Poesias 1 (Jansy B.S. Mello)
Reminiscir
O que eu gosto da minha infância
é que eu gostava dela, mesmo
quando não gostava dela.
Eu amava o poste torto
na esquina,
o buraco da calçada
no azul do seu desenho.
Os cheiros, todos. Bacalhau
no armazém. Ovos frescos,
galinhas e, às vezes, codornas
também. Água verde pela
rua e seguindo
em caminhada, o aroma de um jardim.
Areia da praia no fundo
do maiozinho, extensão
do mar que me fazia por a boca
no mundo. Recantos de luz, calafrios
frestas, goelas
de arrepios com o que já
fora visto tanto, tanto
mas parecia novo de repente e
mais estranho.
Eu vivia os segredos dos quintais
sombrios, frutos caídos, mosquitos
pinicando feito organdi nas costuras
dos braços, estragando
as festas.
Gosto da infância porque
então eu gostava de tudo,
na pele e nos olhos,
ouvidos prontos,
galo distante, distraído.
Meu io-iô feito dropes lambido,
segurado contra a luz era uma promessa de
maravilhas a mais.
Mesmo sem qualquer direito
o mundo todo me pertencia e cada
caminho me devolvia à inocência.
Pegar o bonde andando e ir no estribo
Dos gradis das velhas casas, gritando:
"Cada passagem será registrada à vista
do passageiro..."
treinando em casa com moedas do Getúlio,
notas alinhadas, asas a fugir dos dedos.
- "O que é isto, menina
deixar crescer a unha do mindinho?"
O bonde 5 já vinha com areia do Leme,
daquela molhadinha
de fazer fila de bolos que não se
desmanchavam. O 7 do Humaitá
trazia o verde das hortaliças. Águas Férreas. Laranjeiras.
Praça do Gozório, estranho general.
Inventaram o plástico na páscoa,
só o meu, com ranço de mato
e cestas de ovos,
passeio de mão dada, palitinhos
de sorvete.
O mundo me pertencia e cada passo
a ele me devolvia na ignorância breve
do seu enorme buraco sem fundo,
como as calças riscadas
dos peixeiros sem casaca,
italianos bigodes,
espantando ladainhas de gatos
a miar por narizes santos no céu
de escamas espalhado no asfalto.
E o melhor de tudo ...
e o melhor de tudo era
isso mesmo, de achar
cada instante o melhor de tudo.
Carta
Antegozo a hora
De sentar-me à mesa
Sem o vivo do cotidiano
Escrevendo do desejo
Que atravessa os ventos
Que se acendem no verão.
Minhas mãos
Recriam o contraponto
Pelo qual você se apresenta.
Seus temas são futuros
Que me espreitam.
Entrelinhas.
Não faço idéia do som
Da sua voz. Seu olhar
Por si só me comove
Através do silencio que se cria
À minha volta,
Por instantes.
Enquanto me envolvo, fico à salvo
( não pergunte do quê ).
Quando escrevo encontro
Histórias antigas
Longuíssimo passado do
Qual cada minuto
Me distancia.
A batida da escrita introduz
triste medida,
Tantas vezes o que nos aconteceu
Já então
Nos escapava
Pelos intervalos,
Minúsculos paraísos.
Temos que nos dar
Transitivamente
Transidamente
Acreditando em nossa importância.
Entretanto me acontece de ir
Me esquecendo à medida em que escrevo,
Como se a minha alma andasse à
Frente e minha passagem
Desfizesse os rastros.
Enquanto escrevo existo para um você
Que ainda não existe.
DesCartas
Percorro os riscos que deixo no papel
E minhas mãos moldam novos
Riscos, respondendo aos seus
O tempo partido em dois,
Leitura e resposta.
Não é que falte o que dizer
Que tenha nada a dizer
Porque isso já seria ter
Como neste instante
Crescem as marcas no papel branco.
A rotina me persegue
Em todos movimentos.
Gestos se encaixam a tal ponto
Que começo a me exigir
Mais alguma outra coisa,
Como se fosse preciso
Neste universo, ser mais que
Repetição de algo muito
Duro. Caroço.
Para que possa dizer
Mais do que este querer
Não ter
Requisito a insistência
Do vazio.
