Osmyr: Para entender as proposições que fiz, é preciso descrever de forma mais detalhada o que ocorreu na passagem do modelo do Projeto para o modelo exposto no Capítulo VII da Interpretação dos Sonhos.
Freud, logo após ter enviado a última parte do Projeto para Fliess, achou que o problema não resolvido era a explicação da repressão (Verdrängung). Considerou que a sua raiz estava na separação radical entre vivência dolorosa, protótipo do mecanismo de defesa, e a vivência de satisfação, protótipo do desejo (Wunsch). Ou seja, no modelo presente no Projeto o sintoma resulta da repressão e o sonho é uma repetição de desejo, mas não há como relacionar desejo e repressão.
Para poder relacioná-los - afinal o sintoma tinha de ser visto como um conflito entre desejo e repressão - Freud aboliu a vivência de dor e deslocou o sistema da consciência para ficar ao lado do sistema da sensação, isto é, no lugar da ordem fi, psi, ômega, Freud propôs fi, ômega, psi. A conseqüência dessa nova ordenação foi a necessidade de adequar a relação entre memória e tempo.
Enquanto no Projeto, as idéias (Vorstellungen) eram guardadas em psi sem qualidade, agora elas já possuem qualidade, porque ômega é anterior a psi. Como o sintoma era explicado em função de um traço de memória adquirir um sentido que não tinha anterioromente, a solução foi dividir psi em várias instâncias, formadas em épocas distintas, cujas idéias de uma instâcia deveriam ser transcritas na instância mais recente. Se a transcrição for seguida de um aumento quantitativo, ela provocará desprazer e será resolvida de acordo com o sistema do qual ela se originou. Como os sistemas são consituídos no tempo, Freud está representando cada uma dessas épocas por um sistema.
Esta foi a razão de ter declarado que Freud ordena o tempo de forma espacial. Dado que o desprazer relevante para as considerações de Freud decorre daquele produzido na transcrição de uma instância para outra temos a minha outra proposição: todo desprazer é um prazer que não quer ser reconhecido como tal. Dito de outra maneira, o desprazer atual resulta de um prazer passado reprimido. Este modelo é válido até o início da década de 20. Com a introdução da sexualidade infantil, basta supor que cada um desses sistemas está ligado ao Begierde infantil, ou seja, cada uma das fases da libido é caracterizada por um desses sistemas.
Jansy: Não deixa de ser curioso notarmos como Freud, nesta época, se permitiu fazer várias mudanças no seu modelo sobre a mente sem referir-se ao que observava na clínica. Seria isto um movimento "menos empirista" ou o que ele na ocasião tinha como seu "objeto" era apartado do seu trabalho com as histéricas?
Fazer a "dor", sem ser a do desprazer, desaparecer do modelo é um procedimento muito peculiar. Você entende que Freud, apesar do rigor de cientista que ele cultivava, podia valorizar a intuição acima da observação?
Será que quando ele trabalhou com as "Vorstellungen" enquanto representação de coisa, de palavra e da própria representação ( Vorstellungpräsentanz ), ele podia estar admitindo que haveria um modo de pensar " sem palavras", ou seja, diferente do ênfase de Lacan para o qual o verbal é o que cria o mundo simbólico próprio do falante?
Osmyr: Começo pelo final. Para Freud, há pensamento sem linguagem. Esta funciona como uma espécie de memória do pensar. Em relação à primeira questão, creio que haja sempre em Freud uma tentativa de justificar teoricamente o que ocorre na clínica. Freud desde muito cedo decidiu abordar o sintoma como símbolo de um conflito.
O problema é definir quais são os elementos que se opõem e estão representados no sintoma. No Projeto, ele não consegue expressar de modo satisfatório o conflito, uma vez que os elementos primitivos, desejo e repressão, acabaram por ficar completamente separados.
De modo resumido, no Projeto há desejo sem repressão e repressão sem desejo. Freud poderia, dadas as premissas básicas do Projeto, ter definido objeto desiderativo como objeto que interrompe a dor na vivência de dor. No entanto, ele não toma este caminho. Os desenvolvimentos posteriores fazem com que a dor seja abandonada e só retorne na década de 20.
Para Além do Princípio do Prazer é uma exploração em torno de uma só questão: devemos abandonar ou não a tese de que o desprazer é um prazer que não quer ser reconhecido como tal? Depois de muitas indas e vindas, ele conclui pela tese de que o princípio do prazer não pode ser mais considerado um princípio originário, ou seja, que existe um desprazer originário que se repete. Lacan considera que os fundamentos da psicanálise de Freud, empirismo, biologia e psicologia associacionista, não só são inúteis como atrapalham a compreensão da descoberta de Freud.
No lugar desses fundamentos, entram em doses variadas, antropologia estrutural, lingüística e idealismo filosófico. É esta a razão de eu tentar separá-los sempre que possível. São universos conceituais completamente distintos.
Jansy: Supreende-me você considerar que a mistura de elementos da antropologia estrutural e da linguistica , por "pertencerem a universos conceituais completamente distintos" precisariam ser mantidos em separado para pensarmos sobre a psicanálise freudiana. Talvez para estudar-se o Projeto de 1895 estas teorias posteriores não sirvam, realmente. Como não servirão os modernos achados da neurofisiologia que tratam das sinapses ( quase descobertas por Freud, como o do emprego da cocaina como anestésico ) e das descobertas mais atuais sobre memória e o hipocampo, o sistema límbico, o papel da glia na córtex. Na época em que Freud começou suas investigações este campo estava apenas em seus primórdios.
Observo ainda que você não se atém ao Projeto, mas traça sua evolução passando pela Interpretação dos Sonhos até o Além do Princípio do Prazer e, com isso, não sente que outros fundamentos ( mesmo que distintos daqueles que Lacan empregou) se fazem necessários?
