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Divulgação
Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus

  

O bicho homem


Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo:
  • LFGallego:
    Instintivismo

  • Marcos:
    RE:Instintivismo

  • jansy mello:
    RE:Instintivismo

  • jansy mello:
    Deus não é brasileiro, nem Kaka...

  • Marcos:
    RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

  • jansy mello:
    RE:RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

  • Visitante:
    RE:RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

  • jansy mello:
    votação: muda, não muda, propostas...

  • Marcos:
    RE:votação: muda, não muda, propostas...

  • Marcos:
    RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

  • jansy mello:
    RE:RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

  • Katia:
    Brevíssimo retorno a Jedi, quer dizer, ao tema terrorismo

  • jansy mello:
    RE:Brevíssimo retorno a Jedi, quer dizer, ao tema terrorismo

  • Conde Drácula:
    RE:RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

  • jansy mello:
    RE:RE:RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

  • LFGallego:
    RE:da Pena de Morte ao filme QUASE DOIS IRMÃOS

  • jansy mello:
    RE:RE:da Pena de Morte ao filme QUASE DOIS IRMÃOS

  • jansy mello:
    "justiça do homem" e "justiça divina"

  • Marcos:
    RE: o julgamento

  • jansy mello:
    RE:RE: o julgamento do Caco Florião em Iphigenia

  • jansy mello:
    tirei a foto do arquivo...

  • jansy mello:
    RE:Instintivismo e uma recente notícia

  • Marcos:
    RE: Tatiana Papamoskou em Iphigenia

  • jansy mello:
    RE:RE: Tatiana Papamoskou em Iphigenia

  • Conde Drácula:
    De homens e de ursos

  • jansy mello:
    RE:De homens e de ursos

  • Conde Drácula:
    Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

  • jansy mello:
    RE:Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

  • LFGallego:
    RE:RE:Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

  • Honoré De B.:
    RE:RE:RE:Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

  • Marcos:
    RE:Mulher de 30 aos olhos de um cinqüentão

  • Zé Ramalho:
    RE:RE:RE:RE:Mulher de 30 - data venia

  • Marcos:
    Sonny goes home

  • LFGallego:
    RE:Sonny goes home

  • Marcos:
    RE:RE:Sonny goes home

  • LFGallego:
    RE:RE:RE:Sonny goes home

  • jansy mello:
    RE:RE:RE:RE:Sonny goes home/point of no return

  • Marcos:
    RE:Sonny goes home/ética&fantasia

  • Visitante:
    Disfarce

  • Visitante:
    todo dia sempre igual

  • Visitante:
    RE:todo dia sempre igual

  • Marcos:
    a Leda e o Arppi Fº tinham razão

  • Cássio:
    Pérola

  • Cássio:
    WILD HORSES

  • Cássio:
    Para abrir uma 2ª feira como se deve

  • Cássio:
    Hmmmmmmmmmm!!

  • Omar:

  • Omar:
    Albert, Arthur & Fred

  • Marcos Florião:
    do Zarathoustra aos mortais comuns

  • Omar:
    RE: dos mortais comuns ao Zarathoustra

  • Omar:
    Lafargue & Pavese

  • Omar:
    Eric, salvo pelo Jazz?

  • dora zander:
    RE:Eric, salvo pelo Jazz?

  • Omar:
    RE:RE:Eric, salvo pelo Jazz?

  • dora zander:
    RE:, salvo pelo Jazz?

  • Omar:
    RE:RE:Eric, salvo pelo Jazz?

  • Omar:
    A/C Theodor Wiesengrund Adorno

  • Omar:
    Decifra-me ou te devoro?!??...

  • dora zander:
    RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

  • cely bertolucci:
    RE:RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

  • dora zander:
    RE:RE:RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

  • Omar:
    Heston

  • cely bertolucci:
    RE:Heston

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:Heston

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Heston

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Heston,PS

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:Heston

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:Heston,PS

  • jansy berndt de souza mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Heston,PS

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Heston,PS

  • gustavo alcides da costa:
    Falso Self e Superego

  • Davy Bogomoletz:
    RE:Falso Self e Superego

  • Omar:
    RE:RE:Falso Self e Superego

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Heston,PS: "Clareza ideologica": adorei!!

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Falso Self e Superego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Falso Self e Superego

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:Falso Self e Superego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    Respondendo a Cely

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:Falso Self e Superego

  • jansy berndt de souza mello:
    RE:Respondendo a Cely

  • jansy berndt de souza mello:
    RE:RE:Falso Self e Superego

  • Davy Bogomoletz:
    RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Omar:
    "Uma história repugnante"

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE: sem palavras

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Davy Bogomoletz:
    RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    omnibus novamente...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:

  • jansy berndt de souza mello:
    atualidade freudiana

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Neurociência, Byatt e John Donne

  • Omar:
    RE:RE: sem palavras... Freud, Hobbes, Cony, Hannibal & a destrutividade "altruísta"

  • Omar:
    RE:atualidade freudiana

  • Omar:
    Cosa nostra

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:atualidade freudiana

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Cosa nostra

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:Cosa nostra

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Cosa nostra

  • Marcos Florião:
    RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Antigona

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • Marcos Florião:
    RE:Cosa nostra

  • Marcos Florião:
    Georges Simenon...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Georges Simenon...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

  • gustavo alcides da costa:
    RE:a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

  • cely bertolucci:
    RE:RE:a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Antigona

  • gustavo alcides da costa:
    RE:RE:RE:a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

  • jansy berndt de souza mello:
    Lolita

  • gustavo alcides da costa:
    RE:Lolita

  • Marcos Florião:
    RE:RE:Lolita

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:Lolita

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Lolita

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Lolita, em tradução ( Jorio Dauster)

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    brincando de esganar o galo

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:Georges Simenon...

  • Omar:
    RE:RE:Lolita

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:Georges Simenon...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Once, twice... bem por fora...lá vou eu!

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    limites de letras e comunicação

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Sociedade e Indivíduo

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    verdades ou mentiras...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    antígona

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    antigona: araujo e não cunha...

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:antígona, Édipo & Tirésias

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:antígona, Édipo & Tirésias

  • Omar:
    RE:RE:antígona, Édipo & Tirésias

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    dois mais dois são quatro, qed

  • Omar:
    RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Omar:
    RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE Texto do Davy sobre o episódio do horror

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE Texto do Davy sobre o episódio do horror

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Jabor

  • gustavo alcides da costa:
    RE:antígona

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE: sobre Maria Rita Khel / os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • jansy berndt de souza mello:
    RE:RE:antígona

  • jansy berndt de souza mello:
    RE:RE: sobre Maria Rita Khel / os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

  • rafael falcao:
    mais um apelido

  • cely bertolucci:
    RE:mais um apelido

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Babel e Asperger

  • Marcos Florião:
    RE:Babel : duas pinceladas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Babel : duas pinceladas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Signs and Symbols, Vladimir Nabokov

  • Marcos Florião:
    RE: de rasgos e saltos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE: de rasgos e saltos

  • cely bertolucci:
    RE:RE:RE: de rasgos e saltos

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE: de rasgos e saltos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gerard Manley Hopkins

  • jansy berndt de souza mello:
    Tabucchi e Calligaris

  • jansy berndt de souza mello:
    Hopkins

  • Omar:
    RE: Calligaris

  • Marcos Florião:
    RE:de acasos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:de acasos

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:de acasos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Um americano chamado Mason

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:de acasos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Um americano chamado Mason

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:Zelda e Francis

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Zelda e Francis

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:Maupassant en français

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Maupassant en français

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Um americano chamado Mason II

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:Maupassant en français

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Mots passants en français

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Mots passants en français

  • Luiz Fernando Guedes Gallego Soares:
    RE:Signs and Symbols, Vladimir Nabokov

  • dora zander:
    sites Terra, BBC e Le Monde

  • Omar:
    RE:RE: de rasgos e saltos

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE: de rasgos e saltos

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos

  • dora zander:
    Invasores de corpos

  • dora zander:
    atendendo a outros pedidos...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos / a tempo

  • dora zander:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos / a tempo

  • dora zander:
    RE:atendendo a outros pedidos...

  • Omar:
    Ritinha

  • Omar:
    Tim

  • cely bertolucci:
    RE: judaísmo no século XXI

  • cely bertolucci:
    RE: judaísmo no sec. XXI

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE: judaísmo no século XXI

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Paises do mundo, seguindo o critério da "idade dos cachorros"

  • Omar:
    "Il faut imaginer Sisyphe heureux."...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE: Sisifo

  • Marcos Florião:
    RE:RE: Sisifo

  • Marcos Florião:
    besoin de...pós Jansy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:besoin de...pós Jansy

  • Marcos Florião:
    RE:RE:besoin de...pós Jansy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

  • Marcos Florião:
    RE:besoin de...pós Jansy / colaboração alheia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Philip Roth

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Philip Roth, resposta do Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Philip Roth, nova resposta do Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    contrastando VN & Roth

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós

  • Marcos Florião:
    RE:besoin de...pós / Nélson dos Tigres

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:besoin de...pós / Nélson dos Tigres

  • Marcos Florião:
    RE: que outro Nélson tigroso...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    olho por rosto, dente por dente...

  • Omar:
    RE:Philip Roth

  • Visitante:
    Homens e lobos

  • Omar:
    Mulher é linguagem

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Mulher é linguagem

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    abobrinhas

  • Visitante:
    Jab

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Jab

  • Patrícia:
    RE:RE:Jab

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Jab

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Jab, resposta do Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Jab, resposta do Gallego

  • Visitante:
    Meninos de rua e o Lete

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Meninos de rua e o Lete

  • Visitante:
    RE:RE:Meninos de rua e o Lete

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Meninos de rua e o Lete

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    criatividade no jardim de infancia

  • Patrícia:
    RE:RE:RE:RE:Jab

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Jab

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Jab

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Davy et Les Miserables

  • Visitante:
    RE:Davy et Les Miserables

  • Visitante:
    RE:Davy et Les Miserables

  • Visitante:
    RE:Davy et Les Miserables

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Davy et Les Miserables

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Davy et Les Miserables

  • Visitante:
    Susan Boyle

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Susan Boyle

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Susan Boyle

  • Patrícia:
    RE:RE:Davy et Les Miserables

  • Visitante:
    RE:RE:Susan Boyle em 1995

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Susan Boyle em 1995

  • Visitante:

  • Visitante:
    RE:

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Cebolinhas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE: a dor

  • Visitante:
    depressão

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:depressão

  • Visitante:
    Os normalopatas

  • Visitante:
    RE:Philip Roth

  • Visitante:
    condição humana

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE: condição humana

  • Visitante:
    aderindo ao clima dos primeiros capítulos agonizantes do Roth

  • Omar:
    RE:aderindo ao clima dos primeiros capítulos agonizantes do Roth

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:aderindo ao clima dos primeiros capítulos agonizantes do Roth

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Picaretagem

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Visitante:
    RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Rio e as Olimpíadas

  • Visitante:
    MST

  • Visitante:
    RE:MST

  • Visitante:
    RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:MST

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Visitante:
    RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Visitante:
    RE:RE:RE:MST

  • Visitante:
    RE:RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:MST

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:MST

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:MST

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:MST

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:MST

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    outra exemplar história de ficção

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Paranoia burocrática...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Et in Arcadia Ego

  • Visitante:
    RE:Paranoia burocrática...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Murphy

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    murphy, ps

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    MST e Tolstoy

  • Visitante:
    geisy da uniban

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:geisy da uniban

  • Marcos Florião:
    RE:RE:geisy da uniban

  • Marcos Florião:
    RE:geisy da uniban / a tempo

  • Visitante:
    RE:RE:RE:geisy da uniban

  • Visitante:
    RE:RE:geisy da uniban

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:geisy da uniban

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:geisy da uniban

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:geisy da uniban

  • Marcos Florião:
    RE:geisy da uniban

  • Visitante:
    RE:RE:geisy da uniban

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:geisy da uniban

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:geisy da uniban

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    enquanto isso na china...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gallego, Wilder e sem Garbo no Grajaú

  • Marcos Florião:
    RE:Gallego, Wilder e sem Garbo no Grajaú

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    [Aeternus:7479] Mensagem do Grupo62
    -LFGallego(2006-06-14)


    - Instintivismo

    Estava eu zapeando nos canais de TV, procurando algum que NÃO falasse de futebol, Copa do Mundo & similares quando dei num programa desses que se pretendem embasados em pressupostos científicos sobre comportamento humano. O breve período que consegui tolerar o negócio falava dos machos que se enfeitam para se tornarem atraentes para as fêmeas (exemplo visual óbvio, o pavão real de cauda aberta) e que se mostram poderosos (pingüins juntando seixos, pedras, que evitariam o rigor do gelo para os futuros ovos sobreviverem mais aquecidos; um macho cercado de e sentado em pedras seria atraente para a fêmea confiar nele e na proteção da cria).
    Em seguida, via-se o próprio narrador do programa (talvez um desses psicólogos comportamentais com ibope na mídia norteamericana) fazendo um teste. Aparecia num café, bar ou o que seja com roupas mal arrumadas, saltando de um carro caindo aos pedaços. 4 mulheres davam notas para o sex-appeal dele: iam de zero a três sobre dez.
    Em seguida, o sujeito tomava um banho de butique, usando terno, gravata, roupas de griffe caríssimas, cabelos e bigodão aparados, com tintura (mais negra do que asas de graúnas) e carro de 280 mil dólares... ganhava notas de 9 a dez.
    O mais patético é que quando o sujeito entrava no carro, supostamente atraente, um truque banal de cinema "abria" uma cauda de pavão atrás do carro como se fosse um adereço do próprio carro!
    Já vi filmes nazistas que superpunham imagens de ratos atacando conservas e cereais a rostos de judeus estereotipados. Nada muito diferente, portanto na redução do ser humano a qualquer outra espécie animal e nada mais.
    Pior ainda era para demonstrar que fêmeas humanas também procuram proteção dos machos mais fortes: um monte de mulheres com cara de futilidade estampada nas expresões e maquiagem diziam coisas como "se um cara lindo me pede dez dólares emprestado e um feio me oferece ir jantar em L.A. indo no seu jatinho particular, o bonito fica feio e o feio vira um príncipe". Sem comentários.
    Outro trecho mostrava encontros de 50 mulheres com dez homens milionários envolvendo rápidas entrevistas de cinco minutos cada uma com cada um para aproximar os casais: afinal eles não têm muito tempo livre e esses encontros programados em um dia de fim-de-semana ajudaria a eles conhecerem parceiras (?) ideais.
    Ainda pior é que o sujeito que se mostrava narrador e testador como falso pobre e falso rico com rabo de pavão é um escroto de cara asquerosa, bigodão que, aparado, o deixava com cara de bicheiro brega não-chique. A gravata era um atentado ao bom gosto. O programa é uma merda. por que perder tempo com isso?
    Porque é um retrato do que se quer fazer reduzindo de forma persuasiva e pseudo-científica o comportamento humano ao instintivismo animal generalizado que se mantém em nós, sim, ainda que negado por nosso narcisismo de "espécie superior às demais", os "reis da criação" e outras bobagens; mas - para melhor ou para pior -, toda esta nossa bagagem instintiva sofreu e sofre modificações filogenéticas e ontogenéticas.
    Até mesmo a fome, instinto mais básico e fundamental pode sofrer (e sofreu, e sofre) mudanças no que se pode constatar quanto a hábitos alimentares, escolhas, atrações e repulsas, indo de anorexias e bulimias a voracidades incríveis, podendo, apenas em situações-limite, termos as nossas necesidades instintivas reduzidas a aceitar qualquer coisa para sobreviver: comida podre, restos, ratos, coisas "incomíveis" passam a ser toleradas ou mesmo disputadas: até antropofagia circunstancial pode surgir!
    Há anos encontrei uma catalogação de sete instintos ou padrões inatos de comportamento pelo Rycroft (psicanalista inglês): nutrição, sexo, genitorialidade, luta, sono, territorialidade e adorno. Ora, adorno sugere que é para fins sexuais, que redundam frequentemente em genitorialidade; a luta (ou fuga) pode ser desencadeada por questões sexuais, de territorialidade e/ou de gentiorialidade. Ficam como padrões instintivos daqueles que se repetem periodica e implacavelomente, a fome e o sono. Embora o sexo tenha lá a sua periodicidade também, como os demais, pode sair dos padrões com insônias, inapetências e castidades; assim como o cuidar da cria pode exitir ou não, a vontade de procriar, idem (desde Onan até os modernos anticoncepcionais).
    Enfim, se há padrões instintivos, sim, considera-se popularmente sobretudo o "instinto de sobrevivência" (expresso sobretudo pela fome) e "de preservação da espécie" ( e aí entra o sexo, embora o bicho homem tenha descoberto o prazer pelo prazer sem procriação).
    Freud falou de instinkt e de trieb (que ficou mais ou menos traduzido como "pulsão", diferente de "instinto").
    Joseph Lichtemnberg, oriundo da escola kohutiana falou de "contextos afetivo-motivacionais" percebidos no desenvolvimento do ser humano a partir da mais tenra infância (muito resumidamente: necessidade  de regulação psíquica de necessidades fisiológicas; necessidades de vínculo e afiliação; necessidades de exploração do meio externo e asserção de preferências; necesidade de reagir a experiências adversas por antagonismo (ou retirada, ou seja, fuga); e necessidade de prazer sensual e posteriormente excitação sexual. A grosso modo, no primeiro grupo, teríamos o atendimento à fome e à sede, por exemplo, e mais os cuidados com a excreção e a proteção contra calor ou frio incômodos excessivos; no segundo entrariam as questões de genitorialidade; no terceiro estaria incluída a territorialidade; no quarto, as reações de luta e fuga, agressividade, etc; e no quinto teríamos o desnvolvimento sexual.)
    Há uns 25 anos o cineasta Alain Resnais recorreu a Laborit para desenvolver um roteiro ("Meu Tio da América") que mostrasse os padrões instintivos nos seres humanos: três personagens tinham suas vidas e reações comparadas ao comportamento de animais; e humanos com caras de rato eram mostrados esporadicamente como analogia com as reações dos dois homens e uma mulher enfocados. O filme sugeria que seus personagens tinham identificações básicas com personagens de filmes clássicos franceses, aliás, mais do que com personagens, com as "personas" de atores consagrados como Michèlle Morgan, Jean Marais e (acho que) Jean Gabin. O sexo do ator ou atriz não importava para a identificação dos personagens masculinos ou da personagem feminino do filme de Resnais.
    As cenas dos "ratões" foram muito criticadas, mas o filme era muito bom, independentemente de sua "tese" que era obviamente de inspiração no que se chamava "reflexologia" ou "teorias de condicionamento", hoje denominadas teorias "cognitivo-comportamentais". Havia, sim,  um "inconsciente", mas que o próprio Laborit aparecia para explicar que não era o Ics dinâmico de Freud, eram apenas padrões de comportamento (como as identificações com filmes da infância dos personagens).
    Resnais, ao escolher Laborit, como que abandonava o que havia de "psicanalítico" em seus filmes iniciais, geralmente sobre a memória (Hiroshima, meu amor; Ano passado em Mariembad; Muriel - ou o tempo de um retorno; "Je t'aime, je t'aime"; "Providence") e antecipava a virada da psicologia dominante para o terreno de "condicionamentos".
    Em um congresso escutei Jurandir Freire dizer que se recusava a ser visto como apenas "um epifenômeno de nossas entranhas" e nossa hostess, Jansy há pouco me escreveu num diálogo sobre uma fala que eu ia ter sobre o apaixonamento nos adolescntes (e não só):

    Se os neurocientistas dizem que na paixão se liberam endorfinas, e for isso mesmo, o que é que tem? Depois destas serem liberadas é que aparece o mistério. O colorido das coisas muda, o aroma, e até há uma espécie de transparência especial que nos permite ir além do que vemos, sem ver mais do que o que está - mas apostando no que pressentimos.

               Preciso dizer mais algumas coisa?



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    [Aeternus:7480] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-06-14)


    - RE:Instintivismo

    Parabéns ao Gallego pelos escritos.
    Da cretinice geral que assola as sociedades, sejam de 1º mundo ou não, o modismo perverso das 'notas' e listas imbecis - os dez homens mais lindos, mais sensuais, as dez mais tals e tals - e dos palpitômetros e achômetros a todo instante, nesse 'existir-é-votar' que os sistemas consumistas inventaram, resta um salve-se quem puder bastante perigoso.
    Como ninguém 'tem mais tempo' de embasar-se, de ler e pesquisar calmamente os assuntos que mais atraem, impõe-se algo mais imediatista e de aparência eficiente. Votar a todo instante, dar minha opinião sobre tudo, qual devia ser a nova cor dos cabelos do Bushada e do molusco, a escalação ideal da seleção italiana, as escolhas dos personagens das novelas de TV - todos encorpam a tese milenar de que 'a voz do povo é a voz de Deus' ( coitado de Deus !...)
     
    De todo o ciclo virtuoso do avanço do conhecimento humano, através da ciência, da arte, do eventual funcionamento desta ou daquela sociedade menos sofrida que assim permitisse esse avanço, e passando pelo crivo capitalista/consumista, parece ter restado sólido como uma pilastra esse mundo de aparências que encontrou sua ordenação no simulacro. Exemplo perfeito disto o que Gallego cita das notas do carinha desgraçado e descabelado antes/depois do terno Armani, do carrão.
     
    Pessoalmente não acho que sejam mais graves, em especial, todos esses rumos. Vícios e distorções sempre haverão dentro do Absurdo humano. Haverá sempre o poder de crítica, a minoria que virtuosamente filtrará a volúpia informação/tendência.

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    [Aeternus:7481] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:Instintivismo

    Que boa idéia do Gallego, dar-se ao trabalho de criar uma nova lista com este título ótimo, " o bicho homem"... Um privilégio a mais é acompanhar os comentários dele e do Marcos quanto esta questão que atualmente nos assola ( entre mais outras nove na lista das mais)  e que Marquito resumiu bem: "existir é votar", distorção assustadora imposta pela pressão da mídia e pelas ideologias que pretendem nos obrigar à liberdade.

    Seja como for, não tenho tempo para escrever muito agora de manhã. Estou sempre com o relógio ameaçando cortar minha cabeça e os dedos no teclado. Nascem outras, como no filme MIB, porque sou mesmo ET...

    Beckett, dizem, fez análise com Bion e no espírito kleiniano ele escreveu uma frase de que gosto muito: Todo mundo nasce louco e alguns continuam do mesmo jeito.  O ponto será demarcar o tamanho das loucuras de cada um.  A minha, inalterada desde a concepção, liga-se à escolha.  A continuação deste raciocínio fica para outro momento. 

    Gallego, no livro bíblico "Genesis" há uma referência curiosa que a maioria das pessoas parece não ler quando passa por ela.  Ali se fala de Adão e Eva, "filhos de Deus", colocados no mundo entre outros seres designados como "filhos do homem".  Não poderia deixar de mencionar isto na lista do Bicho Homem. Começamos a nos colocar em jogo: macacos ou invenção divina? Ciência ou Religião?

    Fim do intervalo. Tá na hora do jogo de verdade...

    PS: Futebolistas, please, enquanto eu assistia o jogo havia peritos por perto que além de berrarem "gordo", "gordo" pro Ronaldinho, em alguns momentos gritavam " Regina".  Quem é essa Regina?

    Notaram como tem mãe de jogador entrando em cena? Nós não xingamos a mãe, não é? Ela precisa estar sempre ali na torcida ou dando colinho...


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    [Aeternus:7482] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - Deus não é brasileiro, nem Kaka...

    Esses argentinos...Olha só a notícia que encontrei ( estou tentando descobrir quem é Regina)

    Título da matéria: Argentinos dizem que Kaká nem parece brasileiro...

    "Não parece brasileiro. Não sabe sambar, não sai à noite. Não gosta de discotecas, nem tem uma vida particular escandalosa. Não participa do Carnaval e não é fanático por praia", destaca a publicação, chamando atenção para outros atributos do atleta no ambiente do futebol.

    "Kaká não cria polêmica com seus treinadores, nem atrasa aos treinamentos. Não gosta de tocar para trás e não é individualista. Realmente, não parece brasileiro", continua um dos grandes jornais da imprensa argentina.

    A publicação ainda reconhece que o gol marcado contra os croatas serviu para começar a credenciá-lo como um dos possíveis grandes jogadores da Copa.

    "Há muito tempo que Ricardo Izeczon Santos Leite é simplesmente Kaká. E já mostrou suas credenciais de craque com um golaço", completa.

    A segunda partida do Brasil no Mundial está marcada para este domingo, às 13h (de Brasilia), contra a Australia, líder do Grupo F.


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    [Aeternus:7483] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-06-14)


    - RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

    A 'Regina' em voga na semana é a esposa do Cafu, que armou uma trapalhada junto com a diretoria do Roma, ao redor de 2003/4, com papeladas forjadas para naturalização italiana e facilitação para participar de torneios com regulamento estranho.
     
    Ronaldo "El Gordo"( como é conhecido pela torcida do Real Madrid )(ex)fenômeno confirma minha análise de considerá-lo uma mistura do étranger de Camus com emergente/nouveauriche de Bento Ribeiro. Nessa de opiniões e votar em tudo um repórter perguntou o que ele achou do questionamento do molusco ao Parreira sobre sua obesidade. Disse El Gordo : "ué...também dizem que ele bebe pra caramba...(...)"
    Em campo contra a Croácia ele estava mais para Alain Delon em "O Eclipse" do que fenômeno ou El Gordo.

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    [Aeternus:7484] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

    A gente ouve informações que não processa direito.  Tem um jogador que está sendo processado, aliás, acho que é o próprio Cafu. Hoje me explicaram que na última copa ele levantou a taça e berrou: " Regina, eu te amo"...

    El Gordo é jogador do Real Madrid? É que minha filha e eu, meio bruxas a contragosto, estamos aprisionadas no esquema de cores amarelo e vermelho. Não sabemos como interpretar senão como temer a Espanha que hoje marcou 4 x 0 contra a Ucrania.  Vai ver que será o nosso Fenômeno que entrará em ação e salvará a pátria ( se a dica for "Real Madrid" pelas cores espanholas). 
    Até o gatinho do meu site é predominantemente vermelho e amarelo ( ele próprio é branco...) e andei assombrada com filmes que se passam em Veneza que tem um emblema vermelho e amarelo com um leão no meio. E agora? 

    Sem ligação mágica com as cores do site, que são várias além da mostarda com ketchup, aguardo o Webmaster Cyro substituir o animal ( acho que ele já esqueceu, enviei outro "logon" há semanas). Enviei outro gato, em azul! ( Bem... tem azul na nossa bandeira, não é?). Se der, coloco aqui para vocês votarem se trocamos ou não. E aceito outras idéias!!!

    A pregnancia das imagens ( coisa do Bicho Animal ) às vezes domina o pensamento. Hoje um analisando ficou falando do jogo de ontem, reclamando sobre a mídia que ora exalta ou execra a seleção. Observou que  "quem tem fama deita na cama" e achou nossos atletas parados em cena como se lhes bastasse comparecer em campo e marcar presença para atemorizar os croatas que perderiam por eles próprios...Entremeou observações sobre o treinamento, sobre expectativas e ter em campo "uma banheira livre pra chutar", do jogo definitivo demandando ação e gol...
    Foram precisos quinze minutos para eu entender ali uma queixa sexual, voltada aos prazeres preliminares. É, estou ficando velha. Entrei até em devaneios de antigos seminários clínicos em psicanálise com Bion. Devia ser época da Copa ali também pois o material levado à supervisão sempre remetia aos jogos. Contudo, só me recordava da turma reunida, dos rostos e do próprio Bion. Neca de pensamento de verdade. Ou seja, também eu fiquei no entretanto e custando a chegar aos finalmente da sessão, voyeuristicamente encantada...

    Tanto é que, voltando pra casa, fiquei atrás de um onibus que fazia propaganda com o slogan: "o bom do frio é ficar perto do Sul e da mulher amada". Já que não tinha mais nada pra ver além da traseira do onibus, continuei olhando para o cartaz, curiosa sobre o programa de viagens ao sul que achava estar sendo promovido. Qual! Era anúncio para uma "Epotchê", festa do estado no parque da cidade aqui em Brasília. Já pensou? Se o bom do frio é aceitar nostálgicos simulacros ( se sentir um gaucho de volta à terra natal), como é que fica "a mulher amada" nessa história? Simulacro de amor, também?

    Se falo disso é porque estou tentando voltar ao tema do "Bicho Animal", belamente inaugurado pelo Gallego e com direito a um final amável ( não me lembrava daquela frase que ele citou ali). A tal da "pregnância imaginária" da qual comecei falando acima.  Tipo ter que fazer espermograma e ficar num cubículo com imagens do Playboy e um pote, conseguindo um bom resultado apesar dos pesares...
    Com quem transamos quando transamos, hem? Um pintinho corre da sombra de uma pipa como se diante de uma águia. Um certo pintassilgo transa com um cubo azul acreditando que é uma femea, etc e etc.Nossa.


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    [Aeternus:7485] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2006-06-14)


    - RE:RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

    O Presidente Lula pode não beber o que dizem que ele bebe, mas que Ronaldo está gordo pra caralho está.

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    [Aeternus:7486] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:RE:RE:Deus não é brasileiro, nem Kaka...nem Regina nem El Gordo ?

    Inauguramos a defesa do "molusco" ( apud Florião) e o debate muda de figura. E de album de figurinhas também. De um lado, observa-se o efeito da maledicência, boato e da mída. De outro, descreve-se algo que todos podem ver com os próprios olhos.  Sei não, continúo com o Parreira.


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    [Aeternus:7487] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - votação: muda, não muda, propostas...

     Não me recordava que tivesse proposto dois gatos, no lugar de um. Pelo andar da carruagem, se acabarmos escolhendo uma destas duplas, na próxima troca teremos que arrumar três gatos... Um por ano?


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    [Aeternus:7488] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-06-14)


    - RE:votação: muda, não muda, propostas...

    Voto nos gatos emaranhados sobre o azul e branco.

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    [Aeternus:7489] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-06-14)


    - RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

    Em termos de técnico, Parreira é um excelente porta-voz, acomodador como todos estes devem ser. Ronaldo "El Gordo" sairá do time quando perdermos, e espero que seja na fase classificatória, pois senão depois...BABAU !!! Outro do qual só nos livraremos com derrota ou contusão é o Imperador Adriano, atravessando há meses péssima fase técnica. O Brasil venceu a Croácia jogando com 9 atletas.

    Parreria detém o galardão da Copa de 94, ganha mediocremente sobre a Itália, num sonolento e justo 0 X 0, coroado após uma prorrogação de dar dó. E com perdas sucessivas de pênaltis pelas duas equipes na hora da verdade, até o badalado craque-budista italiano Roberto Baggio nos ajudar e bater um pênalti para fora do estádio...
    Mas a tchurma do pão&circo, ainda assim, vibrou muito. Há gosto para tudo nesse mundo.


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    [Aeternus:7490] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

    Ih, Florião...me desculpe. Critico a mania de se escolher os dez mais de tudo, concordando com você, comento contra a pressão em "existir é votar" e logo em seguida pergunto quem vota nos gatos do site. 
    Seja como for, com sua boa vontade, tenho um voto pros gatos engatados bicolores.

    É muito engraçado ver os comentaristas da Globo observando as coisas do modo mais tradicional e botando panos quentes em tudo ( por enquanto ), enquanto que a torcida em volta reclama de atitudes diferentes e a mídia mundial ainda discorda pra mais longe.  Não conheço nada de futebol, mas gostei da partida de ontem, contra todos os entendidos pelo jeito. Achei que o Ronaldinho Gaucho estava com jogadas espertas, que a montagem do jogo era interessante, que o Dida estava ótimo e o cara que era beque ( como é o nome atual?) e protegia o gol com ele estava excelente. Gostei do Roberto Carlos e da entrada, descansada, do Robinho. 

    Este tal de Adriano e um outro, o que sempre cometia faltas, me desapontaram.  E o chefe do time da Croacia, um alemão dando ataque histérico.  Não falo muito senão faço feito a neta, recomendando as substituições seguindo as simpatias de nomes e rostos, para ouvir seu irmão caçula corrigir: "Mas não se troca assim, tem que estar na mesma posição! Um atacante se troca por outro... " e ao lado o pai, orgulhoso, querer que todo mundo percebesse o filhote pontificando...


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    [Aeternus:7495] Mensagem do Grupo62
    -Katia(2006-06-14)


    - Brevíssimo retorno a Jedi, quer dizer, ao tema terrorismo

     

    Caríssimos:

    Marco: vc escreve como quem poeta. Que bom ter entendido o que eu disse sobre pena de morte (assunto q dá verdadeiros tratados sobre a vida)

    Gallego: vingança seria desejar no mínimo, no mínimo, no mínimo , por ex., q o indivíduo q espancou, estuprou, cometeu atentado violento ao pudor (penetrou-lhe o ânus), matou e escondeu o corpo daquela menina de 19 anos aqui em Brasília, tivesse tratamento similar.

    Davy:. Sei das diferenças entre humilhação, indignação e truculência por experiência própria e infelizmente  ñ da confortável poltrona de primeira fila como espectadora privilegiada. Agora, lembrei de uma amiga, Regina (q ñ é a mulher do Cafu), cheia de sonhos legítimos baseados em teorias q assim lhe pareciam. Presa durante manifestação estudantil secundarista lhe colocaram filhotes de ratos (talvez deles mesmos) dentro do seu canal vaginal... Nunca mais Regina existiu, embora esteja com 56 anos.

    Pq iniciante nas conversas de vcs, ñ percebi qdo de minha interferência sb a afirmação q me surpreendeu, q o dito era apenas figura de linguagem. Tto Jansy, qto Marco me esclareceram e me ensinaram.

    P/ satisfazer sua pergunta, minha filhinha ( hoje c/23) se enoja dessa quadrilha e age contra o status quo. E ñ confrontei o q ela disse, apenas como Jansy havia citado lindas estórias de seu neto, preferi ficar com essa parte da conversa, mas, não me omiti. Já havia questionado a outra.

    Me desculpe, ñ vejo incompatibilidade entre idade e continuarmos tratando (tb.) da lua (sensibilidade ou geografia), de coração de mãe (ternura ou saúde)...

    Agora, vou brincar um pouquinho c/ essa  possibilidade q vc me permitiu de ser santa (embora todos me achem encapetada, no bom sentido). Vou, então, sugerir q reze todos os dias: “Sta Katia prometo nunca + ficar sentadinho tal qual torcedor da Copa q grita, reclama, “muda” o time + sabe q nada adiantará, ali, daquele lado da telinha...”  Adoraria fazer milagres, deixar as pessoas felizes.

    Vejo este espaço como uma “esquina”, onde as pessoas se encontram, dizem isto e aquilo. Se sobra tpo sentam-se à mesa do bar + próx. e pode até ser que daí surja uma obra de arte como Garota de Ipanema. P/ mim, mais ñ dá pq tal qual o coelhinho da Alice, eu tenho pressa, eu tenho pressa à beça. Por isso --perdoe--, mtas coisas vão ficar sem a fundamentação tão  apropriadamente reclamada por vc.

    Jansy: Regina é uma louraça belzebu provocante, mulher e estrela do Cafu.

    Sobre o Festival do Cinema Brasileiro em Miami, vc encontrará detalhes nesses sites.

    http://www.brazilianfilmfestival.com/9/scripts2/jury.asp

    http://www.movie.com.com.br/espaco/detalhe.asp?id=3908

    Ainda sobre inocência: ótimo mesmo eu senti qdo perdi a virgindade. Melhor que milk shake de chocolate, muito melhor...Já a inocência...me dói até hoje.

    Conde Drácula: Esperava mordidas no pescoço e veio um bju. Se eu tivesse podido olhar nos seus olhos... O texto do Bernardo é excelente. Bju p/ vc tb.

     

    Quem quiser assistir a um bom filme vai a sugestão: “Quase dois irmãos”, da Lúcia Murat. Quem quiser rir: “A Taça do Mundo é Nossa”,  do grupo Casseta e Planeta.

     

    E p/ ñ ficar s/ uma estória de criança, lá vai a do Gabriel, neto da Mirian, minha amiga: um guri dava um “show” de tolices num shopping. Passa um sr. e diz: se fosse meu, já tinha lhe dado uma boa surra e estaria todo lanhado. Gabriel, de quatro anos, vira-se p/ a avó e diz: ta vendo? Qdo a gente é pequeno é bom, depois q cresce é que fica mau. 

     

    Na impossibilidade de ficar a foto do meu gato, fico com o desenho dos engatados bicolores. Lindo!


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    [Aeternus:7497] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:Brevíssimo retorno a Jedi, quer dizer, ao tema terrorismo

    Katia começou em verde-amarelo e azul, depois foi pro cor de rosa, conversando gostoso como, nas suas palavras, nos encontros fortuitos, papos descontraídos apesar do cutelo do relógio que nos lança pra frente no atémaisver. 

    Quanto à pena de morte, penso como o Gallego. Não dá para aceitar um estado aplicando uma variante da lei de talião, ainda mais n o Brasil onde aquela antiga frase prevalece: "aos amigos, tudo e aos inimigos...a justiça".

    Pra mim, tortura e terror são - sem exceção e sem desculpas - "coisa" execrável. Continuo incapaz de me representá-los, como o tratou Derrida num ensaio onde estava referindo-se apenas ao ataque às Torres Gêmeas. 
    Não esqueço que a violência é praticada por todo tipo de gente, em casa e fora dali: viram as novas fotografias das chacinas dos iraquianos pelas tropas americanas? 

    Acho que esta "irrepresentabilidade" não expressa simplesmente o trauma  gerado por estes atos "desumanos", mas, também serve de impedimento para que, apesar da rotina da repetição do que vemos sendo noticiado dia após dia,  façamos alguma "elaboração" e nos tornemos anestesiados ou distantes. Cada golpe, cada ataque do qual ouço contar me pega com a força de uma primeira vez.  Talvez, como descreveu Freud, se sofressemos o terror na própria pele, experimentaríamos algo diferente, passando do trauma ante o irrepresentável para alguma certeza que favorecesse a ação.

    Uma associação estapafúrdia me veio à mente com a história da "Bela Adormecida", aquela na qual todos adormecem junto à princesa que espetou o dedo na roca e o tempo era cristalizado em âmbar após a súbita ruptura dos gestos habituais. 

    Como Katia marcou bem, perder a virgindade não é a mesma coisa que perder a inocência...


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    [Aeternus:7498] Mensagem do Grupo62
    -Conde Drácula(2006-06-14)


    - RE:RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

    Dizem por aí que o problema do Brasil é a retaguarda...


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    [Aeternus:7499] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-14)


    - RE:RE:RE votos futebolísticos em mais um dia de votos

    Data venia: não entendi o emprego da palavra "problema"...

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    [Aeternus:7500] Mensagem do Grupo62
    -LFGallego(2006-06-15)


    - RE:da Pena de Morte ao filme QUASE DOIS IRMÃOS

    Apesar do argumento da Katia de que vingança seria só se fizesse exatamente a mesma coisa sinistra que um criminoso fez com alguém (ou seja, olho por olho, dente por dente), eu ainda acho que retirar a vida de uma bicho humano é, sim, uma vingança absoluta, já que matar é algo que não tem volta.. Uma coisa horrorosa como um estupro pode deixar marcas indeléveis, mas ainda assim deixa a pessoa viva e sempre há chance de que as marcas fiquem mas a vida da pessoa possa seguir um curso razoável, não obrigatoriamente trágico, por mais que isso ocorra. Muita gente que nunca foi estuprada pode ter um curso de vida mais infeliz ainda do que quem passou por essa experiência-limite. Grelmente o que Katia conceitua como vinganaça acontece mesmo em nossas cadeias: estupradores são estuprados - por outros presos que podem ter sido asasinos de velhinhos ou de criancinhas, sádicos com suas vítimas, etc etc. Com que direito? Com que moral? Isto é ético?
    Não sei o que fazer com criminosos em cuja recuperação eu não acredito, mas também não sei se a pena de morte seria uma "solução" - além dos riscos que ela implica como "solução final" que é. Ou seja, o risco de a justiça cometer algum "ligeiro" equívoco e deixar um acusado (mais tarde descoberto que o foi POR ENGANO) ser "LIGEIRAMENTE" morto... (lembrei daquela música, que dizia, acho que era assim, "ligeiramente grávida").
    Quanto à dica do filme "QUASE DOIS IRMÃOS", concordo totalmente: foi um dos melhores filmes (brasileiros ou não) lançados em 2005, acho que é um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos, com um roteiro muito bem estruturado, muito bem interpretado e filmado. A cineasta Lucia Murat que passou o capeta durante o regime militar quando esteve presa, torturada, etc. não fica parada no tempo nem emtorno do seu umbigo e elabora uma ficção que chega até os dias de hoje, demonstrando uma capacidade de senso histórico longitudinal daqueles que se consegue com a boa ficção, retratando a realidade através de recursos dramáticos eficientes. Num debate que coordenei com a presença da Lucia, foi constrangedor ouvir alguém da platéia dizer que foi ao debate pensando que ia encontrar "uma subversiva, uma terrorista falando de sua história mas ela escolheu acompanhar a trajetória de um preso político do sexo masculino". Não entendeu que Lucia é antes de qualquer coisa que tenha sido, seja ou vá ser, uma artista que elabora sua vivência pesoal, subjetiva, saindo do particular do seu umbigo para algo mais geral. O personagem que é preso político no filme é masculino, sim, enquanto que ela é obviamente uma mulher. Só nisso ela já demonstra um misto de subjetividade e descentramento, saindo do seu umbigo para um distanciamento, sem esquecer o que o seu umbigo terá sofrido. Existe em DVD com excelentes extras (entrevistas, depoimentos, etc.).
    Mais tocante ainda foi, neste debate, a Lucia ter quase esquecido o que estava fazendo ali ao ver, na platéia, um rapaz que havia sido meio que (mais do que) figurante no filme (do grupo teatral da favela da Rocinha, o "Nós no Morro") e ter começado a perguntar pelos demais colegas dele, falando, preocupada, que havia sabido que um Fulano havia voltado para o tráfico e ela estava atrás do tal Fulano para dar-lhe uma bronca, conversar qual era, etc etc.
    Fiquei com a impressão que Lucia nunca foi "subversiva" ou qualquer coisa pejorativa da época (ou de sempre): ela continua é com uma proposta de trabalho ligada a questões sociais. Agora mesmo ela está filmando uma enésima versão de Romeu e Julieta com pessoal de favelas que fazem dança. Teremos por fim nossa "Uma História da Zona Norte" (West Side Story) ?

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    [Aeternus:7502] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-15)


    - RE:RE:da Pena de Morte ao filme QUASE DOIS IRMÃOS

    Creio que Katia estava referindo-se, entre outras notícias, a um estupro seguido de assassinato que aconteceu há uns anos em Brasília, no qual a moça foi torturada e morta pelos dois empregados que em seguida a enterraram num canteiro da casa. 

    Estupros acontecem com a conivência dos exércitos, desde as mais remotas narrativas nos livros de história aos tempos mais recentes nos quais até mesmo as mulheres que haviam retornado de campos de concentração foram estupradas junto às demais em Berlim. Depois houve aquela espécie de rivalidade de quem estupra mais: sérbios ou croatas.  Alguns estupros matam o corpo, alguns matam a alma, outros matam tudo e o que o cerca igualmente.  

    Felizmente não preciso votar sobre questões como a pena de morte, vingança ou estupro.Estaria lidando apenas com minhas teorias meio vazias sobre o assunto.  Realmente, não podemos aceitar sermos convocados a opinar e a votar em tudo que acontece: é impossível, aos meus olhos, dar conta de tanta coisa de um modo "justo".


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    [Aeternus:7503] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-15)


    - "justiça do homem" e "justiça divina"

    Há certos julgamentos que fazemos, dos quais apenas temos vagas informações estatísticas, que poderiam ser melhor realizados por uma máquina programada para isto. Tornam-se quase questões que apenas requerem de nós uma fonte numérica, tipo IBOPE ou IBGE, para então exercitarmos uma algebra  racional.  Não temos acesso às filigranas, que podem ser determinantes. OU sofremos uma distorção de opinião pelo contexto geral ( não é à toa que jurados são impedidos de lerem jornais enquanto deliberam a sorte de alguém).

    Aquele episódio que ocorreu em Brasília, da moça violentada e morta na própria casa e ali enterrada, me alcançou numa fase estranha porque vários elementos se misturaram indevidamente na minha lembrança. Os pais da jovem aparentemente perdoaram os criminosos e eu ouvia deles, de modo vago, porque eles trabalham no Colégio Marista de Brasília e regularmente admiro os cartazes que acompanho, desde o início do ataque ao Iraque por parte de Bush e sua corja, defendendo a paz e citando poemas árabes. Em contraste com isso, também ouvia sobre as pequenas picuinhas entre pais e mestres quando um especial professor ou pai entrava na berlinda das fofocas e era sumáriamente julgado e "excluído do grupo" ( o que é uma violencia e um assassinato, não?).  Por isso, deixei todo o tema em suspensão, perplexa com os vários exemplos de perdão e de crueldade. 

    Pensei naquele filme, com um título tão forte: " Perdas e Danos". Aliás, só percebi que era um título forte hoje. Perdas e danos é a palavra para os prejuízos que um grande empreendimento sofreria, caso não os contabilizasse de início e incluísse no preço das mercadorias.  Se quebro um pote de geléia no mercado, todos saem perdendo e não apenas o mercado uma vez que o preço do pote perdido já incluía, de antemão, seu dano eventual.  No filme, com Binoche e Irons,  quase não se percebe que a principal figura causadora da desordem e expressiva da violência era a pesonagem da Binoche, com seu passado trágico impelindo-a à sedução de pai e filho. Como interrompermos estas redes causais num ponto e estabelecermos onde começa a liberdade responsável e onde temos meramente cidadãos comuns sendo levados pelas torrentes passionais?  Como escreveu um dia o Millor: " a morte é hereditária"...

    Melhor do que nossas opiniões ( que importam enquanto rascunhos ou exercícios, treinos de jogo...) são nossos testemunhos porque estes vem de algo que vivemos ou presenciamos de perto.  Como o que Gallego observou sobre a diretora do filme que Katia e ele assistiram.

    Não estou relativizando as questões morais, espero que não.  Apenas penso que há algo inaccessível no absoluto quando tentamos opinar como se tivéssemos acesso àquela perspectiva onipotente. Tudo o que dissermos será relativo porque somos um pedacinho ínfimo de vida, mas, ao mesmo tempo, temos coração e mente ( desculpem-me pelas palavras pegajosas) para nos referenciarmos no absoluto, mesmo que esta dimensão continue inaccessível para nós.  É como o que os antigos descreviam pelo termo " ordálio" - muito embora mesmo ali, com a luta corporal de um cavaleiro contra outro para defender uma donzela ( por exemplo), para quem não estava sujeito à religião vigente, a coisa não era diferente do exercício da lei de talião: um corpo pela honra da moçoila vilipendiada.  Se lembro da cena no Lohengrin, com o cavaleiro do cisne defendendo Elza,  no entanto, só consigo pensar dentro daquele contexto, de mito do Santo Graal e de uma ópera wagneriana.  Há um outro tipo de defesa, não sei se chamaria Ordálio pois o contexto não era referido a um Deus, que me apaixonou mais no passado.  No filme "Iphigenia" ( sempre esqueço o nome do diretor, não foi Costa Gavras, não é Gallego?) há um momento no qual a princesa condenada a ser sacrificada pelo pai, AGamemnon, a partir de uma manobra política traiçoeira, encontra em Aquiles seu defensor.  Ele pretendeu engajar-se na luta por Iphigenia simplesmente porque percebeu que ela fora enganada a partir do nome dele ( ela havia sido atraída ao acampamento dos soldados pretensamente para casar-se com Aquiles). Isso, sim, é um valor para mim. Mesmo eu não entendendo direito o que se passa com estes tais meus "coração e mente" ...

     

     

     


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    [Aeternus:7505] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-06-15)


    - RE: o julgamento

    ...é uma das obsessões em Camus.
    Jansy aborda com bastante propriedade e justa medida as várias sutilezas que regem sua complexidade. E, ao contrário, não dar atenção a isto é assumir uma postura, um ser-no-mundo, de vocação niilista.

    "Iphigenia" foi excelente, e dirigido por mim, sob o cognome de Michael Cacoyannis. A atriz me fez chorar, e era Irene Papas. Fiz mais sucesso com "Zorba, o Grego" mas prefiro "Iphigenia".


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    [Aeternus:7506] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-15)


    - RE:RE: o julgamento do Caco Florião em Iphigenia

    Como é que eu poderia ter esquecido que o nome era Cacoyannis?
    Não sei o nome da jovem atriz que faz Iphigenia, mas a cena na qual ela implora aos pés do pai é muito forte. Acho que não senti tanta pena da mãe, Irene Papas, sempre intensa e com o "physique du role" nos intensos olhos negros e pintados ao modo oriental.  Enquanto foto de "Pietà", a que barrou todas foi a de uma mãe russa afagando o rosto da filhinha que foi morta durante um ataque a uma escola. Talvez ainda tenha a reprodução nos arquivos. Choro sempre que olho. A ternura conformada da despedida...


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    [Aeternus:7507] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-15)


    - tirei a foto do arquivo...

    Apesar de guardar tudo nos meus arquivos, aquela especial foto de Beslan desapareceu. Creio quer não suportei guardá-la, desconfiei disto.
    Enquanto buscava, encontrei outra ilustração, dando uma virada total ( deve ser parte do mecanismo das várias negações), anexo uma foto futebolistica que retoma sua atualidade... 

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    [Aeternus:7508] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-15)


    - RE:Instintivismo e uma recente notícia

    O site do "Terra" perde qualidade a olhos vistos ( agora prefere priorizar mulher pelada, futebol e besteiras nacionais no lugar do espaço para o mundo e informações mais sérias) e, não contentes, os programadores impedem que se copie uma porção de coisas, ao contrário do que era possível obter antes. Daí que não tenho senão minha própria redação e os limites dos dados que encontrei para a notícia que hoje encontrei por lá, com video de útero e tudo.Texto que é bom, escasso.

    Trata-se do nascimento de um bebê cuja mãe "morreu" ( morte cerebral) quando ele era ainda um feto de dezesseis semanas. Parece que o mundo comemorou mais esta conquista médica enquanto que eu fico espantadíssima com a história porque sem entrar profundamente nas propostas do "psiquismo fetal" e de algumas idéias de Bion, ainda assim acho que um bebê precisa de se desenvolver em contato com corpo e mente da mãe.  O que estão fazendo com esta criança é um experimento assustador. Pior que aquele imperador, um Frederico II ou III, que tentou pesquisar se bebês nasceriam falando a lingua original ( que, para ele, era o latim eclesiástico) e pretendia anotar suas primeiras palavras antes que ouvissem qualquer voz humana.  As crianças recém-nascidas foram entregues aos cuidados corporais de freiras com votos de silencio.  Morreram todas!!!


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    [Aeternus:7511] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-06-15)


    - RE: Tatiana Papamoskou em Iphigenia

    Era o nome da linda mocita. Morena clássica, cabelo clássico no cacheado-curtinho. Nunca mais a vi, nunca mais teve oportunidades com as quais eu pudesse partilhar.


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    [Aeternus:7514] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-16)


    - RE:RE: Tatiana Papamoskou em Iphigenia

    Papamoskou é um nome inesquecível ( como Cacoyannis) e não sei como me passou em branco. Como a própria mocinha, que sumiu das telas brasileiras.

    Por ser ela tão morena clássica, contarei nova metapiada . 
    Um sujeito entrou num bar de lésbicas  e anunciou no balcão do bar:
    Vou contar uma piada de loura!
    A barwoman avisou: Olhaqui, eu sou loura. Minha amiga ali no caixa é loura. A segurança é loura. A cozinheira é loura e a garçonete também é.  Acho bom você não contar nada...
    O cara parou, pensou e decidiu:
    - Você tem razão. Seria enjoado ter que repetir a piada cinco vezes...


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    [Aeternus:7527] Mensagem do Grupo62
    -Conde Drácula(2006-06-20)


    - De homens e de ursos

    Bernardo Carvalho

    [Folha, terça-feira, 20 de junho de 2006]

     

    A relação que Timothy Treadwell (o "homem urso" do documentário homônimo de Werner Herzog) estabelecia com a natureza era da mesma ordem da fantasia de uma criança de cinco anos educada num país industrial desenvolvido. Tratava os ursos como animais de pelúcia. Queria protegê-los como quem defende seus brinquedos. E, como uma criança de cinco anos, usava essa fantasia para se defender da violência do mundo.

     

    Conversava com os animais e com a natureza. E a frase que mais repetia era: "Eu te amo. Eu te amo", com uma voz infantilizada que se justificava, em princípio, por seus vídeos (tudo o que resta da experiência trágica de Treadwell entre os ursos-pardos do Alasca está documentado em centenas de horas de vídeo, ao longo de 13 anos) serem dirigidos às crianças americanas.

     

    A relação que Timothy Treadwell estabelecia com a natureza (até ser devorado pelos ursos) era diametralmente oposta ao projeto de Werner Herzog. Durante as recentes filmagens de "Rescue Dawn" (o amanhecer do resgate), baseado na história real de um prisioneiro de guerra americano que conseguiu escapar ao cativeiro no Vietnã, carregando um companheiro ferido, o cineasta alemão submeteu equipe e elenco (encabeçado por Christian Bale) às condições mais inóspitas da selva tropical, na Tailândia. Já tinha feito o mesmo em "Aguirre, a Cólera dos Deuses" e "Fitzcarraldo", na Amazônia. Herzog sabe que a vida (e a experiência do herói de "Rescue Dawn" é emblemática) é resultado de uma luta permanente pela sobrevivência: não existe harmonia nem paz na natureza, por mais que os homens tentem projetar nela essa fantasia romântica. E acredita que a experiência artística deve estar submetida a um esforço análogo para poder representar a condição humana.

     

    É compreensível que a história de Timothy Treadwell tenha atraído a sua atenção. O documentário é quase uma ilustração admonitória do pensamento do cineasta. Se o homem não é bom, por mais que fale fino (como no caso de Treadwell), por que deveria ser a natureza? A grande diferença entre os projetos do ecologista e do cineasta (que Herzog não explicita no filme, embora seja o narrador e fale em primeira pessoa) é que, na sua confusão infantil e suicida (alguns entrevistados insinuam que Treadwell fosse um retardado), o pensamento do defensor dos ursos era de algum modo ainda mais radical do que o do diretor. Por uma simples razão: Herzog acredita no homem; o "homem urso", não.

     

    Todo o cinema de Herzog parte do pressuposto trágico de que ao homem só resta a arte (como desafio à natureza e à morte). Por mais que esse projeto pareça inumano, só pode ser resultado de uma fantasia humanista -uma das mais interessantes que o Ocidente produziu. À primeira vista, pode parecer um paradoxo que um escritor como Thomas Bernhard, por exemplo, morresse de rir (como ele próprio fazia questão de dizer) das situações sufocantes e dos personagens suicidas que criava. Ria da sua própria força de criação. Da potência de escrever sobre essas situações, de transformá-las em literatura, de sobreviver a elas. A obra de Bernhard desafia e contradiz o que está dizendo. Simplesmente por existir. A própria existência da arte desafia a realidade que a arte representa. É essa a redenção da tragédia.

     

    Treadwell vivia num pesadelo (e o filme dá várias pistas para o entendimento da perturbação psicológica do personagem) em que a arte nada podia, se é que existia, pois não passava de uma ilusão entre outras. Na sua loucura, não há redenção possível. Na sua doença, sob a aparência de um infantilismo grotesco, o que existe é um realismo imobilizador e sem concessões, onde só resta a morte.

     

    É essa, afinal, a grande diferença. Quando o espectador assiste à derrocada de Aguirre, destruído por um sonho louco, o que resta é o ato heróico do desafio contra o destino e a natureza. A condição do homem é essa luta, a despeito do fracasso. A redenção vem da beleza produzida pela consciência da condição trágica. Para Timothy Treadwell, em contrapartida, a fantasia de uma natureza harmoniosa apenas encobre o pessimismo mais radical, a negação mais absoluta da própria espécie humana e de qualquer projeto por ela concebido, a começar pelo pensamento trágico e pela arte. Uma descrença total na possibilidade do homem. Não é à toa que quisesse se fundir com a natureza e com os ursos. Não foi ao Alasca para protegê-los, mas para se matar. Herzog, ao contrário, filma projetos suicidas para sobreviver.


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    [Aeternus:7528] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-06-20)


    - RE:De homens e de ursos

    1. Comecei com numerações e vou adiante porque não sei deletá-las...Foi um escorregão digital e pronto, só começando do zero para me livrar desta "forma".
    2. Então, ilustre Homem-Morcego, hoje você retornou com comentários bastante instigantes sobre Werner Herzog, o conceito de arte e o bicho-homem.  Não assisti o filme que você discute e, reconheço, tenho dificuldade para ver histórias com animais e gente "inocente" ( tolos ou loucos).
    3. Do Werner Herzog creio que vi apenas "Fitzcarraldo". Já não me senti forte suficiente para o "Aguirre" (ambos com o antipático, mas intenso Klaus Kinski).
    4. As dores na natureza (conceito questionado por um francês, acho que o sobrenome é Clementis, curioso sobrenome se for o caso. Como ocorreu com a tradução do "Ernesto/earnest" do filme que assisti, impossível preservá-la com o duplo sentido e portanto, transformando o personagem num tal de "Prudente" - ou seja, em português a obra fica como " A importância de ser Prudente"...) são insuportáveis pra mim. Desde "Bambi" que me aterrorizo com incêndios e o horror só fez crescer nos últimos anos. Havia queimadas no começo da seca, em áreas descobertas perto da minha casa. Cobras, lagartos e escorpiões vinham nadar na piscina ou se refugiarem nos sapatos, mas, mesmo assim, não me organizei para exterminá-los. Ás vezes levávamos um susto, esmagávamos um deles com os chinelos e pronto. Tinha comigo um estoque de soro anti-ofídico e até acreditava que seria útil. 
    5. Sem adorar os jardins arrumados, como os de Versailles, ainda assim não gosto muito da natureza virgem e selvagem. Não acredito que se possa definir um bom ator, nas situações extremas demandadas pela filosofia de Herzog, pela sua coragem física... Prefiro a arte como uma janela para outras realidades.
    6. A loucura, como o amor, abre portas para dimensões humanas insuspeitas e, a meu ver, o caminho da arte poderia retratar ou expandir as conexões mágicas que se percebe nestes estados alterados da consciência e sem recorrer ao surrealismo. A "realidade" basta por si só!
    7. Fica a rica idéia do Conde sobre cinema e arte, com sua tangente para a dor e a morte.  

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    [Aeternus:7810] Mensagem do Grupo62
    -Conde Drácula(2006-08-07)


    - Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

    Uma amiga me diz que tem uma fase que a muié fica numa espécie de limbo... os homens de 40 querem as meninas e os moleques têm medo das mulheres + maduras. É uma hora esquisita essa... Talvez tenha que aparecer um sapo mesmo.

     

     

    Xico Sá

     

    Nada como uma legítima afilhada de Balzac.

     

    Por mais que o apelo das ninfetas seja sempre renovado nos sermões da mídia, as balzaquianas sempre terão o seu lugar mais nobre no altar das nossas devoções, intimidades & lindas pornografias.

     

    O melhor de tudo isso é que a discípula de Balzac esticou lindamente a sua beleza e sobrevida. Se no século XIX, o conceito ficava restrito a uma mulher de 30 anos, não mais que isso, o balzaquianismo hoje, com o avanço da ciência e dos cosméticos, começa dos 40 para cima, idade em que elas estão “no ponto” para uma madureza ainda mais bela e tentadora.

     

    Desde a Lolita de Nabokov que o encontro de um homem maduro com uma gazela em flor rende bons dramas, teatro, cinema, novelas...  além de riscar, num bater de cílios, o fósforo do desejo no cocoruto de mocinhas, senhores grisalhos ou cafas propriamente ditos.

     

    Reparem no caso do tio (Edson Celulari) e a viçosa Lurdinha (Cleo Pires), no folhetim de Gloria Perez, “América”.

     

    Mas Lurdinha chega a ser interessante não apenas pela contagem dos anos. A morena da praia vale porque não é simplesmente uma ninfeta. Trata-se de uma lolita.

     

    Para ser ninfeta, basta ter pouca idade e frescor; para ser uma lolita é preciso ser uma menina má, impiedosa, de modo a ferver a testosterona no juízo alheio, como no modelo clássico e nabokoviniano.

     

    Carece ter, como na lição de “Mon amour meu bem ma femme”, peça bregolírica de Reginaldo Rossi, “esse corpo de menina, e esse jeito de mulher”.

     

    Uma ninfeta pode ser tão-somente uma menina chata, cri-cri, cheia de nove-horas e catchup até na alma. Raramente uma ninfeta se torna uma lolita, são poucas, embora muitas acreditem que estão sendo o máximo.

     

    Mesmo assim, com toda maldade de uma lolita como Lurdinha, nada se compara a uma afilhada de legítima de Balzac. Jamais vale a pena trocar uma mulher dessa faixa, com seu ritmo e o seu luxo de existência, por duas de 17, 18, 20, como sugere a clicleria do ramo.

     

    Muitos homens caem nesse conto óbvio da pouca idade, largam precipitadamente as suas fêmeas, enfiam-se debaixo dessa arapuca amadora do desejo como um pássaro amador e faminto. Seria o Inconsciente incendiado pela invenção do incesto?

     

    O pior é que a explicação talvez não seja tão freudianamente sofisticada assim. Homem é tão retardado e demora tanto para crescer que, mesmo depois dos 40, se encanta com gazelas que têm, de alguma forma, a sua idade mental, a sua falta de madureza.

     

    Ah, nada mais irritante do que a pressa de viver e o sexo fast-food das ninfetas.

     

    Não têm paciência sequer para um jantar demorado, com drinques e boa conversa. Não têm a linguagem amorosa do diálogo e estão longe de saber o que seja minimamente um companheirismo.

     

    Não têm sabedoria nem mesmo para dormir de “conchinha” ou “colherzinha”, o lindo sono dos amantes de verdade.

     

    Ah, velho Balzac, comigo a beleza tem mão contrária: troco fácil, fácil, uma dupla de gazelas por uma só criatura da tua costela.

     

     

     

     


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    [Aeternus:7811] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-08-07)


    - RE:Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

    Gallego, quem cantava isso, era um tal de Eltinho?  " Você menina moça, mais menina que mulher, confissões não ouça, abra os olhos se puder Tudo tem seu tempo certo, tempo para amar. Coração aberto vai chorar" Era o mesmo, me parece, que cantava algo como " eu e você, mulher de trinta"?

    Conde, você não conhece a piada do homem que deixou bilhete avisando à sua mulher que a abandonava por uma ninfeta e ela, na resposta, disse que fazia o mesmo. Depois comparou a "uma por noite" que ele conseguiria com a jovem e as várias que, no caso dela com seu garoto, aconteceriam com ela...

    Tudo tem seu tempo certo!


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    [Aeternus:7812] Mensagem do Grupo62
    -LFGallego(2006-08-07)


    - RE:RE:Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

    Quem cantava "Mulher de Trinta" era o Miltinho, magrelo, com bigodinho e voz metálica-anasalada que havia feito sucesso cantando "Devaneio" - uma letra sem pé nem cabeça
    (Era a saudade do passado.
    Era um olhar em meu caminho...
    agora sombra do passado,
    é uma sombra de lado,
    já não vivo sozinho...

    É minha crença e no que creio.
    É a certeza de que és minha...
    meu sonho lindo, devaneio,
    amanhã é você, só você,
    vida (ou minha?) inteirinha...)

    - ele ainda era "crooner" de um conjunto de boite à moda do Waldir Calmon (piano), que era o do Djalma Ferreira (eu acho, órgão elétrico, novidade na época), dono da boate "Drink", onde hoje se ergue o Méridien Hotel. O Waldir tinha a sua boate "Arpège" numa ruazinha quase ao lado, no Leme, talvez o iníciozinho (ou finalzinho) da N.Sra.Copacabana que é separada do restante pela Av. Princesa Isabel onde ficava a "Drink" (depois "Cangaceiro", depois "Barroco" antes de virar o "Méridien").
    Depois, o Miltinho tocou em todas as rádios com "Mulher de Trinta", contemporânea atemporal da "Menina Moça" que quem cantava era o Tito Madi (o mesmo de "A noite está tão fria, chove lá fora e essa saudade ingrata não vai embora...") de voz mais suave, "voz de travesseiro" como diziam na época. sEGUE-SE PRIMEIRAMENTE A BALZAQUIANA, A  DE TRINTA

    Você mulher
    Que já viveu
    Que já sofreu
    Não minta
    Um triste adeus
    Nos olhos seus
    A gente vê mulher de trinta

    No meu olhar
    Na minha voz
    Um novo mundo sinta
    É bom sonhar
    Sonhemos nós
    Eu e você
    Mulher de trinta

    Amanhã sempre vem
    E o amanhã pode trazer alguém

     AGORA, A "Menina Moça"

    Você botão de rosa
    Amanhã na flor mulher
    Jóia preciosa cada um deseja e quer
    De manhã banhada ao sol
    Vem o mar beijar
    Lua enciumada noite alta vai olhar

    Você menina moça
    Mais menina que mulher
    Confissões não ouça
    Abra os olhos se puder
    Tudo tem seu tempo certo
    Tempo para amar
    Coração aberto faz chorar

    A lua, o sol, a praia, o mar
    Lição de Deus:
    A vida é terna para amar


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    [Aeternus:7813] Mensagem do Grupo62
    -Honoré De B.(2006-08-07)


    - RE:RE:RE:Mulher de 30 - ou um dedo de prosa com o velho Balzac

    A juventude tem uma beleza própria. Mesmo as (ou os) jovens que nunca serão exatamente bonitas(os) costumam ter um frescor na juventude que é qualquer coisa de irreproduzível (literalemente).
    Mas quando são do tipo "mais bonitas ainda",  as  mulheres de 30 sempre me pareceram estar no auge.
    Quando não havia tanta plástica, as musas do cinema do meu tempo de garotão taradão (1965, por aí) estavam chegando aos 30. É só ver as fotos ddaquele período da Sophia Loren (de 1934), da Elizabeth Taylor (de 1932) , da Audrey Hepburn (de 1929), cada uma com seu estilo e jeito de ser bela naquela época do início dos anos 1960. Estavam mais lindas do que antes (e do que depois, ça va sans dire). Estou falando de rostos. O corpo era tão ocultado ainda que só interessava o estilo "violão" em roupas apertadas e moldadas à la Marylin Monroe.
    As belas de rosto não faziam ainda tantas plásticas que hoje fazem com que atrizes tenham 60 anos com um corpinho de 40... nada prá se jogar fora: tremendo caldo!
    Nada contra as jones raparigas em flor, merecem toda a admiração, claro! Mas nada contra as do Monsieur Balzac que sabia de tudo sobre o "grande encontro" eles&elas.
    Para os mais jovens do que eu, confiram as francesas na casa dos 30: Catherine Deneuve, Juliette Binoche, Emanuelle Béart. Sem esquecer a bela Claudia Cardinale que tirava até o gay Visconti do sério.

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    [Aeternus:7814] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-08-07)


    - RE:Mulher de 30 aos olhos de um cinqüentão

    Os tais '30' balzaquianos tornaram-se elásticos, condescendentes !...
    Sinal dos tempos, tá. Ojeriza pela velhice. Mme.Deneuve continua linda, pletórica e tudo. Bons restaurants, o abandono natural de rigores dietéticos e em fisiodinamismo.
    Mme.Binoche encontra-se rechonchudinha, comme on a vu en "Caché". Ela faz o gênero macia-gostosa, mas em minhas fantasias fantasiosas vejo-a mais inclinada ao sexo-cabeça do que(deixa pra lá).
     
    Pessoalmente leio o esplendor feminino entre os 25/26 e os 40. É o período das grandes transformações e acontecimentos.
    O que o antecede é demasiado deslumbrado, o que o sucede geralmente demasiado pesado, pra não dizer amargo.
    Novamente em minhas fantasias, minha balzaca-musa predileta é a Nicole Garcia, atriz e diretora francesa. Fanny Ardant, la plus belle des belles, entrou para o clube das magrelas sem graça do rosto para baixo.
    Quanto às pré-25/26 e as inside tempest, eu tomaria demasiado espaço e precioso tempo dos amigos da lista. Ficam para o cotidiano, em meus impulsos de maior ou menor grau maniatiforme.

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    [Aeternus:7815] Mensagem do Grupo62
    -Zé Ramalho(2006-08-07)


    - RE:RE:RE:RE:Mulher de 30 - data venia

    Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor...

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    [Aeternus:7818] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-08-08)


    - Sonny goes home

    Resgatando o passado, assisti ontem um filme dirigido pelo Nicolas Cage, "Sonny"(aqui "Sonny, o Amante").
    É de 2002, e centrado num rapaz educado para ser michê. As linhas de diálogo em inglês o tratam várias vezes de whore ao longo, em alusão (?)pejorativa. A ação passa-se em 1981 - pré-AIDS - e em New Orleans, com seu ar decadente natural, agora definitivamente acentuado pelo descaso do governo americano e por crônicas de catástrofes anunciadas.
    Nada de muito novo no drama, não fosse a figura da mãe(protagonizada pela magnífica Brenda Blethyn)tratar Sonny como um     'projeto' sério. Ela mesma adestrou-o na difícil arte de seu 'ofício', e vê-se dependente do filho para algum provento de apoio em sua difícil vida financeira.
    O início da ação traz Sonny de volta de um estágio no Exército. O rapaz está tentando mudar de vida. A mãe explora de forma quase despótica uma jovem moça local, atraente e pobre. Sentindo-se insegura, esforça-se para Sonny retomar sua clientela em New Orleans. Renegada a princípio, vê-se vencedora após o rapaz desiludir-se com a falta de oportunidades em empregos com os quais contava, o que o leva de volta à 'vida fácil'.
    Um tipo peripatético feito pelo ótimo Harry Dean Stanton está sempre pelas cercanias tentando ajudar essa mulher, embora precise ele mesmo mais dessa ajuda. É preso toda semana, envolvido em pequenos furtos, e tenta melhorar seus aportes no jogo carteado.
     
    O próprio Cage faz uma ponta como 'Acid Yellow'. Irreconhecível, com uma roupa acolchoada toda no referido amarelo e parecendo um disforme canário obeso, recebe o herói em seu reduto cheirando e elogiando as virtudes da cocaína.
    Resulta curioso em todo esse desgraçol o tom de redenção que atravessa todo o drama. Há um apego muito forte á vida, ainda que esta se mostre rasteira, injusta no senso unfair, um incessante destruir de sonhos e esperanças. Numa seqüência próxima ao desfecho, a moça caftinizada(Mena Suvari) pede encarecida e desesperadamente a Sonny que diga que a ama, que tudo dará certo. "Eu sei que você não acha isso, mas diz ! Eu preciso ouvir !"
    Cage consegue ainda uma interessante abordagem do vazio e solidão afetiva/sexual de cinqüentonas-pra-lá que percorrem a trama. A veterana Brenda Vaccaro é uma destas. Escapadelas regiamente pagas a um Sonny outrora eficiente e tranqüilo, ora conturbado e temperamental.
    O ator James Franco, no papel central, tem o perfeito physique de rôle : tende ao esquálido, ao plastificado. O excelente elenco encontra nos miados, choros e histéricas alternâncias de humor de Brenda Blethyn o destaque natural. Há em sua personagem um apêgo inexplicável à vida, uma capacidade que parece inesgotável de iludir-se de novo e de novo...
    Como isto também ocorre com a moça por ela explorada, as forças derrotistas aglutinam-se no lado masculino. No miolo do filme o personagem de Harry Dean vaticina para a posteridade, numa conversa en passant íntima, que "a vida é só isso mesmo", referindo-se ao que acontece no mundinho local e às maiores ambições e sonhos de Sonny.

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    [Aeternus:7819] Mensagem do Grupo62
    -LFGallego(2006-08-08)


    - RE:Sonny goes home

    Assisti este filme no Telecine ou aluguei ainda na época do VHS, não me lembro. Mas estou quase certo de que não passou nas telas cariocas ou brasileiras. Nem o nome do diretor que é ator de bilheteria funcionou. Deve tb ter fracassado nas bilheterias americanas. É isso aí: como meu cult movie "Alice e Martin" (sem querer compará-los; "Alice e Martin" é um "filme maior"), tanto drama humano cotidiano não cabe nas telas dos cinemas, mesmos nos "de arte" do chamdo "circuitinho" que não se interessa mais pelo "demasiadamente humano" levado a sério. Porque mais do que revelar o drama dos prostitutos e prostitutas ecafetinas, o filme, sem moralismo, desvela a carênciae marginalização tanto dos clientes como dos "profissionais", além de demonstrar o caminho no way out da vida "fácil" em termos de resultados financeiros mais imediatos. A prostituição é como certas drogas nem tão pesadas que ficam marginalizads apenas por serem "ilegais" enquanto os malefícios evidentes do cigarro e do álcool legalizados (e rendendo altas granas para os Estados e governos) estão aí. Não há como evitar certas coisas na comunidade dos macacos homo sapiens (?) e o moralismo é o pior caminho de "disciplina" coercitiva até porque ineficaz. O "mal-estar" na civilização é mais amplo ainda do que o que Freud resumiu. O paradoxo está aí e ninguém dá conta.
    Os comentários de Marcos sobre o filme são de uma precisão absoluta. Eu confesso que me deixei envolver pelo clima de melodrama "cool" competente e sério sem conseguir refletir nada e nada teria a acrescentar ao já dito sobre os atores excelentes em seus personagens (filme da ator dirigindo parece ter esse dom de extrair o melhor ainda dos atores que trabalham com um diretor-também ator), roteiro, câmera, fotografia e clima emocional. Vale a pena ver e rever, apesar do nó que dá, não no peito nem na garganta, mas no cérebro emocional. Seja lá o que esteja eu tentando dizer.

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    [Aeternus:7820] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-08-08)


    - RE:RE:Sonny goes home

    Talvez mais grave do que as inevitáveis guerras mundo afora, de cunho religioso e/ou econômico, seja o desdém pelas desigualdades dentro das sociedades.
    Ao contrário de mover-se esforços no sentido de torná-las mais justas, no entanto, aprimoram-se os 'mecanismos de defesa' dos abastados. Li ontem que o desemprego real está em torno de 20% aqui no Brasil, o mesmo nível alarmante espanhol e praticamente europeu em geral.
    A maioria dos jovens não mais sai de casa, uma vez adultos. Não que fosse uma obrigação fazê-lo, mas nem sempre o fato acontece por opção : trata-se de viabilizar sobrevivência, em muitos casos.
    Se não bastasse isso, temos também um amplo domínio do sub-emprego. Se é exagerado falar em escravidão, não parece tanto afirmar que estamos quase nos níveis desta dentro dos mercados de trabalho.
     
    A prostituição e a droga entram, pois, como um perfeito lenitivo a princípio nesse cenário. Chegando logo logo ao desvario da criminalidade, óbvia. Encomenda-se assassinatos, atualmente, por R$200,00. Não faltam os 'Gambazinhos' e 'Melecas' da vida para assumir riscos - uma cafungada resolve hesitações - e realizar a façanha.
     
    O Sonny de Cage atingiu o ponto-de-não-retorno, o idealizado por Kafka.
    Seria possível, com um bocado de psicanálise, 'trazer de volta' alguém assim para uma vida produtiva ? Afora as evidentes dificuldades em questão, esbarra-se na que citei acima : a pessoa é convidada a competir em sociedades de cartas marcadas ! A marginalidade é sua vicariante natural, 'justificada' por um simulacro a nós vendido como probo.

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    [Aeternus:7821] Mensagem do Grupo62
    -LFGallego(2006-08-08)


    - RE:RE:RE:Sonny goes home

    Marcos escreveu anteriormente sobre o filme do Nicolas Cage:
    O Sonny de Cage atingiu o ponto-de-não-retorno, o idealizado por Kafka.
    Seria possível, com um bocado de psicanálise, 'trazer de volta' alguém assim para uma vida produtiva ? Afora as evidentes dificuldades em questão, esbarra-se na que citei acima : a pessoa é convidada a competir em sociedades de cartas marcadas ! A marginalidade é sua vicariante natural, 'justificada' por um simulacro a nós vendido como probo.

    Primeiramente a pessoa só volta (se volta) para onde ela almeja voltar, só chega (se chega) aonde ela tenta chegar. Esta premissa é imprescindível para se realizar uma pretendida mudança psíquica com modificações também na vida manifesta.
    Mesmo querendo dar uma reviravolta no point of no return e forçar um retorno, isso pode não vingar, tal o estado de deformidade na vida de relação com o outro que a prostituição pode trazer: o outro passa a ter apenas valor de troca,  tanto para o cliente como para o profissional da intimidade sexual; as "quebras" nesse "contrato profissional" ou seja, os envolvimentos amorosos) costumam ser de natureza romântica, idealizada quando não profundamente neurótica - no sentido de ações manifestas sem consciência alguma de motivações profundas inconscientes (ver Freud em "tipos de relação amorosa" ou um título semelhante que não recordo no momento). Raramente "dão certo" essas "salvações" (pretensas curas?) pelo "amor" como forma de idealização imaginária e que não seria de fato algo mais próximo do amor enquanto consideração pelo objeto de amor sem deixar de considerar a si mesmo numa expectativa de encontro recíproco.
    Quanto à sociedade de cartas marcadas, volto a recomendar o filme "Amigo é prá essas coisas", comédia (ma non troppo) francesa (surpresa!) com viés chaplinesco de fazer rir de coisas sérias, de falar de coisas sérias através de um sorriso compreensivo ainda que não complacente com as "saídas" marginais às quais os menos favorecidos estão sempre tentados a utilizar.
    Muito diferente da postura anética do filome "O Homem que copiava" onde crimes (ainda que contra traficante assasino ou pedófilo) redundavam em grana suficiente para os jovens brasileirinhos do Sul visitarem o Rio em alegria plena sob os braços abençoadores do Cristo Redentor. para os jovens do filme francês o buraco ficou mais embaixo...



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    [Aeternus:7822] Mensagem do Grupo62
    -jansy mello(2006-08-08)


    - RE:RE:RE:RE:Sonny goes home/point of no return

    Como não vi o filme dirigido pelo Nicholas Cage ( a cada dia fica mais difícil pra mim suportar certas histórias com suspense ou tragédia, mesmo no cinema ou talvez, principalmente no cinema ), não posso acrescentar quase nada ao rico debate entre Gallego e Florião, apesar do link com Joseph K.

    Há tempos li um livro do Frijof Kapra chamado "ponto de mutação" e sei que deve ter relações entre física quantica e taoismo, ou budismo. Me esqueci de quase tudo, mas a idéia do título ressurge em várias outras leituras. Já vi aplicações sobre o momento em que um elemento químico ( não sei se é o uranio, plutônio ou todos eles) deixa de ser o que é para começar a se "irradiar", sem retorno, aplicações teorizando sobre a vida humana e a matemática. Não deixa de ser uma idéia cristã, também, se pensamos nos sermões do Vieira insistindo que o fator decisivo em nossas vidas está em como elas terminam: na graça ou fora dela. Basta bobear no último suspiro e estaríamos condenados, apesar da vida virtuosa até aquele instante diabólico. Este é um "point of no return" que nem Jó precisou viver.

    Quanto aos marginalizados ( gostei das observações do Florião sobre o que a atual sociedade brasileira vem deixando acontecer sem se perceber à mercê das forças do mercado global )...não sei não. Tantos são os que resistem ao mergulho degradante na prostituição e nas drogas, quase todos anonimos e muito vivos ( no filme da catadora de lixo de lindo nome que esqueci, Gallego, ela não é uma heroina no sentido adjetivo?) Assim como aqueles da "pobreza com guarda-chuva" da imagem pungente do E.M.Forster que pouco possuem além da vergonha e do guarda-chuva roto? 


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    [Aeternus:7824] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-08-09)


    - RE:Sonny goes home/ética&fantasia

    Nesses escudos defensivos que cada pessoa usa para 'enfrentar o real' há muitas sutilezas. Como a diferença entre a postura de Sonny, que em todo o drama sabe-se 'marginal' em sua carreira de michê e uma vez marginal sempre outsider. Algo do que envergonhar-se.
    Já a moça caftinizada pela mãe do rapaz, a nível consciente e sistematizado de forma acomodatícia, vive em dois compartimentos estanques : o da concessão que ora faz de seu corpo ao establishment, e o do vislumbre da redenção, que ela atingirá mais cedo ou mais tarde, em suas fantasias. Próximo ao final ela verbaliza a Sonny "ou você acha que vou passar minha vida toda vendendo meu corpo por aí?", para em seguida dizer algo similar a "eu sou uma mulher ! Quero ter um filho, quero ter uma vida !".
    Enquanto a concessão ao sistema é mortificante para Sonny, para ela é um mero meio facilitador/transitório para uma vida melhor. Ela consegue ser 'bem puta/uma boa puta', e ao mesmo tempo manter-se 'bem digna/viável' diante de si mesma...

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    [Aeternus:8102] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2006-10-03)


    - Disfarce

    ADRIAN MITCHELL

    Todas as manhãs depois de lavar com xampú o meu pêlo
    visto a minha pele humana e
    ponho a máscara humana e as roupas humanas
    e depois vou para a cidade humana
    e apanho o ônibus humano para ir trabalhar

    Quando me sento no computador
    vendo as imagens do mundo financeiro
    nenhum dos meus colegas sabe
    que dentro das minhas luvas humanas
    estão as patas grossas
    afiadas e peludas
    de um urso pardo

    É verdade, sou um urso com um disfarce bem astuto,
    fingindo que sou humano
    tentando não ceder à tentação
    quando passo pertinho
    dos bolos de creme na padaria
    e dos favos de mel na loja de produtos naturais

    Sou casado com uma mulher que conhece o meu segredo
    temos uma filha humana
    que tem pêlo como nós e olhos profundos e dourados
    e delicadas patas

    Chamamos-lhe Brunilda

    Uma vez levei a Brunilda ao circo
    e no circo atuava uma ursa
    às piruetas num monociclo entre rodas de fogo
    ou dançando ao som de um acordeom

    Eu fiquei ali muito quieto
    ela podia muito bem ser minha mãe
    fiquei ali muito quieto
    enquanto por dentro da minha máscara humana
    corriam as lágrimas de um urso
     

    [Tradução de Helder Moura Pereira]

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    [Aeternus:8103] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2006-10-03)


    - todo dia sempre igual

    Acordo de acordo com o dia
    Não desperto com wake-up
    Nem me animo com wach auf
    ou éveillers franceses que   uw.
    Meu coração acorda com o dia
    E não me visto de humana
    nem me sinto extra-terrestre, apesar
    de sê-lo, sem saber de onde vim, pois
    faz parte fazer parte er .


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    [Aeternus:8104] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2006-10-03)


    - RE:todo dia sempre igual

    Acordo de acordo com o dia
    Não desperto com wake-up
    Nem me animo com wach auf
    ou éveillers franceses que  avaliam vésperas
    sem mais auspicios,
    Não me disfarço com make-up
    Meu coração acorda com o dia
    Sem que ponha máscara humana
    Sem que seja urso falante ou mostre
    olheiras e esgares por trás de meus
    olhos despertos.
    A máquina não me maquina
    engenhoca volante na terra ou no ar,
    minha sina está na linguagem
    que tudo domina ex machina.

    De manhã o acordo vem antes do acorde
    No espaço entre a vigilancia e a morte...


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    [Aeternus:8370] Mensagem do Grupo62
    -Marcos(2006-11-28)


    - a Leda e o Arppi Fº tinham razão

    Tá certo, a vida continua sempre. Precisamos nos adaptar às circunstâncias&novidades&tals. Mas confesso que me espanta a capacidade geral do exercer-se pusilânime no mundo atual.
    "Marcos, a gente se adapta a tudo na vida", disse minha primeira amada, há 35 anos atrás. Da mesma forma, o Romualdo Arppi Filho, árbitro de futebol que atendia pela alcunha de 'coluna do meio', um Tancredo Neves do esporte, adaptava-se a qualquer partida para que esta se direcionasse ao empate. O vento de seu apito dirigia-se francamente favorável ao time em desvantagem no placar, e uma vez empatada a partida, era o melhor árbitro de todos os tempos.
    Semana passada aconteceu uma festa rave em Niterói - sim, o que há de pior na sociedade americana logo é parodiado aqui ! -  num espaço público e sob os auspícios da prefeitura da cidade. Centenas de drogados/bêbados, ecstasyados e vodkados ao limite, foram atendidos. Sucesso total, pois. ( com Baudrillard, o sucesso de um show atual mede-se pelo número de assentos destruídos )
    Problemas com seguranças, pais 'avançadinhos' protegendo seus filhos ainda mais 'avançadinhos'. Tudo bem : o Brasil é livre até certo ponto, já temos assegurado nosso direito de morrer estupidamente. Pai nenhum quer nem ouvir falar de longe de conselho de alguma ôtôridade...
     
    Por lá, no país das maravilhas, da Fada Condolezza e do elegante Bush Jr., têm acontecido filmes bem 'compreensivos' e condescendentes. Hoje mesmo assisti "The Unsaid", com a galera jovem fissuradíssima nos arrepios do ecstasy, na sensação libertária de ser de qualquer um, dos beijos no 1º passante. Em sua tendência natural de apropriar valores, a sociedade escuda-se numa eficiente ( até certo ponto...) rede policial, com aqueles 200 carros de onde saltam 400 policiais de arma em punho, e assistência 'eficiente' médico-psicológica.
     
    Da mesma forma que a hybris libertária é ruim, também o é a repressão excessiva, todos ( ôps ! ) sabemos. Em "História e Utopia" Emile Cioran despeja 'as liberdades só florescem nos tecidos sociais frouxos. Tolerância e impotência são sinônimos.'  Talvez o ser humano esteja cansado de tanta liberdade, do 'vazio' da ausência do pecado, da impossibilidade de assumir culpas e defeitos. Somos cada vez mais probos, altivos e assépticos. Não existe pecado do lado de baixo do Equador, e menos ainda acima. Tudo está previsto e 'sob controle', amém.
    Até que...

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    [Aeternus:8600] Mensagem do Grupo62
    -Cássio(2007-04-24)


    - Pérola

    Numa clínica oftalmológica na avenida Brasil, pertinho de casa:

     

    "Astigmatismo-Hipermetropia-Miopia. Cirurgia personalizada".

     

    Ainda bem que a cirurgia é personalizada, né?...  Achei perfeito: o cirurgião tá lá pra atender ao cliente. Não há a pretensão de saber o que o cliente precisa, essa vaidade absuuuuuurda. Quem tá pagando é o cliente. E o cliente seeeeempre tem razão. Isto está acontecendo em todas as áreas, e é mais um avanço extraordinário que o Mercado nos proporciona.


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    [Aeternus:8645] Mensagem do Grupo62
    -Cássio(2007-05-29)


    - WILD HORSES

    Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo” (Walter Franco)

     

    Certa vez, um amigo me disse que esta frase já o salvou de incêndios, afogamentos & outros acidentes provocados pela solidão, pela tristeza e pelo cansaço.

     

    O mais fácil é a espinha ereta, né? Quanto ao coração tranquilo...

     

    BOM DIA!

    http://www.youtube.com/watch?v=EhVLiHPUOIM


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    [Aeternus:8655] Mensagem do Grupo62
    -Cássio(2007-06-11)


    - Para abrir uma 2ª feira como se deve

    Reparem... o grande Ben Webster solta uma Lágrima ao fim do solo do Teddy Wilson!!

    São verdadeiros deuses.

    Old Folks (6'39):

    http://www.youtube.com/watch?v=rQVVLAO-9LU


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    [Aeternus:8657] Mensagem do Grupo62
    -Cássio(2007-06-21)


    - Hmmmmmmmmmm!!


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    [Aeternus:8662] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-06-28)


    -

    ...

    As crianças sentem um prazer particular a esconder-se. E não para serem, por fim, descobertas. Este prazer reside no próprio facto de se esconderem, de se meterem no cesto da roupa ou no fundo de um armário, de se anicharem num canto do sotão até quase desaparecerem, uma alegria incomparável, um bater do coração especial, a que não estão dispostas a renunciar por razão alguma. É deste bater do coração infantil que provém tanto a volúpia com que Walser garante a condição da sua ilegibilidade (os microgramas), quanto o obstinado desejo de Benjamin de não ser reconhecido.

    Profanações de Giorgio Agamben



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    [Aeternus:8678] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-07-26)


    - Albert, Arthur & Fred

    Camus abre o 'Sísifo' dizendo que a única Questão filosófica realmente importante é o suicídio.  O Schopenhauer concluiu que o suicídio é algo estúpido, pra falar pouco. Diz: "Suicidar-se é uma insensatez e inutilidade; destrói-se de maneira arbitrária o fenômeno individual, mas a coisa em si permanece ilesa". Concordo com o Arthur. Mas... certamente "a idéia do suicídio é uma grandiosa consolação: auxilia a suportar muitas noites más", como nos lembra o Nietszche.
    Fico só com a idéia.

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    [Aeternus:8679] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2007-07-27)


    - do Zarathoustra aos mortais comuns

    Baudrillard, franco-conhecedor e quase franco-atirador a partir de Nietzsche, derivou matematicamente o tom lenitivo do Mestre : dá de ombros com seu 'ao sujeito resta sempre a morte'. ( quand même...)
    Leque aberto, de resto, desde há muito/muito tempo. Meu queridíssimo argelino, acostumado a acertar o relógio pelo último petardo que mandou pelos ares centenas de inocentes em seus pagos, junto aos culpados, insistia em glorificar a existência. Os existencialistas, do alto de sua intelectualidade e enfado, debruçados sobre livros e saberes, clamavam por liberdade até para tudo renegar, pelo direito de alguém desdenhar a vida. No auge do arrufo público com o pied noir, Sartre proclama 'diga-me Camus, o que há de tão errado em alguém abrir mão de sua vida.'
    O pragmatismo plastificado do americano põe no pedestal fenômenos como o de Christopher Reeve, o super-homem ironizado pelo destino, condenado a viver atrelado anos a fio à cadeiras de rodas, ultra-dependente de todos. Nosso boi bumbá tupiniquim vangloria-se ultimamente de 'jamais desistir'. Tornou-se nossa roupa da moda, o tal de 'jamais desistir.'
    Assisto o programa 'Ídolos', do SBT, criado a partir da idéia de um americano. Nele, levado a cabo em diversos países, milhares de jovens candidatos ao título entram num funil seletivo, que caminha de modo progressivo. Inicialmente jurados separam o joio do trigo, gaiatos de toda ordem dos verdadeiros talentos, até a fase final qualificativa, onde o público votante passa a definir os últimos finalistas.
    Conto isto para chegar à perplexidade diante da meteórica capacidade de absorção da frustração que o andamento natural do programa impõe ao candidato : se por um lado é do regulamento o trâmite que leva à eliminação, fico pasmo diante das nuances de superação propostas aos cortados : baixado o cutelo do voto do grande público, o infeliz ceifado é consolado pelos apresentadores, elogiado e homenageado com vinhetas de sua trajetória no concurso junto a abraços e mãos nos ombros - so far so good ? - , e adiante instado a emitir seu ( não lembro dessa metáfora ter tal similaridade com o real ! ) canto de cisne para a platéia, despedindo-se de todos.
    Claro - podem dar a volta por cima, tornarem-se um dia realmente ídolos. O que discuto aqui é essa recuperação atômica proposta à frustração ! À beira do resultado do escrutínio, os candidatos mudam a respiração, suam, choram, franzem as testas, dá pra ver até suas vísceras revirando...exercem-se humanos, enfim. Logo em seguida, no entanto, pede-se que sejam sobre-humanos. Se cantar já é difícil, imagine cantar despedaçado ! Va savoir.
    Resta ainda falar de ressureição, já que abordamos ceifamento de vida(s). Aqui a palavra não vale grande coisa. Como em Charles Dickens, onde candidatos a suicida sobrevivem a todos, temos exemplos diversos. Nossa grande atleta Maurren Maggi ( salto em distância&triplo ), flagrada em dopping por clostebol, uma andronolona encontrada em creme depilatório, proclamou há 3 anos 'nojo do atletismo'. Cá está ela, firme e forte, brilhando de novo...

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    [Aeternus:8680] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-07-27)


    - RE: dos mortais comuns ao Zarathoustra

    O coração é este almirante louco, meus amigos.

    Da existência, o que se pode esperar é que ao fim dela nada devamos: isso é ter vivido bem, sobremaneira(?!??).

    Nos dias em que Existir não convier, recomendo boa rede & um bom disco do Bix, Coltrane, Miles, Bandford, algo assim, talvez o Alone in San Francisco, do Monk... e, principalmente, abandonem os relógios nesse dia. Assim, Existir parece mais tênue.

    Porém... se por hora, meu caros, Existir tem sido sinônimo de correr pra lá e pra cá... que não seja em vão, pelo menos (rss...)

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    [Aeternus:8681] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-07-27)


    - Lafargue & Pavese

    Paul Lafargue (genro de Karl Marx) & sua mulher resolveram se matar aos 70 (SETENTA) anos pra evitar a decrepitude, os problemas de saúde da velhice. Taí outra razão, que sempre me instiga e causa perplexidade...
     
    Complicado, às vezes a corda fica bamba demais, não há nem como esticá-la, nem dar um nó mais apertado é então que - eu ACHO - ela se rompe. Não acredito que é o caminho + fácil, porém é bastaaaaante viável. Deve ser desgraçadamente cansativo ter que viver artificialmente, à base de medicamentos, exames estranhíssimos, possibilidades piores, transfusões de sangue, etc, etc, etc. 
     
    "Nunca falta a ninguém um bom motivo para se suicidar", Cesare Pavese.
    Esqueçamos tais motivos ou, pelo menos, que "seja apenas uma idéia".

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    [Aeternus:8721] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-09-18)


    - Eric, salvo pelo Jazz?

