UM IDOSO NONAGENÁRIO
Projeto: O ENVELHECIMENTO NO OUTONO DA VIDA
Tema: UM IDOSO NONAGENÁRIO
Texto: = Escolha do tema básico = P/O

PORQUE ?

Porque, entre muitos, preferi o presente tema básico como título e objeto do próprio trabalho que se configura como projeto de vida.
Desde os séculos III e IV, há 200 a 500 anos a.C., que o Talmud - nome rabino dado à compilação das leis judaicas civis e religiosas - expressa esta norma: “A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz”.
O conhecimento é o elo entre o passado e o presente. O registro do pretérito e a análise da situação ocasional marcam e sinalizam o processo histórico. Portanto, sua utilização e o empenho em melhorá-lo, pela pesquisa e as informações em fontes adequadas, materializam o interesse que o assunto venha a despertar e não raro incentivar novas experiências.
Torna-se fundamental, então, definir-se não só o objetivo como o seu campo de abrangência, de modo que se possa planejar o respectivo projeto. Esse planejamento basilar representa a sustentabilidade da estrutura e da tecnologia a serem adotadas para a execução de suas etapas, assegurando-se, assim, confiável desempenho e eficientes resultados. Conforma-se desse modo, o antigo adágio de que o saber é o conhecimento obtido pelas informações colhidas e a experiência adquirida na vivência de dado assunto.
Para o nonagenário que já está na fase biológica em que a memória e o raciocínio se ressentem da carga degenerativa própria da idade, não será confiável e nem conveniente optar pelo simples “arquivo da lembrança”. O resultado poderá ser desanimador e o projeto provavelmente irá para o “escaninho do esquecimento”.
O fato de se comemorar 90 anos de vida saudável é gratificante, Graça de Deus. Eu a recebi, consciente, a 2 de maio de 2003.
Por este tempo comecei a sentir que a PVC (Plena Velhice Chegada) já estava se instalando e com ela a falta de ânimo natural para empreender atividade nova e mais movimentada. A tendência indicava que seria mais oportuna a opção de um coerente projeto de lazer combinado com terapia geriátrica.
Por formação de berço sempre estive entre aqueles que consideram a Família como a organização social exemplar. Nela os direitos e deveres de cada um dos seus integrantes não são gravosos. São, isto sim, laços sublimes de harmonia, de assistência mútua e de amor que estão a salvo dos próprios transtornos da vida.
Desde os primórdios da humanidade que a união familiar é tida como a base propulsora das civilizações e do progresso humano. Admite-se que a vida em família teve início na era pré-histórica, há mais de 300.000 anos, à época dos primeiros grupamentos humanos. Nos séculos XVII e XVIII, principalmente, a literatura acompanhou a importância da cultura na França e no mundo europeu, sendo pródiga em conceitos sobre a função da família.
Acostumado à comodidade do aposentado há quase 20 anos venho, graças a Deus, usufruindo a mordomia do apoio e assistência familiares tão necessários e que nos tocam fundo nos sentimentos. Assim, no todo familiar personalizávamos o “vovô” e a “vovó” da família.
Eis que, abruptamente, surgiu-me uma tendinite aliando-se à discreta e antiga artrose dos membros inferiores e das respectivas articulações. Tal complicação levou-me a recorrer da ajuda de meios artificiais para me locomover, ainda que com bastante dificuldade.
Acresce, ainda, que a situação então presente, tornou-se mais penosa com o falecimento de minha esposa - que já era portadora de graves seqüelas de um AVC passado. Esta perda irreparável ocorreu poucos meses antes dela completar, também, os seus 90 anos de vida e mais de 64 anos de um casamento feliz em que o amor, o desvelo e o companheirismo eram pérolas constantes em nossas vidas. Sua ausência, agora, será motivo de perenes saudades e de tristeza interior.
Precisava reagir e não me entregar à subseqüente angústia. Sabendo que dispunha de precioso elemento propulsor - a família - para enfrentar o desafio da enfermidade e da melancolia. Sozinho, é certo que não teria condições para assumir uma atividade que demandasse esforço, trabalho e maior mobilidade.
Dou Graças a Deus por continuar contando com a ajuda dos queridos familiares. Estes tudo fazem para consolar-me e assistir-me com sua ajuda, dedicação, amizade e companhia.
O apoio familiar constituiu a pedra fundamental para que eu pudesse dar prosseguimento à almejada realização desta “tarefa de casa”. Procurarei, enfim, executar uma atividade que, exercitando a mente, dará trabalho aos neurônios, possuindo ao mesmo tempo a importante função de proporcionar específica experiência que irei tendo à medida que o projeto for se concretizando.
O motivo da escolha do tema do projeto foi a conscientização de que a senectude, a idade avançada, o envelhecimento e suas singulares conseqüências têm sido razão de preocupação e de reflexões íntimas do ser humano em todas as épocas. A partir das últimas décadas essa preocupação - velhice ou fase idosa - passou a ser, também, objeto da atenção da sociedade, do Estado, governos, organizações não governamentais, associações e das próprias pessoas que vieram a se interessar mais na procura e adequação de medidas mais objetivas, de assistência mais direta à crescente parcela das populações que ingressam na conhecida faixa da “terceira idade”, ou seja, aquela de mais de 60 anos de idade.
O objetivo a que me propus é o de conciliar ocupação espiritual que, em sendo voluntária o é, portanto, sem maiores responsabilidades para com terceiros. Virá adicionar aos necessários exercícios físicos e cuidados fisioterápicos a concomitante necessidade de uma ocupação mental que venha estabelecer a integração mantenedora do corpo aliado à mente. Não importa que estes estejam em processo de declínio. Será sempre vantajosa esta opção do que deixá-los ao abandono, o qual, certamente, nos levará ao estado de desagradável decrepitude.
Assim posta, a coletânea de excertos seletivos em que eu possa ter acesso às suas respectivas fontes, dá-me a oportunidade de reuni-los e apreciá-los na medida do meu próprio nível de conhecimento e será um ponto de constante interesse.
Adequando-me, dispus-me enfrentar a realização de “EXCERTOS” sob o tema do idoso e, particularmente, daqueles que já se acham contabilizando a dezena dos 90 anos de idade vencidos sob as mais diferentes condições de vida.