Sou, como somos, coisa estranha.
Nosso apoio ao mesmo tempo
Voz e ausência.
Vivemos de toques,
Tacadas
Em bolas de bilhar
No verde puído
Ao entardecer.
Longe do agora,
Só resta o nada
Entre dois corpos
Na voragem da palavra.
Debitando dores
Na corrente à conta do corpo
Como quem compra rosas
A pagar no fim do ano e as esquece
No balcão.
Arquiteta de figuras
Espero seu desmentido.
Quando chove
O canto
Dos pássaros
Anoitece
Até uma nesga
Azul resgatar
A manhã
Em mesmas
Revoadas.
Ouço-a idosa
detalhar cada momento
de sua vida quase
cega e surda
na boca da noite a espreitar
quando ela se cala
no escuro.
Segue-me
em casa acendendo
luzes,
inventando móveis, descrevendo
louças, potes, rendas.
Falar é tato
e pela boca enxerga
seu rol de fatos
( viver requer esquecimento?)
Envelheço como sempre
Mas acredito agora
Que envelheço
Como todo mundo
me dizia e eu sabia
e eu não sabia.
Como todo mundo.
Diário
Nas arrumações que ontem
Fiz nos guardados do sotão
Encontrei retratos velhos
Plenos gestos de gastos planos
E meus olhos me encontraram
Indiferentes, no espelho das
Pistas sobre mim. Vulnerável
Como esta frase,
Que inicio agora.
Colhi violetas
Sorvi sua cor profunda
Antecipando o momento
Em que as teria a minha volta,
Mas esquecidas. Pequenas
Mortes, repetidas.
Parece que vivi a vida até o fim,
Mas ela continúa, e me ignora.
Cada sorriso é um adiamento
Na covardia hesitante
Diante da enormidade
De cada gesto.
Bules e sopeiras
Clandestinas no calor
Da casa, escrevem uma aula
Sobre mim enquanto
Escapam na leveza das formas. Tanto
Mais os reagrupo, mais me faltam
Menos neles me reconheço.
Medidas por onde o silêncio
Enfrenta o nada.
Aquele jarrro que coleciono
Com mais outro
Incompleto na coleção
De todos, brecha
Por onde o sol invade
E o dia se abre,
Mas não vou.
O contorno desta mesa não
Sugere ainda solidez
A encontro no alinhamento
Das louças, no golpe surdo
Da resistência
Quando a enfeito de renda.
Talvez eu a esteja inventando.
Ela sustenta.
O sopro da vida
É mais hostil no ofício
De viver.
Como dizer
Não tenho nada
Com isso,
Se apenas por dizer
Tomo parte?
Tua mão tem uma força diferente
Em cada dobra do meu corpo onde
Ela repousa. Já nem sei qual ponto
Frágil e inconsistente na curva
Do meu ombro a torna
Pesarosa enquanto hesita
Explora ou adormece. Ela demarca
Meus contornos e os esquece
Na fuga deste amor que se desfaz
De si enquanto grita e arrefece.
Não o amo mais do que mereço
Palmo a palmo do que lhe pertenço.
Não o trai minha pele em seus rubores
Nem meu corpo é presa fácil dos pudores
Que se escondem na lição de ser mulher.
O cotidiano nos amarra
Mas também o abandono pelo vão
Que me leva para onde você não me quer.
Porque ela se esconde quando
Se abre o dia, o sol em alarido sobre
a cama.
Porque ela se expande em sussurros
Poente dos pássaros, angelus em chamas
Porque se não me explico, ela me causa.
Em desencontro. Paro em puro espanto.
Some o mote sem recurso. Cai
O pano.
Agora é tarde para os delírios de amor.
Antes do desejo, cansou-se
O coração.
Cena
Na pausa entre
O gole d'água e a boca
Seca descansa o dia.
Revoada em súbita
andorinha, molha-me o corpo
com seus gritos.
Constatação
Até a chuva que adensa o sono
Inquieto da cidade espalha
Seu corpo breve no asfalto
De cada sonho sem dono. Nem chuva
Sou, nem silêncio,
Sem outra saída lerei
As marcas da dor turvando
A proteína animada.
