Trechos do Caripeba I (Humberto Haydt)
Diz que o Itaberaba fica na cama do sol.
A jusante do Igaratim ruma pro lado do poente.  Rio moroso, desses que correm pra riba catando as tripas do Eldorado.  Rio de manha, voltinhas num eixo sem nexo.
Rio orgulho, rio prolixidade, cortadinho de igarapés. Rio com a calma quebrada, aqui e ali, pelo papoco da banana pescatriz.
O barco, batendo o diesel-monopilão tremidamente, avisa à bicharada a passagem do perigo.  Apito é maldade do piloto pra assustar no sobreaviso.  O macaco-prego segura a tampa da cabeça, sente o fim do mundo, grita, grita sem fugir.
O barco, rio acima, soca os minutos pela beira, evita o centro ao leito que é flexa rumo à foz.  Cruza com o caboclo cismarento, igarité casca de noz, na bubuia, sem apito, sem timão.
- Ô !
É falança de bom dia, bas tardes, coisas boa vencendo o espaço.
- Ô !
Resposta.

--oo--

A mansidão da superfície mangava de muita coragem.  O turista ficou olhando.  Dois palmos pra baixo do quieto, a força era outra.
A água escura esconde a intimidade dos peixes.  A piraíba de bocão esperando os destemidos; o pirarucu inocente e a piranha faminta, pra quem quiser saber que tamanho não é documento; o leso tucunaré foi feito para engasgar com carataí; o peixe-boi pra pastar no lodo da beira; o boto, de luto, pra mijar pela testa, carpir ao banzeiro perto do remanso.  E tanta arrelia mais. O fona é o cuiu-cuiu. Preto pixe chupa-limo.
Cadê o Caripeba? Perguntou o visitante.
Ninguém respondeu.
            Pescaria é arte do cão que dá muito hoje, amanhã tira tudo. Vem o vento da gota invocando o Igaratim, levanta a vaga arretada que esbagaça até igaraçu.  O vento sibilante tocando pífano do atrito.  O vento mau. Daí não se responder a pergunta, e até se fazer chiu mais em gesto que nos dentes.
Em véspera de muito, se faz pros dias de nada.  Por isso se aprende a escalar bem fininho o lombo do pira, juntar sal nas feridas, levar o todo pro sol.  Por isso se prepara o piraém.  E chibé se improvisa com farinha e chuva de Deus.  Macaxeira pode ser até abundancia.
E vem o turista assuntar a estória sem conhecer o perrenhe.  Pro inferno, gente granfina!
- Caripeba não nasceu.

--oo--

Quando a pesca some, pira moitado no igapó, fugido do arrastão, e nem a zagaia certeira dá conta do recado, e nem o jaraqui dá honra ao anzol, vale o pirauim.  Ou fome tangendo viola de apertura, vento mantendo bucho murcho.
Precisa ver o igariteiro deslizar e preparar nos pontos conhecidos a armadilha pro esperto.  Semeando na incerteza o caroço do oportuno.  Depois deixa tudo quietinho pro pira não se arreceie.  A isca saborosa esconde o fim da linha.  Ninguém desconfia que n´ali peixe se dana.     
Depois volta gozando a dúvida, adivinhando pela escuita o rebojo do fisgado, chega sente dois.  Muita vez recolhe a linha morta: hoje, cortada no puxão; pirarucu-açu; amanhã, anzol brilhando sem chamariz: arte do candiru.
Até que o  tal Caripeba nasça e tire Ibicurussá da miséria, faça as máquinas chegar pra plantação e ondinha curta que, diz, adivinha cardume no longe.
- Caripeba está só prometido, sô! Demora mais.
E haverá dias de  benção em que se contorna o canto da rua com a meninada em turba acompanhando exibição.  A casa toda que é só pitiú.  A gosma, o lodo pela cara satisfeita.E haja limão.



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