Como será encontrado outro obstáculo
Voltaram pra origem, que era mais perto. Fizeram um paperi de piri-piri trançado com ouricuri, montaram ligeiro e só então pisaram do outro lado. Iam desembarcando pra continuar a carreira quando surgiu um Abaeté vestido de toureiro.
- Quem é tu?
- Sou Manolo e daqui só passa quem for mais toureiro do que eu.
Resolveram provar. Bastaria pouco. Uns paus pro curro, lança, bandeira, garrocha, um qualquer que sirva de jacuba, outros de capinha, vários de máscara. Os importantes que mandem erguer, junto à cerca, palanques particulares. A bicharada atraída fica na arquibancada que é o vário da volta.
El Caripeba toureia depois.
Brevinho estava pronta a arena, alguns coretos enfeitados com panos tingidos, barraquinhas pros salgados e a queimante.
Foram buscar no longe do planalto o único boi que se dizia touro e fustigaram, enraiveceram ao máximo o bicho no tronco que era pra não fazer fiasco. O Papagaio, num conlui com o Macaco-prego, jogava flechas de taquara com um arco entaniçado de papel crepon. Nas pontas iam alfinetes que se fincavam no couro do pobre.
O festeiro auto-eleito, que era o Jabuti, deu licença, sentado na aresta do barranco, pra começar a função, enquanto os espectadores vaiavam o jacuba.
Manolo entrou no curro montado num tordilho fogoso enquanto a banda desfechava a pancadaria percussão, metaizinhos salpicando alternações gostosas num ritmo goteira saudosista. Atrás vinham os capinhas e os máscaras, convictos de seu papel.
Soltaram o Ferdinando, que investiu furioso e a lança colorida se partiu sem fisgar. O irado derrubou cavalo e cavaleiro, correu contra o desarmado com a cabeça baixa, jogou fora o toureador.
E tudo ia acabar sem satisfação quando El Caripeba saltou pra dentro, olhou nos olhos do touro, fez pontaria, experimentou a força nuns pulos, fechou os olhos e fez o arremete contra o animal. Era um correndo de cá e o outro de lá no sentido oposto simplemente. Bateram.
Pra não perder mais tempo porque o Quimboto e´vem, o herói partiu na fuga levando os amigos. E xarque pra muitos dias.
Como haverá tempestade e todos se salvarão da galharia.
A caminhada continuava. Na quase noite de dentro da selva, as árvores mesmo pareciam inimigos ferozes mexendo bracinhos. O herói não se importava. Tupã manda o frio conforme o cobertor. E se há inimigos, que esperem a sua vez, porque por enquanto a luta é com o Quimboto.
Mesmo os elementos que estão de costas tramavam uma emboscada. Por cima das árvores as nuvens foram se grupando, formando um mundão denso e escuro e um ventinho malicioso penetrando na alma dos andarilhos, trazendo agulhas finas à ossatura mal coberta.
Nos galhos mais altos os rouxinóis, as aranquãs, os muitos outros, num pânico organizado, resolveriam abandonar ninhos e abrigos.
Tudo foi se tingindo de fuligem. Mais um pouco, o Caburé achou que era dia e disse “até que enfim”. Ninguém mais enxergava nada mas o zoiudo funcionou:
- Segura na minha asa, Macaco-prego, e puxa os outros!
O Jabuti sabia o maior perigo, foi logo dizendo pra encontrarem abrigo cavado ou corte em marquise porque a maior tempestade estava por vir.
A água descia desgovernada do alto, cascatas convergentes batendo com força. Acharam a toca adequada e daqui a pouco, a galharia seca presa por um fio se abalou, o vento impertinente soprando a queda, veio de jorro ricocheteando nos troncos, tomando direções imprevistas.
Depois de tudo passado, só uns pintos ainda cantando a marcha surda, o claro bordou o ar da selva e o arco íris apareceu falhado nuns vãos de cima.
O herói mudou um pouco o caminho. Não que acreditasse, mas não custava nada evitar passar por baixo.
Como o Herói será desafiado pelo cavaleiro e vencerá a justa.
O Caripeba ia apressado na caminhada porque fugia e tinha, no fundo do coração, a quase certeza de que na fuga e no improviso encontraria um jeito para o problema geral.
Prosseguiria, se não ouvira a intimação pelas costas:
- Guardai-vos de mim, cavaleiro, porque me diz o coração que não sois flor que se cheire!
O Caripeba olhou na direção e viu um homem de lata, espada reluzente e escudo branco com uma cruz vermelha, presa por pregos pequenos e bons. O cavalinho estava indócil e já se arremessara para a demanda, o piloto de lança apontada.
O Jabuti mandou parar:
- Quem quer que sejais, cavaleiro, ouvi o que vos digo que é palavra sã! Manda o # 5º. Do art. 1º. De vosso Regimento que não combatais com leigos em cavalaria., o que vos faria perder vossa seeda.
O papagaio confirmou:
- Quem vai ao vento, perde o assento.
O drama estava criado. Um cavaleiro quando desafia, tem que combater, diz o # 1º. Do art. 2º. Demais, havia anos que este não encontrava adversários porque o mundo agora é de fracos, tem tribunais de 1ª. Instancia e etc.
Deu-se um jeito. A hermenêutica ainda valia alguma coisa.
D. Caripeba Membyrangai fez vigília, nomeou o Macaco-prego escudeiro, na manhã seguinte foi armado.
Espada e lança de taquara. O escudo era o Jabuti recolhido na posição 2, amarrado ao braço com cipó.