COMO PRETENDO FAZER ?

Tentarei a resposta para algumas das várias condicionantes individuais que a pergunta - tópico - Por que? - oferece, do mesmo modo quanto à escolha de sua metodologia de execução que se mostrar mais conveniente.
Tão profundo é o assunto que terei de me por a par de alguns dos seus principais aspectos. Ao mesmo tempo terei de comparar as observações pessoais, que a vivência da faixa etária me proporcionar com o que se estuda a respeito do tema, em satisfatória visão de um panorama diversificado e exigente quanto às suas fontes. Neste, tem de se observar a confiabilidade dos autores, a natureza dos documentos compulsados a as várias informações da mídia moderna dadas em ampla rede eletrônica - a Internet.
Embora sendo trabalho despretensioso e incerto, não sei até onde poderei chegar ou parar no meio do caminho. Só Deus o sabe!
Mais que um simples singular passatempo, espero que minhas reflexões sirvam de algum modo a meus familiares, em sua adequada época. Ou a alguém que se sinta interessado em conhece-las.
A busca de informações desses indispensáveis conhecimentos, a leitura do que me for dado encontrar nas fontes consultadas e a cuidadosa sistematização das matérias em repositório fácil já são, por si, tarefa que ocupará tempo e dedicação próprios da atividade de um nonagenário curioso.
Como síntese metodológica do Projeto valer-me-ei da seguinte sistematização:
    • As fontes consultadas e utilizadas em cada texto, apresentado sob a forma de capítulo seqüencial, serão citadas como referências bibliográficas no final do respectivo capítulo;
    • Os autores e fontes que tenham tido referências especiais serão, igualmente, citados e se possível mencionados quanto à época, sua origem especializada ou não, além de outros dados que sejam julgados de interesse específico;
    • A redação da apresentação, como a de outras partes do texto podem ser de minha autoria ou podem ser ajustes originais, desde que tornem mais fácil a compreensão da sua leitura ou, ainda, algumas transcrições fiéis das respectivas fontes que, embora não autorizadas, passem a ser valiosas para a clareza do objetivo desejado, estarão apresentadas entre aspas.
Neste contexto do projeto a minha participação se assemelha à do tecido conjuntivo. Dá a ligação, a sustentação e a maleabilidade entre as várias partes do texto, sendo fundamental para estabelecer o perfil e o sentido da exposição do assunto tratado e considerado em seu conjunto. Tem função conectiva, amalgamando diversos conceitos e particularidades provenientes de várias fontes. Pinceladas que objetivam tornar claro e conformar o entendimento ou tentar expressar imagem mais nítida daquilo que se está apresentando.
Finalizando, quero registrar a importante ajuda dada pelos familiares e eventualmente, também, por outras pessoas interessadas. Ajuda esta que se concretizará pelo incentivo para prosseguir na transformação de “escritos garatujados” e traídos pela PVC da vida (Própria Velhice Chegada) em perfil moderno e, ainda, pela principal e agradecida paciência que, não raras vezes, lhes será “gentilmente” imposta pela corrida contra o tempo.
A tudo isto o meu sincero e reconhecido muito obrigado.
    • Para frente é a seta indicativa da esperança de até onde pudermos chegar com disposição.

