Como o Herói será logrado outra vez
- Ai , Caripeva! Que me cenceste como ninguém! Teu destino é grande e me rendo ate teu poder! Dou-te meu sinete e me torno teu escravo!
Já iam longe mangando batelões de irreverências, Macaco-prego exibindo as partes, Caburé gargalhando miados, Papagaio declamando obcenidades, Jacaretinga rebanando o ar, Jabuti fonficulando, quando Quimboto berrou a rendição:
E atirou no rumo do deboche um anel de signos complicados. O Caripeba gozou. Catando a jóia depressa, enfeitou o fura-bolos, apontou pro Quimboto que já vinha mais ligeiro, ordenou:
- Escravo Quimboto, fica aí paradão até que me façam Ibicurussá libertinha!
Mas o feiticeiro se movia a passo certo, nem parecia no escuro. O Caripeba quis sacudir o anel no mato. Mas não saía do dedo. Fugiu.
Fugiu porque já vinha o Quimboto no rasto pra maltratar. Quis ser veloz como o raio, mas e os poderes? Andou.
Difícil é fuga assim, os elementos todos de costas nem tomando conhecimento do aperreado. Antes era um maná. A Uiara dava os peixes de mão beijada, as frutas maduravam antes do tempo, só para a goela do Caripeba. Agora o herói é qualquer um perdido na mata sem saber pra que vive. Só com o fito de fugir, fugir do Quimboto que vem aí atrás montado na lebre veloz dos acontecimentos.
- Que é feito de mim, Coemitanga?
- Caripeba-açu.
Quê dê mirim? Quê dê facilidade? Mas ao seu lado os amigos de sempre, cabisbaixos e leais buscando as saídas, abrindo picadas porque aí vem o Quimboto montado na veloz.
Fugir, fugir se como? O malvado seguia o rasto do anel que dera na rendição. Por onde passava o herói, ficava uma tabuleta balizando o caminho, uma tabuleta abstrata e maldosa que se plantava nas curvas, nas fímbrias, nas tocas:
CARIPEBA a 200 Km
--oo--
Como o Herói encontrará outro andarilho e o ajudará sem resultado
Foram andando cabisbaixos.
Se a fortuna estivesse no alto, morreriam pobres, paupérrimos.
Viram, porém um contorno de gente talhado junto a um pé de pau e chegaram mais perto pra ver direito.
Lá estava o homem sentado à sombra da sabuarana lamentando a sorte com silêncio respeitoso. Vencera a hidra e mais mil perigos, mas não sabia trepar em árvore. E a pele do carneiro luzia lá em cima.
- Deixa estar! Disse o Caripeba orgulhoso de seu jeito.
Subiu de um fôlego, os dedões pra fora fazendo, do vão, forquilha e ventosa.
O Macaco-prego chegou primeiro, mas isto não era vantagem. Pegaram o velo e o trouxeram pra baixo e foi só encostar o pé no chão que a prenda se puf, que nem coisa encantada, escapuliu dos dedos, voltou certinha pro mesmo lugar.
Tentaram muitas, mas sempre dava o mesmo. Embora formasse num apertão o tesouro e a felicidade. Quiseram também jogar pra baixo, mas não deu certo.
- É.
Os olhares se cruzaram e nada mais conversado.
Ser Jasão não é brincadeira, buscar riqueza e harmonia de uma vez.
O Jabuti sabia tudo:
- Olha, Caripeba: o ideal fica no alto e só existe pro herói que chega até ele. Se quiser trazer pros outros, a coisa ou vira qualquer ou não vem, quem quiser que vá lá.
O Macaco-prego bem que disse era bobagem ir ao alto buscar outra coisa que banana. Porque o resto só é bonito e muitas vezes ficção.
O Caburé disse que só perderam tempo. Viu uns vultos subir noutro vulto, mas riqueza mesmo, só de noite, quando tudo fica claro e é uma beleza de se ver.
O Jacaretinga nem piscou. Boniteza é a lagoa quentinha de sol.
Deixaram Jasão no mesmo lugar, porque não adianta herói de um lado se meter com heroísmo de outro. Demais, todo mundo é Jasão espiando o velo lá em cima sem poder buscar porque não.
--oo--
Como o herói se proverá de utensílios para a fuga e fugirá.
O Caripeba arrepiou a carreira, os co-heróis coladinhos no calcanhar. Fez tanta curva que ficou por trás do Quimboto. Aproveitou a confusão, passou na loja do David e, por duas cruzes, a conselho do Caburé, comprou maravilhas:
1 vidro do repelente Melivra;
1 lápis bicolor;
1 cadeado;
1 anzol inglês ( de volta ao contrário );
1 desconfiômetro transistorizado;
E porque era canhoto, encaniçou a munheca direita pro arco não bater, não ralar.
O Quimboto cego tinha uma agulhinha magnética na intuição. Que apontou pro novo rumo.
O Caripeba estava perdido sem saída num caminho sem nome e veio um cachorro do mato farejando:
- Me segue agorinha que te levo à igarité e ela ao igapó; o igapó ao igarapé; o igarapé ao furo; o furo ao paraná; o paraná ao Igaratim e o Igaratim à oirã.
E foram sem ligar pros espinhos fininhos, pras lambadas do cipó, pras topadas do caminho.
Montaram e o aguará também e se remou com muita força porque medo faz proteína.
