagerie do erotismo contemporâneo que "esquarteja" o corpo humano. Vejam as artes gráficas, fotos de revistas de arte, como Photo (ou em Tarantino), em que tudo é (reparem) decepado, dividido, pés, sapatos escarpins negros, unhas pintadas, bocas vermelhas, paus, seios, corpos imitando coisas, tudo solto como num abstrato painel. Tudo evoca a impossibilidade saudosa de um "objeto total", da pessoa inteira.
Uma das marcas do século 21 é o fim da crença na plenitude, na inteireza, seja no sexo, no amor e na política.
Aí, chega o Kar-wai e, poeticamente, intui esse novo mundo afetivo e sexual.
Kar-wai não sofre por um tempo sem amor, como nos filmes que "acabam mal", sem happy end. 2046 não lamenta a impossibilidade do amor. Não; ele a celebra. Para Kar-wai (e para muitos de nós), só o parcial é gozoso. Só o parcial nos excita, como a saudade de uma plenitude que não chega nunca. Kar-wai assume essa parcialidade, a incompletude como única possibilidade humana. E acha isso bom. E, num filme romântico, nostálgico e dolente, goza com isso. Nada mais delicioso que o amor impossível. E, como canta o samba, "quem quiser conhecer a plenitude vai ter de sofrer, vai ter de chorar..." Ou, "O amor é uma droga pesada", título de livro de Maria Rita Khel.
Kar-wai nos apresenta a droga pesada do século 21: a paixão.
Ele é o quê? Um romântico-punk, um pierrô pós-utópico? É por aí... um chinês neurótico dando aula para ocidentais.
O amor em Kar-wai, para ser eterno, tem de ficar eternamente irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e, para isso, a "prise" não pode passar. Aí, a dor vem como prazer, a saudade como misticismo, a parte como o todo, o instante como eterno. E, atenção, não falo de masoquismo; falo de um espírito do tempo.
Hoje em dia, não há mais uma explícita, uma clara noção do que seria felicidade, como antigamente. O que é ser feliz? Onde está a felicidade no amor e sexo? No casamento? Em 2046, o ano mítico do filme?
Kar-wai não lamenta o fim da felicidade, mas o saúda. Como diz a música do Vinicius, "é melhor viver do que ser feliz...", coisa que muito careta não entende.
Esse filme mostra que hoje, sem sabermos com clareza, achamos que é bom ansiar por um gozo desconhecido, é bom sofrer numa metafísica passional, é bom a saudade, a perda, tudo, menos a insuportável felicidade. Assim, o amor vira uma maravilhosa aventura de utopia, uma experiência religiosa, como a fé, que resiste a todos os massacres e terremotos e guerras. Em vez da felicidade, o gozo, o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor. Como no filme, não há mais felicidade; só as fortes emoções, a deliciosa dor, as lágrimas, hotéis desertos, luzes mortiças, a chuva, o nada.
Como esse filme aponta, o amor hoje é um cultivo da "intensidade" contra a "eternidade". Toda a cultura do cinema tende para a idéia de redenção, esperança, mas 2046 não lamenta o fim do happy end. Não. É bom que acabe essa mentira do idealismo romântico americano, para animar o otimismo familiar e produtivo, pois na verdade tudo acaba mal na vida. Não se chega a lugar nenhum porque não há aonde chegar.
Tudo bem buscarmos paz e sossego, tudo bem nos contentarmos com o calmo amor, com um "agapê", uma doce amizade dolorida e nostálgica do tesão, tudo bem... Mas, a chamada droga pesada amor só vem com o impalpável. E isso é bom. Temos de acabar com a idéia de felicidade fácil. Enquanto sonharmos com a plenitude, seremos infelizes. Só o amor impossível nos põe em contato com um arco-íris de sentimentos desconhecidos. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a trágica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo.
E tem mais... este artigo não é pessimista. Temos de ser felizes sem esperanças.
6 de Janeiro de 2006
2046: infinito, impossível como a mulher ideal Filme mostra novamente o trabalho visceral de Wong Kar-wai, que desfaz e amplia sua obra-prima anterior, Amor à Flor da Pele, como num projeto sem fim Luiz Carlos Merten
Há uma tristeza ou impossibilidade de amar do personagem de Mr. Chow, interpretado por Tony Leung em 2046 - Os Segredos do Amor, que estréia hoje. É uma metáfora da tristeza ou impossibilidade de filmar do próprio Wong Kar-wai, que retoma, amplia e desconstrói sua obra-prima anterior, Amor à Flor da Pele. O filme concorreu no Festival de Cannes, em 2004. Provocou sensação uma frase do diretor, que disse que seu filme ainda não estava pronto e era um 'work in progress'. Kar-wai continuou com a montagem e, em novembro daquele ano, quando o filme estreou na França, declarou à revista Cahiers du Cinéma que se tratava de um caso talvez raro - um filme que poderia não terminar nunca, como se fosse um inesgotável documentário sobre a imaginação.
Ele já sugerira isso em Cannes, em maio, numa conversa com um pequeno grupo de jornalistas, antes de saber que seria recompensado pelo júri presidido por Quentin Tarantino. Confimado ontem como presidente de Cannes/2006, Kar-wai é autor de dois grandes filmes - o citado Amor à Flor da Pele, com Tony Leung e a deslumbrante Maggie Cheung, e o que havia feito antes, Felizes Juntos, de novo com Leung e Tony Cheung, sobre a ligação terminal entre um par de gays. Hetero ou homo, não importa, o amor, melhor seria dizer a paixão, é sempre uma experiência visceral no cinema de Wong Kar-wai. Seu cinema é visceral. Os cinéfilos conhecem seu método. Ele escreve roteiros detalhados e só não segue fielmente porque tem o hábito de incorporar tudo aquilo que lhe oferecem os atores. Resultam filmes invariavelmente longos e é aí que começa o método Kar-wai - ele vai para a edição e começa a cortar. Desconstrói o que filmou e chega à ossatura, ao nervo. Todas as maravilhosas elipses que fazem o cinema do diretor chinês, o mais original e criativo de sua geração, nasce, em geral, da montagem.
Kar-wai situa a gênese de 2046. "No momento em que Hong Kong foi reintegrada à China, em 1997, eu comecei a desenvolver um projeto que deveria se desenrolar 50 anos após o término da reintegração. Seria um filme sobre a promessa, construído sob o signo da esperança. E coincidiu que eu tinha esse outro projeto, ao qual não conseguia dar forma, intitulado Verão em Pequim. Esse 'sonho de filme', cruzado com o livro Duidao, de Liu Yichang, resultou em Amor à Flor da Pele. Durante a filmagem, descobri o quarto 2046, do hotel em que Tony e Maggie se encontram, e voltei ao outro projeto, que se tornou o de um filme em dois capítulos. Mas eu não queria fazer uma seqüência - para mim, a história de Tony e Maggie estava completa. Comecei, então, a devanear, imaginando uma história sobre a relação de Tony com várias mulheres, enquanto ele busca, em vão, a ideal."
Para Kar-wai, é mais fácil situar a origem do projeto do que falar sobre a forma como ele se construiu. "Não sei! Existem pelo menos quatro histórias que poderiam dar origem a um filme, cada. Imagino que seria possível projetar essas quatro histórias, lado a lado. É uma idéia que pretendo desenvolver no DVD. E, de qualquer maneira, para mim, é um projeto sem fim, como uma investigação sobre a imaginação que pode ter desdobramentos infinitos. Estou convencido de que 2046 será sempre uma coisa imprecisa e inacabada, como um projeto de filme ideal inalcançável, da mesma forma Tony busca essa impossível mulher ideal." O diretor trabalhou cinco anos no filme, mas não consecutivos. Nos três primeiros, ficou à espera de alguma coisa. Tempo para descobrir que 2046 não existiria nunca. Surgiu, no livro dentro do filme e no próprio filme, a idéia do trem do tempo, no qual o personagem de Tony quer fugir. "É impossível, mas este é um filme sobre a impossibilidade - a minha impossibilidade de terminá-lo. A rodagem termina, para mim, aqui em Cannes, pelos motivos óbvios. Estou mostrando 2046 pela primeira vez."
Ele não se incomoda quando os críticos dizem que está se repetindo. Diz que 2046 não possui elementos apenas de Amor à Flor da Pele, mas de todos os seus filmes. "Não tenho nenhum problema em me repetir, porque as coisas nunca saem exatamente as mesmas. Durante a rodagem, éramos como uma trupe de circo. Cada dia era uma etapa, uma repetição, mas de tal maneira que acrescentava alguma coisa à experiência." Ele admite que a extensão do projeto lhe causou problemas - "Tive que ajustar o filme à disponibilidade das atrizes. Tony foi mais paciente comigo." Ele considera que a decisão mais importante foi a de fazer o filme no formato scope. "Sempre trabalhei mais com elementos verticais nas cenas, mas aqui, por esse formato, tive que trabalhar muito com os elementos horizontais. Como as ruas de Hong Kong são muito estreitas, ficou mais difícil introduzir o vazio que está na essência de cada imagem." O repórter lembra Fritz Lang, que dizia que o scope só era bom para filmar caixões de defuntos ou cobras deslizando pelo chão. Ele ri, concorda e diz que não consegue segurar a câmera. "Quando peço a Zhang Ziyi, a Gong Li ou a Maggie Cheung que caminhem em cena, automaticamente minha câmera as segue. Não há nada mais sedutor do que o movimento de uma bela mulher."
O amor como busca de uma perfeição perdida 2046 traz de volta as obsessões de Wong Kar-wai Luiz Zanin Oricchio
O que mais agrada em Wong Kar-wai é a maneira sensual como filma. Filma o corpo feminino, ou melhor, o movimento do corpo feminino, como ninguém. Essa filmagem tem ritmo (os tempos de deslocamento de uma bela mulher metida num belo vestido), cor, padrão. Mas, é claro, não se trata apenas disso. Há idéias em Kar-wai, que se resolvem na maneira como trata as imagens.
No caso de 2046, Os Mistérios do Amor, trata-se de conciliar essa arte da sensualidade com um vaivém no tempo, pois afinal, procura dialogar com a ficção científica. E, francamente, é esse diálogo que não funciona tão bem. Nessa história que começa no futuro (no ano de que fala o título) e depois recua para o passado, para os anos 60, o melhor fica mesmo para a história que começa em 1966 com o escritor Chow (Tony Leung) tentando convencer a mulher que ama, Su Lizhen (Gong Li), a acompanhá-lo a Hong Kong para as festas de Natal. Ela não vai e, no resto da história, retorna-se a cada ano a Chow que, a cada véspera de Natal, se encontra com uma mulher diferente. Mas sempre pensando na mesma.
