UM IDOSO NONAGENÁRIO
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"ACONTECEU..."
O estressante trabalho da profissão provoca maiores conseqüências do que sua extensão no espaço de tempo. Pelo proposto temos duas idades bem distintas: a “cronológica” ou do calendário e a “biológica” ou real - a da vida vivida individualmente e sob pressões aleatórias diferentes em cada pessoa.
A atividade pessoal deve constituir motivo de satisfação ao seu executor, para que se torne agradável realizá-la. Prosseguida em demasia, ou repetida rotineiramente, poderá desencadear peculiar processo de exaustão, de fastio emocional ou de desinteresse em sua execução.
O desgaste de células e de órgãos utilizados longa e monotonamente é responsável pela redução do rendimento do trabalho útil e, quando assim ocorre, o indivíduo se acomoda, envelhece funcionalmente mais cedo e tende a não utilizar sua energia potencial, ainda disponível.
Há o momento em que notamos nosso organismo se ressentir pela fadiga mental e diminuição da atividade costumeira, escasseando-lhe entusiasmo para o trabalho cotidiano, que se torna incômodo. Ao detectar-se, a tempo, o limite suportável deste desgaste orgânico e psicológico, devemos orientar-nos para outra atividade de natureza mais compatível com o nosso bem estar, se possível.
A decisão será compensada pela melhoria do estado de espírito e o conseqüente despertar de novas energias para explorar mais o campo da curiosidade.
Esta é a ocasião oportuna para se procurar nova atividade, saindo daquele estado mental exaustivo e atribulado para a agradável satisfação de trabalho tranqüilo e restaurador. Com a mobilização de reservas de outros “escaninhos” do cérebro aparecerá o interesse para novas especulações intelectuais e dar-se-á a transição do ocaso da situação anterior para o advento de renovada fase aberta a outros conhecimentos.
Como octogenário e após rever o estimulante terceto do “Envelhecer”, de M. Bastos Tigre (1882 – 1957), prosador e poeta brasileiro, quando nos provoca:
“Não te sejas a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade !”
Senti-me animado a enfrentar o atraente desafio de melhor conhecer a ancestral relação que sempre existiu entre o homem e outros seres que com ele convivem na Natureza.
Ao se entender, “latus sensu”, a Natureza como o conjunto ativo que se revitaliza, anima e caracteriza o nosso planeta Terra, estabelecendo e conservando a ordem biológica dos seres, percebe-se que as flores, os pássaros e tudo o mais que a compõem são importantes partícipes e, não apenas, simples ornamentos. São elementos naturais que conosco convivem e quando, em significativas ocasiões, se tornam presentes e de intrínseca necessidade para nossos sentimentos.
Pela deriva da vida profissional fui sendo levado a preocupar-me com outros ângulos de nossa existência, que não os da responsabilidade absorvente com a formação e assistência à família.
Com a aposentadoria no serviço público e com a satisfação de ver cumprida a missão familiar, tivemos (eu e minha esposa) a alegria de ver os filhos seguindo suas vidas e enriquecendo o patrimônio do “velho casal”, com os netos e bisnetos. Então pudemos - Eu e Wanda - ir nos ocupando com lazeres adequados à condição introspectiva de idosos, já próximos da provecta faixa dos nonagenários, na merecida mordomia de “vovô” e de “vovó” da casa.
Indago-me se ainda terei condições para prosseguir até a meta almejada, detalhista e perfeccionista que sou. Ou ficará a missão a meio do caminho ? É “hobby” e, portanto, não haverá marco obrigatório a ser atingido em determinada data. Tenho fé que Deus me concederá a satisfação de chegar à meta desejada.
De futuro, o trabalho poderá ser útil a novo interessado, onde achará alguma coisa útil no que pude observar. Então, não passará a tarefa apenas como distração pessoal, sem maiores conseqüências, cujo destino final será a conhecida “sexta seção” : o cômodo e prático recipiente do papel rasgado.
Sendo assim, de qualquer forma darei por satisfeita a minha intenção e compensado o tempo utilizado neste agradável e trabalhoso “dever de casa”.
Hermenegildo Bastos de Campos
Brasília, DF. 2001 |