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Divulgação
Lançado o Livro das Fadas
O primeiro livro Virtual Aeternus

  

Filmes 2009


Examine os títulos para ir direto para uma mensagem abaixo:
  • General Ego:
    Appaloosa, western interessante de se ver

  • Visitante:
    Benjamin Button e duas críticas

  • Visitante:
    a missing link

  • Visitante:
    RE:Benjamin Button e duas críticas

  • Visitante:
    Fitzgerald - Cruz e Sousa

  • Visitante:
    moedas celtas

  • Visitante:
    pelo Gallego

  • Visitante:
    RE:pelo Gallego, agora com respostinha

  • Visitante:
    RE:RE:pelo Gallego, agora com respostinha

  • Visitante:
    contando farol?

  • Visitante:
    RE:contando farol?

  • Visitante:
    RE:RE:contando farol?

  • Visitante:
    Nem Framboesa, nem premio da Moranga...

  • Visitante:
    Foi Apenas um Sonho

  • General Ego:
    RE:Foi Apenas um Sonho

  • Visitante:
    RE:RE:Foi Apenas um Sonho

  • Visitante:
    Gallego critica O Leitor

  • Marcos Florião:
    RE:RE:Foi Apenas um Sonho

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Foi Apenas um Sonho, coments by Jansy

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Foi Apenas um Sonho

  • Marcos Florião:
    RE:Foi Apenas um Sonho / a Entidade

  • Visitante:
    era apenas um sonho... jansy escreve

  • Visitante:
    RE:era apenas um sonho... jansy escreve

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    "Doubt"

  • Visitante:
    RE:Dúvida

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Dúvida

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Doubt, resposta do Gallego

  • Marcos Florião:
    RE: Love Liza e Magnolias

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Doubt, resposta do Gallego

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Dúvida

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Dúvida

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    já nem lembro direito...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:já nem lembro direito...via Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:já nem lembro direito...via jansy mesmo

  • Visitante:
    RE:RE:RE:musas antigas e contruções

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:musas antigas e contruções

  • Visitante:
    O Casamento de Rachel

  • Visitante:
    O Casamento de novo agora legível

  • Marcos Florião:
    RE:O Casamento de novo agora legível

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    do gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    do gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    comentários do Gallego II

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    tudo meio que mais ou menos fora do lugar

  • Marcos Florião:
    RE:tudo meio que mais ou menos fora do lugar

  • Visitante:
    RE:RE:tudo meio que mais ou menos fora do lugar

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:tudo meio que mais ou menos fora do lugar

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    não foi um susto mas podia ter sido... até mais

  • Visitante:
    filmezinho safadinho

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    o conto de fadas do Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:filmezinho safadinho

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    aderindo ao Gallego no clima momesco

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Oscares e mascares

  • Visitante:
    RE:Oscares e mascares

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Oscares e mascares

  • Omar:
    RE:RE:RE:Oscares e mascares

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Oscares e mascares

  • Visitante:
    RE:Oscares e mascares

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Oscares e mascares

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Oscares e mascares

  • Omar:
    RE:RE:RE:RE:RE:Oscares e mascares --> Os quartos (do pânico?)

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Oscares e mascares

  • Visitante:
    O Leitor e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    postando pelo Gallego

  • Visitante:
    RE:postando pelo Gallego ---> Mickey Rourke não precisa do nosso colo

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

  • Visitante:
    RE:Gallego critica O Leitor

  • Visitante:
    RE:RE:Gallego critica O Leitor

  • Visitante:
    Gershwin, Jenny e a lista do Nabokov

  • Visitante:
    Maria Rita K. e O Leitor

  • Visitante:
    RE:Gershwin, Jenny e a lista do Nabokov

  • Visitante:
    RE:Maria Rita K. e O Leitor

  • Visitante:
    RE:RE:Maria Rita K. e O Leitor

  • Visitante:
    Gallego em conversa com Jansy sobre Kehl

  • Visitante:
    RE:Gallego em conversa com Jansy sobre Kehl

  • Omar:
    RE: Kehl e 'O Leitor'

  • Visitante:
    RE:RE: Kehl e 'O Leitor'

  • Marcos Florião:
    RE:Gallego critica O Leitor

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Gallego critica O Leitor

  • Visitante:
    RE:RE:Gallego critica O Leitor

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:Gallego critica O Leitor

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Gallego critica O Leitor

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Lewis Carroll

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:Gallego critica O Leitor

  • Visitante:
    contribuição fora da lista (sobre O Leitor)

  • Marcos Florião:
    a ética dos desgraçados

  • Omar:
    RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

  • Visitante:
    RE:a ética dos desgraçados

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

  • Marcos Florião:
    RE:RE:a ética dos desgraçados

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Lewis Carroll

  • Omar:
    Los Abrazos Rotos

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    uma cronica e cinema e esquecimento

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    para bem inserir é preciso desformatar...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    anamnese psiquiátrica e cinema

  • Visitante:
    RE:anamnese psiquiátrica e cinema

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:anamnese psiquiátrica e cinema

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gracindo por dois críticos do site dos especialistas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gallego on Ang Lee

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Gallego on Ang Lee

  • Visitante:
    RE:RE:Gallego on Ang Lee

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Gallego on Ang Lee

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE: amor

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:errata on Audrey

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE: amor

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE: amor

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: amor e dentes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: amor e dentes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

  • Jansy Berndt de Souza Mello:

  • Omar:
    RE:Gallego on Ang Lee: Cinema:Tang Wei & Tony Leung

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Gallego on Ang Lee: Cinema:Tang Wei & Tony Leung

  • Omar:
    RE:RE:RE:Gallego on Ang Lee: Cinema:Tang Wei & Tony Leung

  • Omar:
    Lars Von Trier: nao vi e nao gostei

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Lars Von Trier: nao vi e nao gostei

  • Jansy Berndt de Souza Mello:

  • Visitante:
    Os Falsários

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Os Falsários

  • Visitante:
    RE:RE:Os Falsários

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Os Falsários

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gallego promove colega crítica, conferir

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Terminators & Bourne

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Clive Owen e Julia Roberts ride again

  • Visitante:

  • Visitante:
    enviado pelo Gallego: Cinema e Psicanalise

  • Visitante:
    RE:recados para o Gallego: Cinema e Psicanalise

  • Visitante:
    RE:RE:resposta do Gallego: curso Cinema e Psicanalise

  • Visitante:
    Jansy escreve...

  • Visitante:
    RE:Jansy escreve...

  • Visitante:
    RE:RE:Jansy escreve...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Jansy escreve...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Marcos Florião:
    RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Marcos Florião:
    RE: em nome do bom francês...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

  • Marcos Florião:
    Paris

  • Visitante:
    RE:Paris

  • Visitante:
    RE:RE:Paris e o psicanalista normal de Kaplisch

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    devia estar nesta lista, daí que coloco aqui pra corrigir a falha...

  • Visitante:
    RE:amantes/two lovers

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:amantes/two lovers

  • Visitante:
    RE:RE:RE:amantes/two lovers

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Atarantino

  • Visitante:
    RE:Atarantino

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Atarantino

  • Visitante:
    RE:RE:Atarantino

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:Atarantino

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:Atarantino

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    pelo LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Jorio Dauster e um "otimismo não ingenuo"

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:pelo LFGS

  • Visitante:
    RE:RE:pelo LFGS

  • Visitante:
    RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    cinema gratia cinemis

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

  • Visitante:
    RE:Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

  • Visitante:
    RE:RE:Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE: Te Amarei para Sempre

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    LFG copidescado e muito mais...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    bastardos na internet, via salvador

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    CHE via LFGS

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Os Desinformantes

  • Visitante:
    RE:Os Desinformantes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:Os Desinformantes

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gallego envia opiniões sobre filmes no festival em Brasilia

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Segredos e Negações, enviado pelo Gallego

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Segredos e Negações, enviado pelo Gallego

  • Marcos Florião:
    Scenes of a Sexual Nature

  • Visitante:
    avatar - critica pertinente

  • Visitante:
    RE:avatar - critica pertinente

  • Visitante:
    RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Visitante:
    RE:avatar - critica pertinente

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    recortando ...

  • Visitante:
    Jansy on The Good Shepherd, O Bom Pastor

  • Omar:
    RE:avatar - critica pertinente

  • Marcos Florião:
    RE:RE:avatar - critica pertinente / The Other Man

  • Visitante:
    imperfeições perfeitas

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    Gallego não tarda e não falha...

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:Gallego não tarda e não falha...

  • Visitante:
    RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Visitante:
    RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Visitante:
    RE:RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Jansy Berndt de Souza Mello:
    RE:RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Marcos Florião:
    RE:RE:RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

  • Visitante:
    RE:RE:RE:avatar - critica pertinente --> Polígono ma non troppo

  • Visitante:
    Os melhores do ano, com observações em outra remessa

  • Visitante:
    RE:Os melhores do ano, com observações em outra remessa

  • Visitante:
    "Up in the Air": o homem que vivia nas nuvens

  • Visitante:
    não consegui usar o lugar para "resposta"...

  • Visitante:
    Jansy em 2010, noticia inteligente de filme

    [Aeternus:10915] Mensagem do Grupo73
    -General Ego(2009-01-22)


    - Appaloosa, western interessante de se ver

    Alguns estudiosos dos westerns no cinema surpreendem os fãs quando dizem que algum esgotamento do gênero já existia no início dos anos 1950, década em que surgiram (para lembrar apenas alguns títulos clássicos) Matar ou Morrer de Fred Zinnemann (High Noon, ’52), Os Brutos também amam de George Stevens (Shane, ’53), além de um dos grandes filmes de todos os tempos em qualquer gênero, Rastros de Ódio, do – ainda e sempre - maior de todos os cineastas que se dedicaram ao formato, John Ford (The Searchers, ’56).

     

    Para aqueles puristas, independentemente de suas qualidades, os dois primeiros filmes citados já seriam obras que modificavam o western “puro” (quem define o que seria exatamente isto?) trazendo a pretensão de usar o modelo com novos significados (a questão política do McCarthysmo em Matar ou Morrer) ou mesmo estabelecer uma reflexão arquetípica e elegíaca (no caso de Shane, que seria então uma espécie de “pré-pós-moderno” referencial. O caso de Rastros de Ódio, entretanto, apontava para uma possibilidade de renovação dos clichês do feitio, abrindo espaço para revisão de mitos maniqueístas que filmes-tipo mais antigos do próprio John Ford ajudaram a cristalizar. Na década seguinte, o velho diretor tido como bem reacionário trocaria definitivamente o papel de vilões, antes atribuído aos indígenas, agora visto como vítimas (Cheyenne Atumn ou Crepúsculo de uma Raça, de ’64) realizado após a denúncia de mitologização pelo western, revisto como um formato muito distante das verdades históricas da conquista do oeste (O Homem que matou o Facínora’62).

     

    Tentativas de atualização na década de 1960 passaram pela exacerbação da violência (o “western-spaghetti” de Sergio Leone e Meu Ódio será tua Herança, de Sam Peckinpah), do humor (Butch Cassidy) e do revisionismo mais amplo que trocava definitivamente a mitologia antiquada por propostas de aparência menos fantasiosa (Pequeno Grande Homem de Arthur Penn e McCabe e Mrs. Miller de Robert Altman). Mas só vinte anos depois, através de Dança com Lobos de Kevin Costner e de Os Imperdoáveis de Clint Eastwood, foi que o cenário do Oeste americano voltou a merecer nova atenção entusiasmada do público e em premiações. Desde então, esforços isolados tentam revitalizar o gênero, incorrendo em resultados que podem ser interessantes, ainda que com narrativa distante dos mais diversos padrões de western (O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford), refilmagens menos atraentes (como a do cinqüentão 3:10 to Yuma aqui intitulado Os indomáveis, com Russel Crowe e Christian Bale) ou esforços de atualização frustrados (À procura da vingança - Seraphim Falls - com  Liam Neeson e Pierce Brosnam).

     

    É neste panorama incerto que o segundo filme dirigido pelo excelente ator que é Ed Harris bate nas telas como uma agradável surpresa. Primeiramente porque, exceto pela qualidade da realização, em nada lembra o filme anterior de Harris feito há 8 ou 9 anos, Pollock; além disso, o roteiro, do qual o diretor participa como co-autor, consegue reviver muito do clima tradicional do gênero e, tal como a linguagem fílmica adotada, vai fluindo muito bem, sem invencionices de reformular nada nem reinventar a roda, o que devolve a antigos espectadores o puro prazer de acompanhar um “filme de bang-bang” com uma história que se desenvolve em reviravoltas algo inesperadas.

     

    Visualmente encontramos bons e bonitos enquadramentos funcionais em espaços abertos; e diálogos corretos em cenas de interiores. Podem-se questionar alguns pontos menos satisfatórios na caracterização do personagem central vivido por Harris, mas o ator, raramente lembrado em premiações, ajuda a suplantar algumas passagens com as dispensáveis dificuldades verbais do xerife que interpreta. O co-astro Viggo Mortensen como seu colega e amigo foi mais bem aquinhoado com um tipo caladão que é ao mesmo tempo um narrador não interferente demais, testemunha e co-protagonista.

     

    De quebra, Jeremy Irons brilha como um vilão sem caricatura e Renée Zellweger surge menos chatinha do que de hábito, e consegue levar adiante algumas características um pouco menos convincentes da personagem. Mas o filme não quer mesmo “psicologizar” nem “explicar” tais possíveis personalidades no velho oeste. No máximo, importa o pano de fundo dos episódios que recorre a um cenário onde a Lei ainda é frágil, desrespeitada ou – pior ainda –muda ao sabor de interesses, sofrendo apropriação pelo poder que se deixa corromper ou cooptar por “resultados” antes de respeitar princípios. Mas isso de “princípios” não é tão enfatizado como qualidade daqueles tempos e nem se transforma em discurso moralista no filme: a rigor nenhum personagem é modelar.

     

    Ainda vale a pena prestar atenção na prostituta que pouco aparece mas é bem defendida por Ariadna Gil, assim como em aspectos da música incidental de Jeff Beal: o tema de chegada da personagem de Renée Zellweger é criativo e pouco habitual no gênero (um conjunto de cordas); embora em outros momentos Harris poderia dispensar trechos musicais “climáticos”. O ator-diretor recorreu ao este mesmo compositor de seu Pollock, mas espertamente recorreu ao fotógrafo de Dança com Lobos, o premiado Dean Semler. Edição com bom ritmo, o filme pode agradar mesmo aos que não se entusiasmam com o gênero ou ficaram insatisfeitos com outros exemplares recentes.

     

     <b># APPALOOSA - UMA CIDADE SEM LEI</b> (APPALOOSA)

    <b>EUA, 2008</b>

    <b>Direção: ED HARRIS</b>

    <b>Roteiro:</b> ED HARRIS e ROBERT KNOTT

    <b>Fotografia:</b> DEAN SEMLER

    <b>Edição:</b> KATHRYN HIMOFF

    <b>Direção de Arte:</b> STEVE ARNOLD

    <b>Figurino</b>: DAVID C. ROBINSON

    <b>Música:</b> JEFF BEAL

    <b>Elenco:</b> ED HARRIS, VIGGO MORTENSEN, JEREMY IRONS, RENÉE ZELLWEGER, TIMOTHY SPALL, ARIADNA GIL.

    <b>Duração:</b> 114 minutos

    <b>Site oficial:</b> http://welcometoappaloosa.warnerbros.com


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    [Aeternus:10932] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - Benjamin Button e duas críticas

    A primeira, de Luiz Fernando Gallego:CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON, O - de DAVID FINCHER
    Com BRAD PITT, CATE BLANCHETT, TILDA SWINTON, JULIA ORMOND.


    DESCENDO POR ONDE SE SOBE - OU SUBINDO POR ONDE SE DESCE

    O aspecto do filme mais interessante para os tempos atuais em que “não se pode envelhecer” é a idéia da transitoriedade da juventude, seja em qualquer época em que sua aparência se manifeste

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    16/1/2009

    O conto original de F. Scott Fitzgerald, O Curioso Caso de Benjamin Button, é pouco mais do que anedótico, partindo da premissa nonsense de um personagem que nasce idoso e, na medida em que o tempo passa, vai ficando cada vez mais jovem. O escritor não se preocupa em dar qualquer explicação para o fato de Benjamin Button nascer do tamanho de um adulto, ainda que provavelmente encarquilhado; aliás, salvo engano, sua mãe nem é mencionada no conto.

    A narrativa é episódica, com dissimulado humor em entrelinhas de pessimismo. Quase que se limita aos desencontros de uma vida que segue “ao contrário” das demais: quando tem poucos anos de vida não se interessa por atividades de jardim-de-infância e encontra companhia satisfatória em seu avô; bem mais tarde, envergonha seu filho por estar com a aparência muito mais jovem e interesses infantis, chegando a brincar com os soldadinhos de chumbo de seu neto. Fitzgerald não acentua o absurdo da situação: deixa que o absurdo evolua por si mesmo; nem faz qualquer alusão a reflexões filosóficas, metafísicas ou sociológicas. Neste sentido, o conto chega a ser desconcertante, deixando nos leitores a dúvida se uma idéia insólita foi desenvolvida aquém de suas possibilidades, ou se Fitzgerald pretendeu "apenas" demonstrar que o sonho do rejuvenescimento, mesmo que se realizasse, não passaria de mais uma passagem transitória com o mesmo desenlace dos que envelheceram: mais cedo ou mais tarde, todos morreremos: "... tudo havia se dissipado em seu espírito como um sonho inconsistente, como se nunca houvesse acontecido. Não se lembrava. Não se lembrava sequer, claramente, se o leite era quente ou frio em sua refeição anterior (...) Depois, já não conseguia recordar coisa alguma. Quando sentia fome, chorava - nada mais. Apenas respirava através dos dias e das noites e, sobre ele, havia suaves murmúrios e ruídos que mal ouvia, e odores levemente diferentes, e luz e treva. Depois, tudo se tornou escuro, e o berço branco, e os vagos rostos que se moviam em torno, e o cálido e doce aroma do leite, se disiparam de todo de sua mente." (da tradução de Brenno Silveira)

    O roteiro do filme praticamente usa o conto original apenas como argumento - ou pretexto -, seguindo caminhos muito diversos. Benjamin nasce um bebê com o mesmo tamaninho dos recém-nascidos, mas com sinais de envelhecimento precoce que talvez indicassem sua morte a curtíssimo prazo – o que não acontecerá. Mas, ao contrário da premissa literária, o bebê enrugado não pensa nem fala desde que nasce como acontece com o velho do conto - ou seja, seu “amadurecimento” intelectivo segue o curso habitual das faixas de idade no sentido de ir ganhando gradualmente consciência de si mesmo e do mundo à sua volta. Com isto, o que aguarda o menino em que Benjamin irá se transformar com o passar das décadas é uma perda de memória e de identidade pessoal, o que será diagnosticado como uma espécie de “demência” (no sentido de senilidade), embora ele esteja se transformando fisicamente em bebê. Portanto, no filme ele nasce bebê (envelhecido) e cresce como jovem até ficar novamente um bebê - agora e finalmente como os outros.

    Mais de oitenta anos depois que o conto foi publicado, o aspecto mais interessante para os tempos atuais em que “não se pode envelhecer” é a idéia, reiterada pelos diálogos, de que a juventude aparente na idade madura e na velhice cronológica não será jamais uma “perfeição que dure”. Pois a vida sempre se extingue, sejamos velhos ou jovens - de fato ou apenas na aparência. Para dar este recado o roteiro é prolixo e resulta em um filme mais longo do que o necessário. Há algumas boas idéias, como a de fazer Benjamin ser adotado por uma mulher que trabalha em um lar de idosos onde a morte se faz presente com freqüência e onde ele convive com velhos – tal como é seu rosto, pele, corpo (exceto pelo tamanho de um menininho, depois um garoto, mais adiante um rapazola...) Mas há detalhes “poéticos” totalmente dispensáveis como as cenas do beija-flor em alto mar e na “atualidade”, quando chega o furacão Katrina em New Orleans (uma alusão às adversidades absolutamente naturais que podem nos matar quando menos esperamos?)

    O encontro com uma mulher que ele conheceu quando ela era uma menina (com aparência de menina numa época em que ele parecia – ou era mesmo - um velho decrépito com pouca idade) só se dará na meia-idade de ambos. Afinal, seria preciso um cruzamento entre o futuro cronológico de um e o passado biológico de outro. A idéia já existia no conto, mas a fidelidade do homem (cada vez mais jovem) para com a mulher (cada vez menos) segue por outra vereda no filme. Para atender a estas evoluções/involuções, a produção providencia um show de maquiagem para os atores principais: Cate Blanchett comparece com a classe habitual embora desta vez chame menos a atenção do que de hábito; e Brad Pitt consegue um bom desempenho, ajudado pela discrição com que vive o personagem - um bom truque para atores sem recursos excepcionais.

    Uma espécie de prólogo em ritmo de fábula moral mostra um relojoeiro que constrói um relógio que “anda para trás” como se isto pudesse fazer retroceder o tempo e devolver à vida seu filho morto na guerra. Como se vê, tudo é muito explicado, tautologicamente, ao som de trilha musical “climática” de Alexandre Desplat (De Tanto Bater, Meu Coração Parou, O Despertar de uma Paixão) com imagens captadas por uma fotografia contrastante e preciosista. Enquanto o filme transcorre em seu ritmo pausado (o que hoje em dia pode até ser uma qualidade), a platéia tende a se deixar envolver, mas quando termina, deixa em aberto o quanto de “envolvimento” foi necessário para enfatizar que a juventude, seja em ordem cronológica, seja detráspráfrente, vai passar...

    # O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (THE CURIOUS CASE OF BENJAMIN BUTTON)
    EUA, 2008
    Direção: DAVID FINCHER
    Roteiro: ERIC ROTH, ROBIN SWICORD
    Produção: CEÁN CHAFFIN, KATHLEEN KENNEDY, FRANK MARSHALL
    Música: ALEXANDRE DESPLAT
    Fotografia: CLAUDIO MIRANDA
    Elenco: BRAD PITT, CATE BLANCHETT, TILDA SWINTON, JULIA ORMOND
    Duração: 165 minutos  

    A segunda:


    O FIM E O COMEÇO

    Por NELSON HOINEFF
    17/1/2009

    Creio que não há muita diferença em parar para ver que novas maldades Flora será capaz de fazer, ou acompanhar os bailes que se seguem à posse de um novo presidente americano. Num caso e noutro, o espectador aceita um pacto vertical com o show que lhe está sendo oferecido. Apresenta-se como um fantoche que se resigna a ser manipulado pelo espetáculo. Não há nada de mal nisso, exceto pelo fato de que ele abra mão da sua capacidade de pensar. Aceitar o papel de massa de manobra não é delituoso. É uma decisão defensável, por certo bastante confortável, mas que de alguma forma me soa desonrosa. Se não fosse por outra razão, porque há algo no mundo além do espetáculo da dominação das emoções.

    Esse espectador está para o manipulador de suas emoções assim como o viciado em crack está para o traficante. Penso que não há nada de errado em se drogar; mas vidas inteiras podem ser destruídas pela forma como o comercio das drogas age sobre os consumidores. Conheço muitos drogados, e no entanto não convidaria um traficante para jantar na minha casa. É uma diferença sutil, mas é a diferença.

    O Estranho Caso de Benjamin Button é um filme que trafica emoções – e o faz com o mesmo descaramento de uma novela das oito ou de um baile encenado para o mundo chorar. Mais do que simplesmente um filme ruim, portanto, é uma obra danosa para o crescimento de um ser humano. Se fosse uma pessoa, não deixaria senta-la à minha mesa.

    O intrigante é que Benjamin Burton faz tudo de forma primária, às claras – e ainda assim consegue uma grande legitimação crítica. Ganha indicações ao Oscar e muitos outros prêmios. Prêmios são reconhecimento. Em vários casos, como no Oscar, montados pela indústria, mas fundamentados na premissa do reconhecimento. Exatamente a que se está reconhecendo?

    É um caso diferente de, por exemplo, Se eu fosse Você-2. Faz muito sucesso, mas todo mundo sabe que é ruim. É feito para ser ruim e não se comportar como se não fosse, para tirar proveito do espectador que foi educado sob uma dramaturgia de terceira classe, que o filme simplesmente reproduz.

    A cinematografia hollywoodiana, por sua vez, não se fundamente em dramaturgia de terceira classe. É dali que saem obras-primas como Onde os Fracos não tem vez e Sangue Negro, só para ficar em participantes do Oscar do ano passado. É uma das maiores industrias do mundo, mas que estabeleceu, muitas vezes, um pacto de excelência com o espectador. É para legitimar esse pacto que foram criadas formas de reconhecimento, como premiações.

    Não sei o quanto há de Fitzgerald na adaptação levada às telas por David Fincher. Mas sei o quanto há, no filme, das telenovelas que colaboram para sugar o cérebro de milhões de brasileiros todas as noites. Na espinha dorsal da história contada, um personagem nasce velho e vai rejuvenescendo, enquanto todos à sua volta seguem o ritmo normal do tempo. Esta é a base do conto de Fitzgerald exceto pelo fato de que, no conto, Benjamin nasce um homem velho e, no filme, é um bebê com sinais de envelhecimento precoce. Em algum momento, a vida do personagem e as dos demais vai se cruzar. Uma lagartixa levaria dez segundos para perceber isso. Fincher repete a informação mais de 30 vezes, ao longo dos intermináveis 165 minutos que cada um de seus personagens leva para viver e morrer – seja da infância para a velhice, ou da velhice para a infância.

    Fitzgerald escreveu uma pequena farsa de humor. O filme transformou-a numa dissertação sobre a vida. Não tenho idéia da função do furacão Katrina, que lhe serve de pano de fundo. Katrina, aliás, é também o tema de Trouble the Water, um documentário igualmente estúpido que também ganhou indicação ao Oscar deste ano.

    O que sei é que a leitura monocórdia de seu diário, feito pela pessoa que ali vai se descobrir sua filha, frente à mãe moribunda, é constrangedoramente primária. Perde apenas para considerações esparsas sobre o tempo, que parecem saídas dos filósofos do BBB. Fincher é um diretor supervalorizado, que costuma impressionar bem menos pelo que fez do que pelo que não conseguiu fazer. Filmes como Zodíaco ou Clube da Luta parecem muito mais projetos do que obras terminadas. Benjamin Button, em compensação, termina umas quatro ou cinco vezes – mas já na primeira percebemos que estamos sendo fraudados, porque o fim só vai se dar quando a paternidade do narrador for revelada e os dois ex-amantes morrerem ao mesmo tempo – uma de velhice, o outro de juventude.

    É praticamente explicita no filme a cartilha em que Eric Roth se inspirou para escrever Forrest Gump. Hollywood permite que Tom Hanks seja um autista da mesma forma como Brad Pitt seja um velho decrépito. Filmes como Benjamin Button acenam para a possibilidade que isso seja o fim de tudo, quando na verdade é apenas o começo.


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    [Aeternus:10933] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - a missing link

    Não coloquei, para não ter tudo rejeitado pelo provedor, os links às criticas que acabo de enviar. Aqui vão.

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    16/1/2009

    O FIM E O COMEÇO

    Por NELSON HOINEFF
    17/1/2009


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    [Aeternus:10934] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - RE:Benjamin Button e duas críticas

    Jansy escreve:

    Fincher David ou rehcniF divaD?  Seja como for, as duas críticas se enriquecem mutuamente porque Gallego foi generoso com o leitor e se deteve na história e suas relações com Fitzgerald, ao passo que o Nelson Hoineff repeliu com tanta força o elemento "traficante" das nossas tertulias que, indignados, acabamos sem prato, sem cadeira, sem sala de jantar...

    Quando Freud via como vantajoso introjetar os valores culturais sob a forma de um "superego" para melhor eficácia na obediência individual às injunções da sociedade, sempre tive minhas dúvidas sobre sua eficácia. Americanos são democratas, livres e tudo mais e, no entanto, introjetam tanta proibição que ficam como ovelhas no rebanho fazendo méeee. Filmes como Benjamin Button, desta atual produção, não aumentam nem diminuem a capacidade de discernimento (nula) das massas que, igualmente volúveis, acabam de trocar o voto pelo Bush por um projeto de renovação via Obama -  motivados apenas, sabe-se lá, por ele pertencer às minorias e assim apelar pro sentimentalismo a la nordestino das secas que deu certo no Brasil, triunfos regados a lágrimas, bailes, balões e botões na lapela(ação). O filme confirma o que não se precisa confirmar na mitologia americana: seus líderes erram, mas se arrependem ( cena dos prefeitos e do presidente chorando diante do discurso do relojoeiro deprimido) porque sempre agem com a melhor das intenções...

    Pois o filme longo me alegrou, sádicamente, com o cara vitimado por raios subseqüentes ( nova ortografia: tem trema no u?), mesmo se me sinta advertida pelos noticiários sobre maior incidencia de tempestades elétricas no planalto por causa de La Niña) ou a ironia durante o milagre no "renascer" de Benjamin dando seus primeiros passos aliado ao enfarte do pregador entusiasmado. Beija-flores e Karina não tem cabimento, mas é bom pra aumentar a adesão ao supernatural.

    Fitzgerald escreveu sua short-story antes, durante ou depois da internação da sua mulher num hospício? Senti, mais no filme do que no conto, um lamento no ar a respeito dos desencontros. Vai ver que foi só coincidência porque estava lendo sobre o nosso poeta Cruz e Sousa, cuja esposa enlouqueceu e ele morreu tísico logo depois, em particular um poema sobre lábios selados e a opressão da loucura. 


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    [Aeternus:10935] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - Fitzgerald - Cruz e Sousa

    Cruz e Sousa, Vida Obscura :( tema de um trabalho de J.Wilkenfeld sobre o simbolista brasileiro e o americano Horton)

    Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
    Ó ser humilde entre os humildes seres.
    Embriagado, tonto dos prazeres,
    O mundo para ti foi negro e duro.

    Atravessaste num silêncio escuro
    A vida presa a trágicos deveres
    E chegaste ao saber de altos saberes
    Tornando-te mais simples e mais puro.

    Ninguém te viu o sentimento inquieto,
    Magoado, oculto e aterrador, secreto,
    Que o coração te apunhalou no mundo.

    Mas eu que sempre te segui os passos
    Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
    E o teu suspiro como foi profundo!

     


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    [Aeternus:10936] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - moedas celtas

    Acharam em Suffolk uma jarra contendo moedas de ouro de um período que vem antes das marcas do nosso calendário. O tempo reviravolui e o que parecia longínquo aparece novinho. Os excessos do relógio do Benjamin, em retrospecto, me fizeram preferir o filme de ficção sobre o dia em que a terra parou. Até aquele outro, "Crepúsculo", que encanta minhas netas adolescentes com seus vampiros vegetarianos. Elas já estão lendo o terceiro livro, esperando a continuação da história nas telas, onde há promessas que não existem no mundo dos botões...


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    [Aeternus:10937] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - pelo Gallego

    Gallego responde a Jansy sobre a data do conto “Benjamin Button”:

    O conto é de 1922, portanto, a esposa do escritor, Zelda, ainda não estava louca de atar - nem internada em hospícios.

    O período era de franca exaltação maníaca, euforia e irresponsabilidade, após o sucesso enorme do primeiro romance de Fitzgerald, “Este Lado do Paraíso” (1921), antes do sucesso morno do livro seguinte, “Belos e Malditos” , mas com boa receptividade ainda vigente dos contos em revistas; e da vida airada na Riviera, onde ele escreveria seu GRANDE romance, “O Grande Gatsby” (suceso frio no lançamento) e cujo período em Côte D'azur seria revivido no livro seguinte, publicado apenas uns dez anos depois, “Suave é a Noite” (mais ou menos de 1934) - e que, por mais que seja tão apreciado, acho que se ressente um pouco das idas e vindas da proposta inicial (um matricídio) até o que ficou sendo a opção final (um psiquiatra que se casa com uma paciente louca, ela vai melhorando e ele vai afundando na bebida).

    Fitzgerald é muito prestigiado porque é norteamericano (sem hífen?), embora “Gatsby” mereça todo o prestígio do mundo; mas não sei se o todo de sua obra teria a mesma repercussão se ele fosse brasileiro como Machado de Assis que, ao inverso, mereceria muito maior reconhecimento mundial do que o que vem auferindo bem de-va-gar-zi-nho ao longo das déééééécaaaadaaaaaasssss.

    Seus contos podem ser facas de dois gumes ou de dois legumes sem sal (aliás, sua incursão fracassada no teatro se chamava “The Vegetable”). Ou seja, muitos  e muitos contos foram escritos em incrível rapidez (pois geralmente são grandes, cheios de capítulos) feitos como pizzas para sustentar a bebida, a boa vida ou os hospícios caríssimos de Zelda na Suíça e os colégios caríssimos para a filha. Portanto, há muita coisa inexpressiva, feita para revistas femininas bobocas da época, ao lado de textos bem cotados como “A Absolvição” (Absolution – que comentei aqui no aetern.us, e que em português, acho que só existe em uma tradução lisboeta), “The Rich Boy” (O Menino Rico), “O Diamante do tamanho do Ritz” (The Diamond as Big as the Ritz), “Primeiro de Maio” (May Day, que para ler em português só encontrei em uma pequena antologia lusitana), “Babilônia Revistada” (que deu origem a um filme-melodrama dos anos 1950 relativamente famoso na época, “A Última vez que vi Paris” – a música ainda é bem simpática aos que a têm na memória), etc etc etc.

    Estes contos aparecem em várias antologias dos anos 1960 para cá (a brasileira mais recente é da Cia. das Letras com 24 contos escolhidos pelo snob metido a conhecer de tudo, de bossa-nova a cinema, etc etc, o jornalista Ruy Castro que, queiramos eu ou não, escreve com fluidez, especialmente na biografia de Nelson Rodrigues, “Um Anjo Pornográfico”.)

    O que quero salientar é que o conto “Benjamin Button” não faz parte das antologias que tenho em nossa língua; nem de um livro da Penguin Books, “The Collected Shoirt Stories of F. Scott Fitzgerald” aonde se encontram “Winter Dreams”, “The Lost Decade”, “The Less of Happiness”, “The Sensible Thing”, “The Bridal Party”, “Crazy Sunday”, “Three Hours between Planes”.Todos estes citasdos me parece que são bem considerados até hoje pelos seus estudiosos.

    “Button”também não é comentado em um livrinho muitíssimo antigo que tenho sobre o autor e sua obra, de Kenneth Eble.

    Jansy se pergunta sobre o que sentiu, até “mais no filme do que no conto, um lamento no ar a respeito dos desencontros”. Vamos recordar que Zelda era ambiciosa e rejeitou Scott quando ele era um pobretão: só o suce$$o financeiro obtido com “This Side of Paradise” fez com que ela aceitasse a côrte apaixonada do escritor. Acho que, na verdade, ela devia ser ainda mais narcísica do que ele, sem capacidade de amá-lo como ele, romanticamente, achava que aquilo nele era amor por ela. E até era: quando ela pirou de vez, ele foi corretíssimo e não necessariamente por culpa apenas: bebia todas, devia dinheiro a deus e ao mundo, mas não deixou de ser um marido leal e protetor. mesmo com casos amorosos aqui e ali.

    Ela serias bem mais fútil e doidivanas do que ele, eu suponho - e um sintoma dele, certamente. Ela era invejosa do sucesso dele como escritor. Jansy gosta de “Save me the Waltz” que eu não consegui ler, achei chato demais e descosturado. Uma vertente feminista superestima as produções artísticas de Zelda e há até mesmo quem diga que ele a "castrou", limitando-a, e proibindo sua veia literária; e até que se utilizou (roubou?) esboços literários dela. Não me convence: o estilo dele é brilhante, o inglês fica mais bonito em seus contos; e seu uso das palavras, de modo discretamente poético, sem derramamentos, pode ser admirável (leram o final de “Benjamin” que coloquei em tradução de Brenno Silveira em uma antiga antologia da Civilização Brasileira chamada “6 contos da era do jazz”?). Não precisava roubar nada de ninguém. Era um talento: mal desenvolvido, caótico, incompleto, prejudicado pela bebedeira.

    Seus contos têm um formato fora de moda como pequenos romances que são, mas há muita coisa boa. Se “Benjamin” não é dos mais privilegiados e incluído em antologias, mesmo assim não é totalmente descartável.

    E Jansy acerta quando percebe um lamento no ar a respeito dos desencontros: ele e Zelda sempre foram um grande desencontro nocivo para ambos, destrutivo para os dois, somando neuroses, psicoses e alcoolismo grave - e em algum nível ele sabia disso: foi cruel com o retrato dela como a fútil Dayse endeusada por Gatsby, assim como na obviamente inspirada em Zelda, a esquizofrênica Nicole de “Tender is the Night”, mas não foi menos cruel com o psiquiatra Dick Diver que seria um alter ego dele mesmo. O mais trágico é que parece que ele sabia, em algum nível, em que canoa furada estava metido:em relação à sua própria neurose e ao se unir à maluquice da Zelda. Sua curta vida (morreu aos 44 anos - e ter publicado o “Gatsby” com apenas 29 me parece um escândalo!) é uma estória muito muito triste. Mas ler o “Gatsby” em inglês é um prazer inenarrável!


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    [Aeternus:10938] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - RE:pelo Gallego, agora com respostinha

    Graças ao entusiasmo do Gallego comprei montes de livros do Salinger e do Fitzgerald para ler. O do Benjamin Button, original, saiu numa edição fininha e barata, que se encontra na Livraria La Selva dos aeroportos (acho que a editora é Dover books). No jornaleiro, pela LP&M poche, tem vários outros que foram traduzidos para o português. Gosto de transitar pelo original e pelas escolhas dos tradutores. Embora tenha lido tudo quase numa assentada há pouco tempo (menos o The Great Gatsby), vejo que está na hora de reler um por um com mais cuidado. O clima eufórico do período entre-guerras nos EEUU ( ao contrário do clima em Viena, por exemplo) talvez tivesse sido silenciosamente censurado em casa ou em meu colégio metodista. Até hoje me sinto desconfortável, embora pra quem viveu bem os hippies dos anos setenta não faça muito sentido num sentido e muito sentido em outro. Aquela riqueza metida a besta, como a dos alagoanos milionários dançando no planalto há algum tempo, ainda me aflige porque custa caro aos que nada tem a ver com ela. A história de Poe, bem mais modesta, também terminou no alcoolismo e sua morte igualmente precoce. Sacar as coisas precocemente ( como Gallego observa do escandalo de escrever The G.Gatsby aos vinte e nove anos), ser inteligente e sensível antes de formar um calo para dar espaço à ternura e tal ( vai ter novo filme sobre o Che com Benito del Toro!) acaba levando aos entorpecentes. De Quincey, por exemplo. Como escreve bem.

    A bailarina do filme do Benjamin, aleijada devido a um acidente em Paris, podia ter a ver com a Zelda para o roteirista ( não para o Fitzgerald, suponho).


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    [Aeternus:10939] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - RE:RE:pelo Gallego, agora com respostinha

    Gallego esclarece: Salinger e Fitzgerald foram empolgações de meus 13, 14, 15, 16 anos. Nunca reli "O Apanhador no campo de Centeio", mas reli os contos e "Franny e Zooey" e gosto especialmente do segmento "Zooey". Do Fitzgerald reli "Gatsby" mais d euma vez e cada vez gosto mais. Nunca consegui ler "Belos e Malditos" e acho que se relesse "Este Lado do Paraíso" não gostaria tanto.
    A morbidez de Poe também me empolgava na adolescência e é um dos grandes, independente de mim ou da morbidez do adolescente

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    [Aeternus:10940] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-24)


    - contando farol?

    Ooops. Não quis dar a impressão de que li "Belos e Malditos" nem "Este lado do Paraíso", eu me referia aos contos, a uma parte deles que tinha em mãos!

    Certos autores, uma vez lidos, deixam boa lembrança e isto é suficiente. Outros, quando relidos, nos desapontam ou nos encantam novamente. Nunca mergulhamos no mesmo rio, dizem. Nem somos os mesmos quando o tentamos, acrescentam. Contudo ontem Ivan Junqueira, mestre de citar os citantes, mencionou uma variante, talvez de Vitor Hugo: o carvalho permanece identico a si próprio, apesar das suas permanentes mudanças de folhagem, galhos e floração. Sei não. Nunca sou a mesma quando releio um livro que nunca é o mesmo, mas sou a mesma e o livro também. Como decidir isso? 


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    [Aeternus:10941] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-25)


    - RE:contando farol?

    Gallego responde:Não achei que Jansy houvesse lido os 2 primeiros romances do Fitzgerald. E quanto aos contos, também gostaria de ressaltar que li poucos - e são muitos. E muitos são classificados como não tendo maior expressão.
    O entusiasmo acadêmico norteamericano por Fitzgerald não é só bairrismo: o uso da língua - quando consigo ler um original dele é fascinante: muitas vezes ele é um estilista brilhante e usa das palavras de modo cativante.
    Mas em termos de formato, os contos do Salinger fazem mais meu gênero.
    Uma vez tentei definir como eles seriam: sem princípio nem fim.
    Não sei se é uma boa definição nem mesmo se é minimamente pertinente.
    E são poucos, apenas 9 autorizados para publicação em livro (Nine Stories) e outros maiorezinhos agrupados: “Franny” e “Zooey” formando um título e publicação única; e “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira” e “Seymour, uma Introdução” formando outro volume.
    Acho que todos estes funcionam como "fatias" de vidas ficcionais que soam plausíveis como se pudessem ter ocorrido na vida dita real.
    Ou seja, Salinger muitas vezes não dá informações “prévias” sobre seus personagens, cenários, situações. É como se pegássemos um filme pelo meio - mas um filme é algo pensado para durar um tempo, que pode ser curto ou longo, mas que terá princípio e fim, seja em 20 minutos ou 4 horas e meia de duração.
    É mais como se, de repente, tivéssemos aceso à vida de alguém: mas um pedaço de vida, uma "fatia" que - no entanto - é obviamente significativa. Nada de "nouveu roman" em que nada acontece em descrição “um por um” de cenários, por exemplo.
    Em Salinger pode haver muitos diálogos, o clima se estabelece logo também de repente, ele nos faz abandonar aqueles personagens - mas aquela “fatia” é uma metonímia expressiva de uma vida inteira, de uma personalidade completa.
    O rapaz filho caçula da família Glass, Zooey, tomando banho de banheira conversando sobre a irmã Franny (em crise religiosa) com sua mãe que está sentada ao lado, dentro do banheiro, fumando e deixando as cinzas do cigarro caindo em seu avental de dona-de-casa, em uma época que pode ser 1955 traz um clima que, para mim, é, incrivelmente bem revelado.
    Claro que neste caso particular há algo idiossincrásico. Em 1955 eu não era um rapaz como Zooey, mas um garoto de 5 anos. Mas é um período (que pode ser 1954 também) que ficou como um dos "melhores anos de nossas vidas" - ou pelo menos da minha.
    O mito de inocência e felicidade do pós-IIGuerra não é para ser levado a sério, mas este período de minha infância é. E se confundiu com onda de nostalgia escapista da década seguinte quando a televisão começou a mostrar os horrores em curso no mundo na sala de jantar: por exemplo, no Extremo Oriente nos anos 1965 mais ou menos com monges budistas se incendiando em praça pública, e logo em seguida a Guerra do Vietnã entrando casa a dentro e silenciando a atriz Elisabeth Vogler do filme “Persona” de Ingmar Bergman.
    Na década de 1950, em seu meiozinho, não havia tanta televisão, o rádio era a trilha sonora dos dias inteiros, os dias pareciam ensolarados e com música de fundo (dos rádios) o tempo todo. Os horrores da II Guerra, eu não conhecia ainda, mas certamente o imaginário das pessoas queria crer que eram coisa do passado e que nunca mais se repetiriam. Hollywood castrada pelo MacCarthysmo oferecia filmes escapistas como "Cantando na Chuva" e "Lili", e tudo parecia terminar em sundae com cerejinha em cima do chantilly depois do cachorro-quente em seguida a uma sessão de cinema em alguma das salas de cinema Metro ou Palácio. Ainda se podia tomar frappé de côco ou guaraná caçula da Antartica no Café e Bar Simpatia na calçada da Avenida Rio Branco, em pleno Centro do Rio, sentados em cadeiras de vime. E andar de bonde fresquinho porque todo aberto (ruim em dias de chuva que nos molhava a todos).
    Nos contos da "Família Glass", Salinger fala de uma seqüência de irmãos muito bem dotados intelectualmente (e/ou estimulados por seus pais ex-artistas e/ou pelo[s] irmão]s mais velho[s] ) que se sucedem em um programa de rádio chamado "O Garoto Sábio" ou qualquer coisa semelhante.
    Quem viu "A Era do Rádio", do Woody Allen, passado na década de 1940, nos anos de IIGuerra talvez se lembre de uma passagem hilária em que o garoto comum em torno de quem o filme se passa vai ao Zoológico com os pais onde encontram por acaso outra família de pai-mãe-e-filho, reconhecendo este outro menino como o astro-mirim de um  programa de rádio em que a criança é mostrada em seus aspectos "nerds" - na época super-apreciados e sonho de pais comuns e simples: ter um rebento-gênio.
    Os pais do personagem central do filme(um guri mais comum e “normal”) começam a reclamar que ele nem tira notas boas na escola, não tem bom comportamento e acabam enchendo o garoto de cascudos...
    Suponho que isto confirme que o rádio americano dos anos 1940/50 tinha programas com meninos espertos, nem sei fazendo bem o que: respondendo perguntas dos ouvintes? improvisadamente? com roteirinho pronto e script de antemão? Não sei. mas os filhos da família Glass criada por Salinger, todos eles passaram por um programa: quando cresciam um pouco, o irmão seguinte substituía o anterior.
    Nada disso é explicado: para sacar isso (facilmeente) é preciso ler mais de um conto , todos fragmentários, "fatias" de vida de: Seymour (que se mata na obra-prima "Um Dia Perfeito para o Peixe-Banana"), Buddy Glass (que é alter ego de Salinger pois se transforma em escritor), Boo Boo (uma irmã), Franny e Zooey, os caçulas, já na High School ou na Universidade em meados dos anos 1950. Acho que houve irmão um que morreu na guerra.
    Ou seja, é como se os contos fossem “em aberto”, podendo se comunicar entre si, cada um independente, autônomo, mas podendo compor um mosaico. Nem todos têm a família Glass como personagens, sendo de fato independentes. Lembro com satisfação de “Tio Wiggily em Connecticutt” e “Um dia antes da guerra contra os esquimós”, mas todos são muito bons.
    Há uns vinte e tantos contos publicados em revistas que Salinger não autorizou publicar em livro. Consegui baixar todos na Internet, mas até agora só li um. Bom como outros, mas de fato, os nove de “Nove Histórias” seriam melhores do que este li, mas imagino que nenhum deles seria desprezível.

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    [Aeternus:10942] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-25)


    - RE:RE:contando farol?

    Jansy responde ao Gallego que responde a Jansy que responde ao Gallego:

    Que bom que não dei a entender algo que nem passou pela minha cabeça dizer. Os contos do Salinger que você extraiu da internet e mandou pra mim, li todos. Até prometi tentar traduzi-los mas esqueci disso...foi ficando pra trás e foooooooooi.

    Li os outros indicados, as Nove Histórias, as coleções, Frannie and Zooey. Também gostei das interconexões entre uma fatia de história e outra. Minha memória, contudo, não é como a sua. Está tudo embolado na lembrança, precisaria reler e retomar a curtição. De todos houve um que marcou minha imaginação, nem sei dizer qual foi (e pode até nem ser Salinger): um professor de desenho artístico vai dar aulas no Canadá e o instituto onde ensina fica sobre uma loja de produtos hospitalares.  Outro conto lembrou-me uma cena do filme "As Horas" quando a Juliannne Moore é visitada por aquela excelente feia atriz que, com enormes olhos tristes, lhe diz que vai fazer uma histerectomia e as duas se beijam. O conto do Salinger é de umas moças que se encontram numa casa de praia e pintam as unhas, conversam abobrinhas. Raramente me lembro das palavras, só do cenário fílmico e um clima emocional. Tenho boa memória pra clima emocional, como se fosse música.


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    [Aeternus:10943] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-25)


    - Nem Framboesa, nem premio da Moranga...

    Meio que por acidente aderi a um grupo que ia passar na livraria e ir ao cinema. Só então percebi que veria um filme com Reese Witherspoon sobre famílias e o típico natal americano. Se arrependimento matasse, eu precisaria de ter cem vidas. Estou sempre entrando numa fria. Ontem mesmo, nostálgica de uma vaga recordação engraçada sobre dois contrastes, vi "The Twins" com Danni de Vitto e Arnold Schwarznegger. Que filme ruim, só a idéia inicial presta como jogadinha esperta (explorar o fortão do Arnold, ainda todo Mr. Mundo austríaco, sotaque e rigidez, em shorts de couro do tirol, mais o divertido de Vitto como seu resto genético) e vai piorando devagar. O de hoje me deixou estragada até agora, horas depois, apesar da boa companhia. Tudo bem, quem não sabe que o natal das massas americanas é a oportunidade de exercer todas as pressões ideológicas ligadas à familia que nataliza unida permanece unida, espírito de bairro, submissão ao status quo com guizos e chifres de rena entre Lepperchauns. Só que a paródia deste clima era ela mesma, como já vi acontecer antes em outros filmes e até do Michael Moore, filha da mesma mentalidade. Sissy Spacek e uma  que foi companheira de voz mansa do Woody Allen ( na variante dos Sonhos de uma Noite de Verão, por exemplo) no máximo da vulgaridade, Robert Duvall, Jon Voigt. Que tristeza. Não é o primeiro filme em que se vê a pressão ao conformismo sendo delatada e endossada ao mesmo tempo. E, pra cumulo do azar, ainda tinha um trailer com Jim Carrey sobre "Yesman". Fiquei até com medo de dizer piadas depois disso, já pensou se dá um ventinho e fico como eles?

    Achei meu exíguo exemplar (e não sei se tem trema, como hoje me avisaram: "jamais trema sobre a linguiça") do Benjamin Button do Fitzgerald. Já o comecinho é diferente de tudo no filme. Mas tem montes de relógios antigos na capa. Se eu não estivesse agora como cidadã do primeiro mundo ( totalmente sem empregada, faxineira, ajuda doméstica de qualquer tipo) com louça pra lavar, areia de gato pra trocar, mais plantas pra regar, ia ter que ler...Por ora, pra mim chega de americano.


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    [Aeternus:10961] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-01-31)


    - Foi Apenas um Sonho

    Assisti hoje o filme de Sam Mendes, com DiCaprio e Kate Winslet, "Foi Apenas Um Sonho".  Gostei enormemente de tudo. No primeiro impulso, claro. Porque sempre a gente acha "mas".

    Do que gostei: da forma realística de tratar das brigas de casal e suas reconciliações, falsas ou verdadeiras, da maneira de apresentar a prisão da vida em família ( nos anos cinquenta, quando foi ambientado e até hoje) para a classe burguesa mediana com marido trabalhando e a esposa cuidando da casa, do desencanto consigo mesmo e com o outro, com os medos e covardias, com os desencontros que poderiam ser evitados mas não podem porque nunca são... As falas, a marcação, os atores, o cenário estão perfeitos. O realismo inicial, idem ( se bem que o casal central consegue baby-sitters com facilidade demais).

    Do que não gostei: a apresentação de apenas uma dimensão da vida (a família), a falta de perspectiva para o que se passa fora do mundinho particular de cada um: nem todo mundo é fantoche dos vizinhos, empregadores, sociedade a este ponto de cegueira. E se for, então é bem-feito que fiquem ferrados, coitados. Porque todos sofrem, se engalfinham, fingem que se respeitam e apoiam, choram, traem... é de partir o coração ver os desencontros e a futilidade da vida deles.

    Achei o casting, como sempre, um desafio interessante. Conseguiram atores horríveis para contracenar com os dois bonitinhos (aquela boquinha rósea do DiCaprio e o rosto de bebê com voz fininha até hoje, homem feito, fortão, barbudo e tudo), olhos estreitos, dentes irregulares, queixo gigante. Todos meio balofinhos e branquelos, com jeitão de paspalhos. Excelente.

    Uma tragédia, principalmente porque faltava a todos senso de humor. Viviam uma vida pequena, auto-centrada nos padrões adaptativos à sociedade igualmente auto-centrada e se levavam muito à sério ( até na hora de serem adúlteros, ou revoltados ou mesmo doidos) . A heroína era intensa demais, pobrezinha. Como dizia Eliot, o ser humano não agüenta tanta realidade. E ela ia atrás dos absolutos, sem arredar pé até sacar que estava se enganando e sendo enganada. Querendo a hora da verdade, mas sem muita fala. Uma chata. Aliás, o filme era de chatos.  O maridinho era um explicão tagarela e psicologizado, invertendo o sentido das coisas pra torná-las do seu jeito, blablabla insuportável.

    O que salva na história é, exatamente, o fundo da trama social que se via na rotina da casa arrumada ( ovos fritos, suco fresco de laranja, roupa limpinha, sol entrando, crianças rindo), na boa propaganda da vida normal que é mantida pra ingles ver, a comunidade  demandando limpeza e beleza, competindo, vigiando. Ninguém pode querer ficar sózinho e sem justificar-se todo tempo. Não se tinha muitos amigos, e os que havia eram diferentes demais para serem mais do que cúmplices na miséria e na fuga. Adorei a escolha do fotógrafo dos focos e fora de focos, das almofadas bordadas e o chintz das poltronas, tudo que remete a uma vida sólida e bem resolvida permanecendo como coisa enquanto os rostos sumiam. Um Kafka sem jeito de Kafka, a mesma obsessividade sem graça esmagando a vida. E o sonho do filme é de doido mesmo, embora fosse o único possível.

    A situação da mulher naqueles anos está magníficamente apresentada ( apesar das neuroses distintas de cada uma). Um beco sem saída.

    Nota Dez pro filme ( mesmo faltando qualquer humor e transcendência)

     


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    [Aeternus:10964] Mensagem do Grupo73
    -General Ego(2009-02-01)


    - RE:Foi Apenas um Sonho

    DESENCANTOS EXPLÍCITOS
    Por LUIZ FERNANDO GALLEGOno site www.criticos.com.br 

    1/2/2009

    Em Foi apenas um Sonho, os lances cotidianos da vida do casal interpretado por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet poderiam dispensar o desenvolvimento (que aqui não será comentado) do final do filme: afinal, as brigas e discussões diárias são bem dramáticas, naquela base em que se “diz tanta coisa que não se quer dizer” seguidas de reconciliações em clima “faz-de-conta-que-nada-aconteceu”. Podemos até pensar em uma espécie de “Quem tem medo de Virginia Woolf ?” fora de campus universitário, em idade mais jovem e mais “classe média”. O mal-estar do aprisionamento adaptativo de vidas conjugais e sociais que não querem caber (e não cabem mais) em modelos idealizados - e por isso fracassam - lembra algo da peça de Edward Albee, filmada por Mike Nichols na mesma década de 1960 em que foi publicado o romance que deu origem a este filme.

    Mesmo que tudo comece em uma festa de jovens, provavelmente no finalzinho da década de 1940, quando o casalzinho dança e se encanta um com o outro, já na cena seguinte os encontramos casados há alguns anos e com filhos na faixa de seus 5, 6 anos. A esposa fez uma incursão como atriz em espetáculo teatral, não sendo bem sucedida - o que traz o primeiro desentendimento em alta voltagem a que o espectador tem acesso. Eles residem em uma boa casa afastada do centro da cidade, parecida com tantas de seriados de TV daqueles anos (como a casa de Papai sabe tudo). As cenas domésticas, especialmente na copa, no café da manhã, poderiam pertencer a anúncios de margarinas adotadas e adoradas pelas “famílias felizes” do mundo irreal da propaganda.

    Tal como em seu premiado Beleza Americana, o diretor Sam Mendes, agora com roteiro extraído do livro de Richard Yates, faz um retrato cruel da “suburbia” norteamericana com construções em centro de terreno, gramados verdejantes, jardins bem-cuidados – como se este fosse o ápice de um “sonho americano”, no entanto, perpassado por pesadelos de frustrações.

    A personagem ‘April’ (Kate Winslet) tem alguma consciência do mal-estar que aflige a dupla: comenta que eles se consideram “especiais”, mas são iguais a todo mundo. E provavelmente, nas entrelinhas, menosprezam os outros como “não-tão-especiais”. Mas ela não abre mão de tentar ir adiante, pautada por sua auto-imagem superestimada. Depois do fracasso da dona-de-casa como atriz, ela propõe uma reviravolta na vida familiar através de um projeto excêntrico em relação ao conformismo burguês dos vizinhos e amigos: pensam seriamente em trocar sua cidadezinha por Paris! (onde o maridão esteve durante a II Guerra e da qual fala como se fosse o melhor lugar do mundo).

    O desafio será resistir a um “choque de realidade” quando ‘Frank’ (Leonardo DiCaprio) receber uma oferta de salário bem mais alto e melhor posição no emprego que detesta. Já o desafio do segundo roteiro escrito por Justin Hayte - e para o diretor Sam Mendes - seria o de evitarem a ênfase excessiva em detalhes (nem sempre tão pequenos deles dois) e que explicitam as ambigüidades de April e de Frank, tanto em dupla como as de cada um. Sem conhecer o livro (muito elogiado por escritores famosos), fica a impressão que, tal como está no filme, o personagem ‘John’ - que diz o que quer sem a menor hipocrisia social, o que é “justificado” por estar em tratamento psiquiátrico – serve para não deixar dúvidas na platéia quanto às ambivalências do casal e de suas escolhas. Por outro lado, as atitudes e falas do dupla central já deixam bem claro que tentam negar (sem conseguir) seus conflitos individuais e em relação à família que constituíram. Neste sentido, as intervenções socialmente inadequadas de ‘John’ (Michael Shannon, indicado a prêmios por este papel) deixam a impressão de que roteirista e cineasta não acreditaram tanto assim no retrato do casal transmitido por suas ações pessoais e pelos ásperos diálogos que travam.

    Sam Mendes parece não querer repetir o tom patético entremeado de lances de farsa que ia às raias da caricatura em Beleza Americana. A ambição aqui é de uma exposição mais "seca" e ainda mais cruel do desencanto de April e Frank: de cada um consigo mesmo e com o outro, aprisionados em auto-imagens descompassadas da realidade medíocre do cotidiano onde “todo dia eles fazem tudo sempre igual” aspirando fazer “diferente”, sem saber nem o que nem como. Mas a imagem à moda de Magritte de uma massa idêntica de homens vestidos de terno-e-gravata e usando chapéus parecidíssimos enquanto esperam o trem que os levará ao trabalho no centro da cidade é outra ênfase, agora visual, igualmente excessiva para caricaturar a mesmice que Frank vivencia em seu trabalho - e na vida rotineira sem perspectivas de mudança.

    Estes exemplos fazem supor que os realizadores acham que o espectador carece de cenas “sublinhadas” para captar o cerne social e psicológico dos personagens. Esta falta de sutileza é um mau hábito dos filmes de pretensão “séria” do cinema americano e também poderá ser visto em breve no filme Dúvida - que também disputa prêmios com este Revolutionary Road (título original). Tanto em um como em outro, é como se não fosse suficiente o desempenho de atores competentes em momentos inspirados.

    Esta questão também pode ser levantada para alguns aspectos da participação de Kate Winslet, aqui dirigida por seu marido, o que talvez explique a coincidência enfática. Apesar de premiada por este desempenho com o “Globo de Ouro” (em overdose, já que foi igualmente escolhida como atriz coadjuvante em outro filme, mas pelo qual concorre ao Oscar de atriz principal!), ela incorre em alguns momentos de certo overacting, principalmente, ao ser “explícita” quando a personagem mente ou dissimula. É como se ela precisasse “dizer” à platéia que “agora ‘April’ não está sendo sincera, às vezes nem com ela mesma”. Um exemplo está em uma das suas primeiras cenas com Kathy Bates, que faz a mãe do perturbado ‘John’ e pergunta a ´April’ se poderia recebê-la em companhia do filho que terá uma licença da internação psiquiátrica. Bates está mais contida do que de hábito e se mostra excepcional nas hesitações do pedido, mas Winslet aceita o pedido da amiga mais velha com acolhimento obviamente fingido e desconforto tão transparente que a outra personagem correria o risco de perceber.

    É verdade que o papel exige muito da atriz e ela está bem em muitas cenas, mesmo que derrape nas vezes em que, após um “barraco” com o marido na noite anterior, reaparece toda sorridente e arrumada como que atendendo à imagem de “esposa modelar” de filmetes de propaganda. Mesmo que em algumas dessas passagens, ‘April’ pudesse estar enganando a si própria, a atriz não precisava deixar tão evidente a farsa da representação da personagem, repetindo em desempenho o recurso da cena dos chapéus ou das falas explícitas do personagem “psiquiátrico”. Já quem consegue manter o clima adequado para seu personagem durante todo o filme é Leonardo DiCaprio, surpreendentemente ausente das indicações para prêmios. Nas cenas em que tenta dizer para a mulher que ela ainda o ama, o ator surpreende pela intensidade, sem escorregar para o ridículo.

    Se os produtores reuniram três atores de Titanic (Winslet, DiCaprio e Kathy Bates) para atrair o público para um filme mais árduo, a legião de fãs poderá se surpreender ao ter que lidar com um drama realista sem nenhum romantismo pretensamente redentor ou apaziguador. Mesmo com as questões levantadas quanto a aspectos da narrativa, Foi apenas um Sonho deixa uma impressão muito forte sobre desencantos e descompassos. E mais uma vez cabe destacar a fotografia de Roger Deakins, pertinente para este filme, tão diferente dos tons que usa para outros filmes em que sua contribuição só colabora para os melhores resultados possíveis

    # FOI APENAS UM SONHO (REVOLUTIONARY ROAD)
    EUA/Inglaterra, 2008
    Direção: SAM MENDES
    Roteiro: JUSTIN HAYTHE, baseado no romance de Richard Yates
    Fotografia: ROGER DEAKINS
    Edição: TARIQ ANWAR
    Direção de Arte: TERESA CARRIKER-THAYER, JOHN KASARDA, NICHOLAS LUNDY.
    Música: THOMAS NEWMAN
    Elenco: LEONARDO DiCAPRIO, KATE WINSLET, MICHAEL SHANNON, KATHY BATES
    Duração: 119 minutos
    Site oficial: www.revolutionaryroadmovie.com

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    [Aeternus:10965] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-01)


    - RE:RE:Foi Apenas um Sonho

    Gallego não é como a justiça: ele não tarda e  nem falha. Adorei ler a crítica!

    Não me recordava da cena a la Magritte da multidão cinzenta de executivos com chapéus, mas rememorando em retrospecto circumspecto não achei que era over, apenas uma citação interessante...

    Katy Bates estava excelente também ( o que não vinha achando nos últimos filmes nos quais aparecia dando uma pontinha) com sua saudação simpática e inconveniente "trililoo io-hoo" ( tem um conto de terror com a história de um tal Io-hoo)

    Também não me ocorreu mencionar um epigrama sobre os americanos inventado por Oscar Wilde: "When good Americans die, they go to Paris."  ( ou seja, pros americanos do início do século XX ou antes, Paris era o Paraiso)


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    [Aeternus:10994] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-08)


    - Gallego critica O Leitor



    #O LEITOR (THE READER) EUA/Alemanha, 2008. 124 minutos
    Direção: STEPHEN DALDRY Roteiro: DAVID HARE, baseado em livro de Bernhard Schlink.
    Fotografia: ROGER DEAKINS e CHRIS MENGES Edição: CLAIRE SIMPSON
    Direção de Arte: CHRISTIAN M. GOLDBECK e ERWIN PRIB Música: NICO MUHLY
    Elenco: RALPH FIENNES, KATE WINSLET, DAVID KROSS, BRUNO GANZ, LENA OLIN
    Site oficial: www.thereader-movie.com

    Além (e também por causa) de suas limitações estéticas, "O LEITOR" pode soar ambíguo e até mesmo bizarro na abordagem canhestra de graves questões éticas e morais.

    “ESSAS PROFISSÕES QUE FAZEM DA MORTE OFÍCIO OU BAZAR”

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    7/2/2009

    As primeiras cenas de O Leitor estão situadas em uma época que seria mais próxima de nossos dias, e buscam deixar bem claro para a platéia que pretendem caracterizar o personagem ‘Michael Berg’ na idade adulta como um homem que não consegue se permitir relacionamentos afetivos estáveis: uma mulher que passou a noite com ele explicita esta característica que vai se acentuar no rosto melancólico e introvertido de Ralph Fiennes, surpreendentemente estereotipado ao repetir o semblante apenas aparentemente inexpressivo (porém, sugestivo de encobrir profundas emoções recônditas) que tão bem serviu à sua interpretação de O Jardineiro Fiel. Desta vez o ator não consegue ser bem sucedido, talvez em grande parte devido às limitações do roteiro e construção dos tipos em cena.

    Segue-se um grande flashback com episódios passados em 1958, quando encontramos ‘Michael’ aos 15 anos, agora na pele do ótimo David Kross, ator que teve que esperar completar 18 para rodar as incrementadas cenas de sexo com Kate Winslet. Michael passa por uma espécie de “educação sentimental” administrada por uma mulher de extrato social bem modesto, ainda que autoritária e susceptível - e com mais do que o dobro da idade do “menino” (como ela o chama), ‘Hanna’. Ela gosta que ele leia para ela em voz alta; e exige que o faça antes de se entregar às intensas práticas sexuais. Melhor dizer, “amorosas” - do ponto de vista do rapazola.

    Os encontros do casal funcionam como uma espécie de “primeira parte” da história. O idílio será interrompido. Talvez porque o “menino” começa a ficar dividido entre Hanna e a companhia de seus colegas, rapazes e moças, da mesma idade, despertando ciúmes e irritação na possessiva amante? Ao mesmo tempo, vemos que ela foi informada sobre uma espécie de promoção em seu emprego: em vez de continuar como bilheteira em bondes, iria trabalhar no escritório da empresa. O fato é que ela desaparece da cidade e da vida do garoto.

    Alguns anos depois, já estudante de Direito, ele vai encontrá-la como uma dentre seis mulheres, rés em um julgamento escolhido por um professor da faculdade como tema de discussão com seus melhores alunos. Surgem revelações surpreendentes sobre o passado dela, tema da segunda metade do filme e motivação central para ter sido escrita a trama imaginada por Bernahrd Schlink em Der Vorleser (título alemão do livro já lançado no Brasil com o título traduzido literalmente, O Leitor).

    O cinéfilo e o crítico de cinema podem ficar surpresos com os nomes envolvidos na execução deste terceiro filme do diretor Stephen Daldry, co-produção entre Alemanha e Estados Unidos. Daldry assinou anteriormente Billy Elliot (2000) e As Horas (2002), ambos com repercussão predominantemente favorável, sendo que o premiado romance de Michael Cunningham, The Hours, foi roteirizado com sucesso pelo mesmo David Hare que agora adaptou a novela de Schlink.

    Falecidos antes de o filme ser completado, Sidney Pollack e Anthony Minghella estão entre os produtores: eles, que eram considerados como representantes de uma “esquerda” hollywoodiana, até onde isto possa ser considerado possível. O filme, entretanto, além (e também por causa) de suas limitações estéticas, pode soar ambíguo, e até mesmo bizarro na abordagem canhestra de graves questões éticas e morais

    A surpresa dos que estejam familiarizados com as carreiras dos nomes citados acima virá no caso de concordarem com as avaliações que serão feitas aqui. A primeira questão diz respeito ao filme propriamente dito e ao roteiro filmado, observados como realizações autônomas, independentes de sua origem literária; e a segunda, interroga a discussão moral levantada pelo enredo e como foi desenvolvida.

    Formalmente, o produto final se apresenta como tantos outros do “cinemão” norteamericano quando pretende ser “adulto” e “de qualidade”, mas que muito frequentemente escorrega em recursos narrativos bem banais e não necessariamente justificados pelo que parecer ser a meta do ambicioso enredo na polêmica figura feminina principal do romance. Ao alternar flashbacks com cenas “atuais”, o que se busca é um clima sentimental “ajudado” por música onipresente e intrusiva. Tudo isso, a serviço de sublinhar o lado “emocional” do filme que não interage satisfatoriamente com a discussão ética que se desenrola (bem mal) nas falas dos personagens e pelas situações inusitadas que vão sendo reveladas.

    O resultado de tantos clichês sentimentalóides colabora com o segundo ponto questionado. OBSERVAÇÃO: Embora a trama narrada neste filme esteja divulgada em grande parte no trailer, sinopses e comentários encontrados na imprensa, o texto que se segue aborda aspectos do enredo que só vão se mostrando no decorrer do filme. Mas é muito difícil deixar de discutir estes aspectos que constituem o foco pelo qual tal relato ficcional foi criado. O que bate na tela surge tão mal roteirizado em si mesmo, repleto de lugares-comuns (decupagem, filmagem e edição final) que podem deixar a impressão de que se está ressuscitando a “defesa” da “obediência devida” (e cega) para os atos perpetrados por aqueles que se encontravam na ponta final da máquina de morte nazista: as pessoas que buscaram ou aceitaram um “emprego” na SS e foram trabalhar como guardas em campos de concentração.

    Fica ainda muito mal colocada a limitação cultural de Hanna (e principalmente sua vergonha narcisista) como pivô das atitudes e opções que tomou ao longo de sua vida e em seu julgamento: esta limitação seria um quase-álibi para ações (e omissões) no “cargo” que ocupara durante o nazismo? Ela seria talvez uma mulher “simples”, “rude”, e principalmente (?) – OH! analfabeta. E que fez “o que se esperava” dela: não favoreceu jamais qualquer possibilidade de que suas prisioneiras pudessem escapar. Mesmo que se encontrassem em situações de gravíssimo risco. Afinal, ela e as demais colegas de “profissão” já tinham que, mensalmente, “esvaziar” o campo para receber novas prisioneiras. O que era feito pela escolha por parte das seis guardas, cada uma indicando dez prisioneiras para as câmaras de gás.

    Há questões de dramaturgia insatisfatória que extrapolam a verossimilhança se pensarmos como Hanna conseguiu ocultar sua incapacidade de ler na burocracia germânica que serviu à “banalidade do mal” de assassinatos em ritmo “industrial” na Alemanha nazista. No filme, esta questão é muito mal resolvida. Assim como são irresponsáveis - por superficialidade e incompletude – as discussões sobre a letra das leis e ética que surgem entre os estudantes de Direito e o professor (Bruno Ganz, muito menos expressivo do que de hábito).

    Ficam igualmente ambíguos os impasses que surgem no interrogatório de Hanna pelo juiz que conduz o processo, quando a “ingenuidade” e incultura da personagem pode deixa a impressão de que os realizadores atenuam a gravidade das ações dela imaginadas pelo escritor. Por analogia e extensão, minimizariam o que “gente simples” fez (ou faz) contra seus semelhantes, contra a civilização, contra a moral.

    Claro que não se está pretendendo “censurar” o que venha a ser uma tentativa responsável de problematizar aquilo que talvez nunca se possa compreender totalmente sobre os horrores nazistas – e outros tantos absurdos da história da humanidade, mesmo que sem a mesma especificidade da rotina tornada “comum” (e normatizada) para a destruição de vidas “no atacado”. O que questionamos neste filme é a incompetência em levar adiante, de modo sério e consequente, uma proposta que parece ter sido maior do que as pernas do roteiro e da direção, a ponto de deixar no ar idéias provavelmente (supomos) contrárias às pretensões de gente com o currículo do produtor e cineasta Sidney Pollack. Ou será que “vale tudo” para chamar a atenção com temas “diferentes” desenvolvidos de forma insólita? Em princípio, nossa impressão é que a mediocridade predominou e prejudicou os resultados. Os livros que perpassavam As Horas não funcionam bem nesta trama “de amor” (à leitura).

    Como apêndice, é importante registrar que, o romance original (lido só depois de assistir o filme) deixará a versão para as telas em ainda pior situação: não sob um ponto de vista meramente “comparativo” entre duas manifestações artísticas diferentes – o que jamais deve guiar a avaliação de cada forma de expressão isolada com suas especificidades. O que cabe ressaltar é que o livro consegue ser algo menos insatisfatório na discussão moral do tema abordado. Embora pareça ser igualmente um produto pobre e de terceira linha do ponto de vista literário; ou seja, também tem mais ambição e pretensão do que capacidade de atingir resultados em um patamar de seriedade e responsabilidade.

    Com esta impressão o que se quer é questionar o que seria um “bom roteiro adaptado”, categoria de premiações hollywoodianas. Um roteiro apreciável é um roteiro apreciável, inteiramente à parte do fato de que seu argumento essencial tenha origem em livros ou peças teatrais. Mas aqui, o premiado David Hare conseguiu um péssimo resultado, tanto do ponto de vista do roteiro que vemos na tela, como – pior ainda – em relação à fonte original. Incrível ser do mesmo escritor que roteirizou As Horas - goste-se ou não do filme anterior da dupla de cineasta e roteirista, goste-se ou não do romance de Cunningham: a versão para as telas era eficiente em si mesma e na transposição de uma linguagem para outra. Daí a nossa surpresa com a ruindade deste O Leitor. Com toda a mediocridade do romance, percebe-se a busca de um relato direto e sem tanta ênfase emocional. O autor se esforça para levar adiante uma discussão complexa, e - mesmo que insatisfatória – traz um pouco mais de complexidade do que filme e roteiro (não) conseguem. Basta comparar a opção do filme na cena final melosa de um pai que resolve, enfim “abrir-se” para a filha, contando a história de sua vida que acabamos de ver. Pobre filha!

    Incompetente como cinema, carece de palavras explícitas para deixar alguns de seus “recados” que roteirização, filmagem e desempenhos não conseguiram transmitir: é apenas no diálogo entre Ralph Fiennes e Lena Olin, na vigésima-quinta hora, que vai ser sugerido “o mal” que Hanna teria causado a Michael como extensão (ainda que relativamente atenuada) do mesmo mal que Hanna causava por sua “idiotice moral” como agente nazista indiferente a princípios éticos mínimos. Ou se trata de uma crítica a algo que hoje em dia “tem que ser” execrado como pedofilia: mulher de trinta transando com garotão de 15 para 16 anos?

    Para concluir, registre-se que, por mais que se esforce, Kate Winslet não consegue a interioridade de uma mulher rude e analfabeta, não só concretamente, mas “analfabeta emocional” (e moral). Mas o que fazer com personagens que já eram artificiais em um livro que (na tradução brasileira de Pedro Süssekind, lançada pela Editors Record) traz na página 238 o seguinte trecho: “As camadas tectônicas de nossa vida descansam tão apertadas umas sobre as outras, que sempre encontramos o fato anterior no posterior, não como algo completo e realizado, mas como algo presente e vivo”.

    “Camadas tectônicas de nossa vida”!?!? Pobre tradutor: em alemão isso deve ser pior ainda de se ler! Não dá para pretender conferir o original, mesmo que pudéssemos ler em alemão. O Leitor, livro ou filme, só serve para virar a página.


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    [Aeternus:11002] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-02-10)


    - RE:RE:Foi Apenas um Sonho

    Certamente gostei bem mais do filme do que Grand Gallego, e não faço as objeções que ele destaca em sua esmerada crítica.
    O personagem-cutelo de John, uma espécie de 'Jaws'(o arqui-capanga de vilões, que surge para tirar de rota inimigos dos mafiosos, sempre a enfrentar James Bond), um quase-Frankenstein, é o impiedoso catalizador-local do subúrbio.
    Decerto poderíamos ter sutilezas como em Harold Pinter ou Brecht - cabe ao artista decidir em que campo atuará, como alocará seu talento ! - e Richard Yates optou(ou foi optado...muitas vezes, ao escrever, a Besta que em nós reside predomina soberana...)pelo que é agudo, cortante, abrupto.Além dos porretaços de John, o porretaço da gravidez indesejada, o porretaço da promoção inesperada, and so and so and so...

    (só sigam lendo os que já assistiram o filme ou não pretendem assisti-lo ! )
    Eu gelei quando a suavidade da promoção caiu como um bálsamo para o Frank, pois já antevi o desespero&morte da April.Ao contrário de seu infantilóide husband, ela é determinadíssima.Não criativa, mas determinadíssima ! Virginiana, probably...postura salta-pocinhas para evitar dar ou tomar porrada, mas quando o pavio acende...
    É assim que, decidido o suicídio, ela encontra toda a tranquilidade do mundo em seu pathos, uma espécie de superioridade diante da aflição diferente da que Camus prega, ao contemplar o Absurdo.Aqui é a superioridade inigualável dos que já morreram mas suas carcaças seguem perambulando pelaí, a superioridade que permite o café-da-manhã dos sonhos de Frank, a superioridade que a fará enfiar na alma a borracha definitiva e suficiente para apagar passado&presente&futuro.

    Além de Kate-Soberba, perfilo com a admiração de Jansy pela marcação de Leo DiCaprio.Assim como dos excelentes coadjuvas.Adoro o desenho que o Sam Mendes faz da solidão acachapante-não-solitária do vizinho, diante de seus filhos enfeitiçados que sequer o ouvem perguntar algo, suas soturnas caminhadas em admiração à casa dos Wheeler, culminando com a trepada-purgação com seu cristalino objeto de desejo.Haja purgação, Djízas Chráisti...
    (last but not least)É a primeira vez que os cigarros são um dos personagens em um filme, até onde recordo.Como se fuma em 'Revolutionary Road' ! Droga temporizadora-balizadora, o media-dor emocional eleito por nove entre dez...




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    [Aeternus:11003] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-10)


    - RE:RE:RE:Foi Apenas um Sonho, coments by Jansy

    Florião lembrou da onipresença do cigarro neste filme dos anos cinquenta. Ontem estava admirando um livro com cartuns do Sempé, atualíssimos. Cenas de rua detalhadíssimas com moças amparando idosas, casais namorando, velhos carregando pastas para o trabalho, passarinhos, conhecidos acenando uns pros outros. Tive a pachorra de contar quantas pessoas estavam digitando ou já conversando no celular naquela ampla cena de rua. Havia oito. Gente fumando tem muito mais. E o mesmo nos outros cartuns. Num destes ele representa um restaurante em Nova Iorque sendo isolado pelos bombeiros porque alguém acendeu um cigarro numa mesa e o panico foi total.  Paris continua moderna e, ao mesmo tempo, bem anos-cinquenta. Como Madrid. As pessoas conversam, riem felizes, caminham, carregam ramalhetes de flores, se olham nos olhos. Nos desenhos delicados e ondulantes de Sempé o clima é o da vida cotidiana sendo aproveitada ao máximo e com suas emoções cambiantes prontas para serem ativadas pelo entorno.