Aquela mão mendiga guarda
Três vinténs.
. ..& Perdidos
Depois de tantos anos a esperar
revelações
Aceito boquirrota
Papel pardo das saudades
E me pergunto
E me respondo
Que perdi
A cada dia
Meu passado.
A figueira brava corrompeu
A velha casa.
Serão mesmo sempre as mesmas
As nascentes da tristeza?
( o que cada um não sabe
eis o mistério
que cada um lança no universo).
Juventude
Via-se logo, ele
Estava apaixonado! Antes
De se ir já se lançara
Todo pela sala,
Se estranhando
Se amando atravessado,
Nos pedaços que o chamavam
Das cadeiras,
Das cortinas
Nunca da menina.
Traçados
A criança se concentra no desenho
Dos canhões de guerra
Ela toda é guerra
Seu corpo é tanque, foguete, míssil
Ambulância, igreja, soldado morto.
Ela toda é lápis vermelho
Vermelho cobrindo o papel,
Ela é explosão e o medo.
A criança faz o mimo, nuvem no azul
Estrela de sol, casinha tranqüila
Família, cachorro, caminho.
Onde houver paz
As meninas brincarão de casinha
Até morrerem
De tanto varrerem
De tanto cozerem, de tanto
Cuidarem das bonecas.
Onde houver paz os meninos
Brincarão de guerra até morrerem
Também.
Qualquer guerra é pra valer
Quando não se cresce depressa.
Há uma pausa
Na noite onde a onda
Do vento suspira e fala
Batida do tempo.
Um sopro apenas
Precede o nada
Que a moldura das árvores
Contradiz, calada.
Quadrinhos
Dançam
Na persiana
Breves acácias
Que a brisa
Pressente.
O sol em retalhos
Brinca no copo
Até derramar-se
Completamente.
Astronomia
O menisco
Da lua pendurado
Branca rede
Retirantes com seus mortos
Não acolheu os desvalidos
Do hemisfério norte.
Haveria sob a lua
Alguma coisa nova
Se os calmos rios
Que à noite
A repetem numa aula
De constância
que o próprio fluxo esquece
recusassem sua imagem
quando anoitece.
Dois dedos de prosa
Preço dos ovos na feira
Fatias de consciência
Cortadas no tempo
Embrulhadas com papel de seda.
Divã
Ia falar mas esqueci
Fiquei com a boca aberta
Nessa emoção
Em pé
O corpo em ó
Sentindo tanto
Mas o mundo não tem fim
E morro mesmo
Nos parênteses do tempo.
Parte alguma
Recriarás a alma mecânica
Que rangerá no bambual das manhãs
De frio
Quando a neblina desperta longínqua
Sensação do que se esqueceu
Mas que perdura na suavidade dos cinzas
Quando a natureza tem uma outra
Vida própria, arfando
Em si mesma
Na encubadeira das nuvens e da névoa
Que a dilatam sem enrêdo.
Geometrias
Como círculos traçados n 'água
Se entrelaçam sem fluírem
Inteiramente
Um no outro
Abandonando seu centro isolado,
Assim passamos lado a lado
Em breve encontro.
E haverá outro passar
Distinto deste, cada círculo
Aguado se ampliando
Em seu toque virtual de onda
Calma? Quando nossas mãos se
Tocam, qual o centro?
Cortes
Das árvores nada sabe
a úmida floresta
Quando a chuva entristece
A árvore às folhas desconhece,
A folha ignorando a seiva, cresce
Eis que, nomeadas,
Minhas queixas não escuto
Quando a língua toca o fruto
A folha, a árvore, a floresta.
Sobra
Sempre estive ausente e presente em ti
Mancha estranha
Sopro de susto que se abrandava
A seguir.
Sinto saudades de ter saudades
De ti
Porque isso também aconteceu comigo
De não mais pensar em ti
Quando estavas longe ou perto
O que me fez ir morrendo mais depressa.
Entregar-se a ela é florir
De leve
no capinzal
Que insiste em recobrir as ruínas
Flor rasteira que desenha aquele céu que se pega nas mãos
Por um instante roxo e que
Seria melhor não se pegar.




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