    Eu sempre aprendo bastante com Hobsbawn.

    Vocês leram o artigo no Estadão sobre ele. O texto menciona o rolo que ele se meteu em 1994, questionado pelo repórter da BBC se 20 milhões de mortes justificavam a criação de uma utopia comunista disse que "sim". Particularmente creio que a resposta não teve a dimensão malévola que transpareceu... O ponto interessante do texto é que o historiador jamis usou jeans, um símbolo escancarado do "imperialismo" USA. Mas... uma baaaaaaaaaaaaaita paixão do Hobsbawn é o jazz, uma genuína criação do império USA.

    Ó: "Convencido de não ser sexualmente atraente, eu deliberadamente reprimi a minha sensualidade física e meus impulsos sexuais. O jazz trouxe a dimensão da emoção física indizível, inquestionável, numa vida que não fosse isso seria quase monopolizada por palavras e os exercícios intelectuais."

    Êita!... Nós, seres contraditórios, Paradoxais (alô, Davy!). O que nos resta? Escutar Coltrane, num sofá confortável com jeans & um puro scotch? Cheers!

    Lições do paladino da persuasão

    Hobsbawm diz que quer 'ajudar jovens a enfrentar as perspectivas sombrias do século 21 com o pessimismo necessário'

    Paul Laity

    The Guardian 

    Quando o historiador mais conhecido do mundo se concentra nos problemas políticos de hoje, convém ouvi-lo. Eric Hobsbawm celebrou seu 90º aniversário este ano com um livro de ensaios, Globalisation, Democracy and Terrorism, no qual avalia o mundo desde os atentados de 11 de setembro, oferecendo lições 'que o autor aprendeu, não menos por viver durante e refletir sobre boa parte do século passado'. Como estudioso que não só tem sido uma presença formidável na disciplina histórica desde os anos 1940, como pode dizer que 'se lembra vividamente' da noite fria de inverno em que Hitler tomou o poder em Berlim, Hobsbawm sente-se qualificado a se afastar da cena contemporânea e observá-la 'num contexto mais amplo e numa perspectiva mais longa'. E sua reputação nunca foi tão alta, graças a seus dois livros anteriores: o relato best-seller do 'curto século 20', A Era dos Extremos (1994), considerado obra-prima; e suas memórias Tempos Interessantes - Uma Vida no Século 20 (2002), em cuja escrita ele supera os padrões já exigentes de um renomado estilista. A amplitude e poder de análise de Hobsbawm são inquestionáveis. Ele fala numerosas línguas, viajou por toda parte e se sente igualmente à vontade avaliando o regulamento Bosman de futebol enquanto explica colapsos do mercado acionário. Até a Spectator, uma revista seguramente hostil a seu comunismo impenitente, o considera o 'maior historiador vivo'. Ele está feliz por ter chegado aos 90: logo não será incomum, assinala, mas por enquanto isso tem um certo 'valor de escassez'. Hobsbawm quer nos ajudar a ver além 'das paixões e promoções de venda correntes' - preparem-se, porém: ele não contemporiza com 'devoções liberais'. 'Hoje se falam mais absurdos e tagarelices sem sentido sobre democracia no discurso público ocidental do que sobre quase qualquer outra palavra ou conceito político', insiste. 'O Islã fundamentalista não é um perigo, quando menos porque ele não pode ganhar nenhuma guerra.' Jovens 'lançadores de bombas fundamentalistas', diz ele, não são nada comparados ao Exército Republicano Irlandês (IRA). Ele descarta a idéia de que a ONU tenha alguma autoridade independente, e não tem tempo para intervenções humanitárias: 'A posição normal de qualquer Estado é perseguir seus interesses.' Hobsbawm avalia dilemas correntes com uma frieza e distanciamento que seus opositores políticos foram rápidos em identificar como um insensível marxismo de mandarim. Delicadeza não faz o seu estilo; ele segue, assim diz, as tradições do racionalismo iluminista e está frustrado com as recentes 'histerias' e o 'sentimento totalmente não estruturado de que 'alguma coisa precisa ser feita''. Seu objetivo, escreve, é ajudar os jovens 'a enfrentarem as perspectivas sombrias do século 21... com o pessimismo necessário'. Seu prognóstico certamente não é animador. Ele fala da 'extraordinária instabilidade da nova economia global'. O novo imperialismo americano está fadado ao fracasso. Ele teme desigualdades econômicas mais pronunciadas dentro de nações e um aumento da xenofobia no Ocidente, e consegue ver pouco futuro na política verde porque 'ela só tem apelo para pessoas prósperas'. Referindo-se à mudança do centro de gravidade econômico e tecnológico do Ocidente para Índia e China: 'Mais cedo ou mais tarde teremos que despertar para o fato de que temos vivido como príncipes e que isso não pode durar.'

    Tudo indica que o mundo moderno não agrada a Hobsbawm. Em escritos e falas sente-se sua nostalgia pelos anos entre 1945 e 1975, quando a guerra fria impunha alguma ordem na política mundial e os Estados-nações ainda não tinham sido enfraquecidos pela economia global neoliberal. Ele nunca usou jeans. E com o desaparecimento da classe trabalhadora industrial em mente, fala de viver no 'momento histórico em que as regras e convenções que haviam até então unido os seres humanos em famílias, comunidades e sociedades deixaram de operar'. 'São poucos os que conseguem ganhar a vida 'decentemente'.' Tudo isso é dito com pessimismo. Mesmo assim, Hobsbawm procura avidamente sinais mais esperançosos, e sua reputação de indiferença emocional é desmentida pela maneira luminosa com que fala dos acontecimentos recentes em Westminster. 'Gordon será uma enorme melhoria em relação a Tony Blair ('Thatcher de calças') porque conhece as tradições do movimento trabalhista e tem um senso de justiça social e igualdade.' É desmentido também por sua conhecida sociabilidade. Não uma, mas três festas de comemoração dos 90 anos foram organizadas para ele, e sua casa na borda de Hampstead Heath, onde vive com a segunda mulher, Marlene, é freqüentada por amigos famosos.

    Várias passagens em Tempos Interessantes deixam claro que a formação política de Hobsbawm não poderia ter sido mais emocionalmente carregada. É adequado que um homem que foi tão estreitamente identificado com o 'sonho da Revolução de Outubro' tenha nascido em 1917. Depois da morte de pais, ele se mudou de Viena para Berlim em 1931 para viver com uma tia e um tio: 'Esse foi o ano em que a economia mundial desabou, o momento histórico que decidiu a forma tanto do século 20 como de minha vida.' Em janeiro de 1933, Hobsbawm marchou como membro da juventude socialista durante a noite numa resposta desesperada a uma parada de massa das stormtroopers (tropas de assalto) nazistas. 'Próxima do sexo, a atividade combinando experiência corporal com emoção intensa ao mais alto grau é a participação numa manifestação de massa.' Três anos depois, quando sua família se mudou para a Inglaterra, Hobsbawm estava em Paris para 'as maiores manifestações de massa da esquerda francesa' - a celebração, no Dia da Bastilha, da vitória da Frente Popular. A esquerda estava unida contra o fascismo e a marcha foi 'inesquecível'. 'Eu apenas sentia e experimentava. Naquela noite, nós assistimos aos fogos de artifício acima da cidade de Montmartre e depois saí da festa e caminhei de volta por Paris como se estivesse flutuando nas nuvens, parando para beber e dançar em não sei quantos bailes. Cheguei a meu alojamento quando amanhecia.' Hobsbawm foi um enérgico comunista em Cambridge no fim dos anos 1930, mas nada na Grã-Bretanha poderia se equiparar à intensidade de suas experiências continentais - exceto o jazz, apresentado a ele em Sydeham por um primo. 'Convencido de não ser sexualmente atraente, eu deliberadamente reprimi minha sensualidade física e meus impulsos sexuais. O jazz trouxe a dimensão da emoção física indizível, inquestionável, numa vida que não fosse isso seria quase monopolizada por palavras e os exercícios intelectuais.' Nos anos 1950, Hobsbawm se dirigia ao clube de jazz de Ronnie Scott depois de lecionar, à noite, na Birbeck (Universidade de Londres) - escrevendo sob o nome de Francis Newton, ele foi durante algum tempo o crítico de jazz da revista New Statesment. Seu momento de maior orgulho, ele tem dito, foi receber um título honorífico ao lado de Benny Goodman.

    A 2ª Guerra Mundial causou-lhe um impacto particular: 'Eu vivia entre trabalhadores - predominantemente ingleses - e com isso adquiri uma admiração permanente, muitas vezes exasperada, por sua retidão, sua desconfiança das conversas fiadas, seu sentimento de classe, companheirismo e ajuda mútua.' Hobsbawm admitiu que se sentiu um pouco forasteiro durante toda sua vida, mas esses soldados, tratados em Tempos Interessantes como 'os rapazes' e 'colegas', devem ter reafirmado sua política aceitando-o como um deles.

    DE BAIXO PARA CIMA

    Não é por coincidência que, escrevendo história, ele atraiu, desde logo, um público fora da academia, e que todos seus livros refletem sua política revolucionária, ou ao menos de esquerda - embora milhões que os têm lido como textos estabelecidos possam não ter consciência disso. Ele foi um pioneiro da 'história de baixo para cima', uma abordagem influenciada pelas ciências sociais que dominou o meio por décadas.

    Rebeldes Primitivos (1959) e Bandidos (1969) tratavam de personagens das mitologias folclóricas de várias nações que se opuseram à opressão da elite. A Invenção da Tradição (1983), editado por Terence Ranger, explorou brilhantemente como rituais e práticas que alegam ser inatas e imemoriais (dos kilts escoceses à família real britânica) na verdade se desenvolveram recentemente e deliberadamente.

    Mas Hobsbawm foi mais conhecido durante anos por sua trilogia sobre o 'longo século 19'. Se a A Era da Revolução, A Era do Capital e A Era do Império são moldados por uma idéia, esta é a relação entre o surgimento do capitalismo e o desenvolvimento tanto da sociedade burguesa como do liberalismo político. Transformações sociais são interpretadas como sendo movidas essencialmente pela mudança econômica, mas não há nenhum estridor do maquinário dialético. Claro, o domínio do capital não significou em toda parte a substituição suave de governos aristocráticos, ou um triunfo sem esforço do liberalismo: a velha ordem só terminou com a crise de 1914.

    Hobsbawm foi um membro fundador do influente Grupo de Historiadores do Partido Comunista, com Christopher Hill, Raphael Samuel e E.P. Thompson, mas enquanto quase todos seus colegas largaram o partido nos anos 1950 e 1960, ele preferiu se conservar na agremiação, decisão que tem provocado perguntas incômodas. Por que, depois das revelações sobre as câmaras de tortura de Stalin e os acontecimentos na Hungria e em Praga, ele não saiu de uma organização cujo ponto principal era assumir orientação de Moscou? A publicação de A Era dos Extremos aguçou essa controvérsia, especialmente quando num Late Show da BBC2 em 1994, Hobsbawm respondeu à pergunta se 20 milhões de mortes seriam justificadas para criar uma utopia comunista dizendo 'sim.' Essa resposta foi posteriormente descrita como 'infame' por Martin Amis em seu livro Koba the Dread, e artigos escritos vergastando Hobsbawm como 'Professor de Stalin.' O historiador se esforçou bastante para esclarecer sua posição. 'Não consigo conceber como o que escrevi pode ser visto como uma defesa de Stalin.' Ele salienta, também, que o comunismo sempre foi muito mais que stalinismo, e assumiu várias formas no mundo. Se a sua decisão de permanecer no partido poderia ser satisfatoriamente explicada, seria em termos pessoais, que remontam à juventude de Hobsbawm em Berlim e Paris: foi mais difícil para ele romper com o partido do que para aqueles que vieram mais tarde e de outros lugares. Quase duas décadas se passaram desde o fim da União Soviética, e Hobsbawm é menos perseguido agora por essa controvérsia. Já não se diz um comunista porque, 'como programa político', o comunismo 'não está mais na agenda', mas continua firme contra a tentativa sistemática de transformá-lo em 'uma patologia política ou um pecado': foi uma 'boa causa'. Uma coisa de que ele não consegue se livrar é o hábito de querer 'persuadir além de expor'. Ele defende a necessidade constante da ação coletiva e pede a organização de sociedades para o benefício de todo o povo, e não simplesmente dos que acham o sucesso fácil. No momento em que faz 90 anos, ele reafirma a prescrição retumbante que encerra suas memórias: 'Não nos desarmemos, mesmo em tempos não satisfatórios. A injustiça social ainda precisa ser denunciada e combatida. O mundo não ficará melhor por conta própria.'

    Tradução de Celso Mauro Paciornik

    Tradução de Celso Mauro Paciornik


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    [Aeternus:8722] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2007-09-18)


    - RE:Eric, salvo pelo Jazz?

    Omar, seus comentários sobre Hobsbawn me fizeram lembrar uma explicação que o economista Mandelstam deu para sua paixão pelas histórias policiais ( publicou um livro inteirinho, agudíssimo, sobre o tema, sempre pedindo desculpas ...).

    Há um tempo escreveu-se sobre Henry Miller ( êpa, ou foi Arthur?) e a síndrome de Down. Me senti atraída por um livro escrito pelo atual prefeito de Roma ( esqueci seu nome) que relata, de modo surrealista, o clima político da Itália nos anos setenta ( com o affair Moro). Uma guinada na história se dá a partir de um diário de uma mãe que tinha um filho com síndrome de Down e o narrador, ele mesmo, tem uma filha Down.  Pensei em mencionar aqui, mas está tudo deslocado. Até meu livro, que ficou no consultório...Gostei da abertura falando da alvorada. Desanimei em seguida um pouco porque havia intenções didáticas forçando o texto, mas ainda aposto naquela alvorada que, aliás, da o título do livro ( algo a ver com "L' Alba") . Mesmo havendo uma referência ao Glauber, é engraçado o autor mencionar que não encontrou nenhuma referencia a Alba (Alvorada) no google...

    Incursões com scotch, jeans e jazz...estas ficam pro Davy,Florião, Gallego... Utopias idem.


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    [Aeternus:8723] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-09-19)


    - RE:RE:Eric, salvo pelo Jazz?

    Dora querida, isso foi uma crítica ou um elogio? Não que me ofenda, mas gostaria de saber.

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    [Aeternus:8724] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2007-09-19)


    - RE:, salvo pelo Jazz?

    Não, caro Omar ...não era uma crítica.

    Fiquei encantada com o livro do italiano, mas quando ele começou a descrever exatamente a parte sobre a filha dele, Sophia, que é Down ( é assim que traduziram), o tom ficou artificial e didático.

    Não tive tempo de continuar lendo, mas gostei da proposta geral de todo ele e apreciei as duas primeiras páginas enormemente.  Infelizmente, o livro continúa no consultório e não sei dizer nem o nome do autor ou o título corretamente que, por sinal, não fala em "alvorada", mas num "amanhecer" .Seja como for, recomendo-o só pelas orelhadas e o início.

    Recentemente, acho que foi num exemplar da revista Época ( da manicure!),  li uma reportagem sobre crianças com vários tipos de deficiência e que foram colocadas para competir numa corrida em uma Olimpíada especial.  Logo na hora da partida,  todas sairam em frente e uma delas caiu. As supostas  rivais pararam onde estavam e retornaram até a criança machucada para consolá-la.
    No pequeno texto havia dados sobre uma deficiência que leva a criança a criar laços com pessoas indiscriminadamente, sem reconhecer sinais de perigo.Ali também gostei de quase tudo, menos do final: uma espécie de exortação para a humanidade competitiva aprender com aquele exemplo ...

    ... É que minha cabecinha funciona críticamente, não necessáriamente em oposição ou sem respeito pelo autor.  Senti, ao ler o material da Época, que a apologia do final parecia afirmar que somos bons ou altruístas apenas por causa de uma falha neurológica....Talvez outros leitores não vissem do mesmo modo. Foi apenas uma nota em falso, na minha apreensão. Quem encontrar algum destes dois materiais e puder comentar mais precisamente, seria ótimo. Eu nem ia mencionar o segundo texto ( a autora é professora na USP, acho, mas estrangeira...não gravei nenhum detalhe melhor)... Não tem nada a ver com o livro do prefeito de Roma ( guardei este detalhe, lembro do rosto dele, um tanto das motivações políticas, dados sobre outras obras que não são de ficção ...mas esqueci o nome e o título da obra que comentei aqui.


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    [Aeternus:8726] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-09-19)


    - RE:RE:Eric, salvo pelo Jazz?

    Bacana o extremado Hobsbawn reprimido sublimando suas calças jeans em arpejos sensuais, solos gozosos & dissonâncias explícitas. Nunca tinha pensado nisso. Seus extremos seriam a metáfora de outros extremos pouco utilizados?


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    [Aeternus:8742] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2007-09-26)


    - A/C Theodor Wiesengrund Adorno

    Som na caixa - e divirtam-se, crianças: http://www.youtube.com/watch?v=YJmIN8RNBUg


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    [Aeternus:8912] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-01-22)


    - Decifra-me ou te devoro?!??...

    Tenho loucura pelo Mar. Aprendi por ad-miração, a respeitá-lo, olhá-lo de frente, a luz azul, grandioso, sinuoso, um útero às vistas, por tudo o que ele representa pro tanto de vidas que se formaram a partir de. Chega, não se precisa de mais nada para se afirmar que a Vida, em si, já é puro encanto. O trabalho é: ad-miração, ad-mirar.

    A gente pode deixar de tentar decifrar o mistério do Universo. Acho(?) que Ele não nos devorará...

    http://br.youtube.com/watch?v=IHRkMcVrt2w

     


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    [Aeternus:8915] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-01-26)


    - RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

    Caro Omar,

    desde que tivemos que usar um controle por webmaster para evitar que usuários não cadastrados usassem o site para enviar artigos ou imagens inconvenientes, alguma coisa a mais se complicou e a maioria dos participantes originais deixou de ter acesso à lista por alguma redundancia tecnológica.  Eu mesma raramente consigo acessar porque nem sempre uso um mesmo computador.

    Contava com a participação de novos inscritos, mas isto não vem acontecendo. Daí o silêncio. Seja como for, tanta coisa cotidiana e mesquinha há para devorar-nos que, concordando com você, não devemos temer este perigo vindo de alguma abstração misteriosa. 

    Vamos tentar ainda mais um pouco com o site, quem sabe algo se muove...


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    [Aeternus:8916] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-01-27)


    - RE:RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

    Dora, eu penso que um novo cadastramento, com identidade diferente, possa contornar o bloqueio do sistema, até que seja corrigido o problema.

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    [Aeternus:8917] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-01-27)


    - RE:RE:RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

    Obrigada pela dica Cely, mas a coisa não é tão simples. Tenho o mesmo problema com a Amazon, onde não consigo fazer compras. Fico esperando que o sistema me esqueça totalmente para então eu poder me recadastrar com nova identidade sem que pedaços de informação causem tilt no sistema.

    Veja o caso "Dora", por exemplo. Já é uma segunda entrada e que só funciona em um computador. Nas férias levei um laptop, com outros programas e fiquei de fora.

    Fui ver ontem o filme "O apanhador de pipas", baseado num romance de Khaled Housseini. Mesmo tendo gostado das cenas com as pipas, de conhecer uma paisagem aparentemente inóspita com romãzeiras frutificando entre as pedras...estranhei o tom ocidentalizante do filme. Mesmo o conflito entre as duas crianças, separadas por causa da covardia de uma e a força moral da outra, foi mencionado, sem consequencia maior, em relação aos bíblicos Caim e Abel que destoavam do contexto.  Referencias, quase no mesmo tom, são mais maliciosas no texto de Ian MacEwan sobre "A criança no tempo": chega a dar coceira o modo pelo qual ele sumariza as questões do indivíduo/grupo, esquerda/direita. 

    Seja como for, vou tentar insistir nesta conversinha digital aguardando o webmaster facilitar nosso acesso, mas sem liberar demais para não nos devolver às invasões de textos plagiados ou de imagens filadas de outros locais, como aconteceu anteriormente.     


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    [Aeternus:8926] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-02-04)


    - RE:RE:RE:RE:Decifra-me ou te devoro?!??...

    Dora, foi lamentável o que aconteceu com o site, e pelo que sei voce não é a única pessoa com dificuldades. Enfim, há que se aguardar o webmaster encontrar um tempo para solucionar o problema.

    Assisti também "O Caçador de Pipas". Confesso que esperava mais força dramática do filme. Os atores inexpressivos não corresponderam aos personagens do livro. Talvez o aspecto ocidentalizante do filme tenha também contribuido para o fraco efeito final.


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    [Aeternus:9265] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-08)


    - Heston

    [Heston chegou a dizer que seus oponentes teriam que tirar a espingarda de suas "mãos frias e mortas".]
     
     
    Pô, um cara que profere um treco desses, precisava mesmo ser "recolhido" pra reinstalar o Windows, não? Demorô!

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    [Aeternus:9270] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-08)


    - RE:Heston

    Gallego, eu me lembro de voce referir-se algumas vezes ao conceito de "falso self". Esse conceito foi desenvolvido por quem? Winnicott? Em qual obra?


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    [Aeternus:9271] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-09)


    - RE:RE:Heston

    O conceito de "falso self" é do Winnicott, sim, mas não sei te dizer em que livro ou livros estaria algum(ns) texto(s) mais específico(s), tenho que procurar no consultório amanhã (ou depois), pois meus livros dele estão lá e não aqui em casa.
    De forma absurdamente reduzida e reducionista, o que me ficou foi a idéia de um self que se desenvolve "de fora para dentro", ou seja, atendendo mais às necessidades do ambiente (dos outros), mais do que às suas motivações intrínsecas, suas inclinações, talentos e habilidades, mas o texto em que ele desenvolve mais este conceito é bem mais detalhado e mesmo complexo (embora não necesasariamente "complicado").
    É curioso que - ao que me conste, não sou um bom conhecedor deWinnicott - ele não falava no "self verdadeiro".
    Já Kohut, cujo pensamento tem muita proximidade com o de Winnicott (e com Fairbairn e com um pouco de Ferenczi, dentre outros), Kohut fala em "Projeto Nuclear do Self" - que seria o atendimento prioritário às próprias inclinações, aspirações, ideais, "talentos herdados e habilidades desenvolvidas" - vale dizer, o que seria diferente de um "falso" self.
    Ou seja, um apontou para o falso self, outro chamou a atenção para o que seria um self "verdadeiro" (nuclear). Mas se formos esmiuçar em detalhes, o próprio conceito de self não é absolutamente idêntico nestes e em outros autores, embora a base geral venha do "Ich" freudiano antes da concepção do aparelho mental composto de Ego (Ich)-Id-Superego.
    Freud usava o Ich muitas vezes como "eu total"; e também muitas outras vezes como parte do aparelho mental (o que ficou conhecido como Ego, ao lado do Id e do Superego).

    O termo "self" ficou mais ligado ao conceito de "eu total". Em boa parte dos autores era a imagem de si próprio no Ego (ou/e no Id ou/e no Superego, uma representação, um conteúdo do aprelho mental, portanto. Havia uma disucssão bizantina sobre o "self" como um conteúdo do aprelho mental - ou o inverso: as instâncias do aparelho mental como "partes do Self".

    O termo ficou meio prejudicado por algum tempo por ter sido utilizado por Jung, sei lá com que significado: pois os termos junguianos são muito particulares e idiossincrásicos, sempre que tentei ler, me atrapalhei, achei tudo muito esotérico demais, nada a ver com cada uma das diferentes correntes de pensamento psicanalítico pós-freudianas que, apesar das divergências, cada uma delas pode ser reconhecida pelos não-sectários das outras correntes. Assim sendo, Melanie Klein e Anna Freud, apesar das divergências são desenvolvimentos com base em diferentes tópicos das idéias centrais de Freud; o mesmo pode ser dito de Hartmann, Kris e Lowenstein (e a Psicologia do Ego) e de Lacan: embora Lacan adorasse falar mal da "Psicologia do Ego", ambos tomam Freud como ponto de partida, mesmo que chegando a desenvolvimentos divergentes; e assim  por diante: Ferenczi, Fairbairn, Winnicott, Kohut, os pós-kleinianos como Bion, meltzer, Rosenfeld, etc etc etc podem ser reconhecidos como desenvolvimentos a partir de Freud. Mas o "self" de Jung, uma vez tentei entender e mesmo sem conseguir dava para sacar que é "outra coisa", aliás, como todo o desenvolvimento próprio que ele deu às suas idéias não é mais uma "divergência" de Freud ou da psicanálise: é outra coisa muitíssimo diferente de Freud e seus seguidores - e que ele (Jung) pelo menos teve a dignidade de não chamar mais de psicanálise , mas sim de "Psicologia Analítica".

    Fico te devendo (me cobre, caso eu esqueça) a referência mais original do Winnicott. Vou ver se encontro ou se pergunto a alum colega kais estudioso de Winnicott do que eu.


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    [Aeternus:9272] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-09)


    - RE:RE:RE:Heston

    Da minha parte, obrigada pela explicação suscinta e clara, apesar da confusão feita pelos diferentes autores usando terminologia assemelhada.

    Hoje, em uma aula, precisei explicar a diferença entre a "memória filogenética" (Freud) e o "arquétipo" ( Jung) , uma vez que os dois tipos de registro mnêmico remetem ao passado da civilização. 

    Não foi apenas pela necessidade de se distinguir as diferentes teorias que palavras diferentes para esta "memória primordial" foram criadas.

    Tenho a impressão de que estas duas modalidades se distinguem, como se distinguem as idéias posteriores de Jung e de Freud, porque Freud considera como compondo a matriz do tipo de "lembrança" fundadora, aquela que importa à psicanálise, como sendo o trauma decorrente do assassinato do pai da horda primeva. 
    Este evento não era considerado matricial, ou melhor, patricial por Jung.


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    [Aeternus:9273] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-09)


    - RE:RE:RE:Heston,PS

    Gallego, esqueci de comentar que Lacan fez análise com um destes psicanalistas do trio da "Psicanálise do Ego". Se não me engano foi com Loewenstein.  A ruptura se deu em parte porque Lacan resolveu assistir à Olimpíada em Berlim.

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    [Aeternus:9274] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-09)


    - RE:RE:RE:RE:Heston

    Muito obrigada pelo panorama inicial Gallego. Fico aguardando a referência bibliográfica.

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    [Aeternus:9275] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-09)


    - RE:RE:RE:RE:Heston,PS

    Eu nem mencionei este aspecto que não é de todo desimportante. Lacan fez análise com Lowenstein, sim e não chegaram a um bom termo, não sabia deste possível impasse em torno das Olimpíadas de Berlim. Não sei se ele prosseguiu com outro analista, ouvi dizer que não. Claro que não se pode resumir as ansiedades de Melanie Klein como base única de suas idéias, nem o narcisismo de Kohut como bas única para as dele. Nem mesmo as questões de Freud com seu pai para a teorização do Complexo de Édipo. Mas, muito provavelmente, os grandes autores "sabiam" do que falavam. A implicância de Lacan com a Psicologia do Ego tem fortes bases de divergências conceituais e teóricas, mas o ataque que el fazia à "Psicologia do Ego" como sendo tão-sòmente e apenas uma forma "domesticada" de psicanálise adaptada (e adaptativa) ao "american way of life" tem seus aspectos injustos. Não pe que boa parte da psicanálise norte-americana não merecesse questionamentos de ordem prática, mas a maior parte e abase das teorias de Hartmann foram escritas em seus principais textos europeus, antes dele fugir para os EEUU. A Psicologia do Ego pode merecer questionamentos teóricos por si mesma (como qualquer "escola" psicanalítica) e pode ser que suas idéias tenham servido à prática psicanalítica rígida e enrijecida nos EEUU nos anos 1940 e 50 e assim por diante; mas não se poderia confundir toda a prática dominante no ideário de um país com uma escola. Muita coisa que era feita era baseada no Freud propriamente dito que foi quem começou com uma espécie de "Psicologia do Id" (sem que nem ele falasse em Ego-Id-Superego) e a partir de "O Ego e o Id" foi quem estabeleceu uma "Psicologia do Ego" adotada por Anna Freud e pelo trio Hartmann-Kris-Lowenstein.
    Lowenstein foi amante da Marie Bonaparte que Lacan e os lacanianos adoravam odiar. Por ela mesma que virou a detentora da psicanálise "oficial" na França por anos a fio, e quem sabe? por esta ligação entre Marie e Lowenstein. Esses aspectos "Caras" nas vidas dos grandes teóricos da psicanálise pode existir, sim, mas precisa ser visto como parte indissociável do homem nas suas idéias. Mas se as idéias não se dimensionarem e não tiverem uma sustentação própria, a teoria é "menor" e fica-se nas fofocas de corredor, na mesquinharia e vulgaridade.
    Mas, tentando dar a César o que é de César, sem deixar de lado aspectos mais ou menos secundários, o fato é que a "Psicologia do Ego" virou a verdadeira "bêst-fera" para Lacan e seguidores. Com ou sem maiores motivos.
    Quando Kohut também se insurgiu contra aspectos da prática psicanalítica norte-americana e desenvolveu idéias próprias (mas que já vinham de longa data em textos embrionários mesmo quando ele era chamado de "Mr. Psychoanlysis" no Instituto de Chicago, ou seja, o detentor e divulgador do "Freud à mericana"), por ter ficado em posição antagônica à "Psicologia do Ego", foi louvado por lacanianos como Serge Cotet, dentre outros que escreveram textos em que "traduziam" os conceitos de Kohut em matemas e conceitos lacanianos. Mas acho que a aproximação, em alguns aspectos apenas, é claro, pode exisitri: afinal, as grandes teorias devem pelo menos ter base em questões do ser humano e muitas vezes partem de questões assemelhadas com desenvolvimentos específicos. Ou mesmo chegam a id´peias parecidas pro caminhos próprios. Isso é que faz do corpo psicanlítico um "terreno comum"  com diversidade de idéias: uma psicnálise ou muitas? Talvez uma psicnálise E muitas.
    Já o exemplo que Jansy trouxe é bem interessante: a memória filogenética no corpo teórico freudiano fica bem diferente dos "arquétipos" junguianos se a gente tentar ler textos específicos de Jung sobre o assunto. Os tais "arquétipos" têm peculiaridades e specificidades que extrapolam a idéia de FReud sobre "memórias filogenéticas". E ganham tamanho destque e eu diria "autonomia" que não têm mais nada a ver com uma aplicação prática de trabalho clínico que leve em conta questões de transferência, repetição (individual), padrões neuróticos, etc etc etc.
    Por outro lado, as configurações de Kohut para o "self grandioso" se passam em um terreno aproximável do "Imaginário" lacaniano, enquanto as Imagos Prentais Idealizadas já se passaraim na estrutura do Simbólico. Ou seja, fala-se do mesmo ser humano u da mesma concepção de "humano". Em Jung esta concepção é muito diferente, masi do que divergente. Mal consigo entender do que se trata, mas capto que é outra coisa, outra linguagem, outra visão.

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    [Aeternus:9276] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-09)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Heston,PS

    Gallego, a quantidade de informação que você tem e usa tão bem me deixa quase muda! Não sabia da ligação Loewenstein e Marie Bonaparte... Ou mais detalhes sobre Kohut em oposição à ideologia assistencial americana...

    Para mim há questões relativamente claras quanto à diferença entre psicanalistas que trabalham com um projeto terapeutico ( integração do ego, felicidade na vida social, outros) e os que se aplicam numa determinada linha não marcadamente terapeutica ( bionianos ou lacanianos).  No primeiro caso é preciso uma clareza diagnóstica que, em muitos momentos, não encontro com definição clara quanto a sua aplicação aos quadros patológicos da atualidade. No segundo, é preciso mais clareza "ideológica" do que "clínica".

    Nas últimas recentes retomadas aos textos freudianos ( indivíduo-grupo-família-sociedade) percebi a oscilação de Freud quanto a duas filosofias distintas ( embora ele mesmo desdenhasse a filosofia!). Uma, demandando a distinção entre indivíduo-mundo externo ( empirismo?). A outra, apoiada nas construções do mundo a partir da subjetividade ( próxima dos dilemas que se encontram até mesmo na mais pura cientificidade da física).

    As consequências advindas da adoção de uma orientação ou de outra são grandes. No primeiro caso, temos o Freud que considerava a religião uma doença infantil  ( neurose obsessiva) e, darwinianamente, via na ciência positiva a solução para um progresso no sentido da psicologia do self. Conclui isto pelo que, pelo menos por enquanto, me parece estar por trás da suposição que ele faz de uma liberação da autoridade eclesiástica ou mística para alcançar-se o pensamento claro,  sem perdas pelo recalcamento que promove um inconsciente que é como uma doença e, através da renuncia instintual ( céus, Freud fala disso!!!), guiando-se a partir de ordenações filogenéticas, oriundas do "crime primordial" e larmackisticamente evolvidas num superego modernizado ( nem acredito no que estou escrevendo, não planejei antes). As gratificações decorreriam principalmente do trabalho intelectual e artístico.

    No segundo, o mundo permaneceria como sendo opaco, misterioso e sua percepção decorreria da criação subjetiva, ou ideologica, colocada em movimento através de um jogo de projeções ( um mundo próximo da paranóia, agora como irmã da ciência).  Haveria menos ordem, menos compreensão do que é a vida, o humano, o grupo social, o mundo.Por esta via, Lacan e Bion...

    Chego a me assustar com o que vou apresentando com leituras mais fresquinhas na memória. De Freud nascem impasses quase irresolvíveis para o que seria sua solução ideal ( um mundo regido pela razão e pela disciplina!).

    Recentemente comecei a curtir mais Melanie Klein porque esta, de algum modo, se inseriu melhor na cultura "cristã" ( um retrocesso, para Freud, em relação à religião judaica) e substituiu o par  "culpa e expiação" pelo "luto e gratidão". Como no mundo cristão, Klein diluiu o peso do "assassinato primordial" e permitiu um perdão para o "pecado original" ( Freud não considerava este último como decorrencia da desobediencia de Adão e Eva, a felix culpa expiada por Cristo e sim, como resultante do assassinato do pai, algo que não seria passível de perdão embora servindo como trauma- fundação do início da "humanidade")

    Gostaria de discutir isto melhor pra não me sentir tão solitária nesta via que, devagar, se distancia do Freud sem deixar de reconhecer sua agudeza de visão pra vida, pensamento, inconsciente e principalmente, pra clínica...


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    [Aeternus:9277] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-09)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Heston,PS

    Jansy! Sem devolver salamaleques nem bajulação, que vc sabe que não sou disso, acho que o que vc escreveu agora é precioso: merece um desenvolvimento em um trabalho muito importante de situar (para nós mesmos e para compartilhar para com os colegas e todos os interessados) uma espécie de "súmula" do desenho do "jardim psicanalítico" e seus caminhos que se bifurcam. Como em Broges.
    Mas como em algum outro autor fantástico, as bifurcações se rencontrem no infinito.
    Você perecebe e aponta as ambigüidades dos vários "Freuds" que coexisitiram em Freud. Ele não era Mário de Andrade que dizia ser300, mas talvez ele fosse 600. Ou 6.000.
    Há passagens até mesmo contraditórias: uma até banal que me lembro agora é quando em diferentes artigos com intervalo de alguns anos, eles diz que a atitude do psicnalista não deveria ser "didática" (no sentido de "ensinar o paciente a 'fazer análise' " ) e em outro texto (acho que mais para o final, talvez no "Outline", ele diga que se deva ser "pedagógico" sobre os processos inconscientes, demonstrando ao analisando suas manifestações). Pode ser que eu esteja resumindo de modo reducionista e empobrecedor, pode ser que os termos nem sejam bem estes, muito menos se pesarmos que eu li em português o que foi traduzido do inglês, não raro nem tão fiel ao original em alemão.Mas a idéia deve ser esta mesma, ou aproximada.
    Só que os pontos divergentes que vc mesma abordou me pareceram ter sido com uma clareza que só anos e anos de convivência com as teorias e pensamentos dos grandes autores pode permitir. E com a prática clínica, ça va sans dire! Quase uma "epifania".
    Este aspecto de pensar a psicnálise como um todo me interessa muito. Gosto, por exemplo de ler SOBRE Kohut em uma autora francesa, com a clareza de entendimento que ela teve, com o respeito mesmo em pontos que ela discordava dele, com o resumo que ela fazia do que ela captou dos escritos kohutianos. Por que?  Por que é uma leitura a partir de outro viés sem que ela se coloque dogmática ou privilegiando apenas (ou sobretudo) o referencial teórico que ela tinha. Essa senhora, Agnès Oppenheimer, já falecida, infelizmente, foi capaz de me oferecer um ideário-súmula do que talvez vá ficar (se ficar algo) do pensamento de Kohut.  Li também  um inglês que me pareceu "mais realista do que o rei", mas mesmo assim, interessante. Por que?Porque  há um "distanciamento crítico" que nos ajuda a pensar as  teorias sem dogmatismo. Não se trata de um ecletismo de querer misturar tudo ou "agradar a todos". Trata-se da complexidade do ser humano, da compexidade das especulações freudianas  que sozinhas nem deram conta de tudo - nem nenhuma teoria dará, eu suponho. Mas a obra de Freud carecia mesmo de desenvolvimentos e de certas pontuações sobre seus rumos;  ou ainda, aprefeiçoamentos que os seus seguidores mais importantes puderam oferecer, cada um em um setor que ele teria deixado em aberto - ou provocando (trazendo a voz).
    Acho que sua síntese, o que vc vem percebendo, uma coisa muito séria para  ser deixada por aqui. Não que nosso espaço não a mereça, mas acho que vc deveria desenvolver mesmo a sua própria surpresa e perplexidade para tentar uma "apanhado geral", uma certa visão de conjunto dos caminhos que se bifurcam no pensamento de Freud, e que, em seus seguidores, como "tudo que se eleva...converge" (aforismo de Teillard de Chardin).

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    [Aeternus:9278] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-10)


    - Falso Self e Superego

    Uma perguntinha: dá pra fazer uma interpolação entre a teoria do falso self e o superego de Freud ? O falso self seria uma espécie de superego ou sua patologia ? Ou ele estaria no Ego ? Ou nenhuma coisa nem outra ?

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    [Aeternus:9279] Mensagem do Grupo62
    -Davy Bogomoletz(2008-04-10)


    - RE:Falso Self e Superego

    Não estou retornando ao grupo. Não tenho mais tempo para ler tanta notícia, tanto comentário, tantos comentários de cada comentário. Segui o rastro do Luto Compartilhado e gostei. Mas não posso me dar ao luxo de ler tudo e responder tudo.

    Guto, sua mensagem PRECISA de uma resposta minha. Ou seja: Eu PRECISO responder à sua pergunta. Mas já respondi. Vá ao portal www.redepsi.com.br, entre na seção COLUNISTAS, procure Davy, e veja meu artigo exatamente sobre isso. Se te convencer, ficarei contente em receber um e-mail seu em davy@dwwinnicott.com

    Grande abraço.

    Davy.


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    [Aeternus:9280] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-10)


    - RE:RE:Falso Self e Superego

    Gratíssimo, Davy!

    Pessoas, segue o link (direto) dos textos:

    http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/column.php?columnID=34


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    [Aeternus:9281] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Heston,PS: "Clareza ideologica": adorei!!

    Muito acurada a distinção da Jansyta quanto a clareza diagnóstica e clareza ideológica!
    E ela termina falando do Freud (dentre muitos "freuds") que considero realmente o maior de todos, o verdadeiro gênio: o Freud-Clínico.
    Mesmo assim, é preciso relativizar a historicidade da "catalogação" freudiana - algumas das "doenças" de que Freud tratava eram então diferentes das de hoje. Nem todas diferem em essência (porque mudaram de nome pra serem despidas de certos estigmas, como é o caso da velha e boa "histeria", hoje conhecida por apelidos outros diversos), mas é clara a participação das mudancas dos aspectos culturais (talvez pudéssemos dizer "na história-da-mentalidade contemporânea) sobre as formas específicas com que se manifestam hoje.
    Urge formular algum encontro mais eficiente entre o "clínico" e o "ideológico", mas para tanto é preciso peneirar, filtrar a historicidade dos postulados de Freud e dos psicanalistas todos.
    Esse problema da religião como "doença", acho meio radical, uma generalização perigosa, porque existem formas diferentes com que cada indivíduo se relaciona com a SUA religião (ou com sua religiosidade). É essa forma de relação, e não a adesão em si, o que pode (ou não) ser patológico. De outro modo, as relações que os indivíduos têm com QUALQUER instituição pode ser tão LOUCA como a dos fanáticos fundamentalistas.
    Isso é claro em relação à política, ao futebol e até a certos sistemas filosóficos.
    E há poucos dias passou num dos inúmeros canais Discovery (não sei pra que tantos, se a qualidade está se diluindo em todos eles) um documentário exatamente sobre como Hitler distorceu tantas boas idéias. E as pessoas elegeram o pobre do Nietzsche e o pobre do Wagner pra bodes-expiatórios, como se eles tivessem INSPIRADO a coisa toda! quando na verdade o Adolfinho é quem se ins-PIROU sozinho - ou não tão sozinho, mas na companhia do POVO GERMÂNICO todo. Pôxa!... certas "doenças" NÃO podem ser compreendidas como afecções do indivíduo doente, mas de toda a sua... HISTORICIDADE. Falar "contexto histórico" já está tão batido, que acaba não significando nada, como se o termo esgotasse uma explicação, quando na verdade é só uma porta para um vasto estudo, estudo este que pode começar por se recuperar não as certezas em torno do superego, mas as INCERTEZAS de Freud quando começou a formular o conceito. E quando digo aproveitar as incertezas, é pegar os textos em que ele problematiza a assimilação individual de "leis" sociais e tentar usar as lentes psicanalíticas para fazer um percurso DIFERENTE do que fez o próprio Freud, ou seja, DESVIAR de Totem e Tabu. Temos hoje outros "sintomas", outros elementos com que desenvolver essa equação, e o principal deles se chama: SOCIOPATIA (ou psicopatia).
    Que é uma coisa que parece amoral, mas que, na cabeça do doido, é extremamente moral.
    E moral é... social. Por isso digo que o moralismo é psicopático e que a psicopatia não é um problema individual. Claro que se "aloja" melhor nalguns indivíduos do que noutros, mas é preciso mudar a compreensão, abandonando a idéia de "doente" e substituindo talvez pela de "portador".
    E portador somos todos nós, que outro dia falei da agressividade em nome da moral, e percebi que eu mesmo não posso afirmar que dessa água nao beberei, porque JÁ BEBI! E já andei soltando uns berros injustos por aí... tsc, tsc, tsc...

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    [Aeternus:9282] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-10)


    - RE:RE:Falso Self e Superego

    Olá, Davy

    Acho que do lugar de um "bom big brother" você acaba nos convidando a um "omnibus" como o de antigamente. Queria falar de imagens do Gallego, Guto, Omar... e ainda saudá-lo ao mesmo tempo.

    Então... daqui a pouco retorno, tentando esta tal "síntese". Abraços


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    [Aeternus:9283] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-10)


    - RE:Falso Self e Superego

    Nosso webmaster Cyro, quando tinha uns cinco anos, viu o mar da sacada de um hotel em Fortaleza e foi sua primeira visão mais global do oceano. O sol ia nascendo e ele, surpreso, exclamou: " Ih, esqueceram o mar ligado durante a noite" ( em Brasília temos "piscina de ondas"...) 

    A história da Diana querendo saber se o sol nasce e se põe de modo independente a vida dela, viva e consciente do seu lugar no espaçotempo, ou do Gallego menino, são lindas e comoventes.
    Estou há tempos querendo retornar a elas, pelo prazer da poesia que brota de modo tão natural e também porque este é um tema caro ao Nabokov ( ele começa o capítulo do livro "Speak Memory" descrevendo uma "cronofobia" usando sua  frase bem conhecida: "o berço balança à beira do precipício sobre uma fresta de luz que fica entre duas eternidades de escuridão."  O livro foi traduzido para o português ( não me lembro se foi este que recebeu o título "A pessoa em questão") e é uma autobiografia excelente.

    Achei importantes as considerações do Gallego e do Omar sobre o Freud falando do "futuro de uma ilusão". Alguém fora da lista que leu o que escrevi me perguntou, indignada, como eu favorecia Klein em detrimento de Freud. A explicação é fácil. Klein é "feminina" e, sem excluir a importancia do Falo-Totem e da Lei,  considera algo que aproximo do "sentimento oceânico" do Romain Rolland como originando, também, o sentimento religioso. Freud, determinado a assegurar a primazia do Totem e da morte do pai primevo, desconsiderou outros caminhos. Até as religiões orientais eram incompletas ou algo parecido porque não se assentavam num pai primevo e os gregos ficaram condenados à mitologia e poemas épicos porque não tiveram o substrato deste primeiro assassinato mítico e/ou "histórico".  O mundo de Freud é o da culpa e expiação, portanto. A marca do que pra ele foi o "pecado original" ( matar o pai) produz apenas culpa e expiação. Pra Klein é diferente: existe perdão e gratidão. E o pecado não é o do assassinato, talvez o outro dos católicos ( Adão e Eva comerem a maçã proibida)


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    [Aeternus:9284] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-10)


    - RE:RE:Falso Self e Superego

    Graaaaande Davy !!!!

    Vou ler a dica com atenção. Quanta honra fazer vc dar um "pulinho" efêmero no fórum.


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    [Aeternus:9285] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-11)


    - RE:RE:Falso Self e Superego

    Tudo bem, Jansy, que Melnie Klein também fale em gratidão, reparação, impulso à integração. Mas o que sempre me soou mais forte nas leituras de seus textos - e mais ainda de seus seguidores menos criativos e pretensos guardiães "ortodoxos" de sua letra - é a inveja, o ataque ao seio e ao interior da mãe, o uso de identificação projetiva como forma de splitting dos impulsos destrutivos, os objetos maus - onde até a idealização é quase sempre um disfarce para o ataque ao objeto bom invejado, que horror! Não é a toa que a chamaram (como elogio!) de "tripeira" da psicanálise, aquela que ia à vísceras do mundo interno: retalhadas, penduradas em ganchos.
    Infelizmente, não creio que isto seja um estereótipo ou clichê, por mais reducionista que seja tal resumo irreverente, certamente injusto para com a a complexidade do pensamento kleiniano mais refinado, mas me surpreendo quando você encontra tanto "perdão e gratidão" em Klein como contraponto ao mundo de "culpa e expiação" em Freud. Meu entendimento (posso estar equivocado) da "posição depressiva" e reparadora em Klein é de algo ligado exatamente à culpa por ataques destrutivos imaginários e à expiação através da reparação.
    No livro do Petot, estudando Melanie Klein (você sabe que gosto de leituras/revisões sobre os grandes autores), ele diz como a teoria kleiniana seria "pessimista" se levada ao pé da letra. Meio sem esperanças, acho que é o que ele diz; afinal, o "pecado original" é indelével e não sai nem pelas águas do batismo...
    O pior é que "no atacado" da espécie humana, eu até acho que ela pode ter razão...
    Mas para trabalhar "no varejo" com boa parte das pessoas que procuram análise, terapia, alguma forma de auxílio com  abertura para a mudança, eu acho que a visão kleiniana, mais focada na destrutividade e pulsão de morte (via inveja), não me é de tanto auxílio. Por mais que Winnicott e Kohut (ou mais do que eles, seus pretensos seguidores meio piegas) possam ser tomados como "escoteiros do bem", para a clínica me parecem de maior auxílio, sem negar absolutamente "o mal que se esconde nos corações humanos". Mais do que o perosnagem "O Sombra", Melanie Klein e Freud sabiam disso...

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    [Aeternus:9286] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-11)


    - RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Maravilha!  Se eu tivesse pedido a um kleiniano argumentos para elogiar a consistência dos desenvolvimento de Klein nenhum deles se sairia com um apanhado tão bom como o seu.  Não há dúvida, ao contrário dos "escoteiros do bem", Melanie Klein centra sua visão, principalmente, sobre a destrutividade humana, pulsão de morte, inveja... Este é o material bruto da análise. Bion chegou a dizer uma vez que o deus do velho testamento é invejoso, babilonicamente destrutivo porque representa a figura da mãe atacada pelas projeções igualmente invejosas do bebê dando-lhe um troco...

    Meu ponto era mais modesto em relação à "gratidão". Apenas quis contrapor aos excessos de Freud, com sua insistência sobre uma única origem, fálica, para a religião ( desamparo e dependência do homem diante dos terrores do mundo, seguida do assassinato a um pai tiranizante, transformando tudo num deus protetor e bondoso sobre a marca de um trauma indelével de culpa e expiação), um modelo "feminino", espalhado e beatífico, advindo da vivência de serenidade e amparo atribuidos a uma força externa ( mãe ).

    Não tenho tempo pra pensar melhor, mas talvez você possa tomar estes parágrafos para argumentar contra mais uma vez.  Valeu. Falta ver se de fato respondi ao que você propos.  


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    [Aeternus:9287] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-11)


    - Respondendo a Cely

    "A memória pprega peças na gente?" ou "Mistéééérios..."
    Cely: fui procurar nos livros de Winnicott que tenho no consultório onde estudei sobre "falso self" quando fazia minha formação mas não encontrei o texto que, segundo me lembro 9ou lembrava) tinha até um diagramazinho e estaria todo sublinhado.
    Mas encontrei um texto, o capítulo 12 do livro "O Ambiente e os Processos de Maturação". publicado no Brasil pela Editora gaúcha Artes Médicas (título original: The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London, Hogarth 1965) que me pareceu que talvez possa atender ao que você procura. O capítulo se chama: "Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self"
    O capítulo fala, ao contrário do que eu disse antes e aqui me corrijo, em self verdadeiro, sim.
    Meu livro não está sublinhado neste capítulo, o que sugereria que eu nunca o teria lido antes, mas pode ser que eu tenha lido em cópia xerox e só depois tenha adquirido o livro ou... não sei mais.
    O que importa é que posso sugerir este capítulo que talvez atenda ao que vc procura.
    Outra opção mais simples é um capítulo do livro do Julio de Mello Filho, da mesma editora, chamado "O ser e o Viver", mais informativo e didático.
    O Davy Bogomoletz andou dando uma rolê por aqui e conhece Winnicott feito gente grande, o que não é o meu caso e talvez pudesse esclarecer melhor em que texto(s) Winnicott inaugurou e/ou desenvolveu o conceito de Falso Self, mas como ele disse que não tem podido participar muito deste site, vou tentar dar minhas cacetadas, inclusive tentando responder ao Guto em outra mensagem.


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    [Aeternus:9288] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-11)


    - RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    O desamparo humano é O PONTO!
    Você sempre faz uma ligação entre o desamparo humano denunciado (dentre outros) por Freud e o mito antropológico de "Totem e Tabu".
    Não sei... Às vezes deixo o mito para lá (por mais fascinante que seja) e me concentro no tal do desamparo... E é foda! (só dizendo asim, perdoem-me o termo, mas é foda mesmo!!)
    Sem precisar passar com tanta ênfase pelo assassinato do pai primevo e culpa tranformada em tabus (do parricídio, do regicídio, do incesto com as parentas diretas ou indiretas, etc etc) ou pela recriação deste pai assassinado em um deus, Deus ou deuses, acho que o desamparo faz mesmo o homem precisar criar um deus à sua imagem e semelhança (mas todo-poderoso, é claro) para se sentir menos desamparado neste universo infinito onde ele é (nós somos) finito(s) e menor(es) do que um pentelhésimo de 1 micro-Ângstron dividido por 1.000.000.000.000...
    Que fazer? Inventar deus ou deuses, outra(s) vida(s), passadas e futuras que negam nossa transitoriedadezinha finitinha como um milionésimo de segundo e... puf! Fui! Fomos! Iremos!
    O famoso "de onde viemos? quem somos? para onde vamos?" é de fuder mesmo!!!
    Não consigo encontrar na (aos meus olhos) fálica e assertiva Sra. Klein o tal " modelo  'feminino', beatífico, advindo da vivência de serenidade e amparo atribuidos a uma força externa (mãe)." Não queria ter essa senhora como mãe mesmo que eu nascesse de incubadora. Ela, não! Já o Winnicott e o Kohut (aos meus olhos) são quase "femininos" dentro do estereótipo de um modelo beatífico 'maternal' capaz de trasnmitir "serenidade e AMPARO" ( o oposto do des-amparo). Quando Kohut fala de objeto-do-eu (selfobjeto) idealizado não é de uma idealização do tipo "formação reativa" ao ódio e inveja: é xatamente disto! Da ilusão (necessária para a criancinha pequena) de que seus cuidadores tenham poder de proteger onipotentemente, de alcamar suas ansiedades e angústias, físicas e emocionais, coisa de que o bichinho pequeno não é capaz: sem ser alimentado, o bichinho morre de fome, sogrendo com a fome; se for alimentado, pode não morrer biologicamente, mas pode ficar mais atingido emocionalmente sem "alimento" de "acalmia" e "modulação" oferecidas por alguém que lhe é externo (mesmo que ele vivencie este alguém como sendo, em parte, parte de si mesmo, uma coisa meio misturada sem separação nítida eu- mundo externo)
    Winnicott fala de "mãe suficientemente boa" - nem mais nem menos, apenas "suficiente" (e pais e mães sabem que já não é pouco, mas vá lá: sem exageros de auto-idealizações de pais que se querem "perfeitos"). Mas o que me fascina mais é a configuração selfobjetal de Kohut, segundo a qual (pelo que entendo) não adianta alguém "de fora", um terceiro observador afirmar que aquela mãe está sendo "suficientemente boa". Ou a mãe asim se acreditar em termos absolutos. Nada disso adianta, visto "de fora". é de dentro da criança que a mãe será vivenciada como selfobjeto (objeto a serviço do eu da criança) idealizável, ou seja, exatamente o que entraria naquilo que você, Jansy,escreveu antes : "capaz de transmitir serenidade e AMPARO".
    Um bebê "kleiniano" com mais carências inatas, sabe-se lá porque (genética?) será mais voraz e muito do que o ambiente fizer por ele poderá ser experimentado como ainda sendo muito pouco... Outro bebê com maior impulso à integração (sabe-se lá porque: genética?) pode triar leite das pedras e experimentar como suficiente o pouco que mães menos "a serviço" do bebê  (menos empáticas) conseguem dar.
    Ou seja, Kohut não é tão "ambientalista" como se diz por aí: ele estabelece um relativismo dramático, eu diria, entre o interno e o externo (que precocemnete é vivenciado como meio-fora, meio-parte-de-mim), coisas que não se definem claramente em cada um de nós nem pelo meio ambiente (bom ou ruim) nem pelas cacarcterísiticas inatas (mais ou meos carregadas de inveja ou de capacidade de gratidão). Não é à toa que Kohut fala também de "talentos (ou falta de, acrescento eu) inatos" e "habilidades desenvolvidas" no arco de tensão entre as necessidades grandiosas narcisistas de cada um de nós e as metas realistas alcançáveis para o estabelecimento de um self (no sentido mais simples, de vivência de si mesmo) razoavelmente coeso, harmônico e vital.
    Já o mundo interno de Klein com um bebê francamente diferenciado do objeto, capaz de projetar seus ódios no suposto interior do objeto mãe e, em retorno, experimentar tudo que se lhe tenta dar como "estragado"... não consigo imaginar um sistema bio-psicológico tão competente na mais tenra idade para tantos estragos em um cenário mental primitivo de um bebê; nem que o ambiente mais favorecedor consiga atenuar tais cargas de ódio... ódio pelo desamparo, entendo bem. O desamparo que imagino é próximo ao desalento e ao desespero. Pode haver fúria (narc´sica) de um self que não se sente atendido nas necessidades que não consegue suprir sozinho.
    Mas, seja em que teoria for, o grande desafio é poder contribuir para a ressiginificação das vivências mais arcaicas (nos espçaos terapêuticos ou que assim se pretendam com ética e acolhimento profissional) - seja através da "reparação" kleiniana, seja através da aceitação kohutiana de frustrações "toleráveis" com a consequente internalização das funções antes atribuídas somente à expectativa criada sobre os demais - As "teorias de cura" estão aí nas teorias dos autores e coerentes com as teorias de etiopatogenia... A prática... é com a dupla, imponderável, imprevisível, carente de nossa criatividade, seja como terapeutas seja como pacientes...

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    [Aeternus:9289] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-11)


    - RE:Falso Self e Superego

    Guto perguntou: dá pra fazer uma interpolação entre a teoria do falso self e o superego de Freud ?
    NÃO

    O falso self seria uma espécie de superego ou sua patologia ?
    NÃO, mas vamos discutir adiante.

    Ou ele estaria no Ego ?
    Não. O falso self não está "no Ego".

    Vamos tentar começar com o famoso termo banalizado demais, o tal de "EGO".
    Há duas formas de entender o termo "Ich" (simpelsmente Freud usava o termo "Eu", nunca escreveu "Ego").
    Primeira conotação: EGO como o "Eu total", ou seja:
    - a pessoa que eu sou,
    - uma identidade que experimento ter comigo mesmo e manter ao longo do tempo (sou o mesmo bebê e a mesma criança e o mesmo adolescente que já fui e serei o mesmo velhinho no futuro, sei que sou sempre o mesmo, ainda que com mudanças fisicas e psicológiicas)
    - e com uma capacidade reflexiva (o que sentimos como "eu mesmo", o "si-próprio" de cada um de nós).
    Este Ich seria uma totalidade que se fundamenta no desenvolvimento dos processos de amadurecimento.

    Segundo uso do termo "Ich":
    Quando Freud precisou ampliar suas idéias para dar conta de outras questões ainda mais complexas, ele imaginou um APARELHO MENTAL com três componentes que ele chamou simplesmente de "Eu", "Acima do Eu" e "Aquilo" ("Aquilo" ou "Isso", tanto faz, a idéia é de algo meio "aquilo", meio "isso", ou seja, meio inominável, talvez).
    Mas os ingleses preferiram traduzir com termos pomposos: "Ego" "Superego" e "Id". E Freud aceitou...

    Quando Freud fala em "Ich", geralmente dá para entender quando ele se refere ao "Eu total" e quando ele está se referindo a uma parte de nosso aparelho emntal segundo um modelo teórico que ele propôs para dar conta de questões mais amplas com que foi se defrontando ao longo do desenvolvimento/aprofundamento teórico e com a p´ropria experiência clínica prática.

    Oui seja, quando lermos "Ego", há que distingüir se é o "Eu total" ou se se refere a uma parte de nosso aparelho mental que seria aquela de mais contacto com o ambiente, um tanto acuada entre as exigências que estão "Acima do Eu" (o Superego) e as exigências dAQUILO que não tem nome nem nunca terá: pulsões, instintos, desejos, etc etc

    Me perdoem a forma reduzida e reducionista, mas simplificando e empobrecendo esquematicamente, acho que não estou desvirtuando muito tais idéias mais complexas para tentar transmitir de forma supostamente didática do que se fala.

    O Suprego ou "o que se coloca 'acima' do Eu" seria, de modo simplista, as exigências sociais que internalizamos. Podem ser ótimas regras de bem viver na civilização; pode ser algo "protetor" que nos advirta de ameças e perigos; pode ser uma internalização de uma imagem (de um objeto) que interdita exageros, abusos, desmesuras e descomedimentos, a Lei.
    Pode acabar se tornando uma coisa persecutória, sádica, exigente demais, interditando demais, restringindo tudo.

    Pobre Sr. Ego, imprensado entre impulsos so Id e restrições do Superego...

    Chega de Aparelho Mental por enquanto: voltemos ao Eu "total".

    O termo Self, ficou como uma forma na língua inglesa de fazer diferença entre o "Ego" do id e do Superego e o "Ego" (Ich) como "Eu total". Este ficou como "Self"
    Os franceses acabaram tendo que usar o termo "Faux Self" para o "Falso Self". Eles se enrolaram com "Moi", "Je", "Soi", e acabram tendo que aceitar o anglicismo.

    Mas...
    Pode-se pensar um SELF (como eu total) tendo como componentes o Ego, o Id e o Sperego, tentando unir modelos teóricos diferentes.
    Pode-se também pensar que "Self" não passa de uma representação de si mesmo, seja no Ego, seja no id, seja no Superego, podendo ter representações diversas. Por exemplo e muito esquematicamente: se eu me imagino, me represento, como um cara com "tentações da carne" (risos), a representação deste "Eu safadinho" seria de conotação "negativa" para minha instância "moralista" e repressora , ou seja , o Superego que fosse do tipo "censurador". E poderia ser algo bem legal para o Id cheio de desejos que buscam realização. No Ego, como quase sempre, o conflito, uma imagem conflituada e conflituosa de mim mesmo.

    Pode-se pensar o Self deixando de lado o modelo freudiano. Como fez Kohut que preferiu pensar em um Self cheio de aspirações em um pólo, em busca de ideais em outro, com um arco de tensão entre estes dois pólos, tensão criada pelos talentos inatos e habilidades desenvolvidas. O pólo das aspirações quer TUDO, pode ser ambicioso, irrealista, quer que os outros espelhem sua suposta grandiosidade ilusória e imaginária; o pólo das idealizações quer encontrar objetos ideais protetores e poderosos com os quais se sinta fundido>
    No primeiro pólo, há uma carência de "espelhamento", os outros seriam desejados como espelhos que confirmassem mimha grandiosidade imaginária e narcisista; no outro pólo, busca-se nos outros uma idealização ilusória: a de que outrem, superpoderoso e protetor vá me acalmar em minhas angústias e fragilidades (vivências opostas à grandiosidade do outro pólo). Este Selfobjeto idealizado pode ser aproximado ao Superego protetor, mas por outro encaminhamento de modelo teórico diverso.

    Veja bem, não se trata de verdades "anatômicas", não existe nada disso, nem o que Freud propõe nem o que Kohut propõe: são apenas modelos para pensar fenômenos psicológicos compelxos. A neurologia e as neurociências não vão encontrar no pet-scam ou em outros aparelhos de imagens cerebrais os equivalentes anatômicos do Ego, nem do Id, nem do Superego, nem dos 2 pólos de um "Self" estando cada pólo cheio de expectativas grandiosas, em si e nos outros.

    Para terminar: é com uma outra visão de Self algo diferente da de Kohut, mas totalmente aproximada enquanto visão de um "Eu total" que Winniocott vai dizer que quando o sujeito se desenvolve em atendimento mais priorizado ao que se espera dele no ambiente externo, que ele pode desenvolver um "falso Eu" que funcione muito bem socialmente, trabalhando, produzindo, etc. Mas que pode deixar o sujeito com alguma coisa "manca" dentro de si, com um sentimento de irrealidade vago e indefinido. Por se submeter exacerbadamente às solicitações intrrusivas do meio ambiente. Recorrendo a Kohut para fazer uma salada, eu diria que se os talentos forem poucos em uma determinada área que o sujeito se sente exigido, mas o cara se vira pelo avesso para desenvolver habilidades e "dar certo", pode se ter um caso "falso self", como que a construçaõ de um Eu sem que haja uma "estrutura". O prédio contruído acima do nível do chão ficou bonito e funcional, mas as fundações são frágeis, não tem tanta infra-estrutura para suportar os puxadinhos, a cobertura, a piscina. Pode não desmoronar nunca, mas pode ser que um dia... sai de baixo!
    O falso self  não é "falso" no sentido moralista de dissimulado, no "mau sentido" do termo "falsidade", pois pode  ter começado como uma defesa para não perder o amor, o afeto, a atenção de cuidadores que impuseram ao sujeito em crescimento valores e metas que não correspondiam ao "self nuclear" (este termo é do Kohut) e que deve ser equivalente ao "self verdadeiro" do Winnicott.

    Claro que esta caricatura que escrevi é muito pobre e é muito pouco; e não faz justiça alguma a outros aspectos mais sofisticados da teoria de Winnicott da qual não sou bom conhecedor, apenas "toco de ouvido". Haveria muito mais sutileza e complexidade em causas e conseqüências deste modelo teórico de tentar entender certas pessoas que apresentam um sentimento de futilidade em suas vidas aparentemente bem-sucedidas. Acho um trabalho difícil, delicadíssimo. Quando um "falso self" desmorona , sai de baixo mesmo! Terapeutas precisam ter muito tato e sensibilidade para lidar com estas situações muito  frágeis sob uma aparência de fortaleza medieval... Só aparência... O que não impede que haja pessoas que levem uma vida inteirinha com essa estrutura (ou construção, como eu exemplifiquei antes) Felizes os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus...



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    [Aeternus:9290] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-11)


    - RE:Respondendo a Cely

    Gallego escreveu: O Davy Bogomoletz andou dando uma rolê por aqui e conhece Winnicott feito gente grande, o que não é o meu caso e talvez pudesse esclarecer melhor em que texto(s) Winnicott inaugurou e/ou desenvolveu o conceito de Falso Self, mas como ele disse que não tem podido participar muito deste site, vou tentar dar minhas cacetadas, inclusive tentando responder ao Guto em outra mensagem.

    Achei esta resposta ao Guto, a Cely e a mim excelente porque Gallego se dispos a ir em frente com as próprias investigações, sem ficar de boca aberta esperando o maná do céu. Pensando num modelo teórico, diria que Gallego não "histericizou ou obsessivou" um inalcançável objeto resplandecente pendurado à frente da sua testa: ele juntou o que tem ( que não é pouco) e retomou a construção do seu palácio com o material imediatamente disponível ( E me convida pra festa da cumieira, ok?)

    Depois de viajar num livro chamado " O Tempo que o Tempo Tem" ( jogo parecido com o nome duma lojinha meio esotérica chamada Além da Lenda ), peguei outro com o título "Many worlds in one" de Alex Vilenkin. Sei que mais adiante, seguindo a orelha do livro, ele proporá vários universos paralelos cheios de pessoas iguaizinhas a nós fazendo coisas ligeiramente diferentes a cada instante, mas esta parte não me interessa muito e nem cheguei lá ainda. Por enquanto acompanho sua descrição da ambição dos físicos e matemáticos no sentido de encontrarem a origem da origem do universo. Não basta estabelecer um ponto determinado com começo e fim, tem que se perguntar sobre o que havia antes do começo e do fim... Este é o drama de Freud que Lacan resolveu ao modo dele afirmando que não adiante ir atrás da origem da linguagem ou da história ou do homem: temos que partir do ponto em que nos situamos e viajar um pouco, apenas, pra trás e pra frente. A fundação, ato simbólico e não necessáriamente "material" embora assentado na materia, a partir de um dado momento representado por um símbolo, S1.  Já Freud queria ir sempre mais "a fundo" no começo de tudo...Daí tentar estabelecer o crime primevo como sua base ou, lá sei, como o S1 ( significante primeiro) da humanidade ( e o que é "humanidade"? Começam daí vários equívocos universalizantes).

    Adorei a expressão do Gallego: Não queria ter Klein, como mãe, nem que nascesse de incubadora. A filha dela, Melitta, ou o pequeno "Dick" ( filho que ela analisou e publicou os achados tim tim por timtim, que loucura...) que o digam. Eu também não queria Klein como mãe, mas a teoria dela me leva até esta idéia de "relação beatífica" para promover o estabelecimento de "bons objetos internos".  Sabendo-se mais clínica do que capaz de teorias, mais prática do que filosófica, Klein não tratou, ainda bem, do mundo enquanto tal. Postulou apenas um mundo interno e externo, povocado de objetos bons e maus.
    Postulou bebês que nasciam com mais inveja e mais afetados pela pulsão de morte do que outros.Foi mais otimista para alguns casos e "realisticamente" pessimista para outros, sem se propor uma panacéia universal ( que foi o caso de Freud com a psicanálise na faixa accessível à transferencia). Sem desfazer  a importancia do falo e do pai, colocou tudo isto numa perspectiva menos divinizada do que Freud...

    Desamparo... como naquelas lindas linhas de Camões ( onde há de acolher-se o fraco humano e ter segura a curta vida que não se arme e indigne o céu imenso contra um bicho da terra tão pequeno). A vida é uma corda bamba e não tem rede embaixo, a gente tem que aprender a andar nesse fio instável ou... xiiiii, que pena, se esborracha. Se há um Deus-Pai para amparar ou não, que ataca com inundação ou ameaça de inferno ...quem pode saber senão nós quando construimos ou reconhecemos nossas fantasias e mergulhamos em nossa religião? Freud construiu um deus histórico e o colocou na origem do indivíduo e da sociedade. Bom pra ele, mas não tão bom pra mim, ora. Aceito um negócio que se chama "princípio antrópico" ( anthropic principle), ou seja, o que postula a existencia de fatores ótimos no universo para que exista a vida e um observador do universo. Na frase de Brandon Carter: "o que se espera poder ibservar tem que estar restrito pelas condições necessárias a nossa presença enquanto observadores".

    Quando puder trago a frase do Freud que até hoje me causa espécie (Mal-Estar da Civilização, capítulo I ) sobre o mundo externo que recortamos a partir do nosso ego, antes fundido a ele.  É um dos pontos ligados ao "existir um mundo externo enquanto tal" e ao de "só conhecemos o mundo a partir das projeções que fazemos sobre algo exterior a nós a partir do instrumental do qual dispomos".
    Se há algo "transcendente", bom ou mau, voltado para o humano ou indiferente, é irresolvíviel, uma questão de fé ou de graça. 

    Pra Freud, se não me engano, não há solução para o desamparo senão a luta de cada um pra se equilibrar no fio da existencia o maximo de tempo possível e ainda ser feliz no meio disso.  Até os oásis, que trazem conforto, são miragens... O engano, que gera a religião, advém de inventar um colo pro desamparo inevitável. A solução... pensar com clareza e curtir o processo de pensar com tal clareza.

     






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    [Aeternus:9291] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-11)


    - RE:RE:Falso Self e Superego

    Perfeito, Gallego, bela síntese!!!!: Para terminar: é com uma outra visão de Self algo diferente da de Kohut, mas totalmente aproximada enquanto visão de um "Eu total" que Winniocott vai dizer que quando o sujeito se desenvolve em atendimento mais priorizado ao que se espera dele no ambiente externo, que ele pode desenvolver um "falso Eu" que funcione muito bem socialmente, trabalhando, produzindo, etc. Mas que pode deixar o sujeito com alguma coisa "manca" dentro de si, com um sentimento de irrealidade vago e indefinido. Por se submeter exacerbadamente às solicitações intrrusivas do meio ambiente. Recorrendo a Kohut para fazer uma salada, eu diria que se os talentos forem poucos em uma determinada área que o sujeito se sente exigido, mas o cara se vira pelo avesso para desenvolver habilidades e "dar certo", pode se ter um caso "falso self", como que a construçaõ de um Eu sem que haja uma "estrutura". O prédio contruído acima do nível do chão ficou bonito e funcional, mas as fundações são frágeis, não tem tanta infra-estrutura para suportar os puxadinhos, a cobertura, a piscina. Pode não desmoronar nunca, mas pode ser que um dia... sai de baixo!

    Do modo como você colocou e repensando as conversas com minhas colegas "terapeutas" americanas, tenho a impressão de que o mundo atual do políticamente correto e do sucesso social passa por esta imposição de todos se produzirem em um falso self. Quem tem uma base mínima pra dar certo consegue até se enganar sobre o "sentimento de irrealidade vao e indefinido".  Quem não dá precisa ou de apoio destas terapeutas americanas ou sai dando tiro em Elefantina.  Falta agora distinguir esta adaptabilidade peculiar ao estabelecimento de um falso-self à adaptabilidade extrema que caracteriza o quadro das doenças psicossomáticas. Será que poderíamos dizer que quem não sai dando tiro é aquele que acaba morrendo antes da hora de alguma doença inexplicada?  Que é fundamental podermos ser fiéis a nós mesmos, mesmo se sofrendo porque nunca estaremos realmente adaptados e protegidos e acalentados por um grupo, igreja, panelinha?


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    [Aeternus:9292] Mensagem do Grupo62
    -Davy Bogomoletz(2008-04-11)


    - RE:RE:Falso Self e Superego

    Para Gallego:

    1 - Adorei a 'crítica' ao 'filme' escrito e dirigido por M. Klein. Concordo plenamente. Lacan a chamou de 'genial açougueira'.

    2 - Leia o que escrevi no RedePsi sobre o falso self SER o nome verdadeiro daquilo que os antigos chamavam de Superego.

    3 - 'Self' para Winnicott NÃO É O EU TOTAL. É o NÚCLEO do eu total, e NÃO É CONSCIENTE. É algo da ordem da 'ficção operativa', ou aquilo que os estruturalistas chamavam de 'operador': Não sabemos se existe ou não, mas o fato é que fica muito fácil entender o resto tomando isso como uma hipótese de trabalho - embora todos nós saibamos (obscuramente) que ele deve estar lá.

    Levei uns 15 anos para chegar à idéia de que 'self' é o denominador comum extraído do somatório das experiências. O bebê memoriza umas tantas experiências, e aí percebe que há algo constante nelas - e a isso chamamos 'self'. Mais tarde, sobre esse núcleo (o self) é construída a superestrutura que chamamos Eu. Outra vez Lacan: 'Moi' é o falso self = aquele que a gente conhece, o eu aparente. 'Je' seria o eu verdadeiro, ou verdadeiro self - inconsciente e verdadeiro senhor do castelo. Aí, depois desses quinze anos de matutação, descobri que Winnicott havia dito isso (e eu não tinha lido) num artigo cujo nome esqueci (bem feito) - mas certamente foi esse do qual faz parte a segunda citação abaixo.

    O Ego, para Winnicott, fica mais como 'aparelho de comunicação e relacionamento com o mundo e consigo próprio'. (definição minha).

    Aqui vão duas citações. Creio que auto-explicativas.

    'Na saúde, as perturbações ambientais até um certo grau constituem um estímulo valioso, mas para além desse grau tais perturbações são contraproducentes na medida em que dão margem a reações. Nesse estágio tão inicial do desenvolvimento ainda não há uma força suficiente do ego para que ocorra uma reação sem perda da identidade.”

    Memórias do Nascimento, Trauma do Nascimento e Ansiedade - 1949.

    Esta seria a primeira vez em que Winnicott avança algo que se transformará, depois, na idéia do falso self.

    ‘Seria útil, portanto, examinarmos os padrões que se desenvolvem ao redor do fenômeno da motilidade.

    Num dos padrões, o ambiente é constantemente descoberto e redescoberto a partir da motilidade. Aqui, cada experiência no contexto do narcisismo primário enfatiza o fato de que o indivíduo está se desenvolvendo no centro, e o contato com o ambiente é uma experiência do indivíduo (em seu estado de ego-id indiferenciados, a princípio). [AQUI TEREMOS, COMO CONSEQÜÊNCIA, UM INDIVÍDUO HUMANO ‘CIVILIZADO’, CAPAZ DE CONSERVAR SUA AUTENTICIDADE E ORIGINALIDADE SOB A ‘ROUPA’ DE UMA PERSONALIDADE ‘BEM COMPORTADA’. D.B.] Num segundo padrão, o ambiente impõe-se ao feto (ou bebê), e em vez de uma série de experiências individuais, temos uma série de reações à intrusão. Aqui, portanto, desenvolve-se uma retirada em direção à quietude, única situação em que a existência individual é possível. A motilidade é, agora, parte da experiência da reação à intrusão. [NESTE SEGUNDO CASO, TEREMOS UMA PESSOA ‘MUITO DELICADA’, COM CERTAS DIFICULDADES PARA TER OPINIÕES PRÓPRIAS. D.B.]

    Num terceiro padrão, extremo, este último fenômeno é exagerado a um tal grau que já não resta nem mesmo um lugar para a tranqüilidade que permite a existência individual, e a conseqüência é a de uma falha na capacidade do estado do narcisismo primário de transformar-se num indivíduo. O ‘indivíduo’ desenvolve-se então mais como uma extensão da casca que como uma extensão do núcleo, ou seja, como uma extensão do ambiente invasor. O que resta do núcleo permanece oculto, por vezes a ponto de não ser encontrado nem mesmo através da mais profunda análise. O indivíduo, assim, existe por não ser encontrado. O verdadeiro eu está oculto, e aquilo com que temos de lidar clinicamente é um complexo falso eu cuja função é manter o verdadeiro eu escondido. O falso eu pode estar convenientemente em sintonia com a sociedade, mas a falta de um verdadeiro eu acarreta uma instabilidade que se torna mais evidente quanto maior for o engano da sociedade em pensar que o falso eu é verdadeiro. A queixa do paciente é de um sentimento de inutilidade.’ [E AGORA WINNICOTT DESCREVE AS PESSOAS QUE CHAMAMOS DE ‘BOAZINHAS’, SEM OPINIÃO PESSOAL, ‘SEM PERSONALIDADE’, TOTALMENTE SUBMISSAS. D.B.]

    A Agressividade em Relação ao Desenvolvimento Emocional 1950-5

    [OBS: AO FAZER A TRADUÇÃO DESTE LIVRO, RECEBI DA EDITORA A INCUMBÊNCIA DE TRADUZIR TODOS OS TERMOS, INCLUSIVE SELF, QUE EU TERIA PREFERIDO DEIXAR NO ORIGINAL. TRADUZI-O POR ‘EU’, MAS SEI QUE NÃO É UMA BOA TRADUÇÃO, JÁ QUE ‘EU’ INDICA O TODO DA PERSONALIDADE CONFORME PERCEBIDA POR SEU ‘PROPRIETÁRIO’, ENQUANTO ‘SELF’ É ALGO, UMA PARTE, DESSA PERSONALIDADE TOTAL. D.B.]

    Os dois artigos estão em 'Da Pediatria à Psicanálise'.

    Chega por hoje?

    Aceito queixas e reclamações, mas peço atenção para o que está escrito (do Winnicott).

    Enorme abraço.

    Davy.


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    [Aeternus:9293] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-11)


    - RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Vou ter que sair e não vou poder me deter mais sobre bons pontos que Jansy levantou.
    Começando pelo mais importante: Acho, sim que "é fundamental podermos ser fiéis a nós mesmos, mesmo se sofrendo porque nunca estaremos realmente adaptados e protegidos e acalentados por um grupo, igreja, panelinha".
    Quando somso fiéis a nós mesmos, acho que se sofre mais, mas sofre-se menos; e esta construção gramatical não é inocente nem casual: no "se sofre", penso no sofrimento imposto de fora pelos grupos que nos olham como aqueles que "desafinam o coro dos contentes"; quando digo "sofre-se menos", penso em algo reflexivo de cada um de nós sobre nós mesmos. Deve ser um sofrer-se sem fim, trair a si próprio...
    Mas não estou fazendo a apologia do que uma falecida e bem-humorada (às vezes) supervisora e professora chamava de "Self Verdadeiro Ambulante", ou seja, "Perco tudo, mas não falto à VERDADE!!!" Não é isso; um pouco de "falso self social" ou de "hipocrisia social" ajuda a vaselinar relacionamentos sociais complicados, mas - hélas! - necessários. Desde que o self nuclear não seja atingido visceralmente, alguma negociação pode ser pertinente e útil. Sabendo o que se está fazendo. Lembrar que os processos de construção de um falso self devem ter sido inconscientes. A "hipocrisia social" é deliberada. Afinal, por que eu diria para alguém a quem acabei de ser apresentado e com quem não simpatizei, "eu não fui com a sua cara!" Menos... Pode-se até descobrir depois que aquela pessoa era cheia de afinidades conosco...
    Mas concordo que o "politicamente correto" pode estar criando uma praga de cosntructos na base do "falso self" - aliás, antes de Winnicott uma psicanalsita (Helen Deustsch?)  havia cunhado a expressão "personalidades 'as if' ", ou seja, "como se fossem" (mas não eram...).

    Já quanto à obstrução do self verdadeiro que ficaria soterrado sob o falso self, não sei se chega a ser capaz de provocar adoecimentos físicos. Pode ser, pode não ser, não tenho clareza, temo um exagero de "psicossomatizações". Afinal não enlouquece (tipo esquizofrenia) quem quer, mas quem "pode". Com as doenças corporais, há que haver um lado mais fraco da corda para arrebentar um dia... Em último caso, viver é mortal mesmo... psicopatologizar pode ser um exagero. Ou nçao, que sei eu?
     
    E para complicar, acho que uma nesga de "verdadeiro" deve existir nas construções de "falsos selves". Afinal, ninguém é tão "bom ator" assim: deve algo de próprio no constructo que se exacerba sobre "núcleos" mais própios ainda mas que ficam de fato , esses sim, soterrados e nuitas vezes perdidos para sempre dentro das pessoas... que pena.
    Até outra hora, estou saindo atrasado, abraços a todos

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    [Aeternus:9294] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-11)


    - RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Davy: sem tempo para debater com vc, agora. Fica para depois. Pode ser que o Self seja um núcleo do eu total em Winnicott. Em kohut ainda existiria um "self nuclear" (mais nuclear ainda?) Questãod e modelos teóricos...
    E não entendo jamais a cosntrução do falso self como "superego". pode ser que um determinado EU construa um falso self por imposição do superego. isso, eu diria. Mas equiparar os 2 conceitos, eu não concordo. Problema de tentar lidar com modelos teóricos específicos, que não se traduzem um em outro sem trair um E outro... /
    abraços, bom te elr, mas não posso ficar, nem mais um segundo com vocês, sinto muito, mas não pode SER... tenho que ser em outro lugar. FUI!

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    [Aeternus:9295] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-11)


    - RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Gallego e Davy... que bom ver vocês discutindo idéias, mesmo que nos limites de tempo disponível a cada um.

    Gallego, não aproximei o falso self e as doenças psicossomáticas, apenas perguntei se a extrema adaptabilidade que caracteriza, para algumas escolas de psicossomática, o quadro geral destas patologias seria passível de comparação ao que você falou da extrema adaptabilidade que se observa no falso self.

    O referencial de termos como eu, self, falso self, self nuclear é pouco familiar para mim. Se tentasse pensar kleinianamente diria que o self nuclear é o que se estabelece a partir dos bons objetos internos e bem integrados ( introjeção das trocas boas com o ambiente, então reforçando aspectos bons externos e internos que subsistiram aos ataques e frustrações), mas... como saber? 

    Também não entendo a ligação do superego com self. Neste ponto, parei na terminologia original de Freud: o superego é um broto do ego que, por sua vez, se originou do id. Ele se forma a partir do complexo de édipo, etc e tal, pela incorporação dos valores sociais, mais frequentemente os dois avós e não dos pais .

    Como, para Klein, antes da fase fálica já existem superegos ( o da fase oral, anal, etc) o superego representaria menos a assimilação da moralidade do ambiente e mais as "imagos parentais" com os aspectos punitivos cegos das experiências primitivas com fantasia e frustração.

    Lacan por um período realmente aproximou o termo "Je" ao que mais tarde caracterizou como sendo "sujeito." Antes de usar aquela famosa linha do Rimbaud: " Je est un autre". Existem vários sujeitos e, talvez, um ou dois deles se apliquem ao "falso self" de Winnicott: o sujeito no discurso da ciência, por exemplo, ou no discurso da analise, ou o da histerica. 

    O sujeito, seja como for, depois que desencorpou o sentido de "aquele cara ali, aquele sujeitinho mal encarado..."  passou a ser empregado para expressar "efeitos do discurso" ( aquilo que nos atravessa, fala em nós e através de nós e com o que temos que lidar quando se monta nosso sintoma ). Enquanto efeito do discurso da ciência  o sujeito é o mesmo que " o assunto" na investigação), do discurso do mestre, do discurso da análise .  O sujeito barrado, aquele com o que se trabalha em análise, tem uma relação particular com a verdade, com o discurso vigente, com a língua... mas, como disse acima uma vez... como saber falar do que não sei...?

    No fundo, cada um aplica seu idioleto, aquele resultante do castigo de Babel, enquanto supõe que está trocando idéias numa linguagem em comum com o "interlocutor". Não sou falsamente modesta mas, pelo contrário, tenho esta qualidade: sei que pouco entendo do que os outros apresentam como teoria e que em mim predomina, igualmente quando se trata da teoria, o meu idioleto. Felizmente, como analista, não preciso mais prestar atenção na teoria, o que incorporei no passado é parte de mim e, como dizia o cara tranquilo no meio do naufrágio de um navio cheio de cargas preciosas: 'omnia mea mecum porto". 


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    [Aeternus:9296] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-11)


    - "Uma história repugnante"

    Êita verdade duríssima de se escutar, hã?!??

    "O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lupus. Quem, em face de toda sua experiência da vida e da história, terá coragem de discutir essa asserção?"

    (Freud no capítulo V d'O mal-estar na civilização, 1930, p.133) 

    FSP, 11/04/2008

    CARLOS HEITOR CONY

    Trabalho jornalístico fala sobre o último elo de uma cadeia: o destino final dos fetos

    Dois jornalistas ingleses, Michel Litchfield e Susan Kentish, fizeram há tempos uma ampla pesquisa sobre a indústria do aborto em Londres. O resultado foi um livro que causou espanto e merece, ao menos, uma reflexão de todos os que se preocupam com o assunto. "Babies for Burning" (bebês para queimar, editado pela Serpentine Press, de Londres) não é um ensaio sobre o aborto, mas um trabalho jornalístico sobre o último elo de uma cadeia: o destino final dos fetos que anualmente são retirados de ventres que não desejam ou não podem ter filhos ou "aquele filho".
    No caso da Inglaterra, já existe uma lei, o "Abortion Act", de 1967, que permite a interrupção do processo de gravidez pela eliminação mecânica.
    Os autores souberam, por meio de informações esparsas, que a indústria do aborto, como qualquer indústria moderna, tinha uma linha de subprodutos: a venda de fetos humanos para as fábricas de cosméticos. Durante a Segunda Guerra, os nazistas também exploraram esse ramo do negócio: matavam judeus aos milhões e aproveitavam a pele e a escassa gordura das vítimas para uma linha de subprodutos que iam de bolsas feitas de pele humana a sabões que lavavam os uniformes do Exército do 3º Reich.
    Os ingleses não chegam a ser famosos pelas bolsas que fabricam, mas pelo chá e pelos sabonetes -os melhores do mundo.
    Um "english soap" sempre me causou pasmo pela maciez, a consistência da espuma, a sensação de limpeza que dá a pele. Não podia suspeitar que tanto requinte pudesse ter -em alguns deles- as proteínas que só se encontram na carne -e carne humana por sinal. Desde que li o livro, cortei drasticamente dos meus hábitos de higiene o uso dos bons e estimulantes sabonetes ingleses. Aderi ao sabão de coco, honestamente subdesenvolvido, com cheiro de praia do Nordeste e eficácia múltipla, na cozinha ou no toucador.
    Contam os jornalistas: "Quando nos encontramos em seu consultório, o ginecologista pediu à sua secretária que saísse da sala. Sentou-se ao lado de Litchfield, o que melhorou a gravação, pois o microfone estava dentro da sua maleta. O médico mostrou uma carta:
    - "Este é um aviso do Ministério da Saúde", disse, com cara de enfado. "As autoridades obrigam a incineração dos fetos... não devemos vendê-los para nada... nem mesmo para a pesquisa cientifica... Este é o problema...."
    - "Mas eu sei que o senhor vende fetos para uma fábrica de cosméticos e... e estou interessado em fazer uma oferta... também quero comprá-los para a minha indústria..."
    - "Eu quero colaborar com o senhor, mas há problemas... Temos de observar a lei... As pessoas que moram nas vizinhanças estão se queixando do cheiro de carne humana queimada que sai do nosso incinerador. Dizem que cheira como um campo de extermínio nazista durante a guerra."
    E continuou: "Oficialmente, não sei o que se passa com os fetos. Eles são preparados para serem incinerados e depois desaparecem. Não sei o que acontece com eles. Desaparecem. É tudo."
    - "Por quanto o senhor está vendendo?"
    - "Bem, tenho bebês muito grandes. É uma pena jogá-los no incinerador. Há uso melhor para eles. Fazemos muitos abortos tardios, somos especialistas nisso. Faço abortos que outros médicos não fazem. Fetos de sete meses. A lei estipula que o aborto pode ser feito quando o feto tem até 28 semanas. É o limite legal. Se a mãe está pronta para correr o risco, eu estou pronto para fazer a curetagem. Muitos dos bebês que tiro já estão totalmente formados e vivem um pouco antes de serem mortos.
    Houve uma manhã em que havia quatro deles, um ao lado do outro, chorando como desesperados. Era uma pena jogá-los no incinerador porque tinham muita gordura que poderia ser comercializada. Se tivessem sido colocadas numa incubadeira poderiam sobreviver mas isso aqui não é berçário.
    Não sou uma pessoa cruel, mas realista. Sou pago para livrar uma mulher de um bebê indesejado e não estaria desempenhando meu oficio se deixasse um bebê viver. E eles vivem, apesar disso, meia hora depois da curetagem. Tenho tido problemas com as enfermeiras, algumas desmaiam nos primeiros dias."


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    [Aeternus:9297] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-11)


    - RE: sem palavras

    Omar, não sei o que  comentar sobre a cronica do "burn baby burn". Independentemente do que se possa concluir sobre os procedimentos legais na Inglaterra a respeito dos fetos, chama minha atenção a escolha do médico entrevistado. Ele não é típico da maioria dos médicos, nem pra inglês ver nem aqui nem na china. É um assassino sem vergonha. Deve haver vários outros donos de clínicas de aborto e, talvez, com discursos diferentes que seriam mais ou menos hipócritas, sinceros, horrendos, e mesmo normais... 

    As pessoas tem conceitos diferentes sobre tudo, haja ver as campanhas a favor ou contra a matança de bebês-focas no hemisfério norte, atualmente permitido como "expressão cultural de um povo e elemento fundamental da sua economia" e as campanhas a favor vencendo as que são contra...mas existem as que são contra. Como é que não tem voz alguma defendendo estes fetos sendo mencionada na cronica?

    O mundo não acabou não. Ainda temos muito o que fazer enquanto estivermos vivos num espaçotempo que nem sei qual é  e no qual, não sei como, onde, por que, a minha voz pode fazer alguma diferença se eu der sorte ou azar. Podem me tirar todas as certezas, mas ainda fica uma delas: a de que o amor constrói ( e olha que, neste mesmo texto de onde você extraiu o homo homini lupus, Freud conclui a mesma coisa...)


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    [Aeternus:9298] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-12)


    - RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Gallego, fico muito agradecida pelo carinho e cuidado que voce demonstrou pela minha indagação acerca do falso self. Vou procurar as indicações bibliográficas e continuar acompanhando a discussão neste site (tão especial) acerca deste e outros temas instigantes e essenciais.  

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    [Aeternus:9299] Mensagem do Grupo62
    -Davy Bogomoletz(2008-04-12)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Cely, a mensagem que enviei ao Gallego tinha como destino final você. Por favor, leia-a.

    Grande abraço.

    Davy.


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    [Aeternus:9300] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-13)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    David,

    Agora é que irei ler com atenção as mensagens dos últimos dias, pois estive envolvida com atividades que me deixaram sem o tempo necessário para ler com cuidado que merece várias intervenções.

    Visitar o site indicado e buscarei as indicações que me fez para depois comentar. Obrigada.


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    [Aeternus:9301] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-13)


    - RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Gente,

    As discussões estão bombando. Estou que nem sucuri, engoli um boi e agora estou tentando digerir, no meu cantinho.

    Beijos.