É um filme intrigante, que vai além do encanto meramente visual. O espectador deixa-se levar por essa questão da permanência do objeto do desejo na memória afetiva do personagem. Melhor dizendo: na memória hormonal, ou corporal, pois é certo que a função da memória não é apenas abstrata. Há uma memória do corpo, dos sentidos, dos cheiros, como todo mundo sabe. Basta lembrar que, o “memorialista” por excelência, isto é, Proust, constrói as recordações de Em Busca do Tempo Perdido a partir de um gosto e um cheiro.
O cheiro de um chá de tília e o gosto de uma madeleine na boca. Assim, esse é o encanto de um cinema sensorial. Porque ele também desperta em nós esse tipo de evocação, digamos assim, nostálgica, que chega por um clima, uma maneira meio retrô dos anos 60, a música. Mesmo que sejam um clima, uma maneira, uma música de Cingapura ou de Hong Kong, quer dizer, que nós, ocidentais, não experimentamos diretamente. Ou que, pelo menos, é um tanto diferente da experiência ocidental dos anos 60.
Mas há de universal esse intimismo do amor, esse recolhimento na esfera do desejo, tão cálida, tão delicada, e aí então reconhecemos o diretor de Amor à Flor da Pele, de Felizes Juntos, e desse pequeno episódio, A Mão, jóia sem jaça que fez para Eros, filme coletivo do qual participa também o mestre Michelangelo Antonioni.
Tudo está dito ali, naquela esfera de sensualidade em que um homem procura em outras mulheres o que já encontrara naquela que perdeu. Há sempre um pouco disso no cinema que Kar-wai – o amor como perda, como tentativa de reparação de uma perfeição imaginada, uma ilusão de completude que está na origem do ato amoroso e sexual.
Como no mito do andrógino, Kar-wai também vai em busca dessa metade ideal, que torna o amante um ser completo e autônomo. Como se trata de um mito, e não da realidade, compreende-se por que seus filmes lembram sempre a atmosfera de um sonho. Um sonho às vezes doce. Às vezes um pesadelo.
GUIA CADERNO 2 Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2006
Desconstrução Alex Xavier
O método de trabalho do diretor chinês Wong Kar Wai está longe de ser convencional. Ele passa anos envolvido com um projeto e muda a história tantas vezes que nem os próprios atores sabem direito no que estão se metendo. Ao entregar seu último trabalho, o confuso 2046, ao Festival de Cannes de 2004, três horas antes da sessão começar, ele ainda dizia que se tratava de um “trabalho em progresso”. E depois voltou à mesa de edição para esculpir de novo sua obra.
Trata-se de uma pseudo-continuação de seu sucesso ‘Amor à Flor da Pele’. Pseudo porque, apesar de manter o mesmo protagonista, pode ser visto separadamente. Desiludido pelo amor platônico que viveu no filme anterior, o jornalista Chow (Tony Leung) largou o romantismo e se abriga na frieza com que trata as muitas mulheres que passam por sua vida.
Nos anos 1960, ele vive no quarto 2046 de um hotel e escreve um romance chamado 2046. A história se passa no futuro, mas ele está falando de seu passado e a realidade e a ficção se fundem. Quem viu ‘Amor à Flor da Pele’, vai sentir um estranho déjà vu. A toda hora Kar Wai recorre a detalhes tirados do outro filme, assim como dos demais trabalhos do diretor.
A fotografia sofisticada, os saltos no tempo, a bela trilha sonora – quase onipresente de tão repetida – e o uso do slow motion também retornam. O resultado é irregular e pode cansar. Mas o diretor hipnotiza com o visual exuberante e deixa-se levar pela beleza de suas atrizes (entre elas, Zhang Ziyi e Gong Li).
Se você não entender a proposta do cineasta, não se preocupe. Talvez ele ainda esteja pensando em um modo de remontar todo o filme.
FOLHA, 05 de janeiro de 2006 O olho mágico de Kar-wai Diretor de fotografia Christopher Doyle, principal parceiro artístico do cineasta chinês, fala à Folha sobre "2046 - Os Segredos do Amor" BRUNO YUTAKA SAITO
Para Wong Kar-wai, o amor é uma ilusão de ótica. Em filmes como "2046 - Os Segredos do Amor", que estréia amanhã, o cineasta constrói labirintos onde os amantes se perdem e não mais se encontram. É um mundo habitado por seres solitários, casais famintos pela consumação do desejo, mas que sempre são frustrados pelos descaminhos do acaso.
O chinês Kar-wai, no entanto, só conseguiu erguer as sólidas paredes destes labirintos porque teve a mão e o olhar do diretor de fotografia australiano Christopher Doyle. Se suas produções são, antes de mais nada, filmes-fetiche, é Doyle o grande responsável pela concepção visual que virou marca registrada do cineasta: uma estética de vermelhos intensos que evoca sensações de saudosismo, um universo confinado, melancólico e de eternos retornos, que se move entre imagens distorcidas em câmera lenta e velocidades alteradas. O clichê diz que o cinema oriental de hoje tem imagens exuberantes e belas? Coisas de Doyle, que ajudou a definir o que atualmente se entende como a cara deste cinema, vide o colorido "Herói" (2002), de Zhang Yimou, filme no qual também criou a concepção visual.
"2046" é o sétimo longa em que a dupla trabalha em simbiose e o primeiro em que a parceria começou a entrar em atritos. Ao mesmo tempo em que o filme marca o ápice da exuberância de recursos visuais de Doyle -há até flertes com o universo da ficção científica-, "2046" gera críticas do próprio diretor de fotografia.
Mas esta é uma relação complexa. Num casamento artístico estruturado pela busca da perfeição, Kar-wai e Doyle têm ritmos opostos. O primeiro é lento -levou cinco anos para concluir "2046"-; o segundo tem pressa, quer acabar logo um projeto e partir para outro (na China, Doyle adota outro nome: Du Ke Feng, algo como "igual ao vento").
Tempo próprio
"Depois de "Gerry", [o diretor americano] Gus Van Sant fez "Elefante" e encontrou a voz perfeita para a viagem em que estava. Uma vez que você chega ao seu destino, o melhor a fazer é sair do trem", diz Christopher Doyle, 53, em entrevista por e-mail à Folha. "Com Kar-wai, senti que havia idéias que nós já havíamos celebrado e tocado em nossos outros filmes. "2046" parece, para mim, um dicionário de tudo que já tínhamos feito antes."
Mas Doyle não é deselegante a ponto de sair falando mal de seu parceiro de anos. "Kar-wai tem que achar o filme, e não apenas fazê-lo. A maioria das pessoas nem encontram a si mesmas. Isso leva tempo", pondera o australiano, sobre o peculiar ritmo do chinês.
Mas ele prefere, em vez disso, falar sobre seu processo criativo, que pouco tem a ver com noções aprendidas em escolas. "Os aspectos técnicos de uma filmagem qualquer um pode aprender em poucos meses", diz Doyle, que também já se aventurou na direção em "Away with Words" (1999). Para ele, importam os aspectos subjetivos. "As formas mais elevadas são dança e música. Um corpo no espaço é um poema; um som em corações alheios é para sempre. Seguro a câmera para dançar com os atores, para dá-los o maior espaço possível para serem quem eles precisam ser e para estar tão perto deles como se fosse dar um beijo. Então você (o público), pode ser beijado também."
Com Kar-wai -presidente do júri em Cannes neste ano-, divide um olhar que exalta a figura feminina. Atualmente trabalhando em um dos 20 episódios do filme conjunto "Paris Je t'Aime" -ao lado de Walter Salles, Gus Van Sant etc.-, Doyle diz: "Precisamos de mais mulheres em papéis importantes no cinema, então estou tentando fazer com que alguma mulher filme comigo."
Enquanto Kar-wai tece suas tramas de colisões amorosas, Doyle encena, na sua própria vida, uma improvável biografia de desencontros e encontros. Precisou, por exemplo, sair da Austrália aos 18 anos e rodar o mundo para encontrar sua real identidade e vocação no Oriente.
Visões do mundo
"Tédio, drogas e a necessidade de conhecer mais. Basicamente a vida que a literatura de gente como Cortázar ou Bukowski insinuava que estava lá fora me esperando", diz Doyle, sobre o que o levou à vida de aventureiro. "A maioria das pessoas na época, eu incluído, me via como dono de uma juventude desperdiçada, sem rumo. Hoje vejo que aquele foi o período mais relevante de minha vida para o que sou. Antes, eu tinha tempo para ver e escutar; agora, estou sempre ocupado."
Ou seja, Doyle viu muitas coisas e embarcou de cabeça numa vida sem limites, como se fosse um personagem de filme. Foi escavador de poço na Índia, praticou medicina chinesa na Tailândia, além de paradas em Israel e três anos em um navio norueguês.
Diz que seu fascínio pelo Oriente e pelo cinema aconteceram por acidente. "Queria aprender uma língua, e calhou de ser o chinês. Tinha bastante tempo livre quando era estudante, e alguém pôs uma câmera na minha mão. O espanto tanto em relação ao que a língua me permitiu falar e dividir, e negociar o espaço entre as maneiras como eu e a câmera vemos, são o porquê daquilo que sou."
Sua identificação e conexão com a Ásia são tantas que ele diz "nós" quando se refere aos orientais. "A Ásia está num embalo econômico e social, e isso sinaliza a energia do que nós dizemos. Agora temos uma voz e muitas coisas para compartilhar. O Ocidente está num modelo oposto. Eles [os ocidentais] acreditam em uma fórmula. Eles categorizam. Eles tentam explicar as coisas em vez de descobri-las. Eles falam antes de olhar." Não tente entender. Assistir à poesia visual dos filmes de Kar-wai e Doyle ultrapassa qualquer entendimento.
FRASE "Wong Kar-wai tem que achar o filme, e não apenas fazê-lo. A maioria das pessoas nem encontram a si mesmas." CHRISTOPHER DOYLE, diretor de fotografia
CRÍTICA "2046" persegue os mistérios do tempo e do amor CÁSSIO STARLING CARLOS
Já faz tanto tempo! Ou quanto tempo falta? É sob o signo do quando (foi ou será) que o chinês Wong Kar-wai seduziu o público ocidental com suas histórias de amor contemporâneas. "2046" é seu filme mais complexo e pretensioso. O resultado, mesmo imperfeito, não deixa de ser brilhante.
O título designa menos uma data que uma série, o que implica não somente uma enumeração de fatos, mas, sobretudo, uma narração. Não à toa o protagonista e narrador é um escritor e jornalista. Por meio dele se expressam os mistérios desse tempo -sombras do passado e fantasmagorias do futuro. 2046 refere a um número de um quarto de hotel (onde se passam os desencontros amorosos neste filme e que já abrigou um casal apaixonado no anterior "Amor à Flor da Pele"), mas não só. É também um tempo-lugar no futuro, onde as demais marcas humanas foram extintas e sobrou o amor (ou sua ausência). Como data, 2046 marca um reencontro amoroso e histórico: o ano em que Hong Kong será definitivamente reintegrada à China.
