Trechos do Caripeba IV

COMO O HERÒI SERÁ CHAMADO AO EXAME E VENCERÁ O CAMINHO MAU.


    No tronco da embaúba se finca flecha fazendo ruído de fibras que cedem.
    O Caripeba salta.  Sonhava com sabichonices que se engalfinhavam.  Catou a fisga.  Tinha um papel enrolado que marcava a hora do exame.  Cabograma do Quimboto.
    Só o endereço já era enigma porque estava montado em mapa negativo de charneira desconhecida.
    O Corrupira, pés pra trás, vivido nessa anedota, olhou pelo transparente e disse " pega a trilha da Cotia e na terceira à esquerda entra que dá lá.  Se não acha, joga um pirilampo pra cima, que é noite, e eu vejo o tombo, vou assuntar".
    E o Caripeba vestiu o uniforme, foi sem precisar de mais ajuda. 
    No fim do caminho era uma pedra que tapava tudo. Num toque ela fez eixo ao centro, gangorra nas pontas, jogou o herói pra dentro.  E era um lago com voragem no centro chupando com força de vento.
    Nadou, nadou, porém com um braço só.  No outro levantado a mão em concha tinha um cacho de pirilampos alumiando a nadação. Vai que as forças iam se indo quando sentiu coisa macia no peito em mergulho e viu a arraia ajudar num sussurro moitíssimo:
        - Cala nas minhas asa e faz de conta que é tu.
    E chegou do outro lado agradecido, mas tinha uma pinguela pra atravessar o abismo.  E começou, pé procurando o firme que fugia, a palmilhar tremido a ripa que vergava, já rachando no meio.  Foi quando a Jiboiçu se enrolou num tronco lá e botou o pescoção que é toda ela pra cá.  Soprou:
        - Monta ni mim que me puxo de volta feito balata.
    E se puxou. Mas havia o perigo do braseiro pra pisar, com cada olho de fogo bonito vermelhão de assar batata e macaxeira bem.
    A saparia principiou por engolir chuáaa ponto por ponto, mas era tanta brasa que chuava muito. E o Caripeba jogou pra cima o caga-lume chamando o Caapora que demorou nada:
        - Faz pelo sinal, chama São João, atravessa o braseiro firminho que não tem perigo.
    Foi.
    E apareceu a itaoca do Quimboto, sem alma pra receber o visitante.
        - Nunca ninguém chegou aqui - disse a pedra da inscrição.
        - Porém sou Caripeba pronto pra argüição.

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COMO O FEITICEIRO SAUDARÁ O EXAMINANDO

 
    A selva toda tremeu quando o Quimboto apeou da lebre veloz com cara de bastante surpresa e muita cortesia: 
        - Ai, Caripeva, que ventvra vos advsse aqvi?  Qve bem sei qve sem razon nom veestes vós. Mvi me praz, ca teúvdo soom de vos fazer serviço em todas covsas qve ev pvder!  Par Tvpã, se vós nom cvidássedes seer boõ cvrvmi seria grã dano e grã maladventvra, ca sobejo sodes nom enxvto.  E meterei por escrito todalas maravilhas qve Tvpã aperreado mostrará por tev amor em ta demanda.  Tvpã te faça cvrvmi cabra macho e bõo.    

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COMO SE PROCESSARÃO AS PROVAS