Do velhinho, um tanto enrolado, que procura aplicar a genuína “hermenegeutica”, na formatação e sinceridade dos textos !

Hermenegildo Bastos de Campos

“Hermenegeutica” : Neologismo particular do vocábulo jurídico - Hermenêutica - com o estilo - será ? - do Hermenegildo, no sentido figurado de facilitar a compreensão de partes ou expressões dos textos.

PENSE :
“Copiar trechos de um livro: dá um plágio;
Copiar de dois livros: um ensaio;
Copiar de três livros: uma tese de doutoramento;
Copiar de quatro: uma quinta obra de erudição.” (*)
Copiando mais de cinco: dá “EXCERTOS” ... (de H.B.C.) .
(*) do Dicionário Universal de Citações, de Paulo Ronai – Ed. Nova Fronteira – Ano 2000.

Brasília, DF. 2004

"ACONTECEU..."

O estressante trabalho da profissão provoca maiores conseqüências do que sua extensão no espaço de tempo. Pelo proposto temos duas idades bem distintas: a “cronológica” ou do calendário e a “biológica” ou real - a da vida vivida individualmente e sob pressões aleatórias diferentes em cada pessoa.
A atividade pessoal deve constituir motivo de satisfação ao seu executor, para que se torne agradável realizá-la. Prosseguida em demasia, ou repetida rotineiramente, poderá desencadear peculiar processo de exaustão, de fastio emocional ou de desinteresse em sua execução.
O desgaste de células e de órgãos utilizados longa e monotonamente é responsável pela redução do rendimento do trabalho útil e, quando assim ocorre, o indivíduo se acomoda, envelhece funcionalmente mais cedo e tende a não utilizar sua energia potencial, ainda disponível.
Há o momento em que notamos nosso organismo se ressentir pela fadiga mental e diminuição da atividade costumeira, escasseando-lhe entusiasmo para o trabalho cotidiano, que se torna incômodo. Ao detectar-se, a tempo, o limite suportável deste desgaste orgânico e psicológico, devemos orientar-nos para outra atividade de natureza mais compatível com o nosso bem estar, se possível.
A decisão será compensada pela melhoria do estado de espírito e o conseqüente despertar de novas energias para explorar mais o campo da curiosidade.
Esta é a ocasião oportuna para se procurar nova atividade, saindo daquele estado mental exaustivo e atribulado para a agradável satisfação de trabalho tranqüilo e restaurador. Com a mobilização de reservas de outros “escaninhos” do cérebro aparecerá o interesse para novas especulações intelectuais e dar-se-á a transição do ocaso da situação anterior para o advento de renovada fase aberta a outros conhecimentos.
Como octogenário e após rever o estimulante terceto do “Envelhecer”, de M. Bastos Tigre (1882 – 1957), prosador e poeta brasileiro, quando nos provoca:
“Não te sejas a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade !”
Senti-me animado a enfrentar o atraente desafio de melhor conhecer a ancestral relação que sempre existiu entre o homem e outros seres que com ele convivem na Natureza.