Com o acúmulo de referências e de auto-referências, o filme padece, em certos momentos, de um efeito "pot-pourri" da obra do diretor. O esteticismo de cada plano tende a tornar a emoção do conjunto um tanto glacial. A ambição do conjunto ultrapassa esses "defeitos". Pois trata-se aqui de um projeto à altura de uma odisséia, um cinema com ambições metafísicas, que mistura materiais e velocidades, enquadramentos e fusões com tal rigor que só assim pareceria possível ao diretor expressar sua visão.
O vigor de "2046" está na ousadia de retomar esse tema caro a uma certa modernidade. A saber: o amor como paradigma da experiência do tempo, com seus momentos e intensidades específicas e inqualificáveis, que consistem em resistir e seduzir, conquistar e apaixonar, cansar-se e abandonar. Por meio do amor, Kar-wai (retomando uma possibilidade que Alain Resnais parecia ter esgotado ainda nos anos 60) assume o risco de fazer um cinema de indagação filosófica sem se permitir cair na abstração.
GUIA DA FOLHA
2046 - OS SEGREDOS DO AMOR
Kar-Wai adorna amores frustrados com belo visual Christian Petermann
E instigante a premissa do drama romântico com ficção científica "2046 - Os Segredos do Amor", do chinês Wong Kar-Wai: trata-se de uma espécie de continuação de seu inspirado "Amor à Flor da Pele" (00), mas apenas na figura de Chow (Tony Leung), pois Su Li (Maggie Cheung, aqui em participação especial), o grande amor de sua vida, desapareceu. O novo filme é, em primeira instância, um gesto de admiração do cineasta por Leung. As lentes namoram o ator.
Dois mil e quarenta e seis tem inúmeros significados na trama: pode ser o quarto de hotel em que Chow insiste em se hospedar no ano de 1966, um lugar idílico onde todos vivem em harmonia, ou o ano em que a China redefine o status quo de Hong Kong. Não há uma história sólida, com começo, meio e fim. Viaja-se no tempo para criar um filme de evocação e imersão.
Enquanto evocação, chega-se ao sublime: nas construções visuais de Kar-Wai, com admiráveis enquadramentos de câmera e a sofisticada fotografia do inglês Christopher Doyle, colaborador habitual; na intensa trilha sonora assinada principalmente pelo alemão Peer Raben, que colaborou com Rainer Werner Fassbinder; e na devoção dedicada ao seu belo e muito bem vestido elenco, que inclui ainda Zhang Ziyi e Gong Li.
Já quanto à imersão, é aí que os espectadores se dividirão. Kar-Wai exige que se aceite sua lógica narrativa excêntrica. A história de amores frustrados tem sensualidade na imagem, mas lhe falta veracidade emocional. A paixão, aqui, é uma encenação intelectual.
O que muito espanta, considerando-se a intensidade passional do próprio "Amor à Flor da Pele" ou do anterior "Felizes Juntos" (97).
Quem não embarcar nesta concepção de romance, portanto, corre o risco de se enfastiar. Faltou o calor humano para tornar essa obra em prima. |
Voltar ao topo [Aeternus:5876] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2006-01-13) - filmes sérios sobre adolescentes
Existe uma praga no cinema americano que são filmes "sobre" adolescentes que também pretendem ser "para" adolescentes e que giram sobre púberes testicocéfalos - e que na verdade repetem estereótipos das nossas vetustas pornochanchadas dos anos... quando foram mesmo que as pornochanchadas grassaram no cinema brasileiro?... 1970 e picos (êpa) talvez... garotos querem transar, meninas que transam são meio-piranhas, um bando de mulheres de meia-idade são outras Mrs.'s Robinson's sem a classe da Anne Bancroft, etc etc Mas iso não que dizer que não haja tentativas mais conseqüentes e menos decerebradas de abordar até os mesmos temas. Ou outros que pesam na pasagem pela adolescência. Um filme barra pesada que já está saindo de cartaz aqui no Rio se chama "Quase um Segredo" e trata da inconseqüência dos atos, trotes, brincadeiras de mau-gosto entre os jovens. O final é meio forçado mas o elenco de garotos é ótimo e a trama básica também. Há "tipos" e não estereótipos - a não ser talvez pela presença-ausência dos pais. Parece até tirinha barrapesada dos Penauts, onde adulto não aparecia. Mas é um dado significativo no que o filme pretende transmitir. Embora pai presente na vida do adolescente seja mais uma utopia: os adolescentes descartam os pais, os enganam, os driblam, mesmo quando os mais velhos tentam ser atentos. Mas quando nem isso tentam, claro que o buraco fica mais embaixo ainda... Outro - que está estreando hoje aqui no Rio - é "Impulsividade" e tem um ator rapaz que chegou a ganhar (merecido) prêmio de ator no Festival de Berlim. Tipo filme independente (mas cinemascope, bem fotografado e bem acabado) surpreende ao trazer como produtora a atriz que faz a Feiticeira em "Crônicas de Nárnia" e outros blockbusters- e também trabalhando no papel de mãe americana do interior, ainda que "cabeça", formada em enfermagem - e compreensiva com o filhote de 17 anos que ainda chupa o dedão da mão. Não. Não é comédia. Nem tragédia. Mas aborda temas interessantes como a relação com um pai "looser" na "cultura" norteamericana, o abuso do diagóstico de Distúrbio do Deficit de Atenção feito por professores que tb indicam a medicação de anfetamínicos para os alunos, o esquema de competição do american way of life pressionando os jovens, drogas ilegais e dependência química, etc. Claro que um filme só não dá conta de tudo isso e algumas coisas podem ficar meio capengas, mas nunca de forma gratuita ou irresponsável; nem jocosa, debochada. ****************************************************************************** Sem ter nada a ver com adolescência, outro que pasou no festival do Rio 2005 e agora entrou em cartaz é o documentário "Soy Cuba - Mamute Siberiano", uma espécie de "Soy Cuba (um filme) Social Club" onde um jovem cineasta brasileiro vai a Cuba tentar encontrar as pessoas que trabalharam num filme realizado em 1963 por equipe soviética no Caribe. Os soviéticos queriam revelar a revolução cubana ao mundo, só que ao jeito deles, dentro do esquema do "realismo socialista". Ou seja, tudo meio grandiloquente, quase-operístico, cheio de movimentos virtuosísticos de câmera e fotografia preciosista. Para tal, um fotógrafo considerado de primeira linha na então URSS, o diretor do premiado "Quando Voam as Cegonhas" e o poeta Yevutchenko como roteirista estiveram 2 anos em Cuba, 14 meses dos quais filmando a visão deles da revolução cubana. Ainda que episódios reais estivesem sendo recriados, o eram com a pompa e peso do "realismo socialista", desagradando a russos e cubanos (que não se identificaram com o produto final). Há uns dez anos, depois do desmantelamento da ex-URSS, Martin Scorsese e F.F. Coppola restauraram o "mamute siberiano" que vem encantano cinéfilos pelos planos-seqüência ousadíssimos para a tecnologia da época. O documentário mostra dois que são de tirar o fôlego: num deles, sem cortes, a câmera transita como que "pelo ar" entre terraços e andares diferentes de hotéis e coberturas de Havana (ainda com restos do tempo em Cuba era um balneário para ianques ricos), em movimentos horizontais, diagonais e vericais, terminando com a câmera mergulhando numa piscina de uma cobertura! Em outro, um caixão de um estudante - morto pela polícia numa manifestação - é levado em cortejo pelas ruas. A câmera começa ao nível da rua, pouco antes de uma esquina, sobe verticalmente pelas varandas externas, entra por um andar onde há uma fábrica de charutos, atravessa o andar horzontalmente, sai pela janela do outro lado, dando visão de cima ao cortejo já em outra rua, depois da esquina de onde saiu! Tudo o que o Orson Welles teria feito em estúdio com cenários móveis numa cena de seu "Soberba" (um plano sequência sem cortes que durava uns dez minutos e que foi retalhado e remontado pelos produtores enquanto ele vivia sua aventura brasileira filmando o inacabado "Tudo é Verdade"). Diferentemente da estética de "Soy Cuba", Welles antecipou o Cinema novo feito com parcos recursos que o Brasil desenvolveria nos anos 1960 a partir da nouvelle vague e do neo-realismo italiano. Enquanto "Soy Cuba" parece ter uma linguagem mais do tipo "Pagador de Promessas" do Anselmo Duarte, apenas contemporâneo e erroneamente identificado como parte da estética cinemanovista - ou seja, o "Pagador" tentava não ter nada de improviso, nem fotografia "natural", etc etc. Tudo era o mais bem planejadinho possível. O que este comovente documentário (mesmo para quem não curte linguagem e sintaxe cinematográfica, pois há depoimentos de pessoas da equipe que vemos na época original e agora, envelhecidos e comovidos) não explora é explicar para o grande público o que é um "plano seqüência", nem falar da influência de Eisenstein ("Encouraçado Potekine", "Ivã, o terrível", "Alexandre Névski", etc.) na grandiloquência do cinema russo (embora Eisenstein trabalhasse no sentido oposto, o da montagem em vez desta opção "sem cortes" para longas tomadas), nem citar a análoga "aventura" mexicana de Eisenstein no também malfafdado "Que Viva México!" que tb tinha a estrutura de 4 histórias que retratariam um povo, etc como é dito que seria o enredo deste "Soy Cuba". Fala-se da influência do diretor (Kalatuzov) até no cinema novo brasileiro, quando, na verdade, a influência russa, se havia, era eisensteininana. Os russos parecem adorar "planos seqüências": existe um filme bem mais recente se um tal Sukaróv, se não me engano, "A Arca Russa", que foi filmado em UM ÚNICO plano, uma ÚNICA tomada de 90 minutos, sem cortes!!! E não pensem que seria pouca coisa, não: um enredo que se desloca através de décadas, com cenários, figurinos, episódios, luxo, etc etc. Devem ter ficado ensaiando anos, como se fosse um balé com a câmera onde nada podia dar errado. Virtuosismo? Preciosismo? Mas este documentário dá vontade de conhecer o "Soy Cuba" original que é o seu tema. O subtítulo vem da esperta frase: "Era um mamute siberiano num praia do Caribe!"
