CONTENSÃO (Alfredo Schechtman)
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CONTENSÃO
Diálogo
Catatônico, isolado, mudo.
Devo ser seu novo médico.
A ficha diz que está há muito internado.
Sempre acocorado, mãos sobre os olhos.
Ele se aproxima, pára na minha frente, recuo assustado.
Tira as mãos do rosto, balbucia: quero falar com o senhor.
Na pequena sala, conversamos em silêncio.
Náusea
Na enfermaria, ele se aproxima e tira do bolso uma barata ainda viva.
Puseram na sua cama, está sendo perseguido, reclama comigo.
Ameaça colocá-la na boca, tenho ânsias, quase grito.
Ele aceita a troca por uma guimba de cigarro.
Retomo a tranqüilidade.
Culpa
Às três da manhã, sou despertado.
Dispenso os policiais que a trouxeram.
Desorientada, vestes em desalinho, não entendo o que me fala.
Sala de consultas, arranca a saia, meu olhar em sua nudez.
Hospital deserto de madrugada.
Terapia
“Ando muito deprimida, nada faz sentido, não tenho com quem falar”.
Solto uma gargalhada.
Ressonâncias
Levantou-se, já madrugada, sob o espocar de fogos de artifício.
O velho ainda estava lá, na mesma poltrona, ressonando.
Abriu os olhos lentamente, a arma apontada para sua fronte.
Fogo e bala, os disparos confundindo-se com os rojões de fora.
A inquieta paz da morte se faz presente.
Instantâneo
Penteou-se, tirou os óculos, endireitou a gola do blusão.
Armou o flash, correu para a cadeira, mais um retrato.
Um rosto estranho, um olhar perdido ao se documentar.
Sépia
Em trajes rituais, pai transmite a filho a milenar herança cultural.
Antiga foto de família, em meu avô criança me vejo hoje adulto. |