Trechos do Caripeba III (Humberto Haydt)

Como terminará a infancia do Herói

 
 
            Bom tempo aquele, o do Caripeba, piá, brincando na clareira com os bichos todos em irmanação.  O sol esquentava o lombo e não brotava perigo de tanta coisa, porque a inocência era grátis e se nascia com ela.  Demais, não havia preocupação: a Uiara fazia saltar pira tenrinho quando soava no bucho o meio dia em ponto.  E fogo tinha à vontade, era só chamar o Saci que conhecia os atalhos onde passavam os seringueiros que nunca o negavam:
            “Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou tomando banho!”
 
            E tudo estava tão longe do acontecer que o destino parecia brincadeira de susto que se prega em curumim endiabrado.  Ibicurussá nem sabia que estava sendo ocupada, que tinha um rabo de cobra na boca, enquanto a boca da cobra mamava o peito da evolução.  O Caripeba mesmo nem tivera a notícia de que muuitos escolhidos não conseguiram fazer mais do que deixar estórias gravadas na imaginação, virar cantiga de cururu, ABC de mercado.
            “ Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou enxugando!”
 
            A infância do Caripeba era a mesma de Ibicurussá.  Também brincava de roda, sabia quadrinhas interessantes, ingênuas.   Mas o tempo foi passando, parece que tudo se encaminhava de propósito para um objetivo muito grande, muito grande.  O herói tinha uma sede cachorra e a sede era tanta, a sede era outra, de tanta água, dum outro Igaratim.
            “ Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou vestindo a calça!”
 
            Como nos grandes enredos, Tupã dá uma infância inigualável que é para aumentar, sem lhe doer a consciência, a dor e a nostaliga do marmanjo.  No começo, tudo fácil.  Depois, aquele rebojo de danações.
            “Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou vestindo a camisa!”
 
            O sol passava também risonho e pagão no seu carro de fogo puxado pelos jumentos e as folhas ficavam se virando que é para dar caminho pros fachos que se alternam, fazendo, da paisagem bonita, uma paisagem muito bonita.  E quando orvalhava lágrima no veludo do capim-mimoso, do capim-carona ou do sapé, os pequenos bichinhos rasteiros contavam mil e um arcos-da-velha na intimidade das moitas.  E o amendoim-do-campo, famosa resistência às queimadas, era um exemplo de vontade que impressionava o Caripeba.
            “Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou vestindo o paletó!”
 
            Sem se falar no passatempo predileto da pescaria de poita, de zagaia, de pinauaca.  E quando peixe rareava, sumido no igapó visguento, cheio de pium, tinha caçada de patos, flecha ligeira ganhando o espaço em rumo certo, de derrubar.
            “Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou pondo o chapéu!”
 
            E depois, de noite, ao pé da fogueira que o Saci acendia na coivara, cada habitante da selva vinha se chegando pra contar as últimas dos arredores.  O Caripeba gozava baixinho, olho apertado pra imaginar melhor as espertezas do Jabuti, o susto do caçador quando encontrou os galhinhos cruzados que o Saci deixara na trilha,as últimas conquistas de Romãozinho e mais uma cadeira de notícias fresquinhas.
            “ Vamos passear no bosque
            Enquanto seu lobo não vem.
            Está pronto, seu lobo?
            - Estou pegando a bengala! “
 

            Foi a correria.  Ninguém acreditava que o lobo viesse, que o dia chegasse.  Perguntavam só para constar, como brincadeira de menina.  E a bengala foi a última peça.  Acabara a infância de Caripeba, saciada a fome elementar.  Começara a caminhada para a matança da fome dorsal. A fome geral.


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Como o Herói pensará em Desistir da Missão.

 
            A noite era escura como o útero de Ibicurussá e tinha os furinhos luminosos no teto porque o sapé estava mal espalhado, ralamente.  Vinha uma brisa sem direção refrescar a face esfogueada do Caripeba.  E a lua.         

            O Caripeba olhou tudo aquilo, queria pensar em nada, queria desistir da missão, mas sentia uma força que nascia do momento e que o atirava contra os fatos na violência dos suicídios.  Queria assistir a luta de um herói nacional, aplaudir, vaiar, comer pipoca e apostar.  Mas estava escrita a verdade irreversível: o herói era ele, era ele o herói.  Caripeba Membyrangái.


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Como o Herói Conhecerá Os Obstáculos e se Preparará para os Tais

 
            E o Caripeba taludo se viu diante da Coemitanga.
            Era vermelha com os cabelos longos boiando no Igaratim tranqüilo e cantava no bico dos pássaros, os peitinhos que nem fole apressado.  Gostosíssimo.
            Perguntou porque achou de deixar vestígio:
            - Que é feito de mim, Alvorada?
            - Caripeba-açu.
            - Quê dê mirim?
            - Mirim ficou na curva do ontem virado folha amarela dentro do missal dominical.  Teu começo é lembrança no desejo de Ibicurussá.  Teu início é o gostoso pelo que tem de vulgar e qualquer.  E tiveste por parte do enredo o caminho cuidado e provido do tanto.  Não mamaste na loba como teu irmão porque não fundas cidade nem tens igual.  Não te acharam no certo, enjeitado, porque o acaso não te leva para promissão ou maná.  Tua mãe não é virgem, nem fugiste à matança porque os evangelhos estão prontos, tua cruz é vária.  E chega de referências.  Mas Ibicurussá chora neste momento a lágrima do até-que-enfim.  E eu sei que grandes feitos te esperam se venceres o exame que é de derrubar.  Vai, Caripeba-açu, grande branco filho de ninguém.
            E o Caripeba montou na asa do Gavião-pinhé, foi se informar melhor.
            Achou o Jabuti remexando a papelada velha no baú.  Foi logo no assunto porque estava chegando a hora.
            - Cuidado, Caripeba, o Quimboto estava esperando esta alvorada pra te desfolhar.  Diz que pra ser herói tem que tirar carteira de habilitação nacional.  Vai estudando os pontos e decora a parte vaga que cai na certa.
            - O Quimboto manda assim?
            - Muito. Tem a polícia que cerca o herói, pede a carteira e, se não tem, dá processo.  Só os habilitados podem.  Tem que passar no exame, entrar com os papéis, duas fotografias 3x4 e 800 cruzes*  em selos federais.
            - E se não?
            - Ba-bau.
            - E o Caripeba, como não tinha tempo para estudar, comeu os papéis com tucupi, bebeu assai por cima, foi digerir debaixo do jatobá.
 
*-  Cruzes é o nome da moeda,traduzido de “ Curussá” ( mal-de-fiúme)  .




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