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Voltar ao topo [Aeternus:5877] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-13) - RE: veleidades à maneira teen
 Afora o que sempre digo da geração de emprego no cinema para a ala jovem e para todo o staff, enfim, os filmes teen praticamente poderiam ser exibidos a qualquer tempo e em qualquer lugar, embaralhando-se os títulos e suas datas. Nem podem ser chamados de pastichos, que já seria uma honra. São praticamente clones. Há uma diferença básica entre a grossura norte-americana e a nossa, a das pornochanchadas : por aqui os 'heróis' estão na faixa de idade que beira os 30, ou são respeitáveis senhores devassos, como John Herbert e Nuno Leal Maia, que desenvolveram verdadeiros protótipos da sacanagem. Na verdade produzimos poucos filmes 'juvenis' : ou bem temos a Xuxa e os Trapalhões, decerebrando infantes, ou pula-se para os 'espertíssimos' conquistadores galinhas atrás de gatinhas incautas. Nesse sentido, é curiosa a tendência à preservação de nossos adolescentes e adultos jovens : se uma ala descamba e pega pesado no escapismo e nas drogas, cultua a ultraviolência e a destruição, outra ala significativa tenta preservar uma doçura fabricada, artificiosa, o rescaldo de seu mundinho até então sem maiores compromissos e exigências. Talvez despreparados para enfrentar a 'trombada-Brasil' - se já não fosse suficientemente difícil a 'trombada-adulta' - tentam caramelizar a realidade. Quando ansiosos com os rumos amorosos/sexuais, fingem enganar-se escapando para subprodutos como "Sex&the City", com suas heroínas de plástico batendo recordes de beijos e gozos de polipropileno e colecionando aparentes vítimas. Gallego fala da impossibilidade do aprendizado, e tem razão. Só podemos ajudá-los a longo prazo, com toda a paciência do mundo, depois que o tempo já se encarregou de fazer desmoronar as ilusões em cor-de-rosa. Para muitos, infelizmente, já será tarde demais para reparos. Nem tanto pelo tempo : nunca é tarde demais e sempre é tarde demais, mas pela força dos vícios, mesmo. |
Voltar ao topo [Aeternus:5878] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-13) - RE:filmes sérios sobre adolescentes
 Há um antigo filme encantador/terrível sobre meninos aventureiros ( com River Phoenix, R.Dreufuss e outros) chamado " Conta comigo" que está sendo ressuscitado em DVD. Outros, sobre adolescentes, privilegiam esta época ainda bem no clima "Grease" ( quem morreu recentemente foi a Sandra Dee). Da atriz que faz a feiticeira de Narnia, há duas aparições interessantes. Numa delas, ela é o Arcanjo Gabriel ( com Keanu Reeves: "Konstantin") e acaba com dois tocos de asas nas costas, como é quase corcunda no filme de Narnia. No outro, ela é a mãe de um adolescente da California, um excelente clarinetista buscando bolsa em universidade americana, envolvido com um homossexual que começa a chantageá-la com uma fita comprometedora. Sua vida rotineira é rompida com a intromissão desta turma e o filme é de deixar-nos na ponta dos pés de aflição. Emprestei minha fita e não tenho como dar maiores dados, mas procurarei no Google e trago depois maiores informações. Recomendo! Bela descrição do filme sobre Cuba e o cinema novo do Gallego, ele hoje está inspirado. |
Voltar ao topo [Aeternus:5879] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-13) - Tilda Swinton
Voltar ao topo [Aeternus:5880] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-13) - The Deep End- 2001
 Tilda Swinton como a mãe de um adolescente problema, que comentei há pouco. Vejo que ela participou de filmes importantes, mas não vi todos. Orlando, The Beach, Broken Flowers, Vanilla Sky me aguardam. Adaptation foi bastante diferenjte e curioso ( se bem me lembro um dos atores estava sem dentes e li algures que ele os arrancou para realizar o papel, será que foi isso mesmo?). Não é uma atriz sexy ou eróticamente insinuante no sentido habitual. Ela é bem estranha ( vejam só os "castings" ) e misteriosa. Li que foi companheira de escola da Princesa Diana, nasceu em Londres de pai escocês. |
Voltar ao topo [Aeternus:5882] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-14) - RE:Tilda Swinton : êta mulher trabalhadora !
 Ela fez um soberbo "Orlando", com sóbrias nuances. Mais ousada - claro ! - só a Fernandinha Torres no teatro, uma Orlanda deliciosa. Em "The War Zone", talvez depois de gravidez, estava uma porquinha de gorda, pletórica naquela pele transparente e branquela ao mesmo tempo. Era um filme sorumbático, passado numa casa erma próxima a um farol ermo...ventos uivantes e frio...Brrrrrrrrrrrrrrrrr !!! |
Voltar ao topo [Aeternus:5890] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2006-01-16) - RE: 2046: as mulheres são muitas, mas o amor é o mesmo
 Até agora não li os textos que gravei sobre o 2046!
Mas: Dizem que japonês é tudo iguaro, nê? E como chinês é kasi iguaro japonês, nê, eu só desconfiei mas não tive certeza de que o ator de 2046 fosse o mesmo de Amor à Flor da Pele, nê.
Por isso eu disse que 2046 é uma "espécie" de continuação daquele... mas não é uma "espécie". Ele É UMA CONTINUAÇÃO. Peguei o Amor à Flor da Pele pra conferir, e agora sim, fez PLIM! O personagem tem o mesmo nome: Chow, e é feito pelo mesmo ator.
As diferenças pra atenuar a culpa da minha memória fraca são: o ator, claro, está mais velho. Seu personagem agora usa um bigodinho-clark-gable que não usava antes. Mas o principal é que seu registro de atuação mudou da água pro vinho. Ele era inocente em Amor à Flor da Pele, e é um cínico completo em 2046. Mas isso também é super coerente. Suas cicatrizes acabam arranhando e ferindo as novas mulheres com quem se relaciona.
Kar-Wai pode até ser acusado de estar se repetindo, mas a imagem de Gong Li, de batom borrado, chorando na chuva já é indelével na minha cabeça.
Vou ver de novo! |
Voltar ao topo [Aeternus:5891] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-16) - RE:RE: 2046: as mulheres são muitas, mas o amor é o mesmo
 Amor à Flor da Pele. Tatuagem. Flores como cicatrizes. Um jovenzinho como o nobre Conde preocupado com falhas na memória. É isso que dá muita neurociência no lugar do romantico lapso freudiano. Só que zaponês não é parecido com china, nô. Eles próprios não acham e devem saber melhor que eu. (Gueisha, guarda-sol com ripas e kani tem aquela excentricidade insular britanica frente ao contorno irregular do continente). Mudando radicalmente de assunto. Há doze anos levei a roupa de casamento da minha filha na lavanderia e achei uma carta onde descrevia minha solitária experiência, tão contrastante com que hoje acontece nas mãos controladoras da indústria festeira da corte brasiliense. Abri minha enorme trouxa no balcãozinho da "Eureka!" e umas funcionárias logo se acercaram com "oooh!aaaah!" no desvelamento das dobras brancas infladas de vento, olhos brilhando pela expectativa de um dia se casarem de véu e grinalda também. A atendente examinou o vestido irritada enquanto conferia preços em uma tabela. Concluiu: isso aí vai lhe custar doze mil cruzeiros reais, que é o preço mais barato para roupa de noiva. Fiquei curiosa sobre o critério da seleção ( o mais barato valia um salário mínimo da época) e ela explicou, enquanto beliscava o tecido: - "O vestidinho é simples, quase não tem bordados nem rendas e..." (desdenhosamente) "nem é de seda". Havíamos usado toalhas de linho adamascado para os hóspedes que vieram do Rio que juntei no embrulho: - "Hmm. Toalhas de algodão?" Expliquei que eram antigas. -"Nossa, tão moles! Nem parece linho. Se for pano velho então! Vai se desmanchar todinho." Enquanto relia a carta, prontinha para rasgá-la e jogar no lixo ( que trato humilhante!) pensei que servia de testemunho ingenuo para uma época de mutação. Cruzeiros reais: nem lembrava deles. Contudo, ainda me lembro do casamento e da minha alegria que ultrapassou as barreiras da memória não registrada em papel. |
Voltar ao topo [Aeternus:5896] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-16) - RE: o bigodinho, O Globo e Gong Li
 Saíram hoje 4 críticas da ( para além de )discutível turma atual de cinema do Globo. Afora a meia página do Jabor da semana passada, também sobre "2046". Havia também uma foto do Clark China com uma de suas (?) - não posso dizer, não vi ainda o filme - auxiliares, e para um cínico aquele bigodinho cai bem. Quanto à Gong Li, a quem também adoro como o Conde, como sofre a pequenina ! Desde "Amor e Sedução" e "Lanternas Vermelhas", com o Zang Yimou, e sempre com ele passando por "A História de Qiu Ju" e "Tempos de Viver". Servidão, solidão, fetiches. Consolo ? Muita elegância como prêmio por bom comportamento, talvez. |
Voltar ao topo [Aeternus:5897] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2006-01-16) - RE:RE: Gong Li
 A História de Qiu Ju!!!!!!!
PUTZ! Eu lembrava do filme mas não lembrava do nome!!!!!
Como você consegue?? hahahaha
E ela nem tá bonita lá! É incompreensível!
Sim, "marrrrcada para sofrerrrrrrr"!!!! |
Voltar ao topo [Aeternus:5898] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-16) - RE:RE:RE: Gong Li
 Estes cinéfilos capricham. É sempre um privilégio acompanhar a torcida por um diretor, atriz, ator e as descobertas, mais as conclusões sobre um tipo "marcado pra sofrer" ( algum traço masoquista, postura, movimentação?). Já que fiquei encantada com o que vivi com "Being Julia", independente da proposta do filme como tendo sido mais uma homenagem à Anette Bening, para ela poder se exibir bastante ( seu inesquecível maridão está com quase setenta anos e têm filhos pequenos: acabo de ver foto numa revista "Caras"...), emprestei o DVD para duas amigas, pra conferir minha reação com a delas. Deu certo. Todas nós ficamos aliviadas (quase felizes) com a virada final na qual uma das mulheres, em vez do homem ( que mereceria muito mais!), eram punidas pelo adultério. Mesmo assim ainda acho esquisito descobrir esta peculiaridade feminina ( minha amostragem não é tão significativa assim, mas...) expressa por meio de tão forte rivalidade que perdoa a sacanagem masculina em nome de uma vingança maligna... |
Voltar ao topo [Aeternus:5899] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-16) - lembrei de Gong Li, mas fui conferir primeiro...