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    [Aeternus:9302] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-13)


    - a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

    Guto, com toda razão, se sente como uma sucuri (ou jibóia?) que engoloiu um boi (ou vários) - e com os respectivos chifres (de boi! nada de outras inferências ofensivas, certo, turma?)
    Como já teneti advertir (para mim mesmo, inclusive): Muitos bois, muitos chifres = Questões de métodos e de modelos.
    Insisto (ousadamente, porque o cara sabe tudo e muito mais sobre Winnicott, que eu mesmo já disse antes, mal "toco de ouvido"), e mesmo assim insisto em discordar do Davy quanto ao aspecto de "Falso Self" ser um novo nome ou uma nova visão para o superego freudiano (ou outro qualquer, kleiniano, por exemplo).
    Como as cobras não-criadas em teorias psicanalíticas estão percebendo (e as cobras criadas em teorias também), não há consenso porque são diferentes abordagens, com diferentes observações (e aí entra tanto o objeto de observação como o temperamento dos observadores, dando diferentes combinações), através de diferentes métodos e formando diversos modelos teóricos - que até podem se complemenetar relativamente sem se excluirem mutuamente, mas jamais cabendo como "mão na luva", já que não são olhares passíveis de tradução sem enorme e até mesmo desrespeitosa traição a cada pensador que ganhou alguma importância e reconhecimento mais amplo.
    Como disse Jansy são "idioletos" (Jansy  disse este nome e o Houaiss me explicou mais detalhadamente que seriam "o sistema linguístico de um único indivíduo em um determinado período de sua vida, que reflete suas características pessoais, os estímulos a que foi submetido, sua biografia, etc.")
    Eu já desconfiara, pensando no mesmo radical de idiossincrasia, idiomático, idiopático e de idiota, que, ao contrário do uso corrente dominante não se referia originalmente a alguém "retardado", mas a alguém com caracterísiticas particulares (como no romance de Dostoiévski, "O Idiota").
    Seja em que sentido for, sem ofensas, por favor, somos todos idiotas, seres particulares, falando e mais do que falando, pensando em nossos idioletos (adorei o termo, estou ávido por tentar usar e alguém perguntar o que é e eu poderdar uma esnobada de "falsa cultura", risos).
    Nossos mestres teóricos psicanalistas também tinham seus idioletos de linguagem (vale o pleonasmo para deixar bem clara a idéia).
    Sendo assim e voltando à vaca fria (antes de ser rejeitada por sucuris entediadas), acho melhor deixar o termo superego (prefiro "acima-do-eu", mas iso é meu idioleto) como foi usado antes por Freud, um pouco como Jansy falou e disse, ainda que de modo mais simples, eu pense essa estrutura como a primeira formulação clara de relação de (com) objeto, ou seja uma abordagem do velho Freud sobre introjeção de um objeto externo (o pai, a Lei, os valores sociais e culturais), sem contoação obrigatória de um "mau" superego apenas sádico, mas que pode ser também, algo que vai restringindo, censurando, limitando, inibindo o euzinho.
    Este ambiente externo introjetado em um aparelho mental pode, em outra visão completamente diferente, em outra "metapsicologia", dar origem a um indivíduo que "cresça da casca do ôvo para dentro" e não, como seria de se desejar, "a partir da gema, do núcleo para fora". No primeiro caso, uma estrutura "falso self" se assesta sobre o que viria a ser mais "nuclear" e mais verdadeiro.
    Freud estuda o ser humano a aprtir de conflitos, sua teoria é uma "conflitiva": entre Id (resumidamente: impulsos, instintos, vá lá, pulsões, desejos), Eu e Supereu, com o Eu (no sentido de Ego-estrutura do aparelho mental  e não na concepção de "Eu Total") esprimido entre o Id e a realidade externa tal como foi introjetada pelo Superego ou Supereu, como preferem dizer atualmente e mais coloquialmente. Eu prefiro Ego como estrutura do aparelho mental e Eu como Eu total: viarm os idioletos?
    Já Winnicott e mais ainda Kohut, dentre outros, pensam mais no "Eu Total" e não tanto o Ego-Id e Superego, chamando atenção para outras configurações que não necessariamente apenas as neuroses"edípicas" ligadas aos conflitos como a hsiteria, fobia, neurose obsessiva, pensando estruturas (ou falta de estrutura) mais primitivas ou arcaicas, onde, antes dos conflitos edípicos, o indivíduo ainda nem se constituiu como SER para viver conflitos objetais:  daí Kohut ter começado a re-estudar o naricisismo. Precisou quase que fundar uma outra metapsicologia diferente da metapsicologia freudiana de Id-Ego-Superego, propondo um Self Bipolar com pólo de aspirações carente de espelhamento e pólo de idealizações carente de Imagos Parentais Idealizadas. Ele dizia que o mesmo paciente teria suas configurações narcisistas numa fase e dípicas em outra. Sendo que numa mesma sesão, às vezes o recorte seria em questões edípicas, mas logo adinate, em questões narcísicas...
    O fato é que quando a gente está atendendo uma outra pessoa, ou quando tentamos introspecção sobre nós mesmos, nos deparamos com seres humanos multifacetados que, às vezes, podem ser mais bem entendidos (por suposição, por hipótese) por nossas observações dentro de um determinado modelo hipotético teórico, às vezes, outro modelo vai ser mais útil para tentarmos nos arpoximarmos das esfinges que cada um de nós podemos ser, para nós mesmos e para o demais. Mas não adianta "explicar" teorias para a compreensão. Aí é que entra o que Kohut que privilegiava como o terreno comum da prática psicanalítica, a capacidade de empatia segundo o velho Freud que não foi além quando falou disso: "capacidade de apreender algo inerentemente estranho ao meu próprio eu". É com criatividade, liberdade (vigiada por nós mesmos, é claro) que vamos ser capazes de formular novas teorias sobre a idiotia (no sentido de particularidade) de cada subjetividade com que nos defrontamos. E com nossa prórpia idiotia (nos dois sentidos),  nossa perplexidade de "não-saber", de não ter um saber prét-à-porter, um "mapa da mina" que decodifique "tudo".
    Um kohutiano (Franz Basch) dizia que as teorias são "mapas" mas não são o território , são "bússolas", mas não são o percurso. Que sem elas, podemos nos perder numa algaravia de sons que jamais se articulariam de forma siginificativa. Mas que, sozinhas, não dão conta de nenhum ser humano.
    Ainda por cima, as teorias são como a física newtoniana e a físca quântica: uma não anulou a outra, é uma questão de métodos e de modelos de observação de fenômenos. Parece uma Babel, mas nem tanto assim, acho que dá para entender porque Freud, Klein, Lacan, Bion, Winnicott, Fairbairn, Ferenczi e Kohut são do terreno comum da psicanálise e, por exemplo, Jung já é outra coisa, auto-ajuda idem, terapia cognitivo-comportamnetal outra coisa ligada a reflexologia, Pavlov e Skinner...
    Quando Melanie Klein atendeu criancinhas bem pequenas ela precisou propor um superego mais precoce do que o que Freud havia proposto (formando-se me torno dos 5 anos de idade). Poderia ter usado outro nome, talvez. Ou fez uma correção necessária na teoria anterior? Não importa, são apenas modelos, "andaimes". Se o prédio está sendo construído, o que importarão os andaimes no final? Sem eles, não se construiria prédio algum, mas com o tempo, os andaimes deixarão de importar embora tenham existido. Tal como a função do psicanalista pode se desvanecer na vida de um analisando após concluído o processo de trabalho comjunto durante algum tempo.

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    [Aeternus:9304] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-13)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Guto, estou rindo até agora com seu comentário da sucuri. Jansy, Gallego, Davy estão terríveis. Eu me sinto num fusquinha tentando acompanhar uma ferrari. Não dou conta, assim vou no meu ritmo. Não quero perder a discussão, por isso vou imprimir as últimas intervenções para ler fora da internet. 

    Este site é simplesmente demais.


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    [Aeternus:9305] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-13)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Falso Self e Superego

    Cadê a Jansy?

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    [Aeternus:9306] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-13)


    - omnibus novamente...

    Gallego perguntou por onde eu andava... Fui a Goiania, aliás lá também a dengue está grassando, pensava que era mais um descuido carioca. Onze mortos neste mes, se entendi direito ( tres registros ontem: criança de cinco anos, mais dois adultos, um deles uma grávida). A cidade está limpa, florida, linda e cheia de recantos agradáveis e pessoas interessantes. Que mosquito danado!

    Os candidatos a psicanalista de lá são ligados, lêem toda bibliografia que é oferecida e fazem perguntas instigantes. Foi um contato bom com este outro braço da psicanálise no Brasil. Gostei também da rapidez vapt e vupt diante de algumas propostas:

    O que Freud apontava com o título "Futuro de Uma Ilusão"?

    R- Se ilusão é a religião, doença infantil da humanidade e ópio do povo, e se, depois desta etapa de trevas se chega na clareza da ciência, então, já que você pergunta... respondo: Freud estava dando uma de profeta e afirmando que, dada a teoria evolucionista que ele usava e sua visão do futuro, este não será mais simplesmente "a ciência" e sim estará na psicanálise que permitirá a emergencia de um novo tipo de homem que extrai prazer do raciocínio lógico, graças ao percurso de pensamento possível depois que a psicanálise limpar os recalcamentos...

    E, se Freud coloca o assassinato do pai da horda no começo de tudo, o que encontraremos no final?

    R- A fundação do humano a partir do crime e da culpa com expiação conduz a um progressivo avanço diante das demandas da vida civilizada e da lei. A autoridade antes exercida pela igreja passa para as demandas do contrato social que, em seguida, será internalizado como um superego. O futuro da civilização é garantido pela moralidade que estará embutida nas demandas deste superego avançado...

    Podemos discordar da leitura mas... está tudo escrito em Freud desse jeitinho.Portanto, nada de "falso self" como sinonimo de superego, então.

    Ou , talvez, isso mesmo desde que se tire o sinal de "negativo" que se associa ao termo "falso self". O falso self será  verdadeiro enquanto self social... Neste caso,  os robôs do Asimov, que seguem as tres ou quatro leis da robótica, operarão seguindo  um programa de falso self genuíno e...  Help.

    Estou como o Guto, giboiando umas leituras, mais pra lá do que pra cá. Tem um erro nesta história, mas ainda não destrinchei onde está. Ficou tudo de pontacabeça pra mim.


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    [Aeternus:9307] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-13)


    -

    William Shakespeare - All the world's a stage (from As You Like It Act 2, scene 7, 139–143

    All the world's a stage,
    And all the men and women merely players:
    They have their exits and their entrances;
    And one man in his time plays many parts,
    His acts being seven ages. At first the infant,
    Mewling and puking in the nurse's arms.
    And then the whining school-boy, with his satchel
    And shining morning face, creeping like snail
    Unwillingly to school. And then the lover,
    Sighing like furnace, with a woeful ballad
    Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier,
    Full of strange oaths and bearded like the pard,
    Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
    Seeking the bubble reputation
    Even in the cannon's mouth. And then the justice,
    In fair round belly with good capon lined,
    With eyes severe and beard of formal cut,
    Full of wise saws and modern instances;
    And so he plays his part. The sixth age shifts
    Into the lean and slipper'd pantaloon,
    With spectacles on nose and pouch on side,
    His youthful hose, well saved, a world too wide
    For his shrunk shank; and his big manly voice,
    Turning again toward childish treble, pipes
    And whistles in his sound. Last scene of all,
    That ends this strange eventful history,
    Is second childishness and mere oblivion,
    Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.
     mundo inteiro é um palco, e todos os homens simples atores, com as suas saídas 
    e entradas, com múltiplos papéis em atos que abrangem sete idades. 

    Primeiro, temos a criancinha, choramingando e vomitando nos braços da ama. Segue-se o estudante resmungão, com a sua mochila, o brilhante rosto matinal, arrastando-se como um caracol para a detestada escola.

    A terceira idade é a do amante, suspirando como uma fornalha, com uma horrível balada em honra da sobrancelha da amada. Depois vem o soldado, cheio de estranhos juramentos, barbudo como um leopardo, zeloso da honra, brusco e ágil na luta, atrás da ilusória reputação, mesmo na boca do canhão.

    A quinta idade é a do magistrado, com o seu belo ventre redondo, usando gorro próprio, olhar severo e barba de corte formal, cheio de sábios provérbios e modernos julgamentos, desempenhando o seu papel.

    A sexta idade faz o homem vestir-se como um arlequim, de calças justas, óculos no nariz e algibeira ao lado; meias joviais, bem conservadas, um mundo amplo demais para as suas enfraquecidas pernas, e um vozeirão másculo a tornar-se num infantil soprano, cheio de silvos e sibilos.

    A derradeira cena, término da memorável história da vida, é a segunda infância, a do puro esquecimento, a da falta de dentes, de visão, de paladar, rumo ao nada.

    ( citado no site de "kavorka")

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    [Aeternus:9308] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-14)


    - atualidade freudiana

    Ontem, quando me perguntaram como entender a insistencia do Freud a respeito do "Futuro de uma Ilusão", ou seja, falando da importancia de passarmos da postura infantil de desejar amparo de uma divindade onipotente e amorosa oferecida pela religião, neste ou em outro mundo, de adotarmos a solidão e desenvolvermos nosso pensamento... quando quiseram saber porque então o mundo estava cheio de fanaticos religiosos, com multiplicidades de religiões ( todas brigando para serem monoteístas e engolfarem as outras) e, no campo das artes e das massas, com retomadas de magias, gnomos, bussolas douradas e harry potter com estrelinhas... lembrei de algo que já vinha problematizado no começo das falas do Freud. Para ele o monoteísmo, que teria sido iniciado por Akhenaton no Egito antigo, era produto do imperialismo que demandava uma unificação dos povos submetidos para que todos fossem controlados por igual, por uma mesma divindade, por uma mesma autoridade. Assim, o monoteismo abstrato, sem imagem e sem nome, serviria para encaixar tudo nele e tomar conta, uniformizando... A diversidade, sufocada, eclodia novamente assim que surgisse uma chance...

    Hoje, com tamanho controle global, vemos os pequenos surtos esparsos de busca de expressão contingente, trivial, mágica, miúda, pessoal....

    pena que tenha que escrever correndo, pulando sobre tanta coisa... mas estava curtindo lembrar de vários filmezinhos de ficção que andei vendo e deixando brilharem as estrelinhas ( nem lembro qual filme foi no qual a Clare Dane era uma estrela que podia ser roubada, no brilho, por uma bruxa, a Michele Pfeifer)


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    [Aeternus:9309] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-14)


    - Neurociência, Byatt e John Donne

    Eu já estava achando demais esta adesão da IPA às neurociências. Agora temos sua expansão até no campo da arte e da crítica...

    Quem quiser, confira:


    Times Literary Supplement
    THE NEUROSCIENCE DELUSION
    Neuroaesthetics is wrong about our experience of literarure--and it is wrong about humanity
    by Raymond Tallis


    http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/the_tls/article3712980.ece

    excertos: A generation of academic literary critics has now arisen who invoke “neuroscience” to assist them in their work of explication, interpretation and appreciation. Norman Bryson, once a leading exponent of Theory and a social constructivist, has described his Damascene conversion, as a result of which he now places the firing of neurons rather than signifiers at the heart of literary criticism. Evolutionary theory, sociobiology and allied forces are also recruited to the cause, since, we are reminded, the brain functions as it does to support survival. The dominant model of brain function among cognitive neuroscientists is that of a computer, and so computational theory is sometimes thrown into the mix...chapter headings such as “Literary Creativity: A Neuropsychoanalytic View”...lcome); and the emergence of “Darwinian literary criticism” which approaches the Iliad and Madame Bovary through the lens of theories about the evolved brain. Evolutionary explanations of why people create and enjoy literature, “neurocognitive frameworks” for aesthetics, and neural-network explanations for the perception of beauty are all linked through the notion that our experiences of art are the experiences of a brain developed to support survival. Byatt’s approach to Donne’s poetry through neuroscience, therefore, is not unique, nor even unusual...The switch from Theory to “biologism” leaves something essential unchanged: the habit of the uncritical application of very general ideas to works of literature, whose distinctive features, deliberate intentions and calculated virtues are consequently lost.
    ........................................................................
    That is why one would expect critics to be on the side of the poets, with their sense of this complexity, rather than siding with the terribles simplificateurs of scientism. A. S. Byatt’s neural approach to literary criticism is not only unhelpful but actually undermines the calling of a humanist intellectual, for whom literary art is an extreme expression of our distinctively human freedom, of our liberation from our organic, indeed material, state.


    At any rate, attempting to find an explanation of a sophisticated twentieth-century reader’s response to a sophisticated seventeenth-century poet in brain activity that is shared between humans and animals, and has been around for many millions of years, rather than in communities of minds that are unique to humans, seems perverse. Neuroaesthetics is wrong about the present state of neuroscience: we are not yet able to explain human consciousness, even less articulate self-consciousness as expressed in the reading and writing of poetry. It is wrong about our experience of literature. And it is wrong about humanity.


    Raymond Tallis is Emeritus Professor of Geriatric Medicine at the University of Manchester


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    [Aeternus:9310] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-15)


    - RE:RE: sem palavras... Freud, Hobbes, Cony, Hannibal & a destrutividade "altruísta"

    O açougueiro inglês fez o Hannibal parecer bonzinho, hã?!??
    Não... não... falem pra mim que isso é o Monty Python em sua mais radical incursão no humor negro...
    Voltemos a Freud e à pergunta ao final da citação: "quem (...) terá coragem de discutir essa asserção?"
    Eu responderia: Rousseau. Ouço muitos mencionarem a idéia de "bom selvagem" com desdém cínico, no entanto, até onde sei, tudo começou com uma reflexão de fato valiosa e revolucionária (não que já não estivesse latente desde os clássicos, mas continua a ser "revolucionária" até hoje), a de que a natureza humana pura não existe ao alcance da observação, dado que o ser humano não está pronto ao nascer, e sua humanidade (bem como a DESumanidade de alguns) se gesta e acontece no contato social. Este é, para mim, um argumento que de fato abala a idéia hobbesiana do homem-lobo-do-homem, porque, para o bem ou para o mal, não podemos conhecer a natureza humana, apenas tentar adivinhá-la. É a historicidade compondo até mesmo aquilo que cada indivíduo sente como tendo sido "inventado" por ele próprio para si próprio, é a dimensão cultural condicionando não somente seus pensamentos como até mesmo sua índole e suas vocações. Afinal, um desejo só se torna um desejo quando uma pulsão encontra um objeto.
    A 1ª teoria das pulsões de Freud parece-me mais bem casada com a idéia de natureza insondável que se realiza na dialética do desejo, mas Freud, com o tempo, "voltou" para Hobbes ao "soltar" a idéia da pulsão-de-morte na ladeira da destrutividade generalizada. Digo que ele "soltou" porque o conceito, originalmente, se parecia mais com um nirvana ocidentalizado, uma espécie de desdesejo, ou de desejo de desnascer, uma busca por rebaixar a música da vida à única nota da tônica dominante. Mas Herr Professor deixou que ela acabasse se parecendo com uma mera fixação de impulsos sádicos - o que, no meu modo de entender, não se encaixa à irredutibilidade que, por definição, caracterizaria uma pulsão.
    Assim, vejo Rousseau por trás da 1ª teoria das pulsões, em que a "energia sexual" tinha, por seu parentesco com o conceito de instinto de preservação da espécie, uma finalidade socializante - e "finalidade" é palavra usada por Freud -, e vejo Hobbes por trás das segundas teorias - pulsional e tópica -, desde um Id que funde pulsões "de vida" e "de morte" numa psique fadada ao egoísmo, até uma pulsão de morte que usurpa do "altruísmo" sua vocação extra-orientada, distribuindo destruição ao menor pretexto.
    Não me lembro de quais textos freudianos tirei essas lembranças, mas não deve ter sido das "Conferências", Freud era muito redondinho nelas, muito conclusivo, e tudo parece absolutamente bem equacionado ali... É nos tijolinhos teóricos dos textos reflexivos que a gente consegue DIALOGAR com ele (porque nas Conferências, só conseguimos "ouvi-lo").

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    [Aeternus:9311] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-15)


    - RE:atualidade freudiana

    UAU! JANSYTA!
    Essa foi convincente, hã! Sociologia de vanguarda (pra época)!
    E como nos tempos remotos não se sabia qual ovo ou galinha tinha nascido primeiro, se o poder ou a religião, que eram uma coisa só, analisar a coisa do ponto de vista do poder leva a esse modo de explicar o surgimento do monoteísmo pra fortalecer o Faraó! Bacana!
    E me diga, o Akhenaton foi antes ou depois do Moisés? Porque vi na TV outro dia que aquele faraózinho era meio esquisitinho, e, entre os egípcios, sua então nova religião não vingou depois que morreu. Ele até antecedeu LuisXIV ao transferir a capital para uma "versalhes" longe da original, só pra mudar o tom e aumentar a reverência ao rei-da-cocada-preta. E mais, o monoDeus era representado pelo SOL, outra semelhança com o tão posterior catorzinho! Mas depois os súditos largaram tudo lá, deixando que a nova cidade afundasse na areia, e voltaram pra Tebas e pro politeísmo.
    E que mais? Como é que o Freud compara (os monoteísmos de) Moisés e (de) Akhenaton?
    Eu podia procurar aqui, mas fiquei tão empolgado que acho mais fácil perguntar pra você (hehe...)
     
    ...e pra complementar "O Futuro...", tem o "Moisés e o Monoteísmo", escrito bem depois, né? Ou ele já dá as cartas todas no primeiro?

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    [Aeternus:9312] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-15)


    - Cosa nostra

    Porra, people, que entrevista do caralho, hein?!??...
    Muito do que li aqui, para além do crime ou da ocultação dele, me serviu como reiteração do que acredito pra tocar a punheta diária da vida.

    Domingo, 13 de abril de 2008

    OESP - Aliás

    De como o assassinato é ao mesmo tempo estranho e familiar, ameaçador e íntimo

    Mônica Manir

    Luiz Alfredo Garcia-Roza começou pelo fim. Nas primeiras páginas de O Silêncio da Chuva, seu romance de estréia, ele revela com todas as vírgulas quem matou o executivo que saboreava lentamente seu último cigarro no estacionamento de um prédio em Copacabana. Se o leitor queria o autor do crime, ei-lo. O que interessava, de fato, vinha depois.

    Para esse carioca de Copacabana, professor de filosofia e psicologia da UFRJ durante 40 anos, hoje criador obstinado de romances policiais, o nono deles em obras, o assassinato ultrapassa, e muito, o ato em si. O que leva uma pessoa a cometer um crime, diz Garcia-Roza, remete a uma trama complexa de motivos, conscientes e inconscientes. "Não é um problema a ser resolvido, mas um enigma a ser decifrado."

    O povo, aparentemente, não chegou a esse nível de interpretação quanto ao caso Isabella Nardoni, a garota de 5 anos atirada da janela do apartamento do pai no dia 29 de março. A descoberta do assassino é um problema crucial, imediato, insuportável. "Não é que estejamos famintos ou sedentos de justiça", decifra o escritor. Queremos é suspirar aliviados, felizmente ficaria comprovado que não fomos nós. Porque, segundo Garcia-Roza, personificando Espinosa, seu personagem-detetive, sabemos inconscientemente que poderíamos ter cometido aquele crime. Como já cometemos coisas do gênero inúmeras vezes em sonhos ou fantasias.

    Por que o crime de morte desperta tanta curiosidade?

    Porque ele é ao mesmo tempo estranho e familiar, ameaçador e íntimo. Enquanto familiar e íntimo ele nos atrai; enquanto estranho e ameaçador ele nos repele. Se levarmos em consideração o fato de que todas as noites, em nossos sonhos, matamos e cometemos toda a sorte de perversidade com pessoas que nos são queridas, não é difícil entender que o crime e a atração mórbida façam parte da nossa interioridade. O mal não é algo externo a nós, mas algo que nos habita. Assim como repetimos todas as noites nossos pequenos assassinatos, sentimo-nos atraídos pelos assassinatos alheios. O crime é cosa nostra.

    Ainda que não nos lembremos de muitos sonhos?

    Às vezes até lembramos, às vezes nos protegemos quando a vítima aparece distorcida. Mas, de qualquer maneira, somos os autores desses sonhos e neles matamos pai, mãe, marido, mulher, irmão. Do ponto de vista da sexualidade, também cometemos barbaridades.

    Mas isso está no campo da inconsciência.

    Não importa se é consciente ou inconsciente. Isso não diminui o afeto ligado a ele. O crime que cometemos durante a noite é até muito mais intenso do que aquele cometido por outro a distância. O meu sonho me diz respeito muito mais de perto do que o crime alheio. Ora, na medida em que o crime alheio é um crime, e na medida em que eu também sou, a meu modo, um pequeno criminoso, eu me sinto irmão do outro nesse crime. Daí a atração.

    O fato de alguns assassinos não assumirem o crime tem algo a ver com essa inconsciência?

    Não. Você conta o sonho, tanto que, quando vai ao analista, essa é a matéria-prima do seu cotidiano analítico. Pode, inclusive, dizer tranqüilamente que matou o seu filho no sonho. Só que o sonho sonhado e o sonho contado são coisas diferentes. Em geral, aquilo que você relata já sofreu tal transformação em relação ao que de fato provocou o sonho que perde um pouco da importância. Agora, quando um assassino não confessa seu crime, é outra história. A defesa dele não é a defesa que se dá entre inconsciente, pré-consciente e consciente. É uma defesa que se dá toda em nível consciente. Existe a ameaça clara de que, se confessar, vai preso.

    Quando se descobre o assassino, o crime perde o atrativo?

    No meu último livro, uso uma frase do Edgard Allan Poe que diz o seguinte: "A essência de todo crime permanece irrevelada". O crime ultrapassa, e muito, o ato pelo qual uma pessoa matou outra. O assassinato, assim como o suicídio, é uma significação. Não pode ser reduzido a um comportamento. Os animais são capazes apenas de comportamento (behavior). O ser humano, não. Encontrar o culpado, o whodunit (expressão que vem de who done it?, "quem fez isso?"), somente aponta e descreve um comportamento, como poderíamos descrever o leão perseguindo e abocanhando a gazela. A cena do crime é uma realidade complexa, formada de uma pluralidade de signos que nos remetem a uma outra cena, cujos significados não são evidentes, mesmo que se descubra quem deu o tiro. O que levou o assassino a cometer o crime pode nos conduzir a uma trama complexa de motivos, conscientes e inconscientes, impossível de ser revelada integralmente.

    O que, na nossa sociedade, seriam agravantes de um crime?

    Quando falamos de agravante e atenuante precisamos saber em função do quê falamos isso. Uma coisa é a agravante e a atenuante em relação à lei, outra é a agravante e a atenuante em relação a uma avaliação psicológica, psiquiátrica, psicanalítica. Existe a agravante sociológica, a atenuante econômica. Em suma, as agravantes e as atenuantes serão tantas quantas forem as interpretações que se fizer daquele crime.

    O crime passional, ou aquele motivado por vingança, tem suas justificativas?

    O assassinato nunca é justificável. O fato de um crime de morte ter como motivo imediato a vingança quanto a um ato hediondo, por exemplo, não elimina o fato de ele ser um assassinato. Você tem uma compreensão possível, mas não uma justificativa. Claro que se pode dizer que essa pessoa estava tomada pela ira dos deuses ou dos demônios, estava enlouquecida. Isso até pode ser apontado como atenuante no sentido de que o sujeito estava fora de si, talvez atenue o peso da pena, mas aquele ato continua sendo crime.

    Como o senhor explicaria o assassinato de uma criança?

    O crime contra uma criança não é explicável, tampouco justificável. O que podemos dizer é que o criminoso, nesse caso, ultrapassou o limite da razão e procedeu segundo uma lógica perversa, para além do prazer, uma lógica do mal pelo mal.

    Existe crime sem motivação?

    Se por motivação você entender desejo, não. Mesmo que imaginássemos um ser puramente pulsional, se essa pulsão não encontrou sua expressão num desejo - e, portanto, na linguagem -, ela será anárquica, indeterminada, não capturada pela linguagem. Portanto, não poderá ser "criminosa".

    A família é um cenário propício à violência?

    Sem dúvida. A família é o teatro privilegiado dos desejos mais intensos e dos conflitos mais dilacerantes. É, por excelência, o cenário principal. É ali que se dão os parricídios, os incestos, os crimes hediondos da humanidade e, ao mesmo tempo, os crimes que fundam a humanidade. Se a família envolvida em um crime tiver uma estrutura semelhante à sua, o envolvimento obviamente é maior. Você sofre por ela, e também se assusta com ela.

    Vilões tradicionais persistem nas tramas modernas?

    Isso é um estereótipo que dificilmente se verifica. Se houve um crime no castelo, logo se procura o mordomo porque ele é um frágil. Não se vai buscar de imediato o conde, o barão, o nobre. O mordomo, por sua vez, vai procurar o cozinheiro. Ao mesmo tempo, o mordomo (e o cozinheiro) são extramuros, apesar de viverem intramuros. É a idéia de que o mal é exterior, de que vem de fora da família, do castelo, da cidade.

    O senhor escolheu a cidade do Rio de Janeiro como pano de fundo para seus romances. A metrópole é um lugar privilegiado para o surgimento da criminalidade?

    Sim. É com o nascimento da grande cidade que surge a polícia investigativa, a polícia repressora, as histórias de detetive. O romance policial desponta com Allan Poe em plenas Nova York e Londres no final do século passado. Na grande cidade você pode se perder, mas também pode cometer um crime e se ocultar. É difícil ocorrer assassinatos em série numa pequena cidade do interior porque todo mundo conhece todo mundo. Um detetive numa aldeia é uma figura totalmente inútil.

    A figura do legista também surgiu daí?

    A medicina legal faz parte de um conjunto de aparatos públicos ou privados ligados a uma finalidade que não existia antes. Surge a impressão digital como forma de identificação das pessoas. Surge o DNA, que aponta com segurança quem esteve em tal lugar.

    O DNA virou personagem fundamental dos enredos policiais?

    O DNA não responde por tudo, apenas diz que aquele sangue que estava ali é seu. Mas, assim como o médico vem cada vez mais trocando o exame clínico pela tecnologia, o policial tem transferido muito do seu olhar e faro para a ação da polícia técnica.

    Perdemos com essa transferência?

    Sim, porque aí está se reduzindo o crime a um comportamento. Como disse, ele é muito mais do que isso, é uma significação. Não é um problema a ser resolvido, mas um enigma a ser decifrado. Não é possível reduzi-lo às idéias claras e distintas do cartesianismo ou do racionalismo cientificista. O enigma possui uma opacidade que lhe é essencial. A verdade não é toda luminosa e transparente, ela também é feita de sombra, e essa sombra não é um defeito, algo a ser eliminado em nome da transparência da razão, mas lhe é essencial. Verdade e engano são complementares, e não excludentes. É nessa região de sombra do enigma que reside a ambigüidade. E é essa ambigüidade essencial que torna impossível a univocidade da verdade e a interpretação total ou definitiva do enigma.

    Para uma sociedade que se sente ameaçada, ele é um problema.

    Sem dúvida, mesmo porque é mais fácil transformar um crime num problema. Quando visto assim, é só uma questão de equacionar. Aí deduz e resolve. O enigma não. O enigma tem que ser indecifrável, não pode ser problematizado. A decifração dele se faz ao infinito, a interpretação é interminável. É como um livro, um poema, um acontecimento. Ele é interpretável indefinidamente.

    As pessoas suportam esse caráter indefinido?

    Incomoda o ato de você dizer, na psicanálise, que a interpretação do sonho é indefinida. Sim, é interminável, mas não interminada. É interminável porque você pode prosseguir no processo interpretativo enquanto o analista e o analisando estiverem vivos. O que não quer dizer que, num belo dia, você chegue e diga: "Acho que podemos botar um ponto final aqui". Embora a interpretação possa seguir indefinidamente, o que se fez até então foi suficiente para que o analisando possa prosseguir sozinho. Complicado é esse ponto de basta. É como a prova de amor. Você faz uma declaração, escreve um poema, dá um presente, isso não tem fim. Por quê? Porque, por mais que você garanta ao outro o seu amor, basta um olhar seu para ele interpretar como desamor. E começa tudo outra vez. A significação é permanentemente interpretável, ao passo que o comportamento não. O leão comeu a gazela. Está lá. Ao passo que o simples declarar amor a alguém pode pedir uma vida inteira de provas.

    As técnicas para se desvendar um assassinato tornaram a idéia do crime perfeito ainda mais improvável?

    O crime perfeito é aquele que nem sequer sabemos que aconteceu.

    Que papel as testemunhas desempenham em tramas criminosas?

    As testemunhas são intérpretes leigos. Leigos no sentido de selvagem, não são pessoas formadas criticamente no exercício disso. Esses intérpretes leigos vão, com suas fantasias, multiplicar ao infinito a significação do acontecimento. O mesmo comportamento de uma pessoa pode ser interpretado por cinco pessoas diferentes, de cinco maneiras diferentes, algumas até bastante contraditórias. São todos espectadores. Se entre as testemunhas houver um médico legista ou um policial, o depoimento deles é mais forte, a menos que abram mão dessa postura investigativa e olhem o crime como pessoas comuns.

    É possível estabelecer relação entre a prática psicanalítica e o trabalho do detetive?

    Os dois possuem como ponto de partida a recusa do dado, aquilo que se apresenta como verdadeiro porque tido como evidência sensível, como certeza. Mas o dado sensível é uma ilusão. Todo dado já é um constructo. Daí, toda certeza sensível ser ilusória. O psicanalista e o detetive, e eu também incluiria aqui a figura do filósofo, empreendem a busca de uma verdade que está para além do dado imediato. São práticas da suspeita. Mas, enquanto os conceitos científicos são feitos de idéias claras e distintas, os signos psicanalíticos são compostos de obscuridade, ocultamento, tropeços, falhas, esquecimentos. A ciência trabalha na plena luz das suas idéias; a psicanálise, nas sombras e obscuridades do desejo


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    [Aeternus:9313] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-15)


    - RE:RE:atualidade freudiana

    Omar, se você busca mesmo a resposta para as questões que colocou, o jeito será ler "Moisés e o Monoteísmo" na sua primeira, segunda e terceira versão...

    O que posso adiantar? Akhenaton, que foi logo assassinado, chamava-se Amenophis IV e substituiu seu nome que descendia do nome do pai, para homenagear o Deus-Sol (aton) e eliminar "amon".  Moisés seria egipcio, um sacerdote buscando o poder depois da queda de Akhenaton e, tentando obter eleitores para apoiá-lo, encontrou nos escravos judeus uma promessa de adesão prometendo-lhes, em troca, libertá-los do jugo dos egípcios e entregar-lhes bastante terra e alimento ( a "Terra Prometida", mais mel e maná caindo do céu). No meio das lutas de um lado e de outro, este Moisés egípcio acabaou sendo assassinado também. Então surgiu um outro Moisés ( acho que o nome Moi-sés, de base egípcia, originalmente significava  "filho de fulano", como no final do outro rei, "Ramses") que seria hebreu, o que recebeu as táboas da lei diretamente de Deus. Acho que assassinaram ele também, não me lembro. Mas o tema é esse mesmo: pais, filhos e assassinatos. A religião e o poder, a lei e sua garantia vem juntos nesta época e continuaram assim por muito tempo.  A religião egípcia do sol diferia da mosaica pela extensão das demandas de "não-representabilidade","não-nomeação", ou seja, pelos contornos mais abstratos. Não me recordo do resto, mas apesar de haver um deus único, já havia uma distinção nítida entre ambas propostas.  Para Freud a morte destes faraós, sacerdotes, pais ou fundadores é fundamental para estabelecer o "trauma original" que perdurou na memória filogenética demandando expiação e promovendo sentimentos de culpa em relação ao pai morto, estabelecendo os rituais para alívio da angústia e novo tipo de controle, agora abstrato, sob forma de Lei que representaria a lei do pai: externalizado no totem e interiorizado como superego. 

    Sabe, estes percursos e percalços entram por um dos meus ouvidos e saem pelo outro, um dos olhos e do outro ... me interesso pelo esquema geral. Pra informação correta, só lendo mesmo outra vez e, ora... agora passo o bastão! Tem a repetição ritual que encerra um cerne de verdade pré-histórica da qual se serve a memória filogenética, tem a repetição das escritas religiosas que distorcem como telefone-sem-fio. Etc...

     


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    [Aeternus:9314] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-15)


    - RE:Cosa nostra

    Omar, este texto vem bem a propósito, escrito por um psicanalista-filósofo, que se tornou romancista, tratando de assassinatos primevos e do crime atual que vitimou uma menina de cinco anos. Não pude ler até o final. Lembrei do Freud, sobre quem acabava de preencher uns traçados em branco a respeito de Moisés.

    Nossa memória filogenética pode presentificar em nós o assassinato que "todos nós cometemos", implicar-nos no gesto fundador da civilização com seus tabus de bom-senso acoplados a algumas irracionalidades. Mas a memória não é um "programa" nem uma "pauta instintual", isto Freud deixa bem claro até quando detalha a dialética das "séries complementares".  Temos liberdade bastante para reagirmos aos comandos instintitos e às imputações dos registros mnemicos arcaicos. O crime do outro não é o meu crime. O meu crime não é o do grupo.

    Se me interesso pela história da Isabelle Nardoni ( existem tantas meninas maltratadas, mortas, abandonadas, exploradas...ela não é unica nem um exemplo das demais) é porque ainda não me acostumei com a idéia de que ela tenha sido deliberadamente morta pelos pais, como alguns sustentam. Pais ou parentes próximos matam os filhos ( a mídia nos traz notícias disso também quase diariamente, inclusive através dos recém-nascidos abandonados e dos abortados) só que há algo discordante nesta cronologia, nos acontecimentos antecedentes, no que se conta dela e é isto que me causa espécie. 

     


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    [Aeternus:9315] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-15)


    - RE:RE:Cosa nostra

    Nem li tanats coisas assim do Garcia-Roza filósofo-psicanalista apenas teórico (acho que ele  nunca clinicou mesmo), mas recordo que um dos seus livros mais interessantes era sobre a pulsão de morte, embora ache que ele tenha dado uma "pirueta" especulativa que pode ter sido ousada demais ou falaciosa demais. Não lembro mais muito bem... Tenho outros livros dele sobre psicanálise que já usei como consulta em tópicos específicos, mas que não li por inteiro.
    Já o romancista policial eu li muito e bastante durante muitos anos. Tenho lembrança que gostei muito de "O Silêncio da Chuva" no geral e nos detalhes, especialmente o simpático e idealizado detetive Espinosa que usa livros como suporte para outros livros (uma "estante" feita de livros para livros), além da ambientação verossímil carioca de então. A memória diz que gostei da trama, da escrita, de tudo, enfim.
    O segundo livro dele, "Achados e Perdidos" não se destacava pelo mistério de quem era o assassino (dava para descobrir sem muito esforço) e não agradou a tantos que gostaram do primeiro livro, mas gostei muito como romance propriamente dito e retrato dos menores de rua do Rio naquela época.
    Insito na época porque o Rio piorou tanto em matéria de violência e criminalidade desde então que suponho que uma releitura destes dois livros possa parecer um Rio edulcorado. Mas posso estar equivocado.
    O terceiro livro da série do Espinosa era simpático, escrito direitinho, com bom gancho, mas já deixava uma sensação um pouco frustrante, sem ser pelo motivo recorrente de livros policiais: geralmente eles seduzem pela criatividade da situação de base (a abertura, o crime), mas à medida em que as tramas vão ficando mais "originais", os desfechos se revelam frustrantes para o leitor que se sente algo lesado por ter sido privado de tantas informações que são escondidas para não revelar o "whodunit?". As "soluções" ficam inverossímeis demais, tudo muito rebuscado, mas o leitor de livros policiais deve ser algo masoquista e gosta de se sentir enganado. Só que gostaria de ser muito bem enganado e acaba sendo mal enganado...
    Mas insiste e compra os livros do nosso detetive carioca e lê correndo... E vai se frustrando a cada novo livro.
    Isso ainda não me ocorreu com o "Salvo Montalbano", detetive criado pelo idoso escritor de tantos gêneros e que só foi abordar o policial na velhice avançada, o Andrea Camilleri, cujos livros da série Montalbano ajudam a passar o tempo com humor e certa criatividade, sem estrepolias pirotécnicas excessivas e com o acréscimo de receitas sicilianas (o "Salvo" é um comilão de bom gosto e apetite voraz). Eu diria até que os primeiros livros da se´rie nem eram tão bons quanto os seguintes, da fase intermediária, Claro que com o tempo, as coisas podem ficar rotineiras, mas os livros continuam me atraindo bastante - especialmente porque, realisticamente, os crimes nem sempre são punidos, já que caem no terreno do "mais alto" (máfia, políticos, poderes podres e protegidos): sabe-se quem e por quê, mas nem sempre a "justiça vence". Ou quase nunca... Os crimes podem ser cruéis e muitas vezes não há exatamente um happy-ending.
    Curioso é que o personagem foi batizado em homenagem ao escritor espanhol (falecido há pouco tempo) Vasco Montalbán que também escrevia romances não-policiais e cujo personagem detetive (Pepe Qualquer-sobrenome-Aportuguesado em vez de espanholado) é antipático por queimar livros seja para se aquecer, iluminar ambientes escuros, fazer fogo para cozinhar (também é glutão). Não dá para tolerar essa excentricidade do catalão. Dizem que o escritor era antipático. Faz sentido. Li um ótimo livro dele, que deve ter inspirado o italiano no sentido de não haver punição do criminoso (os tempos atuais são sem idealização que havia no passado das Aghatas Christies e Nero Wolves, ainda simpa´ticos, mas às vezes, mais ou menos datados). Mais 1 ou 2 bons do espanhol...e os demais... meio mais ou menos...
    Voltando ao Garcia-Roza. os livros foram decaindo de interesse a ponto de eu nem me interessar em ler o mais recente. Os últimos eram bem decepcionantes, incluindo as tentativas de abordar a  área "psi" no crime.
    Um deles se passava claramente no Instituto de Psiquiatria da UFRJ pela descrição do pátio com árvores enormes ondes os pacientes (e os gatos) tradicionalmente convivem com os médicos, psicólogos, estudantes, visitantes, ao ar livre. A liberdade era tanta que os pacientes fugiam muito, mas geralmente os mais calmos podiam passear por ali sem ficar o tempo todo retidos nas enfermarias. Infelizmente, no livro do G.-R. a gente percebia um "paranóico" criado à imagem e semelhança da teoria sobre Schreber, e meio bastante verossímil na prática como um psicótico capaz de matar realmente... Pior quando o Garcia-Roza escreveu sobre uma psicanalsita encontrada morta no divã de seu gabinete e que transava com suas pacientes (mulheres). Sem moralismo nem espírito de classe: na ficção pode tudo, mas soava inverossímil e mais perverso do que a perversão da personagem. Nesse meio tempo ele tentou uma outra perosnagem fixa, uma taxista que até agora ficou em um só livro fraquíssimo, embora novamente fosse feliz no retrato de Copacabana com meninos de rua.
    O último romance do Garcia-Roza com o detetive Espionoza foi muito mal recebido pela crítica que dizia o que eu já vinha sentindo do quarto ou quinto livro para cá: o Garcia-Roza não tem fôlego de romancista policial para sustentar uma série como em tempso passados o Rex Stout fazia com Nero Wolf e a Aghata Christie fazia com Poirot e Miss Marple. Ou o Ellery Quinn...hoje em dia, Aghata Christie soa dtada e rocambolesca, os livros policiais tiveram que ser mais "realistas" e cruéis. Talvez a saída seja o anti-herói da Patricia Highsmith, o Ripley? Ou o Maigret do Simenon?
    Montalbano - ao meu ver -se sustenta de modo agradável sem maiores pretensões.
    Outros anglo-saxões muito bem falados só fizeram me decepcionar.
    Uma exceção (parcial, mas que ainda me agrada muito) é o David Lehanne que escreveu o "Sobre Meninos e Lobos" mas tem uma série com um casal de detetives que já li um que gostei muito ("Baby, Gone, baby") que virou filme e deve ser lanaçdo no Brasil embora tenha tido a estréia adiada na Inglaterra pelo caso da menina desaparecida em Portugal. A trama envolve uma criança sumida, pedofilia, horrores, horrores, horrores, REAIS.
    Agora com este crime horroroso em SP, não sei quando e se vai ser lançado ou oportunistciamente antecipado o lançamento por aqui...
    O Lehanne é de uma capacidade de expor situações cruéis incrível e escreve muito bem.
    Mas, ao meu ver, derrapou em um outro romance sem detetives fixos, um tal de "Paciente 67" que tb está sendo filmado mas que não me agradou ao se arriscar no delicado terreno da doença psiquiátrica, asilos, coisas similares. Mas pretendo ler outros livros dele, tenho todos os lançados no Brasil, falta é tempo...
    Já "O Poeta", badaladíssimo, do Michael Connally é como eu disse antes: enrola tanto que não dá para desenrolar direito...
    Viva "O Nome da Rosa"!!!

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    [Aeternus:9316] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-15)


    - RE:RE:RE:Cosa nostra

    A listagem mais informal do que você ouviu, leu, assistiu, pensou é enoooooooooooooooooooooooooooorme, Gallego. E sua memória, encicloooooooooooooopeeeeeeédicaaaaaaaa. Uau.

    Peguei na estante o nome de dois espanhois, de Barcelona, que vivo confundindo: Manuel Vázques Montalban e Enrique Vila-Matas ( "Mal de Montano" e o inspetor Montalbano...entre outros). Deles li livros maravilhosos, mas foi tudo pro ralo das albas montanas do quem é quem, quando, o quê. Estou ainda tentando ler "Erec e Enide", de um deles e "O Quarteto".

    O pior é que outros autores espanhois, importantes de modo bisexto, se misturaram nesta minha confusão. Quem escreveu aquela história de uma tela flamenga, com jogadores de xadres da qual emerge uma pista enxadrística que revela crimes na atualidade? (Gallego viu o filme, até e não gostou tanto quanto do livro).

    Como Gallego, gostei do primeiro romance do Garcia-Roza e nem um pouco de outro que li sobre meninos que vivem escondidos nos esgotos na praia de Copacabana. Acho esquisito ver que a obra dele, do Chico, Jorge Amado e do Coelho de tal enchem as prateleiras das obras traduzidas ( em ingles, frances, italiano...à venda nas boas livrarias). O que é o mercado editorial, hem? Fora o grande achado das obras meio artísticas, meio instrutivas, um quarto detetivescas, e a contabilidade se explodiu...livros como o Código da Vinci tiveram antecessores como sobre a arte com roubo de pigmentos dos artistas do norte e das regras de perspectiva dos pintores do sul, que ensinam a entender Brueghel e sua época com roubos de telas, ou fofocas da corte italiana entendidas por painéis de bordados medievais. Ah, essa falsa verdadeira cultura...A gente fica sabidinho enquanto  consegue lembrar.

    Agatha Christie é tão olvidável que sempre releio suas histórias, a mesma ou outras tantas, com o mesmo gosto inicial. Ellery Queen ( eram dois autores), Ross Mcdonald, John MacDonald...As Delícias do Crime ( de Mandelstam)  Colin Dexter e o Inspector Morse. E nem sei se gostei tanto de O Nome da Rosa! Ah essa velha falsa cultura de verdadeira velha...

    Vai que enchi linguiça. Estou ganhando tempo porque saquei um negócio interessante no Freud ( fico com um autor na cabeça e se não escrevo rápido, esqueço em seguida) sobre a dicotomia da objetiva visão "eu-mundo" versus uma apreensão do mundo nos limites da subjetividade e da linguagem.

    Rapidinho, um esquema lembrete...
    Freud não aceitava uma divindade transcendente, fora do espaçotempo e do universo conhecido, fosse ela aferente, diferente ou indiferente à sorte humana. Contudo, ele situava o pai primevo, quase uma divindade, no passado longínquo com isto dando-lhe uma espécie de transcendência ( ou imanência?) e uma implicação direta nos destinos humanos.  

    Legal, né? Estou postulando modelos de deuses  "anterógrados" ou "retrógrados' ( como minhas duas amnésias) que nos chegam do passado ou do futuro... Só sei que não acredito em nenhum deles. O meu é o do "paradise now", atemporalidade pura, como me parece ser com o Florião quando ele não está na fase nihilista. Paraiso é quando algo em mim sente que encontra algo não-mim.


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    [Aeternus:9317] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-15)


    - RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    ...provocado por Grand Jansy, venho a público dizer que :
    a. tenho acompanhado com afinco e prazer os debates surgidos, inclusive a volta de Grand Davy, figura ímpar e imprescindível ao...calor dos embates/rebates/debates/abates-sem-Norman-Bates.
     
    b. do meu habitual, estratosférico e humilde Olimpo, cultivo narcisicamente minhas tremendas e tolas manias de ex-cidadão, decadente-conformista/conformado.Però...niilista ? NEIN NEIN NEIN !!! Respeite-se ao menos meu arsenal de formidáveis perversões, ora !...
     
    Abraço cordial e forte a todos,
    Marcos

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    [Aeternus:9318] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-15)


    - RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    But - the ever-present disconjuntive!

    Cosa nostra et perversion mia... Cada um com sua cada qual e niilismo jamais. (com essa correção tornamo-nos pessoas corretas e aí...como ficamos?).  

    Ex-cidadãos do Rio, uni-vos! Arrumem um piano, um elefante e uma nave e pronto. Encarrego-me do concerto com taças de vinho e dedinhos nas bordas porque, mesmo adorando Brasília enquanto cenário, estou mais pra ex-cidadã do planeta inteiro, quase habitante do cyberspace apenas.

    ............................

    recado extra, pro Gallego: reli uns contos do Ray Bradbury, a quem tinha em alta conta, e fiquei desapontada com a maioria. Em retrospecto, até a historinha no filme do Fahrenheit 57 ( qual o número da combustão necessária?) é boboca com os tais "homens livro" recitando sem parar.


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    [Aeternus:9319] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-15)


    - Antigona



    ROMANCEIRO DE ANTÍGONA ESTRÉIA NO TEATRO NACIONAL

    Antígona, na versão do psicanalista e poeta Humberto Haydt, é encenada pela primeira vez, na Sala Martins Pena, aberta a todo o público.

     

     

             Um dos grandes personagens do teatro volta à cena. Estréia no próximo dia 22 de abril, na Sala Martins Pena, o espetáculo Romanceiro de Antígona, texto original do poeta e psicanalista Humberto Haydt, dramatizado por Celso Araújo, com um elenco de 23 atores.

     

             Escrita ao longo de oito anos pelo fundador do Colégio Freudiano de Psicanálise de Brasília, Romanceiro de Antígona foi inicialmente publicada, na íntegra, em 1997, com lançamento no Memorial JK, pela Báscula Editora. Agora, numa edição feita para os palcos, faz uma pequena temporada de cinco sessões na sala onde também foram apresentadas a leitura pública de Édipo-Rei e de Laio, outras duas peças de Humberto Haydt que formam a trilogia com evidente reescrita dos míticos personagens perpetuados por Sófocles.    

     

         Para Humberto Haydt, Antígona é fundadora da ética, por desafiar homens e até mesmo as feras, na tentativa de sepultar o corpo de seu irmão Polynices, morto em campo de guerra pelo próprio irmão Eteoclés. Mantendo e acentuando detalhes do texto trágico escrito em Atenas, no século de Péricles, Humberto Haydt cria o que chama um corpo de canções, estrutura que leva seu poema dramático a ser considerado, na tradição literária, um romanceiro.

     

       Na peça, Antígona volta à sua cidade de origem, Thebas, depois de peregrinar por alguns anos com o pai Édipo, cego, desterrado e banido. Ela enfrentará a autoridade de Creonte, após a batalha entre os dois irmãos, por ordenar o sepultamento de um como herói e proibir o sepultamento do outro, considerado traidor, entregue de maneira violenta aos animais para que seja depredado.

     

       O comentário é do autor: "O herói é aquele que se edifica em monumento vivo daquilo que tanto sua vida quanto sua morte – tanto faz – são significantes; o herói não opera por engajamento, e nem para os engajados faz demonstração, donde seu ensino não se fazer pela bandeira, pelo código, pelo conhecimento, ou pela configuração de dados. Se Antígona transmite um código, ele é a própria carne; não a memória, mas o memorável que, como também um herói, toma posse de uns e, não se sabe porque, não de outros".

     

             Na montagem desta peça, atuam atores formados na cidade, atores experimentais e atores que se iniciam nos palcos, totalizando um número de 23 pessoas em cena. A dramatização de Celso Araújo propõe uma celebração despojada, com a intenção maior de fazer chegar até o público a grandeza do ato de Antígona, considerada a fundadora da ética. Com patrocínio do Fundo da Arte e da Cultura, a montagem está incluída na programação do aniversário de Brasília e terá sempre entrada franca.

     

     

    Ficha Técnica

     

    Texto: de Humberto Haydt

    Dramatização: Celso Araújo

     

    Figurino: Roustang Carrilho

    Cenário: concepção de Celso Araújo e cenotecnia de Zezito

    Sonoplastia e Iluminação: Pablo Ornelas

    Assessoria de Imprensa: Arteviva

     

    Elenco: Júlia Libânio, Márcio Menezes, Virshna Cunha, Celso Araújo, Claudia Leal, Giovanni Gasperini, Luis Alberto, Carina Rodrigues, Nathália Borges, Antônia Carvalho, Christiane Fenner, Rutiane Menezes, Erinaldo Mendes, Brenno Ricciardi, Kessy Freire, Jéssica Narrara, Alice Regina, Gilson Limeira, Antônia Maria dos Santos, Carol Lemos, Fernando Fagnani, Julia Toshi e Oziel (músico de cena).


    Realização: Arteviva Produções

    Contato: Alaor Rosa – 3468 7614  e 9651 9548



      

     


    --
    Secretaria de Cultura do Distrito Federal
    Centro Administrativo do GDF: (61) 3355-8631 e 3355-8673.
    Anexo do Teatro Nacional Claudio Santoro: (61) 3325-6218 e 3325-3144

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    [Aeternus:9320] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-16)


    - RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    Bem lembrada a partida da nave de Fellini, com direito a rinoceronte e cristais.
    A imagem mais linda do filme é a que compõe seu fecho : o boom das lentes de Giuseppe Rotunno desnudando o trabalho do corpo de técnicos, alguns sacudindo o telão de plástico que fazia o mar de Fellini 'mais verdadeiro do que o próprio', outros com a fiação&luzes, enquanto os atores ainda dançam no convés.
    Curioso que esta imagem remete à outra que me ocorreu de ontem para hoje, sobre essas posturas que vamos adotando aqui e ali, ao longo de nosso cotidiano : meu conformismo com a nave brasileira à deriva tangencia com o dos fatiotas ingleses do 'Titanic', vestidos a caráter para o Grand Finale, regado a whisky.Ali também a orquestra executaria seus últimos trinados, em meio ao caos...
    Enfim...claro que desejo que nosso país continue existindo, mesmo que aos trancos&barrancos, como ele bem sabe ser seu destino desde Pero Vaz de (des)Caminha.
    -------------------------------------
    (um pitakinho em Bradbury)
    O filme de Truffaut, com aquela mistura bizarra típica da época em que foi realizado, tinha uma aura ao mesmo tempo glacial e romântica.Toda a imagem é desglamourizada, fria, plastificada...BRRRRR!!!...está ali nosso mundo atual esmaecido, despersonalizado, os gritos de socorro enterrados dentro dos felizes-tristes e conformados habitantes, fiéis assistentes dos canais exibidos nos telões, nas conversas esvaziadas das donas-de-casa, nos silêncios do metrô.
    E talvez o Oskar Werner, excelente e funcional como no emblemático 'Jules et Jim', com seu rostinho de bebê e olhar profundo e terno, seja a 'vítima perfeita' do Absurdo...( tel comme Truffaut, quand même ? )

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    [Aeternus:9321] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    Florião, compartilho o processo de luto por uma patria que tem tudo para dar certo e, mesmo assim, com todas as benesses de deus como arroladas por Pero Vaz Caminha, se encaminha para o caos total (talvez nosso mal comece exatamente por causa dessa carta que nos apresenta e nos oferece à ganancia dos estrangeiros.) 

    Era um rinoceronte, não um elefante sendo içado! Ainda mais perigoso, mesmo com seus pintados mares realísticos e as tarefas do set. Fellini, apesar de propor um paraíso artificial individual  criou um outro partilhável para transmitir um recado social. Uma sublimação real.

    Agora que você descreveu o filme Fahrenheit re-encontrei o encantamento com ele, pela caracterização do desolado cenário inicial do big brother dopando a crítica em doses permanentes num cenário totalmente metálico, destituido de natureza e calor exceto o das incinerações.

    Valeu, Florião.  E agora, pra onde ir?   


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    [Aeternus:9322] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    Now, ladies&gentlemen...
    Sugiro que todos tentem para si a saída felliniana, seja : criar seu próprio mundo de Vasabarros.
    Sim - é meio pervertido, meio onanista, mas...funcional, também, dentro do desvario humano.
    De certo modo Fellini preferiu passar a existir nessa suspensão de realidade, menos complicado do que transitar numa Itália quase tão problemática quanto nós por aqui, em nosso paraíso tupinipoca.
    Seu queridíssimo Marcello não ficou muito atrás, quando confessou publicamente e de forma corajosa que não era nenhum tipo de latin lover e menos ainda de galã conquistador : listou no topo de seu ranking de paixões a comilança e o sono...
    Seu maior prazer ao filmar era gastar a 'diária', um tipo de vale-refeição que as produções italianas usam freqüentemente, esticando em tabernas e descontraídos restaurantes os trabalhos do dia, para rompantes e gargalhadas - ninguém é de ferro.
    ------------------------------------------
    Em 'Fahrenheit 451' Truffaut consegue transmitir um pouco do encanto possível com a leitura.
    Volta e meia ele filmava um personagem, em algum de seus filmes, este lia um trecho de romance para alguém ou ouvíamos sua voz em off.
    Numa curiosa entrevista, certa vez, afirmou que nascera na época errada, que deveria ter vindo ao mundo numa época 'sem telefone, sem luz e sobretudo sem TV'.
    Sem luz não existiria o cinema, e de seu talento ficaríamos privados, né ?


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    [Aeternus:9323] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-16)


    - RE:Cosa nostra

    Bela entrevista, hein ?...
    Já fiz um curso em Foucault com o Roza, há muitos anos atrás. Como fessô, ele é excelente ! Jamais li um policial desses dele.
    Escrever parece ser como Música, o que se acha 'simples' pode ser bem mais complicado...vide o excelente letrista que é Chico Buarque, e escritor absolutamente anódino, frouxo.
     
    (...)É difícil ocorrer assassinatos em série numa pequena cidade do interior porque todo mundo conhece todo mundo. Um detetive numa aldeia é uma figura totalmente inútil.
    Aqui ri sozinho, associando a série francesa do Inspetor Maigret, baseado em George Simenon, belga, ancorada no ar bonachão/tranqüilo do volumoso ator Bruno Cremer.Ele se dirigia para a aldeia onde acontecera o crime, sentava-se numa mesa de canto do bar local, e ficava tomando um calvados;zanzava pra lá a pra cá, conversando e ouvindo pessoas ligadas.Esperava a solução do crime 'cair de madura'...dissensões, desdobramentos, novo estado de coisas.As significantes e a economia psíquica do crime dentro da família envolvida e da comunidade.
     
    (...)Verdade e engano são complementares, e não excludentes. É nessa região de sombra do enigma que reside a ambigüidade. E é essa ambigüidade essencial que torna impossível a univocidade da verdade e a interpretação total ou definitiva do enigma.
    E tome Franz Waldemar : 'a verdade não é a iluminação que desvenda o segredo, mas a revelação que lhe faz jús.'
     
    (...)O enigma tem que ser indecifrável, não pode ser problematizado. A decifração dele se faz ao infinito, a interpretação é interminável. É como um livro, um poema, um acontecimento. Ele é interpretável indefinidamente.
    Bela consideração.A Verdade Mutante, divinamente e deliciosamente efêmera, revelada conforme lhe fez jús o Saber vigente...
     
    (...)É como a prova de amor. Você faz uma declaração, escreve um poema, dá um presente, isso não tem fim. Por quê? Porque, por mais que você garanta ao outro o seu amor, basta um olhar seu para ele interpretar como desamor. E começa tudo outra vez. A significação é permanentemente interpretável, ao passo que o comportamento não. O leão comeu a gazela. Está lá. Ao passo que o simples declarar amor a alguém pode pedir uma vida inteira de provas.
    Melhor ficar com Virginia Woolf aqui :
    'Graças a Deus sou mulher ! - gritou - e estava quase caindo na extrema loucura - nada mais aflitivo em homem ou mulher - de se envaidecer de seu sexo, quando se deteve na singular palavra que, malgrado todos os nossos esforços, se insinuou no fim da última sentença : 'amor', pronunciou Orlando.
    Imediatamente - tal é a sua impetuosidade - o amor tomou forma humana - tal é o seu orgulho.Pois enquanto outros pensamentos se contentam em permanecer abstratos, esta não se satisfaz enquanto não se reveste de carne e sangue, mantilha e saias, calções e jaqueta.'

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    [Aeternus:9324] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-16)


    - Georges Simenon...

    comme Jules, Nicolas, Giles, François...um e vários, au même temps...

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    [Aeternus:9325] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    Pois então, Florião... Gentlemen of the Jury ( como dizia Humbert Humbert em Lolita, endereçando-se a uma corte imaginária)... está na hora de se fazer alguma coisa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Nem estou pensando em política, em nave imaginária, em enfrentamentos ou comilanças. A pobre Isabella Nardoni não me sai da cabeça porque a mídia não dá espaço para pensarmos na menina, assustada e maltratada. Tudo que se escreve é movido pelo animo de descobrir os assassinos, descrever a normalidade dos pais e o carinho da família...Ela ficou sem voz, ela sumiu. E, ao mesmo tempo, quando forem corrigir esta distorção, com certeza seremos inundados por sentimentalismos.

    Foi por isso que introduzi agora o Humbert Humbert do livro do Nabokov. Por acaso ontem fiz uma seleção de referencias dele à Lolita que são de cortar o coração, que fazem falar as crianças abusadas e doloridas. A ideologia dominante na leitura ao Nabokov apaga esta voz humana do Nabokov e privilegia teorias sobre pedofilia, sobre gracinhas eróticas, sobre a loucura do personagem que solipsizou  Lolita para criar uma ninfeta da sua imaginação.  No entanto, minha triagem de ontem, revelou outra coisa.

    Se puder, copio em português. Por enquanto, o que tenho online é em ingles. Aparece um H. humano, conspurcado, doído, traído por si próprio e vislumbramos a menina, a pobre menina...

    1. Oh, my Lolita, I have only words to play with!

    2. I find it most difficult to express with adequate force that flash, that shiver, that impact of passionate recognition. In the course of the sun-shot moment that my glance slithered over the kneeling child (...) while I passed by her in my adult disguise (...), the vacuum of my soul managed to suck in every detail of her bright beauty, and these I checked against the features of my dead bride. A little later, of course, she, this nouvelle, this Lolita, my Lolita, was to eclipse completely her prototype. All I want to stress is that my discovery of her was a fatal consequence of that "princedom by the sea" in my tortured past. Everything between the two events was but a series of gropings and blunders, and false rudiments of joy. Everything they shared made one of them.
     
    3. oh, that I were a lady writer who could have her pose naked in a naked light! But instead I am lanky, big-boned, wooly-chested Humbert Humbert(...) And neither is she the fragile child of a feminine novel. What drives me insane is the twofold nature of this nymphet — of every nymphet, perhaps; this mixture in my Lolita of tender dreamy childishness and a kind of eerie vulgarity, stemming from the snub-nosed cuteness of ads and magazine pictures, from the blurry pinkness of adolescent maidservants in the Old Country (smelling of crushed daisies and sweat); and from very young harlots disguised as children in provincial brothels; and then again, all this gets mixed up with the exquisite stainless tenderness seeping through the musk and the mud, through the dirt and the death, oh God, oh God. And what is most singular is that she, this Lolita, my Lolita, has individualized the writer's ancient lust, so that above and over everything there is — Lolita.

    4. Or is it because I can imagine so well the rest of the colorful classroom around my dolorous and hazy darling: Grace and her ripe pimples; Ginny and her lagging leg ... And there she is there, lost in the middle, gnawing a pencil, detested by teachers, all the boys' eyes on her hair and neck, my Lolita.
    As greater authors than I have put it: "Let readers imagine" etc. On second thought, I may as well give those imaginations a kick in the pants. I knew I had fallen in love with Lolita forever; but I also knew she would not be forever Lolita. She would be thirteen on January 1. In two years or so she would cease being a nymphet and would turn into a "young girl," and then, into a "college girl" — that horror of horrors. The word "forever" referred only to my own passion, to the eternal Lolita as reflected in my blood. The Lolita whose iliac crests had not yet flared, the Lolita that today I could touch and smell and hear and see, the Lolita of the strident voice and rich brown hair — of the bangs and the swirls and the sides and the curls at the back, and the sticky hot neck, and the vulgar vocabulary — "revolting," "super," "luscious," "goon," "drip" — that Lolita, my Lolita, poor Catullus would lose forever. So how could I afford not to see her for two months of summer insomnias? Two whole months out of the two years of her remaining nymphage! Should I disguise myself as a somber old-fashioned girl, gawky Mlle Humbert, and put up my tent on the outskirts of Camp Q, in the hope that its russet nymphets would clamor: "Let us adopt that deep-voiced D.P.," and drag the said, shyly smiling Berthe au Grand Pied to their rustic hearth. Berthe will sleep with Dolores Haze!

    5.It would never do, would it, to have you fellows fall madly in love with my Lolita! had I been a painter, had the management of The Enchanted Hunters lost its mind one summer day and commissioned me to redecorate their dining room with murals of my own making, this is what I might have thought up, let me list some fragments:
    There would have been a lake. There would have been an arbor in flame-flower. There would have been nature studies — a tiger pursuing a bird of paradise, a choking snake sheathing whole the flayed trunk of a shoat. There would have been a sultan, his face expressing great agony (belied, as it were, by his molding caress), helping a callypygean slave child to climb a column of onyx. There would have been those luminous globules of gonadal glow that travel up the opalescent sides of juke boxes. There would have been all kinds of camp activities on the part of the intermediate group, Canoeing, Coranting, Combing Curls in the lakeside sun. There would have been poplars, apples, a suburban Sunday. There would have been a fire opal dissolving within a ripple-ringed pool, a last throb, a last dab of color, stinging red, smearing pink, a sigh, a wincing child.
     
    6. Somewhere beyond Bill's shack ... there she was with her ruined looks and her adult, rope-veined narrow hands and her goose-flesh white arms, and her shallow ears, and her unkempt armpits, there she was (my Lolita!), hopelessly worn at seventeen, with that baby, dreaming already in her of becoming a big shot and retiring around 2020 A.D. — and I looked and looked at her, and knew as clearly as I know I am to die, that I loved her more than anything I had ever seen or imagined on earth, or hoped for anywhere else. She was only the faint violet whiff and dead leaf echo of the nymphet I had rolled myself upon with such cries in the past; an echo on the brink of a russet ravine, with a far wood under a white sky, and brown leaves choking the brook, and one last cricket in the crisp weeds... but thank God it was not that echo alone that I worshipped. What I used to pamper among the tangled vines of my heart, mon grand pêché radieux, had dwindled to its essence: sterile and selfish vice, all that I canceled and cursed. You may jeer at me, and threaten to clear the court, but until I am gagged and half-throttled, I will shout my poor truth. I insist the world know how much I loved my Lolita, this Lolita, pale and polluted, and big with another's child, but still gray-eyed, still sooty-lashed, still auburn and almond, still Carmencita, still mine... No matter, even if those eyes of hers would fade to myopic fish, and her nipples swell and crack, and her lovely young velvety delicate delta be tainted and torn — even then I would go mad with tenderness at the mere sight of your dear wan face, at the mere sound of your raucous young voice, my Lolita.
    "Lolita," I said, "this may be neither here nor there but I have to say it. Life is very short. From here to that old car you know so well thee is a stretch of twenty, twenty-five paces. It is a very short walk. Make those twenty-five steps. Now. Right now. Come just as you are. And we shall live happily ever after."

    7. A couple of years before, under the guidance of an intelligent French-speaking confessor, to whom, in a moment of metaphysical curiosity, I had turned over a Protestant's drab atheism for an old-fashioned popish cure, I had hoped to deduce from my sense of sin the existence of a Supreme Being. On those frosty mornings in rime-laced Quebec, the good priest worked on me with the finest tenderness and understanding. I am infinitely obliged to him and the great Institution he represented. Alas, I was unable to transcend the simple human fact that whatever spiritual solace I might find, whatever lithophanic eternities might be provided for me, nothing could make my Lolita forget the foul lust I had inflicted upon her. Unless it can be proven to me — to me as I am now, today, with my heart and by beard, and my putrefaction — that in the infinite run it does not matter a jot that a North American girl-child named Dolores Haze had been deprived of her childhood by a maniac, unless this can be proven (and if it can, then life is a joke), I see nothing for the treatment of my misery but the melancholy and very local palliative of articulate art. To quote an old poet:The moral sense in mortals is the duty/We have to pay on mortal sense of beauty.
     
    8. I have still other smothered memories, now unfolding themselves into limbless monsters of pain. Once, in a sunset-ending street of Beardsley, she turned to little Eva Rosen (I was taking both nymphets to a concert and walking behind them so close as almost to touch them with my person), she turned to Eva, and so very serenely and seriously, in answer to something the other had said about its being better to die than hear Milton Pinski, some local schoolboy she knew, talk about music, my Lolita remarked:
    "You know, what's so dreadful about dying is that you are completely on your own"; and it struck me, as my automaton knees went up and down, that I simply did not know a thing about my darling's mind and that quite possibly, behind the awful juvenile clichés, there was in her a garden and a twilight, and a palace gate — dim and adorable regions which happened to be lucidly and absolutely forbidden to me, in my polluted rags and miserable convulsions; for I often noticed that living as we did, she and I, in a world of total evil, we would become strangely embarrassed whenever I tried to discuss something she and an older friend, she and a parent, she and a real healthy sweetheart, I and Annabel, Lolita and a sublime, purified, analyzed, deified Harold Haze, might have discussed — an abstract idea, a painting, stippled Hopkins or shorn Baudelaire, God or Shakespeare, anything of genuine kind. Good will! She would mail her vulnerability in trite brashness and boredom, whereas I, using for my desperately detached comments an artificial tone of voice that set my own last teeth on edge, provoked my audience to such outbursts of rudeness as made any further conversation impossible, oh my poor, bruised child.
    I loved you. I was a pentapod monster, but I loved you. I was despicable and brutal, and turpid, and everything, mais je t'aimais, je t'aimais! And there were times when I knew how you felt, and it was hell to know it, my little one. Lolita girl, brave Dolly Schiller..

    9. ... neither of us is alive when the reader opens this book.... Be true to your Dick. Do not let other fellows touch you. Do not talk to strangers. I hope you will love your baby. I hope it will be a boy. That husband of yours, I hope, will always treat you well, because otherwise my specter shall come at him, like black smoke, like a demented giant, and pull him apart nerve by nerve. And do not pity C.Q. One had to choose between him and H.H., and one wanted H.H. to exist at least a couple of months longer, so as to have him make you live in the minds of later generations. I am thinking of aurochs and angels, the secret of durable pigments, prophetic sonnets, the refuge of art. And this is the only immortality you and I may share, my Lolita.


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    [Aeternus:9326] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-16)


    - RE:Georges Simenon...

    Me perdi nas citações, mas Georges Simenon ele próprio não era, pelo que dele escrevem, flor que se cheirasse. As dicas vieram de uma reportagem sobre ele na televisão à cabo e em um livro de Julian Barnes. A chamada que você fez, Florião, é correta quando observa como é possível situar crimes em cidades pequenas, como a elucidação surge de conversas à mesa de uma taberna por onde o povo circula. Isto, sempre, em Simenon. E quase sempre em Agatha Christie, principalmente com Miss Marple.  Até os crimes cometidos numa cidade maior, como Oxford, acabam nas panelinhas de cidade pequena que se formam na academia, fora da academia...

    Adorei as frases, todas... o jeito dançarino de apresentá-las. Ai, que mundo. É aí que lembro da arte como podendo gerar um aparelho como o que vi no 3D da Disneylandia quando uma unica cena atinge, particularmente, cada espectador como se ele e o que visse fosse totalmente singular.

     


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    [Aeternus:9327] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    (...)And do not pity C.Q. One had to choose between him and H.H., and one wanted H.H. to exist at least a couple of months longer, so as to have him make you live in the minds of later generations. I am thinking of aurochs and angels, the secret of durable pigments, prophetic sonnets, the refuge of art. And this is the only immortality you and I may share, my Lolita.
    Leio essa 'distinção ética' de H.H. a respeito do Claramente Q/Guilty como um clamor (?)aos céus (?)à posteridade sobre um homem amar ou simplesmente seviciar sua amada.Uma vez sendo ambos igualmente e devidamente pervertidos, seria este o grande divisor de águas entre eles.

    E quanto ao 'segredo dos pigmentos duráveis, sonetos proféticos, o refúgio da arte' e quimeras de imortalidade, acredito ser este mesmo o galardão supremo do autor de ponta, do virtuose : o de transcender o Absurdo, o de atingir os 'píncaros rosados do inatingível', para usar uma construção poética magnífica do Vlad próxima ao final do romance.



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    [Aeternus:9328] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Cosa nostra / (but) Perversão mia

    Perversão nostra.


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    [Aeternus:9329] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-16)


    - RE:a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

    Gallego,

    Obrigado pelas respostas às minhas indagações e a todos pelos debates dos últimos dias.

    Jansy,

    Vc resgata um Nabokov distante do (pobre) senso comum. Antígona na Martins Pena ? Tô dentro.

    Davy,

    Vê se não some, caramba.


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    [Aeternus:9330] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-17)


    - RE:RE:a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

    Gustavo,

    Não acredito. Voce mora em Brasília? Antígona, também estou dentro. Cést la vie. Realmente a vida nos reserva surpresas incríveis!


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    [Aeternus:9331] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-17)


    - Antigona

    Legal saber que dois participantes da nossa lista estarão no teatro para assistir a peça dirigida pelo Celso Araujo sobre texto e instrumento musical criado pelo Humberto..A obra tem uma cadência e idéias poéticas elegantes e profundamente significativas, tocantes.

    Hoje vou ter que colocar novamente algo em ingles porque embora tenha equivalente em português ( tanto o romance Fogo Pálido do Nabok foi traduzido como o Freud...) estava trabalhando o texto em inglês. Achei que poderia partilhar com quem se interessar. É que Nabokov menciona junto uns versos falando de Freud e Dostoevsky ( fala do tudo é permitido depois da morte do pai e dos cardumes de freudianos fazendo fila pra entrar no utero-tumba) e Freud escreveu um texto chamado "Dostoievsky e o Parricídio" que deixa Freud, talvez, furioso porque pra ele o assassinato do pai da horda é fundante da civilização, não conduz ao "tudo é permitido" mas ao oposto disso... E Nabokov detesta Dostoevsky e deve ter visto este ser considerado um genio, o maior escritor depois de Shakespeare, Irmãos Karamazov a maior obra do século, etc... Fora Freud criticando os russos ( e não os católicos e o Lula) pelo hábito de pecar, arrepender-se pra pecar de alma limpa outra vez...

    Aí vai:

     
    Shade wrote, in Pale Fire:

                                                       A medium smuggled in

                                               640   Pale jellies and a floating mandolin.

                                                      Fra Karamazov, mumbling his inept

                                                      All is allowed, into some classes crept;

                                                      And to fulfill the fish wish of the womb,

                                                      A school of Freudians headed for the tomb.

     

     

    Today I began to wonder if this reference to Karamazov's "All is allowed", coming so close to another, about "a school of Freudians", could indicate Nabokov's familiarity with one of Freud's 1928 articles: "Dostoevsky and Parricide" (Standard Edition. vol. XXI):

     

    "Four facets may be distinguished in the rich personality of Doestoevsky: the creative artist, the neurotic, the moralist and the sinner [...]

    Doestoevsky's place is not far behind Shakespeare. "The Brothers Karamazov" is the most magnificent novel ever written[...] Before the problem of the creative artist analysis must, alas, lay down its arms[...]

    The moralist in Doestoevsky is the most readily assailable[...] He has not achieved the essence of morality, renunciation[...] He reminds one of the barbarians of the great migrations, who murdered and did penance for it, till penance became an actual technique for enabling murder to be done[...] indeed this compromise with morality is a particularly Russian trait[...]

    To consider Doestoevsky as a sinner or a criminal rouses violent opposition, which need not be based upon a philistine assessment of criminals[...]

    ... it must be asked why there is any temptation to reckon Dostoevsky among the criminals. The answer is that it comes from his choice of material, which singles out from all others violent, murderous and egoistic characters, thus pointing to the existence of similar tendencies within himself, and also from certain facts in his life, like his passion for gambling and his possible confession to a sexual assault upon a young girl[...]

     

    The excerpts cited above underline particularly scathing comments. Therefore they don't make justice to Freud's literary style and I recommend that those who are interested in the theme, and in a hypothetical Nabokovian reference, should pick up Freud's article to read it in full.

    There is not a line in it which would not have infuriated VN in one way or another. Actually I think that, had he read this specific article, his comments about "freudian schools of fish" in Shade's verses would probably be even more dismissive and satirical than they appear to be.  


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    [Aeternus:9332] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-17)


    - RE:RE:RE:a Sucuri e o BOI COM CHIFRES

    Sim, moro em Brasília.

    Nasci aqui. Morei 11 anos em B.H e... desci o morro de volta em 2003. Estou há cinco anos, tentando me readaptar (hehe).

    Não sei porque (ou por qual das cidades), lembrei daquela frase do Tom Jobim:

    "- Morar no Brasil é uma merda, mas é bom. Morar nos Estados Unidos é bom... mas é uma merda".

    Ele nunca foi um letrista exímio, mas disse tudo nessa frase.


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    [Aeternus:9333] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-18)


    - Lolita

    Peço desculpas porque não poderei traduzir Lolita aqui no site, não tenho a versão online em português. O livro do Nabok vale comprar e ler...

    Ontem fiz uma descoberta interessante quanto ao Nabok, toda por acaso e nem tanto. Andei lendo os contos russos, escritos antes dele mudar-se para os EEUU e fazer sucesso com Lolita.  Gostava enormemente de uma espécie de paixão cósmica descrita por ele, do espraiamento do amor na linha do conhecido canto de Freddie em My Fair Lady ( "knowing I'm on the street where you live" ). VN chega ao ponto de sustentar o gozo apaixonado mesmo depois de levar o fora da dama que o provocou.
    Em Lolita este prazer, antes metafísico, começa a se materializar nas descrições de orgasmos prolongados pela fantasia até a ejaculação, quando o pedófilo confessa friamente: "A estas alturas solipsizei Lolita".

    Como nem sempre o que o HH descreve sobre Lolita é desta ordem, mas é por onde Nabokov ficou mais famoso, escrevi pro pessoal da lista nabokovina comentando esta "solipcização". Me pediram pra explicitar melhor. Pimba. Saquei algo. O seguinte. Independentemente das teorias sobre solipcismo ( até Descartes é aproximado disso pelo 'penso, logo existo' e retomamos ao tema dos dois freuds indecisos sobre se existe um eu e um mundo lá fora - que seja cognoscível enquanto tal e sem deformação do instrumental que o apreende - e sobre a marca da projeção paranóica sobre qualquer visão do que se passa no mundo externo ), quando Nabokov criou um neologismo transformando solipsismo em verbo, algo aconteceu de muito especial.

    Pra quem tem o livro da Lolita, pegue a página na qual ele segura a criança no colo enquanto ela come maçã e cantarola sobre "Carmen". É ali que HH descreve como, sem que a menina o suspeite, a pressão das nádegas dela sobre suas coxas o excita e ele viaja de extase em extase. Para ir até o fim no gozo sexual ele afirma, ainda dentro de uma certa continencia moral: "I have safely solipsized Lolita", querendo dizer que ela, enquanto objeto real, sumiu do seu horizonte real e a fantasia sexual pegou as rédeas e ele embarcou na carruagem.   Liguei isto aos contos russos  onde o amor que continua no ar mesmo depois do casal ter se separado e a outros exemplos de gozo do HH ( ele se sente estimulado vendo a menina jogar tenis, encontrando o nome dela escrito no meio de outros numa lista de chamada na escola...). Em Nabokov "solipsizar" significa "fetichizar".  E, por meio do testemunho dele, entendi montes de coisas sobre o fetiche.

    Até algo no estilo dele que preserva um quê de maravilhoso derivado dessa perversão artística. Em Lolita ele não dá voz à Lolita enquanto personagem, não revela nada da menina senão indiretamente, ou muito externamente, ou seja, ela não aparece realmente como quem ela é, Dolores Haze ( e o nome é Dores na Nevoa, se o traduzirmos). Como dizem os americanos "não há subjetividade, não temos como salvá-la das garras do tarado". Ora! Nabokov consegue um feito de estilo criando uma Lolita fantasmática e nos deixando entrever as dores de toda criança ( como a Isabella Nardoni, por exemplo) que fica privada de presença e de voz, Lolita surge através da sua... ausência. Como o falo que a mãe do fetichista teria alucinatóriamente e ele monta um anteparo para não ter que reconhecer que a mãe é castrada ( por sinal, que forma estranha de descrever que as mulheres tem vagina, útero e ovários internos, em vez de penis e um saco exposto).  Lolita fica mais famosa que Nabokov porque ela, exatamente, é "uma ausência" e também por causa disso seu sofrimento se torna tão real e passível de ser estendido à todas meninas abusadas...

    Além disso, Nabokov ele mesmo faz uma travessia de fantasia através da Lolita. Ele, em algum lugar que citei em inglês, reconhece que ela fez desaparecer o amor da infancia, a Annabel Lee de um castelo à beira-mar...Ela substituiu o protótipo arcaico da memória e individualizou a pulsão de escrever do autor, ela se tornou para ele única, concreta, Lolita... Ou seja, se Nabokov até ali escrevia apenas sob o registro da perversão culturalmente aceita do gozo abstrato projetado na natureza, desde este romance ele encontrou "seu objeto"...

    Eu intuía isso mas não percebia. Ficava só me perguntando porque eu admirava tanto este escritor talentoso que criava personagens tão doidos, tortos, psicopatas... Acho que não concordo com a crítica que Freud fez ao Dostoevsky em "Dostoievsky e o Parricídio"...Ele considerou o autor de "O Idiota", "Crime e Castigo", "O jogador", etc como sendo criminoso devido às escolhas de personagem doente e assassino que havia feito. Contudo, sem ter retornado ao Dostoievsky que me deixa perdida entre nomes e cronologias, vejo que em Nabokov são exatamente os mais malucos e pervertidos das histórias aqueles que tem uma chance mínima de progredirem para uma sacação verdadeira do nosso destino humano...


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    [Aeternus:9334] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-18)


    - RE:Lolita

    Jansy,

    O que vc acha dos filmes, em relação ao romance propriamente dito ? Adrian Lyne ou Kubrick, qual lhe agrada mais ? Certamente não devem chegar perto do livro, que, pelo seu depoimento, parece ser irreproduzível imageticamente em muitas passagens.

    Não assisti a primeira, exceto um trechinho, tarde da noite, caindo de sono, com a promessa íntima de ver na íntegra, o qual achei extremamente ágil, bem à frente daquele clima em preto e branco de antigamente. Era uma mulher (seria a mãe da Lolita?) numa festa, de pileque, falando mais ou menos assim para um homem (HH ?): "- My husband is very liberal". Achei o fragmento sexy e convincente.

    Mas o Jeremy Irons é foda ...

    Enfim... quem se habilita a comentar os filmes??


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    [Aeternus:9335] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-04-19)


    - RE:RE:Lolita

    O livro é um maná cultural, tanto pelas (diversas) vertentes que Jansy já ressaltou, quanto pelo estilo&primor semântico.
    E como ressaltou o Garcia Roza sobre a obra de arte, na entrevista editada recentemente no site, contempla intermináveis interpretações.
     
    Creio que nem Kubrick nem Lyne deveriam ter tentado filmá-lo : é impossível levar a devida pulsação de H.H. para a tela.O que vemos nos dois filmes é um esboço que passa a anos-luz da obra literária, da vertigem de Vlad.É como você dizer que conheceu Paris tendo saltado do aeroporto, passeado pela Champs Elysées, Tour Eiffel e Notre-Dame e voltado para pegar outro vôo no dia seguinte.
    No que pode ser considerado, para efeito de abordagem, o âmago da discussão e do romance, seu 'mote' - a patética/debochada/abissal postura defensiva 'senhores membros do júri'/ofensiva de H.H. -, então, as duas produções cinematográficas deixam demais a desejar.James Mason é digno e vigoroso, mas o constructo de Kubrick não dá corpo jamais ao que se tem no romance.Jeremy Irons, excelente ator, consegue arranhar a ironia galopante de H.H., um certo cinismo também que perpassa toda a pulsação do personagem, mas jamais os filmes chegam próximos da Beleza que insiste em colorir todo o bojo nabokovino.
    -------------------------------------------
    Talvez melhor, aqui, tentar falar de 'Lolita' indiretamente, através de tangências eventuais.
    Kubrick tentou adaptar Arthur Schnitzler décadas depois, com todo o sucesso e contando com a forte âncora do admirável roteiro de Frederic Rapahel, em 'Traumnovelle'.O clima gerado a partir da conversa do casal central, após a festa inicial e já em casa, e toda a 'noite louca' do médico se assemelham ao transe confessional de H.H. em 'Lolita'.Temos ali um homem com toda a sua existência em cheque, não a partir da perda de um 'objeto amoroso' ou de trâmites penais, mas antes de seu arcabouço narcísico, digamos.
    Se em H.H. não existe essa 'perda' narcísica - Lolita é território conquistado/pilhado/devidamente colonizado, como os grandes predadores/colonizadores fizeram ao longo da história humana -, por outro lado sua conquista é aviltada por Claramente Qulpado, o usurpador - que como tal precisa ser punido/liquidado.Lolita é solypsizada, todo dia estudará inglês na escola mas terá aulas compulsórias de humbertês, esquentando o colo de seu dedicado fessô.
     
    Jeremy Irons viveu com Malle uma tórrida, terrível e escabrosa paixão por uma mocita disruptiva, em 'Damage'.
    Seu personagem, ali, guarda traços similares aos de H.H., sobretudo a incessante vertigem que o acomete desde o início dos trabalhos no 'corpo de delito' da noiva do filho.
    Malle elegeu privilegiar o furacão.Em 'Lolita' o núcleo está sempre na sideral imanência do amor de H.H. por sua (???!!!)protegée, valha-me Deus.Imanência que paira solene, cínica e distante das Leis dos Homens, famílias, tecido social&tals.'Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete.Era Lola ao vestir os jeans desbotados.Era Dolly na escola.Era Dolores sobre a linha pontilhada.Mas em meus braços sempre foi Lolita.'
    E foi essa amoralidade mesma a que causou tantos problemas à edição do romance, já que discursos de fora do poder, como este, sacodem o establishment.
     
     
     

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    [Aeternus:9336] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-19)


    - RE:RE:RE:Lolita

    Com meus respeitos ao Marcos, em enorme forma pelo texto sobre Lolita solipsizada através de "De Olhos Bem Fechados" e de "Damage" (no Brasil, "Perdas e Danos", em uma esperta tradução/traição para corresponder ao original).
    Só discordo de UMA frase: "nem Lyme nem Kubrick deveriam ter levado 'Lolita' às telas".
    O livro é o livro. Os filmes devem ser filmes. Outra coisa. Tal como em uma tradução-traidora-porém-com-alguma-capacidade-de-corresponder-às-origens,
    filmes devem ter autonomia própria e valer por si mesmos.Claro que é impossível filmar "Lolita", o livro sem escapar à sombra de "Lolita"-o-livro.
    Hitchcock, espertamente, dizia que era possível fazer bons filmes de livros fracos, mas muito difícil fazer bons filmes de bons livros.
    Poucas vezes o filme extraído de um ótimo livro será tão bom como Cinema da mesma forma que o romance era tão bom como Literatura. Um ótimo exemplo recente de exceção à regra está em "Desejo e Reparação", filme extraído de "Attonement" de Ian McEwan, traduxido como "Reparação". Até mesmo o golpe de marketing de colocar "Desejo" no título brasileiro do filme não é totalmente descabido, já que é o desejo porque reprimido socialmente será uma das fontes da tragédia que se desenrola nas telas (e, antes, nas páginas).
    O caso de "Lolita" (os filmes) é realmente complicado. Confesso (Jansy, não zangue muito comigo!) que nenhum outro texto do Nabokov me deixou tão fascinado durante a leitura. É daqueles relativamente raros encontros entre alta literatura, capaz de oferecer prazer estético sofisticado (faz o leitor se sentir quase tão brilhante quanto o texto cheio de sutilezas e belos artifícios de construção formal) e - ao mesmo tempo - atingir uma comunicação "fácil" (no melhor sentido da capacidade de se fazer fluente e compartilhável).
    Claro que tal momento excepcional não é fácil de ser reproduzido em outra forma de arte, em outra linguagem.
    Existem casos: o "Macbeth" de Shakespeare é um monumento: acho que é a tragédia mais curta (ou menos longa) do inglês, síntese da estupidez, do caos, da psicologia da destrutividade que se exacerba sob o verniz de um projeto de civilização sempre frágil, da discussão política sobre a ambição do poder e do que é um bom e um mau governo (tese da Bárbara Heliodora sobre TODA a obra shekespeareana), etc etc etc etc etc etc etc. E ainda mais...
    Não se pode dizer que a ópera de Verdi, em incômodo italiano que substitui o "sound and fury" originais por "vento e suono", seja tudo isso é o céu (ou inferno) também, mas é excepcional como ópera dentro dos modelitos mais tradicionais de seu tempo - é de 1847 - (estilo de ópera italiana como outras que Verdi consagraria em seguida [La Traviata, Il Trovatore, Rigoletto] e que ainda é o que mais agrada aos que se propõem a ir conhecer uma ópera sem maior familiaridade com o gênero; os que se dedicam a escutar óperas poderão passar a apreciar as ousadias de Wagner com maior riqueza instrumental e até mesmo óperas dissonantes como "Wozzeck" de Alban Berg, mas iso é outra história, de aficcionados).
    Em "Macbetto", a ópera, há muita inventividade e criatividade: longos trechos de diálogo entre Macbeth e Lady Macbeth onde não se encontram "melodias  fáceis" como de hábito (exemplos: as melodias de "La Donna é Mobile" em "Rigoletto", do mesmo Verdi;  ou "Nessun Dorma" em "Turandot" de Puccini); Verdi queria que a voz da soprano que interpreta a Lady Macbeth não fosse simplesmente "bonita", dizendo que deveria soar mesmo "feia", àspera, coisas assim; o sempre aplaudido papel para tenor é mínimo, só canta no quarto ato, com um destaque apenas (e que destaque!: o trecho "La Paterna Mano" enfoca o fato de Macbeth não ter filhos para serem mortos por vingança tal como ele matou os filhos do tenor, o personagem MacDuff, -digamos- o "herói do lado bom" da história sangrenta).
    É outra coisa, é uma ópera, não é a peça de teatro inteira colocada em música (como Richard Straus faria no início do século XX com o texto integral da peça "Salomé", de Oscar Wilde). Mas como ópera é capaz de transmitir importantes aspectos da peça de Shakespeare, ainda que nem todos. E como obra autônoma tem uma grandeza excepcional. Na velhice, em 1887, Verdi vai recorrer novamente a Shakespeare para sua criação mais sofisticada muisicalmente, a ópera "Otelo". Mas o "Macbetto", em moldes mais tradiconais continua sendo brilhante.

    Retornando a "Lolita": o filme de Kubrick teve um roteiro original do próprio Nabokov e, espertos como eram o escritor e o cineasta, sabiam que o filme seria "outra coisa". Até porque a censura da época não permitiria a mesma liberdade do livro - que já tivera problemas com os moralistas de plantão, embora seja uma "decepção" para quem buscar estímulo excitatório curto e grosso, em outras palavras, pronografia para masturbação. O roteiro filmado não foi bem o do Nabokov, mas tem ecos doq ue ela teria fietio (dizem, não li este roteiro mas Jansy leu e pode dizer o que acha)
    Quando vi o filme pela primeira vez, ainda bem mais jovem, talvez pela TV, nem me lembro, não tive nenhuma fascinação maior, achei algo meio mais ou menos.
    Quando vi o filme do Lynch, desconfiadíssimo porque é um diretor de filmes superficiais e que buscam chamar a atenção por serem "escandalosos" a partir de coisas como "Proposta Indecente" e coisas piores, me surpreendi com um filme no mínimo correto e com a ambientação bem anos 1940 de pós-guerra, enquanto o filme de Kubrick, do início da década de 1960 tinha mesmo um visual de - no máximo - finalzinho dos anos 1950 ou mesmo um clima de início dos '60.
    Lembor que, na época, um crítico de cinema carioca falou mal do filme ter "arrumado uma explicação psicológica para a pedofilia do personagem". o bobão que escreveu isso não lera o livro onde o mesmo trecho sobre a juventude de H.H. existe tal e qual no filme.
    Só aí fui ler (ou reler?) o livro e fiquei desbundado! Não sei porque, mas me lembrou as ironias - só que mais explícitas - de Machado de Assis. Li e reli. Ou re-reli. Talvez uma tentativa bem anterior quando adolescente de uma primeira leitura tenha "empacado" na "compulsão à repetição" do trecho em que H.H. e Lolita vão de motel em motel em motel em motel em motel em  motel em motel... Não lembro mais...
    Ao rever o filme do Kubrick depois de uma leitura já depois dos meus quarenta de idade, pude vê-lo como obra autônoma com suas qualidades próprias e -confesso -acho que dentro do que se propõe - não tem defeitos como CINEMA de escol. Frustra em omitir detrminados aspectos do livro, mas é criativo ao dimensionar mais o personagem de Quilty a partir do deslumbramento de Kubrick com Peter Sellers. Também Shelley Winters aparece mais do que na versão Lynche (como no livro). E até a escalação de uma atriz mais limitada como Melanie Griffith no filme mais recente me pareceu adequada à personagem da maãe Haze. Sem demérito para Shelley Winters que está excelente na concepção de sua personagem na formatação do Kubrick.
    Acho o filme do Lynche subestimado. Quando convidei Jansy para vir ao Rio debater "Lolita" com um filme antes de sua fala, escolhi a versão Lynche por achá-la mais próxima ao romance. Fui criticadíssimo pela opção que deixou de lado "um filme de Kubrick", monstro-sagrado e intocável. Posso ter merecido a crítica, mas não me arrependo para as finalidades. Poder usar uma atriz com cara de 12 anos é um trunfo do filme mais recente. Poder ter Jeremy Irons (sem demérito para James Mason) é um luxo e não foi à toa que Marcos asociou "Perdas e Danos" onde ele se deixa seduzir pela nora (também, aquela Juliette Binoche em estado de des-graça é quse irresistível mesmo). Aliás, acabei de lembrar, agosto mais do filme "Damage" do que do livro!
    A associação de aspectos da lolita-Kubrick com o o personagem de Tom Cruise em "Eyes Wide Open" de Kubrick também é bem instigante.
    Resumo de tudo isso? Melhor para mim que tenho fascinação pelo livro e gosto dos 2 filmes, cada um ao seu modo.


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    [Aeternus:9337] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-19)


    - RE:RE:Lolita

    Guto, no site Aeternus já tem o comentário aos dois filmes e mais um pouco. Escrevi o texto para apresentar nos encontros de cinema da SPRJ, em 2001 creio, a convite do Gallego que passou a ser, desde então, meu mais recente amigo de infancia ( palavras dele).Busque no site "Lolita, do Livro ao Filme: Freudianos, mantenham a distancia".

    As duas versões ( a do Kubrick, com roteiro do Nabokov) são interessantes e totalmente diferentes. Nenhum nabokovino da academia aprecia qualquer uma delas. Eu adoro as duas. A do Lynne é colorida, mais fluida, mais atraente para o espírito atual que foge um pouco das angústias expressionistas.

    Ninguém gosta também do filme sobre "A Defesa de Lujin" que é magnífico, embora, realmente, não siga nem uma vírgula do Nabokov original.  No Brasil chama-se " O Ultimo Lance" com John Turturro e Emily Watson. Outro, magnífico, com Dirk Bogarde ( do Fassbinder) é "Despair", do romance homonimo. 


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    [Aeternus:9338] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-19)


    - Lolita, em tradução ( Jorio Dauster)

    ...sem qualqueraviso prévio, uma onda azul ergueu bem alto meu coração: ajoelhada sobre uma esteira, seminua em meio a uma poça de sol, virando-se para me olhar por cima de seus óculos escuros, estava o meu amor da Riviera. 