Ao se entender, “latus sensu”, a Natureza como o conjunto ativo que se revitaliza, anima e caracteriza o nosso planeta Terra, estabelecendo e conservando a ordem biológica dos seres, percebe-se que as flores, os pássaros e tudo o mais que a compõem são importantes partícipes e, não apenas, simples ornamentos. São elementos naturais que conosco convivem e quando, em significativas ocasiões, se tornam presentes e de intrínseca necessidade para nossos sentimentos.
Pela deriva da vida profissional fui sendo levado a preocupar-me com outros ângulos de nossa existência, que não os da responsabilidade absorvente com a formação e assistência à família.
Com a aposentadoria no serviço público e com a satisfação de ver cumprida a missão familiar, tivemos (eu e minha esposa) a alegria de ver os filhos seguindo suas vidas e enriquecendo o patrimônio do “velho casal”, com os netos e bisnetos. Então pudemos - Eu e Wanda - ir nos ocupando com lazeres adequados à condição introspectiva de idosos, já próximos da provecta faixa dos nonagenários, na merecida mordomia de “vovô” e de “vovó” da casa.
Indago-me se ainda terei condições para prosseguir até a meta almejada, detalhista e perfeccionista que sou. Ou ficará a missão a meio do caminho ? É “hobby” e, portanto, não haverá marco obrigatório a ser atingido em determinada data. Tenho fé que Deus me concederá a satisfação de chegar à meta desejada.
De futuro, o trabalho poderá ser útil a novo interessado, onde achará alguma coisa útil no que pude observar. Então, não passará a tarefa apenas como distração pessoal, sem maiores conseqüências, cujo destino final será a conhecida “sexta seção” : o cômodo e prático recipiente do papel rasgado.
Sendo assim, de qualquer forma darei por satisfeita a minha intenção e compensado o tempo utilizado neste agradável e trabalhoso “dever de casa”.
Hermenegildo Bastos de Campos
Brasília, DF. 2001
Título: O ENVELHECIMENTO NO OUTONO DA VIDA
Tema: UM IDOSO NONAGENÁRIO

O CICLO DE NOSSA EXISTÊNCIA
É certo que todos temos, em grande dia, o nosso alvorecer e que, em imprevisível momento, chegará também o fatal crepúsculo.
Nascer, Crescer, Envelhecer e Falecer são marcos inquestionáveis do ciclo de nossa existência.
As respectivas fases biopsicosocial acompanham nossa vida e o nosso destino está sabiamente regido pela bondade de Deus.

H.B.Campos

= O ancião (ã) é como a provecta árvore de sóbrias raízes e longa vivência: Já não tendo mais frutos e carente de folhas ainda está presa à mãe terra =

Brasília, 2004.

ENVELHECER ...
M. BASTOS TIGRE
(1882 - 1957)
Recife – Pe.
Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.
Do que tiveres no pomar plantado
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra ainda e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.
Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade !
Que a neve caia ! O teu amor não mude !
Mantém-te jovem, pouco importa a idade !
Tem cada idade a sua juventude...

In: “A ARTE DE ENVELHECER”
De Emílio Mira y Lopes - Ed. Civilização Brasileira, 2ª Edição, 1996.


“Ipsa senectus morbus est” - A própria velhice é uma doença
(Terêncio – 190/150 ? a.C. - em Formião, I).




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