    Depois de ler vários romances, de autores bem dispares, que conseguiam representar algo talvez menos bem humorado que os cenários de Sempé, mas todos detalhando uma cena de rua, uma paisagem, uma árvore que fazia sentido no livro e na geografia do planeta naquele dado instante, tentei imaginar como situaria Brasília. Não achei ainda o ponto para falar do equivalente de cercas nos jardins, portões, janelas com cortinas. Para destacar uma floração ou um pedaço de chão, a chaminé (haha) de uma casa ou o calçamento. Tudo que é genérico na cidade (fora as farmácias), sub-estrutura ( desenho, ruas, lago, construções) tem uma elegancia quase anonima. Se, como nas outras cidades, alguém se inspira para enfeitar a janela com  planta em latinha de azeite, porcelana de feira ou um geranio gritante (normalmente, os espaços das janelas servem para expulsar bicicletas ou colchões de bebê velhos) o cenário não acolhe a invenção que fica quebrando a pureza das linhas meio corroidas do concreto barato. A contribuição individual se choca com o plano mais amplo. Os gramados são um bálsamo para os olhos, os ipês floridos em amarelo e quaresmas em roxo ( as arvores se adiantaram em dois meses neste ano) e o céu é sempre uma festa. Ainda assim, de genuino, de vivo se somando ao que é estático, tem pouca coisa. As calçadas são desiguais, ao gosto do freguês que mesmo assim não capricha. Adoro Brasília, mas não sei como pegar algo da sua alma e a dos nativos, numa descrição que faça sentido como nas cenas dos livros sobre outros locais e países. É um desafio, portanto, que só recentemente decidi enfrentar: qual é a alma, a coisa única que afeta a todos, nesta cidade?   O burity faz sentido numa praça? O movimento na rodoviária é próprio a ela? Como são os que caminham nas vias ou pistas (meus filhos quando pequenos não usavam a palavra "rua") do Plano Piloto? Qual lojista fica na porta do estabelecimento? Qual o elo comum entre os que chegam diariamente dos satélites da cidade e seus habitantes?   Descubro-me procurando estereótipos já contados pelos outros, sem saber como achar minha perspectiva. Dá para contar historinha de caminhadas no meu bairro, dos segredos de uma casa azul-lilás, dos guarda-sois de um bar, dos temperos na feira do Guará ( é onde mato saudades do Rio) mas falta algo que não sei dizer o que é.


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    [Aeternus:11004] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-10)


    - RE:RE:RE:Foi Apenas um Sonho

    Gallego escreve:

    O texto do Marcos sobre “Foi Apenas um Sonho” me lembrou o e-mail de um colega psicanalista que me escreveu dizendo que o filme lhe pareceu “uma pequena história da Psiquiatria da época com questões atuais.”

    Explicitava em seguida:

    “Um dos estudos psiquiátricos clássicos sobre depressão trata das donas de casas desse período, dizendo que muito do que se via como “tédio” e “insatisfação” com o estilo de vida de senhoras mães-de-família caseiras encobriria sintomas depressivos (algo parecido está em uma das personagens de “As Horas”).

    Mas até onde iria o vazio existencial e onde começaria a depressão?

    O quanto esta última alimentaria o vazio existencial?

    “Tratar” o vazio existencial preveniria a depressão e o suicídio?

    Questão subjacente: medicação ou terapia?

    Frank Wheeler diz para April que ela precisa procurar um terapeuta e que o dinheiro da promoção no trabalho serviria inclusive para pagar o tratamento. Esta aí, em uma breve cena, um retrato do boom da Psicanálise dos anos 1950/60, com tudo o que representou nesse imaginário de “encontro consigo mesmo”, de “adequação à miséria cotidiana” e de “revolução libertária individual” (lembrar a próxima entrada das mulheres no mundo dos negócios, por exemplo; inicialmente como secretárias – lembram o “tcha-tcha-tcha de las secreta-a-a-arias, tcha-tcha-tcha de las taquimecanógrafas...”?).

    Temos um casal falso-self e o começo da discussão, na psicanálise americana do que seria um projeto nuclear de self.

    E tem o louco que fala o que pensa, e porque estaria “mais próximo do sensorial”, diria “a verdade”. (Uma visão idílica da psicose que por outro lado terá ajudado bastante a um que se desse um tratamento mais humanizado aos pacientes)."

     

    DE certa forma este email aflorou em mim a leitura mais instrumentada pelo ponto de vista psicanalítico, vendo April como atuando seu self superestimado (compensatório, talvez) - uma forma de narcisismo mal-integrado do qual ela demonstra ter alguma noção quando diz: "Nós achamos que somos 'especiais'. Mas não somos: somos iguais a todo mundo".

    Na minha resneha para o site de críticas de filmes destaquei esta passagem sem interpretá-la com viés mais psicanalítico.

    Mas em um espaço diverso daquele, por exemplo, se eu fosse esrcever para uma revista de Psicanálise, eu partiria desse ponto e desenvolveria no sentido apontado por Heinz Kohut  quanto a ambições e metas mal-estruturadas.

    Isto poderia se dar pela permanência da estrutura arcaica (infantil) do chamado “self grandioso” não-transformado no sentido adulto e muito menos integrado à personalidade de April.

    Mas também poderíamos perceber sucedâneos de uma “imago parental idealizada” (outra estrutura arcaica infantil), imago transferida para o marido - e até mesmo para [ela-e-ele], o casal jovem e bonito que eles formavam juntos, uma espécie de "terceiro" self. 

    Seria como se existissem 3 "selves": o dela, o dele e um terceiro (que meu amigo considerou um “falso self”) formado por uma imagem idealizada deles dois juntos como que formando uma terceira entidade. Esta formação é que se mostrava a menos sólida, revelando, antes do que poderiam perceber em si próprios em separado, as fissuras e fragmentações enormes que viviam sem muita clareza consciente.

    A fragmentação fica evidente nas brigas e palavras cortantes, impulsivas, cruéis de um para o outro - quando o outro encarnava a decepção, a frustração, o equívoco sobre eles mesmos em dupla, ameaçando o "falso self" individual que, apavorado, partia para a agressão, projetando, como se fossem exclusivamente do outro as suas próprias falhas.

    Outro abalo sísmico ameaçador: desmascarar o "falso self" do outro, sem nada para vivenciar como verdadeiro.

    A estrutura de “self grandioso” teria levado April a ambicionar a meta teatral: meta desmedida (hybris, desmesura), sem base para tal, porque sem dotação nem talento. (Aliás, a busca de profissões como atriz, modelo, etc, muitas vezes se baseia mais em necessidades narcísicas dese tipo sem que haja de fato inclinação, vocação, talento, “physique de rôle” para não falar em capaciudade psicológica de agüentar a exposição quando mal-sucedida, as críticas, etc etc, E o suceso, que pode ser mais mortal do que o fracasso, vide vidas famosas de Marylins, Elvis e outros)

    Mais adiante, no projeto irrealista "Vamos para Paris! Ôba!", ela é quem seria a todo-poderosa que sustentaria a família para o marido "ser quem ele é", para propiciar a ele que pudesse "descobrir-se". Pois ele era, aos olhos dela, um a espécie de herdeiro (decretado pelas fantasias não-conscientes dela) de uma imagem idealizadora dos pais e/ou cuidadores, obviamente infantil; só que sem sustentação nem comprovação alguma na realidade de quem ele era..

    Não havia o arco de tensão favorável para harmonizar, de um lado, as aspirações (ou ambições, mas sem a conotação pejorativa comumente associada ao termo “ambição”), e, de outro, os ideais. Para isso se dar é preciso uma base harmônica de:

    - talentos inatos (que ela não tinha onde gostaria ter: como atriz, por exemplo)

    - e habilidades desenvolvidas (ele não desenvolveu praticamente nada: é estacionário, conformista, conformado em reclamar do emprego, mas ficando ali, paradinho, gostando de reclamar do que faz, mas no fundo, no fundo, pedindo para que o deixem quieto, apenas reclamando. Mas ela não o deixa quieto e estica a corda...que vai arrebentar do lado mais fraco, como sempre.)

    Sem dotações de talentos específicos para ela poder modular aspirações e ideais realistas (em outras palavras: princípio do prazer versus princípio de realidade), a frustração a deixa mais deprimida: ela reage maniacamente ("Paris"!) para depois cair na depressão do tipo "depleção" de self, depleção de conteúdos, sentindo-se esvaziada sem suas fantasias irrealistas.

    [NÃO LEIAM O QUE SE SEGUE SE NÃO VIRAM O FILME]

    Ela atua o esvaziamento ao "esvaziar o útero", uma tentativa de aborto onde se arrisca a morrer. E morre, como que em um suicídio mal-disfarçado. Tragédia burguesa.

    Antes, a trepada com o vizinho já poderia ser uma tentativa desesperada de se sentir "mais viva" através do sexo, da transgressão, da atuação no corpo, no sensorial. Para não falar da “vingança” contra o maridinho. Um lance rodriguiano de adultério culpado pelos ideais burgueses dando passagem ao melodrama, ao drama, à tragédia burguesa mesmo.

    Nesse sentido "burguês" meu amigo tocou em pontos que eu não havia pensado: uma questão, digamos, psicossocial sobre a época, sobre as donas-de-casa que, em breve, entrariam no mercado de trabalho, por exemplo, como ela idealiza para Paris, sendo secretária.

    A saída das mulheres do papel exclusivo de donas-de-casa e mães-de-família foi uma das maiores mudanças na vida da classe média e na estrutura familiar. Até meus 5, 6 anos, eu morava numa casa de vila, que era como que um "bairro", um "condomínio" (só para vocês entenderem a arquitetura da "vila": era muito grande, uma rua fechada que se abria em forma de Y com 40 casas, desde pequenas e grudadas, até casas em centro de terreno com dois andares. Os braços do Y eram sem saída.) Pois bem, o que importa: apenas duas senhoras trabalhavam fora de casa! Entre 40 senhoras e famílias!!!!! Isso entre 1949 e 1955 ou 6. E mesmo depois, nos tempos de colégio, nas fases de ginasial e científico (entre 1961 e 1967) as mães dos meus amigos mais próximos não trabalhavam fora de casa. Minha mãe já estava até se aposentando! Pois havia se casado tarde para aqueles tempos (com 36 ou 37 anos) e precisara se sustentar por questões familiares: o pai dela, meu avô, passou por altos bem altos e baixos bem baixos na vida, e ela teve que ir à luta e prosseguiu depois de casada, embora se ressentisse muito disso. Ela tinha 5 irmãos  e 4 irmãs (5 mulheres, com ela). Das 5 mulheres, uma delas foi ser dentista (da segunda turma de Odontolgia que teve mulheres na UFRJ), mas nenhuma das outras, mais velhas ou mais novas do que minha mãe trabalhou fora de casa. Exceto a dentista e minha mãe.

    A maioria das mulheres que trabalhavam fora no Rio de Janeiro nos anos 1940 e 1950 e mesmo 1960 eram solteiras (ou "desquitadas"). Mulher casada com filho não trabalhava fora e minha mãe, na verdade, se ressentia de não ser apenas dona de casa e mãe.

    Exceção feita às professoras de curso primário que vinham da Escola Normal. Trabalho um tanto “maternal” e adequadamente de “meio-expediente”: ou só de manhã, ou só de tarde.

     Dizem que nos EUA o alcoolismo foi descoberto como tendo altos índices entre donas-de-casa nos anos 1950 e foi se revelando como quase uma “epidemia”. Os maridos bebiam na happy hour, nas reuniões sociais. As esposas bebiam sozinhas, durante as tardes, em casa: um licorzinho aqui (docinho), uma coca-cola com gim ou vodka ali... um vazio enorme sendo "preenchido" pela bebida. E não sendo.

     


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    [Aeternus:11005] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-02-10)


    - RE:Foi Apenas um Sonho / a Entidade

    (...)Seria como se existissem 3 "selves": o dela, o dele e um terceiro (que meu amigo considerou um “falso self”) formado por uma imagem idealizada deles dois juntos como que formando uma terceira entidade. Esta formação é que se mostrava a menos sólida, revelando, antes do que poderiam perceber em si próprios em separado, as fissuras e fragmentações enormes que viviam sem muita clareza consciente.
    Excelentes comments ! Sim, creio que em toda relação amorosa constituída&instituída, papel passado ou não, existe um '3ºself'.Pessoalmente o chamo de 'entidade', um conceito meu : trata-se do summon up do que é o casal-enquanto-amálgama, seus sonhos, aspirações, rusgas, desejos, respiros e conluios.E não considero a entidade um falso self, ainda que ela possa ser estapafúrdia, gênero exclusivista/sufocante ou repressor/conformista.Sua sobrevivência está ligada à capacidade do par de vivenciar a energia inerente ao processo.Física Quântica.Para tal empreitada, contamos com nossas forças e virtudes naturais, e como quer Woody Allen, com a sorte.Ou com Deus.
    Como tem vida própria, a entidade é um corpo mutante.Como nós, tem seus caprichos e mumunhas...Não afirmo que descaredito da possibilidade de relações french-charmants, aquele negócio de dormir em aposentos distintos, de marcar encontro&tals quando se 'está-a-fim', mas não é meu modo de amar ou conceber o amor, tout court.Deixo a palavra aqui aos que nisto crêm.

    Nossa April.Sim, acredito no sonho dela.Na Bolsa de Apostas de Londres apostaria minhas fichas na ida dela praládavidinhasuburba, taí.Ela é determinadíssima, como frisei, sabe inclusive que é medíocre como atriz, aceitou o limite e encontrou outro.
    Há alguns anos atrás, um filme interessante e belo chamado 'Salt on Your Skin' trazia uma história que tangencia alguns pontos essa de 'Revolutionary Road'.Ali Paris borbulhava, foi visitada pelo par amoroso ao vivo e a cores.Desfeito, o par estrutura suas vidas com novos parceiros.Há um reencontro anos após, meio por acaso, seguido de uma viagem-escapadinha a um paraíso tropical, onde fazem um inventário de si mesmos.A personagem de Greta Scacchi é culta, intelectualizada, ela está 'bem casada' com um professor alemão radicado.Ele é um rude pescador, sensível no terreno amoroso.Ali a entidade não encontrou chão :o lugar-no-mundo deles era o fortuito.Cry for me, Argentina :como em 'R.R.', ele morre vítima de um câncer qualquer da vida, uma célula louca que decide sair do sério e cumprir sua missão de acabar de vez com qualquer ilusão.

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    [Aeternus:11006] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-10)


    - era apenas um sonho... jansy escreve

    O título do filme em Portugues tem uma ambiguidade encantadora: o que no filme foi apenas um sonho, Paris ou a vida que o casal levava na casinha deles?

    Não faria diagnósticos para depressão da mulher ou delírio ou falso self do homem em relação ao filme. A doença, ali, é muito mais um mal social daquela época. Conheci muitas mulheres americanas que estavam melhor inseridas na tessitura social e pagavam o preço para terem vantagens em troca. Não foi o caso de April, uma espécie de estranha no ninho. Uma abordagem socio-psicológica caberia bem. Também tive contato com muitas moças que foram educadas de modo primoroso, sem ser tipo "espera-marido" mas, também, sem ser para se tornarem profissionais em algo especial e que, casadas, ficaram como April. Perderam vínculos com colegas, moravam distantes da família, não tinham expressão social e viviam para o lar dissociadas de toda experiencia academica anterior. No caso de April havia uma matriz depressiva, sem dúvida, mas não era generalizável para a depressão das mulheres dos anos cinquenta, era dela mesma. O genérico era o que, do mundo, exacerbava a depressão que lhe era peculiar. O marido era um falastrão bobão, como tantos. 


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    [Aeternus:11007] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-10)


    - RE:era apenas um sonho... jansy escreve

    Ainda Jansy... Desculpem entrar de trator na conversa dos dois, sem muito atentar para o assunto de modo mais pausado, profundo. Tinha apenas cinco minutos e queria escrever! In vino veritas e, talvez, na pressa, alguma verdade apareceu sem querer porque adotei uma postura feminina, aflita para apoiar April até na antipática fraqueza invejosa dela. Seu desamparo, ao ver-se grávida e frustrada no projeto de Paris-aborto, de conviver com as contradições do marido-criança-careta me tocou fundo no coração. April não tinha a quem recorrer para se sustentar sem inventar um falso-self. Ela foi adotando o da cultura e, de repente, isto se desmanchou e ela começou a enxergar melhor. A enfatizar o amor pelo marido porque estava acabado e ela não tinha outra ocupação senão aquela. Comecei o dia falando do que não sabia falar sobre Brasília, sobre a ecomancia de uma cidade toda orientada pelo compasso dos navegadores, sobre o sol que ofusca quem vai da periferia para o centro na manhã e quem retorna pra casa à noite, sobre saber sempre onde fica leste e oeste. Uma falta de continuidade em algo que é contínuo e igual. Frequento a mesma padaria e mercearia do bairro, que tem os mesmos donos, há trinta anos. Vi crescer o rapaz do restaurante Chinês da cidade. Os lavadores de carro do prédio onde trabalho não mudaram também há vinte anos. Todos se conhecem e, ao mesmo tempo, isso não cria um certo "grude" com a paisagem. Pra mim. Outros brasilienses ( e meus filhos e parte dos netos já nasceram aqui, é a terra deles!)saberão contar da sua cidade. Creio que minha culpa advém de esperar reconhecer um equivalente da Trafalgar Square, do Big Ben ou das catedrais francesas próximas à torre Eiffel, de um mercado marroquino, de uma praia carioca com os vendedores de rosquinhas "Globo" ou Matte Leão geladinho. O problema é todo meu: não achei um nicho na cidade. E esta demanda um discurso novo pra dar conta do que nela pulsa. Não posso adaptar nada como existem nos romances antigos que venho lendo. A visada desta cidade requer um estilo próprio e, talvez, um vocabulário especial. O primeiro substantivo ( e talvez o verbo associado) que me veio era em ingles e não sei traduzir. Varredor de rua é "sweep", ou limpador de chaminés. Sweep tem algo com limpar e varrer, mas é mais do que isso. É um risco no horizonte que se imita com um gesto das mãos. Brasília é uma cidade que tem sweep, seja o que isto for. De novo com apenas dez minutos, digito correndo e ouço o tráfego passar e passar e passar. Não se buzina aqui, mas o ruído do movimento dos carros e onibus tem tão pouco obstáculo que parece recorte de chicote cujo gemido dura até sumir devagarzinho, sendo tomado pelas ondas dos seguintes. O começo do dia às vezes pode ser atentado pelo roncar de uma manada de carros se aproximando de um outro local, todos distantes de onde estou. Aqui tem vento sempre e só o notei quando não conseguia nunca uma foto em espelho com as margens refletidas sem distorções. E sabia do vento, gosto deste vento que dobra as arvores que ainda restam dos tempos em que esta área era pasto de uma fazenda. Gosto dos incendios que queimam as crostas destas mesmas árvores que tem uma proteção como se fosse uma rolha em volta para não serem destruídas. Até suas folhas miudas discrepam das tropicais como as conheço, tem um viço secreto e debochado. Aqui até toco no mato pode dar flores ou coquinho. E a April? Lá sei, devo estar em fevereiro ainda.

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    [Aeternus:11011] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-13)


    - "Doubt"

    O filme "Doubt", com Merryl Streep e Philip Seymour  me agradou bastante, apesar de ter gerado tensão desde o primeiro quadro até a última ceninha. Fiquei desapontada com a atuação de Seymour porque a gente sentia todo tempo que era um ator sendo bom ator, não dava pra entrar no personagem dele.  Ao mesmo tempo, esta falta de identificação acabou operando como ponto positivo quanto ao filme. O roteiro traz questões de moralidade, religião, firmeza de princípios, inocencia e experiencia e compaixão que não são tratadas didáticamente, mas mostradas como surgem na vida. Assim, não se consegue achar ninguém agindo certo e o outro errado, com razão ou sem razão. Cada um tem suas questões,  no filme e o espectador tem as dele, é quase pressionado a encontrar as próprias culpas e respostas. Achei isso raro, excepcional até quanto aos filmes que vem sendo mostrados e que tem sempre uma ideologia definida neles embutida.

    Assim, mesmo o filme tendo falhado em uma série de pontos, só esta indefinição das respostas e intenções valeu aos meus olhos. Nossa, até gostei de ouvir sermão de padre!

     


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    [Aeternus:11013] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-13)


    - RE:Dúvida

    Gallego diz: não concordo com Jansy sobre Philip Seymour Hoffman. Achei o desempenho do ator sensacional, ele confirma mais uma vez que é um monstro. Mas o desempenho surpreendente é de uma atriz negra chamada Viola Davis que tem apenas UMA cena, antológica, em um longo diálogo com Meryl Streep - que é fogo de ser "enfrentada", pois é outro monstro de interpretação - mas que não resolve bem sua fala final (que já é ruim em si mesma, um momento do texto óbvio, enfático, quase derruba o filme). Também não gostei dos excessos de "clima": por exemplo, uma cena dramática é sublinhada por música (demais) e ventania, com a câmera "subindo". Como se o filme não confiasse nos seus atores e no seu texto. E o diretor é o autor do texto original para teatro!

    Achei que o ator (Philip) que faz o padre formidável em deixar a dúvida no ar.
    Fantástica, a atriz negra que faz a mãe do menino que talvez tenha sofrido sedução por parte do padre (ou não: seria apenas um cuidado especial do padre para com o primeiro menino negro de uma escola americana em 1963?)... enfim: a mãe do menino desconcerta tudo: a freira obsessiva que age contra o padre sem ter provas - e o público.

    O filme é classicamente solene - como pede a liturgia católica quando não é brega demais.
    E tem um bom gancho ao caracterizar a freira como "tradicional", mas capaz de suspeitar o que na época nem se poderia aventar e hoje se sabe que rolava adoidado: pedofilia, - e o padre como "progressista" (mas, quem sabe? talvez transgressor?).
    É um detalhe interessante a freira ter sido casada antes de entrar para  vida religiosa,depois de enviuvar.

    Mas como escreveu Leonardo Luiz Ferreira no site www.criticos.com.br, "o tema da pedofilia parece se diluir em meio a uma pendenga pessoal. Ao salientar a sua presença, o cineasta John Patrick destitui seu material da pujança do texto escrito. Dessa forma, chama somente a atenção para uma investigação interna a respeito do envolvimento entre um padre e um aluno enquanto que Dúvida versaria mesmo sobre a identidade e a fé em cada ato ou pensamento de um indivíduo. E não em tentativas de espalhar pistas (como no plano em que o padre abraça carinhosamente um aluno) e procurar culpados."

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    [Aeternus:11014] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-14)


    - RE:RE:Dúvida

    Oba oba... discordamos em quase tudo!

    Não coloco em dúvida a qualidade de Seymour Hoffman e lembro que ganhou Oscar por "Capote" e está sensacional numa das variantes de Hannibal Canibal, e perfeito num filme sobre "Liza".. Aplico sobre ele o que um dia, há vinte anos, disse pro Sergio Britto, como um cego numa peça de Beckett: "cego não deixa a gente perceber que se sente sendo bonito."  Havia um tonus no rosto do S.Britto, uma resposta inconsciente a sensação de ser admirado, que transparecia e o atrapalhava na personificação do Beckett. Convivi com cegos quando era ledora no Instituto Benjamim Constant e eles usam certos músculos faciais e posturais de modo flácido.  Então, Seymour Hoffmann deixou passar indícios de que se sabia ótimo. Imperdoável, pra mim.

    A atriz negra estava excelente até as últimas falas, talvez a falha no script apontada por Gallego seja responsável. Aquele choro de nariz pingando.  Ela estava mais dentro do papel que o Seymour Hoffman.

    Adorei a ventania, as lampadas estourando. Um detalhe de coincidencias verossímeis, projeção (a primeira vez a freira-mor culpa a mocinha disso) e folhas como raio caindo no Fradim. O ambiente da rua, da mudança de estações, do natal e a escola, corredores e patio, com a freira tirana e os jovens felizes... muito bem feito.

    Entendi que o padre teve irregularidades pedófilas no passado e conseguiu arrepender-se e se segurar dali em diante, feita a confissão com contrição perfeita. Na história ele protege o garoto, isto apenas, se identifica com coisas dele ( como a mãe reconhece)  e até dá espelho e bailarina (detalhe sutil! excelente) como brinquedinho quando o menino confessa que pretende ser padre ao crescer ( padre é quem é rejeitado pelas mulheres, numa brincadeirinha do Seymour P. ..) Muito boa história, muito boa mesmo. Ele e a freira falando dos pecados e da fé, muito bom. Se ambos tem fé, confessaram os pecados e pagaram a penitencia, estarão como iguais... E a freira, confrontada com isto, até começa aceitando a igualdade pelo perdão divino até que... diz que não são iguais coisa nenhuma. O timing é perfeito nesta cena. Ambos, diante da fé, estão perdoados e são semelhantes aos olhos de Deus. Ele, diante do mundo, é culpado : os dois são diferentes aos olhos da freira.  

    A dúvida, que abre o filme e que encerra o filme, é um belo tema.

    Escrevendo vou me entusiasmando. Streep está ótima, mas as linhas que deram pra ela são as melhores mesmo.  Os dois, padre e freira nunca duvidam de Deus, isto também achei precioso. Duvidam da crença neles mesmos ou da sua aposta nos outros.  A diferença entre fé religiosa e fé nos homens está pontuada direitinho.


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    [Aeternus:11015] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-14)


    - Doubt, resposta do Gallego

    Advertência do Gallego: Só leia se já viu o filme. Pode estragar as surpresas interessantes do enredo de "Dúvida"

    Dito isso, vamos lá:

    Não sei se importa tanto a dúvida se o padre moderninho assediou ou não o menino (negro ainda por cima, em 1963, o primeiro e ainda único negro naquela escola norteamericana - o que é um bom detalhe dramatúrgico a mais).
    Nesse sentido é que a interpretação do Philip Seymour Hoffman me pareceu brilhante sobre o que importa no verdadeiro "assédio" (outra forma de assédio) da freira que teme que ele esteja seduzindo um garoto da escola que ela dirige.
    O texto tem um excesso de detalhes prós e contra para não sabermos "o que foi que houve de fato" e alguns detalhes são meio fora de foco. Por exemplo, as unhas tratadas do padre: me parece bobo. Puxa para sugerir que o padre é gay? Talvez lános States em 1963. Aqui no Brasil, em 1968, as meninas frescas e riquinhas da Faculdade de Medicina achavam "cafona" homem que cuidava das unhas. Bobagens, lá e cá. (Eu tenho pânico de deixar cortarem cutícula de unha, mas nada contra quem aguenta)
    Já o detalhe do brinquedinho de uma bailarina de plástico com uma base imantada e um outro imã em um mini-espelho que faz a bailarina rodopiar e se afastar ou se aproximar do espelho é bem interessante: brinquedinho "ingênuo"? ou "significativo"?

    Também gosto da piada do padre (esportista) conversando com os garotos sobre festinhas e “tirar as meninas para dançar”. “E se ela não aceitar?”, pergunta um garoto com clássica insegurança masculina quando sofremos rejeição. O padre diz: “Chame outra”. Insiste o menino: “Mas se nenhuma quiser dançar com você?” – “Você vai ser padre”. Ótima dramaturgia em matéria de diálogo "ameno" e boa sugestão de algo que sim, ou não, ou talvez: sem peso de “significar tanto” alguma coisa.

    O velho Machado (sempre ele) já sabia que não importava se Capitu traiu Bentinho ou não. Talvez nem Machado soubesse: importava é que Bentinho tivesse certeza de ter sido traído por Capitu COM ESCOBAR, mas sem elementos sólidos para tal certeza.
    Se de fato, Escobar transava com Capitu e ela engravidou dele, dando a luz a Ezequiel, isso era detalhe barroco. O que importa é que, tendo rolado algo, ou não, Bentinho tinha certeza de que.


    O filme "Dúvida" (e talvez a peça original que não conheço, só foi montada em SP) fica menos forte perto da sabedoria e ironia machadianas. Compreende-se, o tema é considerado bem grave: um adulto com poder e posição de privilégio (um padre, educador - como poderia ser um médico ou psicoterapeuta) teria seduzido uma criança de seus 12 anos, no despertar dos hormônios pré-adolescentes?

    Concordo com meu amigo Leonardo (de quem quase sempre discordo: os filmes que ele gosta, eu não; e vice-versa) que há excesso de pistas e sugestões pró-pedofilia (como o padre abraçando o menino no corredor depois que outro metido a esperto derrubou os cadernos do escurinho no chão) ou não necessariamente (o mesmo gesto poderia ser um acolhimento e apoio corajosos por parte do padre – e nada mais). Enquanto o que melhor define a dúvida são os diálogos bem desenvolvidos e bem interpretados: o duelo entre a freira Meryl Streep e o padre Seymour Hoffman merecem entrar em cenas de antologias de desempenhos. Eles vão além do que já sabemos que ele são capazes.


    Mas, de fato, há coisas que me irritaram um pouco: perto do final, quando o padre faz seu sermão de “até logo”, o tal menino metido a esperto, com cara de malandrinho dá um sorrisinho “significativo”. De que? De que sabe mais do que o padre poderia confessar? Lembremos que esse rapazola parece um pouco mais velho (mais avançado na puberdade?), e que o nariz dele sangra de vez em quando e que este sangramento é um dos truques do roteiro para dizer e não dizer nada , mas sugerir tudo ou nada. Não sei se gosto, acho que não.
    Da mesma forma (ou diferente) um dos argumentos da freira para suspeitar do padre é que ela teria visto da janela de seu gabinete o padre segurar este menino esperto pelos punhos e o garoto se livrar. Esta cena não é vista pelo espectador (vi o filme 2 vezes e fui conferir: a gente vê que a janela da freira é lugar de observação dela, metida a “moita” que tudo vê, escondida ou não). Isso é interessante porque o padre não a desdiz. Fica como fato que ambos sabem ter ocorrido.

    Por outro lado, ele diz coisas que pareceriam uma confissão com pedido de silêncio corporativo (ou as legendas em português sugerem isso). Mas nega que tenha feito qualquer coisa errada no caso em questão. Terá feito antes e agora segurou a libido? Aí eu acho dif´cil, discordadno da hipótese de Jansy . A compulsão da pedofilia é um horror, ao que eu saiba ou imagine pelo que leio e escuto falarem. Mas não sei se é isso que importa: rolou, não rolou, rolva, deixou de rolar...


    Enfim, por essas e outras que o diálogo mais forte e desconcertante é o da mãe com a freira porque a mãe não quer que levantem lebre alguma sobre o filho dela. Pouco se lhe dá se está rolando isso ou aquilo: ela sugere saber que o filho tem "problemas" mas querer respeitar o que ela chama de “natureza” do filho. Isso remete à primeira fala do menino negro para um colega branco: “Você acha que eu estou gordo?” (sem que esteja exatamente gordo). Que “natureza” seria essa? “Mariquinhas”? “Mulherzinha?” Uma inclinação homossexual já percebida pela mãe? Ou uma natureza mais fraca do que se espera de um menino sobre o qual se deseja que seja bem “macho”? Por que o pai espancava o garoto? Meninos sensíveis são confundidos com “efeminados” (ou mesmo "viados"), sem que necessariamente sejam uma coisa ou outra.

    Neste sentido é que o embate entre a freira e a mãe é brilhante como "voltinha de roteiro" e tem efeito desconcertante. A freira entra em atitude de fúria grega perseguidora porque julga estar lutando o “bom combate”: ela tem que proteger seus alunos de padres talvez pedófilos (Ou que defender o bom nome da escola que dirige? Ou ambas as coisas). Ela não tem elementos de certeza de que tenha ocorrido algo além de uma transgressão infantil (o menino teria bebido vinho da missa – ou o padre tentou embebedar o garoto?). Ela é uma obsessiva excessivamente escrupulosa? Tem fantasias perversas? Vê jacaré em baixo da cama? Existe jacaré sob a cama? Hoje se sabe o que rolava de perversão em colégios masculinos dirigidos por padres, mas na época era impensável acusar um padre de pedofilia. Como ela pensa nisso com tanta ênfase?
    Um detalhe enriquecedor: ela já foi casada, ela conheceu a vida sexual (boa? ruim?), mas em princípio não seria uma virgenzinha histérica como a preceptora de “A Outra Volta do Parafuso” de Henry James vendo fantasmas que querem se apossar dos corpos infantis para transarem UAU! Que fantasia mórbida, não é mesmo? (Deu excelente filme sob o título de “Os Inocentes”).
    Também não é uma menina malvada como a garota caluniadora de “Infâmia” (“Children’s Hour”) espalhando que suas professoras teriam um caso lésbico.
    Não é um marido boboca emocionalmente e edípico, aprisionado ao poder da mãe, e que agora teme ter sido chifrado pela mulher com o amigo que ele admira muito (podendo ter havido uma atração homoerótica inconsciente, totalmente reprimida como tal, e bem estudada por Freud na explicação da paranóia de ciúmes: Osujeito atenderia ao seguinte mecanismo: “Eu não amo aquele homem; quem o ama é ela”.
    Ou seja, em “Dom Casmurro”, a negação totalmente inconsciente da possível atração homossexual de Bento por Escobar, transformada em fantasia de que haja enorme atração da esposa Capitu por aquele  homem muitíssimo admirado por ele, Bento. Lembrar a cena em que ele apalpa os músculos do amigo nadador e esportista. (Mais um pouco e teríamos Alan Bates e Oliver Reed mendindo os pênis para seus personagens lutarem pelados no filme “Mulheres Aáixonadas”.).

    Voltando à freira: o que fazer para preservar um aluno cuja mãe só se importa se o menino ganhou um amigo e protetor, já que é um “negrinho” e como tal  rejeitado pela cultura racista dos EUA? Ela só quer que o filho conclua o ginasial (o primeiro grau de 8 anos) em um colégio “de nome” para ir para uma High School melhor e quem sabe uma boa Faculdade, etc etc. Se o garoto é ou vai se revelar gay? Que importa?
    Não sei se tal mãe negra existiria nos EUA em 1963. Mas dramaturgicamente é importante o pé no freio que ela tenta colocar na atitude da freira: “Espero que estejamos do mesmo lado, mas não estou certa disso”, ela diz para a surpresa Maryl Streep, encerrando uma das 3 ou 4 grandes cenas do filme (que devem ser os grandes diálogos da peça original que - li hoje - só tem os 4 personagens adultos no palco: a freira, o padre, a freirinha que percebe que o garoto está com hálito de álcool e a mãe do garoto).

    Não gostei do exagero de uma linguagem e recursos da tradição do romantismo ou simbolimso usando a natureza para sublinhar os momentos dramáticos e diálogos intensos (as ventanias e folhas voando, em horas dramáticas; pode ser bonito, mas abusram do recurso); até a tecnologia dá o ar de sua graça: a lâmpada do gabinete da freira pisca ou queima por mais de uma vez em momentos de tensão; o telefone toca atrapalhando a conversa...

    Acho que eu prefiro recursos menos explícitos e menos didáticos. Estes recursos "levam" o espectador "pela mão" com manipulação emocional da platéia. Mas não nego que funcionem os recursos, na medida em que vamos do outono ao inverno - e as estações estão muito bem fotografadas pelo Roger Deakins que é outro monstro. Só para dar uma dica: ele fotografou, além de “Dúvida”: o contemporâneo “Foi apenas um Sonho” em tons de cores bem menos fortes do que “Dúvida”; e em admirável preto-e-branco o mais antigo “O Homem que não estava lá” dos Irmãos Coen. Para os Coen, dentre outros filmes, também retratou a neve branca com respingos de sangue vermelho de “Fargo”; e há mais tempo deu mais vida a “Um Sonho de Liberdade” (filme passado na prisão com Tim Robbins e Morgan Freeman, lembram?). Talvez leve um Oscar (e ainda será o primeiro), mas pelo “O Leitor” (filme que eu acho escroto) onde a fotografia é competente, mas ao meu ver menos expressiva do que os trabalhos concomitantes para este “Dúvida” e “Foi apenas um sonho”, ou para "Kundun" no passado ou para "O homem que não estava lá" que eu acho um filme magnífico.

    Outros detalhes que eu gosto muito em “Dúvida” são as cenas de mesa quando vemos os padres comendo carne vermelha, sangrenta, fumando, bebendo vinho e contando piadas enquanto as freiras comem como na Idade Média, em silêncio absoluto, obrigadas a comer pelanca de carne sob o olhar de águia da Meryl Streep.
    Ela ser “reacionária” em matéria de religião (coloca um retrato dePio XII em sala de aula quando o Papa mais recente havia sido o reformador João XXIII) e o padre Philpip Seymour ser “moderno” é outra caracterização cruzada inteligente: gente tradicionalista não precisa ser mau caráter e gente “avançadinha e legal” pode ser psicopata sedutor. Ou nada disso...
    Não gosto mesmo é do epílogo óbvio e desnecessário onde Meryl Streep derrapa, derramando-se fora de seus hábitos de desempenhos mais contidos. (Foi este final de cena que eu não gostei, e não da ma~e negra no final do diálogo). Mas certamente deve ter tido a aprovação do diretor do filme que é o autor da peça original. Suponho que a peça  deve ser mais do meu agrado.
    O diretor de "Dúvida" já ganhou um Oscar como roteirista de “Feitiço da Lua”, que também deu um Oscar à peruésima Cher, mas cá entre nós, era um filme simpático, bem-conduzido com um roteiro bem levado, mas nada demais. Quando dirigiu, cometeu o primeiro fracasso comercial do então ator de maior sucesso, o Tom Hanks ao lado da Meg Ryan igualmente no auge de popularidade. Não foi de graça que ele ficou 18 anos sem voltar a dirigir, o que só conseguiu por ser o dono da peça “Dúvida”, premiada na Broadway. Outro roteirista adaptador e outro diretor mais experiente e menos preocupado em ampliar pistas prós- e contra, talvez fossem mais bem-sucedidos com o mesmo elenco e fotógrafo.
    Mesmo assim, a idéia do texto é muito boa, talvez melhor do que o próprio diretor e autor da peça possa perceber. Machado sabia o que importava mais na questão da dúvida. O John Patrick Shanley quase que chega lá no filme. Mas frustra um pouco.

    Para terminar: em 1963 eu tinah 13 anos e estudava em colégio de padre, só de meninos. E járecebia avisos: se tua calça rasgar no jogo de bola do recreio não deixe o padre tal costurar: ele te leva para o quarto dele e segura teu pinto". Mais tarde, já taludinhos, era dito entre poucos que o colega Fulano com seus 16, 17 anos só passou de ano em Português (com notas péssimas o ano inteiro) depois que foi na casa do profesor X. (nem todos eram padres, mas imagino que muitos eram gays mais ou menos reprimidos) e deixou que o professor lhe chupasse o pau. A hipocrisia era dominante, e se falássemos dessas coias em casa, a maioria dos pais não acrediatria nos filhos: segredos de polichinelo. E havia um padre com apelido de "moita": vigiava tudo, uma vez quis tirar da minha mochila um livro de Fitzgerald que tinha (sem necessidade) uma mulher nua na capa. Já o que rolava nos bastidores do colégio...


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    [Aeternus:11016] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-02-14)


    - RE: Love Liza e Magnolias

    São esses aí os dois do Phillip em que mais aprecio o ator.
    Em 'Love Liza' ele é infantilóide, brinca de modelismo com barquinhos e aviõezinhos...

    'Magnolias' foi uma porrada e tanto.Não sei quem era o mais destrambelhado ali.

    Não gostei de 'Capote', e esse 'Doubt' não me pega nem por decreto.Cansei de padrecos&culpas cristãs nesse viés religioso&tals.E com a Meryl usando aquelas touquinhas...Djízas/God save us !...

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    [Aeternus:11017] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-14)


    - RE:Doubt, resposta do Gallego

    Oba, continuamos discordando.

    Gostei do romantismo da chuva de penas ( achei excessivo, mas tem sua eficácia) e de folhas, do simbolismo das janelas sempre entreabertas ( a freira diz que é o padre quem as entreabre), dos varais entre as ruas sem roupas penduradas, dos detalhes eclesiásticos.

    Nunca atendi em consultório a algum pedófilo mas é comum ter pacientes que tiveram alguma experiência com parentes próximos. Por esta via, apenas, posso dizer que ao julgamento do Gallego de que pedófilo pra sempre pedófilo há um detalhe que merece ser avaliado. Além da história do complexo de Édipo, claro, no qual Jocasta sem dúvida peca por pedofilia ( sabemos que heróis naquela época não viviam além dos seus trinta anos e começavam a vida sexual cedo...). Os pedófilos dos quais ouvi falar e até uns que conheci não eram "all the way", seriam especialistas, como os exibicionistas, em "apalpar os palpos" ou "apertar seios" de garotas pequenas, de convites para que lhe segurem o membro, ou beijoqueiros.  Tinham um gosto e não avançavam além deste. O padre do filme podia ser pedófilo desta ordem.  Até no Nabokov, por causa do tio deste, há um personagem chamado "Nymphobottom" (bundinha de jovenzinho) que apertava o bumbum dos sobrinhos que erguia para que pendurassem a estrela ou as bolas na árvore de natal. 

    O que me encantou no filme foi perceber que jogava com o preconceito racial da época ( meu colégio nos EEUU, ao contrário dos colégios do sul americanos, era particular, religioso e tinha várias alunas negras, perfeitamente integradas, já nos anos sessenta e um ou dois: fui colega da filha do presidente Johnson, Luci Baines. Não se fazia a menor distinção de cor entre a elite política em Washington) para esconder outra questão igualmente grave: o abuso sexual de crianças e o preconceito contra homosexuais.   Está claro que o padre protegia o garoto negro porque sacou que o menino tinha tendencias homosexuais, com as quais se identificava, e a quem queria proteger - não por ser ele um garoto de cor. O pai do menino o castigava por isto. Os colegas implicavam com ele porque pressentiam ser um maricas, não porque era de cor. O outro sacristão, branco, o aceitava bem até que começou a desconfiar e ficou atrapalhado com sua lealdade ao colega coroinha. E que este bebesse talvez sacasse até antes porque se encarregou dos "cruets" e deixou o outro tratar do incensório.

    O que se desenvolve na história não é a questão racial, apenas. Mas como o preconceito servia para velar outros desafios.  O abraço do padre quando o garoto foi humilhado e quebrada sua bailarina imantada (uma pontuação lacaniana do padre, distraindo o menino do projeto de ser padre e enfatizando o feminino e o especular) foi genuinamente cristão e aos olhos de todo mundo. Adorei a hesitação dele quando, em conversa com a freira, quis falar do "amor cristão" (talvez pudesse ter traduzido por "caridade") como estando na base da compaixão. Aliás, de algum modo, é disso que trata Freud quando no mito da horda primeva descreve os filhos que formaram uma sociedade gay da qual brotaram os primórdios da ternura e do respeito civilizado pelo próximo. 

    E aí temos Ferenczi e sua teoria da ternura adulta.

    E eu não disse que o Seymour não estava bem. Disse, apenas, que ele sabia que estava ótimo e que isto transparecia e atrapalhava a credibilidade do seu papel de padre.

    A freira idosa sabia do que estava falando, mas não tinha compaixão nem sutilezas emocionais. Era apenas um guarda de prisão com larga experiencia.
    E podia errar no grau do julgamento ( havia algo errado com o padre, mas não era culpavel no nivel que ela insistia que fosse, o cara era acusado pelas emoções homosexuais e não pelas atitudes e o tema aparece: acts.. facts... em vez de uma alma assim ou assado, fantasias disso ou daquilo) Argumentos sofisticadíssimos. Cada vez que penso no filme, aprecio mais. Pena que havia cortes temporais bruscos, non-sequiturs, coisas que não se finalizaram no final)

    O padre segurar a mão do menino da epistache ( é assim que se escreve, quase feito a noz do sorvete?) não aparece senão na cena seguinte. Não era preciso explicitar mais, a meu ver.  Temos a freira olhando do balcão naquele dia e o padre implicando com o epistáchico sobre ter as mãos sujas. Não lembro bem, nem tocou no garoto mas o destacou do grupo e disse que a mão dele era mais escura que o resto.


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    [Aeternus:11018] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-14)


    - RE:RE:RE:Dúvida

    Jansy defende muito bem os pontos de vista  que adotou. Muito persuasiva mesmo. Mas acho que é uma construção. Pertinente a partir dos elementos que destaca e usa como argumento. Mas acho que foge ao que seria a intenção do filme/texto/peça.
    O tema seria a dúvida; e jamais a certeza do que acontecia. Acho que a dúvida pretendida seria sobre algo radical: ou tudo ou nada, já que a madre superiora do colégio age como se estivesse ocorrendo tudo mas sem poder ter certeza abosluta de nada.
    Já se considerarmos situações como: moças "demi-vierges" ou "ligeiramente grávidas", a leitura de Jansy é brilhante: havia algo, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
    Jansy me corrigiu: a cena do padre segurando as mãos do garoto epsitáxico (é com "x") esperto (e quem sabe, expert em malícia?) existe sim, mas descrita pela freira ficou irreconhecível para mim. Ponto para o filme! O que ela viu era uma coisa certamente sedutora que um garoto hetero e esperto rejeitara; mas o que houve pode não ter sido nada disso (mãos sujas, etc). Ou também era tudo isso que ela supunha e que o padre queria tirar casquinha.
    A questão central para mim: a freira tem certeza.
    E nós, o padre, o menino negro, a mãe dele, devemos ficar sofrendo com nossas dúvidas.
    Neste sentido a freira é uma fúria grega mesmo, uma erínia querendo punir crimes que ela está certa de que existiram.
    E nisso, o contexto do filme (e peça) são bem sacados. Em 1963 rolava pedofilia na igreja que só muitos anos mais tarde veio á tona. Com a ressakva de que, assim como as "memórias implantadas" por terapeutas selvagens em personalidades histéricas, nem tudo o que muitas pessoas sairam acusando por lá terá sido fato: nem todos os pais abusaram das filhas e filhos (muitos, sim; todos, não - a velha questão de Freud com a teoria da sedução e a teoria da fantasia); nem todos os padres fizeram ou faziam o que se diz deles. Mas imaginar uma freira com olho de águia (para o que existia e para o que TALVEZ existisse - ou não) em 1963 pode até serpuco verossímil, mas vale como "licença poética": é dramaturgica e psicossocialmente falando, espertíssimo.

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    [Aeternus:11019] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-14)


    - RE:RE:RE:RE:Dúvida

    Corrigindo: escrevi que nós temos dúvidas e a freira tem certeza. Não: a freira não tem certeza. Mas age como se tivesse. Ela tem que acreditar que está certa por evidências ambíguas para defender o bom combate.Esta é a questão fundamental do argumento, ao meu ver.
    Acabei d eler uma entrevista como o autor do texto e diretor do filme onde le diz que a inspirção veio do clima pós-1/9, do clima "Bush contra o eixo do mal". As certezas. Incertas. Facha com o que eu pensei como cerne e motivação da história desenvolvida.

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    [Aeternus:11020] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-14)


    - já nem lembro direito...

    pois é...nem lembro onde ficamos, exceto por ter sido totalmente desargumentada pelo Gallego! Ele já começou bravo:  "Jansy defende muito bem os pontos de vista  que adotou. Muito persuasiva mesmo. Mas acho que é uma construção. Pertinente a partir dos elementos que destaca e usa como argumento. Mas acho que foge ao que seria a intenção do filme/texto/peça."

    No final tem até argumento do diretor e filme sobre o fanatismo do Bush. Então estou errada, mas sou pior que a freira. Aposto na minha visão de que o filme aborda o jogo pederastia, preconceito racial e homossexualidade sem dar enfase à questão racial sobre as outras duas. Aposto que a intenção do filme, neste aspecto era de propor que o padre era inocente naquele episódio e que defendia o menino porque via nele uma criança com problemas de orientação sexual. Como o título anuncia, é um filme sobre a dúvida. Mas é também sobre as certezas. No caso, as religiosas do padre e, por causa destas e da sua liberdade interna no meio dos conflitos, era invejado e detestado pela freira. Ela seguia a via da penitencia e ele estava na vida do modo mais pleno que podia, dadas as suas dificuldades e pecados confessados e perdoados. Não sei se haverá reincidencia nestes, isto ficou em aberto, ou seja, a dúvida é do espectador. A freira tinha certezas, mas não tinha fatos e sabia que podia estar exacerbando seu assédio.  E nem sei mais. Resumindo: estou na dúvida se existe apenas uma forma correta de ver a dúvida.


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    [Aeternus:11021] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-15)


    - RE:já nem lembro direito...via Gallego

    via Gallego

    Jansy não lembra direito onde a polêmica estava, mas eu afirmo que está equivocada ao escrever que eu estaria bravo: eu apenas comprei ingresso e abadá para o bloco "Ôba, que bom que discordamos!" e joguei para a platéia (?) como em uma luta combinada enfatizando as discordâncias. E estava sendo elogioso: "persuasivo" é elogio que Kohut usa para falar de Freud ao discordar de detalhes nem tão pequenos entre eles dois, admirando a competência de escrita argumentativa de Freud sobre coisas das quais ele, Kohut,  discordava em parte ou totalmente. Por outro lado, "construções" em análise são recursos freudianos de que Kohut abusava (aí, ele concordava com o bruxo de Viena, ou pelo menos assim eu entendo).
    O que eu quis dizer é que o entendimento de Jansy estava muito bem desenvolvido argumentado e portanto persuasivo através de construções hipotéticas bem defendidas. Posso achar uma superinterpretação, uma leitura própria bem desenvolvida com base em elementos que existem de fato no filme para desenvolver idéias mais ou menos autônomas em relação à obra original. Ora, isso é freqüente em ensaios. Histórias em quadrinho como as do Superman deram margem a reflexões psicossociológicas de Umberto Eco ao doser que a “Fortaleza da Solidão” do super-herói seria uma metáfora da América (do Norte) sentindo-se inferiorizada por não ter uma "tradição" artística e cultural assim como uma História com "H" maiúsculo em relação à ancestral Europa e daí, buscando um “simulacro verdadeiro” para se legitimar.

    Museus de cera em vez de Louvres ou Prados, Disneylandias e Xanadus de Kane em vez de Versailles.  E quando um estudioso da obra de Hitchcock diz que o tema central de seus filmes seria a possibilidade ou impossibilidade de formação do casal, ele tira o tapete sob os pés dos que veem (sem chapeuzinho) os filmes do "mestre do suspense" como filmes de... suspense. O próprio Hitchcock ficava desconcertado ao saber o que a crítica francesa encontrava em seus filmes feitos “apenas para divertir” segundo ele mesmo.

    No caso de um texto que traz a questão da dúvida, nada mais pertinente do que diferentes dúvidas sobre a dúvida. Eu acho que a leitura da Jansy é legítima como desdobramento sobre a obra e a partir da obra. Minha leitura sobre o que o filme pretendia (e nem sempre conseguiu) pode ter coincidido com as intenções do escritor do texto original (peça) e diretor do filme. Um plano mais “talmúdico” (o meu), outro plano menos aprisionado à letra do filme (o dela, ao meu ver). Qual o mais pertinente? Depende do olhar individual. Cada um decide como ver ou ler. Afinal, se o filme tivesse uma estrutura fechada de recado óbvio não mereceria o título. Por isso, acho o epílogo com a freira anunciando em crise emocional que não tem certezas, enfático e ruim, tanto na dramaturgia como na interpretação over da atriz, até então competentíssima. Bastava ela deixar sua dúvida no ar. Seria mais “cruel”, até.

    Comecei falando em “lutas combinadas”. Pois bem, fomos ao cinema ver “O Lutador” que deve dar Oscar ao Mickey Rourke e saímos com meia hora ou menos de filme. Dizem que o filme é excelente. Talvez eu veja o restante em video (meu filho tem no pendrive e posso ver pelo aparelho de DVD na telinha), mas não sei se aguento ver gente sendo grampeado (sem aspas). Nunca me interessei por luta de boxe, muito menos combinada com exageros circensese de "mundo cão". Sei que existe este tipo espetáculo grotesco e que na TV brasileira dos anos... final dos '60 ou já nos '70 chegou a haver um ídolo, um tal de Ted Boy Marino (alguém mais lembra?).

    Só que neste filme, na primeira meia hora com câmera tremida e fotografia intencionalmente "suja" (volto ao tema adiante) há duas lutas: em uma o personagem do Mickey Rourke traz uma pontinha de gilete antiga envolvida em panos para não se cortar sem querer, mas ele se corta intencionalmente para sangrar de fato. O site imdb informa que Rourke "actually bladed (cut his own forehead with a razor blade as many wrestlers do) in this film to add realism to the role". Está na hora de se discutir  o que é representação e o que pasou a ser exigência (?) de realismo "um por um", como diz Jansy. Não sou público de luta combinada circense grotesca. Posso ver filmes sobre boxe ("Punhos de Campeão", clássico de 1949 do robert Wise) ou mesmo sobre essas lutas de "catch" ("Requiem por um Lutador" com Anthony Quinnm, de 1962). Até mesmo "Touro Indomável" que muitos acham a obra-prima do Martin Scorsese (e eu acho superestimado). Mas se acham que eu preciso saber que os masoquistas fazem isso tudo, a gilete já bastava! Não preciso ter que ver na luta seguinte um sujeito grampeando o outro. Leia-se: enfinado grampos de grampeador na pele do outro. muitos grampos. E depois retirando em jatos de sangue.

    A fotografia é questionável: os filmes estão sendo exibidos em digitalo e não em película eo formato nem é em cinemascope original: uma fraude!


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    [Aeternus:11022] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-15)


    - RE:RE:já nem lembro direito...via jansy mesmo

    Continuo discordando do Gallego... Oba!  Não tinha pensado nisso, mas é óbvio que existem dois tipos de discordancias: uma, na qual um dos proponentes ou opositores vai cedendo aos argumentos do outro, outra na qual cada um ganha mais força nos próprios argumentos pelo contraste com os do oponente ( viu que elegante, juntei proponente e opositor numa harmoniosa conjunção de "oponente").

    Nem Gallego nem eu estamos vencendo o outro pro nosso lado, mas ficando mais instrumentados na luta. Oba. Estou reargumentada para nova carga. Vamos começar pelos finais. Achei a Meryl Streep ótima na cena final, nada de over-acting. Ela tinha um montão de certezas advindas da intuição e experiência, certezas difíceis de suportar porque raramente existem fatos óbvios para garanti-las. Como crer em Deus, é um estado de alma sem outra comprovação senão a própria fé. Só que, no caso, em vez de ter fé em Deus (como o padre, que estava convencido de que foi perdoado na confissão que fez), ela tinha fé nas certezas dela.  Quando o establishment eclesiástico recompensou o sujeito, em vez de puni-lo, toda construção dela balançou. Eu ficaria ainda mais desgrenhada do que ela, principalmente porque ela já estava quase percebendo que era a inveja que a movia. Ela estava como Caim olhando a  fumaça dos sacrifícios de Abel subindo aos céus e a dela se arrastando na terra. Melhor do que Caim, no entanto, ela tem chance de aprender algo e superar-se. Mudança catastrófica, em Bion, é isso aí. Somem todos os referenciais que um valor mais alto se alevanta (não me recordo da frase toda do Camões).

    Construções, em Freud, são diferentes das construções em Kohut (pelo pouco que depreendi deste último na contestação calorosamente amigável do Gallego). Elas dependem mais da verdade histórica do que da verdade material ( durma-se com um barulho destes), ou seja, do que o analisando constroi sem ser de modo delirante a respeito do que experimenta como fatos emocionais ao reviver seu passado. Daí que a construção tem que sempre partir do analisando, mesmo que seja o analista quem formule de modo consistente por ele. Achei genial Gallego começar com a idéia de construções ( as minhas ) porque o filme é exemplar sobre este tema mais esquecido da teoria de Freud ( substituir interpretação por construção) Realidade psíquica versus realidade externa. Algo ligado ao que Lacan mais adiante escreverá como sendo "verdade inconsciente" e a "palavra plena".

    Não pretendo ver o filme que elogiam tanto ( a "Veja" colocou a recuperação do Michael Rourke como coisa apoteótica, junto com o debate sobre Darwin e criacionismo) Neste ponto, estou com Gallego até o final. Inclusive sobre o realismo de se cortar em público como sustituto da imaginação. Mas hoje novamente estamos diante de "construções" de outra ordem.


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    [Aeternus:11023] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-15)


    - RE:RE:RE:musas antigas e contruções

    "Cessa tudo quando a Antiga Musa canta
    que um valor mais alto se alevanta" é o veso camoniano esquecido em parte.
    Não entenedi o que Kansy escreveu sobre "construções" em Freud diferentes de Kohut.
    Disse Jansy: "Elas dependem mais da verdade histórica do que da verdade material" - o que seria mais exatamente isto? Mas se Jansy entende que Kohut propõe construção ou reconstrução de "verdades" factuais históricas, se engana: a "realidade" é a "Realidade psíquica" da vivência individual que precisaria ser empatizada e não concordar com ela. E a contrução deve partir do que se percebe na transferência, na relação analisando-analista.
    O que é "verdade material"????? diferente de "histórica"
    Jansy diz que em Freud "o analisando constroi, sem ser de modo delirante, a respeito do que experimenta como fatos emocionais ao reviver seu passado. Daí que a construção tem que sempre partir do analisando, mesmo que seja o analista quem formule de modo consistente por ele."
    Não me parece que em Freud tenha sido assim na prática: ele propôs que Marie Bonaparte tivesse presenciado um ato sexual em sua infância precoce por intuição dele, nada a ver com algo partindo dela. E o "coito a tergo" do "Homem dos Lobos" foi outra construção de Freud e não necessariamente do paciente. A "cena primária" pode ser uma imago, independente do percebido de fato e esquecido / reprimido /traumatizante etc etrc, mas pode ser parte importante da Realidade Psíquica como fantasia, imago mesmo.
    Gosto dos desenvolvimentos de jansy sobre o filme especialmente da associação com os sacrif´cios rejeitados e aceitos, respectivamente os feitos por Caim e Abel a partir da crença do padre no perdão e na hipótese do "Vai e não peques mais" levada adiante. Enquanto ela só se livrou da proximidade dele...

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    [Aeternus:11024] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-15)


    - RE:RE:RE:RE:musas antigas e contruções

    eu sabia que o Gallego é bom de briga, ou melhor, debate amigo. 

    construções e verdade histórica e material ( olha como Freud splittou o materialismo histórico!) tá tudo lá nos finalmente da obra freudiana. Não saberia senão citar, mas agora estou com festa correndo na casa.  Sei que é diferente o que Gallego viu no Kohut do que eu vejo em Freud. E este, na clínica, nunca fez o que recomendou pros demais. Faça o que digo e não o que faço, era seu mote. E a idéia que desenvolve já perto de morrer, sobre construções, me parece riquíssima. Teriamos que ler e discutir devagar depois, item por item. O filme Doubt é bem sobre as dificuldades em acreditarmos (os que estão de fora) nas construções.


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    [Aeternus:11025] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-17)


    - O Casamento de Rachel

    AME-A (ANNE HATHAWAY) E DEIXE-A (KYM)

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    em 13/2/2009  no site www.criticos.c

    O entusiasmo do diretor Jonathan Demme por música pode atrapalhar um pouco seu mais recente filme de ficção: há algumas digressões excessivas (e não apenas musicais), mas nada enfraquece o que O Casamento de Rachel tem de melhor: a construção de personagens bem verossímeis e interpretados como gente de carne-e-osso por um elenco admirável na entrega afetiva aos tipos e situações do roteiro, o primeiro escrito por Jenny Lumet (filha do diretor Sidney Lumet) que chega às telas.

    Como cerimônia de casamento, talvez fosse divertido estar na festa de Rachel, com direito a (perdão pelo lamentável termo ianque-solipsista e – este sim - politicamente incorreto) “world music” interessante; incluindo, sem ter nada a ver com nada, um grupo de samba e algumas passistas cheias de plumas e roupa quase nenhuma. Esqueçam. Ou curtam. Não é o que importa - como nunca fez muito sentido o hábito do diretor colocar no final dos créditos de seus filmes uma frase em português (“A luta continua” – ou algo assim).

    O cerne do que se vê são as já enxovalhadas (em vários sentidos) relações familiares, tema de obras as mais variadas: de dramas com pretensão de “cinema sério” até comédias românticas mais ou menos bobas. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, O Casamento de Rachel transita em diferentes tonalidades de situações, “leves” e “pesadas”, com grau de acertos e equívocos bem variado. Mas obtém uma “costura” eficiente com boa ajuda dos desempenhos.

    Não se pode dizer que Anne Hathaway esteja menos do que perfeita ao encarnar ‘Kym’, a irmã da noiva: ela faz uma dependente química em fase de tentativa de recuperação da dependência de drogas, mas não necessariamente recuperável no que diz respeito a seu temperamento auto-(e hetero) destrutivo. Ela é excessivamente autocentrada e, na maior parte do tempo insuportável na falta quase absoluta de empatia pelo dia de festa de sua irmã (muito bem defendida por Rosemarie De Witt). É um gol de placa da atriz conquistar a platéia em uma personagem da qual desejaríamos distância na vida real.

    Os muitos convidados do casamento ganharam caracterizações adequadas do vasto cast para personagens periféricos ou episódicos; e os pais (separados) de Kym e Rachel, interpretações excelentes: tanto de Bill Irwin (simpaticamente constrangido ao tentar atenuar os conflitos e ressentimentos entre as filhas) como de Debra Winger. Esta, mesmo em um papel menor, devolve ao convívio do espectador um pouco de sua forte presença cênica, rarefeita por uma carreira bem truncada nos últimos mais de dez anos.

    Os lances de roteiro tentam reproduzir a “descostura” da vida real em um encontro familiar carregado de amplo contencioso de mágoas, mas por mais que se chegue a temer, não são repetidos lances exacerbados, por exemplo, do dinamarquês Festa de Família. Por outro lado, também não se encontra a maestria de Robert Altman em Cerimônia de Casamento. Afinal, é um filme de Jonathan Demme, com antecedentes de carreira bem irregular, seja do ponto de vista puramente cinematográfico, seja do ponto de vista “comercial”.

    Depois de alguns insucessos na ficção e de documentários pouco accessíveis em matéria de visibilidade (pela distribuição restrita), ele flerta, sem dúvida, com o clichê de filmes que se passam em torno de reuniões de família - e que costumam render boa grana. Ele tenta dar um toque diferente (?) do padrão hollywoodiano usando “câmera na mão” e (algumas vezes) fotografia granulada - como se estivéssemos assistindo à filmagem caseira amadorística de um parente do noivo - que não deixaria de lado as contribuições musicais dos convidados ou intermináveis brindes, nem sempre interessantes e tão divertidos

    Se nem tudo é satisfatório, o todo pode ser apreciado no que, em resumo, é mais um “filme de atores” - dentre tantos outros recentes que estão nesta temporada de indicações a prêmios anglo-americanos. Tão (apenas aparentemente) diverso de uma produção solene e “clean” como Dúvida, este Casamento de Rachel não se realiza plenamente dentro da (também aparente) informalidade que parece pretender, mas pode gratificar o público pelo binômio personagens-intepretações.

    Ainda que no geral, todos estejam, no mínimo, ótimos, é praticamente impossível não se render ao acerto de Anne Hathaway na composição e desenvolvimento de sua ´Kym´. Raramente o cinema de ficção consegue construir um tipo de dependente química com personalidade básica narcisista, frustrada - e de certa maneira, invejosa – de modo tão verossímil. Ponto para a roteirista e para a atriz, embora lembrando que Demme já dirigiu 4 atores premiados pela Academia, além de mais outros tantos desempenhos indicados como este. Ela merece. Se vai levar ou não, é outra história...

    # O CASAMENTO DE RACHEL (RACHEL GETTING MARRIED)
    EUA, 2008
    Direção: JONATHAN DEMME
    Roteiro: JENNY LUMET
    Fotografia: DECLAN QUINN
    Edição: TIM SQUYRES
    Direção de Arte: KIM JENNINGS
    Música: DONALD HARRISON JR. e ZEFER TAWIL
    Elenco: ANNE HATHAWAY, ROSEMARIE DeWITT, MATHER ZICKEL, BILL IRWIN, DEBRA WINGER.
    Duração: 114 minutos
    Site oficial: www.sonyclassics.com/rachelgettingmarried

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    [Aeternus:11026] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-17)


    - O Casamento de novo agora legível

    AME-A (ANNE HATHAWAY) E DEIXE-A (KYM)
    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO  em 13/2/2009 no sire www.cruticis.com.br

    O entusiasmo do diretor Jonathan Demme por música pode atrapalhar um pouco seu mais recente filme de ficção: há algumas digressões excessivas (e não apenas musicais), mas nada enfraquece o que O Casamento de Rachel tem de melhor: a construção de personagens bem verossímeis e interpretados como gente de carne-e-osso por um elenco admirável na entrega afetiva aos tipos e situações do roteiro, o primeiro escrito por Jenny Lumet (filha do diretor Sidney Lumet) que chega às telas.

    Como cerimônia de casamento, talvez fosse divertido estar na festa de Rachel, com direito a (perdão pelo lamentável termo ianque-solipsista e – este sim - politicamente incorreto) “world music” interessante; incluindo, sem ter nada a ver com nada, um grupo de samba e algumas passistas cheias de plumas e roupa quase nenhuma. Esqueçam. Ou curtam. Não é o que importa - como nunca fez muito sentido o hábito do diretor colocar no final dos créditos de seus filmes uma frase em português (“A luta continua” – ou algo assim).

    O cerne do que se vê são as já enxovalhadas (em vários sentidos) relações familiares, tema de obras as mais variadas: de dramas com pretensão de “cinema sério” até comédias românticas mais ou menos bobas. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, O Casamento de Rachel transita em diferentes tonalidades de situações, “leves” e “pesadas”, com grau de acertos e equívocos bem variado. Mas obtém uma “costura” eficiente com boa ajuda dos desempenhos.

    Não se pode dizer que Anne Hathaway esteja menos do que perfeita ao encarnar ‘Kym’, a irmã da noiva: ela faz uma dependente química em fase de tentativa de recuperação da dependência de drogas, mas não necessariamente recuperável no que diz respeito a seu temperamento auto-(e hetero) destrutivo. Ela é excessivamente autocentrada e, na maior parte do tempo insuportável na falta quase absoluta de empatia pelo dia de festa de sua irmã (muito bem defendida por Rosemarie De Witt). É um gol de placa da atriz conquistar a platéia em uma personagem da qual desejaríamos distância na vida real.

    Os muitos convidados do casamento ganharam caracterizações adequadas do vasto cast para personagens periféricos ou episódicos; e os pais (separados) de Kym e Rachel, interpretações excelentes: tanto de Bill Irwin (simpaticamente constrangido ao tentar atenuar os conflitos e ressentimentos entre as filhas) como de Debra Winger. Esta, mesmo em um papel menor, devolve ao convívio do espectador um pouco de sua forte presença cênica, rarefeita por uma carreira bem truncada nos últimos mais de dez anos.

    Os lances de roteiro tentam reproduzir a “descostura” da vida real em um encontro familiar carregado de amplo contencioso de mágoas, mas por mais que se chegue a temer, não são repetidos lances exacerbados, por exemplo, do dinamarquês Festa de Família. Por outro lado, também não se encontra a maestria de Robert Altman em Cerimônia de Casamento. Afinal, é um filme de Jonathan Demme, com antecedentes de carreira bem irregular, seja do ponto de vista puramente cinematográfico, seja do ponto de vista “comercial”.

    Depois de alguns insucessos na ficção e de documentários pouco accessíveis em matéria de visibilidade (pela distribuição restrita), ele flerta, sem dúvida, com o clichê de filmes que se passam em torno de reuniões de família - e que costumam render boa grana. Ele tenta dar um toque diferente (?) do padrão hollywoodiano usando “câmera na mão” e (algumas vezes) fotografia granulada - como se estivéssemos assistindo à filmagem caseira amadorística de um parente do noivo - que não deixaria de lado as contribuições musicais dos convidados ou intermináveis brindes, nem sempre interessantes e tão divertidos

    Se nem tudo é satisfatório, o todo pode ser apreciado no que, em resumo, é mais um “filme de atores” - dentre tantos outros recentes que estão nesta temporada de indicações a prêmios anglo-americanos. Tão (apenas aparentemente) diverso de uma produção solene e “clean” como Dúvida, este Casamento de Rachel não se realiza plenamente dentro da (também aparente) informalidade que parece pretender, mas pode gratificar o público pelo binômio personagens-intepretações.

    Ainda que no geral, todos estejam, no mínimo, ótimos, é praticamente impossível não se render ao acerto de Anne Hathaway na composição e desenvolvimento de sua ´Kym´. Raramente o cinema de ficção consegue construir um tipo de dependente química com personalidade básica narcisista, frustrada - e de certa maneira, invejosa – de modo tão verossímil. Ponto para a roteirista e para a atriz, embora lembrando que Demme já dirigiu 4 atores premiados pela Academia, além de mais outros tantos desempenhos indicados como este. Ela merece. Se vai levar ou não, é outra história...

    # O CASAMENTO DE RACHEL (RACHEL GETTING MARRIED)
    EUA, 2008
    Direção: JONATHAN DEMME
    Roteiro: JENNY LUMET
    Fotografia: DECLAN QUINN
    Edição: TIM SQUYRES
    Direção de Arte: KIM JENNINGS
    Música: DONALD HARRISON JR. e ZEFER TAWIL
    Elenco: ANNE HATHAWAY, ROSEMARIE DeWITT, MATHER ZICKEL, BILL IRWIN, DEBRA WINGER.
    Duração: 114 minutos
    Site oficial: www.sonyclassics.com/rachelgettingmarried

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    [Aeternus:11027] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-02-17)


    - RE:O Casamento de novo agora legível

    Em algum canto de cada um de nós habita um étranger...
    Big Jack Nicholson construiu sua carreira centrado no kinky e na psicopatia, e é clara a simpatia do público com ele.

    Se Murillo Sales fez de sua Clara Averbuck uma antipática de galocha, beirando a náusea, vale conferir a mágica de Demme com sua personagem.A morenice e o charmoso porte natural de Anna Hathaway ajudam de saída a 'perdoarmos' a pitchula quando levadinha, né?

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    [Aeternus:11030] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-18)


    - do gallego

    Hey there, Georgy girl
    Swingin' down the street so fancy-free
    Nobody you meet could ever see the loneliness there - inside you
    Hey there, Georgy girl
    Why do all the boys just pass you by?
    Could it be you just don't try or is it the clothes you wear?

    You're always window shopping but never stopping to buy
    So shed those dowdy feathers and fly - a little bit

    Hey there, Georgy girl
    There's another Georgy deep inside
    Bring out all the love you hide and, oh, what a change there'd be
    The world would see a new Georgy girl

    [Instrumental Interlude]

    Hey there, Georgy girl
    Dreamin'; of the someone you could be
    Life is a reality, you can't always run away
    Don't be so scared of changing and rearranging yourself
    It's time for jumping down from the shelf - a little bit

    Hey there, Georgy girl
    There's another Georgy deep inside
    Bring out all the love you hide and, oh, what a change there'd be
    The world would see a new Georgy girl

    (Hey there, Georgy girl)
    Wake up, Georgy girl
    (Hey there, Georgy girl)
    Come on, Georgy girl

    [Fade]

    (Hey there, Georgy girl)
    Wake up, Georgy girl

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    [Aeternus:11031] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-18)


    - do gallego

    Hey there, Georgy girl
    Swingin' down the street so fancy-free
    Nobody you meet could ever see the loneliness there - inside you
    Hey there, Georgy girl
    Why do all the boys just pass you by?
    Could it be you just don't try or is it the clothes you wear?

    You're always window shopping but never stopping to buy
    So shed those dowdy feathers and fly - a little bit

    Hey there, Georgy girl
    There's another Georgy deep inside
    Bring out all the love you hide and, oh, what a change there'd be
    The world would see a new Georgy girl

    [Instrumental Interlude]

    Hey there, Georgy girl
    Dreamin'; of the someone you could be
    Life is a reality, you can't always run away
    Don't be so scared of changing and rearranging yourself
    It's time for jumping down from the shelf - a little bit

    Hey there, Georgy girl
    There's another Georgy deep inside
    Bring out all the love you hide and, oh, what a change there'd be
    The world would see a new Georgy girl

    (Hey there, Georgy girl)
    Wake up, Georgy girl
    (Hey there, Georgy girl)
    Come on, Georgy girl

    [Fade]

    (Hey there, Georgy girl)
    Wake up, Georgy girl

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    [Aeternus:11032] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-18)


    - comentários do Gallego II


    ----- Original Message -----
    From: LuizGallego
    To: Jansy Berndt de Souza Mello
    Sent: Wednesday, February 18, 2009 12:45 AM
    Subject: os tempos são outros?


    Vi este filme mais ou menos na época em que foi feito  e me decepcionou pela expectaiva criada. Expectativa porque passou no Brasil um ou quase dois anos depois de lançado no exterior - e a música já tinha saído das paradas de sucesso.
    Na verdade, por aqui o sucesso maior foi com o Trio Esperança cantando a versão idiota: "Vem ver, pelo ceú, uma feiticeira a voar...".
    O filme estava sendo anunciado com o título de "Georgy, a feiticeira" e o letrista tupiniquim deve ter achado que era o longa-metragem da "Feiticeira" da TV ou da "Jeannie (é um gênio)". O filme ficou nas prateleiras muito tempo, sem ser lançado e fez carreira curtinha; é em preto e branco numa época em que ainda se filmava muito em P&B mas o público começava a rejeitar. Ou custou a entrar porque era fraco mesmo e/ou não dizia quase nada ao nosso público.
    Este filme, acho que  seguia (atrasado) na onda do New Cinema Britânico e acho que era uma espécie de sub-A Taste of Honey, mas não me lembro de nada, a não ser que achei bem meio mais ou menos, decepcionou.
    Mas acho que vc foi muito severa como o James Mason: pode ser que neste filme ele esteja mal, mas muitas vezes era um ótimo ator com muitos desempenhos marcantes.
    A Lynn, no cinema, nunca deslanchou. Mais recentemente esteve no papel da astróloga que casa com aquele esquizofrênico de "Shine" que tocava (mal) o Rachmaninoff número 3 e todo mundo achou que ele era o máximo do "maluco genial" - mas era um pobre maluco nada genial. Como adoram o Andrea Bocelli que é cego e (mau) tenor gritão.
    Mas os tempos mudaram: o filme ganhou vários prêmios na época (veja abaixo) embora nunca eu tenha me convencido de tanto prestígio. A carreira do diretor provou que ele não era de nada. Nenhum filme dele mereceu alguma repercussão. Eu vi um que tinha uma mãe psicopata assassina das namoradas do filho que... bem, pelo tema pode-se imaginar que bosta que era.
    Vc acha que a Vanessa é mais careteira do que boa atriz? Eu geralmente a acho magnífica...

    Awards for Georgy Girl (1966)
    1967 NominatedOscarBest Actor in a Supporting Role
    James Mason
    Best Actress in a Leading Role
    Lynn Redgrave
    Best Cinematography, Black-and-White
    Kenneth Higgins
    Best Music, Original Song Tom Springfield (music) Jim Dale (lyrics)
    For the song "Georgy Girl"

     

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    [Aeternus:11033] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-18)


    - tudo meio que mais ou menos fora do lugar

    Acabei de tentar enviar comentários e colaborações do Gallego. Foi uma luta desigual, meus parcos talentos com computação e os esforços do sistema para me obrigar a fazer isto ou aquilo ao modo dele. A unica conquista, até agora, foi ter meu nome devolvido ao lugar dos visitantes. Google, de ferramenta amiga e simpática, está monstruosamente agressiva e estou revendo meus projetos para eliminá-la da minha vida. 

    E Georgie Girl?  A música, sem sombra de dúvida, fez parte de muitos momentos felizes do final da minha adolescência. Junto com Mamas e Papas em California Dreaming, Peter Paul and Mary com Puff the Magic Dragon e outro com dragões por um conjunto menos famoso, The Platters. A não ser que fossem os BeeGees que também eram gostosinhos de ouvir. 

    O preto e branco do filme, ao contrário dos p&b de Hitchcock sempre nuançados no cinza e bem enquadrado, era intenso e parecia, às vezes, uma jóia. Muito boa a fotografia, apesar de em cinema cansar por ser tão escuro.

    Não considero Vanessa Redgrave meramente careteira e falava da irmã. Acho que era uma época em que a expressão do ator vinha muito da mobilidade facial. Alan Bates e Lynn davam um show pra nenhum surdo botar defeito. Ambos entram na categoria de "hiperativos". O caseiro-mordomo, baixinho como todos no filme, tinha a cara de pai do Jeremy Irons.
    Todo mundo meio corruptinho e avoado. Uma mensagem de irreverencia insidiosa e inconsequente. Talvez resultado dos anos de fim de guerra e que não faz sentido sem ser pelas Europas. Ou na extensão americana ( Se Meu Apartamento Falasse, Breakfast at Tiffany's) e baiana. Muitos estereótipos. Pequenos códigos de fala e gesto. Tipo os filmes curtinhos do Hitchcock que ele apresenta cheio de caras e bicos, atacando a vida dos casais atrapalhados e dizendo som e furia.


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    [Aeternus:11034] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-02-18)


    - RE:tudo meio que mais ou menos fora do lugar

    ...pretensão farsesca quando desanda é um desastre...
    Creio que é necessa´rio algum anteparo, algum contraste, para a coisa funcionar.Senão vira algo similar ao vaudeville mais trivial.
    Em 'Illuminatta' o Christopher Walken faz um papel de crítico teatral completamente aviadado, bem puto mesmo, esvoaçante e 'deslumbrada', que cai bem pois há biombos à sua volta, personagens mais comedidos.O Turturro - diretor - fez dele uma mistura de Oscar Wilde com Clovis Bornay e Madame Satã.

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    [Aeternus:11035] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-18)


    - RE:RE:tudo meio que mais ou menos fora do lugar

    Olha só, Caco ( no computador do consultório continuo como visitante, mas quem fala aqui é Jansy), o filme da Georgie não tinha pretensão a farsa. Não sei qual seria a pretensão além de ser uma espécie de exercício teatral. Dava pra sentir a mudança de posição dos atores numa cena apertada como se uma voz dissesse: agora você diz esta frase do canto esquerdo, a próxima da direita, neste momento será de costas e você vira assim e assado. Os olhos do Bates devem ser cor de turquesa e, em preto e branco, quando ganhavam enfase ficavam excepcionalmente brilhantes. O fotógrafo era interessante: eu vi como verdes os olhos de Charlotte Rampling.