    Era a mesma criança- os mesmos ombros frágeis cor de mel...

    Tenho grande dificuldade em exprimir com suficiente ênfase aquele lampejo, aquele tremor, aquele choque de apaixonado reconhecimento. Durante o breve e ensolarado momento em que meu olhar deslizou pela criança ajoelhada ... o vácuo de minha alma conseguiu aspirar cada detalhe de sua radiosa beleza para compara-los com os traços da amada que a morte me roubara.  Pouco depois, é verdade, essa nouvelle, essa Lolita, minha Lolita, iria eclipsar inteiramente seu protótipo. O que desejo ressaltar é que a descoberta dela foi uma conseqüência fatal daquele ‘principado à beira-marem meu tétrico passado. Tudo o que se passou entre os dois eventos nada mais foi que um tatear no escuro, uma série de erros crassos, falsos rudimentos de alegria. Tudo o que tinham em comum os unia num único episódio.  (cap.10)

     

    O que me leva à looucura é a natureza dupla desta ninfetatalvez de todas as ninfetas;... E, novamente, tudo se mescla com a preciosa e imaculada ternura que aflora através do perfume barato e do logo, da imundície e da morte, ah, meu Deus, meu Deus!  E o mais notável é que ela, esta Lolita, minha Lolita, veio individualizar a antiga lascívia do autor deste diário, de tal modo que, acima e antes de tudo, existe...Lolita.

    (cap.11)

     

    De repente, uma misteriosa mudança se operou em meus sentidos. Entrei num plano de existência onde nada mais importava senão a infusão de prazer que borbulhava dentro de meu corpo. O que de início era uma deliciosa distensão de minhas raízes mais profundas transformou-se num formiagamento incandescente, que atingia, agora, aquele estado de absoluta segurança e irreversibilidade jamais encontrado na vida consciente. Confiante em que aquela doçura ardente e profunda rumava inexoravelmente para a convulsão final, achei que podia me dar mais tempo, prolongando o enlevo. Nada havia a temer: Lolita fora devidamente solipsizada. fora, o sol implícito continuava a pulsar nos pacientes choupos... (cap.13)

     


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    [Aeternus:9339] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-19)


    - brincando de esganar o galo

    Há um brinquedo à venda nas lojas, vi numa chamada CiaToy, com um galo ou frangote caipira sentado numa cadeira. Quando se aperta uma das asas, a cadeira balança e toca musica sertaneja. Quando se aperta o pescoço fofinho, o animal grita e esperneia. Ontem me deram um destes para testar, neto cobiçando a gracinha... quando apertei o pescoço do bicho, até com certo prazer, e vi o resultado fiquei vendo tudo preto e tive uma crise de angústia.  Ninguém vai reclamar de brinquedos assim porque no mundo dos desenhos animados estes ataques existem e a gente sabe dar o desconto...mas que levei um susto, ahhhh, levei.

    A frase sobre o solipsismo de Lolita, em inglês, é fora de série:. Lolita had been safely solipsized. The implied sun pulsated in the supplied poplars...

    Dá pra ver como o "safely" conduz ao "solipsized" e como, na frase seguinte, há o "sol-sun" implítico e uma reiteração dos sons p,pl,sp que recria o solipcismo da sentença anterior e faz o olho do leitor cavalgar na frase como Lolita montada nos joelhos do sedutor?

    Nabokov faz isso o tempo todo e não é apenas em Lolita, o talento dele vai desenvolvendo em cada novo romance. Gallego, quem sabe, poderia animar-se a atravessar outras leituras. Por exemplo, Pale Fire ( mas muitos jogos verbais se perdem pela tradução, embora hábil, como a referencia a um "homer" do jogo de beiseball que saiu no jornal porque foi conseguido por um Chapman e pra quem estuda inglês, a referencia ironica é a um poema do John Keats que elogia a tradução de Homero feita pelo Chapman, literalmente, "Chapman's Homer")


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    [Aeternus:9340] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-19)


    - RE:RE:Georges Simenon...

    O filme "Gone, Baby Gone" que mencionei há alguns dias, extraído de ótimo e pesado romance policial do Dennis Lehane (autor de "Sobre Meninos e Lobos") não vai passar nas telas, foi direto para DVD. Dizem que é bom, primeira experiência do Ben Affleck na direção onde, dizem, estreou melhor do que como ator. o irmão dele, Casey Affleck (que "matou" Brad Pitt como jesse james no filme "Assassinato de J.James pelo civarde Bob não-sei-o-que!) faz o detetive e dizem que muito bem, sendo que uma atriz secundária chegou a ser indicada ao oscar de coadjuvante. Mas custou 19 milhões de dólares e só rendeu 20 nos EUA. Bom ou ruim, nem chega às nossas telas, vai direto para DVD.
    Já uma porcaria com o Al Pacino (que só está fazendo porcaria ultimamente) foi lançado por aqui em DVD há meses e agora é que está estreando nos EUA. Mistérios...
    Um filme bem ruim com a Julianne Moore (outra grande atriz que faz dezenas de porcarias desde "As Horas" e "Longe do Paraíso") ainda não foi lançado nos EUA e entrou em cartaz por aqui... "Savage Grace" ou "Pecados íntimos". Depois envio minha resenha que está no site www.criticos.com.br
    Abraços


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    [Aeternus:9341] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-19)


    - RE:RE:Lolita

    Não tenho exatamente uma opinião sobre esse do Kubrick?
    E o do Lyne, nem cheguei a registrar na cabeça, a não ser pelo visual com uma mistura um tanto indigesta de cores... Não lembro nem do que achei do Irons ali... não é sempre que o diretor entende o que tem em mãos, né? Pelo que o Guto disse, devo presumir que ele está bem? A carreira dele nos USA parece ter, pelo menos ultimamente, tomado um rumo desleixado... terá sido por algum por algum (mau) conselho do grande Sir John Gielgud, que também não parecia levar muito a sério seus registros em película...? Claro que aquele brilhava sempre, até como mordomo de Arthur o Milionário... chegou a ser indicado ao Oscar ali? Mas a gente só vê o verdadeiro tamanho de Gielgud num (APESAR de) Peter Greenaway, Os Livros de Próspero. O pós-moderno-que-se-leva-a-sério-demais colocou-o ali como quem mostra uma estátua clássica em ruínas guardada num  museu hi-tech, mas o veinho, que ali estava em seu habitat natural - um texto de Shakespeare - consegue eclipsar TODA a parafernália do diretor e impor-se como a melhor interpretação de Shakespeare que vi em cinema na vida (por exemplo, até hoje estou pra ver um Hamlet que me satisfaça, e detesto o do Olivier; gosto de uma versão RUSSA, em russo, mas, não sendo em inglês, não sei se vale).
    Mas voltemos a Lolita: o que o Guto achou ágil, pelo que me lembro, descamba pro histérico ao final... mas na verdade não consigo falar nada inteligente a respeito, seja sobre a de Kubrick, seja a de Lyne, ou da básica de Nabokov... fico meio de longe, como quem vê, daqui, imagens dos estragos causados por algum furacão no hemisfério norte. O que acontece ali entre a menina e o sukitão vejo como o clássico confronto entre as vãs pretensões humanas e as forças da natureza... fora isso, não consigo, por mim mesmo, captar maiores sutilezas.
    Parecida com a personagem Lolita, gosto demais de Lila, de "Lila Diz"...

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    [Aeternus:9342] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-19)


    - RE:RE:RE:Georges Simenon...

    filme:# PECADOS INOCENTES (SAVAGE GRACE)
    EUA, Espanha, 2007 / Direção: TOM KALIN
    Roteiro: HOWARD A, RODMAN, baseado em livro de NATALIE ROBINS e STEVEN ARONSON
    Fotografia: JUAN MIGUEL AZPIROZ Figurinos: GABRIELA SALAVERRI
    Edição: JOHN F. LYONS Música: FERNANDO VELÁZQUEZ
    Elenco: JULIANNE MOORE, STEPHEN DILLANE, EDDIE REDMAYNE.
    Duração: 97 minutos


    O enredo é explosivo mas os diálogos são afetados e a direção é morna: só Julianne Moore justifica conhecer este filme.

    BELOS E MALDITOS

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    17/4/2008

    Filmado a partir de livro baseado em fatos reais, Pecados Inocentes pode lembrar temas de romances e contos de F. Scott Fitzgerald – só que muito mais carregado nas tintas. De certa forma, a vida real que inspirou este filme imitou a arte: Fitzgerald pretendia, em Suave é a Noite, abordar uma relação escabrosa entre filho e mãe - embora tenha mudado este enredo para o de um relacionamento dificílimo entre filha e mãe. Mas também abandonou o que inicialmente seria uma importante intriga paralela à trama central do livro, bem diferente desta. Esta hesitação do romancista é responsável pela presença de uma personagem que tem um destaque nos primeiros capítulos sem que sua importância se mantenha ao longo da história narrada.

    Savage Grace (título original) lembra os temas que Fitzgerald abandonou no último romance que concluiu. Outra asociação mais superficial é que o filme também mostra americanos itinerantes por uma Europa - que não é mais a da "Era do Jazz", mas a do pós-II Guerra, percorrendo um período que vai de 1946 a 1972.

    O bem nascido Brooks Baekeland, neto do inventor da baquelite - e milionário por herança da fabricação pioneira de plásticos -, casou-se com Bárbara Daly, egressa de um extrato sócio-econômico bem inferior ao seu. A união duraria muitos anos - e chama a atenção que o casamento tenha durado o tempo que durou. O filho único do casal, Tony, será protagonista da tragédia que foi um dos maiores escândalos do jet set, já nos anos 1970.

    O filme começa bem, com Julianne Moore dizendo a que veio em mais um desempenho tão irrepreensível quanto desafiador, bem acompanhada por Stephen Dillane como seu marido. Mas, infelizmente, à medida que os blocos de tempo vão avançando, as insuficiências do roteiro e dos diálogos afetados, vão se acentuando - enquanto a direção vai se revelando morna. Já a amoralidade na conduta dos personagens "esquenta" de modo inimaginável. Teria havido um cuidado excessivo (frieza) na apresentação da falta de limites que redunda em perversões familiares dignas de um enredo do nosso Nelson Rodrigues? Só que, neste caso, um enredo apropriado de fatos da vida real (embora se possa questionar como os autores do livro poderiam ter sabido sobre a intimidade promíscua dos protagonistas chegando ao ponto que é mostrado no filme).

    Considerando a evolução que vemos, seja como realidade factual, seja como ficção, fica a impressão de que há uma aposta no sentido da psicologização “explicativa” para o desfecho trágico da história, quase como uma espécie de “Viu em que isso tudo pode acabar chegando?” - ou seja, um ar de acusação moral contra os desregramentos e transgressões bizarras que são vistas na tela.

    No final das contas seria apenas para assistir Julianne Moore que se justifica, com enormes ressalvas, uma olhada no filme.

    O TRECHO EM SEGUIDA NARRA EVENTOS DO ROTEIRO QUE NÃO SERIAM DE INTERESSE PARA QUEM PRETENDE CONHECÊ-LO E AINDA DESCONHECE OS FATOS REAIS QUE O INSPIRARAM

    A atriz tem que enfrentar cenas de coito anal e de ménage à trois com seu filho, bi ou homossexual, e outro rapaz gay. E também de masturbar o filho e ter relação sexual incestuosa. Por fim, o matricídio (tema que do qual Fizgerald recuou em Suave é a Noite).

    Cabe destacar que Moore é uma das atrizes que melhor sabe usar os figurinos destinados às personagens que vive (bastaria lembrar As Horas e Longe do Paraíso). Neste filme, as roupas que ela usa são por vezes um tanto óbvias nas cores, modelos e “significados”: serviriam para uma composição mais exteriorizada de outra intérprete menos dotada, mas Moore parece saber usá-las como uma segunda pele que se adere ao momento psicológico da personagem. Mesmo quem não tem tanta atenção para o vestuário de filmes, dificilmente esquecerá como a atriz soube utilizar (por vezes, criticamente) o vestido de baile dos anos ’40, o chapéu com roupas clássicas dos anos ’50 e tantos outros - até chegar ao conjunto vermelho da cena final. Pode ser que as roupas tenham sido feitas para chamar a atenção, mas o que se destaca é a propriedade da atriz se colocar dentro delas e utilizá-las como mais um dos enormes recursos de seu talento para compor a deterioração do relacionamento daquela mãe com seu filho.

    O filme oferece pouco mais: a trilha musical se faz insistente, a fotografia (seria problema da cópia exibida no Festival do Rio 2007?) parecia “lavada”, esmaecida; e a mise en scène mais tímida e fria - quando o assunto chega a ferver. É estranho que no início haja um (gratuito ou com significado críptico) nu frontal de Stephen Dillane em um vestiário masculino – enquanto as cenas de transgressão e perversão sexual aparecem mais tarde um tanto insípidas, como se o diretor evitasse escandalizar "demais", acabando por enfraquecer o que é mostrado. Não é uma questão de cobrar algo na linha de cenas de “sexo explícito”, mas falta garra à direção. O desempenho, fundamental, de Eddie Redmayne se ressente um pouco desta falta de apoio – que Julianne Moore pode dispensar.





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    [Aeternus:9343] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-20)


    - Once, twice... bem por fora...lá vou eu!

    Ontem fui ao cinema assistir "Once", do qual vira o trailer que me deixou com uma melodia travada na memória durante dias. Nem fazia idéia de que havia sido premiado em vários festivais e até com Oscar.
    Gostei bastante do filme, embora tenho curtido mais ainda porque fui enganada pelo trailer. Neste, os cortes com pedaços de conversa sugeriam um encontro amoroso dos dois cantores. Na atualidade, no entanto, o amor vai numa direção própria e muito interessante. 
    Não curto música irlandesa, guitarra e voz trágica cantando dores de amor em particular, mas tudo no filme era realístico, convincente. A solidão das pessoas, a pobreza, os recursos que trazem momentos de luz aos ambientes mais tristes, a solidariedade entre almas simples. Pois o filme é de almas bem simples e generosas. Quase celestiais na sua terrenalidade.  
    O que me incomodou no filme foi uma espécie de ideologia católica subjacente ( anti-aborto, pró-casamento, anti-divórcio, mais uns itens sobre migração irlanda-inglaterra e inglaterra-europa central que me escapam) mas, sendo natural ao povo, a uma parcela do povo irlandes... não poderia estar ausente. Ou seja, enquanto recado implícito expressivo de uma realidade, não dá pra criticar. E acho que não foi algo implantado para ensinar sobre as belezas do casamento e da preservação da vida, mas era natural ali naquele ambiente...
    O trailer sugeriu algo diferente, até o sentido de "once" se transformou em "só há um único amor de verdade". Até os cartazes porque o título "once" deu algo como " só uma vez" e a capção em baixo lia: "um filme para se ver mais de uma vez" 
    Equivocação interessante...
    ...................................................................
    Some Love Stories Have a Better Ending Than the Altar...
    Published: May 16, 2007

    Filmed with more efficiency than elegance on the streets of Dublin, Mr. Carney’s movie, a favorite at Sundance earlier this year, does not look, sound or feel like a typical musical. It is realistic rather than fanciful, and the characters work patiently on the songs rather than bursting spontaneously into them. But its low-key affect and decidedly human scale endow “Once” with an easy, lovable charm that a flashier production could never have achieved. The formula is simple: two people, a few instruments, 88 minutes and not a single false note.
    And this is true even if the main style of music is not quite your thing. The principal male character (Glen Hansard) — neither he nor his female counterpart (Marketa Irglova) are given names — is a street musician who favors the wailing-white-man-with-a-guitar mode of folk pop. His songs, full of ringing open chords and vague lyrics, are earnest and self-dramatizing. Their subject seems to be heartbreak, which he has recently suffered at the hands of a straying girlfriend who now lives in London.
    ...while there is an evident spark of attraction between them — Ms. Irglova’s teasing directness works beautifully with Mr. Hansard’s shuffling sincerity — “Once” is far from a conventional love story. It is, instead, the story of a creative partnership that develops by chance and that involves a deeper, riskier bond than mere sex ever could.
    It seems silly and grandiose to lavish praise on a movie whose dramatic crux is the recording of a demo tape, and there is some danger that the critical love showered on “Once” will come to seem a bit disproportionate. It is not a film with any great ambitions to declare, or any knotty themes to articulate. It celebrates doggedness, good-humored discipline and desire...
    The special poignancy of the movie, the happy-sad feeling it leaves in its wake, comes from its acknowledgment that the satisfaction of these aspirations is usually transient, even as it can sometimes be transcendent. ... A good song — even a bad one heard at the right moment — can cast a glow of enchantment over ordinary circumstances.
    “Once” understands this everyday pop magic about as well as any movie I can think of, and communicates it so easily and honestly that you are likely to want to see it again.
    Written and directed by John Carney; director of photography, Tim Fleming; edited by Paul Mullen; music by Glen Hansard and Marketa Irglova; production designer, Tamara Conboy; produced by Martina Niland; released by Fox Searchlight Pictures. Running time: 88 minutes.
    WITH: Glen Hansard (the Guy) and Marketa Irglova (the Girl).

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    [Aeternus:9363] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-22)


    - limites de letras e comunicação

    Est notícia ganhou hoje destaque no site do Terra:
    Terça, 22 de abril de 2008, 09h35

    Turco mata mulher e se suicida por torpedo mal escrito
    A falta de caracteres apropriados para o alfabeto turco em um teclado de
    celular provocou uma série de mal-entendidos entre um casal separado, em
    Ankara, e terminou com um assassinato e um suicídio, segundo o jornal
    Hürriyet. Após separar-se do marido, a jovem Emine, 20 anos, voltou para a casa do
    pai, Hamdi Pulas, mas o casal continuou brigando, mesmo separado. Eles
    passaram então a "discutir" por meio de mensagens trocadas pelo telefone
    celular, de acordo com a agência Efe. Em uma ocasião, Ramazan, 24 anos, disse à ex-mulher que ela sempre fugia do assunto quando não tinha argumentos. Porém, muitos teclados de celulares não
    têm o caractere "I" (que se escreve sem ponto). Assim, em lugar de digitar
    "sIkIsInca" (quando fica sem argumentos), o homem digitou "sikisince"
    (quando te f...).Emine tomou a mensagem como um insulto e mostrou-a a seu pai, que ficou
    enfurecido. Para Pulas, o ex-genro havia sujado a honra da família. "Ele tratou minha filha como se fosse uma prostituta", disse, segundo a Efe. Quando Ramazan foi à casa do ex-sogro para explicar o que havia acontecido toda a família o atacou com uma faca. Para se vingar, o homem esfaqueou a
    ex-mulher até a morte. Ele foi preso e acabou se suicidando na prisão.O pai de Emine e suas duas outras filhas foram condenados a 15 anos de prisão por tentativa de assassinato contra Ramazan. "Um pequeno ponto destruiu a vida de cinco pessoas", publicou o Hürriyet.
    ............................................
    Quanto às outras  notícias, sobremaneira no caso da Isabella, pensei numa coisa que Freud apontou ao falar das vicissitudes pulsionais, quanto à formação reativa.
    Este mecanismo, sem ser realmente saudável porque não envolve uma transformação da pessoa que o emprega, tem algumas vantagens quando um piromano tenta resolver sua dificuldade alistando-se para trabalhar com os bombeiros para apagar fogo. No caso dos "sociopatas" que procuram saída para impulsos assassinos ou corruptos estudando direito e tornando-se advogados, a coisa muda totalmente de figura. Em vez de jogar água nas tendencias que pretendem apagar, as chances disto ser potencializado são enormes...
    .............................................. 

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    [Aeternus:9364] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-22)


    - Sociedade e Indivíduo

    Com bastante atraso estou lendo Norbert Elias e ainda não sei se acompanharei seu raciocínio até o final ( o começo é importante para colocar em paralelo com o que Freud escreve no "O Futuro de Uma Ilusão" ou em contraste com o trabalho de Bion sobre "Grupos").

    Gostei enormemente de uma das proposts que Elias fez e que valeu o livro até agora, por si só. Discutindo a prisão das antinomias "bem-estar individual é meta da sociedade" e " bem-estar sociedade é a meta do indivíduo" ( formulação esta que é uma forma de abreviar que encontrei, mas ele é mais preciso obviamente), Elias conclui que tal modo de raciocínio provoca lacunas no pensamento por falha de vocabulário para colocar em operação uma sequencia de idéias.  E sugere uma idéia que me fez pensar, antes de tudo, no Freud quando ele afirmou que "não existe um objeto determinado para a pulsão". Elias observou que "nem indivíduos nem sociedades posssuem um objetivo pre-determinado, ambos existem - simultaneamente e é isso."  

    ( desculpem a paráfrase, o livro ficou no consultório e preferi escrever do meu modo)


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    [Aeternus:9365] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-22)


    - verdades ou mentiras...

    na época da severíssima ditadura um dos meus filhos fez uma composição escolar falando sobre a bandeira do Brasil, "minha mãe diz que a gente tem que queimar". Fui chamada na escola e eles entenderam a explicação que era, garanto, a mais pura verdade...Eu tinha levado as crianças para assitirem a troca da bandeira e explicamos que a velha, rasgada, não podia ser jogada no lixo porque era especial mesmo quando em farrapos e que, por isso, era queimada... E minha explicação era verdade.

    Hoje uma notícia diferente não contou com o mesmo tipo de aceitação, correta ou incorretamente. Va savoir? 

    Dois irmãos foram afastadas dos pais na Itália por um desenho obsceno, informou o Corriere della Sera.

    O desenho veio à tona quando a professora da menina de 9 anos chamou a mãe e lhe mostrou um trabalho que supostamente havia sido feito pela garota.O desenho retratava duas crianças fazendo sexo. Acima, estava escrita a frase: "Todos os domingos, faço sexo com meu irmão por 10 euros. Eu gosto".

    A mãe viu o trabalho e concluiu que a letra não era de sua filha, o que a menina confirmou: "Quem fez esse desenho foi uma colega minha, para implicar comigo porque sou dentuça e pobre".Poucos dias depois, em 14 de março, o serviço social de Basiglio, uma cidade ao sul de Milão, levou a menina e o irmão de 13 anos da casa dos pais. Desde então, as crianças não viram mais o pai e a mãe.

    "Estamos destruídos", diz o pai. "Levaram nossos filhos sem nem nos avisar, sem nos dar sequer uma explicação."

    O advogado Antonello Martinez luta há mais de um mês para levar os irmãos de volta para casa. "Os filhos de duas pessoas humildes não são vistos com bons olhos nem mesmo pela escola", afirma.Segundo ele, a menina foi vítima de um ato de violência escolar. O próprio juiz que ordenou a separação admite que há muitas dúvidas sobre a história."Não se pode excluir a hipótese de que apenas uma parte do desenho tenha sido feito pela menina ou até mesmo que não tenha sido feito por ela", diz.

     


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    [Aeternus:9366] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-23)


    - antígona

    Fui à estréia da peça escrita por Humberto Haydt e dirigida por Celso Cunha. Vi muita coisa boa, embora houvesse altos e baixos. O diretor estava aborrecidíssimo com a atriz que fez a Antígona, que disse suas falas na hora errada várias vezes e perdeu algumas deixas, mas isso não me atrapalhou no todo porque a coreografia estava bem com tanto ator entrando e saindo, música e sombras, a sincronização estava muito boa pra quem não seguia uma partitura...  O movimento dos atores segurou as escorregadas da moça. Do que não gostei foi, uma vez, o canto das sete musas ( gostei das outras) e o gran finale com a música "ne me quite pas." quando, quase sempre, dominava o que foi composto ali mesmo para a peça, com instrumento desenhado e calculado para a acústica pelo Humberto mesmo e o talento do rapaz que cuidou daquele estranho contrabaixo misto de violino gigante com cuica ( Humberto apelidou, em homenagem ao diretor, de "Celsoíca"), de belas linhas e sonoridade fascinante.  Os arranjos todos, até quadrados sendo movidos pelo chão com ecos inquietantes, faziam parte da música e ficaram muito bons... A voz do Celso, como em missa cantada, estava ótima.

    Pela primeira vez notei que Edipo se fez cego como Tirésias. Dois cegos. Eu só via um e, em outro momento, o outro. Não pensei na ligação das cegueiras ( Édipo negando tudo aquilo que o profeta via sem ver? identificado com o agressor? ). Senti, ainda, como os deuses no Olimpo com seu caos de relacionamentos amorosos de toda ordem, ali pareciam menos "civilizados" do que o que se inaugurava com a tragédia de Édipo.

    Gostei das roupas e de muitas idéias para povoar a cena, mas não curti o cenário de fundo porque não entendi a piramide embora gostasse dela como tumba e portal para as sombras. Se não estivesse cansada descreveria mais em vez de usar a vassoura dos adjetivos.


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    [Aeternus:9367] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-23)


    - antigona: araujo e não cunha...

    fiz um lapso, o nome do diretor não é Cunha! É Celso Araujo.


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    [Aeternus:9368] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-23)


    - RE:antígona, Édipo & Tirésias

    Édipo, após decifrar o enigma da Esfinge, em vez de tornar-se sábio, torna-se rei.
    Um "tirano" (rei sem o direito da hereditariedade e não necessariamente um tirano de contoação "tirânica").
    Irônicamente ele tinha esse direito de hereditariedade, mas de certa forma lhe foi tirado quando o pai mandou que o matassem. Em Roma, mais tarde, em certa época o reconhecimento da filiação era um atributo e direito do pater familiae: o bebê recém-nascido da matrona era trazido pela ama e colocado aos pés do dono da casa. Se ele o levantasse do chão, era "filho", "patrício". caso contrário seria criado (criado, serviçal, escravo, sem direitos de cidadão). Da mesma forma, um sujito podia ser adotado por um novo pai com todos os direitos.
    Voltando a Édipo: ele estava "morto" como filho sem nome de Laio e Jocasata, aquele filho era como se nunca tivesse existido. Mas existe a ironia de que - a rigor - teria tido o direito de asumir o trono se não tivesse sido abandonado no deserto para morrer.
    Quando ele se cega, é quando finalmente atinge a sabedoria como Tirésias, ganhando o dom da visão "interior" concomitante à perda da visão exterior. Ele vai entender, por fim, que decifrou em parte o enigma da esfinge, cuja resposta mais acertada não era "o ser humano", uma generalização.
    Ele só pôde pensar no "animal de 3 pés" (que usa um cajado para auxiliar na marcha) porque como defeituoso nos pés, também usava um cajado. A resposta mais correta seria "Sou eu!"

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    [Aeternus:9369] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-23)


    - RE:RE:antígona, Édipo & Tirésias

    A frase "Édipo não se tornou sábio, mas se tornou rei" é de Constance Marcondes César - que assinala que Édipo só atingiu a sabedoria depois de cego, já na peça seguinte, "Édipo em Colono", quando já cego e taumaturgo se aproximava da condição de Tirésias.
    Está no capítulo IMPLICAÇÕES CONTEMPORÂNEAS DO MITO,  in: Morais, R. (org.)"As Razões do Mito",  Ed.Papirus, Campinas, 1988


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    [Aeternus:9370] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-23)


    - RE:RE:antígona, Édipo & Tirésias

    Interessante que na formulação "DECIFRA-ME" existe 1 apelo ambíguo.
    Édipo não tinha que decifrar somente o enigma proposto pela esfinge, mas o enigma da PRÓPRIA esfinge. Ele traduziu pra si mesmo o desafio da esfinge: o "decifra-me" vioru um "DECIFRO-ME", e com isso ele chegou à solução. Édipo só conseguiu chegar a si mesmo por ter se colocado do point de vista da esfinge.
    O enigma do outro tem sua chave dentro de nós mesmos(?); porém pra saber disso, é necessário ver o que o outro vê?!??

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    [Aeternus:9384] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-24)


    - os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Recebi de uma amiga o seguinte texto com recomendação de "vale a pena ler". É do
    CONTARDO CALLIGARIS

    e se chama
    A turba do "pega e lincha"
    (Levanto minhas próprias questões em seguida)

    Querem linchar para esquecer que ontem voltaram bêbados e não sabem em quem bateram

    NA ÚLTIMA sexta-feira, passei duas horas em frente à televisão. Não adiantava zapear: quase todos os canais estavam, ao vivo, diante da delegacia do Carandiru, enquanto o pai da pequena Isabella estava sendo interrogado.
    O pano de fundo era uma turba de 200 ou 300 pessoas. Permaneceriam lá, noite adentro, na esperança de jogar uma pedra nos indiciados ou de gritar "assassinos" quando eles aparecessem, pedindo "justiça" e linchamento.
    Mais cedo, outros sitiaram a moradia do avô de Isabella, onde estavam o pai e a madrasta da menina. Manifestavam sua raiva a gritos e chutes, a ponto de ser necessário garantir a segurança da casa. Vindos do bairro ou de longe (horas de estrada, para alguns), interrompendo o trabalho ou o descanso, deixando a família, os amigos ou, talvez, a solidão -quem eram? Por que estavam ali? A qual necessidade interna obedeciam sua presença e a truculência de suas vozes?
    Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.
    Há os que querem ser vistos por parentes e amigos do bar, e fazem sinais ou erguem cartazes. Mas, em sua maioria, os membros da turba se animam na hora do "ao vivo" como se fossem "extras", pagos por uma produção de cinema. Qual é o script?
    Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.
    Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.
    Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela. Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: "nós", que não matamos Isabella; "nós", que amamos e respeitamos as crianças -em suma: "nós", que somos diferentes dos assassinos; "nós", que, portanto, vamos linchar os "culpados".
    Em parte, a irritação que sinto ao contemplar a turma do "pega e lincha" tem a ver com isto: eles se agitam para me levar na dança com eles, e eu não quero ir.
    As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.
    O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença.
    Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
    Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. Se não bastar, leia a coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de domingo passado.
    A turba do "pega e lincha" representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.

    No Globo de ontem, para uma matéria que perguntava "O que faz uma pesoa sair de casa para ir protestar na porta do apartamento onde estão o pai e madrasta indiciados pela morte" da criança ? - uma psicnalista teria declarado:
    "Eles visam a expurgar o assassinato de si, mas o ser humano é constituído de pólos que permitem fatos como um pai que mata a filha, mesmo que sejam abjetos. É difícil aceitar a condição da psicopatia, os protestos são compreensíveis"

    Agora quem escreve sou eu, Gallego:

    Tenho algumas questões, mais ainda com a declaração lamentável da psicnalista carioca, Maria Inês Escosteguy, nO Globo de ontem, página 10, quando ela teria dito que aquelas pessoas que saem de casa para protestar na frente do prédio onde está o pai da menina morta estão tendo uma reação "compreensível" - ora, ela esquece de em linguagem comum, "compreensível" tem a conotação de "desculpável", que não é como para nós, profissionais de saúde mental, que fazemos distinção entre um sintoma que se pode "explicar" (dor de cabeça por sinusite, por exemplo) e um sintoma parecido que se pode "compreender" (cefaléia tensional a partir de um dado na história recente ou pasada do paciente).

    Quando ela diz que a atitude é "compreensível"ela está endossando e quase estimulando essa atitude de "protesto" (que pode chegar a se transformar em um outro crime: o linchamento), tendo ela dito anteriormente que estão negando o lado assassino que pode exisitir dentro de qulaquer um dentro de nós todos. Ou seja...há uma armadilha no ser humano: pode-se protestar contra um assassinato... cometendo outro!

    O gancho da fala da Maria Inês e do texto do Contardo é semelhante em algum aspecto: a projeção no "outro" de nosso próprio "mal" para nos aliviarmos. Penso que nosso papel público de profisionais da área psi quando somos solicitados a opinar sobre fenômenos de massa como este é muito delicado. Obviamente não seria eu quem iria negar a utilização da projeção como mecanismo de pseudo-alívio das "partes ruins" de nós todos, mas acho que, assim como no setting é preciso timing, perspicácia, sensibilidade (tato) no modo de apresentar uma idéia para o paciente, a coisa pode ser ainda mais delicada ainda em termos de opinião nossa para o público em geral através da mídia.

    Eu penso que seria mais "terapêutico", antes de enfocar o "alívio" da projeção, mencionar a identificação idealizada que tendemos a ter com "a parte boa", o "mocinho", a "vítima inocente": parto da premissas que nenhuma dessas pessoas que estão com manifestação de indignação exacerbada quereria ter sua vida amputada aos 5 anos de modo bárbaro, seja por quem fosse, pior ainda se for por atitude assasina do pai, madrasta, babá, avós,  mãe, etc etc.
    Essa identificação com o "lado bom" associado à vítima indefesa é de certa forma, narcísico, mas é tão importante quanto o fato de também ser corolário (ou o outro lado da mesma moeda) da contra-identificação/rejeição/projeção do "lado mau" que já está colocado definitivamente nos cuidadores da criança morta: ou eles mesmos assassinos monstruosos ou - no mínimo - péssimos cuidadores ineficientes que deixaram o horror acontecer nas mãos de um suposto (até agora um imaginário) terceiro.

    Um foco importante seria também da falta de confiança no sistema legal que permite a reincidência dos criminosos de colarinho branco na política da roubalheira sempre maior do que o que se sabia, os criminosos por omissão de suas mãos inertes nas áreas de sáude e educação favorecendo um verdadeiro genocídio (pela dengue, hanseníase e outras causas de doença e mortes relativamente bem mais evitáveis mas que se pasam em terrenos menosprezados pelos poderosos), além daqueles de mãos sujas de sangue mesmo: os que matam, esquartejam, mas continuam soltos ou com penalidades bizarramente leves enquanto que ladrões pés-de-chinelo ficam mofando em carceragens que são escolas de crimes maiores.

    Claro que o texto do Calligaris problematiza bem mais a questão, mas quando ele de certa forma "ataca" o mecanismo projetivo como sendo tão criminoso quanto, me parece que fica um pouco como uma interpretação curta e grossa do "analista de Bagé" dizendo para o paciente que ele quer comer a mãezinha e não pode, que ele quer matar o pai e que isso é coisa de um filhadaputa. E daí?... À quoi ça sert?

    O texto do Calligaris agrada a quem já tem (ou acha que tem, mesmo que intelectualmente) algum insight sobre "o mal que mora nos corações humanos". Para os que não se identificam com essa possibilidade do mal em cada um de nós, seja por splitting do ego, seja por negação, o texto soa acusatório e "terapêuticamente " mais do que inútil. Sei que não pode ser exatamente "terapêutica" a função e existência de um texto desses em um jornal (de leitores que seriam mais de uma certa elite cultural ou meramente econômica), mas mesmo assim , o"tato" me pareceu bem pouco sutil ou inexistente: ele está indignado com a turma do "pega-e-lincha" e de certa forma cai na mesma armadilha de se colcoar "de fora" desta barbárie.
    Não sei qual a utilidade real e eficaz de um texto desses e qual o papel exato e profissional de um psicanalista quando cai nessa armadilha em que acho que ele caiu.


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    [Aeternus:9385] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-24)


    - RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Gallego,

    Psicanalistas que interagem com a mídia perdem a perspectiva do lugar de onde falam com alguma regularidade...Pertenço a lista do Nabokov e só porque alguns sabem que sou psicanalista se dirigem a mim de modo diferente, com desvios transferenciais grosseiros e insistem em me ouvir como se pudesse psicanalisar grupos, livros e eles próprios com breves palavras endereçadas ao público! Quando não o faço ou apareço sem a capas da idealização de cada um, fora do "suposto saber" ficam indignados e sentindo-se traídos. Se eu tivesse uma coluna em jornal sofreria pressões de todo tipo e, por isso, dou um desconto pro Calligaris. Porque ele não é um psicanalista em função psicanalítica quando escreve num jornal, é um cidadão como eu e você, e com direito de expressar sabedorias ou besteiras próprias.

    Como andei lendo um bocado do Freud falando de grupos e hordas e sociedades noto que o referencial do Calligaris é essencialmente freudiano. Acho que alguém recentemente publicou aqui um parágrafo inteiro sobre "homo homini lupus". Freud nunca arredou pé da idéia de que a civilização se constrói sobre o assassinato do pai da horda e do peso da pulsão de morte ( e agressividade).  Mas ler Freud com suas hipóteses sobre comportamento das massas não nos autoriza a imitá-lo, nem nos acertos quanto mais nos erros...

    Continuo lendo "A Sociedade dos Indivíduos" do Norbert Elias, que tem pontos altos e baixos, momentos de enorme clareza e outros nem tanto ( fora minhas próprias limitações potencializando as eventuais perdas de perspectiva). Ele parece opor-se ao que Freud descreveu sobre "a humanidade" como não sendo representativo senão da mentalidade ocidental, anglo-saxã, na era vitoriana.  Se eu estivesse num momento mais repousado, copiaria parte dos argumentos dele no capítulo III que me parecem bem pertinentes. Eu não ouso dizer nada assentadamente dirigido quanto ao caso Isabella Nardoni, embora espume de indignação praticamente em relação a cada coisa do que vem acontecendo no ambito da população, mídia, advogados e promotores, detetives e peritos, pais e filhos. Como esta menina, infelizmente, há dezenas de crianças sendo maltratadas, mortas, sequestradas, estupradas todos os dias. A atenção dada a este caso poderia abrir as portas para um alerta amplo sobre o problema da criança no mundo, sem que se produza uma histeria ou paranóia com o assunto.

    Há que se agir com cautela porque nem toda marca roxa é indício de espancamento, nem mesmo uma criança morrendo no gramado de um prédio é vítima de assassinato ou negligência e, assim como a turma que grita "lincha", tanto existem aqueles médicos excessivamente "zelosos" que podem destruir uma família inteira com hipóteses infundadas quanto outros que não percebem nada do que está apresentado diante dos seus olhos ( como foi o caso da menina de Goiania que era torturada reiteradamente, sem que as marcas de queimaduras provocassem a menor inquietação nos médicos que a atenderam em momentos diversos).  

    Quando psicanalistas falam e deveriam calar?  Na minha opinião, sempre. Sendo mais precisa: sempre... que falarem como "sujeitos supostos saber" do inconsciente individual ou grupal fora do contexto analítico. (O que não quer dizer que o cidadão, psicanalista, não deva falar toda vez que puder dizer alguma coisa que elucide ou polemize um estado de coisas que precisa ser melhor entendido...)

    Particularmente, gostei muito da forma pela qual Gallego apresentou o material e suscitou questões. Não creio que eu tenha conseguido argumentar e contra-argumentar direito a partir da proposta dele, mas nossa lista é um espaço espontaneo e posso corrigir meus enganos ou má-leitura. 


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    [Aeternus:9386] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-24)


    - dois mais dois são quatro, qed

    É estranho começar a tratar de um tema que é familiar, sabido quase de cor e salteado, para descobrir que basta virar a perspectiva um pouquinho e eu não sei falar nada de inteligente a respeito dele?

    Uma das discussões literárias sobre "solipsizar Lolita" ( transformá-la em fetiche enquanto ninfeta) acabou no tema "subjetividade".E não consigo me desembaraçar das teias de pensamentos incompletos para chegar a uma idéia do que eu entendo por isto, ou do que Freud entende por "subjetividade" ( termo que não me recordo de ter sido empregado por ele). Intuitivamente a subjetividade seria algo do tipo "pensando com meus borbotões" ( na frase do Chico), uma forma de autoconsciência preservada num canto secreto, um mundo engendrado pela auto-introspecção. Só que não é...tem sempre algo errado ou faltando nestas colocações. Agora a coisa piora ainda mais quando se trata de entender como um escritor apresenta a "subjetividade" dos seus personagens: qual o momento de uma confissão expressa tal "subjetividade".  Ou o que é um "personagem" com densidade e realismo "psicológicos"...

    Norbert Elias, a quem recorri com esperança de clarear o quadro, me atrapalhou ainda mais porque ele tem uma visão "organica" da ligação indivíduo e sociedade, ora é algo da ordem de um sistema circulatório que tem sustentação a partir da circulação coronária ( é assim que se diz?) ou como a descarga e retomada de um impulso neuronal.  Ele cria dicotomias que são caricatas. Freud nunca considerou o indivíduo como uma entidade isolada do grupo social, por exemplo, quando monta seu mito das origens e a emergência do indivíduo a partir do grupo - embora ele acabe situado entre os autores que isolam um "ego" do resto do mundo. Até o inconsciente não é algo isolado mas fica vazando e dando dicas de como aquela pessoa reage ao que a cerca como acontece nos lapsos, na transferencia-reedição, nos sonhos. 

    Gostei mesmo de quando ele apontou quase todo o primeiro capítulo do Futuro de uma Ilusão ( sem nomear, mas quase parafraseando o que ali Freud escreveu) como produto da mentalidade anglo-saxã que cria barreiras entre a vivência mais ou menos liberta da criança e o mundo adulto cheio de restrições e renuncias instintivas. Ele praticamente afirmou que nestas culturas mais desenvolvidas apenas opera o que seria um "falso self". Porque ele demonstrou que tal enfoque é datado e espacialmente situável, não é um universal - coisa que a gente sabe e esquece enquanto lê Freud e vai concordando com seus argumentos lúcidos.  Norbert Elias acredita que "se deve partir da estrutura das relações entre os indivíduos para compreender a psiquê da pessoa singular" e, embora pareça novidade, é disso que Freud fala o tempo todo quando descreve a tirania sofrida pelo ego intermediando o id e o superego. Sem esquecermos do cerne da análise, ou seja, o trabalho com a transferência!!!!

    Elias, no entanto, insiste na novidade de apontar que os termos, como "consciência" ou "ego", dão a impressão de "substancias" em vez de "funções", como se fossem coisas que existem ao modo do estômago ou do cranio. Para ele, a razão, a mente, o psíquico são funções que "se dirigem constantemente para outras pessoas e coisas. São formas particulares de auto-regulação da pessoa em relação a outras pessoas e coisas". Para Elias, os instintos ou o inconsciente constituem também uma forma específica de auto-regulação em relação a outras pessoas e coisas, "apesar de ser uma forma que, dada a nítida diferenciação das funções psíquicas, já não controla diretamente o comportamento, mas o faz através de vários desvios".  A alma não é outra coisa "senão a estrutura formada por essas funções relacionais", ela "não é algo estranho à sociedade e associal em si mesmo, mas algo que em sua própria base constitui função da unidade relacional de um poder superior a que chamamos de sociedade."  

    Como acho que Freud descreve exatamente este processo, embora me pareça novo quando Elias o apresenta, suponho que às vezes Freud também não o descreva. Se é que entendem? Bastou uma formulação nova que a idéia antiga ficou parecendo fresca e original ...E não deixa de ser, de algum modo.  


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    [Aeternus:9387] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-25)


    - RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Eu geralmente gosto das análises do Calliga. Acontece que este "caso Isabella" é um terreno escorregadio pra quem quer que pise nele. Por mais evidências que existam sobre a possível responsabilidade do pai/madrastra no crime, às vezes meu 1% de dúvida me põe a pensar: caramba e se não foram eles?? Sim, sei que isso hoje é como acreditar em duendes, porém... qualquer pessoa com algum senso de responsabilidade deve avaliar que tipo de acusação vai fazer publicamente, emitindo opiniões que vão formar opiniões, enquanto os 2 não forem presos e julgados. Jornalistas vivem este drama constantemente, eu digo os que têm ética, não os picaretas que sobram por aí e hoje, infelizmente, dominam nichos importantes da mídia: programas de entrevistas, policiais, talk shows, etc... Já vi/ouvi cada barbaridade.
    Mas o lance aqui é outro: como a gente pode manifestar nossa censura ao comportamento da turba, comportamento de massa, tipo "claque das tragédias" sem parecer que está defendendo o casal nefasto. Sim porque uma coisa é uma coisa... outra coisa, é outra coisa, porém, a esta altura da rejeição que se estabeleceu em relação aos prováveis assassinos, qualquer coisa que se diga é tomada como defesa ou acusação.
    É um samba do crioulo doido, eu critico e sempre critiquei o comportamento das "tietes" dos escândalos e das tragédias. Acho muito pouco ficarem gritando "assassinos", eu penso numa reflexão maior em relação ao que ocorre com a sociedade contemporânea, para que daqui há 6 meses, passada a "euforia", as coisas não se percam como mais um crime insolúvel numa sociedade que vai continuar violenta em ritmo crescente, porque estamos até "anestesiados" em relação a "crimes menores": pai que mata filho com tiro, por exemplo... Foi preciso que um atirasse a filha de um prédio para que começassemos a compreender que a coisa tá passando do limites, no mais é tudo natural... o crime foi pasteurizado!! 
    Compreendo que na posição de psicanalista a Jansyta se sinta "cobrada" injustamente quando não age como tal, quando expressa sua opinião "desarmada" da profissão, por exemplo... Porque todos nos vêem como "profissionais" 24h e não é bem assim... Temos outros impulsos, como o Contardo teve, talvez, ao falar como um cidadão que dá sua opinião num jornal... mas ele é PSICANALISTA, aliás é articulista do jornal justamente por isso, para expressar uma opinião "profissional", aí livrar-se deste papel é muito difícil, diria impossível... De qualquer modo, o que ele disse não chega a infringir a ética, menos mal... porque isso é o que mais preocupa na imprensa hoje, jornalistas, por exemplo, bancando os promotores... saindo do seu papel de informar para julgar. De certo modo, fiquei meio estarrecido com a atitude do Jabor na terça-feira passada... mas sei que é por conta do meu 1% de dúvida em relação ao casal ter praticado o crime. Mas ele foi incisivo, categórico e se houver algum erro vai ter que bancar o jogo dele... e aí que está. Nem todos bancam. Muitos saem à francesa quando erram.
    Quanto a fazer uma análise do fato mostrando a face dos que se identificam com os com os bonzinhos, os mocinhos, seria outra maneira válida de abordar a questão. Talvez uma outra maneira. São leituras, todo mundo está fazendo isso neste momento com as ferramentas que têm, como analistas, jornalistas, advogados, cidadãos... O que se quer é Justiça e esta pra mim é a grande dúvida: é bem provável que o casal, mesmo sendo culpado, se safe daqui há algum tempo por alguma brecha da lei... Aquele cirurgião plástico/açougueiro foi considerado um cara que "agiu em legítima defesa". Tadinho!!! Para mim é a mesma coisa que deixar solto Jack, o  Estripador. E enquanto nos preocupamos com análises corretas, pelo grau de responsabilidade das nossas profissões, do outro lado da margem o "politicamente correto" continua a não fazer o menor sentido. O mundo parece estar muito velho para reencontrar seu ponto de equílibrio... há uma gravíssimo problema nos "eixos"... diria mesmo que uma podridão insolúvel... uma corrosão sem volta!?!?!?

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    [Aeternus:9388] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-25)


    - RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Como "linchadores", "acusadores", "atenuadores", "incitadores", policiais, promotores, investigadores, identificados sei-lá-com-quê/quem estamos todos envolvidos com a morte de Isabella. Esta tragédia é "nossa". Infelizmente, esta é a grande armadilha. E qualquer análise da barbárie será sempre insuficiente...

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    [Aeternus:9389] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-25)


    - RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Omar, estou acompanhando com interesse sua análise dos itens mais importantes deste complicado acontecimento e concordo plenamente que se trata de um acontecimento social, momento crítico em nosso mundo, evento societário... ( você o disse indiretamente ao apontar para a quantidade de especialistas e não-especialistas envolvidos).

    Quando escrevi que um psicanalista pode opinar como cidadão sem ser como psicanalista, marquei bem que se trata do lugar do "suposto saber do inconsciente" que o analista que fala devia evitar -  e não o "sintoma-psicanalista" que faz dele psicanalista por vinte e quatro horas ao dia. 

    Sempre estarei sendo psicanalista ao falar e, por engano, acontece de ser tomada transferencialmente como sendo uma psicanalista quando falo num passeio na rua, num barzinho ou num site. No entanto, se estou nesse site ou no jornal ou na tevê, tenho que marcar este espaço como sendo "fora da análise" para dar chance de me ouvirem como "especialista em psicanalise", "leitora de Freud ou Winnicott", "experiente com crianças", "informada sobre questões da sexualidade infantil no adulto"  e não como "autoridade sobre o inconsciente e a alma" no contexto específico da clinica.  Nem sei como explicitar isso mais, dá pra entender intuitivamente ...não? Daqui a pouco acabo dicotomizando em "analista do bem e analista do mal" e minha intenção não é esta.


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    [Aeternus:9390] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-25)


    - RE:RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Compreendo Jansyta, mas acho que talvez fique difícil até pros psis separarem o espaço clínico de outros espaços públicos&privados, porque este deslocamento é feito a todo momento, mas você tem razão...
     
     
    É verdade que apontar a identificação com o lado "bom", o da vítima inocente, poderia funcionar como o clássico eufemismo inicial "o gato subiu no telhado", mas também é problemático, porque arranha outra ferida de culpa de nossa vida mudérna, a de que estamos produzindo a 2ª ou 3ª geração de filhos de pais separados - o que não seria grave se as crianças, nos litígios conjugais, não fossem usadas&manipuladas desavergonhadamente pelos pais, exacerbando um conflito emocional e de identificação que pode deixar sequelas indeléveis. As crianças, no meio desse puxa-puxa parental, são vítimas de violência psicológica tão mais grave quanto mais velada e maquiavélica for a "contaminação".

    Já o "compreensível" da D. Maria é duplamente falho, porque nem é tão passível de ser entendido assim e nem desculpável.

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    [Aeternus:9391] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-25)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Se todos psicanalistas ao se manifestarem publicamente soubessem que tem que evitar falar como "suposto saber" ( normalmente, suposto saber tudo sobre tudo) e se apresentassem, devagar a turma ia aprendendo...

    Há todo tipo de violência, foi boa a chamada para os casais separados que brigam pela guarda dos filhos. No entanto, o excesso de gentileza e proteção por parte de um deles ( ou a sedução ferencziana) são outra forma totalmente disfarçada de violência. Como você mesmo insiste em garantir, somos uma espécie cruel... 


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    [Aeternus:9392] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-25)


    - RE Texto do Davy sobre o episódio do horror

    Davy enviou para mim um texto que ele já havia escrito quando leu o que escrevi aqui no aeternus sobre os pronunciamentos públicos de psicanalistas na mídia. Este texto deve sair em outro site para o qual ele havia encaminhado (ou já está por lá, não sei bem), mas ele autorizou que colocasse aqui no aeternus, mas advertindo que está muito assoberbado e que não está podendo participar dos debates, por isso não enviou diretamente para a lista inicialmente. Quando perguntei por que não o fazia, explicou-me o que resumi acima mas autorizou que eu mesmo colocasse na lista. Aí vai:

    EMOÇÃO E POLÍTICA – POSSÍVEIS RELAÇÕES

    Dos anões do orçamento aos desmandos mais atuais, apenas para demarcar um período específico, a indignação popular vai se avolumando. Por saber que nada pode fazer, o homem do povo engole e finge que esquece. Denega, como se diz. É claro que ele sabe, mas sabe ainda melhor que não poderá agir a partir disso. Ainda assim, a ira se acumula. Cada crime contra o povo – perpetrado seja por quem for, pelos meios que forem, da maneira que for, provavelmente fica estocado na subconsciência popular – que vai inchando, inchando, até encontrar um vazadouro por onde escoar.

    A meu ver, o pai e a madrasta da menina morta recentemente forneceram esse vazadouro. A menina – vítima inocente e indefesa de adultos inescrupulosos e violentos – é todos nós. Ou melhor: Nós todos somos ela, de algum modo.

    O que vejo nessa incrível comoção popular – gente largando o emprego para vigiar mais de perto os passos dos possíveis assassinos, gente fazendo vigília nos lugares por onde eles deverão passar, gente apedrejando veículos que os irão transportar, e assim por diante – é algo que a psicanálise chama de identificação.

    Para mim, o povo movido por essa santa ira está pura e simplesmente identificado com a pobre menina. Ela é o seu retrato emocional. Ela é o rosto que eles vêem na figura que os representa durante um sonho. Ela é a sua ‘menina dos olhos’, ou a ‘alma de sua alma’. Ela é o seu retrato na carteira da identidade interior. Não aquela que exibimos para os outros, aquela que acalentamos e consolamos lá dentro do peito, quando a sentimos sofrer.

    O desamparo radical do homem está personificado nessa menina. Aqueles que dela deveriam cuidar – com todo o peso que Heidegger deu a esse verbo – a mataram. Melhor: a assassinaram.

    Não foi a sangue frio, está bem. Não, não foi um crime premeditado e friamente consumado. OK. Mas e se foi a sangue quente é melhor? Por que? A famosa legítima defesa, coisas que fazemos quando o sangue ferve porque nos vemos perante uma ameaça mortal, só merece esse nome nessa circunstância específica. Se a ameaça não é mortal, a defesa que leva a matar não é legítima. E se a ameaça é, na verdade, nenhuma, então nem se trata de defesa. É ataque mesmo, e por isso assassinato.

    A brutalidade se justifica diante de uma outra brutalidade. Mas que brutalidade é possível a uma criança, a uma menina, a uma pequena menina de seis anos de idade? Que justificativa apresentaria o casal suspeito para esse ato tão violento? Não, não há justificativa. Nenhuma. Conclusão: eles não ‘mataram’ a menina. Eles a assassinaram.

    Na versão original da Bíblia, a sabedoria antiga já tinha decidido que há diferença entre os dois atos. Nos Dez Mandamentos da Bíblia Hebraica, o Velho Testamento, originalmente não está escrito, como ficou nas traduções posteriores para as várias línguas, ‘Não matarás’ – lo taharóg. Está escrito ‘Não assassinarás’ – lo tirtzáh. Explicita e inequivocamente.

    Assassinar, então, é tirar a vida sem motivo, sem justificativa, sem explicação redentora. É permitido, na versão original da Bíblia, matar um assassino que vem nos matar: ‘Aquele que acorda para te matar, madruga e mata-o,’ seria uma das traduções possíveis do versículo. Mas como poderia essa menina matar alguém? Como poderia ela ser sequer suspeita de desejar tal coisa? Que ameaça ela teria representado para aquele pai e para aquela madrasta, a ponto de eles se verem compelidos a adiantar-se e matá-la?

    Essas considerações parecem gratuitas, mas não são. tenho certeza de que no imaginário popular essa questão foi intensamente debatida, e a conclusão não poderia ser outra: quem fez isso não é humano, é monstruoso. No mínimo é um monstro. Despejar tamanha raiva sobre uma frágil e indefesa criança é algo de que até os bandidos mais empedernidos recuam horrorizados. Principalmente se a criança em questão for alguém de sua própria família.

    O que o povo deve ter sentido nesse episódio é que aqueles que foram capazes de perpetrar um crime desse tipo seriam capazes de fazer qualquer outra coisa. São seres movidos por aquilo que, desde cedo, a maioria absoluta de nós aprende a controlar, no melhor dos casos, ou a reprimir, no pior. Estou falando daquilo que chamamos ‘onipotência’. A maioria de nós chega ao fim da infância com a consciência bem clara de que não se deve deixar a onipotência solta – ela é muito perigosa, ou para si ou para os outros. As experiências mais tardias do final da infância mostram a todos nós que não devemos nos permitir tudo e qualquer coisa. Muitas vezes porque já estamos acostumados a ver no mundo externo um lugar razoável, onde dá para viver e não vale a pena estragar, e às vezes porque vemos no mundo externo um lugar terrivelmente vingativo, ao qual não se deve provocar. Seja como for, poucas são as pessoas que deixam de aprender essa lição. Isso, já dizia Freud, nos deixa um tanto chateados, porque nos sentimos tolhidos e saudosos da liberdade (quer dizer, da impunidade) da primeira infância. Mas como sabemos, por vermos crianças pequenas, que afinal elas não podem fazer um mal tão grande, nos consolamos com a perda dessa incrível liberdade, porque era liberdade para quase nada.

    Mas algumas pessoas não são assim. Algumas não exatamente aprenderam essa lição, apenas fingiram tê-la aprendido. Eles agem a partir da onipotência sempre que não há ninguém olhando. Esses são os bandidos. E há outros que levam tal coisa aos extremos da total ausência de limites. Nós os chamamos de ‘loucos furiosos’. E há também aqueles que cometem crimes como esse de agora. Como conceituá-los?

    Não sei. Ao menos não no momento. O que sei é que o povo – a gente simples que vive por aí – e que é a maioria, sente na pele que ali houve algo fora do comum. Ali a capacidade de agir onipotentemente foi além dos limites suportáveis. Alguém ali fez algo que nenhum ser humano se atreveria a fazer – assassinar uma criança totalmente indefesa, principalmente porque confiava naqueles que o fizeram. Não foi só um ato de suprema crueldade. Foi também um ato de suprema covardia. Judas tornou-se tristemente famoso exatamente por isso: porque entregou à morte alguém que nele confiava. O casal suspeito do assassinato fez algo do mesmo gênero, só que neste caso agora ainda por cima tratava-se de uma criança pequena.

    Por isso eu disse, um pouco antes: O desamparo radical do homem está personificado nessa menina. E todos os que se sentem desamparados, de um ou de outro modo, por uma ou por outra razão, seja por maltratos recebidos da família, seja por maltratos cometidos pelas autoridades, certamente viram nela um ícone, uma imagem fortemente marcada de seu próprio sentimento de desamparo.

    Claro, ninguém está consciente desse fenômeno. E não estou procurando ‘interpretar’ o sentimento popular. Minha intenção é apenas identificá-lo, e entendê-lo. Esse casal acusado do crime, se for condenado, certamente pagará por muitos outros crimes – aqueles cometidos por parentes, ou os cometidos por vizinhos, ou por desconhecidos, ou mesmo os que mencionei no início – os crimes cometidos pelos próprios governantes. A relação entre um homem do povo e seus governantes é semelhante à que existe entre uma criança e sua família, ou entre ela e adultos desconhecidos: trata-se de uma relação assimétrica, onde um lado detém um poder absolutamente maior que o do outro. A vítima nada pode fazer contra o criminoso. Nem sequer há a possibilidade de que a situação se modifique e um dia vítima e algoz se vejam frente a frente, ou ambos desarmados ou agora com a arma na mão da vítima anterior. Não, nem essa hipótese é possível.

    O que temos, então, é uma situação de desamparo radical. O casal, nesse caso, esse estranho casal, na verdade não tão estranho assim, está recebendo sobre sua cabeça a santa ira de uma multidão de ex-desamparados, que nada puderam fazer contra quem os agrediu antes, nem nada pode fazer contra quem os agride agora. Mas contra o casal, sim, é possível fazer alguma coisa. Enquanto estiverem presos, ao menos. E se forem soltos, eu não apostaria na sua sobrevivência: eles se verão caçados por um grande número de adultos sedentos por vingar a criança desamparada que foram, um dia, ou de cidadãos espezinhados, mais recentemente, agora que têm a chance de fazê-lo.

    E não, não estou nem por um momento temendo, ao dizer tais coisas, pela segurança do casal. A não ser que se comprove terem sido outros os perpetradores do crime, ou que fique claro que as suspeitas contra eles são infundadas, o que posso dizer, quanto à possibilidade de, se forem soltos, virem a ser atacados por multidões furiosas, é: Bem feito! Quem mandou serem como são? O limite da onipotência é a catástrofe, vocês não sabiam? Pois fiquem sabendo agora. E a impunidade, felizmente, não é algo tão fácil de alcançar.

    Mas o que dizer, então, dos outros que ficaram impunes? Os parentes, os molestadores em geral, os funcionários públicos que, parafraseando o general Lott, agem na vida pública como se estivessem na privada?

    Eu não sei. Mas gostaria de saber. E gostaria de descobrir, um dia, que o povo não tem memória tão curta quanto parece, e que nem todas as suas mágoas são esvaziadas na cabeça dos bodes expiatórios ocasionais, por mais que estes tenham merecido a parte que lhes coube nisso tudo.

     

     

     


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    [Aeternus:9393] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-25)


    - RE:RE Texto do Davy sobre o episódio do horror

    Gallego, obrigada por incluir no site o texto do Davy.

    Como temiam os pais da menina de nove anos que foi estuprada e morta há uma semana: a mídia não vai lhes dar atenção porque são pobres e residem numa cidade pobre. Além do mais, na região, este tipo de violência não é rara. Não dá ibope.

    Como o encaro, este fenômeno Nardoni é algo a parte, é mais um espetáculo do que uma denúncia seguida da expressão às indignações represadas que encontram uma saída para catarse, algo resultante de uma identificação do próprio desamparo projetado na garotinha de seis anos.  

    As estatísticas da Unicef mostram que a maior parte dos ataques contra crianças vêm dos familiares. Por quê um protesto tão especial da população paulistana?  Algum elemento da mídia gritou "lincha" e a turma começou a correr pros holofotes? E por que este protesto tem jeito dos castigos dados pelos prisioneiros criminosos aos crimes contra crianças, particularmente  casos de pedofilia?  


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    [Aeternus:9394] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-04-25)


    - Jabor

    Tentei não ler sobre a morte de Isabella. Também evitei, na época, os detalhes do assassinato do menino João Hélio. Na minha profissão, há que selecionar horrores. Mas não consegui. Vi o desfecho do caso da menina morta em São Paulo. A tragédia não é só das vítimas, mas nós também sofremos para entender o mal incompreensível. Cresce aos poucos uma pele de rinoceronte em nossa alma; com o coração mais duro, ficamos mais cínicos, mais passivos diante da crueldade. Como escreveu Oswaldo Giacoia Jr.: 'O insuportável não é só a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido.'

    Como entender que um pai e uma madrasta possam ter ferido, estrangulado e atirado uma menininha de cinco anos pela janela? Como entender a cara sólida e cínica que eles ostentam para fingir inocência? Como não demonstram sentimento de culpa algum? Ninguém berra? Ninguém chora? Como podem querer viver depois disso? Como essa família toda - pais, mães, irmãos - se une na ocultação de um crime? Como o avô pôde dizer, com cara-de-pau, que 'se meu filho fôsse culpado eu denunciaria?' Que quer esta gente? Preservar o bom nome da família? Mas são parentes ou cúmplices? Como podem os advogados de defesa posar de gravata e terninho e cara limpa, falando de uma 'terceira pessoa'? Sei que eles responderiam: 'Todos têm direito de defesa...'. Mas como é que eles têm estômago?

    A polícia deu um show de bola pericial no caso Isabella, mas dá para sentir que nossa estrutura penal está muito defasada com este espantoso crescimento da barbárie. Como se pode tolerar que um sujeito que foi condenado na semana passada somente a 13 anos por ter esquartejado a namorada, alegando 'legítima defesa', possa ficar em liberdade 'até esgotar todos os recursos que a lei prevê', como disse o STJ? Como entender que aquele jornalista Pimenta Neves, que premeditou o assassinato da namorada com dois tiros pelas costas e na cabeça, condenado já há seis anos, esteja em liberdade ainda, na boa? E aquele garoto que matou pai e mãe nos Jardins, em São Paulo, e a família rica conseguiu esconder tudo?

    As leis de execução penal têm de ser aceleradas, as punições têm de ser mais temíveis, mais violentas, mais rápidas. Há um crescimento da crueldade acima de qualquer codificação jurídica. Esta lentidão, este arcaismo da Justiça é visível não só nos chamados 'crimes de classe média', como também na barbárie que galopa nas periferias. O Elias Maluco, lembram?, aquele que matou o Tim Lopes com golpes de espada, estava em liberdade condicional, pois a lei concede isso ao 'cidadão'. Que cidadão?

    O conceito de cidadania tem de ser revisto. Cidadania é merecimento. Surgiu na miséria do País uma raça de sub-humanos, sub-bichos que todos os dias degolam, esquartejam, botam no microondas e são 'cidadãos', 'tão ligados?'. Qual será o nome dessa coisa informe que a miséria está gerando? É uma mistura de lixo e sangue, uma nova língua de grunhidos, mais além da maldade, uma pura explosão de vingança. Não se trata mais de uma perversão do humano, mas de uma perversão do animal em nós.

    'Ah, a lei é igual para todos...', dizem os juristas de terno brilhante e bochechas contentes. Sim, tudo bem. Mas há novas formas de crime que têm de ser estudadas e antigos direitos e penas têm de ser revistos. Os pensadores da Justiça continuam a tratar os crimes como 'desvios da norma', praticados por cidadãos iguais. Tem que acabar o tempo dos casuísmos, das leniências, das chicanas. Vivemos trancados num racionalismo impotente diante desse bucho indomável da miséria, do alien que se forma como um monstro boçal nas ruas e periferias. Com o congestionamento de fatos tragicamente insolúveis, no beco sem saída da sociedade, vejo se formar um desejo crescente pelo horror, pela crueldade, quase que uma fome de catástrofe. Não falo dos analfabetos desvalidos e loucos, mas os assassinos de classe média já têm o prazer perverso de fazer o inominável.
    ....................
    ... Esse vazio da Justiça explica o sucesso de filmes como 'Tropa de Elite' e até fantasias de linchamento em todos nós. Vejam as portas da cadeia onde estavam os dois assassinos.

    E, por fim, por que tantos crimes contra as crianças? O caso do João Hélio, crianças decapitadas na Febem, crianças jogadas em pântano em Minas, crianças no lixão, aquela psicopata em Goiás que contratava meninas pobres para torturar, e mais: pedofilia, espancamentos, tudo...

    As crianças são fontes inconscientes de terror, de Heródes a Édipo e Moisés. O rei Agamenon matou sua filha Ifigênia para ter tempo bom em uma guerra. Que dizem os antropólogos dos rituais de matança de inocentes, como foi em Pedra Bonita, que ficou vermelha do sangue? Em sociedades primitivas, o sacrifício de animais e o sangue de inocentes servem para afastar doenças, prever o futuro, saciando o ódio dos deuses. Será que matam nessas crianças de hoje o horror a um futuro que não há mais?

    ...........................
    E perguntamos, horrorizados: 'Por que eles fizeram aquilo?' Resposta: 'Por nada...'.

    COMENTÁRIO: Tirando uns excessos daqui e dali dessa vez gostei da cronica do Arnaldo Jabor porque ela levanta dados sobre a violência que outros comentaristas deixaram de lado.  Pensei nos textos do argentino Arnaldo Raskovski que enfocava até a história de Édipo pelo vértice do "filicídio". Não me lembro de muita coisa senão de uma que me impressionou: o que é a "infantaria", ou seja, a parte do exército que é a primeira a ser sacrificada e que se compõe de soldados infantes quase, normalmente os filhos caçulas das famílias abastadas...


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    [Aeternus:9402] Mensagem do Grupo62
    -gustavo alcides da costa(2008-04-27)


    - RE:antígona

    Gostei do espetáculo. Conforme a Jansy acentuou, a iluminação, a marcação (difícil, com tantos atores), a ocupação dos espaços, o figurino, a trilha (incluindo aquele interessante instrumento. Artifício de artífex !) ficaram muito bons.

    O texto, em cima do mito, é brilhante, e gostaria de apreciá-lo escrito. É denso, criativo e vertiginoso, como o que já tive oportunidade de ler do Dr. Humberto. Talvez merecesse um elenco mais experiente. Às vezes tive a impressão de que não se compreendia o que se falava. Achei interessante a análise da linguagem, que permeia o texto.

    E gostei da pirâmide. Sai do óbvio das colunas e arcos, que talvez nem existissem naquele suposto período arcaico, antes das diversas invasões, jônicas, dóricas etc.

    Valeu.


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    [Aeternus:9403] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-04-28)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Vocês acha que a Mª R. Kehl também está falando como "suposto saber" que foi criticado outro dia no Calligaris??
    Eu acho que está, ela também "entra" no insconciente dos espectadores e das famílias...
    E veio mais Caso Isabella no Fantástico. O assunto parece interminável. Mas ninguém falou muito da mãe que matou ontem o filho de 8 anos (esganado/asfixiado) e sumiu... afemaria!!! Talvez a  Isabella chame a atenção não só porque é de classe média&tal... é que este crime tem misstérioooo... o que aguça as mentes. Os assassinos das outras crianças  são quase todos conhecidos, têm identidade... E a suspeita de terem sido o pai a madrasta é um rastro de pólvora a explodir na imaginação, hã?...
     
    Pais sem rumo, crianças sofridas
    Filhos não têm como se defender da displicência, dos excessos ou da irresponsabilidade dos pais
    Maria Rita Kehl
     
    No momento em que escrevo este artigo ainda não há conclusões definitivas sobre o assassinato da menina Isabella. Mas desde o primeiro dia a sociedade já havia decidido condenar o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Aos poucos a indignação popular aumentou, orquestrada inescrupulosamente pelos telejornais em disputa por audiência, até se transformar em pura sanha linchadora.
    Não me disponho a tentar explicar o que teria levado um pai e uma madrasta a assassinar, ainda que acidentalmente, uma criança, e depois livrar-se do corpo de maneira tão brutal. Fora da clínica e da transferência, o psicanalista é tão leigo quanto qualquer pessoa ante os sintomas e surtos alheios. O que a experiência clínica oferece são algumas chaves para a compreensão das condições subjetivas presentes em uma sociedade, que favorecem certas manifestações aberrantes, violentas e aparentemente incompreensíveis.
    Como entender essa torcida em massa para que o pai e a madrasta de Isabella sejam os culpados? Em primeiro lugar, penso que diante dos crimes domésticos as pessoas se sentem menos inseguras do que diante do fantasma da violência social generalizada que assola o país. "Se o crime foi cometido em família, isso é lá problema deles", pensamos, na esperança de que em nossa família essas coisas não aconteçam. Em segundo lugar, a família de Isabella pertence à mesma classe média dos consumidores de jornais e revistas, público alvo dos anunciantes da televisão. No dia 20 de abril, um menino negro de 11 anos foi morto com um tiro na cabeça na favela da Vila União, em São Paulo. Até agora, não vi a imprensa acompanhar a apuração do assassinato do pequeno Jefferson Alves, considerado desinteressante pela sociedade.
    É evidente que a figura mitológica da madrasta excita a imaginação popular. A personagem da madrasta má, nas histórias infantis, encobre o lado sombrio da mãe. É ela quem encarna o egoísmo, a rivalidade, a crueldade ou o descaso para com o sofrimento das crianças, de modo a manter a idealização da maternidade biológica e conservar a santa mãe em seu pedestal. No entanto, qualquer psicanalista sabe o quanto as mães são capazes de abusar de seus filhos, rivalizar com suas filhas, violentar a dignidade deles, desrespeitar seus direitos.
    O colunista da Folha de S. Paulo Contardo Calligaris fez uma análise interessante sobre o ciúme que algumas madrastas sentem de suas enteadas, disputando com elas o lugar de filhas de seus companheiros. Vale lembrar que a presença do (a) enteado (a) também pode reavivar os ciúmes da madrasta em relação à mulher que a precedeu. Mas nem todas as madrastas odeiam seus enteados. Conheço casos, em meu próprio consultório, em que a presença e a intervenção de madrastas generosas e sensíveis praticamente salvou a infância de filhos maltratados ou abandonados por mães imaturas, que se vingavam do ex-marido maltratando os filhos dele. Evito embarcar em uma defesa conservadora da família "de sangue" em detrimento de outras configurações familiares.
    Os crimes domésticos colocam em evidência o desamparo infantil. As crianças não têm como se defender da displicência e da irresponsabilidade dos pais, nem dos excessos de amor, de sensualidade, de ira, de gozo: pais, mães, padrastos, madrastas, avôs e avós abusam de várias maneiras, "por amor", de crianças indefesas. Neste sentido, para a criança, a família não é um ambiente tão seguro quanto se imagina. Pesquisa da Unicef sobre a violência doméstica no Brasil revela que 44,3% dos homicídios de crianças ocorrem dentro de casa, sendo 34,4% deles cometidos por parentes das vítimas. Sem contar os casos de abuso sexual, que ocupam o primeiro lugar na lista das formas de violência familiar.
    É evidente que existem famílias tranqüilas, pais e mães equilibrados e protetores. Mas a família moderna, fechada sobre si mesma, toda voltada para a produção de bem-estar, fundada nas formas mais egoístas de amor, é um canteiro propício, no mínimo, à violência psicológica. Os filhos frustram as expectativas dos pais, o amor vira moeda de barganha e chantagem mútua, a esperança de entendimento de parte a parte é freqüentemente obstruída pela culpa que cada um sente por não amar o outro tanto quanto devia.
    Apesar disso, não existe nenhuma outra instituição que a substitua. Desejamos formar família, viver em família, criar condições de convívio protetoras, agradáveis. Mas é bom lembrar que se a família, em seus moldes tradicionais, fosse um mar de rosas, Freud não teria criado a psicanálise.
    Se a criança é desamparada frente aos que cuidam dela, os adultos de hoje também se sentem desamparados no exercício de suas funções. A vida contemporânea está tão privatizada, tão indiferente a valores ligados ao bem comum, a sociedade tornou-se tão narcisista e infantilizada, que o bem-estar das crianças se tornou praticamente o único ideal dos adultos. Ser "bom pai" tornou-se a razão de viver de adultos que perderam as referências para saber tanto o que é ser "bom" quanto o que é ser "pai" (ou "mãe"). Se os filhos se tornam o único ideal de seus pais, estes não têm mais nada a lhes transmitir a não ser "seja feliz" - isto, numa sociedade em que felicidade se mede pela capacidade de consumo e diversão.
    O desamparo do adulto diante das exigências dos filhos, a quem eles próprios prometeram dar "tudo de bom e de melhor", tem resultados patéticos ou, no pior dos casos, trágicos. Algumas crianças, hiperestimuladas e excitadas, ficam cada vez mais insatisfeitas e agressivas enquanto os pais, incapazes de estabelecer limites para a farra que eles mesmos prometeram, vivem exasperados, culpados, impotentes - e às vezes, tão fora de controle quanto os pequenos. Um adulto que se vê incapaz de educar uma criança é capaz de confundir autoridade com violência, poder simbólico com coerção física.
    Vez por outra, um desses pais incapazes de colocar limites em seus filhos também corre o risco de perder os próprios limites.

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    [Aeternus:9404] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-04-28)


    - RE: sobre Maria Rita Khel / os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Não chego a ser fã absoluto da Maria Rita, mas reconheço nela ainda mais perspicácia do que no Calligaris. o que fica eivdente neste texto bem mais ponderado, informativo, até memso modesto. A frase sublinhada mostra bom-senso e respeito aos limites de quem fala e do asunto abordado. Sem que ela responda, coloca bem a questão de por que algumas (tantas) pessoas desejariam logo a certeza de que pai e madrasta seriam os culpados. Ela induz a idéia da identificação projetiva da classe média: "São eles os perversos. Nós, os outros, somos 'do bem' e expurgamos d enós quaisquer fantasias destrutivas com as quais não queremos nos identificar". Quando ela cita o caso do menino pobre, ela mostra que o possível pai assassino e madrasta-idem reais de classe média seriam os "atores perfeitos" ára os personagens perversos das fantasias destrutivas de todos que recortrem à projeção para "extirpar" o mal que identificam em si mesmos. Se não nos identificamos com as perversidades dos pobres, pretos, feios
     - deixamos eses infelizes no lugar do "outro" que não nos "atinge".
    Enfim, acho que a Maria Rita foi mais feliz do que outros na mídia porque foi comedida sem pontificar. Menos pode ser mais.

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    [Aeternus:9405] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-28)


    - RE:RE:antígona

    Guto, essa frase foi proposital? "colunas e arcos...naquele suposto período arcaico"???
    Me lembrou o fazendeiro que usava esporas nos passeios esporádicos que fazia...

    Não gostei da piramide, não sei como viviam os gregos que não eram gregos mas falavam a lingua naquela etapa da "era do bronze", se moravam como nos filmes em casarões brancos e achatados ou em barracas ou choupanas...  No entanto, uma pessoa achou que lembrava o próprio teatro nacional de Brasília, ou seja, o local onde a peça estava sendo apresentada. Achei um barato esta idéia porque ela permite que se pense em auto-referencia, do cenário dentro do cenário ao infinito... Legal ter os atores de fora no palco do teatro dentro do qual estariam, etc.  Infelizmente, acho que o que colocaram não era o teatro, era mesmo uma piramide estranha com um topo iluminado.

    Nunca sei como obter os livros do Humberto, este é ótimo de ler e tem uma capa lindíssima ainda por cima. Vou assuntar.


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    [Aeternus:9406] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-04-28)


    - RE:RE: sobre Maria Rita Khel / os psicanalistas falam quando deveriam se calar?

    Há uns vinte anos tive que pesquisar com dados de computador ao modo de antigamente ( folhas e mais folhas presas uma na outra como um rolo, com uma margem furadinha) para ver sobre projetos de profissionalização da psicanálise tramitando no congresso. Tive uma aula de como incluir adendos para paralisar algo que não se queria que fosse movimento, inventar projetos e pedir anexação para bloquear ou fazer o que já estava no ponto de ser votado ter que voltar à estaca zero.  Com relação ao que se passa com o caso Nardoni a população terá uma chance de ver como a polícia se promove, como os peritos se acautelam ou não se acautelam, como todo o dinheirão do povo pode ser investido de modo espúrio que rende show pra televisão, e como no final a coisa acabará em pizza beneficiando-se não sei quem ( duvido que tenham interesse especial em culpar ou absolver o casal, mas parece que as coisas se encaminham neste sendio "manifesto") 

    Omar perguntou-se sobre o menino de oito anos que foi esganado pela mãe maluca que está foragida, se é que não se suicidou, sobre o silencio parcial da mídia.  Teve a garota numa cidade satélite de Brasilia, nove anos e estuprada e morta por familiares próximos. E, como estes, diariamente há casos que não alcançam a mídia.

    Gallego opina favoravelmente quanto a Maria Rita Kehl e pode ser que ela seja "ainda mais perspicaz que o Calligaris". Lá sei, não tive paciência de ler e recebi cópia do extinto CDracula e do Omar, ao mesmo tempo. Não agüento mais as notícias sobre o caso. Talvez daqui a um mes consiga refletir novamente.  Gostei da suposição do Gallego de que o povo estaria curtindo bancar detetive. Aprendendo como burlar a lei, talvez. Como cometer crimes perfeitos? Como escapar pelos meandros dos falsos e verdadeiros testemunhos, mecher nas provas, obter isenções? Os casos do Poirot, do Sherlock, de todos os detetives que conheço são menos burocráticos...

    Estou brava com tudo? Menos com os amigos, mas acho que está saindo faísca pra todo canto. É que ainda por cima estou sem computador com internet em casa e tenho que escrever correndo, pensar depressa, sentir superficialmente... e tenho necessidade do computador, mas com vários recursos à mão nenhum deles combinam ( não consigo extrair um trabalho do computador sem internet que precisa ter agora cedo na mão)


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    [Aeternus:9408] Mensagem do Grupo62
    -rafael falcao(2008-04-28)


    - mais um apelido

    sou meio bobinha com sites e comandos. Num computador acesso a lista como jansy, em outro como dorazander (minha mãe) e neste sou meu neto Rafael e espero que em breve ele mesmo possa participar ( peguei carona no computador dele agora)  Podia tudo ficar como jansy, mas cada registro estranha quando quero fazer login e não sei ir por outro caminho...

    este mundo eletronico me deixa a cada dia mais perplexa e impotente. A maior parte das transações são hoje via máquinas e já perdi minhas senhas na maioria dos casos. Banco, imposto... tudo via internet. De algum modo estamos na mão dos controladores dos sistemas, das telefonicas e do escambau. Me atrapalhei para viajar pro exterior porque tinha "bilhete físico" ( não é o espiritual, incorpóreo da internet), perdi lugar nas filas, peguei assentos ruins.  Que desanimo.


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    [Aeternus:9409] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-04-28)


    - RE:mais um apelido

    Rafael, quero dizer, Dora, ou melhor Jansy ...

    Não pude deixar de rir de seu desabafo, além de sentir uma pitada de ternura ...


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    [Aeternus:9418] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-04)


    - Babel e Asperger

    Por acaso assisti ontem os últimos capítulos do filme BABEL, que abandonei no meio no telão do cinema porque achei insuportável a crueldade do diretor para com o espectador. Na televisão ficou mais fácil ir até o final, também porque o tempo me ajudou a me distanciar das dores da história. O que notei foi algo elementar: os mais bem instalados na vida acabam se dando bem e os marginalizados são destruídos. O filme tem como eixo um rifle Winchester ( um tiro que parte de um Winchester dado por duas crianças atinge uma turista viajando para o sul de Marrocos; ela é mãe de duas crianças perdidas num deserto semelhante, mas nos EEUU, na fronteira com o México e, no Japão, uma menina sofre com o suicídio da mãe e o pai dela, caçador, deu o rifle para o pai dos dois meninos marroquinos).Quem  se ferra? A babá, imigrante ilegal, que cuida dos dois filhos do casal americano. Um dos meninos marroquinos que morre, seu irmão e seu pai que sobrevivem. A japonezinha está ferrada de cara e é quase "incidental" na trama, embora uma das partes melhores e mais bem feitas do filme.

    Continuo lendo sobre Asperger. Depois do livro de Robinson "Olhe nos Meus Olhos", passei para "Nascido num Dia  Azul" de Daniel Tammet. Ambos tem na capa um menino ruivinho e sardento, não sei porque motivo editorial ( não posso ver agora se aeditora e o diagramador são os mesmos).  Um dos contos do Nabokov que venho estudando ( estou traduzindo para o Gallego e colocarei depois aqui na lista) trata de uma criança que, a meu ver, é Asperger. Muito triste a história toda.

    Neste, do Tammet, há um final descrevendo uma epifania que se segue a uma citação de uma epístola de São Paulo aos Coríntians, quando o rapaz explica porque se tornou cristão. A inspiração dele adveio de Chesterton. Interessante, pra mim bem particularmente: a frase de São Paulo é minha favorita ( termina falando de fé, esperança e caridade) e Chesterton é quem me deu a imagem do "Real" como diferente da gosma nauseante de Sartre. Chesterton escreveu (citado pelo Tammet, que opina sobre ter sido Chesterton também alguém com um grau moderado desta forma de autismo) que "a aquosidade espantosa da água me entusiasma e intoxica. O fogoso do fogo, o acerado do aço, o inexprimível lamacento da lama"...

    No romance " O Homem que era Quinta Feira" ( nem lembro do enredo) surge um balão sorridente no final e é este sorriso a mais no mundo que me surpreende nas horas mais difíceis: o deste balão de Chesterton.  Quando atendi, nos anos oitenta, um rapaz que sofria de uma forma semelhante de "loucura", supuz que ele sofria de uma falha no corpo caloso porque os hemisférios cerebrais dele não "conversavam um com o outro" ( o texto está no Aeternus, aliás são dois com nomes diferentes para o rapaz: Sem Memória, Sem Tempo e Sem Dualidade e Espelhamentos) e o modelo do personagem do filme Rain Man, com Dustin Hoffman,Kim Peek nasceu com uma falha assim, tinha uma bolha d' água no cérebro que comprometeu o hemisfério cerebral esquerdo.

    Assim, com um breve noticiário, por aqui fico...


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    [Aeternus:9419] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-05-04)


    - RE:Babel : duas pinceladas

     Ao contrário do repúdio que Jansy sente pelo mal-estar em 'Babel', certamente o coloco entre meus 10/200 melhores de todos os tempos.Mesmo que os 200 tivessem que ser 10...

    E o casal 20 - Brado Pitto/Super Cate Blanchett - igualmente se ferra no dramalhão nosso de cada dia...

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    [Aeternus:9420] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-04)


    - RE:RE:Babel : duas pinceladas

    Exatamente, Florião, o casal americano também se ferra. E faz parte do cenário geral que mostra todo mundo ferrado. O sobrinho da babá, os guardas na fronteira, as duas crianças traumatizadas pela festa e pelo deserto, os meninos atiradores e sua família, a japonezinha e o pai e a mãe e o policial.  O filme é de uma crueldade e pessimismo ímpar. Só que o que destaquei era que, em cima da tragédia da vida de cada um, havia uma segunda tragédia ligada ao rifle Winchester, e que nesta linha os ferrados eram os marginalizados, a introdução da arma mudou a tragédia comum das suas vidas em uma tragédia inusitada. 

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    [Aeternus:9421] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-04)


    - Signs and Symbols, Vladimir Nabokov

    Vladimir Nabokov, "Signs and Symbols" ( 1948)
    SINAIS E SIMBOLOS, tradução não-autorizada, esboçada exclusivamente para o Aeternus.
     
     
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    Pela quarta vez, em uma quantidade equivalente de anos, eles estavam diante de um problema sobre qual presente de aniversário escolheriam para um jovem incuravelmente perturbado na razão. Ele não tinha desejos. Os objetos manufaturados eram colméias do mal, vibrantes de uma atividade maligna que só ele era capaz de perceber ou, então, eram comfortos grosseiros para os quais não via aplicação alguma em seu mundo abstrato. Depois de eliminar uma série de produtos que poderiam ofender ou assustá-lo ( qualquer coisa na linha dos gadgets, por exemplo, era tabu), seus pais escolheram uma bobagenzinha inocente e graciosa: uma cesta com dez tipos diferentes de gelatina de fruta acondicionadas em dez pequenos jarros.
    Na ocasião do seu nascimento eles já eram casados por um período avançado de tempo; uma porção de anos se passou e agora eles eram  bem velhos. Seu cabelo mole e  cizento era arrumado de qualquer jeito. Ela usava roupas pretas e baratas. Diferente das outras mulheres da mesma idade (como a Sra. Sol, sua vizinha de porta, cujo rosto era todo rosa e malva de pintura facial e seu chapéu era um cacho de flores lacustres), ela expunha sua face à luz crítica dos dias primaveris. Seu marido, e que no velho continente havia sido um homem de negócios razoavelmente bem sucedido, ficara totalmente dependente do irmão Isaac, um americano de verdade faziam quase quarenta anos. Eles o viam raramente e o apelidaram de "o Principe".
    Naquela sexta-feira tudo deu errado. O meterô perdeu a corrente de vida entre duas estações e, por um quarto de hora, não se ouvia nada senão a batida comportada do coração e o sussurro das folhas de jornal.  O onibus que precisavam tomar em seguida os deixou um tempão à espera e, quando chegou, vinha lotado de escolares tagarelas.  Chovia forte quando ambos subiram caminhando a ladeira marrom que conduzia à clínica.  Ali esperaram mais uma vez; e, em vez do filho se arrastando para a sala como de hábito ( seu pobre rosto coberto de acne, mal barbeado, emburrado, confuso), uma enfermeira que conheciam, e de quem não gostavam, finalmente apareceu e, alegremente, explicou que ele tinha novamente tentado o suicídio. Ele estava bem, disse, mas a visita poderia perturbá-lo. O local era tão mal administrado e os objetos acabavam sendo facilmente misturados e mesmo perdido e por isso eles decidiram não deixar o presente no escritório, e levá-lo para o rapaz na próxima visita.
    Ela esperou seu marido abrir o guarda-chuva e então segurou-lhe o braço. Ele pigarreava de modo especialmente barulhento, como seu costume quando se sentia perturbado. Alcançaram  a cobertura da parada do onibus do lado oposto da rua e ele fechou o guarda-chuva. Alguns passos adiante, sobre uma árvore respingante e tangida pelo vento, um filhote de ave estrebuchava numa poça d' água. 
    Durante o longo percurso até a estação do metrô, ela e o marido não trocaram palavra;  toda vez que ela olhava para suas velhas mãos (veias inchadas, pele marcada de manchas marrons), estrebuchante e agarrada à alça do guarda-chuva, ela sentia uma pressão crescente de lágrimas. Quando olhou em volta para enganchar sua mente em algo diferente, ela  sentiu um choque suave, uma mistura de compaixão e surpresa, ao notar que uma das passageiras, uma menina de cabelo escuro e unhas vermelhas e sujas no dedão do pé, estava chorando no ombro de uma mulher mais idosa. Com quem se parecia ela? Ela se parecia com Rebecca Borisovna, cuja filha havia casado com um dos Soloveichicks - em Minsk, faziam anos. 
    Da última vez em que ele o havia tentado seu método tinha sido, nas palavras do médico, uma obra prima de inventividade; ele teria sido bem sucedido se um outro paciente invejoso não tivesse acreditado que ele estava conseguindo voar - e o segurado. O que ele realmente queria conseguir era fazer um buraco no seu mundo e escapar.
    O sistema dos seus delírios havia sido assunto de um artigo elaborado numa revista mensal científica, mas muito antes ela e o marido havia decifrado aquilo sozinhos. "Mania referencial" era o nome que Herman Brink deu a este quadro. Nestes casos, bem raros, o paciente imagina que tudo que acontece a sua volta é uma referencia velada a sua personalidade e existencia. Ele exclui pessoas reais da conspiração - porque se considera muito mais inteligente do que os outros homens.  A natureza fenomenica rastreava seus passos por onde quer que ele fosse. As nuvens no céu arregalado transmitiam umas às outras, por meio de lentos sinais, informações incrivelmente detalhadas a seu respeito. Seus pensamentos mais íntimos eram discutidos ao cair da tarde, num alfabeto manual por obscuras arvores gesticulantes. Seixos, manchas ou marcas do sol formavam padrões que representavam terríveis mensagens que ele precisava interceptar. Tudo era uma cifra e de tudo era ele o tema. Alguns dos espiões eram observadores neutros, como a superfície das vidraças e poças de aguas paradas; outros, como os casacos expostos numa vitrine, eram testemunhas preconceituosas, no fundo, linchadoras; outras novamente ( água corrente, tempestades) era histéricas até o ponto da insanidade, tinham uma opinião distorcida sobre ele e interpretavam grotescamente errado  todos os seus atos.  Ele precisava permanecer em guarda sempre e devotar cada minuto e módulo da vida para decodificar a ondulação das coisas. O próprio ar que exala será indexado e arquivado. Se apenas o interesse que provocasse estivesse limitado ao seu ambiente imediato - mas, alas, não era! Com a distancia as torrentes selvagens de escandalo aumentavam de volume e volubilidade. As silhuetas dos corpúsculos sanguíneos ficavam mil vezes amplidas, flutuando sobre vastas planícies; e ainda mais longe, enormes montanhas, de solidez e altura insuportáveis, resumiam, nos termos do granito e os grunhidos dos pinheirais, a verdade última sobre o seu ser."
     
    Parte 2
     
    Quando eles emergiram dos trovejares e ares poluídos do metrô, as sobras do dia vinham misturadas às luzes da rua.  Ela queria comprar um pouco de peixe para o jantar e entregou-lhe a cesta com as jarras de gelatina dizendo-lhe que seguisse direto para casa.  Ele subiu até o terceiro andar e então lembrou que, mais cedo, dera-lhe as chaves.
    Sentou-se nas escadas em silêncio e em silêncio se levantou quando, mais ou menos dez minutos mais tarde, ela chegou, arrastando-se pesadamente pelas escadas, rindo amarelo, balançando a cabeça como se pedindo desculpas pela tolice. Entraram no apartamento de dois comodos e ele imediatamente se dirigiu ao espelho. Repuxando os cantos da boa com os polegares, com uma careta horrível de máscara, removeu a incomoda dentadura nova e cortou os chifres compridos da saliva que ainda o ligavam a esta. Leu seu jornal em língua russa enquanto ela punha a mesa.  Ainda lendo, comeu os alimentos pálidos que não requeriam dentes. Ela conhecia seus humores e peremaneceu silenciosa.
    Quando ele foi para a cama, ela continuou na sala segurando um baralho de cartas manchadas e velhos albuns de fotografias. Através do quintal estreito onde a chuva tilintava no escuro contra latas de lixo amassadas, janelas mansamente claras mostraram-lhe  um homem de calças pretas, cotovelos nus erguidos e deitado sobre uma cama em desalinho. Ela fechou as persianas e examinou as fotos. O rostinho dele estampava mais surpresa do que o da maioria dos bebês. De uma dobra no album escorregou para fora a empregada alemã que tinham tido em Leipzig e mais o noivo de rosto gorducho. Minsk, a Revolução, Leipzig, Berlin, Leipzig, a frente inclinada de uma casa fora de foco. Quatro anos de idade, num parque: timidamente, temperamentalmente, de testa franzida, desviava o olhar de um esquilo ansioso, como o faria também diante de qualquer estranho. Tia Rosa, uma velhota angular, bisbilhoteira, de olhos esgazeados, que vivera num mundo tremulante de más notícias, falências, acidentes de trem, tumores  - até que os alemães a mandaram para a morte, junto a toda aquela gente que lhe causara tantas preocupações. Seis anos de idade -  esta foi a época em que ele desenhou maravilhosos passaros com pés e mãos humanas, e começou a ter insonia como qualquer adulto. Seu primo, agora um jogador de xadrês famoso.  Ele novamente, mais ou menos aos oito anos, já criança difícil de entender, tinha medo do papel de parede no corredor, medo de uma cert imagem num livro que apenas mostrava uma paisagem idilica com rochas na colina e um velho carrinho pendurado nos galhos de uma árvore sem folhas. Aos dez anos: o ano em que deixaram a Europa. A vergonha, a pena, humilhações e dificuldades, crianças cruéis, feias e atrasadas com as quais havia sido colocado naquela escola especial. E então chegou uma época na sua vida, coincidindo com a longa convalescença de pneumonia quando aquelas pequenas fobias, que seus pais teimosamente consideravam como excentricidades de uma criança prodigiosamente bem dotada, pareceram ter congelado num emaranhado de ilusões que interagiam logicamente, fazendo com que ele se tornasse totalmente ineccessível às mentes normais. 
    Isto, e muito mais, ela aceitou - pois afinal de contas viver significava perder uma alegria atrás da outra, no caso dela nem mesmo alegrias - meras chances de melhora.  Ela pensou nas intermináveis ondas de dor que, por uma razão ou outra, ela e o marido tiveram de suportar; dos gigantes invisíveis que feriam seu filho de uma forma impossível de imaginar; da quantidade incalculável de ternura contida no mundo; do destino dessa ternura, ser esmagada, gasta ou transformada em loucura; das crianças negligenciadas murmurando consigo mesmas por cantos mal-varridos; do belo mato que não consegue esconder-se do fazendeiro e impotentemente observa a sombra de sua corcunda simiesca ao passar  largar atrás de si flores retorcidas enquanto se aproxima a monstruosa treva.
     