Não sei se estou conseguindo expressar minha dúvida corretamente, vou tentar mais uma vez: quando você se dedica a compreender a descoberta de Freud fazendo uma limpeza no campo daquilo que não existia na época histórica em que Freud a fez, você acha que conseguirá aproximar-se do espírito mesmo com que ele empreendeu seu caminho em psicanálise? Será possível esquecer Lacan, Saussurre, a neurofisiologia, a tomografia para encontrar o elemento "pristino" da descoberta freudiana?
Lacan escolheu investigar " o desejo de Freud" , como você descreveria o seu próprio intento? Observei no seu comentário acima que você faz uma aproximação entre prazer/desprazer ( Lust/Unlust Prinzip ) enquanto um princípio do funcionamento mental ( aliás, você parece considerar prazer e desprazer como separados?) e - enquanto sensação de prazer ou dor. Não entendi, não fiz esta leitura em Freud. Sabemos que as sensações, pulsões, processos e "principios" obedecem à dinamicas distintas. "Objeto desiderativo" e objeto da alucinação, da satisfação e objeto da necessidade são também distintos, como você demarcou nas respostas anteriores. Assim, fiquei no ar com o que você escreveu agora.
Finalmente, tive a impressão que você aproximou a constatação de Freud sobre um "desprazer originário" e o "masoquismo primário". Foi isso mesmo?
Osmyr: Quando eu digo que tenho dificuldades, quero dizer que estes elementos não estão presentes na psicanálise de Freud.
Meu interesse está, em primeiro lugar, tentar entender a proposta de Freud, seu horizonte filosófico, suas dificuldades, os conceitos utilizados. No fundo quero responder uma pergunta: as questões postas por Freud são realmente questões? Se são, qual sua natureza? Os elementos que ele mobiliza para formulá-las e para solucioná-las são adequados ou não à tarefa?
Meu interesse em Lacan está em procurar compreender as razões de ele ter considerado que os instrumentos mobilizados por Freud eram inadequados para responder as questões que Freud teria proposto. De novo, quero saber se os elementos introduzidos por Lacan são adequados. Assim, procuro tentar compreender os diversos programas de pesquisa que ele formula. Inicialmente investiguei o que ocorre entre 1932 (data da tese) e 1953 (o chamado Discurso de Roma).
Atualmente estou estudando os primeiros seminários. Resta um longo percurso, mas já é suficiente para entender que as opiniões correntes sobre Lacan são na sua grande maioria bastante imprecisas.
Em relação ao prazer/desprazer. Freud chamou o princípio inicialmente de princípio do desprazer e depois de princípio do prazer. A razão parece ter sido puramente histórica. Em um primeiro momento, ele tomou a vivência da dor como protótipo para explicação do mecanismo da repressão.
No período que apontei, entre a Interpretação e o Para Além, o princípio passa a chamar-se princípio do prazer, dada a concepção de que o desprazer neurótico é prazer perverso que não se quer deixar reconhecer. Em termos econômicos, tudo que aumenta a quantidade é desprazível, tudo que diminui, aprazível. Como a dor aumenta a quantidade, a dor é desprazível. Como na vivência de satisfação, há um momento em que se supre uma necessidade, portanto, há uma diminuição quantitativa, há prazer. A busca alucinatória pela repetição desse prazer é o que Freud chama de desejo.
Em relação à última questão, é exatamente isto: a concepção de um desprazer originário permite conceber um masoquismo primário, rompendo uma crença muito antiga de Freud. Não é mais possível dizer que o homem busca o prazer e os objetos aprazíveis e evitar a dor e os objetos dolorosos.
Jansy: Começo a compreender melhor o seu objetivo, suas colocações foram bastante claras. Sabia que há anos você vinha fazendo leituras a Lacan e agora consegui situá-las razoávelmente. O curioso é que seguindo meu modo não disciplinado de ler, porque não sou filósofa da psicanálise, tenho dificuldade em dar certos "saltos" conceituais como me pareceu serem necessários para entender sua ligação dor/desprazer e desprazer/repetição até culminar nesta conclusão final, da ligação do desprazer com masoquismo primário.
Para começar a destrinchar alguma coisa nesta via, inicio com uma pergunta apenas: como você liga o que Freud teoriza sobre o princípio do prazer e o desprazer com, mais especialmente, o masoquismo moral ?
Osmyr: Não se trata de dar um saltos conceituais, mas de justificar uma afirmação feita antes: o desprazer como ardil do prazer. Para tanto, precisei mostrar como a relação entre prazer e desprazer modificou-se na passagem do modelo do aparelho psíquico presente no Projeto para o modelo do aparelho descrito no capítulo sétimo da Interpretação dos Sonhos.
Para completar a justificativa, também mostrei que essa relação é novamente alterada quando Freud escreve Para Além do Princípio do Prazer.
Sua última questão referente ao masoquismo moral, ficarei devendo. Não tenho ainda clareza sobre o que ocorre com a teoria de Freud depois do Eu e do Isso. Essa noção está diretamente ligada a noção de supereu e só aparece em 1923. Em relação a Freud, é justamente neste ponto que a minha pesquisa está parada.
Traduzi um livro de Kimmerle (Denegação e Retorno) - um filósofo alemão que publica muita coisa sobre a psicanálise na sua editora Diskord - que trata justamente do Para Além do Princípio. Escrevi uma introdução para o livro que, além de expor as idéias de Kimmerle, procura mostrar o caráter de total novidade de algumas noções de Freud. Como não consigo ainda apresentá-las de uma forma clara e precisa, prefiro calar-me a respeito desse período da produção freudiana.