    Quando você lembrou do Christopher Walken, lado a lado com o Mason ( e no Kubrick, Lolita estava mesmo próxima de uma farsa, como principalmente aconteceu na cena da caminha desmontável no quarto de hotel ) destacou a peculiaridade destes como atores: tem a fala suave, pausada, mansa. Com estes vagares eles ganham força nas cenas.

    O filminho era tipo cenario de uma equivocada luta de classes, os felizes pobres e os tratantes dos muito ricos com seus cumplices deslumbrados, tudo isso apresentado com alguma ideologia vaga como a de hoje, com o PT do Lula.  As vezes adoro farsas informais, como a Marília Pera e o Marco Naninin numa novela da Globo, inventando enquanto as coisas ocorriam e a gente sentia a alegria dos dois...


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    [Aeternus:11036] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-02-18)


    - RE:RE:RE:tudo meio que mais ou menos fora do lugar

    Bien dit.A farsa pode e deve ser corrosiva, mas esse fundo alegre/chegado-ao-esfuziante-com-modulações é fundamental.Ninguém aguenta só acidez desenfreada !
    No referido 'Illuminatta' a Susan Sarandon tem uma cena em seu quarto com o puto, e ela deve ter se contido para não rir.Dá o tom perfeito.Tão engraçado quanto a encenação foi a indignação da Ana - que assistia o filme comigo - com a marcação desmunhecada-putóide do Walken, o que me fez rir um bocado.

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    [Aeternus:11037] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-19)


    - não foi um susto mas podia ter sido... até mais

    Acordei hoje de madrugada, lá pelas quatro, e fui beber um copo de água.  Ouvi o barulho de uma moto ecoando na rua e, de repente, sacudidas fortes no portão da garagem. A rua estava deserta e escura, mas o motor da moto, um farolete e os golpes no portão não eram rotineiros. Fiquei à espreita e ouvi uma voz sussurrando algo. Esperei. Mais sacudidelas no metal, novo murmurio.

    Resolvi ir até uma janela que dava para a rua e perguntar o que estava acontecendo. Não sei como não tive medo.

    Um rapazinho apareceu sob uma das luzes e disse que era entregador de jornais, que havia colocado errado o exemplar do vizinho e precisava recuperá-lo. Tranquilizei-o afirmando que, depois que amanhecesse, pegaria o jornal e faria a entrega por ele. Ele aceitou a idéia e foi embora.

    Se fosse alguém mal-intencionado com uma arma provavelmente eu não teria a menor chance de escapar (mesmo não tendo ido no jardim para resgatar o embrulho...). Sou medrosa e não tive medo. Era como se desde o princípio eu achasse que era alguém "do bem" (tentando arrebentar meu portão...).

    Pensamento mágico que deu certo.  O medo, que não experimento realmente, está só pairando acima de mim como se fosse um balão colorido ( do filme do Stephen Spielberg filmando "It" mas, de palhaço, só havia eu) 


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    [Aeternus:11039] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-21)


    - filmezinho safadinho

    Não consegui postar minha resneha sobre o filme que deve ganhar o Oscar.
    Quem quiser ler pode ir no site
    http://www.criticos.com.br/new/home/home.asp
    ou ir direto ao texto em
    http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1692
    Bom carnaval para todos!
    Gallego

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    [Aeternus:11040] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-21)


    - o conto de fadas do Gallego

    UM CONTO DE FADA SAFADA (ou "do vigário"?)

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    20/2/2009

    Advertência: Não serão comentados aspectos técnicos como fotografia e enquadramentos. Supomos que (como tudo neste filme) são recursos funcionais e pragmáticos. Mas como avaliar? A exibição para a crítica foi feita em projeção digital com “janela” modificada (assistimos o trailer em tela larga, mas o filme... não!). Na oportunidade, é de se lamentar a projeção digital de O Lutador na mais tradicional sala carioca do grupo Estação que em 14/02/2009 mostrava o formato de tela larga apenas nos créditos iniciais. O público está pagando para ver os filmes deformados?!?!

    Recorrendo a todos os truques melodramáticos dos mais vetustos novelões mexicanos (ou indianos) para captar a atenção das platéias, Quem quer ser um Milionário? repete despudoradamente todos os clichês inimagináveis: ataca de meninos pobres favelados (a gíria slumdog do título original corresponderia a “favelado”) passando por terríveis desgraças na infância provocadas por vilões muito (mas muito) malvados (com direito a desgraças e vilanias prolongadas na vida adulta); prossegue com amor fiel entre crianças atravessando os anos e chega a pré-fabricado “suspense” em surrada montagem paralela no tempo e no espaço: o personagem central vai ou não vai ganhar uma montanha de dinheiro em um programa popularesco de TV?

    Reciclar clichês para conquistar o público não é condenável em termos absolutos: é uma opção de mercado. A questão que deixou perplexos muitos dos críticos cariocas presentes à sessão para a imprensa foi a enxurrada de prêmios e elogios da crítica internacional que o filme vem conquistando, devendo receber estatuetas e estatuetas da Academia daqui a menos de 72 horas (estamos escrevendo na manhã da sexta-feira anterior à entrega dos Oscars). Tudo bem que premiação de Oscar também é a mais popular de todas (e este ano temos uma das safras mais fracas de indicados), mas nem sempre (ou até mesmo raramente) significa muito em termos de arte cinematográfica. Até mesmo grandes artistas de enorme popularidade (que não exclue "grande arte") foram inúmeras vezes esnobados pela Academia: só para ficar em dois exemplos vergonhosos (para os votantes), lembramos que Charles Chaplin e Alfred Hitchcock receberam prêmios “de consolação” no final de suas vidas, como uma forma da Academia tentar limpar a barra de sua insensatez e cegueira, mais do que – de fato – reconhecer os gênios cinematográficos de Carlitos e Hitchcock nas décadas em que realizavam obras-primas adoradas pelo público e que se eternizaram como grandes obras do século XX e certamente eternas.

    É até perda de tempo lembrar estes titãs do Cinema ao comentarmos algo assinado por Danny Boyle que vem de fracasso em fracasso há mais de dez anos (Sunshine – o Alerta Solar, Extermínio - alguém lembra? alguém viu?) desde que meteu os pés pelas mãos em A Praia, jamais confirmando algumas expectativas criadas por seus dois primeiros filmes (Cova Rasa e Traspoitting) - tão legais quanto superestimados.

    Boyle joga exageradamente para a platéia procurando o resultado dos filmes de Bollywood junto às massas sem o menor constrangimento. Pelo menos é uma opção clara que não se traveste de outra coisa “mais séria”. O que surpreende é que esteja sendo levado a sério por premiações e pela crítica quando o prêmio procurado é o que se consegue nas bilheterias. Não há a menor intenção de levantar um olhar reflexivo ou crítico sobre melodramas indianos e seus cacoetes. E – o que é pior – não alcança nem mesmo o encantamento de um conto de fadas contemporâneo ou (vá lá) “pós-moderno”. Que venha muita grana para os realizadores: e cabe apergunta de antigo programa de nossa TV primitiva e grotesca: vai para o trono ou não vai?

    # QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (SLUMDOG MILLIONAIRE)
    EUA/Inglaterra, 2008
    Direção: DANNY BOYLE
    Roteiro: SIMON BEAUFOY, baseado em livro de Vikas Swarup
    Fotografia: ANTHONY DOD MANTLE
    Edição: CHRIS DICKENS
    Música: A.R.RAHMAN
    Elenco: DEV PATEL, FREIDA PINTO, MADHUR MITTAL.
    Duração: 120 minutos
    Site oficial: www.quemquerserummilionario.com.br

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    [Aeternus:11041] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-21)


    - RE:filmezinho safadinho

    Ontem, num destes programas do History Channel, mostraram maravilhas da tecnologia futura com um sistema de microcomputadores em forma de pequenas bilhas que reagem aos comandos de um computador central. Tais moléculas computacionais permitiram que se modificasse o formato de uma cadeira para virar cama, ou mesa para se transformar em cadeira e, com isto, uma casa demandaria poucos utensílios porque cada um escolhidos seria todos os outros bastando clicar, escolher e determinar a cor. Entrei num clima de horror e só vi a coisa, como sempre, de passagem através da minha sólida sala. Quase abracei com afeto a mesinha que precisava de uma flanelinha com óleo de peroba. Que Philip Dick tivesse imaginado casas sobre montouros de lixo com lindas vistas virtuais das suas janelas, tudo bem: ele era doido mesmo e funcionava belamente com o clima de Inteligencia Artificial. Mas este delírio virar algo possível, passarmos das várias essencias de uma coisa para um mundo sem essencia nenhuma, tudo artefato instável?  O pior é que o materialismo histórico descreve abstrações economicas e mercadológicas como forças materiais, não é? Ou seja, já habitamos um mundo sem alma humana. Agora então... Vai ser preciso encontrar comunidades hippies apegadas ao chão, à horta, ao arado e tear, que aos domingos oferecem um culto de ação de graças a uma espécie de Ceres ou Demeter.Sem isso, seremos catapultados em depressão.

    No movimento bandeirante, do qual tomei parte, fui "fadinha" por uns quatro anos e, indo pra reuniões familiares aos sábados ainda com uniforme, todos qaue me abraçavam, tentando o carinho estereotipado me diziam: "essa fadinha..."  Me lembrei disso com o título do Gallego para o filme bollywoodiano "safadinho".

    Contos de fada, como descreviam Borges e Umberto Eco, tem que ser estereotipados, reconhecíveis, repetíveis. Não tenho nada contra isso. A magia destas histórias não tem nada a ver com a maravilha das transformações tecnológicas. No mundo das transmutações e metamorfoses há um fio condutor que não depende de computadores, que não se impõe como ideologia de um establishment fixo, mas que garante a coesão. Mais não tenho a comentar porque nunca vi filme indiano com clima de "bollywood", esta americanização que vem matando a alma dos povos ou fazendo que se exacerbe até ficar com a cara do Hugo Chávez.   Quem quiser ler uma versão ocidental de uma história indiana deve pegar o Thomas Mann em "As Cabeças Trocadas". É delícia de bater palmas, se bem que tem que aguentar as hipérboles de um estilo rebuscado totalmente demodé.


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    [Aeternus:11042] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-21)


    - aderindo ao Gallego no clima momesco

    Diferentes maneiras de contar a notícia
     
    Chapeuzinho Vermelho na imprensa - Diferentes maneiras de contar a mesma
    história:
     
    JORNAL NACIONAL
    (William Bonner): 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo
    na noite de ontem... '.
    (Fátima Bernardes): '... Mas a atuação de um caçador evitou uma
    tragédia'.
     
    PROGRAMA DA HEBE
    (Hebe): '... que gracinha, gente!!! Vocês não vão acreditar, mas essa
    menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?'
     
    CIDADE ALERTA
    (Datena): '.... Onde é que a gente vai parar cadê as autoridades? Cadê
    as
    autoridades? ! A menina ia para a casa da avozinha a pé! Não tem
    transporte público! Não Tem Transporte Público! E foi devorada viva... Um
    lobo, um lobo safado. Põe na tela! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de
    lobo, não tenho medo de lobo, não!
     
    REVISTA VEJA
    Lula sabia das intenções do lobo.
     
    REVISTA CLÁUDIA
    Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no
    caminho.
     
    REVISTA NOVA
    Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.
     
    FOLHA DE S. PAULO
    Legenda da foto: 'Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu
    salvador'.
    Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos
    e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada
    e depois salva pelo lenhador.
     
    O ESTADO DE S. PAULO
    Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.
     
    O GLOBO
    Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar
    menor de idade carente.
     
    ZERO HORA
    Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.
     
    AQUI
    Sangue e tragédia na casa da vovó.
     
    REVISTA CARAS
    (Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte)
    Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: 'Até ser devorada,
    eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa'.
     
    PLAYBOY
    (Ensaio fotográfico no mês seguinte)
    Veja o que só o lobo viu.
     
    REVISTA ISTO É
    Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.
     
    G MAGAZINE
    (Ensaio fotográfico com lenhador)
    Lenhador mostra o machado...
     
    SUPER INTERESSANTE
    Lobo mau! Mito ou verdade?

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    [Aeternus:11046] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-23)


    - Oscares e mascares

    Em pleno carnaval, a festa do Oscar 2009 e que não premiou nem católicos nem cidadãos germanicos cheios de consciencia, preferindo Bollywood e lutadores sadistas.

    Ontem assisti ao " O Leitor". Pulitzer para o autor segundo o galo cantou pra mim mas não ouvi bem, tinha um escritor nos anos oitenta com história parecida: será que foi ele? Naquela época li o livro com muitos bondes e me esqueci dele. Preferi muito mais a analfabeta criminosa da Ruth Rendell in "A Judgement in Stone" porque era mais verossímil. Hanna, ainda mais aprendendo a ler já idosa na prisão, não seria nem disléxica e, portanto, o que a impediu de aprender se não fosse por sua perversão de humilhar as pessoas fazendo com que lessem para ela?  Esta característica sádica não é apresentada. E que mania de tomar banho numa Europa meio sujinha.  O que apreciei no filme foi o discurso a partir da "anomia": ninguém mais está certo ou errado, é impossível julgar sem ser pela letra fria da lei humana, etc. Não que curta particularmente este tipo de neutralidade sem referencia, mas é um alívio depois dos furacões moralistas que sempre caracterizaram o cinema americano.Em O Leitor ninguém se salva. O herói é um frouxo, inibido na expressão do afeto como típico saxão, introvertido filhinho da mamãe. A heroina é doente: pedófila e sádica sob denegação. O professor (Bruno Ganz) parecia tudo ver e nada fazer.

    Sinto falta de um "grande escritor" do tipo clássico de antigamente. Acho que é por isso que tanto me apego ao Nabokov que, confesso, escreve divinamente mas não é, aos meus olhos, "um grande escritor" porque ele combate o que considero importante num romance sério: a dimensão que excede o "ars gratia artis" e oferece uma visada sobre o ser humano. Homero, por exemplo. Até James Joyce!


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    [Aeternus:11047] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-23)


    - RE:Oscares e mascares

    Não ser moralista é bom, mas ser amoral... não sei, não. O livro "O Leitor" consegue problematizar de forma menos incoseqüente a questão de um "pensamento" (ou falta de) em uma época que "domina" tudo, formata a "opinião pública". Aqui tivemos um "pensamento único" anti-Lula e pró-aventureiro picareta Collor. Atualmentew, a acreditarmos nas pesquisas a opinião pró-Lula o coloca como "acima do bem e do mal" apesar de mensalões e que tais. Mais do que Getúlio será o popular mais populista de nossa história? E da história alemã? Hitler foi eleito, chegou ao poder pelo voto e era um "salvador da pátria" popularesco desatinado e cercado por açougueiros de todos os lados. Todo mundo fazia "tudo o que seu mestre mandar"? Isso é um grande tema desenvolvido com pretensão e problematização razoável (apenas) no livro que me pareceu dar um paso maior do que as pernas, mas é razoávelzinho. Soube por amigo que o leu muito antes de virar filme que deu mote para um trabalho de um psicanalista estrangeiro apresentado em congreso internacional com boa repercussão. Fui ler o livro para conferir se era tão ruim como o filme sob o ponto de vista da discussão ética. O filme trai o livro em vários aspectos e aposta no melodrama do romance e fica mal na disucssão séria. Mas ou por poroblema de tradução oupor preconceito meu, achei mediano como literatura. Lembra um pouco redação de best seller. Como se o autor não fose "do ramo", se é que me entendem. Quem é "do ramo" em que labuta pode ser bem ou mal sucedido em diferentesobras e momentos, mas é: escirtor ou cineasta ou ator, etc etc. Quem não é "do ramo" passa um esforço (ou falta de esforços) em realização menos expressiva do ponto de vista da carpintaria literária ou cinematográfica ou de interpretação, etc etc. Concordo com Jansy sobre a falta de grandes escritores. Encontrei um grande livro recentemente ("As Benevolentes"), mas faltam grandes autores em geral. O tema de "O Lietor" pede um grand escritor e um grande filme: é nanico o escitor e mal desenvolvido  demais o roteiro do filme e o filme. E a Kate Winslet não convence como anlfabeta de letras ou analfabeta moral: só convence como amante fálica.

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    [Aeternus:11048] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-23)


    - RE:RE:Oscares e mascares

    Aposto todas minhas fichas em que o visitante foi o Gallego.  Gostei da dica para "As benevolentes" ( quem é o autor?) e da descrição de Hanna como "amante fálica". Sem dúvida a moça é fálica, mas precisamos acrescentar o "sádica" para marcar o modo dela curtir sua dominação sobre o machinho ou a femeazinha de asa quebrada.  

    Recontando o filme percebi que me afino um pouco com o garoto medroso por causa do gesto de gravar para a ex-amante o que ao longo dos meses ia lendo dos livros escolares que no passado apresentou a ela.  Estranha tradução para o cachorro do Tchekov: virou apenas "little" em vez de ser "lapdog" ( cachorro de colo). Linda frase do Homero. Linda... linda. Qual teria sido o tradutor quando ele não pronunciava os sons em latim e grego? Não li Ulisses em ingles, só a Eneida ( traduzida por John Dryden). Acho que vou comprar a versão de A. Pope, deve ser a mais próxima.  Seja como for, o "kid" percebeu que havia sido usado quando estava presente ao seu julgamento, notou que ela o explorou sexualmente em troca dos favores de leitor. Ao nojo pela crueldade dela, a ferida narcísica.

    Hanna, assim como o Eichmann descrito pela outra Hanna, é um exemplo da "banalidade do mal". Acho que o autor estava citando H.Arendt.  E, no filme, a escrita e a fala não são instrumentos civilizatórios mas formas pre-genitais de gozo erótico. Estranho, mas fato.

    Na cozinha, sem a baianinha risonha que nos deu o bolo hoje cedo, talvez porque nos sentíssimos jogados às baratas, enquanto silenciosamente tomávamos café, Humberto inaugurou a conversa com: "sabia que a femea da barata só é fecundada uma vez e isto basta para ela continuar colocando milhares de ovos o resto da vida"? Imaginei a barata como ótimo recurso de transportar vida aos outros planetas e respondi de acordo, mas acrescentei outro inseto ao estoque da nave espacial. Humberto me corrigiu: "não, só a barata tem característica industrial, a formiga ou a pulga são artezanais".

    Depois contei pra ele o filme e ele observou:"mais um filme com nazistas? A turma está com saudade do Hitler?"  e eu gelei. Discordando. Notei: " Duvido que tenham saudades do Hitler, mas parece que estão com saudade do contexto que deu origem a ele... Pior não podia ser porque, deste jeito, podem criar outro emergente ainda pior que ele..." 

    E pronto. Estou acuada. Com as baratas industriais. 


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    [Aeternus:11049] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-02-24)


    - RE:RE:RE:Oscares e mascares

    Siiiiiim, a pergunta "o que o Sr. teria feito no meu lugar?" (---> do artigo abaixo) foi um dos momentos-chave desse filme.
    Há outro: quando o juiz sentencia e se justifica recorrendo à "constatação" de que a Sra. Schmitz "teve uma escolha e optou por não salvar aquelas pessoas".
    Digo que é um momento-chave porque é uma constatação pralá de discutível: de um lado, esse suposto poder de escolha não é menor e nem maior ali do que aquele que, sartreanamente, a gente poderia ver em QUALQUER comandado nazista. O que está em jogo é uma questão muito maior: de que é feito o espírito humano e sua imputabilidade talvez não seja algo tão claro assim.
    Nesse sentido adorei o fato de que este é mais um filme que veio bagunçar certezas e não reforçá-las.
    Tá certo que os autores (desde o livro até o diretor do filme) não são kamikazes a ponto de terminar o filme no meio da cirurgia moral, com os órgão expostos... e tudo acaba encoberto num certo romantismo e na remissão da culpa do "garoto", que, apesar do peso na consciência e do dilema moral, não teve, na maturidade, coragem de se despir da "opinião pública": escondeu-se atrás daquela pergunta inquisitória: "você tem refletido sobre seu passado?"
    Conheço gente que saiu do cinema aflita, tentando entender a briga entre o que sentiu e o que se obrigava a pensar a respeito do filme, enfim, tentando... JULGAR. Sem se dar conta de que é isso que o filme questiona: julgamentos. Não porque aprove minimamente os comportamentos em jogo, mas porque tenta entender, no nível da motivação, a fraqueza humana sob as pressões do que, nela, vem da HISTÓRIA. É o que eu sempre tento passar pras pessoas quando falo de "superego": não se trata de um "dispositivo" individual, mas coletivo individualizado, e não inibe apenas impulsos do próprio sujeito, pois que está presente em toda a teia de patrulhamentos maniqueístas exercidos não apenas através da "Justiça" oficial como de fofocagens e linchamentos morais ou físicos.
    O filme flagra a quase impossível separação entre ser atropelado pela História e o fato de que cada um de nós é também responsável por ela. Então gostei de o filme mais plantar in certezas do que defender "teses" fechadas.
    CULPAS: "O Leitor" lida com o tema de forma brilhante, muito diferente do - digamos - "dogmático" "O Casamento de Rachel". Neste, como virtude, sobra apenas a interpretação de Anne Hathaway. Mas a celebração da culpa é típica daquele inócuo "movimento" cinematográfico que produziu "Festa de Família" e o insuportável "Dancing in the Dark".
    Bonitinho mas... nem tanto... é o "Slumdog Millionaire". Sinto cheiro de algo falsificado naquele "final feliz": o rapazinho reconquista a garota não só porque se livra de seus algozes, mas porque adquire poder de proteção ao tornar-se tão milionário quanto aqueles marginais... Alguém poderia arguir: mas o que importa ali é o fechamento do trio de "mosqueteiros" que, mesmo à distância, e com prejuízo da vida do Salim, faz o Bem triunfar...  Será?
    Dizem que há algo de "Cidade de Deus" no filme de Danny Boyle. Digamos que ele imitou bem, mas aprendeu muito pouco com Meirelles, que tem OUTRA consciência do que seja o papel do cinema nessa "dura realidade".
    Mas é isso: de todos os oscarizáveis que vi, "O Leitor" foi o de que mais gostei.
    E "Benjamim Button" teve uma atuação muito boa do Brad Pitt, que não foi plenamente percebida pelos que não conseguiram fazer abstração da maquiagem e dos efeitos de computador. Ele teve pelo menos dois momentos de "less is more" daqueles que eu adoro. Não que ele devesse levar a estatueta, mas a dedicatória feita a ele podia ter sido mais enfática.
    Aliás, gostei demais desse esquema na festa de entrega de cada indicado a melhor ator e atriz ter um "padrinho" ou uma "madrinha". Bacana, mesmo.
    E Kate Winslet tinha mesmo de levar o bonequinho dourado desta vez, não?
    *
    Folha de São Paulo, segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


    LUIZ FELIPE PONDÉ

    Sua mãe, transtornada, abre o quarto maldito, escuro e fedorento, uma vez por dia

    Estava eu sentado na estação de trem de Lille na França em 1996. Lia a resenha de um livro que não lembro o nome, nem o nome do autor, sobre filhos das pessoas que salvaram vidas "inimigas" dos nazistas na Europa. A pergunta da pesquisa era: como se sentiam os filhos de quem escondia judeus em casa? Por que correr o risco?
    Uma pergunta semelhante, posta de outra forma, é feita pela personagem interpretada por Kate Winslet no filme "O Leitor".
    Reconhecida, presa e julgada, já nos anos 60, por ter trabalhado no extermínio nazista, escolhendo operárias "já fora de uso" para a morte (300 vítimas), ela é condenada.
    Quando o juiz pergunta, "Por que você fez aquilo?", ela responde com outra pergunta: "O que o senhor teria feito no meu lugar?". Silêncio.
    Imagine que você é uma criança de dez anos. Mora em Paris em 1943, e ouve passos na escada de seu prédio. Seu pai esconde uma mulher judia e duas filhas em um dos quartos da pequena casa em que mora você, ele, seus dois irmãos, sua mãe e sua avó. Você percebe que a cada ruído de passos, sua mãe e avó estremecem, e também seus irmãos mais velhos. Um enjoo sobe em seu estômago. É comum você ouvir brigas entre seus pais. Sua mãe costuma acusá-lo de "não amar a família e de ser um irresponsável".
    Esta era uma resposta comum dada pelas crianças entrevistadas à pergunta: "Como se sentiam quando seus pais escondiam judeus?".
    "Sentia que meu pai não nos amava, pois, se nos amasse, ele não nos colocaria em risco por causa de pessoas estranhas".
    Com o passar do tempo, você percebe que as outras crianças na escola não parecem viver em pânico como você. Em casa, seus pais pouco falam um com o outro. Sua mãe, transtornada, abre o quarto maldito, escuro e fedorento, uma vez por dia, para colocar, em latas, a comida e a água para aquelas indesejadas.
    Elas devolvem outras latas, com seus excrementos. O cheiro de restos humanos enche o ar da casa. Sua mãe, com raiva, jura que vai entregá-las à polícia. Um dia, você ouve sua avó dizer para sua mãe: "Por que você tem que obedecê-lo? Sempre disse pra você que ele era um idiota".
    Um dia a pressão piora, sua mãe começa a bater em seu pai. Gritos. Os vizinhos batem na porta. Uma vizinha, desconfiada, passeia pela casa.
    Seu pai mergulha no silêncio do qual não sairá mais.
    Um dia, quando volta da escola, sua mãe, sua avó e a vizinha conversam em voz baixa. Boatos corriam que pessoas que entregavam judeus à polícia ganhavam simpatias e dinheiro. Um dia, no meio da noite, soldados chegam à sua casa. Em meio à confusão, as fedorentas e esfarrapadas, além de seu pai, são levados embora. Nos dias seguintes, pouco se fala. Sua mãe e avó, com o tempo, voltam a sorrir à mesa. A conversa trivial retoma o cotidiano.
    Ninguém fala do seu pai. Seu nome cai sob proibição. Depois de alguns meses, a tranquilidade volta ao lar.
    No filme "O Leitor", a condenada diz que foi trabalhar para a SS porque precisava do emprego.
    Um dos estudantes de direito que assiste ao julgamento acusa seus compatriotas de fazerem um "show de justiça" às custas das assassinas pegas, a fim de se passarem por inocentes. Como não saber que grande parte daqueles juízes tinha idade para estarem vivos e atuantes no período nazista? A hipocrisia é parte da "justiça social". A correspondente de guerra Martha Gellhorn, no seu magistral livro "A Face da Guerra" (Objetiva), conta que, ao chegar à Alemanha em 1945 com o exército aliado, só encontrou alemães antinazistas. Onde estavam os nazistas?
    Você se lembra que, em 1945, na chegada dos aliados a Paris, sua mãe, avó e vizinha levaram você e seus irmãos, com bandeiras americanas, para as ruas, comemorando a libertação de Paris. Em um desses passeios, as "heroínas" que trouxeram de volta a tranquilidade para sua casa participam da humilhação pública de mulheres que teriam sido amantes dos alemães.
    Suas cabeças são raspadas, elas fedem a urina e fezes, e os patriotas franceses cospem nelas. Na sua ignorância infantil, por um momento, você acha aquelas mulheres parecidas com as fedorentas e esfarrapadas que moraram em sua casa. Além do fedor, a semelhança está no fato que todo mundo parece concordar que elas merecem morrer.
    Hoje à noite, caro leitor, quando você estiver deitado em sua cama e ninguém estiver ouvindo seus pensamentos, se pergunte: "O que eu faria se tivesse um quarto desses em minha casa?".


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    [Aeternus:11050] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-24)


    - RE:RE:RE:RE:Oscares e mascares

    Interessante a reportagem de Luiz Felipe Pondé.  Nos anos setenta perdi um amigo, não exatamente o perdi mas ele passou a desconfiar de mim desde então, porque ele me perguntou se eu o esconderia em minha casa se fosse preciso ( a pergunta dele era retórica, minha resposta foi verdadeira e não passei no teste bobo proposto por ele). Respondi que não, pois jamais colocaria meus filhos em risco.  Existem várias formas de ajudar a quem está precisando de acolhimento ou de apoio, tenho certeza de que eu encontraria diversas soluções para um problema real que aparecesse. Contudo, para a questão como proposta, a resposta era não e seria não, sempre.  Amigo de verdade não nos expõe deste modo... Por isso mesmo, em quase todos relatos que encontrei, os hóspedes ocultos eram quase sempre pessoas desconhecidas. Amigos de verdade não nos testam contra nossa família.

    Teoria por teoria, na prática as coisas são diferentes e não faço idéia do que acabaria resolvendo.  No caso de ser meu marido a pensar de um modo e eu de outro, como na cronica do Pondé, a situação é ainda mais complexa. O curioso é que me vi do lado do marido e não da mulher, partilhando a surpresa e a triteza dele. Fácil assim, identificar-se com o suposto bonzinho deprê. Quem coloca o sino no gato?

    Hanna, no filme do Leitor, era obviamente uma pessoa doente pela sua ignorancia e sua miséria, em todos os sentidos. Isto é pouco apresentado, mesmo quando podemos notar uma ambivalencia ( movimentos protetores, generosos lado a lado com a gana de tirar proveito erótico da situação). A humanidade fica toda rebaixada só pelo modo de apresentar a história: fica parecendo que não há heróis, pessoas nobres e altruístas, valentes, determinadas... Ou que aqueles que parecem heróicos são apenas outro tipo de neurótico. Não concordo com esta proposta. Muita gente consegue dar a volta por cima depois de um erro e, infelizmente, todos erram. Não errei com o amigo-testador: pra ele a resposta foi "não". Em outros contextos, este mesmo "não" seria um erro. Mas... como saber?

      


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    [Aeternus:11051] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-25)


    - RE:Oscares e mascares

    1)Para nossos tempo, a pergunta que Hanna faz ao juiz é retórica;
    2)assim como o dilema apresentado por Pondé.
    2-a) Com relação ao nazismo anti-semita, anti-comunistas, anti-ciganos, anti-gays, etc etc: uma amiga judia que passou por campo de concentração na infância não me parece que cobraria abrigo em casa de estranhos para ser salva, mas ela lembra de um polonês (como ela) da mesma aldeia (só que não-judeu) que, alguns anos depois, fardado e a serviço dos nazistas fingiu não identificá-la como judia. Não fez nada de mais. Apenas fingiu que não a conhecia, que não sabia que ela era judia e foi um momento capital para a sobrevivência dela e de uma prima. Olhou-as nos olhos e "deixou passarem".
    O que o livro e o filme pretendem discutir de modo oblíquo seriam:
    a) a relação da geração pós-guerra com seus pais: foram nazistas? foram assasinos? foram complacentes? foram omissos? fizeram o que podiam? fizeram o que não podiam (em diferentes sentidos)? Como conviver, gostar dos pais se eles...?
    b) A responsabilidade individual no meio de uma massa coletiva guiada por "verdades" implantadas pela propaganda, pelo "pensamento único". Quando se pode desculpar (ou em diferentes categorias: perdoar? tolerar? compreender sem justificar? compreender E justificar?) a responsabilidade individual porque se diluira na responsabilidade "coletiva"?
    O autor do livro declara que queria discutir a relação dele e de sua geração com os pais que viveram o nazismo (ou sob o nazismo?) mas escreveu um romance "pseudo-autobiográfico" (pseudo, neste caso não quer dizer nada para mim, encaro como ficção criada pelo escritor sob responsabilidade dele); por que complicou a coisa coocando um adolescente com os hormônios em alta encontrando uma espécie de Mrs. (ou Frau ou Fraulein) Robinson para lhe oferercer "as primeiras noites de um homem" e promovê-lo a ser outro "the graduate" do cinema?
    O aspecto "romance de iniciação" desanda no filme que abandona personagem significativo do livro, o pai do jovem Michael com quem ele tem diálogos interessantes.
    Por outro lado, o filme coloca em cena um profesor de Direito dizendo algo (se lembro bem) como "não se pode julgar as pessoas hoje pelas leis de hoje por coisas que fizeram no passado sob outras leis". Ora, existe uma noção de lei "natural" sobre o direito à vida que, por identificação, nos ensina que se não queremos que nos matem, também não devemos matar nem deixar 300 mulheres morrerem queimadas por que é mais importante não deixá-las escapar, prisioneiras que eram. Claro que isso parecia lógico para um imbecil completo (que Hana não é na pele de Kate Winslet) já que ela e as outras guardas escolhiam dez judias por semana para morrerem em câmaras de gás. Por que não deixar morrer 300 de uma vez?
    Bem sei que uma  das maiores estratégias "de propaganda" nazista era a des-identificação: vi filmes em que imagens caricatas de judeus apareciam sobre imagens de ratos eoutros animais nojentos e nocivos. Ora, "não se mata ratos?" Então...
    Uma vez fui comentar um filme ("Amen", de Costa-Gavras_ em um clube judaico e uma senhora me perguntou: "Como psicanalista, como os sr. vê os nazisatas que faziam o que fizeram? Ele não eram humanos!"
    E eu disse algo como: "Minha senhora, jamais repita isso: pois era isso mesmo que os nazistas diziam dos judeus: 'eles não são gente'. Nós precisamos é reconhecer o potencial destrutivo do que é humano em todos nós, em cada um de nós para tentar não atuar nossa destrutividade e perversidade humanas. Os animais "inferiores" não são assassinos, não matam como os humanos."
    Meu foco é que livro (em parte) e filme (totalmente) não tiveram capacidade nem muito menos "grandeza" intelectual e moral para problematizar o tema muito sério e complexo da responsabilidade individual quando se está imerso "na massa" "hinotizada" e ensandecida por um líder perverso.
    Hanna mostra ter mantido (já tinha antes de aderir ao emprego de gyarda?) uma forma de sua perversidade e sua perversão ao ceder sexo "pago" por leitura do jovem (tal como fazia com judias que escolhia para lerem para ela e depos as escolhia para a câmera de gás). Mas como esta mesma mulher analfabeta de letras e de moral teria capacidade de apreciar "Guerra e Paz"???? Salvo engano, no livro este romance de Tolstoi nem é mencionado. Como disse Jansy, a liteartura não está nela como fator de civilização, cultura ou sublimação: é usado de forma perversa; e é ridículo que ela só aprenda a ler na prisão e use os livros para ficar mais perto da corda e se enforcar. Que analogia perversa! (do roteirista)
    Voltando ao início do que escrevi hoje: para nossos tempos (nã existe filme de época nem de futuro, tudo é do seu tempo), o que me chama a atenção é uma enxurrada de filmes ambíguos em suas propostas: "O Homem Bom" (ele, na SS, não sabia o que acontecia nos campos????); "O Menino do pijama listado" (a mulher do comandante de um campo não sabia de nada direito? o filme comove pela morte equivocada de um alemãozinho bonitinho, limpinho e ariano com quem a platéia se identifica na ingenuidade - ingenuidade de criança, OK, mas não seria uma forma de colocar "ingenuidade" como fator-desculpa?); "Operação Valquíria" (a elite do exército alemão só resolve matar Hitler em julho de 1944 quando sabiam que a guerra estava perdida - e buscando uma rendição menos humilhante; OK, valeu a tentativa - ainda que por duas vezes incompetente como mostra o filme - mas o foco não era uma revolta contra o monstro Hitler, mas em busca de menos vergonha para o exército elitizado que menosprezava o populacho que compunha as hordas dos SA, SS etc etc.
    E agora, o filme "O lietor" muda o livro no que tinha de menos ruim e faz uma salada sem moral nem ética com questões retóricas e deixa a "coitada" da analfabeta responsabilizada quando aquele juiz também poderia ter sido um "cúmplice" do nazismo (mesmo sem ter sujado tanto as mãos como ela).
    E o lance mais patético: ela tem mais vergonha de não saber ler do que de assumir o relatório que não podia ter escrito?! Entendo que este narcisismo exista asim, Mas iso é o narcisismo e vergonha de um ser humano que é um patológico moral, uma analfabeta ética. Gostando de ler "Guerra e Paz"???!!!!!! Me poupem!
    assinado: Gallego


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    [Aeternus:11052] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-25)


    - RE:RE:Oscares e mascares

    Gallego, acho que concordamos com tudo dessa vez. Talvez eu me sinta menos indignada neste momento, faltam estímulos... não ligo pro Oscar e portanto as premiações injustas apenas revelam coisas sobre o establishment cinematográfico, raramente novidades ainda por cima.

    Meu pai nasceu em Berlim e a família dele todinha mora lá até hoje (ou lá está enterrada) e tinha quinze anos quando acabou a primeira guerra mundial. Antes da segunda, veio pro Brasil. Meu avô lutou na primeira ( até ganhou condecoração, uma cruz de ferro) e estava idoso demais para tomar parte na segunda. Cuidava de uma cervejaria. Um dos meus primos alemães era aviador na segunda guerra e morreu logo na primeira semana. Os outros eram jovens demais. Não sei se pertenceram à Juventude Alemã. Entre uma guerra e outra meus pais enviavam ajuda à familia berlinense porque havia inflação e escassez de alimento.Os projetos populares de Hitler pareciam atraentes para quem passava necessidades: estradas de ferro, carros para o povo, incremento à agricultura, a reconstrução de um país humilhado. Mesmo assim, meu pai nunca falou muito sobre a Alemanha e a família que ficou por lá. Trocavam fotografias. Acho que ele foi visitar os pais apenas uma vez, aos vinte e poucos anos e depois, com a guerra, perdeu a chance e eles morreram pouco depois da vitória dos aliados (sobreviveram aos bombardeios, mas não ao frio e à fome que vieram novamente). Me parece que não eram particularmente aderentes ao nazismo, nem se opunham a ele. Não sei.

    Um tio, casado com irmã da minha mãe, tinha uma sobrinha que pertenceu à juventude hitlerista e dedurou os pais por algum desvio ideológico.  Ela mais tarde se envenenou. O tal tio teve uma arterioesclerose cerebral precoce, aos quarenta e poucos anos. Não era nazista e curtiu uma breve troca de mensagens com Thomas Mann. Era professor de história natural na USP.

    Será que eu devia sair investigando coisas? Não vejo sentido, principalmente porque não fui influenciada por alguma ideologia germanica.  Todo o alemão que entrou na minha vida veio por parte de mãe, dos colonos que povoaram Petrópolis no início do século dezenove e tinham saudades da terrinha, idealizada e distante e... perdida pra sempre. Se herdei algo foi um espírito romantico aliado às nostalgias e paraísos desfeitos.


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    [Aeternus:11053] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-02-25)


    - RE:RE:RE:Oscares e mascares

    Não estou julgando "de camarote", ou seja, décadas depois, sem nunca ter vivido o nazismo alemão ou o fascismo italiano (ou o integralismo brasileiro), dizer que eu jamais faria isou ou aquilo? É muito fácil fora do olho do furacão ter certeza de nossa moral e ética. Nas situações-limite tudo pode acontecer. mas acho que todos os esforços da civilização (livros, filmes, arte em geral incluídos) deveriam propor sempre e mais as forças de Eros e não de desagregação. Acho que estou com Freud nesa colocação. Minha família materna teve pelo menos dois membros ligados ao Integralismo de Plinio Salgado a partir de crenças católicas com horror ao "comunismo ateu". Mas deixaram de lado quando a coisa ia partir para a violência. Um jurista importante que conheço quando jovem foi integralista e esteve aramado de tocaia para matar alguém que não passou onde devia passar. Ele repete sempore sobre a sorte que deu pois nos seus 17, 18 anos, tudo poderia acontecer, ele matar o sujeito e sua vida estaria mudada, segundoi ele para pior, até hoje. Eu jamais conseguira participar de "luta armada" de esquerda, pis mais que fose contrário à ditadura militar brasileira. Eu tinha medo até de passeata e particpava do Diretório Aacadêmico da Faculkdade de Medicina passando filmes e escrevendo para o jornal (sobre filmes: de esquerda, ou de boa cepa humanista). Imagino que na Alemanha pós-I Guerra a tentação de aderir a Hitler fosse enorme. A humilhação e ferida narcísica imposta à Alemanha depois da II Guerra associada a hiperinflação só podia dar no que deu: fúria narcísica de destrutividade contra o que quer que fosse, sendo os "usual suspects" os judeus, comunistas, gays, ciganos, etc etc.
    Minha indignação com certos filmes ambíguos atuais não se dirige tanto à "verdade histórica" sobre alemães ingênuos (creio que existiam, sim, por que não?), analfabetos de letras, analfabetos morais, perssoas que "não queriam ver" ou saber das coisas, pessoas de boa vontade iludidas, etc etc. Pessoas que ajudaram às custas da própria vida perseguidos judeus, comunistas, etc. Pessoas  que nunca foram nazistas nem antissemitas destrutivas. Minha bronca é com a atualidade em que uma nova forma de antissemitismo parece estar em marcha misturando as criticas ao Estado de Israel com o velho preconceito contra judeus em geral, misturando tudo com "homens bons" da SS. é aí que fico pensando se a história estará se repetindo não como farsa mas como nova tragédia em caminho. Novos "genocídios" não deixaram de existir desde Auscchwitz. O ser humano (ou cêrumanu) não falha em seu potencial destrutivo que pode vir a reboque de religiões (lembram da "santa" Inquisição) ou ideologias as mais idealistas. Arruma-se um canal "justo" para os piores desatinos ao longo da história. É triste, mas tem sido assim ao longo dos séculos e milênios.

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    [Aeternus:11056] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-02-26)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Oscares e mascares --> Os quartos (do pânico?)

    Muito lúcida a resposta da Jansyta ao seu então muy amigo... e apostando na criatividade das soluções.

    Será que ele entendeu? Não me parece que quem formula uma pergunta dessas ou qualquer proposta do tipo "se você me ama" esteja interessado numa resposta tão objetiva. Ele está é condicionando o amor à uma incondicionalidade narcísica, néverdade?
    Mas adorei a integridade da resposta.
     
    Quanto ao filme, de fato a discussão ética é tão acanhada quanto a coragem do "kid"... a gente até esperaria que ele mudasse depois de maduro... afinal, foi tão legal ver Ralph Fiennes amadurecendo no "Jardineiro Fiel", que acho que a gente esperava por isso neste de agora... mas o "leitor" continuou tentando tapar buracos. Como quando vai falar com LENA OLIN... interessante aquela cena, aquele diálogo...
     
    Mas de qualquer forma, bem ou mal, o filme toca a questão da culpa no pensamento único. Tem a anomia apenas maquiada pela Justiça instituída... mas vejo também potencial para uma discussão sobre o problema de se aplicar princípios de Direito talvez não ajustados a um acontecimento dialético, um genocídio "democraticamente" consentido: de quem é a culpa... pela HISTÓRIA?

    Sei que talvez eu esteja vendo qualidades que o filme na verdade não explora, mas a discussão ética, mesmo que apena esboçada ali, talvez aponte na direção de novas formas de julgamento. Acho que o que me influenciou positivamente em relação ao filme foi o fato de tê-lo assistido logo depois de "Operação Valquíria", que mostra um grupo de pessoas que se insurgem contra - mas quase se afogam na - então normalidade da perversidade - que, por ser tão "normal", não era percebida como mal.
     
    Enfim, tenho gostado de filmes que que olham para os Horrores nazistas de forma não lamurienta, que desfazem a idéia de que foi um fenômeno isolado. Gosto de filmes que mostram que aquilo foi acontecendo sem que aquele povo todo se desse conta, foi acontecendo numa progressão silenciosa dentro de uma cumplicidade coletiva e que, portanto é preciso estar atento às engrenagens da História em QUALQUER TEMPO. Gosto de filmes que mostrem que Hitler não era o único doido ali, mas que, como vocês bem lembraram, foi eleito e apoiado até o fim (nisso, tivemos esse mérito: desfizemos o fenômento Collor). Mas a gente precisa de filmes que tirem o nazismo desse isolamento "seguro" num tempo e num espaço específicos, e que mostrem que os defeitos da MENTALIDADE COLETIVA podem acometer QUALQUER época, qualquer povo, em qualquer contexto histórico. Não acho que o nazismo volte naquele formato, mas há cegueiras atuais tão vivas quanto a cegueira moral da Sra. Schmitz. Frau Schmitz: uma pessoa vista de tão PERTO pelo "kid" mas absolutamente desconhecida... tadiiiinho, não era pra menos que se tornasse para sempre um pastel.
    *
     
    Já "Revolutionary Road" é daqueles que a gente sai do cinema querendo SE MATAR... sem catarse nenhuminha.

    Achei legal que, no Globo de Ouro, Kate Winslet ganhou PELOS DOIS FILMES. De fato está ainda mais soberba no filme do marido, talvez porque não envolvesse apenas uma composição, mas sutilezas daquelas que eu adoro, como aquele breve momento perto do final, olhando pela janela, uma feição de quem vislumbra por um instante a liberdade... até que a primeira gota de sangue caiu e o sonho começou a se esvair junto até que ela morreu...

    É de MATAAAAAR!

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    [Aeternus:11058] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-02-26)


    - RE:RE:RE:RE:Oscares e mascares

    Pois é, Omar, a questão ética do filme fica acanhada, mesmo assim é uma abertura para questionamentos diferentes dos habituais - com auas permanentes lamentações que velam o que você apontou tão bem no final: tenho gostado de filmes que que olham para os Horrores nazistas de forma não lamurienta, que desfazem a idéia de que foi um fenômeno isolado. Gosto de filmes que mostram que aquilo foi acontecendo sem que aquele povo todo se desse conta, foi acontecendo numa progressão silenciosa dentro de uma cumplicidade coletiva e que, portanto é preciso estar atento às engrenagens da História em QUALQUER TEMPO. Gosto de filmes que mostrem que Hitler não era o único doido ali, mas que, como vocês bem lembraram, foi eleito e apoiado até o fim... Mas a gente precisa de filmes que tirem o nazismo desse isolamento "seguro" num tempo e num espaço específicos, e que mostrem que os defeitos da MENTALIDADE COLETIVA podem acometer QUALQUER época, qualquer povo, em qualquer contexto histórico.

    Pra mim o pesadelo é exatamente o desta "mentalidade coletiva" porque nivela por baixo, se vê ameaçada pela diferença, ataca a sensibilidade e a inteligencia, é primitiva. Como descrevia Bion, um grupo sem lider acaba deixando ocupar a liderança o membro que for o mais psicótico entre todos. Progredimos tanto, embora lentamente, até a idéia de "indivíduo pensante" e, de repente, tudo pode ser novamente reabsorvido pelos "grupos de suposto básico."

    E há momentos insidiosos no cotidiano. Como no filme do Polanski, " O inquilino" em que o sujeito todo dia recebe o café com leite e a marca de cigarro da moça que faleceu antes dele ocupar o quarto dela e no final, desiste de ter seu gosto atendido e vai incorporando o mundo dela. Andei passando umas semanas combatendo a baianice, sem pires com chicara, sem copo de cristal, com arroz cozido demais ou de menos, com cabides desencontrados no armário, fronhas descombinadas do lençol... nem sei enumerar os itens porque eu mesma não me dava conta de que tinha tantos caprichos, coisinhas miudas que não valia a pena me queixar e foram me sufocando junto à musiquinha sertaneja permanente zunindo de um celular na cozinha. Melhor ficar sozinha do que ter alguém tão insistentemente "personificado" e carente! Recuperei manhãs com canto de sabiá, barulho de chuva, cafezinho no ponto. Ufa. Milan Kundera observou que a música era instrumento da tirania. Isto nem sempre é o caso mas acho que ninguém nesta nossa lista já esteve numa cidade perdida no interior, em busca de calma, onde o prefeito alugou um trio elétrico para animar as ruas durante os feriados ( e tem igrejas com alto-falantes...). E é insidiosamente que a mentalidade grupal primitiva começa a entrar na vida da gente.


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    [Aeternus:11064] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - O Leitor e Você quer ser um Bilionário?

    Não sei se é consequencia do resfriado, mas estou sem saber se o muçulmano-indiano ganhou um bilhão ou um milhão. Mas sei que mais uma vez estou opinando diferente do Gallego, até recentemente quase uma alma gemea em relação aos mais diversos temas... Adorei o filme realizado em Bombaim ou Mumbai. Me vi de volta aos anos da infancia com as aventuras de Tarzan na selva, com histórias de Ali-Babá e o espírito maluco dos grandes contadores de histórias. Porque era isto que vi em Jamal (quer dizer "bonito" em árabe, mas ele só ficava lindo quando sorria e era tão pouco...). Também não achei nada de Bollywood, era Hollywood com Rita Rayworth salva dos crocodilos,Taylor sob as patas dos elefantes, David Niven douradíssimo num balão (exceto o finale na estação ferroviária), Oliver Twist e mais outros Dickens ( um dos produtores tinha este sobrenome). Até a filmagem com jogo maluco de camera (algo que habitualmente detesto) combinou. E o resgate de Eurídice ( nunca tinha ouvido Gluck em frances, só italiano e alemão) do inferno.

    Fiquei tensa, chorosa, sofrida, horrorizada e feliz ao mesmo tempo porque tinha coisa horrível de gente e mundo e coisa linda também.


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    [Aeternus:11065] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

    A Callas gravou a ária mais famosa da ópera de Gluck em francês: "J'ai perdu mon Eurydice".
    Já da Kathleen Ferrier, da Agnès Baltsa e do Dietrich Fischer-Dieskau os registros são em italiano como é a versão original do libretto, "Che farò senza Euridice?"
    Já os textos originais das óperas de Gluck sobre Iphigenia são em francês mesmo: "Iphigenie en Aulide" e "Iphigenie en Tauride".
    Sobre o filme do milionário hindu, como queríamos demonstrar: todos os mais vetustos clichês são usados e abusados. A reciclagem não me encantou nem me pareceu convincentemente "aggiornatta", e até me caiu como vetusta mesmo. Desavergonhada e safadinha, feita para mobilizar as platéias. Como eu disse: OK, pelo menos não disfarça que é "sério" como o abjeto "Leitor" ou "A Troca" do Clinte Eastwood; este "Milionário" foi feito para envolver com as linhas de cordel de marionetes para ganhar público. E boa bilheteria. Mas prêmios? Reconhecimento crítico? The bells are ringing but not for me: pago para que me enganem que eu também gosto, mas não foi dessa vez. Pior para mim.
    Consegui acabar de ver "O Lutador", outra empulhação disfarçada: dramalhão de boxe (ou melhor, de luta de "catch") onde o masoquismo dos lutadores é mal disfarçado pela "arte" de levar porrada. E o sadismo boboca do público não tem disfarces. O filme é dramalhão masoquista para quem aguentar a violência da primeira meia-hora em que até grampoo de grampeador é usado na pele do adversário. É combinado. E daí? O grampo penetra na pele e sangra. E dói. Mas há quem goste. No mais, troquem a Libertad Lamarque dos dramalhões mexiacanos e argentinos e a Sarita Montiel pelo Mickey Ropurke com o rosto deformado (de verdade) pelos socos em ringues quando o ator resolveu investir na carreira de boxeur e temos the same old story. Com câmera modernosa e eficiente. Velho vinho avinagrado em embalagem mudernosa.

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    [Aeternus:11066] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

    De Jansy pro Gallego ( era o Gallego, pois não?)

    "Che farò senza Euridice" é o que Kathleen Ferrier canta divinamente, mas o Fisher-Diskau na minha gravação lamenta assim: "Ach, Ich hab' sie verloren" ( "que farei sem Euridice" é pros italianos.Pros germanos: "ah, eu a perdi"

    Recentemente escaneei o poema do Rilke, em que este lamento nem mais é lamento orfico, mas a dor dos que se amam e estão juntos afinal sem mais se amarem. Se descobrir como passar pra cá, copio.

    Não vou ver Milk, nem O Lutador. Mas fui sortuda porque acabei resolvendo assistir O Leitor e o Favelado-Milionário. Não ter compromissos com a arte, ou com a crítica é, pra mim, uma vantagem em certos momentos. Ou mesmo não ter compromisso de qualquer espécie exceto... e não direi "com a verdade" porque não sou tão forte, exceto...comigo mesma? (tomém não). Vai ver que é isto que me falta descobrir. A espinha dorsal da ... da...???????????


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    [Aeternus:11067] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

    Ué?! Vc escreveu que em "O Leitor" nada se salva. Entendi que não apreciou o filme.

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    [Aeternus:11068] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - RE:RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

    Eu escrevi que em O Leitor nada se salva? Vai ver que escrevi, mas não lembro o que tinha em mente.

    Será que não apreciei o filme?  É verdade, a história não colou bem comigo. Mas gostei de ter ido ver. Estou confusa, é verdade. Gosto e não gosto de coisas numa mesma coisa. E, pelo testemunho que deixei por escrito, faço isso desde sempre. O que não significa que não goste definitivamente de algumas ( tipo o que imagino ser o filme O Lutador, basta ter assistido Nove e Meia Semanas II com um cara feito o Rourke ) e que adore definitivamente outras ( isso é mais raro). Você me pegou em pleno pulo, ainda dando o primeiro rugido. O que no Leitor não se salva? Tudo. Nada. Mas, chuto, acho que pensava na mensagem do roteiro: não tem uma pessoa que valeria a pena salvar do Keanu Reeves-ET.  Nenhuma referencia histórica justa. Uma historinha perversa. Mas, quiça, um filme que precisa ser visto por isso mesmo. Diferente do Favelado-Milionário que conta uma história ou duas ou até mais ( adoro o lance do celular tocar e ele perguntar para a Latika o nome do terceiro mosqueteiro, da visão concreta da alegoria de saltar na merda para ir atrás de um projeto apaixonante, dos bandidos tão maus como Injun Jones (ou algo parecido) atrás da Becky em Tom Sawyer.) e que mostra como surgem do nada os ódios religiosos e raciais, os deboches, os tiranos. Que conta história de lixão. Que é comédia e tragédia e musical e drama. E, principalmente, conto de fadas.

    Vai ver que eu devia ter lembrado de citar: A Duvida, Foi um Sonho...
    Benjamin Button é que podia ter ficado só nos pedaços exibidos como trailer. Com uma ou outra ceninha a mais de raios que me partam e bençãos milagrosas.

    No total, foi um bom ano ou semestre cinematográfico pra mim. E vi "O Eclipse" duas vezes, curtindo vicáriamente o brilho do olhar das netinhas sonhando com um amor eterno, mesmo só na base do tofu.

    (ih, lembrei da piadinha com o Topo Giggio, outra versão de tofu, e o falecido Costa e Silva)


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    [Aeternus:11069] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - RE:RE:RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

    Você viu um filme chamado "O Eclipse" com as netinhas? Não deve ser "O Eclipse" do Antonioni, I presume. Estou de marcação em cima hoje! Deve ser minha mais novairritação: depois de "A Troca" e "O Leitor", agora com "O Lutador" que já me fizera sair do cinema em meia hora por conta do sado-masoquismo e sangreira em casacata das lutas, mas fui conferir o restante do filme  (por tantos elogios e porêmios recebidos) na cópia baixada na Internet. E não gostei nem um pouco. Daqui a pouco mando a resenha crítica.

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    [Aeternus:11070] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - postando pelo Gallego

    Mais uma bomba em pele de cordeiro

    # O LUTADOR (THE WRESTLER) EUA, 2008 - 115 minutos

    Direção: DARREN ARONOFSKY Roteiro: ROBERT D. SIEGEL
    Fotografia: MARYSE ALBERTI Edição: ANDREW WEISBLUM
    Direção de Arte: MATTHEW MUNN Música: CLINT MANSELL
    Elenco: MICKEY ROURKE, MARISA TOMEI, EVAN RACHEL WOOD
    .
    Site oficial: www.foxsearchlight.com/thewrestler

    EFEITOS NÃO ESPECIAIS
    Mais um melodramalhão de boxe, tão doentio quanto as lutas de catch que retrata.

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO  em 01/3/2009 no site www.criticos.com.br

    Ao lado de lamentáveis excrescências da recente safra de filmes americanos candidatos a prêmios (como A Troca e O Leitor) este O Lutador não passa de outra empulhação mal disfarçada por enquadramentos estetizados, tomadas de câmera movimentada e edição pertinente. Tudo isso – e mais a entrega do casal de atores principais aos seus personagens - está, infelizmente, a serviço apenas de um lamentável dramalhão de boxe, ou melhor, de “luta combinada” (catch, como também se diz deste espetáculo deprimente de porradaria no qual o masoquismo dos lutadores também não se disfarça como "arte" de levar e dar porrada para o prazer primitivo e doentio, nostalgia atávica por gladiadores e leões em arenas).

    O melodrama sado-masoquista na linha de Menina de Ouro faz escola. E desta vez recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2008. É coisa para os que conseguirem tolerar a sangreira em cascata na primeira meia-hora de filme, quando até grampo (grampo mesmo, de grampeador) é usado para furar e fixar na pele do adversário. Tudo combinado e consentido antes. O que não impede que penetre na pele, sangre e provoque dor. Ótimo para quem curte dor ou assisitir barbárie doentia.

    Muito sangue escorre em um “retrato” excessivo sobre esse tipo de show, quando o filme já poderia ter se dado por satisfeito com o que mostrou antes: o pedaço de gilete que o personagem usa para se cortar e garantir o “efeito não especial” durante a luta. Consta que Mickey Rourke realmente cortou a testa para dar realismo à cena. Cabe a indagação: perdeu-se o espaço da representação como tal? E que tal como em filmes pornográficos, passará a ser exigida a exibição realista em “um por um”?

    ATENÇÃO: O parágrafo abaixo contém informação sobre o (ainda que bem previsível) desfecho do filme

    No mais, foi só trocar a falecida Libertad Lamarque dos dramalhões mexicanos ou argentinos (ou a Sarita Montiel dos equivalentes espanhóis, com direito a morte em cena da cantora interpretada pela cantriz) pelo Mickey Rourke com o rosto deformado (de verdade) pelos socos que levou em ringues quando o ator resolveu investir na carreira de boxeador. Feitas as devidas (e indevidas) adaptações de Sarita para Mickey, o que encontramos é... the same old story. Preenchida com discurso piegas do personagem antes da última luta para deixar bem claro que seu coração é mais maltratado fora dos ringues do que nas lutas. Sem comentários. Tudo vem embalado em tomadas preciosistas, cacoete já conhecido de Darren Aronofsky: o que esperar de quem assinou Fonte da Vida e Réquiem por um Sonho? Melhor ver ou rever o DVD de outro “réquiem”, o Réquiem por um Lutador (1963), um dos raros filmes memoráveis de, no restante, esquecível diretor, Ralph Nelson.

    Pena o desperdício de Rourke e de Marisa Tomei (incrível como ela se sai bem no estereótipo de “stripper de alma boa” e que dá força ao - outro clichê - lutador decadente) em um filme que é como um vinho velho e avinagrado em (apenas aparente) embalagem nova.


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    [Aeternus:11071] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - RE:postando pelo Gallego ---> Mickey Rourke não precisa do nosso colo

    Rourke Sangue de Cristo
    Marcelo Mirisola*
     
    Um lutador decadente que inspira cuidados de uma mulher apaixonada e linda, tipo dona-de-casa fiel e resoluta – não importa se o lar dessa mulher é um puteiro ou uma loja de ração que vende lindos periquitinhos e filhotes de labrador. Randy vive de bicos, e ocasionalmente é lotado na seção de frios e laticínios de um supermercado. Seu chefe é um inseto que o humilha implacavelmente. Isso não o impede de rir de si mesmo e fazer piadas tristes sobre sua condição de “looser’. Taí um cara legal. Os amigos e “adversários” dele também são simpáticos e gente boa – éticos e leais, gigantes de coração e de bícepes. A falsidade da luta livre é tanto sinônimo de lealdade como de sobrevivência. Isso quer dizer que – perdoem-me o trocadilho – é somente dando muita porrada que se recebe uns trocos para levar mais porradas, fora e dentro do ringue. Algumas cenas de luta são memoráveis. Poderia apostar que a luta da tachinha foi inspirada na “Paixão de Cristo” de Mel Gibson. Aliás, tem muito sangue de Cristo derramado nesse filme. E esse tipo de sangue – todos nós sabemos – jamais seria derramado em vão. Eu estaria cometendo um pleonasmo se dissesse que o personagem de Rourke atende pela alcunha de “Randy, O Carneiro”. Marisa Tomei (ou seria Maria Madalena?) linda, tesuda aos 44 anos, explicita isso literalmente no filme. Penso, inclusive, que o roteirista não precisava ser tão honesto para dar esse recado. Mas tudo bem. O lutador é amigo das crianças do bairro, meio desengonçado evidentemente porque o corpo musculoso não combina com sua alma de passarinho. O que mais? Bem, ele mora num trailer ( poderia morar nos fundos da loja de ração) e têm várias contas a acertar com seu passado distante e glorioso, mas antes – é claro – tem de acertar o aluguel do trailer. O preço a pagar é muito alto, pode lhe custar a própria vida. Mas isso não importa. No final ele alcançará a redenção e a platéia sairá satisfeita do cinema.

    Acho que já vi esse filme. Terá sido “Rock, o lutador 6”? Ou “Rock” 7? Tanto faz. Eu assistiria até o Rock 125 se fosse o caso, porque gosto da fórmula. Darren Aronofsky, diretor de “O Lutador”, sabe disso ( não fui o único cristão a sair do cinema purificado e cheio de humanidade ). A diferença é que Aronofsky foi um pouco além: chamou Mickey Rourke para fazer “o cara”. Eis a questão.


    Ao longo dos anos, Mickey Rourke transformou-se numa figura de massinha. “Nojento, asqueroso” – segundo comentários que ouvi na fila da pipoca. Concordo. Mas pensei comigo mesmo: por que Stallone não provoca essa repulsa?


    Talvez porque tenhamos nos acostumado com sua cara amassada e – apesar das plásticas – Stallone sempre será Rock Balboa, independentemente de ser Rambo, Cobra ou escalar a Juliana Paes para seu próximo filme, Stallone ainda é e sempre será Balboa: um pintassilgo desfigurado pela própria natureza anabolizada e sentimental - eu desconfio até que admiramos Stallone e relevamos sua canastrice porque ele nunca vai deixar de ser criança, nossa criança. Com Mickey Rourke é diferente. Ele não quer, e nem precisa do nosso colo. Nunca fez o tipo grandalhão com alma de passarinho. Acrescente-se que o cirurgião plástico dele atende em Patópolis. E ao longo do tempo – sem desconfiar - executou uma obra de arte no focinho de Rourke. Parece que o esculpiu para ser “O lutador”.


    Randy- Carneiro é ofegante, manca. A cabeleira oxigenada amarrada em coque dá o tom do desamparo e descalibre. Acompanhamos – o tempo todo - o personagem pelas costas, como se fungássemos no cangote dele, como se ele fosse nossa caça. O carneiro está na iminência de ser abatido-enrabado, não só pelo gerentinho do supermercado ou pela filha lésbica, mas pelo público do cinema, que bem ou mal acaba se identificando com a “pureza” dele (porque o encara a partir do ponto de abate, a nuca). Talvez esse curto-circuíto seja o grande mérito do filme.

    Tem uma cena inverossímil em que “Randy, o Carneiro” pega uma fã por trás. Na minha opinião, o máximo que Randy poderia fazer nesse caso era dar uma broxada. Diria até que se trata de um erro técnico: problema de continuidade. Mas isso é um detalhe. Vale que Mickey Rourke arrasta uma carcaça no lugar de um corpo. E junto a essa carcaça também arrasta (ele mesmo, nada a ver com o personagem) uma alma baleada e trôpega, cansada de guerra. O ator foi muito surrado pela crítica e pelos fãs, fez muito filme ruim e mereceu as porradas que levou – diga-se de passagem.

    Talvez fosse exagero da minha parte dizer que “O lutador” é o filme da vida de Mickey Rourke. Mas não é exagero dizer que somente ele, e nenhum outro ator, poderia ter alcançado um resultado tão eloqüente: “Randy,o Carneiro” é sacrificado para a pequena salvação dos seus fãs ao som de Guns'N'Roses. Filmaço.
     
     
    * Marcelo Mirisola, 42, é paulistano, autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô, O azul do filho morto (os três pela Editora 34), Joana a contragosto (Record), entre outros.
     
     
    http://congressoemfoco.ig.com.br/DetArticulistas.aspx?articulista=568&colunista=22


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    [Aeternus:11072] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-01)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Orfeu, O Lutador e Você quer ser um Bilionário?

    Já postei por você a dolorida resenha sobre O Lutador. Acho que você não consegue postar porque esquece que precisa desfazer a formatação antes de colar.

    Bobagem minha, me enganei descrevendo o filme como " O Eclipse" quando o título era " O Crepúsculo". Não disse cre com clé ... Vem com livros contando a história e tão animada a Juliana ficou que encomendou o último da série, ainda não traduzido, em ingles mesmo. Está dando conta de ler porque a autora usa muitos chavões e se repete, de modo que ela reconhece padrões dos livros anteriores que leu em português. Quando ela fala no Edward e, agora, no bebê dele com a Bella ( que finalmente virou vampira também, mas sofreu na gravidez com um bebê meio humano e meio vampiro que a maltratava por dentro...) os olhos dela se acendem. Tudo muito kleiniano.

    Hoje estava dirigindo de volta pra casa e intrigada com Freud, quando ele descreve o progresso acontecendo na vida por conta do que lhe faz obstáculo, obriga a um desvio mais longo da meta, demanda adaptações inesperadas. Isto porque estava tentando pensar no que era esse mundo dos vampiros, dos amores juvenis e do amor em geral.  E consegui uma formulação, incompleta ainda, que me satisfez. Amor por alguém (tipo-cristão) é o que ajuda a remover os obstáculos que impedem seu crescimento devido ao seu excesso, que move montanhas, que carrega cruzes e que, ao fim e ao cabo, tem no outro um obstáculo. Amor (tipo-nãosei) é o que não briga contra obstáculos, nem os contorna, nem se desenvolve nem involui, é mais um estar junto pro que der e vier.  Não sei continuar.  Tudo começou com um livro do Frijof Capra ( que começou a ficar chato já no quarto capítulo) falando sobre a origem da vida, caracterizando-a como o estabelecimento de uma membrana que isola um campo "interno" em permanente reconstrução e armazena energia e informação. Lembrei dos primeiros insights de Freud, retomados por Bion, sobre a "barreira de contato", a membrana seletiva e permeável que não isola totalmente o interior do que lhe é externo mas permite o estabelecimento de um espaço único e... por aí vai... 


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    [Aeternus:11074] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:Gallego critica O Leitor


    TENDÊNCIAS/DEBATES

    Qual preço você pagaria? MARIA RITA KEHL


    É fácil julgar fatos passados pelas lentes já estabelecidas pela posteridade, sobretudo quando os vencedores estão do lado, digamos, do bem




    UMA RECENTE polêmica com o crítico Marcelo Coelho acerca do pessimismo me fez prestar atenção nos textos do colunista Luiz Felipe Pondé. Na réplica a Coelho, Pondé reivindicou para si o pessimismo de Franz Kafka -o que me pareceu um tanto desmedido. Na segunda-feira passada (23/2), a crônica "O quarto" me levou a pensar novamente sobre o pessimismo e o paradigma ético que ele encerra.
    Ao evocar o julgamento da ex-guarda da SS no filme "O Leitor", o colunista convida seus próprios leitores a se colocarem na pele da personagem de Kate Winslet quando pergunta aos juízes: "No meu lugar, o que você faria?". O crime em questão não era o de ter se alistado na Gestapo "por precisar de emprego", mas o de ter trancafiado 300 prisioneiras judias dentro de uma igreja em chamas para impedi-las de fugir. "Meu dever era manter a ordem", responde a personagem. No lugar dela, o que você faria?
    A questão é tão fundamental quanto irrespondível. Hoje, seríamos todos resistentes; seríamos todos heróis. É fácil julgar fatos passados através das lentes já estabelecidas pela posteridade, sobretudo quando os vencedores estão indiscutivelmente do lado, digamos, do bem. Mas se você estivesse lá, no olho do furacão, sem entender direito o que se passava, o que teria feito? Do lado das vítimas (para neutralizar um pouco a questão), quantas famílias judias tiveram oportunidade de deixar a Alemanha e não o fizeram, incapazes de imaginar a que ponto o mal que as ameaçava poderia chegar?
    Mas houve um momento em que se tornou impossível ignorar a radicalidade da política de extermínio de Hitler. Então, a opção pela neutralidade deixou de existir. Cada cidadão não-judeu que optasse pelo conforto moral de pensar "isso não é comigo" sabia ser coautor dos assassinatos de seus concidadãos. Para entender isso é preciso, como escreveu Susan Sontag em seu livro "Ao Mesmo Tempo" (Companhia das Letras, 2008), "se transportar mentalmente para um tempo em que a maioria das pessoas aceitava que o curso da vida delas seria determinado mais pela história do que pela psicologia, mais pelas crises públicas do que pelas particulares".
    Façamos de conta que esse tempo passou; que hoje as grandes questões éticas podem e devem ser decididas a partir dos parâmetros exclusivos da vida privada. A isso nos convida Pondé, ao descrever a vida de uma inocente família alemã que escondia judeus num quarto da casa. Para apelar aos valores que nos são mais caros hoje, Pondé descreve o drama familiar aos olhos da criança da casa, que não entende porque o pai a estaria submetendo ao desconforto, ao perigo, ao mau cheiro que exalava do misterioso quartinho fechado. Pondé cita uma pesquisa em que adultos que passaram por situações parecidas na infância afirmaram ter imaginado que seus pais não os amavam, pois, se os amassem, não os teriam colocado em risco por causa de estranhos.
    A resposta demonstra até que ponto a vida se privatizou e a família tornou-se o único valor indiscutível aos olhos da maioria. Quando os filhos se tornam o único ideal de seus pais, estes não têm nada a lhes transmitir. A não ser, talvez, um "sejam felizes". A qualquer preço? Avancemos um pouco mais na perspectiva da criança: como viveria mais tarde o adulto cujos pais enviaram vizinhos e conhecidos para a câmara de gás por amor a ele? Como suportaria gozar a vida após isso? Quanto cinismo seria preciso mobilizar para seguir vivendo indiferente às consequências dessa escolha?
    Se só se pode julgar a história pela lente da história, sabemos hoje que a indiferença pelo destino dos não-familiares e a escolha de cuidar da própria vida -ignorando a dos outros- têm um nome: cumplicidade criminosa. Foi essa pretensa neutralidade, ao preço de uma brutal desidentificação com a condição humana, que instalou na Alemanha o que Hanna Arendt chamou de "banalidade do mal". O pessimismo de Kafka advém de não querer ignorar do que as pessoas são capazes; do que a indiferença subserviente é capaz. Nada a ver com o suposto pessimista que não crê em nada para se manter mais ou menos de acordo com tudo. Esse é o mal do século 20 (e 21), que Walter Benjamin batizou de fatalismo melancólico.
    Ninguém escolhe a época em que lhe coube viver. Cada uma delas tem um preço. No caso do Holocausto, os inocentes que sobreviveram para um dia se queixarem "meu pai não me amava porque protegeu estranhos" devem saber que, naquelas condições extremas, pagaram um preço baixo.

    MARIA RITA KEHL , 57, psicanalista e ensaísta, é autora, entre outras obras, de "Ressentimento" (2004).

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    [Aeternus:11075] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:RE:Gallego critica O Leitor

    Gostei de vários argumentos de Maria Rita Kehl a respeito da crítica-cronica de Pondé e do filme " O Leitor". Principalmente porque deixou clara a questão de como é fácil se imaginar herói ao avaliar uma situação passada (na qual não foi envolvido) e julgá-la com os olhos do presente.

    Por isso mesmo acho difícil ser justa com quem quer que seja, pegando a coisa pelo padrão geral em vez de me deter em um personagem - desde que seja bem apresentado em cronicas ou filmes ( o que não foi o caso da Hanna em "O Leitor", nem do professor de filosofia ou do garoto ingenuo e frouxo).

    Kehl argumenta a favor da coragem de ocultar em casa judeus, mesmo que isso coloque em risco os filhos, mencionando a super-valorização da família nos dias de hoje e a falta de um pensamento menos individualista. A sua argumentação também peca pela generalidade. Em algumas famílias seria possível incluir os filhos, convocá-los a participar do ocultamento, a ajudar a cuidar do quarto oculto. Em outras, não. Novamente, mesmo que me posicione como seria, aos olhos dela, de modo egoísticamente individualista, vejo cada caso, cada escolha como sendo um desafio único e sem modelos fixos para seguir. 

    Também penso que, entre aqueles que acreditariam no horror do fanatismo nazista, haveria uns mais clarividentes do que outros, mais objetivos, mais decididos do que outros e não  julgaria todo um povo pela omissão de socorro. Uma das coisas de que me recordo no filme, ou livro, da Anne Frank ( lido na adolescência ainda) é de como ela própria se ressentia quando vinham novos judeus para se esconderem com sua família no quartinho do sotão. Se fosse dada a escolha para todos os povos, religiões ou etnias... cada um ainda tomaria atitudes que seriam privadas e não gerais. Judeus protegeriam outros judeus? Judeus protegeriam não-judeus? Temos exemplos de todo tipo de egoismo e de altruismo ( e nem estas palavras seriam adequadas).  A idéia da importancia da família interessa ao establishment, principalmente o das grandes empresas e das tiranias, porque cria sempre reféns e instrumentos de manipulação.   Mesmo assim, a família é o nucleo da sociedade, uma forma sutil de manutenção da tradição a partir do amor e do respeito: devemos ignorar a família e nos tornarmos todos, como padres e agentes 007, uns soldados do bem? Pra mim, as famílias são um fato ( mesmo esgarçadas como são nos dias de hoje e aí entramos em questões novas ainda não suficientemente estudadas), como são os conventos religiosos ( alguns abrigaram os perseguidos, outros não). Até asilo  político, de governo pra governo, é uma questã complicada ( ver o caso do italiano e as posturas do Amorim, do Stroessner, dos chefõe da droga nos EEUU ou os reis depostos...)

    Escrevo depressinha, mas não quis deixar de jogar umas idéias em aberto. Não sou partidária do relativismo moral como filosofia. Nem do que Kehl chamou a partir de Benjamin, de fatalismo melancólico. Mas sou partidária das escolhas morais particulares, com seus mistérios.  


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    [Aeternus:11076] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - Gershwin, Jenny e a lista do Nabokov

    the final stanza of "The Saga of Jenny," words by Ira Gershwin, music by Kurt Weill, from the 1941 musical "Lady in the Dark." 

    "Saga of Jenny" (final stanza):

    Jenny made her mind up at seventy-five
    She would live to be the oldest woman alive
    But gin and rum and destiny play funny tricks,
    And poor Jenny kicked the bucket at seventy-six
    Jenny points a moral with which you cannot quarrel,
    Makes a lot of common sense--
    Jenny and her saga prove that you're gaga
    If you don't keep sitting on the fence

    Jenny and her story point the way to glory
    To all man and womankind
    Anyone with vision comes to this decision--
    Don't make up your mind



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    [Aeternus:11077] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - Maria Rita K. e O Leitor

    Grato pela postagem do texto de Maria Rita. Estou apressado de saída. Se captei bem, pensamos parecidos, ela e eu sobre a retórica sofismática dso texto do Pondé que eu não conhecia até então. Gostaria de acrescentar algo sobre os pais terem os filhos como valor maior e "único", o que Maria Rita parece lamentar. Talvez não compreender. (Compreender um fenômeno não é justificar nem desculpá-lo).
    Kohut ajuda a compreender (sem justificar) o que seria um investimento narcísico no outro.
    Isto seria um absurdo na teoria psicanalítica do narcisismo em geral, mas faz sentido em Kohut quando ele teoriza um investimento de libido de qualidade narcisista que pode estar no eu (self), mas proprondo que do self "faz parte" (imaginariamente) uma área de transição virtual que não é nem self nem o não-self ou qualquer outro: o que ele chamou de selfobject (objetoeu, sem hífen e não pela reforma ortográfica, mas por conceito). Os filhos são desde sempre e até biologicamente a sobrevivência do DNA que nos usa para se reproduzir e se transmitir. Os filhos são nossa fantasia de imortalidade. Descobrir nos filhos uma lateridade objetal de fato separada de nosso self é a verdadeira cesura, o verdadeiro corte do cordão umbilical. Maturidade difícil de ser atingida em noso iniludível narcisismo, um bedrock mais funbdamental do que tudo. Isso não é animador: lamentavelmente, corrobora o pesimismo kafkiano: o ser humano (ou cêrumanu, como foi cunhado aqui) não falha: pode fazer de tudo por seu mínimno eu. Tudo mesmo. É só olhar em volta. E, infelizmente, em nossas tendências mais (nem sempre tão) recônditas. Apesar de tudo, bom dia!
    Gallego

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    [Aeternus:11078] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:Gershwin, Jenny e a lista do Nabokov

    As linhas sobre o destino da Jenny do K.Weil se encerram com um conselho: decida-se a "não decidir-se de algo de modo definitivo" (tradução ruim, mas estou fazendo tudo a toque de caixa) 

    É um pouco o que venho aconselhando ( don't make up your mind ), sem a ironia da crítica de Weil pesando sobre a beberrona da Jenny. Isto não quer dizer que devemos ficar sempre indecisos, mas que vale a pena tomar decisões pautadas no que o momento e desafio atual demanda, sem seguir estereótipos ou comandos prévios ( decidi isto no passado então decidirei o mesmo para sempre...Não!).

    Por outro lado, quando afirmo que isto não é recair no relativismo moral, é porque mesmo deixando em aberto cada contexto para tomar uma decisão, isto não implica que não se tenha algum valor ( cristianismo, por exemplo, ou respeito à lei ou à uma "verdade", obediencia ao que se construiu em nós como sintoma, etc) 


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    [Aeternus:11079] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:Maria Rita K. e O Leitor

    Onde se leu "Descobrir nos filhos uma
    lateridade objetal de fato, separada de nosso self, esta é a verdadeira
    cesura, o verdadeiro corte do cordão umbilical"
    Leia-se "alteridade"

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    [Aeternus:11080] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:RE:Maria Rita K. e O Leitor

    Oba, uma correção. Alteridade e não lateridade. Estava mesmo quebrando a cuca, rememorando os testes da Laureta Bender e conceitos da neurofisiologia pra entender a lateridade...

    Acho que, da minha parte, preciso deixar claro que entendo estes debates como exercícios que servem principalmente para auto-conhecimento e para, se preciso, tomar decisões mais rapidamente. Mas não são descrições de posturas definitivas. São rascunhos...

