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Entrevista com Osmyr F. Gabbi Jr. - Parte III

(935 total de palavras neste texto)
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JansyPorquê você escreve " Para Além do PP" em vez de " Além do PP"?  Jenzeits se traduz melhor apenas pelo "além". 
Há algum motivo especial, já que você conhece o alemão tão bem, de colocar o "Para" ?
 
E o que você entende pelo título em geral? "Aquém" caberia com mais precisão na idéia do texto, não acha? Particularmente, gosto de brincar com outro sentido que a palavra "além"  tem em português:  "não apenas este, mas outro" ou seja, dizer que: "além do pp, existe a repetição". Obviamente, em alemão. "Jenseits" não permite este uso.
 
Osmyr: O termo 'jenseits" significa "auf der anderen Seite", ou seja, do outro lado. É, portanto, uma preposição de lugar, usada em expressões como 'jenseits des Flusses" (do outro lado do rio) ou "jenseits der Grenze" (do outro lado da fronteira).
 
Quando o termo que se segue ao 'jenseits'  não designa lugar, por exemplo, no famoso "jenseits von Gut und Böse", geralmente traduzido por "além do bem e do mal", a melhor tradução seria "fora do bem e do mal" no sentido de livre do bem e do mal, ou seja, toma um sentido metafórico de exclusão. Assim, sem ler a obra freudiana, o título parece querer dizer "fora do princípio do prazer", isto é, aquilo que não cai sob o domínio do princípio do prazer, para manter a idéia de espacialidade.
 
Escolhi "Para além do princípio do prazer" por duas razões: a) sugerir que haveria algo mais remoto que o princípio do prazer; b) enfatizar que em Freud o espaço é usado para representar o tempo.
 
Você tem razão em apontar que a minha tradução é uma interpre- tação e diz mais que aquilo que está presente no título alemão,o qual sugere apenas que existe algo que está fora do domínio do princípio do prazer. Contudo, em português, o 'além de' também tem o sentido de "para mais de", "para lá de", "mais adiante de", "acima de", "ademais de", "afora de" e "do outro lado de".
Como usei "para além de" fixei o sentido de "para lá de", mas, com certeza, para ser fiel, deveria ter usado "afora de", dado que o alemão só cobre "do outro lado de" e "afora de" do nosso "além de".
 
Jansy: Algumas respostas atrás você frisou que para Freud a linguagem serviria apenas como uma "memória do pensamento", ou seja, ele propunha haver pensamento sem palavras, ou melhor, sem linguagem (?).
 
Até o sonho, enquanto expressão dos processos primários inconscientes e os sintomas conversivos na histeria ( para citar apenas estes ), apesar de serem expressão parcial dos pensamentos oníricos sob recalcamento, ambos tem uma matriz verbal que lhes serve de referência.
 
Por isso mesmo Freud descreve, neste caso, as tres modalidades de regressão ( temporal, topografica e uma outra).
 
Pensando sobre isto, não seria mais correto se entendessemos que Freud não está afirmando categóricamente que a linguagem é a "memória do pensamento" , mas que a linguagem também serve como memória ?  Não é ao semelhante ao que se estuda quanto a escrita sendo mais do que simplesmente  a "memória da fala" ? 
A propósito, como distinguia ele linguagem e fala?
 
Nova pergunta: a "representação coisa" ( Dingvorstellung) seria sempre inconsciente, independente do recalcamento secundário, não é?  No caso, um registro mnêmico de um objeto percebido que está inaccessível à consciência apenas porque permaneceu dissociado de algum elo com as palavras? 
( Creio que esta leitura terá sido como a do psicanalista inglês Wilfred Bion quando ele descreveu os "elementos beta". Para Bion a linguagem, sempre enganadora, seria também um mero registro dos pensamentos, uma espécie de instrumento a ser aperfeiçoado para se aproximar da "Verdade" ) 
 
Osmyr: Com esta pergunta retornamos a algo que precisa ser melhor esclarecido e que acredito que seja um bom epílogo para a nossa conversa. Antes gostaria de agradecer a oportunidade de ter participado desse diálogo, sempre instrutivo, entre a filosofia e a psicanálise.
 
Para responder a pergunta. Eu disse que para Freud há pensamento sem linguagem, ou seja, que, para ele muito diferente do que ocorre com Lacan, a noção de objeto (representação de objeto) propriamente dita ou noção de coisa não tem nenhuma contribuição da linguagem: são as idéias (Vorstellungen) que pertencem ao inconsciente. 
 
No entanto, elas têm seu delegado no pré-consciente: são as noções de palavra. Neste sentido, essas noções funcionam como uma memória do pensar. O efeito da repressão (Verdrängung) é romper o vínculo entre noção de coisa e noção de palavra.
 
As três modalidades de regressão - topológica, temporal e formal - podem ser explicadas por meio da relação entre noção de coisa e noção de palavra. A primeira é mais antiga, está no sistema mais primitivo e é a primeira forma.
Assim, tudo pode ser explicado pela passagem da coisa à palavra.
 
Toda essa concepção está ancorada em uma teoria denotativa: tanto a noção de coisa como a noção de palavra denotam algo externo. O engenho de Lacan está em procurar um substituto para essa teoria empirista da representação.  Em um determinado momento, ele acreditou que uma certa leitura da lingüística estrutural poderia dar à psicanálise uma teoria da linguagem que fizesse jus à clínica de Freud.
 
Jansy : Osmyr, agradeço-lhe muito pela generosa participação nesta série de entrevistas, com seu sempre paciente jeito amigo de responder, ampliando e enriquecendo nossa visão de um Freud infelizmente bastante negligenciado por um segmento importante dos psicanalistas brasileiros .
Esta foi uma oportunidade rara para todos nós recebermos de primeira mão elaborações surpreendentes, ancoradas no seu conhecimento filosófico extenso e profundo aposto aos desenvolvimentos freudianos que incitaram a descoberta/invenção da psicanálise.  Muito obrigada. 
  

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