 
    Teve formalidade sim.  O Quimboto viu logo que não se tratava de um herói qualquer, desses que só podem dar mesmo a vida porque não tem mais nada que preste.  E quis fazer indagação de um tudo, o que foi impossível pelas respostas na língua do Igaratim, com sotaque chorão de remanso e sibilo de brisinha incansável.  Daqui que eu traduzisse, Pai-sol já tinha completado a caminhada fogaréu no azul de cima.  E pra não dizer que ignorava, o Quimboto fingiu se iluminar, falou que sabia tudinho, seguira de perto da criação do herói.
        - "Sou catedrático", disse convicto da autoridade. " O exame é demorado", acrescentou.  E foi desembrulhando um jarro de prata, de onde tirou um diabinho magrelo, tamanho do candiru, que choramingava impotente.  "Este é o adjunto de cátedra", apontou orgulhoso para o auxiliar. " Tem que mamar primeiro". E deu o dedo mindinho pro capeta faminto que logo brocou pra sugar depressinha.
    Depois o Quimboto pegou a frauta de Pã e tocou u´a música muito simples e hipnótica que circulou entre as árvores deixando um rastro azul meloso que escorria pras cabaças que o adjunto ia espalhando pelo chão, no romper dos pés de pau.  Depois ofereceu aos visitantes que foram se petrificando um a um na medida que bebiam a garapa. 
    O Caripeba sentiu pedra se encorpando nas carnes, mas se lembrou do umbigo, que é por onde se arremata, e destapou deixando ralo insaciável discretamente aguando entre as pernas.  Disse que o licor era bão, pediu bis, ao que o Quimboto atendeu com maracatus seguidos e as cabaças se enchendo.
    Lá uma hora o tocador estava sem ar e o Caripeba querendo mais.
        - Licença pra desfazer?  pediu o bebedor.
    E o Quimboto duvidou. O Caripeba foi beijando ternamente, beijo de chupa-flor, os pés das estátuas de pedra e o beijo era toque pra despedração.  Depois desfiou sorriso lindo de piá satisfeito coçando a cabecinha.
    O Quimboto se aperreou. Sabia outras.  E com a varinha torta e nodosa apontou pro Igaratim, regeu uma orquesta rápida.
    O rio foi crescendo, saindo do leito, envolvendo a clareira, chegando sem fazer chuá e lá nele os peixes ferozes já de bocão aberto esperando os incautos.  Tamanha água junta devagarzinho se ondando no caminho só viu o povo narigudo quando o Vermelho se fendeu.
    O Caripeba juntou timbó, deu surra na pedra, fez daquilo brincadeira de ver quem pega mais peixe durinho.  E garoou o Vento pela cabeleira, jogou nos beiços do Igaratim e o aguão voltou ganindo de enxurrada pro leito carregando Quimboto que a custo se livrou porque na afobação perdeu a varinha.
    Mas sabia mais.
    O malvado num só golpe rancou chumaço de pelo ao herói, botou na boca do sapo, costurou com ponto de cruz, disse:
        - Tu é ele, macambuz, amarrado com pelo in pra ficar com jetatura. 
    E Caripeba entortou, ficou todo ao invés.  Os pés desandavam, a boca descomia e desfalava, os olhos virados pra dentro feito estátua.  Só pode pular em cima do pobre que explodiu a costura vomitando o chumaço.
    O sapo disse:
        - Uai, papai - e saiu sangra-pulando agradecido enquanto o Caripeba se aprumava para espanto do Quimboto.
    Que sabia mais.
    A galinha cantou como galo.  Era a desgraça que vinha por perto com suas sete irmãs. O herói passou a mão na desajustada, degolou depressinha, enterrou numa cova feita com as unhas e plantou cruz em cima.  A desgraça não tomou conhecimento e apareceu na curva de trilha toda vestida de roxo.  O Caripeba se lembrou do requinte, desenterrou a degolada, cortou a ponta do pé direito, voltou com a terra e a cruz por cima e então a desgraça se despedaçou bem pertinho.  Foi só fazer outra cova e sepultar.
    E o Quimboto sabia mais.
    Jogou um mau olhado tão forte em cima do herói que o mato miudo que estava por perto chiou se torcendo já seco fumaçando.  O Caripeba ficou duro sem poder nem falar.  O macaco-prego saiu correndo com o recado e trouxe o boi fugido que emprestou o chifre pra correr com o mau olhado e a pedra-de-bucho pra dar movimento ao herói.  Zás.
    O Quimboto sabia mais.
    Com um gesto fez mil cobras sairem dos poros. Cada uma mais danada que a outra, todas de lingüinha forquilha lambendo a brisa e dentões afiados buscando o macio do sabido.  Vai que o herói toma o ar do declamador e lambuza:
        - " Palavras santas,
            palavras certas,
            fique esta gleba
            de cobras deserta!"
    E cada uma vez puf de sumiço num segundo diferente.  Até parecia tiro de automática desafiando fuga de caça ligeira.  Todos os bichos se assustaram muito e caíram de garras em cima do Quimboto que fugiu pra  itaoca desesperado. 

    O herói nem comentou o acontecido porque o Quimboto saberia mais algumas. E porque  quem cochicha rabo espicha. 





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