    Parte 2
     
    Quando eles emergiram dos trovejares e ares poluídos do metrô, as sobras do dia vinham misturadas às luzes da rua.  Ela queria comprar um pouco de peixe para o jantar e entregou-lhe a cesta com as jarras de gelatina dizendo-lhe que seguisse direto para casa.  Ele subiu até o terceiro andar e então lembrou que, mais cedo, dera-lhe as chaves.
    Sentou-se nas escadas em silêncio e em silêncio se levantou quando, mais ou menos dez minutos mais tarde, ela chegou, arrastando-se pesadamente pelas escadas, rindo amarelo, balançando a cabeça como se pedindo desculpas pela tolice. Entraram no apartamento de dois comodos e ele imediatamente se dirigiu ao espelho. Repuxando os cantos da boa com os polegares, com uma careta horrível de máscara, removeu a incomoda dentadura nova e cortou os chifres compridos da saliva que ainda o ligavam a esta. Leu seu jornal em língua russa enquanto ela punha a mesa.  Ainda lendo, comeu os alimentos pálidos que não requeriam dentes. Ela conhecia seus humores e peremaneceu silenciosa.
    Quando ele foi para a cama, ela continuou na sala segurando um baralho de cartas manchadas e velhos albuns de fotografias. Através do quintal estreito onde a chuva tilintava no escuro contra latas de lixo amassadas, janelas mansamente claras mostraram-lhe  um homem de calças pretas, cotovelos nus erguidos e deitado sobre uma cama em desalinho. Ela fechou as persianas e examinou as fotos. O rostinho dele estampava mais surpresa do que o da maioria dos bebês. De uma dobra no album escorregou para fora a empregada alemã que tinham tido em Leipzig e mais o noivo de rosto gorducho. Minsk, a Revolução, Leipzig, Berlin, Leipzig, a frente inclinada de uma casa fora de foco. Quatro anos de idade, num parque: timidamente, temperamentalmente, de testa franzida, desviava o olhar de um esquilo ansioso, como o faria também diante de qualquer estranho. Tia Rosa, uma velhota angular, bisbilhoteira, de olhos esgazeados, que vivera num mundo tremulante de más notícias, falências, acidentes de trem, tumores  - até que os alemães a mandaram para a morte, junto a toda aquela gente que lhe causara tantas preocupações. Seis anos de idade -  esta foi a época em que ele desenhou maravilhosos passaros com pés e mãos humanas, e começou a ter insonia como qualquer adulto. Seu primo, agora um jogador de xadrês famoso.  Ele novamente, mais ou menos aos oito anos, já criança difícil de entender, tinha medo do papel de parede no corredor, medo de uma cert imagem num livro que apenas mostrava uma paisagem idilica com rochas na colina e um velho carrinho pendurado nos galhos de uma árvore sem folhas. Aos dez anos: o ano em que deixaram a Europa. A vergonha, a pena, humilhações e dificuldades, crianças cruéis, feias e atrasadas com as quais havia sido colocado naquela escola especial. E então chegou uma época na sua vida, coincidindo com a longa convalescença de pneumonia quando aquelas pequenas fobias, que seus pais teimosamente consideravam como excentricidades de uma criança prodigiosamente bem dotada, pareceram ter congelado num emaranhado de ilusões que interagiam logicamente, fazendo com que ele se tornasse totalmente ineccessível às mentes normais. 
    Isto, e muito mais, ela aceitou - pois afinal de contas viver significava perder uma alegria atrás da outra, no caso dela nem mesmo alegrias - meras chances de melhora.  Ela pensou nas intermináveis ondas de dor que, por uma razão ou outra, ela e o marido tiveram de suportar; dos gigantes invisíveis que feriam seu filho de uma forma impossível de imaginar; da quantidade incalculável de ternura contida no mundo; do destino dessa ternura, ser esmagada, gasta ou transformada em loucura; das crianças negligenciadas murmurando consigo mesmas por cantos mal-varridos; do belo mato que não consegue esconder-se do fazendeiro e impotentemente observa a sombra de sua corcunda simiesca ao passar  largar atrás de si flores retorcidas enquanto se aproxima a monstruosa treva.
     

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    [Aeternus:9422] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-05-05)


    - RE: de rasgos e saltos

    Ao final de 'La Dolce Vita' (Fellini/1960),após varar a madrugada de uma longa noite de loucuras e a purgar tédio e vazio travestidos em 'diversão', o personagem central (Marcello Mastroianni)arrasta-se por uma praia, onde ao longe estranhos se deparam com um escuro monstro marinho.Ele se aproxima, e tenta ouvir o que lhe diz uma menina lourinha, do outro lado de uma pequena duna dividida pelo mar.Sonolento e atrapalhado pela ruidagem natural local, não a entende.
    Anos após, em 'L'Intervista'(1987), também ao término do filme, Fellini se reporta ao pedido dos produtores de dar um final com alguma esperança, 'al meno un raggio di sole'...

    Vejo vários realizadores de ponta atuais situados do lado de cá da duna, já para além do desespero.É o discurso de Michel Haneke, de quem comentamos o mal-estar habitual; do Altman de 'Short Cuts' e de Paul-Thomas Anderson na mesma LA, em 'Magnólias', com direito a tempestade bíblica de rãs e tudo;de praticamente tudo o que fizeram os Coen; e da trilogia Iñárritu/Arriaga, 'Amores Perros'/'21 Grams'/'Babel'.

    Já nem se trata mais de um salto no vazio : este já foi dado...
    Se anos atrás era possível um mergulho simpático no desespero e no abismo - vide 'Die Venusfalle'('A Cilada de Vênus'/Robert Van Ackeren/1988), onde um psiquiatra berlinense vaga pela madrugada trabalhando com potenciais suicidas - agora é cada vez mais comum esse discurso transpassado.

    Em 'Babel' os saltos são bem terrenos, não há nem vazio.
    Um caos especial, bem embalado, a tudo recheia.Arriaga/Iñárritu trabalham no rasgo, no défaut, no lugar onde o pacote vai rasgar...
    Na California-mexican style este se dá numa mera fiesta, onde a desgraçada encorpada (Adriana Barraza)babá tenta se divertir um pouquinho, enquanto os patrões viajam; nas areias marroquinas, através de um tiro brincalhão de um menino com um rifle ; no Japão das profundezas da solidão de uma adolescente surda-muda.
    O salto da babá chafurda no deserto, após a fuga desenfreada com seu filho Santiago(Gael Garcia Bernal), fugindo do xerife de fronteira com a imigrante ilegal;o do casal a elaborar seu vazio numa humilde habitação onde a esposa agoniza, baleada, numa vinheta que alude claramente a 'The Sheltering Sky'(Bernardo Bertolucci/1990);e o (possível)da adolescente, do alto de um prédio onde vemos uma cidade com aspecto bem ao gosto atual oriental, similar a um grande placar eletroeletrônico, cheio de luzes e telas e da mesma forma que Wong Kar Wai termina seu '2046'.
    Em Paul Bowles(autor do romance) e na adaptação de Bertolucci, a abordagem do vazio era bastante existencialista, aberta.Havia um belo contraste entre o huis clos dos personagens e a imensidão das dunas e do céu.

    Nunca vi uma propaganda ser usada de modo tão perfeito como a latinha de coca no deserto e os helicópteros saviors dos nossos maravilhosos e atenciosos planos de saúde, como em 'Babel' : nada melhor que eles para o Titanic existencial ali...
    O planeta gemeu, começou a ser destruído, continua a ser destruído e a gemer, e talvez não mais seja possível a espécie retornar a uma vida saudável.A não ser em nichos muito protegidos - e contando com uma boa dose de sorte, claro ! - a vida segue.
    Talvez o céu não mais nos proteja, como quer Sloterdijk - 'privado de seu destino, o indivíduo faz uma experimentação fatal consigo mesmo'.
    Em 'Fargo', ao menos a simpática xereifeta-xereta caipira salvava sua pele, né ?...
    E la nave va.



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    [Aeternus:9423] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-05)


    - RE:RE: de rasgos e saltos

    Então, Florião... concordo com esta bela descrição crítica: " pugar o tédio e vazio travestidos em 'diversão' " e sua observação, com dados enumerados comprovando dramaticamente a mudança no tipo de desanimo e pessimismo que vai desde o vazio existencial até esse outro, sem nome, da atualidade.

    Pelo menos do outro lado de uma duna dividida pelo mar havia uma menina que olhava para ele sem ser tocada pela devassidão, protegida pelo mar e pela distancia. A vida acabava para ele, a dela começava...

    Acompanhando as interpretações sobre o conto "Signos e Simbolos" do Nabokov me surpreendi de notar que todos são unanimes em achar a história triste - quando eu não penso da mesma maneira (embora não tenha como não concordar com a tristeza e a pilha de pequenas catástrofes.)  O recado grave por trás de tudo é algo na linha do "homo homini lupus" ( há uma escuridão final que engolfará a humanidade inteira que ainda permanece troglodita apesar de toda "evolução" e que se representou, para o casal idoso, com o exílio forçado por Hitler), mas esse recado gravíssimo do fundo está no Freud ( Considerações sobre a Guerra e a Morte) e diáriamente nos jornais anunciando os degelos no ártico, as secas e as tempestades súbitas com vítimas, a proliferação das algas marinhas). Um problema com a espécie humana e não com os indivíduos, um a um vivendo suas tragédias horríveis ( e, ao ser destruída a espécie, não é assim que cada um morre? Um por um e sozinho sempre?) 

    No entanto, enquanto o fim do mundo ainda não chegou totalmente nem surgiram todos os sinais do apocalipse... há sempre uma menina lourinha ou escurinha que se distancia do mundo da "diversão" e contempla as multidões como contemplaria uma manada de rinocerontes no seu horizonte. Ainda há recomeços?

    Na história do Nabok vejo como o velho ignora a companheira ( ela se assusta com o telefonema noturno e ele, sorridente, continua monologando sobre seus projetos mirabolantes de tirar o garoto da clínica) e noto como ela guarda sua capacidade de compaixão, se engaja em pequenas rotinas ternas, rememora, prepara chás ( festivos!). Até o velhote, que para ler em ingles precisa mecher os lábios, curte o colorido das geléias como se fosse o filho ( caso este último tivesse acesso às "correspondencias baudelairianas das árvores em vez de sofrer de paranóia e perder pequenos momentos de beleza). A velhice é cansativa, triste para todo mundo, ainda mais com doenças e dores...mas mesmo assim tem um raio de sol ou outro pra maioria.

    A crueldade humana, a irresponsabilidade...Generais ordenando um ataque sem sentido que sacrificará desnecessáriamente a infantaria e o que vem atrás dela. Fanáticos se explodindo daqui e dali. Comerciantes bem vistos na comunidade que sequestram a própria filha e mantém os filhos-netos longe da luz do sol e obrigados a andar curvados...Frio, fome, doença, dores e... ainda assim... a gente continua e às vezes se comunica, às vezes sorri e canta...


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    [Aeternus:9424] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-05-05)


    - RE:RE:RE: de rasgos e saltos

    Jansy, sua descrição me levou às lágrimas ...

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    [Aeternus:9425] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-05-05)


    - RE:RE:RE: de rasgos e saltos

    Adorei o velhinho que lê inglês mexendo os lábios.
    Esses tipos&figurações que surgem do estalo criativo do autor são deliciosos, como no mesmo Nab o sujeito que diz que seu dentista não entendia o que ele alegava quando afirmava que 'sua dentadura não acompanhava seu sorriso'.

    Em 'The Upstart'(Piers Paul Read/'O Oportunista'), um personagem veste um terno tão sebento e imundo 'que serve de segura e confortável morada para inúmeras espécies de bacilos'...

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    [Aeternus:9426] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-06)


    - Gerard Manley Hopkins

    Spring and Fall, to a Young Child

    Margaret, are you grieving
    Over Goldengrove unleaving?
    Leaves, like the things of man, you
    With your fresh thoughts care for, can you?
    Ah! as the heart grows older
    It will come to such sights colder
    By and by, nor spare a sigh
    Though worlds of wanwood leafmeal lie;
    And yet you will weep and know why.
    Now no matter, child, the name:
    Sorrow's springs are the same.
    Nor mouth had, no nor mind, expressed
    What heart heard of, ghost guessed:
    It is the blight man was born for,
    It is Margaret you mourn for.

         Gerard Manley Hopkins

    Margaret, você lamenta o lento desfolhar-se
    Do bosque outonal, folhas como as coisas do mundo 
    Humano, tomam conta de você e dos seus pensamentos, 
    Causam-lhe dores e cuidados?
    Ah,  quando envelhece o coração ele se torna
    Indiferente aos tombos deste tipo nem um suspiro 
    Nascerá diante da paisagem se consumindo no tempo.
    Ainda assim você se lamentará, sabendo por quê.
    Hoje não importa, menina, o nome
    As fontes da tristeza são,no fundo,as mesmas. 
    Nem a mente ou a fala expressam o que o coração
    Adivinhou assombrando por fantasmas.
    O homem foi feito para ser destruído.
    Você chora por Margaret.

    É um poema forte, dolorido e que tem por trás a crença forte dos jesuítas que apostam no abandono do mundo sensorial, dos neoplatonicos e seguidores de Duns Scotus para chegarem ao mundo da razão clara e da fé.

    Interessante notar que tanto Freud, como Bion, acreditavam apenas que a razão afataria o mundo do caos, como se as emoções e sensações fossem uma etapa primitiva do pensamento, uma fase perigosa porque poderia se contrapor ao próprio pensamento para o qual seriam o prenúncio...

     


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    [Aeternus:9431] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-05-08)


    - Tabucchi e Calligaris

    É até covardia, mas não aconteceu propositalmente. Comprei dois livros há alguns dias, de italianos interneacionais: o do Calligaris, um romance chamado "O Conto de Amor", com a orelha do livro elogiosa e o do Antoni Tabucchi, "Está ficando tarde demais".  Dele, tinha lido apenas "Noturno Indiano" que tem passagens pela Africa, India, Fernando Pessoa.

    Em pouco tempo dei conta do conto do Calligaris.Vai ver que é bom. Achei pobre, embora pudesse ler todinho sem tédio. As culminancias sexuais eram duas ou tres e sempre descritas da mesma forma, algo mais ou menos assim: "penetrei nela e era como entrar em casa". O resto tinha algum estilo, algum sentimento verdadeiro e muita crosta. Já o Tabucchi, esse tem que ser lido devagar e devagar, com o coração na mão.

    Quando tinha dezessete anos gostava de ver minha professora de inglês, no Colégio Bennett, enquanto  se encaminhava para a sala de aula.  Dona Dina Venâncio. Feinha, feinha. Quando se acomodava sobre a mesa como se assentada numa poltrona confortável então víamos os pés brancos, de unhas mal-tratadas, se movendo nos vãos da sandália anabela,  e evitávamos ficar por perto porque cuspia ao falar. E ela, dona Dina, não era só feinha. Era lindinha, lindinha. Andava em nuvens rindo sozinha, partilhando conosco o que a fizera sorrir ( podia ser anúncio de meias de nylon ou catálogos de flores, não apenas Shelley ou Shakespeare).Eu a achava tão maravilhosa que desejei, um dia, ser como ela. Dizem que são os primeiros anos de infancia aqueles que nos formam e enformam. Vai ver que é assim. De algum modo, no entanto, deve ter soprado algum geniozinho na hora em que formulei meu desejo que acabei me transformando um pouco na dona Dina. Rindo à toa das besteirinhas da vida, de olho atento pra não perder nem festa de casamento nem erro de ortografia  ( ela, não eu) enquanto segue contentinha com o dia a dia... 


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    [Aeternus:9433] Mensagem do Grupo62
    -jansy berndt de souza mello(2008-05-09)


    - Hopkins

    Há uns dias coloquei um poema de Hopkins, dos primeiros, no site e tropecei na tradução ( sempre impossível se não ousamos recriar e colocamos o original ao lado para ser lido mesmo quando muuuuito difícil). Eu sabia que havia traduções, nem lembrava que tinha comprado as de Augusto de Campos, e que hoje apareceu nos meus guardados sem ter sido, sequer, aberta ( na época eu estava mais voltada para suas traduções do Rilke)

    Ele cita Jean-George Ritz "Traduire Hopkins! Impossible gageure!". É.
    Ele cita Gardner que compara Hopkins a "um jesuíta-Jekyll e um hedonista-Hyde"  ("dá à sua experiência espiritual um condimento de realidade e contretude raramente encontrável na poesia mística e religiosa de todos os tempos")

    É esta a dimensão que me fascina em Hopkins. A aliança entre a materialidade e o espiritual, entre o carnal e o metafísico, a "transubstanciação" em significante e emoção do que não se pode expressar em límpida lógica.  É claro que, para se ler um poema, é preciso estranhar palavras familiares. Como quando depois de uns quarenta anos caiu a ficha para a frase do Shelley: "So sad, so strange the days that are no more". A palavra "strange" sempre entrou no som do esse de so sad so strange...e não estranhei o estranhamento que ela continha. Os dias que não são mais, o passado... são não apenas tristíssimos, mas estranhos...muito estranhos... a um ponto tal que evocam um movimento de retomada do presente com um cordão finíssimo ligado a eles, como se a própria estranheza recriasse a vivência familiar de um presente.  Hoje, no Hopkins, só na tradução pude sentir profundamente algo que me escapava: a intuição dos ribombares dos mares mesmo quando não ouvimos seu movimento, marulho ou barulho. Quem anda pelo Rio está sempre consciente, mesmo sem saber exatamente, de uma presença marinha no ar e no ouvido e na luz.  Então, eis o Hopkins e o Augusto de Campos:

    And out of the swing of the sea.........Longe, o clamor do mar.

    Para ler em voz alta:

    Vi de manhã o dom do dia em seu jar-
    dim diáfano, delfim de luz, Falcão dia-dilúcido-dourado, cavalgando
    O rio-solante - sob seu ser - raro ar, e já se alçando
    Mais alto, como revoou com rédea de asa a ondear
    No seu êxtase!

    Antes de dormir, ontem à noite, estava pensando no falso-self que, só ele, permite a pertencença a uma cultura sem que se tenha que renunciar a muita coisa ( exceto à alma, claro). As pessoas raramente se comunicam a fundo e nem devem porque é, quase sempre, traumático e só não dá mais sofrimento quando termina em ilusão de amor ( o erótico como resistência no sentido analítico da variante sobre transferência) .O ideal é trocar receitas e notícias sobre futebol, fingir que aceita as idéias dos outros sem buscar entender a fundo o que estão dizendo... Até mesmo no divã é difícil entender a fundo...Até quando se entende o pensamento oculto sobre a fala manifesta, ainda assim isto não é o que digo por "entender a fundo". Tem a ver com o que escrevi acima, sobre supor que entendia a palavra "estranho" antes de assustar-me e estranhá-la, ou entendia "longe, o clamor do mar" sem sentir como, realmente, é possível haver inaudível e longe uma espécie de clamor do mar...

    (Hopkins em outro tom)
    Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio
    A estrangeiros...

    Diferente de A.Campos, despreocupada com tom e sobre-tom, sugiro:
    Assemelhado ao estrangeiro na sina e na vida
    Entre estranhos...


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    [Aeternus:9436] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-05-09)


    - RE: Calligaris

    Tive cuidado pra avaliar o romance de estréia do Calliga.
    Cuidado pra não deixar o juízo esmorecer: Contardo tem, na 'Folha', uma abordagem generosa, carinhosa com as obras que comenta, que quase me fez cair na indulgência de ignorar os problemas de seu livro.
    1º, alguns elogios. 'O conto do amor' se enquadra num tipo de literatura, que busca misturar sofisticação narrativa com entretenimento – penso que um bocadinho como o estilo do Auster, hã??
    A premissa é interessante: um analista investiga o passado do pai, que pensava ter sido, noutra vida, o ajudante de um pintor renascentista. O problema é que ele espelha também alguns dos defeitos de Paul Auster, como o narrador em 1ª pessoa que escreve de uma maneira vezenquando folhetinesca demaaaaaaaaaaissss, preparando o leitor pro clímax num suspense semvergonha, e, problema muito mais grave, a fé inabalável na força do acaso. Como em alguns livros do norte-americano ('Palácio da Lua', né?), o puzzle da trama é resolvido com uma sequência absurda de coincidências, e torna o desfecho da história irritante...

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    [Aeternus:9437] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-05-09)


    - RE:de acasos

    Curiosa essa tendência em autores de ponta a valorizar o acaso...
    Baudrillard dedica boa parte de seu imenso fôlego à ela, em 'A Troca Impossível'.
    A certa altura, ele tenta uma espécie de consenso crítico dentro das lucubrações.Como segue:

    'As idéias também mudam e se multiplicam : sua sucessão faz parte de uma história das idéias e de sua finalidade hipotética.Mas em uma outra dimensão, a do destino e a do devir(lá justamente onde o pensamento 'se torna'), há sempre uma só idéia : a hipótese soberana equivalente da paixão soberana da qual fala Nietzsche.Para ele, é a hipótese do Eterno Retorno, a de uma singularidade ligada ao devir integral e ao Eterno Retorno.
    A paixão soberana, como a hipótese soberana, nos livra de todas as outras, nos livra dessa pluralidade, dessa troca furiosa de modos de pensamento e dos modos de existência que não passam de caricatura e de simulacro de devir.
    Em termos de idéias, tudo é possível - o que é preciso é uma hipótese soberana.
    Em termos de desejo, tudo é possível - o que é preciso é uma paixão soberana.
    Em termos de fim e de finalidade, tudo é possível - o que é preciso é uma metamorfose e um devir.
    Em termos de alteridade, tudo é possível(convívio,comunicação instantânea, redes) - o que é preciso é uma forma dual, antagônica e irredutível.
    (...)manter a troca impossível,jogar com a própria impossibilidade dessa troca, jogar com essa tensão e com essa forma dual,à qual nada escapa, mas à qual tudo se opõe.'

    De certo modo é esse também o Universo que Arriaga/Iñárritu têm explorado, o que coloca em contato uma sucessão de acasos e mesmo disparates lado a lado, mãos dadas, e ao mesmo tempo os mantém de todo distanciados.É assim com o receptor do coração transplantado em '21 Grams', e me ocorre agora a lembrança da disparidade entre a truculência na fronteira americana, por parte da autoridade, paralela à uma certa ternura do tenente japonês pela mocita-quase-suicida...Ternura que, até onde me recordo, só é passada pelo dito cujo em seu difícil ofício, e a que desgraçada encorpada babá sente pelos filhos do casal 20, de férias no Marrocos.

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    [Aeternus:9438] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - RE:RE:de acasos

    Lá pelos anos oitenta Calligaris veio a Brasilia e dele falavam ( era casado com uma gaucha, acho) que era lindo e inteligente. Fui conferir e achei que estavam com razão: muito charme, cultura e inteligencia ágil. Das cronicas dele, quando leio uma ou outra, gosto de outra ou uma. Não de todas. O livro começou bem, contando do que o pai dizia para o narrador quando se despediam depois de alguns dias juntos: "precisamos conversar", da conversa que afinal aconteceu enquanto o filho o barbeava, como entremeava informações com  os momentos de ter a gilete no pescoço ou no bigode, da meia-luz do abajur e coisas assim. Me preparei pra adorar, mas não adiantou. Há aquele clima atual tipo "história de detetive, espiritismo e arte, história, cultura geral" como "O Código da Vinci", "Os Cisnes de Leonardo", " O Sétimo Unicórnio", "O Fazedor de de iluminuras" ( ou algo assim). Tinha coincidências. Havia reproduções de afrescos de um discípulo de Verocchio. Montes de pastiche e "crostas" ( termo usado por ele para péssimas obras de arte, ou imitações baratas) passeando por Florença e toma batistérios, Bruneleschi e estereótipos de vinho e "excelente mozzarela".Sexo péssimo e mais não digo pra não estragar o palpitante enredo de pais, tios, sobrinhas e amizades dos colegas de resistencia ao nazi-fascismo, terrorismo. E, não sei se pela idade, ou se foi sempre assim, no romance ele não me parece como sendo um sedutor criativo ou imaginativo na transa com as mulheres.

    Mas, aí está: cansei do Tabucchi e parei, enquanto que do Calligaris... li o livro todinho. Ponto a favor, não é?  Se bem que  tenho problema com escritores italianos e diretores italianos, com uma retórica que me cansa. Falha minha. Outro conceito de mundo e de linguagem, lá sei.  Li dois romances do Eco, mas não fui até o fim no Pendulo de Foucault e aquele outro da ilha. Adoro Calvino, mas nem sempre atravesso um livro inteiro, prefiro cronicas e conferencias. Adoro Morávia, mas não consigo reler nada, uma historinha curta talvez. Ainda bem que sou leitora amadora e posso me dar ao luxo de ir largando estes tesouros pra trás. Eu devia ficar de boca chiuzza ( é assim que se escreve?)

    Tolstoi uma vez criticou um romancista porque não havia coincidências no romance que burilou e desenvolveu com clareza cartesiana. Para Tolstoi na vida elas acontecem com tamanha frequência que, omit-las, lhe  pareceu uma forma de pedanteria. 

    Neste ponto, viva Florião com Nietzsche e mais outros filósofos que levam a repetição em conta: obrigada pelos comentários tão ricos. Muito bom ouvir você e o Omar em conversa. Vocês são muito mais pacientes e generosos com escritores e pensadores do que eu...


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    [Aeternus:9439] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:de acasos

    Chiuso : geralmente o 's' simples no italiano soa como 'z', assim como no alemão.
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    Embora eu tenha visto um bocado de filmes italianos e adore um lote respeitável deles, pouco li de seus autores.Recentemente, presenteado com Dino Buzatti ('Um Amor' e 'O Deserto dos Tártaros' ), apreciei bastante esse último título.Insólito, enxuto, tendendo ao perturbador, desliza sobre nossa incapacidade em mudar algumas tendências íntimas.Mesmo porque destas nem temos conhecimento, em boa parte.
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    Sobre a paciência que Jansy ressalta, creio que a perdi desde as chatíssimas e intermináveis cerimônias e rituais militares à época de minha adô, no C.M.R.J.O único traço humano e sangüíneo, ali, acontecia quando o sargento-corneteiro desafinava nos toques, o que provocava um riso abafado das diversas turmas de alunos alocadas na praça principal.Sobretudo quando o erro se verificava no toque curto final de execução, após o comando todo inicial sair perfeito.Mas não podíamos mostrar os dentes, dava anotação e punição.
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    Autores que esperneiam e se descabelam com brilho como Cioran e Baudrillard, em convulsões depressivo-apocalypticas ou semi-delirantes, me...divertem !



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    [Aeternus:9440] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - Um americano chamado Mason

    Brasília recebeu com pompa e aparato um velho rosadinho e meio senil de Beverly Hills, California ( mas nascido na Inglaterra onde também fez supervisão com Rosenfeld, Betty Joseph e alguns outros kleinianos), psicanalista que escolheu Bion para seu primeiro caso de supervisão na formação.  Acho que não tem mais salvação para a IPA se pessoas como o Dr.Mason são importadas de São Paulo e de outras localidades como se valessem o preço. 

    Ele iniciou a palestra com uma equivocação que, no começo, me pareceu interessante. Dizia que Bion não falava como nenhum outro psicanalista ( verdade: ele tinha um ritmo, uma pronuncia, uma doçura que não encontrei nunca mais) e depois, como se não tivéssemos qualquer gravação de Bion ao vivo e com tradução simultanea ( nos seminários clínicos e feita por mim, antes de ser deletada ou engolfada por um colega ciumento), usou uma fita para ouvirmos a voz do dono e percebermos a diferença meramente vocal. 

    Em seguida insistiu várias vezes sobre que todos os analistas de uma determinada geração ou época teriam as mesmas idéias, mas as diziam de forma diferente. Deste modo, Bion repetiria ao modo dele o mesmo que kleinianos em geral.  Depois de uma frase de Rosenfeld  trouxe um suposto Bion - porque nunca o ouvi falar assim: "A parte onipotente da mente detesta o bebê, em cada um, que procura o seio para alimentar-se e igualmente detesta o seio que o alimenta."  Lembro que Bion enfatizava um aspecto do édipo pré-genital ao observar que o " aspecto bebê invejoso do paciente atacava sua parte sadia capaz de formar um casal produtivo com o psicanalista"

     Dali desenvolvia a palavra intuição, ligando-a ao Bion, sem jamais mencionar a frase completa ( Bion citava um filósofo, não lembro qual, dizendo que "a intuição sem conceito era vazia e conceito sem intuição era cego") . Ele, com superioridde, criticava o uso da intuição porque, assim sentia o velho, ele não conseguia confiar na contratransferencia ( que, para ele, era consciente e sinonimo de identificação projetiva e das emoções do analista em geral) e precisava de fatos clínicos para trabalhar. E então falava do pathos dos casos clínicos com um tom de palhaço de circo observando que eram "para causar lágrimas e risos" ( que cretino!)

    Não fazia idéia do que é o conceito de compulsão à repetição em Freud ( associada ao trauma e enquanto substituição por ação do fato que não podia ser lembrado) e o descrevia como "sintoma" ( não usou esta palavra, claro! Como poderia?) que faria que todos sempre fossem os mesmos, como uma assinatura num bastão de açucar de Brighton ( ou como, acrescento, se produzem as laminas enfeitadas dos cortes de murano). Uma pessoa da platéia, citando A.Green em Berlim, no rumo das fofocas e distorções, atribuiu ao Green uma frase do Freud ( duvido que Green tivesse se apropriado de Freud, a quem conhece profundamente como bom frances e ex-presidente da IPA quando ainda se podia contar com esta instituuição) sobre " só se alcança o princípio do prazer depois que se ultrapassa a repetição" ( Freud disse isto em 1920) e levou o Mason à confusão mental total. 

    Num dos exemplos sobre "a pedra de Brighton" ele falou de uma moça asmática, à morte, que se recusava a ingerir remédios e criou uma armadilha argumentativa pra ela ( não vou interpretar porque você não aceita receber nada do mundo, algo assim... ai, que cretino cruel e desrespeitoso... e demonstrou como ela, claro, insistia com "não é verdade"). Ela não conseguiu mamar quando bebê, não transava com o marido, sofreu vários abortos e tinha asma afinal. Tudo "falha na incorporação do bom leite, do bom ar " e nem levou em conta que na asma o problema não é inspirar o ar, mas soltá-lo... algo que invalida todo argumento sobre a moribunda.

    A jóia principal adveio no anuncio do "Complexo de Laio" porque Freud teria falado em complexo de édipo apenas porque ele mesmo Freud queria matar o pai quando o importante era o filicídio de Laio, como a parte onipotente da mente atacando o bebê saio. Sem a teoria do Édipo não há, claro, superego enquanto agente social e da "lei" mas, apenas, aquele superego kleiniano dos objetos maus introjetados boiando e criando caso no mundo interno.

    Tentei ficar até o fim e ser sorridente. Mas, confesso, nunca mais aceito convite para ir a uma conferencia num local que me faz passar por apertos desta ordem. Que se deleitem com o sujeito... Tem psicanalista-evangélico que dá passe, não tem?

     


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    [Aeternus:9441] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:de acasos

    Pode e deve ser inveja, mas não me aventuro mais a ler livros que são escritos por quem não é escritor "do ramo".
    Quem é? Quem não é?
    Por exemplo, Garcia-Roza, não é: conseguiu reproduzir uma boa forma de romance polical contemporâneo onde se destacam um detetive culto, uma geografia sócio-cultural do ambiente escolhido como cenário e um certo UNhappy ending onde não necesariamente o assassino será punido (sinal dos tempos: os criminosos, agora sabemos, raramente são punidos, existem  crimes perfeitos que nem sabemos que existiram, mas tb existem crimes "mais-do-que-perfeitos" que sabemos que existiram mas se refestelam na impunidade cínica). O dever de casa foi correto como uma ótima tese de mestrado nos dois primeiros livros. Mas os livros seguintes, só com boa-vontade do leitor que queria encontrar as qualidades corretas das duas primeiras tentativas e a cada vez achando que o anterior era melhor. Ou menos ruim. Ou nem isso. A fonte secou ou já era de água mineral gaseificada artificialmente.
    Nunca pretendi ler Calligaris. Como Jansy gosto de algumas sacações isoladas, mas muitas vezes li o que me soaram equívocos pomposos.
    Não vou falar de Maitê Proença que também acha que é escritora só porque foi apaludida como cronista (?). Aliás, em matéria de cronista, ah que saudades que eu tenho do tempo em que o JB trazia Drummond, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos e até mesmo Carlinhos (José Carlos) de Oliveira que, este , mais do que os outros mais considerados pela alta cultura, este sim era um senhor cronista antes de ser derrubado pelo alcoolismo quando foi perdendo o humor. Mas quando se aventurou no romance, não fez feio, fez um livro que poderia ser chamado de "comercial" mais correto como tal, cheio de qualidades artesanais que aventureiros pretensiosos de hoje em dia não conseguem trazer. Como ele, Sérgio Porto podia ser o descartável (mas que faz rir ainda hoje) e hilário Stanislaw Ponte Preta, mas seus contos em "As Cariocas" e crônicas e narrativas "sérias" de outro livro cujo nome me escapa (A Casa Demolida) têm qualidades de quem é "do ramo". Mas morreu cedo para provar que ainda seria melhor...
    O que não quer dizer que livros de escritores consagrados não possam ser decepcionantes e livros de "amadores" não possam ser atraentes desde que fluentes. Fluência é importante!
    Estou brigando com "De verdade", romance do húngaro Sandor Marai que escreveu uma obra prima, "AS Brasas". Não havia lido mais nada dele, mas  minha mulher, sim. E gostou. Este "De verdade" é anunciado como tendo uma estrutura que eu gosto: personagem A conversa com outra sobre B e C; B conversa com outro sobre A e C; C conversa com outro sobre A e B; este último interlocutor fecharia o livro. Não sei se é bem iso pois ainda estou na narrativa de B.
    A de "A" foi bem chata: a personagem poarece chata e/ou a narrativa assim quis fazê-la? Ou a narrativa é que é tautológica, repetitiva, viscosa e gliscróide? Quando se aproxima do final da narrativa, "A" até melhora. A narrativa de "B" já parece um pouco mais "enxuta". Mas há palavras demais para ação de menos. Não quero filme de ação: quero ação psíquica, mas sem tautologia, sem circunlóquio inútil, sem reflexões em círculo, sem psicologismos transbordantes e enunciados que pretendem ser mais do que são sobre vida, sociedade, burguesia... muita tese para pouca ficção....
    Vou insistir (POR ENQUANTO) LEMBRANDO QUANTO ME CUSTOU (MAIS DE 50 REAIS) e porque sei que há um escritor profissional ali com capacidade de me interessar de uma forma ou de outra, mas a quem faltou um senso crítico de enxugar mais, se comprazer menos com o  ue pretendeu ser uma coloquailidade inconvicente e que acaba simplesmente... chata.
    Talvez o fato de que as duas primeira narrativas tenham sido escritas nos anos 1940 tenha feito que esta  "primeira versão" tenha sido esticada porque seriam apenas A e B falando. Nos anos 1970 é que ele escreveu o restante de mais duas narrativas da personagem C e de outro interlocutor, posteriormente narrador. Ficou muito grande, longo, sem ritmo.
    Essas questões acontecem: Fitzgerald, por exemplo, foi formalmente pefeito em "Grande Gatsby": enxuto, sem nada de mais nem de menos. Pouco mais de 150 páginas ou nem isso. Perfeito! O que não quer dizer que "Karamazov" devesse ser menor, pelo contrário, poderia ser ainda maior; você me entendem, eu espero. Cada romance com sua estrutura própria.
    Mas "Suave é a Noite" peca pela indecisão do que seria uma his´toria de matricídio por parte de um filho e acabou como sendo uma filha e sua mãe boiando no enredo principal do personagem psiquiatra e sua ex-paciente e agora esposa. É um belo livro, mas bem imperfeito- que poderia ter sido maior que Gatsby mas ficou longe. Mas ainda  é bem superior aos que vieram antes e que pecam pelos excessos juvenis como "Belos e Malditos" e "Este Lado do paraíso". O autor ainda é melhor do que seus outros livros. Acontece.

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    [Aeternus:9442] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - RE:Um americano chamado Mason

    Quando adolescente e morava no Rio, servia-me das bibliotecas disponíveis sem me dar conta de como eram preciosas.Na ocasião, achava que eram uma espécie de direito do cidadão, como água encanada, iluminação de rua e asfalto. Hoje tenho que comprar, às vezes encomendar, os livros que desejo conhecer. Daí que empresto com alegria, como se me colocasse no lugar das antigas bibliotecas prestativas e poeirentas. Gallego, querendo novamente apreciar um húngaro porque gastou cinquenta reais no livro, é da minha turma. Hoje mesmo li tres capítulos de "O Assassinato de Agatha Christie" de Sun Holiver porque gosto de Agatha Christie e a orelha...sempre a orelha...prometia algo bom dando continuidade ao que acabou com dona A.C. Já no prefácio encontrei uma mentira. A autora ali conta que vira o rosto de uma senhora em sonhos, repetidos sonhos, e não sabia quem era. Mas fala que leu tudo de A.C, inclusive a auto-biografia. Só que precisou ver uma foto num antiquário para perceber que a mulher com quem sonhava era Agatha. Como se na autobiografia dela não tivesse milhares de fotos da escritora inglesa e em todas as idades e tamanhos.  Perdoei a falsidade que criava um clima de "comunicação com os espíritos". Mas, qual, a moça é sem talento e desonesta de todo. Perdi, como o Gallego talvez descrubra não ter desperdiçado, cinquenta reais.

    Boa crítica ao Garcia-Roza e ao Fitzgerald, ainda mais terminando como terminou, elogiando o homem. A la Wilde, me parece, não foi ele que disse que gastava seu genio vivendo e deixava apenas o talento para a escrita?  Nunca li Fitzgerald, mas gostei do livro da mulher dele contando como foi estudar balé ( "Essa Valsa é Minha"). Não sou exigente, como leitora. Apenas curto algo que ainda não sei ao certo o que é, talvez "honestidade" ( mesmo que seja, apenas, algo fantasiado...mas consistente). E lembrei que esta noite o último detalhe do meu sonho tinha uma pizza apetitosa, como aquelas que sobem e descem no cenário de fundo do Faustão ( assisto às video-cassetadas, ô meu!) 

    Nuunca fui curtidora de objetos pelas qualidades mecanicas ou eletronicas, no entanto vendo o encaixe perfeito de um jogo de lentes da Leica pressenti o prazer que deve dar construir, possuir, manipular um objeto com encaixes perfeitos.  Não consigo nem mesmo plantar couves no jardim, indamais bolar ou entender jóias como telescópios e osciloscópios e aviões e carros eficientes...

    Nos jardins das mansões inglesas havia, às vezes, um coreto vazio que, em inglês, é designado por "folly".  Folly é também "loucura humana", falta de seriedade, impostura alegre.  Suuponho que aqueles que sabem ser "raposas velhas" devem conhecer bem a "folly" sem, com isso, se desesperarem porque vira instrumento para suas manipulações.  Já eu, pobre de mim, fico de criança boba apontando pro rei pelado em vez de me comportar direito. Se não houvesse Deus a humanidade cheia de "folly" já tinha se destruído há muito tempo. Qual Deus é que não sei. Fico sempre torcendo que, quando suponho haver nos outros angústia, dor e medo, estou apenas projetando e que, na verdade, ninguém sofre... é cenário apenas. De tudo, de tudo... ai, não me conformo com isso... o que me horroriza mais é a dor e a angústia.  A humanidade continua, as espécies (algumas) sobrevivem e a dor dói sem parar, é ela que se propaga.  Que alguém me conserte, por favor. 


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    [Aeternus:9443] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-10)


    - RE:RE:Zelda e Francis

    Jansy conta que não leu Fitzgerald - mas leu e gostou de "Save me the Waltz" da mulher dele, Zelda.
    Pois eu não consegui ler o livro dela que me soou (até onde aguientei) superestimado - talvez  por um parti-pris meio "feminista" ou da "antipsiquiatria" que quis ver na escrita dela mais qualidades do que na dele. Fla-Flu de bobos comose fosse Marlene versus Emilinha.
    Como se sabe, a infeliz Zelda morreu num incêndio no hospício onde passou a residir desde que seu quadro clínico se tornou mais grave. A maioria dos relatos fala em esquizofrenia, mas há excessos que sugerem um caso grave de "distúrbio afetivo bipolar" (ex-Psicose Maníaco-Depresiva) como quando ela chamou os bombeiros e quando eles chegaram e perguntaram onde era o fogo, ela apontou para seu corpo e disse "AQUI!". Seja como for, era coisa de maluca mesmo.
    Há quem diga que ele se apropriou de coisas que ela escrevera, que o verdadeiro talento era dela e outras sandices.
    Ela era a moça rica e mimada que inspirou Dayse em "O Grande Gatsby".
    Ele era um rapaz com tendênbcia ao alcoolismo (como ela), meio bobo provavelmente, deslumbrado com o sucesso precoce de seu primeiro livro ("Este lado do Paraíso"), com a riqueza, com a "dolce vita" de americanos com dólares em uma Europa combalida pela Primeira Guerra com outra a caminho.
    Juntos, beberam tudo que ele ganhou de grana até que o sonho acabou em pesadelo, talvez antes mesmo do crack da bolsa de NY em 1929: antes disso, as alterações de comprtamento dela extrapolaram as bizarrices incômodas do casal de bêbados-chiques (que deviam ser insuportáveis).

    O que faz de Fitzgerald um nome a ser lembrado é que ele tinha consicência (inútil em termos práticos) de sua fragilidade existencial e escreveu sobre isso em inúmeras páginas. Aos meus olhos, raras são tão boas como "Grande Gatsby", que lido no original em inglês -  ou não- , mostra do que ele foi capaz. Muitos contos são longos demais, datados. Outros têm mais garra e ainda despertam interesse, mas nada tão excepcional.

    Houve dignidade da parte dele em buscar tratamentos e internações em locais adequados para ela. Se antes a bebida e as extravagâncias consumiam mais do que ele ganhava (e ganhou muito mesmo durante um paríodo), a doença dela e a fragilidade dele como escritor consumiram os últimos centavos e anos de vida dele. Acho que morreu com 44 ou 46 anos, estava escrevendo o que outros idealizam que seria seu melhor romance, "The Last Tycoon". Pode ser, o esboço de 6 capítulos promete algo, mas ainda é muito embrionário para tal idealização. Mas de fato, prometia algo bastante bom.

    Ela o sobreviveu sem entender nada, louca de pedra.
    Quando lúcida, o invejava e competia com ele em seus contos esparsos e no seu único romance que - no final das contas - tratava de algo tão autobiográfico sobre o casal como "Suave é a Noite", onde o psiquiatra casa com a paciente esquizofreência e ele desce a ladeira com o casamento e com a separação, enauqnto ela se estabiliza após a separação e não fica tão mal como ele.
    Como esa dupla é mostrada em "Save me the Waltz", eu não sei, não li até o fim.

    Mas "Grande Gatsby", eu já li mais de uma vez e li alguns trabalhos bem interesantes sobre este romance (há milhares de ensaios sobre este livro e "milhares" não é exagero).
    Mais do que uma boa intriga melodrama´tica, tem uma narrativa elegante e precisa e - na verdade, além do enredo, fala do sonho de riqueza. Na minha cabeça, antecipa o "Cidadão Kane" do Orson Welles em sua busca desde o início fracassada de um "Rosebud" perdido ou ilusório.
    E não acho o filme com Mia Farrow e Robert Redford ruim como dizem que é.
    Mas obviamente, o livro tem algo mais como literatura com "L" maiúsculo, fluência, elegância de estilo, precisão e construção de personagens que me soa admirável. é um dos meus "clássicos"  preferidos: aqueles livros que a gente relê e tem o mesmo prazer da primeira leitura - ou tem novos parzeres que surgem agora e não exisitiam antes. Tanto faz. Dá para reler como o mesmo livro que continua bom - ou como um "outro" livro tão bom ou melhor do que o primeiro.

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    [Aeternus:9444] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:Zelda e Francis

    Adorei o filme "The Great Gatsby" que, como menciona o Gallego, não foi tão mau como a crítica o rotulou. Talvez gostasse do livro, mas não me caiu nas mãos. E, quanto ao da Zelda, ignorando os bastidores todinhos, achei um testemunho apreciável do que talvez fosse psicose bipolar ou, num neologismo inadvertidamente divertido da anedota sobre o "aqui" pro incêndio anunciado,  uma loucura "extrapolar".

    Em compensação, algo deu certo agora cedo. Reli um conto do Guy de Maupassant, "Bola de Sebo". Magistral. De ler e ficar de papo pro ar rememorando frases e denúncias e felicidades ( freiras desfiando rosários cada vez mais depressa como se iniciassem uma "competição de oremus"). "Joga Pedra na Geni" é pinto perto da historia da prostituta enganada pelos que eram piores do que ela... No entanto, Maupassant sofria depressões e viciou-se em drogas. Psicotizou-se também, morreu cedo.Perceber o mundo como ele percebia, e de modo tão precoce, foi perigoso para a sensibilidade dele.

    Como Nabokov cita Maupassant insistentemente na novela "Ada, ou Ardor" ( de modo debochado, mas deve ser por inveja... Naboka era fogo) e o último descreveu uma crise de despersonalização ao ver-se no espelho bem parecida ao que Naboka conta num dos primeiros romances "The Eye" ( que tem um quê do Machado de Assis, nas Memórias Póstumas...), vou me ocupar como sempre, achando a frase do francês e comparando com a do russo-americano...

    Se alguém tiver no original daria saltos de gratidão.

    "Fixando meus olhos sobre minha própria imagem refletida no espelho, acredito perder a noção de mim. Nesses momentos, tudo se atrapalha em meu espírito, e eu acho estranho não me reconhecer. É curioso ser o que sou, isto é, qualquer um. E eu sinto que, se esse estado durasse mais um minuto, em me tornaria completamente louco. Pouco a pouco meu cérebro se esvazia de todos os pensamentos".


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    [Aeternus:9445] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:RE:Maupassant en français

    O trecho que vc quer é de que conto do Maupassant? Seria de "O Horla" que é considerado um clássico conto de terror?
    Não acredito que eu tenha contos sinistros do Maupassant em francês, mas tenho um livro de poche que está no consultório que tem uma novela (com nome do tipo "Paulo e Virginia", não me lembro agora) e alguns contos. Nunca li, mas posso dar uma olhada na sdegunda-feira que contos tem.

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    [Aeternus:9446] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:Maupassant en français

    Obrigada pelo oferecimento, não sei onde se encontra a frase porque, de certa forma, a preocupação com a loucura e os espelhos fazia parte de quase tudo o que ele escrevia depois de um período em sua vida. Nos sites em ingles, onde investiguei, falam que ele enlouqueceu de sífilis. Nos brasileiros e em frances, que foram dores de cabeça, depressão e as drogas, como alcool e ópio.

    Do passado conhecia apenas "O Colar de Diamantes" e este mesmo, "Bola de Sebo". Hoje percorri alguns outros, no clima de E.A.Poe.  Estereótipos de "mulher traiçoeira e vaidosa" e grandes tipos do povo descritos em detalhes objetivos ( tinha em Flaubert um mestre e, depois, um modelo), fora as "viagens". Dizem que o filme do Kubrick, "The Shining" inspirou-se num dos contos dele. Ainda vou ler este da Horla. Por enquanto, deu preguiça.  O da Jeni francesa me bastou pela manhã.

    A frase que copiei no site ( copiei? Mando novamente) vem de um caderno de notas. 

    Temos, pois:

    Fixando meus olhos sobre minha própria imagem refletida no espelho, acredito perder a noção de mim. Nesses momentos, tudo se atrapalha em meu espírito, e eu acho estranho não me reconhecer. É curioso ser o que sou, isto é, qualquer um. E eu sinto que, se esse estado durasse mais um minuto, eu me tornaria completamento louco. Pouco a pouco meu cérebro se esvaziaria de todos os pensamentos.

    Equivalentes em frances: le miroir vide, un visage inconnu, son propre visage soudainement ...; sans le pouvoir goater je le regarde en moi-meme dans le miroir de ma pensee. ...

    Não fui longe com estes... Separei uma linha que me agradou:  Maupassant y exprima une méfiance qui traverse toute son œuvre : « Les idées nous rendent fou, quand nous ne savons pas leur résister. C’est une sorte de phylloxéra de l’âme. »


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    [Aeternus:9447] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - RE:Um americano chamado Mason II

    Conhecia, de longa experiência, "calor umido ou seco; frio umido ou seco." Apesar do volume de anos até hoje a estação da seca em Brasília me surpreende e causa agonia, porque não há coberta ou piscina para escapar da sua infiltração. Para descrever o que é esse deserto flotante e sem oásis teria que começar com "secura, quenta ou fria". A pele se encrespa como torresmo no forno e fiapos de tecido aderem às pequenas rachaduras. O dia é todo arregalado.

    E, não bastasse, algum vizinho começou novamente a exterminar meus gatos. Em julho sumiram cinco. Desde o início da semana até hoje desapareceram três. Fica em suspenso de suspense, o que houve, onde estão, morreram? Quem é tão malévolamente determinado para caçar estes animais com tanto método? Paira no ar este pairar do ar.

    Então, coitado, aparece um americano embusteiro ( mas ele não sabe disso) que descreve a "visão binocular" em Bion a partir de um jogo de espelhos que ganhou numa bolsinha preta no avião. Dois espelhos pequenos num estojo que ele abre e aplica sobre uma área do rosto: então vê o queixo e a boca, ou o nariz e a orelha. Satisfeito com a história ele a apresenta como mostra da proposta de Bion. Tão bonitinho. Como se fosse apenas mudar a perspectiva, olhar de outro angulo, "trocar o vértice" e não uma aprendizagem de tridimensionalidade na escuta ( ou até de mais dimensões) para acolher inconsciente e consciência. Sacar, como no exemplo de Hanna Segal, que um violinista pode estar se masturbando em público ( sacada de um paciente dela, psicótico) ou tocando música inspiradamente ( visão da platéia) e que o analista é quem percebe as duas coisas e da duplicidade deste níveis, apreende uma terceira que não é metáfora.

    E o americano, coitado, conta como esta mesma Hanna Segal ( em que ele não pensava até mencionar outra historinha) lhe retirou o guidom teórico mal ele começou a aprender a andar de bicicleta analítica. Em seguida, com Bion, ficou sem a roda da frente. Psicanalista num monociclo. Como é que não se vai imaginá-lo, assim, com chapéuzinho e bandeiras, periclitando-se numa roda só?

    Erro meu, sei disso, eu não devia ter aparecido naquela festa. Como a do vizinho, aderindo à moda de Natal e Fortaleza, com um trio elétrico estacionado em frente da minha casa resfolegando tons tons tons com Daniela Mercury. Estão todos surdos e felizes. Pra que me meter nisso e achar ruim se sou minoria? EStraga prazeres? ( mas volta e meia me lembro do sonho com uma pizza no final, porque esta coisa de pizza?)

    Ah, Florião, obrigada pela correção do chiusa enquanto você contempla Cioran e Baudrillard dando um sorriso tranquilo porque aquele mundo é o deles. Cada um na sua... Ah, se surgisse um vento de repente, daqueles que dão uma varrida súbita sussurrando entre as árvores e caísse uma chuva... Chuva tilintante como aquela dos prisioneiros na peça de Sartre. Libertadora, sabe-se lá por que se não for, apenas, porque avisa de uma "exterioridade".  É isso. Brasília, na seca, torna-se, absolutamente, uma cidade interior.


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    [Aeternus:9448] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:RE:Maupassant en français

    Também li o do colar e um quase tão famoso quanto "Bola de Sebo": "Maison Tellier" - acho que traduziram como "Pensão Tellier" - mas se lembro o nome, nada lembro do enredo. Ele, Poe e O.Henry gostavam de finais surpreendentes.
    O filme do kubrick oficialmente foi extraído de um livro do Stepejn King - que não gostou da adaptação e filmou ao jeito dele com horas e horas de duração alguns anos depois. Pobre King! Tem imaginação mas acho que escreve mal como o capeta! O fiulme do Kubrick teria "explicações" que foram retiradas pelo próprio Kubrick na montagem final e não creio que tais cenas pareçam um dia. parece que mostravam a personagem da Shelley Duvall no hospital depois que o Jack Nicholson morre congelado e o sujeito que o contratou para cuidar do hotel brincava com o garotinho com uma bola que sugeririria algo que não lembro mais o que é, mas acho que sugeririra uma ligação do sujeito com o "mal". Mas pode ser chute meu.
    Já "Bola de Sebo" serviu de inspiração (ou foi plagiada) no western dos westerns, "Stagecoach"  (No Tempo das Diligências), uma das obras-primas do John Ford que -dizem - Orson Welles assistiu uma dezena de vezes para se familiarizar com a linguagem do Cinema antes de filmar "Cidadão Kane". O ano era 1939 e obviamente a prostituta (ou "dançarina") consegue um par no jovem John Wayne, bandido que não é bandido, mas banido da sociedade hipócrita. Descontadas as coisas da época para o roteiro de western, o filme é maravilhoso em termosd e linguagem cinematográfica e pode sr visto semnpre com atenção. John Ford, quando acertava era uma maravilha; é só lembrar "Como era Verde meu Vale", "O Delator" (de 1935!), "O Homem que matou o Facínora", "Rastros de Ódio", "Vinhas da Ira", "Paixão dos Fortes" (My Darling Clementine), "Depois do Vendaval" (uma espécie de "Megera Domada" atualizad para a Irlanda do século XX) e dezenas de westerns, alguns sem maior diferencial a não ser a cinematografia enxuta e as tomadas épicas naquela localidade chamada "Monument Valley" que ele filmava como ninguém.
    Por falar em "Vinhas da Ira", estou assistindo um dvd importado baseado em outro romance famoso do Steinback (que nunca li) que é "Of Mice and Men" com John Malkovich como o perosnagem deficiente intelectual e o Gary Sinise como amigo que cuida mais ou menos do bobão. O Sinise dirigiu este filme, até agora correto,m mas um pouco lento até o meio. vou voltar para a "segunda parte".

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    [Aeternus:9449] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Mots passants en français

    Ah, tenha paciência! Insista... O filme com o John Malkovitch, "Of Mice and Men" é ótimo... Não vi Vinhas da Ira, mas li o livro que quase descreve uma secura como a daqui, tem bolas de mato rolando, rolando...

    Também sou do contra quanto ao Stephen King. Ele escreve muito bem até que sua imaginação cocainomana passa a controlar as rédeas da sua égua noturna de olhos de fogo.

    Você me deu vontade de ver mais filmes do John Ford. Mas não agora, não quero canyons e poeira. Vou levar ainda uns dias até me acostumar com a mudança de estação.


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    [Aeternus:9450] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Mots passants en français

    Acabamos de ver o filme "Of Mice and Men" com John Malkovich e Gary Sinise (também diretor). É triste como o diabo! Nossa!
    É um conto ou um romance do Steinback? Leva mais jeito de conto, mas nunca se sabe pelo roteiro de uma adaptação para filme.
    "east of Eden" também foi adaptado para filme, "Vidas Amargas", uma das 3 únicas vezes que se põde ver James Dean nas telas, grande filme do Eliza Kazan, o mesmo que filmou "Spelndor in the Grass", "Sindicato de Ladrões", "A Streetcar named Desire" e "O Último Magnata" (o tal romance inacabado de Fitzgerald).


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    [Aeternus:9461] Mensagem do Grupo62
    -Luiz Fernando Guedes Gallego Soares(2008-05-13)


    - RE:Signs and Symbols, Vladimir Nabokov

    Sobre a leitura de SINAIS E SIMBOLOS (com uma carona no filme "Condor")
    por LuizFernandoGallego :

    Meu deus, que tristeza infinita! Não
    sei se ainda impactado por um filme que vi antes da leitura do conto, um documentário sobre a
    "operação Condor", que reuniu Chile, Argentina, Uruguai e Brasil sob
    ditaduras miltares em uma terrível organização de Estados perversos
    para maior eficiência em um abjeto terrorismo de Estado(s), matando
    gente a torto e a direito (melhor seria dizer matando gente à esquerda
    pela direita), separando filhos de pais, um horror.


    Nem me dei conta durante o filme de uma observação interessante
    feita pelo meu amigo, o Carlos Alberto de Mattos, na resenha que colocou no site www.criticos.com.br:
    o Carlinhos mostra que o eixo que o filme mostra para haver 
    "reaparecidos" na América do Sul veio dos laços familiares: são as
    "Mães da Praça de Maio" insisistindo para saber de seus filhos e netos
    "desaparecidos"; são as descobertas de filhos crescidos quanto às suas
    verdadeiras origens biológicas, filhos de pais assassinados pelos
    governantes, por Estados assassinos que recolocavam estas crianças para
    serem criadas por policiais, militares, por pessoas ligadas de algum
    modo aos assassinos dos pais. Um filme de horror, que pela proximidade,
    me soou pior do que qualquer coisa relativa a Auschwitz e similares.


    Este eixo familiar, os laços de sangue (e de afeto) reaparecem
    dissecados no conto em uma linguagem de bisturi, cortante, sem pieguice
    nem afetação, mas capaz de afetar um coração de pedra com um mínimo de 2
    neurônios. Não é o caso do meu coração de melão ou de manteiga que
    empastela meus neurônios e me faz um perplexo espectador do filme e leitor do conto que dói como dizia o Bergman, como uma
    dor de dente na alma.


    A psicose (com prognóstico sem esperança) do filho daquele casal
    devastado pela idade, pobreza, reveses da vida, velhice  - e o próprio
    casal - são de derreter os olhos em aluviãoque arrasta tudo e faz pensar a existência como um purgatório sem céu.


    No filme, escrevendo agora sobre o que fez alguns "desaparecidos"
    "reaparecerem" (os filhos, vivos, mas os pais com notícias finalmente
    assumidas de suas mortes sob tortura ou execuções abjetas, como os que
    foram jogados de avião no oceano, abençoados por uma igreja argentina
    de inclinação anti-comunista tal que se via com "direito" de
    "justificar" a traição à letra da doutrina humanista cristã do "não
    matar") ao lado da observação do Carlinhos sobre os laços familiares que
    fizeram as juntas militares ditatoriais sofrerem, em alguns casos,
    algumas coisinhas legais de justiça (mínima) em troca dos horrores
    (máximos) que causaram, tudo isso junto me fez lembrar de críticas da Jansy ao pensamento
    de Freud sobre a elaboração do luto através do abandono dos investimentos no objeto perdido para
    reinvestir em novos objetos como forma de elaboração "saudável".


    Eu também não acredito em tal substituição tão mecanicista. Pode
    ser com objetos-coisas que investimos com nossa libido narcísica:
    roupas que gostamos de usar e desbotam com o tempo e lavagens
    frequentes, livros que perdemos, Lps que precisam ser substituídos por
    CDs. Mas com pessoas de relacionamento significativo?!

    Acredito que durante o luto inicial não se consiga investir NOVAS
    catexes em novas relações; e que até mesmo os investimentos em antigos
    objetos fiquem "em banho-maria", num limbo. Mas acho que quando
    investimos em novos objetos, o que se faz é criar novas
    catexes, "produzir" mais libido NOVA para novos investimentos, porque a
    memória do objeto investido que foi perdido fica (e Freud dava tanta
    importância aos resíduos mnêmicos!) e fica, de modo mais ou menos
    forte. Irá empalidecendo mais ou menos com o tempo, mas acho que o que se
    perde com o objeto e que também dói muito é o próprio investimento que
    vai de roldão com a perda do objeto.


    Para mim, isto é fácil de pensar se aceito a proposta de Kohut de
    que a libido investida no objeto não é "objetal" porque investe em
    objeto e a libido não é "narcísica" porque foi investida no Eu. Ao
    contrário da idéia freudiana e de todas as demais escolas
    psicanalíticas, segundo as quais, o investimento narcísco será sempre
    inversamente proporcional ao investimento objetal, Kohut achava que
    havia "libido de qualidade narcísica" por si mesma que é investida em
    selfobjetos, experimentados inicialmente como "parte do Eu" e , com o
    tempo, podendo ser aceitos como selves independentes, com
    autonomia própria e necessidades de um modo geral análogas às nossas.
    Claro que este processo nunca se dá TOTALMENTE nem completamente,
    haveria sempre uma vivência "meio-eu-meio-o-outro" - e quando o outro
    marca a diferença radical pela morte ou desparecimento de qualquer
    tipo, sempre vai com o outro um "pedaço de mim" que não volta mais.


    O filho psicótico é uma perda irreparável para aqueles pais e o
    filho mesmo quer morrer ou "fazaer um buraco no  mundo e escapar" como
    teria idto um médico (cretino ao dizer que era uma "obra-prima de
    inventividade" por parte do psicótico).


    Quanto ao quadro clínico descrito, não tenho dúvida de que se
    trataria de um quadro grave de esquizofrenia paranóide: a descrição é
    tão boa quanto um relato clínico real pode ser em casos semelhantes,
    nem tão raros como teria sido dito pelo tal Herman Brink.

    A úncia relativa peculiaridade estaria no fato de não envolver pessoas
    reais nos delírios: as percepções delirantes (que encontram
    significados que ninguém mais encontra) está centrada em coisas da
    natureza: nuvens transmitindo sinais entre elas sobre o prórpio rapaz,
    "seixos ou manchas ou marcas do sol" transmitindos mensagens que ele
    (provavelmnete desesperadamente) tentava interceptar, superfícies de
    vidraças ou poças de águia parada, casacos expostos em vitrines, até
    mesmo água corrente ou tempestades, "até mesmo o ar" que ele expira -
    tudo, enfim, está misturado com um self tão fragmentado - ou até mesmo
    pérvio - ou fusionado com a natureza que devassa sua intimidade.


    Mas, a rigor, apesar da intensidade e generalização absurdamente
    horrorífica das vivências descritas, o fenômeno básico - do ponto de
    vista fenomenológico de Jaspers - é perda da "Consciência do Eu" no
    sentido da oposição Eu-NãoEu.

    Para Jaspers, as alterações da Consciência do Eu eram bem notáveis nos processos esquizofrêncios:
    perda
    da IDENTIDADE do Eu ("Eu não sou o Fulano como vc me diz, eu sou outra
    pessoa: Napoleão, Jesus", pouco importa, a identidade ao longo do tempo
    "muda", perco a noção do eixo temporal longitudinal do eu-mesmo);

    perda da UNIDADE do Eu ("Tá bom, você me diz que eu sou o Fulano, mas
    é que eu sou o Fulano e ao mesmo tempo sou Cristo", perda do eixo
    transversal no tempo: não sou UM, sou DOIS ou vários ao mesmo tempo);

    perda da ATIVIDADE do Eu ("Não sou eu quem está escrevendo,
    é uma força que vem de Saturno que me faz escrever") - as vivências de
    influência que o Tausk também descreveu;
    e
    a perda dos limites Eu-NãoEU que podem incluir as sinestesias deste
    rapaz do conto, por exemplo, assim como a "publicação do pensamento"
    que ele também apresenta: "seus pensamentos mais íntimos eram
    discutidos ao cair da tarde por obscuras àrvores gesticulantes".

    Tais fenômenos reduzidos à sua expressão mais simples são os mesmos
    descritos pela fenomenologia psiquiátrica, embora a subjetividade de
    cada sujeito possa "colorir" de modo idiossincrásico tais distúrbios
    FORMAIS de pensar, sentir, modo de ser e estar no mundo e consigo
    mesmo.

    Os "conteúdos" dos delírios podem ser os mais variados: a
    particularidade relativa deste rapaz seria não investir de percepções
    ou interpretações delirantes as pessoas á sua volta, o que é (até bem)
    explicado pelo delírio "de grandeza" subjacente aos delírios de
    perseguição: ("exclui pesoas reais desta conspiração porque se
    considera mais inteligente do que os outros homens"). Mas raramente
    alguém vai ser perseguido "por nada": na loucura, há método! Uma idéia
    paranóica de grandeza, quase sempre traz "a cavalo" a perseguição pela
    grandeza: não se crucifica qualquer um, só um Jesus, um "Deus feito
    homem"; a CIA, Máfia ou KGB persegue quem acha que tem alguma não pequena importância; os
    marcianos só enviam mensagens para superdotados com sensibilidade
    telepática, etc etc.

    O rapaz também deve sofrer alucinações auditivas, no sentido de que ele
    escuta as informações detalhadas sobre ele que as nuvens trocam entre
    elas.

    É
    chocante a descrição das vivências psicóticas sobre o mundo sensorial
    quando o Nabokov "salta" da descrição de como o rapaz experimenta o
    mundo para como sua mãe percebe, sem delírios, o mesmo mundo: "os
    trovejares e ares poluídos do metrô", as veias saltadas de sua mão
    cheia de manchas da velhice, "os alimentos pálidos" que não requerem
    detandura para serem engolidos, "os chifres de saliva" entre a
    dentadura retirada e a boca do velho - esta, por exemplo é uma descrição "literária"
    ou "poética" que - em outro contexto - poderia ser a vivência psicótica
    de um esquizofrênico que dissesse, assustado ou mesmo aterrorizado :
    "Tem chifres de cuspe saindo da minha boca, me prendendo ao meu
    aparelho de ortodontia! Não consigo me separar dele!!!"


    Depois, Nabokov faz a mãe rever os retratos do filho quando bebê
    até o menino que foi aos 8 anos como já sendo "diferente": uma expressão
    de surpresa no rosto de bebê, uma cara de esquilo ansioso, desenhos de
    pássaros com pés e mãos humanos aos 6 anos, até que não dá para
    considerar mais como excentricidades de um suposto mini-gênio: era um
    menino de 8 com medo de papel de parede (em um livro de contos que teriam em comum algo com ateoria do "Unheimlich" chamado "Freud e o Sinistro"
    há um conto de uma mulher que enlouquece com as visões que tem
    superpostas ao papel de paredde do quarto) e no caso do rapaz, até mesmo de paisagens
    idílicas em revistas.


    Outra coisa curiosa nos distúrbios psíquicos que o conto sugere é
    uma certa indiferenciação entre o acessório e o principal, entre
    "figura" e "fundo", quando o "fundo" para a maioria das pessoas ganha
    tanto ou maior importância do que seria a "figura" que se privilegia em
    destaque na gestalt da maioria das pesoas; mas é muitas vezes em cima
    do "fundo" percebido com conotação particular que surgem vivências
    estranhas que os demais custam a poder entender (como é dito da
    inacessibilidade da mente do rapaz às mentes normais, a dificuldade de
    "empatia" com a vivência de estranhamento do mundo que o psicótico
    passa a ter).


    Enfim, li um conto cortante como um bisturi, doloroso até o fundo
    d'alma, com a imagem de mato e flores que serão retorcidas pela
    passagem do fazendeiro com corcunda simiesca na  "metáfora" final: mato
    e flores, tudo será reduzido a uma "monstruosa treva" que transforma a
    ternura em loucura ou é esmagada. Meu Deus, é uma das coisas mais
    tristes que eu já li.


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    [Aeternus:9479] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-05-15)


    - sites Terra, BBC e Le Monde

    Da BBC Brasil
    ...uma crônica publicada na tarde de quarta-feira no site do jornal francês Le Monde...vem com um texto assinado por Jean-Pierre Langellier. Segundo o jornalista há várias semanas o Brasil parece "assombrado pelo sorriso de Isabella"...
    A crônica busca explicar as razões pelas quais a história suscita tanta emoção do público...O interesse em parte se deve ao fato do casal, que nega envolvimento na morte da menina, ter conseguido ficar solto durante várias semanas. E é na mídia, afirma a crônica, que reside "o fermento para excitação popular".
    "Os meios de comunicação alimentaram um clima de frenesi em torno do assunto. Para sua cobertura, a Rede Globo, maior do País, mobilizou em permanência 15 equipes de repórteres e cinegrafistas, três veículos de transmissão ao vivo e um helicóptero."
    "O próprio presidente Lula ficou um pouco preocupado com tamanha atenção da mídia, a seus olhos, excessivos. Ao pedir prudência, Lula pediu que o casal não seja declarado culpado antes de ser julgado."
    Jean-Pierre Langellier cita dados do Ministério da Saúde, segundo os quais a cada dez minutos uma criança com menos de 14 anos é assassinada no Brasil. Parte dessas mortes acontece dentro do contexto familiar, dizem as estatísticas.
    Especialistas afirmaram que, além de seus principais motivos, como pobreza, "a violência dentro das casas faz parte da cultura brasileira".
    "O castigo corporal continua, para muitos pais, um método pedagógico eficaz e legítimo. A duração da escravidão no Brasil - de mais de três séculos - e o caráter tardio de sua abolição (1888) desempenham também um papel na permanência dessa prática."
    Da Isabella,a garotinha traída, só conheci mesmo o sorriso. Quase como o do gato da Alice que foi sumindo até que deixou este sorriso pairando no ar. Não vi seus desenhos, não conheci as pequenas anedotas da sua curta vida: devem ter sido veiculadas, mas o que me inundou foi a perseguição histérica aos seus pais por uma multidão inflamada pela mídia. E agora, a surpresa de aprender que a cada dez minutos uma criança é assassinada no Brasil, que a violência doméstica está também ligada aos anos de escravagismo.  Conclusões tendenciosas e fáceis, a meu ver. A tragédia com Isabella ilustra como prestamos pouca atenção às crianças que enxameiam a nossa volta, como anulamos sua voz, como as transformamos em estereótipos para a nossa omissão. Porque se não podemos fazer nada numa escala pessoal, além das pequenas esmolas sentimentais, poderíamos pressionar as autoridades tão omissas atualmente no que tange à educação e à família ( os lulistas anunciam as benesses que privilegiam longe dos nossos olhos zangados às classes mais baixas e no entanto ontem mesmo li que são estas classes as que mais vêm sofrendo com o aumento constante das taxas de desemprego e a inflação)

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    [Aeternus:9847] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-07-13)


    - RE:RE: de rasgos e saltos

    Belas reflexões, Marcos Florião!

    A diferença entre o vazio de antes e o de agora é mesmo a de que se esvaiu o futuro. O "otimismo" que trincava o pessimismo de outrora vinha da crença de que a historicidade, uma vez feita pelos homens e não pelo destino, poderia mudar. O pessimismo vinha então de um complemento: caso quisessem os homens mudar esses rumos. Hoje, parece que não dá mais tempo, e ficamos repisando uma culpa que não consegue sair do individualismo.
    Tudo é lixo: lixo atômico, atmosférico, orgânico, químico e... mental. A culpa é lixo mental. O individualismo também. E não quero com isso ser contra a beleza dae uma outra msg, com aquela frase sobre a morte coletiva ser também a morte de cada um: o anti-individualismo nem banalizaria o coletivo nem superestimaria o narciso moribundo.

    Mas lixo também é cultura. Ou seja, a cultura produz lixo. E todo esse apocalypse natural/tecnológico/social vem desse lixo inconsciente, desse resíduo literal e figurado sempre menosprezado pelo idealismo...
    O lixo mental da culpa não vem da liberdade, mas da irresponsabilidade. Responsabilidade e liberdade são outra coisa, uma outra consciência... acho que o inconsciente também precisa entrar num processo de... reciclagem...
    os tais novos referentes de subjetivação... minha tese é de que uma outra relação do "ego" com a natureza interna, uma outra representatividade da pulsão, é o que nos poderia reconciliar com o meio ambiente: integrando o subjeto ao cosmo, reconhecendo que o Outro também sou eu, o que poderia ter como efeito adicional o reconhecimento de que o outro, embora diferente e distinto de mim, é RECONHECÍVEL pelo meu Outro... Sempre achei que o Outro "percebe" muito bem o outro, o ego é que não lhe dá ouvidos - isso pra gente ficar na incomunicabilidade de Magnólia e de seus aparentados, Felicidade, Histórias Reais, e até Fim de Caso. Incomunicabilidade: que Antonioni que nada, incomunicabilidade MESMO é essa nova. Afmaria!

    (mas vem cá, o Brad Pitt chorando ao telefone foi emocionante! ele não se saía tão bem assim desde o dispensável Kalifornia)


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    [Aeternus:9848] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-07-13)


    - RE:RE:RE: de rasgos e saltos

    Mr Omar (Khayam ? - queria essa simplicidade de um prenome só para mim aqui, mas o sistema me obrigou a ser um tal Sr.Marcos Florião...)redige (...)Sempre achei que o Outro "percebe" muito bem o outro, o ego é que não lhe dá ouvidos - isso pra gente ficar na incomunicabilidade de Magnólia e de seus aparentados, Felicidade, Histórias Reais, e até Fim de Caso. Incomunicabilidade: que Antonioni que nada, incomunicabilidade MESMO é essa nova. Afmaria!(mas vem cá, o Brad Pitt chorando ao telefone foi emocionante! ele não se saía tão bem assim desde o dispensável Kalifornia)
    Preciso fazer aqui um 'mea culpa' bem cristão : confesso que perdi uma boa dose de minha devoção/pulsão/aceitação - esta em termos pragmáticos-úteis ! - desse tal de Outro.Nunca estive tão 'tolerante' a respeito quanto agora, em termos 'compreensivos', assim como nunca( et pour cause ?) tão dele distante...
    Criou-se entre as pessoas algo como o Muro de Berlim, artificioso e Bestial, a exigir uma nova règle-du-jeu.Alguns felizardos atravessam o mar, demolem o dito cujo, mas o que predomina não é nada alentador.Creio que é nesse Buraco Negro que muitos autores atuam, no momento.Os griefs podem variar ao sabor de cada drama, de cada aldeia, de cada casual story, mas o panorama geral aponta uma direção clara.
    As 'boas pessoas' como a xerife de 'Fargo' ou o xerifete de 'No Country for Old Men' se mantém como tal por índole, talvez da mesma forma que qualquer mortal comum que assim eleja.Pinçando detalhes banais de sua vida banal e feliz na aldeia.

    O Brado Pitto de 'Babel' está excelente, sim.Ter a Super-Cate ao lado facilita qualquer um,- só o Tom Melão Urrrrrrgharranques não atuaria bem junto a ela - e descobre que entre o sonho americano e o fundo do poço a distância é bem menor do que poderia supor.
    Morreu a noção de 'sociedade', até de 'país.' Resta uma ilusão coletiva desordenada e à deriva, um Grande Tabuleiro de Simulacros&Fisiologismos.Não é à toa que de repente, nos últimos 25 verões, cada todo-poderoso no pós-moderno vislumbre a possibilidade de usufruir de seu cargo para tornar-se Deus de si mesmo, a janela da merecida liberdade financeira.Vide o fervor com que os altos executivos atiram confete em si mesmos, autenticando seus honorário$$$$$$$$.
    O establishment criou até nichos para esses Homens Especiais, restaurantes com iguarias galácticas, resorts a $20mil de diária, tudo que os identifique como Novos Deuses Vitoriosos de sua época.
    Aparecer-é-poder---->cada um impressiona como pode---->as sociedades 'aprontam suas camas e aposentos' para receber devidamente essa majestade toda------>pompa&circunstância.
    Não há mais tempo para o inconsciente, pois :uma atração nova nos espera, um grande contrato a fechar.
    Até que...

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    [Aeternus:9849] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-07-14)


    - RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos

    "Mea culpa"?? Não é o caso, Florião... afinal, os personagens lúcidos de 'Invasores de Corpos' não podem se recriminar porque os OUTROS viraram zumbis, né?
    Esse mundo que taí lembra também 'Mulheres Perfeitas', que me provoca tanto terror ou mais do que o 'Invasores', justamente porque elas se parecem muito com essa gentarada toda, tão "eficiente" que nos cerca, mas sem o mínimo feeling...

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    [Aeternus:9850] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-07-14)


    - Invasores de corpos

    Não sei a que se referia uma mensagem sobre zumbis e mulheres perfeitas...

    Li o livro que inspirou o filme Mulheres Perfeitas e era uma história de terror bem verdadeira, mas o filme virou uma comédia e sátira deliciosa. Indamais porque as transformações das mulheres em automatos seriam, ali, reversíveis. A peça teatral de Ionesco "Os Rinocerontes" também tem um clima  de "invasores", mas a gente sempre espera escapar da pressão das grandes massas. Donde um negócio que chegou e me pediram pra divulgar: 

     
    De: Murilo Salles [mailto:ms@murilosalles.com]
    Assunto: Murilo Salles - Cinema da Crueldade - U R G E N T E - Sexta-feira dia 11de Julho

    Pessoal, alô! Tudo bem?
    É AGORA OU NUNCA!

    Nessa próxima sexta feira dia 18 de Julho "Nome Próprio" entra em cartaz.
    São 4 anos de trabalhos intensos, numa batalha muito ralada por todos nós, uma equipe muito especial e apaixonada...
    O que é cruel é que na sexta-feira 18, no sábado 19 e no domingo dia 20 nosso destino será traçado.
    Ou cairemos no esquecimento ou poderemos afetar um grupo de gente bacana. Vai depender desse fim de semana!!! É bem assim, se as pessoas forem ao cinema e o filme cumprir a renda média do cinema ele continua em cartaz, dando tempo para o boca-a-boca trabalhar por ele. Se isso não acontecer, na famosa reunião de segunda dia 21, o filme será substituído por um outro. E, 4 anos de trabalhos intensos serão entregues ao esquecimento. É CRUEL MESMO. 
    Estamos lançando o filme com a CARA E A CORAGEM, apostando que fizemos um trabalho de excelência, desafiador, intenso e delicado.
    ESCREVO ESSE E.MAIL para dizer que CONTO COM VOCÊS com a CAPACIDADE DE MOBILIZAÇÃO de nossa equipe, dos atores e de nossos amigos.
    Precisamos dizer as pessoas que amam CINEMA e que não são poucas, que ASSISTAM os filmes logo que entram em cartaz, pois é uma militância SIM pela sobrevivência de um cinema mais autoral, mais pessoal, mais digno. 
    VAMOS AO CINEMA NO FIM DE SEMANA para garantir que o filme continue mais uma semana, para que o boca a boca pegue.  Comuniquem ao amigos, usem suas redes de influencias disparem esse flyer pelos seus mailling lists, comentem sobre isso nas baladas DESSE FIM DE SEMANA (10/11/12).
    Vamos vencer a batalha contra o esquecimento  a mesmice!
    Contamos com todos vocês.
    VALEU, Murilo Salles 
        
    NOME PRÓPRIO
    ESTRÉIA Sexta-Feira dia 18 de JULHO  
    http://nomepropriofilme.blogspot.com/
    http://www.murilosalles.com/film/f_film.htm
    http://www.myspace.com/nomepropriofilme

    Avise aos amigos, convença os inimigos, esgote seus contatos porque o filme vale a pena!
    Temos que encher as salas de cinema no primeiro  final de semana para não morrermos na praia!
    Em São Paulo Espaço Unibanco - da Rua Augusta
    Artplex Unibanco do Shopping Frei Caneca

    No Rio de Janeiro Artplex Unibanco - da Praia de Botafogo,Armazém Digital do Rio Design Center do LEBLON

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    [Aeternus:9851] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-07-14)


    - atendendo a outros pedidos...

    O Viajante (Joelmir Beting)

     

    Se beber não dirija. Nem governe.

     

    'Até aqui, em 40 meses de governo, o presidente Lula já cometeu 102

    viagens ao mundo. Ou mais de duas por mês, tal como semana sim,

    semana não. Sem contar, ora pois, as até aqui, 283 viagens pelo Brasil.

    Hoje, dia 15, ele completa 382 dias fora do país desde a posse. E pelo

    Brasil, no mesmo período, 602 dias fora de Brasília. Total da itinerância

    presidencial, caso único no mundo e na História: Exatos 984 dias fora do

    Palácio, em exatos 1.201 dias de presidência.

    Equivale a 81,9% do seu mandato fora do seu gabinete. Esta é a defesa

    da tese de que ele não sabia e nem sabe de nada do que acontece no

    Palácio do Planalto.

    Governar ou despachar, nem pensar. A ordem é circular. A qualquer

    pretexto.

    E sendo aqui deselegante, digo que o presidente não é (nem nunca foi)

    chegado ao batente, ao despacho, ao expediente.

    Jamais poderá mourejar no gabinete, dez horas por dia, um simpático

    mandatário que tem na biografia o nunca ter se sentado à mesa nem para

    estudar, que dirá para trabalhar.'

    JOELMIR BETING

     

    E o povão ainda aplaude e vota!


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    [Aeternus:9853] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-07-14)


    - RE:RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos

    Gosto bastante da versão de 1975, de Bryan Forbes, bem melhor do qua a baboseira atual de 2004, com direito a defeitos especiais bem idiotas.
    Kathy Ross chegava mocoronga e serelepe a Stepford, prontinha para a lavagem cerebral e se transformar em mais uma Vaquinha de Presépio local, com a anuência do marido.
    O final excelente a mostrava já domesticada, recebendo a vaquinha-da-vez.
    Paula Prentiss e Nanette Newman, esposa do Forbes, coadjuvavam.



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    [Aeternus:9854] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-07-14)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos / a tempo

    ...adoro o nome 'Stepford' dado à cidade-zumbi.
    'Step' óbvio, 'Ford' relativo ao fordismo...

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    [Aeternus:9855] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-07-14)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: de rasgos e saltos / a tempo

    Já que Florião e Omar exploram os recadosmbem passados da lista tive que aplicar o botão detetive para encontrá-los...

    Pensando no nome Stepford lembrei do som que sugere "stepforward", ou seja, um avanço, uma gradiva, um passo pra frente como o de Armstrong na Lua.
    É engraçado, só ontem me toquei que pomar sugere "pomo".


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    [Aeternus:9870] Mensagem do Grupo62
    -dora zander(2008-07-16)


    - RE:atendendo a outros pedidos...

    Depois da inclusão do texto do Joelmir Beting sobre as viagens de Lula, alguém que acompanha a comitiva do presidente e lê o aeternus em silencio, me escreveu: 

    Li um comentario de alguem no aeternus sobre as viagens do presidente ao exterior. A bem da verdade, do lado de cá, mas sem partidarismos, devo dizer que, uma viagem dessas pode significar uma diferença mais que consideravel para o Brasil. Nesta ao Vietnã, por exemplo, conseguiu-se aumentar em muitos, muitos bilhões, a balança comercial de exportação. São seminarios de apresentação de projetos e produtos, para empresarios dos dois lados que dão esses resultados. E acordos (foram cinco!) que  irão propiciar o intercambio e a difusão necessarios para outros tantos bilhões ou confortos. Sem isso, os brasileiros aqui ou que querem vir para Hanoi ganhar seu dinheirinho não tem visto, não tem direitos; outros não conseguem que suas mercadorias entrem no pais. Entendo que as pessoas não entendam. Mas é crasso o erro de crer que se trate de viagem de turismo. Trata-se de mercadinho ambulante. Vende-se onibus, projetos de urbanismo, lampadas e pilhas, selos, certificados digitais para cobrança de impostos (Casa da Moeda), biodiesel, name what.

    Continuo: Sobre divulgação de produtos e serviços, ontem li de um indiano que saltou de paraquedas no local da sua festa de casamento. A iniciativa era de familiarizar as pessoas da região com o paraquedismo ( muitos nunca tinham visto, nem faziam idéia de que algo assim existia) e ampliar o leque de escolhas dos indianos nas regiões mais isoladas.  Na foto via-se um rapaz radiante como príncipe de contos de fadas ( um instrutor de saltos esperto, apaixonado, competente...). E não são casos como este que inspiram todas estas lindas histórias? Independentemente da motivação promocional, estes amantes reproduzem o gesto arquetípico de que nos fala Mircea Eliade. O gesto dos deuses fundadores.


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    [Aeternus:9981] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-08-12)


    - Ritinha

    Êita mocita descolada!!
    E se a jovialidade depender das "ILUSÕES" eu só tenho 17 anos...
    Elas vão&voltam como pássaros migratórios.
     
     
    http://www.brasiliaemdia.com.br/2008/2/8/Pagina3899.htm
     

    A médica Rita Levi Montalcini, hoje com 98 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina há 21 anos, quando tinha 77! Nasceu em Turím, Itália, em 1909, obteve o diploma de medicina na especialidade de Neurocirurgia.

    Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália, um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos, onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger, do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington, de San Louis.

    Em 1951 veio ao Brasil, para realizar experiências de culturas em vidro, no Instituto de Biofísica da Universidade do Rio de Janeiro, onde, em dezembro do mesmo ano, a pesquisadora conseguiu identificar o fator de crescimento das células nervosas (Nerve Growth Factor, conhecido como NGF). Esta descoberta lhe valeu, em 1986, o Prêmio Nobel para a medicina, junto com Stanley Cohen.

    Por Fábio Doyle


    - Como vai celebrar seus 100 anos?

    - Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia!


    - E o que a senhora faz?

    -Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.


    - E como está seu cérebro?

    - Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade.


    - Mas terá algum limite genético?

    - Não. Meu cérebro vai ter um século... mas não conhece a senilidade... O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!


    - Como você faz isso?

    - Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!


    - Ajude-me a fazê-lo.

    - Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.


    - Qual é o segredo para se viver muito?

    - A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....


    - A sua foi a investigação científica...

    - Sim. E segue sendo...


    - Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...

    - Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o prêmio por isso.


    - Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?

    - Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.


    - Seu pai ficou magoado?

    - Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia inferior...


    - Vejo que isso foi um estímulo...

    - Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava na África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho!


    - A senhora tem feito... com sua ciência.

    - E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo, além de outras coisas...


    - A religião freia o desenvolvimento cognitivo?

    - A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.


    - Existem diferenciais entre os cérebros do homem e da mulher?

    - Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.


    - Por que ainda existem poucas cientistas?

    - Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.


    - É verdade?

    - A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!


    - A sábia Alexandrina do século IV...

    - Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela foi. Claro, o mundo tem melhorado algo...


    - Ninguém tentou assassiná-la?

    - Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição aos judeus... e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto... E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!


    - Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?

    - A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel...


    - Como você explica a loucura nazista?

    - Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!


    - Isto está acontecendo agora?

    - Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?


    - A ideologia é emoção, é sem razão?

    - A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós, não! E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!


    - Você nunca se casou ou teve filhos?

    - Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!


    - Conseguiremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?

    - Curar... O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.


    - Qual é hoje seu grande sonho?

    - Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.


    - Quando deixou de sentir-se feia?

    - Ainda estou consciente de minhas limitações!


    - Que tem sido o melhor da sua vida?

    - Ajudar aos demais.


    - O que você faria hoje se tivesse 20 anos?

    - Mas eu estou fazendo!!!!


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    [Aeternus:10019] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-08-28)


    - Tim

    O Síndico engrandeceu a Vida – que, desde o poeta Chacal, sabemos que é curta pra ser pequena, hã?

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    [Aeternus:10020] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-08-29)


    - RE: judaísmo no século XXI

    Judaísmo para o século XXI
    Nilton Bonder (rabino) e Bernardo Sorj (sociólogo)
     
     
    Gostei da introdução do livro que começo a ler. Trata-se de um livro de diálogos informais entre os dois pensadores. Transcrevo parte da introdução para os que se interessam pelo tema.
     
    ....
     
    O estudo da estrutura social da vida em diáspora e de seus mecanismos de reprodução poderia ter sido uma contribuição fundamental da experiência histórica do judaísmo à crítica da modernidade, presa às categorias do Estado nacional. Mas a importância da vida em diáspora foi praticamente negligenciada pela sociologia durante um século, sendo reconhecida somente no limiar deste milênio graças ao processo de globalização. Paradoxalmente, porém, num momento em que o mundo passa a aceitar e valorizar a condição diaspórica, o judaísmo corre o risco de se retrair em visões nacionalistas e/ou provincianas da sociedade e da história.
     
    O diálogo do sociólogo com o rabino encobre outro diálogo, igualmente necessário e complexo: aquele entre o judaísmo religioso e o judaísmo laico. Como veremos, estes dois judaísmos conviveram durante todo um século de costas um para o outro.
     
    ... a linha divisória deixou de ser entre religiosos e ateus, sionistas e anti-sionistas, para se colocar entre aqueles que aceitam conviver com o pluralismo de correntes e definições de judaísmo e aqueles que buscam impor uma visão única ...

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    [Aeternus:10021] Mensagem do Grupo62
    -cely bertolucci(2008-08-29)


    - RE: judaísmo no sec. XXI

    Judaísmo para o século XXI
    Nilton Bonder (rabino) e Bernardo Sorj (sociólogo)


    Gostei da introdução do livro que começo a ler. Trata-se de um livro de diálogos informais entre os dois pensadores. Transcrevo parte da introdução para os que se interessam pelo tema.

    ....

    O estudo da estrutura social da vida em diáspora e de seus mecanismos de reprodução poderia ter sido uma contribuição fundamental da experiência histórica do judaísmo à crítica da modernidade, presa às categorias do Estado nacional. Mas a importância da vida em diáspora foi praticamente negligenciada pela sociologia durante um século, sendo reconhecida somente no limiar deste milênio graças ao processo de globalização. Paradoxalmente, porém, num momento em que o mundo passa a aceitar e valorizar a condição diaspórica, o judaísmo corre o risco de se retrair em visões nacionalistas e/ou provincianas da sociedade e da história.

    O diálogo do sociólogo com o rabino encobre outro diálogo, igualmente necessário e complexo: aquele entre o judaísmo religioso e o judaísmo laico. Como veremos, estes dois judaísmos conviveram durante todo um século de costas um para o outro.

    ... a linha divisória deixou de ser entre religiosos e ateus, sionistas e anti-sionistas, para se colocar entre aqueles que aceitam conviver com o pluralismo de correntes e definições de judaísmo e aqueles que buscam impor uma visão única ...

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    [Aeternus:10023] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-08-29)


    - RE:RE: judaísmo no século XXI

    Havia uma piadinha com os telefones Oi, Tim, Claro só que não me recordo mais como era, mas a lembrança é de que o Tim morreu há uns tempos, ou estou enganada?

    Seja como for, a resposta é para a Cely, não sei porque encaixou neste espaço telefonico transcendental...

    Gostei do recorte que você fez, sobre como se negligenciou a percepção do que a diáspora produz em certos grupos humanos que precisam de outros critérios, distintos da identidade pelo "Estado Nação" para se reconhecerem. Não sei raciocinar sem incluir este endereço de "nação", no entanto: devo estar presa a uma paisagem especial. Fico curiosa para saber o que os demais participantes pensam sobre isto...


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    [Aeternus:10026] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-08-30)


    - Paises do mundo, seguindo o critério da "idade dos cachorros"

    Acabo de receber e partilho a ironia com vocês:

    (El autor es argentino, actualmente corresponsal de EL PAÍS de España. Esta es su interpretación de la relación entre países. Para compartir. )


    EL MUNDO SEGÚN CASCIARI
    Por Hernán Casciari.

    Leí una vez que la Argentina no es mejor ni peor que España, sólo más joven. Me gustó esa teoría y entonces inventé un truco para descubrir la edad de los países basándome en el 'sistema perro'.

    Desde chicos nos explicaron que para saber si un perro era joven o viejo había que multiplicar su edad biológica por 7. En el caso de los países hay que dividir su edad histórica entre 14 para saber su correspondencia humana. ¿Confuso?

    En este artículo pongo algunos ejemplos reveladores.

    Argentina nació en 1816, por lo tanto ya tiene 190 años. Si lo dividimos entre 14, Argentina tiene 'humanamente' alrededor de 13 años y medio, o sea, está en la edad del pavo.

    Es rebelde, pajera, no tiene memoria, contesta sin pensar y está llena de acné (¿será por eso que le dicen el granero del mundo?

    Casi todos los países de América Latina tienen la misma edad y, como pasa siempre en esos casos, forman pandillas.

    La pandilla del Mercosur son cuatro adolescentes que tienen un conjunto de rock. Ensayan en un garaje, hacen mucho ruido y jamás han sacado un disco.

    Venezuela, que ya tiene tetitas, está a punto de unirse a ellos para hacer los coros. En realidad, como la mayoría de las chicas de su edad, quiere tener sexo, en este caso con Brasil, que tiene 14 años y el miembro grande.

    México también es adolescente, pero con ascendente indígena. Por eso se ríe poco y no fuma ni un inofensivo porro, como el resto de sus amiguitos, sino que mastica peyote, y se junta con Estados Unidos, un retrasado mental de 17, que se dedica a atacar a los chicos hambrientos de 6 añitos en otros continentes.

    En el otro extremo está la China milenaria. Si dividimos sus 1,200 años por 14 obtenemos una señora de 85, conservadora, con olor a pipí de gato, que se la pasa comiendo arroz porque no tiene -por ahora- para comprarse una dentadura postiza. La China tiene un nieto de 8 años, Taiwán, que le hace la vida imposible.

    Está divorciada desde hace rato de Japón, un viejo cascarrabias, que se juntó con Filipinas, una jovencita pendeja, que siempre está dispuesta a cualquier aberración a cambio de dinero.

    Después, están los países que acaban de cumplir la mayoría de edad y salen a pasear en el BMW del padre. Por ejemplo, Australia y Canadá, típicos países que crecieron al amparo de papá Inglaterra y mamá Francia, con una educación estricta y concheta, y que ahora se hacen los locos. Australia es una pendeja de poco más de 18 años, que hace topless y tiene sexo con Sudáfrica; mientras que Canadá es un chico gay emancipado, que en cualquier momento adopta al bebé Groenlandia para formar una de esas familias alternativas que están de moda.

    Francia es una separada de 36 años, más puta que las gallinas, pero muy respetada en el ámbito profesional. Tiene un hijo de apenas 6 años: Mónaco, que va camino de ser puto o bailarín... o ambas cosas. Es amante esporádica de Alemania, camionero rico que está casado con Austria, que sabe que es cornuda, pero no le importa.

    Italia es viuda desde hace mucho tiempo. Vive cuidando a San Marino y al Vaticano, dos hijos católicos idénticos a los mellizos de los Flanders. Estuvo casada en segundas nupcias con Alemania (duraron poco: tuvieron a Suiza), pero ahora no quiere saber nada con los hombres.

    A Italia le gustaría ser una mujer como Bélgica: abogada, independiente, que usa pantalón y habla de política de tú a tú con los hombres (Bélgica también fantasea a veces con saber preparar espaguettis).