 ADEUS MINHA CONCUBIUNA Título Original: Ba Wang Bie Ji Gênero: Drama Tempo de Duração: 170 minutos Ano de Lançamento (China / Hong Kong): 1993 Estúdio: Beijing Film Studio / Tomson Films / China Film Co-Production Corporation / Maverick Picture Company Distribuição: Miramax Films Direção: Chen Kaige Roteiro: Lu Wei e Lillian Lee, baseado em livro de Lillian Lee Produção: Feng Hsu Música: Zhao Jiping Fotografia: Gu Changwei Desenho de Produção: Yang Yuhe e Yang Zhanjia Direção de Arte: Chen Huaikai Figurino: Changmin Chen Edição: Pei Xiaonan
Elenco Leslie Cheung (Cheng Dieyi "Douzi") Zhang Gengyi (Duan Xiaolou) Gong Li (Juxian) Lu Qi (Mestre Guan) Ying Da (Na Kun) Ge You (Mestre Yuan) Li Chun (Si Xiao) Lei Han (Si Xiao - adulto) Tong Di (Zhang) Ma Mingwei (Douzi - criança) Fei Yang (Shitou - criança) Yin Zhi (Douzi - adolescente) Zhao Hailong (Shitou - adolescente Tive a impressão de que vocês não mencionaram este filme, que achei maravilhoso e duríssimo, pro meu gosto... uma obra-prima. |
Voltar ao topo [Aeternus:5900] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-17) - RE: de sagas, oportunidades e perdões
 "Adeus Minha Concubina" veio no rastro do sucesso do Zhang Yimou, que abriu sendas para outros realizadores asiáticos. Lembro mais do lado épico, ambientes e roupagens muito sofisticados. Warren Beatty envelheceu bem, retirou-se das telas no momento certo. Realizou seu sonho dourado com "Reds", brincando de Rússia&Moscou, brincando de intelectual - convidou Jerzy Kosinski para um papel na saga - deu suporte à Annette quando esta surgia, depois daquele filme em Vegas sobre um sonhador lunático famoso, que agora esqueço o nome, que queria construir aqueles cassinos-palácios no deserto. Sobre esses perdões de bastidores, com direito a avessos do avesso em termos de aparências&posturas, há toda uma tessitura em análise combinatória. Que dá vida a histórias e histórias... |
Voltar ao topo [Aeternus:5901] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-17) - RE:RE: de sagas, oportunidades e perdões
 Aí está, Florião, numa casca de noz. Os filmes que assisto, gosto ou lembro parecem ser os mais defeituosos, menos artísticos ou interessantes, com papéis menores para atrizes fascinantes. Do "Adeus minha concubina" gostei de várias coisas, principalmente do par de amantes encenando a mesma pessa, ritualisticamente e tradicionalíssimamente, ao longo dos anos, e de aprender sobre o teatro de Pequim junto com a vivência de um país vivendo uma revolução cultural. Não poderia haver maior contraste e tamanha aflição. Admirei até a maneira pela qual a crueldade doentia foi tratada, o sofrimento das crianças, a violação do menino praticamente vendido pela mãe-prostituta. Minha memória é menos de evocação do que de reconhecimento, daí que não sei mais o que enumerar. Outra observação que me divertiu foi a menção, inclusive no título, a "perdões de bastidores". O que me deixou eriçada feito gato e feliz como criança não foi o perdão. Foi a virada cruel, a "vingança em cena". Nem o marido Irons, nem a esposa Bening ali são flor que se cheire. Não se salva um se avaliarmos a peça moralísticamente. Todos usam o outro como objeto, são narcísicos, interesseiros, traiçoeiros, etc e etc. Até vingança e perdão acabam como objeto de consumo. No entanto... |
Voltar ao topo [Aeternus:5902] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-17) - RE: de sagas, oportunidades e perdões
 Faltou avisar, na minha resposta, que estava me referindo a dois filmes: "Adeus, minha concubina" ( através do tema Gong Li ) e "Adorável Júlia" ( pelo tema do perdão bastidoral). O primeiro, completamente chinês e, em quase todos aspectos, cultural e emocionalmente estranho para mim. O segundo, muito anos trinta na Inglaterra que conheço pela AGatha Christie e P.D.James, talvez chegando até "Nárnia" ( na sua produção atual adorável: não sei como a turma fica na propaganda do bem-feito e vazio "Harry Potter"). Por coincidência, os dois filmes tem o teatro como tema, palco e bastidores, atores e atrizes, mais a temática do amor homosexual ao longo dos tempos. |
Voltar ao topo [Aeternus:5903] Mensagem do Grupo48 -Luiz Fernando Gallego(2006-01-17) - Quero sofrer feito Gong Li - fora das telas, é claro!
 Título: "Quero sofrer como Gong Li - fora das telas, é claro" Texto:Tá bom que na maioria dos filmes que ela fez e vcs lembram ela comeu o rolinho primavera que o diabo amassou, mas em "Qui Ju" se destacava bem mais o lado obstinado (e bota obstinado nisso) da personagem reclamar seus direitos, reivindicar sua razão, do que os reveses que ela enfrentava - e como enfrentava! galhardamente, obsessivamente, intransigentemente. Chata! dizia a platéia, mas em cheque - porque não é dos nossos hábitos cavucar nossos direitos. E a burocracia que ela enfrentava era do comunismo chinês! Apenas diferente em alguns aspectos, mas não necessariamente pior do que a nossa surrealidade kafkiana tropical ôba-ôba. Por este filme, Li recebeu prêmio de atriz em Veneza (a obstinação deu frutos). Um filme menos badalado do então ainda marido dela, Zhang Ymou, a quem devemos sua revelação na série de filmes que vcs já mencionaram (Lanternas Vermelhas, Amor e Sedução" (Ju Dou), "Tempos de Viver", etc - porque "Adeus Minha Concubina" é de outro cineasta) era "Operação Xangai", misto de cores de filmes musicais com números do tipo 1930/40 e filme de gangster, com muita muita violência e com Gong Li de "chave de cadeia". Ninguém menciona nos debates sobre "2046" e seu diretor "A Mão" em "Eros". Onde Li sofre, mas também goza antes de ficar decadente como uma Traviata de olhinhos puxados. Ela tem mais filmes por aí, em andamento, escolhendo o que quer fazer, pois ao contrário desta persona de mártir sofredora, ela está riquíssima desde que casou com um importador/exportador de tabaco, além do que deve cobrar por filmes em que aparece.Infelizmente o que vem por aí não recomenda: um, sobre a juventude do canibal Hannibal de "Silêncio dos Inocentes"; outro, uma versão para tela grande do seriado de TV "Miami Vice"; um, "Memórias de uma Gueixa" que parece que tinha mais expectativas boas do que o resultado final, segundo a crítica - o que pode querer dizer de nada a alguma coisa, mas quem sabe? Felizmente, passado um tempo da separação, ela voltará a filmar com o ex-marido, Zhang Ymou que anda na fase do esteticismo a serviço dos filmes de luta marcial oriental com belíssimos resultados como em "Clã das Adagas Voadoras" e "Hero".
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Voltar ao topo [Aeternus:5905] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-17) - RE:RE:RE: de sagas, oportunidades e perdões
Leio a 'refeição final' solita da Julia, no restaurante, como um interessante simancol dela consigo mesma... |
Voltar ao topo [Aeternus:5906] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-17) - RE: de sagas, oportunidades e perdões
 Florião, apreciei seus comentários ao filme sobre "Não se Mova" ( pode ser um assalto, pode ser uma fala de oposição ao Galileu que insistia puor se muove ou algo assim... ou a fixidez do plástico e dos códigos diante da lembrança do extase ). Quanto à idéia da "refeição final solita" de Julia, cada um irá interpretar como lhe aprouver. Onde está a verdade final num mundo só de interpretações? Eu mesma vou por outra via, a do triunfo narcísico no qual ela é a própria festa pra si mesma. |
Voltar ao topo [Aeternus:5907] Mensagem do Grupo48 -LFGallego (2006-01-18) - Feira das vaidades e 2046
Revi 2046 e não me convenci que seja a quinta
maravilha do cinema: é prolixo, repetitivo, tautológico, pleonástico. Estiloso. Bonito, com bela trilha sonora afetiva, fotografia, desempenhos, mas... em 30 minutos o mesmo diretor fez
uma obra-prima no "Eros" ("A Mão"). Mais de duas horas querendo ser "Ano que vem em Mariembad" não deram tão certo assim. Recomendo, mas sem tanto entusiasmo, é legal, mas... não é essa cocacola
toda, não.
Já "Feira das Vaidades", apesar das duas horas e 20 minutos necessárias chega a sofrer um pouco no final com o excesso de história
e de enredo e reviravoltas extraídas de um romanção (que suponho enorme) de Tchakeray, o mesmo que escreveu
"Barry Lyndon", filmado pelo Kubrick. Como filme, "B.Lyndon" ganha de mil, mas
este tem mais fatos/enredo, lembrando um da Edith Warthon com tema semelhante,
só que em vez de ser na Inglaterra do início do século XIX, se passava na América de
final do séc. XIX/início do séc. XX, acho que se chamava "House of
Mirth". Foi filmado mas esqueci com que nome besta, em português. Talvez "A Essência da Paixão" com a atriz do "Arquivo X". O filme prende a atenção e não desagrada, mas não é tão grande filme como dizem que o livro é. Talvez Kubrick tenha sido esperto em ter preferido filmar uma obra "menor" do mesmo autor e dela fazer um filmaço.
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Voltar ao topo [Aeternus:5908] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2006-01-18) - RE:Quero sofrer feito Gong Li - fora das telas, é claro! Fica muito longe a estrada para 2046?
 Parece inacreditável, aliás, ninguém acredita mesmo, mas até hoje não assisti ao Lanternas Vermelhas e nem ao Amor e Sedução!!!!!!!!!!! Imperdoável, não é?
E quer dizer que o diretor daqueles é o mesmo do Clã das Adagas...?
Isso me faz lembrar que preciso contar uma coisa: a belíssima mocinha pseudo-cega do Clã... (e que foi aquela pentelha em Tigre e o Dragão) é a mulher que mais aparece em 2046. É linda, também - e ótima! Mas chega uma hora em que algo lá no fundo da gente pede bis da Gong Li, tipo "foi só aquilo???". Mas Kar Wai nos dá o bis, que ele também não é bobo.
Já há filmes que a gente assiste na hora errada na vida... É a única explicação que me ocorre quando a Jansy diz Adeus Minha Concubina e, (parafraseando Lacan) onde é chamada a Memória-do-Filme, responde apenas um buraco no real (credo!). Falem do filme, me contem a historinha, quem sabe eu me lembre... Me vêm uns flashes, uma relação meio sado-masô... o despencar da História numa cultura que até então se mantinha FORA da História... tem a ver? Ih, acho que estou confundindo com outro...!
Já percebi que tem filmes que fazem isso comigo, funcionam como sonhos: eu até consigo lembrar deles por uns dias, mas depois... Já aconteceu de eu ir rever algo de que eu sabia ter gostado muito e, diante da tela, me dar uma espécie de jamais vu. Só consigo explicar o 'fenômeno' pelo mecanismo da censura dos sonhos...
Mas é isso.
Tudo vem da resposta à pergunta "onde a gente põe a 'realidade'?"
