NEGO LELEU (Miguel Calmon du Pin e Al)
João Ubaldo Ribeiro me apresenta Nego Leleu em “Viva o Povo Brasileiro”. Lá pela página 343/344 Nego Leleu se abate com a tristeza de sua neta Dafé que perdera a mãe assassinada ao defendê-la contra moços brancos que queriam abusar dela do mesmo modo que a própria mãe o fôra. Depois de muito tempo sem chorar, ele chora. E lamenta seu destino. Mas desde quando Nego Leleu é homem de se entregar? Inspirado em sua sina...


NEGO LELEU

“...mais vale uma guerra santa que uma paz doente”, dizia Nego Leleu.

Deixemos de chamar bondade o que se esconde covardia;
não teimemos em querer por compreensão o que nos humilha;
e não tomemos por mansa espera o que é guerra já começada.

No lugar da gula, o ódio;
no lugar da bebedeira, o vagar perdido;
no lugar da compaixão por si mesmo e do apelo infinito, o urro de dor.

Pois antes de se tornar de novo menino para sempre,
até ficar velhinho , muito velhinho mesmo,
Nego Leleu foi baleia-toadeira,
a criatura mais valente que existe na face da Terra.
Quando cercada por seus matadores
e com todos os arpões já bem cravados em seu dorso,
não é que a bicha arranca força sabe-se lá de onde
e arrasta tudo quanto lhe constrange para mar adentro
numa carreira desabalada até o horizonte do que a mantém viva?



Rio,13/01/98



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