    Por exemplo, quanto ao amor pelos filhos. Será que este amor pela prole seria sempre narcísico? Filho criado trabalho dobrado ... e olha que a turma cansa nossa beleza. Seria ótimo dar uma de ave e expulsar do ninho, esfregar as mãos e pensar:'não tenho mais nada a ver com eles': postura aparentemente não-narcísica. Pois bem, pra mim, a ave seria narcísica. Como a musicista no filme do Bergman, "Sonata de Outono", com filha igualmente narcisista, cada uma defendendo suas prioridades e cegas uma para a outra. Tipo " a vida continua e quero prosseguir com meus sonhos, carreira, talentos,etc" As vezes pode ser heróico defender um filho que a gente sabe estar errado, querer ajudar. Porque, talvez, não seja uma extensão do nosso gene egoista e do nosso narcisismo mas, sim, porque temos que ser leais até o fim a alguém, a uma causa abstrata.  Ou sei lá. Lembrei do filme do favelado bilionário, daquele irmão que estava sempre pronto a trair o outro e, na hora do vamos ver, acabava sendo leal, mesmo a contragosto. O Salim era danado, disposto a qualquer coisa pra se safar e ter lucro, deixar garota tão orfã quanto ele no meio da chuva, ceder ao destino que não a ajudou a escapar subindo no trem, etc. Mesmo assim, era o Salim quem tinha acesso as grandes virtudes, amor generoso... coisas que o pegavam de surpresa até.  O bonzinho Jamal, ao contrário, perseguia seu sonho narcísico com tanto desprendimento que deixava de ser apenas narcísico. Claro que é fácil gostar do Jamal, sempre tão lascadinho e abominar o outro que fazia maldades e se associava à pior escória pra tirar vantagem.  O Salim é um caso à parte. Mas acabou protegendo o irmão, respeito suas escolhas, pagando o preço com plena consciência. E o irmão, narcisismo ou não, entrou na prática do "amor cortes" e da defesa da donzela amada... Zorro, Robin Hood, essa turma da ficção que ensina a viver por um ideal. Pouco importa se é narcísico a estas alturas do campeonato.

    Tudo é complicado, temos que fazer muito rascunho e exercício pra estarmos minimamente prontos.

    Ontem vi histórias de terror no National Geographic Channel com um programa sobre "vida no útero". Não sei se foi porque a narrativa era toda determinista, mais do que seriam os fatos naturais enquanto tais: um tubarão-femea dava à luz aos filhotes, nascidos já com toda autonomia, mas não os comeria visto o seu tamanho equivalente ao dos peixes que lhe serviam de alimento, porque um hormonio pacificador era liberado depois do parto. O bebê canguru se alimentaria de vários tipos de leite na bolsa da mãe, de acordo com sua etapa do desenvolvimento: no começo o leite da cangurua teria menos gorduras e mais açucar, depois teria pouco açucar e muita proteina, depois assim e assado e tudo químicamente programado. Até aí morreu neris. O pior é a história da lagarta parasitada por vermes da vespa. Os bebezinhos, no interior do corpo da lagarta, iam comendo as comidas dela, usando seu sangue mas só até certo ponto porque precisavam deixá-la viva para continuar os protegendo. Uma vez criados e no ponto do nascimento, era a hora da festa e a comiam por dentro pra poderem sair para a luz do dia. E, ainda assim, a lagarta que os abrigou continua paralisada por umas secreções véspicas e, tendo seus invasores de corpo sairem à luz, obedece mais outro comando químico e cuida dos bichos tecendo uma cobertura de seda para os proteger dos predadores, tão fascinada com a tarefa que acaba morrendo extenuada e desnutrida.  Me arrepio de pensar nestes comandos bioquímicos, nesta luta de ficção científica tornada real pelo menos no relato de uma ideologia moderna da ciência...Será que a química tem tanto poder sobre nossa liberdade? Ou só no caso dos insetos?  E eles, por causa da pauta ou do instinto ou do que tiver nomes mais modernos pra mesma coisa, será que só sabem o que sabem porque está no seu programa genético, sem maior consciência do que fazem, do que são e do que é o mundo que os cerca? Temos gente que é parecida com lagartas e vespas? Tem pedófilo que precisa ser submetido à castração química ou sofrer a pena de morte? Tem pedófilo-lagarta? Tem pedófilo-tubarão?  Ontem, admirando as maravilhas da televisão, da tecnologia, do ultra-som que nos dão acesso a um mundo quase inimaginável, fiquei paralisada de medo. Bion achava que existem pessoas que ainda tem cérebro de dinossauro, ou de ave, ou de peixe comandando a parte mais recente, o lado humano.  Em seminários clínicos ele, às vezes, perguntava sobre qual era a mente primitiva daquele analisando, como encará-la...Mas ele tinha uma resposta final, um ideal: temos que nos tornarmos conscientes, cada vez mais conscientes e menos determinados por elementos desconhecidos, precisamos almejar uma coisa última: "pensar com clareza." Vencer as resistencias ao pensamento, os recalcamentos, as projeções e avaliar cada situação com as luzes do presente-passado e futuro todas convergentes para o mesmo ponto. Vai ver que sou mais bioniana do que imaginava.  

     


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    [Aeternus:11081] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - Gallego em conversa com Jansy sobre Kehl

    Gallego escreve:

    Voltei.
    Muito bons os exemplos de questionamento da Jansy sobre investimento narcísico em alteridades, só que vivenciadas como nem tão "alter" e, de certa forma, como partes do eu ("Oh, pedaço de mim" - como já sabia o Chico Buarque, certamente desconhecendo Kohut).
    Tentando esclarecer sem saber se estou certo (“como vinha andando certo já estive andando muito errado”, diz uma letra de música: o investimento narcísico não se define pelo locus da libido (para Freud, é uma só libido que tem que escolher: ou no objeto ou no Eu, em investimentos inversamente proporcionais: permanecer no Eu é mal visto, “temos que” evoluir para o amor objetal – um tanto moralista, não acham?).
    Só que para Kohut existiria libido de qualidade narcísica. Independente de onde se dá o investimento.
    Pode estar investida predominantemente no euzinho mesmo.
    Ou em algo que experimenta como mais ou menos também "eu" que incluiria objetos não-eu, vivenciados como devendo estar "a serviço do eu", borrando a barreira eu-outro em uma zona de penumbra confusional que pode acabar em vivências simbióticas, sinciciais, como se fossem mentes em suruba.
    Como observador externo poderíamos constatar que Fulano é Fulano e Beltrano é Beltrano.
    Mas pergunte a vivência de Fulano sobre Beltrano. (E vale o mesmo para Beltrano sobre Fulano)
    Cada um pode não saber bem (afinal, estamos falando de processos inconscientes), e Fulano estar experimentando Beltrano como extensão de si mesmo e a seu serviço.
    E ai de Beltrano quando marca a diferença!
    Seria assim que o bebê experimenta a mãe ("There's nos such a thing like 'a baby' " - na boutade (séria) winnicottiana: o bebê só existe bebê-com-a-mãe  ou melhor bebêcomamãe - que periga dar em “bebê come a mãe”, o que decididamente não pode, não deve , faz mal à saúde. Afinal: "Pai é pai; mãe é mãe e transa é transa" como antiga forma da Lei Jôsoaresiana,  da Lei ou Nome-do-Pai ou Superego, como preferirem chamar a interdição (castração?) contra a hybris e desmesura descomedida (valem os pelonasmos!).


    Voltando ao narcisismo questionado por Jansy nas relações pais-e-filhos.
    Os pais que deixam os filhos "prálá", “danem-se, eu tenho que cuidar é de mim”... podem ser pais que cansaram de cuidar de bebezões psicopatas, tipos dependentes químicos auto e heterodestrutivos , vampiros vorazes, narcisistas do mal em eterna sucção da vida alheia? Tais pais que se cuidem. Doloroso, mas às vezes é assim.

    Podem ser "apenas" uns pais grandes egoístas (egoismo e narcisismo não são necessariamente a mesma coisa, podem se sobrepor, sim, mas são categorias com especificidades próprias, difíceis de distinguir, e nem me peçam para).
    Mas podemos pensar em pessoas que quiseram “muito” ter filhos, MAS... para satisfazer um narcisismo (instintivo?) de procriação, sentir-se com potência generandi e atender à perpetuação da espécie, etc etc, - mas OH! descobriram que filhotes não são bonecos, eles têm uma (certa) autonomia! Que será crescente e exatamente NÃO SÃO "PEDAÇOS DE MIM"!!!!! Seria o narcisismo frustrado de pais desejantes de englobar os filhos como "partes do eu" (sem diferença seria talvez mais confortável, sem trabalheira). A descoberta que selfobjeto é um sistema ilusório do eu provocaria uma reação narcisista-egoísta de se insurgirem contra o papel de maternagem, de cuidadores.


    Quanto à lealdade por uma causa abstrata penso que se encaixa no pólo das idealizações do self tal como conceituado por Kohut. Afinal, um pai que se joga em frente a um revólver para proteger um filho age por ideal altruísta e seja pelo que for é o que importa. Mas... Ele conseguira viver sabendo que o filho morreu porque ele não o teria protegido suficientemente?
    O que motiva a "proteção da cria"? Um programa genético? Muitas vezes vemos que se era tal “programação”, haveria muito pai e mãe onde o programa desandou. Deu vírus?


    Seria altruímos de atender um ideal?
    Ou seria "egoísmo" de não suportar a auto-imagem de cuidador que não cuidou?


    Tudo muito complexo em matéria de um bicho que deixou de ser totalmente um bicho programado mas não deixou de ter uma programação (meio capenga porque não é só um bichinho: pensa, tem autoconsciência, coloca isso em representação de coisa e de palavra, comeu da árvore da ciência do bem e do mal  - que não é problema algum para as vespas citadas-, descobriu o gozo sexual sem procriação: coitus interruptus, camisinha, pílula até do dia seguinte; e acha que pode se clonar como um deus à própria imagem e semelhança. Pode. Só não sabe o que fazer com isso tudo direito, nem o lugar certo onde colocar o(s) desejo(s). Porque não existe UM lugar certo. E agora, José?
     
    Quanto a Salim, não me parece verossímil. Possível, é. Mas achei fabricado por deus ex machina, Concordo que Jamal é narcísico em sua ambição pela menina: são as traças da paixão, as trapaças do que se chama de “amor”.
    Já Ingrid Bergman e Liv Ullmann em “Sonata de Outono” são ótimo exemplo de duas entidades autônomas ma non troppo, cada uma querendo que a outra seja seu selfobjeto. É por aí que casamentos desandam, relações pais e filhos vão para o brejo, amizades se transformam em ódio de fúria narcísica seguindo a ferida idem. E como vão!


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    [Aeternus:11082] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:Gallego em conversa com Jansy sobre Kehl

    Kohut encontrou modelos e vocabulário já prontos, Freud foi construindo devagar. Se me recordo para ele toda libido seria erótica ( expressão de eros como o nome diz, em contraste com a pulsão de morte, mas até isso depois ele modificou). Ao contrário das pulsões do ego, ela não teria objeto definido ou correto ( alimento, ar, calor como seria para as necessidades básicas) e podia, talvez, originar-se no Id ou no Ego mesmo. Libido narcísica, inicialmente, adviria do ego, este termo designaria seu ponto de origem e não o destino. Freud provavelmente era moralista, como bom vitoriano. Mas não creio que ele defendesse por moralismo a idéia de que era preciso passar do amor por si mesmo para o amor pelo outro, era darwinista demais para isto. Ele achava que (numa frase que parafraseio)" se não formos adoecer teremos que, afinal, amar alguém além de nós" 

    Assim, não me vejo com conhecimentos suficientes para defender Freud de modo consistente ou contrastar com Kohut. Não queria discutir narcisismo nas teorias de antanho, ou até nas moderninhas do Green. Foi erro meu usar o termo "narcisismo", tão cheio de contradições.

    Assim, retorno depois pra argumentar sobre os filmes, cronicas, ensaios...se Salim seria inverossímil quando o filme é todo uma alegoria ( donde, não são os personagens que precisam ser críveis, mas o que eles representam). Agora estou de saidinha novamente. Mas, se Gallego topar, vamos burilando uma ponta, embotando outra mesmo que por partes, pedacinho aqui e ali. Eu devia conhecer Kohut melhor, mas agora abandonei as teorias e vou só de leiga opinática.


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    [Aeternus:11083] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-03-02)


    - RE: Kehl e 'O Leitor'

    Brilhantes, vocês e a Kehl!!

    No caso dela, fico admirado como coloca as coisas com tanta propriedade, que ninguém poderá acusá-la de estar "puxando sardinha" pra sua origem judia...

    Conheci uma senhora e sua família sobreviventes do Holocausto. Ela fugiu de lá com toda a família perseguidos por causa de dois "crimes": a mãe dela escondera judeus em casa e ela própria teve um filho que, na hora do parto, teve uma lesão cerebral que lhe deu um aspecto estranho e um comportamento completamente descontrolado.

    Morreu há pouco mais de uma década. O filho "retardado" morreu bem depois, já com bem mais de 50 anos.

    Era uma pessoa maravilhosa, ralou muito pra criar o Bruno e seu outro filho "são", e ainda cuidar do marido com a saúde frágil. Ela gostava tanto daqui, mas tanto tanto, que beijava o chão do Brasil todo dia de manhã. Sério, não era força de expressão, ela ajoelhava, abaixava a cabeça e beijava o chão!!!

    Ia incansável pra cima e pra baixo com o Bruno, um verdadeiro "garoto-selvagem" que, apesar de assustar por seus movimentos bruscos e indelicados, não era exatamente agressivo. Ao contrário, adorava apresentar pessoas que não se conheciam, puxando-as pela mão. Era grandão e forte, e quase arrancava o braço da gente, mas a intenção era a melhor possível. Então o Bruno era um doce de pessoa preso a um corpo sem freios. A mãe ia com ele pela rua, pelos ônibus, por todos os lugares, e ouvia os maiores impropérios da molecada, mas nada abalava a felicidade e sentimento de gratidão pelo Brasil.

    E NUNCA passou pela cabeça dela que a mãe ou o pai não deveriam ter escondido os judeus em casa. Sabe NUNCA?

    Minha mãe, quando falava dela, chorava de emoção, porque via tanto na amiga alemã como no próprio Bruno uma prova de que HÁ ESPERANÇA PRA HUMANIDADE.

    E fico eu também emocionado lembrando dela e do Bruno. Ele fazia um escarcéu quando via a gente, sentia uma felicidade incontível, expressada por gritos e movimentos atrapalhados, mas dava pra ver que seus sentimentos eram de uma doçura comovente.

    Se isso não "refresca" a constatação de que as perspectivas para a humanidade não são exatamente otimistas, pelo menos relativiza o pessimismo, tirando-lhe o peso fatalista como se estivesse escrito nas estrelas ou inscrito na natureza humana. Não: se há um rumo negro ao qual nos direcionamos, ele vem de algum equívoco histórico, de alguma inércia moral. Não podemos atribuir isso a uma força ex machina nem a uma vocação suicida da espécie, mas apenas a decisões erradas tomadas no meio desse caminho longo da história das mentalidades... hã?!

    E acho que é possível sim uma "boa tarde"!

    Então BOA TARDE, People!


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    [Aeternus:11084] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-02)


    - RE:RE: Kehl e 'O Leitor'

    Omar, adorei o "People" ( havia uma época em que na gíria se dizia:"fulano é muito gente" e gostei de você abraçar a lista com este "muito people" do final). Histórias como a desta alemã que não perdeu a força para lutar e amar são comoventes e importantes como testemunho de que esperança há...

    O unico antidoto pra inveja, que conheço, é a kleiniana "gratidão". Como funciona bem, como salva vidas. Infelizmente é quase um estado de "graça", não é accessível a todos. Vá saber.


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    [Aeternus:11085] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-03-03)


    - RE:Gallego critica O Leitor

    Concordo com praticamente tudo que vocês escreveram sobre 'The Reader'.Foram fundo nas questões centrais que o filme deixa em aberto e a desejar.
    A maior dificuldade em acompanhar o filme é sobreviver à coluna sonora tão convencional quanto inconveniente, esvaziando os planos já em sua maior parte problemáticos.

    O elenco sobrevive graças ao frescor juvenil de David Cross, e adiante do lampejo de Lena Olin ( ela faz também a mãe judia no tribunal ? creio que sim ! )

    A cena que mais gosto no filme é a da visita silenciosa de Michael Berg a Auschwitz.


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    [Aeternus:11086] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-03-03)


    - RE:RE:Gallego critica O Leitor

    Olha que estranho, Florião. Quando você descreveu a cena que mais gostou do filme, a visita silenciosa de Michael a Auschwitz percebi que tinha apagado da minha lembrança. É claro que não estou dando uma de bispo que responde errado ao que se lhe pergunta...É que vemos tantas vezes as cenas de Auschwitz e de outros campos, que elas se fundem na lembrança, viram um bloco só de violencia e horror. Com um esforço mnemico consigo reativar um pedacinho unico: uma longa vitrine cheia de sapatos empilhados. Mas fica meio de fora da história de tão básico e intimo com ela. Faço mais força e nada... só o corredor marron e a vitrine com sapatos embaçados e a renovada angústia ante a prova visível, a quantidade concreta, mensurável e incomensurável da violencia humana.

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    [Aeternus:11087] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-03)


    - RE:RE:Gallego critica O Leitor

    Marcos relembra algo que eu escrevera e já havia esquecido: "escorrega em recursos narrativos bem banais (...) busca é um clima sentimental “ajudado” por música onipresente e intrusiva. Tudo isso, a serviço de sublinhar o lado “emocional” do filme que não interage satisfatoriamente com a discussão ética que se desenrola (bem mal)..."
    Também havia me esquecido da cena de visita silenciosa ao campo
    (que não era de fato Auschwitz: The concentration camp scenes were filmed at the Majdanek concentration camp, located in Lublin, Poland. This camp was functional at the time of its liberation by the Soviets in 1944, meaning that it is intact today. Most other camps (including Auschwitz) were either partially or completely destroyed by the Nazis in an attempt to cover up their actions when they realized they were going to be defeated.)
    abraços gerais, Gallego

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    [Aeternus:11088] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-03-03)


    - RE:RE:RE:Gallego critica O Leitor

    Cena muitíssimo bem filmada : a câmera sai fechada no amontoado de sapatos estropiados, e ao se afastar notamos a imensidão do número de defuntos e da iniquidade, nos tons que a dupla dos oscarizados Chris Menges e Roger Deakins adota.
    O Daldry é elegante nos enquadres, mas com o roteiro capengando e a coluna sonora demolindo ficou complicado o drama decolar.Sobrevive de lampejos e algumas boas soluções, enfim.

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    [Aeternus:11089] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-03-03)


    - RE:RE:RE:RE:Gallego critica O Leitor

    Tinha duas bocas de forno e umas fileiras de chuveiros bem polidos depois que nos afastávamos do corredor dos sapatos?  Quando é que aparece esta cena?

    Ainda estou impressionada com o começo do Capra sobre a origem da vida ( neto teve que fazer dever escolar sobre Hooke e retomei a leitura por causa dele). Terminei de ler o livro do De Koonz que começa a ficar mal escrito depois do terceiro capítulo, embora contenha uma idéia interessante sobre universos paralelos. Por incrível que pareça, em tom de deboche ao Jung, o próprio Millor retomou na Veja desta semana a temática da "sincronicidade" e usou Nabokov, como exemplo, a partir da experiência dental descrita no personagem Pnin. Falou do mundo "acausal"... Capra mistura as duas coisas: elementos da física quantica, mundos paralelos e tal, mais uma idéia de desígnios e historicidade. 

    Vou escrevendo pra registrar e tentar ordenar os pensamentos, nada mais. Podem saltar toda mensagem que deste mato não vai sair coelho ( principalmente porque o coelho vem antes deste mato e num mundo paralelo está comendo cenouras)  

    Comecei pensando na motilidade do universo macroscópico e das partículas microscópicas. Sem colocarmos nosso olhar sobre estas ocorrencias, tanto faz se A vai pra B e depois pra C ou A vai pra B e C (opostos) simultaneamente. Quando percebemos e interpretamos criamos algo (tese moderna, da física a partir de Schrödinger). O "mundo" nasce porque é visto...

    Pra mim, o tempo também nasce porque é visto, porque buscamos causas e efeitos, sentimos sua ação sobre nós, as presenças e ausencias - que também só existem e inexistem porque as vemos ou deixamos de ver.  Carregamos algo especial em nós apenas porque tentamos planejar um curso de ação em vez de deixarmos o acaso nos determinar. Até o acaso do determinismo... Planejar é introduzir mudanças.Coisas que talvez não possamos mais fazer ( ou acreditarmos que alguma vez pudemos fazer) caso a economia global continue operando segundo suas leis, às expensas daqueles que com ela acreditam estar jogando, num dado momento do tempo.

    (Eu não devia estar escrevendo isso aqui tão público, mas é que preciso deste perigo para tentar me planejar mínimamente...)

    Tento argumentar em torno da idéia do movimento e da hipótese de se conseguir planejar alguma coisa. Como Chris Menges e Roger Deakins o fazem segundo Florião/Gallego quando filmam, ou roteiristas quando escrevem um enredo.  Por enquanto entalei neste ponto: o que planejamos, como filmes e livros, é uma espécie de sonho com o qual enganamos a nós mesmos.  Feito os peões da noite e do dia numa partida de xadres jogada pelos deuses de Omar Khayyam... Quando temos sucesso no que planejamos rompemos um ritmo, embora isto não faça a menor diferença no computo geral. Até árvores se movem ( no cerrado brasiliense o vento as derrubam e elas avançam na horizontal, criando novos brotos que o vento derruba e outras arvores e galhos crescem mais adiante... até as sementes são uma forma dos vegetais caminharem), embora sem projeto. Se as escoramos ou alinhamos fora do corredor dos ventos estamos criando algo "não-natural" e exercendo nosso arbítrio naquele pequeno trecho no espaço e  no tempo. A vida é bastante aberrante.

    Lembrei de uma colocação do Bion: o homem passou de quadrúpede para a posição ereta e, não satisfeito com isto, acha que merece ser feliz ainda por cima! É...Sísifo era feliz mas, coitado, estava quase se transformando novamente num quadrúpede.  Ser feliz podia estar ligado ao planejarmos coisas com sucesso, em vez de acontecer assim, sem mais nem menos. No entanto, neste caso, acabaríamos novamente na rede, condicionados pelo sucesso.

    Millor foi mais comedido. Na cronica, observou: "Pois é, o Jung sacou essa da sincronicidade. Claro, só falo nisso porque estudei muito, li tudo que podia e não entendi nada. Assim posso explicar pra vocês."


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    [Aeternus:11090] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-03-03)


    - Lewis Carroll

    How doth the little crocodile
    Improve his shining tail,
    And pour the waters of the Nile
    On every golden scale!
    How cheerfully he seems to grin,
    How neatly spreads his claws,
    And welcomes little fishes in
    With gently smiling jaws!

    Aprendi que estas rimas de Lewis Carroll foram criadas como sátira a um hino religioso de Isaac Watts. Seguem o mesmo ritmo e jogo de rimas, mas criam nonsense ou introduzem o engano e o pecado.

    De que modo o crocodilo
    Sua cauda aperfeiçoa
    Lançando as águas do nilo
    Sobre as escama de ouro!
    Como parece alegre seu sorriso,
    Arreganhando com brio as garras,
    Convidando peixinhos com ciso
    A adentrarem sua boca às escancaras.

    E não é só o crocodilo amável que sorri para atrair os peixinhos. Também no País das Maravilhas tem uma dupla que come as conchinhas que usam suas valvas como toquinha de dormir.
    E foi assim, tentanto traduzir a cena pro Humberto, gesticulando ainda sem chegar aos versos, que ele se impacientou e resumiu a história: "Feito na Bíblia: deixai vir a mim as criancinhas". E nós dois nos tocamos quanto ao duplo sentido, agora do pedófilo perverso, escondidos nas cenas mais inofensivas e brincalhonas do reverendo lógico.









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    [Aeternus:11092] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-03-04)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Gallego critica O Leitor

    Sim, a cremalheira e os chuveiros terrificantes.

    Sísifo não era nem foi feliz, mas sim precisávamos imaginá-lo feliz.Um estado hipotético, a gerar energia existencial...

    E 'aberrante' talvez seja uma boa palavra e signo para nossa espécie, né?...Várias vertentes embutidas.A-berrante / Ab-errante / A-beira-(a)nte...

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    [Aeternus:11093] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-04)


    - contribuição fora da lista (sobre O Leitor)

    Bernhard Schlink comenta 'O leitor', de Stephen Daldry (excertos da matéria publicada no O Globo)

    SCHLINK: É um livro para jovens e mais velhos, mulheres e homens, intelectuais ou não, pessoas com diferentes tipos e níveis de educação de uma ampla gama de países, e é um livro para quem lê muito ou não[...] Minha mãe, que é suíça e nasceu democrata, me passou a ideia, quando eu era criança, de que se eu quisesse dizer algo numa democracia deveria dizer de um jeito que todos pudessem entender. Hoje eu sei que isso não se aplica à arte. Mas fico feliz de ter escrito um livro democrático do jeito que foi.

    E: Houve um boom por alguns meses de filmes americanos sobre nacional-socialismo ou sobre o Holocausto como “Valquíria”, “O menino do pijama listrado” e “O milagre de St Anna”. Que papel “O leitor” tem nesta leva de filmes?

    SCHLINK: Deixe-me enfatizar mais uma vez: “O leitor” não é um livro sobre nacional-socialismo nem sobre o Holocausto. É um livro sobre a relação entre a geração do pós-guerra e a geração da guerra, sobre a implicação da geração pós-guerra na culpa da geração da guerra, e sobre a implicação na culpa em geral. O escritor americano Joyce Hackett achou uma resposta inteligente para a pergunta sobre por que os filmes americano estiveram tão intensamente preocupados com o Terceiro Reich e o Holocausto em tempos recentes: ela argumenta que depois dos anos moralmente ambiguos de Bush, há uma grande demanda por problemas morais com respostas definitivas, por imagens claras e fortes do bem e o mal. Visto dessa forma, também, “O leitor”, que lida com problemas morais, tensões e conflitos, não se encaixa nessa faixa de filmes americanos.

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    [Aeternus:11094] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-03-04)


    - a ética dos desgraçados

    A mal-ajambrada arrumação que David Hare impôs ao script de 'The Reader' impede que a questão do julgamento(genérico, não o julgamento em si que decorre no drama !)fique esvaziada.
    Não que seja fácil estabelecer esse divisor de águas, mas sim:exige perspicácia, sutileza.
    Em 'A Vida dos Outros' o espião-cinegrafista a serviço da terrível polícia alemã-oriental experimenta um dilema ético bastante bem urdido, delineado e conduzido.Além de convincente, leva à uma reflexão interessante sobre a pergunta que Hanna faz ao juiz no tribunal, "o que o senhor faria numa situação dessas?"

    O espião-cinegrafista, embora humilde e de tosca cultura, tomou seu partido.Termina o drama censurando cartas abertas à vapor, recebendo como consolo existencial a partitura musical "Concerto para um Homem Bom", de seu eventual e ao acaso protégé, outrora perseguido.
    A 'metáfora' cruel escolhida para suicidar Hanna, planta dos pés fazendo deslizar seus queridos livros, é tão estapafúrdia quanto verossímil, a meu ver.Num rompante psicótico podemos destruir tudo o que mais amamos.Que o diga Camille Claudel, né ?

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    [Aeternus:11107] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-03-09)


    - RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

    Domingo, 8 de março de 2009

    O Holocausto chique de Hollywood

    Uma moratória a esse genocídio talvez evitasse sua contumaz exploração pela máquina de entretenimento

    Sérgio Augusto - O Estado de S.Paulo

    Que tal dar um descanso ao Holocausto? Não negá-lo, como certos cretinos ainda o fazem. Nem esquecê-lo, pois um genocídio daquela proporção não pode ser esquecido, sob pena de incentivar novos crimes contra a humanidade. Apenas submetê-lo a uma, digamos, moratória. Talvez assim conseguiríamos inibir o seu uso inapropriado, e eventualmente torpe, nas discussões sobre a política externa israelense e sua contumaz exploração pela máquina de entretenimento. Até um musical ambientado em campo de concentração nazista, Imagine This!, já ousaram produzir. E A Escolha de Sofia já rendeu uma ópera.

    "Quem quer que se aventure a fazer arte sobre a morte de milhões de pessoas deve antes se perguntar se sua obra acrescentará alguma novidade ao muito que já se sabe sobre o assunto", recomendou o crítico cultural Norman Lebrecht, depois de ler o romance de Bernhard Schlink que deu origem ao filme O Leitor. "Se a resposta for não", prosseguiu Lebrecht, um novo caso de exploração comercial e emocional do Holocausto está a caminho. Se a resposta for sim, há que se esclarecer o teor da novidade. Ele não gostou nada das novidades que Schlink acrescentou à tragédia do Holocausto.

    Se filmes como A Escolha de Sofia, A Vida é Bela, A Lista de Schindler, O Menino do Pijama Listrado carregam o estigma da exploração emocional do Holocausto, sobre espetáculos como O Leitor e Operação Valquíria recai outra acusação: oferecer uma visão perigosamente revisionista da Alemanha nazista.

    Revisionista e glamourizada - ou a bela e sensual Kate Winslet não seria a estrela do primeiro, nem Tom Cruise, o astro do segundo. "Hollywood inventou o Holocausto Chique", proclamou um crítico de Los Angeles, quando da estreia, há dois meses, de Um Ato de Liberdade (Defiance), com Daniel Craig fugindo da máquina nazista pelas florestas polonesas e bielo-russas, na companhia de dois irmãos.

    "Schlink desculpou o indesculpável", denunciou Cynthia Ozick, referindo-se à redenção de Hanna, a protagonista de O Leitor, através da cultura livresca. Usar a ignorância de uma impenitente guarda de campo de concentração como metáfora da amnésia alemã pareceu-lhe uma exorbitância. Desde quando o aprendizado das letras pode nos redimir de crimes inexpiáveis? Se conhecer Homero, Goethe e Tchecov criasse uma barreira contra o mal, Hitler, que muito leu antes de virar führer, não teria inventado a Solução Final.

    Mesmo na Alemanha, onde foi publicado em meados da década passada, O Leitor recebeu críticas severíssimas; assim como o filme Operação Valquíria, que até o velho nouveau philosophe Bernard-Henri Lévi arrastou para uma polêmica nas páginas da revista Le Point. Mas nos Estados Unidos a grita foi maior. Principalmente por causa do tratamento dispensado ao comportamento dos alemães durante os mil, perdão, 12 anos do Terceiro Reich.

    "Não precisamos de um filme que isente o povo alemão de cumplicidade no extermínio de judeus e humanize seus carrascos", protestou o estudioso do nazismo Ron Rosenbaum. "A tese de que qualquer um de nós pode tornar-se um genocida é absurda. O Holocausto não foi um surto, mas um genocídio planejado, e sua normalização é inaceitável", emendou Lebrecht, que reservou sua artilharia mais pesada para o cartapácio de Jonathan Littell, As Benevolentes, supino exemplo do Holocausto Chique traduzido pela Alfaguara em 2007 e só agora editado nos Estados Unidos.

    Quanto aos bravos e bondosos oficiais nazistas que se opuseram a Hitler e sua louca obsessão antissemita, a ponto de tentar matá-lo num atentado, em 20 de julho de 1944, um grão de sal, bitte.

    Os oficiais da Wehrmacht envolvidos na Operação Valquíria só levaram seus planos adiante porque em julho de 1944, um mês depois da invasão da Normandia pelos Aliados, a guerra parecia perdida. Três anos antes, teria feito diferença, como gesto e, se dado certo, como ação política. Mais corajosos e sinceros foram os estudantes de Munique que, sob a sigla Rosa Branca, lutaram na clandestinidade contra o nazismo, boicotando o que podiam e escondendo judeus onde era possível. Sem a menor intenção de salvar o Reich da debacle, a intenção primeira dos oficiais liderados pelo coronel Claus von Stauffenberg.

    Brutalmente executados em 1943, os integrantes da Rosa Branca bem mereciam um filme de peso. Da mesma forma que outros heróis da resistência alemã, como os oficiais Hans Oster e Hans von Dohnanyi, que se rebelaram em 1938, e o marceneiro Georg Elser, que planejou matar Hitler cinco anos antes da Operação Valquíria, e quem mais fizesse jus a uma dramatização no índice remissivo de um estudo do finado Joachim Fest, La Résistance Allemande à Hitler, recém-lançado na França pela Broché. Infelizmente, a badalação em torno da Operação Valquíria (que já havia inspirado um filme alemão de G.W. Pabst, em 1955) ofuscou todos eles.

    Henri-Lévi queixou-se da escolha de Cruise para o papel de Von Stauffenberg por suas ligações com a Cientologia. A seita a que o ator pertence e defende com fanatismo tem lá seus pontos em comum com o nacional-socialismo (a visão apocalíptica do mundo é de somenos), mas incongruência maior é a santificação do coronel, nazista de carteirinha desde 1933 e figura de proa na invasão da Polônia em 1939. Só mesmo o Holocausto Chique seria capaz de alçar Von Stauffenberg ao pedestal dos autênticos mártires do nazismo.

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    [Aeternus:11108] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-03-09)


    - RE:RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

    Esse Sergio Augusto que escreve no jornal de São Paulo... será ele o mesmo que faz, ou fazia, crítica na revista "Bravo!" ?  Havia dois com nomes parecidos e eu achava só um deles particularmente insuportável, mas não sei qual era.

    O ranço nesta cronica me fez lembrar dele. Repete a opinião dos outros e as comenta como se vestisse uma roupa nova, sem reflexão própria e na maior pose.

    Não vou sair defendendo o livro do Schlink, mas sua idéia não tinha nada claramente voltado a explorar cinematicamente o holocausto. Nossos colaboradores na Lista discutiram suficientemente um filme fraco sobre um livro mediano, sem tanta ira.

    "Cabaret" e "O Ovo da Serpente"  continuam atuais e a gente só pressente o pano de fundo. Musical e drama em preto e branco...

    Por que não se produziram  musicais com o(s) genocídio(s) do Stalin, Khmer Rouge, Papa Doc e Kennedy/Johnson/.../Bush  me dá outra medida dessa história. Quem falou dos ingleses matando irlandeses de fome  na guerra das batatas foi  Eça de Queiroz: já leram o que ele escreveu? fizeram filmes?

    A mídia hollywoodiana parece preferir uma espécie de veio familiar: Moisés, mas não Esther, por exemplo. O pequeno David visto de longe enquanto vence Golias ou nos louvores com a harpa. Pegam um padrão de combate glorioso, sem grandes variações estruturais, talvez porque diversificar demais renda pouca bilheteria.

    Se esse Sérgio Augusto for aquele outro, descobri meu Ravel no campo da escrita. Quando ouço uma música que todos adoram ( no bolero todos os instrumentos são igualmente participativos e todo músico tem seu instante de glória) com o rabo do ouvido e o cantinho da orelha, e a coisa se avoluma em mim e vou ficando indócil e infeliz, já sei que é Ravel. Porque pra apreciar Ravel é preciso prestar atenção o tempo todo.


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    [Aeternus:11110] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-03-09)


    - RE:RE:RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

    Vejo antes de tudo como fora de tom a crítica do Sérgio Augusto."The Reader" nem é um drama sobre o holocausto, afinal...Tangencia o desgraçol nazista, mas o âmago tentado pelo romancista foi o da participação de cada um de nós em tessituras que exigem forças acima das que possuímos.
    Em termos de glamour, também não vi o que fez o crítico espernear.A Kate é mais gostosona do que bela.Deixa-se filmar sem esconder defeitos especiais de estrela, e o drama não faz dela diva de nenhuma espécie, centrando-se no encanto das descobertas sexy-literárias do par.E mesmo estas são mera catarse naquele momento do envolvimento do díspare casal, o lenitivo que estava ao alcance deles ali&então.

    Pena mesmo, nisso tudo, que grandes filmes no tema 'corner existencial&holocausto' como "Taking Sides", do Istvàn Szabò, passem ao largo das estatuetas da vida e do circuitão comercial.

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    [Aeternus:11111] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-09)


    - RE:a ética dos desgraçados

    Opinião de um crítico mais jovem, o João Marcelo F.de Mattos, em email sobre "O Lieotr":
    "E aquele plano do "Leitor" em que uma das colegas de trabalho da Kate Winslet bate a mão (igual a uma adolescente que bolou um esquema com uma amiguinha para ir numa festa concorrida) na mão do advogado dela, quando sentem que podem jogar a responsabilidade no colo da Kate? Parece episódio de série teen. Poxa, o filme É sobre o Holocausto! Repito: a "meia" absolvição da Hanna S. por ser ela anafalbeta e dotada apenas do senso comum, é um insulto à qualquer sociedade e à todos que não possuem educação formal. Sinto dor de estômago só de pensar nesse filme."

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    [Aeternus:11112] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-03-09)


    - RE:RE:RE:RE:contribuição (sobre O Leitor) --> naziglamour

    O Sergio Augusto deve ser um crítico de cinema veterano do Rio de Janeiro que escrevia nos áureos tempos do caderno B ao lado de José Carlos Avellar (o melhor de todos), Ely Azeredo, Mauricio Gomes Leite e outros. Ele escreveu um livro delicioso sobre as chanchadas brasileiras de Oscarito, Grande Otelo, Eliana, Cyll Farney, Adelaide Chiozzo e Anselmo Duarte (acho que estes 2 últimos ainda vivem), chamado "Este Mundo é um Pandeiro" (e não é? é um Pandeiro, um Pandemônio, de Pan e Demônio, Pão de Demônio, Pão que o Demo amassou, Pão que ficou duro e não durou, etc etc)
    Concordo com o que ele diz sobre o horror que é "O Leitor" [que também é ruim como filme: apesar de "embalado para presente" (o que pode confundir muitas platéias com aura de "qualidade" mas o filme é medíocre como linguagem de cinema, constrangedor como roteiro e nem é convincente nas interpretações de Kate Winslet (ainda que premiada, jamais convence como analfabeta moral) e mesmo na do Ralph Fiennes que surge surpreendentemente estereotipado com cara de bebê chorão - e só o ator jovem se salva; a música excessiva e é um dos "detalhes" do filme que se veste como um "sepulcro caiado" - para os que não conhecem a metáfora católica: um sepulcro pode estar caiado e com aparência "limpa" por fora mas sempre estará cheio de podridão por dentro].
    Mas discordo do que ele escreve quando coloca no mesmo saco "A Lista de Schindler" - ao lado dos abjetos "A Vida é Bela" e "Menino do Pijama Listado".
    E tb discordo mais ainda sobre "As Benevolentes" que li como um grande romance sobre a perversão nazista vista por um personagem culto e articulado e igualmente perverso e nazista. Não aceito que seja parte deste "holocausto-chique" de "O Leitor", "O Homem Bom", "Menino do Pijama Listado" e "Opração Valquíria". "As Benevolentes" mostra o mal visto pelo lado de lá sem defender nada nem remisão nem perdão, nem desculpa. o personagem é autocomplacente, o livro não é. Pelo contrário. Gallego (fui eu quem colocou a opinião do João Marcelo com a aguda observação do gesto de "cumprimento" batendo as palmas das mãos por parte de uma das guardas nazistas do filme - gesto que nem devia ser usado nos anos 1960 por senhoras alemãs que eram mais mocinhasdo tempo do nazismo; deve ser como o eletrochoque colocado como porção "Estranho no Ninho" no doentio "A Troca" do Clint Eastwood: numa época que ainda não havia eletrochoque, um filme que se diz fiel aos fatos reais ganha descrédito ao querer misturar corrupção policial e abusos psiquiátricos policialescos com erro hsitórico tão bobo, descuidado; a gente fica duvidando de todo o resto... )

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    [Aeternus:11113] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-03-09)


    - RE:RE:a ética dos desgraçados

    Hanna é mais vítima de si mesma do que do nazismo...
    E o corner social pode ser tão cruel que mesmo a inteligência e cultura de nada resolvem.Haja visto o fora-de-série "Mephisto" - de novo o mestre Istvàn Szabò - e a miopia do maestro Furtwängler à frente da Filarmônica de Berlim durante o Reich.
    Só que Szabò costura&conduz com toda majestade a trama, trocando com o espectador tudo o que é relevante e fundamental, botando o dedo na(s)ferida(s)aliada(s) também.Se não bastasse ser lui même judeu...

    Como Gallego ressaltou com precisão, a respeito da senhora da conferência que tentou separar os nazistas dos 'humanos', a questão vai mais longe de sectarismos imediatos ou julgamentos precipitados.

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    [Aeternus:11114] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-03-09)


    - RE:Lewis Carroll

    Hoje aprendi que o (reverendo Dodson ou Dogson ou algo assim) ie Lewis Carroll do Alice no Pais das Maravilhas e Através do Espelho era gago. Por isso não foi promovido na carreira eclesiástica.

    Contudo, só era gago ao se endereçar para adultos. Com as crianças, não apresentava problemas. Suas histórias para as meninas Lidell
    eram contadas em voz alta, sem problemas.  Ora vejam só! 


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    [Aeternus:11153] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-03-22)


    - Los Abrazos Rotos

    Nuevo Almodóvar: http://www.youtube.com/watch?v=kJGjlZg6GOQ


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    [Aeternus:11228] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-01)


    - uma cronica e cinema e esquecimento




    MARCELO COELHO

    Uma vitória do esquecimento


    É assustador verificar que, tanto na esquerda quanto na direita, ninguém aprendeu nada




    BOILESEN. HENNING Boilesen. Guarde esse nome. Foi um dinamarquês. É uma das maiores atrações do festival de documentários É Tudo Verdade, que vai até dia 5 de abril, com sessões grátis no Cinesesc, no CCBB e no Eldorado.
    "Cidadão Boilesen" é um documentário de Chaim Litewski, investigando a vida de um alto executivo da Ultragás, que era amigo de torturadores durante a ditadura e que chegou a assistir, por prazer, a sessões de suplício comandadas pelo delegado Fleury.
    Boilesen foi assassinado pela guerrilha de Lamarca. Na mesma alameda Casa Branca onde o guerrilheiro seria morto um tempo depois. O filho de Boilesen é entrevistado no filme. Simplesmente não consegue acreditar que o pai fosse um monstro anticomunista, cúmplice de torturadores. Para ele, o assassinato ainda carece de explicação.
    Boilesen era um tipo amigável, festeiro, nada racista: terminou tendo um caso extraconjugal, a que administrou decentemente. O documentário abusa um pouco, por falta de material concreto, das fotografias oficiais do empresário dinamarquês. Alto, sorridente, nariz de boxeador, smoking impecável, ei-lo presente em solenidades da Fiesp durante os anos de chumbo.
    Muitas pessoas entrevistadas pelo documentário atestam a simpatia de Boilesen pela Operação Bandeirante -a Oban-, aparato semiclandestino dedicado a matar e torturar suspeitos de "comunismo" no auge da ditadura. Segundo alguns relatos do filme, Boilesen não se limitava a financiar a Oban. Gostava de presenciar as sessões de tortura -e o filme recorre, a meu ver erradamente, a recriações ficcionais daquele horror todo.
    Fico sem saber o que pensar de Boilesen. Cláudio Elisabetski, produtor cultural, refere-se ao "lado obscuro" do empresário, que pode ser mais ou menos intenso em cada um de nós. Menos do que o caso individual de Henning Boilesen, o que há de mais interessante no documentário são os depoimentos gravados por Chaim Litewski.
    Ninguém sente a menor sombra de culpa. Jarbas Passarinho, Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros partícipes da Oban falam friamente da chamada "guerra contra o terrorismo". Lamente-se, de resto, a falta de um depoimento do ex-ministro Delfim Netto, evidentemente um adepto da ditadura, e hoje hábil conselheiro do governo Lula. Torturava-se à vontade nos tempos de Boilesen. Poucos empresários tiveram a coragem de recusar doações à Oban: Antonio Ermírio de Moraes, José Mindlin.
    Resta, desta história sinistra, o principal. A saber, aquilo que os personagens principais do drama aprenderam do processo. É assustador verificar que, na esquerda e na direita, ninguém aprendeu nada. O ex-governador Paulo Egídio Martins faz de modo tosco o elogio de Boilesen: "Era um utopista". Bela utopia, a de torturar opositores do regime.
    Do lado da esquerda, não existe quem considere a morte de Boilensen um cruel assassinato a sangue frio. Mesmo um cristão -Hélio Bicudo- manifesta alguma leniência diante do atentado. Havia em tudo uma razão política, argumentam os homens que mataram Boilesen. Importava sinalizar aos demais empresários que qualquer apoio à tortura não passaria impune.
    Valeu a pena? Certamente não. A política, creio eu, funciona em termos de valores e de interesses. Os mais altos valores -exigindo, por exemplo, punição exemplar- confrontam-se com interesses que dizem respeito, por exemplo, ao desenvolvimento da democracia. Tudo depende, é claro, da quantidade de poder que se atribui aos diversos participantes do jogo.
    Matar os torturadores seria mais importante do que se aliar aos "moderados" do regime? O que se ganha, e o que se perde, no processo? Talvez estejamos superestimando o papel dos torturadores em todo o jogo. O documentário sobre Boilesen é uma etapa num caminho de sensibilização histórica. Não interessa tanto, a meu ver, julgar o personagem. Interessa saber o que cada um de nós faria em seu lugar.
    Ou no lugar de seus assassinos. Havia belos argumentos para matar aquele sádico. Mas o militante que o mata se transformou num criminoso também. Nenhum dos entrevistados, de direita ou de esquerda, parece arrependido do que fez. A Lei da Anistia, na prática, funcionou para todo mundo. Eis uma vitória, temporária, tenho certeza, do esquecimento.

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    [Aeternus:11247] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-06)


    - para bem inserir é preciso desformatar...


    Filme de Wajda

    O apuro estético exemplar ajuda o espectador no contacto com uma história real que mostra, fora do contexto “absurdo” de Kafka, como a realidade pode ser mais absurda do que a ficção imaginada.


    # KATYN (KATYN) Polônia, 2007; 118 minutos
    Direção: ANDRZEJ WAJDA  Roteiro: ANDRZEJ WAJDA, WLADYSLAW PASIKOWSKI, PRZEMYSLAW NOWAKOWSKI, baseado no livro “Post-Morten” de ANDRZEJ MULARCZYK.
    Fotografia: PAWEL EDELMAN Edição: MILENIA FIEDLER, RAFAL LISTOPAD
    Música:KRZYSZTOF PENDERECKI Direção de Arte: MAGDALENA DIPONT
    Elenco: MAJA OSTASZEWSKA, ARTUR ZMIJEWSKI, DANUTA STENKA, MAJA KOMOROWSKA, ANDRZEJ CHYRA.
    Site oficial: http://www.katyn.netino.pl/en/


    O HORROR, O HORROR

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    4/4/2009 no site www.criticos.com.br

    Em uma de suas primeiras cenas, Katyn mostra uma massa humana atravessando uma ponte. No sentido oposto está vindo outra multidão. Um grupo de poloneses está fugindo de Hitler. Os que vêm do outro lado, fogem da invasão soviética. Está definido o cenário de um dos melhores filmes de Andrzej Wajda, o consagrado cineasta polonês, autor de vários filmes memoráveis desde 1955 - tais como Cinzas e Diamantes e O Homem de Mármore, dentre outros. Infelizmente muitos não foram lançados no Brasil, embora haja alguns em DVDs recentes. De qualquer modo, daqui não se pode ter uma visão mais ampla de sua carreira que soma 51 filmes em 2009, sendo este Katyn o qüinquagésimo, lançado em 2007 e indicado ao Oscar de filme em língua não-inglesa em 2008.

    A linguagem cinematográfica é absolutamente clássica, depurada e refinada, servindo-se de ângulos irrepreensíveis para as tomadas de cena e enquadramentos capazes de transmitir a emoção desejada (nem excessiva, nem distanciada demais), especialmente nos planos em que se detém nos rostos das mulheres que esperam notícias de seus parentes. É empático o uso da câmera sobre os rostos das atrizes Danuta Stenka (‘Rozsa’), Maja Komorowska (que faz a mãe do personagem Andrzej) e - ainda mais especial - o semblante de Maja Ostaszewska (‘Anna’, mulher de ‘Andrzej’), que em alguns momentos chega a lembrar a máscara facial da nossa Glauce Rocha (Terra em Transe, Navalha na Carne, primeira versão). Se os desempenhos masculinos também são ótimos, não há dúvida que o roteiro propicia mais oportunidade para as atrizes, sem que nenhuma incorra em overacting para expressr suas angústias e dores.

    A fotografia é de Pawel Edelman (de O Pianista, de Polanski), explorando com maestria o claro-escuro nas cenas interiores; e a música – excelente - do grande compositor Krzysztof Penderecki colabora de modo pertinente. O apuro estético exemplar ajuda o espectador no contacto com uma história real que mostra, fora do contexto “absurdo” de Kafka, como a realidade pode ser mais absurda do que a ficção imaginada. Afinal, o filme trata de um massacre a sangue-frio de mais de 15 mil (talvez vinte mil) poloneses, episódio em que o cineasta perdeu seu pai, tal como centenas de famílias polonesas perderam filhos, irmãos, maridos, pais - e o exército polonês foi reduzido quase à metade, sem que houvesse guerra declarada à Polônia, nem por Hitler, nem por Stalin. E as mortes nem foram em campos de batalha!

    Hoje com 83 anos, Wajda tratou deste horror através de uma narrativa cinematográfica admirável, sem nenhuma aproximação com a linguagem plena de recursos espetaculosos de filmes americanos que também denunciaram a insanidade das guerras, incluindo aqueles que podem ser considerados obras-primas como o Apocalypse Now de Coppola. Mas o horror é o mesmo - ou ainda maior.

    O estilo de Wajda é outro, mas também muito distante de qualquer minimalismo desafetivado. Ele é capaz de usar os movimentos de câmera como em uma escrita literária, permitindo-se enfatizar algumas passagens - como a da reunião dos soldados prisioneiros dentro de um galpão para escutar palavras de resistência de seu General, quando a câmera sobre enfaticamente provocando comoção na platéia. Em outras cenas ele faz nosso ponto-de-vista deslizar horizontalmente, criando ângulos em perspectiva de ruas ou estradas, ampliando o olhar do espectador, incluindo-o na ação, mas sem deixar de nos exigir algum grau de distanciamento reflexivo sobre as barbaridades que mostra.

    Talvez preocupado em mostrar repercussões um pouco mais tardias e desmandos em cascata, o roteiro envereda por algumas digressões episódicas dispensáveis que nem sempre se inserem tão adequadamente no painel pretendido; mas isso não chega a diminuir o impacto do filme, embora também não vá além do que já se tem de "essencial", indo da brutalidade de uma universidade invadida pela força estúpida nazista até as mentiras soviéticas que tentaram, por décadas, ocultar a verdade dos fatos que envolveram o massacre que nos faz lembrar da frase final de Kafka em “O Processo”sobre a morte do personagem Joseph K. - pois na floresta de Katyn, cada um morreu “como um cão”.

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    [Aeternus:11270] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-11)


    - anamnese psiquiátrica e cinema

    Quando preciso escolher em que setor da Lista devo incluir algum filme, fico perdida se não o assisti fresquinho num cinema. Se me fizessem perguntas de praxe para uma anamnese, deduziriam que vivo "desorientada no espaço e no tempo", pelo menos antes de Einstein. 

    Depois de ler um péssimo livro ( bem escrito, mas retratando fielmente a mentalidade de controle grupal típica dos EEUU em permanente provincianismo e pragmatismo delirante), calhou de ser convidada para assistir um filme com Richard Gere e Diane Lane. Atrapalhei todos os presentes à sessão caseira porque ficava esperneando em voz alta. 

    Na crítica profissional, eis o que escreveram: "Se há algo que valha a pena em “Noites de Tormenta” é ver Diane Lane em ação. Ela é como vinho: fica melhor à medida que passam os anos – e provou isso também em “Sob o Sol da Toscana”. Aos que buscam serem manipulados, o barco está atracado: é só entrar e se deixar levar pelo mar. Sempre há aqueles que gostam disso, e não sou eu que vou criticar – até porque o produto aqui vende o que promete."
    ( Nights in Rodanthe, EUA, 2008 ) Direção de George C. Wolfe, com Diane Lane, Richard Gere, Christopher Meloni

    É a manipulação que agora me tira do sério. Do filme com o espectador. Dos personagens entre eles. Uma coisa cultural obtusa que, infelizmente, está sendo exportada mundo afora. Faça julgamentos morais abruptos sobre seus vizinhos, sinta-se culpado pelos mais ínfimos gestos e até pelos sonhos, aja como escravo do sistema em falso altruismo e reprima seu egoismo até ele explodir. Seja infeliz, cobrando-se sempre ser feliz. Em seguida, volte a ficar muito infeliz. O ego só se locupleta na infelicidade americana.

    Então dei azar de, na sequencia mal-humorada, ter assistido ao oscarizado e badalado antigo filme "A Ultima Sessão de Cinema". Cybil Sheppard garotinha, ainda. E outros conhecidos mais ou menos famosos. Um filme, em preto e branco acentuado pela iluminação sempre criativamente a mesma, representando uma cidadezinha decrépita no Texas açoitado pelo vento e pelas promessas estranhas do México.

    A televisão estava chegando para dar fim ao cineminha onde se podia ficar no escurinho mascando chiclete sem gosto de anis. Os filmes Western com John Wayne ou, talvez aquele outro da "Juventude Transviada" com a Elizabeth Taylor, tinham uma nitidez espantosa e me via querendo assisti-los mais do que ao que se passava fora daquela moldura. Musica sertaneja do começo ao fim, com umas exceções interessantes ( "Blue Velvet"), bobos, sinuca, espeluncas. Adolescentes descobrindo amor e sexo, um vilarejo onde todo mundo sabia de todo mundo e você tinha que pertencer, adequar-se ao inadequado todo tempo. Sem lider e sem ética profunda: as pessoas correndo solto como cerveja na Oktoberfest de Blumenau mas copiando ou contestando umas as outras. Paisagem estéril (como naquele calor da ..ia dizer Juventude Transviada, mas estava pensando no outro filme com James Dean, aquele dos poços de petróleo...) na qual ainda assim os que a ela se acostumaram havia pontos de beleza. Eu mesma não vi nada, mas acredito.  Uma beleza mais realistica do que a germanica do Bagdad Café, esta mais fácil de entender e empatizar porque impossível. Hoje, me vi passeando numa cidade perto de Brasília, em Luziania. Se fosse carioca, estaria num recanto perdido do Estado do Rio ainda influenciado por Niterói. 

    Na mesma época do filme, talvez, eu era adolescente na América e, por um mes, passei por cidades parecidas, com lugares para um camping de boliche iluminado no meio do deserto, com festas de gente pelada na piscina e uma sensação difusa de que estava tudo perdido ( resisti! de olho no Brasil, e que nem era tão diferente e lembrando os meses anteriores quando só via museus, flores e os ideais de Thomas Jefferson e senhoritas de James e Miss Wharton...)

    Não me levem a serio nesta minha crítica deslavada. Como resistir, como resistir às manipulações sem ficar de velha chata resmunguenta?

    Ainda num arroubo americanista retomei o Charles Schulz que também lia naquela época e uma onda de ternura chegou com aquelas crianças totalmente transicionais no mundo do Winnicott, entrando na fantasia umas das outras e adotando um jeitinho Zen de ficar perplexo com as diferenças.  Snoopy e Charlie Brown lavaram minha alma.


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    [Aeternus:11272] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-04-11)


    - RE:anamnese psiquiátrica e cinema

    Este "Noites de Tromenta" eu não aguentei ver até o final, achei uma bosta completa, exceto pela Dioane Lane e pela fotografia (do Affonso Beato, o brasileiro de carreia internacional que fotografou "Amos nos Tempos do Cólera", "A Rainha", três do Almodóvar, "Carne Trêmula", "A Flor do meu Segredo" e "Tudo sobre Minha Mãe", etc etc).
    Juventude Transviada era com a Natalie Wood.
    A Liz Taylor esteve com James Dean no filme dos poços de petróleo ("Assim Caminha a Humanidade" - que vi uma vez só há dois séculos atrás quando era meio rapazola já em reprise e achei meio chatão, nuna me animei em rever em DVD).
    Fui entrevistado sobre a permanência do mito James Dean a te´hoje para a TV Brasil, ex-TV Educativa do Rio. Hoje? Meus filhos mal sabem quem foi James Dean, mas vá lá, é um ícone. Disse algumas coisas sobre o investimento libidinal nas figuras do lider (Psicologia das Massas e Análise do Eu) e dos "ídolos" e celebridades. James Dean teria dado figura e voz a aspirações obscuras (inconscientes, pré-cosncientes) da juventude americana nascida e criada durante a II Guerra Mundial em um sistema de relações parentais e sociais definidas, com atitude distante e rígida de mães submissas aos imperativos psicopedagógicos estritos ao lado de um certo grau de apagamento da figura parental que chegou a ser ausente (guerra, morte). Seus personagens e ele mesmo parecima sofrer entre escolher o caminho de resolução edípica entre pai e mãe, vindo daí o desejo de se tronar um "Rebel without Cause" (título original sde Juventude Transviada) e explodindo em "Fúria de Viver" (título franc~es do memso filme). Além de ter morrido jovem, o que eterniza a imagem de juventude e beleza, o mesmo golpe que Greta Garbo deu ao abandonar o cinbema antes de envlehecer, reclusa.
    Sei lá como vão editar a entrevista que deve ir ao ara domingo de pa´scoa num programa chamado Rebista Brasil que graças a desu ninguém deve ver. Só os amigos do aetrenus que não vão me quere mal pelo mico caso assisitirem. pretendo estar no cinema vebndoi algum filme nessa hora. Depois não me contem.
    Gallego

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    [Aeternus:11273] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-04-11)


    - RE:RE:anamnese psiquiátrica e cinema

    Vi as "Noites de Tormenta" até o final porque estava assistindo com filho, filha, nora e duas netas e todos estavam curtindo, mais ou menos, ou mais, ou menos. Diane Lane pode ser vista como boa atriz, cheia de caretas. Pra mim, ela é magra demais e tem um defeito no nariz que estraga a expressão do rosto. Desde um filme antigo com ela, sobre operas e um Mestre que isolava seus favoritos para treiná-los num palacete e a voz de um dos tenores "se quebra" de tanto esforço, o narizinho me atazana a paciência, embora os olhos brilhantes e expressivos tivessem me encantado. O melhor do filme, pra mim, foi o que criticaram mais nele: o aparecimento de uma manada de cavalos correndo na areia.

    E aí, Gallego, não gostou de uma dedução que fiz, de que para os americanos o ego só tem lugar na hora da infelicidade?  Que se recalque o que fica representado no ego ainda vai, coisa da geração do Freud. Mas, com a América, é o ego inteiro que é recalcado e o superego fala quase todo tempo, embora sem convição!

    James Dean e Che Guevara viraram ícones, como também a Marilyn e o Mickey Mouse. Da Greta Garbo pouco sei, não faz meu tipo e conheci mulheres ( mesmo) com os mesmos lábios duros que os dela. Aqui estou eu apenas em cima dos traços físicos e, talvez, da gestualidade dramática e pouco sutil da Diane Lane. Pois é, não entendo mesmo das coisas, nem de ícones, nem de rebeldes sem causa. Gostei do filme do petróleo, passou na televisão e fiquei assistindo sem grandes compromissos. Como colocar um DVD e ter que ficar ali mesmo, já que fui eu que reuni o berçário, oops, a turma, a multidão, as hostes para me acompanharem na inglória aventura. 

    Quando era jovem eu via cinema quase sempre boquiaberta e com a descrença dependurada no varal do quintal. Estava conhecendo o mundo e, naquela época, acreditava que somos todos irmãos e a humanidade é uma só. Imagine. Então, boboca feito John Lennon. Será que sofro pelo narcisismo das "grandes diferenças" atualmente? Talvez. Talvez. Pela impotencia que nos causa. É mais difícil conversar com um vizinho, sem fazer concessões o tempo todo, do que com um extra-terrestre. Não que tivesse alguma vez tido encontros de primeiro, segundo ou terceiro graus. Mas, ora, refiro-me aos robos do Karel Kapec, do Asimov e todos os entes planetários da Fundação.  Asimov tinha uns diálogos horríveis de arrepiar (psicólogo policial falando e sendo rogeriano), mas no todo as idéias eram cativantes.


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    [Aeternus:11458] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-02)


    - Gracindo por dois críticos do site dos especialistas

    EM NOME DO PAI, DO FILHO E DOS FILMES-BIOGRAFIA
    O documentário é tanto sobre Paulo Gracindo quanto sobre Gracindo Jr; tanto o retrato de um pai quanto o autorretrato de um filho construindo o pai.
    Por PATRICIA REBELLO no site www.criticos.com.br  em 1/5/2009

    A beleza de Paulo Gracindo – O Bem Amado passa tanto por uma vontade de contar como Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo se tornou o ator Paulo Gracindo, como pela delicada construção do olhar de um filho sobre um pai. Porque de tanto viver mergulhado em textos e misturado a personagens, diz Gracindo Jr. – diretor -, quem sabe ele, o filho, não tenha transformado o que viveu na vida, com o pai, em uma grande ficção? E é exatamente porque se assume na fronteira entre compromisso de verdade, e a vida como palco, como projeto de encenação, que o documentário se destaca da média dos filmes-biografia, um filão tão prolífico e característico na produção contemporânea de documentários.

    Contar a história de Paulo Gracindo é, em grande medida, falar da instituição da indústria do audiovisual no país; falar sobre os tipos e personagens criados pelo ator, de como o próprio país foi atravessado por essa indústria. Odorico Paraguaçu, Quincas Berro D’Água, Tucão, Primo Rico e Coronel Ramiro Bastos, entre outros, são testemunhos das épocas que habitaram, e também termômetros para a forma como o mundo se fazia palpável. Se o Primo Rico foi inspirado nas conversas travadas entre o próprio Gracindo e o sogro rico, o Don Julio Fuentes, de Terra em Transe, de Glauber Rocha, e o inesquecível Odorico Paraguaçu sintetizaram idiossincrasias e questões contemporâneas e ainda hoje pertinentes.

    Narrado em uma primeira pessoa que confunde as palavras do pai na voz do filho, e faz do discurso do filho uma continuação da existência do pai, tecido entre imagens de arquivo pessoal, de momentos da carreira do ator e da história do país, o documentário tanto inscreve a obra de Paulo Gracindo a partir do contexto em que ela aconteceu, das amizades que encontrou pela vida – como as indefectíveis parcerias com Fernanda Montenegro e Lima Duarte -, quanto a justifica através das derivas da vida nacional. O resultado disso tudo é menos a precisão do retrato que a tentativa de dar conta de uma pessoa a partir de seus passos e suas invenções. Por isso, o documentário é tanto sobre Paulo Gracindo quanto sobre Gracindo Jr; tanto o retrato de um pai quanto o autorretrato de um filho construindo o pai . E dada a quantidade de familiares envolvidos no projeto – espere pela lista de créditos e confira a quantidade de “Gracindos” na produção – é quase surpreendente que o filme consiga ser mais que uma homenagem ao ator.

    É importante ressaltar a dimensão autobiográfica do documentário porque é dela que nasce um tema que atravessa o filme do começo ao fim: para além de uma imagem do pai, existe a busca do diretor pela essência do ofício do ator. E a boa sacada de Gracindo Jr. foi apostar menos na construção de estereótipos – tão frequentes hoje – que no processo de invenção, próprio da condição do ator. Talvez a ideia do filme seja menos traçar um retrato que responder a uma pergunta: o que é atuar? E se assim for, uma boa pista está na excepcional e inesquecível interpretação de Fernanda Montenegro para o poema O Caso do Vestido, de Carlos Drummond de Andrade, que, no documentário, comenta a relação entre Paulo Gracindo e a esposa, Dulce. Mais que palavras e ritmos, forma e conteúdo, trata-se de puro kairós, da produção de um tempo sobre-humano, que não se exprime em horas e suas divisões, mas em sua natureza divina, própria e intransferível da experiência vivida.

    COM AÇUCAR, COM AFETO
    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO  em 01/5/2009 no site www.criticos.com.br

    É provável que parte do público atual (os mais jovens) não tenha acompanhado muito da carreira do ator de rádio, televisão, teatro e cinema, extremamente popular tanto nos anos dourados da Rádio Nacional (quando protagonizou a novela O Direito de Nascer, transmitida diariamente durante dois anos consecutivos) como em novelas da Globo assinadas por Dias Gomes e Jorge Andrade, egressos do teatro - ou adaptadas de Jorge Amado: uma época em que se assistia Gabriela, Bandeira Dois, Ossos do Barão, Casarão ou O Bem-Amado, sendo que esta última foi posteriormente reciclada em sitcom caboclo, tal a repercussão do personagem ‘Odorico Paraguaçú’ encarnado em Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo (nome real de Paulo Gracindo).

    Entre o sucesso através do rádio nos anos 1940/50 e a consagração popular televisiva dos anos 1970 com tipos inventados por Dias Gomes (antes de ‘Odorico’ houve o bicheiro ´Tucão´ em Bandeira Dois), o ator passou por um período de menor visibilidade, durante o qual, no entanto, participou de grandes filmes do cinema brasileiro: o emblemático Terra em Transe, de Glauber Rocha, e a obra-prima A Falecida, de Leon Hirzsman, ao lado de Fernanda Montenegro.

    Foi também nos anos 1960 que ele retornou ao palco do qual havia se afastado há décadas (devido ao sucesso na Rádio Nacional), surpreendendo a geração de jovens que iam ao teatro na época quando praticamente roubava a cena de atores tão bons como Leonardo Villar e Jardel Filho - por melhor que ambos também estivessem em O Preço, peça de Arthur Miller. É verdade que seu personagem era mais simpático e responsável pelos lances de humor naquele drama familiar: um judeu idoso que ia comprar móveis e peças usadas de dois irmãos em conflito pelo espólio paterno.

    Mas grandes papéis podem ser grandes oportunidades ou retumbantes fracassos. Com Paulo Gracindo funcionou como uma “revelação” - a de um ator já bem veterano. Os freqüentadores de teatro da época desta encenação que estavam mais sintonizados com experiências do Teatro Oficina (e similares de contra-cultura então em voga) não podiam deixar de se render ao “teatrão” de qualidade do texto de Miller e das interpretações dos atores em formatação mais tradicional. E acima de tudo, desfaziam preconceitos contra aquele “rádio-ator” que também havia sido apresentador de “programas de auditório” de nenhum prestígio cultural.

    Apesar de já ter estado nos filmes citados antes de O Preço acontecer nos palcos, o uso que Glauber fizera da personalidade de Paulo Gracindo em Terra em Transe não deixava de ser uma apropriação de sua imagem de ator de tempos “getulistas”, “lacerdistas” e “janistas” - lideranças políticas destronadas pelo golpe de 1964; e A Falecida foi uma versão para as telas de Nelson Rodrigues que, na época, nem Nelson gostou, embora seja um dos filmes menos datados do “Cinema Novo”, capaz de resistir ao tempo como poucos da mesma época.

    Todas as facetas da carreira de Paulo Gracindo estão de certa forma presentes no documentário produzido por membros da família do ator, mais especificamente pelo filho também ator, Gracindo Jr. que assina a direção, o roteiro, e traz outros familiares, não só em sensíveis depoimentos na frente das câmeras, mas também em outras esferas do projeto. Há tanto material que algumas passagens servem para conectar a memória dos que viveram aqueles períodos e conhecem as fotos ou trechos de filmes mostrados; mas outros espectadores não saberão exatamente a que se referem.

    Além da família de sangue, a “família” teatral também se faz presente em participações de luxo como as de Bibi Ferreira, Paulo José, Eva Wilma e, especialmente, de Fernanda Montenegro que oferece um clímax ao interpretar “O Caso do Vestido”, poema de Carlos Drummond de Andrade: uma forma delicada que os filhos de Paulo escolheram para (não) falar da vida do pai “fora de casa”.

    Como se não bastasse, quando Fernanda declama, a platéia já está emocionada por uma interpretação magnífica de Paulinho da Viola para “Naquela Mesa”, canção feita como homenagem do filho de Jacob do Bandolim ao pai falecido, mas agora com a letra modificada de “bandolim” para “camarim”, já que está sendo reciclada para um ator. É sentimental? É. Mas só corações de pedra não se comoverão com Paulinho e Fernanda em seguida.

    Se muitos problemas de uma empreitada em família foram evitados com inteligência e sensibilidade na edição, alguma coisa menos satisfatória também poderia prejudicar o filme caso insistissem em performances mais “empostadas” do ator como em “Cântico Negro”, poema “maldito” do lusitano José Régio que ficou para sempre associado à gravação insuperável do também português João Villaret. Nem é o melhor de Paulo Gracindo - que por sua vez foi insuperável em personagens populares como os bicheiros de A Falecida e de Bandeira Dois, o “coronel” de Gabriela, o político interiorano de O Bem-Amado, ou quando foi novamente parceiro de Fernanda Montenegro no cinema em Tudo Bem (de Arnaldo Jabor, 1978) - ou ainda quando fez outro personagem bem idoso, o quatrocentão paulista de Ossos do Barão na TV.

    Sobre esta interpretação, Paulo José comenta que houve críticas iniciais no sentido de que Paulo Gracindo estaria “sobreatuando”, termo que muitas vezes também é utilizado em inglês (overacting) com conotação pejorativa. Mas também já vi o termo traduzido como “super-interpretando”, o que pode trazer uma ambigüidade para o que se quer dizer. Afinal, não é qualquer ator que pode entrar na arriscada clave do overacting, que, de fato, é muito usada por canastrões pretensiosos sem noção de ridículo. Mas há atores que ficaram famosos por suas “super-interpretações” magníficas como Bette Davis no cinema - para ficarmos em um exemplo internacional. Paulo Gacindo podia “sobreatuar”, sim, mas a maioria dos registros, da memória do documentário são de super-interpretações irretocáveis que este filme ajuda a relembrar.
    # PAULO GRACINDO – O BEM AMADO
    Brasil, 2007
    Direção e Roteiro: GRACINDO JR.
    Produção: DANIELA GRACINDO
    Fotografia: LULA ARAÚJO
    Montagem: PEDRO GRACINDO
    Som: PEDRO MOREIRA
    Elenco: PAULO GRACINDO, FERNANDA MONTENEGRO, PAULINHO DA VIOLA, BIBI FERREIRA, LIMA DUARTE, EVA WILMA.
    Duração: 80 minutos
    Site oficial:
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    [Aeternus:11562] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-15)


    - Gallego on Ang Lee

    DESEJO E PERIGO
    De ANG LEE, com TONY LEUNG, WEI TANG, JOAN CHEN, WANG LEEHON.
    O que se insinua nas entrelinhas do filme é a questão da "representação" teatral.
    Mas fora do palco: na hora do amor - quando o ser humano se encontra mais vulnerável.
     
    REPRESENTAÇÃO SEM SIMULAÇÃO
    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO no site www.criticos.com.br

    (Texto revisto a partir do que foi escrito durante o Festival do Rio 2007)

    É na hora do amor que o ser humano se encontra mais vulnerável. Relatos históricos e míticos falam de mulheres (como Dalila) que seduziram homens poderosos para destruí-los, matá-los ou entregá-los aos inimigos. Desejo e Perigo, filme de Ang Lee premiado em Veneza 2007, é outra demonstração do enunciado sobre as armadilhas que podem ser colocadas no rastro da fascinação sexual. Desta vez, a teia é armada em Xangai e Hong Kong no período de quatro anos entre 1938 e 1942 - durante as investidas de invasão japonesa à China, estando Xangai sob ocupação em boa parte da história.

    Um grupo de jovens amadores encena peças patrióticas contra a invasão e resolve ir mais além da propaganda de idéias, planejando passar à prática com o objetivo de matar o Sr. Yee (Tony Leung, mais conhecido aqui dos filmes de Wong Kar Wai como 2046 e Amor à Flor da Pele, excelente como sempre). Ele é alto funcionário do governo colaboracionista com o Japão. Para tanto, uma das moças, Wong Jiazhi (Wei Tang, em seu primeiro papel), irá fingir ser a esposa de ‘Mak’, um (falso) homem de negócios - e como tal, infiltrar-se no círculo social do Sr. Yee. Assim, seus companheiros conseguiriam um acesso menos difícil ao protegido funcionário, um homem discreto e desconfiado, capaz de torturar os resistentes chineses à invasão japonesa ou/e enviá-los à morte sumária.

    O Sr. Yee está sempre atento e é muito esperto: já teria desmascarado duas outras mulheres que tentaram espioná-lo, e com isto pôde obter informações sobre as atividades dos grupos aos quais elas pertenciam - antes de mandar matá-las. Mas desta vez, aos poucos, ele vai reduzindo os cuidados em relação à pretensa Sra. Mak, chegando a mandar fazer um anel para ela – não importando a pedra nem seu preço: apenas pelo prazer de ver nos dedos dela um anel escolhido por ele.

    Antes disso ele já se revelara insaciável e sádico no sexo, ou seja, não apenas nas torturas (jamais vistas) que aplica em seus prisioneiros investigados. E a jovem, na pele da Sra. Mak, transforma-se em parceira sintonizada com os desejos dele. É uma atriz que simula por estar convicta do espírito militante de sua causa política? Ou a moça está se deixando seduzir pelas práticas pervertidas do homem que precisaria manter conquistado e “desarmado” para ser pego em armadilha e assassinado? E se ela transa com ele para que ele seja morto, pode-se perguntar: quem seria mais perverso?

    O que se insinua nas entrelinhas do filme (e “entrelinhas” são mencionadas explicitamente em um dos primeiros diálogos sedutores que ela trava com ele) é a questão da representação, no sentido teatral do termo. Só que fora do palco. A tarefa à qual a aplicada atriz amadora se dedica ao criar uma personagem como a inventada Sra. Mak, coloca em cheque os limites da representação enquanto “jogo” que não é (nem deve ser) “a realidade”, mas apenas seu simulacro, uma recriação ficcional. O ator no palco está representando uma vida possível, mas não deve “viver” fora dos palcos aquela vida que encarna apenas transitoriamente.

    A jovem Wong, como amadora que é, borra os limites da separação palco-vida: como “representar” uma relação sexual? Fingir um gozo feminino é possível (e o cinema já brincou com isto em uma hilária cena de Meg Ryan no filme Harry e Sally). Mas o ato sexual da falsa Sra. Mak com o autêntico Sr. Yee teria que ser um verdadeiro ato sexual. Para não ser flagrada como virgem inexperiente, os rapazes, seus companheiros de farsa, tiveram que anteriormente “ensaiar” a moça em relações sexuais reais. Talvez por estar fascinada pelo líder do grupo, ela ultrapassa as fronteiras da representação, da encenação e da simulação. Mas o fato é que tanto o Sr.Yee vai se deixar envolver como nunca, ao encontrar a consonância erótica de ‘Mak Tai Tai’, como também ela corre o risco de se deixar seduzir pelo que deveria ser apenas objeto de sedução para uma armadilha mortal.

    Em algumas cenas, vemos a jovem Wong indo ao cinema. Um dos cartazes de filmes que se vê ostensivamente em uma das salas de exibição é o de Suspeita - que Hitchcock lançou em 1941, contando de uma jovem rica que desconfia que o marido (pobre) pretenda matá-la. Mas o clima do melodrama de espionagem de Desejo e Perigo é bem mais próximo do arcabouço de outro Hitchcock - reciclado em nova versão mais explicitamente perversa: em Interlúdio (títuo original: Notorius), Ingrid Bergman chegava a casar-se com um agente alemão para espionar suas atividades. Mas como Interlúdio só seria lançado em 1946, aludir explicitamente a este filme exigiria uma liberdade de citação anacrônica com a época em que transcorre a ação de Lust, Caution (título internacional) que traz um formato que lembra explicitamente tais clássicos tradicionais do gênero - exceto pela sua (muito e talvez desnecessariamente) longa duração e pelas cenas de sexo quase(?)explícito. Encenado de fato pelo casal de atores ou representado?

    O interesse da platéia será mantido durante a projeção demorada pela mise-en-scène detalhada - e valorizada pela fotografia climática de Rodrigo Prieto (de Frida e Brokeback Mountain); e pelos ganchos de questões que só serão respondidos bem perto do desfecho: o Sr. Yee vai permanecer sem suspeitas sobre a Sra. Mak/Wong? E Wong vai ficar restrita à representação sem que esteja “vivendo” o simulacro que inventou?

    # DESEJO E PERIGO (SE, JIE)
    China, Taiwan, Estados Unidos, 2007
    Direção: ANG LEE
    Roteiro: JAMES SCHAMUS e HUI-LING WANG baseado em conto de EILEEN CHANG
    Fotografia: RODRIGO PRIETO
    Montagem: TIM SQUYRES
    Música: ALEXANDRE DESPLAT
    Elenco: TONY LEUNG, WEI TANG, JOAN CHEN, WANG LEEHON
    Duração: 157 minutos



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    [Aeternus:11563] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-15)


    - RE:Gallego on Ang Lee

    É na hora do amor que o ser humano se encontra mais vulnerável... Esta foi a primeira linha do texto do Gallego sobre o filme de desejo e perigo. Fiquei esperando ouvir mais, só que ele não voltou ao clima que parecia insinuar-se com este comecinho. O que é esse tal amor que, para Freud, era uma forma normal de insanidade passageira? Tema que vai e volta no Rohmer...

    Então, escapando do japones, volto ao tema. Hoje "Contos de Inverno", sugerindo uma peça de Shakespeare em que mortos ressucitam, e a realidade da ficção desaparece na ficção da irrealidade. Tem a mocinha tagarela, dominadora e seus seguidores, normalmente de rosto clássico e cabelo escuro desgrenhado e mau corte. Ela repete várias vezes a frase "sou ignorante" ou "não tenho cultura" ou "nem sei escrever certo" e representa um tipo popular simples, a cabeleireira apaixonada pelo cozinheiro e pronta para casar-se com o dono do salão (me fez pensar naquela série das cores, acho que a Delpy é a cabeleireira...) Um dos seus casos, no tema amizade-amor, é filósofo livresco e com ela se fascina porque encontra, como nos servos do Socrates, o esboço da teoria das reminiscências de Platão em plena operação a pulular na menina. O que é um deja-vu? Existe a alma? Como é um verdadeiro amor?  Gallego disse que não gostou muito deste filme em particular, mas devo estar me acostumando a esta imersão no Rohmer porque estou curtindo esta história. Ele transforma o espectador no filósofo-amador ou no ignorante que sabe sem saber o que sabe e não tem teoria alguma. Assim, a conversinha - sempre banal - vai insidiosamente revirando crenças abandonadas há muito e quase deixa de ser banal porque nos faz de cobaias. 