À primeira investida, o Jacaretinga não se ajeitou bem como cavalo, quase mesmo foi um fracasso porque arrancou de repente deixando o herói caído para trás. O adversário investiu em vão e isto só serviu para trocar de campo, pai sol ferindo os olhos, agora, do impetuoso.
D. Caripeba montou outra vez, cochichou ao ouvido da sua montaria, deu vozes, recomeçou.
Na horinha do encontro pai sol brazeou mais no olho do invencível, o Jacaretinga saltou pro lado, deixou o cavalo passar, mando o rabo nas canelas do bicho. Que beijou o chão.
A pé a briga foi fácil porque o herói jogou seu escudo no inimigo. Foi plang ressoando na selva e o Jabuti na batida agarrou a lata do outro, arrastou na queda.
Taquara contra espada é covardia, mas taquera comprida contra espada curta foi pra catucar de longe fazendo cócegas.
O cavaleiro se deitou pra poder rir melhor e D. Caripeba fez bilu-bilu com ramo de urtiga que a risada fica no ponto.
E a caminhada continuou, deixando na picada o cavaleiro despido de sua lata, mui mal chagado, se rasgando com as unhas, diz que num gozo ardido que urtiga faz.
--oo--
Como prosseguirá a fuga tão tristemente.
Enquanto havia tourada, o Quimboto vinha no cheiro e já atravessara o rio pra chupar o sangue do herói.
O Caripeba sentiu o fim da história muito perto e voltou com todos pra paperi de piri-piri e fugiram pra de onde vinham.
A bordo, a tristeza jururu dos aquietados pela espera. Dos magoados pela espera. Dos macerados pela espera.
O Caburé, não mais olho-de-fogo, agora olho-de-cinza, cabisbaixo, pensava uma arrelia que desse animação. E nada.
Era o remo batendo compassado tchuá ( esquerda) e ( pausa) tchuá ( direita ) na mansidão do Igaratim. De vez em quando o boto acompanhando, parecia brincar de morder o remo, mas tão sem graça...
E o quieto que envolvera o tempo, o rio, as coisas, os bichos, era de matar.
Será que o mundo parou pra pensar na miséria? O Igarité, sim, dir-se-ia que não chuá. Que amolação! E a vitória régia era um poema redondo de rimas brancas boiando incompreendido.
O Jabuti consultou o arquivo da experiência e profetizaria uma danação se o papagaio não cuspisse retrolançando cascalhos umedecidos.
Nem assim o Caripeba se riu.
A mansidão estava tão de matar que a popa raspou nos cabelos verdinhos da Uiara e não teve um só cristão pra dizer “desculpa, dona”. Só o vento bulia num arzinho, matreiro, levando a catinga pra jaguatirica, telegrama sensual, dos bichinhos distraídos. No resto, o mesmo estado que o Caripeba chama de bostoso: misto de calma e aviso, um tanto pastoso.
No podre das exauridas, parasitas ofendiam a vista com palavrões coloridos. Exuberância que não se tolera num mundo de purgação.
O remo tchuá.
--oo--
Como se fará amor na fuga e haverá solidão aí.
Não se sabe porque, mas o Papagaio deu pra falar umas coisas sem sentir e a zanzar, os pés pra dentro, de um lado para o outro procurando algo com muita avidez. Repetia:
- Hoje é dia!
O próprio Caripeba estava impaciente, sentindo uma energia estranha dentro de si, parecia que ia estourar, uma vontade de correr e de dizer coisas bonitas. O barulho dos igarapés falava direitinho à alma do herói e o murmúrio do vento se esfregando nas folhas lhe transmitia como que um arrepio no ventre. Do jeito que estava seria capaz de enfrentar a socos o próprio Quimboto antes de ficar tessaba.
O Jacaretinga com a mesma expressão nos olhos, que é nenhuma, parecendo empalhado em gabinete de erudito, sabia também o que estava sentindo, juraria que peste acometera a todos, no mesmo dia.
O Caburé procurava, miopia diurna, os sonhos que só a noite podia trazer e, irritado, miava agourento.
Só o Macaco-prego, o mesmo, procurando bananas como se nada lhe acontecera, para preocupação dos outros.
De repente ouviram o búzio tocar monótono dentro da carne e todos se incendiaram de desejo.
- Hoje é dia!
Num ramo próximo estava um casal de uirapuru nem ligando pras formigas gordinhas que carregavam pra casa a provisão. Todos pararam.
Era isso! O amor! O amor!
- Hoje é dia!
Em Ibicurussá nunca ninguém desunia nada. O território só se aumentou com vizinhos cobiçando muito a extensão. Mas por causa desta força de coeso, até os bichos gostavam de amar no mesmo dia e era uma apoteose porque tudo parava e se fazia. Feriado nacional.
Dia do cio. De fio a pavio.
O Macaco-prego ia se entretendo com as comilanças enquanto que os outros se atiraram aos galanteios segundo, como diz o livro, a sua espécie.
A murucututu não resistiu aos encantos do Caburé que foi deixando sua marca no lombo da apaixonada e o compromisso da pobre chocar asa conseqüências.
A jabuti que o Jabuti achou estava na medida e temia ficar solteira, não houve grandes dificuldades.
O Jacaretinga ia se desabafando com uma lagartixa, que já se conformara com seu destino, quando descobriu, na beira do Igaratim, a de seu gosto, que tinha cauda comprida e dentada.
O Caripeba se virou e se uniu pela solidão com o Macaco-prego, monge compulsado. Mas ficou no espaço o desejo pegajoso dos dois que não encontraram a companheira segundo, como diz o livro, sua espécie. Depois de tudo quieto, viu-se uma ajuru dar com a asa na cara do Papagaio já sem problema.
Fora o dia.