
Humberto 60 - part I
Ciau
Humberto Haydt, 1967
Giro nesta órbita temporal
Das despedidas que se não
Despedem, das partidas
Que não me partem
E existo, salvo melhor juízo
Como um tu que se ficou
Comigo num muito alhures
E nos recordo mais em eu.
Olha, doce amiga, eu fui
Muito antes de me ir
E fico, doce amiga,
Por mais que já me vá.
O sonho que foi nosso
É o sonho que é nosso
E posso, cá por nós,
Sonhá-lo que por duo.
--oo--
Gênese
Humberto Haydt, 1967.
Como prometesse chuva
E a noite fosse incrivelmente longa
E a lua, como outras coisas importantes,
Ameaçasse me deixar, ameaçasse se esconder
Atrás de umas nuvens esperíssimas que adensei
Senti-me vigorosamente presto à terra e aos outros elementos
E, tomando uma partida de uvas, não escolhidas, pertencentes a outrem
Lancei-me à tarefa grandiosa e arriscada de fazer o melhor e o mais forte vinho.
Estou fazendo um vinho.
Não me perturbem porque estou fazendo um vinho.
Como um ato de criação, estou fazendo um vinho
a minha imagem e semelhança. Como um pecado mortal,
estou fazendo um vinho, consciente de todo seu álcool.
Como um ato de humildade, estou fazendo um vinho,
paciente da minha fermentação. Como um herói vitorioso,
estou fazendo um vinho, transbordo-me por mil barris.
Da uva ao mosto, do mosto ao sumo, do sumo ao vinho
E seu espírito, e seu inseparável espírito que habitará o todo
E seu insuperável espírito que, como eu, transbordará até as coisas,
Restará esta vontade de essência que a garrafa grita,
Este expectativa de complemento, da embalagem, do selo e do nome,
Essa esperança de eleição do pedido da encomenda e do hábito,
E ninguém, nem mesmo eu, poderá fazer um vinho igual,
Por tamanha a improvisação e incompreensível êxito final!
--oo--
SALMO
Humberto Haydt, 1967
No princípio era o nome das coisas
Apenas como uma informação sobre o virá
E os bichos e as plantas e as pedras
Eram animados pelo sopro do eterno
E o eterno era o amor e o amor era o ódio
Não havia sequer alguma diferenciação
Era tudo si mesmo como nascido do tudo
O nada não houvera abstração do não-criado
E no todo se completava como u-a mão na outra.
Depois as coisas tentaram a mudança pro mais.
Mas que tese se no eterno mais o depois
É ainda o princípio de tudo e se insistir
Perde o fim como duas mãos que se desenlaçam
E imanece a essência nesse princípio a mais
Onde não há seqüenciar, suceder, interpolar
Porque no princípio era mais este verbo
Que paira sobre estas águas azuis.
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