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    [Aeternus:11568] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-16)


    - RE:RE:Gallego on Ang Lee

    Jansy: discordo que eu não tenha voltado ao tema da exposição ao perigo na "hora do amor": o filme é todo desenvolvido a partir dessa premissa e tudo que eu escrevi tem a ver com isso; até mesmo narrei mais do que costumo fazer sobre o enredo para enfatizar o tema: o homem (sádico no sexo e certamente nas torturas que manda aplicar aos inimigos políticos) está em risco ao estabelecer um intenso envolvimento sexual com uma jovem "disfarçada" de mulher de empresário mas que pertence a um grupo político que quer matá-lo por ele ser colaboracionista com os invasores japoneses.

    A jovem que deveria executar sua sedução sobre o homem de modo frio, calculista e "profissional" estabelece uma sintonia sexual tão intensa com sua presa que talvez (ou não) esteja em risco de se deixar seduzir pelo que deveria ser objeto de sedução dela, traiçoeira porque visaria a morte do homem, mais do que tê-lo como conquista erótica. Ela está "fingindo" o envolvimento sexual com ele? Cheio de momentos de dor misturada às sensações eróticas? Ela está desprevenida ou prevenida? .

    Eu abri o texto com a frase como uma citação de memória de algo que Freud diz em uma discussão sobre a coexistência da morte no sexo e a "hora do amor" a que eu me referi seria a hora do sexo: amor na origem (como propõe Freud: "amor" É sexo - o resto é glacê sobre o bolo).
    Freud comenta como os animais (nós, inclusive) ficam(os) desprevenidos e desprotegidos durante a cópula. As seduções traiçoeiras de Dalila para descobrir o "segredo" da força de Sansão e, depois de saber que estava nos cabelos dele, cortá-los - e a de Judith da Bílblia que corta a cabeça do general inimigo dos judeus, Holofernes - ambas nos lembram sedução para castração (até mortal, como fazem as abelhas-rainhas, as fêmeas do louva-a-deus, as aranhas "viúvas negras"). O curioso é que quando Dalila faz o que faz para enfraquecer Sansão, ela é uma safada, mas Judith é uma heroína porque defende o mesmo povo que Dalila de certa forma atacava e ambos relatos sõ da mesma origem, a história mítica dos hebreus na antiguidade.
    Mata-Hari e outras espiãs transavam com "zangões" seduzidos para descobrir segredos políticos, militares, etc Também há quem  mate os homens que seduziem, tal como pretende de início a jovem personagem do filme "Desejo e Perigo". O filme é todo sobre este gancho de como estamos desprevenido, desprotegidos e vulneráveis na "hora do amor". Ele ficará desprevenido a ponto de os jovens atingirem sua meta? E a moça vai permanecer fiel ao seu grupo ao "entregar" o parceiro de "sexo selvagem" à morte? Ou ela ficou desprevenida ao sintonizar com as práticas sexuais do homem? Quem vai ficar mais vulnerável a partir do envolvimento sexual intenso? Um dos dois? Os dois? Nenhum dos dois?

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    [Aeternus:11569] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:Gallego on Ang Lee

    Eu vi o resto do texto, mas talvez não estivesse pensando neste Freud que diz que "amor é sexo" ( ou vice=versa) no sentido geral do termo "eros". Foi por isso que fiquei esperando ouvir mais...Erro meu, já vi tudo.

    E hoje tomei um chá de filmes e estou achando tudo parecido.
    Vi "Anjos e Demonios" (Tom Hanks, Ian McEwan) no cinema  - e um DVD com  "Charade" ( Audrey Hepburn e Cary Grant) e dava tudo na mesma. 

    Claro que havia visto "Charade" antes, mas não me recordava de nada exceto da surpresa com uma frase que parecia citação de "My Fair Lady" ( "on the street where you live") só que não era (conferi na época). Aventura e emoção aos montes. Correria, mistérios, identidades trocadas, mentiras. A vantagem está em que o filme visto no cinema tinha tela maior, som bem bacanão com todos os ribombares dramáticos ecoando pela sala e tínhamos a sensação de estar vendo esculturas de Bernini, o teto da capela Sistina, rituais católicos, manuscritos antigos.  Em "Charade" todos ambientes são meio chinfrim: até aquele magnífico hotel nos Alpes tinha uma balustrada toda cheia de manchas e mesinhas de bar.  Capricharam apenas no guarda-roupa da Audrey.


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    [Aeternus:11570] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

    Olá, Jansy: ainda não fui ver o filme dque deve ser uma espécie de "Código:Vaticano", a continuação (no cinema) de "Código Da Vinci". Embora o livro "Anjos e Demonios" tenha sido escrito e lançado antes do best-seller chatíssimo "DaVinci" que fez do gênero inaugurado por Umberto Eco em "O Nome da Rosa" (policial recheado de lances culturais - e cultos) uma chatice só. Mas o filme ainda era mais chato... Audrey Tatou já é chatinha desde a chatérrima Amélie Poulain e - embora eu não tenha a alergia de nosso Marcos Florião ao Tom Hanks - não posso dizer que o ator (e aquele cabelo - caraca! o que era aquele "penteado" que acharam que ficava bem no crânio de ovo do T. Hanks?!) estivesse nos seus melhores dias.

    Já "Charada" (vc vai dizer que é o "efeito Audrey" em mim) acho uma delícia de ver e rever, mesmo em dvd e mesmo sabendo o final da trama de leves (bem leves) traços pseudo-hitchcokianos - pois é bem mais uma taça de chamapagne que cria um "suspens(zinho)" por estar na beira de um aparador de mármore na sala de um apartamento de luxo no bairro chique Trocadéro. Nada de sombrias perversões hitchccokianas implícitas ou explícitas. Audrey recusou um papel em um projeto do gorducho, coisa que ele jamais perdoou, mas ela sabia como ele tratava os atores (que chava de "gado") e não quis fazer o papel de uma moça que seria estuprada. Ele jamais a perdoou. Azar o dele. Visconti também não perdoava a recusa dela para o papel que ficou com Silvana Mangano em "Violência e Paixão". Ia ser um teremendo miscasting e a Mangano estava maravilhosamente decadente em uma personagemn que não caberia bem para a leptossomática Audrey. Audrey como amante do Helmut Berger e mãe de filhos incestuosos? Visconti ia cometer o maior erro da carreira dele...

    Mas a menção a "The street where you live" em "Charada" é intencional: já se sabia que logo em seguida ela iria filmar "My Fair Lady" que contém essa canção. Portanto a frase em "Charada" é uma "private joke", nem tão private assim.
    A trilha sonora do Henry Mancini é das melhores incluindo um quarteto de cordas na cena de velório do maridão da personagem de Audrey, a canção-título é fantástica e a rumbinha que toca na "dança da laranja", uma delícia, asim como a da cena no Bateau Mouche - e o filme ainda tinha presenças de atores que iriam se destacar masi adiante como protagonistas, mas na época ainda eram coadjuvantes (de luxo): Walter Matthau e James Coburn, além de um assustador-gaiato-de-humor-negro George Kennedy com mão (garra mecânica) de ferro.

    Mas é óbvio que o "efeito Audrey" existe em "Charada", mas não só para mim: sem ela, a personagem seria uma tola-tonta-boboca com a periquita acesa e nada mais. As roupas que você elogia eram do pareceiro da atriz em alta costura, o Givenchy. A parceria dela com Cary Grant é ótima e ela parece estar se divertindo muito ao atender as exigências do ator para aceitar fazer o filme: ele se achava muito velho para contracenar com ela (na época com 35 de idade, mas sem dar pinta). Já havíamos perdido a oportunidade de vê-los juntos dez anos antes em "Sabrina", cujo papel que acabou com um chato Humphrey Bogart, foi oferecido a Cary Grant que declinou , já na época se achando "velho" para Audrey - que em 1854 tinha mesmo ares pouco mais do que pubescentes. Mas como os produtores só arrumavam pareceiros "paternais" para a atriz (Henry Fonda em "Guerra e Paz", Fred Astaire em "Cinderela de Paris", o Bogart mesmo de "Sabrina", etc etc) Cary Grant cedeu DESDE QUE o personagem dele não assediasse tanto a moça vivida pela Hepburn. Sendo asim, no filme, a personagem dela (que está recém-viúva) é quem aparece doidinha para dar em cima do personagem dele, toda oferecida mas sem grossuras, cheia de bom-humor do tipo senual-light. O ator tinha medo de uma "imagem" de velho gagá dando em cima de mulheres jovens. Que pudor estranho para os dias de hoje... e ele tinha apenas 59 anos em 1964 quando o filme foi feito e estava começando a abandonar o cinema (só fez mais dois em seguida, o último em '66). Mais estranho ainda: um ano depois ele iria se casar (pela quarta e penúltima vez) com Dyan Cannon que nascera em 1937. Ele era de 1904. Façam as contas. A questão do ator era só a imagem em cena? Na vida real, arrumou uma mulher 35 anos mais nova. Já viviam juntos quando ele filmou "Charada" mas o casamento oficial não durou nem 3 anos: a D. Cannon dizia que o elegante galã formal (com ares "caretas") usava ácido e induzia a mulher a usar, mas ela só tinha bad trips. Nenhum casamento dele durou mais de quatro anos. Dizem que ele tinha um caso com o ator de filmes de western Randolph Scott. Em resumo, ele estava certo quando em uma entrevista o repórter disse que todo homem gostaria de ser Cary Grant: Archibald Alexander Leach (seu nome real) respondeu na bucha: "Eu também".

    Já o "amor" não só sexo fica para outra resposta.


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    [Aeternus:11571] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE: amor

    Estamos desprevenidos "na hora do amor" (leia-se cópula)? Não só: o estado de apaixonamento também nos deixa vulneráveis em geral, só pensamos na pessoa que é objeto de amor, sexual e /ou idealizado-platônico mesmo quando não se está "no ato".
    Jansy lembrou que Freud chamava o estado amoroso de "insanidade passageria". Os neurocientistas dizem que tudo de bom no estado de enamoramento é fruto da liberação de endorfinas que dão substrato químico à sensação de prazer e recompensa agradável, algo parecido ao que se consegue com uso de substâncias exógenas que dão barato de paraísos (artificiais).

    Ontem tivemos uma exceloente noitada na Sociedade Brasil. de Psicanálise do RJ a partir do filme "Carta de uma Desconhecida", de Max Ophuls, filmado em 1948 nos EUA a partir de um conto de 26 páginas do Stefan Zwig escrito em 1922. A roteirista e crítica de cinema Susana Schild e a Prof. Emérita da UnBrasília Barbara Freitag comentaram filme-e-conto, suas diferenças e aproximações, o que pode parecer "sonho" hollywwodiano mas é pesadelo vienense.

    A personagem central se apaixona por um homem que jamais a reconhece: ela foi sua vizinha quando não passava de uma adolescente, apaixonada à distância pelo Don Juan de belle-époque que é o escritor (no conto) ou pianista (no filme).  Moça feita, tem uma única noite de amor (sexo) com ele depois de restaurantes, chamapagnes, dança, enfim, tudo que um galante Don Juan fazia como parte da sensação de conquista (quando ela já estava "conquistada" por moto próprio). Ele some da vida dela, ela se descobre grávida e tem um filho que cuida sozinha. Nunca o procura, mas não pode vê-lo que a fissura volta - como uma dependente química?
    No filme, graças a um casamento de oportunidade com um homem mais velho, generoso que quer que o filho dela com outro homem o chame de "pai", sustenta o filho. No conto ela se prostiui mesmo (mas Hollywood não faria isso jamais com a Joan Fontaine e seu rosto - na época angelical - prá quem não lembra ela esteve em "Rebecca" e "Suspeita" de Hitchcock.).
    O final é trágico: uma segunda noite de amor (sexo) acontece no livro mas não no filme, entretanto, seja como for, ela percebe - antes de ter sexo, dessitindo - ou depois de uma segunda transa - que ele trepa com ela sem reconhecê-la jamais: a adolescente vizinha de 13 anos antes, a mocinha com quem transou 9 anos antes e a mulher que ele leva para casa no final do livro e do filme seriam mulheres diferentes para ele que diz talvez achar que já a viu antes... mais nada. Para ele, as mulheres mal têm rosto identificável. A carta é de uma "não-reconhecida" em vez de "apenas" uma "desconhecida".
    Barbara Frietag, dominando o alemão, comenta os termos compostos de outros usados na língua germãnica e as conotações bivalentes sugeridas pela escolha desta e não de outra palavra no texto de Stefan Zweig e sua fla aumentou a impressão que o suposto "amor" dessa moça por aquele homem era produto da estrutura dela narcisista-carente, histeriforme e masoquista cuja carta é sádica para destruir o homem (narcisista-indiferente) que ela amou (?). Ele se pergunta se ela escrevu mesmo para ele ou para um "homem de sonho".
    No filme, ele se comove e sai para um duelo para o qual havia sido desafiado e no qual certamente morrerá como expiação de culpa por não ter ligado para a mulher que tanto o amou (?). O desafiante é o marido que ela abandonou por uma segunda noite de amor com o pianista.
    Inverossímil para um Don Juan que "nunca te amei nem nunca te vi direito". Mas necessa´rio para a idealização do tal "amor romântico" que Hollywood tentava vender como clichê pequeno-burguês. Já os filmes de Ophuls logo seguintes, na França, são mais ostensivamente cínicos: "La Ronde", baseado em Arthur Schnitzler que Freud chamava de sue "duplo" na literatura, desvelando as mesmas coisas que ele (Freud) desvendava em psicanálise, mostra dez encontros amorosos (sexuais) de dez casais onde um dos participantes do ato anterior está com outra parceria no encontro seguinte. assim, de uma prostituta e um soldado, teremos o soldado e a criadinha, a criadinha e o filho do patrão, este rapaz e uma mulher casada, a casada e seu marido, o marido e uma costureirinha, a costureirinha e um poeta, o poeta e  uma atriz-estrela de teatro, a atriz e um conde, o conde...e a mesma prostituta do início. O amor (sexo) atravessando barreiras sociais e o desejo - melhor seria dizer pulsão ou instinto? - indiferente ao objeto no qual busca encontrar satisfação: pode ser um ou outro, o que importa é a satisfação da tensão sexual. Schnitzler. Ou Freud em "Instintos e suas vicissitudes" também traduzido como "As pulsões e os caminhos das pulsões".
    Mas em "Carta de uma Desconhecida" o que chama a atenção é que a "criação" de "amor" na cabeça da moça é uma construção narcisista, carente, histérica e que, pela recusa da mulher em se dar a conhecer (ela quer ser lembrada por ele, percebida por ele sem se mostrar, a carente que é; sem tentar conquistá-lo, mas querendo que ele a deseje afetuosamente... quando ele quer apenas um prazer aqui e outro ali) e lembra o aforismo winnicottiano sobre a brincadeira das crianças quando se escondem dos pais: esconder-se é uma delícia, não ser encontrado é uma tragédia.

    A personagem de "Carta de uma desconhecida" passa ao ato ao abandonar marido e filho por uma segunda noite com aquele "homem de sonho". Coisa que a personagem Albertine da "Traumnovelle" de Schnitzler apenas devaneia (mas confessa ao marido). No filme de Kubrick extraído da "Traumnovelle" (De Olhos bem fechados" que vamos debater sexta que vem com o Rouanet) a personagem se chama Alice (a do país das maravilhas? dos sonhos nem sempre maravilhosos? ou sim?) e é vivida pela Nicole Kidman. Conta para o marido sobre um determinado homem que ela viu UMA vez e olhou para ela significaticamente, que se este homem pedisse... ela dava! Sem se importar com o marido e a filhinha de 6 anos. Largava tudo por um desejo sexual a ser realizado. Por sorte (?) o tal homem nunca mais foi visto. Mas ao mesmo tempo, ela acrescenta, sentia uma enorme ternura pelo marido... Afinal, o que querem as mulheres? - perguntou Freud. Talvez ele não quisesse admitir que querem o mesmo que os homens querem e sempre lhes foi facultado: poligamia/poliandria. Amor? é ferida que dói e não se sente? Mas como pode doer em tantos casos... mas será amor tal associação com dor romântica? Ou tudo que for amor "psíquico" não passa de construções transferenciais, irrealistas deliróides?

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    [Aeternus:11572] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:errata on Audrey

    onde se leu "Audrey - que em 1854 tinha mesmo ares pouco mais do que pubescentes" leia-se obviamente 1954.
    Onde seu leu "senual light" leia-se sensual light

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    [Aeternus:11573] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

    Quando escrevi ontem, madrugava. Vamos ver se consigo me concentrar diferente agora. Aliás, Gallego, deve ser o ano da Audrey porque na livraria "Cultura" tem caixas de DVD com ela, montes de livros e uma biografia que tive que lutar para não comprar para você porque o livro era atraente, quadradinho, luminoso. Deve ter a venda no Rio.

    Não me cativo pela Audrey ( só a voz dela, profunda, cheia de harmonicos). Em "Charade" seu pescoço revelava os 35 anos, mas nem é isso que importa ou deixa de importar, ou ela ser mais elegante do que "gostosa". Conheci uma moça muito feiosa que cativava homens enfileiradinhos atrás dela. E Audrey não é feiosa e o sorriso é radioso... Esta tal moça devia ser um exemplo do que Freud escreveu sobre o homem que desiste do narcisismo e se cativa pelas narcísicas para vive-lo através delas: era feito gato dengoso, enroscativo e demandante. Ela caminhava com erotismo até nos dedos dos pés para sentir o fofo dos tapetes e gemendo com almofadas macias. As mãos pousavam nos objetos como se fosse um Rei Midas do trivial. Aspirava rosas, despetalava as flores, revirava os olhos. Pois é. Vai ver que a Audrey sugere uma coisa semelhante? Como vou saber... Os lábios da Angelina Jolie me repugnam como duas lagartas inchadas no ponto de explodir em borboleta. E a Johanson está chegando perto, com uma vulgaridade impar na escolha das roupas mais horrorosas do planeta. Meio difícil dizer quais atrizes me "chamam". O primeiro nome que me vem é o da Mrs.Robinson/Ann Sullivan ( casada com Mel Brooks, surpreedentemente) e tipos mais antigos, como Ava Gardner. Muita coisa depende da personagem. Sei lá.

    "Charade" (e a música é deliciosa, Henri Mancini no mais saltitante inspirado) tem momentos antológicos, como você enumerou. A dança da laranja é um dos pontos altos, ou colocar o foco nos amantes à beira do rio Sena, ou a sequencia comédia do velório. A artificialidade dos cenários e dos recortes é um ponto a favor, cria aquele distanciamento a la Hitchcock em que sabemos todo tempo que estamos vendo um filme e a suspensão da descrença se dá apenas parcialmente, como quando nos emocionamos jogando "banco imobiliário". Deve ser algo explicável pela teoria da Gestalt:queremos ver o padrão e acompanhar os encaixes.  A diversão dos atores, que dava pra sentir, é outro ponto alto. Achei que a citação ao My Fair Lady era equivocada porque comparei as datas, não sabia que todos sabiam que o filme era um dos próximos: tinha até uma cena no mercado, só que não era das flores e tinha um açougue.

    O filme "Anjos e Demonios" tem o mesmo tipo de inverossemelhança. Cenas ótimas, com Tom Hanks suspirando ao ter acesso aos arquivos do Vaticano como se chegasse perto de um altar; entrar numa fria e fazer um comentário quase indiferente; tentar quebrar um vidro com uma estante de ferro. O desempenho do McEwan como camerlengo do papa deixava a desejar, mas ele se recupera bem nas cenas finais quando é chamado para a sala do conclave na Sistina. O cenário com anti-matéria e helicóptero é belíssimo. A música vibra nas entranhas como as bombas no filme Pearl Harbor. São quase tres horas de projeção e a gente não se cansa por um segundo, mas não pensa, não sente muito e só fica atento com os musculos quase doendo como em show de acrobacia ou final de campeonato de volei. De tudo o menos convincente no clima da ficção é o assassino dos Illuminati. O mais inquietante é acompanhar a pompa vazia dos rituais de ouro e cetim dos cardeais elegendo papas com direito aos selos, sinetes e correntes. Haja circumstancia. McEwan está legal também quando, dada a ambiguidade do seu papel de não ser senão camareiro e ter os poderes do papa enquanto o Vaticano está sem ocupante na cadeira ( Sede Vacante ), ele ora se afirma, ora se curva e sai com jeitinho de subalterno. É um filme de obsessivo pra obsessivo.

    Cary Grant... como pode ter feito sucesso um tipo assim? ( que tipo tinha ele?) Tenho certeza que ele se importava acima de tudo com a imagem ao recusar papéis de papa-anjos. Hitchcock, nos filminhos breves que ele apresenta e que aparecem num canal de teve todos os sábados, é ridículo. Deve ter feito a maioria para ganhar dinheiro. Tem um que gosto muito, do cara que tenta matar a esposa para colecionar o seguro e puxa o tapete na hora errada, e ela cai na hora errada.


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    [Aeternus:11574] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE: amor

    Tem rasgão, não pensei no amor-cópula associado ao estarmos indefesos. Não seria novidade, faz parte...Foi quanto ao resto que a coisa me tocou: tudo que envolve a conjunção, antes e depois. 

    Você emprega um bocado de teoria psicanalítica para avaliar romances. Fica feito um plástico para a gente não pegar direto na pele da história do Stephan Zweig ou do Schnitzler, naquele clima da Viena decadente... Interessante pensar que só conheço relatos de sociedade e arte neste período de fermentação nazista a partir de judeus vienenses (Zweig,Schnitzler,Freud, Mahler, Wittgenstein...não sei se Klimt? Thomas Mann defendia os judeus, mas não sei se era como mostrado num filme) e o inquietante doloroso livro sobre Zweig do Alberto Dines ("Morte no Paraíso"), ou dos esquisitos (feito Schubert e os meninos cantores, ou Mozart na corte imperial).

    Tem coisas que nos afetam por caminhos sutis e outros,nem tanto. Meu pai colecionava selos e às vezes me deixava brincar com alguns. Havia as águias de "Österreich" ( Austria, mas me lembrava a páscoa, que tem a mesma origem quanto à referencia ao "leste", referencial do nascente do sol ) e os selos tinham dourados e negrores fulgurantes. Meu pai fazia um muxoxo quando eu os admirava, e eu captava algo como "são alemães sem serem alemães, são anexados, derrotados, arcaicos"   Mas havia uma admiração oculta no tom de voz dele, e um desalento.  O outro efeito vinha das canções de natal, muitas eram austríacas e elogiavam os brinquedos com armas para guerra daquela época: tambores, bandeiras, cavalos amestrados, espadas, rifles. 

    Amor, como dizia Freud, faz resistencia ao Amor.


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    [Aeternus:11575] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE: amor

    adendo muito limitado: 

    Para os americanos e ingleses, Poe falava de um clima romantico exacerbado com os dentinhos da Beatriz e a morte de Annabel Lee, mais os corvos do nunca-mais. Para os germanicos, havia E.T.Hoffman e bonecas mecanicas que pareciam gente, homens da areia e vendedores de olhos (Freud tem estudos belíssimos sobre o Unheimlich) e, claro, Jensen ( da "Gradiva" freudiana) e a busca de um jardim mais além (às vezes localizado em castelos floridos na Itália, mas sem o povo italiano, ou um ou outro aristocrata veneziano). Entre os franceses, acho que havia o que escreveu o original do "Fantasma da Opera" e outro, do "Le Grand Meaulnes", mais Victor Hugo, claro. E os grandes teóricos do romantismo, franceses, descrevendo as harpas eólias, as rendas e lamparinas, céus escuros vistos dos penhascos, florezinhas, Schumann...(esqueci os nomes, lia na adolescência)   


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    [Aeternus:11576] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

    A voz da Audrey Hepburn que Jansy destaca é louvada em uma bela edição do CD com a trilha sonora de "Funny Face", o filme de roteiro tão boboca quanto as imagens podem ser deslumbrantes (às vezes), o aqui cahamado de "Cinderela de Paris". Neste CD o sujeito escreve sobre Gershwin (as músicas 'S Wonderful, Funny Face e outras são de Gershwin) e conta que as canções eram de um musical de 1920 e tantos com um enredo completamente diferente do que fizeram para o filme, e tal e coisa. Comenta os amarelos do chapéu da Audrey na cena da livraria em que ela trabalha, do rosa-choque (pink) na cena da revista feminina, dos verdes na cena final, enfim, o filme é considerado um marco no uso das cores nos anos 1950 e meios. Fotografodo pelo Richard Avedon que na época era um fotógrafo super conceituado e que fez a bela foto do rosto da atriz sem ass linhas de moldura do rosto: só olhos, nariz e lábios em fundo rosa. Uma coisa.
    Mas ele fala, acima de tudo, de quando era molequinho de seus 10, 11 anos e inventou um jornalzinho escolar com um colega só para tentar uma entrevista com Audrey no auge do sucesso de lançamento: Oscar por "A Princesa e o Plebeu" e prêmio Tony de atriz (o equivalente ao Oscar do teatro em NY) por "Ondine", peça de Anouhil que ela montou com o então marido Mel Ferrer. O sujeito conta que lá foi ele e o amigo para a porta de saída dos atores para pedir uma entrevista com a estrela em ascenção ou já nos "píncaros da glória" (êta expresão cafona!). Obviamente o porteiro barrava todo mundo (caçadores de autógrafo, fãs malucos, etc) e inclusive os meninos, mas um dia em que ela viu os moleques autorizou que entrassem rapidinho pois ela estava no intervalo entre os atos. Mandou que voltassem no final do espetáculo e daria a entrevista convidando-os para um refrigerante no bar em frente. Enquanto isso, casais novaiorquinos bem-vestidos e pretensiosos, mas estranhos à atriz eram barrados e ficavam indignados. Como ela recebia uns garotos mal vestidos e não atendia fãs da elite? Mas ele diz que não se lembra de nada do que ela falaou e a entrevista nunca saiu: só se lembrava do timbre de voz dela.
    Não sei se o pescoço que Modigliani pediu a Deus para suas modelos denunciava os 35 anos em "Charada" e muito menos os 36 ou 37 da atriz como a jovem Eliza Doolitle (na peça de Shaw a personagem teria seus 19 anos) e depois dama fake no baile. O barraco sobre a dublagem a que ela foi obrigada a se submeter em My Fair Lady a deixou muito irritada a princípio, mas seria mesmo necesária em canções mais exigentes de agudos como "I could have danced all Night" ou "Without You", mas mesmo que ela não dê conta de todas as notas em "Show me", a autenticidade da voz e a interpretação acabam melhor do que quando dublada (e foi bem dublada, diga-se). No DVD comemorativo cheio de extras, temos esta canção Show me e a deliciosa "Wouldn't it be Loverly" em cenas extras ainda com a voz da atriz em vez de dublada. Por que dublaram quase todas as canções? Só deixaram um trecho incial de "Just you wait 'enry 'iggins" na voz dela...
    Sem pretensão, "Moon River" quase declamado e sussurrado com ela em "Bonequinha de Luxo" é mais "Moon River". E ela se defende satisfatoriamente nas canções de "Funny Face" mesmo sem ser cantora.
    Quanto a ser o ano dela, Jansy, eu não sei, mas de fato ela faria 80 se viva fosse agora em maio, soube porque me disseram quando me pediram uma entrevista sobre ela para uma rádio do sul. O repórter me contou que ela havia sido escolhida em 2006 como o rosto mais bonito do século XX. Acho que faz sentido. O semblante meio dolorido da Juliette Binoche mexe comigo, a beleza clássica das louras Grace Kelly e Catherine Deneuve também. Outras pegam mais pela sensualidade mais ou menos expllícitas. Mas esotu falando de rostos. E durante uns dez anos, não sei se o século XX, mas o cinema, não teve rosto tão bonito mesmo. E como eu era magrelo, ia lá sonhar com as boazudas tipo violão como Sofia Loren ou Claudia Cardinale (outro rosto fantástico)? Com a magricela Audrey já dava para pensar em uma entrevista se eu  morasse em NY. Quem sabe ainda ganhava um refirgerante no bar em frente !!!!

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    [Aeternus:11577] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: amor e dentes

    Jansy, só uma correção: os dentinhos eram de Berenice e não de Beatriz no conto sinistro e necrofílico de Poe.
    Poe tb gostava de meinininhas como Dante gostava de Beatriz.
    A de Poe (vc acertou) foi Annabel Lee. E a de H.H. também...

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    [Aeternus:11578] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE: amor e dentes

    Falou e disse, os dentes eram os da Berenice ( e revisitados no "O Inquilino" de Polanski). Poe casou-se com uma prima, ainda menina (uns treze anos) e quando perguntaram ao Nabokov sobre algum episódio que ele gostaria de ter testemunhado ele escolheu: "ser convidado no casamento de Poe"

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    [Aeternus:11579] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:Gallego on Audrey

    É isso aí (cantado pela Simone?), Gallego. Dizem que o olhar é o tato à distancia. Deve ser legal brincar de escorrega no pescoço de cisne da Audrey e lamber os amarelos do seu chapéu. Há pouco percebi que a palavra "entretenimento" ( entertainment ) remete a uma dimensão que tem a magia do fetiche: o vazio entre algo criando uma suspensão, um susto, uma promessa.

    Uma nanocronica na primeira pessoa:

    Lendo os romances de José de Alencar ou da Madame Delly ficava sempre frustrada porque não tinha grandes olhos negros.  Os meus eram meio indefinidos e pequenos, sem dourados e profundezas. Mesmo assim, consegui ser invejada pelas coleguinhas no ginasial, só por causa de umas palavras bem aplicadas numa aula de frances, quando ainda estudávamos espanhol, ingles, frances e latim nas escolas, além da língua portuguesa (só colocavam "língua" antes da portuguesa). Nosso professor explicou o uso de  "ne..que" (só) e "tantot...tantot" (ora isso, ora aquilo) e pediu que fizéssemos frases como exemplos ilustrativos. Compus:"Je ne sais que ça: mes yeux sont tantot bleus tanto verts, jamais noires"
    E, descompromissada, vi coleguinhas lindas com olhos brilhando de cobiça por causa da minha frase!

    Outra nanocronica, pensando em "Anjos e Demonios":

    Visitei Roma uma vez, apenas. Fui comer bochecha de bezerro no restaurante do Fellini para ver a dona, com grandes brincos de esmeralda repuxando o orifício das orelhas e um guardanapo com o qual chicoteava os garçons. Fui comprar quinze tipos diferentes de alface numa feira em Trastevere e lavá-los numa fonte natural que corria da torneira da pia na casa do psicanalista Armando Ferrari, e comer salada com mozzarella, acompanhada de vinho branco, olhando os telhados e terraços rosados, enquanto sinos repicavam de todos os quatro cantos da cidade. Visitei várias pequenas capelas ( Ferrari foi crítico de arte antes de escolher a psicanálise) atrás das telas de Caravaggio, fui deixada durante horas no Museu Etrusco e para ver afrescos de Giotto num convento. Fui ao Coliseu à noite, a esposa do Ferrari elegantésima numa manta bordeau de veludo com capuz, entre gatos gigantes começando a caçar entre as pedras. De dia, as Termas de Caracala.

    O casal recusou-se a me acompanhar ao Vaticano, mesmo quando era o dia da posse do Papa João Paulo I. Fui caminhando do apartamento deles até a praça São Pedro, vendo as noivas que combinaram o casamento pelas várias capelas do percurso coincidindo com a hora da consacração papal. Estava presente em cenas como as que foram filmadas no filme "Anjos e Demonios", comprei selos comemorativos ( "Sede Vacante" e "Habemus Papam") com carimbo do dia. Não expulsei os vendilhões do templo e tropecei nos fios da mídia. Uma bela festa, sem ameaças terroristas nem "shoperos"(sei lá como se escreve "greve", tinha delas todos os dias e de todo tipo). Dois dias antes eu havia ido à capela Sistina, que não me impressionou (prefiro ver os closes fotográficos), visto a Pietá de Michelangelo e o Moisés, talvez. Gostei mais de andar pelos corredores de madeira encerada vendo os instrumentos para medir os astros e montar calendários, dos espaços entre o chão e as abóbadas com luz infiltrada e uma escadaria (projeto de um antigo importante, não era Vesalius) na qual quem subia não se encontrava com quem descia. Apesar de tudo, não gostei de Roma ou do Vaticano. Roma era uma cidade maníaca, montada em cima dos gemidos que eu quase ouvia. 

     

     


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    [Aeternus:11580] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-16)


    -

    Mandaram essa gracinha de novo e gostei de rever. Está no nosso contexto...

    Prova escolar (coleção de um professor de ensino público):"Qual a função do apóstrofo?"

    resposta: apóstofros são os amigos de jesus que se juntaram naquela jantinha que Michelângelo fotografou.


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    [Aeternus:11582] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-05-17)


    - RE:Gallego on Ang Lee: Cinema:Tang Wei & Tony Leung

    Tang Wei lembra muito a jovem Natalie Wood no sorriso e no talento - a  forma de expressar, como se fossem uma coisa só, força e delicadeza.

    E Tony Leung: cada vez gosto mais dele.
     
    E o título daqui deveria ter respeitado a idéia original: "Cuidado: Desejo!"
     
    As trepadas:
    têm um significado imenso, o filme não existe sem elas.
     
    É LINDO!

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    [Aeternus:11583] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-17)


    - RE:RE:Gallego on Ang Lee: Cinema:Tang Wei & Tony Leung

    Omar escreveu: o título daqui deveria ter respeitado a idéia original: "Cuidado: Desejo!"  As trepadas: têm um significado imenso, o filme não existe sem elas.

    Agora a coisa começou a fazer sentido pra mim, na questão levantada pelo Gallego do amor físico/Eros.

    Em vez da história passada dos indivíduos, traidores ou conspiradores  até então, vemos o desabrochar de algo, que não se sabe onde vai dar dentro das convenções que estabelecem o próprio crivo para saber da traição, porque só tem lealdade para o aquiagora vivido. Retornar ao mundo antigo, depois disso, pode ser necessário, pode ser inevitável, mas não dá mais, tem uma morte nisso?



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    [Aeternus:11594] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-05-19)


    - RE:RE:RE:Gallego on Ang Lee: Cinema:Tang Wei & Tony Leung

    Precisamente!
    Cê pegou no ponto (como sempre), Jansyta!

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    [Aeternus:11595] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2009-05-19)


    - Lars Von Trier: nao vi e nao gostei

    Óia as declaracoes do infeliz. Ele que vá se tratar! Se faz dos espectadores seus terapeutas, a gente devia mandar a conta pra ele. Vocês acham que 200 dólares a hora pagam o sacrifício?
     
    =========
    Trechos tirados das matérias sobre o último de Lars Von Trier:
    Von Trier, que no ano 2000 saiu de Cannes com a Palma de Ouro por "Dançando no Escuro", explicou que o filme foi como uma terapia para ele, depois do colapso nervoso que sofreu dois anos atrás, e que considera o mais importante de sua carreira.
    "Eu não acho que deva uma explicação a ninguém. Fiz (o filme) para mim mesmo"
    Marc Bahud: "É fascinante, algo de total beleza", elogiou. "É muito, muito louco. Há algumas coisas muito difíceis. Mas é assim mesmo. É a exploração de uma alma torturada"
    Von Trier insiste que não é um misógino, e que apenas acha a sexualidade feminina "assustadora".

    http://cinema.uol.com.br/cannes/ultnot/2009/05/17/ult5900u60.jhtm
    17/05/2009 - 17h31
    Terror bíblico de Lars Von Trier recebe gargalhadas, aplausos e vaias em Cannes
    THIAGO STIVALETTI

    http://ultimosegundo.ig.com.br/cannes/2009/05/17/lars+von+trier+deixa+cannes+atonita+com+terror+anticristo+6175929.html
    Lars Von Trier deixa Cannes atônita com terror "Anticristo"

    http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/75/75/75/3906372.anticristo_cultura_179_418.jpg
    Protagonizado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, "Anticristo" chocou imprensa]
     
    http://ultimosegundo.ig.com.br/cannes/2009/05/18/eu+sou+o+melhor+cineasta+do+mundo+afirma+lars+von+trier+em+coletiva+de+cannes+6188915.html
    "Eu sou o melhor cineasta do mundo", afirma Lars Von Trier em coletiva de Cannes

    http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/87/87/87/3912396.lars_von_trier_cultura_296_419.jpg
    "Não preciso me justificar, faço filmes para mim mesmo", diz dinamarquês Lars Von Trier]

    http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/35/35/35/3916352.festival_de_cannes_cultura_325_216.jpg

    http://ultimosegundo.ig.com.br/cannes/2009/05/18/loucura+sexo+e+mutilacao+de+lars+von+trier+chocam+criticos+de+cannes+6191910.html
    Loucura, sexo e mutilação de Lars Von Trier chocam críticos de Cannes
     
    19 de maio de 2009
    http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090519/not_imp372986,0.php
    Von Trier põe Cannes para rir e vaiar
    Anti-Christ é filme difícil, de cenas chocantes, condizente com a seleção deste ano que aponta para um mundo em desordem
    Luiz Carlos Merten
    Se o objetivo de Lars Von Trier era provocar barulho com seu novo filme no 62º festival, bem, ele conseguiu. Anti-Christ foi vaiado nas duas sessões de imprensa no domingo à noite. A vaia, em si mesma, sinaliza para uma resposta negativa da plateia. Quem não vaiava estava rindo e essa última não é a reação esperada diante de um filme de horror, mas cinéfilo que se preze sabe que grandes filmes foram recebidos sob vaia aqui mesmo em Cannes, bastando lembrar A Aventura, de Michelangelo Antonioni, cuja versão restaurada é uma das atrações da seção Cannes Classics deste ano.
    Anti-Christ começa com uma cena de sexo explícito, com o detalhe de uma penetração. O casal que faz sexo é formado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Enquanto eles se divertem, seu filho está morrendo no quarto ao lado. É o prólogo de Anti-Christ. O restante do filme divide-se em três capítulos mais o epílogo. Os capítulos chamam-se Dor, Luto e Desespero, como os três mendigos que assombram as histórias infantis contadas pela personagem de Charlotte. Devastada pela dor, e pela culpa, a mulher inicia uma viagem alucinada. O marido resolve psicanalisá-la. A ação transfere-se da cidade para uma cabana na floresta, onde marido e mulher iniciam uma descida ao inferno.
    É como se Cenas de Um Casamento se cruzasse com A Bruxa de Blair, menos o elemento de mistério. O inferno, você sabe, desde Jean-Paul Sartre sempre foram os outros. Para Lars Von Trier, agora, é a natureza. Diversos signos - animais que se entredevoram, árvores que tombam - passam a expressar a desagregação física e moral do casamento.
    E se o Diabo, não o bom Deus, tivesse criado o homem? Talvez seja a tese embutida em Anti-Christ, cujo estilo dramático e visual está mais para Dogma do que para a suntuosidade cênica de Ondas do Destino. Tudo é psicanalisado e a corrida, ontem, à coletiva, foi grande porque quem não queria agredir o diretor esperava, pelo amor de Deus, que Lars Von Trier explicasse o filme e suas intenções. Anti-Christ não é um filme fácil, mas filmes fáceis não são exatamente o que se espera de um grande festival de cinema como Cannes. A experiência é desagradável, um circo de horrores que inclui a dilaceração do próprio clitóris por Charlotte e também um ataque violento da mulher ao pênis do marido. Os signos sexuais estão presentes o tempo todo, mas são signos de morte. O epílogo tenta abrir uma porta para a salvação, mas o pensamento estético e político de Von Trier desconcerta, mais do que provoca admiração.
    O festival toma um rumo estranho. A seleção organizada por Thierry Frémaux aponta para um mundo em desordem. Numa cena importante, uma raposa fala - se não fosse ela, teria de ser uma serpente - para dizer o que o espectador já intuiu. Reina o caos. A própria seleção está refletindo isso. Temos aqui, este ano, um gosto acentuado pela violência e pelo humor ?bizarro?, que faz os filmes ?cults?. Neste sentido, o final de semana foi tétrico na Croisette. Uma mulher é esquartejada em Kinatay, o novo filme do filipino Brillante Mendoza, cuja provocação não produz o mesmo respeito, em certas faixas da crítica, do que a de Lars Von Trier. A coreografia violenta de Vengeance, de Johnnie To - capa de Cahiers du Cinéma e único filme para o qual a revista deu cotação máxima, obra-prima, até agora -, pode ser eventualmente divertida, mas To fica na superfície do cinema de gênero, brincando de autor, e não atinge nem de longe a densidade que os grandes diretores de Hollywood conseguiram imprimir aos clássicos que ele emula.
    É um cinema que, no geral, fica na exterioridade dos signos. Mesmo Lars Von Trier, que quer ser mais profundo, não chega lá. O diretor, aliás, admite no dossiê de imprensa que escreveu esse roteiro num momento de impotência criativa e tem certeza de tê-lo feito abaixo de seu potencial intelectual. Já tivemos alguns bons filmes - Taking Woodstock, de Ang Lee; Bright Star, de Jane Campion; e, sobretudo, Un Prophète, de Jacques Audiard -, mas a seleção de Cannes em 2009 está apontando para um cinema da crise. Pode-se ver um espelho do mundo atual, mas, através do espelho, cada um pode projetar suas expectativas e desejos. Ainda bem que houve ontem Looking for Eric. Ken Loach é o único que parece não ter perdido sua fé na humanidade.


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    [Aeternus:11596] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-19)


    - RE:Lars Von Trier: nao vi e nao gostei

    Omar, você escreveu "não vi e não gostei" e só posso concordar, a partir dos pedaços sobre o filme do dinamarquês que você trouxe para a Lista. Contudo, seu cuidado de recortar várias URL e separar uma reportagem mais extensa, mostra que a leitura sobre Lars von Trier o afetou. Ganhando ou não duzentos dólares pela consulta, para não deixar a coisa dele grátis, acho que essa afetação indica que você também está devendo duzentinhos para ele para tratar deste incomodo...

    O legal é que ontem restabeleci o contato com um amigo da época em que vivi de bolsista nos EEUU (pelo AFS) depois de mais de quarenta anos sem notícias. Ele é dinamarques e viveu durante vinte anos numa comuna. E não sei o que isto significa! Temos a ilusão de que nos aproximamos de pessoas que culturas diferentes da nossa, talvez por causa da idéia universalizante por trás de movimentos como o bandeirantismo e o AFS - para ficar nos mais ingenuos - mas há uma brecha gigantesca dificultando senão impedindo os contatos. Recentemente impedi que tres longas e caprichadas mensagens para o site do Nabokov que escrevi fossem distribuidas. Preparei, citei, organizei, enviei para a editoria e em seguida, pedi que fossem deletadas. Não é que estivesse achando que jogava pérolas aos porcos porque, como a pomba do Fernando Pessoa, não se tratavam de pérolas, nem aquela turma constitui uma...vara.  Foi uma espécie de auto-preservação. Quando, num ambiente, a gente fica discursando sozinha só pode fazer um papel ridículo, independente da consistencia do que está sendo dito... Estou tristinha com isso, menos uma área de exercício, mas fazer o quê?

    Ontem, ainda, vi um filme esquisito que veio como brinde junto do que queria comprar, "Valmont". A produção é australiana e trata de um caso verídico acontecido em 1900 quando, num piquenique escolar, uma turma de moças vestidas de branco e lindas como ninfas, desapareceu num passeio pela montanha.  Não foram achados corpos, ou despojos. Elas, apenas, sumiram como se tivessem se evaporado.  Fim da notícia. E o filme, ruinzinho com atrizes amadoras, se desenrolava lentamente com longas pausas para olhar, posar, rodopiar, recitar poemas de Shakespeare ou compor quadros com moçoilas elegantes num "dejeuner sur l'herbe" sem gente desnuda.

    Contudo, miraculosamente, vi o filme inteirinho. Hoje, dada a quantidade de DVD que interrompo regularmente, é um milagre. Antes deste parei com uma história que devia ser ótima, com aquele ator Bobby ( do "O Homem que não estava lá", um caso antigo da Angelina Jolie), a neta do Henri Fonda, e outros nomes conhecidos: descrevia a tragetória de tres camponeses que encontraram um avião caído sob a neve com uma quantidade enorme de dinheiro, talvez do tráfico de drogas. E eles vão se corrompendo. Achei insuportável assistir.

    Daí que o filme "Piquenique na Montanha Misteriosa" deveria ter alguma qualidade? Sabíamos o final, o que nos prendia? Em miúdos, como nanocronica, seria "Era uma vez algumas vacas Vitória, cairam no buraco e acabou-se a história." Não havia flash-back, nem projeções para além do fato jornalístico. Mesmo assim, a contadora de caso (autora do livro, roteiro e diretora do filme) tinha talento para o empreendimento. Contar histórias é isso mesmo. Esticar o momento, nas palavras do Nabokov seria "tornar-se um epicuro da duração", fazer que dure algo que, de outro modo, seria inexpressivo, deslocado, perdido no mundo e sem que  o contar visasse incluir a coisa no mundo.

    Questões ficaram no ar. Do lado da mentalidade da época, vemos as suspeitas sobre se as moças que sumiram haviam sido raptadas e violentadas, se havia um misterioso tarado nas redondezas. Naquele ambiente inóspito, quase seco, com aquela unica erecção montanhosa a partir da lava de um vulcão, o povo desenvolvera uma  dura dureza, um realismo pãopão-queijoqueijo: as moças sumiram, isto acontece de vez em quando por aqui, pronto (neste ano li, no site do Terra, que uma menina australiana também sumiu durante um piquenique e suspeitaram que, cansada, deitou-se perto da margem do rio e um crocodilo a devorou: estavam fazendo testes de DNA nos conteúdos estomacais de um destes répteis que fora capturado logo em seguida...). Apenas um rapaz, romantico, se empenha na busca. Até os pais das meninas, morando na Inglaterra, não entram em cena com dores e gritos. Resumindo: gente desaparece.
    Outras pistas indicam conflitos homossexuais, chamamentos e mistérios astrais ( uma das meninas parecia-se com um anjo de Boticelli...) indicados a partir dos relógios, os da guia-matrona e do cocheiro, que misteriosamente pararam ao meio-dia. As meninas, recatadas, tiraram as meias e os sapatos ( mas não foram achados). Uma delas, a unica recuperada, perdeu o espartilho, mas estava "intacta" e sua roupa, abotoada como de costume. A professora que sumiu com as meninas, tirou a saia balão e a última notícia dela mostrava-a com um livro de álgebra na mão.

    Lars von Trier assombrou o Omar e meninas que somem no ar me assombrou. É um "fato da vida" que fica além da perda de quando se tem a morte com corpo presente. Os cuidados com soldados na guerra garantem a contabilidade que desfaz o anonimato, as histórias de detetive ( como Miss Smila e a Neve ) encontram arquivos e traços de quem esteve vivo um dia. Mas gente desaparece sem deixar traço e, em vários casos, ninguém da pela sua falta! Puxa. 

     


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    [Aeternus:11597] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-19)


    -

    Tenho recebido a cada dia um volume maior de "spam". Achei engraçado ver no site do Terra (gosto de ler a seção chamada "Popular") uma entrevista com Umberto Eco, impaciente com spams, sugerindo que se mande de volta para os emitentes arquivos pesados que entupam os computadores e Eco se deliciou imaginando edições online da Bíblia, ou tratados de Aristóteles e detalhando pontos a favor ou contra cada escolha. Fez cálculos também, sobre o tempo que se perde com spam e a energia que se vai, deduzindo que aumenta o buraco de ozonio.

    Gente some e Spam aparece. Tudo faz parte?


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    [Aeternus:11624] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-22)


    - Os Falsários

    O FALSO E O VERDADEIRO

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO no site www.criticos.com.br 
    22/5/2009

    Os Falsários aborda um incrível episódio - real - em que nazistas contaram com a colaboração forçada de prisioneiros judeus para falsificação de documentos, passaportes e, principalmente, dólares e libras esterlinas como parte da denominada “Operação Bernhard”. Além de socorrer as combalidas finanças da Alemanha no que já era o início da derrota nazista, um derrame de papel-moeda falso provocaria um abalo irremediável na economia dos aliados (e munidal) - e para isto, imprimiram, com perfeição, 135 milhões de libras, o equivalente ao triplo das reservas cambiais britânicas na época.

    O lançamento deste filme austríaco no Brasil somente em 2009, bem mais de um ano depois de ter recebido o Oscar de filme em língua não inglesa, talvez – involuntariamente – provoque alguma reflexão sobre tudo que também é falso no sistema financeiro norteamericano e mundial, atualmente em crise. Mas a intenção original parece ter sido mesmo a de abordar impasses éticos em situações-limite: judeus que, para não morrerem, colaboraram com projetos que atendiam a interesses nazistas. Em mais de um momento eles discutem entre si sobre a responsabilidade de seus atos e um deles argumenta que “ninguém morre por princípios” - ao que outro responde: “É por isso que o nazismo está vencendo”.

    E se a Alemanha hitlerista vencesse, certamente os que conheciam este projeto ultra-secreto seriam descartados. Mas até lá, diz Salomão Sorowitsch ("Sally") , considerado o maior falsário do mundo que havia sido preso inicialmente por falsificações, ainda em 1936, e posteriormente foi enviado para campos de concentração por ser judeu: “cada dia é um dia”. E ele luta para sobreviver cada dia: “e não vou dar aos nazistas o prazer de que eu vá sentir vergonha por estar vivo”.

    A vida que esse grupo de artistas plásticos, tipógrafos, desenhistas e técnicos em impressão levava era igualmente falsa: separados do restante do campo em que foram alojados, tinham acesso a banhos semanais, camas macias com lençóis limpos, mesa de pingue-pongue e discos – um verdadeiro spa “de luxo” em comparação com a realidade do restante do campo, o que vai permitir uma emocionante cena de confronto entre essas duas realidades onde uma é tão fake quanto as cédulas perfeitas que eles conseguem imprimir.

    Criar dificuldades (sabotando os trabalhos) para procrastinar os resultados (sem que isso fosse percebido como intencional ) podia ser uma forma de adiar suas sobrevidas em permanente corda-bamba: pois conseguindo as falsificações impossíveis de serem detectadas, poderiam se tornar dispensáveis e assassinados; mas não atingindo os objetivos, poderiam ser mortos "antes" por não conseguirem atender a proposta pela qual estavam com suas vidas provisoriamente preservadas. Bem que Luchino Visconti propunha (e mostrava) o nazi-fascismo como uma radicalização do capitalismo (lembrar Os Deuses Malditos): em Os Falsários, o que vemos é uma espécie de caricatura radical dos sistemas de trabalho capitalistas selvagens da atualidade, intolerantes com o não-cumprimento de metas nos desempenhos profissionais mais variados e sob enorme pressão.

    É interessante também observar o relacionamento do judeu-prisioneiro-falsário ‘Sally’ com o nazista que idealizou o projeto (no filme, renomeado como ‘Comandante Herzog’; na realidade, ele se chamava Bernhard Kruger, cujo prenome batizou a “operação”). Provavelmente em (bom) lance de ficção, o roteiro o caracteriza como outra fraude, um ex-policial que havia prendido Sally antes do nazismo atingir o ápice do poder e que lhe confessa que havia sido comunista anteriormente... mas depois, aderira ao nazismo ascendente; e acrescentando: “Chega de ideais, faço o que for preciso”. Este ‘Herzog’ teria criado uma espécie de “lista de Schindler” composta de falsários? Pretendia deixá-los vivos em caso de vitória alemã? A cena em que ele leva “Sally’ à sua própria casa e sua mulher de tipo bem “ariano” interroga o judeu como se estivesse se dirigindo a uma aberração, a um freak insólito de circo, é das melhores do filme.

    Enquanto outros suboficiais nazistas acusam esses judeus de “negociarem com tudo: até com a vida de outros judeus”, de modo bem diferente o personagem (real) Adolf Burger, que era tipógrafo, argumenta ideologicamente, defendendo que uma “impressão tem que imprimir a verdade”. Burger ainda está vivo e foi quem escreveu o livro que serviu de base ao roteiro do diretor Stefan Ruzowtzky, uma história verdadeira que passaria por inverossímil, falsa, se algum roteirista ousasse inventá-la. Como diz uma frase de divulgação do filme.

    Outro ponto de discussão ética é trazido pelo perfil desse mesmo Burger, que é apresentado no roteiro como o que mais posterga o sucesso rápido da empreitada, pois é dele, como tipógrafo, que dependem várias medidas técnicas na conclusão das falsificações - enquanto alguns temem que os prazos não-cumpridos precipitem a morte de todos. Um membro da ‘equipe”, isoladamente, teria direito de colocar os outros todos em risco mais imediato? Só que - diz ele - ajudando os nazistas, os riscos aumentariam para muito mais gente além daquele grupo (e provavelmente para eles também, é o que se supõe, a médio - ou nem tão longo - prazo, a partir do momento em que conseguissem as falsificações perfeitas).

    Temos ainda um exemplo de uma “ética” peculiar - a chamada “lei do silêncio” - quando ‘Sally’ se opõe a que os demais denunciem Burger aos alemães como sabotador intencional do projeto. Estaria ‘Sally’ seguindo tal “lei”, mafiosa e típica do corporativismo entre parceiros de crime que ignoram a legalidade? Ou talvez se trate de uma verdadeira solidariedade entre companheiros de infortúnio? No caso, judeus perseguidos e prisioneiros. Ou ainda: estabeleceu-se uma ambivalência moral em ‘Sally’? O que fica sugerido é que teria sido seu aspecto ilegal de criminoso por estelionato que permitia a esperança daquele grupo se salvar - ou pelo menos prorrogar suas vidas - pois ele é visto como o artista mais hábil e experiente em falsificações (o que também pode sugerir que em situações de exceção, o crime até que compensa. E isso é verdadeiro ou falso?).

    Fora dos cenários do período de guerra, a vida mostrada em cabarés berlinenses (antes) e em cassinos de Monte Carlo (depois) também remetem a algo falsificado, longe do que seria (e é) a realidade cotidiana.

    Sem maiores ousadias na direção, o filme pretende ser competente e accessível, apenas um pouco menos realizado nas cenas fora do flashback central que é onde se centra o mais importante do enredo ocupando quase toda a projeção. Fato ou ficção, intencional ou não, a atitude do personagem principal um pouco antes da última cena pode ser vista como atendendo a um certo tom moralista. A discutir.

    Os recursos de produção são bem utilizados, a câmera se mostra ágil quando é preciso, e o conjunto de desempenhos é ótimo, com maior destaque para Karl Markovics (‘Sally’) e Devid Striesow (‘Herzog’), cujos papéis têm mais oportunidades e que os dois atores aproveitam muito bem, sendo o herói (?) falsário quase nada “simpático” com sua mímica pouco variada, sisuda e/ou indiferente (com raras exceções); enquanto o nazista aparece sorridente, podendo sugerir que seria verdadeiro em suas promessas... mas sem que se tenha certeza disso.

    O uso diegético de uma famosa ária da ópera “Tosca” cantada em uma festividade que os nazistas encomendam aos prisioneiros é mais do adequado, já que – na ópera – também é cantada por um personagem que está injustamente preso e recebeu a promessa de que sua condenação seria falsa (execução com balas de festim)... quando falsa era esta promessa. Aliás, outras músicas usadas na trilha sonora funcionam muito bem, quase sempre tangos muito famosos em criativos arranjos minimalistas com variações sinuosas na linha melódica. Um bom equivalente sonoro das situações do roteiro.

    Ao contrário dos recentes Homem Bom que se mostrou frouxo, O Menino do Pijama Listado (pateticamente ridículo) e O Leitor (moralmente abjeto), Os Falsários consegue trazer à baila uma boa discussão ética. Melindrosa, porque envolve pessoas que foram elas mesmas vítimas do nazismo, mas bem conduzida e praticamente sem moralismo piegas.


    # OS FALSÁRIOS (DIE FÄLSCHER)
    Áustria/Alemanha, 2007
    Direção: STEFAN RUZOWITZKY
    Roteiro: STEFAN RUZOWITZKY, baseado no livro de Adolf Burger
    Fotografia: BENEDICT NEUENFELS
    Edição: BRITTA NAHLER
    Música: MARIUS RUHLAND
    Elenco: KARL MARKOVICS, AUGUST DIEHL, DEVID STRIESOW.
    Duração: 98 minutos
    Sites oficiais: http://www.thecounterfeitersfilm.com/ e http://www.sonyclassics.com/thecounterfeiters/main.html

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    [Aeternus:11627] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-05-22)


    - RE:Os Falsários

    Ler esta crítica me remeteu ao que andava sentindo no "Valmont" ( de resto, sem nada a ver com "Os Falsários") sobre o falso e o verdadeiro.

    Qual o motivo do atraso na distribuição deste filme? Hollywood, como mais forte que algum vaticano que tentou travar "Anjos e Demonios" sem conseguir, mas reduziu a vida do filme para crianças, "A Bussola de Ouro"? O capitalismo americano?  Muito estranho.

    Acredito que, se o livro era um tantinho autobiográfico (Burger), teria que dar uma margem para ele moralizar ou salvar a cara.

    Uma frase citada pelo Gallego: " um deles argumenta que “ninguém morre por princípios” - ao que outro responde: “É por isso que o nazismo está vencendo”.
    Não sei se existem pessoas que morrem para sustentarem alguma idéia - enquanto "civis"- mas soldado morre e, muitas vezes, a idéia nem é a dele.  Indo em outra direção, só pelo exercício, pessoas matam para defenderem uma idéia, mas são poucas. Na maioria das vezes é em auto-defesa. Particularmente, tentando ser franca, sou covarde e não morreria por uma idéia a sangue frio, como no filme, com cama macia e raquete de pingpong na mão. Mas, com um pouco de adrenalina e angústia, provavelmente optaria pela saída heróica.  A construção e ambientação mais complexa do filme impede maiores elocubrações (aliás, na mensagem anterior escrevi "segunda pessoa do plural" e queria dizer "primeira") ou identificações.

    Com a mistura certa de dopaminas é difícil sequer supor do que seriamos capazes. Quer dizer: o coquetel inato de serotoninas e adrenalina, entrando na resposta natural aos conflitos que escapam do campo mental, pode levar-nos a um rumo ético ou ao seu contrário. Se colocarmos outras drogas na mistura, então... o que ainda resta do "mental" desaparece totalmente, dado um contexto de exceção, como o da guerra. Nem precisamos pensar na coação material das tais "forças economicas"...
    Sabemos que quando a mentalidade grupal predomina o que acontece é semelhante ao efeito das drogas e perdemos capacidade para pensar como de costume. Quem conseguir se opor a tal força sugestiva está mais pro lado do perverso do que do homem "bom", mas tem mais chance de fazer algo socialmente novo e útil. Sinto falta da clareza de se pensar, como acontecia de vez em quando, a partir da fé na "alma humana". Mas a cada dia que passa desconfio que esta alminha existe porque, de outro modo, teríamos nos aniquilado há mais tempo.

    Estou falando por falar, a la Beckett, sem ter direito um rumo. É uma aflição ligada à aposta de que ainda temos uma saída livre e honrosa destas enrascadas todas. Que nem nos chegam de cara, olho no olho, como algum assaltante que entra em nossa casa e mata uma das nossas filhas de oito anos (a empregada acaba de me contar este caso sobre o qual viu a notícia há pouco) na frente de outra, sua gemea. 


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    [Aeternus:11628] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-22)


    - RE:RE:Os Falsários

    Concordo, Jansy: com dopamina, adrenalina, serotonina (endógenas ou não) e  álcool & similares excitantes exógenos nas veias e artérias, todos podemos ficar mais corajosos, destemidos, ousados, impulsivos... e talvez (muitas vezes) irresponsáveis sem heroísmo algum.
    Quanto ao atraso na distribuição do filme por aqui, não sei dizer porque.
    Receber o Oscar de melhor filme em língua-que-não-o-inglês pode fazer com que alguns filmes que não circulariam tanto mundo afora, ganhem distribuição ampla.
    O japonês que recebeu este Oscar em 2009 já está prestes a ser lançado no Rio, mas "A Vida dos Outros" demorou quase um ano para chegar ás telas brasileiras (mas eu vi em Buenos Aires já em final de carreira em julho de 2007, portanto por lá chegou rapidinho, logo depois da premiação que foi fevereiro ou março de 2007). Este "Falsários" é austríaco e foi premiuado em 2008, fevereiro ou março. Quando foi que vimos um filme austríaco recentemente? Não lembro.
    Mas o curioso é que está sendo lançado em "pré-estréia" (termo cujo conceito mudou muito). Antigamente era UMA sesão especial de pre´-lançamento, às vezes só para convidados - ou não.
    Agora o filme "pré-estréia" em uma ou duas salas, TODOS OS DIAS em sessões espaçadas do tipo uma ou duas por dia, uma à tarde e outra à noite (como se já estivesse em final de carreira). Isto para mim é lançamento "a meia-bomba". Dizem que é para espicaçar a curiosidade do público potencial e ganhar força no boca-a-boca dos apressados que forasm logo ver e o recomendam. Mas isso pode ser uma faca de dois legumes... Se o boca-a-boca for ruim... danou-se! Quanbdo entrar em sesões contímuas diárias vai ficar às moscas...
    Dizem que isso é só para filmes de pequeno público (circutinho "de arte") relativamente. Uma estratégia estranha...
    Mas talvez porque o filme mostre judeus em campos mas sem heroísmo, "aderindo" (forçadamente que seja) aos carrascos, auxiliando-os... O que é bem diferente dos filmes recentes que EXPLORARAM sem ética alguma a mortandade nazista em dramalhões patéticos, estranhos, masl resolvidos ou sem caráter mesmo.
    Aqui, a questão ética fica solapada por uma situação-limite do tipo "morre agora ou - talvez -morre também, mas daqui a pouco". Geralmente as pessoas (judeus, nazistas, árabes, capitalistas, comunistas, católicos, protestantes, negros, brancos, amarelos, vermelhos, argentinos, brasileiros, etc etc etc) tentam mesmo prorrogar a vidinha que é só umazinha.
    Mas raramente se falou do que a gente faz (judeus ou não-judeus) para sobreviver, ainda que precisando ceder ao agressor-carrasco. É dura a vida. Mas será que iso deixa o filme numa posição menos "heróica", mas realista e incômoda?
    Afinal o herói (?) é um falsário picareta, mas dis um a ótima frase: não vou dar aos nazistas o prazer de que eu vá sentir vergonha por estar vivo.
    Gallego

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    [Aeternus:11630] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-05-22)


    - RE:RE:RE:Os Falsários

    Gallego, pelo tom da sua mensagem você também aposta na "alma"! Afinal, defende a existencia de heroismo a sangue frio.

    Você escreveu: Aqui, a questão ética fica solapada por uma situação-limite do tipo "morre agora ou - talvez -morre também, mas daqui a pouco". Geralmente as pessoas (judeus, nazistas, árabes, capitalistas, comunistas, católicos, protestantes, negros, brancos, amarelos, vermelhos, argentinos, brasileiros, etc etc etc) tentam mesmo prorrogar a vidinha que é só umazinha. Mas raramente se falou do que a gente faz (judeus ou não-judeus) para sobreviver, ainda que precisando ceder ao agressor-carrasco. É dura a vida. Mas será que iso deixa o filme numa posição menos "heróica", mas realista e incômoda? Afinal o herói (?) é um falsário picareta, mas diz um a ótima frase: não vou dar aos nazistas o prazer de que eu vá sentir vergonha por estar vivo.

    Jansy: A frase de rebelião contra os nazistas ( não sentir vergonha por estar vivo) é uma racionalização. Afinal, que abstração é essa "dar prazer aos nazistas"? Dirige-se a qual instancia da mente? 



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    [Aeternus:11778] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-06-05)


    - Gallego promove colega crítica, conferir

     
    #UM HOMEM DE MORAL
    - Documentário brasileiro de 2008,  84 minutos
    Direção e Roteiro: RICARDO DIAS
    Fotografia: CARLOS EBERT Trilha sonora: ITALO PERÓN
    Elenco: PAULO VANZOLINI, CHICO BUARQUE, PAULINHO DA VIOLA, MIUCHA, INEZITA BARROSO, MÁRCIA, MARTINHO DA VILA, ELTON MEDEIROS.

    O COMPOSITOR DO BRASIL DOS QUAISQUER
    Um filme onde o importante é o prazer da trajetória, o respeito e o carinho pelo personagem.
    PATRICIA REBELLO

    Paulo Vanzolini é quase um sujeito qualquer. Desses pelos quais a gente passa desapercebido, diz bom dia de manhã ao cruzar na padaria e comenta que parece que hoje vai chover. Ele quase poderia ser o seu vizinho, quase poderia ser o avô gente boa do seu amigo, o sujeito que puxa papo na fila do banco. E porque parece esse tipo de gente do qual a gente não se dá conta, esse tipo invisível que atravessa nosso caminho todos os dias, consegue imprimir em suas composições estados de espírito quase impossíveis de descrever, de tão comuns. Levanta a mão quem nunca pegou emprestado para si um “De noite eu rondo a cidade / A te procurar sem encontrar...” ou um “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

    Aliás, só para conhecer a explicação destas músicas já vale a pena assistir o muito simpático Homem de Moral, de Ricardo Dias, que entra em cartaz na onda de biografias musicais que assola o documentário brasileiro. O filme registra as gravações da coletânea “Acerto de Contas”, em 2002, quando a obra de Vanzolini foi reunida e cantada por grandes nomes da música brasileira. Essas imagens e sons abrem espaço para a forma como Ricardo Dias chega a seu personagem: ele se concentra na genealogia das letras, nas fontes de inspiração, no olhar cuidadoso sobre as vidas pequenas, na atenção aos minúsculos episódios do cotidiano, nos passes e impasses da escrita melódica. É claro que Dias não chega a qualquer conclusão, nem desvenda o segredo da magia das músicas de Vanzolini. Mas, isso lá importa?, importa mesmo é o prazer na trajetória, o respeito e o carinho com que o filme trata o personagem.

    Um documentário musical por onde desfilam interpretações de artistas do porte de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Elton Medeiros precisa, no mínimo, de um grande protagonista pra não deixar a peteca cair quando a música pára. É na voz baixa, no jeito doce, no riso solto e nas explicações detalhadas de Paulo Vanzolini que o filme o encontra. Médico de formação, zoólogo com mais de cinquenta anos de laboratório, Vanzolini se define como um compositor de ocasião. Suas letras são produtos da observação minuciosa e do olhar atento que a profissão formou. E ele, tão tímido e encantador quanto os quatis e as ariranhas que estuda, leva o seu microscópio para a urbe paulista e debruça seu olhar sobre viadutos, pontes, auto-pistas, ruas lotadas, mercados populares e bares de esquina. E karaokês, é claro, dos quais “Ronda” é quase a melô oficial. Vanzolini escreve versos e faz rima com a cidade e seus habitantes.
    E é exatamente porque não quer dar conta de coisas complicadas como espírito ou essência, e sim dos problemas banais e imediatos do dia-a-dia, que São Paulo deve a ele precisamente a sua alma.

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    [Aeternus:11779] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-06-05)


    - Terminators & Bourne

    Entrei no clima dos filmes que nos ocupam gostosamente, sem exigir muito das emoções e do raciocínio. Ainda não fui ver o novo "Exterminador do Futuro", que estreia hoje, mas andei revendo os outros dois que tinha no arquivo, com Arnold Schwarznegger e Lina Hamilton. Interessada na promessa de "I'll be back" e na mistura de futuro com passado, numa circularidade paradoxal (porque alguém vem do futuro para alterar o passado que, deste futuro, vem o parceiro que irá fecundar a heroína e dar origem ao herói), como o relógio que passa das mãos da velha para o rapazola em "Algum lugar do passado."  Para dizer a verdade, não gosto muito deste tipo de fantasia porque ela quase bordeja a realidade, mas nem tanto e assim fico pendurada num espaço esquisito. Sobre o tema, ainda voto no Isaac Asimov, em seus vários contos e,principalmente, no livro "Nemesis" e "The End of Eternity."

    Quanto ao Bourne, nem sei quem elogiou aqui na lista que me deu vontade de conferir o Matt Damon. Já vi Identidade Bourne e a Supremacia Bourne, em DVD. Falta só o terceiro. Mais ficção do que qualquer exterminador ou superhomem, com corridas de automóvel e uma super-tecnologia americana ( que, como apresentada ali, não existe mesmo...haja comprovações, como os ataques terroristas a nova iorque e a bagunça da segurança). Gostei da abertura mediterranea do primeiro e da fotografia noturna, quebrada e brilhante no segundo: excepcional.    

    E, continuo com Baricco, Oceano Mar, com rompantes líricos às vezes excessivos, mas que depois se estabilizam e retornam à poesia, sem carnaval de sensações abstratas. Em um dado momento ele quase sugere algo que, nunca, tinha percebido antes. Que, aquele que está na praia olhando o mar, está à beira de um abismo!  E foi assim que ainda, abismada, acrescentei à imagem do homem que não é uma ilha...Ora, ilha não é destroço flutuando no mar, é pico de montanha, tem conexão com as outras ilhas, conexões abissais...  E Baricco descrevendo as fantasias sobre o mar, local demoníaco segundo St. Augustinho na citação dele, é magnífico.

    Bom fim de semana para todos.

     


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    [Aeternus:11780] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-06-06)


    - Clive Owen e Julia Roberts ride again

    Fui conferir o filme com a dupla... é daqueles que é narrado mais ou menos de trás pra frente e eu custei a pegar o fio. Na realidade, não faz muita diferença. A gente sai do cinema como entrou, mais vazio que o super Jason Bourne, mas bom entretenimento, pra quem está atras de ser entretido. Julia Roberts envelheceu, tem cenas em que anda feito pata-choca, mas continua charmosa.

    O ponto alto do filme está no começo, uma briga filmada em camera lenta e com uma música de fundo no mesmo espírito. Gosto dos dois atores, mas me esqueci como se chamam: Wilkins e um outro. Eta ingnorança.


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    [Aeternus:11812] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-06-14)


    -

    http://www.youtube.com/watch?v=3DVa2DKSnU0

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    [Aeternus:11941] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-13)


    - enviado pelo Gallego: Cinema e Psicanalise


    Curso: CINEMA & PSICANÁLISE
    (
    Cinema - O Prazer de Ver / Psicanálise: Imagens em Palavras.)
    - Inconsciente em Freud, Buñuel, Salvador Dalí;
    - Paranóia em Buñuel e Lacan;
    - Voyeurismo em Hitchcock e Buñuel;
    - Registro/Memória/Tempo Passado em Bioy Casares, Alain Robe-Grillet e Alain Resnais;
    - A Busca do Tempo Perdido em Proust, Alain Resnais e Orson Welles;
    - Freud segundo Sartre e John Huston.

    Local: O CRÂNIO
    Um espaço dedicado às pessoas interessadas em conhecimento, pensamentos e idéias.
    Desta forma, convidaremos sempre alguém interessante e com algo especial a propor. A dinâmica e a estrutura dos encontros serão ao redor de um tema.
    Venha fazer parte desta experiência onde todos nós seremos protagonistas.
    Rua PACHECO LEÃO, 94
    Terças (04/08, 11/08, 18/08 e 25/08) às 17hs
    R$ 250,00
    Tel.:
    3114 0171 ///
    9763 7444 /// 78318538

    Os encontros pretendem abordar a interface entre teorias psicanalíticas e a forma cinematográfica, através de uma reflexão sobre os conceitos básicos do pensamento freudiano em confronto com a linguagem que o cinema desenvolveu a partir do pensamento em imagens. Buñuel, Hitchcock, Alain Robe-Grillet, Orson Welles, Sartre, John Huston e Alain Renais.

    PRIMEIRO ENCONTRO
                                                  
    1) Origens históricas.
    - 1895: Nascimento do Cinema concomitante ao nascimento da Psicanálise.

    - Os primeiros filmes. Lumière e Meliés: da “chegada do trem na estação” à “viagem à Lua” sincronizadas.

     

                                                 2) O filme é um sonho coletivo?

        A teoria dos sonhos em Freud e a linguagem cinematográfica básica.

        Sonho, devaneio, fantasias.

        -Noções básicas da construção forma do sonho manifesto: condensações, deslocamentos, metáforas e metonímias; considerações de representabilidade visual na construção dos sonhos. Percepção. Representação: representação de coisa e representação de palavra.

        - Recursos tradicionais da sintaxe cinematográfica: fusão, corte, edição; montagem paralela. Idéias em imagens. Narrativa visual.

     

                                                  

    3) Leituras dos filmes

    - O espectador é um co-sonhador? O espectador é um intérprete-analista?

    - O filme é interpretado pelo - ou “interpreta” o – espectador-crítico- ensaísta?

    - Interferências da transferência e da contratransferência.

     

    SEGUNDO ENCONTRO

                                                   4) O Sonho é silencioso e o Cinema Silencioso também era.

    4-a)

    -1926: O primeiro "filme psicanalítico": Segredos de uma Alma” de Pabst. Uma história de encontros e  desencontros.

    -O “caso” do filme: Insatisfação de Freud com o Cinema (e com a Música).

    - Oposições entre Cinema e Psicanálise: O edifício da psicanálise foi construído sobre as ruínas do templo da imagem onírica?

      O cinema falado é o grande culpado? Ou o “tratamento pela palavra” não pode ser visualizado? - A sessão psicanalítica na tela: como a fala seria possível em imagens?

     

    4-b)

    - Surrrealismo e Psicanálise. O surrealismo de Buñuel e Dali: O Cão Andaluz.

    -O Desejo em Psicanálise e o “amour fou” no surrealismo: L’Âge d’Or.

     

                                                     5) O Inconsciente é representável na tela?
    -
    Buñuel e o charme discreto dos sonhos dentro dos sonhos.

    - Buñuel e a Paranóia: “O Alucinado” serve para Lacan dar aula sobre o tema.

    - Buñuel e o crime na fantasia: ‘ensaios de uns crimes’

     

    TERCEIRO ENCONTRO
                                                   
    6) A realidade psíquica é uma ficção?

    -A ficção é uma ficção? (E o documentário documenta?)
    -A ficção pode ser mais real do que o documentário?

     

                                                   7) - Hitchcock e o Voyeurismo: - da poltrona do cinema lançamos um olhar através da Janela Indiscreta que é a tela?

                                                        - Hitch: Necrofilia ou luto patológico em “Um Corpo que Cai”?

                                                        - Hitch à procura do “Trauma”: quando fala o coração de Marnie? Novamente Dalí.

     

    QUARTO ENCONTRO

                                                8) O cinema é a Invenção de Morel (romance de Bioy Casares)?

        Em busca do tempo perdido: do Rosebud de Orson Welles, até a Hiroshima e Mariembad de Alain Resnais.

     

                                               9) Freud representado no cinema: de Sartre a John Huston, de Anna Freud a Marylin Monroe – a histeria.

     

                                              Apêndice: o psicanalista na tela: de herói-detetive a criminoso mais ou menos abjeto – a mesma trajetória de Édipo?

    - Os primeiros filmes. Lumière e Meliés: da “chegada do trem na estação” à “viagem à Lua” sincronizadas.

     

                                                 2) O filme é um sonho coletivo?

        A teoria dos sonhos em Freud e a linguagem cinematográfica básica.

        Sonho, devaneio, fantasias.

        -Noções básicas da construção forma do sonho manifesto: condensações, deslocamentos, metáforas e metonímias; considerações de representabilidade visual na construção dos sonhos. Percepção. Representação: representação de coisa e representação de palavra.

        - Recursos tradicionais da sintaxe cinematográfica: fusão, corte, edição; montagem paralela. Idéias em imagens. Narrativa visual.

     

                                                  

    3) Leituras dos filmes

    - O espectador é um co-sonhador? O espectador é um intérprete-analista?

    - O filme é interpretado pelo - ou “interpreta” o – espectador-crítico- ensaísta?

    - Interferências da transferência e da contratransferência.

     

    SEGUNDO ENCONTRO

                                                   4) O Sonho é silencioso e o Cinema Silencioso também era.

    4-a)

    -1926: O primeiro "filme psicanalítico": Segredos de uma Alma” de Pabst. Uma história de encontros e  desencontros.

    -O “caso” do filme: Insatisfação de Freud com o Cinema (e com a Música).

    - Oposições entre Cinema e Psicanálise: O edifício da psicanálise foi construído sobre as ruínas do templo da imagem onírica?

      O cinema falado é o grande culpado? Ou o “tratamento pela palavra” não pode ser visualizado? - A sessão psicanalítica na tela: como a fala seria possível em imagens?

     

    4-b)

    - Surrrealismo e Psicanálise. O surrealismo de Buñuel e Dali: O Cão Andaluz.

    -O Desejo em Psicanálise e o “amour fou” no surrealismo: L’Âge d’Or.

     

                                                     5) O Inconsciente é representável na tela?
    -
    Buñuel e o charme discreto dos sonhos dentro dos sonhos.

    - Buñuel e a Paranóia: “O Alucinado” serve para Lacan dar aula sobre o tema.

    - Buñuel e o crime na fantasia: ‘ensaios de uns crimes’

     

    TERCEIRO ENCONTRO
                                                   
    6) A realidade psíquica é uma ficção?

    -A ficção é uma ficção? (E o documentário documenta?)
    -A ficção pode ser mais real do que o documentário?

     

                                                   7) - Hitchcock e o Voyeurismo: - da poltrona do cinema lançamos um olhar através da Janela Indiscreta que é a tela?

                                                        - Hitch: Necrofilia ou luto patológico em “Um Corpo que Cai”?

                                                        - Hitch à procura do “Trauma”: quando fala o coração de Marnie? Novamente Dalí.

     

    QUARTO ENCONTRO

                                                8) O cinema é a Invenção de Morel (romance de Bioy Casares)?

        Em busca do tempo perdido: do Rosebud de Orson Welles, até a Hiroshima e Mariembad de Alain Resnais.

     

                                               9) Freud representado no cinema: de Sartre a John Huston, de Anna Freud a Marylin Monroe – a histeria.

     

                                              Apêndice: o psicanalista na tela: de herói-detetive a criminoso mais ou menos abjeto – a mesma trajetória de Édipo?

    Luiz Fernando Gallego é Psicanalista e membro da Associação de Críticos de Cinema do RJ.

    Local: O CRÂNIO
    Um espaço dedicado às pessoas interessadas em conhecimento, pensamentos e idéias.
    Desta forma, convidaremos sempre alguém interessante e com algo especial a propor. A dinâmica e a estrutura dos encontros serão ao redor de um tema.
    Venha fazer parte desta experiência onde todos nós seremos protagonistas.
    Rua PACHECO LEÃO, 94
    Terças (04/08, 11/08, 18/08 e 25/08) às 17hs
    R$ 250,00
    Tel.:
    3114 0171 ///
    9763 7444 /// 78318538

    Os encontros pretendem abordar a interface entre teorias psicanalíticas e a forma cinematográfica, através de uma reflexão sobre os conceitos básicos do pensamento freudiano em confronto com a linguagem que o cinema desenvolveu a partir do pensamento em imagens. Buñuel, Hitchcock, Alain Robe-Grillet, Orson Welles, Sartre, John Huston e Alain Renais.

