Crime e Psicanálise
A manhã começava bonita, clara, com a água límpida do Lago Paranoá e as garças brancas decorando meu panorama bucólico, que busquei aquele dia para respirar os primeiros ares matutinos de uma nova fase em minha vida.
Respirei ar puro, contemplei a beleza da manhã e deitei no divã para mais uma sessão de análise. Precisei, ao chegar ao consultório, perto daquele lugar tão bonito e ensolarado, dar um abraço caloroso na minha psicanalista. Era como se eu, dessa forma, garantisse a mim mesma que estava viva e ela também, e que ambas tínhamos uma a outra, apesar de toda a solidão que sentia naquele momento, naquele mundo.
- Você quer ser igual às outras pessoas, não quer ser diferente? - comentou em forma de pergunta às minhas próprias indagações.
- Tenho me questionado sobre isso ultimamente. Descobri que quando tento ser "normal", feito o comum dos mortais, sofro muito. Devo ser diferente, sou diferente, uma pessoa complexa....
Fui interrompida pelo barulho estridente de uma, duas, três e muitas sirenes de bombeiros, ambulâncias e viaturas policiais. Levantei do divã, comentei sobre o assunto com Emily, e percebi que ela também já se desligara do mundo pessoal e subjetivo de nossa sessão para olhar a realidade do lado de fora da janela.
- Deve haver um incêndio muito grande por aqui - comentei.
Mas, em poucos instantes, percebi que todos aqueles carros e viaturas entravam na rua do centro clínico.
- Acho que o problema está aqui - disse assustada.
Emily ponderou que era melhor ir ver de perto o que acontecia, pois poderíamos estar correndo risco de vida. Unimos nossas forças, mais uma vez, embora em situação diferente, e fomos verificar o que se passava.
No consultório em frente, um dentista, seu paciente que, como eu, era jornalista, e mais uma assistente do consultório haviam sido assassinados por um cabo ciumento e enlouquecido da polícia militar que, em seguida, se suicidara com um tiro na cabeça. Eram apenas 9h30 da manhã, mas o dia prometia ser cheio de fantasma e realidade diante dos meus olhos.
Descobri primeiro apenas uma parte da história e voltamos ao consultório, trancado a sete chaves por Emily, porque, até então, a notícia era de que a polícia ainda procurava o assassino no prédio.
- Na briga pelo poder não há poesia - comentei, já em outra abordagem sobre a situação política e pessoal. Era mais uma tentativa de dar continuidade à sessão de análise, embora já houvesse me perdido do assunto tão pessoal que falara anteriormente.
- Foi invadida pela realidade - balbuciou Emily, provavelmente se referindo ao crime que ocorrera ali e as conseqüências de minhas confissões, que perderam poder e importância, para mim e para ela, sem nunca terem sido importantes para a humanidade, naquele momento em que quatro pessoas morriam por um crime passional matutino.
Tão logo algumas palavras a mais foram soltas e esquecidas, a sessão estava encerrada, com meus problemas engasgados de forma contundente. Fui até a porta, mas estava trancada.
- Tranquei você no consultório - comentou Emily, partindo para abrir a porta.
- Sinto-me como um personagem do Fantasma da Liberdade - disse a ela, sem perceber que trocara o nome do filme de Buñuel pelo verdadeiro a que me referia, que era O Anjo Exterminador, onde ninguém conseguia sair de uma festa, porque todos estavam aprisionados em seu próprio mundo, dentro daquele mundo particular.
Eu fiquei aprisionada no centro clínico. A polícia não deixava ninguém sair nem entrar. Liguei para o jornal e pautei todos os crimes do cabo da PM. Investi-me da condição de repórter que era e fui averiguar quais as razões de tantas mortes. Liguei logo a intenção do cabo à pobre vida da assistente do consultório dentário, de quem tinha sido marido violento.
Mas as vidas do dentista e de seu paciente, que sofrera as dores daquela broca na cadeira pouco antes de morrer sem saber o porquê, me deixaram a marca de que o mundo-cão pode nos engolir a todos, bastando para isso estarmos no lugar errado e na hora incerta, no momento em que o inevitável acontece.
Afora essa constatação, senti-me despida, na condição de paciente e jornalista, diante de autoridades policiais, cadáveres e psicanalistas, sem saber se corria novamente para o abraço aconchegante de Emily ou se continuava anotando minhas impressões e informações sobre a realidade do mundo.
Anotei tudo em um pedaço de papel que pedi emprestado a alguém. Passei as informações ao jornal e a duas emissoras de televisão que chegaram ao local do crime. Achei que estava com o dever cumprido e a curiosidade sanada, e saí do local com a sensação de vazio e abandono. Fui comprar legumes e carne para o almoço, deixei de lado minha dor, pessoal e intransferível, e vivi de vez aquele dia que começou com um laivo de sonho e acabou em estrondoso terror.
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Helena Daltro Pontual,
À época desse acontecimento era jornalista de O Estado de São Paulo.