    España es la mujer más linda de Europa (posiblemente Francia le haga sombra, pero pierde espontaneidad por usar tanto perfume).. Anda mucho en tetas y va casi siempre borracha. Generalmente se deja follar por Inglaterra y Después hace la denuncia.

    España tiene hijos por todas partes (casi todos de 13 años), que viven lejos. Los quiere mucho, pero le molesta que, cuando tienen hambre, pasen una temporada en su casa y le abran la nevera.

    Otro que tiene hijos desperdigados es Inglaterra. Sale en barco por la noche, se tira a las pendejas y a los nueve meses aparece una isla nueva en alguna parte del mundo. Pero no se desentiende de ella. En general las islas viven con la madre, pero Inglaterra les da de comer. Escocia e Irlanda, los hermanos de Inglaterra que viven en el piso de arriba, se pasan la vida borrachos y ni siquiera saben jugar al fútbol. Son la vergüenza de la familia.

    Suecia y Noruega son dos lesbianas de casi 40 años, que están buenas de cuerpo, a pesar de la edad, pero no le dan bola a nadie. Cojen y trabajan, pues son licenciadas en algo. A veces hacen trío con Holanda (cuando necesitan porro); otras, le histeriquean a Finlandia, que es un tipo medio andrógino de 30 años, que vive solo en un ático sin amueblar y se la pasa hablando por el móvil con Corea.

    Corea (la del sur) vive pendiente de su hermana esquizoide. Son mellizas, pero la del norte tomó líquido amniótico cuando salió del útero y quedó estúpida. Se pasó la infancia usando pistolas y ahora, que vive sola, es capaz de cualquier cosa.

    Estados Unidos, el retrasadito de 17, la vigila mucho, no por miedo, sino porque le quiere quitar sus pistolas.

    Israel es un intelectual de 62 años que tuvo una vida de mierda. Hace unos años, Alemania, el camionero, no lo vio y se lo llevó por delante. Desde ese día Israel se puso como loco.

    Ahora, en vez de leer libros, se lo pasa en la terraza tirándole piedras a Palestina, que es una chica que está lavando la ropa en la casa de al lado.

    Irán e Irak eran dos primos de 16 que robaban motos y vendían los repuestos, hasta que un día le robaron un repuesto a la motoneta de Estados Unidos y se les acabó el negocio. Ahora se están comiendo los mocos.

    El mundo estaba bien así, hasta que un día Rusia se juntó (sin casarse) con la Perestroika y tuvieron como docena y media de hijos. Todos raros, algunos mongólicos, otros esquizofrénicos.

    Hace una semana, y gracias a un despelote con tiros y muertos, los habitantes serios del mundo descubrimos que hay un país que se llama Kabardino-Balkaria. Un país con bandera, presidente, himno, flora, fauna....y ¡hasta gente!

    A mí me da un poco de miedo que aparezcan países de corta edad, así, de repente. Que nos enteremos de costado y que, incluso, tengamos que poner cara de que ya sabíamos, para no quedar como ignorantes Y yo me pregunto:

    ¿Por qué siguen naciendo países, si los que hay todavía No funcionan?


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    [Aeternus:10058] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-09-16)


    - "Il faut imaginer Sisyphe heureux."...


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    [Aeternus:10059] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-09-16)


    - RE: Sisifo

    Creio que o sumido Florião, assim como eu, apreciamos igualmente  uma das conclusões do Camus quanto à capacidade de viver o momento sem sentido, do Sísifo. Agora, com este cartum ( quem é Sawyer, sem ser o Tom?), uma outra dimensão foi-lhe anexada. A do malhador compulsivo, inútil, narcísico... É interessante ver que se pode interpretar uma mesma cena de formas tão distintas  e as duas não serem mutuamente excludentes. Se em lógica aristotélica ou matemáticas sofisticadas não é possivel admitir contradições, no campo da interpretação isto não apenas é admissível como desejável...

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    [Aeternus:10060] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-09-16)


    - RE:RE: Sisifo

    Olá tchurma !
    Tenho acompanhado enquanto espectador os 'trabalhos' por aqui.(é gostoso)

    Esse Sysiphe américain aí do cartoon é feliz imaginando seu cheeseburguer, ora !...
    Ainda mais agora, com a crise dos mercados mundiais.


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    [Aeternus:10152] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-10-02)


    - besoin de...pós Jansy

    ...Preciso sentir que dá para vestir e despir o que quer que seja.  Pois é. Sintoma é aquilo que a gente não veste, nem despe mas não nos abandona nunca. Eu fiz, durante anos, a fantasia de que minha vida era diversificada, metamorfose ambulante até que, finalmente, constatei que era uma chata de galocha (sem presilha nem éclair) e igual, igual e igual....

    Sim, somos desse jeito mesmo...o tal do outro que se adapte, pois !...ou o tal do 'amor', pelas mesmas vias.
    Est-ce que c'est une grand illusion que necessitemos mesmo do outro e do amor ?

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    [Aeternus:10153] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-02)


    - RE:besoin de...pós Jansy

    Florião, não sei dizer se necessitamos do outro ou do amor assim em geral.

    Sei que euzinha preciso: me sentir apaixonada (não necessariamente por outro ser humano), sentir que amo uma porção de pessoas pra quem olho de passagem e fico enternecida (mas a gatinha nova, Mitzi, que é uma miniatura perfeita de uma gatona fofíssima e peluda, também me contenta neste arroubos protecionistas), preciso das angústias do vazio que o amor também provoca ( de outro modo, como 'entender' Heidegger?).

    Por enquanto, falo das necessárias ilusões. Também posso dizer que necessito do outro ( que me faça favores, que saiba mais muito do que eu com o googole à mão).

     Agora, no nivel mais fundo e mais sério, tenho certeza  que necessito dos "grupos sociais", deste enorme movimento da humanidade que me dá caldo, me machuca e às vezes me eleva na crista da sua onda. 


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    [Aeternus:10154] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-10-02)


    - RE:RE:besoin de...pós Jansy

    SIIIIIIIIIIIIIIIM !!! Paixões...sempre !
    Amor é bem mais complicated.
    Fale de Heidegger, dessa 'angústia do vazio' benéfica !

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    [Aeternus:10155] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-02)


    - RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

    Fale do vazio benéfico? Hmmnm. Não sei se é benéfico,  nem maléfico. É um vazio  que cerca e suspende a experiencia ante uma obra de arte, e esta nem será bela ou terrível. Se achar trechos do Heidegger sobre esta "coisa", ou do Lacan, copiarei em outro momento e poderemos discutir nossas respectivas vivencias, estas angosturas que às vezes temperam um vinho branco gelado sustentado por uma taça invisível.

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    [Aeternus:10156] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-10-02)


    - RE:RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

    Grato.Fiquei curioso de vez...
    Já vivi bastante essa...HMMM...suspensão, esse estado de magia diante da Arte.Mas nunca havia associado, de algum modo, ao amor ou à angústia de vazio.

    Sobre angosturas, são um must em drinques sofisticated...

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    [Aeternus:10157] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-10-02)


    - RE:besoin de...pós Jansy / colaboração alheia

    ...sobra angústia de vazio no cotidiano, de uma possível correspondente minha : "ah ! essa coisa de falar é meio estranha ! Sou uma mulher interessante no aspecto geral.Procuro com uma vela acesa à luz do dia o pé de meia furado para o meu pé descalço.É isso !"

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    [Aeternus:10158] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-02)


    - RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

    O amor, com sua demanda de uma "verdade",  nos conduz inexorávelemente para este vazio que aguça todos os sentidos e cobra uma resposta, seja de produzir ou de reconhecer, a mesma dimensão na arte.

    Já visitei Angostura ( além do vidrinho amargo e malicioso), uma garganta de água estreita que aproxima a Argentina e o Chile. Angostura quer dizer "aperto" e está ligada à angústia, outra forma de aperto.


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    [Aeternus:10163] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-02)


    - Philip Roth

    Acreditei nos elogios do Gallego ao Philip Roth, e ainda não desacreditei realmente, mas estou entre inquieta e irritada com o que venho lendo. Resolvi começar com Portnoy's Complaint e, apesar do besteirol humorístico citando a psicanálise para pomposamente descrever um quadro de patologias mistas com  todos os erros conceituais possíveis, adorei as primeiras páginas. O problema foi que, com a continuação, ainda lá pela página cem eu continuava lendo o que havia nas primeiras.  Vivacidade, graça, realismo. OK. Mas, digamos assim, fisiológico demais.  Dei pra pular capítulos ( mas o livro não é dividido assim, nada pro meu comodismo...) e me agradar daqui e dali com as brigas sobre os horrores do capitalismo e as maravilhas do ideal do kibbutz. As construções ágeis variando as referencias ao "dong" "stang" e nem lembro mais, todas ótimas. Contudo...sei não. Acho que é muito demais um livro de menino bem dotado. Comprei "The Human Stain" ( em português) e o último de uma série, "Exit the Ghost."  As formulações rápidas mais as trocas de palavras com a mãe me remetiam quase sempre aos filmes tagarelas do Woody Allen e ao clima cheio de coisas concretas e grandonas peculiar aos meus anos cinquenta. Feito um carro réplica, acho que é Chrysler ou Dodge, que circula por todo lado em Brasília, pesadão, metálico, deselegante mas concretamente presente, como eram os rolos de cabelo com secadores, os fogões, as geladeiras da época.

    Até que hoje estamos voltando aqueles tempos que só os igualmente  horrendos pés de palito em pau marfim conseguiram derrotar  junto com Ray Conniff, ice cream soda e Cuba Libre.  Paralelepípedos e poeira cinza. Um mundo, de algum modo, seguro e com cheiro de sabonete Lever.

    Vou guardar este tsunami confessionário e passar pro da mancha humana. Quem sabe... Era realmente um mundo seguro porque os adultos ( eu era criança boquiaberta diante deles) não tinham gestos hesitantes na minha frente e cada objeto que seguravam era uma "coisa enquanto tal": não havia dramas existenciais, eu habitava certezas  sobre o bem e o mal, papel almaço e desfiles da primavera.

    Hoje? Vou me acostumando com as novas formas de narrativas, que nem novas são mais. Babel, InterMission, Crash. Realidades nuas e cruas, vidas e cenas aos pedaços, clarões que eram agrupados a partir de coincidências que serviam pra amarrar as fatias envoltas em papel vegetal e depois, papel reciclado rosa, verde ou pardo, presinho num barbante com mais o toco de um bambuzinho pra segurar o embrulho..

    Pode ser que mude de idéia. Por enquanto é isso aí. E, novamente, a Simone canta grosso. É isso aí. Mais perto, mais perto... 


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    [Aeternus:10164] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-03)


    - RE:Philip Roth, resposta do Gallego

    Gallego:
    Mas eu não falei de Portnoy que tb acho menos: eu falei de "A MARCA HUMANA" que é décadas mais recente do que Portnoy. 

    Jansy:
    Mas eu não achei Portnoy menos, apenas o considerei  dirigido principalmente para os meninos. Pra mim, exceto por algumas partes excelentes, tão repetitivo quanto a masturbação compulsiva e  o  anedotário do Joãozinho caso este soubesse escrever bem.  Folheando "A Marca Humana" ainda ontem reconheci o enredo: não foi o do filme com Anthony Hopkins e uma atriz ruiva ( tipo Kidman ou Moore, só que mais velha? Glenn Close não era.)  O estilo mais anódino, como os momentos mais límpidos da Joyce Carol Oates.  Vou separar um tempinho hoje para ler timtim por timtim porque o livro é mais do que a história.


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    [Aeternus:10167] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-03)


    - RE:RE:Philip Roth, nova resposta do Gallego

    O filme é um fiapo do livro: o enredo é muito bom, os atores foram mal escolhidos quanto ao physique du rôle - mas são tão bons atores que funcionam. Mas o livro tem digressões (como o enorme trecho sobre a professora de francês que denuncia o "abuso" ou assédio do professor transando com a faxineira) que são verdadeiros "contos" dentro do romance e da história central. A forma é brilhante.
    E a idéia da história desenvolvida a partir do moralismo americano quando do escândalo Monica Levinski - Clinton é genial.
    (LFGallego responde)

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    [Aeternus:10175] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-03)


    - contrastando VN & Roth

    Cf. http://www.thecrimson.com/article.aspx?ref=524397   para ler:
    ‘Indignation’ Incites Anger -The life of a 19-year-old is recounted from beyond the grave in Philip Roth’s novel 

    By RYAN J. MEEHAN
    Crimson Staff Writer
     
    “My characters are galley slaves,” Vladimir Nabokov told the Paris Review in 1967—and he was telling the truth. It isn’t difficult to imagine any one of his memorable protagonists as helpless prisoners, each chained to his oar on Nabokov’s ship—Pnin to indifference (against which he cracks), Kimbote to delusion (to which he succumbs), Humbert to lust (which drives him to kidnap and murder). The more forward motion these characters seemed to make, the clearer it became to the reader that they were stuck in the same place. But while Nabokov’s characters were ultimately the victims of their author’s mechanisms, they were also, fundamentally, the labors of a loving creator.

    It’s difficult to make the same case for Marcus Messner, the protagonist of Philip Roth’s 29th book, “Indignation.” As is now common in his novels, Roth writes autobiographically: Marcus is a young Jewish man from Newark, N.J., with a formidable intellect and an equally formidable anxiety.
     
     [ ... ]
     
    —Staff writer Ryan Meehan can be reached at rmeehan@fas.harvard.edu 
     


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    [Aeternus:10177] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-10-04)


    - RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós Jansy

    É de arrancar lágrimas dos olhos. E ela interpreta a dor, não somente a música: http://www.youtube.com/watch?v=lIrEewDVEhQ

    Sim, necessitamos das angústias; o homem sofre mais com a ausência dela do que com a presença. Isto poderia ser um toque narcísico? Creio que sim...

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    [Aeternus:10178] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-04)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós

    Já tinha assistido a Maysa cantar este "ne me quitte pas" que, desde a época dos Parapluies de Cherbourg ( foi lá que tocou a primeira vez pra mim e...era Jacques Brel?), nos causa assombro e que, com os closes no rosto despudorado e charmoso da Maysa, ganha ainda outras dimensões de intensidade.

    Quando não dá pra aguentar a angústia a gente apela pralguma droga, não era isso que até Freud quase preconizava como medida necessária? Mas não pode ser no excesso que oblitera tudo, até a vida, como foi a relação da cantora e o alcool. Ela passava o verão no Rio, na infancia,  na mesma rua em que morava um pedaço da minha família, um casarão em Botafogo. Quem lembra dela é minha madrinha e que tem histórias para contar e contou e esqueci como foram. Lembro apenas, e nem sei se invento em cima, que Maysa era uma adolescente precocemente despertada para a volúpia ( retomei esta palavra lendo o apelido que Coleman, personagem do Roth,dava a sua amante, explicando que tratava-se o nome da filha de psiquê). Anestesias demais, erotismo demais e, talvez, um problema temporal porque  o que nos vem cedo demais fica indigesto pra sempre. A angústia, neste caso, torna-se mais do que desumana. Fica sem espaço, expressão, interpretação ou delírio. Ou seja, é como "agonia", palavra expressiva para aquilo que não chega a ter registro psíquico mas agita o corpo inteiro que não encontra posição pra ficar de pé, sentar, deitar. 

    Estou adorando "A Marca Humana" do Roth. Em português mesmo. Andei importanto livros pela Livraria Cultura e recebendo explicações do atraso por causa de um problema alfandegário ligado à receita federal e tal. Historinha esquisita ( só me apreenderam livros vindos da Inglaterra uma vez porque o livreiro, bem intencionado, a eles acrescentou um brinde de canetinhas e canecas). Estou curiosa com uma citação, que me pareceu ser de Camões e não pode ser e deve ser Shakespeare ou Ovídio...achei legal o tradutor aproximar a frase da formulação portuguesa: amor é chama que arde sem se sentir.

    Não entendi a dúvida do Omar sobre a importancia da angústia para a vida estar ligada a um toque do narcísico. Em primeiro lugar porque acho o narcisismo uma experiencia fundamental ( apesar do mito dar a este quadro um nome inadequado porque não há sentido em Narciso sem considerar Eco) e por isso, narcisismo e angústia devem estar sempre juntinho. Talvez a angústia seja Eco? Ela definhou sem perder a voz, sem desaparecer, mas perdeu a voz própria e ficou só com a agonia...Narciso, ao contrário, se deixou afogar pelo prazer, um fraco. Vai ver que ele não sabia, como a Maysa, cantar.  A angústia "benéfica" (hein? digo, a que não é agônica) demanda narcisismo, exige o susto de se sentir jogado no abismo sem cair até o fim, o abismo do estranho, do radicalmente outro... Ou não? 


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    [Aeternus:10185] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-10-05)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós

    É verdade, a Maysa tem realmente um rosto despudorado, parece que sempre buscando o prazer...
    Sim, Freud falava das drogas como possíveis substitutas de algo. E, tudo tem um limite, até pra dor.
    O narcisismo é fundamental, né?... mas tem a ferida narcísica que dói pacas; é o outro lado desta experiência? E a angústia pode ser um eco do narcisismo. Certamente.
    Ri muito do que a Jansyta falou sobre o Narciso não saber cantar. O que será que ele sabia fazer além do olho mágico e do seu grande amor?

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    [Aeternus:10186] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-05)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:besoin de...pós

    Omar confirma isso e aquilo  e que não saí chutando o tempo todo ( um gol deve ser quando o que a gente diz aparece escrito por outro em outro local). 

    Feridas narcísicas são um problema porque  a gente se distrai com a dor e esquece de aprender a lição que vem por trás ( crau ) para corrigirmos a imagem que fazemos de nós e do mundo.

    Ontem li um artigo sobre Bion onde lembravam que ele usou uma figura para os impossíveis: "cantar batatas" ( podemos plantar, colher, comer e nunca cantá-las). Tem narciso canoro, mas acho que devia ter explicado que o do mito não cantava picas.


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    [Aeternus:10187] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-10-05)


    - RE:besoin de...pós / Nélson dos Tigres

    Rosto por rosto, dente por dente...o dos Tigres não livrou a cara de nenhum : "só o rosto é indecente.Do pescoço pra baixo podia-se andar nu."

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    [Aeternus:10188] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-05)


    - RE:RE:besoin de...pós / Nélson dos Tigres

    Ei, Florião, este é o verdadeiro Rex Talionis? ( melhor seria, um Lex Tigris?)

    Das platitudes do planalto central, alienadinha da silva, só agora entendi porque tanta notícia de troca de tiro pelo Brasil adentro, tudo ligado às campanhas eleitorais com a mobilização até de batalhões militares, mensagens sobre como justificar voto, velhinhos querendo ser mesários. Não é pra eleger o Presidente dos Estados Unidos. É pra votar em vereador e cargos assim.  Aqui a gente não tem esta chance, daí que não tinha me tocado até agora!

    Isso tudo pra dizer que não sei quem é o tal Tigre.


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    [Aeternus:10189] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2008-10-05)


    - RE: que outro Nélson tigroso...

    ...might that be unless Nélson Rodrigues ?

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    [Aeternus:10190] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2008-10-05)


    - olho por rosto, dente por dente...

    cheguei a pensar nele, essa coisa da nudez do rosto e tal, mas não tinha certeza porque tem tanto Tigrão, Leão, Lobão e Felinis pelo mundo que talvez pudesse haver outro mandelando na gente.

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    [Aeternus:10236] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2008-10-15)


    - RE:Philip Roth

    http://www.youtube.com/watch?v=zvCk5aitYz8
     

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    [Aeternus:11223] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-03-31)


    - Homens e lobos

    FSP, São Paulo, terça-feira, 31 de março de 2009


    JOÃO PEREIRA COUTINHO


    Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz.
    Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem.
    Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato. E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objetos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade.
    Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.
    Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.
    Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total. A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?


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    [Aeternus:11261] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2009-04-08)


    - Mulher é linguagem

    Toda mulher é uma viagem
    ao desconhecido. Igual poesia
    avessa ao verso e à trucagem,
    mulher é iniciação do dia,

    promessa, surpresa, miragem.
    De nada adiantam mapas, guias,
    cenas ensaiadas ou pilhagens.
    Controverso ser, mulher é via

    de mão única, abismo, moagem.
    É também risco máximo, magia,
    caminho íngreme na paisagem.

    Simplificando: mulher é linguagem,
    palavra nova, imagem que anistia
    o ser, o vir-a-ser e outras bobagens
     
     
    RUBENS JARDIM


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    [Aeternus:11262] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-08)


    - RE:Mulher é linguagem

    Todo homem é uma viagem
    quando fala da mulher. Igual poesia
    avesso ao senso,tende à trucagem,
    homem sonha até mesmo em pleno dia,

    promessa, surpresa, miragem.
    De nada adiantam mapas, guias,
    cenas ensaiadas ou pilhagens.
    Ele se vê e pensa que mulher é via...

    Mas não são todos no abismo e na moagem.
    Alguns correm o risco máximo, da magia,
    caminho íngreme na paisagem.

    Simplifico: homem e mulher são linguagem,
    palavra antiga que se renova em anistia
    se diz bem-dita, ama ou pontifica umas bobagens
     
     


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    [Aeternus:11263] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-08)


    - abobrinhas

    Somos tagarelas. Eu sou tagarela
    Entro no zumbido humano como quem
    Chega em casa, pra sair de novo.
    Até calada, sinalizo a esparrela
    Pisco, aceno, rio e também chovo
    Ninho, casca, gema e clara, ovo.
    No fundo, como todos, sou ninguém.

    Nosso planeta em segura rotação
    Uiva, rosna, sibila o movimento
    Talvez, como o sol, em explosão
    Incolume prossegue rumo à Vega
    Assim como ecoam as nossas vozes
    Que ensurdecem esse instável firmamento
    Dansam alheias à platéia cega.

    Capenga, ainda assim saí rimando ré com cré, mas, só fiquei nisso. 
    Poesia é coisa séria, é difícil. 
    Raramente me comovem rimas e esgrimas,
    Verso livre e nem tanto.
    Gastaram-se as palavras, o amor, aquela mulher, lua e pranto.
    Heroismo, nostalgia, fatos e grandes atos.
    Mas também não se gastaram, amarradas ao singelo
    Oculto numa Divina Comédia, uma linha breve...
    Quando renasce o mundo,  às vezes em surdina
    Ou no grito do belo, da dor, do exemplo
    E o mundo é uma festa, às vezes, funesta. 

    (Eu hem, Rosa. Melhor ficar na prosa)    




     

      


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    [Aeternus:11321] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-15)


    - Jab

    OESP - 14/04/09

    O menino está fora da paisagem  
    Arnaldo Jabor
     

    O menino parado no sinal de trânsito vem em minha direção e pede esmola. Eu preferia que ele não viesse. A miséria nos lembra que a desgraça existe e a morte também. Como quero esquecer a morte, prefiro não olhar o menino. Mas não me contenho e fico observando os movimentos do menino na rua. Sua paisagem é a mesma que a nossa: a esquina, os meio-fios, os postes. Mas ele se move em outro mapa, outro diagrama. Seus pontos de referência são outros.

    Como não tem nada, pode ver tudo. Vive num grande playground, onde pode brincar com tudo, desde que “de fora”. O menino de rua só pode brincar no espaço “entre” as coisas. Ele está fora do carro, fora da loja, fora do restaurante. A cidade é uma grande vitrine de impossibilidades. O menino mendigo vê tudo de baixo. Está na altura dos cachorros, dos sapatos, das pernas expostas dos aleijados. O ponto de vista do menino de rua é muito aguçado, pois ele percebe tudo que lhe possa ser útil ou perigoso.

    Ele não gosta de ideias abstratas. Seu ponto de vista é o contrário do intelectual: ele não vê o conjunto nem tira conclusões históricas - só detalhes interessam. O conceito de tempo para ele é diferente do nosso. Não há segunda-feira, colégio, happy hour. Os momentos não se somam, não armazenam memórias. Só coisas “importantes”: “Está na hora do português da lanchonete despejar o lixo…” ou “estão dormindo no meu caixote…”

    Se pudéssemos traçar uma linha reta de cada olhar do menino mendigo, teríamos bilhões de linhas para o lado, para baixo, para cima, para dentro, para fora, teríamos um grande painel de imagens. E todas ao rés-do-chão: uma latinha, um riozinho na sarjeta, um palitinho de sorvete, um passarinho na árvore, uma pipa, um urubu circulando no céu. Ele é um espectador em 360 graus. O menino de rua é em cinemascope. O mundo é todo seu, o filme é todo seu, só que não dá para entrar na tela.

    Ou seja, ele assiste a um filme “dentro” da ação. Só que não consta do elenco. Ele é um penetra; é uma espécie de turista marginal. Visto de fora, seria melhor apagá-lo. Às vezes, apagam. Se não sentir fome ou dor, ele curte. Acha natural sair do útero da mãe e logo estar junto aos canos de descarga pedindo dinheiro. Ele se acha normal; nós é que ficamos anormais com a sua presença.

    Antigamente não o víamos, mas ele sempre nos viu. Depois que começou o medo da violência, ele ficou mais visível. Ninguém fica insensível a ele. Mesmo em quem não o olha, ele nota um fremir quase imperceptível à sua presença.

    Ele percebe que provoca inquietação (medo, culpa, desgosto, ódio). Todos preferiam que ele não estivesse ali. Por quê? Ele não sabe.

    Evitamos olhá-lo; mas ele tenta atrair nossa atenção, pois também quer ser desejado. Mas os olhares que recebe são fugidios, nervosos, de esguelha.

    Vejo que o menino se aproxima de um grupo de mulheres com sacolas de lojas. Ele avança lentamente dando passos largos e batendo com uma varinha no chão.

    Abre-se um vazio de luz por onde ele passa, entre as mulheres - mães e filhas. É uma maneira de pertencer, de existir naquela família ali, mesmo que “de fora”, como uma curiosidade. Assim, ele entra na família, um anti-irmãozinho que chega. As mães não têm como explicar aos filhos quem ele é, “por que” eles não são como “ele” (análise social) ou por que “ele” não é como nós (analise política).

    Porém, normalmente, mães e pais evitam explicações, para não despertar uma curiosidade infantil que poderia descer até as bases da sociedade - que os pais não conhecem, mas que se lhes afigura como algo sagrado, em que não se deve mexer.

    O menino de rua nos ameaça justamente pela fragilidade. Isso enlouquece as pessoas: têm medo do que atrai. Mais tarde, ele vai crescer… e aí?

    O menino de rua tem mais coragem que seus lamentadores; ele não se acha símbolo de nada, nem prenúncio, nem ameaça. Está em casa, ali, na rua. Olhamos o pobrezinho parado no sinal fazendo um tristíssimo malabarismo com três bolinhas e sentimos culpa, pena, indignação. Então, ou damos uma esmola que nos absolva ou pensamos que um dia poderá nos assaltar.

    Ele nos obriga ao raríssimo sentimento da solidariedade, que vai contra todos os hábitos de nossa vida egoísta de hoje. E não podemos reclamar dele. É tão pequeno… O mendigo velho, tudo bem; “Bebeu, vai ver a culpa é dele, não soube se organizar, é vagabundo”. Tudo bem. Mas o mendigo menino não nos desculpa porque ele não tem piedade de si mesmo.

    Todas nossas melhores recordações costumam ser da infância. Saudades da aurora da vida. O menino de rua estraga nossas memórias. Ele estraga a aurora de nossas vidas. Por isso, tentamos ignorá-lo ou o exterminamos. Antes, todos fingiam que ele não existia. Depois das campanhas da fome, surgiram olhares novos. Já sabemos que ele é um absurdo dentro da sociedade e que de alguma forma a culpa é nossa.

    Ele tem ao menos uma utilidade: estragando nossa paisagem presente, pode melhorar nosso futuro. O menino de rua denuncia o ridículo do pensamento ‘genérico-crítico’ - mostra-nos que uma crítica à injustiça tem de apontar soluções positivas. Ele nos ensina que a crítica e o lamento pelas contradições (como estou fazendo agora) só servem para nos “enobrecer” e “absolver”. Para ele, nossos sentimentos não valem nada.

    E não valem mesmo. Mesmo não sabendo nada, ele sabe das coisas.


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    [Aeternus:11322] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-15)


    - RE:Jab

    Se menino de rua soubesse escrever e fizesse uma cronica, ele não teria uma quantidade pre-especificada de laudas a preencher e deixaria o texto mais enxuto. O começo do Jabor estava genial!!!

    Acontece que muitos meninos, como os do "fora" e do "entre" na paisagem do Jabor ( gostei muitísismo destas partes, dos espaços de luz que se abrem para evitá-lo e outras coisinhas igualmente ótimas), não sendo animais apenas, sem memória senão a dos dados para a sobrevivência, mas gente como a gente, acumulam outras informações e aprendem a jogar com isso. Não é possível nos aproximarmos deles com a inocencia amorosa com a qual pareceu-me que Jabor nos convida a interagir com eles. Prefiro Charles Dickens como denuncia e proposta indireta de sensibilização (mas pouca gente lê longos romances no entusiasmo de outrora, mas sempre cabe uma cronica. )


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    [Aeternus:11330] Mensagem do Grupo62
    -Patrícia(2009-04-16)


    - RE:RE:Jab

    Jansy,

    o menino está dentro, não fora, como quer o Jabor (não apenas ele).
    Sua memória, lembranças, são as mesmas de qualquer criança, mas que brinca com outros brinquedos enquanto brincam com a vida dele.
    Isso é muito sério e triste. Não mais do que ver idosos pedindo esmola, em minha visão, o mais novo ainda tem, na teoria, um futuro, e o outro?
    E por último, nossos sentimentos de medo ou dó nada valem ao menino, mas nosso sentimento de indignação sim, esse pode fazer o mundo mover-se.

    Abraço,
    Paty


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    [Aeternus:11331] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-16)


    - RE:RE:RE:Jab

    Não sei se entendi bem a Patrícia, ou ao Jabor, com a questão do "fora" e do "dentro".  Na cronica, entendi que Jabor denunciava a exclusão e a discriminação dos cidadãos e seus governantes eleitos. Apesar dele estar mencionando medo e dó  na cronica, ele também mobiliza a indignação. Assim sendo, fiquei confusa porque me pareceu que a Patrícia aparentemente discordava (mencionando uma "inclusão"), mas nem tanto.  Mas vá me desculpando: nesta semana venho tido tantas várias indignações que chego a estar de miolo mole. Meu sentimento particular, emburrecido, é de impotencia. Pra onde quer que eu dirija meu pensamento, tropeço e esbarro na minha impotencia. Por isso, minha indignação está sem direção, não move nada.

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    [Aeternus:11332] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:Jab, resposta do Gallego

    Para responder à Jansy em "Jab"

    Não é só a indignação da Jansy que não move nada; nossa indignação é compulsiva mas é como um esbravejar, cheio de fúria barulhenta ("the sound and the fury"de que Macbeth fala) que também não significa nada para os que estão no poder, cronicamente indiferentes aos - e até mesmo debochando dos - do andar de baixo, nosotros.
    Desde Dickens se fala de criança abandonada, "menino de rua". Filmes antigos tratam do assunto, "Dead End" de 1936, do William Wyler, "Los Olvidados" de 1950 de Buñuel, "Pixote", do Babenco onde  a vida tragicamente imitou a ficção).
    Eles são como o Unheimlich que nos causa medo por razões não só objetivas (podem ser violentos, sim), mas também...
    Há comoção pela existência deles, mas tb há raiva e vontade de que não os víssemos, que eles não existissem ou existissem bem longe de nós.
    Freud, citando Schelling, diz que  o estranho/sinistro é como algo que deveria ter permanecido oculto, mas que veio à luz. Os meninos de rua aparecem na janela dos nossos carros sem serem autorizados.
    Trazem à tona o desamparo - esta é a primeira sensação que evocam -  e evocam o nosso desamparo original também, e por isso uma identificação  se estabece ambiguamente pois ao mesmo tempo gera o desejo de morte de qualquer  outro/estranho/sdinistro que nos aparece sem serem desejados.Ou nao se pode  coletivizar o sentimento do estranho familiar? Ele é - dentro da 
    psicanalise - indivivual e singular.
    Outra categoria psicanalítica que pode ser evocada é a do "retorno do reprimido", sendo que o termo original traduizido como "reprimido", em alemão tem a conotação de algo que se deixou de lado como se quer deixar de lado a miséria que salta aos olhos a toda hora. Indesejáveis, invisíveis, mas invencíveis: eles voltam. Só não vê quem fecha os olhos. "Olhos amplamente fechados" como nom título do último Kubrick
    Gallego
     

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    [Aeternus:11341] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Jab, resposta do Gallego

    Aproximação elegante e concisa: os mendigos como "Unheimlich." Boa sacada, bela janela, bela camisa Fernandinho.


    Além do conceito freudiano (via Schelling, que não enfatiza a simultaneidade do familiar com o estranho que caracteriza a experiencia, nesta citação sua) você mencionou duas identificações ( ou mais): com o desamparo original e os movimentos esquizo-paranoides (ou de narcisismo primário) de eliminação do "não-eu". O "outro" é como "eu" pelo seu desamparo, e simultaneamente ele é o mais radicalmente distante de "mim" porque eu "pertenço" ( ao carro, aos impostos, a loja, a comida, ao teto) enquanto ele sobrou, de malvado ou incompetente, só para ameaçar meu lugar... Talvez possamos pensar em retorno do recalcado no sentido da cultura em geral, pois no nivel individual as angústias ficam ainda mais primitivas e assassinas, ou, se denegadas, engolfando acolhedoramente em asilos e adoções (abraçam o corpo e não a liberdade do outro). 

    E eles voltam, sempre voltam... Será que é como diz Lacan do Real? Os olvidados e excluídos seriam sempre algo, no humano, não representado, simbolizado, imaginado e portanto, irreconciliavelmente Real?   Tentei esta formulação, mas ela me aflige pelo que traz não de "inevitável", mas de irremediável. Espero estar errada.


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    [Aeternus:11343] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-16)


    - Meninos de rua e o Lete

    Sobre as crianças de rua, tenho momentos de indignação, de resignação e de anestesia.

    Num desses momentos de anestesia, fui acordado da indiferença pela semelhança do garoto de rua com um sobrinho meu...

    Está aí o Lete para passar uma borracha em tudo. Espero pelo menos pegar um purgatório. Com bom comportamento, trabalhando na prisão, posso conseguir uma liberdade condicional (aliás, tem liberdade que não seja condicional?).

    "Vós que aqui entrais, deixeis de lado toda a esperança" (Dante). Ou algo semelhante.

    Guto


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    [Aeternus:11344] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-16)


    - RE:Meninos de rua e o Lete

    Não sei se o Guto tem uma experiencia parecida com a minha, de brasiliense. Tem mendigos que conheço há vinte anos (uma delas era menina e agora, rapidinho, já é avó) e, de alguns, ouvi histórias. Feito um senhor de cadeira de rodas no sinal perto da igreja do Perpétuo Socorro. Fizesse sol ou chuva, calor de rachar com secura ou um dia bonito, ele estava ali. Muitas vezes eu apenas o cumprimentava ( que jeito, parada no sinal!). Soube que o que ele recolhia não era para si mesmo, mas que sustentava uma pequena creche numa cidade satélite. Ele mesmo não dizia nada. Tem outros, perto do Macdonald's da Asa Sul, com placar de explicações.  O garoto que vende mel é louro e cor de mel também e fica tudo brilhando, mas ele se aproveita disso e parei de comprar porque ele perdeu a inocencia. Tem uma família que aparece uma vez por mes para tomar banho de bica e me pede sabonete. Mais nada. Já teve criança que fugiu com talher e prato... Teve um menino que ganhou de mim um hamburguer caprichado e no dia seguinte veio com outros dez. Tem o velhinho que recolhe lata velha. Há uma história sempre. Muitos não querem mudar de vida.

     


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    [Aeternus:11348] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-16)


    - RE:RE:Meninos de rua e o Lete

    Jansy,

    Receio que a maioria das pessoas não queira mudar de vida, não.

    Talvez eu seja cético, mas a mendicância é um meio de vida, como uma barraca de feira, ou um diploma. Esse juízo moral do trabalho digno, "fichado", bíblico é um valor relativo, impermeável para muitos.

    O universo do pária é um universo tão bastante em si que, lá, o sujeito nem mesmo é um pária. Talvez ele (ou ela) seja um exemplo de "trabalho" e rentabilidade na sua rua. Tem uns de barbinha rala e chapéu, que dá pra ver que são recém-chegados, retirantes.

    Têm as obesas (algumas não tanto) que ficam sentadas enquanto as crianças pedem. Tem as apelativas, com uma criança no colo, quase sempre dormindo (dizem que é leite com cachaça, não necessariamente nessa ordem).

    Tinha duas meninas em BH num sinal, irmãs, que vendiam chiclete. Estudavam de manhã e "trabalhavam" de tarde. Articuladas, bem dispostas, sem peso nos olhos, ficaram minhas amigas. Talvez consigam sair dessa roda-viva. Ou não.

    Uma prima tem um amigo belga, que casou com ela há muitos anos, de fachada, só pelo visto de permanência. Está aqui no Brasil visitando uma namorada. Uma figura. Com aquele cabelo ensebado de inverno europeu, brinca com as crianças, é um sujeito alegre etc. Vive de grana do Estado. O tal do "chomage". Isso há muitos anos. Deve estar beirando os 50 anos e acho que nunca trabalhou. É um mendigo chique, europeu, estuda filosofia, mas um mendigo.

    Guto


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    [Aeternus:11349] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-16)


    - RE:RE:RE:Meninos de rua e o Lete

    Os mendigos por escolha, os eternos bolsistas, o pai da Elisa Doolittle, e até funcionários em permanente licença... como pensar no elo deles com a sociedade, quando vistos assim em conjunto (tipo o belga da "chomage")? 

    Há diferenças gritantes quando pensamos que alguns votam, amam a família, pagam impostos, enquanto outros não fazem nada e se isolam como párias, sem o ser. Qual a nossa responsabilidade perante eles, supondo que exerceram algumas escolhas? O grupo, como no musical dos Saltimbancos, curte suas "gatas"?
    Quem me interessa mais vivamente são os que não tem como escolher. E a turma que E.M.Forster designou de "pobres de guarda-chuva" ( e pagam imposto sobre isso!).  Meu espanto é o de sempre: minha ignorancia. 


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    [Aeternus:11350] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-16)


    - criatividade no jardim de infancia

    Uma amiga contou que sua neta, chamada Cecília, vinha sofrendo na escola porque um menino a chamava de Xixilha. Ela ficou ouvindo as histórias, consolando a garotinha, pacientemente. Um dia a encontrou sorridente e de alma lavada. É que a Cecília resolveu brincar de volta com o colega inconveniente - e passou a chamá-lo de Fredericocô.

    Pequenas historinhas. Tipo "Peanuts", onde quase não vemos os adultos (como acontece com um monte das revistinhas americanas, ao contrário da Mafalda)

    O dever de escola do meu neto, de dez anos, pedia: "Dê um exemplo de corrupção. Não pode ser de situações da política atual."  Nossa! Há algumas semanas ele aprendeu sobre inflação e recessão, fez contas sobre cambio. Nos meus tempos não tinha nada disso.


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    [Aeternus:11374] Mensagem do Grupo62
    -Patrícia(2009-04-18)


    - RE:RE:RE:RE:Jab

    Sinceramente, não gosto mais das idéias do Jabor (acho que gostei um dia, achava ele inteligente, engraçado). Creio que porque hoje vivo do lado da miséria e acabo discordando muito porque não é assim que sinto as coisas.
    Explico, não prefiro que o menino de rua não venha porque tenho medo da morte ou da desgraça. Não é isso, já começou errado. Ele parte de um ponto de vista que não é o meu.
    Tenho raiva, mais do que medo, porque acredito que o menino faz parte do sistema em que vivemos (por isso não "está fora", é parte integrante, a exploração infantil sempre teve seu papel na história do capitalismo).
    Como conseguimos comer quando tanta gente passa fome? Isso me angustia. O menino me lembra exatamente disso, do cinismo, da capacidade de tocar a vida sem se importar. A esmola é um meio de nos sentirmos menos mal, os católicos que o digam, a classe média também. Mas não resolve o problema, sabemos.
    A crítica não serve apenas para nos enobrecer ou absolver, como diz o Jabor, ao contrário, ela serve para nos alertar de nossa estranha capacidade de esquecer. Seja do nazismo, seja da barbárie cotidianamente compartilhada em cada esquina, a miséria.
    Jansy, sua indignação move muita coisa sim, te move. A gente cria, escreve, vislumbra, porque quer entender, a gente trabalha por um sentido, isso parte da nossa indignação, oras. E renderá frutos, se conseguimos contagiar outros. E, sei que é difícil, mas saber que não estamos sozinhos, que existem outros que pensam como a gente, nos faz continuar firmes na luta. Isso vale tanto para o intelectual quanto para o menino de rua. Compartilhemos!!!

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    [Aeternus:11375] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-18)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Jab

    Sem reler a cronica do Jabor depois das suas considerações, Patrícia, vou arriscar com o que ficou na lembrança. Não gosto, senão raramente, do Jabor. Não estou defendendo o ponto de vista dele enquanto tal, mas a impressão que tive foi de que ele não estava apenas descrevendo como ele via o menino de rua, mas como todo um grupo ( ao qual ele talvez pertença, como você demonstra) enxerga. Neste sentido a cronica dele tem cabimento.  Pode falar e ser ouvido por esse grupo e alertá-lo para algumas coisas, digamos, excessivas. O menino de rua faz parte do quadro geral que resulta do sistema em que vivemos: por isso não está fora, concordo. Entretanto este conjunto de fatores interligados é complexo demais para que possamos lidar com ele ainda em tempo da vida deste ou daquele menino.  Acredito que é necessário debelar a doença, mas dar aspirinas e vitaminas também ( esmola personalizada, uma "adoção" parcial). E, confesso, não sei qual a saída para curar esta doença social. Porque aprendi que a entrada para lidar com ela não resulta de termos mais e melhores escolas, salário família digno, merendas equilibradas, bibliotecas públicas, saúde, saneamento básico. Nem táticas tipo "panem et circensis", que também são eficazes, até certo ponto, porque levam em conta a necessidade de diversão e o ócio. O que me aflige é que uma intervenção generalizada implica em aplicar segundo uma escala de valores que corresponde ao modelo de quem faz a intervenção, ou seja, será uma violencia mascarada de generosidade, higiene, evolução. 

    Todas utopias sobre as quais li, além de utópicas (sem tempo e sem lugar e sem realidade "humana"), me parecem propor soluções que são piores do que as pequenas livre-iniciativas. Acredito numa legislação que permita atitudes democráticas que possam acontecer em todos os níveis de alguma organização ( e, por democrático, não quero dizer que concordo que o voto seja "igual" para todos, que faxineiros possam eleger o reitor de uma universidade com mesmo peso contábil na estatística - não sei o vocabulário pra isso - que os que estudam a sustentabilidade de uma dada universidade, a administração dos seus recursos, a qualidade do ensino, as opções a serem priorizadas) e, o pouco que conheci na área do trabalho que vem sendo implantado há uns dez anos ou mais ( não de cima pra baixo,mas celularmente e de modo crescente e expansivo)  me dá alguma esperança.  Mas, confesso, tenho uma visão clara e nem tenho paciência e competencia para adquiri-la. Se tentar expremer algum caldo do que disse preciso limitar-me a uma convicção, que não é partilhada com a maioria: qualquer modelo que brote de uma imposição do maior ao menor, do geral ao particular, de cima para baixo é uma proposta de violencia que não conduz a uma "revolução" genuina, apenas a uma mudança caleidoscópica das posições das peças. Que engraçado, acho que sou "evolucionista". Mas nem tanto...ie,voltei à estaca zero ( foi só lembrar que o poder corrompe, que a inveja destrói, que a crueldade existe gratuitamente, que multidões que gozam com a desordem e os incendios...)   


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    [Aeternus:11376] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-19)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Jab

    Ontem apaguei um "não" e a frase ficou, como num lapso onipotente: "Mas, confesso, tenho uma visão clara e nem tenho paciência e competencia para adquiri-la."  Quis corrigir mais tarde, mas estava cansada demais e adiei para hoje.  Estive em Goiania para seminários sobre Bion e ainda tomada pela suposição natural deste último, seguindo Wilfred Trotter, de que "o ser humano é um animal de rebanho, de horda" (humans are herd animals) e a imagem de liderança que Bion extraiu do mundo animal: o lider do bando de pássaros que fica na ponta do "V" e que só sobrevive a pressão porque há revesamento constante.

    É uma maneira de olhar para as coisas. Para quem tem visão aérea, pode pensar em Lenin e na NEP, confirmando ali um augúrio sobre a estatização dos bancos pelo Obama (duvido disso). Pode ser que esta claravisão extra-terrestre, sem admitir uma divindade transcendental, se coloque em seu lugar como "designer" (não no sentido de um desenhista de moda, mas de "desígnio" - ou talvez sim). Eu continuo apostando numa coisa darwiniana, entre acaso e um empuxo histórico operando na repetição do padrão fractal ( a pequena mudança interage com a grande mudança e uma determina a outra).

    Help. Ia apenas corrigir um erro que não foi lapso. Não noto quando uso o delete e o insert errado e ao escrever vou apagando minha onda de letras na areia... (Aliás, minha admiração pelos jesuítas que vieram para catequizar os aborigenes americanos é bem grande e perplexa)

    Destes alienados no passado, eis uma frase bonitinha do Nabokov:

    "On a summer morning, in the legendary Russia of my boyhood, my first glance upon awakening was for the chink between the white inner shutters. If it disclosed a watery pallor, one had better not open them at all, and so be spared the sight of a sullen day sitting or its picture in a puddle."

    Ao acordar numa manhã de verão, na legendária Russia da minha infancia, meu primeiro olhar dirigia-se à rachadura entre as persianas brancas do meu quarto. Se ela revelava uma palidez aguada era melhor não abri-las para ser poupado da visão de um dia mal-humorado que estaria posando para um quadro numa poça.


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    [Aeternus:11377] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-19)


    - Davy et Les Miserables

    A midia agora retomou a doméstica cantora que está encantando as platéias e Davy me enviou o link. Peguei a letra de "I dreamed a dream" de Les Miserables. O link vai abaixo.[FANTINE]
    There was a time when men were kind
    When their voices were soft
    And their words inviting
    There was a time when love was blind
    And the world was a song
    And the song was exciting
    There was a time
    Then it all went wrong

    I dreamed a dream in time gone by
    When hope was high
    And life worth living
    I dreamed that love would never die
    I dreamed that God would be forgiving
    Then I was young and unafraid
    And dreams were made and used and wasted
    There was no ransom to be paid
    No song unsung, no wine untasted

    But the tigers come at night
    With their voices soft as thunder
    As they tear your hope apart
    And they turn your dream to shame

    He slept a summer by my side
    He filled my days with endless wonder
    He took my childhood in his stride
    But he was gone when autumn came

    And still I dream he'll come to me
    That we will live the years together
    But there are dreams that cannot be
    And there are storms we cannot weather

    I had a dream my life would be
    So different from this hell I'm living
    So different now from what it seemed
    Now life has killed the dream I dreamed.


    >> >
    >> > Vejam isso (copiar e colar):
    >> > http://oglobo.globo.com/cultura/revistadatv/mat/2009/04/14/susan-boyle-de-desempregada-candidata-cantora-estrela-da-internet-755266031.asp
    >> >
    >> >

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    [Aeternus:11389] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-22)


    - RE:Davy et Les Miserables

    Vi a Susan Boyle! É sempre bom saber que as aparências enganam e que os sonhos podem se tornar realidade.  Paty


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    [Aeternus:11403] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-22)


    - RE:Davy et Les Miserables

    Davy, o mundo agora só fala em Susan Boyle. Virou um fenômeno da mídia que me comove pela extrema simplicidade com que se apresenta ao público... Não deixa de ser surpreendente que uma gordinha, de 47 anos, que vive com seu gato e nunca foi beijada, tenha se transformado numa estrela... Dobrando o mundo das aparências com seu vozeirão, passando por cima dos conceitos-padrão do mundinho das dondocas, patricinhas e chiques-cults... No início daquele programa os jurados e a platéia tiveram atitudes absolutamente cínicas em relação a ela que... não se abalou e até brincou com a falta de "atributos!, rebolando e dizendo acerca da idade: "E isto é apenas uma parte de mim..." 
     
    O vídeo dela no Youtube já foi visto 100 milhões de vezes. Só pra comparar, estão informando que a posse de Obama foi vista na rede por 18,5 milhões de pessoas. E agora Susan recebe propostas, até mesmo a proposta indecente de fazer um filme pornô, além de convites de várias gravadoras. Enquanto pensa sobre o rumo a seguir, ela continua morando numa cidadezinha da Escócia com seu gato Peebles... e continua cantando para os amigos e enquanto estende a roupa no varal.
     
    Sobre as propostas, dá mais um vez uma resposta singela:
     
    "Vou dar passos bem pequenos, passos de bebê..." Quanta humildade!! E bem merecia a "graça" de não ser engolida pela mídia... but...
     
    DE qualquer forma fica a pequena lição de que o mundo ainda precisa de alguma candura... e, quando ela surge magicamente, os pobres de espírito caem de quatro... como não??? 
     
     
    beijoss.
     
    (E serão a mesma coisa o "destino" e a "sorte"??)

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    [Aeternus:11406] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-23)


    - RE:Davy et Les Miserables

    Comparo o fenômeno midiático internético da senhora de 47 anos que canta como Celine Dion ao mesmo fenômeno de popularidade do tenor cego Andrea Bocelli.
    Se não fosse cego, Bocelli não teria o destaque que vem tendo: ele é, no máximo, um tenor de timbre agradável, mas (também no máxinmo) seria um cantor de voz empostada para musicais da Broadway ou operetas. Quando ele canta trechos de óperas que exigem algo mais (na extensão vocal, na técnica, njo fraseado e na interpretação) a coisa não vai tão bem. Sem ter uma limitação física, comovente sem dúvida, seria um a mais entre tantos que existem nos palcos de musicais do "primeiro mundo" e que só há alguns anos vêm aparecendo por aqui: tenores (e sopranos, barítonos, mezzo-sopranos) populares. Não há nisto necessariamente nenhum demérito, apenas surge uma confusão de valorização. Bocelli está há anos-luz da técnica e competência musical de um Placido Domingo ou mesmo do mais novo Rollando Villazón.
    Da mesma forma, a senhora baixinha, gordota e sem charme físico para os padrões de elegância atuais não estaria tendo a repercusão que está tendo se tivese um tipo mais "de acordo" com o que é comum na midia fabricada das TVs, filmes e revistas de "celebridades". Esclareço que acho a Celine Dion um porre, muito chata, naquele entreton que nem é cantora lírica nem popular, com exibicionismos de agudos "virtuosísticos" de gosto duvidoso. Com esta comparação quero dizer que a voz propriamente dita da Susan Boyle não me impressiona tanto nem me agrada particularmente: tem um timbre satisfatório e alguma extensão vocal, mas não me me cativa pela voz em si mesma. Fico satisfeito que ela alcance algum tipo de sucesso e de recompensa financeira (como o Bocelli), mas acho que  que está impressionando é o fator-surpresa a partir da dissociação preconceituosa que julga antes de mais nada a aparência de Gata Borralheira antes da fada madrinha enfeitá-la para o baile e se choca com a voz de Cinderela de filme de Walt Disney.
    Outra coisa que não me agrada no clip é a falsidade com jeitão de "reality show": os produtores (e os jurados cretinos como sempre neste tipo de programa velho de guerra) sabiam que a tal senhora tinha mais voz do que (imaginamos que sejam) os habituais calouros do programa e armaram um suspensezinho para inicialmente o público ser levado à certeza de que a moça ia ser um fiasco, uma patética "sem-noção" que dá uma reboladainha em cena antes de abrir a boca. Mas que quando ela abre a boca: OOOOOHHHH! Nosso pré-preconceito está fazendo com que admiremos a simplicidade e humildade da moça feia com voz "bonita" (empostada). Para mim, é mais circo do que outra coisa. Aliás, televisão é basicamente circo. E "novela" do tipo "Slumdog Millionaire", escapismo para tempos de crise.
    Gallego (o limão que não é "galego", mas é azedo)
    Neste meio termo entre o canto popular não-empostado e a voz com dós de peito de operetas, raramente alguém se salva de verdade em termos qualitativos. Quando Julie Andrews era jovem e tinha voz ou quando a Barbra Streisand não exagerava na "interpretação enfática", tínhamos bons momentos. mas nem uma nem outra pretendeu cantar ópera. E os musicais da Broadway da época tinham melhores partituras, menos pausterizadas do que as do Lloyd Weber. Só para lembrar alguns que ficaram famosos em todo o mundo por suas versões para o cinema: "West Side Story", "My Fair Lady", "The Sound of Music", "Cabaret",

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    [Aeternus:11408] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-23)


    - RE:RE:Davy et Les Miserables

    Um show midiático, Sr. Limão Necessário. Você faz sua análise com precisão. Mas tem um problema: a gente gosta de ser enganado às vezes. Gosto do Slumbillionaire, gosto do A.L.Weber ( pasteurizados ou não, aliás hoje notei que na embalagem de leite aparece agora UHT, ou seja, Ultra High Temperature) mas... sei o que você está criticando: é que este gosto não é "sério", não é maduro.  

    Aceito a reprimenda. Afinal eu adoro o Bob Esponja calça-quadrada e hoje adorei um filminho sobre George na Selva ( sonhava ele com a criação do mundo e ganhava uma corrente como plug para desligar o sol que saia voando amarelo, como um balão desamarrado, mas colocava um ovo que era a lua e vinha a  noite. Puxando o plug outra vez, a lua se partia em dois, como ovo, e a gema virava o sol )
    Meu prazer é como Deus: se escreve direito com linhas tortas!

    E, agora mais séria, retorno ao parabéns sincero pela crítica.


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    [Aeternus:11410] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-23)


    - RE:RE:RE:Davy et Les Miserables

    Pois é, Jansy, mas eu fiquei chocado com "Slumdog Millionaire" e seus truques de enganar a gente. Aí eu fico irritado. Pois eu quero - eu preciso! - ser enganado por um filme, um livro, uma música, mas assim não dá.
    Adoraria gostar de todos os filmes que vou ver, mas não dá, cada vez gosto menos de muitos filmes e só gosto mais de muito poucos...
    E nada contra o Sr. Lloyd Weber: até gosto bastante de "Don't Cry For Me , Argentina" (de "Evita"), curti na época a "Everything's all right" (de "Jesus Cristo Superstar), gosto de "Memories" (é este o nome?). Mas geralmente ele emplaca UMA canção marcante em cada musical; as demais são chatíssimas e parecedíssimas entre si (pateurizadas).
    Enquanto isso "West Side Story" tem um repertório colrido, variado, brilhante - de ponta a ponta; "My Fair Lady" não tem nenhuma música feia (e as letras são bem inteligentes!), "Cabaret" é um arraso em um tema "impossível" para musical, "Camelot" é bem legalzinho - mesmo sem ser tão bom como "My Fair Lady" (comparo porque é dos mesmos Lerner e Loewe); e até mesmo a glicosada "The Sound of Music" [que foi traduzida aqui como "The" = "A" ; "Sound" = "Noviça; "of Music" = "Rebelde"] tem canções agradáveis, mais variadinhas e funcionais. Para não lembrar os clássicos de Gershwin e de Cole Porter para peças e filmes, porque com esta comparação "Lord" Lloyd Weber poderia (deveria) seguir a máxima do Rei de España: "Por que não te calas?"

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    [Aeternus:11414] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-23)


    - Susan Boyle

    Davy, acho interessante o ponto de vista que vc esboça aqui sobre o fenômeno Susan Boyle, questionando "como ficam os outros que não têm nada de especial?"
    Sobre os artigos que vi até agora sobre o assunto, João Pereira Coutinho fala em... sorte. Calligaris pega pela comovente simplicidade dela pelo talento a desarmar a plateia. Eu preferi trilhar pelo preconceito (Gallego tb) prévio do público que é o que mais me instiga a questionar este "mundinho" das aparências e - por que não? -, da televisão, que transforma programas de calouros em shows de exposição ao ridículo..Acho isso um estímulo aos preconceitos!
     
     
    Mas, apesar de tudo, vcs (Jansy e Davy) têm razão quando colocam o ser humano como o ser mais importante deste mundo, a partir do qual as referências se estabelecem, apesar de sermos infinitamente menores que o universo... E as pessoas confundem mesmo  o "marco zero" com o depreciativo "zero à esquerda" por incompreensão semântica. No geral, as pessoas têm grandes dificuldades em compreender significados de palavras e sua aplicação aos contextos...enfim.
     
    Quanto ao amor, não tenho dúvidas de que é um referencial que modifica nossos pontos de vista.Não vê como uma mãe é capaz de enxergar seu filho drogado ou como uma mulher distingue seu amado em toda multidão??  PAty 


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    [Aeternus:11415] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-23)


    - RE:Susan Boyle

    Quando antes de todo mundo Davy enviou a notícia sobre Susan Boyle, agradeci a ele quase formalmente dizendo: "já tinha visto, mas gostei de assistir novamente."   Quando me deparei com a enorme divulgação na mídia ( estou lendo que Demi Moore interpretará a cantora-doméstica!) fiquei surpresa porque, afinal, não havia mentido para o Davy. No máximo, me enganei. Mas... de que jeito?Tentei obter datas sobre a ocorrencia original e não deu certo. Tudo indica que foi há poucos dias mesmo... Foi por isso que a proposta de uma "armação" feita pelo Gallego me atraiu. Creio que posso ter visto montagens parecidas, com outras cantoras, em que os jurados fazem cara de surpresa, a pessoa é apresentada como grande revelação e no final, dá em nada. Então na memória de quem viu o clipe fica só um esquema geral...calouro, canção de sucesso, afinação, jurados fazendo careta e dando nota dez.  A história de Susan é comovente, a voz dela é agradável...e o enredo vai se construindo em cima disto. Havia cenas dos fotógrafos cercando uma casa que, com certeza, vi até em um filme com a Katy Bates. Não sei se era na Austrália ou na Escócia, mas as casinhas e o mato e os fotógrafos eram déja-vus. Uma história de alguém famoso, por algum motivo, que... não lembro mais. 

    Hoje é aniversário do Nabokov ( nasceu há 110 anos). Shakespeare e Cervantes há mais tempo ainda....

     


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    [Aeternus:11416] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-23)


    - RE:Susan Boyle

    E também, como a Paty, fico na questão levantada pelo Davy: " E os outros que não tem algo especial?"

    Lembro de ler vários romances na adolescencia em que havia um senhor solitário tomando sopa, diariamente sentado à mesma mesa de um restaurantezinho local. Sartre. Ellery Queen.

    "All the lonely people, where do they all belong?" 

    Enquanto temos "amigos imaginários" ( ou comunidades, familias, times), como crianças que conversam como "Marcelino Pão e Vinho," com um estranho no sótão, não nos percebemos solitários, mesmo quando faltam pessoas a nossa volta, ou elas não nos compreendem como desejamos.

    Bion, o psicanalista tímido, às vezes convidava os candidatos em seminário a encontrarem "sua turma" independente da escala de espaço e tempo. Sonhar que se caminha com Sócrates em incessante debate, se ouve o Chico, se assiste ao Nijinsky, se escuta Brailowsky ou se joga futebol com Ronaldinho Gaúcho, assiste Casablanca, ouve o Messias contar parábolas.....?????????????????????????  Sei não. Pelo menos a gente se livra da mídia sobre corrupção, ou das reuniões de condomínio.


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    [Aeternus:11417] Mensagem do Grupo62
    -Patrícia(2009-04-23)


    - RE:RE:Davy et Les Miserables

    Gallego preferiu fazer uma crítica artística e, de certa forma, afirma que a "sorte" de Susan Boyle é ser feinha...ou a de Andrea Bocelli é ser cego....o que nada tem a ver com talento. Não deixa de ser uma leitura válida, meio cruel é verdade....
     
    Mas ele tem toda razão quando coloca em xeque a veracidade do programa e suspeita de armação..não tinha pensado nisto, mas é bem provável, mesmo porque um dos jurados é hoje o produtor musical da Susan. Ou seja, a cama da fama já foi armada láááá atrás...a partir de um elemento comovente como a rejeição...A letra da música escolhida tb corrobora com o contexto dos sonhos que se desfazem. E toda imagem da Gata Borralheira que sonha ser Cinderela.
     
    Há tb um viés que ninguém que explorou, que considero fundamental: os "fenômenos" acontecem e  passam, mas os preconceitos ficam...O público do programa de calouros parece que se redime de sua visão distorcida sobre a capacidade da Susan, mas, na verdade, não há mudança essencial ali, apenas aquela proporcionada por um momento de "bons princípios midiáticos"...altamente suspeitos. No campo da discriminação, mudanças essenciais só acontecem a fórceps, à custa de muita ação política, como o do movimento gay, que admiro...Mudanças essenciais não ocorrem pela força nem o encantamento dos contos de fadas, tampouco  pela força dos enredos dos "musicais"...
     
    Quanto a Susan artista, gosto da sua voz embora não faça meu estilo. Mas acho que canta e interpreta de forma expressiva, tem presença no palco...

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    [Aeternus:11444] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-04-27)


    - RE:RE:Susan Boyle em 1995

    Gallego escrev:
    Susan Boyle havia tentado  um programa de claouros há 14 anos, mas não aconteceu.
    Para confirmar que televisão é pior do que circo romano - de onde se origina diretamente ( e este  é o motivo pelo qual estou indicando o site onde a tentativa frustrada da Susan pode ser vista ) - quem for ver o que aconteceu na época vai ver o faustão lá deles deitado no chão olhando por baixo da saia da moça que tenta lhe dar um coice (que seria bem merecido). O escroto agarra a moça e lhe dá (ou finge dar) um beijo cinematográfico - o que poderia desmentir a afirmação dela de que nunca foi beijada, mas iso não importa.
    A voz já era a mesma, ao meu ver tão enjoadinha quanto "possante", a música escolhida é do mesmo compositor de musicais (Lloyd Weber), daquelas bem pausterizadas de "Jesus Cristo-Superstar".
    O circo estava armado para ridicularizar a feinha de voz forte.
    Agora montaram o circo para revelar um "milagre" (voz bonita em aparência física desfavorecida).
    Honestamente, acho que é quase a mesma coisa em termos de exploração de pessoas comuns com um sonho difícil de realizar por apar~encia física fora dos padrões ou por inadequação mesmo> Mas fiquei naturalmente muito indignado de ver o sujeito ridicularizando a moça daquele jeito.
    Confiram, se quiserem:
    http://www.youtube.com/watch?v=0g9WS3z3jAw

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    [Aeternus:11445] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-27)


    - RE:RE:RE:Susan Boyle em 1995

    Gallego, você está respondendo a minha mensagem anterior? Olha o que eu escrevi:

    "Quando antes de todo mundo Davy enviou a notícia sobre Susan Boyle, agradeci a ele quase formalmente dizendo: "já tinha visto, mas gostei de assistir novamente."   Quando me deparei com a enorme divulgação na mídia ( estou lendo que Demi Moore interpretará a cantora-doméstica!) fiquei surpresa porque, afinal, não havia mentido para o Davy. No máximo, me enganei. Mas... de que jeito?Tentei obter datas sobre a ocorrencia original e não deu certo. Tudo indica que foi há poucos dias mesmo... Foi por isso que a proposta de uma "armação" feita pelo Gallego me atraiu.  

    Quer dizer que a Susan Boyle já havia tentado o show em 1995!
    Antes eu tinha ficado intrigada porque lembrava e parecia ter me enganado. Agora estou pasma porque lembrava e fazem quatorze anos? Continuo achando que me enganei. Mas que vi algo parecido, ah... vi sim. Vi o gatinho. Um gatinho.


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    [Aeternus:11743] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-06-02)


    -

    Internação

    Ele entrava em surto

    E o pai o levava de

    carro para

    a clinica

    ali no Humaitá numa

    tarde atravessada

    de brisas e

     falou

           (depois de meses

    trancado no

    fundo escuro de

    sua alma)

    pai

    o vento no rosto

    é sonho, sabia?

    Ferreira Gullar

    (pai de dois filhos esquizofrênicos - reacende discussão sobre reforma psiquiátrica no Brasil)


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    [Aeternus:11744] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-06-02)


    - RE:

    A COMPLICADA ARTE DE VER
    (Rubem Alves)

    Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões... é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

    Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales" , de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

    Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

    William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

    Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

    Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural.
    Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

    Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram- no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa: garrafa, prato, facão era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

    A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

    Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

    Por isso, porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos". ..


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    [Aeternus:11745] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-06-02)


    - RE:RE:Cebolinhas

    Descobrindo os prazeres da cozinha, no começo do casamento, tentei colocar a visão em palavras ( e em duas versões) porque, para mim, não basta ver o mundo com atenção, é preciso ainda saber passar adiante o que se experimenta. Só que entre as formas de se transmitir uma percepção nova, talvez, a poética, enquanto poema, seja a mais difícil.

    Porque sair com crianças à noite para ver estrelas, fotografar uma série de arco-iris, catar vagalumes para guardar num pote cintilante é importante, e ficar quietinha numa rede com uma criança no colo que vai ouvir um sabiá ou fazer bolhas de sabão...Lavar roupa de boneca, pintar ovos de páscoa, enfiar missangas na pulseira, molhar os pés na chuva , são vivências líricas, mas que se esgotam no próprio movimento em que são vividas e sua passagem segue rumos inesperados, escapam da medida e do controle da palavra escrita. 

    O hai-kai está inserido no mundo japonês e sua complexa aparente singeleza fica incrustrada no empuxo daquela paisagem e sociedade. Poetar sobre pétalas da cerejeira e sapinhos, sem a montagem daquela cultura, mesmo com canção ou desenho, é algo mais da ordem do capricho que de sustança. 

    (tudo acima é um desabafo porque as coisas escorrem, passam e ao mesmo tempo não passam, voam e se congelam no mesmo instante...)

    Vamos aos meus legumes dos anos sessenta:

    Cebolinha na conserva
    Acre-rosa no palato
    Desfolha a sua transluscência
    Isto apenas.

    Preserved onions in a jar
    Rosy still and acrid
    Leaf out transluscence
    To the tasting palate
    With a shock.

    Não consegui o movimento mais generoso que é o da fotografia que se apresenta, sem didatismo. Vê quem pode, a coisa está ali, coisando.

     


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    [Aeternus:11746] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-06-02)


    - RE: a dor

    O vento no rosto é sonho...  E não é isso mesmo? Quem nos sonha e doi na gente?

    A dor mental, que se transmite sem se gastar, que se agarra ao inocente... como ajudar?


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    [Aeternus:11858] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-06-28)


    - depressão

    Extraído da revista Piauí do mês em curso

    DAPHNE MERKIN

    FINAL DE JUNHO DE 2008_Dia luminoso. O sol brilha à plena força, o céu exibe um azul límpido. Estou deitada de costas na grama, ouvindo o chilreio intermitente dos passarinhos; meus olhos estão fechados, para melhor saborear a sensação de calor no rosto.

    Nos cerca de vinte minutos ao ar livre depois do almoço (um dos quatro momentos do dia em que a rotina é interrompida desse modo), tento esquecer onde estou. Me imagino num outro lugar, e não neste jardim calçado de concreto e cercado de arame, limitado de um lado por um viaduto e do outro por uma perimetral, com alguns canteiros verdes e poucas flores solitárias. Meus movimentos são vigiados por uma assistente psiquiátrica mais ou menos amistosa.

    Vejo R., a mais recente integrante da nossa tribo disfuncional de doze pessoas da unidade 4c, sentada num banco com uma camisa pólo de caxemira totalmente inadequada para a estação. À sua volta circulam pessoas de outras alas do hospital. A unidade onde me encontro é voltada principalmente para o tratamento de pacientes com depressão ou distúrbios alimentares. O meu grupo quase não tem contato com as outras unidades. Podíamos estar em planetas diferentes. A depressão em si já cria um planeta próprio, praticamente impermeável à influência dos outros, exceto quando alguma presença espectral insistir para você voltar ao mundo, alugar um filme, sair para comer alguma coisa, se animar um pouco.

    Internei-me no hospital dez dias atrás, depois de seis meses ladeira abaixo.

    A depressão - essa gosma densa e negra do desalento - estava longe de ser uma novidade na minha vida. Desde a infância vinha batalhando contra ela, como se ao sair do ventre me tivessem envolvido num cobertor cinzento e áspero, em vez da manta de algodão macio, em tom pastel. Não acho que tenha sido um bebê triste, a julgar pelas fotos em que apareço com um ar moleque, os olhos brilhantes e sorriso aberto. Ainda assim, quem sabe se já não estava adotando a máscara de bem-estar que todo deprimido aprende a usar para poder navegar pelo mundo?

    O que sei é que aos 5 ou 6 anos de idade, com meu macacão de veludo e correndo de um lado para outro, comecei a ficar apreensiva com o futuro que me esperava. Sentia que os fatos não tinham conspirado a meu favor por muitos motivos, entre eles o fato de haver na minha família crianças demais e pouca atenção que desse conta de todas. Aos 8 anos, não queria mais ir à escola, devido à mistura de medo e ansiedade de separação. Aos 10, fui internada porque chorava o tempo todo.

    Adulta, sempre me perguntava como me sentiria se fosse uma pessoa com uma visão mais luminosa das coisas. Alguém que possuísse as ilusões necessárias, sem as quais a vida é insuportável. Alguém que conseguisse se levantar pela manhã sem se deixar aprisionar por pensamentos melancólicos: Não adianta, é tarde demais, sempre foi tarde demais. Desista, volte para a cama, não adianta. Tanta coisa a fazer. Nada a fazer. Não adianta.

    Era essa sem dúvida a pior parte: não ter como fugir da realidade de ser quem você é, uma pessoa que sempre percebe o limo negro impregnado nos tijolos, os defeitos dos amigos. Como o sangue, a tristeza que corre por baixo da pele das coisas começa como um filete mínimo e termina como uma hemorragia, manchando tudo.

    Já faz quase quatro décadas que frequento consultórios de terapeutas e falo do meu desejo de morrer, da mesma maneira que outras pessoas falam, por exemplo, de sua vontade de ter um caso amoroso. Sei o quanto o terror silencioso da depressão nunca se dissipa por inteiro depois que se passa por ele. Ele fica a pairar, temporariamente aplacado pela medicação e a energia renovada, esperando o momento de voltar a se infiltrar na sua vida. Ele se instala no espaço por trás dos seus olhos, fazendo sentir a sua presença mesmo nos momentos em que assuntos mais leves ocupam o primeiro plano da sua mente. Ele se aferra a você e puxa o seu braço, impedindo-o de se sentir totalmente à vontade.

    31 DE DEZEMBRO DE 2007_Minha crise mais recente, que me fez pousar no Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, começou na véspera de Ano-Novo. Apesar de me sentir tomada por uma disposição soturna, consegui me maquiar, me vestir, prender os brincos de pérola às orelhas e seguir para um jantar onde falamos de assuntos corriqueiros - crianças, escolas, peças a assistir, as razões de viver.

    Mas, ao mesmo tempo em que conversava e ria, meus pensamentos continuavam sombrios e desordenados, implacáveis em seus botes letais. Você é uma fracassada. Um peso para os outros. Inútil. Pior que inútil: imprestável. Pouco depois da meia-noite, assisti aos fogos de artifício sobre o Central Park e contemplei as explosões de cor - vermelho, branco e azul, meandros velozes de verde, tiras de púrpura, bolas de prata, centelhas douradas. Minha filha de 17 anos, Zoë, estava ao meu lado e enderecei minhas súplicas aos céus. Quero melhorar. Quero conseguir ir em frente. Prestar atenção nos apelos simples que me prendem à vida, aos recados gravados na secretária eletrônica dizendo para me animar, recados do ex, dos irmãos, das pessoas que gostam de mim.


    JANEIRO DE 2008_Passei os seis meses seguintes combatendo a depressão com todos os meios ao meu alcance, refugiando-me no narcótico da leitura, aceitando algumas encomendas de textos (que entreguei todos com semanas, quando não meses, de atraso), saindo para jantar com amigos, dando aulas num curso de composição literária e até fazendo uma viagem a St. Tropez com uma amiga. Engolia meu coquetel costumeiro de antidepressivos - Lamictal, Risperdal, Wellbutrin e Lexapro - e usava um adesivo de Lemsam. Não passo um período livre de psicotrópicos desde meus vinte e poucos anos. E não foi uma fase passageira que

    uma agenda repleta de distrações e remédios pudesse atenuar.

    Nas semanas que antecederam minha internação já não conseguia mais produzir uma imitação precária de saúde mental. Como achava dolorido ficar consciente, parei de fazer quase tudo. As manhãs eram a pior parte: acordava cada dia mais tarde, primeiro às onze, depois ao meio-dia, por fim às duas da tarde. Acho que jamais conheci uma pessoa depressiva que quisesse sair da cama pela manhã - que não vivesse o raiar do dia como uma convocação para se enterrar ainda mais debaixo das cobertas, de modo a poder aferrar-se à noite já extinta.

    Nas poucas horas em que passava desperta sentia uma exaustão letal, como se nadasse numa piscina de piche. Os recados telefônicos ficavam sem resposta, os e-mails nem eram lidos. A idéia de escrever me era tão estranha quanto uma competição olímpica. Eu mal comia, já perdera mais de 13 quilos. Tinha desistido de qualquer comunicação. Quando falava, era quase sempre sobre suicídio.

    Apenas uma pequena parte de mim conservava a lembrança da pessoa que eu já tinha sido. Era cada vez mais difícil me imaginar ocupando de novo aquela versão de mim mesma. A depressão acabou por se tornar a coisa que me definia, preenchendo todo o espaço disponível, sem deixar margem para a possibilidade de um "antes" ou um "depois".

    Passei a me deslocar numa velocidade glacial, e ao falar, hesitava, empregava uma voz mais grave e inexpressiva que a normal. Descobri com meu terapeuta e meu psicofarmacólogo que havia um nome clínico para o meu estado: "retardamento psicomotor".

    Meu funcionamento biológico tinha se aliado a fatores psicodinâmicos imediatos, que precipitavam meu mergulho em parafuso - os ecos persistentes da morte, dois anos antes, da minha mãe, com quem eu tinha uma relação complicada; a partida iminente da minha filha para a universidade; uma terapia que enveredara pelo mau caminho; um romance que degringolara. Por mais que preferisse atribuir minha depressão clínica à herança genética ou a fatores ambientais, ao defeito de fabricação ou ao defeito de formação, o desencadeamento da doença é geralmente provocado por uma combinação das duas coisas.

    Ainda assim, eu resistia à sugestão dos médicos para me internar num hospital. Parecia mais seguro ficar onde eu estava - por mais que me sentisse à beira do abismo - do que me trancar junto com outros desesperados, isoladamente, na esperança de que adiantasse alguma coisa. Quaisquer fantasias que eu tenha cultivado sobre instituições psiquiátricas, ou a respeito da promessa de uma cura final e definitiva, haviam desmoronado na minha última internação, quinze anos antes.

    Mais: depois de uma vida inteira de terapia e medicação, que parecem nunca ter conseguido mais que remendar precariamente os buracos que havia em mim, passei a duvidar do conceito de intervenção profissional. É provável que eu entendesse mais de antidepressivos do que a maioria dos terapeutas, por ter experimentado as três categorias de psicotrópicos isolados, ou em combinações, à medida que eram lançados no mercado.

    Inicialmente, relutei muito em tomar remédios para uma coisa que me parecia tão intrínseca a quem eu era. Até que um dos meus primeiros psiquiatras comparou meu estado emocional a uma úlcera. "Não dá para conversar com uma úlcera", dizia ele. "Não se argumenta com uma úlcera. Primeiro você se cura da úlcera, depois pode conversar sobre a maneira como se sente."

    Nenhuma das drogas funciona de maneira absoluta. Por enquanto, não dispomos de nada melhor que uma forma refinada de adivinhação. Existem cerca de trinta pílulas que atuam de forma não totalmente compreendida sobre os nossos circuitos neuronais e a produção de serotonina, norepinefrina, dopamina e outras substâncias. Ninguém, nem mesmo os psicofarmacólogos que receitam esses remédios, compreende plenamente por que funcionam, quando funcionam e deixam de funcionar. Enquanto isso, os possíveis efeitos colaterais (que podem ir desde tremores ligeiros até a discinesia tardia, um problema raro que leva o paciente a produzir caretas incontroláveis) são deixados de lado, até não poderem mais ser ignorados.

    Os hospitais psiquiátricos supostamente sabem garantir a nossa segurança. Mas eu estava em conflito até mesmo com a questão essencial da sobrevivência. Eu não tinha certeza de querer interromper minha espiral descendente, na qual a luz no fim do túnel, como disse certa vez o poeta Robert Lowell, era apenas o farol do trem vindo em nossa direção. Eu me imaginava espatifando na calçada com certa serenidade, com uma sensação de conclusão necessária. As pessoas que tiveram a temeridade de baixar a cortina sobre seu próprio sofrimento - em vez de se deixarem ficar, arrastando os pés, perdidas na esperança de dias melhores - me fascinavam. Mas sempre acreditei que as vítimas do suicídio não percebem que nunca terão uma nova chance. Se você fica deprimido além de certo ponto, acho eu, começa a conceber a morte como um berço, em cujo balanço suave pode se preparar para uma vida nova, cintilante de ineditismo, ainda intocada.

    Uma realidade concreta se erguia à minha frente: tinha uma filha que amava profundamente e compreendia o mal irreparável que causaria a ela se tirasse minha própria vida, embora também sentisse que, se gostasse dela de verdade, eu a libertaria da presença dessa mãe que era mais sombra do que sol. Era por causa da minha filha que decidira dar voz à minha "ideação suicida", como a coisa é chamada, preocupada com o que seria dela sem mim. Ao mesmo tempo, eu reconhecia que, para uma pessoa realmente decidida a pôr um fim em tudo, declarar sua intenção em voz alta era um gesto de traição a si mesma. Afinal, você estava alertando outras pessoas, fazendo com que elas tentassem impedi-la de ir em frente.

    Uma pergunta sempre me intrigou: como era possível que ninguém fosse capaz de adivinhar esses terríveis desdobramentos só de olhar para você? É enfurecedor constatar que a depressão grave, por mais que seja tratada como uma doença, não emite sinais claros que os outros consigam captar. A dor psicológica é terrível, mas não tem como ser provada, não há feridas abertas vertendo sangue. Seria tão simples se você pudesse engessar a mente, como se fosse um tornozelo quebrado, provocando murmúrios de solidariedade que substituiriam o ceticismo ("Você não pode estar se sentindo tão mal assim...") e, em alguns casos, a hostilidade declarada ("Talvez se parasse de pensar o tempo todo só em você...").

    Mais um fator contribuía para me manter exilada no meu apartamento, prisioneira da minha doença: o espectro da ect, a eletroconvulsoterapia. Meu terapeuta, um analista freudiano que sempre me parecera apenas vagamente convencido da eficácia de remédios, propôs, quando tive alguns efeitos colaterais sérios, que eu cogitasse de parar com todos os remédios de uma vez, para ver o que aconteceria. Eu parei, e entrei imediatamente em parafuso. De uma hora para outra, contudo, dez dias antes da minha admissão no hospital, ele se tornara um partidário entusiasta do eletrochoque. A ect, que provoca convulsões no cérebro, voltara à moda para casos de depressão resistente a tratamentos convencionais, depois de ter desaparecido nos anos 70, na esteira do filme Um Estranho no Ninho. Talvez eu tenha deixado meu analista assustado com minha insistência em falar do meu desejo de acabar com tudo de uma vez por todas. Talvez ele não quisesse ser responsabilizado pela morte de uma paciente que escrevia compulsivamente a respeito de si mesma, e sem dúvida haveria de deixar indícios que a ligavam a ele. Essa sua mudança, de uma postura psicanalítica, focada na mente subjetiva, para uma postura neurobiológica, focada em funcionamentos hipotéticos do cérebro físico, deixou-me desconfiada e com medo.

    E se a ect me reduzisse a uma desconhecida de mim mesma, só com memórias fragmentadas da vida passada e imediatamente posterior? Eu posso detestar minha vida, mas prezo muito as minhas memórias - mesmo as mais infelizes, por mais paradoxal que possa parecer. A imagem caricatural da minha cabeça fritando, soltando faíscas e nuvens de fumaça ao ser atravessada pela corrente elétrica, me assombrava, embora eu soubesse que a ect não é mais administrada com força suficiente para produzir convulsões e fazer o paciente se contorcer em suas amarras.

    No fim das contas, minha resistência foi se esgotando. Passei o fim de semana anterior à minha internação no apartamento da minha irmã mais velha, perdida no reino gótico da depressão: era incapaz de sair da cama, aprisionada em debates interiores. Ainda assim, ao fundo, havia vozes em algum lugar - a voz da minha irmã, as vozes dos meus médicos - argumentando em defesa da minha permanência por mais algum tempo; e eu quase conseguia ouvi-las. Queria morrer, mas ao mesmo tempo não queria. Não de todo. O suicídio sempre pode esperar, dizia a minha irmã. Por que eu não dava uma chance ao hospital? E me transmitiu recados de um dos meus médicos, dizendo que continuariam a cuidar de mim mesmo internada. Ninguém me forçaria a nada, muito menos à ect. Eu estava cansada demais para resistir.

    INíCIO DE JUNHO DE 2008-_Numa manhã de segunda-feira, voltei para casa e arrumei duas malas pequenas. Enfiei nelas um número desproporcional de livros (considerando que eu não estava conseguindo ler), algumas calças de linho e camisetas de algodão, meu creme favorito para a noite (embora eu não o usasse há semanas) e, como âncora, uma foto da minha filha. Em troca da minha concordância em me submeter a um dos vários protocolos disponíveis - ou trocando de medicação ou me dispondo a me tratar com ect -, eu podia ficar internada na unidade 4c pelo tempo necessário, sem pagar nada. Minha irmã passou de táxi para me buscar e, pelo que lembro, chorei até chegarmos ao hospital, olhando para a vista passageira com uma sensação elegíaca de despedida.

    Assim que minha irmã disse meu nome à enfermeira cuja cabeça apareceu na abertura da porta trancada da unidade, percebi que não era ali que eu queria estar. Tudo parecia vazio e silencioso à luz das lâmpadas fluorescentes, com a exceção de um homem de uns 40 anos que andava pelo corredor de camiseta e calça de malha, indiferente ao que acontecia à sua volta. Ao final do que me pareceu um instante, minha irmã me deu adeus, garantindo que tudo iria dar certo, e fui deixada por minha conta.

    Minhas malas foram revistadas, à procura de armas de autodestruição como lâminas de barbear, tesouras e espelhos. Celulares também. Na entrevista de admissão, eu alternava acessos de lágrimas e a repetição de que queria voltar para casa, como uma criança de 7 anos que acaba de ser deixada numa colônia de férias. A enfermeira não demonstrou grande empatia por aquele meu estado lamentável. Ainda assim, eu queria continuar naquela sala conversando com ela para sempre, só para evitar a ida para a unidade, com sua coleção pateticamente esparsa de revistas antigas, seus móveis de madeiras com almofadas de plástico azuis e roxas, e suas sufocantes salas de tevê - uma superlotada, a outra deserta.

    Emergi para o jantar, que era servido às cinco e meia da tarde, como se a noite à frente estivesse tão repleta de atividades que precisássemos primeiro dar conta daquele ritual imprescindível. Como após o jantar havia muitas horas vazias até o apagar das luzes às 23 horas, imaginei que a refeição podia ser uma ocasião divertida. Mas descobri que os demais pacientes acabavam de comer em quinze minutos, e logo me encontrei sentada sozinha à mesa. Descobri mais tarde que a idéia era sempre entrar e sair dali o mais depressa possível.

    Não ajudava muito que, embora fosse verão, não houvesse nenhuma fruta fresca à vista além de maçãs outonais e uma ocasional banana. Haveria momentos de certo brilho culinário - serviram sonhos recheados de creme no Dia dos Pais e, numa terça-feira, houve um almoço em torno da churrasqueira no parque, no qual comi vários cachorros-quentes -, mas o padrão geral era ruim. Ao final de algum tempo, comecei a pedir latas de Ensure Plus, o suplemento nutricional líquido, que podia vir em sabor chocolate ou baunilha e estava sempre presente nos programas alimentares das anoréxicas. Fechando os olhos, dava até para achar que era um milk-shake.

    Não era só o Ensure que eu invejava nas anoréxicas. Desde a primeira noite, quando sons de conversa e riso se desprendiam do grupo delas e chegavam até a mesa triste e quase silenciosa dos depressivos à qual eu me juntara, desejava me tornar uma delas. Ao contrário do nosso grupo, exigia-se delas que permanecessem pelo menos meia hora no refeitório, no almoço e no jantar, o que criava necessariamente uma atmosfera mais calorosa. É bem verdade que uma ou duas delas chegaram a ser trazidas de maca até o refeitório; ainda assim elas me pareciam invejáveis. Por mais que fossem devastadoramente esqueléticas, todas eram jovens e cheias de esperança, falavam de namorados e parentes, empenhavam-se incansavelmente em seus "diários", quando não estavam participando de atividades criadas exclusivamente para elas. Aos olhos do mundo, elas sofriam de uma doença, enquanto nós só padecíamos de ser, intratável e desoladamente, as pessoas que éramos.

    Eu dividia um pequeno quarto com uma mulher bonita, de meia-idade, que se apresentou a mim com uma animação notável, como se estivéssemos nos conhecendo num coquetel. Por um minuto achei que as coisas não poderiam ser tão terríveis assim, que aquele lugar não podia ser um destino tão abjeto quanto imaginava, se aquela mulher se dignava a misturar sua sorte com o resto de nós. Quando ia para a cama, ela usava pequenas tiras de esparadrapo, conhecidas como Frownies, vendidas na farmácia com o suposto efeito de minimizar as rugas. Ao contrário de mim, ela imaginava um futuro - um futuro que lhe recomendava conservar uma aparência juvenil. Eu mal lavara o rosto ao longo dos últimos meses, mas me vi diante de alguém que compreendia a importância de manter as aparências, mesmo numa instituição psiquiátrica.

    O quarto propriamente dito não poderia ser menos acolhedor. Tinha lâmpadas fluorescentes que não se limitavam a iluminar, mas destacavam as coisas sob um brilho intenso. Havia duas camas, duas mesas de cabeceira e duas cômodas. Tinha ainda duas enormes lixeiras de plástico; uma ficava perto da porta, lançando um triste reflexo plastificado sobre todas as coisas, e a outra ocupava espaço demais no pequeno banheiro. A água do chuveiro saía de uma peça presa à parede - a presença de um chuveiro convencional, logo fiquei sabendo, era vista como uma indução ao suicídio por enforcamento - e o jorro fraco de água saía no máximo um pouco morno.

    Deitei-me na cama aquela primeira noite, debaixo do surrado cobertor branco, e tentei me acalmar. A falta de um abajur para a leitura só fez aumentar meu pânico. Mesmo que minha depressão me impedisse de me concentrar num livro, a ausência de uma fonte de luz com a qual eu pudesse ler representava o fim da maneira como eu concebia a civilização. Minha mente dava voltas e mais voltas em torno da mesma barragem de questões, como um detetive de polícia persistente. Como tinha ido parar ali? Como permitira que me levassem para lá? Por que não tivera a força de vontade de ficar do lado de fora? Por que nada tinha mudado com o passar dos anos? Uma coisa é a pessoa ficar deprimida aos 20 ou 30 anos, quando a juventude lhe confere uma inegável pungência, certo encanto. Coisa totalmente diferente é a pessoa ficar deprimida na meia-idade, quando já deveria estar conformada com as imperfeições da vida, além das suas próprias.

    Amassei o travesseiro fino, ajeitei os lençóis e o cobertor, e me enrodilhei na cama. Não preciso ficar tão desesperada, tentei acalmar-me. Você não está presa. Pode pedir para ir embora amanhã. Fiquei ouvindo a respiração calma e regular da minha companheira de quarto e desejei ser ela, desejei ser qualquer pessoa menos eu mesma.

    Por toda a cidade, pessoas menos deprimidas ou nem um pouco deprimidas levavam suas vidas normais, vendo tevê, escrevendo num blog ou jantando mais tarde. Por que eu não era uma delas? Depois de ficar olhando para a escuridão horas a fio, finalmente me levantei, vesti meu robe, e me dirigi ao posto das enfermeiras à procura de mais remédios para dormir.

    Do lado de fora do quarto, a luz chegava a cegar. Duas das auxiliares estavam sentadas à mesa, disputando algum jogo de palavras no computador. Levantaram os olhos para mim com uma expressão impassível e esperaram que eu lhes dissesse o que me trazia ali. Expliquei que não conseguia dormir, e minha voz soava rouca de ansiedade. Minhas mãos estavam pegajosas e minha boca, seca. Uma delas se levantou e foi verificar se o residente de psiquiatria tinha aprovado o pedido. Entregou-me um comprimido num copinho de papel, e murmurei alguma coisa querendo dizer que estava muito nervosa. "Vai se sentir melhor depois de dormir", respondeu ela. Assenti com a cabeça e disse "boa-noite", sentindo-me dispensada. "Boa noite", respondeu ela no tom mais casual do mundo. Eu não era ninguém para ela, ninguém para mim.

    Minha sensação de deslocamento e abandono persistiu em cada dia das três semanas que passei na unidade 4c, e apenas em raros momentos deu lugar a um estado um pouco menos ansioso de hibernação. No fim, descobri várias enfermeiras ou auxiliares com quem era possível conversar sobre a realidade bizarra de viver numa unidade psiquiátrica a portas trancadas e com horários de visita ferozmente controlados (das 17h30 às 20 horas nos dias úteis e das 14 horas às 20 horas nos fins de semana), sem me sentir uma paciente psiquiátrica oficial. Ao final da segunda semana, quando não estava mais restrita à unidade, um dos enfermeiros homens costumava me convidar para tomar café na pequena cantina do 6º andar, onde o pessoal do hospital se reunia para comer.

    Essas saídas eram breves - nunca demorávamos mais de quinze minutos - e sempre me mostravam como era artificial a linha divisória entre a ala 4c e o mundo exterior. Eu estava no universo enclausurado dos comprovadamente enfermos, das pessoas que falavam do seu precário estado interior como se fosse tudo que importava, e no minuto seguinte era admitida no mundo comum, no qual as pessoas tinham a liberdade de andar por onde quisessem. Enquanto segurava meu café como se o acalentasse, observava com um sentimento quase de reverência os estudantes de medicina que entravam e saíam apressados, levando nas mãos suas pranchetas e cadernos. Como tinham conseguido encontrar um modo de viver sem se atolarem nas sombras? De que fonte retiravam a sua energia? Eu não conseguia imaginar que um dia voltasse a participar desse mundo.

    A cada semana, divulgava-se uma agenda dando a impressão que nós, os pacientes, éramos gente ocupadíssima, sempre às voltas com sessões de terapia e ioga, caminhadas e grupos de criação literária. Na verdade, havia muito mais tempo livre do que ocupado - grandes punhados de espaço em branco que se espalhavam ao longo do dia, gerando uma verdadeira maré oculta de preguiça e prostração. Fazer amizades na unidade, o que poderia ajudar a passar o tempo, era uma atividade intermitente, porque os pacientes nunca paravam de chegar e partir, e o único laço real que nos unia era o da coerção. A outra restrição era própria do território: ou as pessoas já estavam conformadas com sua vida na unidade, o que de certa forma era perturbador, ou viviam ansiosas para ir embora, o que era perturbador de outra forma. Eu me liguei muito à minha companheira de quarto, que era engraçada e dava a impressão de pairar acima daquilo tudo. Fiquei tristíssima quando ela foi embora, com um novo diagnóstico e novos remédios.

    A questão mais premente para mim era se me submeteria ou não à ect. O primeiro paciente com quem me deparei ao entrar na unidade, subindo e descendo os corredores, estava em pleno processo de receber a ect e insistia, em voz alta, que estavam destruindo o seu cérebro. E, de fato, os pacientes que eu via saindo da ect tinham sempre um comportamento zonzo e atordoado, como se lhes faltasse alguma peça essencial.

    Eu conversava diariamente com a doutora R., a jovem residente que vi na primeira noite, para discutir por que eu ainda não devia ir embora e que outros caminhos poderíamos explorar, em termos de medicamentos. Ela usava um anel de noivado com um diamante e uma aliança de brilhantes que eram sempre as primeiras coisas que os meus olhos procuravam. Eu via aquelas jóias como sinais dolorosos de que nem todo mundo era incompleto como eu, que ela tinha opções bem mais cintilantes e podia até se revelar uma dessas jovens mulheres estruturadas que tinham tudo - carreira, marido, filhos.

    Durante as nossas sessões de meia hora, eu tentava absorver uma parte da visão da doutora R. e ver a mim mesma através de seus olhos compassivos. Eu me lembrava que as pessoas ainda me achavam interessante, mesmo depois que eu deixara de me interessar por mim mesma. Mas o alívio durava pouco, e uma hora depois que ela ia embora eu voltava a travar batalhas interiores com a fúria de sempre.

    Um dia, no início da minha segunda semana, fui convocada a deixar uma sessão de terapia e me reunir com uma psiquiatra da unidade de ect. Ainda me pergunto se esse breve encontro não terá sido definitivo, assustando-me para todo o sempre. Ela parecia uma carcereira de penitenciária. Mal tivemos tempo de dizer duas palavras e ela anunciou que eu dava sinais claros de apresentar um "quadro neurovegetativo". Assinalou que eu tinha a fala arrastada e minha mente também parecia arrastar-se, acrescentando em tom soturno que eu jamais conseguiria voltar a escrever se continuasse naquele estado. Seu julgamento soava impiedoso, me senti atacada, como se nada restasse de mim além da doença.

    É óbvio que a ect era o tratamento indicado, concluiu ela bruscamente. Assenti com a cabeça, com medo de falar muito e dar a impressão de ser uma imbecil, mas todos os alarmes dispararam na minha mente. Não, não é nada indicado, pensei. Ainda não. Ainda não me transformei na criatura passiva que ela vê. Foi o primeiro sinal de uma vontade positiva, um delicado broto verde que podia ser facilmente esmagado, mas eu sentia a sua força.