Percebi que um amigo meu bota a "realidade" no jornal: ele acredita no que escrevem como notícia, e acha que o resto é poesia, diversão ou invenção. Dê uma "realidade" às pessoas e elas comerão na sua mão. Isso me lembra aquele meu título sem obra: "Exista-me". E me faz lembrar sobre Lacan ser acusado de não falar de afetos. Ora, primeiro a gente precisa reorganizar o real, pra então reinserir o afeto no lugar de onde foi expulso: a própria noção de realidade. De repente tudo o que as pessoas fazem sofregamente me parece tentativa de retornar ao real, mas ninguém pega o caminho certo - o de dentro - só pegam o que descorporifica cada vez mais. Todo mundo fala de corpo, mas quase ninguém fala de corporeidade. Falam do corpo que se vê ao olhar no espelho, mas ninguém lembra de sentir.
Enquanto isso a gente sonha... com Gong Li.
É engraçado como esse sofrimento todo do cinema oriental me soa diferente do sofrimento besta do culto à culpa de um certo cinema ocidental... A gente quer sofrer COM Gong Li. Mas me irrita o sofrimento de Bjork naquele Dancing in the Dark . Irch. |
Voltar ao topo [Aeternus:5909] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-18) - RE:RE:Quero sofrer feito Gong Li - fora das telas, é claro! Fica muito longe a estrada para 2046?
 De fato, Conde, tem horas mais propícias e as menos adequadas para vermos filmes. Há fases da vida ( adolescência, maturidade, senescência) e na cultura também. Quando eu enfrentava os filmes franceses (Godard,etc), suecos ( Bergmann), tchecos ou japoneses na adolescência toda minha turma de amigos estava presente e integrávamos "a geração Paissandu" ( onde havia um dos principais cinemas, como hoje tem a estação de metrô no Rio, onde nunca fui!). Não me recordo de haver filmes chineses, mas japoneses havia muitos e doloridíssimos ( como particularmente um da série dos Sete Samurais, do qual me recordo apenas de um velho cego batendo num tamborzinho depois que mataram todos os parentes e vizinhos dele, ou um tal de " A Ilha" sem o Leo di Caprio, com a dureza da luta pela sobrevivência, etc e etc). Filmes mais intelectuais hoje me cansam. Filmes chineses, idem. Mesmo este, do Adeus à Concubina, é uma parada de duas horas e vinte minutos de projeção. Vamos ver se você se recorda do filme por alto. Começa com um cenário moderno em Pequim no qual comparece uma dupla de atores idosos que começam a reminiscir. Ser ator era uma carreira promissora e exigia muito treinamento pois o teatro de Pequim era tão ritualístico que a platéia especializada acompanhava como músicos seguindo a partitura e reclamando dos desvios de um gesto ou pela posição dos pés e das mãos. Um dos dois ( eram amantes, se não me engano ) era filho de uma prostituta que pretendia salvar o menino entregando-o para o teatro. Acho que ela manda cortar o pênis dele ( há uma violência inicial com a criança) para ele fazer os papéis femininos. Ele ainda insiste, enquanto garoto diante do mestre, errando uma frase que precisa recitar no feminino e ele a termina no masculino e apanha por isso. Um dos garotos é lider no dormitório, passam frio, são deixados nús na neve, etc. Quando o rapazinho se torna competente como atriz, ele é apresentado aos patronos e devidamente violentado por um velho abjeto. Não lembro quando aparece a Gong Li. Nem as outras atrizes, por sinal. Sua memória provavelmente funciona muito bem, economicamente falando. Em Lacan a palavra "realidade" descreve um aspecto do imaginário e é sempre uma construção, assim como corpo e natureza. Já nossa memória... |
Voltar ao topo [Aeternus:5910] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-18) - RE: brincando de real
 ( Grande Conde, você perdeu o melhor de Zhang Yimou, então : "Lanternas Vermelhas" é obra-prima e auge após "Sorgo Vermelho" e "Amor e Sedução". Dali em diante, só ladeira abaixo. Devagar mas só ladeira abaixo !...)
'De repente tudo o que as pessoas fazem sofregamente me parece tentativa de retornar ao real, mas ninguém pega o caminho certo - o de dentro - só pegam o que descorporifica cada vez mais. Todo mundo fala de corpo, mas quase ninguém fala de corporeidade. Falam do corpo que se vê ao olhar no espelho, mas ninguém lembra de sentir.' A meta Davydófila das duas verdades, de sabermo-nos na corda bamba e no paradoxo permanente, não é tarefa para muitos realizarem. É muito mais fácil aceitar a verdade única dos locutores de futebol, do Silvio Santos ou da Luciana Gimenez no auditório. Raulzinho Seixas já cantava "êêê fila de gado, ê / povo marcado ê / povo feliz !". Corporificar-se, assumir sua corporeidade, implica numa postura de atuação junto com crítica. Muitos nem tem essa 'possibilidade' : seu dia a dia é chegar a tempo em casa, no trem, no ônibus, bater ponto, fazer as compras, executar a Biologia mínima necessária ao seu funcionamento. Seus corpos são máquinas azeitadas somente para essas funções. Há alguns anos atrás, antes da reunificação alemã, a Alemanha Ocidental chegou ao ponto da maior parte do orçamento público ser destinado ao ítem 'lazer'. A Classe Operária Vai ao Paraíso, como no título do filme de Elio Petri. Como nada pode arranhar a perfeição, logo a seguir derrubou-se o muro e...(retoma-se a Verdade, dupla. Todas as famílias desfeitas artificialmente, toda a cultura desfeita artificialmente...) |
Voltar ao topo [Aeternus:5911] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-18) - RE:RE: brincando de real
 Frases bonitas, pensamentos e poesia servem como resistência ante o real e dão corpo ao que sugere mais comodidade, algum paraíso operário para tres tigres tristes comerem tres pratos de trigo... John Le Carré ( "A small town in Germany",talvez, e seguramente em "Amigos Absolutos"), descreveu um pouco o problema da unificação alemã, como aquele filme interessante sobre "Adeus, Lenin". Meus tios berlinenses não gostaram nada da idéia de arcarem com a turma "do outro lado" e, como sua vida já era dura antes dos novos impostos, ficaram ainda mais restringidos. Os cenários de Berlim mudaram rapidamente desde os retratos do "Cabaret", "A Queda", "Asas do Desejo" com aqueles assustadores terrenos baldios. Lembro das ondulações verdes cercando condomínios simétricos: eram morros artificiais decorrentes dos restos de guerra e tanques explodidos ali empilhados e, quando lá estive antes da queda do muro, oitenta por cento dos locais não podiam ser fotografados e não sabiam me dizer qual punição me aguardaria caso eu tentasse ou flagrasse algo inadvertidamente. Tive problema semelhante na Nigéria, como se não desse para descrever os policiais truculentos andando de mãos dadas ou o cheiro dos corpos queimados dentro das pilhas de pneus velhos... Não foi Lenin quem escreveu que "a felicidade é para os porcos"? Conspurcando corpos porcos. "Lanternas Vermelhas" é outra coisa. Beleza num mundo estranho e, desta feita, muito feminino e igualmente fálico nas disputas ciumentas pelo poder... As peças de Shakespeare poderiam todas ter sido escritas pelos orientais, repararam nisso? Montes de histoirinhas RAN para os futuros cineastas... |
Voltar ao topo [Aeternus:5912] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-18) - RE: brincando de real e de reinados
 No fundo da alma o povão gosta desse binômio ostentação/sofrimento, esta a Verdade. ( digam vocês aí das listas a(s) 2ªs...) Todo aquele cerimonial que veste um Rei/Rainha, seu trono, o Lugar Exato do poder. Pompa &circunstância. O casamento de Lady Di. Elegância. Gastos estúpidos. Exagero. Autoritarismo. Centralização. Ingredientes certos para uma boa imagem, para 'entrar para a História'. O grande mérito dos ingleses nas Artes foi exatamente este : conseguir mostrar-se como uma espécie em exposição no Jardim Zoológico. Luta de classes. Reis&Rainhas. Capas&espadas. A Távola Redonda, a Justiça, a troca do might for right. Trazendo isto para os tempos modernos, temos aquelas cenas de caçadas à raposa, à lebre, tals, com os galgos à frente de elegantíssimos cavaleiros, um cara também de boné tocando uma trombeta e carregando uma bandeirola. Os ingleses construíram um modus vivendi. Independentemente, aqui, de colocar-se críticas a favor ou contra. Polidez, mesuras, perguntas e respostas comedidas. De certo modo, nos últimos 25 anos eles mesmo encarregam-se de desconstruir isto. Após abordar com toda propriedade, acurado senso crítico e força narrativa os temas aos quais aludi aí em cima, as câmeras transferiram-se para o subúrbio e/ou interiores pobres. Famílias em dificuldade, pais beberrões de plantão, praguejando palavrões ao retornar ao lar, filhos rebeldes ou inconformados dentro de si mesmos, mães-esfregão, tapa-buraco. Ilusões perdidas. Juventude e trintões cantando e bebendo até cair em pubs, separados no Clube do Bolinha e da Luluzinha. A Inglaterra e a Itália foram os dois países que melhor conseguiram contar suas histórias no Cinema, sem dúvida. Ambos me fizeram rir e chorar um bocado. |
Voltar ao topo [Aeternus:5913] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2006-01-18) - RE:RE:RE: palpitando no "brincando de real"
Só palpites: O verso de música que Marcos lembrou "êêê, vida de gado, povo marcado, povo feliz" e atribuiu ao Raulzito Seixas, se não me engano é do Zé Ramalho, feioso primo da Elba Idem e que foi marido da Amelinha (Pessoal do Ceará). O Zé Ramalho apareceu com boas músicas no início, embora tudo fosse sempre meio enfático, óbvio demais, grandiloquente com arranjos de cordas pesadas, algo overacting. Depois, se apagou. Não sei se a carreira do Zhang Ymou foi tão ladeira abaixo assim. Acho que "Lanternas Vermelhas"(1991) é um belo filme, uma espécie de versão mais sofisticada do anterior dele ("Amor e Sedução, 1990"), mas também vejo qualidades na mudança de foco para Quiu Ju (1992), fora de ambientes esteticizados, assim como na mudança de época da "Operação Xangai"(1995). "Tempo de Viver"(1994) era meio "eu queria ser E o Vento Levou", mas, como sempre, melhor do que o supervalorizadísimo "Idos no Vento". O filme da professorinha atrás do aluno que fugiu era meio numa levada iraniana, mas melhor que os iranianos chatos e repetitivos, a mocinha era tão ou mais obstinada do que a Quiu Ju ("Nenhum a Menos", 1999) e me lembro mal mas tb gostei de "Caminho para Casa"(1999), estes dois, filmes "menores" depois das gradiloqüências operísitcas dos anteriores que o deixaram quase como um Visconti oriental. Nunca vi "O Sorgo Vermelho"(1987) nem um tal "Daihao Meizhoubao"(1989), seus dois iniciais, nem um estranho "Keep Cool"(1997), feito depois que a bela Gong Li o deixou. Acho interessante a "virada" que ele deu para filmes de ação e aventura com qualidade estética (e mesmo dramática) muito acima da média desses filmes que geralmente abomino. "Hero" me pareceu mais pretensioso tipo eu queria ser Shakespeare, mas é belíissimo. Ainda prefiro "O Clã das Adagas Voadoras", uma espécie de estilo neo-Robin Hood de filmes dos anos 1930/40 made in Hollywood, só que mais bonito, com um bom gosto na paleta de cores que já conhecíamos desde "Lanternas Vermelhas". Acho que ele nunca fez um filme ruim de todos que eu vi. Todos são, no mínimo, bons. Por fim, Jansy, acho que vc se referiu a "Ilha Nua", filme autobiográfico sem diálogos do Kaneto Shindo, cult de 1960 (palma de Ouro?), com música que fez sucesso na França e ganhou até letra (acho que tenho uma gravação coma Frida Boccara). O diretor teve poucos filmes exibidos por aqui, alguns poucos na linha de terror japonês mesclado com repressão sexual numa espécie de Freud de alamanaque, tipo "repressão sexual = doenças de caráter, neuroses, fanatsias, delírios, etc" (tudo de ruim para um ser humano que não trepava direito ou nem errado; geralmente os fantasmas eram truques ou fantasias, mas os filmes eram interessantes na época). Vi, nessa linha, "Onibaba, a mulher demônio" e "O Gato Preto" (*nada a ver com Poe e mais fraco que o anterior). Sua linha era mesmo algo Zola, naturalista-sexual. vejam os títulos "Origem do Sexo", "Instinto", dentre outros que só devem ter passado em São Paulo por causa da colônia nissei, na década de 1960. O último que voi dele era de 1969, "As Cínicas", tipo contemporâneo: lembro que era bom, mas não me recordo de nada do enredo. Todos em Preto & Branco, cinemascope.