    PRIMEIRO ENCONTRO
                                                  
    1) Origens históricas.
    - 1895: Nascimento do Cinema concomitante ao nascimento da Psicanálise.

    - Os primeiros filmes. Lumière e Meliés: da “chegada do trem na estação” à “viagem à Lua” sincronizadas.

     

                                                 2) O filme é um sonho coletivo?

        A teoria dos sonhos em Freud e a linguagem cinematográfica básica.

        Sonho, devaneio, fantasias.

        -Noções básicas da construção forma do sonho manifesto: condensações, deslocamentos, metáforas e metonímias; considerações de representabilidade visual na construção dos sonhos. Percepção. Representação: representação de coisa e representação de palavra.

        - Recursos tradicionais da sintaxe cinematográfica: fusão, corte, edição; montagem paralela. Idéias em imagens. Narrativa visual.

     

                                                  

    3) Leituras dos filmes

    - O espectador é um co-sonhador? O espectador é um intérprete-analista?

    - O filme é interpretado pelo - ou “interpreta” o – espectador-crítico- ensaísta?

    - Interferências da transferência e da contratransferência.

     

    SEGUNDO ENCONTRO

                                                   4) O Sonho é silencioso e o Cinema Silencioso também era.

    4-a)

    -1926: O primeiro "filme psicanalítico": Segredos de uma Alma” de Pabst. Uma história de encontros e  desencontros.

    -O “caso” do filme: Insatisfação de Freud com o Cinema (e com a Música).

    - Oposições entre Cinema e Psicanálise: O edifício da psicanálise foi construído sobre as ruínas do templo da imagem onírica?

      O cinema falado é o grande culpado? Ou o “tratamento pela palavra” não pode ser visualizado? - A sessão psicanalítica na tela: como a fala seria possível em imagens?

     

    4-b)

    - Surrrealismo e Psicanálise. O surrealismo de Buñuel e Dali: O Cão Andaluz.

    -O Desejo em Psicanálise e o “amour fou” no surrealismo: L’Âge d’Or.

     

                                                     5) O Inconsciente é representável na tela?
    -
    Buñuel e o charme discreto dos sonhos dentro dos sonhos.

    - Buñuel e a Paranóia: “O Alucinado” serve para Lacan dar aula sobre o tema.

    - Buñuel e o crime na fantasia: ‘ensaios de uns crimes’

     

    TERCEIRO ENCONTRO
                                                   
    6) A realidade psíquica é uma ficção?

    -A ficção é uma ficção? (E o documentário documenta?)
    -A ficção pode ser mais real do que o documentário?

     

                                                   7) - Hitchcock e o Voyeurismo: - da poltrona do cinema lançamos um olhar através da Janela Indiscreta que é a tela?

                                                        - Hitch: Necrofilia ou luto patológico em “Um Corpo que Cai”?

                                                        - Hitch à procura do “Trauma”: quando fala o coração de Marnie? Novamente Dalí.

     

    QUARTO ENCONTRO

                                                8) O cinema é a Invenção de Morel (romance de Bioy Casares)?

        Em busca do tempo perdido: do Rosebud de Orson Welles, até a Hiroshima e Mariembad de Alain Resnais.

     

                                               9) Freud representado no cinema: de Sartre a John Huston, de Anna Freud a Marylin Monroe – a histeria.

     

                                              Apêndice: o psicanalista na tela: de herói-detetive a criminoso mais ou menos abjeto – a mesma trajetória de Édipo?

    - Os primeiros filmes. Lumière e Meliés: da “chegada do trem na estação” à “viagem à Lua” sincronizadas.

     

                                                 2) O filme é um sonho coletivo?

        A teoria dos sonhos em Freud e a linguagem cinematográfica básica.

        Sonho, devaneio, fantasias.

        -Noções básicas da construção forma do sonho manifesto: condensações, deslocamentos, metáforas e metonímias; considerações de representabilidade visual na construção dos sonhos. Percepção. Representação: representação de coisa e representação de palavra.

        - Recursos tradicionais da sintaxe cinematográfica: fusão, corte, edição; montagem paralela. Idéias em imagens. Narrativa visual.

     

                                                  

    3) Leituras dos filmes

    - O espectador é um co-sonhador? O espectador é um intérprete-analista?

    - O filme é interpretado pelo - ou “interpreta” o – espectador-crítico- ensaísta?

    - Interferências da transferência e da contratransferência.

     

    SEGUNDO ENCONTRO

                                                   4) O Sonho é silencioso e o Cinema Silencioso também era.

    4-a)

    -1926: O primeiro "filme psicanalítico": Segredos de uma Alma” de Pabst. Uma história de encontros e  desencontros.

    -O “caso” do filme: Insatisfação de Freud com o Cinema (e com a Música).

    - Oposições entre Cinema e Psicanálise: O edifício da psicanálise foi construído sobre as ruínas do templo da imagem onírica?

      O cinema falado é o grande culpado? Ou o “tratamento pela palavra” não pode ser visualizado? - A sessão psicanalítica na tela: como a fala seria possível em imagens?

     

    4-b)

    - Surrrealismo e Psicanálise. O surrealismo de Buñuel e Dali: O Cão Andaluz.

    -O Desejo em Psicanálise e o “amour fou” no surrealismo: L’Âge d’Or.

     

                                                     5) O Inconsciente é representável na tela?
    -
    Buñuel e o charme discreto dos sonhos dentro dos sonhos.

    - Buñuel e a Paranóia: “O Alucinado” serve para Lacan dar aula sobre o tema.

    - Buñuel e o crime na fantasia: ‘ensaios de uns crimes’

     

    TERCEIRO ENCONTRO
                                                   
    6) A realidade psíquica é uma ficção?

    -A ficção é uma ficção? (E o documentário documenta?)
    -A ficção pode ser mais real do que o documentário?

     

                                                   7) - Hitchcock e o Voyeurismo: - da poltrona do cinema lançamos um olhar através da Janela Indiscreta que é a tela?

                                                        - Hitch: Necrofilia ou luto patológico em “Um Corpo que Cai”?

                                                        - Hitch à procura do “Trauma”: quando fala o coração de Marnie? Novamente Dalí.

     

    QUARTO ENCONTRO

                                                8) O cinema é a Invenção de Morel (romance de Bioy Casares)?

        Em busca do tempo perdido: do Rosebud de Orson Welles, até a Hiroshima e Mariembad de Alain Resnais.

     

                                               9) Freud representado no cinema: de Sartre a John Huston, de Anna Freud a Marylin Monroe – a histeria.

     

                                              Apêndice: o psicanalista na tela: de herói-detetive a criminoso mais ou menos abjeto – a mesma trajetória de Édipo?

    Luiz Fernando Gallego é Psicanalista e membro da Associação de Críticos de Cinema do RJ.

    Local: O CRÂNIO
    Um espaço dedicado às pessoas interessadas em conhecimento, pensamentos e idéias.
    Desta forma, convidaremos sempre alguém interessante e com algo especial a propor. A dinâmica e a estrutura dos encontros serão ao redor de um tema.
    Venha fazer parte desta experiência onde todos nós seremos protagonistas.
    Rua PACHECO LEÃO, 94
    Terças (04/08, 11/08, 18/08 e 25/08) às 17hs
    R$ 250,00
    Tel.:
    3114 0171 ///
    9763 7444 /// 78318538

    Os encontros pretendem abordar a interface entre teorias psicanalíticas e a forma cinematográfica, através de uma reflexão sobre os conceitos básicos do pensamento freudiano em confronto com a linguagem que o cinema desenvolveu a partir do pensamento em imagens. Buñuel, Hitchcock, Alain Robe-Grillet, Orson Welles, Sartre, John Huston e Alain Renais.

    PRIMEIRO ENCONTRO
                                                  
    1) Origens históricas.
    - 1895: Nascimento do Cinema concomitante ao nascimento da Psicanálise.

    - Os primeiros filmes. Lumière e Meliés: da “chegada do trem na estação” à “viagem à Lua” sincronizadas.

     

                                                 2) O filme é um sonho coletivo?

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    [Aeternus:11942] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-14)


    - RE:recados para o Gallego: Cinema e Psicanalise

    Gallego,

    Qual a referencia para localizar o local do evento?

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    [Aeternus:11943] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-15)


    - RE:RE:resposta do Gallego: curso Cinema e Psicanalise

    Rua Pacheco Leão, 94 - Jardim Botânico, Rio de Janeiro/
    Telefones: 3114-0171 /// 9763-7444 /// 7831-8538
    É uma casa sem o nome do espaço escrito na porta.
    O nome do lugar é "O CRÂNIO".
    O site é www.craniovirtual.com.br

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    [Aeternus:11950] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-18)


    - Jansy escreve...

     Há dois dias Gallego se ofereceu gentilmente para me acompanhar, ou melhor, me incluir numa ida ao cine Botafogo para assistirmos  Vestígios do Verão, a Hora do Verão, os restos dos dias?

    Estava muito curiosa para ver a filmagem que deixou Gallego entusiasmado, e não apenas porque havia Juliette Binoche e o ator de "O Segredo de Lorna" (aliás, estou lendo um livro antigo do Aldous Huxley onde ele se refere reiteradamente à Arietta de Beethoven... sátira bestinha e agitada, mas eficaz), mas pela história amorosamente detalhada pelo amigo generoso.

    Gostei muito do filme de Olivier Assayas, com o tema de vida em família, tradução, memória cultural. Mas não tanto quanto ele. O desempenho de Binoche, em algumas cenas, é antológico ( olhos marejados de lágrimas enquanto pensa na recente morte da mãe) e os demais atores também não deixam nada a desejar. Os objetos são belos e antigos, o cenário francês com casa de campo e jardins é maravilhoso. Vinhetas de conversações, movimentos e expressões faciais excelentes.

    Apesar dos elogios do amigo e da crítica em geral ( falando da maturidade e da naturalidade de Assayas, por exemplo, ou das elipses que sideram a platéia no tempo das prolepsis ) achei que o filme era fiel demais à proposta inicial de servir didáticamente para apresentar o museu d"Orsay e algumas das suas antiguidades domésticas.  Talvez me falte um animo francês para certos requintes que são ao mesmo tempo sensuais e austeros, estimulando um dos sentidos e castigando os outros. A ruptura dos laços de família na atualidade do cotidiano, preservados como memória e como elo quase inconsciente, é apresentada como inevitável. E é isso mesmo que vemos acontecer. Memória cultural é mais uma experiencia de partilha em sociedade do que uma coisa particular.

    Foi mesmo neste ponto que, rapidinho, discordamos na saída do cinema. Para Gallego os objetos mostrados deviam estar ao lado das pessoas, vasos com flores, mesas com vasos, cadeiras com pessoas sentadas nelas.  Pra mim, deviam ficar nos museus.  Como, aliás, ali acabarão as famílias tradicionais com seus albuns e nostalgias privadas. Não desejo isso pra mim, mas me parece inevitável. 

    Ao mesmo tempo em que fiquei comovida e agradecida ao Gallego pelo programa carioca, sentindo o calor da amizade e daquela rara afinidade de gostos apesar dos diferentes estilos, me senti triste porque não pude me entusiasmar tanto quanto gostaria. Talvez porque estou mais para perto da velha senhora que começa a dividir seus objetos e pensar nos herdeiros do que do lado dos herdeiros...Nessa hora pesa a dúvida: o que consegui passar adiante com sucesso e que será valioso no futuro? Não penso nos objetos ( no filme havia telas de Corot e Dufy (era mesmo Dufy?), móveis de designers famosos, jarras de 1800 com artezanato em vidro reconhecido, tapeçarias...), mas em alguma expressão de "espírito" ( ajuda aí: self-objetos bons?)


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    [Aeternus:11951] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:Jansy escreve...

    Gallego responde:
    "Horas de Verão" está longe de ser unanimidade: a crítica nos jornais cariocas foi fria, embora haja críticas favoráveis no exterior, nos EEUU, inclusive, embora seja um antípoda dos roteiros americanos.   
    Talvez esse roteiro onde parece não acontecer nada (algo à moda de Tchekov) é que tenha atraído minha atenção em um mar de filmes que tentam ser diferentes e/ou criativos mas acabam revelando esquemas de clichês indigestos, como no superestimado "A Partida" que acaba sendo um melodrama de coincidências (a pedrinha na mão do pai!) ou no mal-resolvido "Há tanto tempo que te amo".
    Em ambos há "originalidade" que disfarça as verdadeiras "intenções": um pretende discutir o cuidado com o corpo morto, outro tarta de filicídio eutanásico, esquemas de falsas novidades para perpetrar velhos esquemas com aura de algo insólito e atraente.
    Neste sentido, mostrar "apenas" uma família lidando com um inventário, espólio, decisões sobre o que fazer com as coisas deixadas pela geração anterior, me soou a verdadeira originalidade. Além de discutir o tempo que passa e os valores mutáveis que se dá - e sedeixa de dar - aos objetos: seu valor "artísitico" (para admirar como peças de museu, servindo apenas para museus?), valor de uso (para que serve um vaso essencialmente?), valor de troca (peças artísitcas podem valer dinheiro para comprar tênis da moda), valor de estima (gosta-se de algo sem saber que vale muito, ou mesmo não valendo nada em termos de dinheiro e de "arte"), des-valorização (o que um quadro um tanto "acadêmico" de Corot pode significar para os adolescentes de hoje e adultos de daqui a pouco?).
    P.S.: "selobjects" não são boms ou maus como os objetos internos kleinianos: são funções que se espera ver cumpridas por objetos externos: são "roteiros" prévios, "imagos" talvez. POode haver até "selfobjetos" que cumpram o papel de adversários para que o sel que careça desse tipo de relação se sinta forte, enfrentando, desafiando...

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    [Aeternus:11953] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:Jansy escreve...

    Gallego,

    seus argumentos a favor do filme me convenceram da primeira vez e, agora, de novo.  Mas não me falaram ao coração que tem suas razões. Do ponto de vista da vida, que demanda contrastes e mudanças regulares para evitar a habituação sensorial, está tudo nos trinques: não faltam passagens rapidas de carícias para toques, do quente para o frio ou do claro para o escuro...

    Teve uma coisa sobre a qual conversamos e quase esqueci de colocar em debate aqui para dar continuidade ao que falamos pessoalmente. Você mencionou o ciúme que o filho mais velho tinha da mãe, que nos deixava entrever sua dedicação e amor por um dos tios no lugar de cultivar a fidelidade matrimonial. Este foi, dos tres, o que não saiu da França para tentar a vida em outro local, o unico que desejava manter a casa de campo intacta, com quadros e jarras, até a velha cozinheira  herdada junto. Não se deveria nem vender os Corots mórbidos (representando um cemitério e suas tumbas escuras) para aliviar o aperto financeiro de todos.  Até a neta mais velha parecia conhecer alguns segredos amorosos da avó, que ainda por cima sobre eles falou numa palestra numa exibição de arte na California, pouco antes de morrer, confessando praticamente tudo sobre sua relação amorosa meio incestuosa.  No entanto, o filho em questão, negava o quanto podia, se agarrava na moral burguesa, se apegava aos objetos, à beleza, à arte de modo totalmente neurótico.

    Foi quando propus ao Gallego a idéia de que são os neuróticos que dão continuidade à civilização com seus apegos excessivos e nostalgias pelo passado. Os "normais" vivem no esquema proposto pelo Bion e alguns orientais: "viver o momento, sem memória e sem desejo". Mudam de endereço, de parceiros, trocam lutos e perdas por novos ganhos e outros lucros, se movimentam sem as peias da tradição...

    Onde o filme falhou para mim? Ou o espectador se vê como o doentio filho mais velho, ou como a senhora apaixonada pelo renomado artista, incapazes de aventuras desapegadas, ou ele se ve entre os que negligenciam os laços de familia e a memória cultural.  Nenhuma das opções se aplica para mim, então fiquei fria demais... será?


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    [Aeternus:11954] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:Jansy escreve...

    Jansy tem razão de considerar o filme "Horas de Verão" algo "frio"?
    Na forma des-dramatizada, concordo. A frieza não é dela nem do espectador, é da forma "distanciada" e da narrativa com elipses que pulam trechos dos eventos e tempos indeterminados  após cenas que terminam em escurecimentos elegantes das imagens mais ou menos melancólicas, como quando a esposa do filho mais velho entra no quarto onde está o marido, no escuro, e pergunta se ele está chorando; ou a cena da mãe na sala em penumbra após a reunião de aniversário quando ela finalmente vai prestar atenção à caixa do presente que recebeu e quase menosprezou: extensões de telefone sem fio para não ter que correr para atender as chamadas em sua casa bem grandinha - e ela apenas dissera quase reclamando que foram "gentis" após ranhetar que não saberia instalar, usar, etc etc
    Coisa de velha? Também, mas não só: é uma "dica" do que o filme trata sutilmente - talvez demais? - sobre nossas adesões - neuróticas, lembra Jansy - ao passado. A mãe não quer saber de tecnologia nem tão nova assim, enquanto um filho topa morar na China em seu trabalho com mão-de-obra barata na fabricação de pares de tênis vendidos a preço de sapatos de griffe (tipo Prada) no Ocidente; e outra filha trabalha com design de peças de uso diário nos EEUU com desenho contemporâneo, preferindo este estilo modernoso aos belos açucareiros de prata do século XIX (mas confesa que se inspirou em um desses em sua tese de mestrado) ou bandejas art-decô (ou art-nouveau, que sei eu?) com desenhos imitando ranhuras das palntas, que ainda asim a seduzem (talvez pela ligação que tais peças têm com a mãe?).
    O tempo é o grande tema do filme: o tempo na memória, na vidas passadas, no presente fugidio, no futuro imprevisível (quem diria que a neta também escutaria o "prudente" - ou "cuidadoso" - namoradinho perguntar se ela está chorando a venda da casa?).
    O tempo "esculpido" por Tarkopvski em seus filmes frequentemente lentos e difícieis perpassa essas "Horas de Verão" com ligeireza descompromissada - quase o que vivemos como leviandade do tempo que passa e que nos fere narcisicamente querendo apreender o instante.
    Nem todo apego ao passado seria neurótico, ao meu ver. Jansy mesma questiona Freud quando ele propões o re-investimento de libido que deve ser retirarda dos objetos perdidos em novos objetos vivos no texto sobre o luto e a melancolia. Freud nesta proposta radical parece o "mecanicista" como é acusado tantas outras vezes injustamente, mas aqui... dá o que pensar. É "saudável" e quase pragmaticista tocar tanta bola prá frente (porque atrás vem gente)? Acho que é, mas como dizze alguém, o passado é um velho retrato na parede - e como dói!
    O filme me encanta e eu diria até mesmo que me comove sem me doer quase nada nem tentar dar nó  na garganta com sua elegância francesa e - admito - blasée: não quer me arrancar furtivas lágrimas (como as da Juliette Binoche quando está no velório da mãe sem querer dar show de dor, mas com uma dor mais profunda e autêntica que vemos na pessoas que sofrem perdas tão sofridas que mal expõem seu sentir em segredo, só o que transborda mesmo).
    Na verdade, acho até que o filme aposta (ou aceita tchekovianamente?) no futuro e constata as mudanças: é até ambivalente entre lamentar que vasos não contenham flores para os quais foram feitos (o filho) e ao mesmo tempo permitir que tais peças caseiras se mantenham visíveis (cko propõe sua mulher), ainda que sem função de uso,  em vitrines de museus de artes decorativas (quase um oxímoro para quem aposta em arte engajada ou arte pela arte ou arte para chocar etc etc, raramente decoração e arte andam juntas no mundo kitsch dos nouveaux riches, e talvez por isso existam as salas de museus com "arte decorativa", ou de artesanato que não era em linha de montagem como os tênis chineses de hoje em dia). Mas é verdade que a simpatia máxima vai para a velha empregada que aceita uma lembrança da casa escolhendo um vaso que ninguém apreciava nem sabia que teria valor artí$tico do tipo valor de troca por grana: ela quer uma "coisinha" que não valeria nada ao seu ver, imagine se ela iria pedir algo que soubesse ter "valor": um vaso que para ela só serve para colocar flores - e para que mais serviria? Ela nem aprecia outro que a patroa dizia valer artística e financeiramente e que estava reduzido a um exemplar sem seu par, acusando a empregada de ter quebrado o outro, sumido, e não assumir o estrago.
    O filme aposta até nos jovens mas sem "mensagem" explícita, deixando ao espectador suportar (ou não) a música barulhenta que é escutada em cenas de planos-sequências longos com a câmera irritante na mão (só nesta passagem, o que se justifica como linguagem visual), mostrando a garotada vivendso seu momento de juventude, ainda que com seus baseados e cervejinhas. Que fazer? Os pais também fumam em casa, é o que outra cena nos diz...
    A relação incestuosa da mãe com seu próprio tio é comentada sem escândalo evidente nem manifesto: para a filha (Juliette Binoche) parece ter sido um "alívio" saber porque a mãe tinha tanto apreço e cuidado com a obra do tio de valor artístico ainda não consagrado: o amor (?) ou o sexo justificam tudo para esta moça que já esteve em uma relação "catastrófica" apoenas mencionada e jamais esclarecida?
    Para o filho mais velho, uma surpresa negada até quase além do óbvio. Em outra passagem sua solidária e realista esposa dele diz que a sogra era mais realista do que ele sobre o futuro: a venda da casa (embora a neta diga que a avó mencionava que a neta levaria seus filhos para lá quando os tivesse - tudo é ambivalente ou mesmo mutante como a vida nos faz ser: ora de um jeito, hora de outro jeito... eoras de dois ou mais modos, divididos, indecisos, vorazes sem saber o que queremos: aliás, sabemos: tudo. O problema é saber de que abrir mão: do passado? qual passado?)
    O filme pode não ser essa cocacola toda mas me cai bem por não ter "ganchos" dramáticos cafonas metidos a novidades que -aí sim - são velharias com roupagem de coisa modernosa.
    Nada mais vivo do que perder um ente querido e ter que lidar com a herança seja ela qual for, física ou emocional, ou ambas. Só perdemos entes queridos quando estamos vivos e o que fazer com as perdas? Respondem os poetas: "Por perder-me é que me vão lembrando" (Cecilia Meirelles). "As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão"" (Drummond). Neurose? Não necessariamente. Memória e desejo são iniludíveis, malgré Bion.
    Último toque: a fotografia do filme era admirável quando o vi pela primeria vez em uma sala menor; Na sala maior de quarta-feira estava "lavada", "desbotada". Projeções em digital no Rio são um horror: é como ver "As Meninas" de Velazquez em cópia darevista "Cruzeiro" em seus últimos dias, uma deturpação total. O fotógrafo do filme, Eri8c Gautier, é dos melhores e filmou maravilhosamente cenas ao ar livre do filme do Sean Penn ("Natureza Selvagem") que vimos em película no Brasil, e dentre outros "Diários de Motociucleta" do Walter Salles sobre o jovem Che Guevara e "Medos Privados em Lugares Públicos" do Resnais, este todo em cenários artificiais.
    Acho que o filme "Horas de Verão" é narrado "sem-ênfase" e por isso vai permitindo que asociemos coisas a cada revisão ou rememoração. Mas quem tem preguiça depensar e de olhar, descarta como um filme "em que não acontece nada". Nas peças de Tchekov sediz isso: "Três Irmãs" éa história de 3 irmãs que pensam em ir a Moscou durante 4 atos e não vão; "Jardim das Cerejeiras" é sobre um pomar que vai ser vendido junto com uma casa; e é vendido. Bem, "Hamlet" é sobre um príncipe neurótico que demora 4 horas de espetáculo para fazer o que um fanatsma lhe ordenou no priemiro ato...
    "Horas de Verão" não é tudo isso, mas pode ser muito mais  do que filmes cheios de ênfases, sons e fúria que não significam nada, ams parecem significar: retire-lhes a casca e o que que sobra? Mais do mesmo.
     Aqui, a banda toca diferente, ao meu ver.

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    [Aeternus:11955] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

    Belas digressões !
    Jansy clama pelo 'lugar' do espectador, porém creio que o detachment imposto pelo Assayas é deliberado.Na mesma balada de Bertholdinho e de Joseph Losey, o chamado 'distanciamento crítico'.Se por um lado falta a 'pegada', resta a coceira, ao final, como denota de resto a própria questão levantada pela Jansy...onde ficamos?

    Bem lembrado Tchecov pelo Gallego, Andrei Konchalovszky filmou "Tio Vania" desse jeito também, des-dramatizado.Até a metade do (?)drama pode-se dizer que nada acontece.Porém...tudo está acontecendo...
    Vez por outra Brecht usava ganchos como em "The Threepenny Opera", onde próximo ao final o apresentador/condutor rompe a barreira dramática habitual do espetáculo, olha para a platéia e proclama "agora nosso herói deveria ser penalizado e executado...mas como ninguém saiu de casa para assistir um final desses, vamos libertá-lo e cantar juntos o tema da peça!" Assim se procede, a orquestra entra, o elenco dança animado e atira pernas ao vento, estilo Broadway, ao som de "Mack the Knife"(Kurt Weill)...

    Adorei também o selfobject desafio e o apego neurótico sustentando relíquias.É preciso frisar aqui que prefiro francamente o desvio perverso ao apego neurótico, principalmente o desvio sublimado em Arte !
    Em certa época de minha infância tinha um jogo de camisas simples, do cotidiano, que foram se tronando naturalmente desbotadas e frouxas.Usei-as até quase rotas pois marcavam bem tanto um gosto pessoal quanto uma provável fase bem resolvida em minha infância.Não aceitar a perda das velhas camisas, dessa preciosidade que ali se esvaía, seria um gesto como que ensaia o personagem do Charles Berling, o primogênito.

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    [Aeternus:11956] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

    Os dois peritos com vocabulário adequado discorrem sobre o distanciamento crítico e o projeto do diretor se enquadrando no esquema da elegancia narrativa. Morro de inveja da articulação precisa e ajustada. Perto do Gallego e do Florião me sinto como aqueles jogadores disfarçando atividades escusas jogando bisca e gritando numeros em voz grossa, até que um deles desmunheca a berra: "aaaai...milhões!"   Pode ser culpa do distanciamento que experimento no Rio, curtindo netinha no colo e vendo Barney e um menininho ajuizado separar os brinquedos em caixas diferentes: lixo, doação e guardar. Como hesita o garoto: lixo pra camisa velha, ou guardar para ver novamente? lixo para o desenho amassado feito há dois anos ou arquivo? O que doar? Consigo ver sem me cansar o Discovery-kids o dia inteirinho. Qualquer outro progama me cansaria, já até acostumei com a dublagem desafinada do Barney.

    Gallego corrigiu meu uso do "selfobject", agora como uma espécie de "categoria kantiana", software que determina as leituras mas está aberta para o que for incluido, um sintoma lacaniano...

    Das frases, gravei a lealdade da velha senhora a tudo que expressa o tio bem amado. Notei que é comum acontecer que, passada a paixão reveladora de um grande amor, esta lealdade permanece, com o tal "distanciamento crítico" retomado sem que, ao mesmo tempo, desapareça a lembrança da sideração passional. Neste caso, penso agora, a lealdade deixa de ser ao passado, ao ser amado, aos que ele produz, mas ao "self" que foi e voltou numa viagem, ao self transformado e antes da transformação. Ser leal ao outro, sem paixão avassaladora, é uma forma de fidelidade a sim próprio. Um grau maior de narcisismo? 


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    [Aeternus:11957] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

    Um grau maior de narcisismo? pergunta Jansy.
    O naricisismo é também iniludível. Se maior ou menor no exemplo que ela dá na mensagem anterior, eu não sei. Diferente? Transformado? Pode ser... quem sabe?
    Quando é que deixamos de ser leais a nós mesmo? Até o suicida é leal a si mesmo! (E como é!)
    Altruísmo? acredito, mas como transbordamento de libido narcísica. O que sobra é que vai para os outros. Só tem amor prá dar quem tem amor-próprio.
    O resto é dependência, neurose, simbiose e outras forma de carência de si, em si e para si..
    O resto como dizia Hamlet, é silêncio.

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    [Aeternus:11958] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Jansy e Gallego escrevem...

    Já que tanto falamos em emoções e apegos...
    O que mais me comoveu no filme, nessa coluna, foi a velha senhora que cuidava da casa.Mais do que o Musée d'Orsay, é a carcaça e as memórias dela que condensam todo o passado e as vivências de ali e então.
    Há um plano belíssimo, tão simples quanto estupendo, em que a família parte, a calmaria tona a reinar no casarão, a matriarca se faz confortável em sua chaise préféré, e o Assayas fecha a câmera no rosto da serviçal e fiel escudeira, contemplando preocupada sua patroa...

    Adiante, sua partida com o filho taxista levando o regalo com que fora agraciada - um dos vasos que apreciava dentre outros da casa -, parte fazendo comentários singelos.Aí a câmera fica a meia-distância, acentuando o que está se esvaindo...

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    [Aeternus:11959] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    Duas em uma pela metade do preço (emocional): narcisismo e a velha empregada.

    Gostei dessa, Florião, da memória que fica com a velha empregada que nem sabe o valor artístico e comercial dos objetos aos quais responde emocionalmente com flores e cuidados, dando vida à estética e salvaguardando a unica coisa que escapa dos comerciantes e do museu. Ela habita o mundo dos outros mas tem seu próprio, ela não é egoista nem altruista, mas respira, transita de um estado a outro, dá e recebe, cuida e se deixa cuidar.

    Quanto ao narcisismo, acho que é isso que nos enerva ou comove ou assusta. Não escapamos dele. Exceto por esta saída, da alternancia como inspirar e expirar, colocar pra dentro e pra fora, ter de si e receber do outro e vice versa... Tenho certeza que o apego aos que resta do amor quando os deuses foram embora e largaram os corpos que visitaram é narcísico. Nos transformamos em nosso museu, na nossa memória cultural e em nosso espanto, com as mãos abanando e um sorriso bobo.  


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    [Aeternus:11960] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-07-19)


    - RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    Que reste-t-il de nos amours ?
    Que reste-t-il de ces beaux jours ?
    Une photo, vieille photo, de ma jeunesse...

    Que reste-t-il des billets doux ?
    Des mois d'avril, des rendez-vous ?
    Un souvenir qui me poursuit
    Sans cesse !

    Bonheur fané
    Cheveux au vent
    Rêves mouvants
    Baisers volés

    Un petit village
    Un vieux cloché
    Et dans un nuage
    La chère visage
    De mon passé...

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    [Aeternus:11961] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-07-19)


    - RE: em nome do bom francês...

    Rosto em francês é masculin...'le cher visage / de mon passé' pois !

    E o verso 'baisers volés' vem antes de 'rêves mouvents' !

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    [Aeternus:11962] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    Estou ficando fã do discovery-kids, pelo menos hoje estamos elaborando as perdas e separações.

    acabo de cantar com eles "enquanto a gente adormece, o mundo apodrece...é isso que acontece" e vemos morangos murchando, aboboras cheias de fungos e o ciclo se fazendo com lixo organico e novas arvores exuberantes. Tem até "nada é eterno" num dos versos.  Só o ciclo mesmo... As crianças usam luvas e tocam nas frutas frescas e depois nas podres, descrevem textura e aroma.

    o que sobra dos nossos amores? O que resta é o resto. E, mesmo como relíquia e templo, vai murchando... Se durasse mais, qual a diferença? Um dia mais um dia mais um dia até n-dias, ou um dia só, na escala do infinito???  Chorar a morte do gemeo que é humano e ser o outro divino, que topa se alternar no céu e no inferno para acompanhar ou virar estrela na constelação de Gemini, como Castor e Polux? O chato do poetinha acertou: que tudo seja eterno enquanto dure.


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    [Aeternus:11963] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    Será que estamos elaborando mesmo nossas perdas amorosas? De repente, não mais que de repente, senti uma enorme melancolia ...

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    [Aeternus:11964] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    Será que estamos elaborando mesmo nossas perdas amorosas? De repente, não mais que de repente, senti uma enorme melancolia ...

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    [Aeternus:11965] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    Senhor visitante, por favor assine a mensagem...

    Não sei se estamos elaborando perdas, mas não temos outra saída, o que não tem remédio remediado está. Cada um percorre sua estrada ao seu modo, compondo músicas, fazendo filmes, pensando em Rilke se queixando do transitório das flores... Não há  alguém outro que possa viver por nós o que acontece. 

    No filme que estamos discutindo, rememorando, dando detalhes até o filho neurótico reage bem e decide vender a casa e os quadros. Vai visitar o museu para ver se ficaram bem instalados... E, como despedida, deixa a filha adolescente dar uma super-festa na casa da falecida avó. Daquelas que deixam as mães preocupadas porque a droga corre solto, as transinhas escondidas, uma multidão devassando os comodos da casa e deixando marcas de copos nos móveis. Mas a turma, barulhenta e movimentada, está na dela e sem nenhum excesso: tem droga, tem transinha, tem vida normal sem nada de errado apesar da barulheira. A vida continua... E lugar de relíquia, continuo achando ( apesar dos argumentos do Gallego) é na igreja ou no museu. Quando nós nos transformamos em relíquias ( velhice é um pouco isso) temos que aprender a preservar,dos tesouros passados, as marcas que deixaram para, se dermos sorte, fazermos poemas, filmes, perversões sublimadas a la Florião, tirarmos sonecas gostosas e conversarmos com amigos e netos para passar adiante a bela chama que uma vez esteve em nós.

    O texto do Freud sobre os tres escrínios é exemplar (mais a história de Lear e Cordélia). Saber passar adiante a tocha, com toda sua beleza. ..   


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    [Aeternus:11966] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-07-19)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:Jansy, Florião e Gallego escrevem...

    em tempo: a mensagem anterior( pedindo que visitantes se identifiquem...) ficou sem assinatura e quem escreveu foi Jansy

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    [Aeternus:12043] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-08-04)


    - Paris

    Não é à toa que o personagem de um conquistador barato menciona 'homeopatia' à assistente social - protagonizada pela esplendorosa Juliette Binoche -, em 'receita existencial' sobre homens em sua vida.O desencanto da personagem se assemelha ao da grande maioria dos que habitam o universo criado por Cédric Klapisch ao vasculhar a velha Paris-resmungona.
    Os créditos iniciais flagram instantes que serão visitados aqui e ali, durante o desenrolar da trama.Indivíduos comuns em seu cotidiano comum, adormecidos na própria inércia, trilhando sua sina diária ou, no caso do solitaire-perdu irmão da Ju-maravilha(Roman Duris), premido pela possibilidade de precoce finitude que decorrerá de uma cirurgia-transplante de alto risco.

    Assim caminhamos por um desilusões amorosas, calvário de solidões, conformismos e de ilusões fúteis aos que de fora contemplam veleidades como a do calejado historiador(o estupendo Fabrice Luchini), enrabichado por uma pitchula do auge de sua "beleza ofensiva, ainda mais pela juventude junto a ela", em suas próprias palavras.Ao contrário da pressa e descozimento dos outros filmes de Klapisch, aqui uma das grandes virtudes está justamente no andamento tranquilo, na pulsação com que somos convidados a participar do dia-a-dia dos seus personagens.Tão válida quanto uma angústia existencial sartreana típica é o esmero e dedicação da dona da boulangerie(Karin Viard)ao tocar seu negócio e selecionar uma candidata;ou ainda uma alegre visita de solteirinhas a um grande entreposto de frutas e carnes, entre risotas e amassos com seus flertes.O trágico se entremeia com os rasgos de esperança ou efusão, assim assim, com simplicidade.Da mesma forma com que a morte do pai do historiador é relatada por este ao telefone(respondendo um 'não sei o que dizer...' do museólogo no outro lado da linha o Fabrice diz 'não há nada a dizer, é apenas uma pessoa que morreu') ou vivenciada com o irmão 'normal, muito normal'(François Cluzet)que se emocionará ao ser pai e se angustiará num pesadelo tão divertido quanto terrível a respeito de seu ser-no-mundo, dormindo ao lado de sua irretocável Solange-esposa, que numa linha hilária de diálogo atesta as diversas deficiências e 'anormalidades' do marido...

    Aliado a tudo isto, Paris-elle même é vista pelo historiador como fragmentada/fragmentária, tanto em sua (des)construção quanto em seu pulsar.Na belíssima sequência final - acentuada pela foto esmaecida e cheia de filtros, empobrecendo propositalmente a Beleza da cidade-luz - o personagem de Duris afirma a glória secreta que 'deveriam sentir' alguns passantes (selecionados cinematograficamente, em bom número, pelos próprios personagens que fomos conhecendo ao longo da trama !)por 'estarem vivos, pensando, sentindo, reclamando, resmungando como parisienses adoram resmungar'...

    (a tempo)Finalmente o cinema compôs um psicanalista com aparência/postura parecida com um mortal comum&competente...rsrsrs O camaradinha é meio gorducho, barba por fazer, sereno e...fala alguma coisa.Em geral os 'psi's de cinema ficam mudos ou simplesmente comunicam o término da sessão&cobrança de honorários.



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    [Aeternus:12044] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-08-04)


    - RE:Paris

    Finalmente, como você informa, um filme apresentando um psicanalista normal... Gostei do termo "pulsação" aplicado ao modo como a trama foi sendo desenvolvida de modo tranquilo.

    Até há uns dias eu não estava temendo a gripe suína mas, agora, começo a ficar bastante preocupada. Daí que pretendo evitar cinemas ( mas, como já comprei com antecedencia, não perderei o Cirque du Soleil que tinha uma magia especial e, espero, consiga reproduzi-la mais uma vez este ano) Tenho dado azar com os filmes que escolho lendo a bula, ou orelha ou sei lá como chama o resuminho na capa. Uma comédia deliciosa, segundo os avaliadores, me deixou de cabelos em pé, "Linhas Cruzadas" com W. Matthau, Diane Keaton, Meg Ryan e outra moça. Uma agitação, um tormento sem fim...Frouxidão, falta de limites, dureza... tudo misturado. Acho que podiamos ter uma guia de filmes de aluguel para evitar os desapontamentos, ou um programa caseiro e partilhado de filmes que poderiamos depois voltar ou comentar pela primeira vez.

    visitante: Jansy ( fui excluida outra vez! Sei que é só apertar um botão mas, puxa, toda hora esqueço senhas e quais os circulos ou quadrados que devo pressionar depois de desinfetar)


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    [Aeternus:12048] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-08-05)


    - RE:RE:Paris e o psicanalista normal de Kaplisch

    http://www.youtube.com/watch?v=Gx6FQxSrVyU


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    [Aeternus:12251] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-06)


    - devia estar nesta lista, daí que coloco aqui pra corrigir a falha...

    O diretor abandona o cenário de filmes com um pé no submundo do crime, mas mantém a tensão entre indivíduo e grupo familiar como seu tema central.
    O resultado é excelente  com interpretação antológica de Joaquim Phoenix.
    criticos.com.br 

     DUAS FACES DA (IN)FELICIDADE?

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO em 28/8/2009

    O título original de Amantes é Two Lovers, apontando para a dualidade onipresente no temperamento ciclotímico do personagem Leonard Kraditor cujo estado de ânimo oscila rapidamente da alegria à tristeza e vice-versa em interpretação admiravelmente empática de Joaquim Phoenix. Leonard já teria talvez recebido o (atualmente inflacionado) diagnóstico de “bipolar” e tem prescrição de medicamentos que só usa irregularmente, mas o que o caracteriza mesmo é a imaturidade e constante alternância de humor capaz de brincadeiras espirituosas que mal dissimulam sua tristeza e carência afetiva.

    O envolvimento alternado e simultâneo com a amável Sandra (Vinessa Shaw) e com a conturbada Michelle (Gwyneth Paltrow) é exposto em mais uma narrativa exemplar de James Gray. Quem conhece os filmes anteriores do cineasta (Fuga para Odessa, 1994; Caminho sem Volta, 2000; e o mais recente Os Donos da Noite, de 2007) pode estranhar, a princípio, que este não apresente mais um roteiro com personagens masculinos nas fronterias da ilegalidade, envolvendo crimes e/ou policiais; mas logo pode-se perceber que o que importava nos outros filmes também está aqui: a tensão entre o núcleo familiar e um de seus membros, tensão que já ficava explícita no personagem que o mesmo Joaquim Phoenix criou no filme de dois anos atrás.

    Neste Two Lovers, os pais tocam um negócio familiar (uma lavanderia) e pretendem uma fusão com o negócio similar de outra família da mesma origem (judaica) e o casamento do filho com Sandra, que é filha do futuro sócio, viria a calhar. Mas Leonard é instável e impulsivo, sendo visto logo na primeira cena do filme pulando de uma ponte na água, tentando suicídio - e logo se arrependendo.

    A maternal e delicada Sandra pode ser uma ótima companheira para ele, mas sua atração mais intensa é pela vizinha Michelle, confusa e capaz de envolvê-lo em assuntos íntimos, deixando-o no frustrante papel de “amigo” e confidente. Muitos já viram suas expectativas amorosas chocarem-se com a proposta feminina de “amizade” e nada mais, o que é ainda mais desconfortável para o já nem tão jovem (mas parecendo sempre um adolescente volúvel) Leonard.

    O roteiro tem inspiração em um conto de Dostoievski que não vale a pena citar, pois quem conhecer esta história ficará sabendo da evolução do enredo neste filme, que se não chegar a ser tão desesperadamente “dostoievskiano”, não deixa de transmitir o clima doceamargo da ficção literária. Narrado de forma elegante, sem preciosismos formais, mas com extrema sensibilidade na construção das imagens, o diretor recorre a freqüentes planos fechados sobre o rosto de Joaquim Phoenix - que também usa do corpo para dizer muito do que cala. Sua interpretação pode ser chamada de “visceral”, sem jamais cair no exagero ou caricatura.

    Todo o filme revela extremo respeito pelas inadequações dos personagens que podem estar fazendo outros sofrerem (como Michelle faz com Leonard e ele pode estar fazendo com seus pais e com Sandra), mas jamais são vistos como intencionalmente "malvados", e sim, como gente comum, capaz de grandes desencontros com eles mesmos e com os demais. Sintonizadas com este enfoque de neutralidade que não julga nem condena os desacertos humanos, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw e Isabella Rossellini (como a mãe) têm participações precisas, assim como os demais atores em papéis menores. Talvez apenas Elias Koteas escape um pouco dessa linha e traga um certo peso ao namorado casado de Michelle. Não se pode deixar de ressaltar que esta é certamente a melhor interpretação de Gwyneth Paltrow, bem acima de suas limitações habituais.

    Ainda a destacar a edição igualmente precisa, a fotografia adequada ao clima geral, além da trilha sonora, jamais interferente ou excessiva, sendo que em uma cena de lanchonete podemos escutar ao longe Amália Rodrigues cantando Estranha Forma de Vida. Estranha? Tão estranha como banal e corriqueira pode ser a divisão entre dois objetos de afeto, duas formas de gostar: uma delas apaixonada e idealizada, outra, terna e quase racional. Qualquer escolha pode deixar Leonard longe do que sua mãe diz que deseja para ele: a tal felicidade...

    P.S. O filme, subestimado no seu país de origem e apresentado (sem premiação alguma) no Festival de Cannes 2008, é imperdível, que mais não seja pelo risco de ser o último filme de Joaquim Phoenix que vem anunciando aos sete ventos que abandonou a carreira de ator: verdade ou factóide?

    # AMANTES (TWO LOVERS)
    EUA, 2008
    Direção: JAMES GRAY
    Roteiro: JAMES GRAY, RICHARD MENELLO
    Fotografia: JOAQUÍN BACA-ASSAY
    Edição: JOHN AXELRAD
    Direção de Arte: MARC BENACERRAF, PETER ZUMBA.
    Música: DANA SANO (supervisão)
    Elenco: JOAQUIM PHOENIX, GWYNETH PALTROW, VINESSA SHAW, ISABELLA ROSSELLINI
    Duração: 110 minutos
    Site oficial: http://www.twoloversmovie.com/

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    [Aeternus:12306] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-09-12)


    - RE:amantes/two lovers

    "Quem não tem amantes?" Indagação divina - o sádico solitário - e aí vivemos na ruína infinda. Daquelas de Virxe Maria!

    Outra 


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    [Aeternus:12307] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-12)


    - RE:RE:amantes/two lovers

    Outra! Uma forma de identidade pela contabilidade dos solitários?

    Creio que não entendi o comentário...  


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    [Aeternus:12308] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-09-12)


    - RE:RE:RE:amantes/two lovers

    Nem eu.

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    [Aeternus:12310] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-12)


    - RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

    Dá uma trabalheira escrever em resposta a uma mensagem, abrir a página, aguardar carregar (trabalheira no sentido de "ter paciencia".) Assim sendo, considero cada letrinha numa mensagem breve algo precioso ( aliás, sonhei que achava pedras preciosas numa praia escura e, examinando-as, via que vinham rotuladas por uma empresa de turismo).

    Estas pedras de hoje, fora do sonho, tem um rótulo: "Outra" e "Nem eu". Não diz o suficiente para eu saber se outra e nem eu são uma só pessoa, ou duas. A segunda pode ser masculina.   Vamos fazer dois clubes e os anonimos se filiam, ou se fraternizam de algum modo? "Lonely Hearts Club Band" ( banda de corações solitários) e "Sociedade dos Poetas Anonimos"?   Creio que facilita e até o Davy vai ler.


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    [Aeternus:12321] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-09-14)


    - RE:RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

    como me inscrevo para a "lonely hearts club band"? vai ter carteirinha? já me filiei...

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    [Aeternus:12323] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-14)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

    Primeiro(a) afilidado(a) da(o) "Banda(o) dos Corações Solitários"... Legal.

    Vou pensar numa carteirinha (não dá desconto nos cinemas, que pena). Para você se assinar, portanto, basta colocar BCS.1 ( que tal?)


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    [Aeternus:12327] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-09-14)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:amantes/two lovers

    BCS1: como me inscrevo para a "lonely hearts club band"? vai ter carteirinha? já me filiei...
    Jairo Gerbase:
    era em 1967... fazia 20 anos...qdo sgt pepers mandou a banda tocar...

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    [Aeternus:12497] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-13)


    - Atarantino

    "Band of Basterds", de Tarantino, com Brad Pitt e grande elenco. Como seria de se esperar, um filme cheio de sangue esguichando fazendo um pastiche de tudo e de todos, bem no jeitão das comédias que só fazem rir aos adolescentes em plena muda.  Imaginar e executar a vingança da moça judia para dar cabo de Hitler e do resto da corja dele, com o rosto entre as chamas na risada fantasmagórica, ou a turma dos "basterds" aterrorizando e torturando alemães em desrespeito a todas as convenções (de Genebra, aso) - assim servindo para desculpar eventos reais (Guantánamo) pelo vale-tudo...Um filme muito desagradável, isto é, um filme que tem tudo para agradar (se Samuel Goldwyn me ceder a vez para construir tal sentença).  O problema não é tanto o inverossímil da hist´ria, mas o argumento cheio de buracos jogando com os preconceitos e a psicopatia.

    O rosto da heroina é belíssimo, assim como o feioso nazistão de cabeça grande mas que fala com perfeição uma porção de línguas é asquerosamente interessante. O resto...só mesmo Brad Pitt com sotaque do Tennessee falando italiano.

    Apesar de lento, apreciei o primeiro capítulo, parecia até coisa séria. E pronto. O resto, não era sério, nem era engraçado, nem era inteligente, ou informativo do submundo numa Pulp Fiction.

    E, para crianças, tentem escapar do filme mexicano com golfinhos sonhadores... Que feriado pesado em matéria de diversão! Superego mandou me divertir, pois então, deu nisso.


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    [Aeternus:12498] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-14)


    - RE:Atarantino

    Recebi ontem estes dois artigos (o primeiro respondendo o segundo, isto é, o segundo é anterior ao primeiro - eis a Física Quântica em ação - ou será 'em assão'?)
    O primeiro artigo é de Luiz Nazario - e faz uma crítica séria ao segundo artigo, que é 'só' uma crítica ao filme. Eu, que li os dois, entendo a motivação do Nazário, um scholar do cinema nazista, mas que não gosta de brincadeiras sobre o tema, e (mesmo sem ver o filme) gostei do artigo do Coutinho. Gostei mesmo. Acho até que o Nazário foi um tanto injusto com o Coutinho. Já tinha imaginado que, quando eu fosse ver o filme, iria imaginando exatamente isso que ele diz - esse 'humor marrom' ( a cor da camisa nazista - categoria que inventei, para dar conta de piadas 'nazistas') que eu estava indo ver um filme que inverte estereótipos e idéias politicamente corretas. Pode ser que depois de ver o filme eu mude de idéia e concorde com o Nazário.
    Bem, aqui estão os dois.
    Assassinado,
    Davy.

    De: Luiz Nazario.

    Vi o filme ontem, e achei detestável. O humor é sádico e grotesco, a violência é de um típico pastelão de sangue, os diálogos são perfeitos para imbecis que se acham inteligentes “sacando” a “inteligência dos diálogos”... Um verdadeiro lixo. As referências ao cinema nazista podem parecer profundas e inusitadas para quem não conhece o cinema nazista, mas como fiz doutorado sobre este cinema, percebo os buracos. Pabst, por exemplo, é citado com admiração, pois Tarantino só deve conhecer a fase muda e a fase francesa dele, não a fase nazista (Komödianten, Paracelsus). Assim, critica a Riefenstahl, mas preserva o Pabst... Pitz Palü não foi produzido na Alemanha nazista, mas na República de Weimar. Claro, a “Semana Alemã” poderia estar exibindo uma reprise... Mas porque não algum filme de Veit Harlan ou Hans Steinhoff? Ah, sim, a dona do cinema é judia e detesta Riefenstahl, exibindo esse filme como uma homenagem a Pabst... Ora, precisamente nesta altura Pabst estava trabalhando na Alemanha nazista (ele devolveu ao governo francês uma medalha que havia ganho e foi “servir sua pátria” – embora fosse austríaco – trabalhando no cinema nazista, ajudando, inclusive, a Riefenstahl na direção de algumas cenas em que ela atuava em Tiefland... Uma canção cantada por Zarah Leander é ouvida ao fundo na cena do bar, mas o nome da maior diva nazista não é mencionado, apenas o da secundária Brigitte Fossey e o de Lilian Harvey (inglesa que depois de trabalhar nos primeiros anos do nazismo na Alemanha acabou imigrando para os EUA, onde não fez sucesso – Goebbels irrita-se na seqüência do cinema quando lembram o nome dela). Já a atriz que ajuda os Bastardos parece vagamente inspirada em Olga Tchekova (que espionava para os russos, segundo a recente biografia escrita por Antony Beevor) e em Renate Müller (que tinha um amante judeu e acabou sendo “suicidada” pela Gestapo). De qualquer forma, as referências ao cinema nazista são sempre vagas e imprecisas. João Pereira Coutinho (que já escreveu crônicas bem melhores) considera os filmes que tentaram apreender a verdade sobre o Holocausto, como A última etapa, Border Street, Professor Mamlock, A orquestra de Auschwitz, Shoah, As 200 crianças do Dr, Korzac, A lista de Schindler, O pianista, etc. “de um sentimentalismo vulgar” porque neles os judeus são vítimas (e quando não o foram?). Prefere a “inversão de esterótipos” do espetáculo Cirque de Soleil sangrento de Tarantino. Não percebe que o cineasta sem qualquer cultura cai nos estereótipos ainda mais antigos sobre os judeus: a gangue dos Bastardos, assim como a louca da Shosanna Dreyfus (nome escolhido a dedo) são vingativos ao extremo (como o Shylock de O mercador de Veneza, de Shakespeare; o Judeu errante, de Eugene Sue; o Samuel Mayer do romance mediúnico A vingança de judeu, do “espírito” J. W. Rochester, etc.) e carniceiros (como nas caricaturas de Der Stürmer). No revisionismo dos trapalhões escalpeladores de Tarantino, os principais dirigentes nazistas, incluindo Boorman, Goebbels, Hitler, são mortos pelos judeus bastardos. E os judeus ainda são aí homens-bombas, e massacradores de nazistas “indefesos” (eles incendeiam um cinema lotado e queimam vivos 400 nazistas desarmados na platéia). Em resumo, no filme de “clichês trocados” de Tarantino, os nazistas são os judeus... E depois Tarantino tem a coragem de ir a Israel mostrar o filme, talvez esperando que o “exército nazista” de Israel (na visão dos novos antissemitas que formam o público que admira Tarantino) se “reconheça” nos seus personagens e aplauda o filme como as platéias dos freqüentadores dos cinemas multiplex que fedem a mofo e pipoca amanteigada...

     


    Assunto: Tarantino por João Pereira Coutinho - artigo nojento

     

    BASTARDOS INGLÓRIOS
    por JOÃO PEREIRA COUTINHO (Folha De SP/Ilustrada)

     

    "SAIO DE casa para assistir a "Bastardos Inglórios", o último filme de Quentin Tarantino. Trinta minutos depois, a dúvida metafísica: sair ou não sair, eis a questão. Decido ficar. Decido bem. A minha saúde pode não aguentar tanta risada. Mas, ó deuses, se eu morrer agora, morrerei feliz. E morrerei feliz pelas exatas razões que perturbaram a crítica "séria" e "moralista", sobretudo na Europa. Quentin Tarantino parodiou a Segunda Guerra Mundial e transformou os judeus nos verdadeiros carrascos do processo? O meu reino não é deste mundo. Envio apenas um conselho aos filistinos: quem quer saber história, estuda e lê história. Salas de cinema são salas de cinema. Repitam comigo. E repitam também: "Bastardos Inglórios" é, primeiro que tudo, um filme sobre o cinema. Ou, precisando, um filme sobre o poder literalmente salvífico e redentor que o cinema tem sobre a história. Começa por ter esse poder na própria transfiguração da verdade. Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar que apenas diminui o sofrimento real e inimaginável, e por isso mesmo infilmável, dos judeus na Segunda Guerra? "Bastardos Inglórios" começa por subverter o clichê: os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores, matando nazistas com uma violência paródica e catártica. Liderados por um "redneck" da América profunda (Brad Pitt, primoroso), eles aterram na França ocupada para matar alemães como se matam ratazanas. À paulada. Paralelamente às pauladas, encontramos também uma sobrevivente judia e francesa, Shosanna (Mélanie Laurent, primorosa), que também ajuda os "Bastardos". Depois de ver a própria família massacrada pelas "ratazanas", ela resolve tratar do assunto montando a sua vingança. Pelas chamas. Não é fácil aceitar essa inversão essencial de papéis. Desconfio, aliás, que é exatamente por isso que a política defensiva de Israel, hoje, continua a provocar tanta fúria na consciência piedosa do mundo. Como é possível que os judeus, nossos eternos cachorrinhos de estimação, sejam também lobos contra os seus inimigos? Gostamos das vítimas enquanto elas são vítimas. Tarantino explode essa covardia suave. Mas "Bastardos Inglórios" não se limita a usar o cinema para conceder uma retribuição fantasiosa às vítimas da história. Em "Bastardos Inglórios", é também no cinema, espaço físico de destinos alternativos, que se constrói um desfecho histórico alternativo. Não sabemos o que teria sucedido à Alemanha se Hitler tivesse sido eliminado em 1939, ou em 1943, ou em 1944: três datas, três tentativas sérias. Provavelmente, o Reich teria desabado mais cedo. Mas sabemos que, em "Bastardos Inglórios", Hitler e seus gângsteres são eliminados na sala de cinema. Como se a sala de cinema fosse também um tribunal último, capaz de repor um simulacro de Justiça num mundo tão radicalmente injusto. Existe humor em Tarantino. Existe violência. Existe, palavra essencial, extravagância. Mas o amor ao cinema, como arte e possibilidade, é provavelmente maior do que a soma das três partes. Disse humor, disse violência, disse extravagância exatamente por essa ordem. Reitero. Esse trio explica a minha estima literária por Tarantino, um diretor que, antes de pensar com imagens, pensa com palavras. Haverá algum diretor vivo que escreva diálogos como Tarantino? Sim, Woody Allen seria um nome válido. Mas Woody Allen é um mestre do "punch line", essa procura desesperada da piada inesperada. Tarantino é um mestre das preliminares. Ele sabe que a piada está no adiamento da piada. Por isso os diálogos de Tarantino nos parecem tão luminosos, no sentido espiritual do termo: eles são a última exibição de racionalidade antes da carnificina irracional. Em "Cães de Aluguel", os bandidos discutem o significado real do tema "Like a Virgin", de Madonna, momentos antes do assalto bancário que corre barbaramente mal. Em "Pulp Fiction", meditamos com Jules (Samuel L. Jackson) e Vincent (John Travolta) sobre o significado sexual de uma massagem nos pés, momentos antes de massacrarem um grupo de pagadores relapsos. Em "Bastardos Inglórios", esse prazer sádico de esticar a corda é cultivado da primeira à última sequência. Como se os diálogos fossem meras antecâmaras de uma violência que se promete e anuncia. E, quando ela chega, nunca a expressão "comic relief" foi tão apropriada."



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    [Aeternus:12499] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-14)


    - RE:RE:Atarantino

    Obrigada por remeter as duas críticas ao filme do Tarantino. Não concordo com nenhuma das duas, mas elas tem pontos interessantes que quase reviram minha impressão primeira do "Band of Basterds." Gostei do Coutinho apontar para a metáfora possível do cinema-arte que ignora dos fatos reais e de ser este um filme sobre o poder do cinema ( embora seja mais sobre o poder da imagem e da propaganda, ou seja, como disse uma vez Lawrence Durell ou um outro ingles:  todas as imagens são eminentemente fascistas, pela sua dominação das emoções.) Gostei do Nazário se incomodar com a imprecisão das citações cinematográficas, ele que entende e sacou isso, assim como criticar a transformação dos judeus, de vítimas, em vingadores (afinal, a des-humanidade dos dois lados os torna equivalentes). Depois de hesitar, supondo que posso ter errado na rejeição ao filme, voltei ao ponto inicial: é detestável, primário, impreciso até na ficção, estereotipado e sem valor artístico.

    Há uns dias me mandaram um arquivo pesado com estatísticas sobre como o mundo está sendo gradualmente transformado em mundo muçulmano. Pega o crescimento demográfico de alguns países da Europa ( abaixo de 1.2 para os nativos e acima de 8.0 para os imigrantes) e, subreptíciamente, incita a uma "ação" (o video foi feito por evangélicos) disfarçada em frases da bíblia que mencionam o futuro com "um povo unico, uma cultura unica, sem guerras." Pode ser que os numeros citados correspondam a alguma realidade, mas não vi distinguirem senão generalidades vazias: cristãos, latinos, muçulmanos e europeus. Muito esquisito. Tem árabes cristãos, tem latinos judeus, tem africanos muçulmanos, tem os baianos... onde ficam?  Não vi nada incluindo os chineses. Tudo distorcido e evangélicamente perverso.  Fica como outra série de imagens que recebi com "moral" diferente: a primeira enumera os negros poderosos do mundo ( Obama, Oprah, astros do basquete, da astrofísica, etc) e pergunta se Michael Jackson não teria se arrependido de embranquecer. A segunda com as mesmas imagens, tem outra pergunta: " e por que no Brasil existem quotas raciais?"  O filme do Tarantino, se um paralelo destes for possível, se encaixa na pergunta idiota sobre o Michael Jackson. Ou na estereotipia do judeu vingador.


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    [Aeternus:12501] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-14)


    - RE:RE:Atarantino

    Acho o texto do Coutinho alienado como alienado é o filme: arte pela arte? Não se trata disso o filme bastardo e inglório do Tarantino, trata-se de "fazer arte" (infantil, adolescente como disse Jansy - mas nada ingênua) através da apropriação da II Guerra e da perseguição mortífera aos judeus para fazer gracinhas.

    Na verdade, é um filme mais sobre o cinema "brincando" com coisas sérias. Nada contra o humor (só que eu não ri no filme, problema meu? fica em aberto esta questão), nada contra dessacralizar os totens e vacas sagradas, nada contra afrontar os tabus - o problema é que o filme é mau cinema feito por cinéfilo. O ritmo é oscilante, muitas vezes se arrasta. Nem tanto a violência alardeada me incomodou tanto, Tarantino já fez coisas piores neste terreno escatológico, só que em ritmo de desenho animado. O incômodo é com o nonsense que não se descabela de vez em forma cinematográfica que viesse a ser, de fato, criativa e funcional. Às vezes  ele parece se levar a sério (hahahaha), às vezes ele "pisca o olho" para a plateia cúmplice do descerebramento se acreditando "inteligente" e diz: "Olha só como eu sou esperto, quebro convenções de temas sacrossantos!" (e aí é de chorar). Uma pornografia moral.

    Só porque ele faz um plano seqüência virtuosístico, sem corte, no hall do cinema em que vai ser exibido um filme para Hitler, com a câmera subindo e descendo escadas, (OHHHH! que linguagem muderna!!!) temos "bom cinema"?  Acho que na forma, Tarantino envelheceu muito rápido para quem fez "Cães de Aluguel" e sabia (sabia) copiar, como epígono aplicado, o que ficou como clichés-cacoetes da já então velha nouvelle vague transformados nos fricotes visuais de "Pulp Fiction" (o nome ja´dizia tudo), no final das contas uma comédia de humor negro que "evoluiu"  (involuiu) mesmo para o tipo de coisa que o título já anunciava, das páginas amarelas de livros policiais baratos para a baixaria de "Kill Bill" e agora para a imprensa marron da bastardice inglória deste filmeco de segunda metido a qualquer coisa.

    As referências cinematográficas abundam (aBUNDAm) como material coprofagizado e devolvido em vômitos de estupidez visual e principalmente intelectualóide, de palavras e diálogos tão pretensiosos como "espertos" que não passam de situações estúpidas.

    Ao contrário do Luiz Nazário não veria nada demais em mostrar perseguidos (judeus ou não) reagindo na barbárie, já existem filmes (bons e ruins) com esta abordagem, e a História ainda pode mostrar mais do que tais filmes. Não se trata disso, mas do que ele aponta acertadamente como "nazificação" e "terroristização"(Vale o neologismo feioso?) de uma forma de resistência.

    Mas acho que o maior problema mesmo do filme é sua cinefilia: o Tarantino quer fazer um filme de cinéfilo e quer falar de cinema acima de tudo, repetir seus clichês. Um exemplo de quando ele não cita filmes objetivamente (como "Le Crobeau" de Clouzot ou filmes de Pabst ou de Leni Riefensthal): a tomada do alto na cena da cabine de projeção com duas pessoas se matando no chão, que pode ter existido em vários melodramas noir e/ou de guerra. Este tipo de clichê de melodramas repetidos como "citação" (e assim, pode) já existia no abjeto "A Espiã" de Paul Verhoeven (quem quiser leia minha crítica em
    http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?secoes=&artigo=1450 ).

    Curiosamente, um filme (muito melhor, mas com problemas) que eu vi no festival Rio 2009, sendo "de esquerda" e contra Mussolini (e por alusão) e Berlusconi, caía no mesmo tipo de problema: "Vincere", de Marco Bellochio, de quem, mesmo com problemas, Tarantino devia beijar os pés. Mas a cinefilia de Bellochio não é o melhor deste seu (mais um) filme-problema. Mas parece honesto. Já Tarantino, parece um boboca espertinho querendo chamar a atenção de qualquer jeito.

    A cinefilia alienante faz com que se tome por lebre o que não pasa de gato prêto, fedorento e sujo como "O Leitor", filme que ressuscita a tese da"obediência devida" e aponta para a "culpa coletiva" como álibi da responsabilidade individual.

    "Bastardos Inglórios" com seu Hitler de opereta (pior do que em filmes de Mel Brooks) só valeria pelo desempenho do vilão mais odioso dos últimos tempos, um ator austríaco de carreira local que agora foi peemiado em Cannes: ele é o que permite que se mantenha o olho aberto na encarnação do mal absoluto com determinadas caracterísitcas: frio, cínico, mordaz, esperto, ardiloso. Tudo que o filme do Tarantino queria ser, mas não é.

    P.S>: NO texto do Nazário é comentada uma fase nazista do cineasta G.W.Pabst. O mesmo que em 1931 filmou Brecht (que podia ser tudo, menos nazista)("A Ópera do 3 Vinténs")  e em 1926 fez o "primeiro filme psicanalítico" com apoio de Karl Abraham e Hans Sachs, discípulos dileitos de Freud: "O Segredo de uma Alma" (este saiu em DVD no Brasil recentemente).
    As voltas que o mundo dá?... não, que as pessoas dão. Gostaria de saber mais sobre a submissão de Pabst ao nazismo. Mas uma tragédia como a de "Mephisto", livro e filme? Mas parece que se fala pouco disso.
    Gallego


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    [Aeternus:12502] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-14)


    - RE:RE:RE:Atarantino

    Gallego, eu dei a volta depois de ler o Coutinho, de trezentos e sessenta graus. Não apenas é um filme babando pras cabeças juvenis que curtem os desenhos cruéis com vampiros e mandrakes... Mas posso estar sendo injusta com os jovens: os cartuns artísticos de hoje em dia, chocantes pro meu gosto, tem uma verdade de consenso que provavelmente se liga às diferenças entre as gerações. Não me sinto competente para discordar destes novos canones estéticos que a maioria nas novas gerações adota, inclusive o premiadíssimo autor que relata os mais escabrosos eventos do holocausto, cenas de altruismo e abjeção, mea-culpas - com ratazanas servindo para o rosto dos personagens, reconhecíveis pelo corpo, movimento, uniforme... 

    O filme, como observei no segundo comentário, não faz um elogio ao cinema, mas à propaganda cinematográfica e ao fascismo das imagens.Não é comédia ( só se eu me identificasse com Goebels e Hitler rindo das matanças dos aliados, mas a risadas deles era uma caricatura burra da maldade nazista que vinha com mil rostos, não só o deles). Não é arte. Não é denuncia. É besteirol sem o gosto do besteirol.

    Andei lendo sobre a censura na Inglaterra (sobre livros de Joyce e até T.S.Eliot) agindo eficazmente na queima de livros ( sim!!!!! Nos anos cinquenta havia piras para autos-de-fé!!!!!!!) e a tarefa de críticos, como Edmund Wilson, tentando valorizar autores malditos por não se sabe quais ideologos saxãos... Basta pegar o prefácio do "O Castelo de Axel".


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    [Aeternus:12503] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-14)


    - RE:RE:RE:RE:Atarantino

    Nomes de cartunistas a la Bosch ("Jardim das Delícias") indo das sangrentas guerras à Gina Lolobrigida:
    Robert E. Howrd, Robert A. Maguire, Boris Vallejo & Julie Bell, Frank Cho, Sy Mead, Ed Big Daddy Roth, , Norman Saunders, Frank R.Paulo, Olbinski, Whelan, Hildebrandt, Gustafson, Mark Schultz, Chaykin...( estou copiando dum catálogo com ofertas) Joe Orlando, Neal Adams, Steve Ditko,Wallace Wood, Reed Crandall, Roy Krenkel, Seve Nile, Kaluta, Plong, Palais, Locke, Brunner, Alex Toth...

    e nem achei os nomes que buscava.  Só vi vagos exemplos dos mencionados acima...a maioria tendendo ao barroco-noir.

    Crianças hoje aprendem sobre a arte do grafitti espalhadas nas ruas (que hoje se distingue da "pixação").  Uma escola de "alienação participativa" (um oxímoro?)


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    [Aeternus:12505] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-15)


    - pelo LFGS

    Para o aetern.us, enviado pelo Gallego, a opinião de um amigo que é pesquisador, crítico de cinema, e autor de vários livros sobre cinema, cineastas e gêneros (é o mais abalizado conhecedor de documentários no Rio, talvez no Brasil), Carlos Alberto Mattos. Ele opina no site criticos.com.br (como eu) e também no blog http://carmattos.wordpress.com/ onde publicou o seguinte texto:

    No site Metacritic, que compila as avaliações dos principais críticos americanos, Bastardos Inglórios está com a média 69, bastante baixa para filmes "de primeira linha". As opiniões que tenho lido e ouvido por aqui também são divididas. Lembram uma cena do filme, tipicamente tarantinesca: um oficial alemão e um dos “bastardos” mantêm pistolas apontadas para os respectivos testículos debaixo da mesa do bar. Para uns, é o melhor filme de Tarantino, uma aula de cinema e de história do cinema. Para outros, é o mais chato e gratuito superespetáculo da temporada.

    Embora admire o estilo e a non-chalance do diretor para filmar o que lhe vier na cabeça, minha pistola está na mão da segunda turma.

    Tarantino filma magnificamente – e isso fica claro seja numa mera conversa de dois personagens, seja numa cena estrepitosa como o incêndio na pré-estreia do filme nazista. O problema é a ausência de maior sentido para a fantasia multigêneros que ele tirou da cachola em Bastardos Inglórios. Tarantino me parece um garoto superdotado que, depois de fazer algumas obras de arte, cresceu e se pôs a atirar os brinquedos para o alto.

    Não é o caso de cobrar qualidades caretas como verossimilhança ou coerência histórica de um filme que se arroga o descompromisso de um gibi barato, uma pulp fiction. O que importa é a festa de referências que vão de John Ford a Sergio Leone, Mel Brooks, o próprio Tarantino e mais algumas dezenas de diretores, atores, filmes e gêneros. O que interessa é driblar a História com golpes de cinema, fornecendo a catarse suprema de ver a cúpula nazista explodir por inteiro. Mas Tarantino também sabe frustrar as expectativas catárticas, como demonstram as mortes a granel nos dois lados e o desfecho quase, digamos, carinhoso dado a um dos piores vilões.          

    O filme tem a exuberância estilística habitual e algumas ironias de tirar o chapéu. O clímax do romance entre a judia Shosanna e o herói nazi Frederick Zoller, na cabine de projeção, é um primor de construção dramatúrgica. Mas esses momentos grandiosos são relativamente raros num filme que se arrasta através de longas conversações e clichês nem sempre bafejados pela graça paródica. Minha sensação foi de assistir apenas à demorada e barroca preparação de uma penúltima sequência memorável.

    Ao adulto presunçoso e perdulário, prefiro o menino brincalhão que nos brindou com filmes substantivos em sua irreverência, como Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown.


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    [Aeternus:12506] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-15)


    - Jorio Dauster e um "otimismo não ingenuo"

    quem quiser conferir, para concordar ou não com a proposta dele (gostei das intervenções que tratam da falta de investir no "capital humano" e da premencia de permanecer "defendendo a democracia")

    http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1139884-7823-BRASIL+TEM+QUE+ABANDONAR+COMPLEXO+DE+INFERIORIDADE+PARA+SE+DESTACAR+NA+DIPLOMACIA+MUNDIAL,00.html

     


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    [Aeternus:12507] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-15)


    - RE:pelo LFGS

    Gallego elogiou um plano de seqüência virtuosístico no hall do cinema. Carlos Alberto Mattos elogiou, em termos, o dramalhão das armas apontadas para o saco formando um circulo vicioso e a apoteose do incendio na casa de espetáculos, as citações aos outros diretores famosos e, mais, a cena de amor na sala de projeção. Ambos, assim mesmo, consideraram que avaliando os prós e os contrs, o filme como um todo merecia nota baixa. 

    Creio que seria interessante se pensássemos a partir destes elementos: o que faz de um filme uma "grande obra de arte" e o que compromete a proposta? Não é escapar pelo mote de "ars gratia artis" porque, se o artista é genial, apesar de sua independencia dos modismos vigentes e dos padrões costumeiros, ele não deixa de passar um pouco da sua alma adulta. No caso do Tarantino, falta esta alma adulta, o seu sintoma enquanto gente, o seu recado inconsciente de alguém que viveu além da adolescencia. Ou não é isto? Gostaria de ouvir vocês. Podemos chegar a algum consenso sobre o que é gratuito-do-bem e o que é gratuito-do-estúpido (não é uma dicotomia bem-mal, mas algo que se aproxima de "vida" e "morte" ou melhor de "vida-morte" e "morte-morte")


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    [Aeternus:12508] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-15)


    - RE:RE:pelo LFGS

    Não tenho tempo para desenvolver agora, mas Jansy ofereceu uma certa bússola para pensarmos o que ela conceituou com ótima intuição como "gratuito-do-bem" (seria o inofensivo que pode até virara "obra de arte" como, por exemplo, um musical do tipo "Cantando na Chuva", uma boa piada, uma musiquinha simpática que de repente transcende ?) e o que seria o "gratuito-do-estúpido" - mas não como maniqueismo dicotômico do tipo "bem versus mal", diselea; e sim, como algo ligado a (ou ligando) pulsões de vida - mas que em outros formatos acaba sendo uma força de desligamento da pulsão de morte ou da fúria narcísica ou ainda - aposto nesa agora - da hybris, da arrogância, da desmesura de um adolescente retardatário que investe de modo iconclasta contra qualquer coisa. Tarantino coprofagiza filmes e os vomita depois. Quando é do tipo bebê, eructa, mas o azedinho do bebê não incomoda (acho "Jackie Brown" seu melhor filme ao meu ver, com violência pouca e mais absurda-cômica); só que quando o sujeito já é crescidinho solta puns fedorentos e o adolescente porralouca se masturba com (e ejacula na) calcinha da irmã - e bebe muito e vomita nojento em tudo e em todos. A questão é o métron de cada um. Tarantino desconhece o dele, acha que pode tudo e que tudo pode. Não é bem assim, sem limites. A fronteira dos limites morais e éticos pode ser tênue, mas a gente sabe quando foi ultrapassada como transgresão que fere a Lei de convivência de um pacto social, moral e ético. Sem o qual cairemos na barbárie e bastardice inglória deste filme.
    Gallego, fui atrasado, saindo

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    [Aeternus:12509] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-15)


    - RE:RE:RE:pelo LFGS

    Gallego meu querido, graças à Jansy você disse coisas que me obrigam a responder. E minha resposta é curta - e MUITO grossa.
    Concordo com tudo que você diz. Mas há uma exceção para essa 'medida' tão apolínea que você e eu tanto prezamos. Quando se trata de nazistas 'profissionais' (não esses de esquina) eu sou de opinião de que TODA PORRADA É POUCA. Estou apostando, então, que o Tarantino talvez tivesse ISSO em mente. Se foi, eu o aprovo e aplaudo. Depois dos DOZE ANOS em que a insânia nazista esteve no poder, depois de TUDO que eles fizeram e fizeram outros fazer, COM PLENA CONSCIÊNCIA e sem um pingo de remorso, com a mesma alma tranquila de quem passa manteiga no pão e o come, ou de quem alivia a bexiga numa privada, o quantum de degradação, de abjeção, de... de... (me escapa agora a lucidez para continuar a lista) que eles acumularem PRECISAVA de uma desforra, mesmo que virtual. Então, quando eu digo que, em se tratando de nazistas assumidos, 'profissionais', TODA PORRADA É POUCA é porque aqui não cabe julgar a hybris do vingador. Quem transgrediu a ordem dos deuses gregos de abrir mão da hybris foram OS NAZISTAS, e pagar-lhes na mesma moeda é mais do que humano. Para deixar claro que tais coisas NÃO SE PODE FAZER MESMO!!!
    Claro que é tudo fantasia nesse filme, é tudo ficção. Mas se você perguntar a qualquer judeu, cigano, comunista (daquela região), homossexual (daquela época) o que ele gostaria de fazer aos nazistas, se pudesse, ele provavelmente responderia com um outro filme de Tarantino.
    Olhando por este outro lado da história, Tarantino pode ter desagradado a muita gente, mas àqueles que estiveram lá ou que se identificaram (como eu) com os que estiveram, ele talvez tenha prestado um serviço de primeira: Lavou-lhes a alma, como acontece com os contos de fadas em que os 'bandidos' da história, depois de suas barbaridades, são barbaramente castigados - e fica todo o mundo satisfeito com a 'vitória do bem' sobre o 'mal'. O mal é humano. O 'mal' nazista foi um pouco além. O suficiente para merecer um castigo mais-que-humano. Os nazistas roubaram/destruíram/anularam (não importa) a humanidade de um número imenso de seres humanos, e com isso perderam a sua. Não poderiam ter sido julgados como 'meros' criminosos de guerra. Talvez esse seja um assunto que ainda não foi discutido por ninguém, e eu o estou inaugurando (em termos teóricos - na prática o Tarantino o terá inaugurado mesmo sem ter tido essa intenção.) Ou seja: Os nazistas ainda não foram REALMENTE julgados. Nuremberg (o processo) foi um passeio no parque com direito a sorvete, se for levada em consideração a verdadeira dimensão do que eles fizeram. Num livro interessante, 'Rumor de Anjos', o sociólogo Peter Berger (não é judeu) fala de alguns sinais indicadores espontâneos (isto é, independentes de educação religiosa) da presença do elemento transcendente na humanidade. Um desses indicadores é, segundo ele, uma espécie de consenso popular praticamente universal de que para crimes especialmente hediondos é necessário que haja castigos "divinos". Só assim a consciência humana fica tranquilizada. Claro que isso lembra a piada do antropólogo que chegou na tribo perdida e, quando perguntou se havia antropófagos naquela região ouviu uma resposta muito especial: 'Não há, não, o último nós comemos ontem'...
    Mas ainda assim, e mesmo que seja só numa 'historinha', (quer dizer, num filme) eu talvez apoiaria uma série de filmes / peças / livros que tratassem só disso: de nazistas sendo cozinhados em azeite fervente - começando naturalmente pelos pés.
    Abração.
    Davy.
    Jansy, o que eu disse ao Gallego de algum modo afeta a sua proposição que eu também achei brilhante. Mas não consigo raciocinar sobre isso agora. Fiquei muito cansado depois de matar tantos nazistas.
    Beijos.



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    [Aeternus:12510] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-15)


    - RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Davy, concordo com tudo que o Gallego escreveu e me dou conta de que ele falou como crítico de arte, principalmente, mas como Gallego também.

    Falando como Jansy, sem maiores títulos, posso confessar a você que sua mensagem me surpreendeu. Senti o fantasma de Soshana, depois de queimada a cortina e a tela, rindo entre as chamas, em cada linha sua.

    Não compartilho as suas identificações e modelos. Para mim, existem combatentes nazistas de todo tipo e existem ideólogos nazistas de todas as etnias e culturas, não é uma exclusividade dos alemães que nasceram na Europa no início do século passado (infelizmente não é fácil marcar a mentalidade nazista com uma suástica, como o fazia o Apache, para reconhecermos sem os uniformes militares). Para mim a prática da Lex Talionis é tão primitiva quanto a turma inspirada em Ur.


