Poema de Humberto de Sempre ( 30.3.66)
elementos
Eu não sei de nada,
mas é bem verdade que os acontecerem me comovem
e viver, se for amar o que se amando
falta ao dia do criar mais no profundo,
os elementos que se abram em tese farta
de que deles não lhes seja mais o mundo.
O ar - que tal? -
de atrito carinhoso nessa face
eu o sinto desligado deste vento
que, em sendo o ar em movimento,
mais balouça que embala
as fiubras que o tear de meu entendo
à trama a urdidura fai tecendo.
A terra com seu ventre declinado
em vez de planta, pedra e bicho
dá-me o gosto do descanso e itinerário
que, aos poucos, no caminho descobrindo,
escolho e traço, dia a dia arrependido,
na busca de uma flor que está se abrindo.
O fogo que acendo iluminando
o claro ( porque claro nunca é tanto,
porque fogo assim tão dominado,
à disciplina de graveto se esfregando,
nãof az mais que atear-se ao desejado )
é a língua que, calada, faz-me o verso
que à luz modesta vou achando.
E água que se molda ao vaso curvo,
fazendo outro vaso mais no vero,
líquido no dentro - conteúdo
rico em linha continente,
é o fluido que me soa tão maduro
como a forma de viver que não soletro.
Pois viver é relutar em se contendo,
mas não ter a forma em se moldando.
Humberto de Sempre, junho de 1967
Uma tarde que finda
contra-mão
à noite que canta
escuridão
uma porta que abre
à minha mão
e a luz se acende
sem clarão
à valsa antiga
recordação
ressonar vazio
respiração
sem eco e vida
verberação.
a cópia
...e João desamou a Maria, como desamara a tantas coisas.
Mas atentai, severamente, para estas palavras,
examinai cada um com o sentido do cosmos:
João, sem outro caminho, desamou Maria.
Precisamente, isto foi tudo o que aconteceu.
E as margaridas se coroaram com suas engrenagens brancas ou amarelas,
surgiram botões e prolongamentos audaciosos;
os mares, com suas marés, fizeram e desfizeram o ciclo,
os pássaros migraram, se é que disso precisaram
segundo suas obedecências biológicas,
e o universo não ruiu, como era de se esperar;
não ruiu, como era de se exigir;
não ruiu, como era de se ruir;
ou melhor, ruiu - exatamente isso: ruiu.
E Deus, com medo de se acabar,
fez depressamente outro universo exatamente igual,
com margaridas e mares e pássaros!
Mas sabei, por amor à verdade e amor ao amor,
que este universo, o novo, o exatamente igual,
era outro universo; que precisamente era outro,
igual, certamente, mas outro; cópia, pois bem,mas cópia;
um universo tão fabulosamente igual ao primeiro
que ninguém percebeu, exceto Maria,
que era outro, onde ela teria o direito e a liberdade
de cultivar uma absurda saudade de algo que existiu
e que, não existindo, existe mais profundamente
porque resta a flor, o mar, o pássaro
como testemunhas do que se criaria pelo amor
que um dia João teve a Maria.