    O defensor mais enérgico e mais benigno da ect era um psiquiatra com quem eu me consultara três décadas antes e que tivera um papel decisivo em me convencer a aceitar a internação. Com seus modos formais, mas benevolentes, demonstrou que eu vivia com um nível de depressão absurdo, e que a melhor chance de alívio era a ect.

    Numa noite de sexta-feira, durante o jantar, ele veio me ver. Os outros pacientes tinham ido embora, e minha irmã estava comigo, de visita. Olhei para ela enquanto o médico falava com paixão a meu respeito, discorrendo sobre os horrores do meu tipo de depressão, e os gloriosos benefícios da ect. Socorro, implorei em silêncio à minha irmã. Não quero isso. As lágrimas corriam pelo meu rosto. Permaneci muda, incapaz de falar, mas perfeitamente capaz de sentir angústia. Minha irmã falou por mim como se fosse uma intérprete do meu silêncio. Comunicou ao médico que eu parecia rejeitar o novo tratamento e minha vontade precisava ser respeitada.

    Comecei a imaginar permanecer no hospital por muito tempo, não porque gostasse mais do ambiente, mas porque, depois de certo tempo, ficava mais fácil continuar lá do que ir embora. Os detalhes comezinhos da vida - contas, prazos, reuniões - tinham sido suspensos durante meus últimos meses em casa, depois ficaram totalmente fora dos limites do hospital, e começou a parecer inconcebível que um dia eu voltasse a ter condições de cuidar deles. Em vez de me fortalecer durante a internação,
    eu sentia uma espécie de enfraquecimento psicológico ainda maior.

    A nova medicação que vinha tomando me deixava exausta e adotei o hábito de voltar para a cama logo depois do café da manhã. Ficava cansada até de receber visitas, de ficar sentada na salinha horrorosa, de conversar, manifestar minha gratidão pelos presentes que as pessoas me traziam.

    Na semana anterior à minha partida, como uma espécie de preparação para a reentrada no mundo, tive diversas autorizações para sair, mas nenhuma deu bom resultado. Numa delas, saí numa tarde quentíssima de sábado com a minha filha para uma caminhada até o Starbucks mais próximo. Sentia-me muito distante de Zoë e tinha a cabeça pesada com os novos sedativos que vinha tomando. Quando ela se afastou por um minuto para falar no celular, comecei a chorar, como se alguma coisa trágica tivesse acontecido. Refleti, desolada, sobre o efeito que produzia na minha filha, o de me ver naquele estado. Seria eu um fardo que ela estaria condenada a carregar pelo resto da vida? Será que a minha depressão seria transmitida a ela? Ao mesmo tempo, como sempre, ríamos juntas de coisas miúdas e estranhas. Ocorreu-me que, para ela, eu não era uma desconhecida; eu o era apenas para mim mesma.

    Com a concordância provisória da equipe médica, deixei o hospital três semanas depois de chegar. Era um dia quente de junho e o calor refletia nas janelas dos carros estacionados. Tudo me parecia barulhento e amplificado. Era chocante encontrar-me do lado de fora, sabendo que dessa vez minha licença era permanente.

    Voltei para casa com uma receita de Klonopin, uma droga de combate à ansiedade que tomava desde sempre, e mais um dueto de remédios (Remeron e Efexor) apelidados de "combustível de foguete" por seu suposto efeito de ignição. Logo ficou claro que aquele coquetel não estava destinado a funcionar comigo. Em casa, fui novamente dominada por pensamentos suicidas e passava os dias deitada na cama, com medo de sair até para uma volta no quarteirão com a minha filha. Ficou claro que eu não podia ser deixada sozinha. Minha irmã e uma amiga passaram a se revezar na minha companhia. Ficou igualmente claro que aquele esquema só poderia ser de curto prazo. Todos concordaram que eu deveria voltar para o hospital e experimentaria finalmente a ect.


    AGOSTO DE 2008 _Foi numa tarde de domingo, véspera do meu planejado retorno à ala 4c, que houve um ligeiro deslocamento dentro de mim. Tinha parado com o Remeron e começara a tomar um remédio novo, chamado Abilify. Sentia-me um pouco mais calma, e meu quarto já não me parecia um lugar tão estranho. Talvez tenha sido o medo da ect, ou o fim do efeito da medicação errada, ou talvez a depressão tenha finalmente completado o seu ciclo e começasse a se dissipar. Eu não tinha - e ainda não tenho - uma idéia clara do que aconteceu. Por um curto intervalo, não havia ninguém comigo em casa, e decidi levantar-me e sair. Entrei no supermercado e fiquei examinando a seção dos cereais para o café da manhã. Fiquei tão atarantada diante da variedade de marcas como alguém recém-saído de um gulag. Comprei toalhas de papel e morangos, depois andei até minha casa e voltei para a cama. Não foi propriamente uma viagem à península de Yucatán, mas foi um começo. Não me internei no hospital no dia seguinte, preferindo dedicar o resto do verão à reocupação paulatina da minha vida, reaprendendo cada passo. Convivia com pessoas em quem confiava, e com as quais não preciso fingir.

    Perto do final de agosto, fui passar uns dias na casa de praia de uma amiga. Éramos só ela, eu e seus três cachorros irritantes. Eu tinha levado um romance para ler - O Encontro, de Anne Enright. Foi o primeiro livro que me absorveu, e o primeiro que consegui ler desde antes da minha internação. Cheguei à última página no terceiro dia. Por volta das quatro e meia daquela tarde que já trazia o prenúncio do fim do verão, olhei para o céu incrivelmente azul. Um dos cachorros estava sentado ao meu lado, o corpo quente encostado na minha perna, enquanto eu me secava do mergulho que acabara de dar. Haveria novos livros para ler, novos filmes para assistir e novos restaurantes a experimentar. Consegui me imaginar escrevendo de novo, o que não me pareceu uma idéia estapafúrdia. Havia coisas que eu queria dizer.

    Tudo ainda me parecia frágil, mas, pelo menos por enquanto, minha depressão abrira espaço. Esqueci a sensação de viver sem ela, e por algum tempo eu me debati, sem saber como poderia reconhecer a mim mesma. Sabia que ela poderia voltar a qualquer momento.

    Mas vislumbres de luz também poderiam se prolongar se eu persistisse mais um pouco, aferrada à perspectiva de longo prazo.

    Era um risco que me pareceu valer a pena correr.


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    [Aeternus:11859] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-06-28)


    - RE:depressão

    Visitante (ele?ela?) postou um longo ensaio, ou testemunho, da vida sob depressão. Impactante.

    Ontem mesmo estive conversando com um amigo sobre as minhas tristezas de criança. Chorava durante horas a fio, mas não havia ninguém por perto para perceber. A empregada ( que ficou comigo durante vinte anos) tinha as próprias dores e cantava na cozinha com uma voz fina e arrastada: "Quero morrer e partir pra bem longe daqui, já que a sorte não quis me fazer feliz" ( saudades do matão, asa branca, adeus cinco letras que choram, Rosamaria...). De repente, fiquei boa. Minha observação, ontem, foi de que o fato de não o terem percebido e me deixado em paz foi fundamental para minha retomada da saúde. Afinal, não era uma depressão real: era uma forma aguda de pressentir as dores do mundo. Eu tinha pena de tudo, passarinho, gato, lagartixa ou insetos. Até das plantas. Quando saí da crise, as coisas tinham ficado temperadas com todas as tonalidades do espectro emocional, entre a alegria e a dor. Meu próprio diagnóstico era o de uma exacerbação emocional, sem continente adequado. Num dos filmes do Inspetor Morse que vi há uns dois anos, uma moça suicidou-se porque tomou uma droga que lhe deu uma viagem de felicidade tão intensa que ela achou que tinha experimentado tudo e que não restavam mais surpresas. Lembrei de mim, também, mas nunca tive medo das coisas perderem a graça ou se repetirem...

    Conheci parentes próximos que tomaram eletrochoque. Deprimidos.  Só posso dizer que foi muito eficaz para eles. Ficaram sem sequelas e viveram longas vidas normais e tranquilamente felizes.  Não sei porque ect, nos EEUU e por herança aqui, virou este monstro ( seria mesmo o filme Estranho no Ninho? Mas, do pouco que me lembro, não era mais um caso de lobotomia?). Vai ver que é por ser aplicada por médicos monstros. Enfim, os psiquiatras é que devem saber. Minha opinião é de "parente que viu", mais nada. 

    Muita gente sofre das psicoses dos médicos... Iatrogenicas... ?????????????????


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    [Aeternus:11869] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-06-30)


    - Os normalopatas

    São Paulo, terça-feira, 30 de junho de 2009

     

    JOÃO PEREIRA COUTINHO

    Sorrio de espanto: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, sou um demente

    A timidez é doença? Uma amiga minha acredita que sim e procurou ajuda especializada. Entrou numa consulta de psiquiatria e, como normalmente acontece, nunca mais de lá saiu. Um ano depois, e algumas sessões depois, existem progressos: ela consegue estar num "evento social" e conversar "naturalmente" com as pessoas em volta. A terapia ajudou (muito). A medicação ajudou (muitíssimo): um coquetel de antidepressivos e ansiolíticos que a obrigaram a sair da concha e a conhecer o mundo.
    Escutei tudo isso ao almoço e não pude deixar de pensar como o mundo é um local estranho. Tempos houve em que certos comportamentos pessoais eram parte da diversidade humana. Uma pessoa tímida era simplesmente uma pessoa tímida. Uma pessoa expansiva era simplesmente uma pessoa expansiva. Nem todos podemos ser borboletas. Alguns acordam para o mundo e descobrem, ao contrário do que Kafka dizia, que os pequenos insectos também têm o seu encanto.
    Gradualmente, a psiquiatria começou a ter uma palavra sobre o assunto, procurando "regular" ou "normalizar" a variedade de que somos feitos. Não é preciso ter lido Foucault para acreditar nessa história, até porque o radicalismo de Foucault não ajuda e só atrapalha. Basta olhar em volta.
    Basta olhar para amigos tímidos, ou então para crianças hiperativas (ou deliciosamente preguiçosas), e encontrar neles um potencial doente, um potencial demente, a exigir intervenção psicofármica. Uma parte da medicina moderna acredita na ideia, pessoalmente aberrante, de que deve existir um padrão de "equilíbrio comportamental" para definir um ser humano harmonioso, realizado e feliz.
    O problema é que poucos correspondem ao padrão. Depois desse almoço, regressei a casa, disposto a investigar o crime. E então encontrei, por feliz coincidência, o relato precioso da última reunião da American Psychiatric Association, em São Francisco. Segundo parece, essa vetusta agremiação de luminárias discutiu as últimas alterações ao manual de referência da especialidade, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder". Publicado desde 1952, e revisto de década em década, o manual pretende agora incluir novas "doenças" mentais, em sintonia com o espírito do tempo. Exemplos? Vários.
    Para começar, existem "doenças" relacionadas à alimentação. É o caso da "binge-eating disorder" e da "night-eating syndrome". Em linguagem de gente, a primeira refere-se a uma compulsão excessiva para comer mais do que o estritamente necessário; a segunda pretende diagnosticar, e tratar, o gosto perverso por assaltar a geladeira depois da meia-noite. Mas a lista de novas "doenças" não fica por aqui.
    O vício pela internet e pelo e-mail ("internet addiction"); o gosto por vários parceiros sexuais, em sucessão ou em simultâneo ("sex addiction"); a compulsão "terapêutica" por compras ("compulsive shopping"); a fúria incontrolada e muitas vezes injustificada ("embitterment disorder"); o preconceito perante a "diferença" ("pathological bias"); e mesmo a tendência idiossincrática para colecionar materiais diversos ("pathological hoarding"), nada escapa à inquisição psiquiátrica.
    Leio esse admirável cardápio e sorrio de espanto. Ou de medo. Ou de ambos. Razão simples: de acordo com a bíblia da psiquiatria mundial, eu sou objectivamente um demente. Nada que surpreenda os meus leitores mais regulares, é certo. Muitos menos as pessoas que partilham a minha existência.
    Mas algo me surpreende. Eu nunca imaginei que a minha gula (diária e noturna); os meus acessos de fúria (justificados ou não); os meus recorrentes preconceitos (contra políticos, adolescentes ou feministas); os meus desportos mais íntimos (que não incluem a monotonia); a forma criminosa como gasto fortunas (em camisas, sapatos, ternos); e a minha tendência para guardar obsessivamente os mais ridículos objetos (jornais antigos, próteses, peças de lingerie alheias), fosse motivo para tratamento médico especializado.
    Prometo marcar consulta. E prometo emergir das sessões um homem novo: vegetariano, ambientalista, tolerante, multicultural e, no duplo sentido da palavra, com espírito de missionário.
    No mundo moderno em que vivemos, a única doença tolerável é mesmo a normalopatia.


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    [Aeternus:12070] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-08-10)


    - RE:Philip Roth

    LUIZ FELIPE PONDÉ
    Carrascos sutis

    A maior invenção depois do computador, o Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo


    Tenho lido Philip Roth, graças a dois amigos, um de mais de 50 anos, comunista, outro de menos de 30, conservador. O primeiro sempre tentou me convencer de que seria essencial lê-lo -não sou fácil de ser convencido porque sou uma criatura de hábitos e por isso tendo a inércia, o que pode ser uma reação espontânea ao fato de eu desde criança achar o mundo um lugar hostil-, o segundo me presenteou com dois livros de Roth que foram os primeiros que li.
    Roth escreve como homem. Hoje "escrever como homem" é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no "Homem Comum". Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.
    Em "O Fantasma Sai de Cena", Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).
    Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.
    Em "A Marca Humana", ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.
    O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).
    A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.
    No "Animal Agonizante", Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.
    Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, "os melhores entre nós, homens", aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.
    Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e "os melhores entre nós" podem respirar e dizer "não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente". A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.
    "Indignação" (uma espécie de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.
    Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis.


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    [Aeternus:12092] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-08-11)


    - condição humana

    Tem razão, absoluta razão, aqueles que acham que uma plena compreensão da condição humana levaria o homem à loucura? como afirma Ernest Becker

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    [Aeternus:12093] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-08-11)


    - RE: condição humana

    Já é meio louco supor-se capaz de uma "plena compreensão da condição humana", não é? A não ser que "condição humana" seja demarcada pelo se reconhecer a finitude e a mortalidade, com direito à vida eterna ou à mais simples redução ao pó. Neste caso, não se é levado à loucura, mas se chega perto de uma sabedoria, exceto nas patologias em que colaba a recriação permanente do mundo a partir dos recursos do imaginário e da fantasia. 

    Seguramente Roth não leu o Freud tratando sobre "Os tres escrínios", sobre Rei Lear e O Mercador de Veneza, discutindo o envelhecimento e a morte a partir da referencia ao  mítico numeral tres.  Mas ele leu Yeats que, ao fim e ao cabo, elabora sobre este mesmo tema no poema que ele cita e usa para o título do romance, uma metáfora áurea sobre a ligação entre intelecto e sensações, razão e fisicalidade, prazeres físicos e a arte... 


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    [Aeternus:12094] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-08-11)


    - aderindo ao clima dos primeiros capítulos agonizantes do Roth

    ORGASMO TRIFÁSICO, de Millôr Fernandes

    Orgasmo feminino é coisa do qual as mulheres entendem muito pouco e os homens, muito menos.
    Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado [exceção à Consuela, do Roth e sua moluscata]
    Orgasmo masculino não! É aquela coisa que todo mundo vê.Deixa o maior flagrante por onde passa.
    Diante desse mistério, as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto.
    Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema.
    Vi, outro dia, no programa do Jô Soares, uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Walita, falava do corpo
    como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica.
    Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela "Periquita" na hora do orgasmo, e chegou à incrível conclusão de que, na hora "H", a "perseguida" dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco "pererecas" juntas ligadas na hora do "aimeudeus!" seriam suficientes para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num Fusca com a bateria arriada.
    Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tcham, carregou. É preciso ter cuidado porque isso não é mais "xibiu", é torradeira elétrica!
    E se der um curto circuito na hora de "virar o zoinho", além de vesgo, a gente sai com mal de Parkinson e com a lingüiça torrada. Pensei: camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora "H", não tire o tênis nem pise no chão molhado... Pode ser pior! É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu "biscoito" lá na "canequinha" de sua namorada, perguntar: é 110 ou 220 volts?
    Se não, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar "ovo frito no café da manhã."
    Esse país não melhora por absoluta falta de criatividade...Aão as mulheres, a solução contra o apagão.

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    [Aeternus:12095] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2009-08-12)


    - RE:aderindo ao clima dos primeiros capítulos agonizantes do Roth

    E pensar que ainda construímos usinas hidrelétricas, coisa mais dispendiosa e sem graça.

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    [Aeternus:12096] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-08-12)


    - RE:RE:aderindo ao clima dos primeiros capítulos agonizantes do Roth

    Omar, como eu não curto as altas matemáticas e, talvez por isto, ache que as voltagens são para serem descarregadas prazerosamente, não fiquei muito impressionada com a sexóloga sergipamericana. E, em matéria de excitação, talvez por alguma afinidade elétrica, não há nada que se equipare às tonteiras deliciosas e ao empuxo visceral que se sente quando se está bem no alto de uma hidroelétrica, vivendo a pulsação das forças armazenadas zumbindo pelos muros gigantescos ou no jato do sorvedouro. Itaipu, para mim, é uma das maravilhas do universo. E, confesso, vi poucas mulheres por lá e suponho que é obra mais de homem que das engenheiras femininas.

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    [Aeternus:12097] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-08-12)


    - Picaretagem

    Minha preguiça no que diz respeito à leitura organizada de qualquer coisa que não esteja ligada ao Nabokov, que me permite um eixo imaginário para todo tipo de bagunça associativa, talvez me jogue numa situação de saia justa.  Fui convidada há uns meses a falar de Bion, num encontro organizado por um grupo de "lógica e topologia", ao lado de um lacaniano chamado Jairo. Bionianamente queria me assentar no que dele já sei e imaginar-me repetindo o que o velho risonho Bion usou como primeira frase, vendo-se diante de uma platéia: "mal posso esperar para ouvir o que tenho a dizer." Não fazia parte dos meus planos retomar a leitura de "A Grade" ou "Transformações".

    Minha sorte, a das belas coincidências, decidiu diferente. Assim que recebi o bilhete eletronico da viagem a João Pessoa e o cartaz para o evento, com o nome completo de Jairo (Gerbase), sem considerar muito quem seria meu interlocutor oficial no encontro, resolvi investigar pelo Google algo ligado à Banda de Moebius, supondo que a analogia sobre dentro/fora que ela possibilitaria ( e sabendo que Lacan se utilizou dela, assim como do Nó Borromeu, nos seminários) uma associação entre o idealismo bioniano (não há nada fora da mente que não tenha sido projetado pela mente e que retrate sua operação projetiva peculiar) e algo lacaniano. Pois foi só digitar no google "banda de moebius lacan" que a primeira coisa que abriu foi um texto estabelecido pelo Jairo Gerbase! Tive oportunidade de conhecer seu rosto e seu estilo, programado e consistente, com texto rigorosamente encadeado e exibição de slides para cada um dos momentos chave que se propõe desenvolver. Uau.  Vou ter que sentar e reler Bion se não quiser ficar,apenas, de platéia boquiabertamente rota e sem rota.

    A superfície de gelo onde patino vem se rompendo há algum tempo. Um dos meus netos me pede para ajudá-lo nos deveres de casa e todo dia já dou uma de boquirrota sem rota. Como aproximar metros cúbicos e o cálculo de algo colocado ao cubo? Como explicar a amplitude das marés como expressão do movimento das águas oceanicas? Como comparar a arte funerária dos núbios e seu sistema de governo cuxita com a arte egípcia, piramides e faraós? Onde se deu a travessia do Mar Vermelho relatada no Velho Testamento (suponho que encontra-se no Exodo) E porque as antigas guerras acontecem até hoje na Palestina? Explicar a "transcendência"?

    Éeeeeeeee. O mais legal é que as respostas são mais fáceis do que supunha. Quando comecei a falar, por exemplo, da faixa de Gaza e das terras férteis situadas numa região desértica, Dudu me interrompeu: "ah, então é por isso, as lutas são motivadas pela conquista da área fértil?" e eu, sem nem mesmo saber situar direito Gaza e a Palestina, enrolada nos noticiários do dia, aprendo com o Dudu alguma coisinha sobre economia e geografia. Quando ele me explica que se calculam os metros cúbicos multiplicando a largura, a altura e o comprimento de um dado espaço, ao contrário, retorno ao rio degelado com meus palpos de aranha. Sei tão pouco sobre isso quanto Bill Clinton está informado a respeito de UFOS e dos ETs pretensamente ocultados pela NASA.  Enfrentar o olhar perplexo do Dudu para expor minha teoria sobre a transcendência também foi divertido e séri ao mesmo tempo. A irmã mais velha que veio xeretar naquela hora me disse, enfática:"Estudei isso..." e quando perguntei a ela o que ela entendia do assunto, deu de ombros e respondeu:"deve estar anotado num caderno antigo".

    No caderninho de ensino religioso havia o exemplo do ar, que era invisível mas podia ser sentido como a brisa que acaricia nossa pele e que sustenta nossa vida levando oxigenio aos pulmões, seguida da observação:"transcendência é aquilo que está por trás de tudo que existe e não pode ser visto." Havia ainda várias frases, parágrafos, páginas e, com alívio, notei que nada mais era acrescentado. Só formas diferentes, mais ou menos precisas, de desenvolver esta tese. Então me limitei a pedir que Dudu guardasse o exemplo e a tal frase e não perdesse mais tempo se afligindo com o resto (porque tinha tanta falação ali que aquilo que ele conseguira intuir, desde o início, foi sumindo e o deixando inseguro e com a sensação de que o tema, como exposto por escrito, seria totalmente incompreensível a ele). Espero que para a prova ele precise apenas saber repetir as primeiras coisas e ficar, vagamente, satisfeito. Graças a Deus não precisei de conferir na ética de Kant ou na matemática ou com o cinema do Caetano Veloso... Nem pensar num exemplo do Jairo Gerbase sobre o conjunto vazio em Cantor representando o gozo feminino...

    Mas que estou de saia justa, direto, ah... estou. Se bem que hoje consegui mais uma gracinha nabokovina: comparei a máquina do tempo dos Lusíadas, que Venus deu a Vasco da Gama, com o "cristal mágico" descrito pelo Pushkin em Eugene Onegin o qual, nas palavras de Nabokov, fora consultado pelo poeta para antecipar os meandros futuros do enredo da sua obra.  E, relembrando que também Nabokov tinha um personagem, que andava de ponta-cabeça, chamado Mascodagama... Brincadeirinhas com caleidoscópios e bandinhas de moebius feitas de papel... 


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    [Aeternus:12421] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-30)


    - fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    Retirado do Blog do Reinaldo Azevedo

    veja.abril.com.br/blog/reinaldo/.../de-vitorias-e-derrotas/ 

    quarta-feira, 30 de setembro de 2009 | 13:01

    Se vocês clicarem aqui, terão acesso a um vídeo em que poderão ouvir a voz de David Romero, diretor da rádio Globo, que apóia Manuel Zelaya. É aquela rádio que sofreu intervenção do governo interino, acusada de incitar a violência, e que deixou os bolivarianos brasileiros excitadíssimos. Ouvindo o que está aí, vocês têm uma noção de quem é aquela gente. Zelaya havia acusado a existência de um complô judaico para matá-lo com gás e radiação de alta freqüência. Por incrível que pareça, alguns jornalistas brasileiros caíram na conversa. Já escrevi um post aqui em que demonstrei as raízes anti-semita do bolivarianismo chavista. Ouçam o que vai aí. Abaixo, publico um tradução de trecho da fala.

    Às vezes, eu me pergunto se Hitler não teve razão de haver terminado com essa raça, com o famoso Holocausto. Se há gente que causa dano a este país, são os judeus, os israelitas. Eu quero, esta tarde, aqui na rádio Globo, dizer, com nome e sobrenome, quem são os oficiais do Exército judeu que estão trabalhando com as Forças Armadas de nosso país e que estão encarregados de fazer todas essas atividades de conspiração e ações secretas. E [quero dizer] tudo o que está acontecendo ao presidente da República.
    Depois que me informei, eu me pergunto por que não desejamos que Hitler tivesse cumprido sua missão histórica. Desculpem-me a expressão dura de repente. Porém eu me pergunto isso depois que fiquei sabendo disso e de outras coisas. Eu creio que teria sido justo e correto que Hitler tivesse terminado sua missão histórica”

    (DB): Na opinião de vocês, uma rádio que tem um diretor que faz tal avaliação, no ar, estaria mesmo empenhada em incitar a violência? Olhem, é com esse tipo de gente que se meteu o governo brasileiro; é essa metafísica influente que Lula e Celso Amorim se mostram dispostos a apoiar até o fim; é por gente que tem esse universo mental que o Brasil  está se mobilizando. Estes são os apoiadores de Manuel Zelaya.


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    [Aeternus:12422] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-01)


    - RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    É inacreditável que ainda usem um povo como bode expiatório. Não consigo entender se realmente é  ódio ou puro cinismo desses governantes autoritários adeptos do chavismo. Surpeende também que nosso governo seja adepto dessa linha de pensamento. Esse negócio ainda vai dar m ...


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    [Aeternus:12445] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-04)


    - Rio e as Olimpíadas

    Domingo, 4 de outubro de 2009, 17h15  Atualizada às 17h17
    Governador de Tóquio diz que Rio venceu por "razões obscuras"
      
    O governador de Tóquio, Shintaro Ishihara, disse neste domingo que o Rio de Janeiro foi escolhido como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 por "razões políticas obscuras", sem explicar ao que se referia.
    "É evidente que a designação da cidade olímpica está ligada a um intenso movimento político que não é visível do exterior", afirmou Ishihara após o Comitê Olímpico Internacional (COI) ter escolhido na sexta-feira passada o Rio, que concorria com Tóquio, Chicago e Madri.
    Tóquio foi a segunda eliminada nas votações do COI. A primeira cidade com menos votos foi Chicago. A disputa ficou entre Rio de Janeiro e Madri. No último turno, o Rio recebeu 66 votos e Madri 32.


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    [Aeternus:12470] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-07)


    - MST

    O MST ESTÁ SE TORNANDO UMA ORGANIZAÇÃO PERIGOSA

    O que se viu numa fazenda de SP não é resultado de grupo carente em busca legítima de terras para trabalhar, mas de um grupo de pessoas destrutivas, invejosas, criminosas ...


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    [Aeternus:12474] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-09)


    - RE:MST

    Jansy, sou absolutamente contra o MST e suas atividades truculentas. Mas essa mensagem, postada sem assinatura, descaracteriza uma lista de discussão transforma o Aerternus num bloco de rascunho ou numa parede de beco onde qualquer um pode escrever qualquer coisa sem precisar se preocupar em assumir a responsabilidade.
    Panfletagem polítca anônima é o fim da picada. Ou se dá um jeito de as pessoas botarem a cara a tapa (conferindo o nome com o endereço de envio do e-mail) ou eu caio fora.
    Acho essa história já deixou de ser preguiça e virou desfaçatez.
    E me perdoe a pessoa que escreveu a mensagem. Pode até ser alguém de quem gosto muito. Mas estou falando em termos gerais, antes que surjam 'Morte aos judeus/Negros/Nordestinos/Psicanalistas', etc.
    Beijos.
    Davy.

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    [Aeternus:12475] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-09)


    - RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    Já eu não tenho clareza nem opinião formada sobre o MST.

    Qualquer violência me assusta, em princípio sou contra, mas lembro que nossa imprensa (e não só a nossa) manipula os fatos com meias-verdades a serviço de ideários e intereses os mais variados, incluindo os questionáveis que não são questionados.

    Não estou dizendo que não exisitiu um ato violento do MST (houve vários), mas conheço pessoas que complementam tais notícias com dados e informações que nunca saem nos jornais.
    Alguém sabe o que são exatamente as entidades/empresas dos terrenos invadidos e /ou vandalizados? Não estou justificando nada, um erro (ou vários) não justificaria outro(s), em princípio apenas lembro que por menosprezo ao "andar de baixo" sócio-econômico-cultural acreditou-se que os pobres (involuindo para miseráveis), os favelados, os camponeses, etc etc seriam sempre cordiais e submissos, imunes às investidas da sedução da criminalidade (em estado de barbárie para o qual involiu nossa sociedade brasileira).
    A outra sedução é da "luta armada" ou do protesto desesperado.
    Pode ser que se eu tiver paciência de me informar melhor fique com posição/opinião mais francamente contrária ao MST, mas no presente acho que "só sabemos da missa, a metade" pois a "grande"imprensa (de m......) que temos manipula verdades ao seu interesse empresarial, elitsta e comprometido com o poder econômico e sabe-se lá mais o que. Como no corporativismo das alianças políticas que são verdadeiros concubinatos promíscuos. Nada "melhor" do que uma verdade para encobrir TODA a verdade (se for possível atingir verdades tão plenas, mas alguma coisa mais ampla existe debaixo do angú: tem caroço; da fumaça: tem fogo).

    O que quero dizer é que só ficamos conhecendo um lado da história e isso nos leva a concordar com uma "formação de opinião pública" que é manipuladíssima.
    Política agrícola não faz parte do meu foco de interesses, nem me didicar a saber melhor quem é quem nessas empresas, o que fazem (e des-fazem).
    Só sei (pela imprensa mesmo) é que a reforma agrária tão protelada caminha a passos de cágado como todos os projetos que seriam realmente sociais e que ficaram em banho-maria nos governos supostamente de esquerda de FHC e de Lula. Me dizem até que este aspecto teria sido menos ruim no governo do PSDB no que no do PT, mas que sei eu?

    Só sei é que a concentração de renda absurda (quando há pseudo-"reditribuição" quem paga a conta é a clase média como se pode ler sobre a retenção de DEVOLUÇÃO de Imposto de Renda retido na fonte para sustentar gastos do Lula  com a campanha eleitoral da Dilma com o codinome PAC.)
    A irmã de minha madrasta tem 94 anos e tem UMA fonte de renda como aposentada na qual desconta muito mais do que o devido, mas não recebeu restituição ainda, apesar da idade avançada: uma aposta para ver se tais contribuintes morrem antes?.

    Só posso me lembrar do clichê (Mas verdadeiro) de Brecht: "todos dizem violentas aságuas do rio que destróem as margens, mas nunca consideram violentas as margesn que o represam".
    Gallego

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    [Aeternus:12476] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-09)


    - RE:RE:MST

    Carissimo Davy,

    como não me recordava da mensagem anonima postada no Aeternus, fui lendo sua mensagem indignada e concordando com tudo que você dizia ("transforma o Aeternus numa parede de beco odne qualquer um pode escrever qualquer coisa...")

    Quando fui ler o recado original, achei que você exagerou nas invectivas. É sempre ruim alguém escrever ou postar coisas sem assinar, não se sabe nem se são várias pessoas diferentes ou uma só e como dar continuidade à discussão. Ao mesmo tempo, uma frase solta como a do "recado original" pode originar debates, como este em que você se expressou e o Gallego acrescentou com mais informações, destacando os formadores de opinião e os ideólogos manipulados da mídia. Particularmente sou contra o MST e contra o chavismo. Sou contra todo tipo de truculencia mantida com verbas escusas. ( Vi, de passagem, um blurb no Band News que o Obama ganhou premio Nobel da Paz, é possível isso?) Ao mesmo tempo, fico calada porque tenho poucas informações de primeira mão para julgar o problema com alguma isenção. A chance de aprender com os colaboradores do Aeternus, assim, é enorme, quanto às formas e quanto aos conteúdos. No momento estou engajada em duas coisas que me roubam a atenção destas duas outras importantes ( Zelaya e Lula/MST), mas que são válidas também. O que não entendo, aliás, liga-se ao que Gallego escreveu: "por que não acontece nada relativo à reforma agrária"?

    Os dois temas que me ocupam são: 1. o movimento gay e o irmão Sergey do Nabokov (morreu num camp de concentração alemão, provavelmente porque era gay) porque há supressão de informações ou pressões ideologizadas contra os chamados "discursos homófobos" que estão me deixando de cabelo em pé.
    2. De passagem pela TV vi um esquete de novela onde uma velha, para conquistar o filho e atingir a nora, arranca as próprias vestes e berra:"ela está batendo em mim" e soube que este tipo de cena é comum agora, tem até uma menina de cinco anos de vilã numa novela próxima das nove,etc (estou no mst, com minúsculas, ie, no  movimento sem tempo) Vi ontem um menino de doze anos trancar o irmão menor num quarto e bater nele enquanto berrava ele (não a vítima):socorro, fulano está batendo em mim.  Fiquei pasma e, de repente, em vez do futuro torturador que inicialmente enxerguei ali, vi uma criança copiando um padrão da TV. Tenho que me organizar contra isso, pra mim é prioridade...

    mst...sem tempo mesmo


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    [Aeternus:12477] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-09)


    - RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    Faço minhas as palavras do Gallego (sem ser de modo integral, mas por divergencias cotidianas e não ideais).

    Contudo, ele escreveu que "Só posso me lembrar do clichê (Mas verdadeiro) de Brecht: "todos dizem violentas as águas do rio que destróem as margens, mas nunca consideram violentas as margens que o represam". Num primeiro movimento adorei a frase do Brecht e o emprego preciso como citação para encerrar o comentário.  Só que, lentamente, percebi que a frase é capciosa ( a do Brecht). Um rio "violento" ao irromper de geleiras ou fontes ou despencando pelas rochas, ou melhor sendo, um empuxo de água (porque ainda não existe "um rio" ali) cria margens (pode destruir apenas sua anterior planície). É o planeta inteiro que represa as águas antes que estas formem um rio.  Então, como fica a imagem? Pra mim, só serve intuitivamente para aludir aos dois lados de um embate, mas não figurativamente. 


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    [Aeternus:12478] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-09)


    - RE:RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    PS: Não sei se fazedor de opinião e lobista acerta mais do que erra, ou vice-versa. Eis o que me enviaram ontem com a intenção de atacar e denunciar os lobistas:

    Com líder deposto, Honduras contrata lobistas americanos
    Ginger Thompson e Ron Nixon
    Em Washington (EUA)

    Nos meses que se seguiram desde que soldados depuseram o presidente hondurenho, Manuel Zelaya, o governo de fato e aqueles que o apoiam têm resistido às exigências dos Estados Unidos de que ele seja devolvido ao poder. Argumentando que o esquerdista Zelaya representava uma ameaça à frágil democracia de seu país ao tentar prolongar seu mandato ilegalmente, eles começaram a defender seu caso em Washington da forma habitual: iniciando uma alta campanha de lobby.  
    Micheletti contratou escritórios de advocacia e agências de relações públicas com proximidade da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton.
    A campanha já teve o efeito de forçar o governo americano a enviar sinais ambíguos a respeito de sua posição em relação ao governo de fato, que os vê como sinais de encorajamento. Também adiou a nomeação de dois cargos-chave do Departamento de Estado para a região[...] a campanha envolve escritórios de advocacia e agências de relações públicas com laços estreitos com a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, e com o senador John McCain, a principal voz republicana em relações exteriores.Também conquistou o apoio de vários ex-altos funcionários que eram responsáveis pela política americana na América Central nos anos 80 e 90, quando a região lutava para romper com as ditaduras militares e as guerrilhas que a definiram na Guerra Fria. Duas décadas depois, esses ex-altos funcionários - incluindo Otto Reich, Roger Noriega e Daniel W. Fisk - veem Honduras como o principal campo de batalha na guerra indireta com Cuba e Venezuela, que eles caracterizam como ameaças à estabilidade da região em uma linguagem semelhante à antes usada para descrever os desígnios da União Soviética.
    "A atual batalha pelo controle político de Honduras não envolve apenas aquele pequeno país", disse Reich perante o Congresso em julho. "O que acontece em Honduras pode algum dia ser visto como o ponto alto da tentativa de Hugo Chávez de minar a democracia neste hemisfério ou como uma luz verde para disseminação do autoritarismo chavista", ele disse, se referindo ao presidente da Venezuela. 
    Reich [...] disse que usou seus contatos para promover a agenda do governo de facto, liderado por Roberto Micheletti, porque ele sente que o governo Obama cometeu um erro. E Fisk [...] vinha defendendo a posição do governo Micheletti até duas semanas atrás[...] Além do apoio desses veteranos da Guerra Fria - e em parte por causa dele - o governo de facto tem mobilizado o apoio de um grupo determinado de legisladores republicanos, liderados pelo senador Jim DeMint, da Carolina do Sul. Eles estão obstruindo duas indicações para cargos no Departamento de Estado - o subsecretário de Estado para assuntos do Hemisfério Ocidental e o embaixador no Brasil- como forma de pressionar o governo Obama a suspender as sanções contra o país.
    "Ele tomou a decisão errada aqui", disse DeMint em uma entrevista para a "Fox News" após retornar de uma viagem a Honduras, na última sexta-feira. Referindo-se ao governo de fato, ele disse: "Este é provavelmente nosso melhor amigo no hemisfério, o país mais pró-americano, mas estamos tentando estrangulá-lo". 
    Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição. Chris Sabatini, o editor da "Americas Quarterly"[...] disse que o lobby nublou a posição de Washington a respeito do golpe. O governo disse publicamente que considera o golpe em Honduras como um precedente perigoso em uma região que há não muito tempo era atormentada por eles [...]Mas... para aplacar seus oponentes no Congresso e ter suas nomeações aprovadas, o Departamento de Estado às vezes envia mensagens indiretas aos legisladores expressando seu apoio a Zelaya em termos menos claros.
    "Há um vácuo de liderança no governo em Honduras e são estas pessoas que o preencheram", ele disse sobre aqueles que apoiam o governo Micheletti. "Eles não receberam muito apoio, mas o suficiente para manter a política do governo refém por ora." Após o golpe de 28 de junho, o presidente Barack Obama se juntou à região na condenação da ação e nos pedidos para que Zelaya fosse devolvido ao poder, apesar do presidente hondurenho ser um aliado de Chávez, o maior adversário dos Estados Unidos na região. Mas assessores do Congresso disseram que menos de 10 dias após Zelaya ser deposto, Noriega e Lanny J. Davis, um confidente de Clinton e lobista para um conselho empresarial hondurenho, organizaram uma reunião de defensores do governo de facto com membros do Senado.
    Fisk, que participou do encontro, disse que ficou surpreso com o número de pessoas. "Eu nunca vi oito senadores em uma sala para conversar sobre a América Latina em toda a minha carreira."  Enquanto Obama impunha sanções cada vez mais duras contra Honduras, o lobby se intensificava. O Cormac Group, dirigido por um ex-assessor de McCain, John Timmons, foi contratado, como mostram os registros, assim como a Chlopak, Leonard, Schechter & Associates, uma empresa de relações públicas. Nas ruas, hondurenhos não acreditam no término da crise política no país[...]. Reich [...] escreveu para um membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado: "Nós devemos nos alegrar com o fato de um dos autoproclamados aliados socialistas do século 21 de Chávez ter sido legalmente deposto por seus próprios compatriotas" [...].  Tradução: George El Khouri Andolfato.

    Há males que vem pra bem? Será que os rios escrevem certo por margens tortas? Feito cega em tiroteio, corro o risco de levar bala dos dois lados. Minha tendencia ainda é a de considerar o planeta como um todo, com fenomenos como os rios acontecendo com a mesma naturalidade que as margens que estes recortam ( e "violentamente os prendem"?)  e a dureza das pedras alternando-se com a argila e areia frouxa.  Serei, portanto, contra as represas e empresas humanas? Não sou não. Mas os rios sociais que seduzem as represas pela sua pujança (darei conta da analogia?) serão mais dignos do que a disciplina que deles se aproveita e altera a parte do ambiente que o rio não alterou? 
    Ah... não. A analogia não vai funcionar. Natureza é natureza. As leis humanas e as da economia são outra coisa distinta. Mas, ajudem-me a arrumar um barquinho e prosseguir por algum caminho antes de ser levada pro mar...


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    [Aeternus:12479] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-09)


    - RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    Eu também já não tenho opinião muito clara sobre o MST. Quando iniciou o processo de reivindicação o movimento me pareceu mais do que justo. Mas já faz algum tempo que vemos noticias de excessos promovidos pelos sem-terra, como essa mais recente de destruição de 10 mil pés de laranjas produzindo frutos, destruição de casas de trabalhadores da fazenda e de máquinas agrícolas. Para que a destruição? O que ganharam com isso? Manchetes contra o movimento?

    É certo também que nossa imprensa manipula os fatos a serviço de interesses variados. Mas a imagem dos tratores avançando sobre o pomar fala por si. Como pessoas que trabalham na terra, sabem o tempo que leva para uma árvore produzir destróem 10 mil pés árvores?

    É até possível que a fazenda esteja em terras da União, fato nada incomum no Brasil. Mas essa informação não justifica o vandalismo que vimos. Não me parece sequer inteligente a política adotada pelo MST. O Ministério Público pode ser acionado para verificar se a terra é da União e iniciar um processo de retomada da fazenda para fins de reforma agrária. Na verdade, não entendo bem, mas seguramente não é partindo para a irracionalidade que as coisas vão se resolver.

    Quando escrevi sobre o tema foi movida pela indignação que senti ao ver as imagens das árvores sendo derrubadas no noticiário da TV. Olvidei-me de assinar e vejo a indignação que também causou meu esquecimento. Espero não ter destruído de vez a minha imagem junto ao grupo.
    cely

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    [Aeternus:12480] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-09)


    - RE:RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    Cely, você observou: "Quando escrevi sobre o tema foi movida pela indignação que senti ao ver as imagens das árvores sendo derrubadas no noticiário da TV. Olvidei-me de assinar e vejo a indignação que também causou meu esquecimento. Espero não ter destruído de vez a minha imagem junto ao grupo" e, por meu lado, não houve qualquer destruição da sua imagem junto ao grupo. 

    Inclusive, se você notar, comentei com o Davy: "Quando fui ler o recado original, achei que você exagerou nas invectivas. É sempre ruim alguém escrever ou postar coisas sem assinar, não se sabe nem se são várias pessoas diferentes ou uma só e como dar continuidade à discussão. Ao mesmo tempo, uma frase solta como a do "recado original" pode originar debates, como este em que você se expressou..."

    Dava para sentir o tom de perplexidade com que você escreveu, chocada com a destruição das laranjeiras! Esquecer de assinar já aconteceu montões de vezes. Evitemos os "terrorismos" de qualquer tipo, não é? Um abraço, Jansy


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    [Aeternus:12481] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-09)


    - RE:RE:RE:MST

    Galego, você está certíssimo!!
    Que bom, não fui só eu que me espantei e fiquei curiosa pra saber a verdade dos fatos e não apenas os dados divulgados na grande mídia.
    Abaixo a nota do site da Comissão Pastoral da Terra, a CUTRALE está sendo acusada de grilagem (as terras seriam da União). Mais ainda, tudo isso pode estar relacionado à criação da tal "CPI do MST" no senado. Enfim, leia a opinião do CPT sobre o caso, bem mais esclarecedora...

    Bjs!
    Patrícia

    07/10/2009 - 17:58  

    NOTA PÚBLICA
     
    Mais uma vez mídia e ruralistas investem contra o MST
     
    A Coordenação Nacional da CPT vem a público para manifestar sua estranheza diante do “requentamento” por toda a grande mídia de um fato ocorrido na segunda feira da semana passada, 28 de setembro, e que foi noticiado naquela ocasião, mas que voltou com maior destaque, uma semana depois, a partir do dia 5 de outubro até hoje.
     
    Trata-se do seguinte: no dia 28 de setembro, integrantes do MST ocuparam a Fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, região central do estado de São Paulo. A área faz parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e que pertencem à União. A fazenda Capim, com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale, uma das maiores empresas produtora de suco de laranja do mundo, para a monocultura de laranja. O MST destruiu dois hectares de laranjeiras para neles plantar alimentos básicos. A ação tinha por objetivo chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União.
     
    As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos econômicos. A Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que houvesse regularização fundiária a seu favor.
     
    As imagens da televisão, feitas de helicóptero, mostram um trator destruindo as plantas. As reações, depois da notícia ser novamente colocada em pauta, vieram inclusive de pessoas do governo, mas, sobretudo, de membros da bancada ruralista que acusam o movimento de criminoso e terrorista.
     
    A quem interessa a repetição da notícia, uma semana depois?
     
    No mesmo dia da ação dos sem-terra foi entregue aos presidentes do Senado e da Câmara, um Manifesto, assinado por mais de 4.000 pessoas, entre as quais muitas personalidades nacionais e internacionais, declarando seu apoio ao MST, diante da tentativa de instalação de uma CPMI para investigar os repasses de recursos públicos a entidades ligadas ao Movimento. Logo no dia 30, foi lido em plenário o requerimento para sua instalação, que acabou frustrada porque mais de 40 deputados retiraram seu nome e com isso não atingiu o número regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu.
     
    A ação do MST do dia 28, que ao ser divulgada pela primeira vez não provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para novamente se propor uma CPI contra o MST.  E numa ação articulada entre os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da ocupação da fazenda da Cutrale.
     
                A ação do MST, por mais radical que possa parecer, escancara aos olhos da nação a realidade brasileira. Enquanto milhares de famílias sem terra continuam acampadas Brasil afora, grandes empresas praticam a grilagem e ainda conseguem a cobertura do poder público.
     
                Algumas perguntam martelam nossa consciência:
     
    Por que a imprensa não dá destaque à grilagem da Cutrale?
               
                Por que a bancada ruralista se empenha tanto em querer destruir os movimentos dos trabalhadores rurais? Por que não se propõe uma grande investigação parlamentar sobre os recursos repassados às entidades do agronegócio, ao perdão rotineiro das dívidas dos grandes produtores que não honram seus compromissos com as instituições financeiras?
     
    Por que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), declarou, nas eleições ao Senado em 2006, o valor de menos de oito reais o hectare de uma área de sua propriedade em Campos Lindos, Tocantins?  Por que por um lado, o agronegócio alardeia os ganhos de produtividade no campo, o que é uma realidade, e se opõe com unhas e dentes á atualização dos índices de produtividade? Por que a PEC 438, que propõe o confisco de terras onde for flagrado o trabalho escravo nunca é votada? E por fim, por que o presidente Lula que em agosto prometeu em 15 dias assinar a portaria com os novos índices de produtividade, até agora, mais de um mês e meio depois, não o fez?
     
                São perguntas que a Coordenação Nacional da CPT gostaria de ver respondidas.
     
    Goiânia, 7 de outubro de 2009.       
     
    Coordenação Nacional da CPT


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    [Aeternus:12482] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-10)


    - RE:RE:RE:fanatismo, recorte enviado pelo Davy

    O que me fez lembrar da frase de Brecht foi exatamente a questão que Jansy traduziu como "os 2 lados de um embate"
    - quando na midiia só sabemos da violência de um dos lados (por exemplo, as atitudes do MST) e não se fala da violência "de maõs limpas" - de sangue, mas sujas de m....... da corrupção daqueles que roubam o país, o admininstram muito mal, nunca dando chances reais de melhor equilíbrio entre os grupos sociais;
    porque não é dando bolsa-família (na verdade compra de votos) que se muda o perfil econômico de uma parcela desprivilegiada da população;
    nem é com cotas racistas (nem mesmo cotas por perfil econômico) que se vai resolver a questão de haver chances mais igualitárias para a formação educacional de todos, com chances prévias semelhantes, restando a seleção (sempre insatisfatória, mas alguma seleção é necessária) por mérito dentre os alunos que se  mostrem mais capacitados de fato e de direito.

    Nos anos 1960 e 70 (e mais tempo, embora hoje em dia bem menos) os jovens de classe média queriam ser médicos, engenheiros ou advogados... mas medicina era "o máximo".
    Forma criadas faculdades particulares (com anuência dos governantes militares, interessados nos seus filhos, claro) que atenderam à demanda.
    Muitas faculdades sem condições, sem nem hospital-escola (lembrem que a famosa Faculdade de Medicina da UFRJ também não tinha, mas a Santa Casa oferecia alguns serviços de elite no campo de formação médica prática, como era a Enfermaria do Prof. Clementino Fraga; outras enfermarias eram péssimas, mas dava para o aluno se virar e aprender a realpolitik da prática médica no Brasil). Mas tanto da UFRJ como dessas faculdades-coleginhos podem ter saído grandes profissionais e profissionais medíocres (quando não alguns que nunca deveriam ter tido um direito de exercer a Medicina). Isso vai ser sempre assim, não tem jeito, em todas as profisões haverá de tudo; mas o que eu quero dizer com este exemplo é que "cotas" são um engodo populista como foram para a classe média o "direito" de muita gente ter acesso a faculdades sem condições, mas que davam o diploma legalmente (mesmo que não legitmamemente) ao cabo de seis bem pagos anos de estudos deficitários.

    O que eu quis dizer com a frase do Brecht é que há uma violência antiga e "cordial" (simpática, dissimulada que nem se reconhece como tal) das classes dominantes brasileiras durante décadas - ou séculos - mas depois reclamam o estado de coisas atual que ameaça o andar de cima com violência e barbárie. Não aceito a frase "somos todos culpados", mas muitos e muitos são mesmo. Nos anos 1950 o morro era dominado pelo jogo de bicho que não ameaçava o asfalto, mas por lá havia o sistema de ocupação do vácuo do poder legal (que não ligava para as classes desfavorecidas) pelo poder mafioso e isso semrpe  é assim, no mundo inteiro.
    Aqui, exageraram. Mas nos anos 1950 o malandro carioca era até boa-praça, só te ameaçava se vc ia procurar encrenca ou dar mole. Achavam que as fronteiras nunca iam ser ultrapassadas entre a velha Lapa, o morro em geral e o Leblon/Ipanema?

    Suponho eu que algo semelhante aconteceu com a questão agrária. Achavam que os bóias-frias iam sempre se submeter a um trabalho que só não seria totalmente escravo porque se pagava dez merrecas por semana de trabalho?

    Esses são os dois lados do embate, lembrando que as margens são 2 (Guimarães Rosa falou de uma terceira, mas não vem ao caso) e o fluxo de água é apenas 1 lado da contenda, mas quando vem de aluvião... sai da frente.

    No fundo o Vinicius (imaginem só) antecipou em parte: "O morro não tem vez... mas olhem bem vocês; quando derem vez ao morro toda a cidade vai...." (na letra era "cantar", mas na verdade devia ser "sambar" - no sentido de "dançou", "perdeu". Nem deram vez... A vez foi "criada" à força: "É um, é dois é três, é cem, é mil a batucar..." (a vandalizar).

    E antes que me questionem, não acho que a miséria é a única e principal responsável por criar marginais, foras-da-lei.  Mas que é um senhor caldo de cultura para abuso dos que já são marginais e psicopatas, levando os jovens despreparados para a criminalidade sedutora de ganhar grana "fácil"...ah, isso é mesmo!
    Gallego

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    [Aeternus:12483] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-10)


    - RE:RE:RE:RE:MST

    Patricia, obrigado: é disso que eu falo: não a favor de vandalismo; nem de malandragens dos poderosos.
     
    Demonizar o MST sem olhar para os capetas do outro lado é ficar com metade da história.

    Podemos conhecer o outro lado e não concordar com o MST, achar que estão dando tiro no pé e tudo mais. Mas vamos ser menos ingênuos, mesmo que isso nos deprima se concluirmos que todos estariam errados, ninguém tem razão e não há saída.
    Estou exagerando, claro, mas é prefrível até isso a ser manipulado por quem quer que seja que acha que "faz nossas cabeças". E tenta fazer. E faz.
    A minha cabeça só fazem, só quando vou cortar o cabelo.
    Nem no divã dos meus ex-analistas.

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    [Aeternus:12484] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE:MST

    Não sei porque guardo informações adquiridas, como um relampago em céu azul, durante os primeiros anos da minha vida. Talvez porque, discordantes do meio em que eu vivia e até dos meus sonhos, ficassem enquistadas. Já descrevi uma delas, a bronca da empregada Maria quando a apresentei como "essa é a minha empregada" para uma amiguinha. Outra, também antes de completar seis anos, foi o comentário (talvez eco da conversa dos pais) sobre a garota (Marisa) que sempre ganhava medalha de ouro na escola (Externato Angelorum): "os pais dela contribuem com dinheiro para sustentar as freiras". A mais interessante foi ouvida na fazenda da Bocaina (colonia de férias em Mantiqueira): "os camponeses que trabalham aqui ganham alimento e querosene dos fazendeiros mas não tem dinheiro porque recebem tão pouco que já fazem dívidas na vendinha antes de terminar o mes." Dava pra ver que era verdade. O problema, como se configurou para mim quanto aos poucos fazendeiros que conheci, é que os donos das terras também não tinham muito dinheiro além das próprias terras e trabalhavam tanto quanto seus empregados. No máximo via no olhar deles o orgulho de esticar o olho no horizonte e suspirar: "tudo isso é meu." Como não conhecia as grandes fazendas de café, gado, algodão (nem chegavam perto do meu mundo) só testemunhei um lance dos escravos que eram donos de umas terras e, dos outros escravos, que dependiam deles. Nas festas da roça todos ficavam iguais (principalmente em junh/julho). Tudo no esquema da vidinha da baixa ou média classe média, dos empréstimos e taxas do governo, jogos do mercado e da espiral de escravidão. Dentro da minha experiencia infantil rumorejava algo como "rendatários" que pagavam aluguel com uma parcela do produto que cultivavam e que ia para os donos das terras (como recentemente revi num clássico filme americano com James Dean e Elizabeth Taylor, acho). No meu caso, a posse aconteceu ser da Igreja!

    Pra eu não teorizar sobre o que não sei e que se distancia do meu estreito horizonte estacionado na infancia e falando sem ser com a cabeça ( modo de dizer, que torna o corpo escravo dela, no esquema id-ego-superego, que reproduz o modelo esquisito que nem se aprochega ao do "senhor e escravo"), confesso que sou contra o MST de coração. Os oprimidos estão em outro lugar. Ou melhor, estão por toda parte.

    Afinal, o que sabemos das favelas? Não é lá que mora uma multidão que não tem nada a ver com prostituição nem com a droga, mas que é vítima da polícia e dos mafiosos? O que sabemos das pequenas granjas e das suas cooperativas? 

    Gente, não sei nada de nada. Não é porque leio os jornais ou ouço notícias por aí que o que fica dentro de mim, estes quistos de experiencia não digerida (meus estudos em "bons colégios" ou na PUC não me levaram longe nas leituras da sociologia, política, etc), não deixam de ativar numa direção francamente reacionária (mesmo que eu não tenha nada a perder, economicamente falando, se me perfilar de um lado ou de outro). Para eu ter um mínimo de clareza teria que meter a cara em tratados que não tenho mais saúde para ler.  Por isso, não posso me meter com essas histórias  de "gente grande" sem ser papagaio de alguém.

    Pequenas ironias: apareceu uma empregada nova aqui em casa. O nome dela? Vanusa!

    E me telefonaram querendo comprar uns terrenos que tenho perto de Brasília e estranhei, porque antes mesmo de eu cercá-los para construir uma chácara as terras foram invadidas pelos vizinhos agricultores e minha escritura, legítima, invalidada por outra (corrupção dos cartórios?). A compradora em potencial disse que criava cavalos e que havia um dos terreninhos ( eram quatro colados um no outro, projeto de patrimonio para o futuro dos filhos, pago em prestações suadas no começo da minha vida em Brasília ...) ainda com meu nome e por isso me localizara. O terreno dividia as terras dela! Falei que não tinha nada para me autorizar a vender ( as tais escrituras invalidadas por outras espúrias). Ela conversou com o advogado e ele garantiu que, se eu tinha o número dos IPTU que paguei na época, eu reintegraria a posse das terras!  Guardei a velharia dos papéis no sotão e sei que, em algum canto, tenho estes comprovantes. Vou perder dias procurando!!!! Nem sei se vale a pena. 


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    [Aeternus:12485] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-10)


    - RE:RE:RE:RE:MST

    Importante a nota pública trazida pela Patrícia, pois traz uma análise do episódio do ponto de vista dos defensores do movimento, confirmando o que se supunha de que a terra pertence a União e já corre na justiça processo movido pelo INCRA, há anos, segundo a nota. Lamentavelmente nosso Judiciário atua de modo excessivamente lento e com frequência com os dois olhos bem abertos, para insatisfação, na maior parte das vezes, da parte mais fraca da disputa e de grande parte da sociedade que preferia ter um Judiciário mais imparcial e ágil em suas decisões.

    Segundo a nota A ação tinha por objetivo chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União.

    Minha dúvida é se derrubando árvores vai sensibilizar nossos magistrados. Lembrei-me agora de um ato falho do primeiro ministro italiano afrimando que sempre se defendeu das ações contra ele pagando valores expressivos aos juizes, quando queria dizer advogados.  

    A questão de terras no Brasil e em Brasília é bastante curiosa. Diz a nota que a Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que houvesse regularização fundiária a seu favor. Em Brasília existiu em passado bem recente, verdadeira indústria de invasão de terras em todas as classes sociais: a classe dos empresários invadindo grandes áreas, instalando seus negocios, trazendo emprego, impostos; a classe média comprando terras rurais públicas de grileiros, com documentos passados em cartório, tudo na melhor aparencia de negócio lícito, com a promessa que o governo iria transformar as áreas rurais em áreas urbanas. Sendo a terra pública terão de pagar novamente ao governo. Justo, apesar  do engano. A classe mais miserável  invadiu várias áreas, algumas bem centrais  de modo bastante organizado, quase sempre sob orientação de deputados distritais ou gente a eles ligadas. Parte das pessoas não tinham moradia própria e viam nas invasões um modo de resolver uma questão essencial em suas vidas. Mas havia também um número expressivo de pessoas que já tinham recebido terras do governo, (por doação regular ou fruto de outras invasões) inclusive para diversos membros da família nuclear, mas vendiam os lotes e promoviam novas invasões. E ganhavam novos lotes. Portanto, o que se observa é a mesma base de raciocínio em todas as classes sociais: depois instalados o governo teria que encontrar uma solução, e quase sempre é a regularização, pagando ou não.

    Diz a nota também que só foram derrubadas árvores numa área de 2 ha. Não entendo como 10 mil pés de árvores caibam numa área de 20.000m2.

    As perguntas que martelam nossa consciência todos sabemos as respostas. Não sejamos ingenuos. Não há justiça social, o que há são jogos de interesses das elites politicas e economicas, e de todas as classes. Todos querem levar a melhor. A questão é o como? A bancada ruralista joga pesado, a bancada evangélica joga pesado, sei lá quantas bancadas mais existem ... Todas procuram levar a brasa prá sua sardinha. Ninguém é isento nem o nosso Judiciário. Lamentavelmente, parece que a conclusão é mesmo a depressão pois não há como não concluir que ninguém tem razão e não há saída. E aí não me parece que seja uma questão de "ser ou não manipulado".

    Jansy foi corajosa em suas posições contra o MST, o que não significa que também não defenda a melhor distribuição de renda em nosso país. O problema é o como fazer com nossas imperfeições estruturais.


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    [Aeternus:12486] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE:MST

    Ironia mesmo. Voce pelo menos checou se ela sabe cantar o nosso hino?

    Quanto à sua terra, devo incentivá-la a buscar o documento no sotão. Explico: uma amiga comprou há 20 anos um terreno numa daquelas áreas rurais que falei. Nunca pagou IPTU e agora está buscando regularizar sua situação junto a Coperlegis que adquiriu uma área (onde estava o lote) para formar um condomínio. A terra valorizou e o lote está valendo mais de cem mil reais.


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    [Aeternus:12488] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE:MST

    Pois então, Cely, podemos ouvir o ponto de vista dos defensores do MST e o oposto. Acontece que, mesmo sendo claros estes argumentos, ou suas demonstrações e revoltas, existem tantas forças (difusas ou não) movendo os pauzinhos ou os peões de uma jogada -  pressões ou intervenções estas que os próprios defensores ou opositores ignoram -  que fica difícil fazer uma aposta, seja de que lado for. 

    A destruição das laranjeiras me choca tanto quanto a festa do tomate numa cidade italiana, ou a greve dos fabricantes de queijo regando a rua com leite: por outro lado, queimar o excesso de produção para garantir os preços faz sentido na maioria dos casos. Esta destruição é mesmo um espelho do que se vê acontecer na natureza: uma espécie ameaçada de extinção produz muito mais frutos para garantir alguma semente e nem é preciso tanto, qualquer arvore dá muito mais frutas do que seria basicamente "necessário" para sua sobrevivencia ou a dos pássaros e demais predadores (não me refiro às pragas e é isto que vejo na economia e não sei dizer como é, não é visível feito gafanhotos atacando na Africa).

    Então ( pensando como amadora, desarmada, sem prumo) porque não queimar o superavit de alimentos que, até mesmo, estão fazendo falta em outros cantos do mundo? (Tem ditadores que pensam com as mesma isenção a respeito do superavit de trabalhadores, mas coloco isso do lado das pragas bíblicas). A estabilidade da economia depende deste tipo de jogada e "o grupo" se beneficia a partir do sacrifício de algumas "partes". 

    Minha aversão a isto vem de um registro igualmente primitivo e que vai ao encontro do famoso dito atribuido a Lavoisier: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." Primeiro, porque ele não viveu pra aprender sobre a entropia. Segundo porque este pensamento é feito o do Millor quando escreve: "olha, entre um pingo e outro a chuva não molha." Quero dizer que nada se perde no esquema geral (não-entrópico) desde que a gente não esteja no particular entre aquilo que foi destruído... 
    É que a natureza se esgota, sim!!!!  Nela se cria, nela se perde e pode ser que tudo se dê de uma forma irremediável...

    Não sou contra que se faça uma demonstração eficaz contra a morosidade do judiciário. Mas quem é que diz que o judiciário aqui e agora ... bem...deixa pra lá. A pergunta fica: "demonstração para os olhos de quem?"

    Queria me recordar de um conto de ficção científica que era mais real do que tudo isso que discutimos. Nele se descreve um planeta futuro, dentro de uma ordem planetária rigidamente organizada, cheio de pensadores inúteis porque eles constatam que tanto seu planeta, como a ordem planetária, são regidos por um determinismo que os ignora enquanto seres pensantes. E não estou me referindo a nada ligado ao materialismo histórico. No conto dá para a gente acompanhar o próprio emaranhado de táticas e políticas bem intencionadas e que se transformou num monstro com vida independente daqueles que primeiro o criaram e que os devorava em seguida.

    Mas chega de dar um espetáculo de ignorancia. Estou que desabafo...

    A Vanusa não sabe cantar o hino, mas ouviu a reportagem sobre a xará e citou vários exemplos de outras cantoras tropeçando ou errando no hino em todo canto do mundo.  E o problema de achar documentos comigo é que tenho todos, até os que jogo fora são xerocados antes (como na piada do portugues) e a quantidade de pastas e papéis é esmagadora.



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    [Aeternus:12489] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-10)


    - outra exemplar história de ficção

    Pra variar, não sei quem escreveu esta história! Mas a turma é restrita: deve ser Ray Bradbury ou Asimov ou P. Dick.

    Com o avanço da tecnologia um inventor consegue criar um software que prevê as variaveis ligadas às oscilações na bolsa de valores. O dono do programa investe naquilo que está barato mas vai sofrer reviravoltas inesperadas e fica rico. Aumenta o poder do computador e vai prevendo coisas e manipulando outras (represas e enchentes, por exemplo, incêndios florestais e as safras, mão de obra barata e alimento na região) e jogando com um numero crescente de variáveis para não enriquecer apenas, mas tornar-se dono do mundo. A cada sucesso, amplia os poderes do computador. Até que um dia ( estraguei com este início de frase, não?) ele ordena ao computador incluir todas as quase infinitas variáveis que regem o que acontece e intervém na economia, sem deixar de fora qualquer uma delas. Aí o computador se inclui entre as variáveis e tudo explode...


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    [Aeternus:12490] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-11)


    - Paranoia burocrática...

    Sem mover uma palha atrás da agulha do IPTU pago nos anos setenta, já estou assombrada pela papelada. Sonhei que, em vez das relíquias religiosas que as mães antes guardavam dos filhos ( cachos de cabelo com fitinhas, dentes de leite, cordões de umbigo ressecados), a moda era guardar a primeira fralda suja. Havia recipientes próprios, de plástico e cilíndricos como nas antigas embalagens Kibon para os sorvetes, com líquidos especiais e a conversa, animada, girava em torno da decoração dos potes. Fralda suja se guarda em casa, não se lava ou joga fora???

    Seja como for, lembrei de dois azares que tive, traumáticos os dois. No primeiro, achando que o comprovante do condomínio que o vento levou quando eu entrava no carro era negligível, a surpresa de ser cobrada por não-pagamento pela primeira e última vez exatamente para o mes deste papel esvoaçante. No segundo, outro drama com IPTU. Como eu pagava integral, um dia resolvi fazer uma limpa na pilha de carnês cheinhos de folhas e extraí a ultima folha para descartar o restante.  Orgulhosa da minha organização, arquivei as tais folhinhas na pasta marcada "IPTU". E não é que recebi cobrança para dois meses que eu teria deixado de pagar e, ao buscar o papelucho na pasta, vi que tinha arquivado uma outra folha que vinha junto, uma tal "taxa de lixo"? Paguei de novo e tentei reivindicar a duplicação. Passei cinco anos sendo chamada até que me concederam a devolução: eram os anos da inflação galopante e não havia correção monetária. O que devolveram não pagava nem uma passagem de onibus de ida.

    Dou risada com as paranóias flagradas. Recentemente, escrevi para um amigo: " Pois é, uma desgraça nunca vem só."  E ele, rapidinho, revidou: "Claro, se forem duas desgraças elas já estão acompanhadas" Ou meu filho, debochando da Ula quando ela reclamou: "Que droga, por que tudo que procuro só aparece no último lugar em que fui olhar?" (pois, claro, a gente só encontra o que procura no último lugar pois este é aquele onde se achou o que se perdeu e a busca se encerrou...)


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    [Aeternus:12491] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-11)


    - Et in Arcadia Ego

    Pesquisando variantes, cheguei ao Schiller e, pessimista, trata da verdade e da beleza:

    RESIGNAÇÃO

    F.Schiller

    Sim! Também eu nasci na Arcádia
    E nos ternos anos da minha infância
    A natureza ao deleite me jurou; -
    Sim! Também eu nasci na Arcadia,
    Mas sua breve primavera concedeu-me apenas - lágrimas!

    O maio da juventude florece apenas uma vez
    Para mim esta estação partiu com as flores...
    O Deus silencioso - Oh irmãos, chorem hoje mesmo-
    O Deus silencioso sorveu o raio da minha tocha,
    E desfez meu sonho vão.

    Sobre a tua escura ponte, Eternidade,
    Ainda me encontro até hoje, uma idéia assustadora!
    Leve consigo, pois, as credenciais da minha alegria!
    Sem abrir o selo, devolvo-as a ti,
    Da felicidade, ai de mim, nada vi!

    Ante o teu trono espalho meus tristes gritos
    Juiz, oculto à minha visão!
    Para uma estrela distante seguiu o feliz presságio
    De que viestes nos reger com uma balança,
    E até te apresentavas como Redentor!

    Aqui, -dizem eles,- terrores baixam sobre os maus
    E alegrias saúdam na primavera aos virtuosos.
    As manobras escusas exporias à vista de todos,
    Pois o Enigma da Providencia decide com justeza
    E presta contas aos sofredores!

    Aqui, ao exilado se oferece abrigo,
    Aqui se encerra a via trabalhosa dos mansos!
    Uma criança divina, com o nome de Verdade, disseram,
    Conhecida por poucos e da qual muitos fugiram,
    Continha os ardentes freios dos meus dias.

    "Terás a chance de viver mais uma vida,-
    Entrega para mim a tua juventude!
    Só para ti posso dar esta certeza"-
    Tomei para mim aquela segurança de viver;
    E a ela cedi o terno júbilo da minha juventude.

    "Entrega para mim a mulher cara ao teu coração,
    Entrega para mim a tua Laura!
    Deixa a usura pagar os espertos em seu além-túmulo."-
    Chorei alto, e do meu coração sangrante
    Arranquei de mim a amada, com resignação.

    "O compromisso está selado sobre os mortos!"
    E foi assim que o mundo me recebeu com desdém.
    "Aquela que mente, aliada ao terror dos déspotas,
    No lugar da verdade, um fantasma assentou em ti,
    Deixarás de existir, passado este sonho!"

    A torção da serpente debochava sem vergonha:
    "Um sonho que só a sua prescrição admitirá
    O que tu temes? Onde está agora a proteção do teu Deus,
    (Que o Salvador do mundo com malícia planejou),
    Emprestando, da necessidade humana, à humana inteligência?"

    "Qual é o futuro que os túmulos revelam?
    Qual a eternidade do teu discurso?
    Á verdade honramos apenas porque ela se esconde em véus escuros,
    Suas sombras gigantes nos enchem de reverencia,
    Que então encaramos no espelho vazio do remorso!"

    "Uma falsa imagem modela a forma dos viventes,
       (Ela, a própria mumia do Tempo!)
    A qual apenas o bálsamo da Esperança pode segurar
    No interior da fria cova,-
    E tua febre a isto chama de imortalidade!"

    "Às esperanças vãs,- a corrupção engana-
    Deste em troca aquilo que, na certeza, realizaste?
    Seis milhões de anos em silêncio apressou-se a morte,-
    E seu cadáver do túmulo bem alto se ergueu,
    Fazendo menção ao Salvador?"

    Vi o tempo voar para alcançar tua margem distante,
    Vi jazendo exangue a bela Natureza 
    Com seu corpo ressequido a segui-lo pelas costas,-
    Nenhum outro morto tentou alçar vôo daquela cova
    Ainda assim naquela Jura divina confiava eu.

    Cada felicidade a sacrifiquei por ti,
    Lanço-me agora ante o teu trono de juiz;
    O desdém da multidão desprezei com audácia,-
    Tuas apenas - as dádivas que prezei alguma vez -
    E agora demando meu salário, Salvador!

    "Amo a cada filho meu com igual amor!"
    Exclamou um genio oculto ao meu olhar.
    "Duas flores",  gritou, "Mortais, atentem ao sinal,-
    Duas flores saúdam e se enroscam no sábio Peregrino,-
    Esperança e Gozo são seus nomes."

    "Aquele que arrancar uma das flores, desista 
    De jamais tocar a flor da outra irmã.
    Deixa-o usufruir, quem não tem fé, eterna
    Como a terra, esta verdade!-
    Abstenha-se, quem aprende pela fé!
    A longa história do mundo é a condenação do mundo."

    "Sentise Esperança,- e assim está pago o teu salário;
    Foi a tua esperança que lhe criou a felicidade prometida.
    Devias ter investigado melhor com o Sábio,-
    Os minutos negligenciados, ao se desvanecerem,
    Não lhe serão devolvidos por eternidade alguma!"

    ..........................

    Yes! even I was in Arcadia born,
       And, in mine infant ears,
    A vow of rapture was by Nature sworn;—
    Yes! even I was in Arcadia born,
       And yet my short spring gave me only—tears!

    Once blooms, and only once, life's youthful May;
       For me its bloom hath gone.
    The silent God—O brethren, weep to-day—
    The silent God hath quenched my torch's ray,
       And the vain dream hath flown.

    Upon thy darksome bridge, Eternity,
       I stand e'en now, dread thought!
    Take, then, these joy-credentials back from me!
    Unopened I return them now to thee,
       Of happiness, alas, know naught!

    Before Thy throne my mournful cries I vent,
       Thou Judge, concealed from view!
    To yonder star a joyous saying went
    With judgment's scales to rule us thou art sent,
       And call'st thyself Requiter, too!

    Here,—say they,—terrors on the bad alight,
       And joys to greet the virtuous spring.
    The bosom's windings thou'lt expose to sight,
    Riddle of Providence wilt solve aright,
       And reckon with the suffering!

    Here to the exile be a home outspread,
       Here end the meek man's thorny path of strife!
    A godlike child, whose name was Truth, they said,
    Known but to few, from whom the many fled,
       Restrained the ardent bridle of my life.

    "It shall be thine another life to live,—
       Thy youth to me surrender!
    To thee this surety only can I give"—
    I took the surety in that life to live;
       And gave to her each youthful joy so tender.

    "Give me the woman precious to thy heart,
       Give up to me thy Laura!
    Beyond the grave will usury pay the smart."—
    I wept aloud, and from my bleeding heart
       With resignation tore her.

    "The obligation's drawn upon the dead!"
       Thus laughed the world in scorn;
    "The lying one, in league with despots dread,
    For truth, a phantom palmed on thee instead,
       Thou'lt be no more, when once this dream has gone!"

    Shamelessly scoffed the mockers' serpent-band
       "A dream that but prescription can admit
    Dost dread?  Where now thy God's protecting hand,
    (The sick world's Saviour with such cunning planned),
       Borrowed by human need of human wit?"

    "What future is't that graves to us reveal?
       What the eternity of thy discourse?
    Honored because dark veils its form conceal,
    The giant-shadows of the awe we feel,
       Viewed in the hollow mirror of remorse!"

    "An image false of shapes of living mould,
       (Time's very mummy, she!)
    Whom only Hope's sweet balm hath power to hold
    Within the chambers of the grave so cold,—
       Thy fever calls this immortality!"

    "For empty hopes,—corruption gives the lie—
       Didst thou exchange what thou hadst surely done?
    Six thousand years sped death in silence by,—
    His corpse from out the grave e'er mounted high,
       That mention made of the Requiting One?"

    I saw time fly to reach thy distant shore,
       I saw fair Nature lie
    A shrivelled corpse behind him evermore,—
    No dead from out the grave then sought to soar
       Yet in that Oath divine still trusted I.

    My ev'ry joy to thee I've sacrificed,
       I throw me now before thy judgment-throne;
    The many's scorn with boldness I've despised,—
    Only—thy gifts by me were ever prized,—
       I ask my wages now, Requiting One!

    "With equal love I love each child of mine!"
       A genius hid from sight exclaimed.
    "Two flowers," he cried, "ye mortals, mark the sign,—
    Two flowers to greet the Searcher wise entwine,—
       Hope and Enjoyment they are named."

    "Who of these flowers plucks one, let him ne'er yearn
       To touch the other sister's bloom.
    Let him enjoy, who has no faith; eterne
    As earth, this truth!—Abstain, who faith can learn!
       The world's long story is the world's own doom."

    "Hope thou hast felt,—thy wages, then, are paid;
       Thy faith 'twas formed the rapture pledged to thee.
    Thou might'st have of the wise inquiry made,—
    The minutes thou neglectest, as they fade,
       Are given back by no eternity!"
     
    ...................................................

    Auch ich war in Arkadien geboren,
        Auch mir hat die Natur
    An meiner Wiege Freude zugeschworen,
    Auch ich war in Arkadien geboren,
         Doch Tränen gab der kurze Lenz mir nur.
    Des Lebens Mai blüht einmal und nicht wieder,
        Mir hat er abgeblüht.
    Der stille Gott -- o weinet meine Brüder --
    Der stille Gott taucht meine Fackel nieder,
         Und die Erscheinung flieht.
    Da steh' ich schon auf deiner finstern Brücke,
        Furchtbare Ewigkeit.
    Empfange meinen Vollmachtbrief zum Glücke!
    Ich bring' ihn unerbrochen dir zurücke,
         Ich weiß nichts von Glückseligkeit.
    Vor deinem Thron erheb' ich meine Klage,
        Verhüllte Richterin.
    Auf jenem Stern ging eine frohe Sage,
    Du thronest hier mit des Gerichtes Waage
         Und nennest dich Vergelterin.
    Hier, spricht man, warten Schrecken auf den Bösen,
        Und Freuden auf den Redlichen.
    Des Herzens Krümmen werdest du entblößen,
    Der Vorsicht Rätsel werdest du mir lösen,
         Und Rechnung halten mit dem Leidenden.
    Hier öffne sich die Heimat dem Verbannten,
        Hier endige des Dulders Dornenbahn.
    Ein Götterkind, das sie mir Wahrheit nannten,
    Die meisten flohen, wenige nur kannten,
         Hielt meines Lebens raschen Zügel an.
    «Ich zahle dir in einem andern Leben,
        Gib deine Jugend mir,
    Nichts kann ich dir als diese Weisung geben.»
    Ich nahm die Weisung auf das andre Leben,
         Und meiner Jugend Freuden gab ich ihr.
    «Gib mir das Weib, so teuer deinem Herzen,
        Gib deine Laura mir.
    Jenseits der Gräber wuchern deine Schmerzen.» --
    Ich riß sie blutend aus dem wunden Herzen,
         Und weinte laut, und gab sie ihr.
    «Die Schuldverschreibung lautet an die Toten»,
        Hohnlächelte die Welt,
    «Die Lügnerin, gedrungen von Despoten,
    Hat für die Wahrheit Schatten dir geboten,
         Du bist nicht mehr, wenn dieser Schein verfällt.»
    Frech witzelte das Schlangenheer der Spötter:
        «Vor einem Wahn, den nur Verjährung weiht,
    Erzitterst du? Was sollen deine Götter,
    Des kranken Weltplans schlau erdachte Retter,
         Die Menschenwitz des Menschen Notdurft leiht?»
    «Was heißt die Zukunft, die uns Gräber decken?
        Die Ewigkeit, mit der du eitel prangst?
    Ehrwürdig nur, weil Hüllen sie verstecken,
    Der Riesenschatten uns'rer eig'nen Schrecken
         Im hohlen Spiegel der Gewissensangst;»
    «Ein Lügenbild lebendiger Gestalten,
        Die Mumie der Zeit
    Vom Balsamgeist der Hoffnung in den kalten
    Behausungen des Grabes hingehalten,
         Das nennt dein Fieberwahn ? Unsterblichkeit?»
    Für Hoffnungen -- Verwesung straft sie Lügen --
        Gabst du gewisse Güter hin?
    Sechstausend Jahre hat der Tod geschwiegen,
    Kam je ein Leichnam aus der Gruft gestiegen,
         Der Meldung tat von der Vergelterin?» --
    Ich sah die Zeit nach deinen Ufern fliegen,
        Die blühende Natur
    Blieb hinter ihr, ein welker Leichnam, liegen,
    Kein Toter kam aus seiner Gruft gestiegen,
         Und fest vertraut' ich auf den Götterschwur.
    All meine Freuden hab' ich dir geschlachtet,
        Jetzt werf' ich mich vor deinen Richterthron.
    Der Menge Spott hab' ich beherzt verachtet,
    Nur deine Güter hab' ich groß geachtet,
         Vergelterin, ich fodre meinen Lohn.
    «Mit gleicher Liebe lieb' ich meine Kinder
        Rief unsichtbar ein Genius.
    Zwei Blumen, rief er -- hört es Menschenkinder --
    Zwei Blumen blühen für den weisen Finder,
         Sie heißen Hoffnung und Genuß.
    Wer dieser Blumen Eine brach, begehre
        Die andre Schwester nicht.
    Genieße, wer nicht glauben kann. Die Lehre
    Ist ewig wie die Welt. Wer glauben kann, entbehre.
         Die Weltgeschichte ist das Weltgericht.
    Du hast gehofft, dein Lohn ist abgetragen,
        Dein Glaube war dein zugewog'nes Glück.
    Du konntest deine Weisen fragen,
    Was man von der Minute ausgeschlagen,
         Gibt keine Ewigkeit zurück.»
    Author: Friedrich von Schiller (1759-1805). Text collections / compilations
    [warning ..... Resignation (Auch ich war in Arkadien geboren )




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    [Aeternus:12492] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-10-11)


    - RE:Paranoia burocrática...

    Essa situacao tem nome, Lei de Murphy ....

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    [Aeternus:12493] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-11)


    - Murphy

    Ai de mim, logo depois da Arcadia maldita do Schiller, romantico com suas tumbas e primaveras senís? A Lei morfética de Murphy??? Ai de mim. Mas fico com a fé e a esperança, bom-senso nem chega perto. Ei de vencer e encontrar papéis com numeros mágicos e vender os terrenos malditos para ver a neve na encosta dos Alpes...( eu hem, quem disse que quero ver a neve na encosta dos Alpes?)


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    [Aeternus:12494] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-11)


    - murphy, ps

    PS:Ei! Onde se lê ei leia-se hei.

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    [Aeternus:12495] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-13)


    - MST e Tolstoy

    Achei interessante notar que foi traduzido e está exposto entre livros infantis, bem ilustrados, para as festas do Dia da Criança, um texto antigo que remete à reforma agrária, cooperativas, latifundios. Foi escrito por Tolsói com o título "De quanta terra precisa o homem."  Numa daquelas coincidencias esquisitas, eu havia acabado de ler uma referencia a esta história do Tólstoi, pelo Edmund Wilson, estranhando o encantamento que James Joyce demonstrou por este conto em particular.  Ou seja, este livrinho tem um pedigree e tanto.  O bacana é que Tolstoi, antes de criticar a gula latifundiária, mostra como se dá a corrupção do pequeno agricultor a partir da inveja dos vizinhos e sua necessidade de se defender contra eles (destruiam, sem mais nem menos, suas árvores e soltavam o gado a pastar nas terras dele pisoteando a lavoura...) 

    Aliás, consegui achar o comprovante de IPTU pago nos anos setenta para os lotes na estrada Brasilia-Luziania, cuja área excede 16.000 m2. Agora vamos ver se o resto da trabalheira vai valer a pena porque a terra naquela região valorizou muito, mas ... realmente, não tenho vocação para cuidar disso.


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    [Aeternus:12652] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-11-10)


    - geisy da uniban

    a pombagira existe ou não existe? depois da pancadaria, sem mais argumentos. 
    carmem, de bizet, mostra a crueza da exasperação masculina subjugada sob o p(h)oder feminino. de onde viemos? ô lugar fundo, beco... será a dor pura de uma coisa mais louca que um homem soube e falou: impulsividade.
    de qualquer modo parece evidente o fenômeno de identificação massiva que rapidamente se organizou e que teve como fator desencadeante a perturbação que o gozo feminino, não só o desejo de uma mulher, produz na lógica masculina. sabemos que não é preciso estar agrupado para um homem responder violentamente perante o que percebe que foge do controle da lógica fálica. o que aconteceu nessa universidade é tão grave quanto preocupante porque me parece que foi uma tentativa delirante de responder ao recuo angustiado e contemporâneo do masculino perante o avanço do feminino na cultura. enfim, opinião de lacaniana. esperemos que os que têm a responsabilidade de julgar o acontecido não apelem ao velho, cínico e canalha “algo ela deve ter feito”.
    julia      

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    [Aeternus:12654] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-10)


    - RE:geisy da uniban

    Julia, Lacan usa a palavra "canalha" num contexto especial ( acho que é para quem é perverso e que "sabe o que o outro quer") o que seria muito xingamento pra mim.  Não queria me sentir canalha neste sentido porque, de fato, acho "que alguma coisa ela deve ter feito," sim... Não digo isso no sentido acusatório como autoridade religiosa ou policial. Mas porque é uma constatação de causa-efeito ligada ao poder da gota d'água que faz transbordar um pote cheio de titica (como me parece ter sido a mentalidade machista predominante na Uniban). 

    Gostei da sua descrição sobre a exasperação masculina sobre o "phoder" da mulher que oferece e recusa quando quer. Como a maioria, exceto a turma da Uniban, aquela histeria grupal não teve cabimento e a expulsão tentada foi ridícula e igualmente preocupante enquanto  revelação da mentalidade daquela instituição como um todo ( e de outras semelhantes no passado e no futuro).

    Só que a meu ver não dá para negar que a moça provocou com intenção de ser provocante, que ela agiu fálicamente também. Agora dá uma de princesa.

    Me fez pensar na família do Jean Charles que andou se organizando para fazer uma estátua de bronze na cidade natal dele.

    Mas toda a história é muito estranha, parece pouco "brasileira"... Pelo menos, até agora via situações levemente semelhantes serem tratadas com senso de humor, fifiu debochado, risinho, admiração...


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    [Aeternus:12656] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2009-11-11)


    - RE:RE:geisy da uniban

    Quem se ocupa de montão com falência fálica&do masculino é o Sócrates Nolasco, psicanalista e professor da UFRJ.
    Em "De Tarzan a Homer Simpson", já na capa sabemos que se tentará "um estudo da banalização e violência masculina nas sociedades".

    Foi através dessa obra que conheci algo sobre Baudrillard - bastante citado por Nolasco -, já que o estudo aborda muito o ângulo Sociológico.Nolasco abre três vertentes, após discursar sobre a banalização do masculino usando como emblemas Tarzan e Homer Simpson, indo do mito ao ridículo.

    Geisy tem 'culpa' de se exercer fêmea onde não desejavam que ela se exercesse.Paciência, deu azar.Trogloditas de plantão a execraram, provavelmente torcedores de algum time derrotado na rodada ou cornos recentes irados pelos enfeites colocados por namoradas e parceiras.Nossa falsa loura e roliça Geisy pagou a conta, coitada, com seu micro-vestido cor-de-rosa.É raro ver-se um macho curtir a fêmea (ou ignorá-la)num caso desses com naturalidade saudável, sem precisar dizer gracinhas engraçadas ou sem graça e inconveniências.Profumo di donna...

    Aqui na agência das corridas de cavalos, nesta 2ª feira, calor infernal com a tubulação do ar falhando, uma das vendedoras trajava um short interessante, onde uma espécie de cinta em algodão branco fazia o top e um belo estampado o bottom.Bem torneada, em seu caminhar eu tentava delinear até onde o algodão protegia seu bumbum, e até onde o estampado entrava em ação.Um amigo não resistiu à tentação e disse à ela "tua cueca tá caindo".Na dela, séria e simpática, a moça respondeu "não tem nada caindo aqui".Foi engraçado, e nos passeios dela agência adentro&afora eu curtia o visual diferente enquanto tentava o impossível : decifrar o resultado dos páreos.

    No que é genérico aqui, creio que só uma mudança no hardware humano devolveria a possibilidade de uma abertura quanto ao sexual-izado-irado.Passamos do ponto, morreram as esperanças.O Pico da Jansy de novo...
    Não vejo o tal 'espírito brasileiro' trazendo algo favorável ao tema.Como disse outro dia a um amigo, curiosamente é a praia o único refúgio relativamente seguro para a Logística da Nudez.Ali vale quase tudo, sem linchamentos ou agressões imediatas e gratuitas.
    Desde Fernando Gabeira e meu cunhado, precursores-já-cursores com suas micro-sungas de crochet, passando por uma grande amiga que lançou o fio dental em Ipanema, a praia foi pactuada como point de nudez.À brasileira, sim, diferente de uma indefectível impessoalidade da nudez total e tô-nem-aí dos resorts nudistas oficiais.
    Não foi à toa que um turista alemão foi denunciado no aeroporto, há alguns meses, por trocar as calças no saguão.Depois de frequentar nossas praias, achou natural mostrar as cores de sua cueca.Pobre homem.

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    [Aeternus:12657] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2009-11-11)


    - RE:geisy da uniban / a tempo

    As 3 vertentes que referi no Nolasco são a 'psicologia fisiologista' bem à americana, centrada em Stanley Keleman;o discurso do Poder, centrado nas minúcias que Michel Foucault desfiou em sua obra;e o semi-delirante-esperneante de fora do Poder, ancorado em Jean Baudrillard.

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    [Aeternus:12658] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-11-11)


    - RE:RE:RE:geisy da uniban

    Gallego escreve:
    Marcos fala de nossas praias como se fossem o paraíso da nudez antes da maçã. Mas acho curioso que haja uma interdição consensual, cultural, não-escrita mas bem definida nestes tristes trópicos urbanos: topless por aqui é escândalo. Moça (ou velha) que faça topless em praia periga ser expulsa não só da Uniban, mas também do Unibanco, da UFRJ, da UFF, da UERJ, de tudo que começa com "U" (tremenda vaia: UUUUUUUUUUUUUUUUUUUU). Bunda de fora com fiozinho dental invisível passando no pequeno Canyon, pode: ao vivo, a cores, na TV, de dia, de tarde, de noite, no carnaval ou na Sexta-Feira da Paixão, no Natal e no 7 de setembro... mas mamas de fora das moças na paraia (sim, das moças, porque os sarados de plantão mostram suas barriguinhas de tanque e seus peitorais, muitas vezes tão bombados que qualquer bebê tentaria mamar ali em busca de lactação: nas paraias? Não, eles tiram a camisa nas ruas, se bobear na Rio Branco às duas da tarde ou nove da manhã e tudo bem. Peito de moça por aqui, é intedito no dia-a-dia.

    No Carnaval gritamos "Mamãe eu quero mamar" há quase cem anos, mas o "mamá" é inteditado á visão praiana. Já as mamatas brasilienses, paulistas, cariocas, mineiras e brasiloeiras em geral, no atacado e novarejo...

    Nossas prais sem seios à mostra atendem à máxima do LFVeríssimo segundo o qual até bacanal tem ter que ter regra? Em uma de suas melhores tiradas ele dizia que em bacanal, duas coisas precisam ser respeitadas: não se pode transar com os garçons (dão de beber e de comer, mas jamais comem nem são comidos) e não pode haver "anão besuntado". "Anão besuntado" deve ser a maior das perversões romanas.

    Sem noção de transgressão e de interdito não tem graça nem transgredir nem se guardar prá quando o carnaval chegar como lembrava o Chico Buarque: "Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar, tô me guardando prá quando o Carnaval chegar... Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá, tô me guardando prá quando o Carnaval chegar..."

    Mas o Chico mesmo já lembrava antes que de tanto se guardar a antiga Carolina foi a única que não viu o tempo pasar na janela...

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    [Aeternus:12659] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-11-11)


    - RE:RE:geisy da uniban

    Gallego esbraveja a ponto de perdir camisa-de-força:
    Enquanto a Unibam (parece Unibanco) é notícia, o Rio das Olim-piadas (sem acento agudo no 'i' e sem graça) sofre seu downgrade: o metrô virou armadilha e cilada nos últimos sete ou dez dias com a refrigeração dos carros volta e meia insuficientíssima: os passageiros, mesmo em horas menos movimentadas, com os carros confortavelmente vazios (meia-dúzia em pé, todo mundo sentadinho), transformados em flores-de-estufas que nunca foram. Troco de vagão e nem sempre encontro o friozinho básico imprescindível à minha vida de tatu.

    Uma nova estação, em Ipanema, será inaugurada antes do Natal, salvo engano, em 17 de dezembro. O Metrô reconhece problemas de refrigeração, tira trens de circulação devido ao fato, aumenta o tempo entre os trens, as estações ficam apinhadas e os carros mais lotados do que antes nos mesmos horários e a refrigeração que está ruim fica... insuportável. Novas estações enquanto muitas antigas são um desconforto só sem acesso por escadas rolantes em algum npivel, para cima e/ou para baixo. Este nmetrô só cresce em uma mesma linearidade, masi estações, os mesmos carros em fase de decrepitude, mais gente demais... e só eu que sou doido?

    Ontem, no Centro do Rio já às 19:20 tive que pegar o metrô na direção oposta à pretendida para ir até a estação terminal do outro lado para tentar voltar sentado em carro refrigerado. Cês nem imaginam o que era a massa humana querendo entrar onde não cabia nem pensamento azeitado na direção do meu destino na Estação carioca (o nome é mais do que significativo).

    Carros novos virão! Anuncia o Metrô.
    Mas em 2011....
     Não errei a digitação, eu escrevi Dois mil e onze mesmo.
    Como vai ser 2010 com um aumento de passageiros enorme a partir de Ipanema ou para Ipanema? Cês podem imaginar: vai ficar igual a vagão para Auschwitz! (Desculpem a menção à barbárie, mas estou me sentindo quase em meio a uma dessas regresões do processo civilizatório, até porque, depois de ir do centro até Copacabana para vir para Tijuca, chego em casa e a luz se foi. Minha paranóia não vai tão longe, não acho que euzinho sozinho esteja sendo perseguido pelos deuses, não incorri na hybris para merecer a Nêmesis, a áte, a loucura da razão e ser lançado na desgracenta móira. Isso aconteceu com o Brasil todo: alguém desligou a tomada de Itaipu? Foram os paraguaios? O MST? o PSDB? a Heloisa Helena e a Marina formando nova dupla sertaneja com o refrão "Dilma, não?"

    No escurinho que não era do cinema, os oportunistas arrastões em volta do templo da futura Copa do Mundo, o Maracanã, com os carros passando à luz de seus próprios faróis porque nem vaga-lume botava a bunda de fora iluminada.

    Nos meus verdes anos, "arrastão" era rede de pegar peixe e música vencedora de Festival com a Hélice Regina rodando os braços sob o cabelo bolo-de-noiva... Cá entre nós, a música está longe do melhor da dupla Edu Lobo - Vinicus de Moraes cuja obra-prima é a camerísitica "Canto Triste", de título e clima e letra mais adequadas aos tempos em que arrastão é roubo, risco de vida, barbárie nas ruas sem luz. Fujo de dirgir carro para metrô... o metrô pára no escuro além de esquentar mais que frigideira com sardinha dentro da lata para torrar de vez. Helicóptero nao tenho e leva tiro em pleno ar, mesmo os da PM...

    E mandam a gente não ligar o ar refrigerado em pleno Senegal carioca. E economizar água.
    O próximo passo é mandar tomar cicuta! (com trocadilho com a segunda sílaba do veneno socrático; dizem que quando lhe deram o cálice com soda cáustica ele perguntou o que era e um sujeito com a língua presa - talvez o Lula em vida pasada - lhe disse solenemnete: "É Soda, Fócrates"

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    [Aeternus:12660] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-11)


    - RE:RE:RE:geisy da uniban

    Como é mesmo a antiga música de carnaval? "Rio de Janeiro, cidade que não seduz, de dia falta água...de noite falta luz." Naquela época, no entanto, não era possivel depender do ar condicionado, as geladeiras eram bem menores e os freezers mínimos, donde todos se resignavam, ao contrário do Gallego in Anger, aos desconfortos tropicais embora esperassem banho frio de dia e uma luzinha à noite...