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    [Aeternus:12511] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-16)


    - RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Davy: eu quis dizer que a hybris era do Tarantino em achar que "pode tudo", misturando cenas de indução perversa à traição e posterior massacre (na abertura do filme) com um Hitler de opereta dirigida por Mel Brooks; mas - o que é mais grave e foi apontado pelo Luiz Nazário - terá sido a transformação de resistentes e vingativos judeus em terroristas/homens-bomba (com dinamite na canela). Já escrevi que não vejo nada demais em mostrar perseguidos, judeus ou não, reagindo à barbárie. Já vi um filme que trata de resistentes judeus escondidos em florestas (pena que era meio mais ou menos como filme de ação), mas a História ainda pode(rá) mostrar mais do que tais filmes. Não se trata disso, de haver reação ou memso a vingança como inclinação humana, mas sim do que o Luiz Nazário escreveu, que eu resumiria como uma "nazificação" e "terroristização"(o filme merece este horrível neologismo) de uma forma ficcionalizada de resistência ao nazismo em vingança contra o antissemitismo assassino.

    Ao debater "Amém" de Costa-Gavras na ASA (para quem não sabe, uma espécie de clube cultural judaico de tradição esquerdista aqui no Rio) respondi a uma senhora judia que ela não deveria repetir que "os nazistas não eram humanos", pois era isso mesmo que eles diziam dos judeus para afastá-los dos demais seres humanos no imaginário alemão, francês, etc - pois se não eram humanos, ficava mais fácil matar... eram como ratos ou baratas.
    Duro é descobrir na humanidade em geral (e em nós mesmos) a inclinação narcisista das pequenas e grandes diferenças que leva à xenofobia, à homofobia, ao antissemitismo; descobrir em nós mesmos o risco do nazismo para podermos não agir (atuar) como homófobos, xenófobos, nazistas ou antissemitas.
    Sem reconhecer essas tendências narcísisicas arcaicas e destrutivas, corremos o risco de atuá-las.

    Defender-se dos nazistas em tempo de guerra e barbárie, é uma coisa. Um filme que se compraz em estimular o sadismo geral desse jeito, ao meu ver, equaliza o grupo trapalhão dos "bastardos" a filhosdaputa mesmo, tais como os nazistas mostrados. Por isso não sinto "alívio" fantasioso nem ficcional com este tipo de filme. Fico mais satisfeito vendo um pilantra judeu (um humano, portanto, como todos, nem santo nem demônio, pilantra e judeu, judeu e pilantra como tantos não-judeus) lutando pela sobrevivência em "Os Falsários"- e nem acharia nada demais se ele pegasse em armas para defender sua vida e/ou dos seus. Este filme me deu uma satisfação de wishful thinking. Já nesta baixaria trantinesca, só sinto a mesma indignação que me causaram "O Leitor", "O Homem Bom" e o "Menino do Pijama Listado". Lembre que o Nazário apontou a recorrência de estereótipos anti-judeus no filme ("a vingança do judeu" e outros livros ou locuções que perpassam a "cultura": quando alguém pisava no pé do outro, sem querer, na hora de "formar fila" no colégio em que estudei, os garotos diziam - eu, inclusive: "O debaixo é meu, o de cima é do judeu" - ficar por cima assim... não sei se é legal, não.

    No mais, sem quase informação, concordaria (por suposição) que os julgamentos de crimes de guerra nazista ficaram aquém: houve tanta "desnazificação" (o termo existe) para aproveitar talentos de pessoas que foram francamente nazistas (cientistas para os EUA e para a ex-URSS tinham que ser poupados de punições), mas não só: alguns artistas foram "queimados" como o maestro Wilhelm Furtwangler, e isso foi mostrado em um belo filme do Istvan Szabó - de "Mephisto" e "Coronel Redl" - que só passou em festival e só existe em DVD sem legenda  nem em inglês, "Takin Sides". Não que ele não merecesse algum tipo de punição, mas ele era muito menos nazista do que o Von Karajan que saiu incólume e só teve seu prestígio e poder aumentandos, na verdade trabalhou para "derrubar" o menos ardiloso Furtwangler e  ocupar seu lugar; essa e outras histórias estão em um livro que não é sobre política, mas sobre a fogueira das vaidades dos maestros famosos: "O Mito do Maestro", de Norman Lebrecht. Melhor nem ler, não salva quase ninguém; melhor ir ouvir música mesmo.

    A História da Humanidade é de uma barbárie em ondas. "Humanidade" como substantivo é uma contradição com o termo usado como adjetivo... Fazer o que?
    abraços, Gallego

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    [Aeternus:12512] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Gallego, meu querido: Não posso discordar do que você diz. Ao mesmo tempo, não posso retirar nada do que eu disse. O problema do nazismo é que ele excedeu a tal ponto os limites do 'humano' que fica difícil incluí-lo na 'História Geral da Barbárie'. Houve algo ali de muito especial. Tudo o que você diz se aplica muito bem a várias hecatombes ('sacrifício de cem bois', em grego). Mas no MEU sentimento, o nazismo deixa qualquer qualquer Ruanda ou Biafra no chinelo. Aqui entra uma condição especial - a de fazer parte do grupo de vítimas, mas não é só isso. Não se tratou apenas de um massacre, de uma chacina, nem mesmo de uma 'limpeza étnica' como a da Bósnia, por exemplo. Os nazistas tinham planos de modificar a própria essência da humanidade. Não tinham só os judeus como inimigos. Creio ser possível afirmar que eles subverteram até mesmo a psicologia do gênero humano (ao menos era essa a sua intenção, colocada em prática em pequena parte). O nazismo teria invertido inteiramente o pensamento psicanalítico caso tivesse triunfado. Legitimaria a psicopatologia e demonizaria o que os psicanalistas considerariam 'normal'.
    A crueldade e o ódio não são um problema tão especial. Com esses sempre se conviveu e dificilmente desaparecerão. Mas transformar a anulação do outro num sistema teórico completo é outra coisa. Matar inimigos é uma coisa. Zerar sua condição humana é outra. Há quantidades que alteram a qualidade. Por isso eu lhe peço algum tempo até eu avançar um pouco no doutorado que pretendo fazer. Só aí terei os argumentos (se eu for bem sucedido, claro) para esclarecer estas minhas atuais suposições.
    Temos, claro, todos os atributos horrorosos de assassinos etc., e Melanie Klein já havia teorizado sobre isso o bastante. Mas isso ainda não é 'nazismo'. Qualquer idiota de periferia em qualquer lugar do mundo é capaz de cometer crimes horríveis. Mas uma nova Filosofia do Gênero Humano é coisa de QI hiper-elevado. Todo bandido desenterra a Lei do Mais Forte, retrocedendo na evolução ao estágio anterior à humanidade como a conhecemos. Mas essas voltas ao passado são 'doença'. A instauração de um Império com base na submissão (de todos, não só dos 'outros', já que um bom nazista seria, antes de mais nada, destituído de qualquer resquício de vontade própria, reservada de modo absoluto ao Lider Supremo) é outra coisa.
    Bem, concordo inteiramente com você desde que você deixe fora da sua argumentação o fenômeno nazista. É claro que eles ERAM humanos. Mas tinham o firme propósito de mudar inteiramente isso que chamamos de 'humano' - e isso não pode ser perdoado, nem tolerado, nem mesmo 'compreendido'.
    Vamos continuar essa discussão outro dia, mais adiante. Ainda não consegui formular conscientemente tudo o que penso de modo implícito sobre o assunto. Nem sei se vou conseguir. Mas quero tentar. Se você quiser responder ao que estou dizendo aqui, tudo bem. Deixo com você a palavra final (por enquanto).
    Um abração.
    Davy.



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    [Aeternus:12513] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Gallego, em poucas linhas você caracterizou dois momentos do filme, associando-os à hybris do Tarantino. "Cena de indução perversa à traição e posterior massacre" e "um Hitler de opereta dirigido por Mel Brooks." Por mais que eu tenha lido elogios ao desempenho do ator austríaco imprecando como Hitler, não gostei de como ele interpretou seu papel (mas, regido pelo Mel Brooks, faz todo sentido). A abertura do filme, apesar de lenta, foi excelente aos meus olhos. Estabeleceu a tese da argumentação posterior caracterizando a psicopatia do "caçador de judeus" poliglota, suave, amante do leite de fazenda. Só não entendi o cuidado dele em preservar da culpa o francês que faz a traição dos seus vizinhos protegidos por ele, mudando de uma lingua para outra e chamando seus carrascos de "mademoiselles,"  ou porque deixou Soshana escapar ( ou porque pretendia o gozo de caçá-la, como aquele personagem de "Os miseráveis", ou porque queria cultivar uma testemunha vingativa contra o fazendeiro francês). Vai ver que não queria errar o tiro e o alvo era difícil.

    Há certas ambiguidades no meio do caos atarantinado ( difícil achar uma linha fixa para identificar outra que lhe seja contrária...). Soshana viu o rosto do carrasco, mas este só a viu pelas costas: o que significava o cigarro apagado no creme chantilly oferecido a ela no restaurante? A mais marcante foi a de ter deixado passar uma idéia de honra no sargento nazista que aceitou ser morto sádicamente com taco de basquete (muito longa a cena com o barulho do taco no interior do tunel, aliás) para não delatar os colegas. Na linha cruel do filme, o sargento teria que deixar de revelar o segredo por ódio aos judeus mas, ali, estava claro que a motivação dele não era esta, mas de ser leal como soldado. Pra lógica do filme, não existiria isso entre os nazistas... A espiã alemã, a atriz famosa, não estava convincente e se deixou maltratar pelos aliados sem registrar a náusea ou suor frio que até a platéia sentia quando O Apache enfiava o dedo, sonoramente, na ferida que tinha na perna. Bobear com o sapato de cinderela, idem. Ela tinha que sacar que estava frita muito antes de obedecer a cada ordem que lhe era dada.

    A cena melhor, do ponto de vista "lógico" e de que Gallego não gostou, foi a do assassinato duplo na cabine de projeção. A judia vingativa dando tiros no monstrinho heróico e arrogante para, em seguida, ter um movimento de piedade fatal. Me fez lembrar de uma cena semelhante de massacre, narrada pelo Barrico em "Sem Sangue" (espero ter acertado com nome do autor e romance), com a menina sobrevivente indo ao encalço do carrasco e vivendo a mesma ambivalência da Soshana.


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    [Aeternus:12514] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Não sei se estamos falando do mesmo ator, Jansy: o que eu apreciei foi o que faz o Coronel Landa, o sádico ardiloso e poliglota. Não é o mesmo que faz o Hitler de opereta.

    Por que ele preservou a culpa do francês? Não entendi asim: ele faz a "gentileza" de matar os judeus escondidos sem que eles saibam que o francês denunciou que eles estavam sob o assoalho. É um gesto "cavalheiresco", sim, para o delator induzido à delação, um "prêmio" pela delação - que horror. O cavalheirismo era o que pretendiam os nazistas em seus uinformes engomados e que beijavam as mãos das "damas" enquanto podiam cometer crueldades excepcionalmente perversas.

    Deixou Soshana escapar? Ou não dava mesmo para pegá-la?
    Acho que essas perguntas cobram uma verossimilhança que naõ está interessando nem um pouco ao Tarantino, roteirista e diretor dessa coisa.
    É mesmo um caos atarantado/atarantinado, como nas cenas de massacre ou de assasinato com taco de beisebol ou na duração excessiva dos sons do taco no túnel.  E por que um túnel? só para o outro fazer sua "grande entrada" em cena. Mais para o espectador do que para o soldado que NÃO denuncia seus colegas, ao contrário do francês.

    Mas o que ficas mesmo é o que eu acho e que já disse: o filme é feito por cinéfilo, reproduzindo as convenções de filmes mais antigos; e o compromisso (se existe algum) é com o cinema - e com mais nada. Cobrar coerência é impossível. O cigarro no chantilly deve ser uma citação ou ele achou que era uma imagem forte (até pode ser), mas não tem nada a ver com a hipótese de Landa ter reconhecido Shosanna ou não. Claro que não poderia ter reconhecido, mas o cigarro no cantilly deve ter sido irresistível... para o diretor como imagem, significante meio vazio, no sentido de que é uma tomada descomprometida com a diegese do filme, interessando apenas à volúpia visual do cineasta.

    E não é que eu não tenha apreciado a cena da cabine, já estava de saco cheio do filme, sim, mas que apenas disse que acho que já vi outros filmes com a mesma tomada do alto para corpos no chão, formando um "L" (ou outro formato qualquer desde que estetizante).
    A questão é essa: uma suposta estética (muitas vezes questionável, mas nem sempre: especialmente quando copia enquadramentos de outros filmes), estética que fica acima da dramaturgia ficcional e de qualquer verossimilhança (não cobro realidade factual nem histórica, mas uma coerência mínima com esse tipo de coisas que vc questionou e que não dá para responder com coerência em um mar de bobagens; um filme pode ser "irrealista" no sentido do "naturalismo" mas ter coerência e verossimilhança psíquica, melhor dizendo com a realidade psíquica. Exemplo clássico: "O Porcesso" de Kafka e outras obras na linha do "absurdo" ou do surrealismo. Nada a ver com a realidade comum, mas tudo a ver com a realidade psíquica. Tarantino só tem a ver com a "realidade" fílmica. Faria melhor em participar de um programa de perguntas (Quiz Show - é assim que se chama?) sobre filmes. Fazer filmes está "queimando o filme" dele.
    Gallego

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    [Aeternus:12515] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-16)


    - cinema gratia cinemis

    tá...sei que kinema não é uma palavra latina, foi brincadeirinha no título acima. Mas o espírito é esse. O cinema vira apenas cinema e deixa de ser arte porque se toma como referente único ( colocação sua, parafraseada por mim) e não é um termo ou uma atividade tão ampla como "arte" ( que abriga um ars gratia artis)

    Gallego escreveu:Não sei se estamos falando do mesmo ator... apreciei Coronel Landa, o sádico ardiloso e poliglota. Não é o mesmo que faz o Hitler de opereta.

    Jansy: O Cel.Landa estava excelente, viscoso e umido o tempo todo, não há dúvida, mas em algum lugar li que o ator que faz Hitler mereceu elogios ( sorry, pensei que fora usted)

    Gallego: Por que ele preservou a culpa do francês? Não entendi assim: ele faz...um gesto "cavalheiresco", sim, para o delator induzido à delação...O cavalheirismo era o que pretendiam os nazistas em seus uinformes engomados e que beijavam as mãos das "damas" enquanto podiam cometer crueldades excepcionalmente perversas.

    Jansy: Foi um gesto cavalheiresco, pois. Etiqueta, elegancia, formalidades estetizadas. Faz sentido.

    Gallego: Deixou Soshana escapar? Ou não dava mesmo para pegá-la?
    Acho que essas perguntas cobram uma verossimilhança que não está interessando nem um pouco ao Tarantino, roteirista e diretor dessa coisa.

    Jansy: Não sei se esperava verossimilhança, ou atender às convenções do cinema como ele ora atendia, ora quebrava. Mas você deu sua opinião: não devia dar pra pegar, só se fosse para 007 ou Matrix.

    Gallego: Mas o que fica mesmo é o que eu acho e que já disse: o filme é feito por cinéfilo, reproduzindo as convenções de filmes mais antigos; e o compromisso (se existe algum) é com o cinema - e com mais nada. Cobrar coerência é impossível. O cigarro no chantilly deve ser uma citação ou ele achou que era uma imagem forte (até pode ser), mas não tem nada a ver com a hipótese de Landa ter reconhecido Shosanna ou não.

    Jansy: Se houve citação com o chantilly, só quem vê filmes para criança é que vai reconhecer. É o mesmo angulo e espírito da Cruella Cruel visitando a sobrinha para dela obter filhotes de dalmatas. No caso da Cruella (de+Ville) ela ainda usava piteira longa. 

    Gallego: não é que eu não tenha apreciado a cena da cabine... já vi outros filmes com a mesma tomada do alto para corpos no chão, formando um "L" (ou outro formato qualquer desde que estetizante). A questão é essa: uma suposta estética (muitas vezes questionável, mas nem sempre: especialmente quando copia enquadramentos de outros filmes), estética que fica acima da dramaturgia ficcional e de qualquer verossimilhança (não cobro realidade factual nem histórica, mas uma coerência mínima com esse tipo de coisas que vc questionou e que não dá para responder com coerência em um mar de bobagens; um filme pode ser "irrealista" no sentido do "naturalismo" mas ter coerência e verossimilhança psíquica, melhor dizendo com a realidade psíquica. Exemplo clássico: "O Processo" de Kafka e outras obras na linha do "absurdo" ou do surrealismo. Nada a ver com a realidade comum, mas tudo a ver com a realidade psíquica. Tarantino só tem a ver com a "realidade" fílmica.

    Jansy: Saquei seu argumento, não precisa ficar bravo comigo, sou meio lenta pra estas coisas, ora! E gostei desta tal "realidade fílmica" dominar tudo e estragar com tudo. Do filme, o que restou em mim, foi a sensação de que para gostar do que via eu teria que me tornar igual a um Goebbels, ou ao Landa. 


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    [Aeternus:12516] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Davy: não pretendo ter a "última palavra" de nada. E nem pretendo que estas sejam minhas "últimas palavras" (hehehe, isola!).

    O paradoxo do nazismo que vc apontou (uma forma tão perversa e pervertida de humanidade que anularia a Humanidade tal como a pretendemos na eterna luta por um proceso civilizatório que sobrepuje os instintos destrutivos, narcisismos de morte, etc etc) é, de fato, uma exacerbação absurda e incomensurável do mesmo paradoxo de sistemas democráticos ideais: permitiriam partidos políticos que no entanto defenderiam o fim da mesma democracia que os alberga.

    Bem, vc vai me dizer que o partido nazista está proibido. Mas a mentalidade nazista está aí, esperando oportunidade de se manifestar com sua excepcional, potencial, inimiganável destrutividade.

    Entendo que uma exacerbação quantitativa deste teor (incomensurável, disse eu) atinge um patamar onde a modificação já é também qualitativa como vc disse de certa forma; e nesse sentido que a barbárie nazista tem particularidades que a tornam distintas de outras tantas.  Acho que a ideia de "fúrias narcísica" proposta por Kohut se aplicaria: é quando, em um sistema ilusório, apenas a destruição de outrem que não cumpriu o papel ideal de selfobjeto é que traria um suposto "apaziguamento" da fúria, mesmo que o Capitão Ahab morra junto com Moby Dick, ele precisa matar Moby Dick a qualquer preço: a vida não importa, importa que ele mate a baleia.
    E a fúria narcísica pode ser um ataque de fúria - mas tb pode ser planejada cuidadosamente, tal como na máquina de matar nazista, na produção em massa de mortes, tal como faziam dentro da burocracia e obsessividade deles (com os traços de organização germânica acoplados).

    Lembremos que a estrutura obsessiva pode encobrir, mal e porcamente que seja, situações perversas e/ou delirantes. No livro "As Benevolentes", o personagem central que é o narrador tem traços obsessivos fortíssimos que o autor do romance soube demonstrar com o uso de muitas dezenas (mesmo) de siglas das repartições nazistas, incluindo um glossário para o leitro saber que AA era a Auswärtiges Amt - ou "Departamento do Exterior", ou seja, Ministério das Relações exteriores dirigido por Joachim von Ribbentrop;  mas que OKHG era o Oberkommando des Heeres, ou seja, o estado-maior de um Grupo de Exércitos que controlava vários exércitos.

    Depois de ir va´rias vezes ao glossário de mais de 5 páginas no final do tijolaço de 908 páginas que constituem este livro, me dei conta que o autor estava demonstrando a carapaça obsessiva do personagem (e do nazismo burocráticamente perverso), e parei de tentar saber o que eram RSHA, NKVD, GFP, HSSPF, WVHA, etc etc etc. Não importava saber o que era também o posto de SS-Rottenführer ou de SS-Obersturmführer. Parei de ir ao glossário que estava "matando" a leitura e logo o romance deixou de lado as siglas para mostrar o que acontecia quando a camada de verniz obsessivo se rompia: o perosnagem, tão culto, inteligente, que "escreve bem" se revelava um monstro perverso e pervertido. Não por ser homossexual, mas a descrição dos atos sexuais dos quais que ele participa são descrições que eu não tenho como descrever aqui, mas vou copiar para terem ideia: "...desabotoei sua calça, enfiei meu rosto em seu cheiro acre de suor, de pele viril, de urina e de água-de-colônia, esfreguei meu rosto contra sua pele, no sexo, ali onde os pelos se adensam, lambi-o, botei-o na boca; depois quando não aguentei mais, empurrei-o contra uma árvore, voltei-me sem soltá-lo e o enfiei em mim, até que o tempo e a dor desaparecessem... "  - Em outro trecho ele faz o elogio biológico da próstata como órgão que, quando ele sofre a penetração anal lhe daria enorme sensação de prazer, mas não encontrei esse trecho. E há outras descrições de relaçoes sexuais absolutamente escatológicas, tal como ele descreve momentos de doença: "senti uma vontade irreprimível de defecar e corri para o banheiro; a merda jorrava líquida e grossa, um fluxo contínuo que enchia rapidamente a privada, subia, e eu continuava  acagar, a merda alcançando minhas coxas, cobria minhas nádegas e meu saco, meu ânus continuando a regurgitar (...) e seu gosto acre, vil e nauseabundo enchia minha boca e me dava engulhos..."

    Acreditem: em outros momentos quando ele fala de artes é capaz de descrições precisas e poéticas, delicadas e fortes, uma pessoa com quem quase gostamos de "conversar". Mas quando descreve as cenas de guerra (Stalingrado "fede" quando lemos os parágrafos, querendo para de ler, parando e querendo voltar a ler) ou de assassinatos de juedus antes de passarem a usar o gás (eram fuzilamentos coletivos na beira de enrmes covas), a descrição é de um monstro (humano, demasiadamente humano).

    A perspicácia psicológica do escritor faz com que em um trecho o personagem reflita: "Observava-me permanentemente: era como se uma câmera me acompanhasse o tempo todo e eu fosse ao mesmo tempo essa câmera, o homem que filmava e o homem que, em seguida, estudava o filme. Isso me derrubava e era freqüente eu não dormir à noite, ficava esquadrinhando o teto, a objetiva não me diexando em paz."


    Em outro trecho um médico, outro personagem, diz: "Cheguei à conclusão de que o guarda SS não se torna violento ou sádico por julgar que o detento não é um ser humano; ao contrário, seu furor cresce e descamba para o sadismo quando ele percebe que o detento, longe de ser um sub-homem como lhe ensinaram, é, afinal de contas, um homem como ele, e essa resistência que o guarda acha insuportável: essa persistência muda do outro faz com que o guarda o espanque para tentar destruir a humanidade comum a ambos. E isso não funciona, naturalmente: quanto mais o guarda bate, mais é obrigado a constatar que o detento se recusa a se reconhecer como não-humano, até que, no final, a única solução é matá-lo, o que é uma constatação definitva do fracasso..." O peronagem principal pergunta: "O senhor é crente? - e o médico responde, olhando para o crematório: "Sim, já fui"
    Gallego

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    [Aeternus:12517] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-16)


    - RE:RE:RE:RE:RE:RE:RE:pelo LFGS

    Tem muita coisa estranha, por escrito, em reconhecidas obras de arte. Em James Joyce, todas as cenas do banheiro ou melhor, do "quartinho", ou da masturbação de Bloom na praia. No Nabokov, poderia citar muitas partes da "Lolita," mas lembrei agora de "Ada" pelo relato que fez o Gallego: havia uma cena com um penis sujo de fezes depois da penetração, descrito com o requinte da descrição de borboletas exóticas...

    Tem uma filosofia que garante que o acesso à divindade é pelo escatológico ( palavra derivada de "skoramis", pinico e vi uma gravura com Xantipe esvaziando o skoramis na cabeça do Socrates num site erudito da internet).  Umberto Eco trata disso num dos seus livros (não é no "tratado da feiura"), creio que é "Nos Bosques da Ficção."  O que faz do feio algo necessário, como sombra numa cena, e o que o torna mero horror? Crueldade é diferente porque envolve duas pessoas na cena: a meu ver, será sempre horror.


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    [Aeternus:12518] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-17)


    - Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

    Canção da judia de Varsóvia

    Meu nome, já não o sei.
    Só de Judia me chamam.
    Meu rosto já foi bonito, na primavera em Varsóvia.
    Um dia, chegou o inverno,
    Trazido pelos nazistas;
    E nunca mais quis ir embora.
    Um dia já fui bonita,
    Tive noivo, e tive sonhos.
    Trazidos pelos nazistas
    Veio o terror, veio a morte.
    As flores se acabaram...
    As criancinhas também.
    Meu noivo foi fuzilado na madrugada do inverno.
    Alegres jardins de outrora hoje já não existem.
    Nunca mais verei as flores.
    As criancinhas morreram de fome, pelas sarjetas,
    Furadas de baionetas, nas diversões dos nazistas.
    Morreram as flores também.
    As aves, para onde foram?
    Cadê Varsóvia sorrindo?
    Está Varsóvia gemendo...
    Está Varsóvia morrendo...
    Tão lindo era meu nome, poema para o meu noivo!
    Riu o nazi junto a mim:
    "Judia que és bonita"
    - Judia não tem beleza, judia nem nome tem...
    Tomou da minha beleza nas suas mãos assassinas,
    Quem me dera ter morrido na madrugada do inverno!
    Sou pobre moça judia na cidade de Varsóvia...
    Ontem mataram meu pai na vista de minha mãe.
    Em campo de concentração minha beleza acabou.
    Meu nome, já não o sei - só de judia me chamam.
    Nunca fiz mal a ninguém,
    E tanto mal que me fizeram!
    Coração não têm os nazis...
    São feras que se soltaram pelas ruas de Varsóvia.
    Inverno que não acaba, só há desgraça e tristeza,
    Soluços de toda a gente e as gargalhadas dos nazis!
    Antes, nas tardes alegres,
    Meu noivo vinha à rua,
    Seus olhos nos meus pousavam,
    Meus lábios só tinham risos.
    Mas um dia... Eles chegaram.
    Vestiam camisas pardas.
    Coração? Eles não tinham.
    Meu noivo havia partido, tão belo, com o seu fuzil!
    Mataram-no de madrugada, nesse inverno que chegava...
    Esse campo não tem flores...
    Mais parece um cemitério...
    Em campo de concentração
    São mil judias comigo, mas nenhuma  nome tem.
    Só, sobre o peito, uma marca feita com ferro em brasa,
    Como um rebanho de gado
    Para os açougues dos nazis.
    Minha beleza se foi...
    Meus lábios já não sorriem.
    Ontem mataram meu pai na vista de minha mãe;
    Meus olhos são secos, secos não restou nenhuma lágrima.
    Uma coisa me disseram - quem dera fosse verdade...
    Disseram que em outras terras,
    Judias e não judias, moças que nem nome têm,
    Em armas se levantaram,
    Que guerrilheiras se chamam, que matam nazis nas noites,
    Que vingam os noivos e a honra! Quem dera fosse verdade!
    Por que... Se fosse verdade, mulheres matando nazis,
    Nesse campo desgraçado uma alegria eu teria, uma esperança também.
    Dizem que em outras terras lutam mulheres em armas...
    Quem dera fosse verdade por que... Se fosse verdade,
    Um dia para Varsóvia, com certeza chegaria, em que o
    Inverno se fosse e os nazistas se acabassem.
    E a primavera encheria de cantos Varsóvia inteira,
    Nas ruas de criancinhas, nos alegres jardins de flores,
    Nos olhos dos namorados...
    Tudo seria uma canção!
    E, moça judia então, NOME de novo eu teria!

    - Jorge Amado -

    Um tom guerreiro, honrado, bem diferente daquele adotado pelo formalcaótico rocambolesco Tarantino...


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    [Aeternus:12519] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-17)


    - RE:Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

    Bela contribuição, Jansy. Nunca tinha lido esse poema. Mas veja, você está confirmando o que disse o Coutinho: os judeus só são legais quando apanham e, no máximo, SONHAM com vinganças.
    Sei que não é esta a sua intenção, sei que não foi por isso que você postou esse poema.
    Mas sei também que, depois de uns 2500 anos de propaganda cristã anti-judaica (2000 pelos católicos, mais 500 pelos protestantes - uma conta grosseiramente arredondada, eu sei, na verdade foi um pouco menos que esse total), o imaginário não judaico encheu-se de tenebrosos fantasmas de nariz adunco e garras pingando sangue.
    Jorge Amado era comunista, e deve ter escrito isso antes da Guerra dos Seis Dias, quando os judeus deixaram de ser, definitivamente, aquele povinho que luta desesperadamente para se manter vivo, aquele povinho eternamente amedrontado, humilhado (o povo do pai de Freud, lembra-se?) e se transformaram num povão um tanto forte, um tanto perigoso, ao qual é uma temeridade provocar.

    O poema do Jorge Amado é cheio de piedade. MAS ESSE É O PROBLEMA: Aos olhos dos judeus hoje em dia a piedade que recebiam transformou-se em maldição. Eu o digo em nome desse povo, ao qual pertenço: NÃO QUEREMOS MAIS PIEDADE DE NINGUÉM, EM HIPÓTESE ALGUMA. Mais ou menos em 1970 a Golda Meir, então primeira ministra, disse algo parecido com 'É melhor vivermos sendo criticados do que morrermos e sermos lamentados.'
    A prova de que há algo inconsciente nessa história está no fato de que povos muçulmanos perpetraram MUITÍSSIMAS atrocidades ao longo da História, (a maior delas contra os armênios, um povo CRISTÃO), mas JAMAIS receberam do ocidente cristão nem um milésimo da fúria com que cada ação militar de Israel é respondida.
    E esse poema deve ter sido escrito bem antes de 1967, porque daquele momento em diante a esquerda toda (tão anti-cristã...) se voltou contra Israel também, e os muçulmanos se tornaram os fracos e oprimidos do mundo.
    Há algo errado aí. Algo muito errado. Eu, e muitos judeus, pensávamos que depois do Concílio Vaticano II e depois de João XXIII alguma coisa mudaria. Não mudou. O ocidente predominantemente cristão continua demonizando os judeus, para alegria dos muçulmanos (esses sim, inimigos históricos da Cristandade). Então, ao que parece, aquela soma que fiz lá no início é legítima sim: depois de 2500 anos de propaganda anti-judaica algo se solidificou no fundo da alma cristã, e o resultado é o que vemos hoje em dia: Fora alguns poucos cristãos (ou melhor, pessoas de formação cristã, para ser mais preciso), a maioria aceita com a maior docilidade a continuação da propaganda anti-judaica, agora pela boca muçulmana. A mesma propaganda, por sinal. Vociferada nas mesquitas e nos jornais dos países muçulmanos.
    Aí surge um maluco que resolve fazer um filme sobre um bando de malucos judeus ensandecidos que resolvem retribuir um pouco do ódio e da insanidade recebidos... e eu, aqui, no paraíso de Alphaville, fico tremendo nas bases pela idéia de que o filme esteja sendo julgado não pela possível meleca que o diretor produziu, mas pelo velho estigma de sempre, segundo o qual JUDEU TEM APANHAR, JUDEU BATENDO NÃO VALE.
    Obviamente não estou, aqui, me referindo a você ou ao Gallego. Conheço vocês dois de sobra (por escrito, você, e um pouco ao vivo, o Gallego), para saber que sim, que vocês estão falando do filme. Mas e por aí? Como é que o 'pessoarrr' vem recebendo essa história maluca? Não sei, mas me preocupo.
    Há algo irracional nessa história. Algo das profundezas da teoria de Melanie Klein. Eu disse ao Gallego que não mexeria mais nesse assunto (e por isso eu lhe concedia a palavra final - não sobre o assunto, e sim na nossa discussão), mas não consigo. Li o poema, e começaram a me arder os olhos. É claro, chorar a moça judia de Varsóvia é muito bonito. MAS O PARADIGMA MUDOU: AGORA, FINALMENTE, QUE CHOREM OS QUE MATAM JUDEUS. ATÉ CANSAREM DE CHORAR, OU ATÉ CANSAREM DE MATAR.
    Nesse dia sorriremos todos felizes da vida que DEUS/JESUS/ALLAH nos deu de presente. Mas enquanto o fiel da balança que mede as atrocidades estiver inclinado na direção dos judeus será difícil sorrir.
    E aí vem o Ahmadinejead, não mais um HOMEM BOMBA, mas O HOMEM DA BOMBA - e a diferença é enorme entre as duas coisas, ESTREITAR OS LAÇOS COM O GOVERNO BRASILEIRO.
    E enquanto isso, em Honduras...
    E assim por diante.
    Portanto, SEM TER VISTO O FILME DO TARANTINO, a mim agrada muito a idéia de que alguém, finalmente, se deu conta de que judeus são sim gente como todo o mundo, e de que qualquer um tão incomensuravelmente maltratado ao longo de tanto tempo teria sim desejos violentos de vinganças hediondas. QUALQUER UM.
    Há um filme que fala disso. Creio que se chama UM DIA DE FÚRIA.
    Tarantino teria feito, então, UM DIA DE FÚRIA JUDAICA. Se foi bem sucedido ou não é outra história.
    Por isso gostei do texto do Coutinho. Ele me deu a impressão de ter compreendido ESSE PONTO FUNDAMENTAL. Quanto ao filme em si, parece-me que ele o esculhambou também.
    A moça do Jorge Amado que sonha com as 'guerrilheiras', a meu ver, ADORARIA VER ESSE FILME DO TARANTINO, independente da sua qualidade cinematográfica. Acho que ela devia ser bem mais escolada em sofrimento judaico que em crítica cinematográfica.
    Eu diria, "ex post facto", que é em nome dela que estou falando.
    Um conhecido meu lá do Rio, um grande intelectual, judeu, que certamente curte muito mais Ingmar Bergman que Sergio Leone, confessou um dia numa roda de amigos que adorava ver filmes da Segunda Guerra, porque, acrescentou com um sorriso cruel, 'morria tanto nazista...' Sinceramente, EU o entendo.
    Então, eu NÃO estou falando de cinema. Estou falando de outra coisa.
    Ah, sim, antigamente eu fazia a eterna confusão entre 'alemães' e 'nazistas'. Sem entrar no mérito da questão, se TODOS os alemães era nazistas ou não, um dia me dei conta de que eu estava errado. Nem todos os alemães eram nazistas, e NEM TODOS OS NAZISTAS ERAM ALEMÃES.
    Então parei de cometer esse equívoco, e nunca mais falei de 'alemães'. Só de 'nazistas'. Como eu disse ao Gallego, pretendo estudar essa história de modo mais profundo na tese de doutorado que estou planejando, ou numa outra forma se o plano não der certo. O que sei é que esse é um tema que talvez só se esgote daqui a alguns séculos - isto se não receber mais nenhuma contribuição suplementar...
    Beijos.
    Davy.

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    [Aeternus:12520] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-10-17)


    - RE:RE:Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

    Preciso acrescentar algo ao que eu disse há pouco antes que me entendam mal: Eu me sinto, com profunda convicção, aliado àquele segmento da população judaica considerado 'de esquerda', não ao que é chamado 'de direita'. A diferença é importante: a direita judaica, como o nome diz, é regida pelo hemisfério esquerdo do cérebro, que controla a mão direita, a mão forte, a mão que tem "razão". A esquerda judaica é regida pelo hemisfério direito do cérebro, que governa a mão esquerda: a mão que acaricia, que pode ser forte se preciso, mas que está aí mais para ajudar que para definir. A direita judaica se alimenta da inclinação cristã ocidental de dar razão à Inquisição (agora com lenço quardiculado no pescoço, longas vestes de cores claras e um pano branco preso por um cordão preto na cabeça). A esquerda judaica era majoritária até uns quarenta anos atrás, quando a direita assumiu o poder porque o mundo, depois de 1967, voltou as costas para a justiça histórica e achou que Israel estava se tornando um 'estado nazista'. A guerra de 67 foi tramada por Nasser e seus colegas dos outros países árabes, e Israel deu o bote para não ser devorado. Mas depois o mundo 'acordou' para a dura realidade: Os judeus não são mais coitadinhos. E aí começou a outra guerra, sem canhões e sem metralhas, só com tinta e papel. A esquerda mundial, antes simpática a Israel, aliou-se aos muçulmanos por razões de realpolitik (já que Israel foi manifestamente apoiada pelos EUA nessa guerra), os formadores de opinião passaram a ecoar as queixas árabes contra a 'truculência' judaica, enfim, começou isso que está aí até hoje. A direita judaica disse: 'Viram? É isso que iremos receber para sempre.' E aboletou-se no poder. Quando o Rabin tentou virar o barco para um outro rumo, a direita judaica o impediu.
    A direita judaica tem uma verdade histórica. Ela julga o passado com muita acuidade. Só erra quando fala do futuro. A cristandade ocidental (desculpem a generalização, mas cultura é cultura, não tenho culpa), em vez de ajudar a esquerda judaica a provar que a sua percepção do futuro é muito mais justa e adequada, tem dado cada vez mais munição à direita judaica, que por sua vez legitima a injustiça da maioria cristã ocidental, num círculo vicioso que irá levar àquele lugar de que o Diabo tanto gosta.
    Sei que vocês, a meia dúzia de gatos pingados, meus amigos do Aeternus, não irão pesar muito nessa balança de phoder, (isto não foi um erro de digitação - é um recurso de retórica legítimo, a meu ver). Mas não posso deixar de conclamá-los a berrar um pouco mais alto contra essa insanidade universal. Se um dia a maioria dos cristãos passar a apoiar a esquerda judaica o mundo ficará muito, mas muito melhor. Alguma coisa mudará de fato. Isso se ainda houver uma esquerda judaica disposta a fazer a sua parte. As últimas pesquisas de opinião não são nada otimistas quanto e essa possibilidade.
    Abração.
    Davy.

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    [Aeternus:12521] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-17)


    - RE:RE:Jorge Amado:Canção da Judia de Varsóvia

    Achei o poema comovente porque ele trata de uma moça que foi privada do seu nome, do seu namorado, da sua história, da pátria e de como ela identificava seu inimigo com animo para combate-lo, como é o que acontece na guerra. 

    Já hoje vi um filme que me deixou confusa porque era surrealista sem ser e com direito a várias incoerencias - que pelo jeito podem continuar desamarradas como vieram. Um dos produtores era Brad Pitt, o Apache do Tarantino, mas não aparecia como ator. Vou colar o que achei na internet, depois comento em nova mensagem, tendo lido a coisa. Minha questão principal advém do hino que era cantado várias vezes, associado ao herói imortal e mortal (ele morre na noite de Natal e a tal musica tema, também usada por Bach, é "Es ist ein Ros' entstprugen" (enfatizando a geneaolgia de Jesus)  


    O título é ...
    Te Amarei Para Sempre    (2009)
    Time Traveler`s Wife, The
    sinopse: Clare foi apaixonada por Henry a vida inteira. Ela acredita que eles estão predestinados a ficarem juntos, embora nunca saiba quando estarão separados: Henry é um viajante no tempo – amaldiçoado com uma anomalia genética que o faz viver mudando de época, retroagindo a avançando nos anos. Apesar do fato de que as viagens de Henry os forcem a uma separação inesperada, e sem saberem quando voltarão a se encontrar, Clare tenta desesperadamente construir uma vida com seu verdadeiro amor.

    Crítica de Pablo Vilaça, on line:
    Assim como o Billy Pilgrim de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, o personagem de Eric Bana em Te Amarei para Sempre enfrenta o estranho problema de ser capaz de “soltar-se no tempo” a qualquer momento. A primeira vez em que isto ocorre, as circunstâncias são trágicas e confusas: ele está prestes a sofrer um acidente de carro ao lado da mãe quando, no segundo seguinte, encontra-se parado ao lado da versão adulta de si mesmo ouvindo a explicação sobre seu “dom”. Por que isto ocorre? De acordo com o roteiro de Bruce Joel Rubin (baseado em livro de Audrey Niffenegger), a causa é, acreditem ou não, uma mutação genética.
    Dito isso, acreditar que uma mutação genética dispararia viagens no tempo não é mais absurdo do que aceitar que um DeLorean correndo a 141 km/h seria capaz de fazê-lo; o importante é como a narrativa emprega as viagens em si – e o fato é que Te Amarei para Sempre (tradução melosa, eu sei) desenvolve de maneira bastante interessante sua história. Roteirista com sua parcela de acertos (são dele Ghost, Alucinações do Passado e Minha Vida, mas também Impacto Profundo e O Pequeno Stuart Little 2), Rubin faz um bom trabalho ao estabelecer a dinâmica do relacionamento entre Henry (Bana) e Clare (McAdams): apaixonada pelo rapaz desde criança, quando ele viajava no tempo para visitá-la em sua casa de campo, a moça finalmente o encontra já adulta – e, embora ele não a reconheça (já que foi sua versão futura quem visitou a garota), Henry logo se apaixona pela bela artista plástica. Porém, se o casamento ocorre mais rapidamente do que poderíamos esperar (em filmes do tipo, normalmente só acontecem no terceiro ato), logo percebemos que a visão romântica e idealizada que Clare fazia do marido cede lugar à constatação de que a falta de controle deste diante das viagens no tempo a transformam numa mulher constantemente solitária.
    Não é à toa que o título original (A Esposa do Viajante do Tempo) a coloca em pé de igualdade com Henry diante da narrativa: esta é, afinal, uma história tão dela quanto dele. Aliás, em certo sentido, Clare é a personagem verdadeiramente trágica da trama, já que, como acaba observando em certo ponto, jamais teve sequer a oportunidade de escolher um destino diferente, sendo condicionada desde a infância a aceitar Henry como seu futuro marido – e é revelador notar como, ao finalmente se encontrar com ele já adulta, ela diz que ele “era” seu “par perfeito”. O que ela não percebe, porém, é que isto prenuncia o futuro dos dois: o Henry que ela ama é um paradoxo, uma versão mais velha e amadurecida do homem que acabou de conhecer e cuja maturidade será (ou foi) ainda mais realçada pelo contraste com a idade que ela tinha ao encontrá-lo pela primeira vez, ainda criança. Da mesma maneira, não deixa de ser sufocante perceber como ela sequer tem a chance de escolher a casa em que irá morar, já que Henry, tendo visitado o futuro, conhece o imóvel que eles comprarão – e, assim, é como se o gosto futuro de Clare imperasse sobre suas preferências presentes. (E é um grande mérito do filme não martelar a cabeça do espectador com estes conflitos, que são apresentados de maneira sutil, podendo até mesmo passar despercebidos por boa parte do público.)
    Para Henry, porém, a situação não é muito mais fácil: obrigado a fazer jus à imagem idealizada que a amada criou dele a partir das visitas que ele ainda nem fez, o sujeito está sempre competindo consigo mesmo – e Bana encarna este dilema com um equilíbrio perfeito entre a frustração e a diversão, já que Henry não pode deixar de constatar a ironia do problema que criou para si mesmo. Menos cômica, no entanto, é a constatação de que ele talvez não tenha muito mais tempo de vida – e a maneira com que ele encara as revelações acerca da própria morte confere um importante peso dramático ao seu relacionamento com a esposa.
    Econômico em sua narrativa, o roteiro de Rubin não perde tempo com explicações sobre as constantes viagens de Henry no tempo – e mesmo os demais personagens, quando informados sobre os “poderes” do protagonista, rapidamente saltam da incredulidade para a aceitação, o que, embora cause certo estranhamento inicial, acaba se revelando a decisão acertada para que a narrativa não desperdice minutos preciosos com algo que não tem a menor importância (a história, afinal, é sobre o relacionamento de Henry e Clare, não sobre o impacto que as viagens têm sobre os coadjuvantes). Assim, é curioso observar como Clare, que inicialmente admirava a versão mais “madura” do marido, gradualmente passa a apreciar a leveza da versão mais jovem de Henry à medida que ela própria envelhece – e o fato dela poder conviver com ambas é uma oportunidade maravilhosa oferecida pela premissa da trama e que Rubin não desperdiça. (Além de servir como um atestado de como estamos sempre insatisfeitos com aquilo que temos.)
    Mas talvez o tema mais importante de Te Amarei para Sempre não esteja ligado diretamente ao romance de Henry e Clare, girando, em vez disso, em torno do relacionamento entre pais e filhos. Assim como em Campo dos Sonhos, Henry tem, graças a fenômenos sobrenaturais (ops, neste caso são biológicos, mas vá lá), a oportunidade de conviver um pouco mais com a mãe que perdeu ainda jovem – e é tocante vê-lo dividindo com esta sua alegria por estar namorando (mesmo que a mulher não saiba que aquele à sua frente é seu filho já adulto) ou, ainda, encontrando maneiras de dizer indiretamente que a ama profundamente. E, sem revelar muita coisa, digo apenas que estes encontros logo estabelecem uma bela rima temática com outro relacionamento apresentado ao longo da projeção.
    Infelizmente, porém, o roteiro de Rubin também conta com sua parcela de problemas (e, não tendo lido o livro de Niffenegger, não posso dizer se estes já se encontravam no original): o que acontece, por exemplo, quando Henry desaparece na frente de estranhos? Considerando a freqüência com que isto ocorre, não seria de se esperar que estes incidentes se tornassem relativamente notórios? E por que Clare diz que a presença de vários aparelhos de televisão poderia “disparar” uma viagem no tempo, já que isto jamais havia sido mencionado anteriormente? E ainda mais grave: por que o filme demora tanto tempo para explicar que, ao permanecer duas semanas em outra época, Henry perde o mesmo espaço de tempo no presente, não voltando para o mesmo momento em que havia partido? (Uma informação fundamental da qual só tomamos conhecimento no meio da projeção.) E não menos importante: por que Henry não pode mudar incidentes do passado? Que esforços ele fez neste sentido? E por que estes fracassaram?
    Já do ponto de vista técnico, Te Amarei para Sempre é irrepreensível: o competente diretor de fotografia alemão Florian Ballhaus, por exemplo, adota uma paleta outonal que confere um tom corretamente melancólico e romântico à narrativa, ao passo que a trilha de Mychael Danna surge discreta, mas suficientemente evocativa. E se o cineasta alemão Robert Schwentke já havia feito um bom trabalho no correto Plano de Vôo, desta vez ele se sai bem melhor ao desenvolver seus personagens e a trama sem permitir que a possibilidade do excesso de açúcar afundasse o projeto (há um certo melado na narrativa, especialmente em seu desfecho, mas nada que prejudique o longa).
    Fã confesso de filmes que lidam com viagens no tempo, devo dizer que admirei Te Amarei para Sempre por seguir a lógica de sua premissa sem tentar traí-la para tornar o roteiro mais simples ou para forçar um final que não se encaixasse no desenvolvimento da trama. Ainda assim, se reclamei por Robert Zemeckis e Bob Gale não terem permitido que Marty McFly e Doc Brown doassem o relógio para Hill Valley em De Volta para o Futuro 3, minha obsessão por tramas circulares me leva a lamentar apenas que (possível spoiler!) o próprio Henry não tenha sido o autor de um disparo tão importante para a narrativa deste novo filme.
    O que não invalida o belo – ainda que açucarado - final deste eficiente longa.
    16 de Outubro de 2009


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    [Aeternus:12522] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-17)


    - RE: Te Amarei para Sempre

    Interessante ler a primeira crítica ao filme que acabo de assistir, cheia de elogios bem justificados nos argumentos. Só quero ver alguém me explicar o hino.

    Uma primeira explicação já está na wikipedia em inglês. Cheguei atrasada e perdi o começo do filme quando a mãe do personagem morre, mas ele escapa no tempo. A mãe estava cantando esta música, donde se explica porque ela se repete no filme, inclusive quando ele se casa e quando morre no natal. 

    Eis os dados da wikiEs ist ein Ros entsprungen, most commonly translated to English as Lo, How a Rose E'er Blooming, is a Christmas carol of German origin. The text is thought to be penned by an anonymous author, and the piece first appeared in print in the late-16th century. The hymn has been used by both Catholics and Protestants, with the focus of the song being Mary or Jesus, respectively.[citation needed] In addition, there have been numerous versions of the hymn, with varying texts and lengths.
    The tune most familiar today appears in the Speyer Hymnal (printed in Cologne in 1599), and the familiar harmonization was written by German composer Michael Praetorius in 1609. The tune was used by Johannes Brahms as the basis for a chorale fantasy for organ, later transcribed for orchestra by Erich Leinsdorf, and by Hugo Distler as the basis for his 1933 oratorio Weihnachtsgeschichte ("Christmas story").
    In the opening scene of the film The Time Traveler's Wife, the protagonist, Henry DeTamble, as a six-year old child, is travelling in a car with his mother, an opera singer, who sings to him "Es ist ein Ros". The song is also released with the official soundtrack.

    Então vamos aos meus comentários, de amadora total (nem sabia que o diretor é o mesmo do filme Ghost, uma adorável comédia e que há um paralelo nesta viagem do tempo com uma história de Kurt Vonnegut.)

    Achei a fotografia de filme óbvia, os tons outonais prevalecendo e tudo em foco, bem centrado com efeitos de luz dramáticos em qualquer cena. Muito competente, sem dúvida.  Achei engraçado o personagem do filme competir com ele mesmo e a sua esposa trai-lo um dia com uma aparição dele próprio no passado e até engravidar. Mas não foi engraçado o bastante.

    Para aceitar incoerencias (estou com preguiça de apontá-las) criei uma ficção para mim mesma. A história linear ( um indivíduo que nasce, cresce, casa, procria e morre) é que é ficção e as cenas em que ele aparece como viajante no tempo são "reais" (da ficção). Ou seja, cada pessoa vive milhares de vezes a mesma história fechada num ciclo e, às vezes, esta bolha circular dá de encontro ou até se funde com a de outra pessoa. Não é esta a proposta do filme, mas o cara mesmo diz que "já viu a mãe morrer milhares de vezes".  Acho que só transpondo a situação para a algebra e jogando com as montagens para ver como fica tudo.  À saída do cinema havia muita gente com lágrimas nos olhos. Lindo um amor eterno, como esse... Uma marca feita na infancia que vai se realizando e confirmando... Mas, oh, que parceiro chato. A unica coisa legal era transar com ele em qualquer tempo e a tensão de esperar que desapareça e volte. O próprio personagem não faz nada na vida senão viajar. E pros mesmos lugares. Então, o assunto é sempre o mesmo...

    Estou curiosa para ouvir vocês. Vivo errando e, portanto, que ninguém se impressione se dou nota quatro, em dez, pro filme.


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    [Aeternus:12523] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-19)


    - LFG copidescado e muito mais...

    Para o aeternus:

    O Luiz Nazário copidescou o texto original dele e está no www.criticos.com.br na seção "Especiais", assim como o meu está em "Críticas" - ambos copidescados e revisados.



     # BASTARDOS INGLÓRIOS (Inglourious Basterds) EUA, 2009, 153 minutos
    Direção e Roteiro: Quentin Tarantino
    Fotografia: Robert Richardson Edição: Sally Menke
    Elenco: Brad Pitt , Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Michael Fassbender, Diane Krueger , Daniel Brühl.
    Site oficial: http://www.inglouriousbasterds-movie.com/


    INGLÓRIA BASTARDICE
    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO no site www.criticos.com.br

    O maior problema deste Taranatino adolescente retardatário e patético em seu “vale-tudo” é que se trata de um filme principalmente sobre o cinema, acima da realidade e até mesmo acima da ficção que seu roteiro apresenta. Coisa de cinéfilo que coloca a "arte pela arte" acima de tudo - e a qualquer preço ! Mas tudo que é "a qualquer preço" cai na conta da hybris dos gregos - a arrogância, a desmesura que sempre é (justamente) punida pelos deuses. No caso, a punição pode vir por descambar na chanchada de um Hitler de opereta dirigida por Mel Brooks mesclado à "seriedade" das cenas iniciais com um massacre frio levado a cabo a partir da perversidade de uma traição induzida - e outras cenas de barbárie por todos os lados. Tarantino parece querer "fazer arte" (no sentido de “arte infantil”, ou adolescente - mas atenção: nada ingênua !) através da apropriação da II Guerra e da perseguição mortífera aos judeus só para... fazer gracinhas.

    Nada contra um humor cáustico, demolidor, irreverente.. Mas eu não ri nenhuma vez durante o filme. Problema meu? Fica em aberto esta questão, pois na sessão (bem cheia) em que estive, apenas uma senhorinha gargalhava abertamente. Nada contra dessacralizar totens ou vacas sagradas; nada contra afrontar tabus. O problema é que o filme acaba sendo mau cinema feito por um cinéfilo, prenhe de citações e referências (cópias?) com ritmo oscilante que muitas vezes se arrasta. Nem tanto a violência alardeada incomoda necessariamente: Tarantino já fez coisas piores neste terreno de destrutividade escatológica, só que em ritmo de desenho animado perverso. O incômodo é com o nonsense que não se descabela de vez em uma forma cinematográfica que fosse, de fato, nova, criativa e funcional. Às vezes ele parece se levar a sério (parte da cena de abertura), às vezes ele "pisca o olho" para a platéia que convoca como cúmplice do descerebramento que se quer esperto como quem diz: "Olha só como eu quebro convenções de temas intocáveis!". Mas tudo não passa de pornografia ética.

    Só porque ele faz um plano-seqüência virtuosístico, naturalmente sem cortes, na cena de um hall de cinema em que vai ser exibido um filme para Hitler, com a câmera subindo e descendo escadas, temos "bom cinema"? Acho que na forma, Tarantino envelheceu muito rápido para quem fez Cães de Aluguel e sabia (sabia) copiar, como epígono aplicado, aquilo que restou como clichês/cacoetes da já então velha nouvelle vague, transformados na linguagem pop de Pulp Fiction (cujo nome já assumia tudo o que viria depois de Jackie Brown), e que, afinal das contas, era uma comédia de humor negro - mas que "evoluiu" (ou involuiu) nos filmes seguintes para o tipo de coisa que o título já anunciava: das páginas amarelas de livros policiais baratos para a baixaria de Kill Bill, e agora para algo do gênero imprensa marron da bastardice inglória deste filme metido a “qualquer coisa”.

    As referências cinematográficas abundam como material coprofagizado e devolvido em vômitos de estupidez visual intelectualóide - e diálogos tão pretensiosos como "espertos" que não passam de excessos verbais de situações estúpidas.

    Não vejo nada demais em mostrar perseguidos (judeus ou não) reagindo à e na barbárie: já existem filmes (infelizmente ruins) com esta abordagem, mas a História ainda pode(rá) mostrar mais do que tais filmes. Não se trata disso, mas sim do que já foi apontado pelo crítico e professor da UFMG, Luiz Nazário, como (os termos são meus, a idéia é que é dele) uma ´nazificação´ e "terroristização" (o filme merece este horrível neologismo) de uma forma ficcionalizada de resistência ao nazismo, vingando-se contra o antissemitismo assassino. (O texto dele segue adiante, masi abaixo, importantíssimo de ser lido)

    Mas o maior problema mesmo do filme é o que, para Tarantino deve ser um gozo de suposta qualidade em circuito fechado de citações e referências: a cinefilia. Ele quer fazer - e muito ! - um filme de cinéfilo; e quer falar de cinema acima de tudo, repetindo clichês com o álibi já surrado do "pós-modernismo". Um exemplo de quando ele não cita filmes objetivamente (como faz com O Corvo - Le Courbeau - de Clouzot, ou filmes de Pabst com Leni Riefenstahl): a tomada do alto na cena da cabine de projeção com duas pessoas vistas deitadas no chão poderia ter existido (acho que já vi, não lembro onde) em vários melodramas noir e/ou de guerra. Estes clichês de melodramas antigos repetidos como "citação" (e “citação” pode, não é plágio) já existiam de outro modo no abjeto A Espiã de Paul Verhoeven (minha crítica está em
    http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?secoes=&artigo=1450 ).

    Curiosamente, um filme (muito, muito melhor, ainda que com problemas) foi exibido no Festival Rio 2009, com proposta "de esquerda", contra Mussolini e (por alusão) contra Berlusconi, e caía em risco semelhante: Vincere, de Marco Bellochio. Mas a cinefilia de Bellochio sem ser o melhor deste seu (mais um) filme-problema não prejudicava sua integridade moral. Já Tarantino, parece um boboca espertinho querendo chamar a atenção de qualquer jeito. Assim , ele consegue.

    Bastardos Inglórios só tem a seu favor o desempenho do vilão mais odioso dos últimos tempos, um ator austríaco (Christoph Waltz) que foi premiado em Cannes: ele é o que permite que se mantenha o olho aberto na encarnação do mal absoluto com determinadas características: frio, cínico, mordaz, esperto, ardiloso. Tudo que o filme do Tarantino queria ser, mas não é em sua grosseria. E reutilizar a trilha de Morricone para Allonsafan dos Irmãos Taviani neste filme, mesmo como citação/alusão aos filmes de Sergio Leone ou outros, muito mais consequentes, chega a ser um sacrilégio.

    REVISIONISMO BASTARDO EM TECNICOLOR

    Por LUIZ NAZARIO
    (Crítico e Professor de Cinema da UFMG,
    autor dos livros Todos os corpos de Pasolini, As sombras móveis e Da natureza dos monstros.)

    Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino, é um filme detestável. Seu humor é sádico e grotesco; sua violência, vulgar e grosseira, de um típico pastelão de sangue; os diálogos são perfeitos para imbecis que se acham inteligentes “sacando” a “inteligência dos diálogos”. Um verdadeiro lixo. As referências ao cinema nazista podem parecer profundas e inusitadas para quem não conhece o cinema nazista, mas como fiz doutorado sobre esse cinema, percebo os buracos.

    Georg Wilhelm Pabst, por exemplo, é citado com admiração, pois Tarantino só deve conhecer a fase alemã muda e a fase francesa dele, não a fase nazista (Komödianten, Paracelsus, Der Fall Molander). Assim, ele critica a Riefenstahl, mas preserva o Pabst, anunciado “sem necessidade” (como nota o jovem soldado Zoller) no cartaz de Pitz Palü, que não foi produzido na Alemanha nazista, mas na República de Weimar.

    Claro, uma “Semana Alemã” em uma sala de cinema de Paris sob a Ocupação poderia estar exibindo uma reprise. Mas por que não algum filme nazista de Veit Harlan ou Hans Steinhoff? Ah, sim, a dona do cinema é uma jovem judia camponesa escapada de um massacre graças ao estranho “au revoir” do supostamente impiedoso “caçador de judeus”; ela chegou caminhando, ou sabe Deus como, do interior da França até a Paris ocupada, onde herdou legalmente, sabe Deus como, um cinema em plena Ocupação; e, claro, cinéfila inveterada, ela mantém um arquivo de filmes, de onde sacou esse velho filme, embora deteste Riefenstahl, exibindo Pitz Palü apenas como uma homenagem a Pabst...

    Ora, precisamente nessa altura Pabst estava trabalhando na Alemanha nazista (ele devolveu ao governo francês, dois meses antes da declaração de guerra, uma medalha da Legião de Honra que ganhara, e com a eclosão da guerra, em 1939, ele retornou à Áustria, de onde seguiu para a Alemanha para realizar filmes de propaganda nazista a convite de Goebbels, ajudando, inclusive, a Riefenstahl – que a jovem judia camponesa proprietária de cinema e cinéfila inveterada detesta – na direção de algumas cenas em que ela atuava em seu Tiefland...

    Em certa cena, uma canção cantada por Zarah Leander é ouvida ao fundo, mas o nome da maior diva nazista não é mencionado, apenas o da secundária Brigitte Fossey e da veterana Pola Negri (personagens no jogo de adivinha) e o de Lilian Harvey (inglesa que após trabalhar em alguns filmes nazistas imigrou para os EUA, onde não fez sucesso; o Goebbels de Tarantino fica furioso no cinema quando lembram o nome dela).

    Já a estrela nazista Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que ajuda os “Bastardos”, parece vagamente inspirada em Olga Tchekova (que espionava para o NKVD, diretamente subordinada a Beria, segundo a recente biografia escrita por Antony Beevor, que também revela o trabalho de espionagem para os soviéticos de Zarah Leander, subordinada a Zoia Ribkina) e em Renate Müller (que tinha um amante judeu na Inglaterra, para onde escapava às escondidas, e que acabou sendo “suicidada” pela Gestapo).

    De qualquer forma, as referências ao cinema nazista são sempre vagas e imprecisas – como a súbita irrupção de um nada parecido Emil Jannings na seqüência da estréia do filme-dentro-do-filme “O Orgulho da Nação”... Na crônica “Bastardos gloriosos” (Folha de S. Paulo, 13/10/2009), João Pereira Coutinho perguntou: “Vocês, caros leitores, estão habituados a filmes sobre o Holocausto onde os judeus são meros carneiros nas matanças nazistas? Filmes de um sentimentalismo vulgar (...)? [Em "Bastardos Inglórios"] os judeus, agora, não são apenas vítimas; também são vingadores (...)”. Ou seja, os filmes que tentaram apreender a verdade sobre o Holocausto, como Ostatni Etap, Ulica Graniczna, Daleká Cesta, Professor Mamlock, A Orquestra de Auschwitz, Shoah, As 200 Crianças do Dr. Korczak, A Lista de Schindler, O Pianista, etc são “de um sentimentalismo vulgar” porque neles os judeus são vítimas... Quando não o foram?

    O cronista e seus leitores preferem a “inversão de estereótipos” do “Cirque de Solei” sangrento de Tarantino. Não percebem que o cineasta, sem qualquer cultura (ou, antes, formado pela subcultura de filmes de Kung Fu e Blaxploitation, com algumas doses da Nazi-exploitation que inclui títulos como Ilsa, She Wolf of the SS; La bestia in calore; L’ultima orgia del III Reich; Quel maledetto treno blindato - que nos EUA recebeu o título agora reutilizado por Tarantino, etc.) cai nos estereótipos mais antigos sobre os judeus: a gangue dos “Bastardos” – assim como a esquizofrênica Shosanna Dreyfus (nome escolhido a dedo) – são movidos pelo ódio vingativo como o Shylock de O Mercador de Veneza, de Shakespeare; o Judeu Errante, de Eugene Sue; ou o Samuel Mayer do romance mediúnico A Vingança do Judeu, do “espírito” J. W. Rochester, revelando-se tão carniceiros quanto os “judeus” das caricaturas de Der Stürmer...

    No revisionismo dos trapalhões escalpeladores de Tarantino, os principais dirigentes nazistas, incluindo Joseph Goebbels (Sylvester Groth) e Adolf Hitler (Martin Wuttke), são mortos pelos judeus Bastardos. Todos são representados por atores tão pouco parecidos quanto o grotesco Winston Churchill caracterizado por Rod Taylor, escondido como uma aranha num canto de seu sombrio gabinete. E os judeus ainda são aí homens-bombas terroristas e massacradores de nazistas “indefesos” (eles incendeiam um cinema lotado e queimam vivos uns 400 nazistas desarmados na platéia).

    É incrível como a sensibilidade do público deteriorou-se, a ponto de tantos acharem inteligente, divertido e até excitante ver judeus arrancando a faca o couro cabeludo dos corpos nazistas – o escalpe “apache” que, em 1975, Pasolini associou para sempre aos torturadores fascistas de Salò... Há uma tendência moderna que consiste em saciar o sadismo das massas fascistóides contra os “vilões”. Tarantino radicaliza essa tendência, fazendo com que seus vilões nazistas sofram “como judeus” nas mãos de “judeus nazistas” que, supostamente bons, podem praticar todas as atrocidades contra eles: escalpo, cremação em massa, estouro de miolos, etc.

    É notável, nesse sentido, que o personagem de Brad Pitt, o Kapo americano não-judeu que organiza os “Bastardos”, nunca suje suas mãos, a não ser para marcar os nazistas. Ele encarrega os judeus de todo o trabalho sujo, eles é que têm de esmigalhar crânios e arrancar escalpos, supostamente se vingando, como um bando de cães, lobos ou ursos amestrados a serviço de seu “dono”. O Kapo Aldo Raine reserva-se apenas o privilégio de enfiar o dedo na ferida da estrela que trai os nazistas e de rabiscar a facão suásticas nas testas dos nazistas que deixa escapulir. E aí está mais uma ambigüidade do filme, pois ao mesmo tempo em que o personagem afirma que essa escarificação tornará os nazistas “visíveis” mesmo ao se livrarem de seus uniformes, o fato é que a escarificação de suásticas nas testas das vítimas é uma conhecida prática de gangues neonazistas.

    Em resumo, no filme de “clichês trocados” de Tarantino, os verdadeiros nazistas são os judeus e a alcunha que o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz) recebe, de “caçador de judeus”, é uma “indireta” dirigida ao “caçador de nazistas” Simon Wiesentahl. Com exceção do assassinato da família Dreyfus no começo do filme (seqüência copiada de A lista de Schindler, de Steven Spielberg, e de A lenda do cavaleiro sem cabeça, de Tim Burton), são sempre os judeus que trucidam, bombardeiam, metralham, cremam vivos, “tatuam” os inimigos na carne e queimam bens culturais – o auto-de-fé nazista de livros é aí transformado num judaico auto-de-fé de filmes.

    Em “Tarantino Touch” (Folha de S. Paulo, 18/10/2009), Coli chegou a comparar Bastardos Inglórios à magistral e sofisticada comédia antinazista Ser ou não ser, de Ernst Lubitch, e o “discurso vingador” de Shosanna ao emocionante discurso final de O Grande Ditador, de Charles Chaplin, com desvantagem para esse último: o discurso de Tarantino “nada tem do tom didático [de Chaplin]... é uma esplêndida apoteose feita com o prazer de filmar para o prazer de assistir”. O grosseiro pastiche de Tarantino evocaria o Lubitch Touch e superaria a obra-prima de Chaplin!!! Quanta baboseira...

    Sintomático que o ato final de barbárie da “heroína” vingadora tenha sido interpretado por Coli e outros críticos como uma prova do grande “amor” que o “genial Tarantino” dedicaria ao cinema. Estranho amor, que se demonstra queimando películas e atribuindo esse terrorismo a uma judia e a um negro... E depois Tarantino tem o desplante de ir a Israel mostrar seu filme, talvez esperando que o “exército nazista” do Estado Judeu (na visão dos novos antissemitas) se “reconheça” nos seus personagens aplaudindo Bastados Inglórios, como as platéias alheias à História que gargalham nos cinemas multiplex que fedem a mofo e pipoca amanteigada...

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    [Aeternus:12528] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-20)


    - bastardos na internet, via salvador

    Bastardos Inglórios", de Quentin Tarantino, restitui o prazer do cinema, diz
    crítico
    André Setaro
    De Salvador (BA)
    O cinema de Quentin Tarantino é uma 'farra' de referências e de alusões
    cinematográficas, um cinema construído com a memória dos filmes vistos que
    se reprocessam na estrutura narrativa de seus filmes. O que poderia parecer,
    à primeira vista, uma colcha de retalhos, uma miscelânea, adquire, porém, um
    vigor próprio, e se conflui num estilo particular a ponto de se sentir em
    seus personagens um "homus tarantinianus".
    "Bastardos inglórios" ("Inglourious Basterds", 2009) é, a rigor, um filme
    sobre cinema, uma festa para os cinéfilos, 153 minutos de ação e emoção, e
    as influências do autor, adquiridas na visão obsessiva de filmes e filmes,
    adquirem, aqui, um caráter, poder-se-ia dizer, de "fraturas expostas". Mas o
    que Tarantino recolhe de sua memória, de seus "recuerdos", enquanto
    espectador, é um material que sofre um processo de manipulação, de marchas e
    contramarchas, de subversão dos clichês (não apenas pela pretensão de
    subvertê-los, mas como um recurso de seu estilo, de sua maneira de pensar e
    refletir o cinema visto), uma manifestação ou, mesmo, uma declaração
    explícita de amor a determinados "modos" de fabulação e, mais importante, da
    maneira pela qual o específico cinematográfico é "posto em cena." O
    resultado de "Bastardos inglórios" é uma obra que revigora e que vem atestar
    a criatividade num momento em que a arte do filme se encontra no atoleiro da
    mesmice e da inexistência de inventores de fórmulas.
    A apontada subversão de clichês se dá, na estrutura narrativa de "Inglorious
    basterds", pela frustração das expectativas convencionais. Quando o filme
    parece que se encontra a tomar um rumo determinado, há uma reviravolta capaz
    de frustrar o espectador habituado à convenção da linguagem cinematográfica
    e de levá-lo a ter uma surpresa. Tarantino manipula a "mise-en-scène" com um
    objetivo bem precípuo: o de dar ao espectador o prazer do cinema e fazer
    deste um exercício de liberdade criadora.
    Uma subversão, por assim dizer, partida mesmo do próprio "plot". A ação, que
    transcorre durante a Segunda Guerra Mundial, as costumeiras vítimas dos
    filmes de guerra da época, os judeus, assumem, em "Inglorious basterds", a
    condição de vingadores brutais num processo de inversão. A Alemanha ocupa a
    França da liberdade, igualdade e fraternidade, e, nos seus primeiros anos,
    uma mulher, Shoisanna (Mélanie Laurent) testemunha a execução de sua família
    pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz em interpretação
    impressionante). A judia sobrevivente ao massacre, no entanto, consegue
    escapar e foge para Paris, onde muda o seu nome e assume a identidade de uma
    dona de um cinema 'poeira'. Em outro lugar da Europa, o tenente Aldo Raine
    (Brad Pitt, outra excelente composição de personagem e mais impressionante
    ainda em se tratando de Pitt) prepara um grupo de soldados judeus
    americanos, "os bastardos", que objetiva espalhar o terror contra os alemães
    e eliminar os líderes do Terceiro Reich.
    A influência mais notória, confirmada pelo próprio diretor, é a de Enzo G.
    Castellari, obscuro realizador italiano de westerns-spaghettis ("Deus criou
    o homem e o homem criou o colt"/"Quella sporca storia nel west", 1968, "Vou,
    mato e volto"/"Vado, l'ammazzo e torno", 1967, "Mate todos eles e volte
    só"/"Ammazzali tutti e torna solo", 1967, ", entre outros filmes de ação e
    'thrillers'). E também a de Robert Aldrich, o grande Aldrich de "Os doze
    condenados" ("The thirty dozen", 1968). Há lampejos de Leoni, Ford, e mais,
    e mais.
    O início de "Bastardos inglórios" dá a impressão de se estar a ver um típico
    'western-spaghetti'. A primeira sequência é um primor e poucos os cineastas
    contemporâneos que sabem usar os diálogos com a fluidez de Tarantino. Faz
    lembrar aquela conversa entre Samuel L. Jackson (que em "Inglorious
    basterds" funciona como o narrador em voz 'off') e John Travolta, que
    discutem, em "Tempo de violência" ("Pulp ficction", 1994), as vicissitudes
    de se massagear os pés femininos minutos antes de uma matança generalizada.
    Depois de "Jackie Brown", verdade seja dita, não se esparava mais nada de
    Quentin Tarantino, ainda que os dois "volumes" de "Kill Bill" (2003/04)
    sejam apreciáveis. "Bastardos inglórios", no entanto, surpreendeu incrédulos
    no seu cinema que se pensava perdido em meados dos anos 90. Tarantino surgiu
    para a arte do filme com "Cães de aluguel" ("Reservoir dogs"), em 1992,
    visto aqui no Brasil, pela primeira vez, na Mostra Internacional de Leon
    Cakoff. Inspirado no clássico "Rashomon" (1950), do mestre japonês Akira
    Kurosawa, que aborda a questão do "ponto de vista múltiplos", e, por eles, a
    reflexão sobre a verdade dos fatos, "Reservoir dogs", na sua estrutura
    narrativa, mostra um fato a ser recontado várias vezes por diversos
    personagens. O 'plot' apresenta uma quadrilha que tenta roubar diamantes,
    mas algo dá errado, e os sobreviventes da bárbara ofensiva policial,
    trancafiados num lugar, reconstituem o episodio para se chegar a uma
    conclusão de quem é, realmente, o culpado. A articulação da linguagem lembra
    a estrutura proposta por Stanley Kubrick em "O grande golpe" ("The
    killings", 1955). Mas a segurança e o domínio formal de Tarantino são
    evidentes.
    Se "Reservoir dogs" fica restrito aos cinéfilos mais impertinentes (um
    sucesso muito mais em VHS do que em salas de cinema, onde chega a ser
    exibido quase escondido), "Tempo de violência" (o título que toma aqui "Pulp
    Fiction", 1994) é um êxito e dá início à "Tarantino mania". Palma de Ouro no
    Festival de Cannes e Oscar de roteiro original, "Pulp Fiction" conta uma
    história que se desenvolve em três partes não-cronológicas e possui momentos
    antológicos (como a cena da dança entre John Travolta e Uma Thurman). Além
    do mais, os diálogos são inteligentes e a narrativa possui frescor,
    envolvência, e Tarantino mostra aqui o seu imenso talento de cineasta. Um
    personagem, por causa da ausência da cronologia, morto numa das partes
    reaparece em outra, a provocar uma certa estupefação naqueles mais
    conformistas com a tradição do discurso cinematográfico.
    O fato é que "Bastardos inglórios" restitui ao espectador o prazer do
    cinema, um prazer cada vez mais raro no lixo audiovisual contemporâneo. E,
    copiando Jean-Luc Godard, quando escreveu no Cahiers du Cinema que "o cinema
    é Nicholas Ray", digo aqui e agora: "O cinema é Quentin Tarantino".

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    [Aeternus:12540] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-10-21)


    - CHE via LFGS

    # CHE 2 – A GUERRILHA (CHE: PART TWO) EUA/Espanha/França, 2008, 135 minutos
    Direção e Fotografia: Steven Soderbergh (sob pseudônimo como fotógrafo)
    Roteiro: Peter Buchman e Benjamin A. van der Veen Edição: Pablo Zumárraga
    Direção de Arte: Juan Pedro de Gaspar Música: Alberto Iglesias
    Elenco: Benicio del Toro, Franka Potente, Joaquim de Almeida, Jorge Perrugoría; Lou Diamond Phillips e Matt Damon em participações especiais.
    Site oficial:: http://www.cheofilme.com.br/

    A BUSCA DA REALIDADE TAL E QUAL

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO  em 21/10/2009 para o site www.criticos.com.br

    A segunda parte do filme de Steven Soderbergh sobre Che Guevara credita seu roteiro como baseado nos diários que ele escreveu na Bolívia. Deixando isto bem claro, o filme é uma série de episódios mais ou menos isolados, antecipados pela informação do dia da campanha terminal e mal-sucedida de Guevara: “dia 1”, mais adiante “dia 106”, bem mais adiante “dia 270”... até o amargo fim quando a câmera opta pelo ponto-de-vista do prisioneiro ao receber os tiros que o executaram. Na falta do registro do homem que morreu, a câmera tenta suprir o que seus olhos viram pela última vez.

    O que se vê na tela poderia ser chamado de uma crônica de morte conhecida - e de um fracasso anunciado, tal as condições precárias com que Guevara teria embarcado em uma aventura que, pelo que é mostrado, foi mais do que quixotesca: em algum momento poderia ser “brancaleônica”, mas sem nenhuma graça.

    Este segundo filme deixa ainda mais questionada a opção – ambição – de Soderbergh, já evidente no filme anterior: entre realizar uma obra de ficção que transmitisse de modo verossímil e verdadeiro a utopia de Guevara – e tentar uma recriação com mimese documental do dia-a-dia desta aventura , o diretor opta pela segunda proposta, fazendo de seu filme um réquiem sem grandeza, uma seqüência amarga e triste de desacertos e desencontros, uma cansativa encenação que parece tentar refazer a realidade do que teria acontecido “em um por um”. E ele insistiria nesta tecla em um de seus filmes seguintes (Confissões de uma Garota de Programa, cuja crítica de Leonardo Luiz Ferreira no www.criticos.com.br  chamou de “artifício de falso documentário” ao qual ele sobrepôs “desajeitadas camadas de ficção”).

    Pelo menos o cineasta não usou a surrada fotografia granulada para imitar filmagens precárias de cine-jornais antigos. Nem abusa de muita câmera na mão que pudesse levar o espectador à cinetose e enjôo. Mas não livra o filme de ser uma melancólica tentativa ao pretender a encenação da realidade “tal e qual”. Com esta opção radical Soderebergh parece destituir o Cinema da capacidade de representar a realidade histórica, atendo-se a uma narrativa “jornalística” e de pretensão realista-naturalista.
    O fracasso da utopia de Guevara se transforma no fracasso da pretensão de Sorderbergh


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    [Aeternus:12594] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-01)


    - Os Desinformantes

    A tradução para o filme "The Informers" é ruim, parece título em Portugal.  Matt Damon, o ator, é excelente, vale a pena ver este filme chatíssimo só por causa dele.  Como aconteceu com "Little Miss Sunshine" fiquei durante a primeira metade da projeção sem entender como é que produziam uma história enrolada e burocrática como um filme de apelo popular. De repente, a coisa encaixou e então o que me sobrevinha era angústia, indignação e riso. Podia ser a história do Brasil desde o governo Collor, culminando nas aventuras Sarney-Lula. Só que lá os observadores eram do FBI e, aqui, provavelmente seriam os jornalistas.

    Como caracterização de um quadro psicótico (diagnosticado como bipolar!) com mentiras compulsivas e perda parcial do senso de realidade, achei fantástico. A megalomania praticada numa escala de quase-normalidade e as invenções do personagem eram inquietantemente semelhantes às pequenas mentiras de cada dia em um cidadão normal, com toques de genialidade. Assim como a representação da dinamica capitalista e da globalização. Melhor que Superman III.  Como espectadora (um dia serei espectatriz ou, se demorar nessa conquista, uma espectradora) em nenhum momento torci por algum dos protagonistas, mas de certo modo, torcia por mim mesma, pelos valores que construi, pelo mundo em que gostaria de estar vivendo. Pois o filme arrancava todas as certezas sobre o que em priscas eras aprendi sobre humanismo e civilização moderna.

    Será que preferia não ter visto o filme? Depois que passou e eu estava em casa com meus pesadelos, acho que valeu a pena ter ido. Se pudesse escolher antes de saber o que me esperava, não iria não.


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    [Aeternus:12595] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2009-11-01)


    - RE:Os Desinformantes

    Concordo integralmente com o que Jansy escreveu sobre "O Desinformante". O título é lesado, mas talvez tenham optado por esta leseira pelo fato de que outro filme tem o título brasileiro de "O Informante" - que no original era "The Insider", com Al Pacino e Russel Crowe, baseado em história real quando um biólogo aceitou falar em público (na TV) sobre haver produtos que as empresas de cigarros acrescentam ao tabaco para induzir os usuários biológicamente à maior e mais rápida dependência química. O fato real se deu 1994 e o filme de 1999, dá para lembrar?