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Voltar ao topo [Aeternus:5915] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-18) - RE: se você disser que eu desafino, amor...
"Onibaba" é excelente ! Fiquei apavorado aquela noite, como quando assisti "The Tenant", do Polanski. ( Caramba ) Eu juraria que a fila( ou vida ?...) de gado era do Raulzito. Quando esse 'Zé Ramalho' surgiu eu nunca me interessei por ele. Já era uma época inundada de mediocridades. Atualmente qualquer um, no fundo de um quintal, lança seu CD. Isto tem um lado bom e um ruim, claro. Outro dia, fazendo compras no mercado, tocava ao fundo uma ruidagem horrenda onde o 'cantor' desafinava ao menos 4 vezes em cada compasso - de resto, era uma paupérrima tentativa de andamento e melodia ( chamar aquilo de 'melodia' é um atentado à Música ! ). A moça na caixa que me atendia tentava acompanhar o infeliz, desafinando junto com ele, e não pude conter o riso. Esperei ela terminar seu êxtase e comentei que o carinha batera o recorde mundial de desafinação, junto com um jocoso-mas-tentando-ser-simpático "e você ainda tentou acompanhar ele !". Ela sorriu e disse "mas ele é muito bonito !". Eu disse "ah !", sacudi a cabeça afirmativamente também sorrindo e parti. |
Voltar ao topo [Aeternus:5922] Mensagem do Grupo48 -Conde Drácula(2006-01-19) - RE:RE: brincando de real
 SIIIIIM!
"Realidade" é uma construção, um recobrimento, uma rede (gestáltica?) de relações com que organizamos a percepção - e é diferente do Real, que, noutros termos, é uma das versões da "coisa-em-si".
Minha cabeça recebe isso como um elemento a mais pra ilustrar minha teoria do superego aplicada às disposições subjetivas propendentes à droga: o superego, essa coisa exógena que vira endógena, toma o lugar da tal inserção do sujeito na realidade (em lugar da oposição entre sujeito e realidade), e é por isso que a realidade, para o (ou construída pelo) candidato à drogadicção, é sempre sem graça. Porque ressoa na parte sem graça de si mesmo. E ele não consegue presentificar suas ações, não consegue, primeiro, objetalizar quaisquer aspirações concretas, pre-videntes, numa razão operacionalizável entre realidades e ações. A realidade acessível à sua interatividade se reduz à condição de cliente do traficante (não por acaso, uma operação que se dá numa e de uma exclusão social) e de eminente "curtidor" - de momentos fugazes. Aí, o que faz a droga: suspende o superego, suspende o real, suspende a presentificação da realidade (construída com material do superego) e presentifica apenas um Real dessubjetivado. As relações entre o Real, a realidade, o simbólico e o hiato são as mesmas de uma construção psicótica, de uma construção de realidade irReal. A busca pela droga é uma espécie de desejo de psicose? Então, olhando de longe, a gente pode de novo dizer: é uma busca (inglória, impossível) por alguma real-ização. Entra no anseio do "exista-me". Mas é um cachorro correndo atrás do próprio rabo, porque quanto mais o cara tenta existir, menos ele existe. Porque, como digo: só o corpo presentifica! E aquele filminho quase besta, o 'E se fosse verdade', também diz isso.
Não não lembrei da Concubina. Tô achando é que não cheguei a assistir. Passou na mesma época que M. Buterffly? Eu devo ter achado que os dois seriam muito parecidos e desisti do "genuíno".
Mas esse papo de que aqui e ali as sociedades proíbiam mulheres de trabalhar como atrizes, restando aos homens interpretar personagens femininas, é um veio e tanto de reflexão, não? Contei que gostei muito de A Bela do Palco? Também abrange esse assunto. Pode não ser tão desconcertante quanto a "Concubina" ou quanto "Traídos pelo Desejo" (desse eu lembro mais, e seu mérito é desconstruir, mais que o de reconstruir alguma coisa), mas certamente é melhor do que "Shakespeare Apaixonado", que é tão superficial que a gente mal se lembra de que também se desenrola em cima dessa questão do feminino e do masculino no teatro, porque não discute, não questiona, não levanta o assunto "o que é o TEATRO para uma sociedade?". É um filme que cai na fôrma de pudim do que seja o "lugar" da representação e o "lugar" da realidade, como se fossem compartimentos de um bandejão psíquico que não mistura a salada de frutas com a de legumes. Tem hora que americanices me dão uma raiva. E a Gweneth tentando falar igual a uma inglesa, me dava tanto nos nervos! Grrrrr!
Pra arrematar ela ganhou aquele Oscar passando na frente não só da Fernandona com também da Meryl Streep e da Cate Blanchett!!!!!!! UM INSULTO!!!!!
Por ora é isso.
Vou procurar na locadora a Concubina...
E um amigo meu sugeriu que eu pegue também "Um Americano Tranquilo".
Mas antes acho que vou assistir ao Daniel Auteil que o Marcos recomendou e que gravei da TV5. Não vi ainda. Por falar em Daniel Auteil, vocês assistiram a um filme com ele, passou aqui em 93, o título era algo parecido com Coração no Inverno, ou O Inverno do Amor, seilá... Ele fazia um fabricante de violinos, não sei se era um violinista frustrado... sei é que eu queria muito rever esse filme.
Abraaaaaaaaaaaaaaaaaaaçu |
Voltar ao topo [Aeternus:5923] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2006-01-19) - RE:RE:RE: brincando de real
O filme com Auteil e sua então esposa (!!!!!! - só descobri recentemente que ele foi o fleiz possuidor da...) Emanuelle Béart se chamava "Um Coração no Inverno" (Un Coeur en Hiver) do Claude Sautet, que deu origem a um trabalho da psicanalista carioca Edna Vilette sobre esquizoidia, do ponto de vista winnicottiano (antes de Winnicott virar moda). Ele era luthier e ela virtuose de violino; a atriz aprendeu rudimentos de violino para fingir que tocava o trio de Ravel para piano, violino e cello que é a trilha sonora. Um filme "gélido" que emociona pelo patético da incomunicabilidade amorosa. O ator pela primeira vez me decepcionou no filme do TV5. É verdade que dormi muito: além da hora tardia, o filme carecia de ritmo. Pior do que o livro e do que outro filme tirado da mesma série de psicanalista em crise financeira, crossing the line da ética. Neste, muito pior do que no outro, onde o ator Jean-Huges Anglade só "deixava" acontecer algo que lhe beneficiava, com uma cara apalermada hilária. Desta vez faltou humor ao Auteil ou à concepção do personagem pelo roteiro. Ele está com cara de mau-caráter o tempo inteiro, péssimo, sem graça, não surpreende qaundo ele............... *&%#@%$+= (não vou contar, é claro, mas é até previsível). O pior é que o Auteil fez uma caretas "sérias" com um cabelinho penteadinho que o dexaram parecido com o finado "Zacarias" dOs Trapalhões... que mico! Marcos: Posso ter me enganado com a letra do Zé ramalho, nunca fui fã dele, nunca tive seus discos, e minha memória já não é a mesma: "Já Bocage não sou..." Não me cobrem nem me atribuam passos maiores do que as pernas cansadas como as retinas do Drummond ao dar de cara com a famosa pedra no caminho. Pior seria dar com a pedra na cara... Jansy: insisto que sua descrição de uma família em uma ilha inóspita era o filme "Ilha Nua". A descrição cabe perfeitamente. Não era de terror, só o existencial-sócio-antropológico (e vivido pelo cineasta em sua infância). E o Marcos tá muito velho! O "Alvorada" é o decano dos "cinemas de arte" no Rio, ficava na Raul Pompéia, sim. mas "A Ilha Nua" passou num outro, do outro lado da rua, bem como a Jansy descreve, em diagonal com um parquinho infantil que fica na esquina com Sá Ferreira ou Souza Lima, sei qual é arua mas troco os nomes. Era o extinto "Riviera" que durante algum breve tempo foi "Cinema II" quando o Cinema I da Prado Junior teve seus dias de glória a ponto da Tijuca ter seu "Cinema III". Na fase "Cinema II", esta sala exibia antiguidades dos anos de ouro de Hollywood (Fred Astaire & Cia). Mas sob o nome Riviera tb exibia coisas menos "comerciais". Era meio subterrâneo. teve outros nomes pós-Cinema II, e exibiu "Paris, Texas" e "Fanny & Alexander", dentre outros. As cadeiras tinham nomes de grandes do cinema: era uma curtição saber onde a gente sentava: cadeira Alfred Hitchccock, cadeira Frank Capra, cadeira John Ford, etc etc.
