Como terminará a infancia do Herói
Bom tempo aquele, o do Caripeba, piá, brincando na clareira com os bichos todos em irmanação. O sol esquentava o lombo e não brotava perigo de tanta coisa, porque a inocência era grátis e se nascia com ela. Demais, não havia preocupação: a Uiara fazia saltar pira tenrinho quando soava no bucho o meio dia em ponto. E fogo tinha à vontade, era só chamar o Saci que conhecia os atalhos onde passavam os seringueiros que nunca o negavam:
“Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou tomando banho!”
E tudo estava tão longe do acontecer que o destino parecia brincadeira de susto que se prega em curumim endiabrado. Ibicurussá nem sabia que estava sendo ocupada, que tinha um rabo de cobra na boca, enquanto a boca da cobra mamava o peito da evolução. O Caripeba mesmo nem tivera a notícia de que muuitos escolhidos não conseguiram fazer mais do que deixar estórias gravadas na imaginação, virar cantiga de cururu, ABC de mercado.
“ Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou enxugando!”
A infância do Caripeba era a mesma de Ibicurussá. Também brincava de roda, sabia quadrinhas interessantes, ingênuas. Mas o tempo foi passando, parece que tudo se encaminhava de propósito para um objetivo muito grande, muito grande. O herói tinha uma sede cachorra e a sede era tanta, a sede era outra, de tanta água, dum outro Igaratim.
“ Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou vestindo a calça!”
Como nos grandes enredos, Tupã dá uma infância inigualável que é para aumentar, sem lhe doer a consciência, a dor e a nostaliga do marmanjo. No começo, tudo fácil. Depois, aquele rebojo de danações.
“Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou vestindo a camisa!”
O sol passava também risonho e pagão no seu carro de fogo puxado pelos jumentos e as folhas ficavam se virando que é para dar caminho pros fachos que se alternam, fazendo, da paisagem bonita, uma paisagem muito bonita. E quando orvalhava lágrima no veludo do capim-mimoso, do capim-carona ou do sapé, os pequenos bichinhos rasteiros contavam mil e um arcos-da-velha na intimidade das moitas. E o amendoim-do-campo, famosa resistência às queimadas, era um exemplo de vontade que impressionava o Caripeba.
“Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou vestindo o paletó!”
Sem se falar no passatempo predileto da pescaria de poita, de zagaia, de pinauaca. E quando peixe rareava, sumido no igapó visguento, cheio de pium, tinha caçada de patos, flecha ligeira ganhando o espaço em rumo certo, de derrubar.
“Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou pondo o chapéu!”
E depois, de noite, ao pé da fogueira que o Saci acendia na coivara, cada habitante da selva vinha se chegando pra contar as últimas dos arredores. O Caripeba gozava baixinho, olho apertado pra imaginar melhor as espertezas do Jabuti, o susto do caçador quando encontrou os galhinhos cruzados que o Saci deixara na trilha,as últimas conquistas de Romãozinho e mais uma cadeira de notícias fresquinhas.
“ Vamos passear no bosque
Enquanto seu lobo não vem.
Está pronto, seu lobo?
- Estou pegando a bengala! “
Foi a correria. Ninguém acreditava que o lobo viesse, que o dia chegasse. Perguntavam só para constar, como brincadeira de menina. E a bengala foi a última peça. Acabara a infância de Caripeba, saciada a fome elementar. Começara a caminhada para a matança da fome dorsal. A fome geral.
A noite era escura como o útero de Ibicurussá e tinha os furinhos luminosos no teto porque o sapé estava mal espalhado, ralamente. Vinha uma brisa sem direção refrescar a face esfogueada do Caripeba. E a lua.
O Caripeba olhou tudo aquilo, queria pensar em nada, queria desistir da missão, mas sentia uma força que nascia do momento e que o atirava contra os fatos na violência dos suicídios. Queria assistir a luta de um herói nacional, aplaudir, vaiar, comer pipoca e apostar. Mas estava escrita a verdade irreversível: o herói era ele, era ele o herói. Caripeba Membyrangái.
E o Caripeba taludo se viu diante da Coemitanga.
Era vermelha com os cabelos longos boiando no Igaratim tranqüilo e cantava no bico dos pássaros, os peitinhos que nem fole apressado. Gostosíssimo.
- Caripeba-açu.
- Mirim ficou na curva do ontem virado folha amarela dentro do missal dominical. Teu começo é lembrança no desejo de Ibicurussá. Teu início é o gostoso pelo que tem de vulgar e qualquer. E tiveste por parte do enredo o caminho cuidado e provido do tanto. Não mamaste na loba como teu irmão porque não fundas cidade nem tens igual. Não te acharam no certo, enjeitado, porque o acaso não te leva para promissão ou maná. Tua mãe não é virgem, nem fugiste à matança porque os evangelhos estão prontos, tua cruz é vária. E chega de referências. Mas Ibicurussá chora neste momento a lágrima do até-que-enfim. E eu sei que grandes feitos te esperam se venceres o exame que é de derrubar. Vai, Caripeba-açu, grande branco filho de ninguém.
E o Caripeba montou na asa do Gavião-pinhé, foi se informar melhor.
Achou o Jabuti remexando a papelada velha no baú. Foi logo no assunto porque estava chegando a hora.
- Cuidado, Caripeba, o Quimboto estava esperando esta alvorada pra te desfolhar. Diz que pra ser herói tem que tirar carteira de habilitação nacional. Vai estudando os pontos e decora a parte vaga que cai na certa.
- Muito. Tem a polícia que cerca o herói, pede a carteira e, se não tem, dá processo. Só os habilitados podem. Tem que passar no exame, entrar com os papéis, duas fotografias 3x4 e 800 cruzes* em selos federais.
- Ba-bau.
- E o Caripeba, como não tinha tempo para estudar, comeu os papéis com tucupi, bebeu assai por cima, foi digerir debaixo do jatobá.