QUEM NOS SALVA DE NÓS MESMOS?
Erivan da Silva Raposo
Cada ser humano, por mistério da própria vida, a despeito das restrições morais a que é submetido, tem uma subjetividade que, por definição, é só sua, tem uma interioridade cujo acesso é negado aos demais, por mais que se deseje e se tente abrir as portas da alma(1).
Cada ser humano - e somos bilhões - tem um mundo que é só seu (Thomas Mann retratou isso em "José no Egito"), e que toca o dos seus semelhantes, mas não se confunde com o deles. Claro que não somos uma mônada, somos um sistema integrado ao ambiente em que vivemos, dependemos do externo para sobreviver, mas nossa interioridade mantém-se inatingível, inacessível aos outros (apesar da ilusão de muitos), ali está o núcleo do que "somos"(2) .
Interessante, porém, é que essa interioridade (alma, se preferirem; ou espírito, para não polemizar) vai sendo moldada na experiência de se viver num grupo específico, sendo atingida por todas as limitações e preconceitos a que o grupo tenha aderido/construído: a cultura - de um modo geral, a língua, os sistemas de crenças (inclua-se religião e códigos morais), os sistemas de parentesco e a organização social. Freud, de certa forma, apresenta a história de nossa infância como determinante para isso. O Complexo de Édipo aponta para isso. Talvez a idéia de estilo em Lacan também possa ser aqui incluída. Apesar disso, hoje, em tempos pós-modernos(?), podemos dizer que temos um maior domínio sobre a construção de nós mesmos, de nossa interioridade inclusive.
Não quer dizer que esquecemos as situações de opressão (e fome) e de sujeição a que estão submetidos bilhares de seres humanos, sem a mínima possibilidade de escolher caminhos e de construir sua subjetividade de maneira livre e sadia. Aqueles em constante estado de guerra, convivendo com o fantasma da morte de parentes e amigos, diariamente, não podem ter, ou dificilmente terão, um espírito que não seja belicoso e bruto. Para não ampliarmos demais a discussão, aportemos na questão da família, então.
Como dois seres independentes, com sonhos e projetos próprios, com ambições e valores específicos, com energias e impulsos distintos, com intuições e percepções (e timings) característicos, conseguem sobreviver ao "formar uma família"? "Lugar" em que, apesar da cooperação e do amor – que pode existir ou não, são submetidos a tantas pressões e opressões, em que têm seus sonhos atropelados e seus sentimentos escondidos, em que, durante o convívio, se submetem ao silêncio e à tirania dos filhos e ao ideal da "construção da família" (casa, carro, escola etc. e todos os modelos que a sociedade de consumo reproduz cegamente).
Muitos dirão que essa é uma visão muito pessimista e que há pessoas que não se sentem assim, oprimidas e com a alma em retalhos. De fato, há aqueles que reagem melhor às pressões e que decidem não se transformar em autômatos e recusam perder-se em uma relação. No entanto, isso não muda o quadro, apenas mostra que há saídas. Não esqueçamos, também, que há os casos em que um dos lados (esposa, marido ou filhos) é que sofre mais, muitas vezes violentamente, com essa instituição "obrigatória", submetendo-se a uma escravizante postura de submissão e de "diplomacia", a fim de que as "coisas" não vão para o ralo.
Não quero ir muito longe e não pretendo mapear detalhadamente os níveis e as diversas possibilidades de arranjo nesse sistema de mútua opressão que é a família (considerando diferenças de classe, cultura, educação formal, religião, idade etc.). Fiquemos com a família de classe média (burguesa), paradigma para nossa sociedade: a luta por uma carreira, por emprego, por educação, pela casa própria, sob o fantasma do fracasso e com a pressão dos modelos de maternidade, paternidade, profissionalismo, consumo, educação, gênero, corpo, saúde mental etc.: fica difícil entender como sobrevivemos sem grandes desvios psicológicos. A convivência obrigatória, a intimidade restringida, a distância reduzida, a violência das palavras, o stress compartilhado (mesmo quando não estamos bem e preferiríamos não ter que partilhar nada), a impossibilidade da plena manifestação dos sentimentos, o medo de magoar o outro, as meias palavras e, até mesmo, o senso estético e o gosto de cada um tem que ser regulado. não parece ser este o céu. Falemos dos filhos, para completar o quadro. Há muitos modelos disponíveis e muita pressão para que se "eduque corretamente" os filhos.