Disse o igapó:
- Se escorram e provem meu miolo que lodo é. Porque sou elemento e fiz meia volta.
Mas ninguém se atolou.
Disse o igarapé:
- Dou vau nem todo, podem apear que minto não.
Mas ninguém lhe deu fé.
Disse o furo veloz:
- Sou manso e amo vocês.
Mas ninguém o abraçou.
Disse o paraná caudaloso:
- Vão no meio que corro mais.
Mas ninguém se afobou. Até que bateram de proa no Igaratim que logo se alvoroçou.
Disse o aguará:
- Daqui pra frente a igarité não presta mais. É leve e profana. Carece de fazer canoa com magia, se não, beleléu. E me fico por aqui que terreiro é por acá e me chamam também de Obaluauyê.
--oo--
Como o herói encontrará matrona e a transformará em aliada
Numa curva despretensiosa do Igaratim encontram a senhora gorda muito bem equipara de armas, provida de alimentos, instaladas entre antes de todos os tipos e com uma vastíssima biblioteca selecionada a tiracolo.
- Alto lá, disse absoluta.
A caravana parou.
- Sou a Opinião Pública Bem Orientada da Silva e censuro quem passa por mim. Sei também fiscalizar muitas coisas e exijo identificação.
- Sou Caripeba Membyrangai a caminho pro fim da estória.
O Papagaio escapuliu:
- Herói igual nunca se viu e todos sabem disso.
Devia ter se calado. O Caburé quis ver bem a cara do linguarudo, mas o dia estava claro. O Jacaretinga nem se mexeu. O Jaboti ia soprar a salvação, o Macaco-prego na mesma hora faria indecências para a matrona criticar. Mas a balofa:
- Herói, eim? Mostre a carteira.
O Caripeba abriu a camisa e o peito, tirou o coração, mostrou sem vergonha da pureza, receitou regime balanceado, queimou os livrinhos escolhidos, quebrou as antenas, deu de presente o desconfiômetro que trazia.
Ibicurussá se comoveu satisfeita.
O herói partiu aclamado, tinha torcida daí para frente.
--oo--
Como fracassará a magia da canoa estável.
Porém como encontrar na selva madeira adequada e, ritual simples, caboclo, encantar a construção?
Madeira de piúva.
Procuraram a árvore com o conhecimento que o Papagaio emprestou fazendo do ofício uma técnica complicada. E teria que ser a piúva de flor lilás, piúva preta, resnosa, pesada como chumbo de arrastão.
Ninguém nem avalia como é que se faz pra canoa cavada neste pau não naufragar. O Caburé sabe porque leu as notas do Quimboto.
- Vá buscar um prego virgem!
E o moleque de recados saiu chiando porque a incumbência não era fácil. prego novo na selva, buscar menina moça em pensão. Mas parou de chorar, tomou o rumo, conhecia um carpinteiro.
O Jabuti enxotou, da piúva preta, as aranquãs, que voaram ameaçando destruir o mundo com a gritaria selvagem.
O pau gemeu com as rebanadas do Jacaré e todos disseram baixinho, que era pra não perder o costume:
- Madeeeeeeiraaa!
Mas foi tão baixinho que ficou só na intenção. O Quimboto estaria por perto montado na lebre veloz. Podia escutar.
Pra fazer o cavado do tronco, Tatu gastou unha, Pica-pau lascou bico, Gabiru quebrou pivô. Mas ficou que foi uma beleza.
E remo que presta é talhado do jenipapo que enverga bem. Porém com teimosia.
A canoa pronta. Canoa e remo bom.
O moleque voltou frustrado. Porque na cidade, em dia de comício, o Prefeito chutava ponto facultativo contra o gol do adversário que, por acaso, era o Governador. Por causa do um a zero (o povo não sai de casa em feriado pra fofocar à toa ), todos os pregos foram mobilizados para construção de carroças, financiadas pelo comiciante, que trariam caboclos do interior, porque estes, sim, não perdem oportunidade de conhecer o grande centro ( um a um ) com tudo pago, duas cruzes cada palma. E prego, nada. Prego, não.
- Só tem um jeito, disse o Papagaio. Jeito do cão - e olhou pras virilhas do moleque de recados.
- Tira fora! - ordenou o Jabuti.
- Será virgem?Lembrou o Caburé.
- Macaco tocador!
O moleque atolou um chapéu imaginário na cabeça, fez cara de revolucionário, deixou só por amor ao Caripeba.
Quem fincou, como taxa, no peito da piúva, foi o herói, lágrima nos olhos.
- Não liga, Macaco. Tem mais prazeres.
E o Jabuti procurou na memória algum herói capado e só encontrou uns costureiros delicadíssimos.
O Macaco vigiava o triste amuleto cravado na popa. Temia piranhas mais por amor à parte que pela magia da aplicação.
O Igaratim estava nos dias piores, já ameaçava fazer, das colinas, cabeça careca de ilha improvisada. Cada ondão de meter medo a qualquer. Os remansos tinham mil direções e faziam rebojo na testa das canaranas.
O Igaratim surpreendeu a boiante que descia na bubuia.
Piúva pesa demais. Canoa dela nem flutua quando se emborca. Os perseguidos, se não sabem nadar, terminavam no regaço gostoso da Uiara, cantando um cururu triste entre os cabelos verdes, verdinhos.
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