    Ouvi histórias sobre Itaipú desde a época do FHC, tipo caso dos trens ultrapassados do metrô: havia verba, mas não era aplicada para revisão da fiação e estações que ficavam obsoletas e, portanto, a grana que sobrava no final do ano era "devolvida" a um fundo que ia direto pro dominio federal e, acima de tudo, sem necessidade de prestação de contas. Não lembro como era a história mas funcionava como desvio de verba legalizado para todo tipo de destino, menos o dos brasileiros. Se guerrilheiros quiserem mesmo atacar as cidades brasileiras, a capital por exemplo, basta-lhe saberem quais cinco ou seis postes devem derrubar para que tudo, mas tudo, apague. Deduzo isso porque, quando um carro bate num poste e o danifica também, uma área enorme em torno fica totalmente às escuras. Quadras inteiras e adjacencias.  Aqui, também, embora a voltagem ou a wattagem (me esqueci das aulas de física) seja 220, se medirmos a entrada da energia ela nunca ultrapassa 180. Os postes das ruas estão sempre com uma ou duas lampadas queimadas e, quando se trocam estas, mais duas queimam logo adiante. E quem se anima a telefonar para o que antigamente operava como "plantão da CEB" quando corre o risco de ficar ouvindo vozes ao telefone e discando 2 6 2 5 8, ouvir avisos regulares sobre o tempo de espera que resta e ouvir propaganda da empresa? 


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    [Aeternus:12661] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2009-11-11)


    - RE:RE:RE:RE:geisy da uniban

    Jansy e Gallego darling friends,
    (no apagão de ontem/hoje)O mais legal é ninguém saber até agora as causas.Back to Machambomba, enfim.

    Praia de novo.Elogiei uma certa 'pessoalidade' na nudez em nossas praias por diferir de um certo aspecto de açougue volátil nos amontoados nudistas mundo afora.Óbvio que pudor&(a)moralidade em cada um não se medem em centímetros ou milímetros.Óbvio o ridículo do escândalo com topless enquanto mocitas mais espevitadas e descontraídas ostentam tirinhas que cobrem praticamente o botãozinho.
    Perfeita colocação do Gallego sobre a indecência e feiúra dos barrigudos ostentados, usando bermudas com linha de cintura rebaixada a muque, exibindo descontraídos sua super-pança.Sou amoral, e chamo de indecente a agressão à Beleza...
    Ainda nas praias, a maioria se tornou como o metrô, abrigando um mundaréu de banhistas e outro ainda maior de vendedores ambulantes, que caminham e caminham estóicos, aos berros, a anunciar seus produtos e impedindo conversa saudável.Quando alguém me telefona da praia ouço ofertas sem parar ao mesmo tempo.

    Metrô.Risco de vida nas horas de pico.Outro dia, voltando de Botafogo e no empurra-empurra, desejei boa sorte a uma moça precisava saltar no Centro, tamanha a massa humana espremida entre ela e a porta.Também é difícil embarcar.Em Sampa estão tentando uma fila quilométrica disciplinando a multidão desde as bilheterias.Numa das estações, no fuzuê entra-sai, um senhor idoso magrinho caiu no meio do bololô e quase foi pisoteado.
    Assim assim, imagino que para nossa população ou para eventos como Copa e Olympics, precisaríamos no mínimo do dobro de carros.E aí precisamos rezar para o controle de fluxo ser perfeito, né?...
    No mais, o que fazer? Mora mais gente no Rio e em Sampa, periferias incluídas, do que em toda a Bélgica.

    Fócrates&'sicuta'.Fico com o melhor em Cioran : enquanto era preparada a cicuta, Sócrates tocava uma ária na flauta.


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    [Aeternus:12662] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-11-11)


    - RE:RE:RE:RE:RE:geisy da uniban

    Marcos mencionou as roupas femininas que cobrem apenas o botãozinho e me lembrei de um frase antigona de Bernard Shaw sobre as saias do seu tempo, cada vez menos longas e os decotes cada vez mais baixos.
    Ele falava que um dia haveria o "grande encontro" entre os decotes baixos e as saias curtas.
    Antigamente tudo o que velava, desvleva e revelava. Hoje tudo que é revelado fica irrelevante...
    Gallego

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    [Aeternus:12663] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2009-11-11)


    - RE:geisy da uniban

    De novo a hybris, né?
    Concordo que passou-se do limite no quesito nudez.Banaliza-se a própria, enfim, e abre-se mão do estilo em privilégio da abundância.As etapas naturais da sedução estão sendo abolidas uma a uma, e pessoalmente não vejo atrativo algum especial em vinhetas pornô que já iniciam na selvageria ou em closes hidráulicos.
    Como bom amoral, aprecio de montão o que chamo Estética Feminina de Ponta, um valor de referência minha com o mundo.Valor que requer um mínimo de estilo, daquilo que é pessoal em cada mulher, do que a torna única em sua postura, gestos, movimentação, fala, hábitos...

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    [Aeternus:12664] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2009-11-11)


    - RE:RE:geisy da uniban

    Assistia a uma entrevista ontem com o Pondé e uma senhora que não cheguei a ler o nome na Globonews sobre o episódio da universidade/tária, quando o programa foi praticamente abortado por inserções sobre o maldito apagão... vou reclamar. Já tem jornalismo demais naquele canal... enfim.

    O Pondé dizia, então, que não via tanta ideologia nessa questão, que a coisa tomou uma (des)proporção enorme, etc, e que a explicação poderia ter sido mais simplista: mulheres "comuns", sem o aparato erótico e o peito (coragem) que a moça demonstrou, se sentindo agredidas/diminuídas; assim como rapazes sem namorada, inexperientes, sem jogo (xi, ia escrevendo "jugo") de cintura, igualmente agredidos/diminuídos... talvez seja simplismo demais.

    O que me espantou mais foi o "Grupo", o caráter gregário das ofensas, algo momentaneamente organizado e direcionado a um mesmo objetivo. Pode ser que tivesse um hitlerzinho(a) manipulador(a), ou um fundamentalistazinho de seita de subúrbio, de gravatinha e bíblia, sei lá.

    Já a mulher, entrevistada, que a princípio confundi com a Rose Marie Muraro (mas não era) não foi nada feminista. Disse que a "norma", as "regras de conduta" têm sido completamente ignoradas etc. Foi quando interromperam o programa.

    Bom, não se trata do canalha "algo ela deve ter feito", e, particularmente não tenho nada contra roupas sumárias ou mesmo o nu entre ADULTOS, mas se é verdade o que alguns estão dizendo (e NÃO cabe a mim acreditar), que a moça não teria não só se vestido, mas se despido, praticamente, levantando a saia, tirando a calcinha etc, teríamos um problema de "atentado ao pudor", simplesmente, sem necessidade de tanta repercussão e tanto jornalismo (e governismo) pentelho. Aí a fala da senhora da entrevista poderia fazer algum sentido.

    Imagine um taradão tirar a roupa em sala ou mostrar a cueca para as moçoilas... seria expulso sob o protesto de rapazes e moças, talvez mesmo sendo um Brad Pitt. Sei lá. Seria um caso policial a mais, e não de comoção nacional.

    Mas se a d. Geisy apenas usou uma mini, que se usa desde os anos 60, sendo ou não sexy, aí a coisa é séria. Como disse o Zé Simão: "vão ter que usar burca?" ; "pela descriminalização das gostosas!".

    Guto (devil's attourney)


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    [Aeternus:12666] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2009-11-11)


    - RE:RE:RE:geisy da uniban

    Guto coloca com propriedade o outro lado da moeda, o momento em que o desbravador transgride&agride.
    Do mesmo modo que é indecente a turma da repulsa moralista, por afronta à Beleza, igualmente o é o perverso-agressivo, que transsgride sem arte ou criatividade, que avilta a Beleza e invade o próximo.

    Na praia ou nessa FAC aí da Geysi podemos desviar o olhar, se somos pudicos/moralistas.Pais e religiosos podem simplesmente desligar aparelhos de TV ou mudar de canal - nada mais fácil ! - se não desejam ser invadidos por pecadores profanos.
    Já em ambiente fechado, mais intimista, mesmo o amoral precisa respeitar certas regras.(cito aqui amoral, o ético, uma vez que o imoral não respeita regra alguma, por definição...)

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    [Aeternus:12668] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-11)


    - RE:RE:RE:RE:geisy da uniban

    A Geisy não é uma pobre moça oprimida. Mesmo quando o espaço uniban que causou toda sua promoção seja a expressão do moralismo invejoso dos mais abomináveis.  Ela soube escolher direitinho o lugar do desafio.  Vivo me sentindo feita de trouxa. Do primeiro ao último raio de sol e do primeiro ao último apagão.

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    [Aeternus:12669] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-11)


    - enquanto isso na china...

    Estudantes chineses denunciaram que uma universidade do leste da China criou patrulhas para policiar casais que estejam se beijando nas dependências do instituto.Segundo mensagens dos estudantes da Universidade Florestal de Naninjg colocadas na internet, as patrulhas são formadas por estudantes voluntários da própria faculdade, que verificam se os casais estão se abraçando, beijando ou sentados próximos demais.

    De acordo com o correspondente da BBC em Xangai, Chris Hogg, a universidade afirmou que as patrulhas estão ajudando a "limpar a atmosfera" em seu campus. As patrulhas são supervisionadas por professores. Os voluntários trabalham em turnos de duas horas entre as 10h30 e as 21h. Em murais virtuais do site da universidade uma mulher descreveu como ela e o namorado foram abordados pela patrulha. Eles estavam sentados juntos quando um patrulheiro se colocou atrás deles e começou a tossir até que eles se separassem.

    Outros estudantes reclamam que as autoridades da universidade deveriam gerenciar a instituição ao invés de fiscalizar namorados e acrescentam que é uma vergonha a publicidade que foi gerada com a notícia das patrulhas. Em uma das reclamações postadas, o estudante Gui Ya afirma que a notícia "esta se espalhando pela internet. É como estar nu em público".

    "A medida é uma vergonha. A universidade não será uma universidade de verdade", escreveu um colega. Os voluntários que não reportarem as infrações também podem sofrer punições, o que não pode ser confirmado pelo correspondente da BBC, pois a universidade não respondeu às suas ligações.

    ( do site do terra)


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    [Aeternus:12670] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-13)


    - Gallego, Wilder e sem Garbo no Grajaú

    Do Gallego para o mundo, exclusivo para o aeternus e coisa e tal... 

    O filme de Billy Wilder, "A Montanha dos Sete Abutres" (título brasiliero) é
    um filmaço, o maior fracasso de sua carreira de cineasta quando foi lançado.

    Mostra o Kirk Douglas em um papel abjeto de jornalista metido a bonzão,
    mau-caráter que por esta "qualidade" não tem mais trabalho na cidade grande
    e acaba em um lugarejo depois de onde Judas perdeu as botas, em um
    jornalzinho provinciano. Isto em 1950, quando foi filmado.

    Um acidente em uma mina desativada deixa um sujeito preso da cintura para
    baixo sob as pedras, situação no mínimo claustrofóbica.
    Pode-se retirá-lo em um dia de trabalho por um método seguro, mas o
    jornalista picareta da cidade grande, para esticar a notícia nos jornais,
    induz os manda-chuvas locais (chefe de polícia, por exemplo) a usarem um
    método mais demorado que permitirá a notícia (e os "poderosos" locais)
    permanecerem na mídia da época (rádio e jornais) por quase uma semana
    enquanto Kirk Douglas fica como único repórter autorizado a entrar na mina e
    entrevistar diariamente o infeliz preso e divulgar notícias sensacionalistas
    que ele vende para jornais mais importantes de NY que o despediram,
    vingando-se e fazendo pé de meia.
    Ainda come a mulher do infeliz.

    Claro que as coisas vão acabar mal para todos os envolvidos, mas isso não
    quer dizer que o filme faça uma punição moralista dos canalhas, a canalhice
    norteamericana (ou humana, em geral) vem à tona como água de esgoto
    fedorenta: o em torno da montanha se tranforma no "Big Carnival" do título
    americano (na verdade teve dois títulos, o outro "Ace in the Hole" porque
    tenatram relançar logo depois do primeiro fracassado lançamento para ver se
    atraía público). Mas o público não gostou de se ver retratado como ávido de
    sensacionalismo, acampando em volta da montanha, comendo cachorro quente e
    subindo em roda gigante rapidamente instalada enquanto um homem morria
    dentro da mina.
    O filme foi rejeitado pelo público e ignorado pela crítica da época.

    Naturalmente, na reprise brasileira de 1963 (quando assisiti) já era
    reconhecido como um clássico. Um dos melhores e mais cáusticos filmes do
    Wilder que quase sempre (e até muitas vezes com humor mordaz) foi um grande
    crítico (até meio cínico) dos "valores" moralistas estabelecidos.

    Ele chegou a não ter reconhecimento muitas vezes e ser considerado
    escandaloso quando pegou pesado outra vez em 1964 ou 5 ("Kiss me , Stupid")
    ao mostrar um sujeito do interior recebendo em casa um cantor já nem tão
    famoso, priápico e beberrão (o papel era do Dean Martin, ajudando a alusão
    ao Frank Sinatra ou a o próprio Dean Martin).

    O "anfitrião" quer que o cantor grave uma canção que ele compôs, e sabendo
    da fama de garanhão do cantor, para agradar ao hospede famoso, manda a
    esposa dele para a casa da mãe e contrata uma prostituta (Kim Novak) para
    fingir de sua esposa e ser comida pelo cantor. As coisas ficam meio
    confusas, não me lembro como, mas o fato é que o filme foi visto como uma
    ofensa à mulher americana "do lar" equalizada a uma puta. Aliás, o
    "Anphitrião" original da mitologia grega recebia tão bem que cedia mesmo a
    esposa aos hóspedes interessados...
    (Dizem que o Wilder ganhou dinheirinho como cafetão amador em sua trajetória
    da Alemanha nazista até Hollywood com parada em Paris, mas não sei se é
    intriga da oposição...)

    Wilder sacaneou a própria Hollywood em "Sunset Boulevard", sua obra-prima;
    desmistificou heróis (?) de guerra prisioneiros dos nazistas em "Stalag
    17"; maridos caretas com esposas em férias tendo Marylin Monroe como
    vizinha-tentação no andar de cima ("O Pecado mora ao Lado"); Sherlock Holmes
    em um filme sobre a "vida privada" do detetive; mostrou outro candidato a
    cafetão - tal como o sujeito mencionado acima em "Beija-me, Estúpido" - na
    pele do "bom moço" Jack Lemmon em "Se meu apartamento falasse", emprestando a morada de solteiro para os chefões da empresa usarem como "garçonnière" e comerem as funcionárias subalternas na "happy hour", e enquanto isso o Jack Lemmon "subia" na empresa; ele sacaneou a guerra fria e o comunismo de Berlim Oriental em "Cupido não tem bandeira" (1961); voltou a mostrar a imprensa como ávida de escândalos desrespeitando tudo no genial "A Primeira Página"; mostrou um novo casal se formando ao irem resgatar os corpos da respectiva mãe da moça e respectivo pai do homem, que haviam morrido na
    Itália sem que ninguém soubesse nos EUA que os coroas eram amantes; e mesmo
    as duas comédias românticas que ele filmou com a Audrey Hepburn (que ele
    adorava) eram menos bem-comportadas do que as da época, usando o ar de good girl da Audrey para sugerir que mocinhas boazinhas também podem ser
    carreiristas ("Sabrina") ao buscar casamento com qualquer um dos dois filhos
    do patrão do pai - ou seduzirem garanhões experientes ("Amor na Tarde") com
    sua.. ingenuidade?... A lâmpada Philips como foi chamada no aeternus também
    podia ser meio que...luz negra?

    Por falar nisso, a moça da minissaia expulsa teria aceitado aparecer na
    revista "Playboy" segundo O Globo de anteontem. O que sugere que além do
    obscurantismo da turba sobre uma mulher chamando a atenção... ela talvez
    tenha querido mesmo chamar a atenção, agora em rede nacional na Playboy.
    Nada justifica o quase-linchamento e a expulsão, mas fiquei pensando de modo
    politcamente incorreto: a gente não tem um olhar mais curioso quando uma roupa diferente se destaca na multidão? Como vou deixar de ter meu olhar "chamado à atenção" rapidamente que seja, mas um pouco menos indiferente, digamos assim para uma moça com a cabeça envolvida como muçulmana que deve ser? Vejo uma  por semana, digamos, no calor de bode do centro do Rio... Não é exatamente um hábito cultural nosso mulheres excessivamente vestidas (as "bíblias" com cabelo preso, vestido longo até os sapatos, mangas compridas, abotoadas até o pescoço até são menos raras, mas tb chamam o olhar). Não vou bater nelas por serem diferentes, é óbvio, mas não podem reclamar se a gente estica o olhar por mais dois segundos que seja.  Mutatis mutandi, um decotão na frente ou nas costas, uma sainha que mais parece um cinto larguinho com coxão à mostra desperta olhares (e outras coisas mais) nos homens, e por que não despertaria? Mulheres não sabem disso? Ora...

    Linchar, jamais e nunca,mas serem olhadas e paqueradas, sim. É ou não é um
    modo de atrair o macho? E algumas se mostram "ofendidas" !!! (Gazelas
    hsitéricas que chamam a atenção só para negar. "Mulher que nega, não sabe
    não, tem uma coisa de menos no coração / A gente nasce, a gente cresce, a
    gente quer amar, / Mulher que nega, negas o que não é para negar" (Vinicius
    e Baden Powell: "Formosa" gravada pelo Cyro Monteiro). Mas hoje é "assédio
    sexual"...

    Da mesma forma, chama  a atenção adolescentes que se vestem de modo bizarro
    para ficarem "diferentes" (embora fiquem parecidos entre si), mendigos que
    são malucos-beleza e se vestem de modo mais bizarro ainda (ou nem tanto
    quanto certos adoelscentes). Tatuagens eaxgeradas ainda me chamam a atenção,
    menos do que há uns cinco ou dez anos atrás, mas ainda não é coisa do mundo
    em que eu cresci quando tatuagem era coisa de marinheiro Popeye ou de
    personagem de "Moby Dick" ou de filmes... Lembrem a letra de Chico Buarque
    para "Tatuagem" uma de suas músicas mais "sexuais": "Quero ficar no teu
    corpo como tatuagem (...) quero pesar feito cruz nas tuas costas e te
    retalha em postas, mas no fundo gostas, quando a noite vem (...) Eu quero
    ser a cicatriz risonha e corrosiva marcada a frio a ferro a fogo em
    carne-viva: corações de mãe, arpões, sereias e serpentes que te rabiscam o
    corpo todo mas nem sentes"

    Quem se mostra diferente tem que aguentar uma certa barra de olhar, de
    chamar a tenção.
    Em minha fase de piração (Marcos Florião deve lembrar) eu estudava em um
    curso bem tradiconalista (Medicina na UFRJ) onde eram tolerados como parte
    da fauna local da época os revolucionários de plantão com barbas e camisetas
    "pobres" e calças surradas. Mas "moda hippie" e/ou "contracultura", não. E
    eu (quem diria ao conhecer hoje em dia este circusnpecto senhor de quase 60
    anos), ia para as aulas com cabelão de Caetano Veloso da época, sandália de
    pneu, camiseta com crucifixo de cabeceira da cama pendurdao em correntão no
    pescoço, calça largona de cor amarela-e-marron "manchada", e -supremo
    golpe - em vez de maleta de médico, levava estetoscópio e aparelho de
    pressão em uma bolsa de couro a tiracolo. Os pacientes pobres e humildes
    respeitavam o jaleco que eu usava por cima de tudo isso (mas o cabelão
    estava lá) e mesmo os professores tinham que engolir um aluno que - apesar
    da aparência - era pontual, assíduo, educado, estudioso e sem ser primeiro
    aluno não fazia muito feio nas notas. Certamente uns babacas me achavam
    "bicha" e eu ca(*)ava e andava, devia fazer parte do processo de desafio
    meio masoca para testar minha "superioridade"  ("o que vem de baixo não me
    alcança") de adolescente retardado pelo qual eu passei nos meus 21, 22 anos
    de idade, quase me formando. Ah! Todo mundo sabia que eu ia ser psiquiatra e
    psiquiatra tinha fama de maluco, por isso também me absorviam mais ou
    menos...Depois cortei o cabelo curtinho e fiquei mais "respeitável"... Mas sabia que tinha que arcar com as reações que provocava em meu meio-ambiente cultural. Claro que não cabia ser linchado nem expulso da faculdade, mas rejeição por parte de um grupo (que eu não valorizava mesmo), era líquido e certo.
    Onde começa a provocação para fazer carreira de vítima se acontecer o que se
    pode prever que pode acontecer? Quando a gente se expõe tem que considerar o
    meio onde se está, precursores pagam algum preço tradiconalmente - porque
    querem, porque escolhem. Eu já não tenho que ir ao Teatro Municipal de terno
    e gravata como era nos anos 1960 e mesmo início dos '70, hoje posso até ir
    de tênis e calça jeans e camiseta sem gola. Mas de bermuda não deixam
    entrar, nem de sandália de dedo, nem com camiseta de alça. São hábitos, quem
    quiser ser livre e exercer a democracia na pele tem que ponderar a reação
    que pode provocar. Nada justifica uma reação de barbárie, óbvio! Ou de
    moralismo tacanha de expulsar a moça da faculdade, mas não sei mesmo se ela
    foi meio sem-noção ou provocadora com noção para aparecer... até na Playboy
    De qualquer modo, vale um desagravo:

    UMA BURCA PARA GEISEY
                            Miguezim de Princesa

    I
    Quando Geisy apareceu
    Balançando o mucumbu
    Na Faculdade Uniban,
    Foi o maior sururu:
    Teve reza e ladainha;
    Não sabia que uma calcinha
    Causava tanto rebu.

    II
    Trajava um mini-vestido,
    Arrochado e cor de rosa;
    Perfumada de extrato,
    Toda ancha e toda prosa,
    Pensou que estava abafando
    E ia ter rapaz gritando:
    "Arrocha a tampa, gostosa!"

    III
    Mas Geisy se enganou,
    O paulista é acanhado:
    Quando vê lance de perna,
    Fica logo indignado.
    Os motivos eu não sei,
    Mas pra passeata gay
    Vai todo mundo animado!

    IV
    Ainda na escadaria,
    Só se ouvia a estudantada
    Dando urros, dando gritos,
    Colérica e indignada
    Como quem vai para a luta,
    Chamando-a de prostituta
    E de mulherzinha safada.

    V
    Geisy ficou acuada,
    Num canto, triste a chorar,
    Procurou um agasalho
    Para cobrir o lugar,
    Quando um rapaz inocente
    Disse: "oh troço mais indecente,
    Acho que vou desmaiar!"

    VI
    A Faculdade Uniban,
    Que está em último lugar
    Nas provas que o MEC faz,
    Quis logo se destacar:
    Decidiu no mesmo instante
    Expulsar a estudante
    Do seu quadro regular.

    VII
    Totalmente escorraçada,
    Sem ter mais onde estudar,
    Geisy precisa de ajuda
    Para a vida retomar,
    Mas na novela das oito
    É um tal de molhar biscoito
    E ninguém pra reclamar.

    VIII
    O fato repercutiu
    De Paris até Omã.
    Soube que Ahmadinejad
    Festejou lá no Irã,
    Foi uma festa de arromba
    Com direito a carro-bomba
    Da milícia Talibã.

    IX
    E o rico Osama Bin Laden,
    Agradecendo a Alá,
    Nas montanhas cazaquistãs
    Onde foi se homiziar
    Com uma cigana turca,
    Mandou fazer uma burca
    Para a brasileira usar.

    X
    Fica pra Geisy a lição
    Desse poeta matuto:
    Proteja seu bom guardado
    Da cólera dos impolutos,
    Guarde bem o tacacá
    E só resolva mostrar
    A quem gosta do produto.


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    [Aeternus:12671] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2009-11-13)


    - RE:Gallego, Wilder e sem Garbo no Grajaú

    Algumas pinceladas nos belos comments do Gallego :
    * a(s) esposa(s) em "The Big Carnival"/"Ace in the Hole"
       Até onde recordo, o repórter mau-caráter feito pelo Kirk havia se envolvido com a esposa do dono do jornal de NYC, de onde fôra demitido.A esposa do vitimado&soterrado na montanha, vivendo uma vida desgraçada e num tédio só num cafundó no interior, servindo clientes itinerantes e caminhoneiros, se enrabicha pelo repórter, que - bem pervertidão - está centrado no grande furo e possibilidade de tornar ao jornalismo de ponta, a nível sensacionalista.
    Lá pelas tantas vão chegar outros jornalistas e autoridades para se inteirar dos fatos, e a muié estava entre suspirosa e tesudinha, desconcentrada.O Kirk dá-lhe uma bolacha, ela chora, e ele diz "agora sim!Isso é uma cara para mostrar a eles!"

    * a esposa em "Kiss Me, Stupid"
       Bem, relembro sempre da consideração de meu pai de que este trata-se do filme "mais escabroso" que ele já vira.A Kim marca a personagem com a devida malícia, e passa legal a idéia da esposa comum, suburba, ter desejos íntimos de experimentar um certo ângulo puta-lux recôndito em qualquer mulher.
    O erro do Wilder aqui foi permitir a marcação aviadada do marido, esvaziando a pegada do tema.

    * "The Front Page" é obra-prima.Sardônico e sutil ao extremo, nos coloca diante de ângulos brilhantes em observação do cêrumanu.Chega até a eventuais arrepios de auto-comiseração deste ou daquele personagem, perplexo...consigo mesmo !E consegue a façanha de ser sempre engraçado, num ritmo impressionante.



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    [Aeternus:13031] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-02-25)


    - Vida enteógena. Será?

    cely envia esperando comentários acerca do uso de plantas alucinógenas com objetivo de autoconhecimento

    Vida Enteógena

    "É profundamente excitante e fértil o fato de que o xamanismo, as "técnicas arcaicas do êxtase", na feliz definição de Elíade, estejam novamente em destaque em nossos dias. Desde as incursões às selvas sul-americanas de alguns botânicos e etnógrafos do século passado, que a comunidade científica vem demonstrando um crescente interesse pela contribuição que as plantas psico-ativas podem dar, tanto para estabelecer uma cartografia da consciência, quanto para a solução dos grandes enigmas da espécie humana. Em torno dessa indagação sobre os efeitos dessas plantas no sistema nervoso central, seu papel como fator estruturador da autoconsciência do homem e na criação do próprio pensamento religioso, está se criando um campo de estudos comum entre o saber científico e a experiência mística. Se estas técnicas, xamânicas, principalmente as que se servem das plantas sagradas, foram responsáveis no passado pelas visões que deram origem às grandes revelações espirituais, certamente ainda hoje, ela nos estarão transmitindo a mesma mensagem. E a nossa consciência é ao mesmo tempo o aparelho receptor e o cenário onde essa mensagem nos é revelada.

    Isso é válido tanto para as técnicas xamânicas tradicionais quanto para as religiões enteógenas, fenômeno recente, dos quais o Culto do Santo Daime no Brasil, da Iboga no Gabão e do Peiote nos EUA são os maiores expoentes. Todos esses cultos utilizam um sacramento enteógeno, uma planta psico-ativa que em contexto apropriado, produz uma expansão da consciência e uma experiência de cunho eminentemente místico.

    Nesses cultos, a comunhão com a entidade enteógena produz experiências marcantes e profundamente significativas para todos aqueles que dela participam. A linguagem visionária nos torna conscientes de um ethos e de um dharma que até agora julgávamos fazer parte apenas dos livros que tratam de um passado longínquo. Mas esta grandiosidade, ausente no nosso nível de consciência ordinário, está sempre presente no mundo numinoso e feérico da miração. Está presente aqui e agora, desde que queiramos acreditar nela e assumi-la na nossa vida cotidiana. É bom acreditar que fazemos parte de um destino muito mais nobre, que repousa no conhecimento do ser e que pode ser revelado pelo sacramento enteógeno a qualquer reles mortal e pecador. A experiência com as plantas sagradas não é a única que ajuda a realizar este destino. Mas por ser um atalho, é o caminho mais curto.

    Essa é a autêntica boa nova que está sendo anunciada a todos os buscadores da verdade, confirmando a promessa feita há mais de dois mil anos. Quem é esse novo e misterioso mensageiro? Para alguns psiconautas, trata-se de um alcalóide, de uma mensagem cifrada depositada no mundo vegetal por uma espécie de Inteligência Alienígena. Para outros, é um nível de consciência onde podemos vivenciar a realidade do Eu Superior e do próprio Deus. Mesmo considerada de formas tão diversas, de onde é que brota essa voz capaz de nos elevar espiritualmente e ajudar a salvação não somente de nossa alma, mas também de nossa espécie? Do fundo de nosso ser? Da pérola azul onde se encontra a sede de nosso Eu? Do lótus de mil pétalas? Da baraka do sheik, da presença do Mahatma ou de um suco de um cipó da mata? Ou será que ela está sendo ouvida por nós vinda na velocidade da luz, desde as entranhas da eternidade? Ambas as sensações são verdadeiras e a consciência humana é este ponto de intersecção entre o interior e o além, entre o ser profundamente íntimo e ínfimo, e o Cosmos, sem limite nem tempo. Ensina as Upanishads: Tu és isso!

    Desde o início da idade de ouro, aurora dos tempos, que o poeta grego Homero denominou de "aurora dos dedos de rosa", que as plantas sagradas despertam nos homens a lembrança de suas origens, a nostalgia do sagrado e uma ânsia por essa re-ligação com aquilo que se constitui no mistério básico de sua existência. Podemos ter uma idéia de interesse que esse tema tinha na antiguidade, quando consideramos a celebração quase ininterrupta dos cultos de Eleusis durante 2.400 anos.

    Neste grandioso festival iniciático, que tinha lugar na cidade do mesmo nome, culminando meses de preparação e peregrinagens, era realizado um grande trabalho espiritual. O templo abrigava duas mil pessoas. E o Grande Hierofante conduzia a cerimônia onde era relembrada e representada a lenda do rapto de Perséfone, filha da Deusa Deméter, por Hades, Deus da Morte, que a levava para o Reino dos Espíritos. O momento culminante do ritual era quando, sob efeito do fungo claviceps purpurea (algo próximo do LSD), todos os presentes tinham visões coletivas sobre a história da Deusa e uma compreensão profunda do seu conteúdo simbólico e significado espiritual.
    Em nossos dias, a aurora já está cedendo o seu lugar aos tons incertos do crepúsculo. O mocho de Minerva está voando nos céus e nos trazendo novos presságios sobre o destino da humanidade. Nada mais natural que, passados mais ou menos 1.600 anos, desde que o Culto de Eleusis foi suprido pela nascente organização eclesiástica cristã, o mensageiro enteógeno esteja de volta, na forma de uma planta sagrada que desempenha o mesmo papel que os avatares do passado, de nos instruir nos momentos de crise e de decadência da verdade.

    Dizem que, periodicamente, a força espiritual que assiste e modela este planeta muda de lugar, o que explicaria os súbitos ciclos de decadência e de florescimento de culturas e tradições religiosas. Foi assim que se sucederam os cultos do Soma no início do período védico, os Mistérios de Eleusis na Grécia Antiga, as tradições cristãs gnósticas e esotéricas, os yogues do Tibet, a Cabala da Espanha Islâmica, os Incas e Aztecas até chegarmos nos povos e culturas remanescentes do Éden Original, situado na selva sul-americana. Parece que foi lá que Deus semeou grande parte da sua farmacopéia enteógena.”

    Texto de Alex Polaris de Alverga, escritor e poeta.


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    [Aeternus:13032] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-02-25)


    - RE:Vida enteógena. Será?

    Cely, você costuma coçar a orelha esquerda com a mão direita? Se sim, prossiga em seu caminho de conhecer a si mesma através de plantas, rituais, xamãs e hierofantes. Se não, se você acha mais adequado coçar a orelha esquerda com a mão esquerda, e a a orelha direita com a mão direita, então tente o caminho mais direto aqui também, olhando para dentro e se colocando em frente a alguém que, depois de alguns encontros, conhecerá VOCÊ, e não os desígnios dos deuses. Acho essas 'técnicas' maravilhosas para quem não quer conhecer a si mesmo, e sim à HUMANIDADE, com maiúsculas em todas as letras. E quando um escritor aparentemente erudito nessas coisas menciona a 'Cabala na Espanha Islâmica', eu me sinto como o brasileiro que, lendo um guia de viagem, encontra a 'informação' de que em 'Buenos Aires, a capital brasileira'... Beijos. Davy.

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    [Aeternus:13034] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-02-25)


    - RE:RE:Vida enteógena. Será?

    Davy, senti um puxão de orelhas daqueles! A planta da qual sou usuária de longos anos é a nicotina enriquecida com mais de 4.700 substancias tóxicas. Tive convites para participar do ritual do Santo Daime, mas temi os efeitos que me descreveram, tanto físicos quanto psíquicos. Isso não significa que não tenha uma grande curiosidade dos efeitos da planta nas defesas do ego que não consigo enfraquecer no processo normal de minha análise.

    Beijão procê

    cely


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    [Aeternus:13128] Mensagem do Grupo62
    -Omar(2010-03-17)


    - Faca

    O Glauco enfia a faca até o cabo...


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    [Aeternus:13129] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-17)


    - RE:Faca

    Capitalismo selvagem dá nisso.

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    [Aeternus:13130] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-03-17)


    - RE:RE:Faca

    Não entendi o comentário sobre capitalismo selvagem. Liga-se ao cartum do Glauco, do edipinho pobre que não sabe o que é pai?

    Pra provocar o Omar vou opinar (sem rimar) sobre Freud e Cronenberg. 

    Freud não era todo certinho como o sustenta o figurino da IPA, que ele fundou. Nem seu presidente inicial o era C.J.Jung.

    Qual é o problema de produzir uma paródia,  verdade nua e crua ou um escrasho? ( o filme das batidas de carro chamava-se como?) Até a indignação com o filme pode produzir coisas interessantes ...,

    Mas pode não funcionar, e agora? Lembrei que um dos filmes, sobre Jung (baseado no livro Um Mundo Transparente), foi bastante desagradável como o era o livro, ao contrário do outro, sobre o mesmo tema com tratamento distinto.

    Melhor mesmo o figurão do Vigo em vez do sádico nazista no papel. Pronto. Impliquei e chutei (no sentido de jogar verde). 


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    [Aeternus:13131] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-03-17)


    - Lolita

    Soube hoje que Umberto Eco escreveu um pastiche do livro Lolita do Nabokov. Em vez de uma menina e um pedófilo, tem um rapaz gerontófilo apaixonado pela avó. Chama-se "Nonita" (Vovozinha) e em ingles ficou parecendo marca de cereal matinal, "Granita". Vi uns trechos que não pareceram engraçados ou inteligentes, mas a proposta é inicialmente divertida. Umberto Eco vira Umberto Umberto ( em Lolita o pedófilo é Humbert Humbert ) e o resto... tenho que ler.

    Achei divertido. Só conhecia, da mesma coletanea de contos, aquele em que aparecem as cartas de um editor rejeitando obras e explicndo o motivo ( a Bíblia, apesar das aventuras e guerras e adultério é rejeitada, aproveitando apenas o Pentateuco; Homero, Joyce) e quando li gostei bastante.


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    [Aeternus:13132] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-17)


    - Freud e Cronenberg

    Também fico apreensivo porque não acho o Cronenberg essa cocacola toda de diretor que tantos acham. Ele sabe filmar. E daí? O que ele filma é que são elas, geralmente com doses exacerbadas de violência destrutiva.
    Mas não temo pelo interesse psicanalítico que ele tem, é só lembrar do filme "Spider" que era até excessivamente explicado por uma psicanálise bem óbvia. No fundo, uma case story com esquizofrenia e complexo deÉdipo "explicando" tudo, o que, cá entre nós, é de um reducionismo à la velha-Hollywood a toda prova. A "velha Hollywood" adorava usar a psicanálise como método de investigação de... mistérios mais ou menos criminais, policiais, etc. O pscianalista era uma espe´cie de "detetive do bem".
    Com o tempo o psicanalista (ou o que els acham que é psicanalista) pode ser criminoso, pedófilo, daí para baixo.

    Só uma pequena correção, Jansy: o livro "Um Mundo Transparente" do Morris L. West (autor de "Advogado do Diabo", "A Filha do Silêncio", "As Sandálias do pescador" e outros best-sellers da década de 1960 e que já foi o escritor mais lido all over the world), livro este que narra o imbroglio Jung-Sabine Spilrein-Freud ficcionalmente nunca foi filmado. Já houve um filme com o caso entre o Jung e a Sabine Spilrein, caso que ficou mais badalado a partir de um livro com a correspondência dos envolvidos, escrito por (salvo engano) Aldo Carotenuto.
    assinado: Gallego

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    [Aeternus:13136] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-18)


    - RE:Freud e Cronenberg

    De Jansy para Gallego:

    Já discutimos isso há uns anos, este tal filme que insisto em dizer que assisti, que era baseado neste livro Mundo Transparente.  Se eu me lembrasse qual, como ou porque facilitaria, mas apenas ficou o desgosto com a forma pela qual a história foi filmada.  O outro filme é bastante interessante e ainda tem um terceiro, com a história de uma pedra/alma. Não anotei os nomes. Shame on me !!!!!!!!!!!!!!!! Uma hora destas faço a pesquisa e dou um retorno.

    Quanto ao Freud e à psicanálise... cansei da briga com a imposição americana sobre o que deve ser psicanálise, freud, ajuda, conselho...detetive do bem, doido. Quem quer saber de verdade o que um dia foi a teoria e a prática da psicanálise fará pesquisa arqueológica, de historiador e talvez nem mais entenda a linguagem depois de tantos George Clooney sorrindo pelo ar...

    Recentemente dei minha dona-encrenca final a respeito de um biógrafo do Nabokov. que, vaidosíssimo, recontava o assédio gerontológico que ele fez para obter acesso aos poemas, arquivos, livros indéditos, cartas pessoais. Ele ainda inventava coisas de acordo com os interesses dele. Não foi preciso nem acrescentar:"assedio", "mentira", "contradição" com minhas palavras, só ir citando as coisas dele numa espécie de mosaico. Acaba que ele ganhou um premio de uma instituição que é reconhecida (chama-se "American Scholar") por ter escrito um dos melhores textos do ano, com sua teoria da evolução da criatividade humana.  As pessoas, em grande parte, surfam na onda da ideologia, não param pra pensar, seguem o pedigree do critico, do que apoia ou destroi e se o pedigree for bom é porque o cara disse verdades. Por isso adorei o filme "Up in the Air", o roteirista foi genial, disse tudo que queria e poucos notaram. Se eu soubesse fazer igual...Taí, posso treinar. É um jeito de contornar, sem ser perverso, a recusa e a foraclusão em um grupo social e jogar com o que eles vêm e não vêm ( e em Freud a coisa já começa divertida com o perverso negando que não viu aquilo que não havia mesmo pra ver, ou seja, não viu que a mãe não tinha o falo que ela de fato não tinha: dá pra filme mais que Alice no Pais das Maravilhas......). 


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    [Aeternus:13137] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-18)


    - RE:Lolita

    Jansy, que coletânea de contos é essa, onde há a história do tal editor? Fiquei curioso. Beijos. Davy.

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    [Aeternus:13138] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-18)


    - RE:RE:Lolita

    A coletanea de paródias saiu publicada em ingles como "Misreadings" e ali estão Nonita ("Granita") e vários outros...Pelo google é fácil de encontar se colocar "misreadings" e Umberto Eco. Os dados ficaram no outro computador, por isso não coloco logo aqui. 

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    [Aeternus:13139] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-03-18)


    - outros elementos sobre Nonita do Eco, e o resto da coleção

    The American edition of Misreadings translated "Nonita" for "Granita." Here are some excerpts:

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    [Aeternus:13140] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-03-18)


    - RE: Gallego sabe, Gallego diz

    "Misreadings" é o título em inglês de um livro do Eco de 1963, chamado "Diário Mínimo" no Brasil (e no original italiano já que era o nome de uma coluna de jornal do Eco).  Ele fez revisão do livro em 1983 e desta revisão é que foi traduzido no Brasil.
    Neste é que está a paródia onde Nabokov escreve um romance sobre um jovem apaixonado por septuagenárias
    Parece que só foi lançado em inglês já nos anos 1990 e tantos.
     
    Está esgotada no Brasil a edição da DIFEL (essa editora portuguesa acho que acabou no Brasil), mas também uma reedição pela Bertrand Brasil não está disponível para venda na Livraria da Travessa.
    Em um site que intermedia (ou intermedeia?) vendas e compras entre as pessoas havia um exemplar da Difel pelo qual o sujeito pedia 700 reais.
    E o que é pior: vendeu! 
     
    OBS.: Existe um "Segundo Diário Mínimo" de 1992, lançado pela Ed. Recrod no Brasil em '93
    Este é + fácil de encontrar em sebos virtuais com preços módicos na base de 20 reais apenas

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    [Aeternus:13141] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-18)


    - RE:RE:Freud e Cronenberg

    Não vale a pena polemizar por isso, mas te garanto, Jansy, que o filme que vc viu (e eu também vi em um Festival) com a história de Jung e Sabine Spilrein tinha o mesmo tema do livro "Um Mundo Transparente" do Morris L. West, mas não era baseado neste romance.
    O romance,a o que eu me recordo, era bem ficcional, acho que na época em que foi escrito ainda não haviam sido publicadas as cartas entre Sabine e Jung, entre Sabine e Freud, entre Jung e Freud sobre Sabine. Acho. E acho que nem se sabia como foi a vida e a morte da Sabine depois da confusão toda. Acho que ela voltou para a Rússica, fundo escola para crinaças com problemas, atuava como terapeuta e foi morta na invasão nazista. No livro do Morris West que não teno mais para conferir, o desaparecimwento dela era numa cvalgada desembestada, meio em aberto (mas posso estar inventando)
    O filme que era italiano se pretendia mais realista, ao que me lembro; e era bem ruim ao que me lembro. Acho que deixava Freud em situação pior do que as cartas publicadas revelam, se bem que nos eventos reais ele tenha se enrolado todo: ainda queria preservar Jung como seu "prícipe herdeiro" mas não estava nada satisfeito com a conduta do Jung transando com esta paciente (e parece que não foi a única).
    O Aldo Carotenuto que publicou as cartas no livro "Diário de uma secreta simetria" propõe que Freud escreveu sobre "Amor de Transferência" tenatndo colocar toda a responsabilidade do fenômenno nas analisandas, ainda para tentar salvaguardar o Jung, mas não deu pé mesmo.
    Existe um outro trabalho sobre "A Paciente Narcísica de Freud" publicado no International Journal no qual Freud escreve para Ernst Jones sobre uma paciente que Jones lhe encaminhara por conta de que a análise empacou com as fantasias da paciente no sentido de que Jones, tendo enviuvado (ou se separado, mas acho que enviuvara) estava apaixonado por ela.
    Antes de receber a paciente Freud escreveu para Jones dizendo algo que, se bem me lembro, seria como "espero que dessa vez não seja verdade". Ou seja... Jones também já teria se envolvido anteriormente com alguma paciente (amorosamente/platonicamente? ou sexualmente?). A paciente era recomendadíssima pois traduzia Fredu para o inglês ainda em 1919. Chamava-se Joan Rivière que veio a ser psicnalaista e discípula de Melani Klein.
    Os pupilos davam muito trabalho...

    Talvez tenha havido algo parecido entre Winnicott e Masud Khan: há acusações de que Winnicott teve informações de pacientes do Khan acusando-o de abusos e teria ficado perplexo e sem saber o que fazer, ou seja não fez nada.

    A frase do M. Khan que foi elogiada em outra mensagem do Aeternus em julhom de 2009 me soa totalmente fake ao se auto-elogiar vaidosamente pela descoberta da "humildade" no trabalho com os pacientes. Este trabalho pode ser gratificante, mas muitas e muitas vezes é frustrante e isso não nos  deixa mais humildes, mas mais realistas.
    A "dependência dos outros para nos tornamos nós mesmos" é repetição banal do que Winnicott dizia e que Kohut diria ainda mais enfaticamente.
    O "caráter extremamente privado da psicanálise" é seu trunfo maior e risco maior: o que se passa em um gabinete fechado entre 4 paredes com um teto em cima e um chão embaixo? Tudo pode acontecer e as versões de um e de outro podem ser bem diferentes mesmo em temas que não tenham nada a ver com conduta não-ética por parte do profissional.
    Khan e outros psicopatas se fizeram valer desse sigilo e privacidade para abusos de domínio mental (antes mesmo do sexual) sobre pacientes. Isso é muito triste, embora não seja exclusivo da psicanálise. Com todas as questões ligadas à mentalidade norteamericana, o livro "A Hora Íntima" discute a questão do envolvimento de profissionais de saúde em geral e principalmente de saúde mental com pacientes. E nem tudo o que saiu dos trilhos profissionalmente teria sido tão destrutivo aparentemente em alguns casos relatados. Isso é que é polêmica de dar nó na cuca!
    Não acredito que M. Khan fosse correto antes: era um falso self patológico ao extremo que usava a "máscara da sanidade" como era o ´titulo do livro de referência dos anos 1950 sobre Psicopatia do pto. de vista psiquiátrico psicodinâmico.
    Gallego


    "Apsicanálise é uma disciplina de sensibilidade e perícia, de caráter extremamente privado. A prática da psicanálise desdobra essa privacidade, transformando-a num relacionamento especializado entre duas pessoas, que, pela própria natureza da exclusividade que uma observa em relação à outra, modifica a ambas. O que desejo dizer em primeiro lugar a respeito do trabalho apresentado nestes escritos, é que meus pacientes me ajudaram a dar vida e a personalizar meu potencial de pensamento, afetividade e esforço, convertendo-o num modo de viver que considero profundamente satisfatório. Tivesse eu seguido outra carreira, talvez minha vida fosse mais intensa e diversificada, porém, nunca tão plena. Meu trabalho com os pacientes me ensinou a ser humilde e a ver a necessidade da dependência que temos do outro para sermos e nos tornarmos nós mesmos."

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    [Aeternus:13142] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-18)


    - RE:RE: Gallego sabe, Gallego diz

    A Estante Virtual tem vários exemplares da obra e com preços que variam de R$ 12,00 a R$ 35,00.

    Cely


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    [Aeternus:13143] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-03-18)


    - RE:RE:RE: Gallego sabe, Gallego diz

    Que pena, eu já me sentia rica com um exemplar dos Diarios Minimos (tenho os dois) ainda intacto. Guardei na estante, achei chatinho na época, esqueci dele pois Eco não para de escrever e fui indo em frente...

    Da lista pro Nabokov, onde menciono alguns achados, segue o texto como coloquei em ingles:

    I just found out that also Umberto Eco invented different kinds of anagramatic games. One of these he called "Hircocervos," (the word in Portuguese, referring perhaps to  alchemical "hierosgamos" ), to mingle the names of famous authors and their works in a special kind of pastiche. 

     
    The other he called "Anagrams a Posteriori." He explains that classic anagrams are created a priori, when the letters of a name or a first sentence are mingled under the surge of a confused intuirion related to already existing names, words or sentences. The other grows out from anagrams which are applicable to other names, but which have no special "bearer," so it is necessary to invent a biography to explain the new coinage  (a quick imprecise translation for a part of his paragraph).
     
    Nabokov practiced "Anagrams a Posteriori", for example, in connection to Ada's Charles Nicot and  Nicholas Tobakoff( but I quote from memory). There must be a host of similar samples.
    One example from Eco: 
    Bruce O'Moët: Irish  XIX Century nationalist, later exiled in Reims and co-founder with Paul Chandon of a famous brand of champagne.
     
    Under the "Hircocervos" kind of anagrams we find:
    VLADIMIR ILITCH NABOKOV - "What can we do with Lolita?"
     
    other examples:
    Fiodor Tolstoievsky               "War and Punishment"
    Eric Tati                                "Hulot Suite" 
    Virginia Wolfe                       "Who killed Mrs Dalloway?"
    Walter Benjamin Franklin      "The work of art at the time of electric reproductibility"
    Walter Scott Eriugena            "Visio Ricardi a Corde Leonis"
    Woddy Alien                          "Starwar Memories"
    Mickey Mauss                        "The Mouse as a Gift"
    Moby Duck                            "Pequod-quid-quad"
    Nikolai Rimski-Gorbatchov   "Shehevardnaaze"
    Pink Floyd Patterson              "Sing on the Ring"
    Restif de la Breton                  "Monsieur Nadja"
    Roman Jacoksony                   "Walkman Aphasia"
    Salvador Kali                          "Un indien andalou"
    Samuel Becket Stowe              "Père Godot's cabin"
    Teilhard de Cardin                   "Dressed by God"
    (meio pueril, porque me lembra brincadeiras que fazíamos com filmes ainda na época do ginásio, misturando títulos com o dos professores e as matérias que ensinavam)  
     
     

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    [Aeternus:13145] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-03-18)


    - Jung

    Continuo atrapalhada com filmes sobre a história dos amores de Jung. Gallego mencionou um filme italiano que parecia ser "Jornadas da Alma,"  do qual gostei e não pareceu italiano. O filme do mais tremendo mau gosto deve ser outro ainda.Tinha uma torre ( a mansão do Id/Ego/Superego) e muito sexo perverso.  Que coisa essa, perder um filme de vista e nem achar pistas sobre ele no google.

    Na época em que lia assiduamente a obra dos kleinianos eu gostava dos escritos da Joan Riviere. Spielrein é citada, como analista, pelo Freud. A história de muitos psicanalistas tradicionais parece um pouco com as cronicas ocultas pela igreja católica. Bettelheim, Masud Khan e vários outros. Um livro interessante é o que foi escrito por Lou Andreas-Salome sobre Viktor Tausk ( "Irmão Animal"). Já a correspondencia dela com Rilke me parece bastante hiperbólica e chatíssima. 

    Estou varando,  página por página do bem ilustrado livro do Umberto Eco, sobre o Infinito das Listas ( ou ser´"infinitude"?) em papel couché e letra grande. E não é que o papel tem um brilho que é incomodo para ler? Ele, sem mostrar ironia, faz um rol das relíquias das igrejas (já tinha lido algo sobre estas na internet) mostrando, por exemplo, como em uma igreja eles tem a cabeça de São João Batista aos doze anos de idade e, em outra, a cabeça dele quando foi cortada já na idade adulta. Ele sabe que não precisa comentar nada e, os fiéis de cada igreja, com o rol dos fatos, não tem do que reclamar.  Estas listas ilustram para mim a infinitude da ingenuidade ou ignorancia humana. Da qual não me excluo pois o próprio livro do Eco é uma lista das listas.  No entanto, aquele mundaréu de anjos, demonios, gentes, bichos, monstros, santos, nomes, objetos é angustiante. Oprime, pra valer... 


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    [Aeternus:13147] Mensagem do Grupo62
    -Marcos Florião(2010-03-19)


    - the Nardoni file

    Gostei de saber que nosso sistema de julgamento segue normas similares ao frances.Cada jurado desconhece o voto dos outros, e não lhes é permitido comentar o processo ! Um fiscal de justiça com eles convive para tal ...
    Filmes americanos de julgamento trazem debates intensos entre jurados, na via oposta !

    Curioso que fator maior incriminador dos Nardoni será o tempo.
    Segundo a tese da defesa, em exatos 1'32'' - provas irrefutáveis o atestam ! - o Alexandre ( que teria deixado Isabella em seu leito antes de subir de novo com as outras crianças e a família ) : a. entra em casa com uma criança no colo e a coloca no quarto ao lado do de Isabella ; b.dirige-se ao quarto desta e nota sua ausência; c.percebe um furo na rede de proteção da janela, debruça-se e nota a filha caída no jardim; d.dirige-se à porta, avisa Ana Jatobá, abre a porta e desce de elevador ; e.chega até a filha juntando-se aos que lá estavam.

    Talvez o campeoníssimo e recordista mundial de velocidade Usain Bolt, em seus melhores dias, conseguisse chegar próximo a tal proeza, né?
    Terrível ainda, no sentido humano-genérico e como prova indireta contra os réus, a aterrisagem de Ana Jatobá, que no miolo desse exatíssimo minuto-e-trinta-e-dois telefona ao pai para comunicar que 'algo muito ruim está acontecendo'.É aquele instante em que o inconsciente faz descer de novo seu véu, e em sua solidão e metadiscurso ela diz ao pai "me salva, me ajuda...fiz algo terrível, sem volta..."
    O real grita diante deles, e aí...limpa-se sangue pela casa, recoloca-se em sue lugar a tesoura que cortara a rede - um perito alegou que as provas todas no caso contra os Nardoni são indiretas, porém se uma tesoura com traços do tecido da rede do quarto de Isabella não é prova direta contra os réus, me digam que assassino-terceiro-excluso, premido por segundos em seu desvairado e tresloucado impulso de matar&roubar&fugir, preocupa-se em guardar a tesoura que usara de volta em seu lugar, além de limpar sangue pela casa...ora !


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    [Aeternus:13167] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-04-02)


    - 3000m


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    [Aeternus:13168] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-04-02)


    - RE:3000m

    Legal, um visitante deixou o cartum falar por ele e movimentou o moribundo aeternus... É, o site está com 3 km de vazio.

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    [Aeternus:13169] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-04-02)


    - RE:RE:3000m

    Mas claro... Fantasmas não têm nome, não se pode vê-los, tocá-los, nem sequer bater neles. Uma lista de anônimos é uma lista de fantasmas. Bem feito. Davy.

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    [Aeternus:13266] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-04-14)


    - sublime

    Adagietto - Mahler - Symphony nº 5

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    [Aeternus:13289] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-04-16)


    - RE:sublime

    Mas de vez em quando eles acertam, esses fantasmas. Esse trecho do Mahler é um dos pináculos da arte da música. Conheço pouca coisa mais emocionante - uma delas o Quinteto para Clarinete e Quarteto de Cordas, de Brahms. Mas do resto de Mahler não gosto não. Não consigo. É dissonante demais para o meu gosto. Como aquela pintura chamada 'surrealista', com seu culto ao grotesco. Assumo que não sou um expert, mas também assumo que se 'experts' gostam de TODA a música, inclusive da atonal e da dodecafônica, eu tô fora. Davy.

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    [Aeternus:13347] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-04-28)


    - cena no céu


    Um trem bate em um ônibus cheio de freiras, e todas morrem...

    Elas estão Todas em frente a São Pedro, tentando atravessar os portões do
    paraíso....

    O santo pergunta à primeira freira:

    - Irmã Francisca, você alguma vez teve contato com um pênis?

    A irmã sorri, timidamente, e responde:
    - Bem, uma vez eu toquei a cabeça de um, com a pontinha do meu dedo...

    - OK. - diz o porteiro do Céu - Enfie a ponta do dedo nesta bacia de água
    benta e atravesse o portão...

    São Pedro pergunta à segunda freira:
    - Irmã Beatriz, você alguma vez teve contato com um pênis?

    A irmã reluta um pouco, mas responde:
    - Bem, uma vez segurei e acariciei um...

    -Sendo assim, - determina São Pedro - enfie a mão toda na água benta e
    atravesse o portão...

    De repente, forma-se um tumulto na fila das freiras. Uma delas começa a
    empurrar as outras para passar na frente...

    Quando a freirinha afoita chega ao início da fila, São Pedro pergunta:

    -Irmã, Irmã... qual o motivo da pressa?

    E a freira responde:
    - É que se eu vou ter que fazer gargarejo com essa água,... melhor fazer
    agora,... antes que a Irmã Socorro lave a bunda...

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    [Aeternus:13400] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-04)


    - "O Paraíso Perdido" - Fantasia e Sonho em John Milton

    Olha que interessante. Jansy falou de sonho ontem. Olha a visão de John Milton, na reflexão de Adão sobre o sonho de Eva comendo o fruto (que depois veio a comê-lo de fato...numa fúria antiplatônica...):

    "mas donde vem o Mal? Em ti não pode
    nenhum haver que vens de origem pura.
    Porém reflete que residem na alma
    diversas faculdades subalternas:
    tem domínio a razão sobre elas todas,
    e logo se lhe segue a fantasia.
    Das externas imagens que lhe mandam
    nossos sentidos, esta às soltas forma
    disparatadas, movediças séries;
    e depois a razão pondo-as em ordem,
    estas juntando, separando aquelas,
    da negativa e afirmativa as bases
    para nós determina a que chamamos
    Nossa opinião, conhecimentos nossos.
    No tempo em que descansa a Natureza,
    recolhe-se a razão em seu retiro,
    e a fantasia mímica bem vezes
    vela para imitá-la, mas sem tino,
    mas julgando as figuras quase sempre,
    obras produz, principalmente em sonhos,
    baralhadas em formas e graus diversos
    (tanto faz em ações como em palavras).

    (...)

    Por isso espero que acordada fujas
    do que sonhando aborreceste tanto"

    Bom, e por aí afora. Bom dia para todos.

    Guto



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    [Aeternus:13401] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-05-04)


    - RE: Milton e Guto no paraíso

    Não sei se consegui aproveitar o poema de Milton, este trechinho cheio de beleza e profundezas que requer uma leitura atenta e informada...É como até hoje não destrinchei o contexto da frase de Lucifer, no Paraiso Perdido, quando exclama: "prefiro reinar no inferno a servir no céu" uma vez que, sem desafiar as autoridades e as proibições como Lucifer, no resto penso como ele. O céu das utopias onde todos são iguais e sorridentes seria o meu inferno. 

    Se aproveitei alguma coisa foi a proposta de que o mal é uma consequencia da indiscriminação do estado de fantasia e sonho que só imita, sem reproduzir de fato, a realidade desperta. Uma perspectiva nada freudiana ( a fantasia como eco distorcido do mundo), mas cheia de promessas... Obrigada, Guto, pelo desafio. Talvez você tenha sacado algo mais e possa me dar a dica?


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    [Aeternus:13402] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-04)


    - RE: O sonho de Eva

    Guto, que mundo fascinante se abriu depois que você citou o sonho de Eva. Já tinha tentado ler Milton várias vezes e fiquei só nos sonetos, em trechos isolados do Paraíso...parecia demandar mais folego do que eu tinha.  No entanto, fui explorando e acabei em discussões maravilhosas sobre a influencia de Hobbes no pensamento de Adão, na natureza da "fancy" como ligada ou aos estímulos internos e externos. Tem até um trabalho, que ainda não busquei, de Elizabeth Bellamy " Milton's Freud: The law of Psychoanalysis in Eve's dream" Gratíssima pelo empuxo. Satanico sopro de sapo, ou inspiração de um dos filho/as de Mnemosyne?  

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    [Aeternus:13403] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-04)


    -

    Ver filmes em shoppings está se tornando algo insuportável. A massa de babacas está cada vez maior e pior, e há babacas das mais variadas faixas etárias (dos 8 aos 88) que riem, como hienas, de tudo. Incrível que, mesmo o filme tocando a fundo a extrema podridão da alma humana, a hienada boçal gargalha. Gargalha e come pipoca como se comesse excremento. É muito triste que as pessoas tenham chegado a um estado tão uniforme, niveladas, claro, pelo mais baixo dos níveis e o único uso que fazem de sua massa cinzenta é engordá-la com toda a imbecilidade possível para que sirva (esperamos que o mais rápido possível) como ração de vermes.


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    [Aeternus:13404] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-04)


    - RE:

    A cultura do shopping é um desastre. Não vejo nenhuma luz no fim do tunel.

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    [Aeternus:13405] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-05-04)


    - RE:RE:

    Em vários momentos da minha vida, principalmente entretendo pencas de netos pequenos nas livrarias e brinquedotecas, adoro ir a um shopping. Prefiro cinemas que ficam em shoppings. Em outros momentos, adoro ir às feiras populares atrás de coco ralado na hora, milho verde, gente animada vendendo e comprando legumes. Andei curtindo até a sensação carioca de andar pela rodoviária daqui. No Rio a situação agora seja diferente da de Brasília, mas conheço shoppings menores que tem até restaurantes decentes com vista bonita para morros de campo de golfe e preços quase normais. O que curto menos, quando tenho que sair para espraiar na cidade longe do verde, é andar pelas ruas. Também não acho tanto essa coisa dos boçais descritos nas platéias dos cinemas. O visitante anda exagerando?

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    [Aeternus:13410] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-05)


    - RE:RE: O sonho de Eva

    Não sei se Guto enviou o sonho de Eva, no poema de John Milton, motivado pelo que andei escrevendo sobre a fantasia e a passagem do pensamento ao ato. Uma das questões que um academico (não consigo deixar de pensar em escola de samba quando uso este termo) levantou foi sobre se satã, ao soprar o sonho no ouvido de Eva adormecida, tirou-lhe a inocencia e se, só por ter experimentado o sonho, se tornou assim uma pecadora ( a queda antes da queda, bem prelapsarianamente). O que achei mais fascinante foi a proposta de que, antes da desobediencia à proibição divina para que eles não da árvore do conhecimento do bem e do mal, Satã incutiu em Eva uma outra desobediencia, anterior àquela e fundamental. Até aquele momentoe, nascida da costela esquerda de Adão, Eva lhe era totalmente submissa, uma extensão da mentalidade de Adão. Satã teria lhe soprado a possibilidade de pensar de modo diferente, de discordar, de ficar descontente, de coquistar uma subjetividade ao contestar Adão e manter partes secretas na sua mente. Não é lindo? A discórdia começa com a diferença que traz uma desidealização, um descontentamento por vezes...

    Enfim. Da Eva do John Milton dei outro passo, fortuito. Comprei um livro bem ilustrado, delicioso de olhar e alisar, mas barato como edição de 5000 exemplares da Cosaknaify, pensando em presentear com ele algum dos netos que começam a se interessar por contos sobrenaturais. Era um livro de E.T.Hoffmann, o mesmo autor que Freud estuda no capítulo do "Estranho familiar" ( Unheimlich; Uncanny) contando a história de Copolla que negocia com olhos e ainda tem a boneca mecanica e tal, precursor de Poe e Baudelaire... Lembro de devorar seus contos na adolescencia ( o que mais me ficou na memória, entre os menos famosos, foi de uma senhora grávida que se acidentou com uma chave, sem simbolismo freudiano suponho, e que teve seu bebê com uma marca de nascença em forma de chave em alguma parte do corpo) e, inclusive, de oferecer um deles na bibliografia de um curso de psicanálise ( O pequeno Zacarias também chamado Zinábrio )

    E não é que o livro, o último que Hoffman escreveu (morreu aos 46 anos), não tem nada de romantico e terrorífico mas é um prenuncio do realismo? Intitula-se  "A Janela de Esquina do Meu Primo". E o que tem a ver com a Eva, do Milton ou do Genesis? Ihhhhhhhhhhhhh. Uma frase, retirada de Shakespeare e na qual (mais um ihhhhhhhh) reconheci o Calabar do Chico Buarque, numa das minhas frases favoritas que fala "da distancia entre intenção e gesto".

    Hamlet: " So as a painted tyrant Pyrrhus stood,/ And like a neutral to his will and matter/ Did nothing." ( ato II 2a. cena), traduzido para o portugues da página de Hoffmann: " Qual tirano em pintura, fica imóvel, como que neutro entre a contade e o braço, sem fazer nada."

    No meio disso, ainda entra um trecho do Phaedro, de Platão, sobre o que é da vontade e...nem sei mais, mas está ligado também. Depois encontro para citar.

    Jansy 


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    [Aeternus:13411] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-05)


    - de Suely para Jansy



    “O que é o amor?” é a pergunta que está rolando no twitter.


    O amor não libera a criança que existe dentro de você. O nome disso é cesariana. O amor é outra coisa.
    O amor não é ferida que dói e não se sente. O nome disso é hanseníase. O amor é outra coisa.
    O amor não te leva a lugares inesperados. O nome disso é sequestro relâmpago. O amor é outra coisa. 
    O amor não abre a cabeça das pessoas. O nome disso é traumatismo craniano. O amor é outra coisa.
    O amor não te deixa radiante. O nome disso é acidente de Chernobyl. O amor é outra coisa.
    O amor não te faz ouvir sinos enquanto beija. O nome disso é pegação atrás da igreja. O amor é outra coisa.
    O Amor não é uma coisa que o espreita todas as noites nas ruas escuras da cidade. O nome disso é Batman. O amor é outra coisa.
    O amor não te deixa quente e te leva pra cama. O nome disso é dengue. O amor é outra coisa.
    O amor não é algo que o leva às alturas. O nome disso é elevador. O amor é outra coisa.
    O amor não te deixa temporariamente cego. O nome disso é spray de pimenta. O amor é outra coisa.
    O amor não é algo que te tira o sono às 2h da manhã. O nome disso é ex-namorada querendo o chip. O amor é outra coisa.
    O amor não faz brotar uma nova pessoa dentro de você. O nome disso é gravidez. O amor é outra coisa.
    O amor não te deixa sem chão, o nome disso é cratera. O amor é outra coisa.
    O amor não faz você ouvir o próprio coração. O nome disso é estetoscópio. O amor é outra coisa.
    O amor não te faz ficar simpático e amoroso de repente. O nome disso é Natal. O amor é outra coisa.
    O amor não liberta. O nome disso é ALVARÁ DE SOLTURA. O amor é outra coisa.
    O amor não te faz ver tudo com outros olhos. O nome disso é transplante. O amor é outra coisa.
    O amor não te leva por caminhos tortuosos e te assusta de vez em quando. O nome disso é trem fantasma.O amor é outra coisa.
    O amor não faz você chorar sem motivos. O nome disso é cebola. O amor é outra coisa.
    O amor não nos faz perder a noção do tempo. O nome disso é horário de verão. O amor é outra coisa  ...
    AFINAL ENTÃO PERGUNTO?
    O QUE É O AMOR?

     

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    [Aeternus:13412] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-06)


    - RE:RE:RE: O sonho de Eva

    Legal o sonho de Eva ter rendido comentários. Estou cheio de prazos vencendo essa semana, por isso não respondi (advogado da Fazenda só anda atulhado de processos).

    Voltarei ao tema. Deculpem a correria.

    Abçs a todos,

    Guto


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    [Aeternus:13413] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-06)


    - RE:RE:RE:RE: O sonho de Eva

    Jansy para Guto: vai render por um tempão, posso esperar seu desafogo para discutir comigo e quem topar participar...

    A duvida dos estudiosos é se, na época de Milton, seria considerado culpa e pecado o sonhar-se uma ação perversa (entre os romanos, era culpa e entre os iroqueses no hemisfério norte, idem -  eles contavam o sonho "vindo dos deuses" para a comunidade e corriam o risco de serem mortos )

     Quando Lucifer fez Eva sonhar com a maçã, ela já estaria pecando, já era a queda? Ou não era? Neste caso, da inocencia perdida mas não violada, algo mais perto da psicanálise, o material perverso era recalcado e distorcido sem ser executado na prática. Sonhem à vontade... só não pratiquem o que sonharam (argumento semelhante ao de Platão)


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    [Aeternus:13414] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-06)


    - sonho de EVA

    > FALAR EM SONHO, estou lendo A casa das belas adormecidas, DE kAWABATA trata-se de uma casa de encontro para velhos, com meninas absolutamente adormecidas, feito mortas lindo e melancólico ... / tekka /

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    [Aeternus:13418] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-06)


    - RE:de Suely para Jansy, Adendo do Gallego

    Tem uma música do Cole Porter que se chama "What is this thing called Love?"
    Como um cara esperto ele tb não responde à pergunta.
    I was a humdrum person
    Leading a life apart
    When love flew in through my window wide
    And quickened my humdrum heart

    Love flew in through my window
    I was so happy then
    But after love had stayed a little while
    Love flew out again

    What is this thing called Love?
    This funny thing called Love?
    Just who can solve its mystery?
    Why should it make a fool of me?

    I saw you there one wonderful day
    You took my heart and threw it away
    That's why I ask the Lord in Heaven above
    What is this thing called Love?

    What is this thing called Love?
    This funny thing called Love?
    Just who can solve its mystery?
    Why should it make a fool of me?

    I saw you there one wonderful day
    You took my heart and threw it away
    That's why I ask the Lord in Heaven above
    What is this thing called Love?

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    [Aeternus:13421] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-06)


    - RE:sonho de EVA

    Jansy pçara Tekka: Que livro estranho. Me fez lembrar de uns desenhos japoneses em que viajantes do espaço parvam num planeta, semelhante ao nosso mas que existiu há uns cem anos, com uma cantora de opera assombrando a casa e os objetos com jeito de coisas reais, se desfazendo em pó. 

    Você já leu o Murakami? Li vários livros dele mas confesso que gostei principalmente de um, que não sei se foi traduzido como os outros ( da Sputnik, dos rebanhos...) "The Wind-up Bird" ( O pássaro de corda) 


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    [Aeternus:13422] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-06)


    -

    > Jansy valeu pelo toque, só conhecia o Kazuo Ishiguro, do Remains of the day, e agora vou ler esse Kawabata esta semana vi DOLLS, tb japonês ótimo fds para vc e todos, tekka

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    [Aeternus:13423] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-07)


    - RE: Murakami

    Haruki Murakami (Murakami Haruki, nascido em 12 de Janeiro de 1949), em Quioto, Japão, é um popular escritor e tradutor.Frequentou a Universidade de Waseda, em Tóquio, dedicando-se sobretudo aos estudos teatrais. Antes de terminar o curso, abriu um bar de jazz chamado Peter Cat, à frente do qual se manteve entre 1974 e 1982.Em 1986, partiu para a Europa e depois para os EUA, onde acabaria por se fixar. Escreveu o seu primeiro romance - Hear the Wind Swing - em 1979, livro ainda não traduzido para português, mas seria em 1987, com Norwegian Wood, que o seu nome se tornaria famoso no Japão. Escritor particularmente influenciado pela cultura ocidental, Murakami traduziu para o japonês obras de F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, John Irving e Raymond Carver.
    Algumas obras traduzidas em português (Brasil):
    Caçando Carneiros (Hiitsuji o meguru bôken, 1982)
    Norwegian Wood (, Noruwei no mori, 1987)
    Dance, Dance, Dance ( Dansu dansu dansu, 1988)
    Minha Querida Sputnik (, Spûtoniku no koibito, 1999)
    Kafka à Beira-mar (, Umibe no Kafuka, 2002)
    Após o Anoitecer (2004, lançado pela editora Alfaguara)
    Crônica do Pássaro de Corda (Nejimaki-dori kuronikuru, 2006) - Portugal.


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    [Aeternus:13424] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-07)


    - RE:

    Tekka, uma grande amiga minha, Dirce Cavalcante, traduziu um livro de poemas do Kawabata. Não tenho como avaliar a tradução, pois não sei uma palavra de japonês, mas tenho como avaliar a minha amiga, grande artista plástica, pessoa de uma integridade difícil de encontrar. Se você já tem o livro que pretende ler, tudo bem. Mas se você sair em busca de um, recomendo esse. Foi publicado pelo Ateliê Editorial. Beijos. Davy.

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    [Aeternus:13428] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-07)


    - Kawabata

    > Jansy obrigada pela dica, tou fascinada pelo veínho ... tekka

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    [Aeternus:13429] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-07)


    - Kawabata

    > Davy valeu pela dica, ja estou 'no encalço' ... bjs, tekka

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    [Aeternus:13430] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-07)


    - PRAZER DE LER OS CLÁSSICOS

    > PRAZER DE LER OS CLÁSSICOS, O Ganhador do Prêmio Pulitzer TEORIA E CRITICA LITERARIA DIRDA, MICHAEL Autor ganhador do Prêmio Pulitzer "Os critérios impecáveis de Dirda, o entusiasmo e a inteligência com que fala sobre personagens, cenários, autores e sociedade certamente atrairão todos aqueles que se interessam em descobrir a literatura." - San Francisco Chronicle "Dirda é um mestre de sutileza -- seu tom é invariavelmente cordial e comedido... Sua versatilidade, seu gosto por gêneros como romances de detetive,tornam seus textos acessíveis e criam empatia com o leitor, característica que falta a grande parte da crítica literária." - The Boston Globe “Basta enunciar o substantivo ‘clássicos’ e a maioria pensa no adjetivo ‘chatos’. E se alguém escreve que ‘ler Voltaire me deu enorme prazer’ logo aparece outro para acusá-lo de elitista ou vaidoso. Neste livro, o crítico e ensaísta americano Michael Dirda, premiado resenhista do Washington Post, comenta seus livros preferidos, de Safo a Italo Calvino, não porque os considera sagrados ou obrigatórios, mas porque passou horas inesquecíveis em sua companhia. Mostra seu prazer confessando os sentimentos que lhe causaram – como não raro o da angústia e o da melancolia – e analisando a vitalidade de cada criação, independentemente de gênero, época e ideologia. Como em toda lista, cada leitor vai encontrar ausências; só não vai encontrar a velha polarização entre ‘graves e frívolos’, como dizia Machado de Assis. Por sinal, os brasileiros estão ausentes da biblioteca íntima de Dirda. Mas ele está desculpado: a cultura brasileira precisa muito mais de livros como este, que não trata a leitura nem com a arrogância da academia nem com a preguiça da autoajuda.” DANIEL PIZA Por: R$ 65,00 ISBN: 9788578271961 Número de páginas: 360 Editora: WMF MARTINS FONTES Acabamento: Brochura Costurada e Colada Formato: 16 x 23,5 Peso: 520gr. Edição: 1ª Edição - 201 tekka

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    [Aeternus:13438] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-10)


    - RE:RE:RE:RE:RE: O sonho de Eva

    Interessante essa perspectiva do "sonhar uma ação perversa" já ser um prenúncio da queda, ou a queda mesma.

    E a dramaticidade de Milton é fascinante, apesar da tradução empolada e arcaica do século XVIII. A Bíblia não fala em sonho, mas a sacada é otima. Dá verossimilhança ao absurdo. A serpente só poderia falar em sonho, e o sonho é igual senha de banco: pessoal e intransferível. Logo, o germe da ruptura já estava determinado.

    Ou seja, o estímulo para o pecado tinha que ser interno mesmo, como a consciência de se estar nu.

    Mas Eva pecou ou não pecou? Pecou sem pecar, num primeiro momento... e pecou pecando, quando põe a boca na fruta ou a fruta na boca (por que associamos à maçã??). Tem uma corrente escolástica, se não me engano, que diz que a virtude é resistir ao pecado, e não desconhecê-lo.

    O movimento de ruptura com a ordem patriarcal estabelecida já vinha em Lilith, primeira mulher de Adão ("E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou"). Não quis ficar por baixo, se rebelou, criou asas e voou pro Mar Vermelho, junto com os demônios.

    Mas Eva (mais adiante no Genesis, em outra passagem, "E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão") tb rompe, comendo o fruto, influenciada pela serpente-Lúcifer (escritos cabalísticos dizem que Lilith,enciumada, tava metida nessa muvuca).

    Mas tragédia é tragédia, está escrita e os papéis têm que ser desempenhados, e muito bem, principalmente os malvados. Se Deus criou o mundo, também criou as tragédias humanas.

    Como não sei se acredito em inocência - acredito em ignorância e/ou inapetência - Eva já foi dormir com a linguagem (mais ou menos elaborada) da transgressão. By the way, Adão também transgride, pois come igualmente o Tamarino. E Deus, encolerizado, é ator de Sua própria tragédia. E the Oscar goes....

    Guto


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    [Aeternus:13439] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-05-10)


    - RE O sonho de Eva

    Além de Genesis e de Milton, a interpretação do autor que estou lendo modifica as primeiras apreensões e, sem filosofar fora do que encontra no Milton, introduz questões.

    Ele afirma que Milton...montou uma estratégia. Mostrar a arvore do bem e do mal, em sonho, não funcionaria para o Demo (neste momento, era um sapo e não serpente) porque Eva a via no jardim e não era tentada. Por isso, conhecendo a inexperiencia do casal e de como Adão era o unico referencial de Eva (não podiam se saber diferentes, não conheciam o que era homem e mulher, etc) a ele totalmente submissa, o sapo sussurrou nos ouvidos de Eva uma história na qual Eva caminhava buscando Adão, estranhando tudo e sem este referencial, quando em primeiro lugar se iludiu que via o Adão, foi desapontada mas...no meio da aflição do desconhecido de repente encontrou, no sonho, a árvore do bem e do mal. Algo familiar e amigo, portanto. Que supria a ausencia do Adão. Assim, a árvore se tornou o novo referencial. Fora da dupla que o casal constituía, um novo elemento a ela exterior informava sobre algo mais que espelho e submissão, fornecia uma distancia crítica...dela brotava desapontamento e crítica ao que havia em Adão. 

    Não terminei de ler, cada parágrafo do sujeito é uma bela surpresa, sempre citando uma alternativa (isso ou aquilo) para destacar seu emprego na frase, um verbo, um tempo verbal, uma palavra em Milton. Aprendi que a peça foi escrita num período de confronto com os republicanos, que Milton seguia Marlowe que seguia Ludun. Predomina uma base da doutrina dos católicos... 


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    [Aeternus:13649] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-15)


    - futebol também é cultura

    Meu palpite para o jogo de estréia do Brasil: 2 x 0. Cely

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    [Aeternus:13650] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-15)


    - RE:futebol também é cultura

    Não gostei do jogo, apesar do domínio brasileiro. Legal foi o golaço do Maicon.

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    [Aeternus:13652] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-20)


    - RE:

    http://tvuol.uol.com.br/permalink/?view/id=oscar-filho-do-cqc-se-vinga-dos-argentinos-04021B3270D0B913A6/user=uat3dix91wsf/date=2010-06-18&&list/type=user/codProfile=uat3dix91wsf/


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    [Aeternus:13674] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-24)


    - de julia para davy


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    [Aeternus:13675] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-24)


    - RE:de julia para davy

    Júlia, me perdoe: entendi a historinha, entendi a sabedoria abismal do querido Snoopy, mas sinceramente não entendi por que você a enviou a mim, como que 'dando um recado'. Não entendi o recado. A não ser, e isso me parece surpreendente, que você saiba que Winnicott adorava as historinhas do Schulz, que via as crianças de um modo muito parecido com o dele (tinha até o guri com o seu objeto transicional, o Linus). Se foi isso, muito obrigado. Se não foi, gostaria que você explicasse. Beijos. Davy.

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    [Aeternus:13676] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-25)


    - RE:RE:de julia para davy

    davi, foi soh uma lembrança. beijo, julia

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    [Aeternus:13677] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-25)


    - RE:RE:de julia para davy

    e não fazia ideia que winicot lia snoopy.

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    [Aeternus:13680] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-27)


    - RE:RE:RE:de julia para davy

    Então estou ainda mais admirado. Você percebeu que havia algo nessa HQ que 'cheirava' a Winnicott, e por isso mandou para mim???!!!
    Legal. Realmente muito legal.
    Beijos.
    Davy.




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    [Aeternus:13682] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-06-29)


    - obsessive

    o desenho é divertido mas é muito triste. não deve ser fácil lidar com uma coisa dessas. achei o final é assustador.

    bjs, julia

    http://www.youtube.com/watch?v=qvOJTxnmYVI


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    [Aeternus:13707] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-07-16)


    - Davy envia protestos em NY contra Mesquita no Ground Zero


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    [Aeternus:13823] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-08-16)


    - é preciso reagir e, principalmente, agir

    enviado pelo Gallego:

    De: gustavo guimaraes
    Data: 15 de agosto de 2010 14:46
    Assunto: ESTUDANTE AGREDIDO (CHICO RONDON) NA SAÍDA DA FESTA DE ECONOMIA DA UFRJ - Leiam e divulguem!‏

    Pessoal,
    um fato lastimável ocorreu na madrugada deste sábado com um grande amigo meu. Na minha indignação, acabei escrevendo algo que pode valer alguma coisa. Gostaria que vocês lessem e divulgassem pro máximo de pessoas possível. Um abraço a todos,
    Gustavo.

    ATÉ QUANDO???

                Certa vez, um professor que eu admirava justamente pelas qualidades intelectuais, me disse, contrariando um grande filósofo, que o ser humano não existe porque pensa, mas porque outros seres humanos constantemente o lembravam disso, diziam-lhe que existia.

    Em outras palavras, o ser humano, na lógica do meu professor, apenas poderia ser chamado como tal porque se relacionava com outros, e desta maneira um homem sozinho no mundo nao poderia ser chamado de homem.  "Ninguém é uma ilha", diria ele.

    Este pensamento me veio a mente ao ouvir a história contada pelo meu amigo Francisco Rondon, há pouco mais de duas horas. Chico, como é chamado pelos amigos, relatou-me que na madrugada de sexta para sábado, no último dia 13 de agosto, foi espancado por três jovens na saída da festa organizada por ocasião da formatura dos alunos do Instituto de Economia da UFRJ, no clube Marapendi, na Barra.
    Seu estado não o deixava mentir. Escoriações, ferimentos e marcas se espalhavam pelo seu corpo. Estupefato, ouvi Chico contar-me que estes três jovens nao tinham motivo algum para espancar-lhe, e que o fizeram deliberadamente e sem escrúpulos.
    Na tentativa de fugir, ele machucou-se ainda mais ao pular a grade de um condominio vizinho ao clube. Quase inconsciente, conseguiu arrastar-se até a portaria do predio, quase sem roupas e em um estado lastimável. Um carro de polícia o socorreu e o levou até sua casa. 

    Eu quase não acreditava no que ouvia, ja que Chico é uma das pessoas mais pacíficas  que conheco, e jamais pensei que isto pudesse acontecer logo com ele. Logo, a minhas estupefação e preocupacao misturou-se com uma indignação melancólica, quase que uma tristeza. E esta indignação é o que move este breve texto. Como um lampejo, a máxima do meu professor reavivou-se na minha memória, na tentativa de responder a algumas perguntas que giravam na minha mente. O que leva jovens de classe média alta, com oportunidades, acesso a informação, a praticar um ato hediondo como este? Qual é a motivação destes jovens?
    Em outras palavras, porque este tipo de comportamente existe? Entao, revi a máxima do meu professor e concluí a seu favor: somos seres humanos apenas na medida em que nos sensibilizamos com o próximo, que respeitamos a vida e a dignidade humana acima de tudo. Não somos seres humanos porque construímos prédios ou elaboramos leis, mas fundamentalmente porque nos relacionamos, aprendemos, choramos, sentimos, rimos. Se nos é privado esse direito, o direito à vida, então o que nos resta?

    O episódio da madrugada passada envolvendo Francisco Rondon poderia ter terminado pior, caso ele não tivesse pulado o muro do condomínio. E o fato ocorrido, infelizmente, não é um acontecimento disperso, mas conecta-se a diversos outros que também poderiam ilustrar que mais que um desvio de conduta, esse tipo de comportamento é efetivamente uma prática cultural amplamente difundida dentre alguns grupos de classe média alta da juventude carioca.
    A cultura da violência parece disseminada em alguns deste grupos, vide os inumeros casos de agressão e brigas em boates e festas. Grupos de jovens se reúnem e marcam hora para brigas pela internet, outros queimam indios na rua ou assassinam prostitutas.
    Recentemente, ouve o caso do atropelamento do estudante Rafael Mascarenhas, por jovens que praticavam pega em um túnel fechado.
    Parece que mais que uma exceção, este tipo de comportamento vem cada vez mais revelando uma tendência crescente nociva à sociedade, que deve ser imediatamente coibida.
                O mais assustador, para mim, como jovem nascido e criado na Zona Sul, é atestar que este tipo de comportamento está tão perto de nós espacialmente que muitos preferem fingir que não o vêem, em vez de tratá-lo como um problema, uma patologia social. Provavelmente, alguém que ler este texto conhece os três espancadores de Chico Rondon, e até convive com eles. Nossa tentativa será ir atrás dos meios legais  para identificar os três espancadores e fazer-lhes responder sobre seus atos. Esperamos que eles sejam identificados o mais brevemente possível, e não cessaremos nossas forças enquanto isto não acontecer. Mais do que isto, esperamos que esta cultura da violência seja banida das práticas de uma juventude que parece não conhecer mínimas regras de convívio social e respeito pela vida humana em sua forma mais simples.

    Gustavo Guimarães



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    [Aeternus:13834] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-08-18)


    - RE: só pode ser piada ...

    http://charges.uol.com.br/2010/08/18/e-o-palhaco-quem-e/

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    [Aeternus:13835] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-08-18)


    - Agora sim, só pode ser piada mesmo!!!

    Recebi isto, e apresso-me a repassar para vocês. Enjoy. Davy. Suicide Bombers to go on strike Muslim suicide bombers in Britain are set to begin a three-day strike on Monday in a dispute over the number of virgins they are entitled to in the afterlife. Emergency talks with Al Qaeda have so far failed to produce an agreement. The unrest began last Tuesday when Al Qaeda announced that the number of virgins a suicide bomber would receive after his death will be cut this February, from 72 to only 60. The rationale for the cut was the increase in recent years of the number of suicide bombings and a subsequent shortage of virgins in the afterlife. The suicide bomber's union, the British Organization of Occupational Martyrs (BOOM) responded with a statement that this was unacceptable to its members and immediately balloted for strike action. General Secretary Abdullah Amir told the press, "Our members are literally working themselves to death in the cause of Jihad. We don't ask for much in return, and to be treated like this is like a kick in the teeth." Thanks to Western depravity there is now a chronic shortage of virgins in the afterlife. It's a straight choice between reducing expenditure and laying people off. I don't like cutting wages but I'd hate to have to tell 3,000 of my staff that they won't be able to blow themselves up." Spokespersons for the Union in the north east of England, Ireland, Wales, and the entire Australian continent stated that the strike would not affect their operations, as "there are no virgins in their areas anyway." Apparently the drop in the number of suicide bombings has been put down to the emergence of Scottish singing star Susan Boyle - now that Muslims know what an actual virgin looks like they are not so keen on going to paradise.

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    [Aeternus:13857] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-08-24)


    - cat

    Recebi isso e fiquei emocionada. É quase inacreditável.
     
    Me diz: quem são os "humanos", nós ou eles??? bjs, julia

    http://www.youtube.com/watch?v=vAkm_J-kRmY


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    [Aeternus:14014] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-09-02)


    - Em(sim)patia é quase amor !

    Complicada a equação "humano", "desumano", inumano". Tendo a concordar com o Gallego, no sentido do "humanamente monstruoso". A assertiva do "animal não-humano" me produz uma falsa e incômoda sensação de conforto, que não dura até a próxima esquina...

    Ao mesmo tempo, a indignação do Davy e da Thais são, digamos......reconfortantes... dá pra entender?

    A questão do otimismo da Jansy é que ele é "(des)(re)confortantemente convincente".

    - "Baita pessoa", precisamos marcar um cinema. Nada de novo no front cinematográfico?

    Guto


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    [Aeternus:14017] Mensagem do Grupo62
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-09-02)


    - RE:Em(sim)patia é quase amor !

    Guto, a gente sabe tão pouca coisa sobre o humano... Freud postulou a "pulsão" para distingui-la dos instintos animais. O homem, por causa da linguagem, seria regido por outro tipo de "comandos/inibições" com alguma liberdade para operar com "escolha" em vez de apenas obedecer a um programa automático.  E a pulsão era "a fronteira entre o mental e o físico" ou "a representação mental dos instintos."

    Não sou tão otimista como vocês vem pintando. É que distingo, um pouco como os religiosos católicos que falam sobre "virtude" (não é nascer bom, mas ter "vir", força, para lutar contra o mal) o que algumas pessoas conseguem de superação quando, de repente, se tornam capazes de enxergar as outras pessoas, romper o narcisismo com seus milhares de espelhos projetados no rosto dos outros e dando a ilusão de os estar vendo em vez da própria projeção. Empatia, amor traz integração, arrependimento, sofrimento, reparação. E, perdão. Na clínica, em psicanálise, as pessoas tem como sair da prisão narcísica e descobrir como ver e amar o próximo.  Você não faz idéia de como isto produz transformações.  O problema é que o discurso religioso se apoderou dos slogans como "só o amor salva", por exemplo, e esvaziou a pujança da experiencia inicial. E as nuances variam. Há pessoas incapazes de amor ( invejosas, por exemplo) e, portanto, adquirem migalhas de coisas amoráveis e param nisso - só que, felizmente, a maioria deslas não é "perversa." embora possam ser maldosas, agressivas, destrutivas.

    Muito pouco tempo pra tratar de temas tão graves.... desculpe, estou chutando. E podemos ir ao cinema, sim!

    Gallego, adorei suas ponderações. Espero retomar mais tarde.


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    [Aeternus:14019] Mensagem do Grupo62
    -Thais Karam(2010-09-02)


    - RE:Em(sim)patia é quase amor !

    Guto, só para esclarecer: o "baita pessoa" é um tremendo elogio que os gaúchos costumam fazer aqueles que gostam, simpatizam, admiram. Equivale a "você é o cara", muito empregado por aqui.

    Fiz questão de usar um termo gaúcho, que ainda diz tanto para mim.

    Sobre a "equação humano/desumano/inumano", acho que nunca chegaremos a um denominador comum, o que não tem nenhuma importância na prática.

    Meu entendimento sobre este site, era justamente o de oferecer um espaço aberto, permissivo e tolerante para abordagem de qualquer tema, independentemente da divergência de opiniões.

    Afinal, seria no mínimo enfadonho que todos pensassem e se expressassem da mesma maneira.

    Se as pessoas se incomodam com a maneira como os outros se expressam, e as julgam, sem conhecê-las, passo a não compreender mais a utilidade de estar aqui. Para não correrem o risco de atrair outras pessoas que possam discordar, disto ou daquilo, melhor seria fazer uma entrevista minunciosa com o candidato antes de aceitar sua participação. Como acontece nos cursos de pós-graduação na Psicologia. Passamos por três entrevistas, para que nosso perfil seja avaliado e aceito [ ou não].

    Um abraço,

    Thaïs


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    [Aeternus:14025] Mensagem do Grupo62
    -Visitante(2010-09-02)


    - RE:RE:Em(sim)patia é quase amor !

    Thais,

    Entendi o "baita", lógico, tanto que o reproduzi. Tem muitos gaúchos aqui em Brasília, e me lembro de um colega inteligentíssimo, que reencontrei no TST quando lá trabalhei, que, ao discorrer, ainda menino, numa aula de religião, sobre o significado da palavra "Cristão", disse, retoricamente, que devíamos considerar o sentido como sendo um "baita Cristo".

    Aqui a discordância é natural, assim como a concordância, num nível elevado. Ou o silêncio, pelo período que entendermos, como me mantive por uns meses, mais por falta de tempo. Sem compromissos nem com uma nem com outra postura - concordar ou discordar. Não tem entrevista admissional ou qualquer outra frescura, e o site é, sim, um espaço aberto, permissivo (no bom sentido) e democrático, não sei o que possa ter dado outra impressão, sinceramente.

    Já vi discussões em que imaginei: "putz, se esses (as) dois se encontrarem na rua, hoje, é PORRADA na certa." . E logo depois, o tom baixa e o foco muda, sem melindres, outras msg são superpostas etc etc.

    Já levamos bronca (os meninos) da mediadora por conteúdo obsceno fora de qualquer contexto razoável, já tive msg excluída (com razão) porque falava justamente de pedofilia/sedução/prostituição para a admissão de jovens atores numa emissora nacional (o famoso teste do sofá), citando nomes sem prova, o que poderia trazer problemas para o site. Não tem muxoxo nem calundú.

    Mas tenho aprendido muito nos últimos anos, muito mais lendo do que escrevendo, eu que não sou psicólogo e nem cinéfilo, talvez os dois maiores focos do fórum. Apenas um curioso.

    É isso aí. Embarcada?

    Guto


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    [Aeternus:14030] Mensagem do Grupo62
    -Thais Karam(2010-09-02)


    - RE:RE:RE:Em(sim)patia é quase amor !

    Oi Guto. Obrigada pela resposta.

    Não foi novidade para mim esta pequena encrenca, já tinha sido avisada sobre uns "quebra-paus" muito sérios, o que agora vens confirmar. Ainda assim, fiquei surpresa, pois venho tentando fugir de tudo o que provoca tensão e desconforto. Não me faz bem, ainda mais quando o fator de discórdia  é perfeitamente contornável. Jansy não gostou de eu ter falado nos pendurucalhos dos estupradores e de ter desejado a eles que pagassem pela gravidade dos seus crimes.Nunca me passou pela cabeça que ela estava tomando as dores dos mesmos. Passei por rancorosa, e quem me conhece sabe que, entre meus inúmeros defeitos, casualmente este não existe.

    Mas s' imbora, prá frente que atrás vem gente. Tudo isto faz parte de um processo de amadurecimento e eu não vou bancar a garota ressentida. Relações entre mulheres, às vezes são difíceis mesmo. Jansy era a única mulher do grupo, pelo menos a única que participa assiduamente. De repente, caio aqui de paraquedas. Sem ser psicanalista, ( psicóloga, afastada de consultório particular há 6 anos quando deixei o sul, e satisfeita com a vida descompromissada que levo, sem hora para levantar, para dormir, sem obrigação alguma exceto a  de passear com os meus dois Yorkshires, o Édipo e a Melanie).  E, o mais importante de tudo: sem me sentir culpada por isso. Aqui no Rio entrei para um pós em Terapia Comportamental-Cognitiva, mas me senti alí como um peixe fora d'água, não tinha nada a ver comigo.O tempo foi passando e eu me acostumando a este "dolce fare niente", embora ainda deseje voltar a atuar profissionalmente, mesmo que para atendimento em alguma instituição para pessoas carentes, sem pretensões financeiras, as quais posso dispensar sem problemas.

    Não tenho dúvidas que aqui pode-se aprender muito, inclusive, a tolerar frustrações. Talvez num primeiro momento venha a me sentir como "gato escaldado", mas se bem me conheço, passa. Sou muito deslavada para perpetuar broncas ad perpetuuuuuuuuuuuuum.

    Esqueci de te dizer que além de psicóloga desempregada, sou jogadora de bridge, um esporte que obriga a manter meu lado lógico em perfeito funcionamento. Ai em Brasília joga-se bastante bridge. Não conheces ninguém?

    Valeu, Guto. Um abração!

    Thaïs

                                        


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