Sabemos que não há um modelo único, mas o estigma do fracasso nos persegue, a culpa sobre os pais (particularmente sobre a mãe) é um fardo insuportável: se as crianças são apáticas, isso nos preocupa; se são ativas demais, nos preocupamos; se comem pouco, nos preocupamos; se comem muito, nos preocupamos (e nunca sabemos o que é pouco ou muito); se gostam de coisas incompatíveis com o gênero (masculino ou feminino), nos preocupamos; se não gostam das creches e escolas, nos preocupamos; se gostam demais, nos preocupamos; se não falam, nos preocupamos; se falam demais, nos preocupamos; se não se encaixam em modelos e padrões, nos preocupamos; se não se encaixam, ficamos desconfiados.
As crianças vão crescendo e vamos ficando cada vez mais "neuróticos", pois precisamos encaixá-las em modelos aceitos pelo grupo, pela sociedade, pelos parentes (avós, tios, primos etc.), vivemos numa comparação eterna e nos culpando a cada dia por deslizes inevitáveis. Muitas vezes passamos, mesmo sem o saber, sem o perceber, a oprimir os filhos para que se encaixem ou para que se desencaixem. Tornamo-nos violentos, seja fisicamente ou por meio das palavras e vamos minando as forças das crianças. Na medida em que vão crescendo, vamos nos assustando com a sua arrogância ou com sua apatia, tanto faz. Eles já são capazes de nos amedrontar, sabendo ou não disso. Vem o medo da perda, de que eles vão embora. Vem o medo do envelhecer, vem o medo da solidão. E nesse meio de caminho, já não sabemos mais quem somos e se seremos alguém quando os filhos partirem. Não sabemos se seremos alguém quando ficarmos de novo sozinhos com nossos companheiros , isso se já não os tivermos deixado pra trás há muito tempo.
Claro que há outras possibilidades, claro que há modelos alternativos, que há saídas, que o diálogo ajuda a superar muitas coisas, mas, com certeza, todos são atingidos por, pelo menos, parte desses problemas, todos somos feridos na alma, temos nossos sonhos afetados, nossos gritos abafados. Quase sempre porque "amamos" o outro.
Então não há salvação? Creio que há relações boas e que se pode chegar até o fim com uma família que tenha valido a pena construir e de por ela ser reconstruído. É necessário colocar na mesa as questões, é necessário ficar nu e olhar as feridas da alma, é necessário querer curar as feridas e ajudar a curar as do outro, é necessário perdão e o reconhecimento dos próprios limites, é necessário admitir o quanto podemos ser egoístas e maus, o quanto podemos oprimir e magoar o outro, o quanto podemos nos tornar azedos e pálidos. Isso mesmo, não ao romantismo.
Viva, porém, o romantismo, pois só sendo romântico, tendo esperanças, desejando que a interioridade se torne transparente e lúcida, aberta a novas experiências, pronta para o toque do outro, é que se pode ter uma chance de romper a banalidade, a violência, as frustrações e deslegitimar a vida sem diálogo e sem perdão.
É fácil se perder, é fácil se esconder, é fácil adotar rotinas para nos "salvar" das perguntas e da consciência, é fácil transportar nossos valores para outros ambientes (como o trabalho) e esvaziar a família em importância e sentindo, mas isso não mudou o fato de que alguma coisa falhou.
Já se vem questionando faz tempo as matrizes que nos guiam: a matriz heterossexual, a matriz monogâmica, a matriz machista, a matriz cristã, a matriz da família nuclear, enfim. Seria bom que levássemos a sério tais questionamentos. Não é hora de propormos e construirmos alternativas? Nossos filhos e netos terão que se perder, um dia, em meio à solidão da vida em comum?
NOTAS
1) O trabalho do psicanalista não tem a pretensão de alcançar um entendimento completo dessa subjetividade, mas auxiliar o próprio analisando a compreender como "parte" dessa subjetividade funciona e, talvez, porque assim "funciona".
2) Não me parece isso ser essencialismo. O que chamamos de Ser, aqui, pode ser remetido á idéia de estrutura, que não é nunca real, mas modelar.