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Voltar ao topo [Aeternus:5924] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-19) - RE: rezando para ser subserviente
 Grande Conde, Belas considerações sobre a volúpia excludente-psicótica do drogadicto. Sua subserviência ao traficante, patético-química, eleva este tanto financeiramente quanto a nível existencial à condição de Rei da Coca(ína)da Preta. Se houve um filme inglês com o curioso título "Preaching to be Perverted", aqui seria o caso da rezadeira para tornar-se subserviente. |
Voltar ao topo [Aeternus:5925] Mensagem do Grupo48 -Marcos(2006-01-19) - RE: Un Coeur en Hiver e de novo Seixas
 ...foi lindo. Longas trocas de olhares, inquietação contida, expectativas que não frutificam. Auteuil e Béart magníficos.
No filme do Girod o Auteuil ficou com a ingrata tarefa de ser 'o chato', o vilão lacaniano para o diretor. Acho que ele vai muito bem, inclusive pelo mau-caratismo mascarado de seriedade. Sobre o Alvorada, volta o Seixas : 'eu nasci ( coro : 'eu nasci !')/ há dez mil anos atrás ! / e não há nada neste mundo que eu não saiba demaaaaaais...' |
Voltar ao topo [Aeternus:5926] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-19) - conservadorismo na lista 2005, em vez de 2006?
 Gente, queria trocar de lista apenas para marcar que estamos no ano de 2006 e evitar acumular informações num unico espaço. Hoje chegaram quatro mensagens, todas marcadas pelo passado... O Conde começou a falar dos atores fazendo papel de mulher, como na época de Shakespeare e terminou com um filme sobre violinos ( e Gallego completou o restante à perfeição). Antes do Conde chegar no violino, por motivos distintos, lembrei de um filme: " O Violino Vermelho", de Fraçois Girard, com Samuel Jackson, Greta Scacchi e outros menos importantes. Posso ter me enganado na via associativa, mas não é ali que reproduzem uma cena na qual garotinhos são castrados para tornarem-se cantores? Teria que rever o filme para me assegurar desta lembrança. Este " The REd Violin" pode não merecer entrar em nenhuma lista erudita de cinema mas, para meu gosto, tem tudo que aprecio nos grandes filmes. A idéia do roteiro. A fotografia. Momentos inspirados. Copiando da capinha do DVD: "Uma aventura épica de mistério e obsessão se desdobra quando Charlez Morritz, um avaliador de instrumentos musicais raros, investiga um violino vermelho para a prestigiada casa de leilões Montreal. Convencido de que ele achou uma autêntica obra-prima perdida há muito tempo, M. descortina uma espectacular jornada do inestimável violino, como ele passou de mão em mão e mudou a vida daqueles que o tocaram. Quando o segredo do violino é finalmente revelado, Morritz tem que lutar contra seus próprios demônios e escolher entre enterrar a verdade e arriscar tudo". Quem não viu, não perca!!!! Tem sabor de Robinson Crusoe com pitadas de Romeu e Julieta e O Americano Tranqüilo.Ou, talvez, uma série de desenho animado para "A história do soldado" de Stravinski em estilo Art Dèco. E...Conde? Curta bem The Quiet American, gostei do jeitalhão do Brendan Frazer ( o tal do Georgie na selva?). Como estou na veia do John le Carré me confundo um pouco, mas creio que o autor do original não foi ele, mas Graham Greene. Alguém mais sabido me corrija, ok? Gallego, achei o máximo você ir na trilha dos cinemas onde tais e trais filmes foram apresentados. Acho interessante lembrarmos de onde vimos uma coisa ou outra. Manto Sagrado, cine Palácio ( ou havia um Cine Metroda Cinelandia? ), onde uns dez anos depois vi toda série da Marylin Monroe e ainda "E o Vento Levou". Os Dez Mandamentos, passaram no cine São Luiz, Largo do Machado. Bergman, principalmente Gritos e Sussurros foi no cinema que você descreveu, numa galeria na Barata Ribeiro que troquei confundindo as ruas da " Ilha Nua". Seguindo as paralelas vamos da AV.Atlantica pela Barata Ribeiro e chegamos à Raul Pompéia? Uma avenida larga, antipática, que desemboca na Francisco Otaviano? De um lado, um cinema próximo da F.Otaviano e oficinas de conserto de automóveis, sombreada pelas pedras do que derrete na praia do Arpoador, acho que era o Riviera - ou...Ricamar? Não, esse era perto da Duvivier? - com uma grade metálica empoeirada e preferencia pelos italianos ( Antonioni ) e do lado oposto, em frente a tal pracinha perto da Rainha Elizabeth, o cinema dos japoneses... Perto do seu antigo consultório, no Roxy, vi "Amor Sublime Amor" ( West Side Story) . Que coisa, construir aos trancos e barrancos lembranças da infancia carioca a partir dos locais em que se viu tal e qual filme! Zorro, uma série com cenário pintado, no cine Azteca. Romy Schneider, no seu primeiro filme infantil enquanto atriz bailarina, no cine Odeon ( Cinelandia ). Um Mapa do Tesouro... Muito esquisito. Vi "O Silêncio" em Montreal ( viajando como bolsista, aos dezesseis anos...), "Mephisto" em São Paulo! E, bem pra trás no tempo, "Lua de Mel com Pimenta" num cineminha na cidade de Volta Grande, M.G. e, em local desfeito da praia de Botafogo na região do Pavilhão Mourisco, todos os filmes nacionais da Atlântica ( um leão ataca Oscarito? Suspense e medo ou metáfora para os filmes da Metro? Terror nas chanchadas??? Bem, até que pode ser pois lembro do homem mau que era sempre José Lewgoy e os mocinhos, Cyl Farney e Anselmo Duarte...) "O Monstro da Lagoa Azul" eu vi na rua Voluntários, quase perto dos cinemas do Mourisco e se não virou igreja evangélica ainda continua com filmes pornô. Meu reino por um mapa. E não percam The Red Violin. E, se conseguirem, os desenhos do filme sobre o Soldado de Strawinski. |
Voltar ao topo [Aeternus:5995] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-01-25) - palestrantes do CCBB...
 Pra quem não pode comparecer, quem sabe LF Gallego nos dá uma colher de chá com seus comentários sobre o filme japones premiado? Iniciam-se no CCBB duas semanas gloriosas para o ofício da crítica de cinema. Como se sabe, cineastas e distribuidores contrariados quando seus filmes recebem críticas negativas gostam de reagir com a frase “crítica não leva nem deixa de levar ninguém ao cinema”. Conforme o segundo carderno do JB do dia 23:No circuito convencional de salas de exibição, não deixa de ser uma meia verdade (grosso modo, a influência da crítica é significativa para as obras mais intimistas e/ou de pesquisa de linguagem e quase nenhuma para blockbusters -pipoca). Mas entre amanhã e 5 de fevereiro, no CCBB, são os críticos (mais especificamente, os que integram a ACCRJ — Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) que definirão qual será a programação do cinema. Já definiram, na verdade: foi a votação de fim de ano da ACCRJ para escolha dos dez melhores filmes de 2005 que estabeleceu automaticamente que filmes seriam exibidos nos próximos dias lá, em sessões seguidas de debates com críticos da associação e convidados. Amanhã, “Ninguém pode saber”, o triste e silencioso filme do japonês Hirokazu Koreeda sobre uma família de crianças tendo que sobreviver por conta própria num apartamento de Tóquio, depois que a mãe os abandona, dá a partida à mostra Melhores do Ano — ACCRJ. A sessão é às 17h, e o debate, a seguir, com os críticos Daniel Schenker Wajnberg e João Luiz Vieira e o psicanalista Luiz Fernando Gallego. Entre os convidados dos debates seguintes estão o deputado Fernando Gabeira, o escritor Sérgio Sant’Anna e o animador Allan Sieber. Ao longo das duas semanas, todos os filmes terão duas sessões, sendo que oito deles foram reunidos em pares por afinidade, tanto para as sessões com debate como para as sem. Assim, “Cinema, aspirinas e urubus”, de Marcelo Gomes, e “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado (que estará presente numa das sessões); “Oldboy”, de Park Chan-wook, e “Marcas da violência”, de David Cronenberg; “Um filme falado”, de Manoel de Oliveira, e “Bom dia, noite”, de Marco Bellocchio; e “A fantástica fábrica de chocolate” e “A noiva-cadáver”, ambos de Tim Burton, sempre farão dupla. “Menina de ouro”, de Clint Eastwood, bem como “Ninguém pode saber”, passa sozinho. |
Voltar ao topo [Aeternus:7365] Mensagem do Grupo48 -Helena(2006-05-25) - Olá para todos
 Depois de um longo tempo, quero dar um alô para todos, especialmente para Jansy, Marcos e Gallego. Infelizmente também não tenho falado com o Davy, que diz estar assoberbado de trabalho. Deve estar como eu, que estou cheia de trabalho e estudo. Tudo bem com vocês? Espero que sim. Eu vou indo, nesses tempos difíceis. Mas quero dizer que o curso de Teoria Psicanalítica está muito bom, excelente mesmo, e que tenho aprendido muito. Também tenho conhecido pessoas maravilhosas, tanto professores como alunos, colegas. É isso, senti saudades. E realmente não tenho podido fazer outra coisa a não ser trabalhar duro, fazer monografias, leituras e seminários. Abraços e beijos a todos, Helena. |
Voltar ao topo [Aeternus:7366] Mensagem do Grupo48 -jansy mello(2006-05-25) - RE:Olá para todos
Helena, fiquei muito feliz com as notícias sobre suas atividades e estudos, pelo entusiasmo que você deixou passar. Também senti saudades da sua presença. Um abraço, Jansy |
Voltar ao topo [Aeternus:7367] Mensagem do Grupo48 -Helena(2006-05-25) - RE:RE:Olá para todos
Que bom saber que fiz falta. Bom saber. Enviei um texto para o Aeternus. Depois você avalia. E, quando tiver mais uma folguinha, a gente conversa. Beijos, Helena |
Voltar ao topo [Aeternus:7368] Mensagem do Grupo48 -LFGallego(2006-05-25) - RE:Olá para todos
Puxa! Como andava sumida!!! Nem notícias dava!!! Parece que foi por uma boa causa! Apareça por escrito de novo !!!
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Voltar ao topo [Aeternus:7371] Mensagem do Grupo48 -Helena(2006-05-26) - RE:RE:Olá para todos
Olá Gallego. Para lhe dar um alô. Sim, sumi por uma boa causa. E vejo que vocês continuam a mil. Que bom! Quero dizer a todos vocês também que, em meus estudos, cada vez mais, sinto que a psicanálise é mesmo a minha praia, meu mar, meu pedaço. Viva ela! Viva a psicanálise! Ela está mais viva do que nunca. Mortos e enganados estão os que pensam que ela se acabou. E quanto ao resto, como diz o Chico: "...a coisa aqui tá preta...." Beijos, Helena. |
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