Amizades do talvez
(Miguel Calmon du Pin e Al)
Instituições do talvez,
imprevisíveis,
inesperadas.
Abertas à diferença e ao insólito.
Fundadas em uma política da amizade,
cultivadas pelo ethos da distância, da boa distância, e
resistentes às forças repressivas que nos constrangem a falar,
a confessar toda a verdade do que somos,
e a buscar até mesmo saber o que somos
forjados por uma tirania da intimidade.
Instituições do talvez,
resistentes a crer
que tudo reside em um problema de comunicação.
Pois se soubéssemos falar direito de nós e do mundo,
perceberíamos que todos estamos falando a mesma coisa,
que somos todos irmãos.
Amizades do talvez,
lugar onde o silêncio pertence à amizade.
Amizades que se estabelecem em torno da certeza
de que algo de nós jamais será tocado,
jamais será dito.
Cerimônia, teatralidade e máscara.
inversamente proporcionais
à intimidade, confissão e naturalidade.
Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2000