    Era o contrário do "des-informante" também baseado em episódio real; só que no filme mais antigo o sujeito denunciava verdades e neste, como o tíltulo lusitano diz, informa mentiras (patológicas). Acho que o biólogo se deu mal na vida real enquanto o des-informante deste filme mais recente se deu bem, mais cedo ou mais tarde. Mas apesar do título ruim, acho que fica logo logo evidente que o sujeito dava informações falsas ao FBI. Se metade do que o filme mostra aconteceu, o cara era muito ousado, loucamente ousado, claro!

    O filme é mais uma prova de que o diretor Steven Soderbergh é mais pretensão do que competência, tendo começado bem sua carreira em 1989 com  "sexo, mentiras e videotapes", mas logo (1991) escorregou em um "Kafka" que misturava a vida do escritor com seus escritos e já era uma bobagem pretensiosa e chata. Um interessante e mais "rotineiro" "King of the Hill" (O Inventor de Ilusões no Brasil) contava de um garoto de seus 10 anos deixado pelos pai em um hotel na época da Depressão econômica dos anos 1930. Era legal, tenho boa lembrança; foi em 1993 e o sujeito ficou meio sem projeção até um outro filme simpático de '98, "Irresistível Paixão" (Out of Sight) com George Clooney como um  ladrão que namorava uma agente do FBI (Jeniffer López). Pródromos do "Desinformante"?

    Com "Traffic" (2000) recebu Oscar de roteiro e direçao ao mesmo tempo em que Julia Roberts recebi o dela por "Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento" que el tb dirigiu.

    Aí, ficou se achando e agora faz filmes "comerciais" como "Onze Homens e um segredo" (que deu origem a "Doze" e Treze"... homens e um segredo) para financiar seus filmes de pretensão "artística" como doi a blasfêmia de refilmar "Solaris" de Andrei Tarkovski - prá que? precisava? e acho que até mudou o que era a ideia de Tarkovski sobre a impossiblidade de reviver o passado.

    Com "Full Frontal" mostrou o que ele acha que é filme "de arte" e "muderno" - uma bomba completa de mau hálito intelectual. Assim como o metido "Confissões de uma garota de programa", bem recente.

    Chamou a atenção por agora pelo mastodôntico "Che", em duas partes, tentando recriar a vida do Guevara como se fosse um quase-documentário, o que ficava especialente chato na segunda parte.

    Esse "Desinformante" me deixou confuso no funcionamento de empresas com  jeitinhos, golpes, truques - e quando fica mais interessante no terço final já cansou o suficiente.

    Nada do que ele fez nos últimos anos me agrada especialmente: muito esforço pretensioso, certa competência artesanal que nem sempre funciona, e resultados que não me encantam nos filmes "comerciais" e que são boagens completas nas pretensões "de arte".
    Gallego

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    [Aeternus:12596] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-01)


    - RE:RE:Os Desinformantes

    Há táticas Nabokovianas no Soderbergh que me agradam. Ele também é um diretor não-confiável. Digo isto porque no filme ouvimos que o informante tem dois filhos adotivos, depois sabemos que tem um filho biológico e dois adotivos, vemos a foto de família desfocada com tres crianças e, na verdade, durante o filme só aparece o garoto louro que deve ser o único e biológico...


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    [Aeternus:12632] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-08)


    - Gallego envia opiniões sobre filmes no festival em Brasilia

    Olá, brasilienses!
    O Festival Internacional de Cinema de Brasília é uma das coisas mais interessantes que acontecem na cidade.
    Oportunidade rara de ver em pouco tempo dezenas de ótimos filmes.
    A maioria ocorrerá na Academia de Tênis. Alguns no CCBB.
    Alguns desses filmes foram exibidos no Festival do Rio em setembro/outubro.
    Os que eu vi e que me lembro de alguma coisa para dizer:

    A Fita Branca - Palma de Ouro em Cannes (não sei se é para tanto), fotografia incrível em preto-e-branco. Interessante, bem enigmático.

    500 dias com ela - uma comédia romântica que tenta ser diferente das tantas que são lançadas aos montes. Valeu o esforço, algo agradável de se ver - apesar de alguma cenas dispensáveis e bobocas. Já está com lançamento comercial no Rio esta semana. A atriz principal sorri demais.

    À Procura de Eric - Gosto do diretor Ken Loach, inclusive dos filmes mais recentes dele que foram recebidos firamente pela crítca, apesar de um deles ter ganho Palma de Ouro em Cannes (esta eu achei mereceida).
    Mas não curti muito este "À Procura de Eric". É simpático (até demais) com muito "wishful thinking" misturado com o ambiente de classe trabalhadora inglesa como em quase todos os filmes do diretor. Para quem gosta de futebol tem um atrativo a mais: um ex-jogador fazendo seu prórpio papel, um figuraça. Acho que vai agradar ao público em geral, mas eu não curti muito, não.

    Algo que você precisa saber - já foi lançado comercialemnte no Rio. Vale pelo desempenho da Charlotte Rampling. Não curti muito também não. Excesso de coincidências atrapalham. Outros atores também muito bons. Dá para ver sem esperar muita coisa.

    Anticristo - também já está até saindo de cartaz aqui no Rio. Um horror, um filme doentio com cenas de mutilação físicia insuportáveis. Pretensioso, mas com mau hálito intelectual, um lixo metido a besta. Valeu por uma ária de Handel mas não precisamos ver esta bosta para escutar esta música (maravilhosa).

    Coco Chanel & Igor Stravinski - um filme decorativo. Vale pela recriação da coreografia original do ballet  "Sagração da Primavera". Só.

    Barba Azul - imitação de Eric Romer - que frequentemente me cansa. Não deu para cansar porque é curto, mas tem aquele distanciamento e frieza que parte da crítica acha muito chique e elegante. Acho pretensão sem substância. Pode ser curiosa esta encenação pastel do conto de Perrault alternando com duas menininhas lendo o conto nos dias de hoje, mas eu não curti.

    La Nana - esse eu gostei, achei um filme bem realizado dentro do que se propõe: um retrato das relações empregada doméstica-família que poderia se pasar no Brasil tal como se passa no Chile. Atriz excelente faz a doméstica. Bem desenvolovido e quando vi achei que tinha algum interesse para psicanalistas mas eu não podia dizer qual seria para não entregar o desnvolvimento para o final da história. Agora esqueci qual seria o tal interesse psicanalítico - se é que existe mesmo. Personagens bem delineados e bons atores.

    Tatarak - do grande diretor polonês Andrej Wajda, mas eu gostei bem mais do anterior dele, "Katyn". Esse é bem lúgubre, girando em torno de perdas. Tem qualidade, mas achei que acaba sendo um pouco óbvio ao mostrar a atriz principal fazendo seu próprio papel em enormes monólogos sobre a doença e morte de seu marido, o que atrasou as filmagens. Mas esta opção não deixa de ser forte.

    The Messenger - um bom filme do tipo quando americano faz filme sério. Nada muito excepcional, mas sólido, com excelentes interpretações e uma boa história.

    Tóquio - Não gostei: 3 episódios com clima meio "fantástico". O último é o melhorzinho.

    Mother - Muita gente adorou este filme, achou o melhor do festival do Rio. Achei bom, é bem desenvolvido, prende a atenção, mas não lembro bem porque gostei sem achar tão muito bom assim como disseram. É do mesmo diretor do último episódio de "Tóquio".

    New York, I love You - melhor do que o "Paris, Je t'aime", feito em moldes parecidos: dezenas de diretores, atores e pequenas histórias. Em Paris eram 23 (demais), aqui são dez, o que ajuda a desenvolver um pouco mais as situações obrigatoriamente breves e  episódicas. Conseguiram mais organicidade entre as historinhas. Foi agradável ver este filme.

    Tulpan - Geralmente não curto de filmes "etnográficos", passados em locais onde nunca iremos como nesta planíce empoeirada do Cazaquistão, cheia de ovelhas e camelos eventuais e pouca gente. Mas este filme me desceu bastante bem.

     
     
     

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    [Aeternus:12746] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-27)


    - Segredos e Negações, enviado pelo Gallego

    SEGREDOS E NEGAÇÕES

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO  no site www.criticos.com.br
    (Texto revisto a partir do que foi publicado durante o festival do Rio 2008)

    # UM SEGREDO EM FAMÍLIA (Un secret) França/Alemanha, 2007
    Direção: CLAUDE MILLER
    Roteiro: Claude Miller e Natalie Carter, baseado no livro de Philippe Grimbert.
    Fotografia: Gérard de Battista
    Edição: Véronique Lange
    Música: Zbigniew Preisner
    Vestuário Jacqueline Bouchard
    Elenco: Cécile de France, Patrick Bruel. Ludivine Sagnier, Julie Depardieu, Mathieu Amalric,
    Duração: 100 minutos
    Site oficial: http://www.unsecret-lefilm.com/

    É importante esclarecer de saída que Un Secret (título original) é baseado em livro autobiográfico (Prêmio Goncourt des Lycéens de 2004) do psicanalista francês Philippe Grimbert que se dedica ao tratamento de crianças autistas. Portanto, nada a ver com “O segredo”, livro e filme de auto-ajuda ou algo parecido e de nome assemelhado.

    Consta que o romance retrata a história familiar de Grimbert, história que lhe foi escondida durante muitos anos. Ele era um menino frágil que percebia desapontar intensamente seu pai, Maxime, um apaixonado por esportes. Este pai era um judeu bem assimilado nos anos 1930, considerando-se, antes de tudo, um francês. Por temor da onda nazista e para não denunciar suas origens, ele havia modificado para "Grimbert" o sobrenome original (Grinberg), por ser muito típico e “denunciador”. Para Maxime, ser judeu era-lhe incômodo - e em algum momento ele chega a ser tachado de “anti-semita” pelos familiares.

    O filme tem a chancela de fidelidade para com uma história realmente acontecida, abrindo-se em cenas passadas no ano de 1955 e que enfatizam uma construção imaginária do então pequeno Philippe – que no roteiro e no filme, não sabemos por que motivo, foi renomeado François. Mais do que um “amigo imaginário”, François inventou “um irmão mais bonito, mais forte, carismático e atlético”. Enquanto Tania, sua atraente mãe (Cécile de France, que surge belíssima), pula com maestria do trampolim da piscina do clube que freqüentam, o menino mal entra na água, sente frio, quer ir para casa. Mas o “irmão” mergulha bem, nada bem, é hábil em ginástica olímpica. Durante o jantar, ele quer colocar mais um prato na mesa “para o irmão”, mas à noite é assaltado por pesadelos onde se vê em desvantagem frente às habilidades do “outro” mais atirado, ousado, destemido.

    O menino inventa também uma história heróica e cor-de-rosa para a vida de seus pais e demais parentes durante a guerra, o que fica bastante interessante sob o ponto de vista da verossimilhança à realidade psíquica de nossos desejos, fantasias, devaneios, sonhos, enfim, com nosso “mundo interno” em geral.

    Outro aspecto que sugere o psicanalista por trás do escritor é visto nas cenas passadas em 1985, quando François, já adulto (interpretado por Mathieu Amalric que também faz a narração em off) é avisado que seu pai está vagando pelas ruas depois que saiu para passear com o cachorro de estimação - mas o animal, sem coleira, acabou atropelado. Há um bom exemplo do conceito de après-coup descrito por Freud, quando um evento muito anterior a outro da atualidade vai ecoar com repercussão traumática no presente. Aparentemente, seria a morte do cão que abate tanto o Maxime agora bem idoso - e muito mais intensamente do que o que teria de fato acontecido durante a ocupação nazista na França, que se mantém como objeto de segredo para o filho numa óbvia tentativa de negação por parte dos seus pais. O narrador (François/Philippe) explicita didaticamente que a “culpa” de Maxime pela morte do cão não era a única nem a mais importante.

    Neste ponto o filme deixa em aberto uma sugestão de julgamento moral por parte de François ao seu pai (e sua mãe), ainda que François o poupe, não “interpretando” para o pai o cruzamento de sua responsabilidade no presente com situações do seu passado. A intenção do filme parece ter sido a de abordar a tragédia do nazismo com neutralidade - e de tratar dos desencontros amorosos, com ou sem nazismo, como fator mais - ou menos – determinante. Sem conhecermos o livro original somos invadidos por alguma estranheza pelo modo como os fatos antigos são mostrados no filme (seriam assim mesmo descritos no livro original, já que o autor fala de algo que não presenciou antes de seu nascimento?).

    Estamos enfocando a intensidade da atração sexual entre Maxime e Tania, através dos olhares (exageradamente?) acintosos da composição dos atores Cécile de France e Patrick Bruel. O casal exala sensualidade e beleza física. Ela confirma que não precisa ser sempre a mocinha sorridente de Um lugar na Platéia, por mais que seus deslumbrantes sorrisos também se façam presentes, só que agora longe do tom “glicosado” do filme que lhe trouxe alguma fama no Brasil: em roupa de banho, vestindo roupas clássicas como manequim (modelo) de alta costura, ou despida na cama, a atriz, além de tudo, tem um bom desempenho, em clave de adequada discrição (exceto quando olha para Maxime). Para encanto da platéia feminina diríamos que Patrick Bruel chega a lembrar Yves Montand - e seu desempenho, surpreendentemente, não foi indicado ao prêmio César, o chamado “Oscar francês”, no mesmo ano em que todos os demais atores principais foram nomeados embora apenas Julie Depardieu tenha sido laureada como coadjuvante - outro aspecto questionável, já que Ludivine Sagnier abdica até mesmo da sua beleza para uma interpretação comovente em papel não-protagonista.

    O filme aborda pontos delicados e que se desejaria que nunca tivessem existido: não só o nazismo em si mesmo, mas aspectos íntimos envolvidos ou/e agravados pela tragédia que foi o nazismo, referentes não só aos grandes carrascos mas às fragilidades e fraquezas humanas. Este desejo de que as coisas fossem menos complexas e até mesmo edulcoradas corresponde à atitude infantil de François-criança ao recriar um passado idílico para seus pais durante a guerra. E corresponde à negação dos adultos. Mas a realidade é outra e os segredos só fazem mal à história de cada um e - claro - à História com “H” maiúsculo, na medida em que se negaria o passado que permite tentar compreender algo presente. O tema da identidade étnica (no caso, judaica) poder ser negada com a finalidade de sobreviver - ou por outros motivos - esteve presente e abordado com muito maior complexidade e riqueza cinematográfica no filme de Amos Gitai, Mais Tarde você vai compreender.

    Em Um Segredo em Famíla os fatores que propiciam a tragédia familiar, que se vai tentar esconder, tem mais a ver com aspectos humanos que existem independentemente do nazismo. Não se trata de cobiça material (propiciada pela barbárie e/ou privações das guerras), mas de um drama burguês que poderia ter o mesmo desenvolvimento complicado fora do cenário da II Guerra e do anti-semitismo.

    O diretor Claude Miller já abordou antes situações de desvantagem emocional para crianças em A Pequena Ladra (roteiro que Truffaut não pôde filmar antes de morrer) e em Classe de Neige, exibido há dez anos em um Festival do Rio, mas absurdamente inédito comercialmente por aqui. Desta vez, os resultados cinematográficos não foram tão satisfatórios e o próprio enredo deixa em aberto questões complexas que, ou a adaptação para a tela, ou o psicanalista autor do livro, precisariam elaborar melhor - inclusive na recriação do drama que teria de fato ocorrido antes de se transformar em livro e filme.

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    [Aeternus:12747] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2009-11-27)


    - RE:Segredos e Negações, enviado pelo Gallego

    Pelo que Gallego descreveu deste filme restou-me a impressão de algo descozido na história. O segredo continua secreto (o que fez o pai que se assemelharia ao cachorro sem coleira que morreu atropelado?). A escolha do personagem para trabalhar com crianças autistas também não mereceu elaboração maior (passamos bruscamente da história do menino com seu amigo imaginário, o que hoje existe rotineiramente no mundo virtual com a criação dos "avatares") ou foi vista em associação à negação do judaismo.

    Por falar nisso, acho estranho um modo de construção de enredo que torna o  "ser judeu" como uma  coisa principalmente genética (racial), mais do que cultural ou de alianças sociais. Porque uma família judaica perfeitamente assimilada à nação francesa não poderia consider-se "francesa" e até continuar com sua fé judaica?  Caso semelhante é dos poetas "de lingua alemã" Friedrich Schiller e Heinrich Heine. Até certo ponto, também Sigmund Freud, que se apegava à herança transmitida pelo alemão e se orgulhava dos filhos que lutaram pela Alemanha na Primeira Guerra, como soldados alemães (embora lamentasse a guerra e tudo que ela demonstrava de barbárie seja de que lado fosse).  


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    [Aeternus:12813] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2009-12-18)


    - Scenes of a Sexual Nature

    Apesar do título, essa produção inglesa de 2006 traz uma visão balanceada da relação amorosa em nosso tempo, como vivida por diversas gerações que atravessam um bucólico resort junto à cidade sempre ao fundo.Verdes e árvores frondosas abrigam passantes de diversas motivações, que se entrecruzam ao acaso ou sob encontros marcados.
    O diretor e roteirista Ed Blum pincela em cada um desses meetings essências de suas posturas e pensamentos, sem tentar chegar a conclusões imediatas.Deixa a nós a 'tarefa' de sentir&fruir o que é mostrado, e a instigante atração de nos situar entre essa ou aquela simpatia, essa ou aquela postura.Solidão, esperança, ousadia, recato, simulacro, desencontro, possibilidade do amor e do encontro, impossibilidade.
    Ao final, um delicado painel sobre (des)encontros e essências éticas no amor pós-mudérno.Flutuamos desde a clássica hipocrisia hetero mais cristalizada até um maduro existencialismo gay, sem dispensar um flerte em 3ª idade e nuances de perversão, sempre na mesma tocada soft&gentle...

    Tanto a bela fotografia quanto a terna coluna musical dão contorno ideal ao projeto, que tem um elenco homogêneo e cujo nome de maior relevo é o de Ewan McGregor.

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    [Aeternus:12850] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-18)


    - avatar - critica pertinente

    SÓ PARA CRIANÇAS

    Por MARCELO JANOT
    19/12/2009

    Depois de mais de uma década de mistério e expectativa criados em torno de “Avatar”, é uma decepção constatar que o novo projeto de James “Titanic” Cameron não passa de um caríssimo filme infantil - não como os da Pixar, tipo “Wall-E”, que agradam tanto ou mais aos adultos. “Avatar” parece feito para crianças menores de 10 anos de idade. Bom para elas. Ruim para quem tenha o intelecto um pouquinho mais desenvolvido.

    Tudo o que se refere à trama do filme é banal e elementar. As nobres mensagens ecológicas e antibelicistas estão lá mastigadinhas para que não restem dúvidas de que a história, que se passa num futuro próximo, deve ser remetida ao presente e ao passado dos confrontos colonizador opressor X nativo oprimido, capítulos tristes na história das nossas civilizações. Para facilitar ainda mais a tarefa, muitos personagens se comportam como caricaturas exageradas, que beiram o ridículo. É o caso do capitalista yuppie inescrupuloso interpretado por Giovanni Ribisi e do coronel vivido por Stephen Lang. Caricaturas podem render grandes personagens e atuações magistrais (caso do coronel nazista de Christoph Waltz em “Bastardos Inglórios”), desde que se assumam como tal. No caso de “Avatar”, James Cameron pretende que eles sejam levados a sério, aí fica difícil de engolir.

    Também não dá pra entender porque o personagem-chave do filme é um ex-fuzileiro naval paraplégico. Se a intenção foi a de acentuar o contraste entre o Jake real, inválido fisicamente, e o seu avatar, capaz de correr, lutar, enfim, “renascer para a vida”, é uma opção que abre brechas para interpretações perigosamente discriminatórias. Da mesma forma, podemos imaginar que ele topou a aventura apenas para conseguir dinheiro para a cirurgia que lhe traria de volta os movimentos das pernas, possibilitando que levasse uma vida “normal”. Cameron também pode ter feito de Jake um paraplégico só para mostrar que conseqüências a guerra pode trazer – em um filme com soluções tão infantilmente simplórias, isso até que é possível.

    De resto, o roteiro se limita a reciclar fórmulas e clichês – uma pitada de “Matrix” aqui, outra de “O Exterminador do Futuro” ali, épicos românticos de aventura, sem contar a presença de mais uma chatíssima balada composta por James Horner para alguma sub-Celine Dion se esgoelar nos créditos finais. Por sorte, há um diretor de verdade por detrás das câmeras, e por isso, apesar de todos os problemas de roteiro, Cameron consegue fazer um filme que não chega a entendiar quem já passou dos 10.

    A boa direção se alia ao espetáculo visual apuradíssimo e revolucionário em termos tecnológicos. Personagens criados em computador nunca foram tão reais. O mundo de Pandora é deslumbrante em seus matizes derivados da cor púrpura. Pena que Cameron não explore todas as suas possibilidades. Os rituais xamânicos da tribo dos Na´vi, por exemplo, poderiam render imagens tão visualmente avassaladoras como as das coreografias de Busby Berkeley para os musicais da Metro, ainda mais em 3D. E por falar em 3D, o recurso é muito pouco explorado após o início promissor, em que a cena de Jake despertando na nave espacial nos faz imaginar Kubrick filmando “2001” em três dimensões.

    Enfim, se as crianças se deslumbrarem com o universo de “Avatar” e tiverem, desde já, sua consciência ecológica despertada, além de passarem a acreditar que a ganância dará lugar à fraternidade entre os povos, a obstinação de Cameron terá valido a pena.

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    [Aeternus:12851] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-18)


    - RE:avatar - critica pertinente

    Ainda não assisti "Avatar", filas longas demais para que me disponha a enfrentá-las. Contudo, meus netos insistem que eu vá e dois deles, que já foram quatro vezes, se ofereceram para ir uma quinta vez. Não se impressionaram com a ideologia caricata denunciada por Janot, ou pela questão ecológica. Gostaram da história. Como toda criança, embarcaram na aventura, gostaram ou odiaram os personagens e tal. Se eles querem que eu veja é porque reconheceram ali uma paisagem que me encantaria, como vi no trailer com algumas ilhas flutuando como no universo de Swift e magnetismo, ou de Verne. 

    Na verdade, não me impressionei pelo cuidadoso trabalho de reconstituição para o filme Titanic. Talvez não vá gostar dos cenários de Avatar pelo mesmo motivo, algo escrachadamente grandioso e, nos detalhes, oprimente. O visual tiranizando a imaginação... Como no filme do Sherlock Holmes, quando o que é imaginado não é mais descrito com palavras (no filme Dr. Jivago vemos horrores invisíveis pelos olhos de Omar Sharif vendo uma chacina de sua sacada) e encenado para o espectador que fica obrigado a permanecer isso mesmo, espectando.

    Hoje vi outro filme para crianças (não escapei de Alvin e esquilos/esquilas cantantes) sobre "Onde Vivem os Monstros" (dirigido por Tom Hanks, pareceu). Cenário surrealista, colorido em tons marrons maravilhosos, esculturinhas e desertos mas,... além da psicologia americana exacerbada com um suspiro de Melanie Klein, um tanto barulhento e enervante. Um menino hiperativo, ciumento, com medo de ser abandonado grita e corre todo tempo. A mãe, uma santa. Os monstros gerados pelo ódio dele, gracinhas destrutivas e ambivalentes. Tem até uma ogra que esconde o garotinho na boca para o outro, mais zangado, não o devorar. Legalzinho, mas pouco convincente. Pra mim. Pros meus netos, que sairam meio inquietos, parcialmente tocados pelos eventos, mas logo esqueceram da coisa. Acho que Tom Hanks ficou marcado pela bola de volei que carregou no filme O Naufrago... Se me mostrarem que o filme é ótimo, aceito. Se o demolirem, aceito. Não consegui, fora o ligeiro tédio, chegar a qualquer conclusão. Mas tinha cenas bonitas, estéticamente falando. Assustadoras ( as brigas/brinquedos) dos monstros. O mundo moderno está cada vez muitas gerações à minha frente...


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    [Aeternus:12852] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-18)


    - RE:RE:avatar - critica pertinente

    Não enfrentei longas filas no Shopping Boulevard no final da Asa Norte. Sala excelente, amplo estacionamento ... Fica a sugestão. O que eu mais gostei da sessão foi o trailer do Shrek em 3D.


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    [Aeternus:12853] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-19)


    - RE:avatar - critica pertinente

    Acho que o meu amigo Janot foi um pouco duro demais em relação a "Avatar".

    Da primeira vez que o vi, em 3D e dublado em português, fiquei meio cansado na parte final de combate: é muito longo! Por circunstâncias várias tive que assisiti-lo de novo, sem ser em 3D e na língua original, com legendas. Mantive a opinião de que o filme acaba por ter que atender às "leis do mercado" pelos excessos nas cenas de batalha que fazem o delírio das plateias mais jovens - e que se tornou coisa obrigatória nos chamados "blockbusters" (no meus áureos tempos chamávamos de "superproduções"). Nos anos 1970/80 surgiram as corridas desabaladas de automóveis em ruas comuns e estreitas de cidades populosas à moda de "Bullit" ou do primeiro "Operação França" (e até hoje "filme de ação" tem que ter correria - de carro, avião, metrô ou trem, estes para desastres, é claro); depois vieram os desastres com explosões apocalípticas em som estereofônico, destruindo tudo e muito mais; agora, com efeitos digitais, a herança de "Guerra nas estrelas" se faz notar como novo mandamento hollywoodiano. E "Avatar" não foge ás cenas de catástrofe, corridas (aéreas) e explosões que as guerras propiciam.

    Mas acho que a historinha de "Avatar" pode funcionar para maiores de 14 ou 18 anos, por mais maniqueísta ou esquizo-paranóide que seja, ao dividir o mundo entre azuis humanóides da espécie Na'vi, "bons selvagens" e ecologistas  literalmente  viscerais de um  lado; e brancos humanos azedos, invasores e malvados (mas muito malvados mesmo), por força da cobiça e compulsão colonialista e pedradora. Talvez seja demais esperar algo mais intelectualizado de James 'Titanic' Cameron ou de qualquer filme "blockbuster": a atração é audio-visual, dirigida aos sentidos com um molho de alguns neurônios de informação que repita as "boas intenções" morais. Sempre foi assim desde os antigos filme "bíblicos" e parece difícil que a ambição de atingir plateias all over the world vá mudar.

    "Avatar" deixa claras as suas analogias críticas às invasões norteamericanas - ao Vietnan, ao Afeganistão, ao Iraque - quase nunca pelos motivos alegados das tais "boas intenções": na verdade, cobiça, dinheiro, poder, petróleo e afins são mal dissimulados por
    " campanhas contra o 'eixo do mal' ".

    É no terreno do já sabido, já visto e já conhecido que os filmes "de massa" buscam trânsito junto ao grande público. Melhor que defendam as "boas intenções" do que alardeiem os direitos da "Pax Romana" à moda ianque, ou seja, com muita guerra e destruição.

    A bandeira ecológica, mas do que uma efetiva consciência global é uma moda que todos defendem mais em tese do que na prática e também está lá no filme, com destaque.

    Os cinéfilos mais velhos que tiveram sua juventude ainda pontuada pelos "filmes de mocinho e bandido" não vão estranhar o maniqueísmo de "Avatar", podem até encontrar alguma satisfação com um mundo mais simples onde se saberá exatamente quem é o "mocinho" do lado do bem e quem é o "bandido" malvado. O que pode nos incomodar é que mesmo em nossa juventude, os "westerns" já estavam mudando para apresentar visões menos simplistas da colonização norteamericana: os índios passaram a ser olhados de modo menos caricato e mais digno; e as acusações de "genocídio" indígena foram se infiltrando no cinemão americano. Neste sentido, o roteiro de "Avatar" lembra demasiadamente o que já se via em 1964 quando o mestre John Ford realizou seu réquiem pelos indígenas em "Crepúsculo de uma Raça" (Cheyenne Autumn) - e mais ainda nos posteriores "Um Homem chamado Cavalo" (1970) e "Dança com Lobos" (1990) - que já era uma cópia do mais antigo "Renegando o meu Sangue" que Samuel Fuller dirigiu em 1957.

    Ainda que pouca gente da plateia venha a saber, são negros todos os atores que emprestaram seus corpos para serem transformados nos principais personagens azuis Na'avi do planeta Pandora (que ainda tem a esperança como a última que morre). Neste sentido, o filme também é pró-afroamericanso e "politicamente correto". Reclamar disso nerm sempre é adqueado, podendo ter um resultado formativo sobre a "opinião pública" melhor do que o negro estuprador de "Nascimeto de uma nação", filme de Griffith considerado a pedra fundamental da linguagem cinematógráfica em 1914, mas moralmente abjeto em sua defesa da Ku-Klux-Klan e da visão dos negros com tarados e perversos violadores de inocentes mocinhas brancas.

    Por outro lado, os cenários virtuais "deslumbrantes" do planeta Pandora nem semrpe escapam a estética brega que muitos desenhos animados de Walt Disney trazem sem sua imagística.

    De qualquer modo é legal que o filme comece e termine com um abrir de olhos.

    Gallego

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    [Aeternus:12854] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-01-19)


    - RE:RE:avatar - critica pertinente

    Gallego, apreciei enormemente seus comentários sobre Avatar. Retornarei mais tarde para dar destaque a várias frases "lapidares" suas...


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    [Aeternus:12856] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-01-19)


    - recortando ...

    Extraídas da mensagem do Gallego sobre AVATAR:

    "...o filme acaba por ter que atender às "leis do mercado" pelos excessos nas cenas de batalha que fazem o delírio das plateias mais jovens ...agora, com efeitos digitais, a herança de "Guerra nas estrelas" se faz notar como novo mandamento hollywoodiano. E "Avatar" não foge ás cenas de catástrofe, corridas (aéreas) e explosões que as guerras propiciam.Mas acho que a historinha de "Avatar" pode funcionar para maiores de 14 ou 18 anos, por mais maniqueísta ou esquizo-paranóide que seja, ao dividir o mundo entre azuis humanóides da espécie Na'vi, "bons selvagens" e ecologistas  literalmente  viscerais de um  lado; e brancos humanos azedos, invasores e malvados (mas muito malvados mesmo), por força da cobiça e compulsão colonialista e pedradora. Talvez seja demais esperar algo mais intelectualizado de James 'Titanic' Cameron ou de qualquer filme "blockbuster": a atração é audio-visual, dirigida aos sentidos com um molho de alguns neurônios de informação que repita as "boas intenções" morais. Sempre foi assim desde os antigos filme "bíblicos" e parece difícil que a ambição de atingir plateias all over the world vá mudar.
    "Avatar" deixa claras as suas analogias críticas às invasões norteamericanas - ao Vietnan, ao Afeganistão, ao Iraque - quase nunca pelos motivos alegados das tais "boas intenções": na verdade, cobiça, dinheiro, poder, petróleo e afins são mal dissimulados por " campanhas contra o 'eixo do mal'  É no terreno do já sabido, já visto e já conhecido que os filmes "de massa" buscam trânsito junto ao grande público. Melhor que defendam as "boas intenções" do que alardeiem os direitos da "Pax Romana" à moda ianque, ou seja, com muita guerra e destruição...Os cinéfilos mais velhos que tiveram sua juventude ainda pontuada pelos "filmes de mocinho e bandido" não vão estranhar o maniqueísmo de "Avatar", podem até encontrar alguma satisfação com um mundo mais simples onde se saberá exatamente quem é o "mocinho" do lado do bem e quem é o "bandido" malvado. "

    Vai ser difícil desenvolver a partir das idéias que o texto do Gallego foi estimulando em mim. Começa com a confirmação de uma sensação, em mim, de que filmes podem ser como os romances de antigamente, relatos de aventuras mirabolantes que atendem à necessidade de ação e barulho nas gerações mais jovens, idealizações, organização (separação maniqueísta e clara entre bons e maus). Neste caso, não se trata de criticar os efeitos especiais ou às mirabolancias e sim, avaliar a qualidade da narrativa, do seu desenvolvimento. Conheço muita gente que não curte a poesia de Shakespeare e elogia, principalmente, seu domínio cênico dos atores entrando e saindo dos palcos, dotando-o de "genio" para este aspecto apenas...  Quem acompanha jovens e crianças discutindo arminhas virtuais e comprando virtualmente créditos para destruir inimigos esquisitíssimos tem como sentir a forma pela qual a movimentação de AVATAR é uma expressão do que acontece no mundo dos jovens, e uma expressão atualíssima de antigos impulsos e entusiasmos. Feito os garotos com chapéu de jornal desfilando em "marcha soldado". 

    Queria muito que Gallego opinasse sobre o filme "The Good Shepherd" sobre os ideais de universitários americanos brincando de sociedade secreta intervindo na política da primeira guerra e originando a nefasta CIA. A desestabilização dos estados nascentes (como agora se discute quanto ao Haiti) é denunciada ali claramente. O motivo pelo qual aproximo Avatar e este película de De Niro é porque nos apresenta muito bem a questão maniqueísta e a confusão dos valores e boas intenções.  No caso do personagem do Matt Demon vemos um típico americano da linhagem do Thomas Jefferson (conheci vários) instado a "nunca faltar à verdade" e ao que esta aderencia à verdade conduz.  A verdade, me parece, é grande demais para que uma pessoa a adote como norma de conduta.  Estranho, não é? Mas a verdade humana é pobre diante da absoluta. Quem se promete jamais mentir acaba mentindo, nem que seja para si mesmo.

    Sem estar fazendo apologia para a mentira e a corrupção, lanço esta proposta sobre a questão do maniqueísmo e a apreensão do "verdadeiro" por parte dos pobres humanos. 

    Se tiver tempo, copio o comentário crítico de Edmund Wilson ao livro sobre tiranos do Nabokov. O Wilson é genio ali.

    Uma nota sobre o outro filme, esse do Tom Hanks e outros. O tal pra criança sobre "Onde Vivem os Monstros."  A intenção é terapeutica e psicológica mas, infelizmente, me parece pender para a descrição de como se transmite a dinamica homossexual, no seu aspecto carnavalesco e destrutivo, a partir da relação mãe-filho excessivamente tolerante e apaixonada.  A idéia original do filme e sua execução imagística é promissora. A história é ruim.

     


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    [Aeternus:12857] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-19)


    - Jansy on The Good Shepherd, O Bom Pastor

    só mais uma idéiazinha relativa ao Bom Pastor... A idéia protestante contra mentira, inclusive adultério, em defesa da retidão e do altruismo é belíssima. Mas, como diz o Gallego, trata-se de uma faca de dois legumes. É um sacrifício, por parte daquele que adere à verdade, que promove outros sacrifícios e guerras, uma vez que a verdade humana não tem muito a ver com a "verdade absoluta."  Tenho a impressão de que quando Lacan descreve o sentido do termo "canalha," como ele o emprega, remete a estas pessoas que se identificam totalmente com "o bom mocinho." Este ideal, por modos escorregadios, quase sempre acaba expressando a perversão ( o lugar daquele que se identifica com o Outro e, portanto, é autorizado a saber o que é melhor para a humanidade). Não tenho nenhuma idéia pronta agora, mas este desconforto pelo rumo das associações que me levam a descrer que seja possível a alguém ser cem-por-cento nobre, dedicado, bom, correto, justo...alguém como a bailarina do Chico Buarque. 

    (que delícia lembrar da bailarina agora!)


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    [Aeternus:12858] Mensagem do Grupo73
    -Omar(2010-01-19)


    - RE:avatar - critica pertinente

    Sabem que gostei de "Avatar"?
    O visual em 3D é um deslumbramento.
    Tá certo que, como dizia o véio Chacrinha parafraseando Lavoisier, nada se cria, tudo se copia.
    A gente lembra de cara de 2 filmes do próprio Cameron: "Aliens" (o 2º da série) e "O Segredo do Abismo" (na versão "director's cut", com a mensagem pacifista acrescentada no final). Depois tem pitadas até de "Exterminador do Futuro" (também criado por Cameron).
    Mas a gente percebe que ele é da geração que admirava as capas dos LP's desenhadas por Roger Dean, e que também deve ter visto uma belíssima animação francesa (ou seria belga?? ou canadense????) chamada "O Planeta Selvagem", feito nos anos 80. Sem contar umas idéias que deve ter tirado de "Pocahontas" dos estúdios Disney.
    Eu tava receoso pela duração do filme, mas James Cameron, como de costume, não dá vez à monotonia. Por outro lado, como estória, talvez seja seu filme mais "flat", o vilão, feito pelo meu querido Giovanni Ribisi, não por culpa dele mas do roteiro, é muito sem graça e sem imaginação. Talvez isso faça parte da "intenção" ou da "mensagem" do filme, já que é mais contemporâneo retratar como desvitalizado&obtuso um inimigo da natureza.
    Enquanto a gente tá assistindo não parece tão claro e localizado, mas Lúcia Guimarães explicou numa reportagem de TV que a estória se passa na constelação de Alpha Centauro num futuro em que a Terra já foi detonada, daí os terráqueos pretenderem colonizar o planeta Pandora estragando também lá a Natureza. Como a Natureza de lá tem uma "consciência" mais explícita do que a nossa, fico tentado a imaginar que James Cameron deva ter lido a sinopse do filme Solaris, não sei se na versão Tarkovski ou na versão Soderbleargh. Quanto à "moral da história"!? Bem, eu diria apenas que em "Pocahontas" ela já ficava bem clara... e mais tocante. Mas TUDOBEEMM, basta a gente encarar como filme pra criança, e entrar na montanha russa, que a diversão é garantida.

    Bye!


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    [Aeternus:12859] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2010-01-19)


    - RE:RE:avatar - critica pertinente / The Other Man

    Bem...não vi "Avatar" nem vou ver.Há muitos e muitos anos cansei da exploração desses blockbusters, além da ranzinzice e criticismo natural que assolam os virginianos.
    Jaime Camarão deixa boas lembranças em "Titanic", que aprecio para além dos efeitos especiais e parafernália tecnológica.Adoro a orquestra que segue tocando com a embarcação indo desta para a melhor; os ingleses fatiotas que naufragam bebendo um scotch de 1ª e assistindo o Inferno à sua volta; o maniqueísmo do corno irado&peripatético tentando salvar seu robusto tesouro do pé-rapado dos porões; do olhar do comandante, solitário no leme e fazendo seu mea culpa; do engenheiro naval que vaticina "senhores...de agora em diante, façam o que fizerem, tentem o que tentarem, em uma hora o Titanic estará no fundo do oceano".

    Jaime Golden Globes&Oscars Camarão andou bem, sim, em 'Exterminador' e no outro Alien, (longe longe do original mas...)pegando carona no 1º e fantástico da série, de um Ridley Scott que depois foi murchando, murchando e...murchou no constrangedor "A Good Year".Lida bem com o mundaréu de técnicos e grana a seu dispor.

    E sobre pastichos, como bem refere Omar sobre as histórias que vovó contava, meu irmão proclama "o pessoal jovem precisa trabalhar !"
    Mudanças no hardware? Não, o cêrumanu não as deseja, definitiva-mente.
    Ontem mesmo assisti o último filme do Richard Eyre, "The Other Man", baseado numa historieta de adultério.Pior do que os bons "Iris" e o mutíssimo bom "Notes on a Scandal", apesar do empenho do elenco.A solução anglo-saxã habitual, matar a adúltera ( aqui de câncer...), roteiro árido.Antonio Banderas faz um amante inverossímil, um janitor elegantíssimo meio chegado ao proxenetismo, craque no xadrez, romântico-romantóide e ecológico (Deus nos acuda, né?, ainda que as mulheres em geral escolham carinhas assim para nos traírem...rsrsrs )
    Meno male : em cena a excelente Laura Linney ( corneando o Liam Neeson outra vez, após "Kinsey" ) e a belíssima e talentosa Romola Garai, um doce de-leite de menina.

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    [Aeternus:12860] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-19)


    - imperfeições perfeitas

    MISS IMPERFEITA - Texto da Martha Medeiros publicado na Revista do O Globo.

    'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
    Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
    Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
    E, entre uma coisa e outra, leio livros.
    Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
    Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
    Primeiro: a dizer NÃO.
    Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
    Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
    Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
    Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
    Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
    Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
    É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias!
    Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
    Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
    Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
    Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
    A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
    Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
    Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
    Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que se lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir dessa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
    Desacelerar tem um custo.
    Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
    Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
    E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'.

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    [Aeternus:12861] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-01-19)


    - Gallego não tarda e não falha...

    O ELOGIO DA TRAIÇÃO

    Por LUIZ FERNANDO GALLEGO
    26/3/2007

    Irônico (e quase blasfemo para crentes), o título O Bom Pastor remete à parábola auto-referente de Jesus, segundo a qual, para procurar uma ovelha perdida, ele deixaria as outras que já estão no rebanho - e regozija-se com a ovelha que for resgatada para o aprisco da salvação.

    É assim que o personagem Edward Wilson, vivido por Matt Damon no filme dirigido por Robert De Niro, funciona: com a absoluta certeza (paranóica, no caso) de quem sabe - sem a menor dúvida - onde está o certo e onde está o errado, o que é a verdade, o que é melhor e o que deve ser feito para proteger seu “aprisco” - os EUA - dos “visitantes” negros, judeus, italianos, irlandeses – como ele os chama em uma das poucas cenas em que fala algo mais “pessoal”. O silêncio e economia de palavras é sua marca registrada. Mas a instrumentação de suas ações vai ficando clara à medida que ele vai “perdendo sua alma”, como no presságio de um antigo professor.

    A trama percorre vinte e dois anos, desde uma certa “pré-história” da CIA, até 1961, data e evento escolhidos como núcleo do enredo: a frustrada invasão da Baía dos Porcos em Cuba. É sempre a partir deste momento - colocado como ação “atual” – que o filme vai diversas vezes ao passado mais anterior: seja a 1939, quando a questão era o nazismo ainda ascendente; seja a 1945, no início da guerra fria; seja aos anos 1950, com ações intervencionistas já nem tão disfarçadas em outros países - mas sempre retornando ao que é o momento “presente” do enredo nas ações contra Cuba pós-Fidel Castro, os antecedentes, as conseqüências e – talvez – motivos da fracassada invasão. Tudo isto, com o foco mais voltado para as vidas dos personagens centrais do que para questões políticas propriamente.

    A opção do roteiro de Eric North (de Munique) aponta mais para uma história moral do que para um filme de ação ou mesmo de reconstituição histórica – ainda que alguns muitos personagens possam ser remetidos a pessoas reais que foram da CIA, ou de outras organizações de espionagem e contra-espionagem, traidores e traídos. Não chega a ser uma aproximação nova em filmes do gênero, pelo menos desde que os romances de John le Carré passaram às telas.

    A ambição do diretor De Niro e do roteirista parece ter sido ainda maior, enfrentando um amplo painel com muitos personagens em uma bem longa metragem: aproximar-se da saga de Francis Ford Coppola (não por acaso um dos produtores-executivos deste filme) no ciclo O Poderoso Chefão; ou mesmo do épico Era uma vez na América, de Sergio Leone - projetos dos quais De Niro participou como ator em sua melhor fase. Com a ressalva que O Bom Pastor não é tão bem sucedido quanto seus modelos mais ou menos explícitos. Da série The Godfather chega a fazer citações em tomadas de cena, como quando os personagens de Damon e De Niro estão conversando numa sala e a esposa do primeiro – Angelia Jolie – olha, de soslaio, de outro cômodo. Quase como Diane Keaton na cena final do primeiro Chefão. Fala-se em crença na instituição família e em amor pela América, enquanto Matt Damon assume a expresão figée de Pacino no final do Chefão-II.

    A poker face de Damon já serviu bem ao seu papel anterior (Os Infiltrados) e chega ao paroxismo na quase “não-interpretação” de um homem que quase nunca sorri – e quando o faz, parece desconcertado. Andando pelas ruas, sempre de sobretudo e chapéu, chega a lembrar os homens repetidos com vestimenta parecida dos quadros de Magritte – ocultando mais do que revelando, mas escondidos atrás de - ou se misturando a - elementos insólitos, dentro do espírito surrealista. Só que aqui, tais questões metafísicas não são objeto de consideração: Edward Wilson aparece como uma tipificação do “homem comum” norte-americano branco, anglo-saxão, com o “diferencial” de pertencer a uma suposta elite que se cria a partir de sociedades secretas - de onde teriam saído inúmeros presidentes, republicanos ou democratas.

    O nome da irmandade no filme é “Caveira e Ossos”, com o mesmo símbolo das bandeiras piratas. No ritual de iniciação são instados a confessarem segredos íntimos totalmente despidos - depois de lutarem da mesma forma em um ringue de lama onde outros, de cima, urinam. Em jantares anuais fazem números amadores em palco de hotéis semi-travestidos. Wilson é convidado a fazer parte desta irmandade quando está fazendo um papel feminino numa encenação universitária. Machismo, misoginia, relação com a virilidade e com a sexualidade em geral um tanto complicada...

    As relações de Wilson com as mulheres sofrem inibições: ele se envolve afetuosamente (ao que parece) com uma moça totalmente deficiente auditiva, mas se afasta dela depois que engravida uma moça “de família” e pertencente a uma família com colegas da tal irmandade. E esta, praticamente o havia estuprado (daí o papel ter ido para Angelina Jolie?). A possível associação com a lembrança da namorada surda o levará a outro envolvimento do qual retira a “lição” (repetida várias vezes durante o filme) de que não se deve confiar em ninguém e nem mesmo – e principalmente – nos sentimentos: só atrapalham. Afinal, desde criança, o personagem já havia se mostrado capaz de ocultar um tanto friamente, ainda que por impulso, a carta de deixada por um suicida!

    Apesar do excesso de digressões e de situações encadeadas através de elipses que num primeiro momento nem sempre deixam claro para o espectador o que está se passando, o interesse se mantém ao longo dos 167 minutos de projeção. Em parte pela curiosidade das tramas de traições, mas também pelos desempenhos dos inúmeros atores competentes do elenco – ainda que em aparições mais ou menos breves. Por exemplo, com mais oportunidades, Michael Gambon está excelente enquanto John Turturro e Oleg Stefan servem aos seus papéis de modo irrepreensível. Mas infelizmente, apenas em cenas isoladas encontramos o sumido Joe Pesci – quase que reconhecido apenas pela voz - e Timothy Hutton. Os outros todos, incluindo De Niro, se mostram em boa forma - como costuma acontecer em filmes dirigidos por atores.

    Também contribui bastante o cuidado de De Niro na mise-em-scène: tomadas de Matt Damon emoldurado e algo “reduzido” por prédios e paredes, andando quase curvado, como se fosse um “Senhor Qualquer Um”, ajudam a criar o clima do filme, para o qual também colaboram a direção de arte, cenários, figurinos e mais ainda, a fotografia sombria de Robert Richardson assim como a trilha sonora (como está virando moda, “philipglassiana”) de Bruce Fowler (Colateral) e do brasileiro Marcelo Zarvos (Hollywoodland - Bastidores da Fama). O recusrso musical de células sonoras repetidas insistentemente mostra-se, desta vez, adequado ao estilo da narrativa e da história narrada.

    Se não decola em todas as direções envolvidas (os aspectos históricos e mesmo políticos acabam menos interessantes), O Bom Pastor pode ser apreciado como uma fábula niilista e de desencanto sobre os seres que perderam suas almas em prol de uma defesa amoral de uma ideologia que acaba perpetrando o elogio da traição, negando exatamente os supostos valores morais, éticos e religiosos que pretende estar defendendo. Se não tem a dimensão do absurdo beckettiano, não deixa de demonstrar, mais uma vez, as armadilhas para os que se pretendem donos da verdade, moral e bons costumes, sem sombra nem espaço para dúvidas éticas ou questões teóricas sobre princípios quando demandam escolhas no arriscado e incerto terreno da ação prática.

    # O BOM PASTOR (THE GOOD SHEPHERD)
    EUA, 2006
    Direção: ROBERT DE NIRO
    Roteiro: ERIC ROTH
    Produção: ROBERT DE NIRO, JAMES ROBINSON, JANE ROSENTHAL
    Fotografia: ROBERT RICHARDSON
    Edição: TARIQ ANWAR
    Música: BRUCE FOWLER, MARCELO ZARVOS
    Elenco: MATT DAMON, ANGELINA JOLIE, ROBERT DE NIRO, ALEC BALDWIN, BILLY CRUDUP, JOE PESCI
    Duração: 167 min.

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    [Aeternus:12862] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-01-19)


    - RE:Gallego não tarda e não falha...

    Ao reler o assunto do título que escolhi, fiquei na dúvida se teria acertado... Afinal, coloquei o Gallego na posição de "mais competente que a Justiça."  E acho que, pelo andar da carruagem, todos aqui preferem um mundo com menos justiceiros e bons mocinhos.  Mas a intenção foi sinceramente entusiástica. Adorei a resenha, capturou o que não consegui expressar e ficava coçando na minha alma. A dimensão perversa da bondade dos que se acham donos de uma verdade.

    Teve uma experiencia minha com Bion que me inquietou por causa disso mesmo, embora não seja possível ter certeza do sentido do que ele disse pra mim. Num seminário clínico, nos idos anos setenta, Humberto e Luiz Meyer começaram um bate-boca deselegante, um com raiva do outro e soltando chispas. No meu papel de tradutora, eu devia ir traduzindo tudo. Mas fui ficando nervosa, desconcertada, fora a vontade de atenuar pro lado do Humbeto e ser fiel para a grosseria do Meyer. Levei as mãos aos ouvidos, sem querer (havia furado as orelhas na véspera e uma inflamaçãos se anunciava) e tendi à mudez.  No final do seminário, Bion me chamou de lado e perguntou se eu estava com alguma dor no ouvido. Fiquei ainda mais passada e respondi que estava bem. Ele então acrescentou, timidamente, uma frase "Leia o livro de Richard  Sorge."  Nunca tinha ouvido falar no tal sujeito mas encomendei de Londres algo com o nome dele. Chegou um livro de espionagem durante a segunda guerra e Sorge era um dos espiões, morto no Japão. Não vi nada ali que me inspirasse. Numa conversa com Frank Philips mencionei o Sorge, com esperança de obter uma dica. Philips tinha outro livro sobre este homem, "An Instance of Treason"  e o emprestou para mim. Li também e não entendi nada. No entanto, enquanto revirava o volume meio desesperadamente, sempre idealizando Bion e esperando alguma dica pandora, deparei-me com o resuminho na orelha da capa. Ali o comentador dizia que Sorge havia traído todos os amigos sem dó porque tinha escolhido ser fiel a sua verdade e a sua causa (comunista). Para muitos Sorge é um herói porque evitou um conflito maior entre o ocidente e o Japão. Pra mim, não é não. E continuo sem entender o que Bion queria que eu entendesse. Aquele era um caminho longo demais para expressar, apenas, algo do tipo: "não inventa dor de ouvido se não quer escutar, esqueça sua lealdade ao marido e seja fiel ao seu papel de tradutora. Você me fez perder a chance de assistir ao vivo e em cores uma briga entre analistas brasileiros."

     


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    [Aeternus:12864] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-20)


    - RE:RE:avatar - critica pertinente

    Que boa surpresa tê-lo de volta. Surgiu uma dúvida e gostaria de saná-la. Pergunto se voce é antropólogo e o autor do artigo sobre o Haiti. Um abraço. cely

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    [Aeternus:12865] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2010-01-20)


    - RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

    Grand Cely,
    Não sei se você se refere a Davy, Omar ou a mim...
    Anyway, Davy é psicanalista (creio que carioca mas residente em Sampa), Omar é psicanalista e paulistano; eu sou psiquiatra e carioca.

    Antropologia passo longe de ser conhecedor mais encorpado.Leio bastante Sociologia, que gosto de juntar ao que aprendo por aqui em Psicanálise e cultura geral !

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    [Aeternus:12869] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-20)


    - RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

    Gostei de Avatar.

    Pelo menos o maniqueísmo utilizado não foi do tipo justificador-safado das políticas salvacionistas americanas, como em vários sobre o Vietnam, p. ex., sobre a defesa da liberdade (econômica, vamos ser honestos) contra os totalitários bolcheviques, dentre outras passagens. Acho isso legal, pois o país do paradigma liberal, na verdade, nunca passou de um Estado extremamente opressivo, para não dizer repressivo em vários momentos do passado, haja vista o macartismo, o anticomunismo, e a própria Lei Seca, vamos combinar.

    Lá não é exatamente proibido falar mal de si próprios, mas sempre ficou a sensação de quem o fazia, era um desajustado doentio, vergonha da raça. Sem falar nos problemas de repercussão, de propaganda e distribuição de material artístico com esse teor. O boicote polido.

    Acho um avanço, sinceramente. E o maniqueísmo é deles mesmo, não tem jeito, nisso sou fatalista. Eu curtia vários filmes de John Wayne, confesso.

    E curti Avatar, como curti Wall-e. Com bela fotografia, 3D, pipoca, minha filha do lado, tudo a que tinha direito. A fotografia nos filmes infantis de hoje é barroca mesmo, acho que tão cedo essa estética não será abandonada. A não ser que fiquemos em casa ouvindo/contando estórias de contos de fadas, o que seria bem melhor, e com uma pipoca bem menos engordurada e salgada, para o bem de nossas coronárias.

    Quanto à mensagem ecológica em si, apesar de detestar ativismos de qualquer espécie e seus chatíssimos próceres, como as canjas de galinha, fazem mais bem do que mal. Eu me preocuparia com um filme financiado por ruralistas dizendo que a soja transgênica é o alimento do futuro, é mais saudável e deve substituir todos os outros vegetais e matas nativas. Não sou alarmista, mas ficava preocupado quando, há quase uns trinta anos, uma professora de Geografia, gorducha com óculos fundo de garrafa, dizia que os cientistas estavam prevendo que a Terra iria aquecer (a logomarca "Aquecimento Global" nem existia), as geleiras iriam derreter, inundar várias cidades etc.

    Bem, o planeta é pequeno para tanta gente; o resto é paliativo: reaproveitamento de água, baixo consumo de energia, captação de água de chuvas por calha e cisterna, proibição de queimadas, CFC, etc etc etc. Conversa pra boi (aliás, animal antiecológico, com seus puns metanóicos) dormir.

    Guto


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    [Aeternus:12870] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-20)


    - RE:RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

    Florião, eu entendi que o  Omar retornou à lista. Parece que me enganei. Minha pergunta foi dirigida a ele. Mas gostei das informações. Obrigada. Cely 


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    [Aeternus:12872] Mensagem do Grupo73
    -Jansy Berndt de Souza Mello(2010-01-20)


    - RE:RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

    Sem ter visto AVATAR ainda ( o atrativo das ilhas flutuantes é o unico fator) mesmo assim me animei a escrever pro Guto porque a visão dele dos americanos (sem generalizar para cada um dos americanos, mas pegando o bordão da cultura como um todo) coincide com a minha experiencia. Quando lá estive, aos dezessete anos, escolhi como tema de um "paper" ( de High School, claro), a emenda 21 que abolia a Lei Seca ( que era a emenda 19, se não me falha a memória). Eu me sentia assustada e oprimida, por lá, e não sabia encontrar um caminho de expressão. Discorrer sobre a Lei Seca (mesmo sem gostar de bebidas alcoólicas naquela época e nem mesmo fumava!) e a opressão, que representava, me fez um bem enorme. Porque também me davam temas para dissertação e lembro do título de um deles: " Explique por que os sul-americanos não estão maduros o suficiente para viverem numa democracia" (não é um susto?)

    Hoje estou fazendo uma resenha crítica do livro de um amigo meu, americano, com quem me entendo muito bem. O livro dele, no entanto, parece ter sido escrito por um marciano. Fico boiando e sem argumentos a favor ou contra. Ele parte de pressupostos totalmente diferentes dos meus e os demonstra por vias que parecem coerentes, justas e aos meus olhos, pelo menos, fica tudo cambeta. Ele cria opostos (como, por exemplo, entre a psicologia de William James e a psicanálise de Freud) que me deixam de cabelos em pé porque não estão errados, exatamente. Estou desconfiando que ele pega uma metade de uma realidade (digamos, a casca de uma laranja) e compara com a outra metade de outra realidade ( a polpa de um limão). Ele não tem nem sombra do referencial do "inconsciente" nem do pensamento francês, espanhol, português...  Daí que o livro e o sujeito que o escreveu fica como um corpo estranho até mesmo na minha conversa com ele, aparentemente singela e normal.  Ele não é ladino-latino ( se a laranja fosse um limão então eu diria que...). Ele não sabe que pega um pedaço como se fosse um todo! E o mundo academico vem adorando o texto dele. Ou seja, falam todos do mesmo jeito????????? (a hipótese de eu estar enganada existe, viram? ela me atormenta também porque, puxa, o livro do cara é escorregadio como uma enguia)


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    [Aeternus:12873] Mensagem do Grupo73
    -Marcos Florião(2010-01-20)


    - RE:RE:RE:RE:RE:avatar - critica pertinente

    Siiiiiiiiiiim, Cely, Grand Omar assinou uma vinheta aqui, e gostou de "Avatar".

    Quanto a mim, comme dit, não avatariarei, e desejo boas avatariaradas aos avatarianos dessa vida...
    Sigo desejando que James Camarão volte a ser um diretor de filmes, ao invés dessas empulhações tecnocráticas, como dizia o grandíssimo Don Luís Buñuel.
    Que saudade, ah que saudade da época dele !...

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    [Aeternus:12874] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-21)


    - RE:RE:RE:avatar - critica pertinente --> Polígono ma non troppo

    Salve, Cely!

    Guerra Fria&Transtorno Bipolar não são sãos mesmo, o mesmo não são e nem mesmo + são!
    Tão não são naquela revolução, como nesta mentecáp(i)ta-lista!
    Por outros lados, Pluraridade Multipolar Globalizada e Fragmentação de Personalidade positivistamente perversão são, atrapalestinamente diversionista!
    Quem não é comigo é com Dramin!
    2 é bom!


    B............J,
    Omar

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    [Aeternus:12875] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-22)


    - Os melhores do ano, com observações em outra remessa

    MELHORES DE 2009

    Por CRÍTICOS.COM.BR
    16/1/2010

    Colaboradores do nosso site www.criticos.com.br enviaram suas listas
    pessoais de melhores filmes exibidos no Rio de Janeiro durante o ano
    de 2009.

    Os dez participantes desta votação destacaram em suas preferências
    (com dez títulos em cada lista), ao todo, 54 filmes, o que revela uma
    pulverização ainda maior do que no ano anterior. Mas o resultado final
    novamente coincide em oito títulos com a votação da ACCRJ (Associação
    de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro).


    O filme mais citado (por seis participantes do Críticos.com.br) - e
    que também recebeu maior pontuação na eleição da ACCRJ foi:

    ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, de Laurent Cantet


    Mencionados por cinco de nossos colaboradores:

    3 MACACOS, de Nuri Bigel Ceylan
    e
    BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino


    Referidos em quatro listas:

    AMANTES, de James Gray
    CIDADÃO BOILESEN, de Chaim Litewski
    DEIXA ELA ENTRAR, de Tomas Alfredson
    GRAN TORINO, de Clint Eastwood

    Lembrados por três críticos:
    BEIJO NA BOCA, NÃO, de Alain Resnais
    DESEJO E PERIGO, de Ang Lee
    FOI APENAS UM SONHO, de Sam Mendes


    A lista da ACCRJ coincide em oito títulos, sendo que 3 macacos e
    Desejo e Perigo estão apenas no resultado de críticos.com.br.
    O único filme brasileiro presente nas duas apurações finais é CIDADÃO
    BOILESEN, de Chaim Litewski.
    A votação da ACCRJ, em ordem de pontuação foi a seguinte:

    Entre os Muros (Entre les murs) França, de Laurent Cantet
    Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds) EUA, de Quentin Tarantino
    Gran Torino (Gran Torino) EUA, de Clint Eastwood
    Amantes (Two Lovers), EUA, de James Gray
    Foi Apenas um Sonho, (Revolutionary Road) EUA/Reino Unido, de Sam Mendes
    A Troca (Changeling) EUA, de Clint Eastwood
    Beijo na Boca, não (Pas sur la Bouche) França, de Alain Resnais
    Deixa ela entrar (Lat den räte komma in) Suécia, de Tomas Alfredson
    Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos) Espanha, de Pedro Almodóvar
    Cidadão Boilesen - Brasil, de Chaim Litewski


    Em seguida, as listas individuais dos dez críticos deste site:

    Luiz Fernando Gallego

    1. Amantes, de James Gray
    2. Horas de Verão, de Olivier Assayas
    3. Katyn, de Andrzj Wajda
    4. Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky
    5. Desejo e Perigo, de Ang Lee
    6. Testemunhas, de André Téchiné
    7. Casamento, de Rachel de Jonatham Demme
    8. 3 Macacos, de Nuri Bigel Ceylan
    9. Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski
    10. Stella de Sylvie Verheyde

    Carlos Alberto Mattos

    3 Macacos
    Desejo e Perigo
    É Proibido Fumar
    O Equilibrista
    Entre a Luz e a Sombra
    Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei
    Entre os Muros da Escola
    Deixa Ela Entrar
    Foi Apenas um Sonho
    A Janela


    Daniel Schenker

    1. "Entre os Muros da Escola", de Laurent Cantet
    2. "Rumba", de Dominique Abel, Fiona Gordon e Bruno Romy
    3. "FilmeFobia", de Kiko Goifman
    4. "Beijo na Boca, não", de Alain Resnais
    5. "Horas de Verão", de Olivier Assayas
    6. "Abraços Partidos", de Pedro Almodóvar
    7. "Diário de Sintra", de Paula Gaitán
    8. "Anticristo", de Lars Von Trier
    9. "3 Macacos", de Nuri Bilge Ceylan
    10. "Tony Manero", de Pablo Larraín


    João Marcelo F. de Mattos

    1- Amantes (Two Lovers, EUA, 2008), de James Gray
    e
    O Lutador (The Wrestler, EUA, 2008), de Darren Aronofsky
    (empatados)
    3- Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA/Alemanha, 2009), de
    Quentin Tarantino
    4 - Deixa Ela Entrar (Låt den Räte Komma In, Suécia, 2008], de Tomas Alfredson
    5 - A Troca (Changeling, EUA, 2008), de Clint Eastwood
    6- Import/Export [Áustria, 2007], de Ulrich Seidl
    7 - Beijo na Boca, Não! (Pas Sur la Bouche, França, 2003), de Alain Resnais
    8- Bons Costumes (Easy Virtue, Inglaterra/Canadá, 2008], de Stephen Elliott
    9 - W. (EUA, 2008), de Oliver Stone
    10- Vocês, Os Vivos (Du Levande,
    Suécia/Alemanha/França/Dinamarca/Noruega, 2007), de Roy Andersson


    Leonardo Luiz Ferreira

    1. Amantes, de James Gray
    2. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino
    3. Inimigos Públicos, de Michael Mann
    4. Beijo na Boca, não, de Alain Resnais
    5. Cinzas do Passado Redux, de Wong Kar-wai
    6. Gran Torino, de Clint Eastwood
    7. Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet
    8. A Fronteira da Alvorada, de Philippe Garrel
    9. A Erva do Rato, de Julio Bressane
    10. Star Trek, de J.J. Abrams



    Marcelo Janot

    1. “Gran Torino”, de Clint Eastwood
    2. “Tony Manero”, de Pablo Larraín
    3. “Entre Os Muros da Escola”, de Laurent Cantet
    4. “Amantes”, de James Gray
    5. “Distrito 9”, de Neil Bloomkamp
    6. “O Casamento de Rachel”, de Jonathan Demme
    7. “3 Macacos”, de Nuri Bilge Ceylan
    8. “Foi Apenas Um Sonho”, de Sam Mendes
    9. “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein Andrade
    10. “Deixa Ela Entrar”, de Tomas Alfredson


    Nelson Hoineff

    1. Sinedoque, NY
    2. Bruno
    3. Milk, a voz da igualdade
    4. Frost, Nixon
    5. O Desinformante
    6. Bastardos inglórios
    7. Gran Torino
    8. Mataram Irmã Dorothy
    9. Desejo e Perigo
    10. Inimigos Públicos


    Patrícia Rebello

    Entre os muros da escola, do Laurent Cantet
    Desejo e Perigo, do Ang Lee
    O Equilibrista, do James March
    Cidadão Boilesen, do Chaim Litewski
    Filmefobia, do Kiko Goifman
    3 Macacos, do Nuri Ceylan
    A Janela, do Carlos Sorín
    Deixe ela entrar, do Tomas Alfredson
    A Festa da Menina Morta, do Mateus Natchergale
    Diário de Sintra, da Paula Gaitan


    Roni Filgueiras

    Garapa
    Cidadão Boilesen
    Up - Altas aventuras
    Hanami - Cerejeiras em Flor
    Simonal - Ninguém sabe o duro que dei
    Distrito 9, de Neil Bloomkamp
    500 dias com Ela
    Foi Apenas Um Sonho
    O leitor
    Bastardos inglorios


    Ricardo Cota

    1 Entre os Muros da Escola
    2 Gran Torino
    3 O Leitor
    4 Milk
    5 Frost/Nixon
    6 O Visitante
    7 Valsa com Bashir
    8 Bastardos Inglórios
    9 Cidadão Boilesen
    10 A Princesa e o Sapo

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    [Aeternus:12876] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-22)


    - RE:Os melhores do ano, com observações em outra remessa

    MELHORES DE 2009
    Por CRÍTICOS.COM.BR
    Os dez participantes desta votação destacaram em suas preferências
    (com dez títulos em cada lista), ao todo, 54 filmes, o que revela uma
    pulverização ainda maior do que no ano anterior.O filme mais citado (por seis participantes do Críticos.com.br) - e que também recebeu maior pontuação na eleição da ACCRJ foi: ENTRE OS MUROS DA ESCOLA, de Laurent Cantet.

    Mencionados por cinco de nossos colaboradores: 3 MACACOS, de Nuri Bigel Ceylan e BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino
    A lista da ACCRJ coincide em oito títulos, sendo que 3 macacos e
    Desejo e Perigo estão apenas no resultado de críticos.com.br. O único filme brasileiro presente nas duas apurações finais é CIDADÃO
    BOILESEN, de Chaim Litewski.
    Luiz Fernando Gallego

    1. Amantes, de James Gray
    2. Horas de Verão, de Olivier Assayas
    3. Katyn, de Andrzj Wajda
    4. Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky
    5. Desejo e Perigo, de Ang Lee
    6. Testemunhas, de André Téchiné
    7. Casamento, de Rachel de Jonatham Demme
    8. 3 Macacos, de Nuri Bigel Ceylan
    9. Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski
    10. Stella de Sylvie Verheyde

    Vemos que nosso crítico incluiu o filme nacional, escolheu o filme de Ceylan, mas não entrou no mérito do de Cantet nem do badalado filme do Tarantino.

    conversinha:
    Jansy: Você não gostou de Foi Apenas um Sonho? Como pode, elogiarem tanto o Tarantino...
    Gallego: Gostei de "Foi apenas um sonho", mas com algumas reservas, escrevi sobre na época e vc concordou que o personagem do "maluco" era pleonástico, "explicando" para a plateia o que ele não tivesse entendido sobre as ilusões dos personagens. Outra hora envio meu texto Com pode eliguarem tanto o Tarantino e acharem que o Alain resnais é intocável mesmo filmando bobagens como "Beijo na boca, não" e em  seguida mais outra, ainda por cima pretensiosa como divertimento supostamente inteligente um tal de "Ervas Daninhas" atualmente em  cartaz no Rio e já dizem garantido na lista de melhores de 2010,  imagine! Eu prefiro o documentário "O Homem que engarrafava Nuvens", você viu? Gostei bastante.
    Envelhecer bem em cinema é difícil mas não tolero a pretensão do  Resnais (que respeito muitíssimo por "Hiroshima meu Amor", "Ano Passado em Marienbad" e outros grandes filmes antigos) quando lembro que Buñuel filmava divertimentos espertos como "O Charme Discreto da Burguesia", "O Fantasma da liberdade", "A Via Láctea ou o Estarnho Caminho de Santiago" e usava duas atrizes para o mesmo papel em "Obscuro objeto de Desejo", e isso só de brincadeirinha...
    Também não entendo o endeusamento de Clint Eastwood que este ano fez o péssimo "A Troca" e o fraco "Gran Torino".
    E Almodóvar, mesmo com o fraco "Abraços partidos" é sempre lembrado...
    Enfim... Fazer o que?
    Jansy:Me lembro do dia em que, ouvindo a estática da rádio MEC, contrastando com a beleza da transmissão das outras estações, notei que eu estava numa minoria e, portanto, sem suficiente verba para fugir das estáticas da cultura como possível no mundo. Acho que você está experimentando um choque equivalente. Uma concepção de arte, graça, humor ou inteligencia em choque com a mentalidade da maioria que busca algo mais fácil, grosseiro, aculturado e que, portanto, rende mais dinheiro no mercado da cultura.

    Gallego: Sim, em termos de Tarantino ou Eastwood, mas o Resnais é aquele suposto humor intelectualizado francês afetado e desafetivado, é outro departamento que é para os "intelectuais", assim como outros filmes com  formalismos que são tidos como o máximo para poucos.

    Jansy: mas vai ver que os velhos admiradores do Resnais estão velhos demais e  os jovens só os copiam?
    Gallego: acho algo falso self  mesmo...
    Jansy: Um falso self mais comum do que os que se descreve na clinica, tipo jovem copião dos outros?
    Gallego: Não, não acho que copiam os outros mais velhos mas a si mesmos e a seus egos ideais (narcísicos) e aos seus modelos idealizados que decretam que Resnais, Manoel de Oliveira, Clint Eastwood, Béla Tarr e outros mais são intocáveis, gênios, monstros sagrados. Se soltam puns, os puns são cheirosos, tipo assim. Claro que eu defenderei os grandes filmes de Resnais até o fim, acho que o Eastwood fez uns 3 ou 4 filmes legais (tipo OK, nenhuma obra-prima do
    cinema). Acho que Hitchcock também errou algumas vezes e que nem Bergma só
    fez obras-primas, por mais que tenha feito um monte delas... Mas parece que essa independência de pensamento está em baixa... Aliás, eu sempre admirei isso em você: não tem compromisso com nenhuma "opinião" que seja considerada de bom tom intelectual. Vc gosta do que gosta e faz reservas ao que faz reservas, seja lá o que for, por mais consagrado que seja pela "intelligentzia".
    Talvez esses caras sejam como os adolescentes que querme ser "diferentes" e
    usam as mesmas roupas parecidas e ficam iguiazinhos. Ganham em
    "pertencimento", atendem às postulações de Kohut achando que são alter-egos
    uns dos outros,  um modelo idealizado e esse eles espelham de modo a se
    sentirem selves grandiosos. Tudo falta de amor-próprio, autoestima,
    autodeterminação. Onde está o self nuclear? O self verdadeiro, específico,
    pessoal e intransferível, a estrutura subjetiva está sufocada sob as  construções vindas de fora a ponto de não saberem mais o que é fora e o que  é dentro. Um cansaço. Porque racionalizam tudo, escrevem muitas vezes  direitinho mas tudo é construção, supra-estrutura. E ficam se comprazendo entre si. Aí de quem  desafinar tal "coro dos contentes".
    Era como meus amigos que eram do Partido Comunista: se o partido dizia que
    tal coisa era boa e outra coisa era ruim, eles tinham que concordar. por
    isso, minhas simpatias pelo esquerdismo jamais puderam passar à prática, eu
    nunca abandonaria minhas discordâncias e divergências; o mesmo se passa com
    os dogmas da Igreja.
    E da Psicanálise, IPA ou não-IPA. Freudiana, ou kkeiniana ou lacaniana ou
    kohutiana ou winnicottiana.
    Se é para ser narciso eu me tomo como modelo mesmo.
    Jansy: Fez sentido sua frase sobre  "achando que são alter-egos uns dos outros, seguem um modelo idealizado e esse eles espelham de modo a se sentirem selves grandiosos....Onde está o self nuclear? O self verdadeiro...pessoal e intransferível, a estrutura subjetiva está sufocada sob as construções vindas de fora a ponto de não saberem mais o que é fora e o que é dentro." Um cansaço...



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    [Aeternus:12897] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-26)


    - "Up in the Air": o homem que vivia nas nuvens

    São Paulo, terça-feira, 26 de janeiro de 2010


    JOÃO PEREIRA COUTINHO

    RYAN BINGHAM tem uma filosofia. Imaginem uma sacola. Vazia. Agora comecem a enchê-la. Com tudo aquilo que faz parte da vida. Primeiro, os objetos. Dos mais pequenos aos maiores, dos mais leves aos mais pesados. Depois, pessoas. Amigos, família.
    Namoradas, mulheres. E filhos, não se esqueçam dos filhos. Com a sacola às costas, tentem agora caminhar. É nesse momento que o auditório da palestra ri com a metáfora do palestrante. Ryan Bingham ri com o auditório e termina com a definição sacramental: "Nós não somos cisnes. Somos tubarões".
    Que o mesmo é dizer: os seres humanos não foram feitos para parar. Não foram feitos para manterem ligações essenciais com coisas, pessoas, lugares. Os seres humanos foram feitos para avançar. Sempre e sempre e sempre.
    E, no caso de Ryan, para voar: de cidade em cidade, milha após milha, com o propósito de demitir empregados que as próprias empresas já não têm coragem para mandar embora, olhos nos olhos. Ryan cumpre esse trabalho sujo e até dá um toque humano ao momento, como os matadores de arena na presença da sua presa.
    Ryan Bingham é o personagem de George Clooney em "Up in the Air", terceiro filme de Jason Reitman e inacreditavelmente traduzido no Brasil por "Amor sem Escalas". Digo inacreditavelmente porque o título do filme é a chave para entender metade dele.
    "Up in the Air", "lá em cima", "nas nuvens", não é apenas o espaço existencial onde Ryan Bingham gosta de estar: sempre em movimento, com o objetivo infantil de acumular dez milhões de milhas e ter direito a cartão e tratamento aéreo preferencial. "Nas nuvens" é a condição existencial de Ryan: acima do mundo, acima das preocupações do mundo, acima dos terráqueos que o habitam. E com a sacola vazia.
    Pelo menos, assim será até o dia em que a sacola começa a ficar mais pesada. No bar de um hotel, Ryan encontra o seu clone. "Pense em mim como alguém igual a você, mas com uma vagina", diz-lhe Alex, um tubarão como ele. É o arranjo perfeito: uma bela mulher sem ilusões românticas de belas mulheres? Sem exigir presença ou compromisso?
    É o arranjo perfeito, disse eu, ou diria ainda, se o amor, esse demônio ladino, não se introduzisse pelo meio, disposto a transformar o tubarão Ryan no cisne Bingham. Disposto a obrigar o homem das nuvens a descer à terra. E ele desce. Mas, pergunta fatal, pode alguém que vive de ilusões reconhecer ainda uma?
    "Up in the Air" foi descrito nos textos promocionais como um filme sobre a crise econômica atual e o desemprego inevitável que, só nos Estados Unidos, ultrapassou a barreira impensável dos 10%. É uma forma de ver as coisas.
    Outra é dizer que, na Hollywood infantil dos últimos anos, o filme de Jason Reitman é um produto estranho e assaz amargo.
    Estranho, porque capaz de lidar com o tema mais complexo, e mais onipresente, e talvez por isso mais ignorado da nossa condição contemporânea: a solidão que a habita; ou, se preferirem, a solidão que habita as ilusões dos homens modernos: "homens sem qualidades" que mascaram o vazio abissal dos seus dias com a vertigem da impermanência.
    Mas o filme é amargo ao mostrar, sem sentimentalismos ou redenções de qualquer espécie, como é doloroso o fim dessas ilusões. Verdade que nada disso seria possível sem a composição magistral de George Clooney. Já assisti a demasiado cinema e a demasiado teatro para me deixar impressionar pelos macaquinhos do "Método". A composição de Clooney, capaz de oscilar entre o ritmo da "screwball comedy" e o silêncio sutil do fracasso, é tão perfeita que a confundimos facilmente com a "leveza" ilusória das nuvens onde ele vive.
    E, no final do filme, é a elas que regressamos. Um longo plano sobre um tapete branco e a voz de Ryan Bingham pairando sobre ele. E sobre nós. "Hoje à noite, quando olharem para as estrelas", diz-nos Ryan, "haverá uma luz ainda mais brilhante que estará por cima delas." É a luz do seu voo rumo a parte nenhuma, como se uma tal proclamação fosse motivo para triunfos.
    Não é. Ele sabe disso. Nós sabemos disso. E, em dissonância perfeita com as palavras falsamente triunfais de Ryan, temos a evidência das nuvens à nossa frente. Só então percebemos, talvez pela primeira vez, como eram certos os versos de W. H. Auden sobre a lua. Sim, a lua é bela. Tal como as nuvens. Mas a lua são desertos.


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    [Aeternus:12898] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-01-26)


    - não consegui usar o lugar para "resposta"...

    Gallego já tinha escrito sobre o filme Up in the Air, que inicialmente confundi com um desenho chamado "Up" que é deliciosamente maluco, pior que o padre curitibano. Uma cronica interessante embora o modo de ser sozinho e o temor ao desemprego retratado ali é mais típico do americano, talvez do europeu. Não me pergunte por mais detalhes, que não sei, senão confessar que nosso modo de ainda conviver com pais e filhos é distinto do que acontece nas outras terras. O lugar dos filhos, também, é diferente (são menos vistos como estorvos ou menos usados como propaganda sobre os pais). Todos temos solidões, mas alguns a tem diferente dos outros. todos carregam uma sacola enorme que às vezes é obstáculo para seus voos, todos tem sonhos e desilusões. Mas cada povo com seu pecado.

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    [Aeternus:12942] Mensagem do Grupo73
    -Visitante(2010-02-02)


    - Jansy em 2010, noticia inteligente de filme

    O site do Nabok manda sempre dicas dos espaços onde ele é mencionado. Aqui, por Ann Hathaway no papel de "Rainha Branca" no filme de Tim Burton. Toda entrevista é interessante, me agradou em particular uma resposta que ela deu sobre o sucesso de Alice no País das Maravilhas: "é um livro universalmente específico".
    Q: Why have his books been enjoyed for generations?

    A: In my opinion, what makes a great book is something that is universally specific. I didn’t read the “Alice” books when I was a child. I read them when I was in college. I was really into Nabokov, and apparently, he was really into Lewis Carroll, so I thought it was a good idea. 

    (The rest at WDW News: "Anne Hathaway Discusses The White Queen, Her Costume, and the Rest of the Cast")

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